Você está na página 1de 271

Territorialidade Humana:

sua teoria e história.

Robert David Sack

Cambridge
Cambridge University Press

1986
2

Introdução.

A Territorialidade Humana é um elemento poderoso e


generalizado em nossas vidas, no entanto, estudos sérios têm somente

delineados seus perí metros. Este livro tenta ajudar a redirecionar as


pesquisas em direção ao âmago da Territorialidade. Concebendo-a como
sendo um meio indispensável, em geral, para o poder em todo s os níveis: do
pessoal ao internacional. Uma vez que o assunto é tão vasto e os usos da
Territorialidade são variados, não se pode fazer mais em um único volume do
que oferecer um esquema e esperar que a publicação sirva para estimular
pesquisas futuras. Objetivando preparar o leitor para a filosofia embutida neste
livro, eu gostaria de dizer umas poucas palavras sobre os contextos, aos quais
eu acho que uma discussão frutífera da Territorialidade, pertencente e não
pertencente.

Talvez, as afirmativas melhores publicadas sobre a


Territorialidade Humana tenham vindo dos biologistas e dos críticos sociais.
Que a concebem como um ramo do comportamento animal. Estes escritores
afirmam, que a Territorialidade nos humanos é parte de um instinto agressivo
que é dividido com outros animais territoriais. O ponto de vista apresentado
neste livro é um pouco diferente. Embora, eu veja a Territorialidade como uma
base do poder, eu não a vejo como u ma parte de um instinto, nem eu vejo o
poder como essencialmente agressivo. O poder que um pai exerce sobre uma
criança pode ser para o próprio bem da mesma, e este poder pode ou não ser
territorial. Um pai pode decidir que é mais seguro manter a criança dentro de
casa e longe da umidade e do frio da chuva. Mantendo a criança em casa,
conforme nós veremos adiante, é uma restrição territorial. Pode ser uma
estratégia conveniente, mas não é o único meio de manter a criança seca e
aquecida. O pai pode permitir que a criança brinque do lado de fora se ela
estiver com agasalho quente e com roupa de chuva.

Os humanos podem usar a Territorialidade para uma variedade


de razões geralmente abstratas, poucas se algumas delas forem motivações
por animais. De fato, devido a Territorialidade nos humanos supostamente ser
3

um controle sobre uma área ou espaço que deve ser concebida e comunicada,
então alguém pode levantar que a Territorialidade, neste sentido, é muito
improvável na maioria senão em todos os animais. A Territorialidade nos
humanos é melhor entendida como uma estratégia espacial para afetar,
influenciar ou controlar fontes e pessoas, controlando área; e, como uma
estratégia, a Territorialidade pode ser ligada e desligada. Em termos
geográficos ela é uma forma de comportamento espacial. A questão então é
descobrir sobr e que condições e porquê a Territorialidade é ou não é
empregada.

Este livro examinará a Territorialidade Humana do contexto da


motivação humana. No entanto, ainda permanece o fato que a imagem popular
da Territorialidade parte de trabalhos que enfatizam as ligações biológicas.
Assim, os esforços para desviar a atenção de tais conexões podem ser
confundidos ao se usar um termo que às conota. Apesar das restrições ao
termo Territorialidade (o que certamente não é uma palavra sonoramente
bonita), eu não tenho sido capaz de encontrar uma melhor palavra. Soberania,
propriedade e jurisdição são restritas demais neste âmbito para ser
alternativas adequadas. Embora, sendo um termo impróprio, eu usarei a
Territorialidade e confiarei que as conotações anteriores não desviarão a
atenção do que eu quero acreditar ser o seu significado verdadeiro: é uma
estratégia humana para afetar, influenciar e controlar.

A Territorialidade nos humanos é melhor pensada não como algo


biologicamente motivada, mas sim enraizada socialmente e geograficamente.
Seu uso depende de quem está influenciando e controlando o quê e quem,
nos contextos geográficos de espaço, lugar e tempo. A Territorialidade está
intimamente relacionada em como as pesso as usam a terra e como elas
organizam-se no espaço, e como elas dão sentido ao lugar. Claramente, essas
relações mudam, e a melhor maneira de estu dá-las é a de reve lar sua
mudança de caráter em relação ao tempo . A Territorialidade assim repousa
em duas tradições geográficas: a Geografia Social e a Geografia Histórica.
Nós podemos, é claro, afirmar que elas não são realmente interconectadas e
formam uma filosofia única - a Social Histórica. Assim, uns poucos negariam
que estas duas devem ser ligadas e alguns têm sido capazes de incorporar
4

ambas as tradições em seus trabalhos, não é fácil combiná-las e satisfazer a


todos. O problema reside nas diferenças complexas complexas entre as
filosofias particularistas e a Geog rafia Histórica, e a filosofia generalizante da
Geografia Social com seu componente teórico - análise espacial. As diferenças
entre o particular e o geral estão confrontadas novamente no resto da Ciência
Social.

A geografia Histórica, que está fortemente aliada com a História,


tende a impor exames detalhados de lugares em certo s períodos. Ela pode
empregar generalizações da Geografia Social e de outras Ciências Sociais e
pode chegar a descrições gerais de pessoas e sociedade, mas o seu foco
primário é o entendimento das relações particulares que existiam em um lugar
particular durante um período particular. Geralmente, é “longa” nos fatos e nas
descrições, mas “curta” na teoria. Em termos de filosofia da Geografia, ela
tende a ser ideográfica. A Geografia Social (e seu componente generalizado -
a análise espacial), por outro lado, está mais fortemente aliada às Ciências
Sociais sistemáticas tais como as econômicas, a sociologia e a ciência política,
e tende a formar modelos abstratos das relações social-geográfica e testá-los,
geralmente, em cenários contemporâneos, embora ocasionalmente dados do
passado sejam usados. Na terminologia geográfica essas filosofias são
chamadas “nomotéticas”.

Claramente estas podem ser concebidas como formando em algo


contínuo, e assim elas não precisam a princípio representar filosofias
diferentes. A História e a Geografia Histórica podem usar teorias sociais e
ajudar a reformulá-las, e as teorias sociais podem ser mais precisas e
pertinentes sobre o exame cuidadoso dos historiadores. Ainda na prática -
devido talvez a preferências pessoais na pesquisa, a estilo de análises, há
lacunas entre o fato e a teoria - a continuidade tem sido fina no meio . Os
historiadores e os geógrafos históricos geralmente criticam os modelos de
ciências sociais sistemáticos como algo histórico e afirmam que quando os
modelos são testados do passado, nós aprendemos muito pouco sobre o
período, porque estes são modelos supergeneralizados, ao invés dos
contextos históricos serem os fatos a serem explicados. Geógrafos sociais e
cientistas sociais são contra que muitos geógrafos históricos e historiadores
5

estejam desejosos demais em generalizar e a aceitar o fato de que até mesmo


descrições detalhadas devem ser baseadas em generalizações sobre
comportamento e sobre o passado. E é claro, que quando alguém tenta
construir uma ponte entre essas diferenças praticando no meio do contínuo
sempre se corre o risco de não satisfazer alguém no final.

Então é dentro da tradição da Geografia Humana, que em algum


lugar entre as tradições das análises sociais e históricas, que esse trabalho
sobre Territorialidade se baseia. O seguinte contém tanto a teoria e a história
com talvez uma ênfase mais pesada desta primeira, porque o meu treinamento
tem sido na parte espacial-analítica da Geografia Social. Na teoria, eu não
quero falar sobre uma concepção positivista total de uma série de relações
nomotéticas ligadas axiomaticamente e que podem ser usadas para predizer
ações humanas. Ao invés da teoria, eu quero falar sobre um grupo
interrelacionado de características que pode ser usado para explicar ou para
dar sentido ao comportamento. Este significado mais flexível tende a sugerir
menos do que o ideal positivista, porém bem mais do que noções frouxamente
conectadas. Uma importante característica da teoria territorial é que ela é
projetada para revelar razões potenciais para o uso Territorialidade. Quais as
razões usadas depende do contexto atual. Algumas das razões ou efeitos
serão usados em praticamente qualquer situação, e outros ou outras serão
usados somente em contextos particulares. A este respeito, a teoria é

expressa geralmente ou adestrativamente em cima de estruturas sociais, mas


sua especificação e exemplificação depende do contexto histórico-particular e
de agência individual. O objetivo deste livro não é simplesmente testar,
exemplificar ou ilustrar generalizações. Espera-se também que o livro
aprofunde o nosso entendimento de certos contextos históricos demonstrando
como e porquê a Territorialidade é usada. Ela pode derramar luz,
especialmente, no surgimento da civilização e em facetas críticas da
modernidade.

A Territorialidade então é um uso sensato historicamente do


espaço. Especialmente, uma vez que ela é socialmente construída e depende
de quem está controlando quem e porquê. Ela é o componente geográfico
chave para se entender como a sociedade e o espaço estão interconectados.
6

Na exploração destes assuntos, o livro não somente usa o passado para


ilustrar a teoria, mas também reconstrói partes da história da Territorialidade,
visando disseminar mais luz no passado e nas organizações sociais
presentes. Mas ao combinar a teoria e a história, o livro não tem pretensão de
desvendar novos fatos históricos ou fontes. Ao invés disso, ele tenta colocar
de maneira antiga e bem conhecida fatos, mas sobre uma luz diferente.

1. O significado da Territorialidade.

A Territorialidade para os humanos é uma estratégia geográfica


poderosa para controlar pessoas e coisas através de um controle de área. Os
territórios políticos e a propriedade privada da terra podem ser as suas formas
mais familiares, mas a Territorialidade ocorre em vários graus e em inúmeros
contextos sociais. Ela é usada nas relações do dia-a-dia e nas organizações
complexas. A Territorialidade é uma expressão geográfica primária do poder
social. Ela é um meio pelo qual o espaço e o tempo estão interrelacionados. A
mudança de funções da Territorialidade nos ajuda a entender as relações
históricas entre a sociedade, o espaço e o tempo.

Este livro explora algumas das mais importantes mudanças que

ocorrem nas relações entre a sociedade e a Territorialidade, desde o começo


da história até o presente. Ele faz, analisando as possíveis vantagens e
desvantagens que a Territorialidade pode proporcionar, e considerando
porque algumas e não todas surgem somente em períodos históricos.
Explorando as vantagens e desvantagens somos conduzidos à teoria da
Territorialidade. Explorando quando e porquê estas vêm à tona constituem a
história da Territorialidade e a mudança das suas relações com o espaço e a
sociedade.

A história da Territorialidade e da relação da Territorialidade com


o espaço-sociedade são informados teoricamente pelas possíveis vantagens
que aqui podemos esperar da Territorialidade. Após introduzir um significado
da Territorialidade neste capítulo, nós exploraremos no capítulo 2 as
7

vantagens possivelmente teóricas da Territorialidade. Os capítulos


subsequentes considerarão como e quando essas vantagens são usadas
historicamente e os efeitos que elas têm na organização social. No capítulo 3
teremos um esquema das principais mudanças entre a Territorialidade e a
sociedade desde os tempos primitivos até o presente e focalizados nos mais
importantes períodos: o começo da civilização e o começo do Capitalismo. No
capítulo 4 analisaremos o desenvolvimento pré-moderno dentro de uma
organização complexa - a Igreja Católica. Os capítulos 5 e 6, considerarão o
desenvolvimento da Territorialidade do período moderno: o capítulo 5
explorará o surgimento da organização política de 400 anos de idade da
América do Norte; e o capítulo 6 explorará o desenvolvimento da
Territorialidade dentro do ambiente de trabalho para o mesmo período de
tempo.

Estes períodos e contextos foram selecionados para ilustrar os


mais importantes desenvolvimentos históricos no uso da Territorialidade. Eles
nos permitirão ver que alguns efeitos territoriais são universais, ocorrendo em
praticamente qualquer contexto histórico e organização social, e que outros
são específicos a períodos históricos particulares e a organizações, e que
somente a sociedade moderna tende a usar a gama total de possíveis efeitos.
Estudando como a sociedade moderna emprega esta gama especialmente
porque ela emprega os efeitos territoriais que não eram usados nas

sociedades pré-modernas, nós entenderemos o significado e as implicações


da modernidade e o papel futuro da Territorialidade.

Exemplos de Territorialidade.

Antes de nós considerarmos a teoria e a história da


Territorialidade, nós devemos primeiro descrever o que ela é e o que ela faz.
Para familiarizarmos com a abrangência do nosso assunto, vamos organizar
os usos territoriais em três contextos. O primeiro se refere aos índios
Chippewa da América do Norte e o seu contato com os europeus. E serve para
ilustrar as diferenças nos usos territoriais entre as sociedades pré-modernas e
8

moderna. O segundo se refere a Territorialidade no lar moderno e o terceiro


considera a Territorialidade no ambiente de trabalho moderno. Ambos
exploram os usos territoriais contemporâneos em contextos familiares de
pequena escala e apontam a onipresença da Territorialidade na vida moderna.

Os Chippewa.

Considere o grupo de índios americanos, chamados Chippewa


ou Ojibwe, os quais nos primeiros dias de contato com os europeus, ocupavam
uma larga área ao redor da metade ocidental do Lago Superior. Os Chippewa
pertencem ao grupo de linguagem Algonkuian, que cobrem a maior parte da
América do Norte Central, exceções do nordeste dos Estados Unidos e
também o centro-sul e porções orientais do Canadá. Haviam bem mais de
20.000 Chippewa no tempo do primeiro contato com os europeus. Embora, os
Chippewa, possuíssem uma linguagem comum, cultura e sistema de crenças,
eles não possuíam uma organização política central. Eles eram mais de uma
coleção de bandos do que uma tribo propriamente dita.

Os Chippewa eram primariamente caçadores, colhedores e


coletores. Eles viviam de amoras, castanhas, raízes, arroz selvagem, peixe e
de gamos. Aqueles que viviam nas porções sul e oeste do Lago Superior em
áreas que tinham aproximadamente 100 ou mais dias por ano livres do frio,
eram capazes de suplementar as suas dietas cultivando milho e abóbora. Os
seus artefatos incluíam canoas, arcos e flechas, lanças, armadilhas e cestas.
As suas proteções iam desde de os tapís de madeira até alpendres e abrigos
rudimentares. Alguns dentro da comunidade, eram melhores do que outros
para fazer artefatos, mas o conhecimento de como construí-los estava a
disposição de todos. Aqueles que tinham habilidades superiores eram olhados
como os lideres. A liderança era conquistada. O líder não podia impor suas

decisões em cima dos outros e não podia impedir que uma pessoa obtesse a
sua independência. Em termos econômicos, estas pessoas eram igualitárias.
9

O tamanho das unidades sociais Chippewa além da família


variavam com as estações. Durante a primavera, verão e o começo do outono,
quando as amoras, as raízes, o arroz selv agem e o peixe estão prontos e à
disposição e também quando os gamos adultos eram abundantes, as famílias
se reuniam para formar uma vila de talvez 100 ou 150 pessoas. Durante os
meses de inverno, quando o alimento era escasso, as famílias normalmente se
dispensavam em pequenas unidades, com individualidade doméstica
ocasionalmente solitária. Mesmo famílias simples podiam sobreviver durante
uma estação por si mesmas, elas raramente estavam distantes das outras
durante o inverno, e nos meses mais quentes elas reconstituíam as vilas para
realizar várias atividades econômicas e culturais que requeriam uma
cooperação sustentada. Quando juntos, os membros nos bandos caçavam,
colhiam e dividiam o seu produto. A amizade era estabelecida e os
casamentos planejados. Ser membro de um bando parece ser algo voluntário.
Se a tensão aumentava, ou se as necessidades mudavam, uma família podia
sair de um bando e se juntar a outro.

O que pode-se dizer sobre a organização territorial Chippewa? Está claro que
eles como uma entidade ocupavam uma vasta área. Mas, as suas habitações
nunca foram claramente ligadas e flutuavam de ano a ano. No leste, os
Chippewa estavam misturados entre os amigáveis Ottawa e os Potawatomi; no
norte eles estavam misturados entre os normalmente amigáveis Cree; e no

oeste com mais Cree e Assiniboin. Os Chippewa tinham grandes dificuldades


com os Dakota do leste das pradarias, que se estabeleciam próximos as suas
fronteiras do sul e do oeste. Mas um amplo trato de desocupação de uma faixa
de terra, proporcionou uma zona neutra entre eles e o seus vizinhos Dakota.
Mesmo que o perímetro da nação Chippewa tenha sido estabelecido, duvida-
se que ele tenha sido circulado por um único Chippewa, ou que muitos entre
eles possuíssem um mapa, representando os seus domínios coletivos.

Os bandos Chippewa, também ocupavam áreas particulares, mas


estes lugares mudaram após muitos anos, conforme as suas composições
sociais. O estabelecimento de um bando em um local particular e o seu uso
das fontes e das áreas ao redor devem ser conhecidos e aceitos pelos bandos
vizinhos. Mas, isso não significa que o bando precisa proclamar o território
10

específico exclusivamente para seu próprio uso e defendê-lo contra as


incursões de outros Chippewa. A população era esparsa e o alimento
abundante o suficiente de forma que quando um bando usava uma área era
improvável que esta fosse excluída para o uso por outros camaradas.
Indivíduos e famílias dentro desses bandos igualitários não possuíam a terra.
A terra era para o uso da comunidade, e os membros dos bandos tinham
permissão para dividir o seu uso. Um bando podia se apropriar de parte de
uma área para uma família particular, mas isso não significava que a família
possuía a terra e que pudesse excluí-la de outras. Isto se aplica ao uso da
terra para a agricultura bem como para caça e colheita.

A extração de plantio no norte dos grandes lagos, era curta


demais para que Chippewa pudessem praticar a agricultura, mas ao sul e ao
oeste do lago superior, o cultivo do milho e da abóbora formaram um
importante suplemento para a dieta do Chippewa. Estes índios tinham seus
campos próximos as suas vilas. Cada família possuía o seu próprio jardim que
era limpo, plantado e cultivado sozinho, ou o processo podia ter sido coletivo.
Neste caso, estes jardins não eram claramente demarcados e não possuíam
cercas de territórios.

No tempo do contato europeu, então, essas pessoas dificilmente


eram territoriais como uma nação, embora elas pudessem ter sido,

ocasionalmente, territoriais como bandos individuais ou como famílias dentro


de bandos. Mesmo aqui a sua asserção do controle sobre uma área era
geralmente imprecisa, sisonal e estratégica. Bandos ou famílias podem ter
reclamado uma área somente se eles fossem razoavelmente confiantes que os
recursos continuariam lá e se eles soubessem que haveria competição por
estes recursos por outros grupos. Imaginando essas condições de predomínio
é possível considerar como um grupo “por exemplo” os Chippewa podem
alterar e intensificar o seu uso territorial. Nós dizemos “por exemplo” porque
alguns fatores que nós consideraremos, embora sejam causas importantes de
mudanças no uso territorial em outras sociedades pré-literatas, e embora
presentes na sociedade Chippewa, não são de fato os primários que alteram o
uso territorial Chippewa. E ainda, se referindo a eles como possibilidades que
nos ajudarão a entender como em geral uma sociedade simples e pré-literata
11

pode desenvolver pressões internas primárias que alteram as relações entre a


Territorialidade e a organização social.

Neste aspecto, suponha que o gamo se torne escasso e também


que os Chippewa do sul devotem mais tempo a agricultura. Suponha também
que para alguns no Minnesota no Wisconsin, os cavalos se tornem parte de
sua cultura. Membros da comunidade podem ainda coletivamente limpar os
campos, plantar e cultivar as colheitas, mas como estas agora colheitas vitais
podem ser protegidas dos animais selvagens, das crianças muito jovens e dos
cavalos? É possível que estas sejam dificuldades menores e que nenhuma
precaução especial seja necessária. A ameaça dos animais selvagens pode
ser desprezadas; os adultos podem supervisionar as crianças e o seu acesso
às colheitas; e os cavalos podem encontrar grama o suficiente para pastar de
forma que eles não vão danificar os jardins. Mas, pode também ser o caso que
mesmo estes não sendo problemas sérios, a comunidade ache mais
conveniente construir uma cerca nos campos ou colocar os cavalos em cercas
também, ou ambos. Os propósitos desta clara demarcação territorial seriam
estabelecer diferentes graus de acesso a coisas no espaço. Ainda, pouca
coisa precisa ser mudada. A comunidade pode ainda manter os seus objetivos
srcinais.

Mas não é difícil deixar nossas imaginações avançarem até

condições mais consideráveis de grande tumulto, tornando inevitável


partições territoriais mais complexas. O tamanho da comunidade pode
aumentar ao ponto de esforços de trabalhos comunitários casuais se tornem
incontroláveis, e a pressão da população de outros grupos podem tornar
impossível para uma família simplesmente sair de um bando para outro.
Embora, a comunidade possa ainda ser igualitária - a terra ainda é da
comunidade - os campos agora podem ser alocados a famílias conforme as
necessidades básicas, e as famílias devem demarcar as suas áreas e o
acesso deve ser restrito simplesmente para prevenir um pisotiamento
inesperado. As possibilidades para a Territorialidade podem multiplicar-se
dentro desta sociedad e igualitária. Mas, há um ponto em que algumas destas
possibilidades podem realmente interferir nos valores da divisão comunitária e
cooperação. Não se quer dizer que os diferentes usos da Territorialidade em si
12

podem transformar as relações sociais de, neste caso, uma sociedade


igualitária para uma sociedade estruturada em classes. Mas, a Territorialidade
pode ser um catalisador no processo de mudança e pode ser usada
diferentemente em vantagem para uma classe dividida, bem como para uma
sociedade igualitária. Se por exemplo, uma família Chippewa começasse a
reclamar o acesso a algumas ou todas as fontes da comunidade (recursos), a
Territorialidade seria um mecanismo extremamente útil para afetar essas
reclamações.

Estas especulações apontam para a possibilidades das


mudanças territoriais ocorrerem amplamente a partir de forças dentro da
sociedade. Tais transformações têm de fato sido documentadas por várias
sociedades pré-literatas e serão examinadas mais proximamente em um
capítulo subsequente. Mas para os Chippewa, a maioria das transformações
sociais e territoriais foram impostas pelos europeus e pela economia
americana e política.

O comércio de peles europeu logo pressionou as relações


sociais dentro dos bandos. Ele pressionou os esforços comuns e igualitários.
Afetou os hábitos de caça e a ecologia da área, e pode ter aumentado o
controle territorial individual e de família as custas do acesso comum. Mas, a
adoção da propriedade privada foi seletiva. Alguns alegam que como resultado

do comércio de pelem, algumas famílias entre as tribos de índios de


Woodland, incluindo os Chippewa, parecia ter o seu próprio território de caça
que era passado de pai para filho. Mas, após uma inspeção mais detalhada, a
evidência parece que o controle territorial privado, pode ter sido exerc ido
somente sobre o acesso às peles e não sobre aos outros recursos. De acordo
com Leacock estes territórios de caça, pelo menos para os Montagnais, “não
envolvia a propriedade real da terra”. As pessoas não podiam armar
armadilhas para caçar animais perto da fronteira dos outros, mas qualquer um
poderia caçar gamos, podia pecar ou podia colher madeiras, amoras ou
cascas de bétula, desde que os produtos da terra fossem para uso e não para
venda.
13

O assentamento europeu no leste do Alleghenys também


aumentou a pressão sobre a população do meio-oeste, conforme as tribos se
mudavam para mais a oeste com objetivo de encontrar novas terras. A pressão
da população e a confiança em futuros negócios pressionou relações social-
territorial comuns dos bandos; muitas famílias se tornaram dependentes e
hábeis no negócio de peles. Esta adaptação realmente ajudou a estender o
domínio Chippewa e até 1840 os Chippewa cobriam as áreas do Lago Superior
oeste, o leste das marg ens do Lago Huro n, o norte, praticamente, até as
praias da baía de Hudso n, o oeste até o lago W innipeg e o sul até o centro do
Minnesota e Winsconsin.

Mas, o maior efeito do alcance da organização social e territorial


dos Chippewa veio da imposição pelos europeus da hierarquia e da jurisdição
política-territorial. Desconhecidamente, para os Chippewa e para os
colonizadores srcinais, as concessões inglesas e as capitanias formando as
unidades territoriais das colônias (ver na figura 1.1 ) reclamaram muito das
áreas dos Chippewa.

A capitania de Virgínia de 1609 incorporou a parte superior do


meio oeste toda. Mas estas reivindicações não foram reforçadas. Do meio do
século XVII até o meio do século XVIII, a parte superior do meio-oeste estava
nominalmente sobre o domínio francês até que foi dada aos ingleses e a suas

colônias em 1763. E logo a seguir, a Virgínia, Massachusetts, Connecticut e


New York reclamaram parte desta terra. Entre as prioridades do 1 o Congresso
dos Estados Unidos, estava a disposição e o governo do território norte-oeste,
aproximadamente, 170 milhões de acres a oeste de Ohio até o Mississípi. Em
1786 e após muitas pelejas, os reclamantes cederam todas estas terras aos
Estados Unidos. E uma série de ordens baseadas na Lei de Tomas Jefferson
de 1783 e 84, culmin aram nas ordens de 1787 e 1796, que prov idenciaram
procedimentos para o governo deste território. O plano (ilustrado pelas áreas 1
e 5 na figura 1.2), foi dividido para o norte-oeste e não menos que três e não
mais do que cinco estados e admitir cada na União, que tinha uma população
de 60 mil. Além diss o, a terra seria dividida de acordo com uma grade
retangular regular. As unidades de cada uma ajudariam a delinear as bordas
14

dos Estados, formar as fronteiras inteiras para os condados e cidades e as


fronteiras para as parcelas de terra à venda (ver figura 1.3).

Estes eram os planos, escritos e mapeados no papel, para uma


terra , virtualmente, desconhecida aos europeus e que, para o seu alcance
rápido, estava a mais de mil milhas de distância da costa oriental do país,
aonde as decisões eram tomadas na ponta de uma caneta. Os americanos de
descendência européia, eles classificavam, dividiam e controlavam as
pessoas, incluindo os Chippewas, somente nas bases de sua localização do
espaço. Esta imposição de território, tinha uma dimensão social e econômica.
A nível social uma nação, um estado ou um vilarejo local, podia incluir uma
sociedade entre um número de jurisdições. As unidades políticas , as quais os
Chippewa pertenciam, mudavam, freqüentemente, conforme o mapa do
território do norte-oeste tomava forma. Eventualmente, parte dos Chippewa
estavam no Canadá, outra parte no Minnesota e outras em Michigan. E ainda,
uma outra parte em Winsconsin.

Com exceção das reservas, a maioria das terras dos Chippewa


dentro de territórios particulares ou estados. E após estes serem admitidos na
União, a política territorial de parcelamento continuou ao longo das linhas dos
condados e cidades. Subdividindo, ainda mais e segmentando as terras
indígenas antigas. Essas unidades locais, formaram comunidades políticas

para a não preservação dos índios. Bem como, para o estabelecimento dos
europeus. As reservas eram territórios permanentes, somente, se contivessem
terras que os europeus achassem que eram indesejáveis. Além destas
retaliações contra a Territorialidade impor restrições à cultura indígena, as
fronteiras da reserva, geralmente, formavam um entendimento para uma
geometria simétrica dos estados vizinhos. Cortando a terra retangular e
interrompendo os domínios da autoridade local.

Estas novamente impuseram que os territórios políticos (a nação,


o Estado, o condado e a cidade), foram designados para servir as
necessidades da sociedade orientada pelo mercado do homem branco.
Enquanto, as fronteiras impostas segmentavam ainda mais as comunidades
antigas, elas forjavam novas e diferentes comunidades direcionadas para um
15

sistema de mercado dinâmico. E dentro deste sistema territorial de


parcelamento, tornou-se um veículo primário para a definição de propriedade.
Diferentemente do uso comum da terra pelos índios, o homem branco usava o
território para parcelar a terra, em porções vendáveis. Cada pedaço da
propriedade privada, era um terri tório sobre o controle de um indivíduo. Cada
um tinha um valor monetário, podia ser comprado e vendido várias vezes.

As diferentes funções que os homens brancos e os índios têm da


Territorialidade, lança uma luz nos problemas de relacionamento que eles
tiveram ao longo do tempo. Mas, também serve para ilustrar como o
estabelecimento e o uso do território, estão interneados com os contextos
sociais e históricos. As linhas acuradas dos mapas polític os e das divisões de
terra pelo homem branco, foram possíveis de serem construídas porque a
sociedade dele era literata. E capaz de imprimir, dividir e determinar longitude
e latitude. Mas, mais fundamental é que, estes territórios foram criados e
usados para suportar a sua sociedade hierárquica complexa, que foi baseada
na propriedade privada. E que o uso do território define e organiza a sua
própria comunidade. Em contraste com um Chippewa, que nasceu em uma
comunidade Chippewa e que foi aceito socialmente e culturalmente pelas
pessoas Chippewa. Uma pessoa de Wisconsin tinha, simplesmente, alguém
que residia entre os cidadões de Wisconsin. Na cultura ocidental moderna
viver simplesmente dentro de um território geralmente capacita alguém a ser

um membro de uma comunidade.

As áreas que foram ocupadas pelos bandos de imigrantes


Chippewa, agora são, virtualmente, labirintos de hierarquias confusas de
territórios políticos, quase políticos e privados (ver figura 1.4 ). Embora, não
sempre visíveis na terra , elas têm fronteiras precisas e fixas, especificadas em
mapas e documentos. E afetam numerosas numerosos seguimentos de nossas
vidas.

Simplesmente, estando localizando em determinado momento no


lugar x, digamos uma cidade da parte superior do meio-oeste, alguém estará
em um pedaço de terra privada ou pública. Em qualquer caso, alguém está
automaticamente agrupado junto de outras pessoas na mesma localidade,
16

como estando situados dentro da jurisdição do distrito de polícia a, do distrito


de bombeiros b, do distrito sanitário c, do distrito escolar d, do distrito de
planejamento e, do distrito da corte do estado f, do distrito da corte federal g,
da cidade h, do condado i e do Estado z. Mudar a sua posição somente um
pouquinho, mudará o seu relacionamento com um ou mais de uma dessas
unidades. Bem como, a sua relação com os outros.

Estabelecendo, a jurisdição política e delimitando a propriedade


privada da terra, são os usos mais familiares da Territorialidade no mundo
ocidental. Entretanto, a Territorialidade tem e continua a ter, importantes
papéis em outros aspectos das relações sociais. Vamos considerar,
brevemente, dois exemplos modernos: a Territorialidade dentro de casa e
dentro do ambiente de trabalho. Cada uma pode ser usada para especificar
significados futuros de Territorialidade. E ilustrar suas interconexões com os
contextos sociais.

O lar.

Considere um pai norte-americano do século XX, que é um


proprietário na antiga terra Chippewa. Ele está em casa, fazendo o trabalho
doméstico e ensinando os seus dois filhos jovens. Enquanto, o pai está
espanando e usando o aspirador, lhe ocorre que as crianças estão na cozinha,
ajudando a lavar os pratos. A dificuldade é que estes jovens ajudantes , estão
próximos de quebrar os pratos. Suas atividades estão acontecendo no
espaço. Em termos geográficos, elas são espaciais. Embora, as redondezas
sejam diferentes, o pai se depara com um problema que se parece muito com
aqueles que os pais Chippewa teriam enfrentado se eles estivessem se

preocupado com seus filhos, que estariam caçando nos campos.


Geograficamente falando, o pai norte-americano e os Chippewa tem somente
duas estratégias para prevenir o desastre. Ele pode ter uma conversa franca
com as crianças, agradecendo por seus esforços, mas explicando que pode
17

haver dificuldades se elas continuarem. Ele pode também remover os pratos


do seu alcance (e um pai Chippewa, não poderia remover as plantas). Em
nenhuma ocasião o pai está tentando controlar as ações espaciais de suas
crianças e aquilo a que elas têm acesso no espaço, focalizando objetos
específicos nas ações, como os pratos ou as plantas.

A intenção é alterar o acesso das crianças as coisas no espaço


mas, no exemplo acima, a Territorialidade não está sendo invocada. A
Territorialidade, como a segunda estratégia, é trazida à tona quando o pai
decide simplesmente restringir o aceso das crianças as coisas no espaço
dizendo que “elas não podem entrar na cozinha sem permissão” (ou nos
campos desacompanhadas). Assim, a cozinha ou o campo, está agora fora do
alcance. Aqui o pai está tentando limitar o acesso às coisas impondo um
controle sobre uma área.

Note que a cozinha ou o campo está lá o tempo todo, ela é um


lugar restrito. No caso não-territorial, ela não foi, simplesmente, demarcada
como uma área de controle, no segundo caso, ela foi. em outras palavras, um
lugar pode ser um território em um momento e não mais em outro. Em um
território pode criar um lugar onde anteriormente não existia. Além disso, a
confirmação da Territorialidade pode ser aplicada somente por um tempo
limitado. O pai moderno pode ter dito: não entre na cozinha agora, enquanto

eu estou aspirando!. Ou as restrições territoriais podem ser levantadas quando


os objetos que o pai deseja proteger estão agora no armário fora de alcance.

A cozinha está gravada em outros locais, que também são


territórios; a casa, a cidade e o Estado. A autoridad e destes territórios, não foi
diretamente invocada neste caso, mas estava por trás dele e poderia ser
notada em situações que surgissem, mesmo na cozinha. Note, também, que
declarando a cozinha fora dos limites das crianças e reforçando a proibição,
não é o fim do assunto. As afirmações dos pais, têm que ser claras para as
crianças. Elas devem ser capazes de entendê-las e o seu comportamento tem
que ser monitorado. Todas essas tarefas, envolvem mais comportamento no
espaço. Usar a Territorialidade pode ajudar a reduzir alguns tipos de
interações espaciais, na quantidade de monitoração e as destruição dos
18

pratos. Mas, se as afirmações do controle territorial não podem falhar, então, a


alternativa é uma estratégia espacial não-territorial. Se as crianças, persistem
em entrar na cozinha e tocar nos pratos, o pai pode, fisicamente, ter de
remover as crianças. Em termos geográficos, a Territorialidade é uma forma de
interação espacial, que influência outras interações espaciais e requer ações
não-territoriais para sustentá-la. Dentro do contexto da criação da criança e o
lar, o pai Chippewa e o norte-americano, teriam escolhas similares sobre o
papel da Territorialidade. Mas, as escolhas são muito diferentes no contexto
do trabalho. A maioria das pessoas na América do Norte, agora, trabalham em
um lugar que está sobre o controle de outro.

O local de trabalho.

Suponha, que o mesmo pai norte-americano seja empregado


como secretário em um prédio de escritórios modernos. Tipicamente, estes
locais contém quartos grandes cheios de mesas e máquinas de escrever.
Cada mesa foi projetada como uma estação de trabalho. O secretário é
empregado para datilografar e parte do acordo de trabalho é que ele estará no
escritório em sua mesa de trabalho, por um determinado número de horas por
dia, 5 dias na semana, 50 semanas no ano. O secretário moderno pode sair da
estação de trabalho. Mas, se ele o fizer muitas vezes e sem permissão ele
estar violando o contrato de trabalho e pode perder o seu emprego. Mesmo se
o secretário tem permissão de deixar sua estação de trabalho, seus
movimentos dentro do prédio são, provavelmente, restritos. Ele não pode,
simplesmente, andar por qualquer escritório. Talvez, as únicas áreas nas quais
ele é livre para ir, sã o aquelas projetadas para tráfico, tais como halls e

corredores. E aquelas abertas aos trabalhadores, como banheiros e salas de


café. Para o secretário, a Territorialidade age como uma restrição física.
19

Após o horário de trabalho, lá pelas 5 da tarde, as funções


territoriais do prédio se tornam invertida. O secretário sai para casa, ao inv és
de restringir e modelar suas ações. O prédio está agora fora dos seus limites
e do público. Presentes durante o dia , mas dissolvidas durante a noite, estão
as partições territoriais internas de escritórios e estações de trabalho, que
separam trabalhadores e níveis de pessoal. O prédio pode estar ainda
ocupado, mas nesta hora é por faxineiros e pelos vigias noturnos que, igual
aos gerentes de níveis elevados, têm acesso a, praticamente, todas as partes
do prédio.

Mais mudanças eventuais podem ocorrer na Territorialidade do


prédio de escritórios. A firma usando o prédio, pode se mudar ou ir à falência e
o prédio pode ser demolido. Indo mais longe nos seus efeitos geográficos, está
a possibilidade de que, com sist emas modernos de telecomunicações o
escritório, como um território, possa se tornar obsoleto. Porque a maior parte,
senão todo o trabalho de secretário, pode ser feito em algum, até mesmo em
casa.. Isto acaba com a necessidade de pessoas se reunirem em um local,
chamado de escritório. Isto, ainda não elimina, por completo, os territórios de
trabalhos. É prec iso ainda restringir o acesso ao local onde o traba lho e o
equipamento serão localizados, mesmo que seja em casa. E os empregadores
podem muito bem ter que entrar na casa, para checar o trabalhador e o
equipamento que ele está usando. O que mudou é a forma da organização

territorial e sua relação com as relações espaciais não-territoriais.

Notas sobre significados.

Está claro, a partir destes exemplos, que a Territorialidade cobre


uma grande área de atividades. Para as quais há, talvez, nomes ricamente
descritivos. Usar-se: quartos, prédios, direitos de propriedade na terra,
soberania política e jurisdições legais sobre área, bem como estradas e

cidades, territórios, não tem nenhum propósito, a menos que o termo alcance o
nosso entendimento sobre elas. Isto significa que a Territorialidade deve ser
definida, amplamente, o suficiente para cobrir estes e outros casos e ainda
ricamente o suficiente para iluminar seus diferentes efeito s. Nós precisamos
20

saber, não somente o que a Territorialidade é, mas o que ela faz. É


principalmente em se ajudar a apontar a importância dos efeitos de um
fenômeno, que está o valor de uma definição.

Uma definição nunca é, completamente, inclusiva. Ela se focaliza


sobre uma ou poucas características de um fenômeno. Um fenômeno que
contém estas características cabe na definição . Ele ainda possuirá, muitas
outras características e pode ter outros nomes. Uma estátua pode ser um
trabalho de arte, um investimento, uma lembrança da habilidade humana, um
pedaço de mármore e uma massa. Cada uma, por sua vez, contribui para o
nosso entendimento dos usos da estátua e efeitos. Uma maçã também é
muitas coisas, a maioria das quais diferentes da estátua . Mas, as duas têm
coisas em comum. As duas ocupam lugar no espaço e ambas tem peso ou
massa. Saber quais são suas massas, significa dizer que a massa está,
claramente, definida. Tal que, pode ser observada em todo tipo diferente de
fenômeno.

Mas, um conceito ou termo precisa ser mais do que claro. Ele


precisa apontar para as conexões com outros atributos. Neste sentido, a
massa não é somente um conceito claro, mas também um útil. Sabendo-se a
massa de um objeto, pode nos ser dito muito sobre as conexões atuais e
potenciais do fenômeno com seu ambiente. Nós gostaríamos de saber, por

exemplo, o quão forte um piso deve ser para suportar a estátua e a maçã. Nós
seríamos capazes de antecipar o impacto que cada uma causaria se jogadas
da janela de um segundo andar. Saber a massa de algo, aumenta a nossa
compreensão daquilo e as suas conexões com o mundo. Mas, de maneira
alguma isso nos diz tudo que se há pra saber sobre o objeto e suas
interrelações. A estátua e a maçã são ambas massas, mas elas exibem muitos
outros atributos definidos e significantes, que elas não partilham e que não
podem ser descobertos, olhando-as somente como exemplos de massa.

O mesmo se aplica sobre a Territorialidade. É uma coisa definir a


Territorialidade. Tal que, um quarto, um lar, um campo, um escritório e uma
cidade, parecem ser exemplos de Territorialidade. É outra coisa diferente, ter a
nossa compreensão destes fenômenos e suas interrelações mais profundas,
21

através do exame delas como território. Condições posteriores ocorrem


somente, se o nosso sentido de Territorialidade é claro e rico o suficiente para
sugerir como elas se junta com outras facetas do comportamento.

Definindo a Territorialidade.

A Territorialidade, simplesmente como o controle da área, serviu


até agora como uma definição curta. Mas esta descrição, nem é precisa, nem
rica o suficiente para nos levar muito adiante. A partir dos nossos exemplos do
pai e das crianças, da secretária no local de trabalho e os membros de uma
sociedade de cata e coleta, pôde ser visto que a Territorialidade envolve a
tentativa, de um indivíduo ou de um grupo, em influenciar ou afetar as ações
de outros, incluindo não-humanos. Isto é importante e ainda o efeito geral deve
ser enfatizado. O qual está elaborado na seguinte definição formal de
Territorialidade. Neste livro a Territorialidade será definida como a tentativa de
um indivíduo ou grupo de afetar, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e
relações, através da delimitação e da afirmação do controle sobre uma área
geográfica. Esta área será chamada: o território. Antes de nós explorarmos o
significado desta definição, alguns esclarecimentos do seu domínio devem ser
feitos.

Novamente, deve ser enfatizado que um local pode ser usado


como território em um momento e não mais em outro. Isto significa que, ao
criarmos um território, nós também poderemos estar criando um tipo de local.
Mas é importante distinguir entre um território como um local e outros tipos de
locais. Diferentemente de outros locais comuns, os territórios requerem esforço
constante para estabelecer e mantê-lo. Eles são resultados de estratégias
para afetar, influenciar e controlar pessoas, fenômenos e relações..
Circunscrevendo coisas no espaço ou em um mapa, como quando um
geógrafo delimita uma área para ilustrar onde o milho cresce ou onde a
indústria está concentrada, identificar locais, áreas ou regiões no censo
comum. Mas, não criando propriamente um território. Esta delimitação se torna
um território, somente quando as suas fronteiras são usadas para afetar o
22

comportamento ou para controlar o acesso. Por exemplo, um local formalmente


geográfico ou um a região, tal como o cinturão do mil ho ou a área de
manufatura, pode se tornar designado pelo governo como uma região que vai
receber assistência financeira especial ou como uma área que administrada
por uma bancada do governo. Neste caso, as fronteiras da região estão
afetando o acesso aos recursos e ao poder. Elas estão moldando o
comportamento. E assim o local se torna um território. No mesmo raciocínio, o
que os geógrafos de regiões noudais, áreas de mercado ou interiores centrais,
não são, necessariamente, territórios. Essas áreas podem ser, simplesmente,
descrições da Incisões geográficas das atividades no espaço. Elas se tornam
territórios, somente se as fronteiras são usadas por alguma autoridade para
moldar, influenciar ou controlar atividades. Assim, uma cadeia de
supermercados pode usar as áreas de mercado, que são o limite geográfico
atual do alcance do poder de um supermercado para definir a jurisdição de
cada gerente de supermercado. Por exemplo, suas responsabilidades por
propagandas. Uma pessoa ou grupo pode, claro, controlar mais do que um
território. E na sociedade moderna, muitos tipos comuns de lugares devem se
tornar territórios para existirem como lugares.

A Territorialidade não precisa ser uma área defendida, se


considerarmos a área como objeto da defesa e que os defensores devem estar
dentro do território defendido. O território pode ser usado para conter ou

restringir, bem como para excluir. E os indivíduos que exercem controle não
precisam estar dentro do território. E é claro que eles não precisam estar
próximos dele. Uma cerca ou um muro pode controlar, da mesma forma um
sinal de não passe. A definição aponta que a Territorialidade estabelece um
controle sobre uma área, como um meio de controlar as coisas e as relações.

A Territorialidade é uma estratégia para se estabelecer diferentes


graus de acesso às pessoas, coisas e relações. Sua alternativa é sempre uma
ação não-territorial. E a ação não-territorial é usada em qualquer caso para
sustentá-la. Por exemplo, se um Chippewa decide colocar cerca ao redor dos
seus jardins. Essas cercas devem ser mantidas pelo trabalho direto físico. E se
elas quebrarem, as crianças e os cavalos, devem ser observados e guardados
por controle não-territorial direto. (Se as crianças do lar moderno, continuarem
23

a entrar na cozinha, mesmo que o pai tenha dito para não fazê-lo, então, o pai
deve recorrer a uma forma de intervenção não-territorial).

As fronteiras de um território e os meios pelas quais elas foram


comunicadas não são inalteráveis. Propriedades mudam de tamanho, da
mesma forma os estados. Uma cerca fronteiriça pode ser substituída por um
tipo diferente, por exemplo o foço. Uma criança pode reconhecer a entrada de
um quarto como uma fronteira ou até mesmo a porta do quarto fechada. A
maioria dos territórios tendem a ser fixos no espaço geográficos. Mas, alguns
podem mudar, por exemplo, o espaço pessoal ou a distância social que
envolvem uma pessoa viaja com esta pessoa quando ela mantêm a distância.
A convenção entre de navios de guerra para não se aproximarem de outros
navios estrangeiros no alto mar, é um exemplo de território móvel.

Os territórios podem ocorrer em diversos graus. Uma cela numa


prisão de segurança máxima é mais territorial do que uma cela numa cadeia
do estado e que mais territorial do que um quarto numa casa. Uma sala de
aula fechada, com suas carteiras presas ao chão e suas crianças sentando
todos os dias no mesmo lugar, é mais territorial do que uma sala de aula
aberta, que não tem assentos fixos e que cada criança pode se mover durante
uma atividade. Os graus de Territorialidade são mais difíceis de se comparar,
quando selecionamos exemplos de diferentes instituições e sociedades. As

atividades de um trabalhador de uma fábrica de automóveis ou de uma linha


de montagem são mais territorialmente circunscritas do que aquelas de uma
secretária de escritório em uma secretaria? Os pontos de medição mais
precisa da intensidade da Territorialidade, serão estudados mais tarde. Por
hora, deve ser adotado que, embora nós possamos ter estimativas rudes da
intensidade do território, as dificuldades surgem quando comparamos um
contexto com outro.

A Territorialidade pode ser afirmada de várias maneiras, estas


incluem a descrição do trabalho, quanto tempo você deve ficar sentado, onde
você está e onde não é permitido ir, etc. Os direitos legais na terra, a força
bruta ou o poder , normas culturais e proibições sobre o uso das áreas e em
formas menores de comunicação, tais como a postura do corpo. Mas,
24

novamente, se a asserção ou afirmação não é clara e compreensível, então


não está claro se a Territorialidade está sendo exercida.

As definições devem ser claras o suficiente para dizer se alguma


coisa cabe ou cabe na definição. Mas, mesmo uma definição clara tem
algumas confusões na prática. Se eu estou em uma biblioteca e coloco os
meus livros em cima de uma mesa vazia eu estou, simplesmente, me aliviando
de um fardo ou reclamando uma parte da mesa como minha?. E neste último
caso, estou eu afirmando um controle sobre o objeto, a mesa ou sobre o
território que o objeto limita?. Não há mal em admitir-se que caos extremos
ocorrem de uma maneira ou de outra. Uma definição pode ter algumas
exceções ou, então, partes confusas e ainda ser útil, especialmente, quando
há muitos exemplos claros que cai dentro deste domínio.

Considerando a Territorialidade como uma estratégia para


acessos diferenciados, entramos num campo infrutífero, de que se a
Territorialidade Humana está, de alguma maneira biologicamente enraizada.
Tomando isto como uma estratégia, colocamos a Territorialidade, inteiramente,
dentro do contexto das motivações humanas e objetivas. Nossa definição de
Territorialidade, é claro, atravessa as perspectivas e níveis de análises. Ela
envolve as perspectivas dos controlados e daqueles que estão controlando, se
eles são indivíduos ou grupos. Ela discerne sobre os efeitos físicos, sociais e

psicológicos. Este atravessar em outros campos, não é novo para a Geografia


e ocorre de forma paralela pela gama de interconexões que têm se
desenvolvido no resto do campo.

O significado da Territorialidade.

A definição formal da Territorialidade , não somente nos diz o


que a Territorialidade é, mas também sugere o que ela pode ser. Essa
sugestão vem de três relações interdependentes, que estão contidas na sua
definição. Essas três explicam a lógica e os significados dos efeitos da
Territorialidade. Primeiro, por definição, a Territorialidade deve envolver uma
25

forma de classificação por área. Quando alguém diz que alguma coisa ou
mesmo algumas coisas, em um quarto são dele ou estão fora do limite par
você ou ainda que você não pode tocar em nada fora deste quarto, ele está
usando uma área para classificar ou determinar coisas em uma categoria
como dele, não sua. Ele não precisa enumerar ou definir os tipos de coisas
que são dele e não suas. Quando usa a Territorialidade, o pai não tem que
dizer a criança o que ela não pode tocar. Elas, simplesmente, não são
admitidas no compartimento, no quarto. De acordo com Piaget, existem duas
maiores formas de classificação: uma é pelo tipo e a outra é pela área. A
Territorialidade é claro pode empregar ambas, mas ela sempre emprega esta
última.

Segundo, por definição, a Territorialidade deve conter uma forma


de comunicação. Isto pode envolver uma marca ou sinal, tal como é
comumente encontrada em uma fronteira. Ou uma pessoa pode criar uma
fronteira, através de um gesto, tal como apontar. uma fronteira territorial, pode
ser somente a forma simbólica que combina uma afirmação sobre a direção no
espaço e uma afirmação sobre a posse ou exclusão.

Terceiro, cada exemplo de Territorialidade deve envolver uma


tentativa no esforço de controlar o acesso sobre a área e as coisas dentro dela
ou restringir a entrada das coisas de fora. De maneira mais geral, cada

exemplo deve envolver uma tentativa de influenciar as interações.


Transcressões da Territorialidade serão punidas e isto pode envolver outra
ação não-territorial e territorial.

A lógica da Territorialidade reside no fato de que as vantagens


de usá-la devem estar ligadas, com uma ou mais dessas relações
interconectadas. Uma vez que elas são facetas essenciais da Territorialidade,
as três devem, também, ser as bases para o significado da Territorialidade. É
simples ilustrar como cada uma delas p[ode ser um motivo para usar a
Territorialidade. Considere a 1 a característica, de que a Territorialidade
envolve uma forma de definição ou classificação por área. Definição por área
pode ser, extremamente, útil quando não podemos enumerar as coisas,
pessoas ou relações sobre as quais nós queremos ter acesso ou quando nós
26

desejamos não divulgar tal lista. O time de futebol, treinando para um grande
jogo, pode desejar que o oponente não saiba sobre os novos atletas. Pra
ajudar a manter o segredo, o treinador pode usar a Territorialidade para excluir
os observadores do campo e das arquibancadas.

Considere a segunda característica: se comunicando usando


uma fronteira. A fronteira pode ser um recurso mais simples para comunicar a
posse, do que a enumeração por tipo. Se a criança na cozinha é muito jovem,
ela pode ter dificulda de em, entender que os objetos na cozinha são e não
permitidos se tocar. A Territorialidade pode ser somente um meio de
convenção do desejo dos pais às crianças. Este é, especialmente, o caso se
em algum outro lugar e sobre circunstâncias diferentes, as crianças não são
permitidas tocar em objetos similares, como os pratos. Ao invés de apresentar
às crianças uma regra complicada de que, não é permitido manusear os pratos
é, simplesmente, mais direto dizer a elas, que elas não podem atravessar uma
linha ou entrar ou sair do compartimento.

Considere a terceira característica: o reforço do acesso no


contexto da comunidade de caça Chippewa. Para se certificar que as crianças
não sairiam pelos campos, é mais fácil colocar as crianças dentro de uma
cerca, do que seguí-las por aí. Circunstâncias similares ocorrem em nossa
sociedade. É mais fácil superv isionar os prisioneiros , colocando-os atrás das

grades , do que permitir que eles circulem por aí, com guardas os seguindo.
Controlar as coisas territorialmente pode poupar muitos esforços.

Estas três facetas da Territorialidade, podem ser encontradas em


todas as sociedades. Mas, elas por sua vez, geram efeitos potenciais mais
adiante, que podem ser igualmente importantes, mas que ocorrem somente em
contextos históricos particulares. Como isto acontece e quais são os efeitos , é
alguma coisa técnica e que será discutida no capítulo 2. Para propósitos de
ilustração, nós podemos apontar que, classificando-a pelo menos em parte
pela área, ao invés de por tipo e espécie, a Territorialidade pode ajudar
relações a se tornarem impessoais. E pode ajudar a moldar atividades futuras
dentro de uma hierarquia. Nós notamos que os Chippewa, não precisam usar a
Territorialidade para definir os seus membros. Mas o homem branco, sim. A
27

definição primária de membro dentro de um estado norte-americano ou cidade,


é o domicilio dentro do território político. Esta definição permite que
estrangeiros se tornem membros da mesma comunidade. Além disso,
diferentemente da comunidade Chippewa, o território da cidade age como um
container e como um molde espacial para outros eventos. A influência de uma
cidade e autoridade, embora se espalhe e seja muito ampla, é legalmente
afirmada por suas fronteiras políticas. A cidade territo rial se torna um objeto,
pelo qual outros atributos são reafirmados, como no caso do território político
da cidade, que recebe ajuda federal.

Promover relações impessoais e atividades geograficamente


moldadas dentro de uma hierarquia, são duas das muitas conseqüências
identificáveis das três facetas da Territorialidade, que seguem a partir desta
definição. Estas e as outras serão abordadas no capítulo 2, para delimitar os
alcances dos usos territoriais. E ainda, precisamente, se aprofundar no nosso
conhecimento sobre os casos particulares. Os efeitos são potenciais, porque
cada um deles não precisa ser empregado a cada instante da Territorialidade.
E alguns têm sido usados somente em momentos particulares na história.
Uma definição adequada e clara que aponte para as implicações gerais da
Territorialidade para os humanos, é o que tem faltado nos trabalhos prévios
sobre Territorialidade.

Métodos Prévios.

A maioria da literatura, considerada sobre a Territorialidade, é


sobre o comportamento animal, e não diz respeito a nós. A menos que os
cientistas sociais tenham se valido dela para discutir a Territorialidade
Humana. Embora, não tão volumosas quanto a literatura animal, as discussões
sobre a Territorialidade Humana são extremamente variadas e difíceis de
sintetizar. Não há ainda revisões compreensíveis. E o que vem a seguir, não é
uma tentativa de providenciar uma. Mas sim, uma breve ilustração sobre
problemas-chaves que muitos estudos territoriais humanos sofrem.
28

De maneira geral, as análises prévias da Territorialidade Humana tem


sido deficiente em três importantes aspectos, com estudos particulares
contendo uma ou mais dessas três deficiências. Primeiro, em muitos casos os
pesquisadores não distinguem, claramente, o termo Territorialidade do termo
espacial. Para eles, temos eventos ocorrendo no espaço e através dele, é
suficiente para que a ação caia na categoria de territorial. Por causa disso,
esses estudos não definem a Territorialidade como um tipo particular de
comportamento no espaço. Eles perdem a oportunidade de oferecer uma
análise sistemática da Territorialidade. Qualquer insight que eles apresentem
são difíceis de se generalizar sobre (existem até mesmo aqueles que usam o
termo, figurativamente, para se referir a território cognitivos).

Muito relacionados com o primeiro, estão os estudos que,


atualmente, focalizam sobre exemplos da Territorialidade Humana , sem
chamá-los como tal.. E o estudo do zoneamento dos direitos da propriedade
privada da terra e da soberania política, geralmente, não reconhece que seus
assuntos pertencem a classe territorial das ações. Assim, nestes estudos fica
faltando importantes implicações territoriais. No caso do pai controlando as
suas crianças, é porque nós conhecíamos pelo menos três possíveis efeitos de
Territorialidade, porque nós seríamos capazes de sugerir para o pai recorrer a
ele identificar, por tipo, as coisas que ele desejava controlar. E é este
conhecimento dos efeitos territoriais, que nos faz esperar que o uso da

Territorialidade ocorra em outros contextos diferentes. Não é este efeito que os


estados da nação usam, quando eles decl aram soberania sobre todas as
coisas dentro dos seus domínios geográficos?. Os pais e os estados da nação,
não podem listar, provavelmente, o que eles desejam controlar. E não listar o
que está sobre seu controle, permite à Territorialidade esconder o que está
sendo controlado. Considere o número de vezes os pais, simplesmente,
escondem as coisas das suas crianças, e não permitem que elas entrem nos
locais. Ou que o Estado esconda as coisas dos estrangeiros ou mesmo dos
cidadões, para restringir a entrada a áreas ou regiões dentro do país. É
conhecido que a Territorialidade é uma estratégia geral para estabelecer
aceso à coisas e apontar os efeitos, geralmente, esperados, pode ajudar a
aprofundar o nosso entendimento sobre o uso em casos particulares.
29

Em terceiro, estão os estudos que têm consciência em isolar o


comportamento territorial real nos humanos. Mas que são, em contrapartida,
muito simplórios no seu significado. Eles devem ter se voltado, inteiramente,
para uma escala social-geográfica. Este é o caso da literatura social
psicológica, enquadrando a Territorialidade como uma forma de espaço
pessoal. Outros estudos podem ter sido simplórios demais nos efeitos
territoriais, que eles estipularam. Por exemplo, alguns estudos psicológicos
viram o uso da Territorialidade por um indivíduo, como uma expressão de
característica pessoais e específicas, tais como o desejo pelo domínio ou
segurança. Ligar a Territorialidade às necessidades particulares ocorre,
especialmente, nos estudos que supõem, que os humanos e os animais usam
a Territorialidade pelas mesmas razões biológicas. Por exemplo, como um
meio para se obter alimento, amigos e controlar o tamanho da população.
Focalizar sobre estes efeitos frágeis, pode fazer a Territorialidade nos
humanos, parecer alguma coisa como um instinto, ao invés de uma estratégia
que pode ser ligada e desligada. Além disso, estes significados superficiais e
suas ênfases nas escalas particulares, propósitos ou funções estão,
geralmente, incorporados nas definições formais da Territorialidade. O
psicólogo social, explorando somente o nível pessoal e os efeitos psicológicos
da Territorialidade pode defini-la com esta ênfase na mente. Por exemplo, o eu
e a personalidade são partes da definição de Altman de Territorialidade. Como
um mecanismo de regulagem das fronteiras entre eu e outro, que envolve a

personalização ou a construção de um lugar ou abjeto e a comunicação que


pertence a pessoa ou ao grupo. A personalização e a posse são designados
para regular a interação social e para ajudar a satisfazer os vários motivos
sociais e físicos. Ai ocorre o problema oposto de se definir a Territorialidade de
maneira muito geral. Quando se intenciona estudar, simplesm ente, o controle
da área, nós somo s deixados sem qualquer sugestão sobre propósito ou
intenção, exceto de que a área é ao mesmo tempo um objeto e um fim.

Embora, estas estejam entre as maiores armadilhas nos trabalhos


prévios sobre Territorialidade, poucos pesquisadores às têm evitado. E muitos
daqueles que não têm, não tem nada sobre os aspectos importantes. Ao invés,
de isolar os componentes positivos pouco a pouco, eles serão notados e
incorporados no trabalho a seguir.
30

A Territorialidade e a Geografia.

Enquanto que, o trabalho sobre Territorialidade tem sido,


geralmente, errôneo sobre o comportamento espacial não-territorial. O
trabalho na Geografia sobre o comportamento espacial tem, geralmente,
ignorado o territorial. Na Geografia, tanto as atividades naturais e humanas ou
culturais, são chamadas espaciais, para lembrar a todos que elas ocorrem num
espaço e tem propriedades espaciais, tais como localização, forma e
orientações. A análise espacial é o ramo da Geografia interessado na
interrelações entre, as atividades na terra e as suas propriedades espaciais.
Na Geografia Humana, estas incluem não somente as localizações atuais, as
extensões e os padrões das coisas, mas também como estas são descritas e
concebidas em diferentes perspectivas sociais e intelectuais. (O padrão de
identificação da terra, pode ser descrito e avaliado economicamente,
esteticamente, simbolicamente, etc). A preocupação da Geografia com os usos
múltiplos e conceitos de espaço e com a Geografia Histórica dos diferentes
povos, apresentam o espaço como uma moldura complexa, na qual indivíduos
e grupos estão situados. Através, da qual eles interagem e pela qual eles
fazem afirmações. Estas interconexões entre o espaço e o comportamento

residem na Territorialidade, cujo o estudo tem permanecido em segundo plano,


completamente negligenciado pela análise espacial.

As firmas fazendo as incidades estudadas pelos geógrafos, não


somente são lugares ou localidades no espaço com múltiplos significados.
Mas, também, ocorrem e permanecem em um local porque existem numerosas
regras sociais e regulamentações que permitem que algumas coisas estejam
em certos locais e não em outros. Até mesmo o movimento das pessoas ,
mercadorias e idéias requerer que a sociedade estabeleça as estradas e o tipo
de transporte e que desaprovem outras atividades de ocorrem naquele local.
As ruas da cidade moderna , são construídas para bicicletas, carros,
caminhões e ônibus e não para pedestres. As auto-estradas são projetadas
para o tráfico de veículos movidos a motores com combustão interna.
31

Para a maior parte, as pessoas e suas atividades não podem


encontrar local no espaço sem formas de controle sobre a área - sem a
Territorialidade. O desafio é mostrar como e porque é este o caso.
Infelizmente, os analistas espaciais não têm explorado, sistematicamente, a
Territorialidade para descobrir se há uma lógica no controle territorial, da
mesma forma que tem havido uma exploração na questão se há uma lógica
para a organização espacial não-territorial e interação. Ao invés disso, eles
têm focalizados em objetos que a Territorialidade tem ajudado a formar e a
manter e tem deixado a Territorialidade - o agente de ligação geográfico - em
segundo plano.

Os analistas espaciais entendem muito bem que atividades


competem por localização. A este respeito, o foco de suas pesquisas tem sido
sobre o processo de seleção de um lugar sobre outro e o papel
desempenhado pela distância ou a sensibilidade geográfica na conexão
desses locais. Enfatizando a distância, tem conduzido a uma lógica geográfica
baseada nas propriedades métricas do espaço. Mas, os analistas espaciais
não têm, seriamente, considerado a possibilidade que, a lógica geográfica
pode ser estendida até mesmo pela lógica mais complexa envolvida nos usos
territoriais do espaço. A lógica da ação territorial é mais complexa do que a
lógica da distância, porque a Territorialidade está incorporada nas relações

sociais. A Territorialidade é sempre socialmente construída. Ela precisa de um


ato do desejo e envolve múltiplos níveis de razão e significados. A
Territorialidade pode ter implicações normativas também. Deixando de lado os
locais e reforçando os graus de acesso, significa que indivíduos e grupos têm
removido algumas atividades e pessoas de locais e incluindo outras, o que é,
eles têm estabelecido diferentes graus de acesso às coisas.

A Territorialidade, então, forma um cenário para as relações


espaciais humanas e as concepções do espaço. A Territorialidade aponta para
o fato de que as relações espaciais humanas não são neutras. As pessoas,
simplesmente, não interagem no espaço e se movem através do espaço como
bolas de bilhar. Ao invés disso, a interação humana, o movimento e o contato
são também questões de transmissão de energia e informação, para afetar,
32

influenciar e controlar as idéias e ações de outros e seus acessos às fontes.


As relações espaciais humanas são resultados da influência e poder. A
Territorialidade é a forma espacial primária do poder.

Territorialidade e História.

Diferentes sociedades, usam diferentes formas de poder. Elas


têm organizações geográficas diferentes e conceitos de espaço e local. As
áreas geográficas e os significados mudam conforme as sociedades mudam. A
Geografia Histórica está preocupada com essas interconexões. A Geografia
Histórica aponta para o contexto sócio-historicamente dependente da
organização espacial e significado. E a Territorialidade aponta para o fato que,
a organização geográfica e significado, enquanto dependem de muitas coisas,
também pressupõem a manutenção de diferentes graus de acessos às
pessoas, coisas e relações. As organizações espaciais e significados do
espaço têm histórias e como também têm os usos territoriais do espaço; as
três histórias estão, intimamente, ligadas e interrelacionadas.

A lógica da Territorialidade mostrará que, como uma estratégia


espacial ela, geralmente, oferece vantagens para ajudar a afetar, influenciar e

controlar. Estas constituem o domínio da razão ou conseqüência de se usar a


Territorialidade. Elas explicam, como e porquê a Territorialidade está sendo
usada e quais são as bases de sua importância. Se vantagens particulares,
estão usadas ou não em um caso particular depende de quem está
controlando quem e para quê propósitos. Algumas vantagens podem ser
esperadas que se ocorram em praticamente em qualquer situação em qualquer
tempo. Nós encontramos o pai moderno empregando a Territorialidade na
cozinha, porque não se faz necessário a ele explicar o que ele não quer que
seus filhos manuseiem. Nós, também, podemos imaginar o pai Chippewa
usando a Territorialidade pela mesma razão.

Não definir o que está sob o controle de outro é, praticamente,


uma vantagem universal da Territorialidade. Nós podemos esperar que outros
33

efeitos muito importantes apareçam na maioria dos tipos de sociedades. E


ainda que outros apareçam somente em uns poucos. Por exemplo, a
Territorialidade no mundo moderno é, geralmente, um meio essencial de
definir as relações sociais. Conforme nós apontamos, as pessoas que residem
em uma cidade norte-americana têm acesso aos serviços públicos daquela
cidade. A localização dentro de um território define um membro e um grupo.
Este uso do território - para definir-se como parte de uma comunidade - ocorre
de maneira menor em civilizações pré-modernas e dificilmente ocorre em
sociedades primitivas, onde as relações sociais estão tão claramente e tão
fortemente arrigadas. Os primitivos podem usar a Territorialidade para
delimitar e defender a terra que eles ocupam, mas eles raramente a usam para
se definir a si próprios. Outros efeitos da Territorialidade ocorrem,
primariamente, na sociedade contemporânea. E ainda outros ocorrem, com
igual importância, nas civilizações moderna e pré-moderna. Conforme nós
veremos, os usos da Territorialidade têm sido cumulativos. As sociedades
primitivas encontraram necessidade para uns poucos, as civilizações pré-
modernas empregaram estes e outros mais e a sociedade moderna tem
empregado, virtualmente, a gama total de possíveis efeitos.

Nós temos mencionado um pouco dos possíveis efeitos


territoriais, a facilidade pela qual a Territorialidade pode classificar, comunicar
e reforçar o controle, a facilidade pela ela pode definir as relações sociais

impessoalmente e hierarquicamente. E o que nós devemos considerar agora é


o leque de efeitos, teoricamente, possíveis e suas interrelações. Estes
assuntos estão endereçados na teoria da Territorialidade.

2. Teoria.

Nós notamos que, a definição de Territorialidade contém três


facetas interrelacionadas. A Territorialidade deve propor uma forma de
classificação por área, uma forma de comunicação por fronteira e uma forma
de reforço ou controle. O que será discutido agora é que, aproximadamente,
34

sete dos outros efeitos potenciais podem estar ligados a estas três facetas. E
que estes efeitos, mais os três srcinais nos levam a, aproximadamente,
quatorze combinações de características. Notem que, o número preciso não é
o assunto crítico, eles podem ser reduzidos a menos que dez ou quatorze. O
que é crítico, é que a definição de Territorialidade deve ser rica o suficiente
para delimitar o alcance das vantagens potenciais oferecidas por uma
estratégia territorial e um nível de generalidade que seja preciso e útil.
Especificando esses efeitos, como eles estão conectados um ao outro e as
condições sobre as quai s eles serão empregadas, constitui a teoria de
Territorialidade.

A teoria será apresentada em duas partes. Primeiro, a


Territorialidade é conceituadamente abstraída da multiplicidade de contextos
social-históricos. Isto permite espaço para descrever a lógica interna da
Territorialidade, para revelar o alcance dos efeitos que constituem o domínio
das razões, para usar estratégias territoriais em oposição a não-territoriais e
suas interrelações lógicas. Segundo, a teoria hipotetiza que, certos contextos
históricos serão desenhados sobre efeitos potenciais específicos e numa
maneira geral se combina contextos históricos com efeitos territoriais.

A teoria é tanto empírica quanto lógica. As primeiras três


tendências são derivadas da definição de Territorialidade. As outras que não

são inteiramente deriváveis da definição, nada mais estão do que,


logicamente, interrelacionadas e ligadas a ela. Chamando, a seguinte análise
de teoria, não significa que nós estamos impondo um método mecânico para
as pessoas e os seus usos do território, pelo contrário, a teoria apresentará os
efeitos do território como possibilidades que vão do físico ao simbólico. O
alcance recheado pelo amplo campo das análises espaciais. Nem a palavra
teoria, significa que predições acuradas sobre a Territorialidade podem ser
feitas. O comportamento humano é de longe muito variável para tornar
possível, previsões sociais precisas de qualquer conseqüência. Ao invés
disso, pela teoria queremos dizer que nós podemos desvendar um sete de
proporções, que são ao mesmo tempo, impiricamente e logicamente
interrelacionados e que podem dar sentido as ações complexas. Em outras
35

palavras, a teoria pode nos ajudar a entender e a explicar. Mas, não é provável
que ela nos ajude a predizer, precisamente, o que acontecerá no futuro.

A estrutura complexa da teoria pode ser mais facilmente


visualizada, se nós recorremos a uma analogia da ciência física. Notem que a
teoria contém duas partes - o campo dos efeitos e os seus usos nos casos
históricos - nós podemos dizer sobre o risco de estarmos sendo mecânicos,
que a primeira parte é análoga ao examinar a estrutura atômica da
Territorialidade: As três facetas (a classificação, a comunicação e o reforço)
são o seu “núcleo”. E as dez ou quatorze combinações primárias dos efeitos
ou tendências são as suas “valências”. Estas formam as ligações potenciais
que serão desenhadas, se e quando a Territorialidade é usada. A segunda
parte é análoga , ao se colocar a Territorialidade em uma tabela periódica de
tipos de organizações sócio-históricas e sugerir que existe ligações que
podem ser esperadas quando estes contextos usam a Territorialidade.
Esquematizar as ligações entre os contextos históricos e os efeitos territoriais,
serão o propósito dos capítulos subsequentes.

Antes de retornarmos a teoria, umas poucas palavras sobre o


método e a terminologia estão na pauta. Os efeitos da Territorialidade não
são, simplesmente, relações, porque eles pertencem às pessoas, não aos
átomos. Eles são mais, apropriadamente, chamados de razões potenciais ou

causas ou ainda conseqüências potenciais ou efeitos da Territorialidade. A


probabilidade de um grupo de nomes sobre os outros, depende se um
indivíduo (ou grupo) está estabelecendo novos territórios (neste caso o nome
apropriado seria razões ou causas) ou se ele está usando alguma coisa já
existente (neste caso o nome apropriado seria conseqüências ou efeitos). Para
sabermos se uma coisa é uma razão ou uma causa ou uma conseqüência ou
um efeito, é impossível saber se examinarmos mais proximamente um caso
específico. E ainda assim, haverão muitos que discutiram as pequenas
diferenças existentes entre os dois. Em nome da simplicidade, razões, causas,
conseqüências, efeitos estes serão usados misturadamente para mostrar que
eles são aplicáveis em qualquer caso; e os termos, potencialidades e
tendências cobrirão todas as quatro opções.
36

Apesar deste esforço de simplificação, a teoria é ainda complexa


e técnica . Nós precisaremos descrever as dez tendências e as quatorze das
combinações das tendências para um total de vinte e quatro efeitos, isto é
inevitável. A teoria deve ser desenvolvida tão completamente quanto possível,
uma vez que os capítulos históricos são organizados ao redor de reclamações
da teoria. A cada um dos vinte e quatro efeitos será dado um nome do censo
comum. Além disso, para ajudar a distingu ir a estrutura interna da teoria, os
dez primeiros receberão um número e as quatorze combinações uma letra (Por
exemplo, a primeira tendência - a classificação - será identificada como 1, e a
terceira combinação - a hierarquia complexa - será identificada como c). Os
números e as letras serão somente usados neste capítulo para referência
cruzada. O restante do livro se referirá às tendência e às combinações por
seus nomes. Omitir as letras e os números, pode tornar o leitor mais difícil de
ser alertado ao fato de que uma tendência particular está sendo endereçada.
Mas, usar somente o nome do efeito, permitirá ao leitor identificá-lo, enquanto
torna a estrutura teórica menos desviante e distrativa para a narrativa.

A construção social da Territorialidade.

A Territorialidade, conceituadamente isolada e descritiva, para


alguns graus distante dos contextos sociais particulares, pode parecer análoga
a questão para o sentido da distância geográfi ca nas análises espaciais. Uma
diferença crítica é que a Territorialidade é sempre construída socialmente ou
humanamente de uma forma que a distância física não é. Podemos considerar,
de uma maneira rudimentar, o ato de conceber, descrever e medir distâncias é
uma questão de construção social. Da mesma forma são as forças sociais, que
localizam as coisas dentro de certos padrões no espaço. Mas a
Territorialidade é mais intimamente envolvida com o contexto social. A
Territorialidade não existe, a menos que haja uma tentativa de indivíduos ou

grupos em afetar as interações de outros. Não necessariamente esta tentativa


e nem também a interação, precisa existir entre dois objetos no espaço para
haver uma distância especificável entre eles. As distância podem ser
comparadas e medidas, mas ainda é pouco que possa se dizer abstratamente
37

sobre seus potenciais em afetar o comportamento. A sua influência depende


de que haja canais reais de comunicação, tais como estradas, rodovias e
semelhantes que contenham estas distâncias. A substituiç ão indiscriminada
da medição física da distância para os canais de comunicação ou interações
significantes fisicamente e socialmente correm o risco de tratar a distância não
relacionamente.

De maneira diferente da distância, as relações territoriais são


necessariamente constituídas de contextos sociais (de uma maneira geral) nas
quais algumas pessoas ou grupos estão reivindicando acesso diferencial a
coisas e a outros. Por causa disto, mais pode ser dito abstratamente sobre os
efeitos da Territorialidade, do que pode ser dito sobre a distância. E ainda, a
Territorialidade é um produto do contexto social, e o que quer que seja dito
sobre isto, não importa o quão abstrato seja, pode ter implicações normativas
afixadas a ela e desta forma nos levar de volta ao contexto social. É importante
tornar claro que, estas implicações normativas se referem ao julgamento que
as pessoas fazem sobre os usos da Territorialidade. Um efeito da
Territorialidade, deve ser considerado como bom, neutro ou mal. A maioria
pode concordar que, usar a Territorialidade para evitar o acesso das crianças
aos pratos na cozinha, pode ser uma estratégia efetiva e até mesmo benigna.
Para uns poucos isto pode ser ruim, porque os pais não têm que esconder das
crianças os objetos que elas não têm que tocar. As implicações nominativas

das pessoas se referem às ações, e neste caso a ações territoriais, são


importantes partes de seus efeitos. Um pai pode perceber que a
Territorialidade é eficiente, mas po de não usá-la, porque ele acredita que ela
é ruim. A teoria, então, deve ter espaço para os julgamentos, éticos e
normativos , que podem ser feitos por outros para os usos da Territorialidade.
Isto ajuda a ligar a teoria à sociedade. Ainda, a própria teoria não apresentará
procedimentos, pelos quais alguém pode julgar se uma ação é, com seus
próprios méritos, boa ou má.

Quando apresentarmos as tendências, os contextos sociais


serão deixados em segundo plano (e embora exemplos específicos sejam
usados para exemplificar os seus significados, eles não devem ser
interpretados como especificando o contexto da tendência) e as implicações
38

normativas gerais não serão formuladas, até que as combinações sejam


discutidas. É claro que algumas dessas combinações, se diferem uma das
outras no grau de que, elas se dirijam ao que os outros podem rotular como
conotações benignas ou malevolentes. Estes termos normativos, ainda tendem
a ser muito abstratos ou gerais. Mas, por meio de uma ilustração, nós
podemos considerar que, um contexto benigno para alguém pode significar
que uma relação é não-explorativa. Tal contexto pode ser compreendido, a
nível individual, quando um pai usa a Territorialidade para impedir que uma
criança jovem corra pelo trânsito. E em um nível grupal, quando os
trabalhadores de uma fábrica, organizada e controlada democraticamente,
elegem alguns de seus membros para servir como gerentes. Uma relação
territorial malévola, pelo outro lado, pode ser pensada em ocorrer quando
diferentes acessos através da Territorialidade, beneficia aqueles que exercem
a Territorialidade em detrimento àqueles que estão sendo controlados.

Manter as descrições das tendências dos significados neutros e


normativos das combinações, geralmente, ajuda a separar a expressão da
teoria da Territorialidade, das teorias particulares de poder e sociedade. Isto
permite à Territorialidade, um espaço intelectual de si mesmo e evita que a
Territorialidade se torne refém de qualquer teoria ética particular ou teoria do
poder. A segunda parte da teoria nos leva à capacidade destas tendências
terem implicações normativas e assim nos conduzir a tipos particulares de

contextos sociais, que podem empregá-las. Desta forma, a teoria pode ser
religada a casos históricos específicos e a teorias do poder.

Teoria: Parte 1.
As dez tendências da Territorialidade.

Por definição, a Territorialidade como uma afirmação do controle,


é um ato consciente. A pessoa ou pessoas exercendo a Territorialidade não
precisam estar conscientes dos dez potenciais ou tendências para que esses
efeitos existam. Estas tendências da Territorialidade vêm à tona sobre certas
condições. Além disso, elas não são independentes uma das outras. De fato,
39

as três primeiras listadas abaixo: a classificação, a comunicação e o reforço,


podem ser consideradas prioritárias logicamente, embora não trincamente.
Elas são as bases, pelas quais as outras sete potencialidades da
Territorialidade serão interrelacionadas. Em qualquer uma ou todas dez podem
ser razões possíveis para o seu uso. Mesmo que as três primeiras não fossem
importantes como razões em alguns casos, elas deveriam, entretanto, ainda
estar presentes, porque elas são partes da definição. Em outras palavras, a
Territorialidade deve propor classificação, comunicação e reforço, mas ela
pode ser causada por uma ou várias ou ainda por todas as dez. Vamos
continuar na ordem, do número 1 até o número 10. E novamente lembrar, que
os termos usados para descrevê-las podem ser aplicados aos contextos
sociais benignos, neutros ou malévolos. Cada tendência está numerada e as
palavras itálizadas servirão como nome das tendências nos capítulos
subsequentes. Conforme a segunda seção mostrará, as tendências estão,
logicamente, interconectadas em várias maneiras. O que vem a seguir, é mais
uma lista de definição das tendências do que uma ilustração das suas
interrelações. A ordem na qual elas são discutidas, sugere como conduz a
outras:

1. A Territorialidade envolv e uma forma de class ificação que é, extrem amente,


eficiente sob certas circunstânc ias. A Territorialidade classific a, pelo menos
em parte, por área ao invés de por tipo. Quando nós dizemos que alguma

coisa nesta área ou lugar é nossa ou que está fora do seu limite, nós
estamos classificando ou colocando as coisas numa categoria como, nossa
ou não sua, de acordo com sua localização no espaço. Nós não precisamos
estipular os tipos de coisas no lugar, que são nossa ou não sua. Assim, a
Territorialidade evita, em vários graus, a necessidade por uma enumeração
e classificação por tipo e pode ser o único meio de afirmar o controle se nós
não podemos enumerar todos os fatores significan tes e relações aos quais
nós temos acesso. Este efeito é, especialmente, útil na arena política, onde
uma parte da política é sua preocupação com condições inéditas e relações.

2. A Territorialidade pod e ser fácil para com unicar, porque ela reque r um tipo
de marca ou sinal, a fronteira. A fronteira territorial pode ser somente a
forma simbólica que combina a direção no espaço e uma afirmação sobre a
40

posse ou exclusão. Os sinais de estrada e outros sinais de direção, não


indicam posse. A simplicidade da Territorialidade para a comunicação que
explique o uso constante pelos animais.

3. A Territorialidade pode ser a estratégia mais eficiente para reforçar o


controle, se a distribuição no espaço e tempo, dos recursos ou coisas a
serem controlados, cai entre a onipresença e a imprevissibilidade. Por
exemplo, os modelos da procura animal por alimentos têm mostrado que a
Territorialidade é mais eficiente para os animais, quando o alimento é,
suficientemente, abundante e mais previsível no espaço e tempo quando as
ações não-territoriais são mais adequadas para a situação de conservação.
A mesma coisa tem sido mostrada em caso de, humanos caçando e
sociedades de coleta.

4. A Territorialidade propic ia meios de reavivar o poder. Poder e influência,


não são sempre tão tangíveis quanto riachos e montanhas, estradas e
casas. Além disso, o poder e semelhantes são sempre potencialidades. A
Territorialidade torna os potenciais explícitos e reais, tornando-os visíveis.

5. A Territorialidad e pode ser usada para desviar a atenção da relação entre o


controlador e o controlado no território. Como quando nós dizemos, é a lei
da terra ou você não pode fazer isto aqui. Afirmações legais e

convencionais do comportamento em territórios, são tão complexas e


importantes e bem entendidas nos indivíduos bem socializados que,
geralmente, se despreza tais afirmações e assim o território parece ser o
agente do controle.

6. Ao classificar, pelo menos em parte, por área ao invés de por espéc ie ou


tipo, a Territorialidade ajuda a constituir relações impessoais. A cidade
moderna é uma comunidade impessoal. O critério primário para pertencer a
ela, é o domicilio dentro do território. A prisão e o local de trabalho, exibem
esta impersonalidade no contexto de uma hierarquia. Um guarda de prisão é
responsável por um bloco de celas, nas quais existem prisioneiros. O
domínio do guarda como supervisor, é definido territorialmente. O mesmo é
41

verdade na relação entre o capataz e os trabalhadores e uma linha de


montagem e etc.

7. As interrelações entre as unidades territoriais e as atividades que elas


englobam, podem ser tão complicadas que é, virtualmente, impossível
descobrir todas as razões para o controle das atividades territorialmente.
Quando isto acontece, a Territorialidade aparece como meio geral, neutro e
essencial pelo qual o local é feito ou o espaço é limpo e mantido para as
coisas existirem. As sociedades tornam esta função de limpeza do local,
algo explicito e permanente no conceito de direitos de propriedades na
terra. Os muitos controles sobre as coisas distribuídas no espaço, tornam
condensado o ponto vista de que as coisas precisam de espaço para existir.
De fato, elas precisam de espaço no sentido que elas estão localizadas e
precisam de uma área. Mas, a necessidade é territorial, somente quando
existem certos tipos de competição pelas as coisas no espaço. Não é uma
competição por espaço que ocorre, mas sim uma competição por coisas e
relações no espaço.

8. A Territorialidade age como um cont ainer ou molde para as propriedades


espaciais dos eventos. A influência e a autoridade de uma cidade, embora
se espalhe à distância, é legalmente afirmada por suas fronteiras políticas.
O território se torna o objeto ao qual outros atributos estão afirmados, como

no caso do território político que se torna a unidade a receber a ajuda


federal.

9. Quando as coisas a ser contidas não estão presentes, o território está,


conceituadamente, vazio. De fato, a Territorialidade ajuda a criar a idéia de
um lugar, socialmente, esvaziável. Pegue um pedaço de terra livre na
cidade, ele é descrito como um lote vazio. Embora, não seja fisicamente por
haver nele grama e solo. Ele é esvaziável, porque ele é desprovido de
artefatos de valor social ou econômico ou coisas que tendem a ser
controladas. A este respeito, a Territorialidade, conceituadamente, separa o
lugar das coisas e então reco mbina-os como uma afirmação de coisas em
lugares e lugares em coisas. Como nós veremos, esta tendência pode ser
42

combinada com outras para formar um componente, extremamente,


importante da modernidade, que é o espaço esvaziável.

10. A Territorialidade pode ajudar a criar mais Te rritorialidade e mais


relações para moldar. Quando há mais eventos do que territórios ou quando
os eventos se estendem em grandes áreas maior do que os territórios,
novos territórios são gerados por estes eventos. De maneira contrária,
novos eventos precisam ser produzidos por territórios novos e vazios. A
Territorialidade tende a ser uma preenchedora de espaço.

Estas são as descrições breves das dez conseqüências que nós


hipotetizamos vir do uso da organ ização territorial e que serão abordadas
para explicar as razões para se ter atividade territorial, ao invés de atividade
não-territorial. Novamente, estas tendências não são independentes e o seu
número preciso definição não é tão critico quanto a questão de que se elas
englobam ou não o domínio dos seus efeitos potenciais . Nem todas precisam
ser usadas, num momento territorial particular na história. E conforme
mencionado, os seus significados ou importâncias dependerão das condições
históricas específicas e de quem controla quem, como e para que propósito.
Algumas de suas interconexões, serão notadas e se tornaram mais aparentes,
conforme nós discutirmos as combinações primárias.

Combinações primárias.

A maioria do comportamento humano ocorre com hierarquias das


organizações territoriais. Indivíduos moram em cidades, que estão em estados,
que estão em nações. Pessoas trabalham em mesas, que estão em
compartimentos, que estão em prédios. Assim, tudo que nós dissermos sobre
território se aplica por adição à organização territorial hierárquica. Por
exemplo, ter o território usado como mold e dentro da hierarquia dos territórios
como no contexto de municípios, estados e nação, pode significa que um
objetivo, tal como um desemprego de 4%, pode ser determinado,
precisamente, para um nível geográfico, tal como o nacional, ao invés de para
43

outro, tal como o estado ou o município. Determinando tarefas ou


responsabilidades para diferentes níveis territoriais, pode se tornar uma
estratégia política geral. A Territorialidade como um meio de englobar o
conhecimento e a responsabilidade, pode ser usada para determinar o menor
nível e o menor território, o menor conhecimento e responsabilidade e o maior
nível e o maior território.

Neste sentido e ainda sem sermos específicos sobre os


contextos sociais, nós podemos continuar a ilustrar, mais das interrelações
lógicas entre as tendências, considerando as combinações primárias possíveis
e sua importância geral dentro das hierarquias sociais. Nós começaremos com
uma lista, como nós fizemos com as tendências. Esta lista determinará as
relações das tendências e as combinações dentro da hierarquia. A ordem da
lista sugere como as combinações conduzem as outras, mas as maiores
interconexões entre as combinações serão discutidas mais tarde.

A figura 2.1, é uma matriz trançando as conexões entre as


tendências elementares, de 1 a 10, para formar as combinações primárias (de
a a n). A disposição das combinações na figura 2.1 , não está em ordem
alfabética, como é a ordem na lista das combinações. Isto é porque, a figura
2.1, agrupa as combinações discutidas na lista por suas misturas de
tendências, ao invés de por suas interconexões entre as combinações. (As

dinâmicas entre combinações estão ilustradas na figura 2.2).

A figura 2.1 , mostra somente as ligações importantes. O


quadrado escuro significa que, um potencial é, extremamente, importante. E
um quadrado listrado de que ele é moderadamente importante. Um quadrado
branco significa que a tendência não é importante, para aquela tendência
particular, não significa que ele não tem efeito totalmente. (Note, novamente,
que onde o 1, o 2 e o 3, devem ser atributos da Territorialidade, eles não
precisam ser importantes causas ou conseqüências da Territorialidade. Sua
inclusão na matriz era para indicar quando eles, como características da
Territorialidade, também se tornam importantes conseqüências do território).
Sem ligar a Territorialidade a contextos sociais específicos, é impossível ser
mais preciso sobre o grau que cada tendência contribui para a combinação ou
44

se uma área escurecida pode ser chamada de condição necessária e ou


suficiente. Deve ser lembrado que algumas combinações diferem-se somente
nas conotações e pesos colocados em suas tendências.

a. Talvez, a combinação mais geral é aquela em que todas as dez tendências


podem ser componentes importantes da hierarquia complexa e rígida. 1, 2,
3, 6, 8 são especialmente importantes, porque elas podem permitir a
inclusão hierárquica do conhecimento e responsabilidade, relações
impessoais e canais estritos de comunicação, todos estes componentes
essenciais da burocracia. A força do número 8, as relações impessoais,
afeta o grau da burocracia moderna, de acordo com o critério de Weber.

b. Não somente o escopo do conhecimento pode ser tabelado, de acordo com


os níveis territoriais. Mas, também o escopo da responsabilidade no espaço
e no tempo, através da afirmação 3 e da modelação ao acesso a informação
8. Um planejamento de longo prazo, poderia ser feito sobre a
responsabilidade do maior nível que teria acesso ao maior conhecimento e
responsabilidade. E um planejamento de curto prazo ou nenhum
planejamento, seria a responsabilidade do menor nível territorial. Além
disso, uma ação poderia ser subdividida em estágios. O primeiro tendo a
ver com uma iniciação geral da norma e o último tendo a ver com o
andamento dos detalhes. O primeiro seria pertinente aos maiores níveis

territoriais e o último aos menores níveis.

c. Escalões maiores da hierarquia, tendem a usar os territórios para definir ( 1),


afirmar (2) e moldar grupos ( 8), com o resultado que os membros podem ser
coletados e tratados com impersonalidade ( 6). Este é o caminho ( 1, 3, 6 e
8), para o qual a literatura histórico-antropológica aponta, quando ela
discute sobre a definição territorial das relações sociais. Este é um conceito
relativo e seu oposto é uma definição social do território. As diferenças entre
eles é uma questão de grau. Um caso, relativamente, extremo de uma
definição territorial das rela ções sociais, pode ser encontrado em nossa
comparação prévia do membro de uma comunidade norte-americana do
século XX, quando comparado com um membro da comunidade Chippewa.
Mesmo na América do Norte, as definições territorial e social pode m ser
45

encontradas no mesmo local. A exigência para se receber a proteção da


polícia, proteção legal e proteção dos bombeiros, de um município
americano, é que a pessoa esteja localizada dentro das fronteiras
geográficas daquela comunidade. Aqueles que não residissem dentro dessa
fronteira, simplesmente, não teriam esses benefícios. Por outro lado, dentro
da mesma cidade, a pessoa sendo um visitante na casa de alguém, não
torna essa pessoa parte do domicilio e não dá ao visitante o direito de usar
os recursos do domicilio. Uma reivindicação atual de Territorialidade, pode
envolver elementos de ambos, como quando uma cidadania política
completa dos municípios americanos, embora avaliada quanto a base da
residência, é somente dada a cidadões americanos. Como nós notamos no
exemplo Chippewa, as sociedades primitivas baseavam-se, quase que
inteiramente em uma definição social de Territorialidade, enquanto as
civilizações, especialmente as sociedades modernas, fazem o contrário.
Definições territoriais contínuas e intensas conduzem, conforme nós
veremos, a um espaço, conceituadamente, vazio (3).

Uma combinação significante e simples, é aquela em que uma englobação


territorial hierárquica do conhecimento e responsabilidade, pode propiciar
um meio muito eficiente de supervisão. Por exemplo, limitar os movimentos
dos prisioneiros colocando-os em celas, torna mais fácil a tarefa de
supervisioná-los, do que se eles tivessem permissão para andar livremente

pela prisão. É claro que, mesmo uma prisão sem celas, mas com muros ao
redor , propicia um meio mais efetivo de supervisão, do que uma forma não-
territorial de contato, tal como algemando um prisioneiro a um guarda. O
indicador quantitativo importante do grau da eficiência de supervisão, seria
a extensão do controle, por exemplo, os números de supervisores por
supervisionados. Esta medida é um indicador conhecido da estrutura
organizacional e é exibida por todas as organizações territoriais.

A combinação dos elementos que constituem uma definição territorial das


relações sociais (1, 3, 6 e 8), na conjunção com um mecanismo neutro de
limpeza de espaço (7) e, especialmente, um lugar conceituadamente vazio
(9), apontam para a possibilidade em um nível prático de preencher,
46

esvaziar e rearranjar, continuamente, coisas em um território, com o


propósito de um controle funcional eficiente. Esta constante manipulação
das coisas dentro de um território, conduziriam, em um nível abstrato, a uma
separação conceitual e recombinação das coisas e espaço e assim a um
espaço, conceituadamente, esvaziável. O espaço, não somente um local
como no 9, apareceria como uma moldura funcional eficiente para os
eventos. Os eventos e o espaço pareceriam estar somente relacionados
continuamente . Esta possibilidade é, especialmente, significante na
sociedade moderna e caracteriza o conceito do território, mais intimamente
ligado com os modos modernos de pensamento. A ciência, a tecnologia e o
capitalismo tornam prática a idéia de preenchimento e esvaziamento,
repetido e eficiente e de movimento das coisas dentro do território em todas
as escalas. Os planejadores esperam que os estados, percam ou ganhem
população ano a ano. E os suportes federais ou estados permitem estas
mudanças. Em uma esc ala menor, os edifícios servem como moldes
territoriais ou containers, para abrigar primeiro uma indústria, então outra ou
quando ninguém quer alugar o prédio para não conter nada. A mobilidade
geográfica e o poder territorial em um nível político, esvaziando,
preenchendo e organizando a um nível arquitetônico, afrouxam os laços
entre os eventos e o local, entre o território atual e o espaço como um pano
de fundo para a ocorrência dos eventos, pano de fundo que pode ser
descrito abstratamente ou metricamente. As mudanças nas atividades são,

especialmente, prevalentes na cultura moderna. A sociedade de consumo,


torna essa mudança essencial. Geograficamente, a mudança e o futuro são
vistos como um sete de configurações espaciais. Diferentes daqueles que
existem agora ou daqueles que existiam no passado. Um lugar que não
mudou sua aparência, foi ultrapassado pelo tempo, ele permaneceu parado.
Planejar mudança e pensar no futuro, significa imaginar diferentes coisas no
espaço. Isto envolve imaginar separação e a recondenação das coisas no
espaço. A Territorialidade serve como um recurso para manter o espaço
esvaziável e preenchível.

f. As combinações de reificação (4) e o deslocamento ( 5), podem nos levar a


uma perspectiva mística mágica. A reificação, através do território, é um
meio de tornar a autoridade visível. O deslocamento, através do território,
47

significa ter as pessoas em manifestações territoriais visíveis como uma


fonte de poder. A primeira torna as fontes de poder proeminentes, enquanto
a segunda às disfarça. Quando as duas são combinadas, elas podem nos
levar a um ponto de vista místico do território ou local. Isto, normalmente,
ocorre dentro dos usos religiosos do espaço. Por exemplo, o catolicismo
reifica, quando faz a distinção entre as fontes primárias do poder, por
exemplo a fé da e a Igreja invisível e as manifestações físicas desta, por
exemplo a Igreja visível. Mas, o catolicismo se desloca quando ele tem seus
adoradores acreditando que as estruturas físicas da Igreja e seus locais
santos, emanam poder. As mesmas relações ocorrem no nacionalismo. O
território é uma manifestação física da autoridade do Estado. Assim, a
fidelidade ao território ou à terra natal, faz com que o território apareça
como uma fonte de autoridade.

g. O componente territorial nas organizações complexas, pode ter um


momento seu. Por um lado, aumentando a necessidade pela hierarquia e
burocracia. E pelo outro lado, diminuindo a sua efetividade. Isto pode
ocorrer, quando a definição pela área ( 1), leva não intencionalmente a uma
circunscrição da área errada ou da escala errada e assim nos levar a uma
má escolha do território ou então a um desperdício do processo. A má
escolha, pode ser agravada usando-se o território como um molde ( 8). A má
escolha e o desperdício diminuiriam a efetividade da organização. Mas,

devido o conhecimento e a responsabilidade dentro da organização serem


divididos de maneira diferente, a responsabilidade para retificar o
problema , pode cair dentro da hierarquia existente, desta forma intricheirar
ou até mesmo aumentar o papel da burocracia.

h. Deslocamento (5) e multiplicação territorial ( 10), facilitam para o território


parecer ser o final ao invés do meio de controle . Parecer é enfatizado,
porque a Territorialidade como uma estratégia é sempre um meio para um
fim. A Igreja católica oferece um exemplo disto. No século V depois de
Cristo, os poderes dos arcebispo eram medidos, em parte, pelo número de
dioceses e comunidades sobre seu controle. Para aumentar este poder, um
arcebispo subdividiria a sua atenção. E desta forma, aumentaria o número
de bispos e padres sobre sua supervisão.
48

i. O componente territorial, pode ter um momento seu para criar diferenças. A


sua facilidade em ajudar a reforçar os diferentes acessos às coisas ( 3),
pode se tornar institucionalizada em imposto, privilégio e classe.

j. As mesmas tendências que contribuem para a organização efetiva e


burocracia, conforme discutido em a, podem mudar a sua importância ao
serem usadas como um meio gera l de dividir e conquistar e tornar a
organização mais intricheirada e indispensável para a coordenação das
partes. No contexto do local de trabalho, as dez tendências podem ser
usadas para desabilitar uma força de trabalho e criar a disciplina fabril.

k. Classificação (1) e molde ( 8), podem ser usados especialmente, sem


intenção, para obscurecer a má escolha do território e eventos, tornando as
pessoas crentes de que a designação de tarefas particulares para territórios
particulares é apropriada, quando de fato as tarefas são designadas para a
escala errada. Um exemplo disto, seria designar maiores responsabilidades
para o abatimento da poluição em níveis locais de governo, quando de fato
as fontes de poluição particulares não são locais.

l. Deslocamento (5) e multiplicação territorial ( 10), podem desviar a atenção


das causas do conflito social, para conflitos entre os próprios territórios.

Exemplos disto, podem ser vistos na atenção dada às crises urbanas e aos
conflitos entre as cidades do interior versus os subúrbios e ao cinturão da
neve versus o cinturão do sol, ao invés de se dar atenção às relações sócio-
econômicas que causam os conflitos.

m. Moldar a Geografia das ações em várias escalas ( 8), aliada com o reforço
de responsabilidades de planejamento de longo e curto alcance à
correspondentes níveis de hierarquia (3), dá a organizações a oportunidade
de obscurecer o impacto geográfico de um evento. Isto ocorre, através de
uma especificação correta da Geografia em uma escala, digamos a
nacional, e não em outras ou dividindo uma decisão em partes, tal que o
inicio de uma ação, que pode ser irreversível, é considerado no contexto do
maior território. E a implementação da ação é deixada mais tarde para os
49

territórios menores. Uma combinação das duas coisas, é encontrada na


história da política dos Estados Unidos com relação ao poder nuclear. Foi
decidido , a um nível nacional, que uma parcela significante da nossa
eletricidade seria gerada por usinas nucleares. Este objetivo era pertinente
à nação como um todo, e estava a caminho antes que as decisões de
localização das fábricas fossem tomadas a níveis locais, e antes mesmo
que as decisões de aproveitamento da perdas fossem mesmo
contempladas.

n. As mesmas tendências que podem ajudar a fazer o controle organizacional


hierárquico efetivo ( 1, 2, 3, 6 e 8 ou a e j), podem se virar contra nós,
conduzindo a uma redução do controle e até mesmo a uma secessão.
Dividir, conquistar, desabilitar e tornar as relações impessoais, podem ser
coisas anuladas pelos potenciais que elas têm de criar desorganização,
alienação e hostilidade. Em muitos casos, a linha de montagem foi muito
longe em englobar e desabilitar. Os trabalhadores têm reagido a afirmações
sem sentido e à alienação com vários graus de resistência. E a indústria
tem, recentemente, começado a explorar novos tipos de organizações,
visando diminuir a limitação territorial dos trabalhadores em níveis menores
de hierarquia. Além disso, aqueles que resistem à limitação, podem fazer
uso dos territórios existentes de várias maneiras, como quando os
prisioneiros, literalmente, tomam posse da cela ou dos pavilhões ou quando

unidades políticas se separam.. Nos casos onde as unidades separadas


tomam uma forma territorial, nós supomos que as razões para o emprego
territorial vem das dez tendências e de suas combinações.

Estes potenciais, então, não são isolados e independentes. A


matriz na figura 2.1 , juntamente com as descrições anteriores das
combinações, tornam claro que algumas das usam, exatamente, as mesmas
tendências das outras. Mas, se difere nos pesos atribuídos a elas e às ênfases
impostas em suas conotações e significados normativos. Por exemplo, a
hierarquia e a burocracia ( a), a divisão e a conquista ( j) e a secessão ( n),
todas repousam fortemente nas tendências 1, 2, 3, 6 e 8 , mas elas fazem isto
em graus diferentes. A hierarquia e a burocracia ( a), podem ser entendidas
tanto como benevolente ou neutras na organização do uso do território. A
50

divisão e a conquista ( j), enfatizam os aspectos negativos de 1, 2, 3, 6 e 8 e


descrevem o que pode ser achado como uma organização malévola. A
secessão ( n), descreve a condição na qual um indivíduo ou grupo usa as
tendências territoriais ( 1, 2, 3, 6 e 8 ), para diminuir ou remover a autoridade de
outros. Similarmente, a ofuscação pela adoção da escala errada do território
(k), é o lado malévolo da má escolha ( g). O conflito social, obscurecido pelos
conflitos territoriais, impõe uma ênfase diferente nas mesmas tendências, do
que faz a Territorialidade como um fim ( h). A ofuscação pelos estágios, em
termos de tempo e escala ( m), é o lado negativo do planejamento de longo e
curto alcance ( b). As diferenças (l), é o lado negativo da eficiente supervisão -
a limitação (d).
Estas quatorze combinações, juntamente com as dez tendências
primárias, são razõ es e causas potenciais e conseqüências e efeito s da
Territorialidade, que estão ligadas a nossa definição. O restante do livro,
ilustrará que estas delimitam o domínio das vantagens potenciais, em um nível
suficientemente preciso e geral, para ser historicamente significante. Algumas
combinações, tais como a divisão e a conquista, têm sido associados com a
Territorialidade antes, mas a maioria das tendências e combinações, não. Isto
é uma pena, porque elas são componentes necessárias no entendimento de
como o efeito da Territorialidade familiar opera. Nós entendemos mais o papel
da Territorialidade em dividir e conquistar, quando nós percebemos que a
Territorialidade permite o emprego conjunto das dez tendências ou que

usando estas dez, com diferenças pequenas na ênfase, pode ajudar as


organizações a se tornarem hierárquicas e burocráticas ou pode ajudar a criar
uma organização ineficiente, ao invés de ajudá-las a dividir e conquistar.

Algumas das combinações, podem ser sintetizadas em


categorias mais gerais, como quando juntamos todas as combinações que
podem ser ofuscantes (k, l, m ) - Estas é claro formam um importante
componente da modernidade no capitalismo, de acordo com a teoria Marxista,
como nós veremos, e algumas podem ser mais subdivididas ainda.
Certamente, elas todas podem se tornar mais restritas, como quando a má
escolha ( g), é substituída pelo conceito econômico mais restrito da
externalidade ou quando a divisão e a conquista (j), é substituída pelo exemplo
mais restrito da política colonial britânica do século XIX na África. Mas, ao se
51

fazer alguma coisa neste sentido corremos o risco de nos tornamos gerais ou
específicos demais. Novamente, uma definição e seus vínculos estão em nível
próprio que não podem ser provadas abstratamente. Nós somente podemos
ilustrar a utilidade da teoria, em explorar casos de estudo da Territorialidade.

Os potenciais estão mais interrelacionados e suas interconexões


parecem constituir as dinâmicas e estruturas internas da teoria. A figura 2.1,
propõe algumas sugestões sobre interconexões, mais ou menos prováveis,
sobre como algumas potencialidades podem reforçar e algumas podem negar
outras. De uma maneira geral, há sugestão de que a Territorialidade pode
ajudar a aumentar a eficiência de uma organização, se for um estado, um
negócio ou uma igreja, até certo ponto. E isto pode ajudar a mudar os objetivos
de uma organização de benignos para malévolos. Por exemplo, definir as
responsabilidades territorialmente, pode ser eficiente, mas também pode criar
contratempos inadvertidos e más escolhas, quando a definição territorial se
torna um substituto para não se saber o que está sendo controlado. Estas
ineficiências, podem levar a necessidade de mais hierarquia territórios maiores
para coordenar os contratempos e as más escolhas. Mas, eventualmente, o
controle central será prejudicado, isto pode resultar dos níveis loc ais terem
mais autonomias de fato, senão de jura. Definir as responsabilidades pela
área, pode também ser usado intencionalmente para obscurecer ou disfarçar
processos, aumentar as vantagens daqueles no controle e mudar a

organização de benigna para malévola.

Algumas dessas sugestões estão ilustradas na figura 2.2 . Este


diagrama, começa com a adoção ilustrada pela reta até a, de que os objetivos
srcinais de uma organização são benignos ou neutros e que a instituição
parte das tendências da Territorialidade para aumentar o seu controle
hierárquico. Mas, algumas dessas curvas internas em pontos extremos,
sugeridos acima, podem atrasar e tornar a organização ineficiente. Isto pode
aumentar a autonomia local e até mesmo fragmentar a organização ou isto
pode tirar a organização da neutralidade e levá-la para um estado maléfico de
divisão e conquista daquele que está se controlando. Os círculos apontam
para as curvas que são, especialmente, prevalecentes na sociedade moderna.
52

Estas são somente umas poucas das muitas possibilidades que


surgem das interconexões entre os potenciais. Visando acompanhá-las mais
um pouco , a teoria deve se tornar mais explicita sob os tipos de contexto
social que serão empregados nas potencialidades particulares da
Territorialidade. É claro, que deve ser lembrado, que o contexto social nunca
foi completamente ignorado. De uma maneira muito geral, ele está
intrínsicamente ligado na própria definição de Territorialidade, nós somente o
colocamos em segundo plano, mais com relação às tendências e menos com
relação às combinações. A lógica da Territorialidade, pode carregar a
discussão ainda mais além. Mas, somente combinando-a, com mais e mais
tipos explícitos de contextos sociais, que pode ser esperado que se utilize a
Territorialidade. O contexto social deve, agora, ficar no primeiro plano, para
preencher mais das estruturas internas da teoria, tal como a tabela periódica
dos elementos deve estar disponível para que a estrutura atômica de um
átomo possa fazer sentido.

Teoria: Parte 2.

Fronteiras: história e teoria.

A ciência social está familiarizada com inúmeros tipos e modos


de sociedades. Para focalizar a discussão, nós concentraremos nos modelos
sociais de Weber e Marx. Além de serem muito influentes, este modelos têm
norteado uma ampla gama de organizações sociais e tem muito a ver com a
estrutura territorial. De maneira alguma eles são os únicos modelos aos quais
a teoria pode ser combinada.

Weber.
53

Duas facetas, especialmente, do trabalho de Weber, têm a ver


com a nossa discussão. A primeira considera as dinâmicas internas das
organizações e especialmente das burocracias, e a segunda norteia o
contexto histórico-social, no qual certas organizações sociais são mais ou
menos prováveis de ocorrer.

Partindo desse segundo exemplo, primeiro, nós notaremos que


Weber se refere a três tipos gerais ou ideais de organizações: a carismática, a
tradicional e a burocrática. A primeira não é necessariamente ligada a
qualquer período ou tipo de sociedade. Seus seguidores e lideres formam uma
organização sem vínculos. Existem poucos oficiais, regras de procedimento e
hierarquias claras. Mas, conforme o grupo persiste e especialmente na
questão da sucessão, o carisma se torna rotilizado. Isto abre caminho para um
dos dois tipos mais formais de organizações: a tradicional e a burocrática.

Conforme o próprio nome, as organizações tradicionais são


encontradas, primariamente, nas sociedades pré-modernas ou civilizações,
contendo classes sociais e divisões complexas de trabalho. Estas
organizações , repousam nos modos tradicionais de conduzir e resolver
problemas. Geralmente, a liderança é tirada de um clã específico, família ou
circulo de amigos. A justificativa para a autoridade é baseada no costume. A
hierarquia pode ser bem desenvolvida e complexa, mas a habilidade de uma

pessoa e a personalidade podem mudar o poder e o objetivo do seu


compromisso. A legitimidade da autoridade, não é tirada de se possuir um
escritório próprio, mas de estar se conectado as posições tradicionais de
liderança. As organizações tradicionais ocorrem através das civilizações pré-
mordenas. E elas caracterizam as organizações quando o carisma se torna
rotineiro. Muitos estudiosos têm chamado as hierarquia tradicionais de
burocracias, mas Weber reserva o termo para as características
organizacionais encontradas, primariamente, nas sociedades modernas que
incluem economias capitalista e socialistas. Nós prosseguiremos com a prática
de chamar todas as organizações de burocráticas, mas até o ponto em que
elas contenham características modernas, tais como as que Weber nota. A
banalização do carisma na sociedade moderna, de acordo com Weber,
conduziria, normalmente, a uma organização burocrática. As burocracias, nos
54

termos de Weber, são caracterizadas pelas linhas formais de comunicação,


também pela hierarquia clara e definições de autoridade e ainda por relações
impessoais, estas constituem as organizações hierárquicas modernas.

Mais especificamente, Weber diz que:

1) Os proprietários de escritórios individuais das buroc racias modernas são


pessoalmente livres e sujeitos a autoridade somente com respeito a suas
obrigações oficiais impessoais.
2) As próprias burocracias são organizadas em hierarquias, claramente,
definidas de escritórios.
3) Cada escritório tem uma esfer a, claramente, definida de competência no
censo legal.
4) O escritório é preen chido pelo uma relação contratual livre.
5) Os candidatos são selecionados com base nas qualificações técnicas.
Geralmente, por exames ou diplomas técnicos, treinamento ou ambos. Os
candidatos são apontados, não eleitos.
6) Eles são remunerados por salários fixos em dinheiro. O salário é,
primeiramente, estabelecido de acordo com o grau na hierarquia.
7) O escritório é tratado como ú nico ou pelos menos pela ocupação primária
do incumbente.
8) Ele constitui uma carreira. Existe um sistema de promoção, de acordo com a

antigüidade e aquisição ou por ambos. A promoção depende do julgamento


de superiores.
9) O oficial trabalha, inteiramente, separado do proprietário dos meios de
administração.
10) Ele está su jeito a disciplina sis temática e estrita e ao controle da
conduta no escritório.

Por outro lado, as organizações hierárquicas burocráticas que


não são modernas tendem a não ter:

a) Uma esfera, claramente, definida de competência, sujeita a regras


impessoais.
b) Uma ordenação racional das relações de superiorid ade e inferioridade.
55

c) Um sistema regular de compromissos e promoções com bases em um


contrato livre ou treinamento técnico.
d) Salários fixos.

Notem que a impessoalidade, é a coisa principal na lista. Quanto


maior o grau de impessoalidade, mais moderna é a burocracia.

Pesquisas mais recentes sobre a estrutura organizacional,


consolidaram e estenderam os componentes de Weber e contém sugestões
específicas sobre as suas interconexões. Os objetos de estudo, para a maior
parte delas, têm sido as organizações industriais ocidentais do século XX.
Mas, muitas das variáveis e das suas supostas interconexões podem servir
como guia para uma análise das instituições pré-modernas.
Estes trabalhos recentes, como o de Weber, apontam para o
significado da impessoalidade e imparcialidade dentro da organização
moderna e das estruturas burocráticas. E também sugerem o seguinte, como
importantes facetas das organizações:

• Especialização: aquilo que se refere à divisão do trabalho.


• Padronização: aquilo que se refere a extensão da regularidade dos
procedimentos na organização.
• Formalização: aquilo que se refere ao uso da documentação para a

definição do trabalho e comunicação.


• Centralização: aquilo que se refere ao local da autoridade na organização.
• Configuração: aquilo que se refere a forma da autoridade e a hierarquia e
também pode, geralmente, ser pelo alcance do controle.

Claro que estas são características muito gerais. Significados


mais específicos, se diferem consideravelmente de estudo a estudo. Existe
ainda o consenso de que a especialização, a padronização e a formalização
estão fortemente interrelacionadas e conectadas à estrutura hierárquica das
organizações e também à tecnologia.

Pequenas modificações têm sido feitas na faceta histórica da


formulação de Weber. Com exceção que, conforme nós notamos, outros têm
56

usado o termo burocracia mais, geralmente, para descrever as hierarquias nas


organizações tradicionais e têm encontrado dentro delas alguns exemplos das
facetas burocráticas modernas, tais como as relações impessoais. Por outro
lado, a maioria das correções têm sido feitas no primeiro aspecto da
formulação de Weber: a descrição dos processos ocorrendo dentro das
organizações modernas e burocracias.. E aqui dois caminhos da pesquisa têm
a ver com a Territorialidade:

Primeiro, conforme nós descrevemos, o trabalho recente em cima


das estruturas organizacionais tem introduzido tais facetas como
padronização, formalização, centralização e configuração, para consolidar
componentes do modelo de Weber. Segundo, a pesquisa em cima das
organizações, têm sido, explicitamente, endereçada às implicações normativas
da burocracia. Weber viu a forma burocrática como, potencialmente, a mais
racional e eficiente. Ele reconheceu algumas das suas características
negativas, tais como a sua tendência em tornar as relações uniformes demais
e impessoais, o que poderia causar a dissolução da organização e poderia
criar oportunidades para níveis carismáticos formar novos. Mas, ele estava
mais impressionado com os potenciais positivos da burocracia, da
racionalidade e da eficiência. Acima de tudo, ele apresentou a burocracia
como um instrumento com potencial para se sair bem.

O lado negativo da burocracia foi investigado e mais elaborado


pelos sucessores de Weber, especialmente, Michels e Merton. Michels,
examinou as organizações socialistas alemãs e encontrou que, apesar do
começo igualitário-idealista, estas organizações se tornaram, gradativamente,
institucionalizadas, autoritárias e rígidas hierarquicamente. Os oficiais se
tornaram mais interessados em perpetuar a si próprios e a seus escritórios, do
que se importar com os compromissos srcinais da organização. Ele atribuiu
estas tendências às burocracias em gerais e chamou-a de “Lei de ferro das
oligarquias”. Merton, descobriu outro lado malévolo da burocracia. Uma ênfase
em cima dos proce dimentos formais rígido s das discip linas e regras, ele
argumentou que deixa os oficiais com uma visão de que, a aderência aos
procedimentos formais é um fim em si próprio. A isto Merton chamou de
deslocamento.
57

Muitos outros estudos dos problemas da burocracia podem ser


citados. E sua importância coletiva, embora a caracterização de Weber não
estivesse errada, ainda havia mais das dinâmicas internas das burocracias
que, geralmente, às afastam da eficiência e dos efeitos benignos ou neutros.
Assumindo então, que as organizações são dinâmicas, que a sociedade
moderna tem organizações hierárquicas complexas, com características
particulares que Weber chama de burocráticas e que as sociedades
tradicionais possuem os tradicionais “poréns”, geralmente, hierarquias
complexas com poucas características burocráticas modernas, como tudo isto
pode ser ligado a Territorialidade ?

A união ocorre porque muitas destas dinâmicas estão espelhadas


na lógica da Territorialidade. E porque, tanto as organizações tradicionais e
modernas têm empregado a Territorialidade como partes integrais das suas
próprias estruturas. Juntando a pesquisa sobre as facetas modernas da
organização com a Territorialidade , podemos chegar às seguintes
expectativas. Em termos muito gerais, a teoria sugere que a Territorialidade da
sociedade tradicional e a da moderna, pode aumentar a eficiência
organizacional, a centralização e a extensão do controle, mas novamente em
um ponto. A teoria também antecipa, conforme na figura 2.2, que os pontos
extremos podem ser alcançados, tornando possível para a Territorialidade,

enfraquecer uma instituição. As unidades territoriais, podem ser extintas ou se


tornar capturadas por outras organizações. O processo pode ser súbito, como
quando as unidades territoriais geram ineficiências burocráticas e se tornam
fim em si próprias. Se nós focalizarmos, especialmente, nas facetas modernas
da burocracia, nós podemos esperar que nas sociedades modernas, mas
também em alguns graus nas sociedades pré-modernas (conforme foi nos
mostrado na nossa discussão sobre a Igreja Católica), que a facilidade da
Territorialidade em propiciar desembaraço de classificação, comunicação e
controle, também pode aumentar a especialização, a padronização e a
formalização até certo ponto. A expressão “até certo ponto”, deve ser
enfatizada, novamente, porque a sociedade na qual essas organizações
ocorrem têm muito a ver com as coisas específicas dessas relações e porque
os pontos críticos nas dinâmicas internas da teoria podem, novamente, ter
58

alguma coisa a ver com alguns destes efeitos. Estes pontos críticos, são
equivalentes territoriais dos efeitos oligarquicos e conservativos da
burocracia .

A lógica interna da teoria, pode ser redefinida para produzir


relações mais especificas, quando o tipo de organização usando a
Territorialidade é mais claramente definido. Conforme nós veremos no capítulo
6, para organizações burocráticas centralizadas e modernas como a militar, a
escola e a fábrica, relações quantitativ as especificáveis podem ser esperadas
de conter certos graus de Territorialidade, extensão de controle, hierarquia,
complexidade de tarefa e tecnologia.

Embora muitas relações entre a Territorialidade e as divisões


sociais hierárquicas complexas do trabalho, possam apresentar na praticidade
e organização, nós não devemos perder de vista o fato de que algumas
predominariam na sociedade moderna. Isto significa que alguns dos usos da
Territorialidade dentro de uma organização, dependem da sociedade na qual a
organização ocorre. Os governos de impérios nos estados modernos, têm a
Territorialidade subdividida nos seus domínios, porque a Territorialidade pode
propiciar a estas organizações, algumas vantagens. Mas, justamente por haver
diferenças entre as organizações tradicionais e as burocracias modernas,
também existem diferenças nos efeitos territoriais que elas empregam.

Comparando as dinâmicas destes tipos de organização, com as dinâmicas


potenciais da Territorialidade, pode ajud ar a especificar as condições de
cada. Por exemplo, as organizações tradicionais, diferentemente das
burocracias modernas, não se esperar enfatizar os efeitos da Territorialidade
em criar relações impessoais e espaços, conceituadamente, vazios.

Ainda existem os casos fascinantes e importantes das


organizações pré-modernas, contendo alguns desses efeitos modernos.
Conforme nós veremos, a Igreja Católica é um caso a se apontar. Mas,
também existem o sistema dos mandarins chineses de selecionar oficiais e o
sistema feudal inglês das cortes do rei. Estes sistemas, possuíam aparelhos
territoriais para ajudar a manter as relações a nível impessoal. Um dos
59

recursos era o rodízio de oficiais de um território a outro ou pelo menos não


estabelecer um oficial na sua região nativa.

Marx.

Uma segunda teoria social que pode ser ligada com sucesso com
a Territorialidade, é o Marxismo. Marx não examinou a possibilidade das
dinâmicas burocráticas como um fenômeno independente. Ao invés disso, os
seus escritos discutem sobre a burocracia como uma instituição a ser
manipulada pela classe dominante. Isto é porque, Marx ensinou que a divisão
social do trabalho, conforme manifestado nos arranjos, especializações e
papéis, é determinada pela divisão econômica do trabalho. As idas e vindas da
burocracia, são ligadas ao desenvolvimento das classes econômicas e suas
interrelações. Uma vez que o comunismo remove o conflito de classe, o
Estado como um agente da opressão, definharia. Marx não se prendeu
diretamente à questão de que, se a burocracia também definharia junto com o
Estado. Mas, em sua crítica inicial a Hegel, ele vê o socialismo simplificando a
burocratização do Estado. Recentemente, os marxistas reconheceram que a
burocratização é uma força a ser considerada nos países socialistas, senão no
mundo utópico do comunismo. As burocracias soviéticas, têm dinâmicas

internas e contradições próprias. As tendências oligarquicas do governo da


burocracia por exemplo, podem criar o equivalente da estrutura de classe e
interesses e suas formas, importâncias e dinâmicas são afetadas pelos
contextos social-históricos. Este trabalho literário então, pode adicionar
especificações outras, as direções e as importâncias das dinâmicas dentro da
burocracia.

Mais diretamente, o nosso propósito é que a teoria Marxista do


conflito de classes no capitalismo, quando aplicada na Territorialidade,
separaria as combinações que causam ofuscação da Territorialidade (a k, l e
m), como as mais importantes dos estágios mais avançados do capitalismo. As
combinações que causam ofuscação, seriam esperadas devido a tendência
geral do Capitalismo em disfarçar os conf litos de classe. E por causa da
60

posição peculiar do trabalho vis-à-vis do Estado e do capital, que tem uma


importância particular, com relação a teoria do Estado. Por outro lado, o
Estado tenta manter o capitalismo, que por sua vez deve conter ou reduzir o
conflito de classe, proclamando ser o campeão das pessoas e um veículo
para se conseguir mercadorias públicas. Este papel duplo, significa que os
recursos e as formas de poder, devem sempre ser disfarçados e as tendências
da Territorialidade, que causam a ofuscação, devem ajudar nisso. A ofuscação
territorial, não precisa ser aplicada somente a nível de Estado ou a nível local.
Ela pode aparecer também no local de trabalho, na escola e nos reinos de
consumo.

Além disso, a teoria Marxista em conjunto com uma análise geral


da modernidade, aponta para o presente e o passado recente, como a hora de
se esperar uma ocorrência mais intensa e mais freqüente do espaço
esvaziável (e). Isto é porque o capitalismo reforçar visão do espaço como uma
moldura para locaç ão e distribuição dos eve ntos. O capitalismo ajuda a
transformar o espaço local em comodidades. Ele ajuda a ver a superfície da
Terra como uma moldura espacial, na qual, os eventos são locados,
contingentemente e temporariamente. A necessidade do Capitalismo pela
cumulação de capital e por crescimento, torna a mudança superior. E
geograficamente, mudar significa uma relação fluida entre as coisas e o
espaço. O futuro e as ações produzidas no futuro, são concebidos de

contínuas alterações das relações geográficas. A Territorialidade então, se


torna um molde para o preenchimento do espaço e para a definição e
manutenção do espaço vazio.

Os seguidores de Weber, bem como os marxistas, apontariam


para o fato de que as civilizações pré-modernas, podem ser diferenciadas nos
seus usos da Territorialidade, mas que as diferenças nos usos entre elas são,
sobre vários aspectos, não tão grandes quanto as diferenças entre os seus
usos e aqueles usos na sociedade moderna. Eles também concordariam, que
somente mais um marco histórico comparável, ocorreu no uso territorial. E este
aconteceu na transição entre a sociedade primitiva e a civilização.
61

Marx e, especialmente,. Angells, caracterizam o modo primitivo


como, essencialmente, diferente dos outros modos pré-capitalistas. Para eles,
o modo primitivo significa uma sociedade igualitária em pequena escala, com
poucos, senão nenhuma, inst ituição de opre ssão. O uso primitivo da
Territorialidade, parecia diferente daquele encontrado nas civilizações, tanto
pré-capitalistas quanto capitalistas. Por exemplo, na sociedade primitiva se
esperaria encontrar o uso freqüente ou intenso da Territorialidade., para
formar relações impessoais ( 6), para moldar ( 8), conceituadamente para o
local vazio ( 9) ou para multiplicar territórios ( 10) e não se esperaria encontrar a
maioria das combinações , especialmente, a definição territorial para relações
sociais (c).

Há ainda, muito a se dizer sobre as ligações entre a teoria da


Territorialidade e as teorias marxistas de Weber e de outros, sobre o poder e a
organização. Conexões mais específicas, podem e serão feitas mais adiante
no livro e examinadas nos casos concretos e históricos. Ao discutirmos a
modernidade nos capítulos subsequentes, nós consideraremos as
interpretações da Territorialidade pelos neo-Smithianos e pelos neo-
Keynesianos, bem como pelos Weberianos e marxistas. Mas, esse esquema é
suficiente para apontar as possíveis áreas sobre as quais, uma história da
Territorialidade se devia concentrar.

A figura 2.3 , resume as relações principais que nós


mencionamos, entre os usos da Territorialidade e suas associações com
aqueles contextos social-históricos sugeridos, especialmente, por Marx e
Weber, e o entendimento geral da história. Ela enfatiza, a ampla conexão
entre a Territorialidade e a mudança na economia política. Ela então
considera, uma divisão econômica do trabalho, como sendo um fator primário
em determinar quem controla quem e para que propósito. Isto não significa, é
claro, que a Territorialidade seja afetada por outros fatores, econômicos e não-
econômicos. A figura 2.2, sugere como a organização hierárquica é um fator
de influência na Territorialidade, ela propõe que a maioria das mudanças
territoriais podem ser associadas com as mudanças na economia política. Os
dois períodos históricos críticos, indicados na figura 2.3 , são o surgimento
das civilizações e o surgimento do capitalismo e da modernidade(Embora, o
62

capitalismo e a modernidade não sejam sinônimos - esta última inclui


componentes culturais e ideológicos que não são reduzíveis a termos
econômicos - o Capitalismo é um elemento historicamente crucial do
modernismo. E por razões de brevidade, os dois termos serão às vezes
usados intercambiavelmente. Países chamados de socialistas, como a União
Soviética, também são modernos, mas como há pouco consenso sobre a forma
econômica-política deles, o seu uso da Territorialidade não será discutido
separadamente).

No surgimento das civilizações, os efeitos mais importantes da


Territorialidade, são os seus usos para o governo de outros, par definir
relações sociais, para dividir, subjugar e para organizar populações. O efeito
territorial mais importante que acompanha o surgimento do capitalismo, são os
seus usos em espaços, conceituadamente, vazios e criar burocracias
modernas e em camuflar as fontes do poder. Estes esquemas das conexões
predominantes entre as organizações históricas e as funções territoriais e
juntamente com a figura 2.2 e as sugestões gerais contidas na figura 1.2 ,
servirão como modelos de organização para o resto do livro.

A figura 2.3 , resume as idéias sobre o passado, mas assim


também o faz toda a história escrita, em oposição talvez ao que realmente
aconteceu no passado. Os capítulos subsequentes, tentarão mostrar que o

registro histórico(incluindo o que outros além de Marx e Weber disseram sobre


o passado), tende a confirmar estas associações hipotetizadas e usam a
palavra “tende”, por várias razões. A extensão de tempo e espaço a ser
coberto é muito vasta. Somente as partes principais podem ser
esquematizadas, o que significa uma seleção judiciosa de casos e
amostragem da vasta quantidade de fontes secundárias. A interpretação
histórica está em fluxo contínuo. Visões alternativas são abundantes para
praticamente qualquer período, como também debates sobre a importância do
período e a duração. O que o capitalismo é e quando ele praticamente se
tornou importante, é algo timidamente resolvido. O mesmo ocorre para outros
períodos e organizações sociais. O que Marx e Weber oferecem, são modelos
gerais(e modelos, especialmente, os sociais, são representações parciais e
aproximadas da realidade), um número maior de estudos históricos mais
63

detalhados, pode ser encontrado, o que tende a aceitar as suas tipologias


sociais gera is. A evidência desses trabalhos detalhados, será usad a no
próximo capítulo, para citar as relações sugeridas na figura 2.3; e
especialmente para destacar as duas transações globais - da primitiva para a
civilizada, e da pré-capitalista para a capitalista. Estas mudanças também
serão descritas na conjunção com as mudanças nos conceitos e usos do
espaço e tempo. O capítulo 3 então, é um resumo da história da
Territorialidade, do espaço e do tempo.

A figura 2.3 , enfatiza as forças econômicas atrás das relações


social-territoriais. Mas, ela também sugere que vários efeitos territoriais, tais
como definir as coisas pela área e reforçar o acesso, pode ocorrer em
qualquer sociedade, ao passo que outras, tais como o uso da Territorialidade
para tornar relações impessoais e para aumentar a extensão do controle,
podem ser achados em todas as civilizações, porém, principalmente, nas
modernas do que das pré-modernas. Em outras palavras, as instituições com
características modernas podem existir dentro das sociedades pré-modernas e
vice-versa. Além disso, o que não está descrito da figura 2.3, mas está
implicado na matriz geral da figura 2.1 e está ilustrado na figura 2.2, é que as
relações entre as pessoas e o território podem s ofrer mudanças importantes,
enquanto a sociedade na qual elas ocorrem pode não sofrer. Embora, a
política econômica de uma sociedade, pelo menos no nível da generalização

descrito na figura 2.3, possa permanecer a mesma, os efeitos territoriais sobre


as pessoas e dentro de uma organização, conforme ilustrado pela figura 2.2,
podem ter uma dinâmica própria. O capítulo 4, sobre a Igreja, vai explorar
estas possibilidades. Examinando as dinâmicas territoriais internas das
organizações da Igreja e suas relações com a mudança econômica-política.

A Igreja é um dos exemplos mais duradouros e melhor


documentados, de uma instituição usando a Territorialidade como parte
integral da sua organização. A paróquia , a diocese e a arquidiocese e também
a divisão arquitetural dos prédios das igrejas, claramente, revelam a crença da
Igreja na Territorialidade. Estes aspectos da organização da Igreja, foram
desenvolvidos diferentemente durante os três principais períodos históricos: o
clássico, o feudal e o moderno. Durante o último período, as dinâmicas
64

internas da Igreja parecem ter resistido, principalmente, a muitas mudanças


político-econômicas externas que acompanharam a modernização. Nos
períodos , romano e feudal , os efeitos territoriais da Igreja foram mais
modernos do que o caso de outras instituições da época. Mas, no final da
Idade Média, os mesmos efeitos serviram para separar a Igreja da sociedade e
isolá-la da mudança social. De forma que, desde então, a reforma da Igreja
serve de exemplo de uma organização arcaica, ao invés de uma organização
moderna. Esta mistura de mudança e persistência das dinâmicas internas e a
resistência à mudança, faz da Igreja um caso importante para o estudo das
interconexões entre a hierarquia, burocracia e a Territorialidade, dos tempos
pré-modernos até o presente.

O capítulo 5, que é sobre o sistema territorial americano, usará a


formação política da América do Norte, do século XVI até o presente, para
concentrarmos novamente nos temas do uso moderno da Territorialidade,
especialmente, o seu papel em criar um conceito de espaço esvaziável, de
facilitar a burocracia e de obscurecer as fontes do poder. O capítulo 6, o local
de trabalho, concentrará em como estes mesmos usos modernos da
Territorialidade se desenvolverem nos últimos 300 anos, a níveis locais e
arquiteturais.

3. Modelos históricos: Territorialidade, espaço e


tempo.

Para os humanos a Territorialidade é uma estratégia que afeta,


influencia e controla. Ela é usada em conjunto com as estratégias espaciais
não-territoriais. A seleção da Territorialidade e o efeito, dependem do contexto

social, em como o espaço em geral é usado e concebido e bem como quem


está controlando quem e para que propósitos. Isto significa que a história da
Territorialidade, está intimamente ligada a história do espaço, do tempo e da
organização social. Antes de explorar estas interconexões e, especialmente, a
65

Territorialidade dentro de dois marcos históricos - o surgimento da civilização


e o surgimento do capitalismo e do mundo moderno - faz-se por bem apontar
algumas tendências históricas gerais da Territorialidade:

Tendências e Complexidades.

Primeiro, existe uma forte evidência indireta de que o número


total de unidades territoriais autônomas no mundo, têm diminuído
enormemente desde os períodos pré-históricos até o presente. O declínio não
tem sido initerrupido, mas desde o surgimento das civilizações, não se tem
dúvidas sobre suas direções gerais. A população total do mundo, durante o
período Paleolítico, pode não ter sido mais de 3 milhões. A humanidade era
dividida, em cerca de 100 mil ou mais, pequenas entidades independentes.
Através da observação contemporânea da caça pré-literata das sociedades de
colheita e refletindo sobre os motivos pelos quais tais grupos têm sido
territoriais do passado, nós podemos concluir que, embora cada um destes
povos pré-históricos ocupassem uma área geográfica, nem todos fizeram uso
da Territorialidade e muitos fizeram muitos uso somente intermitentemente. E
mais ainda, havia espaço suficiente para um número de unidades
territorialmente autônomas, que eram na ordem de dezenas de milhares. Isto é
um número muito grande quando comparado com as 150 nações-estados dos
anos 80, que de alguma forma são independentes ou autônomas.

Segundo, desde os tempos pré-históricos, o tamanho dessas


unidades territoriais autônomas têm aumentado, das áreas de coleta e caça e
também das áreas para a agricultura das vilas e povoados, para enormes
impérios estados-nações. (conforme nós notamos com os Chippewa, as
poucas sociedades de caça e coleta que tinham grandes áreas, uma razão
para o seu domínio vas to e não-territorial pode ter sido a escassez e a

imprevissibilidade do alimento e de outros recursos, mesmo se eles pudessem


reforçar a Territorialidade, isto faria, inevitavelmente, da Territorialidade uma
estratégia pobre.)
66

Terceiro, estas poucas e enormes unidades autônomas, se


tornaram gradativamente subdivididas e fragmentadas em várias sub-unidades
territoriais, estas formam as hierarquias territoriais dentro da sociedade. É
através desta subdivisão que o número total de territórios, além do tipo
autônomo tem aumentado. Os antigos impérios foram subdivididos em uma
multiplicidade de camadas menores de jurisdição, também da mesma forma
foram os espaços de produção e consumo. A criação de enormes complexos
de edifícios, subdivididos em salas e compartimentos, indica os layouts dos
territórios nos menores níveis geográficos. A nação-estado moderna possui
níveis territoriais sem precedentes, para cada reino da vida. As unidades
políticas são hierarquicamente ordenadas, da nação-estado até as
administrações locais. E mesmo os distritos com o único propósito; os
escritórios, as fábricas e as casas têm se tornado independente com
hierarquias próprias.

Entender estes padrões gerais e os inúmeros efeitos que eles


englobam, requer desvendar os tipos de territórios e os contextos sociais e
históricos em que eles ocorrem - sabendo especialmente quem está
influenciando e quem está controlando quem e porquê. A teoria da
Territorialidade diz que sociedades que não têm hierarquias formais, classes
econômicas e outros tipos de diferenças institucionalizadas, usariam a
Territorialidade de uma maneira diferente daquela que o fazem. Os

historiadores e os pré-historiadores, sugerem que sociedades, relativamente,


não-hierarquicas (similares aos aborígenes Chippewa), foram comuns antes
do surgimento da civilização e algumas têm persistido até os dias de hoje nos
lugares mais remotos do mundo. Estas têm sido chamadas, por tanto tempo,
de sociedades primitivas, que nós empregaremos o termo, apesar da
conotação negativa que ele tem. No seu uso que se pensa indicar, uma
condescensão sobre a parte da pessoa, presumidamente, não-primitiva que o
usa. Entretanto, o sentido original do termo não é de maneira alguma
pejorativo. Ele significa, primário ou original no tempo ou mesmo na
classificação. O nosso uso do tempo tem a intenção de convencionar o uso
srcinal não-pejorativo. Nós estamos interessados nos tipos de sociedades
primárias, srcinais ou primitivas e seus usos do espaço e se seus usos se
comportam, conforme aqueles citados na discussão no capítulo 2.
67

Outro ponto sobre o termo primitivo, é que ele também implica


que os humanos progrediram através de dois estágios no mínimo - do primitivo
para o não-primitivo ou civilizado. Mas, exatamente o que as idéias de estágio
e progresso significam? Alguns diriam que este estágio é uma seqüência
necessária, na qual a sociedade anterior, de alguma forma, causa ou dá
razões para o surgimento da última e que o estágio é também uma progressão
necessária em direção a uma forma maior ou melhor. Tais significados de
estágios são impossíveis de se suportarem, no caso da história humana. E
certamente não são o que se intenciona ser os nossos interesses no primitivo,
nas transições do primitivo para o civilizado ou para a questão das transições
do feudalismo para o capitalis mo. O nosso interesse em formas particulares
de organização social, incluindo a primitiva, tem a intenção de apontar para o
fato que muitos tipos diferentes de organizações sociais, existiram, que alguns
predominaram somente por períodos particulares e que outros ajudaram a
ocasionar outros.

Estas mudanças e seqüências, entretanto, devem ser separadas


das idéias de que elas foram de alguma forma inevitáveis, necessariamente,
para melhor e em uma direção somente. A idéia de mudança deve permitir ao
fato, que as formas primárias de organizações sociais, não sejam inteiramente
substituídas por formas novas e que as forma s novas pode m ter algumas

representações anteriores. A idéia de mudança, então, deve ser sensível ao


fato de que organizações do passado persistem , embora de formas alteradas,
com estruturas atuais e que, embora uma estrutura particular possa
predominar, uma sociedade, usualmente, contém outras formas misturadas.

Com referência primitiva, nós podemos dizer que antes de 7 mil


anos atrás, não haviam sociedades cujas características fossem dominadas
por aquelas que são associadas com a civilização. Mas, logo após o período
de 7 mil anos, nós achamos que haviam várias sociedades possuindo
importantes características associadas com a civilização. Isto não significa que
as sociedades primitivas não continham traços dos atributos associados com
as civilizações ou que as civilizações não contém atributos das sociedades
primitivas. As fronteiras das primeiras civilizações, englobavam comunidades
68

primitivas. As comunidades primitivas, continuavam a existir, além das


fronteiras da civilização. Entretanto, nós devemos assumir que, aquelas que
persistiam, além dos domínios dos impérios, foram ,eventualmente, embora
geralmente indiretamente, alteradas pelas presenças das civilizações. Talvez,
seus costumes e culturas materiais foram mudados ou talvez eles,
simplesmente, foram forçados a se mudar para novas regiões, porque
pressões indiretas da população, demandavam por uma expansão da
civilização, isto é a intermistura do velho com o novo. E não somente com
relação ao surgimento do capitalismo, que é o nosso objeto de discussão das
transições e mudanças históricas.

Retornando à caracterização da primitiva, é importante para nós


construir uma descrição mínima desta sociedade, que melhor comporte a
evidência e que enderece os assuntos sobre o uso do espaço e da
Territorialidade, mas a evidência não é tão facilmente compreendida. O
conhecimento sobre a primitiva é indireto e vem de duas fontes diferentes:
primeiro, o registro arqueológico e em segundo, as observações escritas
através da história das sociedades com uso de tecnologias comparáveis
àquelas que foram usadas pelos arqueólogos. Estes registros escritos são
sobre sociedades que indubitavelmente mudaram e que foram influenc iadas
pelos contatos com as civilizações. Entretanto, suas tecnologias, organizações
sociais e sistema de crenças são, por outro lado, muitos diferentes dos destas

civilizações e também possuem fortes semelhanças com que nós sabemos das
sociedades primitivas a partir do restos arqueológicos. A abstração e a
combinação dos dois tipos de evidência, apresenta um quadro composto que,
com as devidas precauções, servirá para a caracterização das sociedades
primitivas.

As economias políticas primitivas.

A economia doméstica.
69

Uma vez que a Territorialidade é uma forma geográfica de poder


e sua importância depende de quem está controlando quem e para quê
propósitos, nós devemos começar as nossas explorações da Territorialidade
nas sociedades primitivas, com um quadro geral de como elas usam o poder e
a autoridade. Isto é melhor alcançado, examinando-se as suas economias
políticas.

De una maneira geral, as sociedades primitivas são menos


complexas do que as civilizações. Elas têm menos divisão de trabalho,
especialização interna, menor número de pessoas e contém menores áreas
geográficas. Sua sobrevivência pode ser obtida através de qualquer
combinação de coletas, caça, busca por comida, criação de gado e agricultura.
Virtualmente em todo grupo primitivo, o domicílio é a unidade básica da
produção e consumo. Esta unidade pode ser composta de uma família primária
ou de uma estendida. Uma mistura de domicílios (relacionados ou não) pode
ser chamada de um bando.

Nas sociedades de caça, de coleta e de busca de alimentos, os


bandos são geralmente sisonais. Os domicílios se mudam de acordo com a
distribuição dos recursos e, geralmente, se juntam em bandos novamente
quando é época de esforços cooperativos. Os tamanhos dos bandos variam,
mas raramente eles se aproximam do tamanho, mesmo de uma cidade

moderna pequena. Entre os caçadores e coletores, talvez os esquimós tenham


as maiores vilas, existindo nos locais de boa caça, várias centenas de
habitantes. Os clãs e as tribos, são mais complexos do que os bandos e
podem se manter unidos através dos laços familiares e linhagens, reais e
fictícias. O termo tribo, se refere a uma extensão dos tipos organizacionais.,
muitos dos quais têm sido uma resposta das sociedades primitivas às
pressões da civilização. Para a sociedade primitiva, as forças sociais,
empurrando os indivíduos para grupos maiores, tendem a ser mais fracas,
conforme o tamanho ou nível de complexidade do grupo aumenta. Ela é mais
forte dentro do domicílio e mais fraca dentro da tribo, se e quando ela existe. O
termo geral, comunidade, será usado para abarcar a extensão das unidades
sociais, as quais o domicílio pode pertencer.
70

A natureza da economia primitiva, repousa nas interrelações


entre seu tamanho pequeno, sua tecnologia acessível e seus valores comuns
igualitários. A figura 3.1, ilustra como cada uma destas reforçar a outra. Sob
muitos aspectos a sociedade primitiva carece de classes econômicas, bem
estar herdado e instituições legais, políticas ou administrativas ou ainda do
aparato do Estado para as pessoas. A sociedade primitiva é participatória. Os
conflitos dentro da comunidade não são dirigidos contra as instituições ou
entidades corporativas, mas sobre indivíduos específicos. A liderança é um
consenso e os lideres são aqueles que surgem de acordo com a ocasião.
Pode haver um líder de caça, outro de assuntos espirituais, outro que é o
homem sábio e etc. Estes papéis não são coercivos, eles não são herdados.
Os usos primários institucionalizados do poder podem ser restritivos - não
igualitários - e são aqueles que designariam responsabilidades sob as bases
do sexo e da idade. Esta base consensual da política está intimamente
relacionada com a natureza igualitária do sistema econômico.
Freqüentemente, se ouve que ninguém passa fome em uma comunidade
primitiva, a menos que todos passem. Geralmente, um bom líder de caça doa a
sua porção, então recebe uma porção (modesta) para ele próprio e para seus
dependentes.

A divisão toma a forma da reciprocidade e é reforçada conforme


a figura 3.1 sugere, pelo tamanho pequeno das comunidades. Se um homem

forte começa a usar o seu poder injustamente ou sem sabedoria, aqueles que
estão descontentes ou que estão sendo prejudicados, podem sair para formar
a sua própria comunidade ou se juntarem a outra. Se isto não for possível, a
comunidade pode adotar uma postura de ostracismo com relação ao “brigão”.
Uma vez que estas comunidades são pequenas, os efeitos da ação de alguém
sobre outros pode ser visto rapidamente por todos. Esta intimidade e a
interdependência econômica dos membros da comunidade torna a ajuda
mutual e a cooperação importantes coisas.

Novamente, conforme a figura 3.1 indica, a inegualdade


econômica é mais improvável ainda por se ter uma tecnologia acessível. As
ferramentas podem ser complexas e intrigantes, mas o conhecimento de como
usá-las é largamente difundido. Embora alguns possam ser capazes de fazê-
71

las melhor do que os outros, isto não torna impossível que os outros a
produzam. O conhecimento da manufatura da ferramenta, não pode ser
monopolizado e nem ninguém dentro da comunidade pode monopolizar o
gamo, o peixe, as amoras ou as castanhas. Mesmo se a sociedade é de
agricultura, raramente há uma escassez de terra arável. E então, novamente, a
monopolização dos lotes dentro da comunidade é algo improvável.

Isto não significa, entretanto, que a comunidade não possa


designar lotes diferentes da terra., para ser usados por diferentes domicílios.
Isto pode, freqüentemente, ter sido o caso, mas a terra permaneceria da
comunidade. As designações seriam baseadas na necessidade do domicílio e
seriam periodicamente reavaliadas. A própria terra pode nem sempre ser o
foco primário de valor, geralmente são feitas distinções entre a terra e seus
produtos. A terra em si, não pode ser designada a ninguém em particular. Ao
invés disso, pode ter sido dado a uma pessoa ou uma família o direito de fazer
a colheita das arvores de amora.

A família, os relacionamentos e as amizades ritualizadas


propiciam os canais complexos da reciprocidade, através dos quais o trabalho,
as fontes e os produtos fluem para igualar as discrepâncias e par serem
divididos nas horas de emergências. Não poderiam essas obrigações
familiares recíprocas conter arranjos diferentes de relacionamentos?. Elas

podiam!. A idade e o sexo, conforme nós notamos, podem criar diferenças e é


provável que existam outras que tenham a ver com a habilidade e a
personalidade. Mas, estas não vão sair do controle e permitir que indivíduos e
famílias monopolizem o poder e os recursos, por causa das restrições
impostas em cima das diferenças da tecnologia acessível e da baixa
densidade da população. Em resumo, sobre estas condições a reciprocidade
significa um retorno igual de obrigações.

Nós devemos ressalta r, que o igualitarismo destas comunidades


se aplica primariamente à circulação e ao consumo das necessidades e que
inúmeros tipos de diferenças, existem em outros reinos. As pessoas se diferem
em talentos e habilidades e os povos primitivos também possuem
propriedades pessoais ou privadas. Eles podem possuir as suas próprias
72

armas, os seus próprios abrigos e suas próprias vestimentas. Em alguns


casos, eles podem até mesmo possuir, as suas próprias lendas. Mas, estas
diferenças nas habilidades e posses, não impedem que outros tenham uma
sobrevivência, também. Embora estas comunidades sejam pequenas, pessoais
e, geralmente, muito ligadas, elas não são necessariamente harmoniosas. Os
conflitos, mesmo os violentos, estão documentados nas observações
etnológicas e também são partes de muitas destas lendas desses povos.

O pequeno tamanho destas comunidades e sua falta de


especialização e divisão de trabalho, afeta não somente a sua economia
política, mas também as suas relações com a natureza. Ele faz com que o
contato delas com seus arredores pareça fechado e íntimo. Isto é
freqüentemente expresso no uso da família como uma analogia das relações
entre a sociedade e o mundo. Esta extensão analógica da família contribui
para a visão geral primitiva da unidade da natureza. Ela apresenta a natureza
como pessoal e vital. Ela cria um senso de responsabilidade entre o homem e
a natureza e conduz a importantes conceitos de espaço, local, tempo e
território.

Territorialidade.

A conexão entre um povo primitivo e o local que ele ocupa, se


torna extremamente fechada, deixando de lado o momento em que o local é
territorial ou não, não somente devido a familiaridade e a dependência, mas
também porque as pessoas começam a pensar nelas mesmas como ligadas
organicamente e até mesmo espiritualmente ao local. O seu domínio
geográfico pode ainda ser uma área inteiramente ocupada ou somente os
locais especiais. Em cada caso, acredita-se que a terra é habitada pelos
espíritos dos ancestrais e seu local geográfico no mundo pode ter sido dado a

eles pelos seus deuses. Na Austrália, cada grupo totêmico está associado com
um local, do qual um ancestral totêmico, supostamente, emergiu. Quando uma
pessoa morre, seu espirito retorna ao lugar da srcem totêmica. Os aborígenes
Aranda, do norte da Austrália
73

se apegam ao seu solo nativo com cada fibra do seu ser. Eles sempre falam
dos seus locais de nascimento com amor e reverência. Hoje as lágrimas vêm
aos seus olhos, quando eles mencionam que um local ancestral tem sido às
vezes violado pelos brancos usurpadores do território do seu
grupo...Montanhas e riachos, primaveras e olhos d’águas, são para eles nada
além de interessante ou bonitas características cênicas...; eles são o trabalho
dos ancestrais, dos quais eles descendem. Eles vêem, registrados nos
arredores, a história antiga das vidas e os atos dos importantes seres a quem
eles reverenciam. Seres que, por um breve momento no espaço, podem tornar
a forma humana, novamente. Seres que, para muitos deles, foram conhecidos
através das suas próprias experiências, como seus pais, avós, irmãos, mães e
irmãs. O campo inteiro é uma árvore da família viva. A história dos seus
ancestrais totêmicos, é para o nativo o que conta desde o começo da sua vida
até o final dela, quando o mundo que ele conhece está sendo moldado e
formado por mãos poderosas.

As formas da paisagem predominantes são geralmente aquelas


incorporadas dos mitos, que ajudam a dar sentido ao espaço vivo. De acordo
com o folclore índio Penobscot, a maioria da paisagem é um resultado das
peregrinações do personagem mítico Gluskabe. As pegadas do sapato de
neve de Gluskabe, estão ainda impressas nas rochas perto de Milla, Maine;

uma rocha de 25 pés de comprimento próximo de Cas tine é a sua canoa


virada; as rochas que conduzem a ela são as suas pegadas; a montanha de
Kineo é a sua panela virada. Um local na terra e muitos mitos das criações foi
dado às pessoas especificamente pelos deuses. Os Pawnee , por exemplo,
acreditavam que eles foram guiados desde a terra até o presente local pela
mãe Millo.

A crença na habitação da terra pelos espíritos dos ancestrais e


no concedimento místico da terra para as pessoas, é uma razão pela qual é
provável que, se a comunidade tivesse que impor um controle territorial sobre
a terra, eles o fariam através da definição social do território. Mas, antes que
nós exploremos estes pontos mais profundamente, nós precisamos determinar
que condições fazem as comunidades primitivas usar a Territorialidade.
74

A teoria sugere que a Territorialidade, pode ser esperada,


simplesmente, porquê ela pode ser um mecanismo eficiente para estabelecer
acessos diferenciais, quando os recursos a serem controlados ocorrem
relativamente de maneira previsível e densa no espaço e no tempo. Limpar,
plantar, retirar as ervas daninhas e colher, são todas atividades estáveis,
densas e previsíveis no espaço e no tempo. E assim, as comunidades
agrícolas, se não for por outra razão além de manter os animais longe e de
prevenir que as pessoas passem pelo caminho, podem ser esperadas usar a
Territorialidade. A necessidade pela Territorialidade na comunidade, também
aumentará se houver competição por terra de fora dela. A mesma lógica se
aplica à estratégia de Territorialidade para os não-agrícolas - os caçadores e
coletores. Eles podem ser esperados de usar a Territorialidade, se os recursos
que eles precisam forem relativamente previsíveis no espaça e no tempo.

Estas expectativas são abundantes na literatura. As comunidades


agrícolas tendem a ser territoriais como um todo e tendem a subdividir a terra
dentro da comunidade. E estas tendências aumentam, conforme a densidade
das populações aumentam. A Territorialidade nas sociedades de caça e coleta
depende da distribuição dos recursos no espaço e no tempo. Duas sociedades
similares social e culturalmente, como por exemplo, Utes e os Paiutes se
diferem em seus graus de Territorialidade, por causa das diferenças na

distribuição dos seus recursos no espaço e no tempo.

A eficiência do acesso é uma razão para a sociedade primitiva


empregar uma estratégia territorial. Mas, outras razões mais fortemente
relacionadas podem também ser encontradas na evidência. Por exemplo, a
facilidade pela qual uma fronteira territorial comunica posse ou controle, pode
ser vantagem particular nas sociedades pré-literatas. Também na medida em
que o mágico e o ritual, são componentes extensivos das comunidades
primitivas. A reificação e os efeitos de deslocamento da Territorialidade,
podem ser usados como vantagens em demarcar locais sacros e áreas de
tabu. Dados estes efeitos fazem, o sagrado visível e o visível sagrado.
75

Mas, outras potencialidades tais como a criação de relações


impessoais, o aumento do limite de controle e o efeito do planejamento de
longo e curto alcance, simplesmente, não são usados por uma sociedade que
não seja grande e que não tenha hierarquia e burocracia. E o mais importante,
uma sociedade primitiva, provavelmente, não teria que se definir
territorialmente. Lembremos que, uma definição territorial das relações sociais
é sempre uma questão de grau. Uma definição social significa que, para ter
acesso a terra, uma pessoa deve ser um membro da sociedade, o que na
sociedade primitiva significa participar da história espiritual do grupo. Por
exemplo, na tradição Bakongo

a propriedade do solo é coletiva, mas este conceito é muito complexo. É o clã


ou a família que possui o solo. Mas, o clã ou a família não é composto
somente dos vivos, mas também e, primariamente, dos mortos; que é o
Bakulu. O Bakulu não são todos os mortos do clã; eles são somente os
ancestrais de direito, aqueles que estão levando uma vida bem sucedida em
suas vilas debaixo da terra. Os membros do clã que não respeitam as leis da
tradição...são excluídos da sociedade. É o Bakulu que conquistou os domínios
do clã, com suas florestas e rios, riachos e primaveras. São eles que estão
enterrados nessa terra, eles continuam a comandar a terra. Eles, geralmente,
retornam das suas primaveras e rios e dos riachos. As bestas selvagens da
floresta são os seus bodes, os pássaros são suas aves de criação. São eles

que dão as lagartas comestíveis das árvores, os peixes dos rios, os vinhos das
palmas e as colheitas dos campos. Os membros do clã que estão sob o solo
podem cultivar, colher, caçar, pescar; eles fazem uso do domínio de seus
ancestrais, mas é o morto que permanece como guardião. O clã e o solo que
ele ocupa, constitui uma coisa indivisível e o todo está sobre as regras do
Bakulu, de maneira que uma alienação total da terra ou de parte dela, é algo
contrário à mentalidade dos Bakongo.

Uma definição social da Territorialidade é encontrada em todas


as sociedades, mas ela constitui o senso social primário do território nas
sociedades primitivas. A vantagem territorial da classificação pela área e não
pelo tipo ou espécie - que é um fator principal na definição territorial das
relações sociais - é desnecessária para uma comunidade primitiva usar para
76

definir o seu próprio quadro social. O tamanho pequeno e a associação


próxima das pessoas em uma comunidade primitiva, significa que seus
membros estão familiares o suficiente uns com os outros, para requerer um
território e para definir quem e quem não faz te dele. Da mesma forma, não é
necessário identificar estranhos ou não-membros. Eles são simplesmente
aqueles que não têm relações com os membros da sociedade.

Pode se supor que uma definição territorial da comunidade


poderia ser útil com aqueles grupos ou bandos primitivos que permitem a
entrada, relativamente, livre e a saída dos seus membros. Nestes casos,
simplesmente, estabelecendo a residência dentro das fronteiras do grupo,
varia com que a pessoa fosse um membro da comunidade e permitiria à ela o
acesso a seus recursos. E desta forma isto significaria que tal comunidade
estaria usando da Territorialidade para se autodefinir, isto entretanto, não é
real. Primeiro, a entrada nestas comunidades não seria livre, ela ainda
dependeria de um grau considerável de aceitação social e contato pessoal.
Segundo, mesmo se a entrada fosse relativamente livre, seria difícil para uma
sociedade pré-literata, com um alto fluxo de membros, se definir pelas
fronteiras que teriam de ser demarcadas e relembradas ano após ano. Como
tais reivindicações territoriais persistiriam e como elas poderiam ser
transmitidas numa sociedade pré-literata com um alto fluxo?.

Assim parece razoável dizer que quando uma sociedade primitiva


emprega a Territorialidade, ela se define socialmente. Isto se aplica não
somente para o território do grupo inteiro, mas também para as unidade
subterritoriais dentro do domínio do grupo, porque estas sociedades não
possuem hierarquias formais e elas não têm membros que excluem outros
membros dos seus recursos. Isto constitui o parcelamento subterritorial, tal
como a designação de território de caças, jardins e construções a famílias. Isto
serve ao propósito de estabelecer e perpetuar diferenças. Mais ainda, possuir
estes tipos de subterritórios não coloc ar ninguém em desvantagem. Os
direitos de posse são simétricos, eles são usados, primariamente, como
mecanismos para coordenar esforços e para manter pessoas e coisas fora do
caminho dos outros. Se eu não tenho permissão de livre entrada em sua
77

cabana ou campo eu, entretanto, tenho permissão para entrar em minha


cabana e em meu campo e eu posso negar a você a livre entrada neles.

A figura 3.2 , chama a atenção para várias relações entre o


domicílio, a comunidade e a fonte terra, nas sociedades primitivas igualitárias
(pág. 64). Estas se tornam parte dos encontros dos homens com os locais. Os
locais e os eventos, na vida cotidiana e comum, se tornam ligados e infusos
com o significado; e assim como o grupo vê a sua sociedade e o seu habitat
intimamente conectados, assim também o indivíduo vê intimamente
interconectado o seu envolvimento com os eventos e suas configurações
espaciais. Assim, o espaço físico e suas propriedades não são abstratos por
causa das experiências que eles contém. Um lugar é um encontro com
eventos.

Sem a ajuda da tecnologia moderna, que carrega pessoas e


informações a grande distâncias com regularidade, o movimento através do
espaço, se tornaria uma aventura, com a natureza oferecendo ao viajante
experiências inesperadas, conforme ele passasse de lugar em lugar. A este
respeito, nas sociedades primitivas as distâncias também eram
experimentadas, como seqüências de encontros com eventos, conforme a
pessoa se movesse de lugar em lugar, ao invés de considerar as distâncias
que separavam os pontos. Mesmo quando, uma distância métrica estivesse

disponível em unidades de comprimento, digamos pés ou milhas, ou em


unidades de tempo, digamos horas ou dias, a sociedade primitiva encontraria
dificuldade em atribuir uma unidade a uma distância particular. Tal unidade
tem pouco significado nas experiências de superar uma separação. Uma
distância de 50 milhas, pode conter uma enorme gama de experiências
imprevisíveis, algumas boas, algumas não. Além disso, estas podem mudar
cada vez que a viagem é feita. Uma viagem de 50 milhas feita em outra
direção, certamente, conterá experiências diferentes. Ou uma jornada de 5
dias, pode se aplicar a uma jornada particular em uma estação, mas não em
outra. A medida abstrata da distância, então, não coincidiria suficientemente
com a variedade de tempo, energia ou experiência de viajar, que terá um valor
muito grande.
78

Nas sociedades com tecnologias simples , a ligação do espaço e


do tempo com a experiência, despreza a utilidade de um conceito de espaço
abstrato, distância e lugar. Não significa que não é possível considerá-las
abstratamente ou expressar o comportamento em termos de tais sistemas.
Significa não é uma forma dominante e socialmente útil de concebê-las. A
mesma coisa é a verdade do tempo, novamente não significa que o tempo seja
imensurável, pelo contrário, como com o espaço, significa que o tempo e a
experiência estão intimamente interrelacionados que suas medidas seriam
calculadas pelos eventos que são importantes e que estão conectados com a
experiência.

A trajetória do sol através do céu, fases da lua e as mudanças


das estações, tudo isso são pedaços naturais do tempo, que podem ser e que
tem sido contados. Mas, é importante contá-los somente quando eles
correspondem com a duração de eventos importantes. Assim, nas sociedades
de caça e coleta é importante medir o tempo das estações, porque isto marca
a progressão do gamo, das plantas comestíveis e assim também o movimento
das próprias pessoas. Para uma comunidade agrícola, ela marca a hora para
semear, cultivar, tirar as ervas daninhas e colher. O ciclo do sol ajuda a
rotinizar as atividades diárias associadas com o cuidar das plantas e dos
animais domésticos.

Os primeiros calendários podem ter sido mantidos para ajudar a


marcar o tempo de um nascimento humano. Marshack, argumentou que as
Vênus neolíticas têm linhas ao redor delas que correspondem aos dias e às
fases da lua. Estas podem ter sido usadas para registrar os estágios da
gravidez de uma mulher. Tal registro, poderia dizer a um bando andarilho,
quando deviam parar e se preparar para o nascimento. Mas, é mais raro
encontrar povos pré-literatas mantendo um controle acurado das suas idades,
porque ninguém sabe quanto tempo viverá, e virtualmente não há casos de
sistemas de calendários pré-literatas, que seriam usados como referências
para situar eventos num passado distante. O tempo se torna vago quando se
vai da geração atual até o passado. Até um certo ponto a sucessão dos
ancestrais pode ser lembrada - mas não a sua duração; a partir daí o passado
79

distante se torna não-literata e mitológico. Um conceito mític o de um passado


distante é uma característica comum da sua visão de mundo.

Nós incluímos a experiência mítico-mágica no contexto da visão


ordinária do espaço e do tempo, porque a visão mítico-mágica da terra é, em
grande escala, uma intensificação da ligação ordinário entre o espaço e o
evento. A relação entre os dois pode ser pensada em termos de uma medição
contínua da intensidade de associação entre o espaço e o tempo e das
experiências únicas que eles parecem conter . Quanto mais intensas forem as
interconexões, é mais provável que elas se tornem conflitantes e assim se
tornem parte da experiência mítico-mágica.

Esta parte da nossa discussão tem a intenção de caracterizar a


visão ordinária (e às vezes mítica) do espaço e do tempo na sociedade
primitiva. É uma visão defendida pelo primitivo em seus dias e dias de
experiência. Mas, devido essas comunidades serem pequenas e estáticas e
seus membros viverem perto da natureza e repetidamente dividirem as
mesmas experiências, ela é também uma caracterização do significado público
ou grupal comum do espaço, do tempo e do lugar. O que significa os contextos
dos seus encontros privados se tornam divididos e publicamente aceitos. Além
disso, esta caracterização pode ser aplicada às experiências comuns,
pessoais e até mesmo públicas do espaço, do lugar e do tempo na maioria das

civilizações pré-modernas. A maior parte da população nestas sociedades são


camponeses ligados ao local. Camponeses vivem em comunidades pequenas
e relativamente fechadas. E também aqui as experiências privadas da terra e
do tempo surgem como algo público ou comum.

Esta descrição do senso comum, do espaço e do lugar não se


aplica sem modificações às experiências modernas. A sociedade moderna é
mais dinâmica e envolve massas de pessoas de diferentes backgrounds. A
tecnologia fez lugares distantes acessíveis e a viagem através do espaço algo
confiável. E a ciência tem dado ao público uma descrição do espaço e do
tempo que é abstrata e métrica, uma descrição que é útil no controle da
natureza e que se encaixa mais e mais aos processos da vida social. A
qualidade dinâmica da sociedade faz pouco provável que nós todos possamos
80

dividir as mesmas experiências pessoais complexas. Além disso, o efeito


nivelador das culturas das massas têm, sob muitos aspectos, diminuído a
variedade de terras. E mesmo muito das experiências pessoais das
localidades podem, sem muitas perdas, serem resumidas dentro do significado
métrico-abstrato do espaço e do tempo. Dentro do transporte das massas,
viajar é sempre experimentado privativamente, conforme a duração no tempo.
E locais como o subúrbio, são tão uniformes que cada um pode ser
experimentado, conforme a localização no espaço. Entretanto, nós ainda
mantemos as experiências privadas, que são variadas demais para serem
reduzidas a relações métricas abstratas e nós, geralmente, queremos ter mais
delas. Mas, isto não altera o fato de que a sociedade moderna repousa em
uma moldura métrica abstrata, para seu significado público de lugar e espaço.
E as pessoas, geralmente, acham esse sistema harmônico com muitas das
suas experiências pessoais.

Civilizações.

Muito embora, os modelos para as sociedades primitivas ( figura


3.1 e 3.2), enfatizem a estabilidade social, essas sociedades mudam e umas
poucas se transformaram nas primeiras civilizações. A palavra civilizado, não
precisa conotar uma mudança para melhor. As civilizações se diferem das
sociedades primitivas em vários aspectos críticos. De maneira geral, as
civilizações não são igualitárias, elas contém elites ou “classes” de uma
maneira ou de outra que podem extrair e consumir os excedentes e suas
economias são redistribuitivas, ao invés de recíprocas. Diferentes das
sociedades primitivas, todas as civilizações são territoriais e usam o território
para ajudar a definir a si próprias e a suas partes. Como as primeiras
civilizações realmente surgiram e em grau elas surgiram independentemente,
é algo incerto, mas as maiores teorias apontam para os processos

fundamentais que, provavelmente, estavam envolvidos e que tem a ver com a


Territorialidade. Estas teorias se diferem, de acordo com as partes do modelo
do equilíbrio primitivo ( figura 3.1 ), que elas acham que foi o primeiro a ser
81

alterado. O problema fundamental que elas encaram, é explicar o surgimento e


a perpetuação das classes econômicas sociais.

Quase todas as teorias de transição assumem que o excesso


para suportar uma elite foi extraído de uma base agrícola. Algumas apontam
para a possibilidade de que o poder para extrair o excesso, se tornou
concentrado nas mãos de uma elite. Por causa da necessidad e de coordenar
esforços para alimentar uma população em crescimento, com uma base de
recursos limitados. A escassez nos recursos pode ter ocorrido por causa de
fatores como a seca ou a pressão da população ou ambos. Em termos da
figura 3.1, tal ocorrência alteraria o componente de baixa densidade. Um caso
paralelo é discutido por aqueles que vêem o aumento no tamanho social e o
surgimento das elites, como uma conseqüência do aumento da especialização
econômica e da interdependência das comunidades agrícolas. Neste caso, as
elites desempenhariam um papel crucial de extrair e redistribuir os recursos.

Outras teorias apontam para a conquista de grupos agrícolas de


nômades como uma força primaria no desenvolvimento das elites. Isto altera a
relação igualitária reciprocidade da figura 3.1. Outras ainda enfatizam que as
elites surgiram pelo monopólio de alguma forma de conhecimento ou
tecnologia. Isto alteraria o componente igualitário, por tornar a tecnologia
menos acessível. Em uma sociedade primitiva o conhecimento espiritual ou

religioso, poderia ser uma importante tecnologia a se monopolizar. O espiritual


pervertia a sociedade prim itiva e os lideres espiritu ais poderiam ganhar seus
status, monopolizando poderes que todos pensavam serem essenciais para o
sucesso da comunidade.

Cada teoria sozinha é inadequada como uma explicação geral. E


ainda, cada uma enfatiza alguns fatores que as outras colocam para trás.
Nossa intenção não é discutir sobre os méritos relativos de cada uma e nem
oferecer novos. Ao invés disso, é lançar mão de algumas afirmações de uma
ou duas teorias, visando ilustrar as possíveis mudanças que ocorreram no uso
da Territorialidade, conforme a sociedade mudou de uma economia primitiva
de reciprocidade, para uma economia de estruturas de classes de
redistribuição. Embora, a conquista de uma comunidade agrícola por uma não-
82

agrícola, possa ser o modelo mais simples de transição, para nossos


propósitos ele é inadequado, porque ele não esclarece como os
conquistadores continuam no poder e se tornam uma elite legítima. Uma
explicação alternativa que pode ajudar com relação a legitimidade de uma elite
e que também permite um alcance das funções territoriais, assume que as
elites surgiram nativamente e combinaram uma papel religioso com um
redistribuitivo. Vejamos como esta alternativa pode servir para a
Territorialidade:

Nós sabemos que o mito, o mágico e o ritual eram inegavelmente


importantes nas sociedades primitivas e que as primeiras civilizações eram,
geralmente, conduzidas por sacerdotes-reis, eles coletavam, estocavam e
redistribuíam os excessos. Os papeis expandidos dos lideres espirituais,
combinados com a interdependência econômica crescente entre as
comunidades, poderia muito bem ser a chave para o surgimento de uma elite
permanente, que era responsável pelo excedente e que exercia controle
territorial sobre uma população de camponeses. Para ilustrar os possíveis
passos desta e das mudanças na Territorialidade que a acompanharam,
considere o seguinte caso hipotético. Suponha, se as linhas do Elman Service,
que uma comunidade agrícola A, estabelecida em uma planície fértil e bem
regada, conforme o ponto a na figura 3.3, e situada entre o mar e uma cadeia
de montanhas, a terra é possuída comunalmente, mas dividida pelos

domicílios a uso, conforme a figura 3.2. Um domicílio consome muito do


alimento que ele produz, mas algum é dado para ser consumido fora do
domicílio e algum é distribuído para a comunidade através de rituais e festas.
Suponha que a agricultura seja um sucesso e que a comunidade economize,
após várias gerações, conforme a população aumenta, os habitantes da vila A,
encontram novas vilas (A e B e etc.), modeladas nos mesmos princípios de A
e que também economizam.

Cada comunidade, embora autônoma, pode achar que elas


podem produzir algumas coisas mais efetivamente do que as outras, assim,
alguma espécie de comercio e especialização começa. Uma coisa importante,
os membros das comunidades atribuem a sua boa sorte aos deuse s e vêem
em seus lideres espirituais, meios indispensáveis para solicitar assistência
83

divina. Embora a liderança na arena religiosa, como em outros reinos, não


fosse srcinalmente uma posição herdada, mas sim algo dado, uma diferença
importante é que, dentro de uma sociedade simples com uma tecnologia
acessível, conhecimento religioso e, especialmente, com encantamentos e
feitiços rituais se oferece então um grande potencial para se manter o segredo,
que é o caso de outras formas de conhecimento especializado. E além disso, a
chave física e os atributos mentais da maioria dos lideres religiosos, pode ter
de fato sido herdada. Não era incomum para os Xamãs, nas socie dades
primitivas, terem visões, escutarem vozes e terem características físicas
marcantes. Tendências como estas, podiam ser passada de uma geração para
outra e a comunidade podia ter pensado que estas características, eram a
chave para o sucesso espiritual. Tais características físicas e mentais,
juntamente com o conhecimento secreto, pode ter propiciado a possibilidade
de um meio poderoso de manter-se a liderança religiosa dentro de uma família
e talvez através do pai passando o conhecimento para o seu primeiro filho
nascido.

Uma vez que a vila A é a mais velha, vamos assumir que ele
também seja assumir que também seja a maior e a mais próspera e que sua
família sacerdotal também seja a mais poderosa, as outras podem encorajar os
seus sacerdotes a se casarem com as filhas desta família ou talvez a vila peça
para o segundo filho mais velho desta família, que se estabeleça entre eles

para que se torne um sacerdote local. Conforme o tempo passa, as vilas se


tornam mais interdependentes economicamente e o papel da religião se torna
mais e mais responsabilidade de um a família ou de uma linhagem, centrado
nos sacerdotes da vila A, com ramos familiares em cada uma das outras vilas,
conforme A na figura 3.3. Os rituais de todas as vilas, se tornam mais e mais
responsabilidade da família sacerdotal.

Um componente extremamente importante deste rituais, sempre


será a coleta e o consumo do excedente da comunidade. Com a consolidação
do poder sacerdotal, vem também uma consolidação e uma centralização
desta função econômica. O maior passo para transformar este monopólio
espiritual em econômico é ter-se a família sacerdotal monopolizando o papel
de coordenar e redistribuir o excedente. Assim se torna obrigação da família
84

sacerdotal, centralizado na vila A, organizar e coordenar a estocagem e a


distribuição ritual e o consumo do excedente para as cerimônias. A estocagem
do excedente, bem como as cerimônias para a sua redistribuição,
provavelmente ocorre num lugar de residência dos lideres espirituais da vila
A. Desta forma, os maiores rituais para todas as vilas podem agora ser
conduzidos em A ou em B (conforme a figura 3.3 ) tal que os representantes
das outras vilas, conduzidos pelos seus sacerdotes, podem convergir para a
vila A, para as ocasiões principais.

Conforme o alcance e a centralização deste processo aumenta, a


vila A constrói acomodações cerimoniais maiores e armazéns permanentes
maiores. Estas são as fundações para os centros cerimoniais monumentais
das civilizações antigas. Neste momento a vila A, se torna uma proto-cidade.
Conforme a centralização religiosa se acelera, também se acelera a
centralização econômica e que a classe religiosa se torna mais intimamente
envolvida com os mecanismo de extrair, estocar e redistribuir o excedente.
Agora o poder da religião e o poder econômico estão firmamente nas mãos de
uma família particular e sua comitiva ou classe. E o mais importante, esta
concentração pode ocorrer com a cumplicidade senão com o encorajamento
da comunidade geral. Os cidadões atribuem o seu próprio sucesso aos
sacerdotes e se o poder e a glória podem ser realçados sacerdotalmente,
também o faz o homem comum. Esta atitude faz com a maioria dos membros

da comunidade, dê de bom grado alguma parte do seu excedente para esta


autoridade central. Fazer isto é algo para o seu próprio benefício, bem como
para o bem da própria comunidade. Desta forma, a concentração do poder
pode ocorrer sem a coerção física. Se alguns são relutantes em dar, a
comunidade pode ser pequena o suficiente para outros notarem e assim os
relutantes serão discriminados pelo resto e ficarão em perigo ou se isso não é
possível, os lideres religiosos poderão humilhar publicamente os relutantes.

Conforme o excedente vem para as mãos dos sacerdotes e


conforme maiores armazéns são construídos, vem a expectativa de que
celeiros serão enchidos e que cotas serão alcançadas. Para se preencher os
celeiros rituais, em algum ponto a classe sacerdotal deve saber o quanto seria
e poderia ser dado por cada unidade de produção, seja ela domicílio ou
85

comunidade. Estimar e organizar as contribuições, requer registros,


supervisores e administradores. Em outras palavras, isto requer o aparato do
Estado, com administradores e com coletores de impostos, ainda aqui pode
haver a cumplicidade da população.

Neste ponto, nós temos um centro cerimonial maior de uma


proto-cidade, entre uma comunidade agrícola que aumentou em número e
produtividade econômica e que agora tem algo equivalente de uma classe
econômica, aumentando o poder político e responsável em acumular e
redistribuir o excedente. A autoridade final sobre a terra, não reside mais na
comunidade ou nos deuses, mas no representante de ambos, o governo e os
sacerdotes-reis. As pessoas podem ainda dar o excedente sem a coerção e a
vida dentro das vilas, pode ser como era antes, com a importante exceção de
que agora, o cidadão está na posição de produzir um excedente, que não será
consumido diretamente pela comunidade local. Mesmo que o excedente que
ele produza não seja mais do que antes, a sua extração e o consumo são
diferentes agora. Ele é mais redistribuitivo do que recíproco, mas agora é
somente uma questão de tempo, antes que o excedente extraído se torne
maior do que antes. E o mais importante para nós, a extração do excedente,
por uma autoridade central e seu eventual fardo pesado, significa que haverá
uma mudança no conceito da terra e de suas pessoas, haverá uma definição
territorial maior de relações sociais. A autoridade central, esperará que cotas

sejam cumpridas e as relações com os camponeses e a terra será em parte


imposta. Esta imposição pode ter várias formas históricas, conforme ilustrado
na figura 3.4.

Modelos territoriais.

Uma forma ilustrada pelo a na figura 3.4 , é caracterizada pela


possibilidade de que as economias domésticas comunais, podem ainda ser a
norma, mas que a própria comunidade deve cumprir a cota imposta pela
autoridade central. Se existem muitas vilas, então, estas devem ser agrupadas
dentro dos seus distritos. O ponto chave é que, nos olhos do governo, tanto a
86

vila quanto os distritos se tornam uma unidade social definida territorialmente e


este território molda outras funções administrativas. Talvez, muitas dessas
vilas se tornem administradas por um magistrado, apontado pelo governo
central ou o mesmo grupo de vilas, deve agora criar trabalhadores ou
soldados. Talvez, o reino imperial se torne governado como se fosse uma
coleção de distritos e da própria terra, embora, teoricamente, o poder dos
sacerdotes-reis esteja ainda nas mãos da vila e de seus camponeses. Esta
forma se aproxima de algumas áreas nas civilizações asiáticas, que extraiam o
excedentes das suas vilas, mas deixavam suas organizações internas
virtualmente intocadas.

Outro sete de opções ilustrado por B na figura 3.4, surge


quando nós consideramos que o imposto nas vilas, como aqueles descritos,
podem muito bem alterar as suas relações internas e destruir o seu equilíbrio.
Possivelmente, alguma terra da vila foi alocada para o clã sacerdotal local ou
para suas relações. Esta terra podia ter pertencido aos ancestrais da família
da família sacerdotal local, quando a terra foi distribuída para todos os
membros da comunidade ou a terra sacerdotal pode ter sido adquirida da terra
possuída em comum pela vila. Assim, pode parecer que o sacerdote-rei e sua
família, como se fossem a personificação da sociedade como um todo, tem
direitos sobre a terra comum e que a terra comum de todo lugar se torna parte
da propriedade sacerdotal.

Esta terra obtida, pode agora ser trabalhada pelas vilas como um
meio de pagar os tributos e as taxas, para a classe governante. Esta terra
sacerdotal local, pode não estar sobre a supervisão direta da família
sacerdotal, mas sim sobre as direção de seus agentes ou de um capataz local.
Se nós considerarmos que a elite pode consistir, não somente da classe
sacerdotal, mas também de uma nobreza secular e que podem estar alojadas
em uma porção de terra que eles possuem (mesmo que eles a possuam
indiretamente no nome sacerdote-rei ou de outra autoridade) então nós temos
um modelo de um Estado, cuja autoridade e representantes são mais
descentralizados e que interferem mais na vida dos camponeses. Estes
elementos de posse da terra e de autoridade, correspondem intimamente ao
que tem sido chamado de feudal.
87

Uma forma mais extrema desta intrusão ocorre, as terras das


vilas são tomadas pela classe dominante e os camponeses são, simplesmente,
servos em Estados vastos, como na Europa Oriental, durante o século XVI e
XVIII (ver a letra c na figura 3.4). A forma mais extrema - a escravidão - ocorre
quando os trabalhadores não tem nenhuma liberdade, quando eles têm donos
e quando nem a terra e nem as ferramentas são deixadas em suas posses. A
maior parte do dia de trabalho, deve ser organ izada pelos controladores dos
escravos e eles devem providenciar ao escravo as necessidades da vida.

Ainda, outra possibilidade (a letra d na figura 3.4 ), é que as


conexões na comunidade local, venham se enfraquecer e que os domicílios
dos camponeses venham a possuir a sua própria terra, deixando a sociedade
com proprietários de terra, relativamente, independentes. Alguns dos quais se
tornam mais ricos do que os outros. Uma autoridade central fraca, pode ainda
tentar extrair as taxas, mas a sociedade é composta, primariamente, de
fazendeiros independentes, com os mais ricos empregando ou arrendando
para os mais pobres e até mesmo possuindo escravos. Uma situação não
muito diferente desta, ocorreu na sociedade Viking.

Embora, um destes tipos possa caracterizar uma sociedade


particular em um determinado ponto no tempo, todos podem existir em vários

graus juntos. Além disso, em todos os sistemas exceto os de escravos, os


camponeses, individualmente ou comunamente, possuíam a maioria das suas
ferramentas e implementos. Eles não eram deixados para se virarem sozinhos
e se isso fosse feito, eles estavam no controle da maioria do seu processo de
trabalho. Mesmo quando eles trabalhavam para o lorde da província ou do
estado, eles eram, geralmente, responsáveis pelos detalhes do processo de
trabalho. E usavam os seus próprios implementos para cumprir as suas
obrigações de trabalho. O excedente era extraído e assim as pessoas
trabalhavam e também suportavam uma elite, mas o ritmo do trabalho e seus
detalhes estavam principalmente nas mãos dos camponeses.

Nós temos nos concentrado nas relações entre o lorde, a terra e


o camponês, porque a riqueza das sociedades pré-modernas era baseada na
88

agricultura. Mas, é mais importante na figura 3.4 , notar a posição dos


mercadores que estavam presentes em vários graus em todas as civilizações.
Suas vidas, como aquelas dos camponeses, eram reguladas pela classe
dominante. No caso do tipo a, a maioria dos mercadores estaria concentrada
nas cidades capitais, propiciando comodidades escassas e caras para as
classes dominantes. Não somente os seus clientes eram ricos, mas a elite
política ou o governo, provavelmente, licenciou e taxou estes mercadores e
controlou os preços das suas comodidades. A concentração da riqueza nas
cidades imperiais, além disso também teria levado a elas. artesãos e
escultores.

No caso do tipo b - o feudalismo - os mercadores teriam


alimentado a nobreza. Mas, porque eles eram dispersos e, geralmente, viviam
entre os camponeses, deve ter havido uma descentralização maior no controle
do seu negócio. Mesmo os camponeses feudais, podem ter tido um acesso
maior a algumas das mercadorias menos caras. Os mercadores também
devem ter visitado a nobreza nos Estados vastos sob servidão ou c, mas é
improvável que o mercador tenha tido um contato direto com os domicílios dos
camponeses, nos tipos ilustrados em d. Ao invés disso, eles provavelmente
devem ter ficado nas cidades, nas quais as elites residiam e estabeleceram
feiras ocasionais e mercados nas áreas rurais.

Mudanças no espaço, tempo e Territorialidade.

Saber qual dessas relações predomina, é um caso particular que


ajuda a explicar a distribuição da terra e do poder e alguns dos detalhes da
organização espacial. Todos este tipos de divisão resumem os efeitos

territoriais. O sentido de uma comunidade possuir a terra e passá-la de uma


geração para, é substituído em vários graus pela noção de que as classes
dominantes (embora elas possam ser diferentes) são personificações das
pessoas e os deuses e também são as guardiãs da terra; e a terra, como a
89

fonte básica da riqueza, é um território a ser administrado e um lugar ao qual


as pessoas estão ligadas. Ligar um cidadão ou um proprietário a terra, faz dele
um camponês ou um servo.

Do ponto de vista do proprietário, a terra em que ele trabalha e a


vila em que ele mora, podem ainda parecer para ele como uma entidade
natural, como o local ao qual ele pertence emocionalmente e espiritualmente.
Ele pode não ter a terrível consciência do fato de que o seu território definido
socialmente, é também um território imposto - formando uma definição
territorial das relações sociais. Mesmo que as fronteiras dos seus territórios
sejam de alguma forma criadas artificialmente ou impostas de cima para baixo,
a imposição da autoridade territorial, pode não ter afetado o seu senso pessoal
de pertencer a um local. A menos que a criação e o conteúdo dos territórios
mudem extremamente rápido e repetidamente, existe uma tendência de um
povo tentar um local como se fosse o seu lar. Isto significa, vê-lo como se
fosse algo socialmente definido, um território natural. Isto pode, entretanto,
requerer esforço considerável para adotar tal atitude e mesmo assim, pode ser
mais frágil e menos envolvente do que a definição social de território, obtida
em uma sociedade primitiva que não tem nenhuma autoridade sobre ela.

Se o camponês vê a si mesmo como parte de um território


imposto ou não, o ponto crucial é que, de cima as autoridades centrais vêem.

Para eles, o camponês é a personificação do instrumento, que faz a terra


produtiva. O camponês se torna a ligação com a terra, a este respeito, bem
como de outras maneiras, a autoridade central divide o seu império e as
pessoas territorialmente, classificando e controlando grupos, tanto os grandes
quantos os pequenos, através do controle de área.

Assim, o surgimento da civilização com que territórios definidos


internamente desta última forma também sirvam como moldes para outras
formas de relações sociais. Um grupo de vilas (dos tipos a, b, c e d de acordo
com a figura 3.4 ou com outras combinações), se torna uma área
administrativa, estabelecida para o surgimento de rendas. E estas áreas, como
na figura 3.5, se tornam unidades administrativas, para o alívio, no caso de
pragas e fome ou para alimentação de soldados, no caso de guerra. As
90

fronteiras territoriais podem ser usadas deliberadamente para dividir ou


subjugar ou conquistar comunidades hostis, pela separação das áreas de
comunidades naturais mais velhas. Em todos estes casos, A Territorialidade
está sendo usada hierarquicamente e assimetricamente. O controle do
território está nas mãos de uma classe dominante e de seus representantes,
quanto maior o número de hierarquias territoriais, mais provavelmente as
fronteiras serão impostas artificialmente e quanto mais os administradores
foram deslocados de território em território, mais a Territorialidade produz,
relações distantes impessoais entre os governos e os governados.

Na pré-moderna a terra era a fonte primária de riqueza e


agricultura a principal ocupação. Mas, não deve ser esquecido que o
surgimento da civilização, também ocasionou o surgimento da cidade e da
arquitetura complexa. Aqui também são encontrados múltiplos territórios, que
moldam os eventos e hierarquicamente e assimetricamente definem as
relações sociais. Os templos e os palácios por exemplo, são subdividos
internamente, na maioria das vezes, para delimitar o grau de sagrado. Quanto
mais sagrado é o lugar, menos acessível ele é para uma pessoa comum.
Somente o mais alto sacerdote, tem permissão de entrar no mais santo dos
lugares e somente a família real e sua comitiva tem permissão de entrar no
coração do palácio ( ver figura 3.6).

Talvez o exemplo mais forte nas civilizações pré-modernas de


uma definição territorial de relações sociais, é o uso do território para definir
toda política da comunidade, do estado ou do império. Este uso do território,
embora importante para os impérios, não foi de maneira alguma preciso para
os padrões modernos. As fronteiras nunca foram delimitadas tão
acuradamente como elas são agora, uma vez que as técnicas de pesquisa e
mapeamento eram limitadas. E os registros das propriedades da terra, não
eram mantidos uniformemente e acuradamente. Um lorde podia saber, que
uma vila e sua terra pertenciam a ele, mas ele e a maioria dos cidadões da vila
podiam não saber exatamente onde a terra da vila começava e terminava. E
ainda, um senso geral da extensão no espaço era claramente parte da
definição de cada civilização. Os imperadores controlavam os povos dentro de
91

um território, é claro que o imperador controlava qualquer um dentro do


território. Um povo era socialmente diverso, ainda que territorialmente definido.

Estas reivindicações territoriais, bem como outros detalhes da


posse imperial, eram geralmente representados por mapas e às vezes
desenhados em escala com projeções especificas. O tempo também era
geralmente apresentado metricamente por complexos sistemas de calendário.
Estes mapas e calendários eram certamente mais elaborados e abstratos do
que aqueles encontrados nas sociedades primitivas (os primitivos desenharam
mapas, mas não metricamente e nem projetivamente), e a este respeito, eles
podem indicar um nível diferente qualitativamente da noção espacial e
temporal, pelos menos na parte das elites que empregavam estes recursos.
Este nível era diferente daquele existente antes do surgimento das
civilizações. Esta mudança na representação do espaço e do tempo entre as
sociedades primitiva e a civilização, não foi, entretanto, tão profunda quanto a
mudança no uso da Territorialidade. (E, conforme nós veremos mais tarde,
uma mudança mais fundamental no sentido do espaço e do tempo ocorre com
outra mudança fundamental na Territorialidade no tempo do Renascimento). O
camponês nas civilizações pré-modernas, concebia o espaço e o tempo da
mesma maneira ordinária que os primitivos. E mesmo os calendários e mapas
mais abstratos dos oficiais imperiais, eram ornamentados com significados
místicos e ritualísticos. Os sistemas de calendário dos impérios, tinham

representações astrológicas. Os sacerdotes eram os controladores do tempo e


o tempo era controlado para manter o império em harmonia com os céus. Os
símbolos do espaço geográfico, desempenharam um papel especialmente
importante em estabelecer a harmonia imperial. O espaço tinha um conteúdo
mítico, por exemplo, a divisão do império chinês em quatro quartos foi
concebidas como se fosse um espelho da ordem cósmica. Mesmo o sistema
de coordenada métrica, aparentemente moderno encontrado na cartografia
chinesa do terceiro século, estava cheio de significados místicos. Cada
quadrado na grade, era um microcosmo do mundo todo. E cada lado do
quadrado continha parte do significado da direção em que ele apontava.

Estes conceitos infusos miticamente do espaço e do tempo,


também foram usados extensivamente nos rituais do governo. Controlar
92

impérios tão vastos, contendo diferentes tipos de povos, significava se escorar,


fortemente, no ritual. Para garantir o seu sucesso, as novas cidades,
geralmente, eram localizadas e projetadas de acordo com o espaço mítico e
com o tempo. Os investimentos dos governadores, requeriam conexões rituais
entre a capital e o império. A prosperidade da agricultu ra podia requerer que a
terra fosse fertilizada ritualmente e arada pelos deuses, na forma simbólica do
imperador.

Geralmente, o espaço ritual e o tempo estavam


interrelacionados. Mesmo os conceitos de espaço e de tempo no mundo
clássico, estavam infundidos com este teor. A geometria grega, era sobre
objetos bi ou tridimensionais e não sobre o abstrato, o espaço vazio. A filosofia
grega de espaço, não era sobre um contínuo métrico vazio. Os gregos por
exemplo, não desenvolveram a geometria projetiva. A cosmografia de
Ptolomeu, chegou perto de uma representação abstrata do espaço, mas as
suas projeções não eram sobre objetos sólidos e sua geografia foi intimamente
ligada à astrologia. Finalmente, estas representações de espaço e de tempo,
não constituíam o dia-a-dia das experiências dos camponeses. Para eles, o
espaço ordinário e o tempo eram ainda limitados com as experiências locais e
pessoais.

Capitalismo.

Nós temos falado sobre importantes diferenças entre as


civilizações pré-modernas, visando focalizar sobre as maiores mudanças na
Territorialidade. Mas, nós devemos acrescentar que, não somente as
sociedades pré-modernas foram diferentes, somente uma delas deu
surgimento ao Capitalismo e ao Estado Moderno. Isto deve significar que,

haviam diferenças cruciais entre a Europa Ocidental onde o Capitalismo


começou e o resto do mundo. Mas, quais exatamente elas foram ainda
permanece como uma discussão em aberto. São mais claras as características
do sistema econômico atual e as mudanças nos conceitos de espaço, tempo e
93

Territorialidade que, primeiro o Capitalismo de mercado e depois o Capitalismo


industrial, iniciaram. Novamente, deve ser notado que, embora o Capitalismo e
a modernidade não sejam sinônimos, o primeiro foi um importante componente
do último.

Será recordado do capítulo 2, que as coisas importantes entre os


usos da Territorialidade que pode ser esperado primariamente no Capitalismo
e na era moderna são o sentido de um espaço esvaziável, também o uso
crescente das hierarquias territoriais para relações impessoais e o uso da
Territorialidade para obscurecer as fontes do poder. Aqui nós consideraremos
as interconexões destes efeitos dentro do Capitalismo, concentrando
primariamente no primeiro, porque ele é, ao mesmo tempo, prioritário
historicamente e necessário para os outros. A nota que nós faremos é que, o
uso repetido e consciente do território, como um instrumento para definir,
conter e moldar um povo em movimento e os eventos dinâmicos, conduz a um
sentido de espaço abstrato esvaziável. Isto faz a comunidade parecer ser
artificial, faz o futuro aparecer geograficamente como uma relação dinâmica
entre os povos e os eventos e de que alguma forma os moldes territoriais são
feitos em cima de outros. Isto faz o espaço parecer estar relacionado
amplamente com os eventos.

Mecanismos.

Geralmente, se concorda que uma importante necessidade para


o surgimento do Capitalismo, é um sistema de mercado extensivo, para
comprar e vender comodidades, mas isto dificilmente pode ser o suficiente
para as sociedades tradicionais contendo mercadores e mercados. E ainda,

nos casos pré-modernos, a negociação fundamentalmente não altera e nem


desloca as economias domésticas de subsistências, ao invés disso, os
mercadores estão submissos a elas. Em adição, para um segmento comercial,
então, o Capitalismo precisa tornar o trabalho e o capital, dependentes do
94

comércio. Esta dependência transforma o papel do mercador, de uma pessoa


que supre conveniências para alguém que supre necessidades e transforma o
papel do camponês, de alguém que depende de si mesmo e de sua
comunidade para a subsistência, para alguém que depende do mercado e do
mercador. Estas são as características que nós chamaremos de Capitalismo
Mercante e ilustraremos em a, na figura 3.7 . Muitos marxistas, podem não
considerar o Capitalismo Mercante, como um modo distinto de produção, mas
sim uma transição ou uma parte do Capitalismo.

Uma maneira de fixar o capital mercante é “libertar”, os


camponeses da terra, tal que eles entrem no mercado pensando que eles não
têm a opção de retornar à sua subsistência ou a seu modo de vida tradicional,
caso o comércio fali. A venda do seu trabalho e dos seus produtos, devem se
tornar essenciais para a sua sobrevivência. As obrigações econômicas
tradicionais e as relações da comunidades, devem ser diminuídas. E a terra do
típico camponês liberta do, se ele tiver alguma, deve ser insuficiente para
proporcionar a ele, alternativa de subsistência. E deve se engajar no trabalho
relacionado com o mercado, seja deixando a terra ou trabalhando nela ou nas
proximidades de sua moradia, para suplementar o seu produto minguado dos
campos pequenos e de suas hortas. Se ele tive r a opção de ignorar o
mercado e viver fora dele na sua própria terra ou então encontrar apoio
suficiente da terra comunal, então a sua conexão com o mercado seria

somente voluntária. O mercado seria então, somente um enfeite comercial


para o modo de vida do camponês.

A alternativa de subsistência, também deve ser tirada dos


maiores proprietários de terra, isto significa que eles devem ser impedidos, por
uma convenção social ou por alternativas mais lucrativas, de trabalhar as suas
próprias terras e assim se tornarem camponeses e também de atrair
trabalhadores camponeses para trabalhar nas suas terras, dentro das velhas
relações de costume do feudalismo e da servidão. O lorde da terra, deve ser
colocado em uma posição, tal que a sua escolha racional, seja comprar o
trabalho livre e isto significa que a sua terra deve estar produzindo para o
mercado. Uma rede comercial extensa e penetrante no local, conforme tiveram
porções da Europa, nos séculos XIII e XIV (conforme a Liga Ransiática), era
95

certamente uma parte crítica da mudança para o Capitalismo, mas em si ela


não “libertou” o trabalho ou o capital. Os detalhes de como esta transição, do
feudalismo para o Capitalismo Mercante, se deu variam de lugar pra lugar na
Europa Ocidental.

Parte das diferenças geográficas, entre o Capitalismo Mercante,


o capitalismo Industrial e as economias pré-capitalistas, estão indicadas
quando a ou b, da figura 3.7 são contrastados com a figura 3.4. No
Capitalismo Mercante (o a da figura 3.7), o domicilio individual continua como
uma unidade de produção. O trabalho ocorre no domicilio e, geralmente, com
ferramentas ou instrumentos que o domicilio possui. A diferença chave entre o
que ocorria antes, nos modos pré-capitalista e agora nos capitalista, é que a
dependência no mercado rompe a conexão do domicilio com a comunidade de
subsistência local. O domicilio, geralmente, tem que comprar matérias primas
do mercado e trazê-las para casa e trabalhar sobre elas e então vender o
produto final de volta para o mercado, visando receber dinheiro para comprar
as necessidades do domicilio. O mercado, geralmente, serve como
intermediário entre a produção do domicilio e o mercado, vive de comprar
barato e vender caro. Ele, normalmente, não possui, organiza ou supervisiona
o processo de produção e a este respeito os marxistas diriam que eles não
extraem o valor do excedente, ele, simplesmente distribui as matérias-primas e
os produtos finais. O proprietário, em algum grau pelo menos, continua na

organização interna do processo de trabalho. Ele decide como ele é feito e em


que passo ele ocorre.

No Capitalismo industrial (o b da figura 3.7), entretanto, o


trabalhador não mais possui as suas próprias ferramentas ou trabalha em sua
própria casa. Agora ele tem que trabalhar nas ferramentas e em um local de
trabalho, tal como uma fábrica ou escritório que pertence a um capitalista que
organiza, supervisiona e controla cada faceta do trabalho, o trabalhador não
mais vende o seu próprio produto, agora ele vende o seu tempo de trabalho
para o dono da fábrica . O uso deste tempo é determinado pelo proprietário,
trabalho e casa geralmente são fisicamente separados e territorialmente
entidades distintas e com maridos e mulheres tendo que de trabalhar fora de
casa por longas horas. Outras funções da vida se tornam territorialmente
96

segmentadas, surgem escolas para tomar conta e educar as crianças e


hospitais para tomar conta dos doentes. Estas outras separações territoriais e
segmentações que acompanham o Capitalismo industrial, têm profundo efeito
em como a Territorialidade é usada no Capitalismo e será abordada mais
tarde. Aqui é importante enfatizar que a comercialização do trabalho e do
capital dentro do Capitalismo Mercante e do Industrial resulta em uma
complexa mudança no locus da força política e na forma que ela é percebida.
A caracterização desta mudança depende, em grande parte, da ideologia de
alguém.

Em sociedades tradicionais ou divididas por classe, o poder


político e o governo estavam, sem dúvida, nas mãos da elite. O poder era
altamente visível e coercivo, qualquer outra função que tenha sido
representada pelo Estado, o seu propósito final era manter a elite através do
reforço da extração do excedente. Mas, no Capitalismo o poder político e o
Estado aparecem em uma luz diferente, eles parecem ser forças
potencialmente neutras. O trabalho e o capital, como fatores de produção
entram em um acordo salário-trabalho ou contrato. Os defensores do
Capitalismo interpretam este acordo, como algo livre e justo, na longa corrida
pelas forças de oferta e procura em um sistema de mercado competitivo. Se o
trabalho pensa que lhe é pago muito pouco, ele pode barganhar por mais ou
então ir para outro lugar e o capital também pode contratar o trabalho que

escolher. No Capitalismo Industrial, o capital pode se mover para novas


localidades, afim de encontrar novos trabalhos e também pode substituir mais
capital e materiais.

Para os defensores do Capitalismo, o Estado é ou pode ser um


agente neutro, reforçando, imparcialmente, estes e outros contratos e acordos.
Neste sentido, o econômico e o político parecem ser independentes um do
outro. O econômico é a esfera privada, que no Capitalismo Industrial está
baseada , particularmente, no contrato de trabalho e salário e governada pela
mão invisível do mercado. O político é a arena pública acessível para resolver
conflitos, de acordo com regras justas e procedimentos. Ele assiste a
economia, primariamente, assegurando que acordos sejam cumpridos e
providenciando mercadorias públicas e serviços, tais como estradas, canais,
97

defesa e justiça. Em retorno, ele recebe legitimação deste recipiente e se


suportar através de taxas. Entretanto os defensores do Capitalismo podem
descordar que os poderes do Estado sejam neutros e devam ser limitados.
Eles também percebem que de fato o papel do Estado é vasto e que a maioria
dos analistas concordariam que o Estado afeta grandes segmentos da vida.

Esta aparência de neutralidade política e quase independência


do econômico, é uma diferença fundamental entre o Estado no Capitalismo e o
Estado nas sociedades pré-capitalista ou divididas por classe. Entretanto, os
defensores do Capitalismo e seus críticos discordam se isso é mais do que
uma aparência. Os marxistas argumentam que, particularmente no Capitalismo
Industrial, a opressão herdada do sistema capitalista, é baseada e ainda
camuflada pelo acordo salário-trabalho, o capital possui os meios de produção
e o trabalho cria valores. Para o trabalhador trabalhar, deve ser dado a ele
algum capital dos valores que ele criar. O contrato de trabalho é um
mecanismo pelo qual o capitalismo esconde a extração do excedente, sob a
máscara de um acordo livre e aberto, em outras palavras, o trabalho é pago
menos do que val e. O capital extrai este din heiro simplesmente por ter o
poder de reter os empregos. Esta diferença e a extração do excedente é
disfarçada pela aparente liberdade do trabalhador entrar em um contrato de
trabalho. Através deste contrato, o excedente é extraído sem o uso de força e
sem a intervenção política. Ao providenciar o suporte para este contrato e para

a propriedade privada dos meios de produção, o Estado sob o Capitalismo é


cúmplice em suportar esta relação desigual.

Não surpreendentemente, as diferenças entre os marxistas e os


não-marxistas, são sobre as visões da economia política e a influência do
Estado com suas respectivas avaliações da Territorialidade. A maior coisa que
os marxistas tendem a ver as unidades políticas, como criando e legitimizando
as diferenças e obscurecendo as fontes do poder, enquanto, os não-marxistas
não o fazem. Nós abordaremos este assunto mais tarde, mas agora é
importante reconhecer que, embora as duas visões possam ver a
Territorialidade empregando diferentes aspectos de efeitos, nem todas as
interpretações dos usos do território no capitalismo caem dentro da divisão dos
marxistas ou não-marxistas. E que as duas visões podem coincidir ,
98

consideravelmente, com algumas tendências básicas nas relações entre o


surgimento do Capitalismo e com o Estado de um lado e as concepções de
espaço, tampo e Territorialidade de outro.

Ambos concordariam que, além de apresentar o Estado num


papel mais neutro, o Capitalismo tem aumentado a mobilidade geográfica da
população geral. Com o comércio e a mobilidade veio a extensão geográfica
do poder político. Isto ajudou o acesso seguro a novos mercados e a novas
matérias-primas e ajudou a manter o transporte confiável e o salvo-conduto
dentro do domínio. (A integração nacional era interesse da burguesia
emergente e também da monarquia, ela deu ao monarca uma fonte direta de
rendas e ajudou a passar os interesses feudais locais, que diluíram a
autoridade do monarca).

Com o Capitalismo veio a necessidade de uma acu mulação


crescente e também de uma inovação. Tanto o mercado quanto o industrial
devem continuar a expandir os seus mercados, para vender (e produzir) mais e
mais novas mercadorias. Se eles não o fazem, eles correm o risco de perder o
seu negócio para outros que o farão, que podem vender mais barato do que
eles. Assim, a mudança se torna algo imperativo do sistema e a racionalização
ou uma justificação ideológica para a mudança, se torna personificada na idéia
de progresso. O tempo, como se acredita, levará à mudança, uma mudança

para melhor. Esta abstração e atribuição do valor ao tempo se torna mais


intensa com o crescimento do salário-trabalho e do capitalismo Industrial. Ela
também se torna fortemente interrelacionada com as mudanças nos
significados de espaço e território.

Ideologia.
99

Muito do pensamento do Renascimento, reflete as necessidades


do novo sistema econômico emergente. O homem tomou o centro do palco e
as sensações do homem foram as fontes primárias do seu conhecimento do
mundo, colocando a experiência, ao invés da escritura, tradição e autoridade
como a fonte de conhecimento aberta para o mundo e para uma visão
experimental e até mesmo científica. Novas necessidades e experiências
podem ser encontradas, viajando-se ou também através de novas
comodidades. A exaltação da riqueza e do consumo (que as novas
denominações protestantes proclamaram na sua idéia de um chamado) é tão
importante como um componente do sucesso do Capitalismo, quanto são os
negócios competitivos de acúmulo e acesso a recursos e mercados, ajudando
a tornar a acumulação da riqueza e dos novos produtos possível, foi um
mecanismos de mercado de oferta e procura que propiciou um mecanismo
poderoso de revelar e medir as necessidades. O mecanismo de mercado
quantifica o valor e conforme o reino da atividade de mercado se expandia,
mais e mais coisas se tornavam valiosas em termos de preço de mercado, ao
invés do seu valor ou utilidade tradicional.

Quantificar valores, foi paralelo ao uso de medidas na ciência, os


fatos podiam se descritos em termos unidades quantificáveis, tais como
localidades, tamanhos e pesos, tão bem quanto as mercadorias, podiam ser
descritas em termos de preços. Experiências de todos os tipos foram se

tornando mais fáceis de se medir. Usar termos quantitativos para descrever a


realidade impirica e o valor econômico, foi muito mais útil para uma sociedade
dinâmica do que descrevê-los em termos dos seus usos tradicionais ou
costumeiros, que não eram mais partilhados ou sobre a autoridade estava
perdendo a sua legitimidade. Mas a quantificação teve ainda outra
conseqüência, ajudou a tornar outros reinos do ocidente mais abstratos e
autocríticos.

Representar a realidade através de números, não é em si


intrínsicamente mais abstratos do que representar a realidade através de
palavras ou figuras, mas quando isto é acompanhado com um cálculos das
relações quantitativas, tais como uma geometria ou uma álgebra, isto então
reforça uma forma de representação que é precisa e convencional, ainda que
100

fria e remota pelas complexidades e contradições da experiência ordinária, tal


clareza e distância são características da concepção cientifica em geral. Os
significados dos conceitos científicos são coinciamente criados e chegam
através de um consenso da comunidade cientifica, eles não são vistos como
símbolos naturais, mas sim como construções conscientes. Esta consciência
encoraja a ciência e os reinos relacionados a se tornarem autocríticos de suas
próprias representações. A quantificação engloba clareza, precisão e natureza
pública dos termos científicos, representar a natureza através de termos ou
símbolos bem definidos específicos e geralmente quantificáveis facilita uma
separação e recombinação conceitual prolongada e complexa das partes da
realidade, isto deixa os cientistas alertas que eles estão criando símbolos cujo
significados são negociáveis. Esta atividade conceitual consciente, acrescenta
algo à autocrítica da natureza da ciência, ela promove um alerta de que
alguém está construindo modelos da realidade e não criando realidade ou
afetando a realidade representada. Qualquer coisa que alguém faz, pode
afetar a realidade, mas os cientistas reconhecem que os símbolos usados não
manipulam diretamente as coisas que eles representam (como se acredita ser
o caso no ritual e no mágico). E esta consciência do papel da simbolização,
assistida pelo uso da quantificação, ajudou a aumentar o espirito da
experimentação intelectual nos outros modos de pensamento.

O papel dado pelo Renascimento à observação e à experiência

humana, à quantificação dos fatos e valores e à emergência das ciências não


foram de maneira alguma as causas diretas e os efeitos um do outro e nem
eles dominaram imediatamente o pensamento ocidental, eles foram diferentes
com idéias que foram impostas e reforçadas conforme o capitalismo se
desenvolvia, eles estavam também interrelacionados com as mudanças que
ocorriam nos conceitos e usos do espaço da terra, do território e do tempo. É
claro que o desenvolvimento de um conceito mais métrico-quantitativo do
espaço, do lugar e do tempo tinha um efeito paradoxal de facilitar o
movimento, a coordenação e o controle de atividades sobre a terra, enquanto
removia o significado do espaço e do tempo da experiência mais ordinária. O
espaço e o tempo se tornaram molduras abstratas, as quais os eventos e as
experiências estão relacionados. Esta abstração foi grandemente afetada
pelas idéias ocidentais modernas da realidade, isto ajudou a tornar o
101

pensamento ocidental autocrítico; e ajudou a diminuir o ritual e a aumentar o


ceticismo.

Espaço e tempo.

O Capitalismo é a primeira economia dinâmica confiável, as


mudanças que o Capitalismo cria são racionalizadas através da crença no
progresso. As pessoas esperam que o futuro signifique mudança para melhor,
isto é verdadeiro. Geralmente, outras sociedades dizem que o futuro podia ser
melhor, mas isto usualmente significa que existem ciclos de bons e maus
tempos e o que aconteceu eventualmente acontecerá novamente ou que
alguma coisa inteiramente nova e revolucionaria ocorrerá, mas somente
através da intervenção divina. A crença na noção ocidental do progresso
entretanto, significa crer em uma mudança secular mais ou menos contínua
para melhor, para novo e não disponível até o presente momento e isto
ocorrerá mesmo em condições imprevistas. A fé sega no progresso, como a fé
sega em qualquer coisa, é um uso não sofisticado de uma abstração, mas
haviam bases firmes na sociedade pós-renascentista, para uma crença mais
cautelosa no progresso, que poderia ser tomado como uma generalização
sobre as mudanças que poderiam ocorrer na vida material.

A idéia de progresso bem como as experiências mais mudanas


de mudança na sociedade moderna, estão baseadas na noção métrica
abstrata do tempo. Medir uma passagem do tempo ainda requer medir as
mudanças no mundo material, como o caminho do sol. Entretanto, as
diferenças primárias residem no fato de que a medida pode ter referências
irrestritas, ela pode se referir a eventos familiares, tais como o movimento de
corpo celestes ou a idade das pessoas, mas sua função primária se torna,
simplesmente, servir como uma medida neutra para marcar a duração e a
seqüência de qualquer e de todos os eventos. De fato, ao invés dos eventos
marcarem o tempo, as unidades métricas do tempo têm sido usadas para
definir os eventos, como quando na vida da fábrica o trabalho começa às oito
e termina às seis.
102

O tempo métrico se torna uma parte importante de uma visão de


mundo, com referência a cada novo avanço nos pedaços do tempo mecânico,
isto permite que o tempo seja medido em unidades menores, iguais e precisas.
Estas unidades, bem como a antiga divisão dos dias, semana e anos começou
a ter valor, conforme o trabalho começou a ser calculado em termos de compra
e venda do tempo de trabalho.

Conforme o tempo métrico foi se tornando livre de qualquer


experiência particular ou contexto, também foi o espaço geográfico. Poucas
sociedades, incluindo Europa medieval, fizeram uso sistemático de uma grade
espacial para representar o mundo. Os chineses fizeram uso de um sistema de
coordenadas, mas isto parece estar cheio de significados espirituais. A
geometria grega e a cartografia, estavam mais preocupadas com objetos
sólidos do que com o espaço abstrato, ainda uma parte da matemática grega e
da cartografia tinham o potencial para se referir a terra e ao espaço celeste,
como um sistema métrico. A discussão de Ptolomeu, das projeções e
coordenadas, chegou perto de qualquer formulação pré-moderna para uma
abstração e metrificação do espaço. A este respeito que o sistema de
Ptolomeu tenha sido útil para a Idade Média cristã até 1150, mas não foi usado
para os geógrafos medievais, ao invés disso os cientistas medievais
aplicaram-no no espaço e até mesmo lá ele estava interrelacionado com a
astrologia. Para o espaço da Terra, a Geografia medieval geralmente

substituía uma visão mística derivada da doutrina da Igreja. Em uma


importante série de representações medievais, ilustrada na figura 3.8, a Terra
foi dividida em três regiões, África, Ásia e Europa e estas eram reunidas no
centro em Jerusalém. A importância deste conceito, é que onde quer que
alguém estivesse realmente localizado no espaço físico, isto era algo material,
a menos que alguém estivesse no centro da cidade santa, Jerusalém.

Não somente até o século XV, com o despertar dos interesses na


navegação e comércio, que o sistema de Ptolomeu de mapeamento da Terra
foi redescoberto. O ano de 1405, viu a primeira translação no ocidente das
Geografia de Ptolomeu, a partir daí a representação do espaço, em termos de
coordenadas, tais como a longitude e a latitude, se tornou a concepção
geográfica padrão de espaço. Usar um sistema de coordenadas para
103

representar um espaço, depende de imaginar o globo não como uma


topografia morta, mas como uma superfície homogênea dirigida por uma grade
uniforme. Um espaço métrico abstrato foi unido a tempo métrico abstrato, para
formar uma moldura de referência geral e precisa, na qual as experiências
humanas estão provavelmente localizadas.
O mapeamento do espaço, em termos de coordenadas, somente
um dos dois instrumentos primários para exp ressar a consciência do espaço
como uma moldura abstrata para os eventos. O outro foi a descoberta no
século XV, da pintura em perspectiva, antes desta época o conceito de espaço
nas pinturas, estava dominado pela posição e tamanho. O tamanho de objeto e
sua posição, na pintura, indicavam alguma coisa da sua importância, mas
nada da sua localização real na realidade geográfica. Dentro do contexto da
pintura em perspectiva, os eventos a serem pintados eram literalmente
pintados em um sistema de coordenadas preexistente, que representava o
próprio espaço. A pintura em perspectiva e a cartografia do Renascimento, se
reforçaram uma a outra. Os artistas estavam conscientes dos novos métodos
cartográficos e os cartógrafos eram, geralmente, artistas. Suas interconexões
podem ter sido tão fortes, que as regras de Ptolomeu para as projeções de
mapa podem ter sido adotadas por Alberti, um dos fundadores da pintura em
perspectiva em suas construções de perspectivas.

Os desenvolvimentos na cartografia e na pintu ra, fora m de

grande importância para conceitualizar e para apresentar um sistema espacial


abstrato, mas empregar um sistema para fins práticos, encontrou vários
empecilhos. O dicionário geográfico de Ptolomeu, que foi usado na
Renascência como base do mapa do mundo conhecido, foi consideravelmente
inexato. A latitude era fácil de ser medida com exatidão no mundo antigo,
através da observação da altura da estrela polar ou do sol. Mas, a longitude
que requeria observações simultâneas em diferentes locais geográficos de
eventos celestiais, não era possível de ser medida em qualquer grau de
exatidão até que peças confiáveis e portáteis foram desenvolvidas no século
XVIII, até lá somente aproximações grosseiras puderam ser feitas.

Apesar destas limitações temporárias da aplicabilidade da


moldura espacial métrica-abstrata, ela foi achada útil o suficiente para permitir
104

novos desenvolvimentos na projeção de navios e na navegação e estas


inovações tecnológicas ajudaram a melhorar a exatidão dos mapas, mais e
mais coisas se tornaram geograficamente acessíveis e exatamente
localizáveis. Mas, em um mundo complexo alimentado pelo Capitalismo, a
Territorialidade é requerida para clarear o caminho para a acessibilidade
geográfica e vários desenvolvimentos precisaram acontecer antes que o
sistema espacial abstrato pudesse ser incorporado e ligado em sua abstração
ao uso moderno do território.

Territorialidade.

Um uso moderno do território é baseado principalment e em uma


autoridade política suficiente ou poder para ligar as dinâmicas do Capitalismo,
para ajudar repetidamente a mover, moldar e a controlar a organização
espacial humana em escalas vastas. Este uso moderno do território é primeiro
uma questão de grau e intensidade mas, em algum ponto, ele começa a
conduzir a sentido diferente qualitativamente do território e do espaço. O
território se torna conceituadamente e até mesmo realmente esvaziável e isto
apresenta o espaço como uma superfície real e esvaziável ou estágio no qual
os eventos ocorrem.

Desde o início dos registros históricos, existem casos de


definições territoriais das relações sociais de moldar pessoas para formar
comunidades e de planos abstratos para novas cidades e colônias. Por toda
parte podem ser encontrados exemplos da criação de novas unidades
territoriais políticas, a partir de antigas em uma escala menor da posse da terra
como uma propriedade não cumulativa. Estas definições territoriais devem ter
feito pensar, em algum grau, que a terra bruta era simplesmente uma área do
espaço, mas estas definições dificilmente constituíam uma maioria ou em
muitos casos uma proporção significante dos usos da sociedade e
experiências do território, pelo contrário, a grande maioria das comunidades
foram estabelecidas tão gradativamente e em tão longa duração que mesmo
105

que a Territorialidade fosse usada para iniciar um assentamento, com a


passagem do tempo o lugar se tornaria uma entidade natural e unificada.

A nível político, o Velho Mundo não encontrou vastas porções de


terra e nem tinha necessidade ou habilidade para criá-las. Mesmo quando um
grupo conquistava outros, os conquistadores, com poucas exceções, tais como
o esforço Mongol para banir os chineses das estepes, não tentavam expulsar
as comunidades preexistentes e suas relações de posse da terra. Para
qualquer valer alguma coisa, ela tinha que ser ocupada por agricultores e a
maioria das terras no velho mundo, era então ocupada. Desalojar populações
residentes, mesmo se um monarca ou Estado tivesse poder para isso,
significava que os refugiados deveriam somente ser removidos e isto era um
empreendimento tedioso e custoso. A conquista no velho mundo, antes da era
da exploração, envolvia subjugar e estabelecer suserania sobre as populações
agrícolas antigas e residentes, isto não envolvia desabrigá-las inteiramente,
mesmo quando estas populações eram vistas de forma inferior por seus
conquistadores.

Embora a Europa medieval, como todas as civilizações,


empregasse uma definição territorial das relações sociais em alguns graus, o
conceito predominante da Territorialidade no mundo antigo, antes do
Renascimento, era de uma definição social e a transição para uma consciência

de uma definição territorial para acompanhar o surgimento do Capitalismo,


teria sido mais gradual se não fossem as descobertas do Mundo Novo. O
Mundo Novo e, especialmente a América do Norte, apresentou aos poderes
europeus uma área vastas, distante, desconhecida e nova, isto significou que,
com a tecnologia limitada e o poder político ao seu dispor, os europeus
poderiam ainda “limpar” muito do espaço e formar territórios em todos os
níveis geográficos, com uma intensidade que era impossível de ser aplicada
no Velho Mundo.

A descoberta do Novo Mundo acelerou o uso de uma definição


territorial, mas levou tempo para este sentido se ligar às abstrações das
representações cartográficas do espaço. Além disso, a intensidade crescente
de uma definição territorial juntamente com o uso de um espaço métrico
106

abstrato não substituiu e pelo contrário complementou conceitos antigos.


Indicações de mudanças de atitude com relação ao território e ao espaço, são
encontradas em muitas facetas da nova política mundial, especialmente na
América do Norte. A evidência de se pensar no território como um espaço
esvaziável, está indicada cedo nas constituições e concessões americanas,
que delimitaram suas reivindicações usando linhas métricas abstratas de
latitude e pela provisão por uma hierarquia de subterritórios administrativos,
antes que se fizesse o levantamento topográfico da terra e o assentamento.
Isto está indicado pelas alegações européias de que a Terra estava
virtualmente desabitada e pelo deslocamento da maior parte da sua população
aborígene, algumas para reservas. Isto é encontrado na mudança gradual da
definição de comunidade, que primeiro era quando um nov o cidadão era
somente admitido com consenso da comunidade, passando para uma
admissão que requeria somente uma residência dentro do território da
comunidade, está indicado pela mudança de uma forma de representação em
que a comunidade era pensada ser uma entidade orgânica com um interesse
comum e assim precisava somente de um representante para dar voz às suas
necessidades, para uma representação proporcional baseadas em censos
periódicos, nos quais a comunidade é pensada mais como uma coleção de
indivíduos, do que como um corpo unificado. Evidências também são
encontradas na Constituição dos Estados Unidos, no uso da representação de
áreas como um instrumento para dividir facções e para balancear o poder, são

também encontradas no parcelamento territorial das terras ocidentais.

Os casos de se tratar o território como um molde esvaziável e


preenchível, multiplicam-se conforme nós se aproximamos do presente. E a
mesma tendência é vista quando nós olhamos os territórios em escalas
geográficas menores dentro das vizinhanças e dos edifícios. A diferença
primária é que aqui diferente do nível político que, devido os mapas de
coordenadas, podia ser representado como um espaço vazio para a partição e
aí preenchimento. A escala menor e os níveis arquiteturais, foram vistos como
esvaziáveis somente após terem sido reduzidos, somente após cada coisa ter
sido colocada em lugar separado. Esta separação não significa uma
diminuição da densidade, pelo contrário, significa primeiro isolar e segmentar
107

atividades específicas a serem contidas e isto, geralmente, resultou em uma


multiplicação e intensificação da Territorialidade.

Antes desta transformação, as ruas das cidades medievais da


Renascença e aquelas outras das sociedades pré-modernas, por exemplo,
estavam lotadas com empurra-empurra de numerosas atividades. Podia se
encontrar mercadores vendendo as suas mercadorias, pedintes, famílias se
socializando, pregoeiros espalhando as notícias, julgamentos públicos e
enforcamentos tudo isso ocorrendo ao mesmo tempo nas ruas e nas praças.
Mas, conforme os interesses comerciais se tornaram mais imp ortantes e
conforme os efeitos do capital comercial expulsou mais e mais os camponeses,
houve um desenvolvimento maior das restrições sobre o acesso aos espaços
públicos, como estradas e praças.

Regras foram criadas, proibindo os mercadores de negociar as


suas mercadorias nas ruas, restringindo os pedintes em certos locais,
proibindo encontros sociais e em geral limitando o uso das ruas e rodovias
somente para o transporte de pessoas e de mercadorias de um lugar para o
outro. Conforme as atividades nas ruas diminuíram e ficaram limpas para os
transporte, a cidade se tornou mais e mais economicamente diferenciada, as
fontes de água foram limpas para armazenagem, as trocas de estoque foram
estabelecidas em áreas acessíveis e com o Capitalismo Industrial a cidade

assumiu a sua forma moderna de áreas residenciais e de distritos de produção


e de negócios. Uma redução correspondente do lugar, através da isolação e
da segmentação, pode ser encontrada a nível da arquitetura doméstica.

Antes da revolução comercial, a principal organização


arquitetural, até mesmo das maiores casas, não era baseada em uma
designação cuidadosa das funções específicas para compartimentos
específicos ou locais, ao invés disso, os lares eram subdivididos em quartos
que podiam servir para múltiplas funções. E na maioria dos casos, cada
compartimento levava um outro, os poucos corredores centrais existiam
somente para o acesso, mas conforme as atividades nas ruas e lojas se
tornavam reduzidas, também elas se tornavam especializadas dentro da casa.
Novos projetos para mansões, continham corredores especificamente para o
108

movimento e acesso e os compartimentos se tornavam mais e mais específicos


para tipos particulares da funções, logo, casas mais modestas possuíam
plantas-terras especializadas.

A redução e o conceito eventual de esvaziar os locais, ocorreu


mais dramaticamente no ambiente de trabalho. Conforme a figura 3.7 sugere,
uma diferença básica entre o Capitalismo Mercantil e o Industrial, é que neste
último, primariamente, as ferramentas e os locais de produção pertenciam ao
capitalista ao invés de pertencerem aos trabalhadores. Os trabalhadores agora
têm que trabalhar fora de casa, com máquinas que não são deles, isto implicou
que o capitalista, tinha que definir, supervisionar e controlar os mínimos
detalhes do processo de trabalho. Os trabalhadores vinham para fábricas em
horários definidos e eles trabalhavam em locais específicos dentro das
fábricas e em máquinas específicas por intervalos de tempo específic os. Eles
não podiam deixar as suas estações de trabalho sem a permissão e eles não
podiam variar o ritmo do trabalho. Os trabalhadores estavam constantemente
sob os olhares do supervisor e os corpos dos trabalhadores eram pouco mais
do que apêndices das máquinas.

Uma vez que o trabalho agora foi separado de casa e os


membros da família agora estão fisicamente separados durante as horas do
dia, outras instituições geograficamente distintas surgem para suprir os velhos

e os novos serviços para os domicílios. Novas formas territoriais, surgem pra


produção, consumo e vigilância, escola contendo salas de aulas e carteiras
com os assentos nomeados e ordenados, prisões subdividas em celas e
blocos de celas, hospitais e asilos com alas e vilas ordenadas de quartos e
camas. Uma coisa comum para muitas dessas estruturas foi o arranjo dos
lugares que facilitaram o acesso hierárquico, a supervisão e controle.

A divisão crescente do trabalho e a segmentação espacial dos


elementos da vida, reduziu as atividades no espaço. Somente um ou no
máximo uns poucos evento definido ocorreu em local cuidadosamente
preparado. Em muitos casos, os processos que eram segmentados e
organizados, eram tão incomuns que as estruturas designadas para contê-los
não eram adequadas para nada. Quando os processos não eram mais
109

abrigados no prédio restava a estrutura vazia, abandonada a menos que o


edifício fosse totalmente renovado, mas a maioria dos processos, embora
grandemente subdivididos, segmentados e reduzidos, podiam ser abrigados
dentro de um tipo geral de arquitetura, desde que as partições interiores
fossem flexíveis o suficiente para permitir uma reorganização. As mesmas
estruturas básicas, somente com leves modificações, poderiam então servir
para uma variedade de propósitos, este era o caso para instituições tais como
hospitais, asilos, escolas, prisões ou fábricas. Mesmo os prédios de
apartamento, eram projetados com partiç ões interiores moveis, tal que o
ocupante poderia organizar o espaço interior conforme ele desejasse. Este
sentido de um containner flexível e conceituamente esvaziável, foi incorporado
na língua da arquitetura, os arquitetos ainda construíam edifícios, mas agora
eles o chamavam de volumes ou espaços.

O poder para criar formas arquiteturais versáteis e capazes de


subdividir, organizar e reorganizar cada aspecto interior fez do universo da
construção, algo ao mesmo tempo, conceituamente e realmente, esvaziável e
um espaço reusável ou containner. Ver e usar o espaço como um containner,
a nível arquitetural, ladeia a consciência do espaço geográ fico como uma
superfície ou volume na qual os eventos ocorrem. O mesmo sentido pertencem
a ambas as escalas, uma vez que as sociedade moderna possui o poder,
através do territorial, para repetidamente esvaziar, preencher e reorganizar os

eventos no espaço, isto significa que os eventos e o espaço são


conceituadamente separáveis e que um apenas está relacionado com o outro.
As pessoas, as coisas e os processos não estão ancorados a lugar, eles não
são essencialmente e necessariamente do local.

A sociedade moderna é dinâmica, ela coordena populações


vastas e móveis e isto faz locais distantes acessíveis, através de sistemas
uniformes de transporte, além disso a sociedade moderna exalta a ciência e a
tecnologia e estes modos vêem o espaço tão abstrato e métrico quanto a
geometria. Não de se surpreender que a visão técnica da sociedade do
espaço, se torne uma importante, se não a primária, visão prática e
experiência do espaço. De maneira alguma, entretanto, nossa experiência de
lugar é um sentido métrico abstrato, ela é, entretanto, o componente primário
110

na nossa visão pública e ela afeta até mesmo as nossas experiências pessoais
do mundo. As dinâmicas da sociedade moderna, tornam difíceis as coisas
ficarem paradas criarem raízes, ver os lugares como reuniões de eventos, leva
tempo e em nossa sociedade as coisas mudam rapidamente. Não admirem,
então, que até mesmo a disciplina da Geografia, que está preocupada
principalmente com o lugar e com o espaço, tenha acabado com o ambiente
físico, dentro do espaço métrico isotrópico. Ela também tem enfatizado de
maneira genérica lugares, ao invés de maneira específica e também reduziu
relações físicas em distâncias métricas.

O papel da Territorialidade em forma um sentido de um espaço


abstrato esvaziável, é somente um dos muitos efeitos territoriais possíveis que
podem ser esperados na sociedade moderna. Em adição a isto a teoria sugere
que a Territorialidade, pode ser usada pela sociedade moderna para
desenvolver estruturas burocráticas e para mascarar as fontes do poder. Estes
efeitos e suas relações, para o espaço métrico abstrato, serão examinados
mais tarde quando nós consideraremos o desenvolvimento do sistema
territorial americano e o local de trabalho.

Ao invés de explorar a outra linha divisória descrita no começo


deste capítulo e na figura 2.3, que é a transição para a civilização, e ao invés
de considerar as diferenças nos usos territoriais entre as diferentes

civilizações pré-modernas, o objetivo deste livro será focalizado em questões


da modernidade. Mas, é importante lembrar que nem todo uso significante da
Territorialidade, pode ser ligado diretamente a mudanças na economia política.
As conexões descritas na figura 3.3 , que formaram as bases deste capítulo,
sugerem que vários efeitos territoriais, podem ser esperados de ocorrerem em
qualquer sociedade e que algumas características modernas podem ser
encontradas na civilizações pré-modernas e vice-versa. Além disso, a relação
na figura 3.2, bem como a interconexões gerais na figura 3.1, indicam que até
mesmo quando os efeitos territoriais estão ligados às relações econômica-
políticas, ligação nem sempre é forte. A Territorialidade, especialmente dentro
das organizações, pode possuir uma dinâmica própria. Uma organização pode
usar a Territorialidade e se desenvolver e mudar (conforme ilustrado na figura
2.2), mesmo quando a maior economia-política da sociedade não o faz. Para
111

ilustrar esta conexão complexa entre os efeitos entre os efeitos territoriais


dentro de uma organização e entre a organização e a sociedade, nós
examinaremos os usos modernos e os não tão modernos da Igreja Católica,
em aproximadamente 2.000 anos de sua existência. A Igreja é um arquétipo da
hierarquia organizacional e uma das organizações territoriais mais velhas e
mais explícita. Ela exemplifica, a persistência e a mudança no uso territorial,
através de contextos sociais sucessíveis.

4.A Igreja.

A Igreja Romana Católica contém, os exemplos mais complexos


dos efeitos territoriais. Durante os seus quase 2.000 anos de história, ela
formou um sistema territorial hierárquico elaborado, que tem influenciado os
objetivos da Igreja e a sua política. Até o final da Idade Média, a Igreja era
mais avançada do que a maioria das instituições do seu tempo. Mas, desde o
surgimento do Mundo Moderno, segmentos importantes da organização da
Igreja, começaram a ser pensado de forma conservativa e até mesmo arcaica.
E através de sua história, a Territorialidade tem desempenhado um papel
importante. O que fez a Igreja territorial e como a Territorialidade tem afetado a
natureza da Igreja?

Territórios e a Igreja visível.

A Igreja Católica Romana, começou com um líder carismático e


com um grupo de seguidores fracamente organizado e desenvolveu-se em
uma das maiores, mais claramente articuladas organizações hierárquicas e
burocráticas. As burocracias se desenvolvem, para ajudar a alcançar os
objetivos de uma instituição. Mas, freqüentemente os oficiais da organização,
começam a ter interesses próprios, que se divergem daqueles da instituição.

Tais oficiais subvertem o papel da burocracia, para conseguir os seus próprios


escritórios e status. As ambições desses oficiais são melhor servidas, quando
se fazem os outros acreditarem que suas visões de hierarquia e burocracia
são componentes indispensáveis da organização. A história da Igreja Católica
112

Romana, tem si do particularmente sucestível a estes conflitos de interesses,


especialmente porquê os objetivos srcinais e guias da Igreja - a salvação das
almas e a promulgação da virtude - são coisas abstratas e intangíveis. Críticos
da Igreja, argumentam que a hierarquia católica evitou que a Igreja alcançasse
a sua missão religiosa. As autoridades da Igreja não concordam. Elas alegam
que de fato, a sua organização e hierarquia são coisas sagradas e partes
essenciais da Igreja e de sua missão. Ainda mais, mesmo para os apóstolos da
Igreja, a união dos ideais da Igreja e a organização é, geralmente, uma coisa
difícil.

Os interesses hetero e o prático da Igreja e suas interrelações


são refletidos na noção geral de que a Igreja tem duas naturezas. A primeira
inclui o sistema abstrato da crença e valores encontrados nas escrituras, os
quais a Igreja se propõe a representar e aos quais aqueles que já estão no céu
aderiram. Isto será chamado de a Igreja invisível. A segunda se refere as
instituições sociais da Igreja e engloba seus membros, seus oficiais, suas
regras e regulamentos, suas estruturas físicas e propriedades. Isto será
chamado de Igreja visível ou física. Os prédios da Igreja, as propriedades, os
lugares santos, as paróquias, dioceses são elementos na Igreja visível. Não
são coisas simplesmente localizadas no espaço. Elas são lugares separados
por fronteiras, dentro das quais a autoridade é exortada é o acesso é
controlado. Em outras palavras, elas são territórios.

Tipos de territórios da Igreja.

A Igreja reconhece e controla muitos tipos de território, mas nós


focalizaremos primariamente em dois: aqueles que são separados como locais
santos e prédios da Igreja, e aqueles que estão ligados às estruturas
administrativas da Igreja, tais como paróquias, dioceses e arquidioceses. Os
lugares santos da Igreja Romana Católica, incluem a localização de eventos
milacurosos, a localização física e a estrutura dos prédios da Igreja. Os
prédios e suas localidades são considerados santos e desde o quarto século
da era de Cristo, eles têm sido consagrados. Todos os locais santos, não
113

igualmente santos ou sagrados para os católicos. Algumas igrejas são mais


santas; além de serem consagradas, elas têm que ser construídas próximo dos
locais de um evento milacuroso. E nem todos os milagres, são olhados com o
mesmo carisma. Geralmente, a Igreja tem maior consideração com lugares que
têm conexão com Cristo e o Apóstolos. No topo da lista estão os lugares como
a Terra Santa, a Igreja do Santo Sepulcro em Roma e o local da tumba de São
Pedro.

Os locais santos estão ligados com a hierarquia da Igreja porque,


por um lado, os locais mais santos, Geralmente, têm os oficiais de cargo mais
alto na Igreja a cargo deles e, por outro lado, a autoridade de um oficial é em
parte derivada de se ter autoridade sobre um local santo. A tumba de São
Pedro em Roma, dá um peso extra aos bispos de Roma para torná-los também
vigários de São Pedro.

Em escalas geográficas menores, as igrejas católicas são


subdivididas em áreas de vários graus de santidade. Embora, as formas de
seus prédios variem de planos longitudinais para planos centrípetas, elas
rodas contém lugares similares, divididos de acordo com a santidade ( figura
4.1). No geral, nós encontramos primeiro o santuário com seu lugar mais
santo, o altar, e então o seu lugar para o coro e presbíteros, em segundo, a
nave que o lugar para a congregação. Aqui também existe uma relação entre a

posição na hierarquia e acessibilidade geográfica. Durante as cerimônias da


Igreja, somente aqueles que são oficiais da igreja têm acesso ao santuário, o
altar é acessível somente para o maior oficial da igreja, enq uanto que a nave
é reservada para as pessoas.

O segundo tipo de território da Igreja, que nos diz respeito está


em uma escala geograficamente maior e se refere às unidades associadas
com a organização da Igreja Episcopal (Embora os sistema monásticos
estivessem intermeados com o Episcopal, é este último ao invés do primeiro
que será o foco primário da nossa atenção). A Igreja Católica divide a maior
parte do seu reino em linhas de hierarquia territorial, tais com paróquias,
dioceses, arquidioceses e em algumas áreas em sés metropolitanas (ver
figuras 4.2 e 4.3). Cada um desses territórios é comandado por um oficial da
114

Igreja, cuja posição no governo da Igreja corresponde à posição na hierarquia


territorial. Os padres têm jurisdição sobre as paróquias, os bispos sobre as
dioceses, os arcebispos sobre as arquidioceses e o Papa sobre todas. A
relação de curso não é perfeita, nem todos os padres têm suas própria
paróquias. E o bispo é o padre da Catedral da sua diocese. Diferente dos
prédios da Igreja e dos lugares santos, as unidades territoriais na segunda
categoria, não são santas. Mesmo assim, elas têm se tornado tão importante
para a Igreja visível quanto são os prédios e os lugares santos.

Estes dois tipos de território, têm muito a ver com a organização


interna da Igreja como uma organização religiosa e eles serão o foco da nossa
atenção. Suas histórias são importantes e seu desenvolvimento, multiplicação
e organização hierárquica serão mostrados estarem fortemente associados
com o desenvolvimento da organização da Igreja. Conforme os críticos têm
apontado, a religião não é o único interesse da Igreja. A Igreja também é uma
instituição política e econômica. Estes outros papéis inevitavelmente afetam as
funções de ambos os tipos dos territórios da Igreja e criam outro tipos também.
Em alguns casos, as funções política, econômica e religiosa da Igreja visível e
seus territórios conduzem a fontes múltiplas e conflitantes de controle. Por
exemplo, a adoção do Cristianismo como a religião de Estado pelo Império
Romano, não somente deu status aos lideres oficiais da Igreja e apressou a
burocratização da Igreja, mas também colocou numerosas unidades territoriais

nas mãos da Igreja. As dioceses Romanas eram territórios com múltiplos


propósitos somente uma das suas funções era religiosa. Além disso, da
metade do quarto século até o final do século VI, os limites geográficos da
Igreja eram os limites práticos do Império. As políticas de dissolução do
Império Romano, estavam longe de sobrepujar as diferenças teológico-
doutrinais como causas do cisma da Católico-Romana com a Ortodoxa
Oriental. Foi uma decisão política dos Papas se aliarem ao ocidente, para
preencher o vazio político deixado pelo colapso do Império. Ligar a Igreja
Católica às fortunas do ocidente, abre os caminhos para os territórios da Igreja
se tornarem uma parte da economia política feudal.

Uma paróquia na Idade Média era, geralmente, uma unidade


político-administrativa e econômica, bem como uma religiosa. Os lideres
115

seculares na Idade Média exerciam um controle sobre os compromissos dos


padres e bispos e as rendas da propriedade da Igreja e território. Os ricos
fundaram igrejas e deram propriedades para o seu suporte. Em retorno, eles
queriam manter o controle sobre elas. A despeito destas transações seculares,
a Igreja se tornou um importante Estado politicamente soberano com poder
sobre grandes territórios políticos como na formação dos Estados Papais que
começou com as doações de Pepin no século VIII. O efeito destes
empreendimentos políticos e territórios sobre a Igreja foi extremamente
importante. Muito da sua implicação está refletida na mudança de caráter e
funções dos tipos de organizações territoriais a serem considerados - os
territórios Episcopais e os lugares santos e prédios.

A história da Territorialidade dentro da Igreja é complicada,


mesmo quando a investigação é restrita há somente dois tipos de territórios.
Mas, a união da teoria da organização e a Territorialidade, discutida no
capítulo 2, sugere muito efeitos territoriais gerais, que podem ser antecipados
mesmo em um contexto complexo como na história da Igreja. No geral, nós
podemos esperar que a teoria nos guie para um entendimento do uso do
território pela a Igreja. Nós podemos esperar que a Territorialidade ande de
mãos dadas com o desenvolvimento da organização da Igreja e hierarquia.
Assim como a hierarquia aumentou, também aumentou a organização.
Especificamente, nós podemos esperar ver uma associação positiva entre o

desenvolvimento do território da Igreja e as dimensões sociológicas da


especialização, padronização, formalização e o alcance organizacional do
controle. Nós também podemos esperar que a Territorialidade tenha ajudado a
criar algumas das facetas modernas da organização da Igreja, tais como a
impersonalidade do escritório e uma intensa definição territorial das relações
sociais. Nós também podemos antecipar que as dinâmicas internas e os
pontos extremos da Territorialidade, tal como ilustrado na figura 2.2 , têm
influenciado o desenvolvimento da estrutura da Igreja e os objetivos dela.
Assim, a Territorialidade da Igreja pode ser esperada de se ter criado má
escolha geográfica e desperdícios e ter se tornado um fim em si mesmo.

Estes e outros efeitos territoriais, mencionados no capítulo 2,


guiaram a nossa discussão sobre a Igreja. Mas, duas qualificações devem ser
116

mantidas em mente. Primeira, focalizar as mudanças organizacionais e


territoriais não significa que estas características possam ser isoladas
prontamente e quantificadas. Os registros da Igreja são vastos mas
incompletos, os historiadores da Igreja não os têm reunidos em termos dos
critérios da teoria organizacional ou com vistas para os efeitos territoriais.
Estas limitações significam que as mudanças entre o território e a organização,
mencionadas acima, podem ser apenas sugestivas. Segundo, uma que nós
estamos concentrando em cima do território da Igreja e somente em dois tipos,
nós também devemos enfatizar somente uma porção do caráter organizacional
da Igreja - a sua estrutura organizacional hierárquica. Isto é claro, é uma
faceta importante da Igreja, mas nós devemos ser cuidadosos para não
esquecer que a Igreja e sua organização possuem outras características. O
Clero, por exemplo, vê a si mesmo como profissionais e profissionais,
geralmente, têm objetivos que diferem dos burocratas. A Igreja também tem
pensado nela mesmo como uma família. Os bispos tendem a cuidar de seus
paroquianos, como um pai cuida das suas crianças, as freiras são “noivas” de
Cristo e os clérigos na Igreja são, geralmente, parte da família no sentido de
que eles vivem juntos e, em geral, comunalmente.

A Igreja é, então, muitas coisas, nada menos é um corpo religioso


interessado em assuntos éticos e todas estas características têm afetado o
desenvolvimento da estrutura da Igreja. Entretanto, a Igreja emergiu como uma

das mais extensivas, duradouras organizações burocráticas hierárquicas no


mundo e sua estrutura, por sua vez, tem afetado os seus objetivos. Sob a luz
dos objetivos mundiais da Igreja, está o de mais impressionante nesta
instituição, ao contrário dos outros tipos, tais como exércitos e governos, que
têm declaradamente conceitos mudanos, ela se tornou tão claramente
hierárquica e burocrática.

O Cristianismo primitivo.

Durante a maioria dos 300 anos da história da Igreja, as


comunidades cristãs eram pequenas, variadas no caráter, geograficamente
117

distantes, compostas geralmente das classes baixa e média e freqüentemente


perseguidas. Elas existiam em uma sociedade contendo outras religiões, que
eram hierarquicamente organizadas com claras unidades territoriais e dentro
de um império que era ele próprio uma mistura de organizações e territórios.
Assim, dentro deste contexto, nós encontramos forças poderosas na Igreja
primitiva resistindo a criação da hierarquia de uma Igreja visível e de um
território. Mesmo quando a Igreja primitiva professou a necessidade pela
organização ela era, geralmente, expressa em termos de modelo de família.
Mas, a despeito desta resistência a organizações mais formais e impessoais e
a uma estrutura da Igreja visível mais clara, os primeiros 300 anos do
Cristianismo mostram um movimento perceptível e relutante partindo de uma
coleção fracamente organizada de seguidores, para um grupo mais organizado
formalmente, impessoalmente e hierarquicamente. Este movimento, foi
acompanhado pelos aumentos na Territorialidade em ambas as escalas, tal
que pelo ano 300 da era de Cristo, ao invés de uma comunidade,
simplesmente, residir e adorar um lugar, os cristãos estavam a caminho de
usar a Territorialidade para ajudar a definir a sua comunidade, os seus lugares
de adoração e suas relações entre si.

O contexto judeu.

O Cristianismo é um ramo do Judaísmo. Cristo e a maioria senão


todos os Apóstolos eram Judeus. A maioria dos cristãos originais, eram
Judeus convertidos e trabalho srcinal da Igreja aconteceu em comunidade
judaicas. Por muitos anos, não estava claro se o Cristianismo era somente

mais uma das seitas judaicas ou um culto misterioso ou realmente outra


religião. A ligação entre o Judaísmo e o Cristianismo tem um grande efeito na
organização cristã. Embora, o Judaísmo fosse uma religião de Estado, ela
gerou numerosos grupos dissidentes, um dos quais foi o Cristianismo primitivo.
118

O Cristianismo primitivo era, em parte, uma rebelião contra a rígida estrutura


hierárquica do Judaísmo. É significante notar que o Judaísmo também tinha
uma rígida estrutu ra territorial. A ligação entre as duas é importante porqu e os
primeiros cristãos, geralmente, criticavam uma através da outra.

O Judaísmo tinha importantes dilemas, os quais encontravam


eco, principalmente, na distinção dos cristãos entre a igreja visível e a
invisível. Os Judeus acreditavam que havia somente um Deus e que ele era
onipresente. E que ainda ele parecia preferir um povo - os Judeus - e parecia
residir na Terra Santa e mais precisamente no Templo. O Templo era o ponto
focal entre o paraíso e a terra e seu interior santo era o mais santos dos locais.
O Templo foi oficialmente sancionado, como o centro da adoração religiosa
pra todos os Judeus. Os judeus, além disso, acreditavam que Deus era
acessível a todo homem, que cada um poderia conhecê-lo através da
adoração e da obediência a seus mandamentos. Eles desenvolveram um
elaborado sacerdócio, que trabalhava no Templo e que servia como
intermediário entre Deus e o homem.

A relação entre os Judeus, a terra e Deus é complexa. Deus


tomou Israel como seu povo escolhido. Era uma terra santa, a qual os judeus
deviam fazer por merecer, seguindo os ensinamentos de Deus. Uma das
maneiras de fazer os Judeus aderirem à vontade de Deus, era através do

desenvolvimento de uma hierarquia da Igreja reforçada pela autoridade do


Estado. Quanto mais próxima fosse essa ligação, mais emaranhada se tornava
a Territorialidade do poder político e da prática religiosa. Uma podia ser usada
para suportar a outra. Como uma religião de Estado, os pronunciamentos
sobre os lugares de adoração podiam ser impostos e a concentração sobre um
lugar primário, poderia ajudar a focalizar a autoridade religiosa e a concentrar
politicamente e unificar o Estado. É claro que o judaísmo parece ter levado isto
ao extremo.

O Templo para os Judeus era o lugar mais sagrado de todos. Os


Judeus de Israel eram esperados ali para fazerem as suas adorações e sues
sacrifícios. Embora, Eretz Israel fosse um país pequeno, era difícil para os
Judeus de fora de Jerusalém fazer a viagem mais do que umas poucas vezes
119

por ano. É provável que outros locais de adoração tenham surgido, mas não
há evidências de que tais lugares fossem encorajados pela ordem
estabelecida. E assumindo que eles eram tolerados, suas funções seriam
restritas porque a Bíblia contém referências à tentativa pelo Judaísmo
organizado de extinguir lugares competidores de sacrifício, embora talvez não
de oração.

A srcem e o propósito das primeiras sinagogas não está claro.


As sinagogas são mencionadas somente no final do Velho Testamento e no
Novo. Mas, elas eram escolas, lugares de oração ou lugares de sacrifício?
Parte da dificuldade é porque o termo é grego e parece ter significado um ato,
e então mais tarde um luga r ou uma assembléia. O termo Heb reu para
sinagoga é ‘bet ha-knesset’, e significava srcinalmente uma casa de reunião.
Um termo de acompanhamento ‘bet ha-midrash’significava lugar de estudo.
Vários estudiosos acreditam que qualquer que fosse as suas funções, a
sinagoga pode ter sido uma instituição antiga contemporânea com o Templo..
Mas, a maioria sugere que ela começou no exílio da Babilônia e que continuou
entre os Judeus que foram viver fora de Eretz Israel até o tempo de Cristo,
quando ela foi também fundada dentro da Terra Santa. Esta interpretação é
sensata, porque o Judeu diáspora precisava de algum lugar dentro do Templo
inacessível. Embora, o propósito para que servia a sinagoga antes de Cristo
ainda permaneça não claro, nós sabemos que após a destruição do Templo e

no ano 70 na era de Cristo as sinagogas foram o principal foco da vida social e


religiosa dos Judeus.

Além do Templo, o Judaísmo também desenvolveu uma rigorosa


hierarquia dos escritórios religiosos, que eram preenchidos por famílias
seletas. No topo estavam os Cohens os sacerdotes que conduziam os serviços
e de onde se selecionava um alto sacerdote ou cabeça da religião. Havia os
Levitas que assistiam no Templo, agiam como guarda dos portões e formavam
o acompanhamento musical para os serviços. Também haviam os grupos que
providenciavam serviços específicos à manutenção e ao ritual do Templo.

O próprio prédio estava nas mãos da hierarquia religiosa. A


estrutura continha sub-áreas, algumas mais sacra do que as outras e o aceso
120

para os locais mais sacros correspondia a posição de alguém na hierarquia


religiosa. Em Crônicas 1, 28 e em Crônicas 2,3 e 4 são encontradas as
especificações divinas do primeiro Templo, consistindo de um vestíbulo e de
um santuário interior: o lugar mais sagrado de todos. Planos para um segundo
Templo são encontrados em Ezequiel 40-7 e um novo Templo foi construído
após o retorno do exílio da Babilônia. No tempo de Heródes, este segundo
Templo incluía uma cerca ao redor do projeto srcinal de dois compartimentos
do vestíbulo e do interior mais sagrado de todos.

O cercado de alguma forma podia ser ligado à comunidade,


englobando uma variedade de câmaras que eram como escritórios. O espaço
aberto ao sul do Templo era disponível para os Gentis. E havia mais outro,
uma área menor que somente os homens judeus poderiam entrar e ainda uma
outra restritas aos sacerdotes. O santuário interior do Templo, era restrito ao
alto sacerdote e até mesmo ele só tinha permissão de entrada no dia da
expiação dos pecados.

No tempo de Cristo, a teologia judaica se juntou ao


universalismo, mas na prática o Judaísmo era uma organização hierárquica
com uma estrutura territorial hierárquica. Os Judeus ocupavam um Estado
territorial que impunha uma religião de Estado. O Templo era um território de
adoração e o próprio Templo continha uma hierarquia de sub-territórios com o

lugar mais sagrado reservado somente para os mais altos sacerdotes. A este
respeito o Judaísmo não era diferente das outras religiões da época. Lugares
sacros e a hierarquia religiosa eram partes fundamentais das vizinhanças e
das religiões preexistentes no Oriente Médio e também eram importantes
facetas da religião de Roma. A organização hierárquica religiosa, entretanto,
era somente uma fração pequena da hierarquia dentro da civilização Romana.

Assim como o Judaísmo tinha seus dilemas, também tinha o


Cristianismo srcinal. Um em particular - a matéria versus o espiritual - é
especialmente importante para a organização da Igreja. Os primeiros cristãos
eram fortemente escatológicos; eles tentavam vigorosamente não serem
influenciados pelos oficiais, lugares santos e territórios. O Novo Testamento
contém numerosos pronunciamentos contra a organização religiosa. Paulo
121

escreveu aos Corinthians, que eles próprios, eram um Templo do Deus vivo
(Corinthians 2 ,6:16). De acordo com Matheus, Jesus não gostava de
demonstrações públicas de oração; aqueles que adoram rezar de pé nas
sinagogas e nos cantos da ruas ( Matheus 6:5). Ao invés disso, quando
desejar rezar, entre no seu quarto, feche a porta, ore ao pai que está em
segredo e pai qua está em segredo lhe dará a recompensa abertamente
( Matheus 6:6); e onde dois ou três se reunirem em meu nome ali eu também
estarei entre eles ( Matheus 18:20).

É provável que tais posições contra a organização e a hierarquia


estivessem sendo adotadas por grupos dissidentes Judeus, alguns dos quais
surgiram contra a hierarquia e a religião de Estado, enquanto outros queriam
purificar e reformá-la. Os samaritanos por exemplo tinham construído o seu
próprio Templo em Gerizim e os Essenos se mudaram do templo para Qumran
no Mar Morto. Lá eles estabeleceram um Templo alternativo onde eles
adoraram por m determinado tempo, esperando retornar para Jerusalém
quando o Templo tivesse sido purificado propriamente. Quanto mais tempo
eles permaneciam lá, mais eles acreditavam que Deus seria atraído para
aquele lugar contendo uma comunidade de verdadeiros seguidores. Esta idéia
encontrada nos seus últimos escritos, antecipou que as concepções dos
primeiros cristãos de templo ou de igreja não era de um prédio, mas de uma
comunidade de adoradores; uma definição social do território. Além disso, os

sacrifícios fora do Templo levaram a fundação da aceitação de uma noção


cristã mais geral de um sacrifício simbólico. Estes conceitos incipientes foram
compatíveis com a confiança dos Judeus diáspora nas sinagogas no local do
Templo, como um local de adoração e assembléia. A sinagoga era situada em
qualquer lugar que os crentes se reunissem. Estes experimentos Judeus
dissidentes deram um passo na direção da visão cristã primária de um sentido
de comunidade cristã não-física e não-territorial.

A resistência a hierarquia Judaica, a religião de Estado, e ao


território religioso reforçou a reivindicação cristã pela universalidade. Isto fez a
conversão ser mais fácil. Isto fez as comunidades cristãs serem mais flexíveis.
Mas, também fez O Cristianismo mais incomum e mais difícil para Roma
compreender. Enquanto isso, a perseguição dos Romanos aos cristãos fez dos
122

cristãos mais conscientes da sua própria identidade e aumentou a


necessidade pela organização, pela reação primária, se esse fosse o motivo,
porque os cristãos primeiros aceitaram melhor a organização e hierarquia é
que, como todos os grupos, eles precisavam de disciplina interna para
continuar a existir. E o Novo Testamento podia ser usado tão facilmente para
justificar a autoridade como podia ser usado para condená-la. As autoridades
construíram seus pronunciamentos em ciam do Novo Testamento, para
justificar e estender as suas posições. Apesar da resistência original e sincera
à rígida hierarquia e organização, e apesar do fato de que as descrições da
estrutura da Igreja fossem originariamente tomadas em termos de uma
organização familiar, mais e mais as hierarquias e as características
impessoais começaram a entrar na organização da Igreja: primeiro para definir
as relações entre as comunidades, e segundo para estipular relações entre
elas. Acompanhando estes desenvolvimentos na organização estava uma
maior territorialização da Igreja.

A organização Cristã Inicial.

As comunidades cristãs iniciais estavam geograficamente


dispersas e geralmente eram mini-culturais. A uniformidade em sua
organização não podia ser esperada no começo. Talvez estas comunidades,
que eram srcinariamente em maior parte de Judeus, pode ter retido alguma
coisa da estrutura comunal Judaica. As comunidades Judaicas diaspóricas,
geralmente, tinham o conselho dos mais velhos para manter a comunidade
junta e para reforçar a disciplina. Este conselhos de presbíteros eram,
geralmente, conduzido por um presidente ou, nos termos cristãos, por um
bispo. Naquelas primeiras Igrejas estabelecidas pelos Apóstolos, os bispos
podem ter sido selecionados pessoalmente, mas em qualquer caso o
presidente ou o bispo, em conjunto com os presbíteros, formavam um corpo de

governo natural dos mais velhos. O Novo Testamento contém poucos termos
de organização consistente com o velho. Paulo, por exemplo, não a palavra
sinagoga nem arquinogogos, nem os títulos Judeus para clérigo. E o papel das
mulheres na sociedade cristã primária é mais liberal do que o papel
123

desempenhado por elas no Velho Testamento. Fosse uma mistur a do velho e


do novo, está claro que os padres da Igreja tinham uma organização em mente
- uma que era provavelmente sensível aos diferentes costumes regionais e às
heranças dos primeiros convertidos. Em Corinthians 1,12:28-30, Paulo
repetidamente se refere aos papéis dos Apóstolos, dos profetas e dos
professores.(Esta lista muda levemente em Corinthians 1, 12:8-10; Romanos
12:6-8; e Efésios 4:11). A discussão continua em Clemente 1, 41-2 (escrito
circa na época de Cristo no ano 90), onde os Corinthians são apressados a
seguir a hierarquia. As epístolas de Inácio (circa no ano 100 na era de Cristo)
feitas a várias igrejas mencio na um estabelecimento de um governo da Igreja
uniforme baseado no papel do bispo, propriamente estabelecido, ordenado e
assistido por diáconos e presbíteros. Nestes e em outros documentos
contemporâneos nós encontramos preocupações sobre os heréticos, sobre
pregadores itinerantes que não propriamente ordenados e entraram nas
congregações e nós encontramos em geral uma urgente necessidade para
uma organização da Igreja.

Estas cartas foram escritas para as comunidades por homens da


Igreja altamente respeitáveis que eram de outras comunidades, e esse pessoal
“de fora” fazia as visitas, o que sugere a voluntariedade de uma comunidade e
de seu bispo em reconhecer e submeter-se e uma autoridade maior. No final
do século II, a hierarquia tanto dentro de uma comunidade como entre

comunidades estava se tornando solidificada e explícita. Isto é revelado por


exemplo os registros dos encontros dos conselhos. Estes conselhos seguiram
um modelo após o encontro dos Apóstolos que ocorreu entre o ano 50 da era
de Cristo e 52 em Jerusalém. Provavelmente nenhum outro conselho foi
realizado no primeiro século (não há registro deles), mas há registros de vários
no segundo século e mais ainda no terceiro. As disputas entre e dentro das
congregações eram geralmente discutidas nestas assembléias locais e
regionais, a partir delas pode ser compreendida a formação da hierarquia da
Igreja. Por exemplo, os conselhos da África, realizados em Cartage e
começando no ano de 251, foram convocados por Cipriano e ilustram que
havia naquele tempo uma conexão hierárquica estabelecida entre os oficiais
da Igreja de Roma e os oficiais nas capitais das províncias. O propósito do
conselho foi endereçado a questão se um grupo cristão dissidente dentro da
124

comunidade estava correto em tirar o poder de seu bispo Cipriano. O problema


surgiu quando Cipriano teve que deixar sua congregação pra escapar da
perseguição Romana. Enquanto estava fora, membros dissidentes da
congregação depuseram Cipriano e elegeram o seu próprio bispo e então
apelaram à Roma para uma confirmação. Roma não aprovou e Cipriano
convocou um conselho para decidir então que era o legítimo bispo. Este
conselho em Cartage saiu em favor de Cipriano e pediu pelo consentimento de
Roma, que foi então dado. As decisões deste e de outros sínodos eram
geralmente enviadas pra Roma para serem aprovadas, o que indica que
mesmo neste período primário o ocupante daquela sé era considerado
primeiro entre os iguais.

Lá pelo terceiro século, nos termos de Weber, a Igreja estava a


caminho de desenvolver hierarquias definidas dos escritórios. Cada
comunidade estava começando a ter uma esfera definida de competência em
um senso administrativo e o protetor do escritório estava se tornando sujeito à
disciplina sistemática. Mas, a burocracia da Igreja estava ainda embriônica e
facetas particularmente modernas, como a impersonalidade ainda não
estavam em evidência. As comunidades eram pequenas e dispersas. O bispo
era selecionado pela congregação e era suposto a servir toda vida. Ele e os
membros da Igreja local, conhecia um aos outros, sua vivência não era
derivada somente do seu ofício. E embora ele fosse consagrado por outros

bispos, ele e os outros oficiais da Igreja não precisavam de treinamento formal


para exercer o ofício. Dada esta organização emergente e largamente pessoal,
o que pode ser dito da sua Geografia? A Igreja primária usava a
Territorialidade para reforçar a disciplina e a coerção? Os bispos usavam-na
para definir o seu domínio de responsabilidades?

Territorialidade.

As comunidades cristãs estavam localizadas no espaço. Os


cristãos geralmente viviam próximos um dos outros nas cidades e eles se
reuniam para adorar. Os cristãos em cada cidade tendiam a formar uma
125

comunidade única e uma comunidade ou cidade para a maior parte tinha um


bispo e uma organização governamental. A comunidade era geograficamente
focalizada e, em menores, o bispo mantinha a autoridade pessoal sobre seus
assistentes e paroquianos. Caso a comunidade fosse grande em população e
área e se estender-se além dos limites da cidade até os arredores do interior,
o bispo da cidade permitia que os diáconos viajassem para locais específicos
para presidir sobre alguns aspectos da adoração. O bispo dava tais
concessões pessoalmente e ainda que relutantemente toda congregação
esperava se reunir na cidade para ocasiões importantes e em alguns casos até
mesmos para eucaristia, especialmente nos dias de festa. Conforme Inácio
disse: ‘não deixe ninguém fazer nada com relação à Igreja sem o bispo. Deixe
que a eucaristia considerada válida seja aquela realizada pelo bispo ou por
alguém que ele aponte’.

As cidades Romanas tinham fronteiras administrativas


relativamente bem delimitadas. As cidades grandes, além disso, eram
geralmente as capitais da província. A questão surge naturalmente se as
comunidades cristãs primárias não eram somente geograficamente localizadas
e focalizadas, mas se elas também se definiam territorialmente, talvez usando
os limites da cidade ou do interior do território para classificar e moldar a
comunidade. À primeira vista, dificilmente seria surpresa se elas fizessem isto,
porque isto era a prática geral para definir comunidades políticas, e de que

outra forma elas poderiam chegar à indicação de se ter virtualmente um bispo


para cada cidade? O status não-oficial e geralmente marginalizado do
Cristianismo sugere que nesta escala geográfica as comunidades cristãs
individuais começaram como grupos não-territoriais, e então, talvez no
segundo século, o lugar, senão o território, se tornou parte da definição da
comunidade. No terceiro século, o grupo pode ter até mesmo usado a
Territorialidade para suplementar as suas próprias definições sociais e para
ajudar a manter estrangeiros fora e para ajudar na imposição da disciplina. O
território era ainda uma unidade primariamente englobando uma organização
social viável e assim socialmente definida.

No primeiro século, talvez devido a escatologia e ao caráter


peripatético dos Apóstolos, os padres da Igreja saiam pelo caminho para fazer
126

ver a Igreja visível e que ela não está ancorada a nenhum território. As cartas
da Igreja primária ( as cartas de Paulo aos Corinthians, as primeiras epístolas
de Clemente para os Corinthians, as epístolas de Inácio para os Efésios,
Magnésios, Trallians e Romanos), se referem a uma Igreja ser em um lugar (e
não) de um lugar e às vezes surgindo em um lugar. Embora, freqüentemente
se referindo ao governo da Igreja, estas cartas não falam diretamente sobre o
território. As cartas de Paulo aos Corinthians se referem à necessidade para
autoridade e hierarquia da Igreja e também avisos para a congregação está
alerta quanto aos profetas itinerantes, que podem desviar a congregação do
verdadeiro caminho da fé. As cartas reconhecem que a congregação ou
comunidade está na cidade e que normalmente há uma por cidade e o
conceito de profetas itinerantes sugere que a posição de um bispo ou clérigo
tenha se tornado geograficamente fixada. Mas, nenhuma menção é feita de se
usar os limites da cidade ou alguma outra fronteira especificável como um
meio de definir ou de impor uma jurisdição a uma congregação. O mesmo
pode ser dito de Clemente e mais ainda das epístolas de Inácio. Elas exortam
demais a congregação a seguir os seus bispos elas incentivam contra os
falsos profetas, os pregadores itinerantes e os faladores. Elas alertam contra
se ter tais pessoas ‘entre você’ e elas incentivam a congregação a ‘não admiti-
las’, mas novamente não há nenhum uso explícito do território para confirmar o
controle sobre a comunidade. É claro que isto que se esperava, porque elas
não tinham ainda nenhuma autoridade para recorrer nas afirmações

territoriais.

Ainda os traços do começo da mudança são talvez revelados em


uma das cartas de Inácio, na qual em um ponto ele se refere a si mesmo como
o bispo da Síria. Enquanto, isto é quase um exemplo, a forma de se referir se
torna mais comum no final do segundo século, e no terceiro a conexão entre
um bispo e um local, senão um território, se torna explícita. Os conselhos
contém representantes para os lugares e eles pedem às congregações para
excluir os heréticos dos seus lugares. O exemplo do grau ao qual um lugar, ou
talvez um território, tenha começado a ser associado com a autoridade está
parece na controvérsia cercando o bispo Origem. As influências ocultas
teológicas são complexas mas as geográficas são simples. Origem era da
Alexandria. Ele foi convidado pelos bispos da Cesárea e Jerusalém para
127

pregar na Palestina.. Isto enraiveceu o seu próprio bispo, Demetrius da


Alexandria. Origem mais tarde retornou para Jerusalém ode ele foi ordenado
como padre por seu bispo. Esta transgressão de Jerusalém que foi vista por
Demetrius como a prerrogativa de Alexandria enfureceu Demetrius tanto que
baniu Origem e convocou dois sínodos (no ano de 321 da era Cristo) para
censurar a ordenação de Origem. Aqui claramente uma área ou território
administrativo está ligado à autoridade, mas exemplos de controles territoriais
mais fortes não ocorreram, e talvez não pudessem ocorrer, até que a Igreja
não fosse mais um movimento subterrâneo.

Assim, por mais de 300 dos primeiros anos da história da Igreja


nós encontramos uma progressão gradual geralmente relutante para um
começo não-territorial até a emergência da Territorialidade no nível episcopal.
A mesma tendência pode ser vista em escala menor a nível dos lugares santos
e prédios da Igreja.

Muitos dos padres Apostólicos viam a Terra Santa


diferentemente daquela que viam os Judeus. Poucos acreditavam no
Cristianismo como sendo, em qualquer sentido, um lugar específico e há
pouco para sugerir que eles pensassem de Israel ou até mesmo de Jerusalém,
como lugares especialmente sagrados. Uma separação espacial similar é
encontrada na sua falta de entusiasmo para separar lugares específicos para

adoração. Nós notamos que na sua profissão primária a Igreja é uma


comunidade de adoradores e nós mencionamos a resistência de Cristo dos
Apóstolos para os edifícios formais de rezas. Deus e a comunidade estavam
irremediavelmente ligados. A vida não era pra ser dividida em partes seculares
e sagradas. No termos de Davi, ‘Adoração não podia ser extraída do processo
de viver e resumida em um lugar secular. Uma vez que Deus era onipresente a
todo lugar que era santo’. De acordo com Saint Daniel, ‘Não é um lugar que é
chamado de Igreja nem uma casa feita de pedra e terra’... O que é a Igreja
então? É a reunião santa daqueles que vivem em retidão’. Embora tais
sentimentos possam ser encontrados bem no terceiro século, os cristãos se
reuniam para rezar, e a conveniência para se encontrar em um lugar
específico gradualmente levou ao uso daquele lugar como constituindo uma
parte básica da congregação.
128

As comunidades cristãs eram geralmente pequenas, pobres e


clandestinas e até a metade do terceiro século os encontros e adoração
ocorriam em casas privadas. Nos dois primeiros séculos, estas eram
geralmente ocupadas por uma ou mais famílias cristãs e abriam para a
congregação em ocasiões religiosas. Depois disso, era comum para uma casa
desocupada ser dada ou doada para a congregação e usada somente para o
propósito de encontros e para orações. Mesmo assim as casas ainda
pertenciam a um ou mais indivíduos porque a Igreja não era reconhecida pela
Lei Romana e não podia possuir propriedade até o início do quarto século.
Mesmo quando uma casa de encontro era ocupada por uma família, logo se
desenvolvia uma diferenciação interna das suas partes, cada parte era locada
para funções específicas e para personagens da escala. Por exemplo, uma
diferenciação geográfica do compartimento para eucaristia é encontrada na
seguinte descrição do terceiro século:

Escolha os lugares para os irmãos com cuidado e serenidade. E


para os presbíteros deixe ser escolhido um lugar na parte leste da casa; e
deixe o trono do bispo ser colocado no meio dela e deixe os presbíteros sentar
com ele. E novamente, deixe o leigo sentar em outra parte da casa na direção
do leste...Mas com os diáconos, deixe um ficar sempre com as obrigações da
eucaristia; e deixe outro sem elas perto da porta para observar aqueles que

entram.

Os quartos geralmente eram modificados para se adequarem à


necessidade da adoração. Em uma ocasião um compartimento foi aumentado,
‘um estrado foi colocada, provavelmente para a cadeira do bispo, contra a
parede leste, além do qual estava uma pequena sacristia...Parece ter havido
também algumas câmaras para catecismo e para pequenos batismos.

No final do terceiro século nós encontramos Igrejas construídas


com propósito, algumas das quais eram estruturas impressionantes; e no
começo do século IV os importantes negócios da Igreja eram esperados de
serem conduzidos especificamente dentro dos prédios da Igreja. No sínodo de
129

Cirta ( no ano 305) foi anotado que os bispos se encontraram numa casa
particular porque as Igrejas foram destruídas e não tinham sido restauradas.

Nas vésperas da sua aceitação por Roma, o Cristianismo,


embora relutante, tinha começado a criar uma Igreja visível e territorial. A
hierarquia da Igreja tinha se tornado explícita e os oficiais da Igreja tinha se
tornado em algum grau separados do resto da comunidade de adoradores. A
adoração estava sendo confinada mais e mais aos prédios da Igreja, a parte
sagrada da vida tinha sido separada em alguma extensão da secular. Os
prédios da Igrejas e suas partes reacenderam enormemente o governo da
Igreja bem como o sagrado. A própria comunidade e a autoridade dos bispos
estavam se tornando mais e mais territoriais. Os bispos eram de uma cidade, e
o tamanho da cidade afetava o prestígio do ofício.

A Igreja Romana primária.

Uma vez que o império Romano adotou o Cristianismo, no início


do século IV, o aparato inteiro do governo de Roma estava à disposição da
Igreja e os oficiais da Igreja. A escala e a autoridade estavam mais claramente
especificadas. Os bispos cobravam taxas de consagração ou ordenados de
acordo com o valor das suas sés, as classes entre o clero geralmente eram
traduzidas nos níveis dos lucros e os estágios regulares para o sacerdócio
eram introduzidos. O tamanho das comunidades da Igreja e o aparato da Igreja
aumentaram a um ponto onde, nas grandes cidades, as relações entre o bispo
e seus paroquianos, e até entre o bispo e o quadro da Igreja, eram geralmente
impessoais. Além disso, os fundos se tornaram disponíveis para construir
igrejas e os cristãos podiam reformar as basílicas Romanas antigas e os
templos. Não somente a adoração foi territorializada dentro do prédio das
igrejas, mas também foi a comunidade toda territorializada. O poder dos

oficiais da Igreja, voltou ao Estado e se tornou definido de acordo com as


fronteiras administrativas territoriais do Império das dioceses. O conceito de
lugar sagrado em geral começou a assumir importantes papéis na vida cristã.
Não estava restrito somente aos prédios da igreja, que estavam para ser
130

consagrados, mas se aplicou também a lugares nos quais os milagres


ocorriam, particularmente na Terra Santa. Alguns ainda resistiram a estas
mudanças, mas a direção geral foi em direção a uma centralização hierárquica
maior, a diferenciação e a Territorialidade.

A fonte mais rica que ilustra a ligação entre a burocratização e a


Territorialidade é o registro acumulado dos conselhos da Igreja e os cânones
que foram promulgados. O número destes conselhos aumentou enormemente
uma vez que a Igreja tinha sido reconhecida por Roma. Nós ressaltamos, que
os conselhos eram convocados pelos bispos ou pelos metropolitanos das
maiores cidades. Este costume continuou, mas agora o formato dos encontros
era modelado conforme o sistema político legal do Senado Romano e os
Imperadores eram convocados e presidiam sobre muitas pessoas importantes.
Estes eram chamados de conselhos ecumênicos. A religião era o interesse
primário da Igreja mas questões da fé eram, desde o princípio, inseparáveis
dos assuntos da organização, o que explica porque muito deste negócio dos
conselhos se referia à organização.

O inicio do quarto século, onde o Cristianismo se tornou a


religião oficial do Império, até o colapso de Roma no século V, define o
período durante o qual o Império Romano ajudou a organizar e a consolidar o
Cristianismo. Os registros da Igreja mostram que deve ter havido centenas de

conselhos regionais e quatro ecumênicos durante este período. Mesmo uma


lista breve de todos os cânones que estes conselhos promulgaram seria
constituída de volumes. O melhor uso do espaço aqui seria resumir os
resultados desses conselhos primários, o de Nicea e o do Antióquia, para dar
o sabor destes encontros e a atenção dada à organização, e então tirar uma
amostra do resto e separar aqueles cânones referentes à Territorialidade e à
hierarquia. Estes serão discutidos de acordo com as tendências e
combinações das tendências da Territorialidade que eles exemplificam.

O primeiro e extremamente conselho ecumênico, o de Nicea, foi


convocado no ano de 325 pelo Imperador Constantino para se referir à heresia
Ariana, que tem o nome devido a Arius, que proclamava que o filho não tinha a
imagem e semelhança do pai. A heresia foi rejeitada pelo conselho e uma
131

doutrina “verdadeira” foi apresentada no Credo de Nicine. Esta declarava que


o pai e o filho dividem a mesma essência divina. Após isto ter sido resolvido (e
uma época oficial para a Páscoa ter sido estabelecida), Arius foi exilado por
Constantino por cinco anos, e o conselho se prendeu a assuntos da disciplina
da Igreja em vinte Cânones. Estes incluíam regras como: proibir as eleições de
neófitos para o sacerdócio ou episcopado; a exclusão de eunucos auto-
infligidos dos lugares santos; rescindir a ordenação imprópria de bispos e
padres; declarar que aqueles que deixaram a Igreja por causa de perseguições
devem ser admitidos após doze anos de penitência; proibir a negação da
comunhão para alguém que esteja prestes a morrer; proibir que bispos, padres
e diáconos tivessem mulheres, outras que não fossem suas parentes, em suas
casas; expulsar clérigos culpadas de usura; e ordenar que as preces durante
os Domingos e Pentecostes fossem ditas de pé.

Em adição, entre estes cânones muitos se relacionavam


explicitamente com o território e o lugar. O Cânone quatro declara que um
bispo deveria ser consagrado por todos os bispos da província, mas se isso
fosse impossível, então deveria ser feitos pelo menos por três com o
consentimento escrito dos bispos ausentes e uma confirmação posterior da
metrópole. O Cânone cinco ordena que aquele que tivesse sido excomungado
pelo seu bispo deveria ser negado a ele a comunhão por outros bispos. O
Cânone quinze proíbe os bispos, diáconos e padres de deixar suas próprias

cidades (congregações) para outros. Se eles fizerem são forçados a voltar


atrás. O Cânone dezesseis é similar ao quinze exceto que ele é endereçado
aos bispos de outras congregações em não receberem ou seduzirem bispos
ou diáconos de outras congregações. Se um bispo ordenava um homem
pertencendo a outra igreja, a ordenação era inválida. Os Cânones seis e sete
se referem às disputas jurisdicionais e territoriais entre bispos e metropolitanos
ou arcebispos. A autoridade do arcebispo ou metropolitano era reafirmada e
alguma hierarquia entre os metropolitanos era estipulada. O Cânone dezoito
se refere ao território interno dos prédios da igreja. Ele os diáconos de dar
eucaristia aos padres, de recebê-la antes dos padres e de se sentarem entre
eles.
132

O conselho de Antióquia, no ano de 341, é importante por sua


mistura de política e teologia, e por seus cânones territoriais. ( Há um
desacordo se eles foram realmente promulgados em 341 ou antes.). O
conselho começou dedicando a chave de ouro de Antióquia. Mais de noventa
bispos foram neste conselho, nenhum dele era do oeste e muitos eram
Arianos. Eusébio de Nicomédia foi o principal bispo. Ele tinha usurpado a sede
Constantinopla, e era, entre outras coisas, dito como responsável pelos
assassinatos que ocorreram quando ele estava presente em Alexandria. Ele foi
condenado e substituído por Gregório, um Ariano. Além de atuar nas intrigas,
o conselho formulou Credos referente ao filho e ao pai e promulgou vinte cinco
cânones. O número três proíbe ou padres e os diáconos de se ausentarem por
longos períodos de suas dioceses. O número cinco estabelece que se algum
padre ou diácono se opõe ao seu próprio bispo e se separa da Igreja e reúne
uma congregação particular e desobedece os conselhos do seu bispo, ele
deve ser deposto. O número seis proíbe os bispos de receberem alguém
excomungado por outro bispo. O número nove ordena que todos os bispos de
uma província deve obedecer o metropolitano e dar a ele a precedência. O
número onze estabelece que nenhum bispo ou padre pode ir ao Imperador
sem o consentimento escrito do bispo da sua província. O número treze depõe
um bispo que ordena sem ter sido convidado em outra província. O número
quinze não permite apelação de uma decisão unânime do sínodos provinciais.
(Encarando este fato ele faz a hierarquia parar no nível do arcebispo. Ele é

virtualmente autônomo. Ainda que aproximações de Roma fossem permitidas


em certas ocasiões o número quinze de fato desencoraja tais aproximações).
O número dezesseis estabelece que um bispo que não tenha sido escolhido
em um sínodo regular - um que não tenha metropolitano - deve ser deposto
mesmo se tiver sido eleito pelas pessoas da sua diocese. O número vinte e um
proíbe os translados de bispos de uma sé para outra e o número vinte dois
proíbe os bispos de interferirem na sé de outros bispos.

Conforme estes conselhos revelam, uma vez que o Cristianismo


tinha a autoridade legal de Roma por de trás, uma aceleração dramá tica
ocorreu na definição da hierarquia da Igreja e no seu uso da Territorialidade.
Inúmeros outros conselhos e seus cânones também revelam que a autoridade
dentro da hierarquia estava intimamente relacionado ao território. A teoria da
133

Territorialidade pode ajudar a clarear porque isto seria o caso. Uma


consideração mais básica é que o Império tinha uma população vasta
geograficamente dispersa e com vários graus de mobilidade, e tais condições
fariam a Territorialidade o meio mais simples e mais claro para definir e dividir
as populações em grupos e atribuir a elas a supervisão dos oficiais da Igrej a.
É claro que as fronteiras territoriais, para a maior parte, já estavam claramente
demarcadas como jurisdições e geralmente reconhecida pela população. A
Igreja podia simplesmente usá-las como um molde para a sua própria
autoridade. No final do quarto século as comunidades cristãs urbanas em
muitos casos cresceram até um ponto onde o conhecimento pessoal dos
congregantes e pressão informal dos companheiros não eram suficiente para
definir uma comunidade ou para reforçar uma disciplina. Mas a autoridade
efetiva poderia ser obtida reforçando as asserções territoriais de controle.

A Igreja não controlava a residência dos paroquianos embora


alguns cânones afetassem os movimentos de longo alcance. Por exemplo, em
Arles, no ano de 314, o número dezesseis (que parece ser o mesmo número
cinqüenta e três de Elvira, no ano de 305 e 306), e o de Antióquia, no ano de
341, o número seis, ordenam que para alguém excomungado receber a
comunhão novamente, ele deve receber a comunhão no mesmo lugar onde ele
foi excomungado, o que significa que a pessoa deve estar, ou retornar, a uma
jurisdição territorial. Para a maior parte os cânones usavam um lugar de

residência do indivíduo dentro do território da Igreja como uma meio de incluir


aquela pessoa a um sete particular do Clero ou a uma igreja particular, como
em Nicea, no número cinco, onde se a comunhão fosse negada em um lugar
não podia ser recebida em outro. A Igreja, entretan to, podia e tentou controlar
a localização geográfica dos seus oficiais e usava a Territorialidade para
mantê-los no lugar, para definir e delimitar suas autoridades, define os canais
de comunicação, e para englobar hierarquicamente as responsabilidades da
Igreja. Mas fazendo isto a Igreja se abriu para outros efeitos territoriais, tais
como a possibilidades de más escolhas e abuso da autoridade território, e a
possibilidade de ter o território se tornando um fim ao invés de um meio,
também a possibilidade de ter o território criando diferenças nos acessos aos
recursos e autoridade. Virando para a associação geral entre a hierarquia e o
território, é impressionante quanto atenção foi dada aos cânones em definir e
134

delimitar as responsabilidades entre os arcebispos, bispos, padres e outros


oficiais da Igreja usando circunscrições territoriais da autoridade. Nós
encontramos estipulações gerais que todos os clérigos, incluindo os monges, e
os prédios da igreja que eles ocupavam, estão sob autoridade do bispo
daquela jurisdição (Chalcedon, ano de 451, cânones quatro e cinco); que
todas as disputas dentro de uma diocese deve ser levadas ao bispo
(Chalcedon, ano de 451, cânone nove) e não for resolvida eles devem ir ao
arcebispo ou metropolitano e não a outra província, e além disso todos os
clérigos ordenados em uma comunidade permaneçam naquela comunidade
(Arles, ano 314, cânone dois). Os cânones assim tornam o arcebispo
extremamente poderoso e mais ou menos autônomo com relação a sua própria
sé. Sua autoridade é difícil senão impossível de ser questionada se nem o
bispo e nem o padre podem ir ao Imperador para apelar sem o consentimento
do arcebispo (Antióq uia, ano 341, cânones onze e quinze) . O arcebispo deve
ser obedecido (Antióquia, ano 341, cânone nove) e deve estar envolvido nos
compromissos dos bispos dentro de sua província. Se por algum motivo ele
estiver incapaz de cumprir a sua função pelo menos três outros bispos dentro
da arquidiocese devem representá-lo ( Nicea, ano 325, cânone quatro; Arles,
ano 314, cânone vinte).

A hierarquia da Igreja existe além do metropolitano ou arcebispo,


embora ela não esteja ainda trabalhada completamente neste período. Há,

entretanto, referências nos conselhos com relação ordem do metropolitanos,


usualmente se referindo a Roma primeiro (Nicea, no ano 325, cânones seis e
sete; Chalcedon, ano 451, cânone vinte e oito), o que corresponde a
autoridade que a Igreja de Roma realmente exercia neste tempo.

Uma vez que o território estava intimamente conectado com a


definição de autoridade, a primeira forma para os oficiais da Igreja resistirem à
autoridade era saírem dos seus territórios. A evidência para esta prática são
inúmeras proibições contra ela. Por exemplo, há regras contra um bispo deixar
a sua diocese sem a permissão e geralmente cânones separados
especificavam quais seriam as conseqüências (Nicea, ano 325, cânone
quinze; Arles, ano 314, cânones dois e dezessete; Antióquia, ano 341,
cânones treze, vinte e um, e vinte e dois; e Sárdica, ano 347, cânone um). Há
135

proibições contra diáconos e presbíteros deixarem a diocese ou paróquia de


suas igrejas sem a permissão(Arles, ano 314, cânones dois e vinte e um);
Laodicea, entre 341-381, cânones quarenta e um, e quarenta e dois). Há
proibições contra um bispo receber ou atrair presbíteros, diáconos e outros, e
às vezes cânones separados especificavam as conseqüências ( Nicea, 325,
cânone dezesseis; Antióquia, 341, cânones seis e treze; Arles, 314, cânone
dezessete; Sárdica, 347, cânone dezenove; Chalcedon, 451, cânone vinte).

Estas movimentações ilegais dos oficiais da Igreja revelavam


más escolhas e abusos entre a autoridade territorial e as individuais e relações
a serem controladas. A única forma de prevenir uma escolha errada era ter
maiores autoridades territoriais reforçando proibições contra tais movimentos e
coordenando as atividades dos pequenos territórios. A este respeito além da
Territorialidade oferecer vantagens à hierarquia ela tem um momento seu para
aumentar a necessidade por mais hierarquia e burocracia enquanto diminui a
sua própria eficácia.

Talvez o atrito territorial mais óbvio para o funcionamento suave


da burocracia venha do fato de que a Territorialidade também tenha tendência
em ser usada para criar diferenças entre as unidades e assim entre os oficiais
que às governam. Embora tratadas em muitos aspectos como níveis
equivalentes dentro de uma hierarquia, cada sé não era de fato igual em poses

e prestígio. Os avisos contra a translação de uma sé para outra, conforme


expresso pelo bispo Hosius, “a causa sendo bem conhecida; por nunca se ter
visto um bispo que deixasse um bispado grande para pegar um outro menor”,
e os avisos no conselho do quarto sínodo em Cartage, em circa ano de 398,
cânone vinte e sete, estabelecendo que nem o bispo e nem um outro
eclesiástico deveria ir de um lugar menor para outro mais importante sem o
consentimento escrito de seu superior., isto claramente revela que as fortunas
diferentes das unidades territoriais eram claramente um fator.

Ligar a hierarquia com a Territorialidade agravou as diferenças


verticais. Os arcebispos comandam os recursos de suas províncias. Eles
também são responsáveis pela disciplina e doutrina da Igreja e era eles que
convocavam e presidiam os conselhos onde doutrinas e políticas de longo
136

alcance são preparadas. Ser um arcebispo dava a estes privilégios e ser o


arcebispo de Constantinopla ou de Roma dava ainda mais. Não é surpresa
que os cânones revelam que o controle sobre um específico território era
geralmente considerado como um fim ao invés de um meio para um fim, e que
os conflitos sobre assuntos teológicos e até mesmo sobre personalidades
eram geralmente deslocados como conflitos entre territórios.

A Territorialidade não pode somente clarificar as relações da


autoridade, ela pode torná-las impessoais. Quem que assumisse um
arcebispado teria controle total sobre a hierarquia da Igreja dentro de um
território. O pronunciamento de Chalcedon, no ano de 451, de que o bispo
controla todos os monges e novos prédios dentro do território (cânone quatro),
e que o clérigo das capelas e os monastérios estão submissos a seus bispos
(cânone oito), tem uma áurea impessoal. Assim também tem aqueles cânones
estipulando o relacionamento dos paroquianos com o bispo. Em Arles, no ano
de 314, o cânone dezesseis, por exemplo, estabelece que aqueles que foram
excomungados deverão receber a comunhão no mesmo lugar onde eles foram
excomungados. Estes e outros cânones apontam claramente para o potencial
de usar a Territoria lidade como um modelo impessoal. Novos paroquianos
podem ser moldados à comunidade de uma igr eja em virtude da sua
localização e padres, bispos e outros oficiais podem ser ligados uns aos outros
e às comunidades pelo local. As dimensões geográficas de qualquer nova

regra são moldadas pelas fronteiras territoriais das comunidades, Claramente,


mesmo neste estágio primário, os potenciais impessoais estão lá. Mas nós
podemos supor que somente nos centros urbanos muito grandes, onde os
oficiais das Igrejas chegavam a ser centenas e os congregantes milhares, este
potencial teve um impacto significante. Além disso, após a dissolução do
Império, este potencial estava obscurecido e não se tornou novamente
importante até os séculos onze e doze.

O uso do território aprece também causar mais território no


sentido de que as definições da autoridade se tronam mecanismo básicos para
a organização da Igreja, e também no sentido de que criar novas dioceses e
paróquias se trona um meio de realçar a presença de um bispo ou de um
arcebispo. Em Chalcedon, no ano de 451, o cânone doze, proíbe qualquer de
137

dividir sua província par obter cartas patentes do Imperador, e em Sárdica, no


ano de 347, o cânone seis, proíbe a consagração de um bispo para um local
pequeno quando um padre é suficiente.(Ver também Laodicea, ano 341-81,
cânone cinqüenta e sete).

Então muitos dos cânones são regras sobre as condutas das


paróquias, dioceses ou arquidioceses que as pessoas a quem elas se aplicam
devem ter sido supervisionadas. Era comum a prática em alguns casos para as
regras serem promulgadas para classes de territórios. O territórios pode ser
usado para desviar a atenção das fontes de conflito, sejam elas teológicas ou
pessoais, e o território pode fazer com que o problema pareça ser um conflito
entre lugares. A sé de Constantinopla compete com a sé de Roma, a de
Alexandria com Jerusalém e Antióquia. A sé se torna um objeto de orgulho. Em
combinação, então, estas tendências podem então fazer o território parecer
ser um fim ao invés de um meio.

Da evidência dos cânones não parece que a Igreja visse seus


territórios episcopais como espaços conceituadamente esvaziáveis e
preenchíveis.. O mais próximo que eles chegaram de uma concepção de
espaço vazio pode ter sido quando a Igreja decretou, no século XII, que as
paróquias deviam ser erguidas onde não havia nenhuma. Outra tendência,
entretanto, vem da anterioridade destes documentos. A reificação está

ocorrendo através do processo inteiro de tornar a Igreja visível. Alusões a esta


tendência são encontradas quando a congregação, a paróquia e as dioceses
são citadas como sendo a Igreja física. A paróquia é a partir deste dia citada
como uma reificação da comunidade cristã. Mas as referências mais
abundantes da reificação se referem ao nível dos prédios da Igreja. Conforme
citado anteriormente, no terceiro século, o prédio da igreja estava já se
tornando um lugar santificado, contendo uma hierarquia de locais dentro dele
que eram acessíveis aos diferentes níveis da hierarquia da Igreja. Em Gangra,
no ano de 325, o cânone cinco, excomunga aqueles que desprezam a igreja, a
casa de Deus, e o cânone seis desaprova encontros religiosos particulares
fora da igreja, sem o consentimento do bispo. Em Nicene, no ano 325, o
cânone dezoito, proíbe diáconos de se sentarem entre os padres. Em
Laodicea, no ano de 341-81, nós encontramos que os heréticos não são
138

permitidos em colocarem os pés na igreja, no cânone quinze nós encontramos


que somente aqueles apontados podem ascender ao púlpito, e cânone
dezenove diz que somente os clérigos têm permissão de se aproximar do altar
e se comunicar. Os diáconos e os membros de outras ordens inferiores não
podem sentar na presença de uma padre, a menos que tenham permissão
para fazer isto pelo padre (cânone vinte). O tão chamado ‘ágape’ não deve
ser realizado na igreja e ninguém deve colocar poltronas nas casas de Deus
( cânone vinte e oito). As mulheres não podem se aproximar do altar (cânone
quarenta e quatro); e os padres não devem entrar e tomar seus assentos
próximos ao altar antes do bispo fazer a sua entrada (cânone cinqüenta e
seis).

Além disso, os clérigos são proibidos de viver em outros lugares


e de terem outras atividades específicas em qualquer partes. Eles não podem
oferecer sacrifício fora da igreja, eles não podem entrar em lugares públicos ou
realizar funções religiosas em cemitérios pagãos. Estipulações posteriores
consagrando e subdividindo o uso do prédio da igreja continuaram até o final
da Idade Média.

A reificação está muito proximamente ligada ao processo de


deslocamento. Em alguns casos é impossível dividir a linha entre elas,
Geralmente, a reificação torna visível o agente influenciador ou controlador.

Ela o trás a realidade. O prédio da igreja, bem como a paróquia e a diocese,


nos lembram, através da reificação, de Deus e da comunidade cristã. O
deslocamento vai além de nos fazer perder a visão do fato de que o território é
um mecanismo ou um instrumento e ao invés disso ele leva as pessoas a
acreditarem que de alguma forma o território é um objeto representado. Os
prédios como locais consagrados podem realmente ser percebidos como se
tivessem poderes próprios. O poder é realçado quando o lugar é
especialmente sacro e quando o prédio contém relíquias. Peregrinações são
feitas a local porque o próprio local pode trazer conforto ou cura. Danificar um
prédio consagrado ou entrar em um lugar santo impropriamente, pode fazer
mal a você. A reificação e o deslocamento fazem com que os lugares pareçam
ter poderes.
139

O início da Idade Média.

Com a conversão de Constantino (em circa, no ano de 313), a

Igreja recebeu a proteção e o estímulo do Império. É claro que a influência do


Império sobre a Igreja foi muito maior do que a influência da Igreja sobre o
Império. Enquanto houve um Imperador cristão a Igreja pôde ser uniforme e
organizada, mas enormemente dependente do poder secular. O período
próximo ao ano 500 marca o começo de uma queda, e por várias centenas de
ano, uma retração do desenvolvimento da uniformidade crescente das regras
da Igreja.

Quando o Império Ocidental sucumbiu, a Igreja foi deixada como


um modelo de uma organização religiosa sem nenhuma equivalente, maior, ou
uma organização secular para suportá-la. A Igreja não podia sozinha
preencher o vazio político, então ela teve que fazer alianças com os novos
poderes emergentes no ocidente que tinham o potencial de se tornar grandes
poderes. Os invasores Germânicos e seus herdeiros, os príncipes feudais,
imaginavam suas posições como sacerdotes-reis divinamente ungidos. Eles
exerciam um forte controle sobre a Igreja e suas terras e transformaram os
conselhos religiosos em assembléias nacionais (freqüentadas por
lordes seculares bem como por bispos da Igreja) sobre as quais eles
presidiam. A aliança da Igreja Ocidental com estes poderes seculares
aumentou a distância entre o oriente e o ocidente, e aumentou ainda mais a
dependência da Igreja por forças políticas emergentes. Exceto pelo Império de
Carlos Magno, estes ditadores seculares não desenvolveram num sistema
político unificado substancial. Ao invés disso, as entidades políticas eram
fragmentadas em uma teia e sempre em mudança de pequenos reinos que
tendiam a dividir a Igreja em uma série de unidades nacionais pequenas e
locais. Esta época sombria não produziu conselhos ecumênicos e sínteses

grandes. Ao invés disso, os conselhos foram locais e muitos dos cânones


revelaram o grau ao qual os precursores do feudalismo tinham desatado a
autoridade hierárquica e controle territorial. Esta “feudalização” da Igreja veio a
140

ser revestida no século XII que marca o início do final do feudalismo em geral
e um ressurgimento na hierarquia e organização da Igreja.

A feudalização.

Do final do século VI até o século XI, nós encontramos uma


eufeudalização progressiva da Igreja Católica que diminuiu consideravelmente
sua organização hierárquica e autoridade territorial. . No fundo da hierarquia
da Igreja os efeitos da eufeudação podem ser vistos no aumento das igrejas
privadas sobre as quais a Igreja oficial tinha pouco controle. A prática Romana
ocasional de uma família bastada doando uma igreja ou capela e escolhendo
seu padre se tornou desenfreada após a quebra do Império. A Igreja logo
reconheceu e sancionou sua prática. Em Orleans, no ano 541, o cânone trinta
e três, requeria formalmente que qualquer um que quisesse fundar uma
paróquia deveria providenciar o seu suporte com propriedade e clero. Muitos
dos que construíram e doaram estas igrejas privadas também queriam para
eles próprios e para seus herdeiros o direito de apontar o clero. Estes e outros
privilégios eram parcialmente concedidos aos fundadores enquanto a Igreja
ainda tentava manter algum grau de controle.

A hierarquia da Igreja tentou manter alguma autoridade


requerendo que os compromissos clericais fosse aprovados pelo bispo e que o
bispo seria ainda responsável pela consagração de padres e de prédios de
igreja (Orange, ano de 441, cânone dez). Mas se o bispo não aceitasse as
escolhas do fundador, ele era obrigado a encontrar alguém que fosse
aprovado pelo fundador ( Toledo, ano de 655, cânone dois). A Igreja não
somente concedia muitos dos compromissos ao fundador, mas também
permitia a ele alienar à propriedade (Frankfort, ano de 794). Mesmo o direito
da proteção era alienável. Em muitos casos a Igreja era realmente transferida

da família do fundador e dos proprietários posteriores do domínio ao qual ela


era fixada., e por uma transação comercial se tornava a proteção de pessoas
que viviam a distância dela e que não tinham motivo especial para se
interessar pelos adoradores.
141

O problema do controle e território era ainda mais complicado


pelo fato de que os bispos eram geralmente os fundadores e proprietários de
tais igrejas em dioceses que não eram as suas (Orange, 441, cânone dez).
Mesmo aquelas igrejas que não eram particulares e eram parte da organização
diocesana freqüentemente se tornavam equivalentes das igrejas particulares
porque as residências dos padres precisavam de proteção física da nobreza
local. Em efeito tais igrejas se tornaram feudos do lorde local.

Transformações similares ocorreram nos escalões mais altos da


Igreja. Os bispos e arcebispos não eram somente líderes religiosos de vastas
áreas mas também lordes de Estado. Camponeses e nobreza eram geralmente
vassalos dos bispos e arcebispos que eram capazes de organizar exércitos e
manter a lei e a ordem. Mas estes prelados por sua vez eram vassalos de uma
maior nobreza e de reis. (No século X, Otto I da Alemanha fez cortes de
numerosos bispos e desta forma de seus vassalos diretos.). Os líderes tinham
muitas razões para se interessarem em quem era apontado para as sés dentro
dos seus domínios e se esforçavam muito para influenciar tais escolhas.
Freqüentemente estes esforços tinham sucesso.

O processo da eufeudaçã o acordou a burocracia e hierarquia da


Igreja bem como a sua rigidez territorial. A perda do controle por Roma

significou tanto um ganho de autonomia sobre a parte das unidades locais


quanto um ganho de controle sobre essas unidades por autoridades seculares.
Em ambos os casos o controle territorial local enfraqueceu o poder de Roma.

O papel crescente da autoridade secular nos assuntos da Igreja,


entretanto, não diminuiu a importância da Igreja como uma instituição religiosa
nos olhos dos contemporâneos. Pelo contrário, ela sugere que o sacro e o
secular não podiam ser separados, que o sacro está presente em todos os
reinos da vida. A penetração da comunidade local pela religião e assuntos da
Igreja é mais claramente vista no papel dos próprios edifícios da Igreja. A lei
da Igreja permanecia improdutiva na sua visão de que a igreja era um local
consagrado, e que a adoração deveria ocorrer dentro de suas paredes e de
que o território da igreja devia ser divididos em partes mais ou menos
142

sagradas aos quais os membros da comunidade teriam acessos diferenciáveis.


Mas o ambiente da comunidade local fez essas distinções de uso rígidas
serem difíceis de se impor. Durante o início da Idade Média, o prédio da igreja
era geralmente a estrutura maior e mais segura na comunidade e se tornou
costume colocar algumas partes do prédio para uso não-religiosos. Em tempos
de instabilidade política, a igreja servia como um local de defesa. Em outros
tempos ela era um lugar de encontro para os assuntos da vila, uma prefeitura,
um hospital ou uma hospedagem.

O final da Idade Média e a Renascência.

O feudalismo começou a definhar e até mesmo a ser revestido


nos séculos XII e XIII. As causas são muito complexas para serem citadas
aqui, mas alguns dos efeitos significantes das mudanças foram estes. As
unidades econômicas e políticas relativamente fechadas e insulares do
feudalismo foram sendo transformadas em uma economia mais aberta e
interdependente. O papel da superstição senão da religião na vida cotidiana
foi reduzido de tal forma pelo aumento no secularismo e empiricismo. O Rei se
tornou menos de uma pessoa abençoada e mais de um ditador secular. Sob
muitos aspectos a sociedade em geral estava mais desejosa em ter a Igreja
controlando as funções religiosas e a Igreja ativamente assumiu este papel.
Mas, mais e mais o termo da Igreja veio àqueles que foram ordenados pela
hierarquia da Igreja e não aqueles que eram membros da Igreja no sentido
mais amplo. A tentativa da Igreja em restabelecer o controle dela sob a sua
própria hierarquia levou a um estreitamento do domínio religioso. Conselhos
ecumênicos foram convocados, os cânones de leis se tornaram codificados e
extensos. A disciplina da Igreja para a maior aumentou e Papa se tornou um
foco inegável da liderança da Igreja.

Uma estratégia geral para acompanhar a centralização da Igreja


e sua tentativa de retomar o controle foi reafirmar a Territorialidade e aumentar
a possibilidade de forças seculares tomarem o controle do território da Igreja.
143

Isto ocorreu pelas reclamações reiteradas nos cânones dos primeiros


períodos. O poder dos bispos é reafirmado sobre aqueles em seu território. No
conselho de Lateran, ano de 1123, o cânone dezenove ordenava que os
monastérios reconhecessem seu bispos e em Lateran, em 1215, o capítulo 9,
era ordenado que os bispos providenciassem tudo dentro das suas dioceses
para uso nos mesmos rituais. Para prevenir a má escolha, abusos e uso do
território como um fim, proibições familiares contra pluralidades e translações
foram promulgadas (Lateran, ano de 1179, cânones treze e quatorze; Lateran,
ano de 1215, capítulo vinte e nove; e Lions, ano de 1274, cânone dezoito).
Similarmente nós encontramos as proibições de bispos interferindo dentro das
jurisdições de outros, como em Lateran, em 1139, cânone três ( proibindo os
bispos de receberem aqueles que foram excomungados por outros bispos), e
Lions, 1274, cânone quinze (proibindo os bispos de ordenar aqueles que
pertencessem a outra Igreja). Também foram promulgadas restrições
familiares sobre o poder dos bispos quando em visitações (Lateran, 1215,
capítulos trinta e três e trinta e quatro).

Novas proibições foram colocadas para prevenir o controle dos


oficiais da Igreja pela investidura e pelo fortalecimento do poder do Papa. Isto
fez os ofícios da Igreja mais burocráticos e hierárquicos. Em Roma, em 1059, o
cânone seis, proíbe os padres e outros clérigos de receberem igrejas
particulares. Em Clermont, em 1095, o cânone cinco proíbe o apontamento de

leigos e de qualquer abaixo do subdiácono para os bispados; o cânone seis


proíbe a compra de um benefício; o cânone quinze e dezesseis proíbe o
clérigo de receber qualquer preferência eclesiástica de leigos e também deles
fazerem qualquer investimento; e o cânone dezoito proíbe o leigo de ter
capelões que não estejam sobre a autoridade de um bispo. Estes foram
repetidos e elaborados em outros concílios posteriores e formaram partes da
posição da Igreja sobre investimento. Em Lateran, em 1112, o Papa Pascal
revogou o direito do investimento. Em Lateran, em 1123, o cânone vinte e dois,
declara nulo e em branco todas as ordens conferidas inapropriadamente a
bispos, o cânone quatorze proíbe o leigo de interferir com a propriedade da
Igreja. Em Lateran, em 1139, se ordena que as pessoas leigas que tiverem
propriedades da Igreja devem retorná-las ao bispo, e em Dalmatia, em 1199, o
cânone oito, condena o leigo de patrocinar oficiais da Igreja.
144

Deter o poder do secular e aumentar a burocracia do oficialato da


Igreja focalizou a autoridade da Igreja no topo. O papa mudou de uma posição
entre os bispos de primus inter parus para soberano absoluto da Igreja. Uma
das justificativas mais importantes para o papel central do Papa foi a doação
ilegítima de Constantino. Este documento foi interpretado como dizendo que o
Papa sozinho poderia depor e restituir bispos; que ele sozinho pode fazer
novas leis, heregir novos bispados e dividir os velhos, Ele sozinho pode
transladar bispos e os seus legados têm o precedente sobre todos os bispos.
Em 1335, o Papa exerceu o seu direito de apontar e de conduzir eleições
locais de clérigos. Embora este direito de apontar parecesse tornar o poder do
Papa absoluto, em muitos aspecto ele enfraqueceu o controle efetivo sobre a
Igreja ao longo do tempo. Em primeiro lugar ele podia possivelmente não
conhecer todas as pessoas que ele estava apontando, e elas muito
freqüentemente eram patrocinadas por forças locais que já estavam no poder.
Segundo, os príncipes achavam que uma centralização do poder da Igreja em
Roma seria mais fácil de se lidar (ou ignorar) do que uma multidão de fontes
diferentes.

Durante este período poucas mudanças na atitude oficial


ocorreram em relação à igreja como um prédio (embora muitos dos hereges
fossem hostis aos prédios da igreja). Ela continuou o primeiro e mais

importante local consagrado que tinha divisões internas de santidade do


pórtico ao altar. As velhas regras prescrevendo a conduta apropriada nas sub-
áreas dentro do prédio da igreja continuaram aplicáveis, mas da mesma forma
continuou o costume de usar a igreja para propósitos seculares. A despeito do
fato de que a parte final da Idade Média foi um tempo um pouco mais secular,
e que a própria Igreja estava pronta para aumentar a distância entre o secular
e o sagrado, o prédio da igreja geralmente continuava a estrutura física mais
importante na comunidade e seu uso não refletia as distinções entre o sagrado
e o secular. Ao invés disso, ela continuava a servir, entre outras funções, como
a prefeitura, local de defesa, local de refúgio e hospital.

A separação da Igreja do resto da sociedade está talvez mais


claramente ilustrada em dois exemplos não-territoriais, mais espaciais. O
145

primeiro tem a ver com a posição do padre durante o serviço. Era costume até
o século XII para o padre ficar de frente para a congregação durante o serviço;
mas as reformas Gregorianas do final do século XI e XII tem o padre agora
encarando o altar e dando a sua costa para a congregação, desta forma
aumentando a ‘distância pessoal’ entre o padre e os paroquianos. O segundo
tem a ver com a acessibilidade da própria Bíblia, declarand o que somente o
clérigo deveria possuí-la. Em 1080 a Igreja proibiu qualq uer leigo de até
mesmo ler a Bíblia em sua totalidade. “A partir do Waldenses em diante tentar
examinar a Bíblia se tornou prova presumível de heresia.”

A partir do século XII, a Igreja fez um esforço concentrado para


restabilizar e ampliar a sua organização formal e hierarquia. Isto foi feito em
grande escala pelo restabelecimento da ligação entre a hierarquia, o poder e a
Territorialidade, e pela redução da autonomia local das unida des territoriais e
o controle sobre elas pelo poder secular. Dentro da Igreja, a impersonalidade
dos oficiais cresceu, e os cânones- lei foram ampliados e codificados, a
organização foi centralizada, e o poder hierárquico e Territorialidade foram
feitos explícitos. Mas, no século XIV a máquina do governo, suas regras,
regulamentos e tamanho começaram a ruir. Havia corrupção, ineficiência e
prostituição ostensiva dos valores, tudo isto foi manifestado no uso do território
pela Igreja. O acesso territo rial diferenciado aos recursos criou enormes
diferenças na hierarquia da Igreja e entre a Igreja e o mundo secular. O

controle do território e o compromisso com uma sé em particular geralmente se


tornou um fim em si mesmo. Este valor do controle territorial aumentou os
números de transferências e pluralidades (de más escolhas) entre indivíduos e
territórios. Além disso, os esforços da Igreja na consolidação a fez mais
separada e visível para a comunidade. O líder onipresente da Igreja, o Papa,
passou a representar a própria Igreja..

O fim do século XIV também o crescente desassossego social e


o ressentimento geral com as autoridades que atuaram na reforma. Profundas
mudanças econômicas estavam ocorrendo. Os números de desabrigados
aumentou e as cidades estavam crescendo no tamanho. Os interesses
seculares tendiam a estancar em algumas restrições da Igreja sobre negócios
e usura. A separação e até o mesmo distanciamento da Igreja era parte do
146

desligamento geral da atual mudança político-econômica. Como o lorde da


terra, conservador e dono da propriedade, a Igreja não era simpática às
necessidades dos novos interesses capitalistas emergentes. O Capitalismo,
conforme Weber indicou, não florescia nos locais dominados pela Igreja
católica. Muitos líderes do governo que se aliaram com os interesses
capitalistas tinham a intenção de se apropriar ou “nacionalizar” a propriedade
da Igreja. E a corrupção na Igreja estava por toda part e. A consolidação
hierárquica e territorial do poder da Igreja e sua visibilidade crescente deu ao
insatisfeito politicamente um objetivo claro. Se a corrupção da Igreja não fosse
maior do que nunca (e provavelmente era), a fonte parecia ser mais
prontamente identificável. Eram as facetas visíveis da Igreja que os reformistas
atacaram.

A Reforma e o após.

Importantes mudanças ocorreram na Igreja Católica desde de a


Reforma, mas em termos de Territorialidade e hierarquia estas foram menores
quando comparadas com a variedade de estruturas organizacionais que
ocorreram dentro das denominações Protestantes. As estruturas destas
denominações demonstram novamente que a Territorialidade está associada
com a hierarquia organizacional e a burocracia. Além disso, o estabelecimento
das primeiras Igrejas Protestantes repete, embora num espaço de tempo mais
curto, os antigos dilemas cristão com respeito a hierarquia da Igreja, ao
território e ao propósito religioso. Apesar do fato de que o Protestantismo
oferece um leque maior de alternativas para as questões da estrutura da Igreja
e fé do que ofereceu o catolicismo, é importante reconhecer que o
Protestantismo encontrou problemas com respeito a autoridade e a fé que
foram similares àqueles que nós descrevemos para o primeiro catolicismo, e
que a Territorialidade novamente desempenhou um papel previsível. Nós

destacaremos alguns desses assuntos com relaçã o a estrutura da Igreja


Protestante e ao território antes de sumarizar algumas das mudanças da pós-
reforma na organização da Igreja Católica.
147

Protestantismo.

As reformas Protestantes atacaram os elementos mais visíveis da


Igreja católica: a hierarquia dos oficiais da Igreja, seus rituais, e seus
monumentos físicos. O próprio prédio da igreja, que era consagrado pela
tradição da Igreja, era distinguido como a maior entidade territorial. A maior
parte das paróquias ou dioceses geográficas não foi mencionada. Conforme
nós notamos, o ataque a consagração dos prédios, e as orações em prédios,
não era novo no Cristianismo. É encontrado também no Velho e no Novo. É
encontrado no conselho do quarto século de Gangra pelos seguidores de
Erustatius, e novamente nas vésperas das Reformas no movimento dos
Alumbrados ou Illuminati, e os Anabatistas.

Estes grupos escolheram as facetas mais visíveis da igreja por


causa desses aspectos, que eram pensados como se tivessem desviado a
atenção dos objetivos verdadeiros do Cristianismo. Os líderes da Reforma
alegavam que a hierarquia da Igreja subverteu os princípios fundamentais
contidos nas escrituras e que somente havia um meio de repará-los que era
purificar a Igreja da sua organização e voltar as condições do Cristianismo
primitivo. Atacando a hierarquia e a Igreja visível, o Protestantismo, como o

Cristianismo primitivo, tinham o objetivo de separar o sagrado do secular. Ao


invés de se ocupar somente com o segmento da vida, a disciplina Protestante
queria penetrar cada faceta da vida. A ênfase do Protestantismo sobre
“riqueza conforme o trabalho” e em “um chamado” fez este movimento de vital
interesse para o Capitalismo. A ligação entre o Capitalismo e o Protestantismo
foi fortalecida por fortes laços políticos nos países capitalistas emergentes. O
Protestantismo se tornou a religião do Estado para a maioria das nações
capitalistas mais avançadas na Europa.

As condições do Cristianismo primitivo que Lutero desejava


restabelecer foram definidas por ele em termos extremamente pessoais e
idealístico que vinham sendo baseados primariamente na fé. Lutero atacou as
distinções entre os padres e os leigos. Ele condenou aqueles que achavam a
148

religião no alimento e nas vestimentas, nos lugares santos e nos dias santos.
Às vezes ele permitia que as igrejas fossem simplesmente locais convenientes
de adoração: “Nós não devemos restringir o prédio de igrejas adequadas e
seus adornos, nos não podemos viver sem eles. E a adoração pública deve
ser corretamente conduzida da maneira mais adequada. Mas deve haver um
limite para isto, e nós devemos tomar cuidado para que as intenções da
adoração sejam pura ao invés de monetárias.” Mas, em outros tempos ele as
teria eliminado todas junto. “A Igreja não tem mais nenhum laço com uma
cidade, pessoal ou tempo.” Ele via a forma física como desviando a atenção do
sagrado: “Nós somos desviados dos mandamentos de Deus por tal barulho e
agitação.”

Não é preciso dizer que uma comunidade de fé não é fácil de se


estabelecer. Uma organização religiosa precisa mais do que isso para a
direção, especialmente porquê, como os cristão primitivos antes, os
Protestantes não estavam operando em um vácuo social. Eles estavam
competindo com a Igreja Católica, com um grupo burguês de fé Protestante, e
talvez mais significativamente, eles estavam encravados nas instituições
políticas que continuariam a usar as organizações da Igreja para suplementar
o seu controle. Na Europa, a Igreja e o Estado estavam intimamente ligados, e
assim teria que ser segundo as perspectivas contemporâneas, pois salvar
almas ainda era um negócio sério. Uma organização religiosa não poderia

esperar se sustentar sem algum suporte político. E os interesses políticos


viram estes novos grupos religiosos como um meio para os fins políticos.

A comunidade de Lutero da fé precisaria de uma organização


mais visível, quer Lutero quisesse ou não, e o sucesso do seu movimento
forçou a se referir aos assuntos organizacionais. Seus assuntos sugerem que
ele preferia uma forma onde a congregação ou a assembléia cristã tivesse o
direito a julgar, apontar e a dispensar os ensinadores. Ele notou que até
mesmo a Igreja primitiva tinha disciplina e que se a Igreja atual não pudesse
reforçar suas regras então as autoridades civis deveriam fazê-lo. Isto não
significava que um grupo era separado do outro, porque as autoridades civis
também eram cristãs. Significava que a Igreja precisava da autoridade civil
para ajudá-lo na reforma. Chamando as autoridades seculares para suportar e
149

impor a conduta da Igreja resultou numa ligação forte entre a Igreja e o Estado.
Em muitos países o Luteranismo se tornou a religião do Estado.

Lutero era também contra os prédios da igreja ou os tolerava


como convenientes, mas lugares inconsagrados para assembléia e adoração.
Tolerar as igrejas signif icava tolerar ou encorajar a adoração nelas e isto
levantou o problema de decidir que outras funções elas eram permitidas de
conter. Isto não era uma questão insuperável para as comunidades
Protestantes porque ao ligar o religiosos a vida secular, a comunidade impôs
restrições severas nesta última. Vários reformistas Protestantes tentaram banir
a leitura de qualquer outra coisa que não fosse a Bíblia e canto de qualquer
outra coisa que não fosse os hinos, tal que permitindo a adoração dentro de
um prédio pode não ter feito muito diferente o que acontecia dentro do prédio
do que acontecia fora dele.

Ao nível episcopal, Lutero aceitou, sem questionamento, o uso da


paróquia e da diocese. Isto foi compreensível porque a paróquia tinha se
tornado também uma unidade secular de administração e se o Luteranismo
recebesse o apoio do Estado, o governo provavelmente usaria os territórios
políticos existentes para defi nir e moldar a comunidade religio sa. Lutero
insistia no atendimento obrigatório da igreja dentro da paróquia até mesmo
para os não crentes, para ser reforçado pela autoridade secular local; “quem

quer que estivesse na paróquia era da paróquia.”

A paróquia continuava a ser político-administrativa bem como


uma unidade da igreja. No Luteranismo Sueco, antiga hierarquia Católica e a
estrutura territorial episcopal forma mantidas virtualmente intactas. A única
mudança significativa foi na liturgia e nos procedimentos da escolha. A velha
estrutura da paróquia continuou e se tornou uma unidade de consenso. O
padre da paróquia registrava todos os eventos principais tais como
nascimentos, mortes, posses de terras e valores das fazendas. Se qualquer
um entrasse na paróquia ele tinha que se registrar com o padre da paróquia.
Quando o governo Sueco reconheceu oficialmente os direitos de outras
religiões, a estrutura da paróquia pertencia a elas também. Uma área não-
150

Luterana deveria ter uma igreja não-Luterana que deveria ter a


responsabilidade de manter os registro da paróquia.

Assim Lutero não se dedicou muito ao governo da Igreja (embora


desde o começo o Luteranismo fosse firmamente ligado à hierarquia do
governo e as igrejas Luteranas mantivessem as formas episcopais Católicas),
Calvin tinha muito mais a dizer sobre o governo da Igreja, e os primeiros
movimentos Calvinistas “coexistiram” com tais governos ao invés de se
tornarem uma parte deles. O ataque de Calvin à Igreja católica foi similar ao de
Lutero, mas os interesses de Calvin no governo e disciplina vieram da sua
crença de que a fé não era suficiente para definir uma comunidade. Uma vez
que Calvin via o homem como maior pecador do que via Lutero, Calvin
acreditava que o homem precisava de mais guia e supervisão. O homem tinha
o desejo de fazer o bem, mas não podia ter sucesso sem a ajuda da Igreja.
Para um Calvinista, a fé era um presente de Deus, dada para uns poucos que
tinham sido predestinados para a salvação. Mas até mesmo eles não eram
perfeitos na sua fé, e nenhum sinal visível diferenciava estes daqueles
reprovados. A Igreja, da necessidade, inclui ambos, e ambos precisam da
orientação e da disciplina da Igreja.

O governo da igreja de Calvin foi projetado para trabalhar com o


governo secular, e em particular o governo da cidade de Genebra. A Igreja

tinha quatro camadas de oficiais: os doutores em ensino, os pastores de


pregação, os anciões da disciplina, e os diáconos administrativos. O corpo
central do governo da Igreja, o consistório, era composto de ministros e de
representantes do conselho da cidade que cooptaram pelo Clero. Outro corpo,
a companhia venerável dos pastores, era composto de todos os pastores e de
dois anciões selecionados pelos conselhos. Estes corpo propunha a legislação
para o consistório e também analisava a indicação dos pastores.

O governo da Igreja e a disciplina era para ser aplicados


territorialmente. O prédio da igreja e para ser mantido, mas não consagrado.
Calvin tinha a mesma bivalência para estrutura como tinha Lutero. Ele
acreditava que as igrejas eram necessárias devido a necessidade de oferecer
uma assembléia para a comunidade, mas elas não eram especialmente
151

sagradas e nem eram para ser chamadas de casa de Deus: “Deixe aqueles
que atribuem à Igreja poder no sentido comum, ouçam o que Hilório tem a
dizer sobre esse assunto, ‘nós fazemos errado em venerar a Igreja de Deus
nos tetos e nos edifícios.’” As igrejas eram simplesmente locais de adoração e
por causa das rígidas regras sobre o comportamento do público, o alcance real
da conduta permissível dentro delas era bem pequeno. As igrejas rurais eram
fechadas quando não eram usadas para adoração.

Calvin, pelas mesmas razões que Lutero, manteve as paróquias


como um meio de definir e moldar a comunidade. Antes da Reforma, Genebra
era dividida em cinco paróquias. Calvin redefiniu as fronteiras para dividir a
cidade em três. A supervisão da comunidade pelo consistório deveria ocorrer
em parte territorialmente, Dois membros do consistório, acompanhados pelo
pastor, deveriam visitar cada paróquia regularmente tal que “seus olhos
deveriam estar sobre as pessoas.” A fronteira da paróquia era essencial para
definir as funções críticas; “para se trazer crianças ao catecismo e para se
receber o sacramento, as fronteiras da paróquia devem ser o máximo possível
obedecidas.”

Outros reformistas Protestantes foram além do que Calvin e


Lutero foram, não somente atacaram as organizações da igreja, mas tentaram
evitar a criação de novas; uns poucos até mesmo atacaram a paróquia. John

Smythe, por exemplo, em seus “Princípios e avaliações com relação a Igreja


visível”, de 1607, tentou definir as verdadeiras manifestações de um governo
cristão da Igreja. Uma comunhão da fé genuína ou “santos”, disse Smythe,
produziria uma Igreja visível. “A Igreja visível é somente uma sociedade
religiosa que Deus ordenou aos homens na terra. Todas as sociedades
religiosas exceto aquela da Igreja visível são ilegais e entre as mais notórias
destas estão: as Abadias, os monastérios, os conventos, as catedrais, os
colégios e as paróquias.”

Os primeiros elementos Batistas e Congressionalistas não foram


organizados ao longo das linhas da paróquia e suas visões sobre o prédio da
igreja eram bem mais flexíveis do que as dos Luteranos e dos Calvinistas.
Talvez os amigos ou Quakers fossem e continuem sendo o grupo com a menor
152

hierarquia; e ,não surpreendentemente, suas divisões, mesmo na Europa, não


eram baseadas nas paróquias nem os seus prédios eram consagrados ou
especificados somente para adoração. Eles eram casas de “encontro”. E até
mesmo entre os Quakers havia a tendência a uma leve reflexão espacial ou
territorial da hierarquia. As casas de encontro geralmente tinham assentos
separados para os mais velhos do grupo.

As condições incomuns dentro dos Estados Unidos da separação


da Igreja e do Estado se espalharam no contínuo organizacional das
denominações cristã na direção de uma menor hierarquia e rigidez e menor
Territorialidade. Com exceções das denominações dos Episcopalians e de
alguns Metodistas, a fé americana Protestante do sécu lo XX não faz
referência a paróquias ou dioceses ao descrever suas estruturas.
Congregantes são concebidos em termos não-territoriais, embora geralmente
espaciais. As congregações podem formar regiões noudais. Uma igreja pode
decidir não se localizar próximo de outra com a mesma denominação por medo
que não haja congregantes o suficiente para encher ambas. Mas que prédio
uma pessoa vai escolher para freqüentar não é uma questão de domicílio, mas
sim de conveniência.

Assim as bases da freqüência não estão ligadas às regras sobre


a residência, algumas igrejas Protestantes usam os territórios para definir o

domínio da responsabilidade entre os seus oficiais de mais alto nível. No


sentido mais fraco os territórios podem ser usados simplesmente como um
mecanismo de agrupar as igrejas e congregações quando se é pra mandar
delegados para os conselhos de mais alto nível da Igreja. Tal Territorialidade
suave é usada pelos Quakers para selecionar delegados para os encontros
nacionais. Um pouco mais fortes são aquelas poucas denominações
Protestantes que têm alguém como um bispo observando a conduta dos
ministros dentro de uma unidade territorial.

A pós-reforma da Igreja.
153

No extremo final do contínuo territorial ainda reside a Igreja


Católica. Mas mesmo ai tem havid o relaxamento no controle territorial em
níveis dos paroquianos. Agora é possível para os Católicos freqüentar missas
em igrejas que não são as das suas paróquias. É também possível se casar,
batizar e comungar em igrejas diferentes da sua se houver uma permissão da
própria igreja. Estas condições foram iniciadas para refletir uma população
mais geograficamente móvel. Ainda, a hierarquia da Igreja continua tão
territorial quanto antes. Assim, nos últimos 400 anos em geral a organização
da Igreja Católica comparada a outras Igrejas tem parecido menos moderna ou
mais tradicional.

A Reforma foi parte das mudanças radicais históricas; entre elas


o surgimento do Capitalismo, do individualismo, e o questionamento da
autoridade tradicional. Estes foram desenvolvimentos poderosos. Diferente
das mudanças nos mundos Clássico e Feudal que tiveram efeitos profundos
na Igreja, estes desenvolvimentos modernos tiveram relativamente pouca
repercussão na estrutura e doutrina da Igreja Católica. Em seus esforços para
retomar o terreno perdido nas Reformas, e na sua subsequente expansão no
Novo Mundo, África e Ásia, a Igreja continuou a consolidar a sua autoridade
bem como lutar velhas batalhas tais como os assuntos do feudalismo. Foram
dados passos em direção ao estabelecimento de uma maior impersonalidade
na disciplina e no ofício da Igreja, e um reforço mais rígido na escolha por

exame, promoção por mérito, e padronização do pagamento por salário ou


comissão. Apesar do fato de que estes se tornaram os elementos dos
governos modernos e dos negócios incorporados em suas próprias
burocracias, os grandes e conservadores holdings econômicos da Igreja, o seu
compromisso com outras formas organizacionais tais como o modelo de
família, o seu compromisso com a tradição e o rito, e sua perda de influência
naquelas áreas do mundo que foram a vanguarda do desenvolvimento
econômico impediram a estrutura da Igreja de se desenvolver em linhas mais
modernas e impediram a Igreja de se tornar uma força para a mudança.

Nós agora já vimos porque a Igreja empregava a Territorialidade


e nós vimos como esses efeitos foram componentes integrais da organização
da Igreja e ajudaram a forma aquelas facetas da estrutura da Igreja que
154

parecem modernas, especialmente aquelas referente às relações hierárquicas


impessoais. Mas os efeitos da impersonalidade dentro da hierarquia da Igreja
pôde somente avançar até antes de entrar em conflito com o compromisso da
Igreja da tradição, do ritual e outros modelos organizacionais. As duas outras
maiores contribuições da Territorialidade para a modernidade - a camuflagem
das fontes do poder e a apresentação de um espaço esvaziável e preenchível
- foram de menos uso para a Igreja. A Igreja estava mais interessada em fazer
o seu poder visível do que disfarçá-lo. Isto significa se apoiar na reificação e
no deslocamento que, conforme nós notamos, não é a mesma coisa de que
camuflar as fontes do poder.

Esvaziamento e preenchimento repetido do espaço também não era um


uso importante do território da Igreja. Em larga escala geográfica este uso
aparece quando o poder político suficiente existe para realmente se planejar,
mudar, estabelecer, ou remover largas populações. Embora a Igreja tivesse o
aval de Espanha e Portugal para redistribuir populações dos nativos
americanos e asiáticos, estes esforços dirigidos da igreja forma pequenos e
curtos comparados com aqueles ligado às venturas territoriais políticas dos
poderes coloniais..

A Igreja possuía poder o suficiente para controlar o que ocorria


dentro dos seus prédios. Mas esta escala era uma forma arquitetural

tradicional e ritual que impedia o espaço da Igreja de se tornar concebido


como um molde conceituadamente esvaziável e preenchível. O prédio da
Igreja estava geralmente sem os paroquianos. Mas isto não significa que ele
era então pensado como um vácuo, potencialmente preenchível com
atividades inespecificadas. Pelo contrário, cada detalhe do prédio da Igreja
continha um significado simbólico e usos preestabelecidos (embora as
atividades seculares ocorressem dentro dele conforme nós vimos na Idade
Média), e a estrutura inteira, como um local consagrado, nunca estaria sem o
conteúdo espiritual. Isto novamente é muito diferente do sentido arquitetural
moderno de que os edifícios podem ser projetados como conchas contendo
volumes ou espaços que pode ser colocado para uso múltiplos e interligados.
É claro, que para ter o poder territorial de esvaziar e preencher o espaço e
155

conceber o espaço como uma moldura contingente inibe o sentido de que o


espaço e o local são preenchidos com a experiência e a importância espiritual.

Os efeitos territoriais de obscurecer as fontes de conflito e de


conceituadamente e realmente esvaziar e preencher o espaço, bem como de
criar relações impessoais, são os componentes mais importantes da
Territorialidade moderna. Para explorá-los nós retornaremos aos reinos que
exerciam enormes poderes sobre o comportamento espacial enquanto
desprezavam o conteúdo e o significado do local e do espaço: os reinos da
política e do trabalho. A organização política e o trabalho foram as áreas mais
intimamente associadas com as mudanças no Capitalismo e cada uma exibiu
efeitos territoriais modernos, mas em escalas geográficas diferentes.
5. O sistema territorial Americano.

A Reforma foi uma grande transformação ocasionada pelo


Renascimento e pelo surgimento do Capitalismo. As outras foram a exploração
do mundo, as descobertas e as colonizações. O vasto continente Norte
Americano, com sua população relativamente esparsa de indígenas na época
do contato, propiciou aos colonos norte-europeus Protestantes o mais fértil dos
solos para o desenvolvimento de uma economia-política moderna. Como e
porquê a Territorialidade se tornou um instrumento de assentamento e de
governo e quais são seus componentes modernos?

Descoberta e colonização.
Emergência do espaço e do território abstrato.

Os usos modernos do território não apareceram de uma vez só.


As concessões e alvarais para o Novo Mundo eram documentos primariamente

feudais nos quais os monarcas concediam privilégios econômicos e políticos


para pessoas e companhias. As condições apresentadas no Novo Mundo eram
tão diferentes dos casos prévios de expansão territorial que as velhas formulas
foram forçadas a ter novos nuances. Da perspectiva territorial, o que se
156

destaca aos olhos modernos sobre o começo das “descobertas” é a natureza


geométrica abstrata para as reivindicações de soberania sobre uma área.
Estas reivindicações parecem ser a pré-condição natural para limpar um lugar
para comunidade e autoridade e para moldar outras e mais específicas
organizações sociais. Em sua escala e intensidade, e não menos em sua
concepção, esta filosofia para pessoa e lugar tem uma áurea moderna. Ela
aponta para uma definição territorial explícita e intensa das relações sociais.
Quando as relações entre as pessoas e o território mudam freqüentemente a
definição territorial conduz a um senso abstrato do território e do espaço, no
qual é separável conceituadamente dos eventos que ele contém. Em resumo,
desde o começo os europeus pareciam estar empregando a Territorialidade
em um grau abstratamente significante e isto ao mesmo tempo pressupõe e
reforça a concepção abstrata do espaço.

A presença no século XVI de um uso mais moderno do território e


do espaço é clara no retrospecto, e ainda as concepções contemporâneas
foram de fato uma mistura complexa do novo e do velho. A maioria dos
observadores dificilmente estavam alertas das mudanças que estavam
ocorrendo. É claro que as características do espaço e do território que nós
associamos com os usos modernos são até hoje desconhecidas e nós temos
penetrado em níveis diferentes de consciência social em diferentes graus e em
diferentes períodos. Estes pontos sobre os estágios do desenvolvimento e os

níveis de penetração serão retomados, mas devemos primeiramente


considerar a aparência inicial geral da visão moderna de espaço.

As descobertas e os novos significados de espaço e território,


foram parte de duas mudanças sociais fundamentais: a substituição da velha
ordem econômica do feudalismo pelo Capitalismo; e a substituição da
mentalidade medieval pela Renascência. O Capitalismo Mercante tirou a
Europa de uma economia e política feudal fragmentado e celular, para uma
rede econômica global baseada em um punhado de sistemas econômicos e
políticos nacionais procurando novos mercados, novas rotas de transporte e
aumentando a jurisdição territorial. E de tradicional para outra mundialmente
intelectual, a orientação surgiu como uma curiosidade vital sobre o mundo, um
apetite insaciável por novas experiências e o Protestantismo para justificá-las.
157

A visão do espaço terrestre que predominava nos mil anos entre


a queda de Roma e época das descobertas derivou das experiências
geográficas de uma sociedade feudal fechada e da influência da interpretação
da Igreja Católica da Bíblia. A primeira oferecia uma conceituação comum de
espaço, de lugar e de distância intimamente ligada com as experiências diárias
dos seus conteúdos. Ela era baseada no mesmo sentido de espaço que nós
descrevemos para as sociedades primitivas e de camponeses. Os eventos e
as Experiências, e não a locação no espaço abstrato, definiam os lugares e as
distâncias. Embora fosse possível medir rudemente as distâncias entre os
locais, estas unidades abstratas tinham poucas relações com experiências
concretas. Além disso, o mundo medieval simplesmente não tinha o aparato
técnico para representar acuradamente até mesmo áreas locais. Os mapas
medievais de terra eram esquetes (ver a figura 5.1 ) contendo escalas e
distorções numerosas. Quando lugares distantes eram coletados juntos dentro
de um sistema conceituadamente abstrato era na conformidade com a
cosmografia religiosa. A representação visual deste mundo usualmente tinha a
terra dividida em três regiões: a África, Ásia e a Europa; e estas eram
geralmente centradas em Jerusalém (ver figura 3.8 ). A importância desta
concepção é que onde quer que alguém estivesse realmente localizado no
espaço físico é irrelevante; a pessoa deveria empenhar-se para estar no
centro - em Jerusalém.

Ao invés de usar esse sistema simbólico fechado, os


exploradores pensavam o espaço da terra (e o tempo) mais abstratamente e
geometricamente: a longitude, latitude, distância e o tempo eram referências
espaciais primarias. Exemplos podem ser encontrados no ocidente e em
outras civilizações de pessoas usando o sistema de coordenadas para
descrever a Terra. Mas conforme nós notamos estes tinham importâncias
diferentes e foram usados para propósitos diferentes do que o caso do sistema
ocidental emergente de relações espaciais. O sistema de coordenada chinês
foi infundido com significados cósmicos; cada quadrado era um microcosmo do
mundo. As grades que costumavam mapear os planos das cidades e das
propriedades de terra no Império Romano não sugerem uma concepção de um
contínuo espacial abstrato. Ao invés disso, as unidades estavam amarradas e
158

geralmente ligadas às propriedades de terras preexistentes e conformadas


com a topografia local.

O tempo bem como o espaço foi lentamente alterado pelos


eventos pós-Renascência. O mundo simplesmente não ficaria esperando o
tempo passar até a segunda vinda de Cristo. O surgimento e a queda do Velho
Mundo tinha sido redescoberto. Os europeus estavam agora ciente de que as
civilizações mudam através do tempo. Na verdade, a nova ordem econômica
estava para impelir o ocidente em uma era de mudança rápida e não paralela.
A sociedade atual estava sendo compreendida de maneira diferente das
sociedades passadas e o futuro teria ainda diferenças maiores no estoque.
Para muitos, estas mudanças forma para melhor; a passagem do tempo estava
para se tornar a estrada para o progresso. Como uma medida da mudança e
do progresso, o tempo se tornou abstrato para eventos particulares. E esta
abstração aumentava, conforme o tempo se tornava mais finamente medido e
as unidades de trabalho se tornaram definidas por ele.

Estas mudanças na consciência do espaço da terra e o tempo


não tiveram efeito imediato na política ocidental e na especulação teórica
sobre o território e a sociedade. O pensamento Renascentista sobre o território
continuava no modelo medieval a ser limitado por duas áreas principais. Uma
era a relação do tamanho geográfico com o processo político. Outra eram os

méritos das diferentes formas das propriedades de terra ou de direitos de


propriedade. Estes foram discutidos abstratamente, mas o entendimento geral
e que a despeito das suas srcens, as relações territoriais foram primeiro
definidas socialmente. Elas tendiam a englobar comunidades orgânica reais.
Uma comunidade em geral era pensada como sendo uma entidade unificada
com um propósito comum. Embora muitas comunidades não-geográficas
existissem (as comunidades dos cristãos para um), os territórios eram
geralmente vistos como ligações das entidades sociais coesas. Para o
feudalismo este era o caso especialmente nas escalas geográficas mais
baixas - o imóvel e a cidade - onde o político e o econômico eram conciliáveis.
Aqui a comunidade e o território eram praticamente sinônimos. Esta
associação e percebida claramente nas visões contemporâneas
predominantes sobre a representação da comunidade.
159

Uma vez que as necessidades essenciais e os objetivos da


comunidade eram para ser divididos entre os seus membros, uma
representação resultaria se alguém pudesse transferir estas necessidades
para o governo. Este alguém, fosse eleito ou não, era um representante. Este
sistema era forma costumeira antes do século XVII, mas não parece ter
recebido um nome. Nós vamos chamá-lo de “representação orgânica”, embora
ele possua característica similares àquelas descritas por Burke na
“representação visual.” Diferente da visão moderna de representação
proporcional a representação orgânica não via a tarefa de representação
refletir os números dos indivíduos na comunidade. Cada comunidade era vista
como uma entidade única com um desejo comum e uma necessidade, e desta
forma cada comunidade, independente da sua população, podia ser
representada por uma única pessoa que tinha conhecimento sobre a
comunidade e era sensível aos seus interesses. Aquela pessoa nem mesmo
precisaria ser da comunidade que ela representava. Não foi até o século XVIII
(conforme demonstrado nas constituições locais adotando a representação
proporcional) que tal visão foi seriamente desafiada, embora não totalmente
substituída. Aí se tornou fortemente evidente que as comunidades geográficas
não estavam mais necessariamente unidas em seus interesses, mas ao invés
disso elas geralmente eram coleções de indivíduos com interesses e
necessidades diferentes e competitivos. Com mais esta definição territorial de

relações sociais vem a necessidade de conceber um sistema com algum tipo


de representação proporcional.

O Velho Mundo via a Territorialidade primariamente como


socialmente definida, mas os eventos estavam quase para mudar isto. A
consciência do Novo Mundo acelerou uma abstração do espaço, porque as
Américas apresentaram aos poderes europeus um espaço vasto, distante,
desconhecido e novo. Isto significou que com a tecnologia limitada e o poder
político ao seu dispor, os europeus podiam “limpar” o espaço e formar
territórios para organizar e preencher em seus níveis geográficos como uma
intensidade que era impossível encontrar no Velho Mundo. Novamente é
importante notar esta realização e o uso do espaço que não ocorreu de uma
160

vez. Ela é de fato ainda emergente e intensa. As descobertas, entretanto,


deram um enorme impulso ao processo.

As reivindicações coloniais.

As bulas papais Alexandrinas de 1493 são o primeiro exemplo do


que parece para nós e o que foi para um número de gerações, em efeito, uma
definição territorial métrica abstrata total das relações sociais. Estes
documentos, logo suplantados pelo Tratado de Tordesilhas, em 1493,
reconhecia a autoridade da Espanha sobre qualquer terra não-cristã
descoberta a aproximadamente 100 léguas ao oeste de Açores e das Ilhas
Cabo Verde, e para Portugal a autoridade era reconhecida sobre novas
descobertas ao leste. Esta linha era de fato uma latitude de pólo a pólo. Pela
primeira vez na história um sistema geométrico abstrato tinha sido usado para
definir uma vasta área (global) de controle. Até o século XV isto pode não ter
parecido tão grande e abstrato uma divisão geométrica do mundo por causa
das descobertas de Colombo e suas sucessoras imediatas não seriam os
continentes mas inúmeras ilhas fora da costa da Ásia. O termo ilha aparece
freqüentemente no próprio Tratado de Tordesilhas e é através das ilhas que o
Papa justificava o seu envolvimento porque, de acordo com a Igreja, a doação
ilegítima do oitavo século de Constantino incluía um legado para a Igreja das
ilhas na porção ocidental no Império Romano. Estendendo a fronteira do velho
Império para incluir o Oceano Atlântico, este documento foi interpretado pelos
Papas como um meio que eles tinham autoridade para garantir o domínio
sobre as ilhas naquele mar bem como no Mediterrâneo.

As concessões papais de domínio para Espanha e Portugal


foram dificultadas pelas obrigações religiosas e seculares. Num lado religioso
esperou-se que a Espanha e Portugal tivessem autoridade e responsabilidade

por todas as almas dentro dos seus respectivos domínios. Como uma
concessão secular ela interpretada como uma extensão da autoridade feudal
sobre qualquer entidade política que este territórios pudessem conter.
161

Não somente a vastidão do Novo Mundo foi subestimada, mas


também as primeiras indicam que o final do século XV até o meio do século
XVI esperava-se que os habitantes desses reinos possuíssem costumes e
unidades territoriais que eram similares àquelas dos europeus. A conquista
então necessitaria de uma soberania estabelecida sobre estas pessoas e suas
terras. A suposição de que as novas terras conteriam velhos tipos de
organizações políticas é vista na linguagem das primeiras concessões. As
Cartas de Patente do Rei Henrique VII para John Cabot, em 1496, declaram
que Cabot deve subjugar , ocupar e possuir todas as cidades, castelos e ilhas
que eles encontrassem e que ele também poderia subjugar, ocupar e possuir
todos os vassalos e governadores, impondo as mesmas regras, títulos e
jurisdições das mesmas vilas, cidades e castelos e das terras até aqui
encontradas, e a concessão a Sir Walter Raleigh, em 1584, deu a ele
autoridade sobre as terras, territórios e países que foram conquistados e sobre
suas cidades, castelos, vilarejos e vilas.

Embora os exploradores entrassem em contato com altas


civilizações nas Américas Central e Sul, eles não encontraram tais cidades,
castelos e vilas da forma esperadas por muitos na América do Norte, e
gradualmente o caminho foi aberto para os territórios norte-americanos se
tornarem presentes para o público como uma terra selvagem e, em termos de
conteúdo social, como um espaço vazio. Muitos dos nativos norte-americanos

que os europeus encontraram tinham economias primitivas com o uso comunal


da terra. Eles praticavam agricultura mas também eram caçadores e coletores.
Seus campos pareciam vagos e desarrumados para os olhos europeus e, com
exceção do cachorro, eles não tinham animais doméstico. Seus costumes e
usos da terra pareciam tão estranhos e seus processos políticos tão indistintos
que muitos europeus concluíram que os índios eram subumanos e que
poderiam e deveriam ser removidos da terra.

Em sua “História geral da Virgínia, Nova Inglaterra e das Ilhas


Summer”, John Smith descreve os índios ( voltando atrás, porque ele tinha
escrito antes que eles eram gentis e generoso s) como “pérfidos e inumanos;
besta cruéis com uma brutalidade maior do que as próprias bestas”, e o amigo
de Smith, Purchase, argumentou ( de acordo com Jennings) que “o cristão
162

inglês deve com todo direito tomar a terra dos índios porque Deus intencionou
que suas terras deveria ser cultivadas e não deixadas nas condições de um
lugar selvagem e desabitado, que eles, os selvagens, não faziam mais do que
habitar.”

Embora esta idéia de desabitado fosse contrária ao fato, ela se


tornou uma racionalizaç ão das expropriações européias das terras dos índios
e foi usada por colonização européia como uma desculpa para remover os
povos aborígenes de todos os lugares. Definir os índios como selvagens ou
subumanos foi um passo importante na sua remoção porque os europeus
contemporâneos geralmente alegavam que “invadir e despossuir as pessoas
de um país civilizado não-ofensor violaria a moralidade e transgrediriam os
princípios das leis intern acionais.” Os índios conquistados eram tratados
diferentemente do que os europeus. A maioria dos colonos holandeses em
Nova Iorque não eram despojados de suas terras quando os ingleses tomavam
a colônia. Ao invés disso, eles simplesmente pedidos para obedecer a lei
inglesa ao invés da lei holandesa. Nem todos os Irlandeses foram removidos
de suas terras quando os ingleses plantaram colônias em Ulster. Os
holandeses e os Irlandeses eram cristãos e os ingleses pensavam que os
primeiros, especialmente, eram um povo civilizado cujos direitos de
propriedades deveriam ser respeitados. Acreditar que os índios eram não-
civilizados e selvagens, mais do que qualquer coisa, diminuiu a

responsabilidade dos europeus com as reclamações de terra pelos índios e fez


a grande expansão das Américas parecer espaço vazio para se tomar.

É claro que a expulsão dos índios foi mais fácil de se pensar do


que se fazer. Os índios, em maiores números do que os primeiros
colonizadores europeus, geralmente eram capazes de usá-los. Em muitos
casos dois grupos viviam misturados, às vezes em amizade, mas geralmente
não, e geralmente afetando a cultura um do outro. Alguns europeus falaram
contra a apropriação da terra dos índios. Mas estes eram geralmente
argumentos vazios e aqueles que os faziam ficariam felizes de possuir a terra
dos índios se a oportunidade surgisse. Roger Williams, que tentou proteger o
direito de Salém a terras que foram compradas dos índios ao invés da Coroa
163

Inglesa, teve que justificar o fato de que a terra pertencia aos índios. De
acordo com Cronon, Williams argumentou

que o Rei tinha cometido uma injustiça ao dar o país para seus assuntos
ingleses que pertenciam aos índios nativos. Mesmo se os índios usassem a
terra diferentemente do que os ingleses, eles entretanto a possuíam pelo
direito de a terem ocupado primeiro e pelo direito das mudanças ecológicas
que eles tinham operado nela. Se os índios tinham conduzido a agricultura ou
não, eles caçavam por todo país, e pela expedição das suas viagens de caça,
eles queimavam todos os arbustos no país, uma ou duas vezes por ano. A
queima de madeira, de acordo com Williams, era uma melhoria que deu aos
índios tanto o direito ao solo quanto o rei da Inglaterra poderia reclamar para
as suas florestas imperiais. Se o inglês podia invadir os territórios de caça dos
índios e reclamar direito de propriedade sobre eles porque eles estavam sendo
improdutivos, então os índios poderiam fazer da mesma forma com os parques
de jogos reais.

Mas, os argumentos pelos direitos indígenas, fossem eles para


proveito próprio ou não, foram descartados pelo clamor pelas terras indígenas.
No começo do século XVII, a caracterização dos índios e suas relações não-
agriculturais com a terra como subumanos serviu como razão para a expansão
branca. Em 1629, o governador Winthrop de Massachusetts declarou que a

maioria da ter ra na Am érica estava sob re a rubrica legal do vacuum


domicilium porque os índios não a tinham subjugado, e John Cotton escreveu
que “em um solo vago aquele que tomar posse e realizar culturas e
benfeitorias nele tem direitos sobre ele.” Esta posição persistiu através do
século XIX. O chefe de justiça Marshall em 1823, argumentou que os índios
eram bárbaros selvagens cuja ocupação era a guerra e cuja subsistência era
dirigida da floresta e além disso a lei que regula as relações entre o
conquistador e o conquistado era incapaz de se aplicar a pessoas sob tais
circunstâncias.

As concessões do Novo Mundo descrevem as reivindicações


territoriais abstratamente e geometricamente e, em conjunto com a limpeza
conceitual e real das terras dos índios, as linhas geométricas da autoridade
164

territorial se tornam uma vassoura para a limpeza do espaço e um mecanismo


de manutenção das comunidades territorialmente instituídas. A primeira
concessão de Virgínia em 1606 estabelecia jurisdição sobre um território
o
definido pelas linhas de latitude, entre 34 e 45o ao norte e a mais de 100
milhas da praia. Ele foi usado para estabelecer dois assentamentos em
alguma parte no espaço métrico, um entre 34 o e 41o ao norte, e outro a 38 o e
45o ao norte. Cada um tinha uma reivindicação para os recursos a 50 milhas
ao norte e ao sul e a 100 milhas ao oeste. Estas reivindicações foram
elaboradas e estendidas na segunda (1609) e terceira (161-12) concessões. A
terceira estendeu as reivindicações marítimas para 300 léguas, mas nenhuma
continha detalhes sobre como os territórios seriam subdivididos adiante.

No dia 3 de Fevereiro de 1618, a companhia deu à colônia

autoridade para conceder incorporações e em 1619 os procedimentos da


primeira assembléia de Virgínia menciona que os representantes foram de
cada incorporação e plantação. No dia 24 de agosto de 1621, as ordenanças
de Virgínia estabeleceram uma assembléia geral baseada na representação
da burguesia de cada uma cidade, de cem ou de outras plantações em
particular. Assim no início de 1618, e certamente em 1621, uma colônia
contendo somente umas poucas milhares de pessoas estabelecia subdivisões
territoriais para representações políticas. Em 1634, a assembléia geral criou a
forma de condado do governo local e assim uma organização territorial
hierárquica foi instituída. As concessões de Virgínia usavam fronteiras
métricas abstratas, mas não elaboraram o tipo de subdivisões territoriais. As
primeiras concessões das colônias subsequentes eram para serem feitas e na
ocasião descreviam procedimentos para uma representação real. Na
realidade, elas aparentavam freqüentemente ter uma filosofia flexível e até
mesmo experimental para a Territorialidade subdividindo o espaço.

A concessão de 1629-30 para Sir Robert Heath definiu seus


domínios como:
Todo aquele território ou trilha de terra, situado e estando dentro dos domínios
da América, se estendendo do final norte das ilhas Lucke, que ficavam nos
mares da Virgínia, e dentro de seis e trinta graus da latitude norte para o oeste
165

até os mares do sul, e então para o sul até o rio St. Matthias, que bordeava a
costa da Flórida, e dentro de um e trinta graus da latitude norte, e então para
oeste numa linha direta até o mar do sul já citado acima.

Isto deu a ele poderes plenos para transformar vilas em


municípios, e municípios em cidades para os méritos dos habitantes e a
conveniência dos lugares com privilégios e imunidades condizentes para
serem erguidas e incorporadas, e fazer todo o resto diferente e singular,
baseado nas primícias que parecerem mais convenientes para ele ou para
eles. Uma declaração e proposta do proprietário de terra da Carolina, em
1663, artigo 4, contém estipu lações para unidades sub-territoriais e para
representações de área. Ela declara que:

Nós devemos dar poderes a maior parte dos proprietários livres ou a seus
deputados ou representantes para serem escolhidos entre eles mesmos; dois
de cada tribo, divisão ou paróquia, de maneira que todos concordem, para
fazer suas próprias leis, com a orientação e o consentimento do governador e
do conselho.

A concessão da Ilha Rhode, em 1663, (suas fronteiras foram


estabelecidas em concessões prévias), cobra aquela assembléia geral edifique
e estabeleça lugares e cortes de jurisdição e prescreva, limite e distinga os

números e ligações de todos os lugares, vilarejos ou cidades. A concessão da


província de Maine, em 1639, permite a incorporação das cidades, municípios
e lugarejos com todas as liberdades e coisas pertencentes aos mesmos

e concede pleno poder e autoridade para dividir toda e qualquer parte dos
territórios aqui concedidos, em províncias, condados, cidades, lugarejos,
centenas ou paróquias em outras partes ou porções. Se estabelecendo em
todas ou em cada uma delas, para apontar ou lotear tais porções de terras
para usos públicos.

A concessão de Nova Cesárea ou New Jersey, em 1664, criou


uma assembléia geral
166

para estabelecer taxas iguais dentro dos vários recintos, centenas, paróquias,
feudos ou qualquer outra divisão que seja feita e estabelecida na dita
província. E para dividir tal província em centenas, paróquias, tribos ou divisões
que eles acharem adequadas, e que tal representação deve ser baseada nas
divisões dessas áreas.

Na Constituição Fundamental da província de New Jersey do


Leste, em 1683, são encontradas filosofias geográficas até mais flexíveis para
representação. A representação para o grande conselho é destacada, mas
sem pontos específicos porque as unidades territoriais não estão fixadas ainda
em número e tipo:

Considerando que até o presente não há tantas cidades construídas como


poderia ter, nem províncias divididas em condados como deveriam estar
divididas, e que consequentemente nenhuma divisão certa pode ser feita de
quantos devem ser escolhidos de cada cidade e condado; embora até o
presente quatro e vinte serão escolhidos para as oito cidades e oito e quarenta
para o condado.

A concessão para William Penn, em 1681, é notavelmente


métrica. Ela deu a ele toda terra

ligada ao leste pelo Rio Delaware, a partir de 12 milhas de distância ao norte


da cidade de New Castle até os graus três e quarenta da Latitude Norte, e a
partir da nascente do rio citado, as ligações ao leste são determinadas por
uma linha meridiana, a ser desenhada da nascente do rio citado, até os graus
três e quarenta. As terras citadas se estende a oeste cinco graus na longitude,
a serem consideradas nas fronteiras leste citadas; e as terras citadas a serem
ligadas ao norte pelo começo da latitude norte de três e quarenta graus, e no
sul por um circulo desenhado a 12 milhas de distância da parte norte e oeste
de New Castle até o começo da latitude de quarenta graus ao norte, e então
por uma linha reta a oeste até o limite da longitude acima citada.

Dentro deste domínio Penn recebeu o poder absoluto para dividir


o dito país em cidades, centenas e condados, e para promover e incorporar
167

cidades em municípios e municípios em grandes cidades. Penn tentou fazer


isto em seu elaborado trabalho “Diretrizes do Governo” (1682-96 e 1701) que
continha esquema detalhados de unidades sub-territoriais.

Os planos de 1669 para a Carolina foram talvez os mais


fantásticos e elaborados esquemas para o parcelamento territorial hierárquico.
Supostamente ele era pra ter sido delineado por Locke, mas nunca foi
totalmente colocado em prática. A extensão para a qual a hierarquia é
estipulada pode ser vista a partir da primeira de muitas regras com relação às
subdivisões das terras:

Toda província deve ser dividida em condados, formando quadrados; cada


condado deve consistir de oito senhorios, oito baronatos e quatro recintos; e
cada recinto deve consistir de seis colônias. Cada senhorio, baronato e colônia
deve consistir de doze mil acres. Tal que estabelecendo e plantando nas
terras, o balanço do governo pode ser preservado.

Estas concessões oferecem evidências para atitudes


experimentais e abstratas com reação ao território e a comunidade em uma
larga escala geográfica. O que pode ser dito sobre as atitudes em relação a
comunidade e a terra a um nível mais local? Embora a resposta seja complexa,
aqui também nós encontraremos evidências para uma concepção mais

abstrata progressivamente de espaço. Embora as concessões primárias


contivessem várias características feudais, o tipo de título de terra que a
maioria geralmente estipulava foi modelado após o título de terra de
Greenwich Leste no condado de Kent. (As concessões de terra em Maryland e
Pensilvânia foram modeladas após o título de terra no bispado de Durham que
foi muito parecido com o de Kentish). As características gerais dos títulos de
Kentish, ou títulos de terras livres ou comuns como eles eram chamados, eram
que:

1. A terra era partida livremente em porções iguais entre os herdeiros homens


desde que não houvesse primogênito na descendência de propriedade em
Kent. 2. Os homens de Kent poderiam livremente vender ou dar suas terras e
poderiam acionar a justiça pelos mesmos motivos na corte do Rei, mesmo
168

contra os seus lordes. 3. Os procedimentos da corte eram mais diretos e


menos incômodos do que em qualquer outra parte. E 4. Todos os homens de
Kent nasciam livre; a vilania era desconhecida em Kent.

Conceder terra conf orme a prática em Ken t significava que o


sistema menos complicado feudamente de títulos de terra seria praticado nas
colônias da América do Norte. Este tipo de propriedade de terra foi o melhor
encontrado para as relações comerciais especulativas envolvendo uma
população móvel, comprando e vendendo terras inexploradas e concebendo-a
como parcelas do espaço quantificáveis e valiosas.

Assim esses sistema de terras descomplicado encorajou uma


concepção abstrata do lugar, os primeiros colonos tinham que vir e conhecer a
terra e queriam fincar raízes. Mas o conhecimento geográfico era limitado,
especialmente porquê haviam poucos deles e a terra era muito vasta. Algum
grau de conhecimento é mostrado nas primeiras reivindicações de terra para
os condados, cidades e para a propriedade de terra privada. As reivindicações
de terra geralmente mencionavam as características naturais tal como a costa,
um rio, um riacho ou uma colina. Freqüentemente nomes índios para os locais
e descrições foram incluídas nas primeiras reivindicações européias de terra.
Por exemplo, a porção de terra comprada dos índios em 1636 por William
Pychon descreve a propriedade em Springfield como

o solo e o muckeosquittaj or madows, accomsick, no outro lado de Guana; e


todo o solo em muckeosquittaj no lado de Agaam, exceto Cottinackeesh ou o
solo que agora está plantado. E todo o solo no lado leste do Rio Quinnecticot,
alcançando a quatro ou cinco milhas de extensão ao norte do final de
Masaksicke até o Rio Chickuppe.

Um indivíduo viria conhecer os conteúdos da sua fazenda e de


alguma coisa da sua própria cidade, mas a vastidão da terra e a escassez dos
seus habitantes europeus tornou improvável que ele conhecesse bem a área
adjacente que existiria até a próxima cidade. Assim, a formação das cidades
era geralmente irregular, deixando em aberto, espaços não reclamados. Até
que no século XVIII, Massachusetts requereu que os assentamentos fossem
169

contínuo para facilitar a proteção dos colonos durante as rebeliões índias. E


mesmo se área fosse diretamente adjacente àquela que estava sendo
assentada, isto ainda não significava que aqueles que estavam sendo
assentados a conhecessem em primeira mão. A terra era geralmente colocada
a disposição antes que ela fosse pesquisada. Isto ocorreu até 1715, quando
Massachusetts fez o seu primeiro esforço concentrado para prospectar as
terras antes de colocá-las a disposição, neste caso as terras entre os rios
Connecticut e Merrimac. As prospecções neste período descreviam a terra nos
termos mais superficiais, em parte porque elas estavam se tornando abstratas
e geométricas. O aumento na precisão espacial ocorreu no meio do século
XVIII ao descrever-se a terra em termos de retangulações ou distâncias
simples e direções a partir de um único ponto que era geralmente conhecido
às custas da menção das suas características físicas locais e história. Por
exemplo, o tipo de detalhe físico e cultural, embora modesto, contido no
acordo de 1636 com William Pychon (acima) está ausente em um mesmo ato
do século XVIII de um mesmo município que transferiu os direitos a duas
cidades definidas abstratamente como

o conteúdo total de seis milhas em largura e sete milhas em extensão e as


cidades a serem situadas em uma forma regular no canto sudoeste do dito
trato de terra começando no canto nordeste de uma nova cidade chamada e
conhecida pelo nome de New Framingham e a partir daí indo até o norte e o

leste para incluir as duas cidades acima descritas e colocá-las em uma forma
regular conforme dito acima.

A América do Norte e a Irlanda.

Uma breve comparação dos processos na América do Norte com


aqueles acompanhando a colonização inglesa da Irlanda (que foi outra área
grande da expansão inglesa além-mar naquela época) ilustra quanto mais

abstratas foram as reivindicações territoriais norte-americanas, e quanto mais


vazia a terra parecia. O inglês tinha invadido a Irlanda no século XII desde ai
tinha feito reivindicações de um tipo ou de outro sobre a terra irlandesa. O
conhecimento sobre os costume irlandeses e Geografia estava disponível para
170

os ingleses e embora alguns irlandeses não fossem agricultores eles todos


eram cristão, embora para os ingleses Protestantes após o reinado de
Henrique VIII talvez do tipo errado. De fato eles eram cristãos por mais tempo
do que os ingleses.

O longo conhecimento e o contato da Inglaterra com a Irlanda, e


sua aceitação invejável dos irlandeses como humanos e cristãos, adicionava
detalhes específicos e geralmente significativos para a imagem inglesa da
terra irlandesa que era impossível conceituadamente de se apagar. Esta
familiaridade tornou difícil para os ingleses pensarem a Irlanda como um
espaço vazio que podia ser geometricamente subdividido em unidades
territoriais, isto é visto nos graus com que os mapas as prospecções e os
planos das plantações inglesas na Irlanda se conformavam com o contexto
irlandês rico preexistente.

Os ingleses prospectaram as terras irlandesas antes que eles


empregassem maiores esforços na colonização nos séculos XVI e XVII. Estes,
bem como os registros dos atos de propriedade, apontam para o grau na qual
as plantações inglesas eram enxertadas nas propriedades irlandesas
preexistentes. Os planos geralmente incluíam a disseminação dos irlandeses
dentro das plantações inglesas. Por exemplo, o decreto inglês precedendo as
ordens de 1608 com relação a fundação para a plantação de terras

confiscadas nos Estados de Ulster na parte quatro diz que “os usuários dessas
terras seriam de vários tipos. 1. Ingleses e Escoceses que quisessem plantar
suas porções com inquilinos ingleses e escoceses. 2. Pessoas que estivessem
servindo na Irlanda que pudessem pegar inquilinos ingleses ou irlandeses a
sua escolha e 3. Nativos desses condados, que deviam ser proprietários
livres.”

Então a prospecção da terra se dá de condado a condado. Para


prevenir a necessidade de futuras prospecções, havia a estipulação de que
medidas de terras preexistentes e unidades deveriam der usadas: nas
palavras do decreto para evitar confusão e o trabalho de se medir o condado
inteiro outra vez, cada ballyboe (unidade irlandesa de área) deve ter os mesmo
laços e quantidade que são conhecidos, estabelecidos e usados na época da
171

partida do Traidor Tyrone. Instruções posteriores sobre a conformação aos


usos da terra preexistente são encontradas nas “Ordens e condições a serem
observadas pelos usuários sobre a distribuição e plantação das terras
confiscadas no Ulster” (de uma cópia impressa em 1608), e nos “Artigos para
instruções de quais devem ser os comissários apontados para as plantações
da Irlanda.” Estes, por exemplo, expressão a necessidade de se ser cuidadoso
em distinguir as terras confiscadas das outras terras, e que a divisão de terra
dentro dos condados deve reconhecer os limites antigos das velhas paróquias
ou estarem ligados pelos conhecidos Metts e nomes, com a menção particular
tanto do número e do nome de cada Ballyboe, Tath, Polle ou Quarto ou recinto
similar irlandês de terra, e dar a cada uma porção um nome próprio para ser
conhecida.

As prospecções inglesas de Ulster em 1618 (dez anos após os


planos para o assentamento) ilustram ainda mais o quão detalhado foi o
conhecimento para a terra e quanto a população nativa e o conhecimento do
passado foi incorporado nos novos assentamentos. Um exemplo típico está na
prospecção de Pynnar. Para o condado de Cavan, Pynnar começa com a
menção de 3.000 acres possuídos por Sir James Hamilton. Os nomes das
principais terras são Keneth, 2.000 acres, e Casbell, 1.000 acres. Pynnar
descreve a terra de Casbell da seguinte forma:

Sob esta proporção está construído um castelo muito forte e grande de


Calcário, chamado de Castelo de Aubignie, com as armas do Rei esculpidas
em uma pedra sobre o portão. Este Castelo tem cinco compartimentos de
altura, com quatro torres redondas por flanco, o corpo do Castelo tem
cinqüenta pés de comprimento, e vinte e oito pés de largura. E há uma junção
de um bawne de Calcário no final do Castelo, com oitenta pés quadrados com
dois flancos de quinze pés de altura. Ele é muito solidamente construído, e
certamente bem trabalhado. Neste castelo ele próprio habita, e mantêm
moradia com sua esposa e família. Este castelo é situado no encontro de cinco
caminhos, e guarda toda aquela parte do país.
172

Ele continua a descrever o número de proprietários ingleses e


aldeões na suas terras, os proprie tários de terras e suas caracte rísticas, bem
como a prospectar as terras loteadas para os servidores e os nativos.

Os assentados ingleses na Irlanda podiam saber muito mais do


que sabiam aqueles na América do Norte sobre a terra na qual eles estavam
sendo assentados. Os mapas, as prospecções e os acordos continuavam a
incorporar características detalhadas da terra e o uso da terra irlandesa
preexistente com suas práticas e divisões. Além disso, os planos de
assentamento tinham a população irlandesa misturada entre a inglesa.
Compare isto com as reivindicações abstratas do controle territorial feitas
pelas concessões da América do Norte. Aqui uma característica física pode ser
mencionada, lá um nome indígena, mas mais o sentido predominante é o da
reivindicação e subdivisão de um espaço vazio.

As definições sociais diminuídas de um


Território.

Na sua fundação, praticamente toda colônia na América do Norte


Britânica estava usando formas geométricas abstratas para reclamar a terra, e

estavam preparando um meio de subdividir seu território em níveis


convenientes e números de unidades sub-territoriais. Até mesmo os sub-
territórios eram pensados pelos contemporâneos como estando, pelo menos
em parte, definindo as relações sociais e são vistos na freqüência com a
palavra “conveniência” é usada para justificar o seu estabelecimento. Além
disso, a liberdade dada aos colonos para determinar o mais conveniente tipo,
nível e número de unidades sub-territoriais sugere também que a relação entre
as pessoas e o território é em alguns aspectos como um gigantesco
experimento social no uso do espaço, para afetar, organizar e controlar o
comportamento.

Também acompanhando a criação territorial das unidades sociais


estava o sentimento de que estas unidades deviam englobar as entidades
173

sociais orgânicas. Mas a vitalidade desta visão foi diminuída conforme o papel
do comércio e da mobilidade geográfica aumentou. A batalha perdida para
reter um sentido definido socialmente de comunidade em nível local está
ilustrada por toda América do Norte, mas também mais fortemente no caso
puritano.

Os puritanos se estabeleceram na Nova Inglaterra para


estabelecer teocracias, e a paróquia desempenhou uma grand e parte na
definição e organização da comunidade. A cidade de Nova Inglaterra era uma
paróquia com autoridade civil outorgada. O caráter dinâmico dos eventos no
Novo Mundo foi logo reconhecido pelos colonizadores e foram incorporados na
estrutura da Igreja. Em 1648, os puritanos estabeleceram regras nas quais os
pregadores e paroquianos poderiam mudar de paróquias. Mas, essas
concessões para a mobilidade não foram suficientes sempre para manter a
comunidade e a paróquia como uma entidade única. As fronteiras da paróquia,
especialmente nas cidades, eram geralmente ignoradas. Igrejas separadas
surgiram o que não coincidia com os territórios preexistentes, e algumas
denominações não reconheciam as paróquias de maneira alguma.

Outros indícios de uma perda da definição social de território


pode ser visto no aumento da ênfase sobre as residências como uma definição
para a adesão nas comunidades da Nova Inglaterra. Entre as razões para

manter a sociedade da Nova Inglaterra fechada estava o desejo de que elas


contivessem cidadãos, divisões religiosas compatíveis e que não seriam
atrapalhados como eles eram na Inglaterra com o fardo de suportar os pobres.
O meio direto de afastar aqueles que eram indesejáveis era criar restrições
legais para residência. A terra da cidade pertencia inicialmente aos fundadores
e novos moradores tinham que ser aprovados pelos homens da cidade antes
que eles pudessem se estabelecer na comunidade e possuir a terra. Isto
significava que a cidade se preocuparia somente com aqueles pobres que
eram membros da comunidade.

Umas das primeiras tentativas registradas de restringir a entrada


na Nova Inglaterra é encontrada em uma regra de 1639 para a vila de
Sandwich que estabelecia um princípio geral de entrada conforme a seguir: “E
174

para melhor realizar os negócios entre eles, é assim ordenado que nenhum
homem deve ser admitido como habitante em Sa ndwich, ou goza r de
privilégios, sem a provação da Igreja e de Mr. Theo Prence, ou de qualquer um
dos assistentes que eles escolherem.” Regras similares foram estabelecidas
por outras cidades, mas geralmente era o caso de que se outra cidade
garantisse receber de volta os seus imigrantes, então ele poderia ficar por um
pouco mais; mas cedo ou tarde ele teria que pedir pela admissão à cidade na
qual ele agora residia. Em 1636, a colônia de Plymouth estabeleceu regras
para os novos moradores, estipulando que “nenhuma pessoa vindo de outras
partes seria permitida como habitante na sua jurisdição sem aprovação do
governador e de dois magistrados no mínimo”, e no mesmo ano Boston
estabeleceu regulamentos para controlar até mesmo a estadia de convidados
ordenando que “nenhum homem da cidade deve abrigar estranhos em suas
casa por mais de 14 dias, sem comunicar aqueles que são apontados para
ordenar os negócios da cidade.”

Para proteger ainda mais a entrada, muitas comunidades


estipularam que ninguém era permitido vender terras a estranhos sem
aprovação da comunidade. Em uma disputa sobre transações de terra, a
cidade de Sudbury, em 1636, afirmou que Richard Fairbanke “tinha vendido a
dois estranhos as duas casa no final de Sudbury que eram de William
Balstones, contrário a uma ordem anterior, assim a venda deveria ser anulada,

e o dito Richard Fairbanke deveria pagar por seu rompimento acima citado.” E
em 1657, a corte de Plymouth respondendo as queixas da cidade de Taunton
para o efeito que

Algumas pessoas sem posses e difamadas se estabeleceram na dita cidade


para habitar aqui, não tendo a aprovação de nenhum dos dois magistrados de
acordo com uma ordem da corte, e contrários às opiniões dos habitantes. A
corte determinou que: 1. nenhuma pessoa será abrigada por qualquer
habitante da cidade , ou a pena a ser estabelecida será de vinte shillinges para
cada semana que eles abrigarem a pessoa sem a aprovação de cinco homens
escolhidos e apontados para ordenar os negócios públicos da cidade; e 2. Da
mesma forma é ordenado que, você deve tomar cuidado com os homens da
sua cidade, para que nenhuma pessoa ou pessoas da sua cidade vendam,
175

deixe de herança ou dêem a casa ou a terra para qualquer pessoa, de modo a


trazer pessoas para habitar entre eles, mas que devam ter aprovação de dois
magistrados no mínimo de acordo com a ordem antiga da corte, que terão
como resposta o desdém se fizerem o contrário.

Muitas comunidades adotaram tais restrições na adoção de


membros visando controlar o acesso à propriedade da terra e especialmente
controlar a elegibilidade para o alívio dos pobres. Mas a maioria das
comunidades estavam se tornando maiores, e os estrangeiros entrando nelas
estavam aumentando em números. Para manter a ordem e propiciar o serviço
social, um critério mais indul gente para residência era necessário. Um
consenso formado baseado em uma cláusula em uma lei adotada em
Plymouth, em 1642, estabelecia que “cada pessoa que vivesse e estivesse
estabelecida em qualquer cidade e não fosse contestada no prazo de três
meses após a sua chegada neste caso seria declarada como habitante
daquele lugar.” “Advertência”, como era chamada, tinha o efeito de mudar para
a Territorialidade algumas das definições de adesão de membro da
comunidade. Simplesmente estar em um lugar por três meses sem ser
encontrado ou sem se tornar um empecilho, permitia a alguém se tornar um
membro da comunidade e elegível para o alívio do pobre. O alerta também foi
logo adotado por outras comunidades da Nova Inglaterra e foi incorporado em
1672 nos Artigos da Confederação (o Artigo XIII). Mas, a população e a

mobilidade geográfica continuavam a crescer até o ponto em que as


comunidades não podiam pagar e nem suportar por todos os pobres que
entravam e que não eram alertados. Então, o século XVIII viu uma extensão do
tempo que uma pessoa deveria residir antes de ser aceita na comunidade e
sendo elegível para o alívio do pobre ou melhor dizendo a ajuda para sua
sobrevivência. Prolongar o tempo também foi calculado para fazer os governos
coloniais, e mais tarde o Estado, se tornarem parte da obrigação da ajuda ao
pobre. O Estado só veio a fazer isto no século XIX e isto permitiu que as
comunidades locais diminuíssem o tempo para residência.

O aumento da população, a mobilidade geográfica e as


divergências internas fizeram a Nova Inglaterra parecer mais com as
comunidades de conveniência do que com entidades orgânicas; e nos meados
176

do século XVIII essas tendências davam mais reconhecimento legal quando as


concessões coloniais continham não somente as estipulações para a
representação proporcional, mas também pedidos para o repartimento
periódico baseado no censo. Isto significava que as entidades territoriais eram
oficialmente reconhecidas como moldes convenientes e contingentes e não
simplesmente como entidades orgânicas. A representação proporcional foi um
importante elemento na filosofia política dos federalistas e uma parte da
Constituição. Mas, antes de examinar a evidência do período revolucionário,
nós devemos notar que haviam ainda outros usos da Territorialidade na era
colonial.

Outros efeitos territoriais.


As concessões do territórios eram bases predominantes da
organização do governo colonial, mas logo ocorreram assentamentos sem tais
concessões. Dois famosos são de Plymouth e de New Haven. É interessante
que as colônias não concedidas ou companhias tinham eventualmente que
reclamar o território e faziam isto comprando-o de índios (ver notações
precedentes de Roger Williams). Enquanto as compras não podiam ser vistas
da perspectiva dos índios, os colonizadores acreditavam que o território era
necessário e de uma forma que os europeus lhe reconheceriam. As colônias
que tinham terras concedidas tinham menos compulsão em se estabelecer
com os índios morando dentro da concessão porque, da perspectiva européia,
os europeus já a possuíam. A Territorialidade foi o modo preferido de governo
e este modo gerou mais território. Formariamente as colônias não-territoriais
também tinham que reivindicar terras de si próprias ou eram incorporadas em
colônias adjacentes que tinham feito tais reivindicações.

O período colonial exibe muito dos efeitos territoriais que nós


esperaríamos de uma organização hierárquica emergente. Ele foi usado pelos
governos para definir os reinos de controle e as hierarquias de
responsabilidade. Mas, ele também teve o efeito inesperado de criar más
177

escolhas e abusos. Isto parece não-intencional porque nenhuma evidência


clara existe de que a Territorialidade foi usada na época para disfarçar as
fontes do poder. Sobre as muitas más escolhas e abusos, um exemplo obscuro
com relação a estrutura da paróquia da Nova Inglaterra vale a pena ser
descrito simplesmente por causa que seus efeitos eram tão claramente
inesperados.

Conforme nós notamos, Massachusetts estava preocupada que a


paróquia e a autoridade civil deveriam coincidir e que o congressionalismo
deveria ser a religião oficial. E o Clero da colônia, originariamente seria
querido para ser suportado por contribuições voluntárias dos seus
paroquianos. Mas uma vez que as contribuições voluntárias não estavam
vindo em quantidade suficiente, em 1650, o governo teve que promulgar taxas
para suportar o Clero. As taxas a se pagar ao Clero foram estabelecidas em
bases proporcionais. Mesmo aqueles que não eram congressionalistas deviam
ser taxados para suportar tanto as funções e eclesiásticas da cidade em 1692
o suporte do Clero da cidade pelas taxas da cidade foi reiterado na concessão
dada a William e Mary. Em 1728, exceções a estas taxas foram dadas aos
Anabatistas e aos Quakers, e em 1734 aos Batistas. Mas, não haviam
exceções para aqueles congressionalistas leais que não queriam suportar a
sua igreja particular ou ministro e ainda para aqueles que queriam como
congressionalistas. O único jeito que eles tinham de escapar de uma taxa

dupla era se converter a uma das religiões existentes para suportar a paróquia
daquela igreja. A parte central deste paradoxo é que enquanto o controle
territorial ocorria parcialmente bem no estabelecimento formal de domínios de
responsabilidade para suportar e para a freqüência da Igreja Congressional,
ele não ocorria bem em conter as pessoas que ele intencionava controlar.

O sistema territorial colonial teve importantes conseqüências


para o governo e para a concepção das comunidades, mas não deve ser
esquecido que a intenção primária da colonização era providenciar riqueza
para o país-mãe. Dar concessões territoriais ajudava o país-mãe a explorar os
recursos do Novo Mundo. Para ajudar com o estímulo da exploração, uma
porção significante das primeiras concessões continha uma longa lista de
recursos que eram reivindicados dentro do território. Estas listas são
178

surpreendentes na luz do fato de que a Territorialidade pode tornar possível


estabelecer simplesmente que uma reivindicação estava sendo feita para
qualquer coisa de valor dentro das fronteiras da concessão, e assim invocar a
vantagem territorial de clas sificar por área e não por tipo. Mas, talv ez
houvesse a necessidade de lembrar os colonizadores dos itens em demanda
e talvez era o costume então nomear o que era de valor ao invés de usar um
termo abstrato tal como recurso. Em todo caso, as listas nos lembram que a
colonização era uma aventura econômica em uma época em que a Europa
estava entrando em uma economia global de comércio. Nomear as coisas de
valor a serem tiradas da terra torna claro que a terra era primariamente de
valor até aqui uma vez que ela continha os recursos e as comodidades. Mas,
as comodidades mudam conforme os mercados mudam. A posse de terra é
especulativa em uma economia de mercado. A mudança da natureza das
comodidades e suas flutuações nos valores estimula a noção de que o espaço
e seus locais uma vez podem ser preenchidos com coisas de valor, e que em
outra vez, pode ser esvaziado do valor; aquele espaço é meramente uma
moldura na qual as comodidades são locadas; e aquele lugar e eventos estão
relacionados contingentemente. Esta noção é reforçada pelo meio
desembaraçado de possuir a propriedade e pelo sistema métrico abstrato de
descrever a propriedade e o território político. Juntos estes apresentam o
espaço como um sistema abstrato, conceituadamente e quase sempre
realmente esvaziável e preenchível.

O período revolucionário e a expansão para o


oeste.

No século XVI até o século XVIII - durante os quais a exploração

e a colonização da América do Norte aconteceu - foi um período de mudança


econômica e política para o resto do mundo ocidental. As nacões-estados
estavam sendo forjadas e a maior parte da Europa Ocidental estava se
tornando o foco de uma economia global emergente. Não de se surpreender
179

que este período também viu o desenvolvimento das importantes novas idéias
na política. Filósofos como Hobbes, Locke, Roussea u, Bodin, Montesquieu, e
seus contemporâneos realizaram análises sistemáticas da natureza da
sociedade e do governo. Eles estavam interessados em que as sociedades
realmente eram e como elas podiam ou deveriam ser. Coletivamente seus
questionamentos levantaram vários assuntos interrelacionados que tiveram a
ver com o desenvolvimento da organização política americana.

Entre as questões mais importantes que eles levantaram se


referem ao melhor tipo de governo. As maiores escolhas da época eram a
monarquia, aristocracia, democracia (direta, por exemplo, sem representantes,
ou indireta, por exemplo, com representantes) ou algumas misturas destas.
Intimamente ligada com a questão do governo ideal esta a concepção do tipo
de sociedade que era ou devia ser governada. Esta comunidade seria dividida
em classes sociais e econômicas, caso sim de que tipos? Esta comunidade
seria grande ou pequena em tamanho e população? Quais seriam as suas
facções sociais predominantes?

Cada filosofo descreveu de alguma forma diferentemente as


condições do atual e do ideal. Além disso, a maioria pensou que o tipo de
governo deveria se combinar com o tipo de sociedade. Haviam teorias
medonhas como a de Hobbes, que focalizava primariamente na explicação e

justificativa da concentração do poder em um monarca. O poder do soberano


era transferido a ele com o consentimento dos seus submissos para preveni-
los de perseguir seus próprios interesses e se meterem em conflitos
prolongados. A sociedade sem o governo seria um caos. Ela estava em um
estado de natureza e permaneceria assim a menos que as pessoas dessem a
alguém a autoridade para ser um soberano.

Em comparação com este estado de natureza qualquer abuso


real do poder empalidece. Os outros viram as relações mais complexas entre a
sociedade e o governo. Eles acreditavam que era importante ter os interesses
da sociedade representados (organicamente, que é até o século XVIII) e não
ter poder demais concentrado em um único ofício. Balancear o poder a
temperaria, varia justa e a legitimaria. Havia o específico, mas a consideração
180

prática de como a sociedade deveria ser subdivida e representada, e como as


divisões territoriais e hierarquias seriam parte do sistema de poder. Alguns até
mesmo consideravam como estas partes e suas funções seriam afetadas pelo
tamanho e escala da sociedade.

Era geralmente afirmado que os Estados grandes com inúmeros


povos como na Inglaterra e na França continham mais facções, grupos de
interesses ou classes do que os pequenos tais as cidades-estados. Quando a
sociedade era grande e continha classes tais como uma aristocracia, um Rei e
o povo, seus interesses separados de alguma forma refletiriam no governo;
talvez por se ter um monarca voluntariamente delegado para as comunidades
de graus de interesses e de independência (conforme Bodin) ou por ser ter
mais divisões formais ou constitucionais de poder. Isto significava dividir o
poder legislativo entre a aristocracia e o povo enquanto se tinha o poder
executivo residindo num monarca (conforme Montesquieu). Outros que viam a
sociedade como uma multiplicidade de interesses acreditavam que alguns
desses interesses eram localizados no espaço, e que o governo deveria
manter um balanço entre as unidades locais. Isto podia ser conseguido através
de alguma forma de representação geográfica. Milton e Hume, por exemplo,
viram uma divisão de representantes baseada em uma escala geográfica. Eles
insistiram com os conselhos locais de cada condado para se referir a questões
de interesse comum e o conselho nacional para lidar com o resto. Havia

alguns como Rousseau que acreditavam que a comunidade devia ser pequena
e desta forma relativamente homogênea com relação aos interesses de classe.
Isto varia que o desejo das pessoas se tornasse o interesse do grupo e
tornaria possível a democracia pura (a democracia do governo sem
representantes) que seria preferível à democracia indireta. Estados que eram
grandes em população e área tinham suas vantagens, mas eles não uniformes
nos interesses e poderiam não ter democracias verdadeiras.

Os fundadores.
181

Estes e outros ramos da teoria política foram selecionados e


transformados pelos fundadores para formar novas visões de governo para se
encaixar as novas sociedades. Nas véspera de se escrever a Constituição,
havia algum consenso sobre os assuntos. Geralmente se acreditava que um
largo território político e uma grande população ofereciam algumas vantagens,
especialmente nas áreas de relações estrangeiras e de defesa, mas era difícil
governar democraticamente. Era pensado que superconcentrações de poder
deviam ser evitadas - mas como? Defendia-se que interesses diferentes ou
facções da sociedade deviam ser representados - mas quais ele seriam e
como? O governo democrático era a melhor forma, mas as suas virtudes
seriam alcançadas somente em pequenas comunidades? Além disso, não
importava se o governo era ou não misturado ou se o poder estava
balanceado, naquele tempo somente dois tipos de estados-territórios eram
conhecidos. Por um lado estava o Estado unitário dentro qual as organizações
sub-territoriais como condados e cidades derivavam dos seus poderes e muito
da existência de uma autoridade nacional ou central, uma existência que
poderia ser revogada se o governo central assim escolhesse. No outro lado
estavam as confederações formada pela união de autônomos e estados
territoriais independentes que renunciavam virtualmente nenhuma autoridade
para o governo confederal ou liga. Esta última forma caracterizava as colônias
e a sua união durante a Revolução e sobre os artigos da Confederação. Antes
de se escrever a Constituição nenhuma posição intermediária clara entre o

confederal e o unitário ou a forma nacional era conhecida. O problema


primário para os fundadores, então, era encontrar um meio de balancear os
interesses e prevenir concentrações de poder para um grande território,
democraticamente governado.

Uma alternativa para continuar a se ter a confederação com


algumas modificações, era a posição favorável pelos anti-federalistas de
convenções de ratificação do Estado, muitos dos quais não viam nenhuma
solução porque eles acreditavam que nações grandes e populosas não podiam
ser verdadeiramente republicanas. Eles argumentavam que uma nação grande
tentando ser democrática eventualmente viria a ter uma forma unitária de
governo e aqueles que a governassem teriam poder demais e assim seriam
uma ameaça para a democracia. Os representantes seriam remotos demais, e
182

a representação demais impessoal e aristocrática para ser responsável com o


povo, tudo isto aumentaria a probabilidade de que facções fortes tomassem o
poder. A separação de funções em níveis nacionais não era o suficiente para
checar e balancear. O único de se preservar a liberdade e ainda manter as
vantagens do tamanho seria restringir a concentração de poder no topo
através de alguma forma de confederação - muito parecida com aquela sobre
os artigos da Confederação.

A visão oposta (expressa no plano de Virgínia, por exemplo) era


a favor de um Estado unitário ou nacional democraticamente através de
representação indireta. Ela defendia que a única forma de manter as
vantagens de tamanho era o Estado renunciar a soberania para uma
autoridade central. Para prevenir a supercentralização do poder, as funções do
governo (legislativo, executivo e judicial) deveriam estar separadas em ramos
e proporcionariam checagem e balanços uma sobre a outra.

O solo comum para ambas posições era o desejo partilhado por


um governo democrático, seu medo por uma superconcentração do poder
dentro da hierarquia e sua visão de que a sociedade americana não continha
ou não deveria conter uma classe aristocrática. A oposição ao plano unitário
não veio somente do desejo dos anti-federalistas ou confederalistas de ter o
Estado retendo a soberania porque eles já eram entidades existentes com

interesses, mas de uma suspeita genuína de democracia indireta em


organizações de larga escala e uma preocupação de que o perigo de se
concentrar o poder não seria diminuído somente por se dividir as funções.

O compromisso de posição profundo e revolucionário veio


primariamente de uns poucos federalistas. Eles afirmavam que era errado
acreditar que a democracia florescia primariamente em pequenos territórios.
Eles argumentavam que pequenas sociedades, ao contrário da crença
convencional, eram mais propícias a serem divididas em facções e tirânicas do
que as maiores. Madison em partic ular via a sociedade americana como
composta de facções; algumas como a de manufatura, agricultura, a rica e a
pobre, eram prováveis de durar muito tempo, enquanto outras eram mais
efêmeras. Mais importante, facções ou classes não correspondiam
183

necessariamente ou não corresponderiam a entidades territoriais. As partições


territoriais eram de algum modo como moldes impessoais para um sistema
geográfico fluido. Conforme Madison descreveu, “estas classes (dentro de uma
área) entendem muito menos de interesses e negócios de cada um do que
homens da mesma classe habitando distritos diferentes.”

Quanto maior a escala da sociedade, maiores as chances de que


nenhuma facção pudesse controlar o governo enquanto o contrário era
verdade, para as menores escalas. Não eram os grandes mas os pequenos
Estados que ameaçavam a democracia. Ter-se grandes áreas e muitos
cidadãos por representante, precisamente porquê isto aumentava a
impersonalidade, dava aos representantes alguma liberdade dos interesses
provinciais e faccionais. A concentração e o poder das facções podia ser
reduzido mais dando-se a eles vários caminhos ou escapes para checar e
balancear a influência um do outro. A Territorialidade era um meio essencial
de providenciar tais balanços para eles e para o governo em geral. Uma vez
que os territórios não coincidiam com a distribuições das facções, com a
representação territorial e com a definição territorial das constituintes, isto em
diferentes escalas, entre outras coisas, fragmentaria as facções. Par Madison,
“dividir e controlar o inegável axioma da tirania, é, sobre certas circunstâncias,
a única política na qual uma república pode ser administrada sobre princípios
justos.”

Embora não fosse um membro da Convenção Constitucional,


Jefferson defendeu visões sobre o território que foram sentidas na Convenção
e após. Ele acreditava que os americanos dividiam interesses comuns como
numa economia agrária e que a democracia podia operar somente através da
participação direta nos menores níveis possíveis. Ele estavam especialmente
concentrado sobre a má escolha do território e responsabilidade. Para
Jefferson, teria sido ideal se maiores níveis territoriais tivessem sido dados
somente àquelas funções que não poderiam ser endereçadas pelas unidades
menores. Para os Estados Unidos, isto significava que quase todos os
assuntos seriam locais ou do estado, exceto os assuntos de defesa e
estrangeiros.
184

Não é pela consolidação, ou concentração de poderes, mas por sua


distribuição que o bom governo é efetivado . Este grande país ainda não foi
dividido em Estados, esta divisão deve ser feita, cada um deve fazer por si
mesmo o que se refere a si diretamente, e que pode ser feito pode ser feito
muito melhor do que por uma autoridade distante. Cada Estado novamente
está dividido em condados, cada um para tomar conta do que está dentro das
suas fronteiras locais; cada condado está dividido em cidades ou vilas, para
administrar os seus detalhes mais minuciosos; e cada vila está dividida em
fazendas, para serem governadas cada uma por seu proprietário individual.
Nós temos sido dirigidos de Washington para quando plantar, e quando colher,
em breve será a mesma coisa quando quisermos pão.

As visões de Madison eram aquelas para prevalecer na


Constituição e sue entendimento da sociedade americana seria o mais
profético. Além disso, a consideração detalhada de Jefferson da hierarquia
territorial propiciou o molde usado para organizar os novos territórios dos
Estados. Suas propostas forma incorporadas na ordenação do nordeste e na
prospecção de terras, e sua imagem de autoridade local e independência
estava para servir como um impulso para uma visão mais realística de um
governo forte centralizado e de uma sociedade de facções.
A Constituição.

A primeira destilação das idéias dos fundadores sobre o governo


americano está na Constituição dos Estados Unidos. Este documento usa o
território para definir as constituintes para diferentes partes de um governo. A
versão sem correções estipulava (no Artigo I, seção 2): que os membros casa
seriam escolhido

a cada dois anos pelas pessoas de vários Estados e os eleitores em cada


Estado deveriam ter qualificações para eleitores dos ramos mais numerosos

da Legislatura do Estado. Os representantes devem ser agrupados entre os


vários Estados que podem ser incluídos dentro desta união, de acordo com
seus respectivos números. A enumeração real deve ser feita dentro de três
185

anos após o primeiro encontro do Congresso dos Estados Unidos, e dentro de


cada termo subsequente dos dez anos.

O Senado seria composto por “dois senadores de cada Estado,


escolhidos pela Legislatura” (Artigo I, seção 3). O presidente representando o
país todo seria escolhido pelo processo de eleição. “Cada Estado deveria
apontar, de uma maneira que a Legislatura deveria dirigir um número de
eleitores, igual ao número total se senadores e representantes pelo qual o
Estado poderia ser representado no congresso.” O presidente é eleito pelos
eleitores através de um sistema complexo de votação e contagem. (O
processo foi corrigido em 25 de setembro de 1804, no Artigo XII).

A compreensão de que estas unidades de representação não


eram inteiramente unidades orgânicas, mas eram pelo menos em parte
jurisdições convenientes para populações móveis está demonstrada pela
provisão para representação proporcional que deve ser ajustada a cada dez
anos de acordo com os resultados do censo nacional. A representação
proporcional e as regras para o reagrupamento começaram a ser incorporadas
no governo colonial nas vésperas da revolução, e em 1780 todas as colônias
srcinais elegeram suas câmaras por voto popular direto e a maioria tinha
requerimentos distritais severos para equalizar os distritos de voto.

O sistema americano de governo estabelecido entre 1776 e 1789


pode ter sido a conceber as suas sub-unidades, os Estados, como territórios
genéricos - todos parecido em sua forma e lugar no governo. O nome de
nenhum Estado aparece dentro da Constituição. Embora um Estado possa ter
mais representantes do que outro, isto pode mudar novamente conforme a
população muda. Tratar os Estados como iguais torna mais simples para os
novos Estados serem admitidos. Os sentidos que os territórios servem como
moldes convenientes e eles são eles mesmos sujeitos da mudança está
construído no processo constitucional para adicionar novos Estados. Mesmo
as fronteiras e os números dos Estados existentes podem mudar. O Artigo IV,
seção 3, afirma que:
186

Novos Estados podem ser admitidos pelo Congresso nessa união: mas
nenhum novo Estado será formado ou erigido dentro da jurisdição de qualquer
outro Estado; e nenhum outro Estado será forçado a se unir a dois ou mais
Estados, ou a partes de Estados, sem o consentimento das Legislaturas dos
Estados referentes bem como do Congresso.

Não há estipulações constitucionais com relação aos números


dos novos Estados nem as provisões dos seus tamanhos. A Constituição
estabelece simplesmente que: “O Congresso terá poder para dispor de e fazer
todas as mudanças necessárias e regulamentações com respeito ao território
ou a outra propriedade pertencendo aos Estados Unidos.” (Artigo IV, seção 3)
“e garantir a cada Estado na União uma forma republicana de governo.” (Artigo
IV, seção 4).

Os procedimentos gerais para entalhar novos Estados no oeste


americano foram delimitados na Ordenância Nordeste de 1787 passada sob os
Artigos da Confederação. Esta Ordenância foi baseada em parte nos planos
de Jefferson de 1784 para um governo temporário das terras do oeste cedidas
por Virgínia para o Congresso e para sua divisão em Estados para entrarem
na União; em parte pela Ordenância de 1785; em parte pelos reportes do
comitê do dia 10 de Maio de 1786, dia 19 de Setembro de 1786 e 26 de Abril
de 1787. Estas ordenâncias e relatórios propiciaram duas inovações

territoriais. Primeiro, os territórios no Noroeste eram esperados para serem


divididos de acordo com as linhas paralelas a eles de longitude e latitude, e
estas formariam os componentes das fronteiras dos Estados quando viáveis e
as fronteiras para praticamente todos os condados, cidades e parcelas
privadas de terra. Este sistema retangular de prospecção de terra foi usado
subseqüentemente através de muitas partes do oeste. Segundo, o território
Noroeste eventualmente era composto entre dois e cinco estados. O número
exato no final dependeria do número de assentamentos na região (Jefferson,
entretanto, tinha planos diferentes sobre o número e a locação dos Estados,
ver figura 1.2). Isto significava que não somente as populações estavam
nestes territórios para mudar, mas o números exato de estados e suas
fronteiras eram negociáveis. Formar novos estados envolveria uma
interrelação dinâmica entre as pessoas e a terra. Uma vez que as fronteiras
187

dos estados fossem criadas, um estado precisaria de 60.000 habitantes livres


para ser admitido na Confederação. Quando a Constituição substituiu os
Artigos da confederação, a Ordenância do noroeste foi completada e adotada
pelo Congresso na Ordenância de 1787. Para formar novos estados se
seguiria geralmente os procedimentos descritos nas ordenâncias prévias.
Suas fronteiras dependeriam em parte da distribuição da população. Eram
entendidos que as fronteiras dos estados já admitidos na União ainda
poderiam ser mudadas, mas somente de acordo com os procedimentos
descritos no Artigo IV, seção 3, na Constituição. Todos os estados tinham
autoridade para subdividir e alterar os seus territórios dentro das suas
fronteiras, assim continuava em uma escala geográfica menor às dinâmicas
entre as pessoas e o território.

O poder para subdividir a área em unidades convenientes de


‘condados, cidades, vilarejos, castelos, feudos etc.’ conforme estipulado nas
primeiras concessões, tinham se tornado agora o poder dos camponeses para
reivindicarem, e dos legisladores para criarem, unidades políticas de estados
em condados ou cidades, e para dispor da seções e quartos de seções da
terra; e a maioria destas unidades serão dispostas corretamente em territórios
geométricos. Este era um sistema bem adequado para aqueles tempos. A
América do início do século XIX continha uma economia comercial
rapidamente crescendo, com uma base industrial em desenvolvimento. A

população estava crescendo através de aumento natural e especialmente


através da imigração, e o país tinha vastas terras ao seu dispor. Vender a terra
imediatamente aumentaria as divisas para o governo federal e em longo
período aumentaria a base industrial e comercial da economia. Uma economia
comercial e industrial em crescimento requer liberdade de mobilidade
geográfica tanto para o trabalho quanto para o capital. O capital deve ser
permitido de ser investido em diferentes locais, oferecendo diferentes misturas
de materiais, trabalho e de suporte de governo, enquanto o trabalho deve ser
móvel o suficiente para seguir os investimentos do capital. Isto significa que
deve haver um único conjunto de leis regulamentando as atividades comerciais
sobre o país todo; leis uniformes para banco, crédito, dinheiro e etc. Isto
significa que a propriedade na terra deve ser facilmente comprada e vendida.
E isto também significa que as comunidades políticas de cidades para
188

condados e estados, devem estar prontas para acomodar o capital e o


trabalho, para oferecer a eles leis, escolas, polícia e proteção militar e outros
serviços básicos, e isto deve ser feito sem se impor restrições na mobilidade
futura ou nas suas conexões com outros locais. Estas unidades territoriais
podem diferir em contextos culturais, no grau em que elas encorajam o capital
ou o trabalho, mas elas não podem diferir no ponto onde elas obstruem a
mobilidade de dois. As condições geográficas estabelecidas nas leis e
ordenâncias para subdividir territórios, para admitir novos estados e para
prospectar e subdividir a terra ofereceram uma hierarquia indefinidamente
expansível e subdividível de unidades territoriais políticas, cada uma com
alguma economia, mas todas dentro de um sistema unificado.

Uma vez que essas promulgações legislativas providenciavam os


containners geográficos para uma população em movimento em uma economia
dinâmica, elas próprias não definiam o balanço entre uma autonomia local e a
integração nacional, entre os interesses do fazendeiro local, do trabalhador, do
mercador e do industrialista. As políticas nos níveis nacional, do estado e local
reuniam diferentes interesses em diferentes regiões, e estas mudavam o
tempo todo. Além disso, em virtude de más escolhas e abusos, as formas
territoriais criavam problemas para coordenar; problemas que atrapalham
qualquer organização territorial hierárquica. Felizmente, a Constituição
oferecia orientação a respeito deste aspectos do estado e das relações

federais. Em adição as numerações de poderes dado ao governo federal e a


afirmação no Artigo X de que “Os poderes não delegados para os Estados
Unidos pela Constituição, nem proibidos pelos estados, são reservados para
os estados respectivamente ou para as pessoas,” duas partes da Constituição
tiveram um grande impacto em definir as interrelações entre os níveis
territoriais.

Primeiro, é o Artigo I, seção 8, começando com a afirmação de


que “O Congresso, deve oferecer, para o bem estar dos Estados Unidos” e
então enumerando os poderes, e daí concluindo com a frase no último
parágrafo na seção 8, de que o Congresso deve “fazer todas as leis que forem
necessárias e próprias para levar à execução os poderes já citados.” Os
conservadores ou os construcionistas rígidos interpretam a última frase bem
189

limitadamente, enquanto os liberais interpretam-na amplamente. Emprestando


algum peso à última interpretação está o número federalista 31, explicam do
porquê o poder do governo federal não pode ser absolutamente definido e
limitado.

Segundo, entre os poderes enumerados no Artigo I, está a


cláusula do comércio interestados (seção 8, cláusula 3) afirmando que “O
Congresso deve ter poder para regular o comércio com as nações estrangeiras
e entre os vários estados” que, em conjunto com outras autoridades
constitucionais, tem sido usado como um meio de limitar os podres do estado e
dos governos locais, para estabelecer leis que de alguma restringem os
movimentos das pessoas e do capital. Dados os requerimentos de uma
economia comercial dinâmica, parece inevitável que estas provisões
constitucionais seriam eventualmente interpretadas e usadas para aumentar a
integração nacional limitando a autonomia local. Isto não foi claramente
antecipado até mesmo por aqueles entre os fundadores que viram o futuro dos
Estados Unidos repousar no comércio e na indústria. Madison e Hamilton
expressaram preocupação que apesar do balanço de poderes oferecido pela
Constituição havia ainda uma grande chance para o balanço oscilando em
favor dos estados. De acordo com Hamilton

Sempre será mais fácil para os governos dos estados passar dos limites das

autoridades nacionais do que o governo nacional passar dos limites das


autoridades dos estados. Porque um homem justo está mais ligado à sua
família do que à sua vizinhança, e à sua vizinhança a mais do que à
comunidade ao largo, as pessoas de cada estado deveriam estar aptas para
sentir um preconceito maior em relação aos seus governos locais do que em
relação ao governo da União.

Os usos para o qual a Territorialidade foi colocada foi colocada


no período colonial foram repetidos ainda mais intensamente no tempo da
Revolução; especialmente aqueles que a ver com o esvaziamento e
preenchimento conceitual dos espaços, com a definição das relações sociais
territorialmente e a organização de hierarquias complexa. Os fundadores
assumiram que o seu governo teria um sistema territorial hierárquico. O
190

problema era evitar suas armadilhas e usar isto para vantagem. Para alguns, a
maior preocupação era a tendência para a Territorialidade em diferentes níveis
da hierarquia em criar diferenças no conhecimento e responsabilidade, dando
àqueles que tinham acesso ao topo maiores poderes do que àqueles mais
abaixo. Uma vez que tais diferenças existiam até mesmo nas mais bem
intencionadas sociedades, eles poderiam corromper aqueles no poder e limitar
as liberdades dos cidadãos comuns. As eleições democráticas poderiam não
ser o suficiente para restringi-las porque o tamanho do país e seu número de
cidadãos tornavam a representação remota e impessoal. Também, havia a
preocupação de que as responsabilidades seriam dadas aos níveis errados do
governo. Estas más escolhas do poder e responsabilidade criariam injustiças e
ineficiências.

Nem todos viram o potencial da Territorialidade para englobar o


conhecimento e a responsabilidade primariamente em uma luz negativa. Os
federalistas acreditavam que a distância dos representantes no nível local
seria um benefício. Isto dava ao representante uma perspectiva mais alta e o
faria menos suscetível às pressões faccionais. Os federalistas achavam o
principal meio de assegurar a liberdade era remover as responsabilidades do
nível local, que estava misturado com as facções, e dar o poder ao governo
federal. É claro, que até mesmo os proponentes de um governo nacional mais
forte concordavam com os anti-federalistas na necessidade de serem

cautelosos com a concentração demais de poder. É nesta maneira com que a


preocupação foi conduzida territorialmente que nós encontramos uma grande
e original contribuição - o uso do efeito da Territorialidade de dividir e
conquistar para checar e balancear as concentrações do poder.

A filosofia era srcinal na sua concepção e nos seus detalhes.


Desta forma dividir e conquistar ou checar e balancear o poder tinha que ser a
vantagem de alguns grupos em relação a outros, aqueles que eram para ser
checados e balanceados nunca foi uma questão de consenso entre os
fundadores. Alguns viam que os grupos deviam ser divididos em facções, mas
outros reconheciam que os estados e o governo federal (e aqueles que
controlavam eles) eram os poderes a serem checados e balanceados. O papel
da Territorialidade foi, entretanto, entendido e apreciado. A Territorialidade
191

ofereceu um instrumento versátil para o controle, um que não precisava


enumerar os indivíduos e grupos a serem englobados. Não precisando
identificar o que está sendo controlado, e ainda dando poder aos territórios
com vários graus de autoridade e permitindo a sua multiplicação, isto
significava conceber o território no abstrato como um meio de definir e moldar
as relações sociais.

Novamente, nós devemos alertar que a nossa discussão tem


enfatizado o uso dos efeitos mais modernos da Territorialidade. Estes não
removem os velhos, mas ao invés disso se misturam com eles. Nós
encontramos neste período, como também nos períodos prévios, esforços
concentrados para manter a relação entre as pessoas e o lugar íntima; para
criar o sentido de que a comunidade é mais do que uma conveniência. O final
do século XVIII e o começo do século XIX, a vida americana estava cheia de
patriotismo nacional e de amor pela terra. Este período cultivou uma paixão
pelas fronteiras da América e geralmente colocava a América como uma
sociedade enraizada na terra. Logo se viu que o manifesto do destino da
América era ocupar o continente de mar a mar. A lealdade ao lugar estava
dirigida também à região, ao estado e à comunidade local. Haviam novos
ingleses e sulista, vermontes e virginianos. Apesar das formas mecânicas
abstratas de assentamento empregadas nas ordenâncias do noroeste, e a
rápida ocupação geográfica desta área, muitos dos primeiros colonizadores

ainda esperavam criar unidades orgânicas fechadas. Em Ohio, por exemplo,


inicialmente se praticou a regra da Nova Inglaterra de chamado, mas logo os
requisitos para residência tiveram que ser relaxados para acomodar com as
realidades da mobilidade geográfica. Ainda o sentido de que as pessoas e os
lugares devem ser mais do que relacionados continuamente permaneceu um
importante componente nas expectativas da América sobre a comunidade.
Mas as expectativas eram difíceis de ser alcançadas em uma sociedade
dinâmica. As pessoas gradativamente se conscientizaram da tensão entre a
necessidade de se mover e o desejo de ficar. Criar raízes se tornou um ideal
em oposição a não criar raízes.
192

Perspectivas sobre os efeitos territoriais do


século XX.

O desenvolvimento do sistema político americano do século XIX


é instrutivo nos usos territoriais. A secessão do sul propicia uma ilustração
dramática das complexidades da Territorialidade. A Guerra Civil merece uma
consideração cuidadosa de uma perspectiva territorial, mas não será
explorada aqui porque, a longo prazo, ela não alterou apreci avelmente a
direção das relações intergovernamentais apontadas nesta última seção. O
sistema político americano no século XIX continuava a se estabelecer em cima
de dois dos três efeitos territoriais modernos enfatizados até agora, são eles:
esvaziar o espaço conceituadamente e usar a Territorialidade para criar
relações impessoais nas estruturas burocráticas complexas. O perfil geral
pode ser visto na continuação dos assentamentos no oeste; a remoção dos
índios para as reservas; o aumento no número de estados e municípios e de
distritos com propósitos especiais; o aumento na hierarquia governamental e
burocracia; e especialmente a centralização do poder no governo federal e
seus ramos executivos.

Estas tendências territoriais modernas, entretanto, tiveram de


alguma forma manifestações diferentes no século XX. A fronteira foi
oficialmente finda como uma área contínua em 1890; os espaços vazios literais
da América foram preenchidos. Assim, a expansão e intensificação do
Capitalismo fez os efeitos territoriais modernos de espaço vazio
conceituadamente e de burocracia impessoal serem ainda mais uma parte
integrante do ambiente geográfico. Um crescente sistema financeiro
interconectado estava penetrando em cada faceta da vida. Para manter a
economia crescendo mais mercadorias tinham que ser produzidas e novos
tipos de produtos tinham que ser inventados. Produzir comodidades incluía

não somente coisas físicas para consumo, mas estender os serviços de todos
os tipos e até mesmo ter mais facilidade de lazer.
193

Tudo podia ser uma comunidade. Cada produto tinha uma


variedade de formas e os produtores dirigiam a sua atenção crescente para a
propaganda e o marketing para assegurar que os consumidores desejariam o
produto e veriam-no como uma forma diferente dos outros que eram quase
idênticos. Conforme os números e tipos de produtos se multiplicavam, o
aumento da atenção para a propaganda e o marketing deu aos negócios um
grau de controle sobre o consumo e permitiu ser sincronizado com a produção.
A penetração crescente do mercado foi tanto causada quanto ajudada pela
tecnologia e pelas inovações da comunicação. A mobilidade geográfica do
capital, do trabalho e da comunicação explodiram. Do ponto de vista
econômico, isto o efeito de fazer os lugares e o espaço se parecerem ainda
mais com as comodidades, e de moldar a sociedade em massas que eram
simultaneamente produtores e consumidores.

Embora parte de uma massa abstrata, as pessoas ainda se


diferem em suas características e nas suas conexões sociais. Da perpectiva
econômica estas diferenças eram usadas para definir mercados para os
produtos, e os novos produtos eram provocar a mudança de grupos,
subgrupos e até mesmo de indivíduos. Embora nós possuíssemos as
características de idade, sexo, etnia, e embora nós possuíssemos laços
familiares e ocupações, nosso lugar dentro dessas categorias era mais
dinâmico do que nunca, e através das comodidades nós consumiríamos, bem

como os efeitos que nós esperaríamos que elas produzissem, nos estaríamos
continuamente nos apresentando como novos indivíduos, como pertencendo a
novos grupos e associações. Mas, tanto a nossa posição geográfica quanto as
nossas identidades (ou imagens) se tornariam mutáveis. Nós nos veríamos
mais e mais como agentes potencialmente livres e independentes escolhendo
o nosso próprio local , a nossa própria ocupação e o nosso padrão de
consumo. É este estado alto de individualismo e mobilidade na sociedade
massa que constitui o contexto significante para examinar os usos da
Territorialidade no século XX.

O primeiro dos dois efeitos modernos - o espaço esvaziável e as


relações impessoais - são claramente evidentes na América moderna. Embora
os Estados Unidos esteja literalmente preenchido quando comparado aos seus
194

usos da terra nos séculos anterio res, o aumento da mobilidade geográfica e a


contínua modificação do lugar torna o significado econômico-público do
espaço mais e mais um sistema métrico de localidades e distâncias, ao qual os
eventos estão conectados contingentemente. Dentro deste contexto, os
territórios políticos continuam a ser moldes convenientes para trânsito do
trabalho e do capital. Eles são molde s que podem ser conceituadamente
esvaziáveis e preenchidos, e estas hierarquias da Territorialidade que
definiam as comunidades reforçam as relações impessoais. Além disso, a
multiplicação das hierarquias territoriais e seu cada vez mais importante papel
na organização das relações sociais aumentou a concentração do poder nos
níveis mais altos do governo federal. Isto ajudou a aumentar a burocratização
do governo e aumentou o poder dos ramos federais.

Os teóricos do espectro político completo provavelmente


concordariam, se a questão tivesse sido apresentada a eles, de que os efeitos
territoriais de esvaziar o espaço conceituadamente e de aumentar a
impersonalidade e a burocracia intensificaram neste século. E exatamente
quais são os índices e o que eles significam, dependeria de que filosofia
política alguém está usando. Ao invés de considerar como os conservadores e
os radicais poderiam traçar os detalhes das relações históricas entre o
território, o governo e a sociedade nos últimos oitenta anos da história
americana, nós tomaremos uma filosofia geral mais breve e apontaremos como

as perspectivas teóricas de cada um levará a avaliações diferentes do


processo em geral. Em termos de teoria da Territorialidade isto significa que as
diferentes filosofia políticas enfatizaram especialmente as partes diferentes
dos grupos “fechados” ou efeitos, e vai interpretá-los diferentemente.

Os economistas mais políticos podem concordar que tem havido


uma elaboração contínua dos dois primeiros efeitos modernos da
Territorialidade - esvaziamento do espaço conceituadamente e o avanço da
impersonalidade e burocracia. Mas, a maioria dos economistas políticos
descordariam sobre a importância que eles atribuem a eles, e eles
descordariam especialmente no papel que eles atribuem ao terceiro efeito
territorial moderno - usar o território para camuflar as fontes do poder. Para
ilustrar estas diferenças na avaliação da Territorialidade do Capitalismo no
195

século XX, nós examinaremos como elementos diferentes do espectro político


- chamados neo-Smithianos, neo-Keynesianos e neo-Marxistas (nomeados
após os três economistas políticos influentes, Smith, Keynes e Marx) -
conduziriam quatro questões interrelacionadas no desenvolvimento do
território político americano se essas questões fossem expostas por eles. As
questões são: Porque alguns processos políticos são territoriais; porque eles
ocorrem em escalas territoriais diferentes; porque há uma tendência para
concentração em uma maior escala, por exemplo, a nacional; e porque tem
havido tanto uma multiplicação em números de estado e níveis locais e
também um aumento na uniformidade entre eles.

Os nomes neo-Smithianos, neo-Marxistas e neo-Keynesianos


podem ser mais precisos e serem menos pensados do que são os nomes
conservador, liberal e radical. Eles são ainda imprecisos. Quando nós nos
referimos a um neo-Smithiano, por exemplo, nós estamos discutindo sobre um
indivíduo que provavelmente não concordaria com todas as posições de Smith.
A teoria do valor do trabalho, por exemplo, não seria defendida por qualquer
contemporâneo de Smith. Um indivíduo, é claro, pode assumir posições que
são Smithiana, Keynesiana e Marxista.

Estas questões serão exploradas dentro do contexto americano,


mas elas podem ser reconhecidas por Smithianos, Keynesianos e Marxistas

conforme elas se aplicam em parte para outros sistemas capitalistas. Isto


significa que as nossa filosofia para estas questões e a nossa revisão das
posições da política de direita, de centro e de esquerda são em parte teóricas,
se referindo ao geral das relações que pode ser esperado entre o governo e a
economia nas sociedades capitalistas, e em parte específica para o contexto
americano com seus costumes, leis e provisões constitucionais para delegar
responsabilidades a diferentes níveis e ramos do governo. Estas quatro
questões relatadas serão apresentadas primeiro dos lados neo-Smithianos e
neo-Keynesianos e então da perpectiva do neo-Marxista.

Porque o território?
196

Os neo-Smithianos vêem o governo no Capitalismo como


desempenhando o papel do juiz no sistema de mercado Capitalista. Governo
limpa o campo para o jogo do Capitalismo e se certifica que os jogadores
obedeçam as regras. Os neo-Smithianos vêem o mecanismo do mercado
conforme Adam Smith via. Cada indivíduo possuiria seu próprio auto-interesse
e através da mão invisível do mercado viria o avanço de tudo. Assim, os neo-
Smithianos percebem que o sistema de mercado não pode providenciar tudo.
Ele necessita ter o campo limpo e as regras do jogo reforçadas. Em termos
econômicos modernos isso significa que há certas mercadorias ou serviços
chamadas de mercadorias públicas que somente o governo pode oferecer. Os
neo-Keynesianos concordam que o governo deve providenciar mercadorias
públicas, mas a posição extrema dos neo-Smithianos confina o governo
exclusivamente a este papel.

“As mercadorias públicas puras” estão aproximadamente nos


serviços, tais como a defesa da lei e nacional. Para uma mercadoria pública
ser pura ela necessita possuir três características:

1. Primeiro ela é uma reunião de suprimentos. Isto signific a que o suprimento


de uma particular quantidade para qualquer pessoa não diminui a
possibilidade de suprir a mesma quantidade de mercadoria ao mesmo preço

para qualquer outro.


2. Segundo é a impossibilidade de exclusão (não há exclusividade). Esta
característica tem duas partes:
a. Significa que o suprimento para qualquer pessoa evita a mercadoria de
ser inacessível para qualquer outra pessoa que deseja ter acesso a ela.
b. Significa que as pessoas que não pague m pela mercadoria ou serviço
não podem ser excluídas dos seus benefícios ou dores. Isto geralmente
se referia ao problema da livre escolha. O outro lado do problema da livre
escolha é a tendência para as pessoas em “camuflarem” suas
preferências para este tipo de mercadoria.
3. Terceiro é a impossibilida de de rejeição: isto significa que um a vez que o
serviço é empregado ele deve ser completamente e igualmente consumido
por todo, mesmo aqueles que não desejavam .
197

Um bem público é impuro quando uma ou todas estas


características não são cumpridas. As características 2 e 3 constituem uma
externalidade do bem público. Isto significa que aquelas pessoas que não
querem o bem ou aquelas que não, ou aquelas que não revelam as suas
preferências porque elas esperam-na de qualquer forma, ainda serão afetados
por sua provisão. As externalidades podem ser positivas ou negativas. Um
caso trivial de uma externalidade negativa (mas não de um bem público puro)
pode surgir se você comprar uma camisa berrante e a veste no escritório. Eu
comprei a camisa porque eu gostei dela, e a loja vendeu-a pra mim porque
eles queriam fazer um lucro. A loja e eu - as duas partes da troca - ficamos
satisfeitos. Mas quando eu visto a camisa, as pessoas podem se ofender. E se
elas se ofendem, elas seriam afetadas pelo produto, embora elas não fizessem
parte dessa negociação, e o desconforto de cada não diminui o desconforto
dos outros.

Para o neo-Smithianos, o papel do governo seria limitar as


externalidades negativas em massa e propiciar positivas. A principal razão
porque isso recai sobre o governo é que oferecer merca dorias públicas puras
para um grande número de pessoas requer uma enorme quantidade de
dinheiro. As companhias privadas também não teriam suficiente capital ou
poderia não esperar receber um retorno adequado sobre o investimento, se

eles sozinhos tivessem que oferecer o bem. Especificamente, por causa da


não-exclusividade, é racional (por exemplo, no interesse de cada pessoa) e
não voluntário contribuir para oferta deste bem (por exemplo, comprá-lo)
porque a longo prazo ele seria oferecido de qualquer forma. A não
participação de um indivíduo seria racional mesmo quando o bem é impuro, se
benefícios suficientes viessem para ele, uma vez que o bem se torna
disponível e sua falta de participação não afetaria apreciavelmente a
probabilidade da sua provisão. Esta racionalidade da não-participação é
geralmente citada como um problema na lógica da ação coletiva. Isto significa
que ela pode parecer estar no alto interesse de um indivíduo em não participar
de grupos grandes, que se tornam após até mesmo um bem público impuro,
porque as conseqüências do seu esforço individual seria pequena e a sua
não-participação pouparia tempo e ou dinheiro dele e dificilmente seria sentida
198

a falta dela, enquanto a participação dos outros indivíduos asseguraria a


provisão do bem. Claro que isto é um prob lema porque se todo mundo
pensasse da mesma forma ninguém participaria voluntariamente.

Para a maior parte, para assegurar a provisão dos bem públicos


era preciso que houvesse algum tipo de coerção ou incentivo adicional para
cooperação. Em alguns casos isto seria conseguido através da distribuição de
algum bem privado somente para aqueles que contribuíssem. Mais
freqüentemente cabe ao Estado “coagir” as pessoas a contribuírem ou para
assegurar a uma participação.

Os neo-Smithianos e os neo-Keynesianos podem concordar que


alguns bens públicos se aproximam (se é que não alcançam) à pureza e que o
Estado precisa ajudar a providenciá-los. Eles discordam sobre a freqüência
que isto ocorre e sobre o grau de ajuda. Isto em si explicaria o papel do
governo no Capitalismo senão o seu aumento no tamanho e as suas funções.
Mas o nosso primeiro problema é focalizar sobre porque o papel do governo é
territorial.

Ainda concentrados na falha dos lugares de mercado como


justificativas para o governo, nós achamos que o papel do governo em
providenciar mercadorias públicas territorialmente pode ser explicado de duas

maneiras. Primeiro, sabe-se que as externalidades tendem a ser contíguas no


espaço geográfico. Mas esta adjacência no espaço é mais provável como
sendo resultado do fato de que as mercadorias públicas são providenciadas
territorialmente. A segunda razão é consequentemente mais fundamental. Ela
alega que as mercadorias públicas são providenciadas por unidades
territoriais polític as, porque elas podem arrecadar taxas para suportá-las
enquanto tentam conter ou excluir as externalidades e os mercadores livres.
As razões para a Territorialidade dos bens públicos é, então, a razão para a
Territorialidade das unidad es políticas. Isto oferece um meio de definir e
moldar uma comunidade.
199

Níveis de territórios.

Para os quase puros bens públicos como a justiça e a defesa, o


território seria a nação-estado. Mas, em muitos casos os bens públicos podem
ser entregues mais efetivamente se a nação estiver dividida em unidades
administrativas locais. Pode ser mais eficiente em um país grande ter muitas
cortes federais dispersas geograficamente, cada uma com sua própria área de
jurisdição, do que ter todos os julgamentos realizados em um lugar. A lógica
por trás de estabelecer estes e outros tipos de distritos para propósitos
administrativos ou especiais conduz à possibilidade de organizar o governo,
simplesmente por delegar responsabilidades. Puramente nas bases da
eficiência, poderia ser argumentados que os diferentes bens públicos
tenderam a ser oferecidos mais eficientemente em escalas geográficas
diferentes. (Em termos técnicos eles teriam economias diferentes de escala e
diferentes alcances e limites). Levando em conta somente isto, e deixando de
lado o fato de que os Estados Unidos, por exemplo, tem as fileiras do governo
já colocadas e protegidas pela Constituição Federal e do Estado, poderia ser
defendido que uma forma eficiente de provisão seria de ter jurisdições e
propósitos separadas ou unidas para cada bem público. Assim poderia haver
um distrito de polícia, um distrito de bombeiros, um distrito de costura, um
distrito escolar e etc. Esta lógica de proliferação, entretanto, é logo exaurida.

Muitos serviços não completamente independentes um do outro e


podem se beneficiar dividindo as fronteiras com os serviços que podem
teoricamente ter algumas escalas geográficas diferentes. A proteção de
incêndio complementa a proteção da polícia, e ambos podem ajudar o distrito
da escola. Além disso, isto pode ocasionar, de termos todos dividindo as
fronteiras em um distrito com multi-propósitos. Além disso, a existência de
muitos distritos com propósitos especiais tornaria mais difícil para manter a
responsabilidade dos servidores públicos. Assim a vantagem de se proliferar
os distritos com único propósito deve ser comparada contra as vantagens de
diminuir o número através da consolidação. Simplesmente então, por uma
questão de eficiência, um estado unitário terá que ter várias escalas territoriais
para dispensar os bens públicos nacionais. Muita cosia permanece em aberto.
200

No caso dos Estados Unidos, a Constituição garantiu que os níveis menores


na forma dos governos dos estados existiriam e que estes teriam poder para
taxar, para eleger oficiais e para dispensar os seus próprios bens públicos
locais. Os estados por sua vez podem subdividir suas unidades e delegar
poderes a elas se eles desejarem. Como uma federação, os Estados Unidos
contém uma hierarquia territorial política pela lei bem como pela conve niência
econômica. Mas, a união das duas não é sempre suave.

Oferecer bens públicos, geralmente em várias escalas


geográficas, é o coração do domínio concedido ao governo pela economia
política conservadora. Por si só, e interpretado rigidamente não se oferece
muito para o governo fazer exceto suprir um ambiente propicio para o
Capitalismo; assim o papel limitado que ele desempenha pode expandir
conforme a economia nacional expande. Deve também ser notado que embora
este papel limitado esteja baseado na visão teórica da economia política neo-
Smithiana, os interesses de negócios reais não tem resistido às provisões do
governo quanto isto combinava com eles. Os neo-Keynesianos, claro,
concordam que o governo precisa providenciar bens públicos, mas eles
também acreditariam que as obrigações do governo devem englobar muito
mais mercadorias públicas impuras e que o Capitalismo deve ser assistido
pela intervenção das expansões federalmente fundadas.

Aumentando o papel do território nacional.

Territorialidade os bens públicos providenciados por uma


hierarquia de lugares, cada um tentando excluir competidores livres e conter
as externalidades, isto geralmente conduz a grande número de problemas
causados primariamente pelo fato de que o território nem sempre contém o
que se espera dele conter. Na economia, as incontáveis conseqüências de

uma ação são chamadas de “spillovers” e estes criam uma maior necessidade
por uma coordenação governamental em maior escala. Por exemplo, todos
podem concordar que a provisão de uma e ducação adequada para a nossa
juventude é sempre de interesse nacional. Suponha que “x” é o total que tal
201

educação custaria por estudante. De acordo com a teoria neo-Smithiana, a


educação seria privada exceto para os realmente necessitados, que teriam
que receber ajuda de algum tipo de nível governamental local. Se a
responsabilidade pela educação do pobre fosse inteiramente deixad a na mão
das unidades territoriais locais (distritos escolares, ou mesmo de condados e
estados) haveria uma tendência para sub-oferecer a educação pública para os
pobres. Os fundos seriam derivados de taxas locais, e por um lado áreas
pobres achariam difícil senão impossível assegurar taxas o suficiente para
alcançar o nível “x”. Pelo outro lado, uma área rica não estaria interessada em
pagar pela educação de outras. Uma vez que, eles também estavam pagando
pela sua própria educação. Além do mais, se eles que tivessem que pagar por
tal educação generosamente ou mesmo adequadamente, eles poderiam atrair
mais pessoas pobres para aquele território e aumentar a sua taxa de impostos.
O único meio de se ter o pobre sendo ajudado adequadamente seria ter (ou
pelo menos parte) do encargo assumido por uma grande unidade territorial
política, e isto pode conduzir o governo a um papel maior do que os neo-
Smithianos desejariam.

Ter uma maior organização territorial política engloba e coordena


menores que podem ser o único meio de assegurar a cooperação e a
eficiência entre as unidades locais. A ausência de tal cooperação poderia levar
a uma provisão abaixo do esperado dos bens públicos, e sito logo apareceria

como uma externalidade negativa nível nacional. A citação a seguir mostra


como pode ser difícil a cooperação sem a ajuda de uma autoridade maior.

... duas jurisdições podem ambas investir juntamente em uma facilidade


pública necessária com o resultado de que a facilidade será oferecida, e
qualquer economia de escala conseguida neste investimento tornará as coisas
mais baratas para cada jurisdição. Entretanto, se uma área investe
independentemente ela pode conseguir a facilidade, mas a um custo maior. O
dilema é que, sem a colusão ou cooperação entre as jurisdições, a ação
racional individual de cada governo é investir independentemente. A mesma
lógica se aplica também a competição de taxas. Duas jurisdições podem ter
incentivos fortes em aumentar as taxas locais, mas esta ação tomada
independentemente por uma jurisdição favorecerá a outra jurisdição
202

encorajando a migração. Novamente, sem a colusão, os serviços de cada


jurisdição tenderão a se deteriorará ou ambas jurisdições começarão a se
individar. Este problema se aplica especialmente com freqüência ao contexto
urbano, no qual um grande número de jurisdições se ligam a outras.

Assim, se este tipo de problema será ou não incorporado pelo


modelo neo-Smithiano é uma questão em aberto. Assim, um meio lógico de
referência a ele é envolver unidades territoriais-governamentais de maiores
níveis, tais questões bem como outras criadas e agravadas pelo parcelamento
territorial, seriam funções justificáveis de governo na filosofia política neo-
Keynesiana. A visão neo-Keynesiana veria o governo não somente como
oferecedor dos bens públicos e como regulador e facilitador do mercado
privado, mas também como engenheiro social e como árbitro dos conflitos
entre os grupos. Os neo-Keynesianos veriam muito mais dos problemas da
ação coletiva, das externalidades, e spillovers constituindo assuntos de
interesses nacional. É claro, que os problemas de distribuição geográficas
desiguais dos recursos são geralmente criados ou agravados pela
Territorialidade e para os neo-Keynesianos estes assuntos se tornariam
preocupações apropriadas para o Estado.

Os neo-Keynesianos mais do que os neo-Smithianos esperariam


aumentos no tamanho do governo e os dois atribuiriam isto ao aumento geral

na complexidade e na escala da sociedade. Além disso, os dois esperariam


que o topo da hierarquia do governo assumisse um papel maior. No caso dos
Estados Unidos isto significaria uma mudança no poder dos estados para o
governo federal, e dentro de cada nível, do legislativo para o executivo, porque
maiores níveis territoriais e ramificações têm acessos a informações maiores e
têm distritos eleitorais mais amplos. Os neo-Keynesianos podem desejar esta
mudança enquanto os neo-Smithianos podem vê-la somente como um meio
para conseguir o acesso justo e distribuição. Uma vez que os estados têm
responsabilidades mais limitadas, suas políticas são de curto alcance quando
comparadas às nacionais. Os estados e as localidades não podem formular os
seus próprios planos sem conhecer o que a política nacional será, enquanto a
política nacional raramente leva em consideração os planos da comunidade
local.
203

Aumento nos números e na uniformidade dos


territórios.

Até mesmo o papel restrito do governo, visualizado pela teoria


neo-Smithiana resultaria em um parcelamento territorial e hierarquia e levaria
a uma relação de multiplicação territorial e integração ou uniformidade. A
Constituição oferece os fundamentos legais tanto para a proliferação territorial
quanto para a uniformidade nos Estados Unidos. Com respeito à multiplicação
dos territórios, a Constituição (Artigo IV, Seção 3) espera que novos estados
sejam formados e admitidos. Estes deveriam ser regulares com respeito ao
governo, uma vez que eles teriam de ser modelados pelas constituições de um
dos trezes estados srcinais. Os níveis e autoridades da jurisdição do sub-
estado seriam deixados para cada estado decidir. Mas, diferente da relação
entre os estados e a nação destacada na Constituição Federal, qualquer
providência de um estado em se subdividir em jurisdições menores seria uma
delegação da autoridade do estado que em qualquer tempo poderia ser
alterada ou revogada pelo estado. Apesar de tal descrição nos poderes dos
estados há notavelmente pouca variedade nos níveis hierárquicos e funções
das subdivisões entre os estados. A maioria dos estados são subdivididos
essencialmente em dois níveis governamentais básicos; o condado e a capital
ou cidade, embora haja muitos de cada um e também distritos com propósitos
especiais que não se encaixam facilmente em nenhum dos dois.

A maioria das explicações territoriais de porque há unidades


menores, também a explicações da proliferação. Aumentar a complexidade e a
especialização resulta na tendência por um parcelamento territorial maior para
ajudar a oferecer bens e serviços. A visão neo-Keynesiana é cética, quanto o

quão justos e democráticos são os territórios e seus serviços. Os neo-


Keynesianos apontam para o desbalanço e para as diferenças em riquezas e
acessos que caracterizam os territórios. Por exemplo, eles apontam que o rico
e não o pobre são aqueles que podem se mudar para locais mais desejáveis.
204

Então, neste sentido, somente o rico tem o voto. O capital é mais móvel que o
trabalho e uma comunidade que tem feito investimentos públicos em infra-
estrutura pode ser deixada na mão quando o capital encontra passos mais
verdes. Os ricos são mais móveis e sua ausência torna a comunidade ainda
mais pobre. Nós vemos esta tendência no trabalho no “vôo branco”, também
na situação geral na cidade do interior e na remoção do capital do Cinturão da
Neve para o Cinturão do Sol ou para países estrangeiros. A reação neo-
Keynesiana seria uma simpatia pelo deslocamento e uma crença de que o
governo federal tem a responsabilidade de pelo menos facilitar estas
transições.

O lado oposto da multiplicação dos territórios é o seu aumento na


uniformidade. Estas unidades territoriais oferecendo aos cidadãos e aos
negócios vantagens através da criação de misturas geográficas diferentes de
oportunidades, ainda são parte de um sistema econômico político único e têm
sido submetidas a padrões e procedimentos mais uniformes para permitir a
mobilidade e a integração das atividades. Com relação a isto, o alcance da
autoridade local tem diminuído e a uniformidade de padrões tem aumentado,
Novamente, a idéia geral de que o crescimento econômico envolve a
diferenciação hierárquica territorial e a integração pode ser usada para
explicar a tendência à integração. A teoria neo-Smithiana não tem muito a
dizer sobre isto, exceto em fazer apelos pelo menor governo possível e nos

níveis mais baixos, enquanto que os grandes negócios e os seus aliados


políticos têm geralmente endossado o papel do governo no aumento da
uniformidade. Nem a teoria neo-Keynesiana adicionou algo à explicação da
uniformidade, além de ver a uniformidade política nacional como um antídoto
para as injustiças locais.

As perspectivas neo-Marxistas.

A teoria neo-Marxista vê uma relação diferente entre o político e


o econômico no Capitalismo e assim também um diferente papel para o
território. A teoria marxista não vê a política como um árbitro neutro, permitindo
205

às regras de livre empreendimento para operar. A política não é uma unidade


autônoma, mas não está ligada de maneira simples ao econômico. Os estado
existe para auxiliar os interesses do capital, mas também interfere contra o
capital e a favor do trabalho. O capitalismo torna o governo por um lado a sua
mão-de-obra e pelo outro o campeão das vítimas do sistema.

As relações são complexas por causa da existência de diferentes


tipos de capital e trabalho, e por causa dos diferentes níveis de estado que
têm diferentes ligações a diferentes seguimentos de cada. Cada vez que o
estado age, seja para ajudar uma porção do trabalho ou uma porção do
capital, ele altera e até mesmo agrava as tensões entre o trabalho e o capital.
A semente do conflito está na exploração do trabalho pelo o capital. Os neo-
Marxistas concordam que o Estado capitalista oferecer bens públicos, mas a
economia na sua capacidade como um oferecedor de bens privados, cria e até
mesmo aumenta as tensões e os deslocamentos. Conforme o Capitalismo se
desenvolve estes antagonismos potenciais crescem e assim também crescem
o papel do governo em endereçar, reprimir ou deslocá-los. Por exemplo, o
capital deve ser deixado livre para procurar custos mais baixos. Isto pode
significar uma liberdade para se mudar para diferentes locais que oferecem
matéria-prima ou custo de trabalho mais baixos. Mas ao se mudar, o capital
pode deixar uma comunidade na mão. Também o capital deve constantemente
inventar novos produtos e tornar os velhos obsole tos. Edifícios e sistema de

transporte e todo o ambiente da construção, são comodidades geralmente


comprados como bens públicos com os fundos públicos. O Capitalismo
constantemente sujeita estes à obsolescência. A invenção de uma nova forma
de transporte pode destruir uma cidade tornando obsoletas as suas velhas
formas de capital e de força de trabalh o. Contradições como estas envolve o
Estado em uma complexa rede de relações entre os seguimentos do trabalho e
do capital. Assim, é sempre interesse do capital , senão sempre interesse do
estado desviar a atenção do problema fundamental: o conflito entre o trabalho
e o capital. Assim não é surpresa de que, da perspectiva marxista, o maior
conjunto de efeitos territoriais a se esperar no Capitalismo são aqueles
relacionados em obscurecer as fontes do poder e desviar a atenção dos seus
propósitos; assim na seguinte discussão da visão marxista do território político
nós exploraremos como os marxistas endereçariam estes quatro assuntos
206

pertencentes à Territorialidade no século XX da América do Norte, mas


enfatizam a sua preocupação de que o território político pode ser ofuscativo.

A teoria marxista esperaria que os níveis do governo do Estado


tivessem o efeito não somente de suprir os bens públicos em um nível
econômico, que no caso dos Estados Unidos significa suprir pelo menos
aqueles serviços destacados na Constituição, mas também providenciar
ambientes geográficos que reproduzam a cultura e as mentalidades dos
diferentes seguimentos da força de trabalho. Viver em uma vizinhança
desprevilegiada significa que os serviços públicos que alguém recebe são
abaixo da média e que a expectativa de alguém sobre esses serviços pode
ser ainda mais baixa. Isto significa que um grupo de pessoas será produzido
esperando pagamentos mais baixos e empregos sem expressão. O oposto é
caso nos distritos com aluguéis altos e comunidades mais afluentes. Aqui as
pessoas crescem recebendo mais e esperando mais.

Os governos e as comunidades locais também podem dar às


pessoas o sentido de que elas podem participar e dar foz aos seus interesses.
Isto pode ser um sentido falso, uma vez que o poder do governo local em
afetar mudanças fundamentais é limitado. Este sentido de participação pode
servir para legitimar governo enquanto atende um pouco das necessidades do
cidadão. E também pode servir às diferentes necessidades do capital. Os

negócios se operam em níveis diferentes. Enquanto a telefonia e o telégrafo


americano procuram se aliar ao governo federal, as indústrias de construção
procuram ajuda através das casas de governos locais.

O aumento no número dos territórios governamentais locais pode


dividir e fragmentar a consciência da classe trabalhadora. As pessoas podem
formar alianças com seus vizinhos e distritos, ao invés de que com suas
classes. Além disso, as localidades irão competir entre elas pelos recursos
escassos ao invés de se confrontar com os ricos. Assim o território pode
desviar a atenção do conflito entre o trabalho e o capital e focalizar em um
conflito colocando um distrito contra o outro, a cidade contra o subúrbio, o
Cinturão do Sol contra o Cinturão da Neve, ou os trabalhadores da América
contra os trabalhadores do México. Mas juntar pequenas unidades políticas
207

para formar maiores, como é o caso na forma metropolitana do governo,


também pode ser desvantagens para os pobres porque isto pode aumentar os
custos da campanha e da propaganda política. Isto dificultaria para o pobre
concorrer para um cargo público.

A hierarquia territorial permite, no caso da má escolha de poder e


responsabilidade, que se possa camuflar mais adiante o uso do poder. É
possível delegar a unidades locais de governo a responsabilidade de resolver
problemas que não são possíveis para elas. A tarefa de prevenir o crime pode
ser dada à jurisdição local, embora a incidência do crime esteja diretamente
relacionada com o estado da economia, que é uma questão nacional. Delegar
erroneamente as responsabilidades para os territórios pode ser uma estratégia
para descarregar as decisões políticas impopulares. Um presidente
conservador pode não querer o bem estar como sendo uma responsabilidade
nacional. Dar às comunidades locais a responsabilidade pela assistência aos
pobres pode dar a aparência de que alguma coisa está sendo feita para ajudar
os pobres, quando de fato o problema é nacional em escopo e em causa.

Segundo os marxistas, a uniformidade é mais facilmente


alcançada em um estado unitário, no qual as divisões territoriais são
primariamente devidas a eficiência na administração e na provisão dos bens
públicos e serviços. Mas no caso de um sistema federal, os Estados Unidos

em particular, os territórios de níveis mais baixos, por exemplo, os estados,


são srcinariamente autônomos e Constitucionalmente retém um significante
quadro de autoridades. Assim, neste caso, alguém esperaria que a
uniformidade fosse mais difícil de ser alcançada. Mas as mesmas força
econômicas que fazem tais unidades e suas subdivisões necessárias e
importantes, também requerem que elas não sejam tão diferentes e que de
fato elas se tornem mais semelhantes para facilitar o movimento das pessoas,
dos bens e do capital.

Conforme nós notamos antes, para os Estados Unidos, a base


legal para a uniformidade, como para a multiplicidade, pode ser encontrada na
Constituição. Em adição às implicações constitucion ais da uniformidade entre
as Constituições dos estados (Artigo IV, Seção 4) e a asserção constitucional
208

de que as leis nacionais são as leis supremas da terra (Artigo VI), a


Constituição tem oferecido vários mecanismos para afetar a uniformidade.
Existem os poderes enumerados e exclusivos do Congresso (Artigo I, Seção 8)
incluindo a autoridade em cunhar dinheiro, regular o comercio entre os
estados e coletar taxas. Existem restrições explícitas sobre os poderes dos
estados e proibições contra o Congresso tratar os estados diferentemente. Por
exemplo, existe o direito do impedimento, existe a afirmação de que nenhuma
taxa ou imposto deve ser cobrados sobre artigos exportados para qualquer
estado (Artigo I, Seção 9) e de que nenhuma preferência será dada por
qualquer regulamentação de comércio ou acordo a portos de um estado sobre
outros (Artigo I, Seção 9). Existem as restrições específicas sobre os estados
no Artigo I, Seção 10. Existem também as provisões de que as jurisdições dos
estados não devem interferir com as liberdades civis individuais. Por exemplo:
“Os cidadãos de cada estado devem ter todos os privilégios e as imunidades
dos cidadãos nos outros estados” (Artigo IV, Seção 2) e a provisão na Emenda
XIV de que “Nenhum estado deve forçar ou impor qualquer lei que abolirá os
privilégios os as imunidades dos cidadãos dos Estados Unidos. De acordo com
Gordon Clark a interpretação pelas cortes desta e de outras provisões tem
despojado os governos locais “de qualquer poder que possa significativamente
manter as exclusividades e possibilidades da autonomia local no reino
econômico. E o poder político e econômico tem se tornado espacial e
administrativamente centralizado”.

Os marxistas enfatizariam que estas e outras bases legais têm


sido usadas para a vantagem do capitalismo. A uniformidade permite ao
indivíduo - como consumidor e produtor - de ser livre das restrições territoriais
locai. A uniformidade permite a mobilidade do capital, do trabalho e dos
produtos. A importância geral é que os estados srcinariamente autônomos em
muitos aspectos têm se tornado pouco mais do que moldes ou receptáculos
para o capital fluido e o trabalho. Este papel passivo dos territórios locais é
ideologicamente justificado ao garantir a nossa liberdade de escolha e
movimento. Não levou muito tempo para as forças do Capitalismo usarem as
provisões constitucionais para limitar as diferenças geográficas e para
aumentar a uniformidade nacional. O grau no qual as concessões
constitucionais têm sido interpretadas em favor da centralização e da
209

uniformidade e o grau ao qual a penetração do Capitalismo tem estendido o


significado da interconexão econômica estão ilustrados na interpretação legal
da “Cláusula do Comércio” e no direito do Congresso em imprimir dinheiro.

Originalmente a “Cláusula do Comércio” foi pensada para ser


aplicada somente sobre o mercado; entretanto, a cláusula rapidamente se
tornou aplicável ao movimento de todas as comodidades, do trabalho e até
mesmo da informação entre e dentro dos estados.

As transações de negócios, se for mais através da troca de dinheiro e ou


comodidades, ou tão implícita quanto na s obrigações de um contrato que
afetam as leis de comércio entre os estados, também foram incluídas dentro
do escopo da cláusula de concessão de autoridade. Isto também deu ao
Congresso o direito de regular o comércio entre os estados. O Congresso
pode estabelecer padrões , condições, preços e até mesmo as taxas do
comércio.

A cláusula dando ao Congresso a autoridade de imprimir dinheiro


“tem sido interpretada como se aplicável virtualmente a todos os aspectos de
dinheiro e de troca, incluindo a velocidade de circulação do dinheiro, a forma
que o dinheiro toma e o pagamento uniforme dos débitos.

Esta visões marxistas com relação ao papel das unidades


territoriais sub-nacionais podem ser estendidas para incluir o papel das
nações-estados dentro de uma economia global. Na teoria, as nações-estados,
diferentes dos sub-estados, são politicamente autônomas e a despeito dos
esforços das Nações Unidas e das alianças regionais, não existe ainda um
federalismo global ou um confederalismo, aproximando até mesmo as
unidades centralizadas fracamente das treze colônias srcinais. Entretanto, as
ligações econômicas internacionais têm levado a um grau de interdependência
e de cooperação que tem tendido ao nível de impedimentos nacionais para
uma economia global. As moedas nacionais são fortalecidas, os sistemas de
contabilidade são padronizados e os débitos são geralmente honrados, e,
embora as tarifas sejam comuns uma interferência excessiva na negociação
internacional levará a represálias e a bloqueios internacionais que são
210

equivalentes a declarações de guerra. Assim. Apesar da ausência de uma


autoridade política central, uma rede econômica internacional tem surgido
obedecendo as regras que ajudam a aumentar a fluidez das mercadorias do
capital e a diminuir as diferenças econômicas internacionais.

Ainda, este sistema cresce a um grau de diferença geográfica


que não interfere com a mobilidade do capital e oferece ao capital misturas
vantajosas de oportunidade geográficas. Assim um país pode oferecer taxas
mais baixas, um outro salários mais baixos, e um outro estabilidade política e
etc. Oferecendo diferentes pacotes sócios-econômicos, as nações-estados
então competem para atrair um porção da economia global. Além disso, se as
funções das nações-estados são criar pacotes geográficos diferentes que
contribuem com o capital, então essas funções não podem ser preenchidas a
menos que o nacionalismo encuque a lealdade e a ofereça legitimidade para
estas unidades territoriais . Ao fazer isto, o nacionalismo desvia a atenção do
nível global para o nível nacional. Ele desvia a atenção das relações globais
entre o capital e o trabalho para questões políticas internacionais e sub-
nacionais. Em outras palavras, o nacionalismo usa a Territorialidade para
obscurecer o conflito de classe nas maiores escalas geográficas.

Aplicando a teoria da Territorialidade para as organizações


políticas da América do Norte, tem ajudado a explicar como e porquê as

unidades territoriais políticas desenvolveram-se e os efeitos que elas têm tido


no processo político americano. Todas essas tendências da teoria podem ser
argumentadas como sendo uma evidência no sistema político americano
contemporâneo, mas novamente as combinações modernas são
especialmente importantes. Os teóricos político-econômicos de todos os tipos
defenderiam que o desenvolvimento da mobilidade de massa geográfica do
Capitalismo e a comodificação do lugar tem intensificado o sentido de que o
território é esvaziável e preenchível conceituadamente e que o espaço é um
sistema métrico abstrato contingentemente relacionado aos eventos. O
desenvolvimento das hierarquias dos territórios tem definido as comunidades
para conter, conduzir e moldar os processos geograficamente dinâmico; tem
também aumentado o efeito da impersonalidade; e, em muitos casos, tem
aumentado a burocratização e a centralização do poder. Discordâncias
211

poderiam surgir com respeito a avaliação destes efeitos e se ou não


Territorialidade é usada pra obscurecer as relações do poder. O debate sobre
essas questões têm tomado a forma de perguntas com relação as razões para
a Territorialidade dos bens públicos, os números de territórios e suas escalas
geográficas e as razões para concentrar e centralizar a autoridade. O espectro
político total assume que o território e os bens públicos estão funcionalmente
interconectados porque o território está sendo usado como um mecanismo
para controlar e moldar as externalidades, os competidores livres, e para
englobar o domínio dos usuários e dos contribuintes. A hierarquia territorial é
também pensada como sendo inevitável nos sistemas políticos capitalistas
complexos, porque os bens públicos têm diferentes alcances geográficos e
porque existe a necessidade de coordenar os spillovers e as más escolhas. Os
neo-Smithianos acrescentam que a proliferação dos territórios resulta dos
diferentes alcances dos bens públicos e também de uma expressão de
liberdade da população em escolher e controlar os seus próprios ambientes
sociais.

A teoria neo-Keynesiana aponta para o perigo que vem do


parcelamento territorial. Ela enfatiza as más escolhas entre as jurisdições e
como, isso aumenta as diferenças (uma tendência freqüentemente associada
com o parcelamento territorial) e como o território pode se tornar um fim ao
invés de um meio. Mas, os neo-Keynesianos não vêem estas questões como

tendo sido criadas e usadas pelo capital para atrapalhar a classe trabalhadora.

A posição neo-Marxista estende o criticismo e reformula-o


mostrando os efeitos negativos do território em ser de acordo com os
interesses do capital . O território se torna (geralmente inconscientemente)
uma ferramenta do rico para explorar as massas. O território ajuda a “dividir e
conquistar” o pobre fragmentando-o em distritos eleitorais. Isto desloca a
atenção do conflito social para o conflito territorial e isto ajuda a evitar o
confrontamento de assuntos socialmente sensíveis.

O nível político é uma das duas esferas intimamente ligadas aos


usos modernos da Territorialidade. A outra é o local de trabalho. E, conforme
nós veremos, o desenvolvimento e as interpretações da Territorialidade nesta
212

escala pequena ou micro levanta questões similares àquelas que nós


confrontaremos no nível dos territórios políticos. É claro que ambos os níveis
da Territorialidade estão conectados.

6. O local de trabalho.

Virtualmente cada faceta da vida agora ocorre em um lugar


separado e distinto reservado especificamente para aquela atividade. As
fábricas têm estações de trabalhos para os trabalhadores da área de
estocagem para as ferramentas e suprimentos, escritórios para as secretarias
e para o gerenciamento. As escolas têm salas de aulas para diferentes séries
e escritórios para os administradores, e a casa tem partições separadas para
viver, jantar, recreação e para dormir. As doenças são mantidas nos hospitais
com alas e enfermarias para diferentes tipos de doenças e para diferentes
necessidades. Os criminosos estão nas prisões contendo celas e blocos de
celas para separar as categorias de transgressores. Os insanos estão nos
asilos. Os mais velhos estão nas casas de repouso. Nós vamos aos museus
para ver grandes trabalhos de arte; para a salas de sinfonia por causa de
concertos; para os teatros por causa das peças. As ruas são reservadas
somente para movimentação, as lojas são locais de compra de produtos, os

parques são locais para recreação e os estádios abrigam esportes


organizados. A lista pode ser continuada adicionando tipos de fábricas,
escritórios, escolas, casas, prisões, asilos, casas de repouso, museus, casas
de sinfonia, teatros, ruas, lojas, parques e estádios. Mas estes são o suficiente
para sugerir como a maior parte de nossas atividades - e é claro a maior parte
de nossas vidas - estão tão espacialmente segmentadas e
compartimentalizadas. Porque esta segmentação espacial surgiu e quais são
as suas conseqüências? A resposta é mais claramente vista quando nós
agrupamos os processos históricos do período Moderno pelos seus efeitos
territoriais.
213

O espaço esvaziável e impessoal.

Estas tendências na segmentação manifestam intenso e


minucioso controle territorial. Para o trabalho ocorrer como ele ocorre em uma

fábrica moderna, para o aprendizado ocorrer como ele ocorre em uma escola
moderna, significa que o poder legal e social deve ser mantido para excluir
todas as outras atividades de um local e para organizar todos os detalhes que
servem ao propósito dessas atividades. É em locais especificados para
atividades tais como trabalho, recreação, aprendizado e para cura que nós
experimentamos a Territorialidade mais intensamente. Nós estamos tão
acostumados com essas formas penetrantes de segmentação espacial que
nós podemos esquecer não somente que essas são unidades territoriais , mas
também que elas são novas naquilo.

Antes do surgimento do Capitalismo, o trabalho, a educação, a


cura e a família eram em maior parte espacialmente interligados. O trabalho
geralmente ocorria em casa ou próximo dela para a grande maioria e também
a casa era o lugar da instrução. O doente e o mais velho não eram comumente
separados fisicamente do resto da comunidade. Os criminosos eram punidos
publicamente através da humilhação, da tortura, da mutilação ou da morte;
mas eles normalmente não eram confinados a prisões. As ruas das vilas e das
cidades continham múltiplas atividades, elas não eram artérias para o
transporte. O mercado era realizados nas casas, nas lojas e nos lugares
públicos, e o entretenimento ocorria praticamente em qualquer parte.

As coisas não eram geograficamente “bonitinhas” e organizadas


no mundo pré-moderno. Nada tinha o seu lugar. Uma amostra desta mistura
geográfica está representadas nas figuras da época. Uma cena de Hogarth
(figura 6.1), por exemplo, mostra o quão bagunçadas as cida des pré-
industriais eram. Lyn Lofland captura algumas destas intermisturas nas

palavras quando ela apresenta o seu “Retra to Composto da Cidade Pré-


industrial”.
214

Imagine você caindo por meio de uma máquina do tempo, no meio de alguma
cidade
mítica Pré-industrial composta. Você está perplexo, primeiro de tudo, pela
grande quantidade de atividades aqui. Mercadores, operando em seus
pequenos espaços, espalhando as suas mercadorias na rua. Próximo a eles,
uma escola de algum tipo parece estar em aula e você se pergunta como os
estudantes podem se concentrar. Um vendedor ambulante está indo em
direção de você, gritando as maravilhas de suas mercadorias, e fora do
burburinho das ruas, você pode apenas notar os gritos de outros vendedores
ambulantes se movendo através das outras ruas. Um homem pára o vendedor
e eles começam a negociar sobre o preço de um item. Então você nota que os
mercadores mais imóveis também estão envolvidos em tal negociação,
algumas de longa duração. Aqui e ali, um encontro inesperado chamou a
atenção da multidão e os espectadores se envolveram eles mesmo na
interação. Todo mundo está gritando com muitos insultos indo e vindo.

Descendo a rua, um pedinte, seus olhos obviamente sem visão,


sua face cheia de cicatrizes de queimaduras, ele estende a mão em um gesto
de pedido de ajuda. Conforme você passa pelas ruas você nota que elas estão
cheias de pedintes. Alguns parecem serem membros de uma ordem religiosa,
outros são aleijados ou mutilados, mas muitos parecem não ter nenhuma
aflição no corpo. Dentre os pedintes, muitos são crianças; algumas estão com

adultos, mas um grande número “trabalha” sozinha.

Você vira uma esquina e você fica perplexo com uma visão
repulsiva aos seus olhos modernos; um homem foi pregado pelas orelhas em
uma porta. Perguntando você descobre, que este é o seu castigo por enganar
os seus clientes. Ele é um mercador e ele foi pregado na porta do seu próprio
estabelecimento. Agora um grande choro atrai a sua atenção você vira outra
esquina e descobre três pessoas, esfarrapadas, sendo conduzidas através das
ruas com chicotadas e empurrões. Mais tarde, nos arredores da cidade, você
vê o resto de corpos pendurados em grilhões e alguns em algum tipo de gaiola
elevada. Um ou dois dos grilhões sustentam corpos inteiro s; o resto, pendura
somente “pedaços”.
215

De volta à cidade, um ator ambulante ou cantor da rua ou


contador de história atraiu uma multidão e ele está no meio de uma
performance. Em uma praça, você vê um orador público pregando de maneira
monótona absolutamente coisa nenhuma e você fica marav ilhado com a
paciência dos seus ouvintes.

De repente o pregoeiro da cidade aparece, gritando para todos


que passam que um incêndio está acontecendo em tal lugar. Você segue a
multidão e, chegando no local, você assiste os cidadãos tentando lutar contra
as chamas. Ninguém em especial parece estar encarregado daquilo e os
esforços para conter ou para extinguir o fogo parecem sem esperanças. As
pessoas estão trazendo coisas das suas casas para ajudar - panelas ou
baldes - correndo para o poço com elas e então retornando para jogar águas
nas chamas. Tudo é um caos. Eventualmente, após destruir muitos dos
edifícios na área onde ele começou, o fogo se extingue por si mesmo.

Assistindo as pessoas correrem pela água, você as segue e pára


por um momento perto de uma fonte ou de um poço, onde você vê homens e
mulheres se banhando, lavando roupas e fofocando. Você vê homens com
grandes baldes virem e encherem os seus baldes e então se apressarem para
entregar a água nas casas vizinhas. E você vê as mulheres indo com jarros
para pegarem a sua própria água.

O choque inicial desse lugar estranho começa a passar, você


começa a notar coisas que de primeira não atraíram a sua atenção. A imundice
total das ruas lhe assombra. Em todo lugar parece haver refugo, lixo e
excremento humano e animal. E então você nota que pela primeira vez o
grande número de animais nas ruas - porcos comendo lixo, insetos atraídos
pelo excremento, cachorros brigando por ossos etc. Há até mesmo animais
maiores, cavalos e bois puxando carroças através das ruas tumultuadas e
pequenas, e outros animais sendo levados pelo mercado. E por toda parte
crianças: brincando nas ruas, correndo para cima e para baixo nos becos
apertados; zombando dos aleijados e dos pedintes; cutucando com varas um
homem possivelmente retardado que é incapaz de se proteger. Aqui e ali elas
são ajuntadas nos jogos por um adulto, e suas sensibilidades modernas são
216

despertadas pelas descoberta de que os seres humanos podem achar o


sofrimento dos outros tão divertido.

Esta bagunça geográfica e social foi característica da maioria das


cidades pré-modernas, mas na Europa do norte, e então na América do Norte,
uma mudança geográfica maior ocorreu com o surgimento do Capitalismo. O
espacial muda do pré-moderno para o moderno neste local ou a micro escala
paralela para aquelas de política ou macro. No nível micro nós novamente
encontramos o surgimento dos três efeitos territoriais associados com a
modernidade: o espaço esvaziável, as relações impessoais-burocráticas, e
possibilidade da camuflagem. Desta forma os processos geográficos de ambos
os níveis são interligados. Assim as duas exibiram importantes diferenças no
desenvolvimento territorial. Uma se refere ao efeito do espaço vazio. No nível
macro, um espaço métrico abstrato logo se torna uma parte da consciência
geográfica do público. As descobertas do novo permitiram a este sistema de
espaço se tornar aplicável a áreas reais, e, através do político, os espaços
vazios e os territórios do Novo Mundo puderam ser preenchidos com pessoas
e comunidades.

Ao nível local ou micro o efeito territorial de um espaço vazio se


desenvolveu diferentemente. Ao invés de começar com uma grade espacial
abstrata e que poderia caber em um espaço vasto e conceituadamente vazio

como o Novo Mundo e então colocando as coisas nele, o nível micro


começando com a geralmente tumultuada intermistura de eventos dentro um
lugar, teve que ser diminuído, por assim dizer, tal que mais e mais locais se
tornaram containner para apenas um tipo de coisa. Quando coisas suficientes
foram diminuídas (a despeito do fato de que a diminuição requer uma
delineação de mais e mais território), uma estrutura espacial métrica abstrata -
e esvaziável e preenchível, em um espaço parcelável (ilustrado na Figura 6.2
e 6.3) - surgiram como a forma geográfica destacável. Assim o espaço da
política começou como “vazio” e foi “preenchido” enquanto o espaço de
trabalho e de lazer foi “reduzido” e então “esvaziado”.

Em ambos os níveis nós encontramos uma multiplicação dos


territórios e das hierarquias e o efeito territorial de promoção das relações
217

impessoais e burocráticas. O próprio espaço abstrato e vazio sentido como frio


e impessoal. Assim alguns dos efeitos são experimentados com grande
intensidade no nível micro. Aqui o controle territorial pode penetrar em
detalhes menores. Um datilógrafo em um escritório não está somente preso a
sua estação de trabalho, mas o controle territorial sobre este pequeno lugar
especifica até mesmo a orientação física e a inclinação deste corpo. Embora o
micro espaço possa parecer frio e impessoal, e neste nível que nós
encontramos os esforços mais intensos para humanizar os lugares. O nível
micro inclui a casa, que é geralmente o lugar de maior conforto. Nesta escala
também são encontradas outras tentativas de estabelecer lugares de
aconchego e conforto mesmo nos ambientes mais frios e mais impessoais. Um
trabalhador na estação de trabalho ou em uma linha de montagem pode se
sentir mais con fortável em sua estação usual do que em outra, e os
prisioneiros podem tentar “humanizar” até mesmo as suas celas das ditas
prisões.

Aumentar o parcelamento territorial pode significar numa


diminuição da especialização e na divisão das atividades. Mas ele também
pode apresentar problemas de unificação e integração. Nós podemos conter
as coisas sem conhecer o que elas são e nós podemos fragmentar sem
recombinar. Estas dificuldades da integração territorial das más escolhas e
spillovers podem ter conseqüências extremamente pessoais. Trabalhar em

lugar, aprender e jogar em outros, e ir para casa, uma casa na qual


compartimentos distintos são separados para jogos, socialização, para comer
e dormir pode afetar a nossa habilidade de entender como o nosso dia está
interconectado. A segmentação geográfica das nossas próprias atividades
pode segmentar o nosso sentido de eu.

Como era o caso no nível macro, as transformações territoriais


no nível micro têm sido afetadas pelos desenvolvimentos na economia política
e na interpretação desses efeitos que dependem novamente da visão de
alguém sobre o Capitalismo. Mas, ao invés de três pontos de vistas distintos
somente dois pertencem a esta escala; o neo-Smithiano e o neo-Marxista. O
tipo de unidade territorial que expressa as diferenças na interpretação mais
acuradamente é o lugar de trabalho.
218

Interpretações.

Os neo-Smithianos abordariam as mudanças no lugar de trabalho


da mesma forma que eles abordariam as mudanças na organização política.
Eles argumentariam que o surgimento do Capitalismo aumentou a
complexidade econômica e a interdependência e particularmente o grau de
especialização e divisão do traba lho. Como um processo se torna mais
complexo, dividindo em tarefas mais simples aumenta a sua eficiência. Mesmo
as tarefas simples podem ser realizadas mais efetivamente com a
especialização e a divisão do trabalho. Tarefas simples e repetitivas poupam
tempo e energia e assim permitem mais para ser produzidos. Poderia se
economizar mais adiante se todos os processos pudessem ocorrer próximos
um do outro e se possível debaixo do mesmo teto. A especialização e a divisão
do trabalho também tornam a interdependência maior, e especificar e
coordenar esta interdependência é o trabalho do gerente. Estas interconexões
são mais claramente ressaltadas por Adam Smith quando ele descreve a
organização do trabalho na famosa produção de pinos:

um trabalhador não educado para o seu negócio, nem acostumado com o uso
do maquinario empregado nele poderia, escassamente talvez, com o máximo

de esforço, fazer um pino por dia, e certamente não poderia fazer vinte. Mas
da maneira que este negócio é agora realizado não somente todo negócio é
um negócio peculiar, mas está também dividido em um número de filiais, das
quais a grande parte são similarmente negócios peculiares. Um homem
desenrola o arame, outro o estica e um terceiro o corta, um quarto o aponta e
um quinto o prende pelo topo para receber a cabeça; fazer a cabeça requer
duas ou três operações distintas; laqueá-lo é um negócio peculiar, e
esbranquiçar os pinos é outro; e até mesmo um processo diferente para
colocá-los no papel; e um importante negócio de fazer um pino é, desta
maneira, divido em cerca de dezoito operações distintas, que em algumas
fábricas, são realizadas por mãos distintas, embora em outras o mesmo
homem irá às vezes realizar duas ou três delas. Eu tenho visto pequenas
fábricas deste tipo onde dez homens somente estão empregados, e onde
219

apenas um deles consecutivamente realiza duas ou três operações distintas.


Mas embora eles sejam muito pobres, e desta forma mais indiferentemente
acostumados como o maquinario necessário, eles podem, quando eles se
esforçam, fazer mais de quarenta e oito mil pinos em um dia. Cada pessoa,
portanto, fazendo uma décima parte de quarenta e oito mil pinos, pode ser
considerada como se fizesse quatro mil e oitocentos pinos por dia.

Smith acredita que as lições da manufatura de pinos são


generalizáveis. “Em toda arte e manufatura, os efeitos da divisão do trabalho
são similares a este pequeno exemplo. A divisão do trabalho até agora como
pode ser introduzida, ocasiona, em cada arte, um efeito proporcional dos
poderes produtivos do trabalho”.

Smith argumenta que as vantagens da divisão do trabalho são


devido primariamente a três circunstâncias. Primeira, há um aumento na
destreza do trabalhador. Segundo, há “uma economia de tempo que é
comumente perdida ao se passar de uma espécie de trabalho para outro”.
Terceiro, a divisão do trabalho tem ocasionado a invenção de um número
grande de máquinas que facilitam o trabalho possibilitando “um homem a fazer
o trabalho de muitos”.

Acompanhar a crescente divisão do trabalho chega-se a

crescente necessidade de se coordenar as atividades econ ômicas e colocar


as interconectadas mais próximo possíveis. Esta necessidade por si só pode
fazer as fábricas, ao invés de pequenas casas e lojas dispersas, a forma
espacial mais econômica. Além disso, Smith aponta, que a divisão do trabalho
ajuda a aumentar a inventividade tecnológica. O surgimento do Capitalismo viu
o surgimento de novos equipamentos. Grandes maquinarios e caros vieram
para substituir as ferramentas simples. O maquinario tinha que ser colocado
em fábricas. E mais e mais as fábricas surgiram e a competição aumentou, isto
tornou ainda mais importan te para o capitalista organizar o trabalho dentro da
fábrica. A sempre crescente escala de operações e as complexidades das
tarefas fez do parcelamento territorial e da hierarquia um componente
essencial do trabalho. Os lugares precisavam ser limpos para que o trabalho
ocorresse e somente um tipo de atividade poderia ocorrer em cada lugar. Esta
220

diminuição territorial das atividades o aumentou com o surgimento de


necessidades da tecnologia , complexidade, escala de tempo.

É importante não se prender demais ao fato de que os processos


ocorre dentro dos contextos das classes econômicas. Um grupo possui as
fonte de produção e controla e supervisiona o trabalho, e o outro são
simplesmente trabalhadores, vendendo o seu tempo e trabalhando em um
maquinario que eles não possuem. Mas de acordo com o Smithiano a relação
a longo prazo é justa. Os trabalhadores podem sair para encontrar outros
empregos que paguem melhor e os donos ou gerentes podem despedir
trabalhadores e contratar mais baratos. Além disso, as categorias
“trabalhador”, “gerente” e “proprietário” não são separadas pelas fronteiras
imutáveis de classe. Com habilidade e uma boa sorte um trabalhador pode se
tornar um gerente ou um proprietário, e com pouca habilidade e má sorte, os
proprietários podem perder as suas fortunas. Os trabalhadores mais
esforçados trabalham e o gerenciamento mais efetivo se torna na organização
do trabalho, o melhor de que todo mundo será.

Sob esta luz, o local de trabalho - a fábrica - parece tão


necessário quanto o espaço neutro limpo, tal que as atividades essenciais
podem ser moldadas e coordenadas para fazer que todo mundo prospere.
Mesmo o caráter impessoal das grandes fábricas, as suas hierarquias de

unidades territoriais, e suas grandes cadeias de controle, com claras


demarcações de responsabilidades, acrescentam algo à eficiência do trabalho.
Relações pessoais interfeririam com o objetivo dos negócios e com decisões
gerenciais. A circunscrição territorial das tarefas aumenta a distância social
entre os trabalhadores e entre eles e a gerência. Isto ajuda a tornar as tarefas
mais claras, mais simples, e a facilitar o treinamento e reposição de
trabalhadores e gerentes.

A figura neo-Smithiana, então, a de uma progressão natural do


territorial diminuindo, da especialização, e das relações impessoais para
acompanhar o aumento na escala social e econômica, e a complexidade e a
divisão do trabalho. Embora o neo-Marxista também reconhecesse o espaço
vazio e a impersonalidade e burocracia como efeitos da organização territorial
221

moderna no nível micro, eles as explicaria de maneira diferente. Porque ele vê


o conflito de classes como a base do Capitalismo que ele naturalmente
esperaria encontrar neste conflitos no lugar mais importante do processo
econômico - o lugar de trabalho. Para o neo-Marxista, as relações entre o
trabalho e o capital são desig uais e opressivas, embora a diferença seja
geralmente disfarçada pelo contrato de trabalho. Este dá a aparência de que
os trabalhadores são livres para vender o seu trabalho para qualquer
capitalista, bem como os capitalistas são livres para contratar o trabalho. Mas
na realidade, os Marxistas argumentam, que os trabalhadores deve vender o
seu trabalho e eles não capazes de escolher qualquer outro meio mais
significante.

A fábrica em si não é então um local neutro na qual o trabalho


complexo ocorre, mas ao invés disso é um território sobre o controle do capital,
para ser usado pelo capital para extrair o valor excedente do trabalho. Isto
pode ser feito literalmente mandando embora o trabalhador se ele não
trabalhasse por menores salários e por mais horas, ou, como no século XIX,
literalmente trancando os trabalhadores na fábrica desde a madrugada até o
entardecer. O controle do capital da fábrica permite segmentar o processo de
trabalho e restringir o movimento de trabalho dentro da fábrica. Os
trabalhadores que tinham conhecimento do processo inteiro logo não vão
precisar dele para realizar suas tarefas altamente especializadas e os

trabalhadores sem habilidade podem substituir formalmente os trabalhadores


com habilidade. A divisão de tarefas territorialmente pode até mesmo criar a
ilusão de que há mais para o processo industrial do que realmente existe. Esta
ilusão faz os trabalhadores se sentirem inferiores e leva-os a acreditar que
eles não podem gerenciar o processo de trabalho sozinhos. Além disso, a
divisão territorial isola o trabalhador de outros trabalhadores e o impede de
compreender as verdadeiras relações entre o trabalho e o capital. Em outras
palavras, a subdivisão territorial e as hierarquias do local de trabalho são
usadas pelo capital e pelo gerenciamento para dividir, conquistar e tirar a
habilidade da força de trabalho. Finalmente, o neo-Marxista acrescentaria que
sobre a luz do efeito real esta divisão territorial tem isolado o trabalhador, e a
asserção do capital nesta divisão territorial é uma conseqüência natural e
mecânica da complexidade e da tecnologia e aponta o importante papel que
222

está sendo desempenhado pelo terceiro efeito territorial moderno - o da


camuflagem.

Novamente nós devemos ser cuidadosos em deixar claro que


esta posições são hipotéticas e que ninguém precisa ser Smithiano ou
Marxista para defender alguma ou mesmo todas elas. Mesmo os marxistas
ferrenhos podem aceitar algumas posições neo-Smithianas, e vice-versa.
Engels, por exemplo, aponta que a especialização e a integração hierárquica
foram acompanhamentos naturais da vida tecnológica moderna. Com respeito
especialmente à necessidade pela hierarquia ele disse:

Se um homem, por meio do seu conhecimento e do seu gênio inventivo,


subjugou as forças da natureza, esta se vinga dele subjugando-o, uma vez que
ele as emprega para um despotismo real, independente de toda organização
social. Querer abolir a autoridade na industria de larga escala é equivalente a
querer abolir a própria indústria, a destruir um tear mecânico para retornar a
um tear de roda.

Estas diferenças na interpretação dos efeitos modernos da


Territorialidade são melhor ilustradas através do desenvolvimento do local de
trabalho. Mas as relações entre o Capitalismo e o local de trabalho também
afetam a natureza de várias outras instituições tais como o asilo, o hospital, a

prisão, a escola e o lar. E nestas nós encontramos operando as mesma


tendências territoriais bem como a possibilidade de interpretações alternativas
dos seus significados. A evolução dessas formas e suas interconexões é algo
complexo; dentro do ambiente de trabalho, a hora de mudanças particulares
varia de acordo com uma série de fatores o tipo de processo de manufatura, o
tipo de grupo de trabalho e papel do governo. Complexidades similares
pertencem a outras instituições também. É possível rascunhar as mudanças
rudimentares em uma poucas dela s e estas se firm am como ponto de
comparação para outros estudos.
223

O efeito do trabalho.

Os vastos rompimentos sociais acompanhando a dissolução do


feudalismo e o surgimento do Capitalismo deixaram a sociedade com uma
necessidade por novos tipos de organizações sociais e de controles. Os
camponeses sem-terras, os exércitos de vagabundos e o surgimento das
populações urbanas forçaram os sistemas convencionais de trabalho, de bem-
estar e de formas pessoais de autoridade. Haviam vastos seguimentos das
populações que estavam em “transição” - que não se encaixavam às
categorias sociais convencionais. Uma reação significante a estas pressões foi
empregar geograficamente para isolar e conter os desaj ustes sociais ou os
desvios. Ninguém contribuiu mais para o entendimento deste importante
processo do que Foucault. Nos seus trabalhos ele vê que os modernos
hospitais, asilos, casas de pobre e prisões têm raízes comuns nas tentativas
dos séculos XVI e XVII de se isolar fisicamente os números crescentes e os
tipos de desabrigados sociais. Foucault chamou o século XVII do início de um
grande confinamento e, de acordo com ele , “o que tornou este confinamento
necessário foi o imperativo do trabalho”.

Categorizar os desvio tão acuradamente como nós fazemos


agora, tal que nós distinguimos entre doenças físicas e doenças mentais, entre
aqueles que não podem se manter por causa de deficiências sociais,
deficiêncais físicas, deficiêncais mentais e entre aqueles que se manté m
apenas através do crime, isto tudo levou vários séculos para ser alcançados. A
visão do século XVI e do XVII era mais rude: aqueles que nós separaríamos
em diferentes categorias e os colocaríamos em diferentes instituições - o
criminoso, o pobre e o mentalmente doente - eram geralmente colocados
juntos na mesma instituição cruel de confinamento. Confinar pessoas diversas

juntas em geral em condições de superlotação e sub-sanitárias imediatamente


apresentou a necessidade por uma tipologia de desvios que ajudara a
subdividir e a separar fisicamente os confinados. Tal que eles poderiam ser
mais efetivamente controlados. O problema precisava que a organização
224

espacial do confinamento permitisse os desvios serem cuidadosamente


observados e os resultados de diferentes misturas notados. Confinar e
organizar os desviados se tornou responsabilidades especificas das agências
de governo e gerou agências novas bem como grupos de profissionais
privados. Houve, entretanto um critério predominante usado para desenvolver
a tipologia do desvio, e que foi o trabalho.

Não de se surpreender que o trabalho desempenhou um papel


central por causa que muitos problemas tinham tudo a ver com a mudança na
natureza do trabalho. A transformação de uma economia camponesa para uma
comercial significou que a interdependência econômica comunal e tradicional
estava sendo substituída por uma dependência ou por uma economia de
mercado impessoal (ver figura 3.7), alguém que tentasse aumentar os lucros,
diminuía os custos, introduzia novos produtos e substituía um trabalhador por
outro. Uma considerável extensão de desviados teve problemas de lidar com
estas mudanças. Assim parecia natural que a tipologia do desvio devia ser
guiada pela extensão a qual as pessoas eram incapazes ou inábeis para
trabalhar e as razões pelas quais suas desabilidades deveriam ser explicadas
em termos de características de trabalho. Assim o pobre com o corpo sadio
poderia ser separado do pobre que era doente demais para trabalhar, ou do
pobre que era mentalmente defeituoso e que não podia freqüentar o local de
trabalho, ou daquele que não podia ter um dia de trabalho honesto.

As possibilidades do trabalho como um critério para a tipologia


do desvio foi elaborado com surgimento do Capitalismo Industr ial. Aqui, como
ilustrado na comparação de “a” com “b” na figura 3.7 , o capitalista não está
simplesmente negociando os bens produzidos pelos artesãos e pelas pessoas
que trabalham em casa com suas próprias ferramentas, em sue próprios
estabelecimentos e com suas próprias horas. O capitalista agora está
realmente preocupado em organizar e controlar cada detalhe do processo de
trabalho. Ele pode fazer isto por causa que ele tem a posse das ferramentas
da produção, e o trabalho ocorre em seu próprio território - a fábrica - e sobre
sua supervisão. Dentro destas condições, a especialização das tarefas se
multiplica. O trabalho se tornar minuciosamente subdividido e geralmente
225

monótono. Os rigores da fábrica refinaram a tipologia do trabalho tal que mais


categorias e graus de desvios puderam ser isolados.

O trabalho não foi usado somente para definir o desvio, mas


também para corrigi-lo. Sobre o capitalismo e a ética Protestante o trabalho
era uma virtude. Ele estalava os hábitos da responsabilidade, disciplina e a
economia. Forçar as pessoas a trabalhar as curaria de suas desabilidades. Os
prisioneiros eram posto pra trabalhar, e assim também eram muitos dos
doentes. Eles estariam se curando através de seu trabalho, ou se falhassem
com seu trabalho eles revelariam um desvio mais adiante. Mesmo quando as
casas de confinamento de se tornavam especializadas como as prisões,
asilos, orfanatos e casas para pobres o trabalho era parte do regimento. “A
função repressiva do confinamento foi combinada com um novo uso. Não era
mais meramente uma questão de confinar aqueles fora do trabalho, mas de
dar trabalho aqueles que tinham sido confinados”. Mesmo quando estava claro
que as classes dos desviados eram simplesmente incapazes de trabalhar, as
instituições nas quais eles eram colocados eram geralmente organizadas
como fábricas. Os internos estavam separados claramente em espaços
demarcados tal que eles podiam ser supervisionados de perto. Seus dias eram
regimentados. As atividades seguiam horários rigorosos. O staff era
hierarquicamente organizado e a instituição era controlada com a eficiência de
uma fábrica.

De cabanas e prédios simples para conter pessoas, estas


instituições de confinamento, tal como os chãos das fábricas se tornaram
estruturas para propósito arquiteturalmente sofisticadas para classificar,
conter, ordenar e integrar. Hospitais foram tran sformados através da
regimentação espacial e temporal de barracões de doentes para instituições
de reforma moral. As escolas, também, foram aprimoradas na sua missão
como veículos para educar as massas para trabalharem nas fábricas. Will iam
Temple, um mercador inglês do século XVIII, quando chamado para substituir
crianças pobres nas casas de trabalho onde elas deveriam ser colocadas para
trabalhar e dada duas horas de escola por dia, foi explícito quanto a influência
social deste processo; “Há um uso considerável para o ser de uma forma ou de
outra que está constantemente trabalhando no mínimo doze horas por dia, não
226

importa se podem trabalhar ganhar o seu sustento ou não; por estes meios,
nós esperamos que as gerações vindouras se habituem ao trabalho constante
que será no futuro agradável e interessante a eles”.

Os trabalhadores davam valor à educação para os seus filhos,


mas eles viam a aquisição do conhecimento ao invés do encutimento da
disciplina da fábrica como sendo a missão primária da escola. As crenças nas
expectativas forma claramente colocadas em 1861 pelo comissário assistente
das áreas vizinhas de Durham e Northumberland:

A hora para freqüentar a escola é permitida somente com uma visão de ser
uma preparação para o trabalho. Os pais não têm nenhuma idéia de que haja
alguma vantagem nas crianças em passarem tanto anos na escola se a
mesma quantidade de aprendizado poderia ser adquirida num tempo menor.
Em resumo, eles vêem a escola não somente como um curso de disciplina,
mas somente como um meio de adquirir leitura, escrita, aritmética, costura e
bordado como uma preparação do principal negócio da vida - ganhar dinheiro.

O território e o espaço.

A transformação do trabalho, o surgimento da fábrica e o


desenvolvimento das prisões, asilos, hospitais e escolas foram todos
interrelacionados. Eles foram cada um modelados sob formas racionais e
eficientes de gerenciamento. Elas todas requeriam a subdivisão minuciosa
intensa e uma integração do território. O todo devia ser territorialmente
parcelado. Cada divisão devia conter um tipo de indivíduo ou processo. E
ainda cada uma devia estar integrada no total. As metafísicas espaciais
fundamentais por de trás da diminuição geográfica dos eventos para criar uma
superfície espacial esvaziável e impessoal que contenha, classifique e

organize as ações humanas está ilustrada na discussão de Foucault da


arquitetura e do controle.
227

A regimentação de indivíduos ou a disciplina em suas palavras


‘procede da distribuição de indivíduos no espaço. Para alcançar este fim, ela
emprega várias técnicas”. Primeiro ela requer o estabelecimento do território
ou o “enclasuramento” conforme ele põe como - “a especificação de um lugar
heterogêneo para todos os outros e fechado em si mesmo. Ele é o lugar
protegido da monotonia disciplinar”. Com um exemplo de clausura na França,
ele descreve o grande confinamento de vagabundos e pobres; e a criação de
“colégios, ou escolas secundárias” após o modelo monástico. Haviam também

os quartéis militares: o exército, aquela massa de vagabundos, tinha que ser


mantido no local; a pilhagem e a violência deveriam ser combatidas. A
ordenância francesa de 1719 autorizou a construção de várias centenas de
barracas, para segurar os confinamentos estritos: “Todas seriam
enclausuradas por uma muralha externa de dez pés de altura, que cercaria
todas estas barracas, a uma distância de trinta pés de todos os lados”; isto
teria o efeito de manter as tropas em “ordem e disciplina, tal que um oficial
estaria em uma posição para responder por elas”.

Haviam é claro as grandes fábricas com suas grossas paredes e


portões de ferro; abertas uma vez a cada manhã num horário preciso para
admitir os trabalhadores, e trancada seguramente para confiná-los até o
momento preciso na parte da noite quando eles eram dispensados.

A clausura é suficiente se o objetivo é simplesmente coletar e


isolar. Mas com a industrialização e o sistema de fábricas, os objetos fechados
deviam ser subdivididos, moldados e ordenados. Os espaço interior deve ser
trabalhado minuciosamente e flexivelmente. Isto é realizado primeiro de tudo
através do

princípio da locação elementar ou da divisão. Cada indivíduo tem o seu próprio


lugar e cada lugar o seu indivíduo. O espaço disciplinar tende a ser dividido em
muitas seções conforme são os corpos ou elementos a serem distribuídos.
Devem se eliminar os efeitos das distribuições imprecisas, o desaparecimento
inconsolado de indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inútil e
228

perigosa. É um procedimento, desta forma, que almeja conhecer, lidar e usar.


A disciplina organiza um espaço analítico nos elementos básicos das “celas”.

Mas a divisão territorial deve ser integrada em um sistema


funcional.

Os lugares funcionais gradualmente, nas instituições disciplinares, codificariam


um espaço que a arquitetura deixou à disposição de vários usos diferentes. Os
lugares particulares foram definidos para corresponderem não somente à
necessidade de supervisionar, de quebrar comunicações perigosas, mas
também de criar um espaço útil. O processo parece mais claramente nos
hospitais, nas prisões, escolas e fábricas. Nas fábricas que surgiram no final do
século, o princípio da divisão individual se tornou mais complicado. Era uma
questão de distribuir indivíduos em um espaço no qual alguém podia isolá-los e
mapeá-los; mas também de articular a sua distribuição em um maquinario de
produção que tinha os seus próprios requisitos. A distribuição dos corpos, o
arranjo espacial do maquinario de produção e as diferentes formas de
atividade na distribuição dos postos tinham que ser ligados juntos.

As divisões territoriais e seus conteúdos eram ao mesmo tempo


definidos e flexíveis. A organização interior do espaço pode mudar, os
territórios podem se unir ou se tornarem mais subdivididos. Na ausência do

maquinario, as partes podem ser interconectadas por um schedule. Enquanto


alguém se move de um lugar para o outro alguém está mudando de posição ou
de classe de acordo com a serialização dos lugares. Por exemplo, a divisão de
uma escola em classes significa que conforme os estudantes mudam de ano
na escola eles também mudam a sua localização no espaço. Cada estudante

se move constantemente em uma série de compartimentos - alguns desses


são compartimentos “ideais”, marcando uma hierarquia de conhecimento ou
habilidade, outros expressam a distribuição de valores ou méritos em termos
materiais no espaço do colégio ou da sala de aula. A organização do “espaço
serial” (conforme Foucault chama) tornou possível a supervisão de cada
indivíduo e o trabalho simultâneo de todos. Ela fez o espaço educacional
funcionar como máquina de aprendizado, mas também como uma máquina
229

para supervisionar, hierarquizar e recompensar. A distribuição espacial pode


oferecer uma série de distinções de uma vez só: de acordo com o progresso
do aluno, com o valor, com o caráter, aplicação, limpeza e fortuna dos pais.

O enclausuramento, a divisão, os arranjos funcionais e a


serialização do espaço; estas são as estruturas principais de uma forma
arquitetural impessoal abstrata para organizar e controlar o comportamento. A
explicação mais clara destes princípios em um design atual é encontrada na
descrição do filosofo bem conhecido Jeremy Benth am de Panopticon. O
projeto de Bentham está contido em uma série de cartas que ele escreveu em
1787 enquanto estava visitando seu irmão na Rússia.

As cartas mais um postscript constituem a publicação de


Panopticon de 1791. Muitas das idéias contidas no Panopticon têm estado no
ar por algum tempo, mas nunca antes integradas e propostas como um arranjo
dos princípios arquiteturais. O poder compreensivo de Bentham colocado na
organização do espaço arquitetural está indicado na primeira porção do título
longo do trabalho: “Panopticon; ou, a Casa de Inspeção; contendo a idéia de
um novo princípio de construção aplicado para qualquer tipo de
estabelecimento, nos quais pessoas de qualquer descrição são mantidas
sobre inspeção; e em particular nas casas penitenciarias, prisões, casas de
indústria, casas de trabalho, casas de pobre, manufaturas, casas de loucos,

lazarentos, hospitais e escolas: com um plano de gerenciamento adaptado ao


princípio. A compreensão das reivindicações pelo poder arquitetural é mais
expandida no prefácio. “Reformados morais - saúde preservada - indústria
revigorada - instrução difundida - encargos públicos aliviados - economia
estável, como se estivesse sobre uma rocha - o nó górdio da lei dos pobres
não corta, mas desata - tudo por uma simples idéia na arquitetura”.

Bentham continua exorta os poderes da arquitetura na Carta Um:

Será achada aplicável... sem exceção, para todo estabelecimento de qualquer


tipo no qual,.. um número de pessoas é mantido sob inspeção. Não importa o
quão diferente, ou quão oposto o propósito; se é punir o incorrigível, guardar
o insano, reformar o viciado, confinar o suspeito, empregar o ocioso,
230

manter o sem ajuda, curar o doente, instruir o desejoso em qualquer ramo


da indústria, ou treinar a geração que surge no caminho da educação: em uma
palavra, se ela deve ser aplicada para os propósitos das prisões perpétuas
na cela da morte, ou a prisões para confinamento antes do julgamento, ou as
casas penitenciárias, ou as casas de correção, casas de trabalhos,
manufaturas, casas de louco, hospitais ou escolas.

O Panopticon tem a intenção de manter o controle completo e a


ordem. Isto é conseguido projetando a estrutura tal que os inspetores,
enquanto saem de vista, podem observar os internos das instituições a
qualquer tempo, e tendo eles acreditando que eles estão sob vigilância a toda
hora. Ao permitir que os inspetores vejam, sem serem vistos, “as pessoas a
serem inspecionadas... se sentirão sempre como se estivessem sob inspeção,
pelo menos têm a grande chance de estar sendo”. A chave é a “onipresença
aparente do inspetor... combinada com a extrema facilidade da sua presença
real”.

Com o que este esquema poderoso e compreensível para o


controle parece? Um esquema incluindo nas última edições e mostrado na
figura 6.4 está baseado na seguinte descrição srcinal, na qual Bentham
seleciona o papel das prisões como a ilustração primária das funções do
Panopticon.

O prédio é circular. Os apartamentos dos prisioneiros ocupam a circunferência.


Você pode chamá-los se você desejar, de celas. Estas celas (mais de 900) são
divididas uma das outras e os prisioneiros por este meio são excluídos de toda
comunicação uns com os outros, pela partição da forma do raio saindo da
circunferência em relação ao centro, e estendendo quantos forem pensados
necessário para forma a maior dimensão da cela. O apartamento do inspetor
ocupa o centro; você pode chamá-lo se você desejar de sala do inspetor.
Será conveniente na maior parte, senão em todos os casos, ter um espaço
livre ou área ao redor, entre o centro e a circunferência. Você pode chamá-la
se você quiser de área intermediária ou anelar... cada cela tem uma
circunferência externa, uma janela, grande o suficiente, não somente para
iluminar a cela, mas, através da cela, para iluminar o suficiente a parte
231

correspondente do compartimento. A circunferência interna da cela é formada


gradio de ferro, tal que a luz não deixe de iluminar nenhuma parte da cela da
visão do inspetor. Deste gradio, uma parte suficientemente grande abre, em
forma de uma porta, para admitir o prisioneiro na sua primeira entrada; e para
permitir a entrada em qualquer hora do inspetor e de seus assistentes. Para
cortar de cada prisioneiro a visão de outros, as divisões são realizadas a uns
poucos pés além do gradio na área intermediária: essas partes do projeto, eu
chamo de partições prolongadas. Imagina-se que a luz vindo desta maneira
através da celas e então através da área intermediária será o suficiente para o
compartimento do inspetor. Mas, para este propósito, tanto as janelas nas
celas, quanto aquelas correspondentes a elas no compartimento, devem ser
tão largas quanto a largura do prédio, o que deverá ser uma atenção
necessária para a economia. Nas janelas do compartimento existem
venezianas, tão altas quantos os olhos dos prisioneiros nas celas podem, por
qualquer meio que possam empregar, alcançar. Para prevenir a luz total, por
conseguinte, não suportando as venezianas, os prisioneiros veriam das celas
se qualquer pessoas estava ou não no compartimento, o apartamento é
dividido em quartos , pelas partições formadas pelos dois diâmetros do
circulo, cruzando cada um com os ângulos direitos. Destas partições os
materiais mais finos podem servir; e eles podem ser removíveis a bel-prazer; e
a sua altura, o suficiente para impedir que os prisioneiros vejam acima de suas
celas. As portas para estas divisões, se deixadas abertas a qualquer hora,

podem produzir a luz total. Para impedir isto, divida cada partição em duas,
colocando a metade a tal distância da outra que deve ser igual a abertura de
uma porta. Estas janelas da sala do inspetor abrem para a área intermediária,
na forma de portas, em tantos lugares quanto se achar necessário para admitir
a sua comunicação pronta com qualquer uma das celas. Pequenas lâmpadas,
no lado de fora de cada janela do compartimento, com um refletor atrás, para
jogar a luz nas celas correspondentes, isto aumentaria para a parte da noite a
segurança do dia. Para economizar o problema do esforço da voz que pode
vez ou outra ser necessária, e para evitar que um prisioneiro saiba que o
inspetor estava ocupado com outro prisioneiro a uma certa distância, um
pequeno tubo de lata pode alcançar de cada cela até a cela do inspetor,
passando através da área, e assim até a sala do inspetor... Com relação a
instrução, nos casos onde ela não pode ser dada sem o instrutor estar perto
232

para o trabalho, ou sem dar o seu toque na frente do aluno, o instrutor deve
aqui como em toda parte, mudar sua atenção tão freqüentemente haja ocasião
para visitar diferentes trabalhadores; a menos que ele chame os trabalhadores
para si... ou faça uso destes tubos. Eles pouparão, por um lado, o esforço da
voz, que seria necessária pela parte do instrutor, para comunicar as instruções
aos trabalhadores sem a sua estação central no compartimento; e, por outro
lado, a confusão que seria formada se diferentes instrutores de pessoas no
compartimento ou alojamento fossem chamadas ao mesmo tempo. E, no caso
dos hospitais, o silêncio que pode ser alcançado através desse pequeno
aparelho... garante uma vantagem adicional.

A chave para o gerenciamento e organização é “a centralidade


da situação do inspetor”. Ele possui o mecanismo mais poderosos para
supervisão: “ver sem ser visto”. A centralidade, a transparência das celas e a
invisibilidade do inspetor intensificam os efeitos da supervisão dando ao
inspetor “uma onipresença aparente”. A segmentação territorial adiciona outra
economia à supervisão. Ela permite que alguém ou uns poucos inspetores
supervisionem muitos internos e permite que os subalternos sejam também
eficientemente supervisionados.

Uma vantagem colateral que o Panopticon possui, é aquela com respeito ao


número de inspetores necessários... E, outra vantagem importante... é que sob

os guardas ou inspetores... estará o mesmo controle irresistível com respeito


ao guarda chefe ou inspetor, como os prisioneiros ou outras pessoas a serem
governadas estão com respeito a eles.

O controle pode ser absoluto, penetrante e minuciosamente


ordenado, e ainda adaptável a uma variedade de funções. As divisões
interiores do prédio são flexíveis o suficiente tal que o número de celas , seus
tamanhos e seus graus de divisões, bem como as conexões entre elas e o
alojamento, podem ser alteradas para se encaixar a diferentes propósitos. O
tipo de atividade a ser contido determina os pontos mais finos com relação a
organização espacial interna, e especialmente a intensidade de controle
dentro das celas (e o grau de permeabilidade entre elas). As celas “serão...
mais ou menos espaçosas, de acordo com os empregos aos quais estão
233

designados que devem ser realizados nelas”. Quando o estabelecimento é


usado para uma fabricação,

a centralidade da situação da pessoa presidente terá seu uso em todos os


eventos; para o propósito da direção e da ordem pelo menos, se pra nenhum
outro mais. O ocultamento desta pessoa será de uso até que o controle possa
ser julgado útil. Como para as partições, se elas serão mais úteis para prevenir
a distração, ou inúteis para impedir a comunicação, vai depender da natureza
particular da manufatura particular.

Mas a organização minuciosa do espaço, mesmo para os


prisioneiros, não precisa necessariamente ser usada para punir e coagir. Ao
invés disso, controlando o que está presente e ausente em um ambiente, o
Panotipticon pode ser usado para saúde, virtude e moralidade. A organização
do espaço age como o agente moral, contendo o bom e removendo o mau. É
por isso que Bentham acredita que a estrutura pode ser usada não somente
para uma prisão, mas para uma escola, separando os estudantes e as séries,
e também para um quadro da escola para “preencher o circulo total de tempo,
incluindo as horas de rep ouso, e descansos e a recreação”. “Toda distraç ão
de qualquer tipo , é efetivamente banida”.

Bentham sabia que era mais difícil pessoadir os leitores dos

benefícios morais do Panopticon de que dos seus efeitos coercivos. Para


diminuir os medos do público de que a instituição pudesse ser usada somente
para a coerção ele faz consideráveis esforços para descrever a sua
adequação para propósitos humanitários como nos hospitais. “Se qualquer
pudesse ainda estar esperando para mostrar qual a distância deste plano de
qualquer conexão necessária com medidas severas e coercivas, não pode ser
a consideração mais forte do que as das vantagens com isto se aplica aos
hospitais”. No restante do tratado Bentham expõe sobre os projetos da
construção e as suas estalações (incluindo os tipos de mobília, encanamento,
ventilação e aquecimento) que são mais apropriados para funções específicas.

A contribuição de Bentham foi unir os princípios morais e os


projetos arquiteturais que já estavam em prática no início do século XVIII. Sua
234

síntese foi tanto abstrata quanto concreta. Embora seus projetos fossem
detalhados, eles tinham a intenção de oferecer uma estrutura versátil,
ilustrando o potencial para o controle territorial hierárquico. No abstrato, o
Panopticon incorpora os princípios da organização territorial que são
adequados para o uso do espaço pelo Capitalismo Industrial. Ele apresenta
um design arquitetural compreensivo para instituir os efeitos territoriais
modernos do espaço esvaziável e preenchível, e do facilitamento das
relações impessoais e burocráticas. A construção é uma concha contendo um
volume abstrato de espaço que pode ser divido variadamente, esvaziado,
preenchido e interconectado. Dentro de suas paredes, as subdivisões
espaciais impõem relações sociais impessoais, facilita a hierarquia e a
supervisão eficiente, e torna os espaços e os eventos relacionados
contingentemente.

No nível concreto, o projeto do Panopticon tem inspirado a


arquitetura institucional e de fábricas dos séculos XIX e XX. Várias tentativas
têm sido feitas para seguir os planos de Bentham literalmente e construir
prisões de formas de Panopticons. Entre os mais famosos estavam o projeto
de Robert Adam para Edinburgh Bridewell, o design de Grand para criminosas
mulheres em Lancaster Castle Gaol, o de Joshua Jebb em Pentonville, e o de
John de Haviland na Penitenciária de Filadélfia. Muitas mais estruturas
institucionais dos séculos XIX e XX têm adotados os princípios de Bentham e

alguns componentes de seus designs. Embora elas possam diferir


consideravelmente nos detalhes - especialmente na alteração da forma total
do circular, para o retangular ou quadrado, e em combinar as formas para
formar alas e unidades - e em suas funções - sejam hospitais, asilos, prisões
ou escolas - o efeito geral (conforme a figura 6.5, 6.6, e 6.7) é de uma concha
arquitetural contendo unidades sub-territorias relativamente flexíveis para
permitir a supervisão , a organização e o controle.

Foi a transformação do ambiente de trabalho que criou a


necessidade por uma arquitetura de supervisão e de controle no primeiro
lugar, mas é o ambiente de trabalho para o qual os princípios detalhados -
embora não os abstratos - do Panopticon são menos adequados. Bentham não
explica o fato de que os processos de trabalho e o maquinario e as suas
235

interrelações espaciais são tão variados que qualquer forma geométrica


complexa, mesmo com divisões internas flexíveis podem ser restritivas demais
para oferecer um molde geral para o trabalho. Muitas indústrias tais como as
de fundição de aço e a geração hidrelétrica precisam ser instaladas em
estruturas espaciais únicas que são projetadas especificamente para elas. Mas
existem outros processos para os quais o maquinario não é tão monumental e
existem muitos mais para qual o equipamento é relativamente pequeno. Cada
um deste processos pode ser contidos dentro de um tipo geral de prédio de
fábrica. Assim uma firma de eletrônicos, uma loja de folhas de metal, um
fabricante de caixas de papelão e uma companhia de impr essão pode
simplesmente precisar de aquecimento, espaço iluminado e desta forma cada
uma podia ocupar o mesmo tipo de estrutura. Como elas usam o espaço
interior difere, mas todas podem possuir o mesmo conceito abstrato de uma
fábrica como uma concha. É para estes tipos de processos de trabalho
especialmente que a teoria, embora não os detalhes, do Panopticon se aplica.

A arquitetura industrial moderna tem um fato que considera os


princípios do Panopticon como um passo mais adiante. As divisões dentro da
fábrica se tornaram bem mais flexíveis do que Bentham antecipava, a um
ponto onde a maioria era literalm ente invisível na forma das estações de
trabalho. Tal estação pode ser defin ida como a área pess oal imposta do
trabalhador. Ela pode ter um centro, talvez uma bancada ou uma peça do

maquinario, mas ela também tem uma fronteira, que embora não fisicamente
marcada está claramente delimitada na mente do trabalhador e do supervisor,
e podem bem ter sido especificadas nos desenhos srcinais para o layout da
planta.

Prender os trabalhadores a estações de trabalhos bem


ordenadas em uma planta sem divisões físicas estende a possibilidade da
supervisão e do controle. Um único supervisor, enquanto caminha de estação
para estação, dando a este ou aquele trabalhador instruções pessoais, pode
ainda estar em posição para ver, com uma única olhada, o que está
acontecendo no resto do piso. E o trabalhador também pode que o olhar do
supervisor pode alcançar o piso todo em qualquer momento. Foucault
236

descreve como estas condições ocorriam na fábrica de Oberkampf no final do


século XIX em Jouy.

O maior dos edifícios, construídos em 1791 por Toussaint Barré , tinha 110
metros de comprimento e tinha três andares. O andar térreo era devotado
principalmente para o bloco de impressão; ele continha 132 mesas arranjadas
em duas fileiras, a extensão da bancada de trabalho, que tinha oitenta e oito
janelas; cada impressor trabalhava em uma mesa com o seu “empurrador”,
que preparava e espalhava as cores. Haviam 264 pessoas no total. No final de
cada mesa havia uma espécie de rack com todo material que tinha acabado de
ser impresso e que era deixado para secar...And ando para cima e para baixo
no corredor central da bancada de trabalho, era possível realizar uma
supervisão que era ao mesmo tempo geral e individual: para obs ervar a
presença dos trabalhadores e aplicação, e a qualidade dos seus trabalhos;
para comparar os trabalhadores uns com os outros, para classificá-los de
acordo com a habilidade e a velocidade; e para acompanhar os estágios
sucessivos do processo de produção.

Os desenvolvimentos tecnológicos no material de construção


ajudou a tornar o espaço interior mais flexível. A introdução no final do século
XVIII de colunas de ferro fundido na arquitetura funcional eliminou o tijolo e as
pedras interiores obstruintes ou os pilares de madeira. As colunas de ferro

criaram visibilidade, flexibilidade e o sentido de que um espaço vazio era


ininterrupto. No meio do século XIX, o ferro fundido foi usado para estrutura
inteira de muitos edifícios, que aumentaram o tamanho e a flexibilidade dos
interiores desobstruídos.

Estes avanços na engenharia arquitetural tornou possível utilizar


cada porção do espaço interior para a produção, e com este avanços o próprio
espaço tomou um significado mais econômico permitindo que áreas do espaço
fossem divididas de acordo com o seu grau de eficiência econômica. O aluguel
era a medida monetária costumeira da economia de espaço, mas, no século
XIX, o espaço indust rial começou a ser descri to e medido também como
produtivo ou improdutivo. O espaço produtivo era definido como “a área de
esforço, o teatro daquelas oper ações que distingue uma fábrica de um lug ar
237

vazio”. O oposto era chamado de “solo desperdiçado”, “lugares desperdiçado”,


“espaço que não gerava renda”, ou “território improdutivo” ou simplesmente
“lugares vagos”. Estes “tinham que ser aquecidos e cuidados, e também
burilados, sem de maneira alguma adicionar algo aos poderes produtivos da
loja; mas, ao invés disso, eles realmente diminuem a produção pelo aumento
do transporte que é sempre uma conseqüência do território improdutivo”.

No final do século XIX, a construção de aço em um formato


particular chamava-se de “construção de esqueleto” que era comumente
empregada nos prédios de escritórios e fábricas. A construção esqueleto,
representada nas figuras 6.8 e 6.9, surgiu para dar a possibilidade de se ter
uma grande parte do espaço do piso “sem as divisões tal que elas poderiam
ser subdivididas mais tarde para se adequar aos inquilinos”. É esta
flexibilidade interior que é a vantagem maior da construção de esqueleto: “o
esqueleto - seja de ferro ou aço ou de concreto reforçado - é essencialmente
uma rede espacial neutra. É uma ‘construção de gaiola’ que liga um certo
volume de espaço com completa imparcialidade, e sem nenhuma direção
intrínseca”. Este tipo de flexibilidade foi a pedra fundamental na filosofia
arquitetural de um dos maiores arquitetos industriais, Alfred Kahn. De acordo
com Oswald Grube, Kahn defendia que “o layout da fábrica deveria ser
suficientemente elástico para permitir o rearranjo de acordo com as mudanças
nos métodos de produção, ou a expansão de departamentos ou a expansão da

produção sem desorganizar o esquema exato”. Nos Estados Unidos


especialmente, o design da fábrica geralmente inclui a possibilidades para
mudanças completas nos proce ssos de produção que ocorrem dentro do
prédio. Os arquitetos industriais falam de containers de construção, volumes,
espaços ou “barracões conectados de tamanho gigante que podem ser
alterados facilmente de acordo com as demandas de mudança por espaço das
várias divisões de uma companhia ou departamentos”.

O lar.
238

Nós temos discutidos os efeitos territoriais de um espaço


esvaziável e da facilitação das relações impessoais no contexto das
instituições e os locais de trabalho. Mas e a casa? Certamente o lar é o
espaço mais pessoal de todos. Ele é preenchido com conteúdo e significado, e
pode dificilmente ser comparado ao interior de instituições ou locais de
trabalho. Assim devem haver ocorridos desenvolvimentos arquiteturais na
construção do lar que sugere que o uso do espaço tem de alguma forma
seguido o seu uso no trabalho. A remoção no século XVIII e XIX de todas as
atividades das ruas que interferiam no movimento e no comércio, e a redução
das funções dentro das lojas e fábricas, tinham seus semelhantes nas
arquiteturas do lar. Antes as casas grandes e os castelos, as únicas estruturas
com divisões internas para se falar alguma coisa sobre, podem ter tido muitos
compartimentos, mas aqueles para o convívio raramente eram lugares
reservados para funções especializadas. A alimentação podia ser preparada
em qualquer outro dos vários compartimentos que continham uma lareira,
dependendo do número de pessoas a serem alimentadas; e o mesmo
compartimento pode ter sido também reservado como um dormitório ou como
um hall social. Além disso, não haviam passagens ou halls separados para
propósitos únicos de se movimentar de quarto para quarto. Chegar a um
compartimento usualmente significa atravessar outro. Somente a partir do
século XVII que os interiores das grandes casas se tornaram especializados e
que as passagens foram introduzidas.

Conforme os interiores das casas se tornavam mais especiali zados, as


divisões se tornavam mais flexíveis; mais nas casas americanas do que em
outras. A arquitetura americana tem sido marcada por uma tendência desde a
chegada dos primeiros colonizadores. A casa americana geralmente continha
um plano térreo que podia ser au mentado (ou contraído) quando quer que
novas condições sociais e econômicas tornassem isto desejável. O contínuo
da Nova Inglaterra é um caso clássico de uma casa expandível. Os
americanos não tinham nenhum reforço sobre cortar uma casa e dividi-la em
duas ou mais porções. As casas eram até mesmo movidas livremente de um
lote para outro. Ajudando nesta flexibilidade estava o “formato balão” da
construção americana, um precursor de madeira do modelo esqueleto de
construção. Parece que os americanos, mais do que outros, usavam portas
239

deslizantes como divisões flexíveis. A flexibilidade no design interior se


estendia aos apartamentos. No final do século XIX, ao mesmo tempo que os
prédios de escritório estavam sendo projetados com molduras esqueletos, os
apartamentos estavam sendo construídos com divisões removíveis tal que os
compartimentos individuais poderiam ser juntados. É claro, que o espaço
interior flexível é uma das maiores contribuições de tais arquiteturas modernas
como as de Frank Lloyd Wright.

Uma casa não é uma fábrica, ou asilo, ou prisão. A supervisão e


o gerenciamento não são suas funções explícitas. Assim a eficiência do
movimento é certamente a maior consideração no design de uma casa. As
cozinhas são dispostas tão cientificamente quanto são alguns lugares de
trabalho nas fábricas, e os corredores e os quartos são espaçados de forma a
se manter um fluxo eficiente do tráfico. Aquecimento eficiente, ventilação e
iluminação também são importantes no design da casa. Permitir que os
interiores sejam flexíveis torna a realização de eventos e o espaço mais
abertos. Isto significa que existe uma consciência com relação ao arquiteto e o
usuário de que o espaço e a coisa estão somente relacionados
contingentemente, que o espaço pode ser repetidamente subdivido e
reintegrado, esvaziado e preenchido. Pode-se argumentar, entretanto, que isto
não é um sinal de que o espaço é abstrato e impessoal, porque a flexibilidade
permite que o ocupante organize e projete o interior da casa do jeito que ele

gosta. Isto permite a oportunidade de dar ao lugar uma marca pessoal. Contra
tal argumento pode ser levantada a questão das fontes dos nossos gostos
pessoais. Com que freqüência eles vêem de outros: da televisão, dos vizinhos,
das revistas de modas ou dos projetistas de interiores? Nós estamos
expressando o nosso gosto ou nos estamos definindo aqueles de outros pelos
objetos que nós consumimos? E o quão confortável nós podemos estar com os
nossos interiores se nós os mudamos freqüentemente?

Camuflagem.

Nós temos esquematizado como a diminuição do espaço


arquitetural - o uso do território para criar um sentido de um espaço esvaziado
240

e preenchido e das relações impessoais sociais - desenvolveu e reforçou a


natureza das relações sociais e de trabalho no Capitalismo. Por debaixo da
superfície desta discussão tem se escondido as questões normativas com
relação a esta transformação . o espaço esvaziável abstrato moderno e as
relações impessoais podem em si parecer nem serem benignas nem
malévolas. Mas elas têm sido usadas no geral para um ou para outro efeito?
Nós não podemos esperar de qualquer maneira provar que elas têm sido ou
não; nós somente podemos apresentar argumentos em favor de uma
interpretação ou outra.

Duas visões compreensivas que podem ser usadas para


construir os julgamentos normativos sobre os processos que nós temos
investigados são a neo-Smithiana e a neo-Marxista. Cada uma acharia na
transformação algumas misturas do bom e do mau, mas os neo-Smithianos
enfatizariam a primeira e os neo-Marxistas a última. O argumento neo-
Smithiano para o nível micro seria similar aqueles para o macro. Ele iria
defender que os usos do território dentro do capitalismo pode ser um benefício
para a sociedade como um todo. Enquanto, talvez pensando que o Panopticon
de Bentham é extremo, o neo-Smithiano defenderia que a especialização e a
divisão do trabalho requer lugares segmentados e uma hierarquia de
supervisão. Conforme esta última cresce, também cresce a primeira, e o
processo inteiro é acelerado pelo desenvolvimento de uma nova tecnologia, de

um maquinario a e da escala de operação. No geral, o efeito territorial ajuda a


aumentar a produtividade e a eficiência que, sob o capitalismo, é para
benefícios de todos.

Os neo-Marxistas, é claro, apontariam que os usos territoriais e


os efeitos não podem ser propriamente entendidos a menos que eles sejam
colocados dentro do contexto do conflito de classe do Capitalismo. Embora o
acordo trabalho-salário possa disfarçar o conflito, há uma desigualdade
inerente entre o trabalho e o capital que é traduzida no conflito sobre o
ambiente de trabalho. O capital usará o espaço de trabalho para subjugar o
trabalhador e extrair dele o valor excedente. As subdivisões territoriais e as
hierarquias dentro do local de trabalho serão usadas para dividir, conquistar e
desabilitar a força de trabalho. Chamar o processo de natural e benéfico vem
241

da tecnologia e da complexidade conforme os neo-Smithianos sugerem


fortemente para os neo-Marxistas de que o Capitalismo está empregando a
Territorialidade para conseguir o terceiro efeito territorial moderno: que é o de
camuflar o conflito de classes.

É importante lembrar que os efeitos territoriais ligados


teoricamente com a obfuscação (ou camuflagem) são os mesmos que podem
ser ligados com as operações ordinárias das organizações complexas, mas
com uma abordagem malévola . a divisão territorial do conhecimento e da
responsabilidade pode ser obfuscativa se o efeito não é a verdadeira eficiência
mas ao invés disso, por exemplo, é manter a maioria ignorante do processo
total. Dar a um território de pequena escala a responsabilidade por um
processo que passa de suas fronteiras pode ser uma má opção inadvertida, ou
pode ser um meio de enganar os outros pela alegação de que alguma coisa
está sendo feita sobre este processo. Casos para a importância normativa e
especialmente para a presença da obfuscação podem ser apresentados mais
claramente se nós primeiro examinarmos exemplos relativamente simples de
mudanças micro territoriais. Uma oportunidade ideal é oferecida por estas
mudanças das indústrias caseiras para as fábricas que ocorreu antes que
houvesse maiores mudanças na tecnologia. Nestes casos as pessoas
mudaram de uma condição de trabalho com ferramentas específicas de suas
próprias casas para trabalharem praticamente com as mesmas ferramentas em

um galpão ou fábrica que pertencia a outros e era supervisionada por outros


também. Isto é para dizer que existem casos importantes nos quais o
desenvolvimento do sistema de fábrica não foi dependente da invenção do
maquinario de larga escala. Focalizando primeiro em tais exemplos nos quais
pouco ou nenhum novo maquinario foi introduzido e mantendo esses exemplos
em mente conforme nós discutimos casos mais complexos nos permite isolar
os efeitos da Territorialidade e apresentar argumentos sobre as suas
implicações normativas.

No começo da revolução comercial muitos produtores possuíam as suas


próprias ferramentas e produziam seus produtos em suas próprias casa ou
próximo delas. O trabalho geralmente envolvia a família inteira. Mesmo os
aprendizes viviam nas casas dos trabalhadores como membros da família.
242

Estes domicílios eram parte do que pode ser chamados de uma economia
doméstica ou do lar ( figura 3.7a). Os trabalhadores estavam produzindo uma
comodidade especializada e eram dependente do mercado para sua
sobrevivência. Eles e suas famílias geralmente trabalhavam por longas horas
sob condições pobres - as casas eram geralmente estabelecimento em
salubres. Assim o trabalhador (e o aprendiz quando se tornava o seu próprio
mestre) estava ainda responsável pelo seu próprio processo de produção. Ele
podia decidir de alguma forma quando e como ele trabalharia dentro do seu
próprio estabelecimento. Ele podia se ele quisesse ficar a noite toda de pé e
então tirar o outro dia de folga. Esta liberdade do esquema de trabalho e a
divisão das tarefas com os membros da família permitia ao trabalhador
algumas oportunidades de realizar outras atividades para suplementar as suas
rendas no mercado. Com a exceção de uma poucas fábricas de tecelagem,
que serão discutidas brevemente, a maioria da indústria têxtil na Inglaterra
estava baseada neste tipo de “sistema doméstico” até o século XIX. Antes
deste período a maioria dos trabalhadores têxteis ingleses trabalhava em seus
próprios teares em suas casas, e muitos possuíam, além disso, alguma terra
para agricultura e até mesmo para um animal ou dois.

Estas “tecelagem de tear manuais” podiam vender seus tecidos


em suas próprias casas (se eles morassem nas cidades), ou poderiam trazer
os seus produtos para o mercado central ou para o prédio da associação dos

tecelões, como era o caso em algumas partes de Yorkshire, ou, como era
comum em Leicestershire, onde um mercador poderia oferecer intermediários
chamados de “carregadores” para trazer até as residências dos tecelões lã e
algodão que tinham sido desfiado ou enrolados em outras residências, e então
coletar deles o produto final, as jardas de tecido. Várias melhorias tecnológicas
ocorreram na indústria de tecelagem, mas, para a maior parte até a invenção
dos vários teares movidos a vapor no final do século XVIII e XIX, os tecelões
de residências eram capazes de construir, comprar e até mesmo alugar essas
novas máquinas e ferramentas e assim ainda permanecerem em casa. Embora
os artesãos geralmente empobrecessem e trabalhassem por longas horas por
um pequeno pagamento, eles ainda mantinham o controle sobre o processo de
produção . eles, exceto como aprendizes, não trabalhavam fora de casa e
sobre o controle de outras pessoas.
243

No caso da tecelagem não foi a invenção de grandes e caros teares


dirigidos que ocasionou o surgimento das primeiras fábricas (embora esta
tecnologia eventualmente pusesse a maioria dos tecelões domésticos fora do
negócio), conforme nós notamos, os poucos experimentos com relação às
fábricas de tecelagens começaram bem antes da invenção dos teares a vapor,
em alguns casos bem antes do século XVI. Embora esses casos prematuros
fossem raros eles deixaram uma marca como protótipos da organização de
fábrica e da disciplina e eles aumentaram em número e importância conforme
nós nos aproximamos da Revolução Industrial. O que aconteceu nesses casos
prematuros foi simplesmente que alguém com capital suficiente para comprar
um número de teares e assim o fez. Talvez o mercado estivesse expandindo e
esta pessoa viu que haviam tecelões desempregados sem teares; ou talvez
houvesse uma depressão no mercado têxtil, e os tecelões domésticos, não
sendo capazes de encontrar no mercado, precisassem vender os seus teares
para levantar dinheiro para manter suas famílias. Em qualquer caso o
capitalista que comprou os teares estocou-os em um grande prédio ou
barracão , e quando o mercado se aqueceu ele tinha agora aqueles
trabalhadores que não tinham mais os seus próprios teares para trabalharem
em seu prédio sob sua supervisão.

Entre os mais famosos industrialistas têxteis precoces estão

William Stump que tem um crédito de ter colocado mais de 100 teares sobre o
mesmo teto, e Jack de Newbury que tinha um estabelecimento ainda maior.
Um livro de nome, A história de John Winchcome, publicado em 1597,
descreve a manufatura de Jack de Newbury. Este estabelecimento
supostamente teria contido 200 artesãos juntos em um grande compartimento
manuseando 200 teares, assistidos por 100 mulheres desfiadeiras, 200
enroladores, 50 prendedores e 80 vestidores. Importantemente, estes
primeiros donos de fábricas foram reconhecidos por suas habilidades de
gerenciamento e de disciplina. O crescente número de casos de tais
manufaturas ou de lojas de trabalho pode ser encontrado em outras indústrias
bem como nas têxteis conforme nós nos aproximamos da Revolução Industrial.
Pode-se achar que eles fazem parte de um contínuo territorial: da residência,
para loja de trabalho residencial, para fábrica, e para fábrica de larga escala
244

O ponto crítico de comparação entre a residência e a fábrica é


que os mesmos produtos podem ser transformados nas mesmas ferramentas
em ambos os locais. Quais, então são as vantagens de um sobre o outro, e
quem lucra com elas? A maioria dos neo-Smithianos começaria a apontar que
a fábrica seria mais eficiente do que seria a residência. Colocar o processo
sobre um teto e sobre o controle de uma equipe, economiza movimentos,
horários, acordos internos e trocas. No caso da tecelagem sincronizaria os
tecelões , os enroladores e as desfiadeiras. Isto eliminaria o transporte
desperdiçado de lã ou de algodão e de tecido de uma residência para outra.
Além disso, se tendo muitas mãos dá a todo mundo a oportunidade de se
especializar, e isto, conforme Adam Smith argumentou, aumenta a eficiência
pelo aumento da habilidade e da inventividade. Isto também permite às tarefas
de serem simplificadas a ponto onde menos habilidade é necessária para cada
uma tal que uns poucos trabalhadores habilidosos por salários baratos podem
ser contratados e assim o preço do produto pode ser reduzido. Para um neo-
Smithiano, estes efeitos são a vantagem pra todos. Eles ofereceriam um
produto acessível e colocariam as pessoas pobres para trabalhar. Estas
inovações podem não ocorrer, entretanto, sem as habilidades organizacionais
do proprietário da fábrica ou do gerente. Ele deve ser capaz de subdividir o
processo de trabalho, para coordenar suas partes, e treinar e gerenciar os
trabalhadores. Oferecendo a estes as habilidades essenciais ele cria

empregos, e além disso não somente ganha mas justifica o seu lucro.

O sucesso desses primeiros “industrialistas” em todas as áreas


era freqüentemente atribuído à sua disciplina gerencial mesmo mais do que ao
seu uso dos novos desenvolvimentos da tecnologia. Os fabricantes
contemporâneos explicam que colocando os processo sobre um teto criaria-se
eficiências de movimento e se reduziria as despesas por se ter menos
intermediários, se os trabalhadores pudessem ser treinados e disciplinados. O
papel crítico do gerenciamento tornou-se formalizado e subdividido no século
XIX em campos especializados. Embora o processo de fábrica total pudesse
parecer uma progressão natural, não era colocado em prática sem um esforço
enorme.
245

Era difícil disciplinar uma força de trabalho para o regime da


fábrica. O trabalho em uma fábrica era diferente do trabalho doméstico, e os
trabalhadores geralmente resistiam à mudança, embora a resistência variasse
de acordo com o tipo de trabalho e indústria. A resistência do trabalhador à
disciplina da fábrica foi uma razão importante porque o sistema de fábrica não
extinguiu a indústria têxtil antes do uso dos teares a vapor. Muito da
resistência pelo trabalho da fábrica vem daqueles moradores que viram o
sistema de fábrica com salários baixos e produtos mais baratos como uma
ameaça as suas próprias sobrevivências. Tais preocupações tomaram voz no
começo de 1550 nas reivindicações contra as lojas de trabalho de tecelagem e
as manufaturas que barateavam o trabalho.

A inconveniência e os problemas que os trabalhadores atribuíam


aos primeiros e pequenos empreendimentos de trabalho de fábrica se
tornaram maiores conforme as fábricas aumentaram em tamanho e número, e
os novos perigos se tornaram evidentes. No século XIX o sistema de fábricas
em todos os campos de manufatura era também visto como uma ameaça à
fábrica ou à vida família.

Se o sistema de fábrica prevalecer... ele tirará todos os trabalhadores pobres


de suas residências e de seus lares para colocá-los em fábricas, e então eles
serão obrigados a trabalhar separados, e não terão as mesmas ajudas e as

vantagens que eles têm em casa. Suponha que eu seja um pai que tenha
quatro, cinco ou seis crianças, e uma delas tem quatorze, outra doze e outra
dez: se eu estiver como a minha família em casa eu posso dar a eles emprego,
a um deles eu peço para bobinar, ao outro eu coloco para trabalhar no tear, e
um outro para trabalhar na fiadeira; mas se que for para a fábrica, eles não
deixarão que eu leve esses garotos, e então eu os deixarei a este mundo
grande para perecer.

Outra e velha fonte de resistência foi o medo de que o tempo da


fábrica e a disciplina iriam diminuir a flexibilidade dos trabalhadores. Ele
perderia o comando do seu próprio horário de trabalho. Mesmo quando o
trabalho em casa era incerto, quando o pagamento era baixo e quando o
número de horas na residência devotados ao trabalho era maior do que seria o
246

caso na fábrica, ele entretanto parecia ter um prêmio pela liberdade de


organizar o seu trabalho e lazer dentro de seu próprio lar. Esta liberdade era
difícil de se medir e estava se erodindo no início do século XVIII com a
autorização da legislação que permitiam às autoridades de entrarem nas casas
dos trabalhadores para verem se tinham guardado qualquer retalho de tecido
ou outros materiais que eram tecnicamente dos mercadores. Tais perdas de
autonomia e o aumento do passo da produção doméstica para muitos tecelões
independentes ainda não compensava o balanço em favor do emprego na
fábrica.

Os extraordinários sacrifícios que alguns fariam para manter a


liberdade do trabalho doméstico está ilustrado nas medidas tomadas pelos
tecelões de faixa de seda no século XIX em Coventry, Inglaterra. Relativo a
outras áreas de tecelagem, os teares a vapor chegaram tarde para a
tecelagem de faixas de seda. Até a metade do século XIX os teares produziam
a maioria das faixas. A indústria tinha visto a introdução da nova tecnologia na
“máquina” holandesa e tear Jacquard, mas ambos eram teares manuais, e
além disso nas produções de faixas mais finas estas eram inadequada. No
início do século XIX praticamente toda produção de Conventry era feita por
teares manuais nas residências dos trabalhadores. Este era ainda o caso até o
início do ano de 1830, embora as horas de trabalho desiguais dos artesãos
domésticos e as disputas sobre os desfalques entre eles e os mercadores fez

estes últimos pensarem seriamente no sistema de fábrica no qual “homens e


mulheres trabalham em horas regulares, em um ritmo estabelecido por toda
semana” de forma que em 1838 varias fábricas empregavam os tecelões de
teares manuais nas lojas de trabalho e nas fábricas.

As fábricas de teares modernos para faixas foram introduzidas


em Conventry no ano de 1850 e estas foram vistas pelos artificies trabalhando
em casa como uma enorme ameaça para os seus lucros e suas liberdades.
Para permanecer em casa estes artífices precisavam competir com o sistema
moderno. O ponto notável foram os passos que eles tiveram para resistir em
se tornar empregados nas fábricas com teares modernos. Muitos desses
artesãos de Conventry viviam em casa com três andares enfileiradas; melhor
dizendo, cada casa com três andares dividia as suas paredes exteriores com
247

outra casa tal que um bloco inteiro continha uma fileira ininterrupta de edifícios
ligados uns aos outros. O terceiro andar era um sótão o “topshop” no qual a
tecelagem ocorria. A alternativa dos donos das casas em entrarem em uma
fábrica moderna movida à vapor era deixar o “monstro” do vapor entrar em
suas casas; transformar as suas próprias casas em fábricas à vapor. O que
eles faziam era colocar o motor à vapor no final das fileiras das casas dos
artesãos, e conduzir o poder para cima até o topshop no final da fileira, e
transmitir o poder e mudando a fileira de um topshop para outro através das
partições das paredes separando as casas. No inicio de 1850 várias centenas
de casas tinham sido assim transformadas, e novas estavam sendo
construídas nessas bases. Havia um esquema para desenvolver “utopias”
urbanas pequenas de vários quarteirões baseados nessas casas-fábricas.
Claro que elas não podiam competir por muito tempo. As despesas do aluguel
do motor de vapor (a maioria senão todos, eram alugados) fez necessário para
cada morador trabalhar por longas horas. Ele tinha que pagar a sua parte do
aluguel mesmo se estivesse doente demais para trabalhar. No final do ano de
1860 estas pressões reduziram as casas de lojas de trabalho em Conventry
para uma coisa do passado.

Muitos dos medos do trabalho na fábrica expressado por estes e


outros produtores domésticos passariam uma vez que as fábricas com
máquinas de poder substituíram a indústria doméstica. As condições destas

primeiras fábricas na maioria das indústria eram geralmente cruéis. Homens,


mulheres e crianças trabalhavam por longas horas, sob condições miseráveis ,
e por pouco pagamento. A associação de fábricas com prisões, asilos e casas
de pobres não era baseada simplesmente no fato de que o trabalho era
pensado como sendo um agente moral e que as fábricas serviam como um
modelo organizacional. A conexão mais direta naqueles internos destas
instituições que geralmente faziam parte da força de trabalho da fábrica. Eles
faziam isto de duas maneiras. Primeiros as instituições ofereciam trabalhos
para os seus internos, assim havia uma combinação de prisão e fábrica.
“Algumas fábricas-casas de trabalhos foram iniciadas no final do século XVII,
incluindo em Bristol, em 1697 e em Exeter em 1698-1701, mas o principal
ímpeto veio do ato de 1723 que rapidamente levou à construção de pelo
248

menos sessenta casas de trabalhos nas províncias e cinqüenta em Londres.


Segundo, e mais espalhado, foi

o emprego maciço de aprendizes paupérrimos na indústria privada... Estes


aprendizes pobres não eram empregados por causa que eles necessariamente
eram baratos... Os aprendizes eram contratos porque de outra forma os
moinhos ficariam sem trabalho suficiente ou no mínimo sem o trabalho
suficiente das crianças... e as crianças pobres representavam o único tipo de
trabalho que em muitas áreas podia ser realizados neles.

Assim não há dúvida de que o controle territorial do capitalista


sobre o processo de trabalho na fábrica reduziu a liberdade dos trabalhadores,
parece impossível determinar se, no geral, o sistema da fábrica realmente
aumentou mais a dureza e o empobrecimento para o pobre trabalhador do que
fez a indústria doméstica. O neo-Smithiano argumentaria que se o pobre
trabalhador foi deixado na miséria isto era um problema temporário, e que o
padrão de vida dos trabalhadores da fábrica nos países industrializados desde
o início e o meio do século XVIII tem aumentado consideravelmente. E, se os
trabalhadores perdem algum tipo de liberdade ao entrarem nas fábricas, eles
eventualmente ganham mais em prosperidade e encurtamento no dia de
trabalho. Estes ganhos, é claro, seriam devidos ao aumento geral na eficiência
que vem do sistema de fábrica.

O neo-Marxista apontaria que o argumento da eficiência para o


sistema de fábrica é obscuro em algumas distinções críticas. Primeiro, se há
uma eficiência em trabalh asse próximos sob um mesmo teto , então esta
mesma eficiência pode ser conseguida colocand o os trabalhadores dentro de
uma cooperativa ao invés de uma fábrica capitalista. Uma cooperativa
permitiria que os trabalhadores que trabalham juntos em um local estivessem
no controle de suas próprias ferramentas e tivessem um representante no
gerenciamento dos seus processo de trabalho. Se os trabalhadores em uma
cooperativa pudesse essas mesmas ferramentas, as suas próprias, em um a
proximidade próxima um do outro para produzir as mesas comodidades que
eram produzidas nas fábricas capitalistas, então com o que o dono e o gerente
da fábrica contribuiram para a produtividade e eficiência?
249

A resposta neo-Marxista seria que o capitalista de fato não


contribui de maneira essencial para o processo. A eficiência imposta
gerenciamento descrita pelo Smithianos é uma medida atenue, e geralmente
incluí os trabalhadores trabalhando por horas mais longas e por menos
dinheiro. Fazer o trabalhador trabalhar por mais horas e por menos dinheiro é
como o capitalista reduz o seu custo por produto e extrai um lucro. O sistema é
baseado na descaracterização do trabalho e na desabilitação do trabalho.

Sumarizando o processo todo, Gras afirma que a mudança para


a fábrica foi

parcialmente para propósitos de disciplina, de forma que os trabalhadores


poderiam ser efetivamente controlados sob a supervisão de um capataz. Sob
um mesmo teto, ou dentro de um espaço pequeno, eles poderiam iniciar o
trabalho com o nascer do sol e continuar trabalhando até o nascer do sol, sem
períodos para descanso e refresco. E sob pena de perda de emprego eles
poderiam ser mantidos assim por quase todo ano.

Fazendo eco a Gras, Braverman afirma:

que o controle sem a centralização do emprego (dentro de uma fábrica) era, se

não impossível, certamente muito difícil, e assim a pré-condição para o


gerenciamento era a união dos trabalhadores sob um teto único. O primeiro
efeito de tal movimento era um reforço sob as horas regulares de trabalho, em
contraste com o ritmo alto imposto que incluía muitas interrupções, dias curto e
feriados, e em geral impediam uma prolongação do dia de trabalho para os
propósitos de produzir um excedente sob as condições técnicas então
existentes.

Naquelas industria que não tinham um maquinario caro, uma


desabilitação da força de trabalho e barateamento das tarefas de trabalho
pode ter sido o único meio pelo qual um capitalista tinha o lucro. Se os
processos, que eram familiares para os artesãos, podem ser espacialmente
divididos dentro das fábricas, e se os trabalhadores não fossem permitidos de
250

ver a operação a operação da fábrica inteira, mas ao invés disso fossem


mantidos espacialmente segmentados, os trabalhadores podiam então pensar
que havia mais do processo do que realmente havia. Visto que cada artesão
habilidoso sozinho poderia ter realizado os planos, ordenado as matérias-
primas, operado e reparado o equipamento, e estocado o produto final até a
hora de vendê-lo; na fábrica cada um desses processos seria realizado por
especialistas que estariam espacialmente restritos a suas respectivas
estações de trabalho, seja no compartimento de planejamento, no de
estocagem, no de produção, no armazém, ou em qualquer outro
compartimento. De acordo com Marglin, “Separar as tarefas designadas para
cada trabalhador era o único meio pelo qual o capitalista poderia, nos dias
precedendo o maquinario custoso, assegurar que ele poderia continuar sendo
essencial para o processo de produção como integrador dessas operações
separadas em um produto para o qual um grande mercado existia. Mesmo em
uma relativamente simples fábrica de algodão, um produtor notou que um
competidor não permitia que qualquer um dos seus empregados , nem mesmo
o seu gerente, misturasse algodão “de forma que ele nunca poderia arruinar o
seu negócio”. O Espectador, em 1866, admitia que o papel do gerenciamento
é artificial, quando ele apontava que uma cooperativa, “embora apontando que
o trabalhador poderia gerenciar lojas, moinhos e todas as formas de indústria
com sucesso, e que as cooperativas imensamente aumentava as condições de
vida do homem, eram entretanto defeituosas porque elas não deixavam um

lugar claro para os mestres”.

A eficiência da fábrica, que o neo-Smithiano atribui ao sistema de


trabalho capitalista, é vista pelo neo-Marxista como sendo uma medida atenue
da produção que incorpora formas perversas, embora geralmente disfarçadas,
de exploração assistida pelas relações territoriais da autoridade dentro da
fábrica - especialmente os efeitos territoriais modernos de esvaziamento do
espaço e de relações impessoais. Para os Marxistas, a segmentação espacial
do trabalho, a restrição dos movimentos dentro da fábrica, a separação
territorial do planejamento de longo e curto alcance, tudo isso ajuda a
desabilitar o trabalho, a fragmentar o conhecimento do trabalho e a
responsabilidade, e a dividir o próprio trabalho. Assim esses efeitos são
obscurecidos pela racionalização do capital que apresenta eles primariamente
251

como componentes geográficos neutros para um processo eficiente e


impessoal.

O desenvolvimento do maquinario dirigido melhorado e a


instrumentação transformou ainda mais os efeitos do território. Sob estas
inovações o trabalhador da fábrica é virtualmente um apêndice da máquina.
Ele está preso a ela no espaço. Mesmo a orientação do seu corpo e o
movimento dos seus mem bros são determinados pelas neces sidades da
máquina. É a máquina dirig ida e não o trabalhador que dita o ritmo do
trabalho. E este passo mecânico se torna uma ajuda em um substituto para
supervisão pessoal do gerente, uma vez que ela intensifica e disfarça as
funções do supervisor. De acordo com Braverman: “O maquinario oferece para
o gerenciamento a oportunidade de fazer por meios totalmente mecânicos o
que tinha sido previamente tentado de se fazer por meios de supervisão e de
disciplina. Citando Babbage, Braverman acrescenta “que uma grande
vantagem que nós podemos derivar do maquinario, é a checagem que ela
impõe sobre a desatenção, o ócio ou a desonestidade dos agentes humanos”.
O supervisor não precisa mais está fisicamente presente a todo momento para
ter certeza que os trabalhadores estão trabalhando a plena capacidade. Agora
o ritmo e a duração do trabalho pode ser estabelecido pela velocidade da
máquina. Talvez somente uma olhada ocasional pelo capataz seria o
suficiente para permitir a ele julgar se o trabalhador estava realizando o

trabalho. E, em muitos casos, até mesmo essa olhada poderiam não ser
necessária, para muitos tipos de máquinas que têm alimentação instantânea
que pode avisar o supervisor se o maquinario não está funcionando bem ou se
o trabalhador não está realizando a sua tarefa. Tal maquianario pode até
mesmo conter testes embutidos para a qualidade, desta forma incorporando
mais uma função do supervisor.

Ter as máquinas assumindo parte do papel do supervisor abre a


possibilidade de novas relações geográficas entre os trabalhadores e os
supervisores. Os trabalhadores não precisavam mais serem colocados ao
longo de fileiras em um grande e aberto espaço fabril. Nem precisavam haver
mais supervisores do que os atualmente presentes no piso da fábrica. Com a
introdução de processos de telecomunicações modernos é até mesmo possível
252

para alguns trabalhadores de negócios não precisem estar trabalhando juntos


sob um mesmo teto. As tarefas podem ser realizadas localidades menores e
mais dispersas, e até mesmo em casa. O sistema de comunicações pode
permitir que a informação viaje eficientemente de uma unidade para outra e os
aparelhos de alimentação automática podem monitorar a velocidade e a
qualidade do trabalho. Os neo-Smithianos podem anunciar tais mudanças
conforme aumenta-se a flexibilidade do trabalhador e a liberdade. Através
dessas inovações os trabalhadores podem ser capazes de exercitar mais
controle sobre o tempo do seu trabalho e sobre a natureza do ambiente de
trabalho. O neo-Marxista pode alegar que estas mudanças podem tornar o
processo de trabalho mais impessoal e misterioso , e ainda mais podem
obscurecer as funções gerenciais de supervisão e controle, e podem
fragmentar ainda mais a força de trabalho e reduzir a consciência de classe.

Os dois pontos de vistas político-econômico providenciam


importantes diferenças na interpretação da Territorialidade sobre o
Capitalismo. Não deve ser esquecido entretanto que estas diferenças são
consoantes com os possíveis efeitos teoricamente da Territorialidade, e que a
teoria da Territorialidade apontou que as diferentes teorias político-
econômicas enfatizariam alguns potenciais territoriais sobre outros. A lógica da
Territorialidade não é cativa de uma teoria econômica-política particular. Isto
torna possível para diferentes visões enfatizar alguns efeitos territoriais, e para

outros efeitos simplesmente estarem além de uma teoria econômico-política


particular. Deixando de lado as implicações morais da especialização, os
teóricos concordariam no geral que o aumento da Territorialida de contribuiu
para a divisão minuciosa do trabalho sob o Capitalismo, tornando o trabalho
impessoal, e circunscrevendo as hierarquias do conhecimento e
responsabilidade. Em adição, os neo-Sm ithianos e os neo-Marxistas podem
concordar que existe tanto para a sociedade capitalista quanto para a não-
capitalista interrelações dinâmicas entre a Territorialidade, a tecnologia e tais
características organizacionais como a centralização, a hierarquia e o alcance
do controle. Os esboços dessas interconexões eram parte das dinâmicas
internas da teoria da Territorialidade e estão ilustrados na figura 2.1 e 2.2. Os
neo-Smithianos e os neo-Marxistas podem se basear nestas dinâmicas
particulares, mas outros teóricos sociais que têm focalizado em questões
253

menores da estrutura organizacional também pode ajudar a especificá-las.


Conforme nós mencionamos na discussão da Territorialidade e ilustramos no
capítulo 4, sobre a Igreja, essas interrelações se tornam mais precisas quando
a teoria da Territorialidade é combinada especialmente com os ramos dos
modelos Weberianos de organização. Nós mudaremos agora e examinaremos
a Territorialidade em várias instituições contemporâneas, focalizando nas
dinâmicas internas entre a Territorialidade e a estrutura organizacional
enquanto mantemos em mente as interpretações neo-Smithianas e neo-
Marxistas.

As dinâmicas territoriais nos cenários


contemporâneos.

O capítulo 2 aponta que muitos dos efeitos potenciais da


Territorialidade são em oposição uns com os outros. A vantagem de não se ter
de descobrir o que está sendo realmente controlado pode também significar
que a pessoa controlando pode não saber que ela está sobre controle, e não
definir pelo tipo o que está sendo controlado pode ser uma causa de má
escolhas ineficientes. Subdividir territorialmente o conhecimento e a
responsabilidade pode fazer uma organização mais eficiente, até um ponto,

por exemplo, de requerer menos supervisores por supervisionados - em outras


palavras pelo aumento do alcance do controle da organização. Mas o mesmo
grupo de tendências pode levar à desorganização, à segmentação demais , e
à alienação (ver figura 2.2 ). Algumas dessas interconexões gerais entre a
Territorialidade e a estrutura organizacional têm sido ilustradas através de
exemplos da história. A tarefa agora é torná-las mais precisas e aplicáveis a
organizações contemporâneas particulares. Isto significa estender a lógica
interna da teoria para desenvolver as relações que são adequadas às
organizações modernas.

Conforme notado no capítulo 2, um caminho frutífero para


explorar as dinâmicas internas da teoria em um contexto contemporâneo seria
primeiro focalizar nas interrelações hipotetizadas entre a Territorialidade ( t), o
254

alcance do controle ( sp) (que é a razão do supervisor por supervisionados), e


a variabilidade geográfica (gv). A interrelação entre as duas primeiras foi
discutida no capítulo 2 no contexto da combinação (d) “supervisão eficiente por
alcance do controle”, e conduz diretamente à hipótese de que , tudo mais está
sendo igual, com tudo mais sendo igual conforme a Territorialidade ( t)
aumenta, o alcance do controle ( sp) aumenta até um ponto. A variabilidade
geográfica (gv) e sua relação com a Territorialidade (t) foi discutida no capítulo
2 no contexto do terceiro efeito territorial (o reforço eficiente do acesso) e
conduz à conexão da variabilidade geográfica ( gv) da Territorialidade com a
variabilidade geográfica/temporal das coisas a serem controladas.

Em adição, a teoria geral propõe que a Territorialidade é uma


estratégia para estabelecer acessos diferenciais aponta para a conexão óbvia
entre a utilidade desta estratégia e a disponibilidade de outra, os meio não-
territoriais de contato ( i) que por sua vez dependem em parte da disposição
tecnológica. Por exemplo, se os computadores podem substituir os professores
- um exemplo de ( i) - e então seria a não necessidade dos estudantes se
encontrarem mais dentro do território da sala de aula. Duas outras variáveis
ligadas à Territorialidade - o nível de habilidade individual e o nível de
complexidade da tarefa - são partes implícitas da teoria, especialmente na
discussão das hierarquias de trabalho. A habilidade e a complexidade estão
geralmente intimamente relacionadas, e para simplificar o assunto elas podem

ser combinadas em uma medida única de complexidade (com).

Resumindo, então, nós temos as seguintes interrelações


estipuladas diretamente, ceteris paribus:

1. conforme t aumenta, sp aumenta;


2. conforme gv aumenta, t diminui;
3. conforme gv aumenta, i aumenta;
4. conforme i aumenta, t diminui;
5. conforme i aumenta, sp aumenta.

Entre os colorários estão ceteris paribus:


255

6. conforme com aumenta, sp diminui;


7. conforme com aumenta, gv aumenta;
8. conforme com aumenta, i aumenta;
9. conforme com aumenta, t diminui.

Por conveniência o arranjo completo das relações bivariadas


hipotetizadas pode de ser colocada na seguinte matriz de resumo.

t gv sp com i
t – + – –
gv – – + +
sp + – – +
com – + – +
i – + + +

Cada cela contém a direção hipotetizada da mudança entre os


pares da variáveis, mantendo todo resto constante.

Testar estas interrelações significa que organizações devem ser


encontradas para as quais os dados sobre duas os mais das cinco variáveis
existentes e para os quais os valore s dessas variáveis mudam enquanto

virtualmente tudo mais é mantido constante. É a segunda parte que tornar a


seleção tão difícil entre até mesmo os casos contemporâneos, e deixa
sozinhos os casos históricos , entretanto parecem ser os dados para várias
organizações se aproximando destas condições. Uma destas é a militar.

A discussão da Territorialidade micro tem envolvido o trabalho


indoor e parece peculiar mudar para um exemplo “outdoor”, tal como o das
forças armadas. Mas a militariedade entretanto oferece um ambiente de
trabalho. Sua estrutura é claramente hierárquica e autoritária. Seu propósito é
explícito e a sua forma é a mesma na maior parte do mundo. Esta claridade e
uniformidade permite a nós focalizarmos primariamente nas interrelações
hipotetizadas da Territorialidade e da estrutura organizacional sem ter que se
preocupar sobre quem está controlando quem e para quê propósitos.
256

Dentre os serviços, o exército oferece os casos mais claros de


graus de Territorialidade, e os manuais oficiais do exército descrevendo as
organizações militares têm estado disponíveis por décadas. Destas e de outras
fontes pode ser inferido o grau para o qual as tarefas de uma unidade militar
são territoriais ( t), para dá a medida do alcance das unidades de controle (sp),
formas de contato indireto ( i), complexidades/habilidades (com) e a
variabilidade geográfica e temporal de suas tarefas (gv).

Por exemplo, as unidades de combate de níveis mais baixos


dentro da infantaria, dos Rangers, dos Green berets ou das Forças Especiais
se diferem uma das outras nos graus de Territorialidade em suas missões, em
suas extensões de controle, em grau de contato indireto, e na complexidade
de suas tarefas. Se graus de Territorialidade (t) podem ser inferidos a partir de
descrições das suas missões. Da mesma forma pode ser feito a variabilidade
geográfica (gv) da suas tarefas. Seus alcances de controle ( sp) são
simplesmente os números de oficiais por homens em cada nível na hierarquia;
os canais de comunicação ( i) são medidos pelo total de equipamento de
comunicação designado a cada unidade; e as habilidades e a complexidade
das tarefas (com) são indicadas pela lista de homens e oficiais.

Localizadas ao longo de uma continuação que se estende desde

de muito territorial até levemente ou não-territorial, nós temos respectivamente


o pelotão da Infantaria, que tem como um dos seus principais objetivos a
“manutenção e a segurança do terreno”; também os Rangers áereo-
transportados, cujo princip al objetivo é a exploração e cuja única funç ão
territorial é “ a segurança dos objetivos alvos” (uma escala menor a ser
guardada por um breve período de tempo); e as Forças Especiais ou Green
Berets, cujo objetivo é a guerra não-convencional. Isto significa “operações
que incluem mas não são limitadas pela guerra de guerrilha, evasão e fuga,
subversão e sabotagem, conduzidas durante períodos de paz e guerra em
território hostil ou politicamente sensível”. Manter o território não é uma das
suas missões estabelecidas.
257

Em outras palavras, os objetivos da infantaria são mais


estacionários e podem ser alcançados territorialmente, e os objetivos dos
Green Berets são menos estacionários e menos territoriais. (Podem haver
outras diferenças geográficas não-territoriais nos seus objetivos, mas quais
elas são não é tão aparente). Da nossa teoria nós esperaríamos que, tudo
mais fosse igual, quanto maior for o objetivo, maior será o alcance do controle
e menos será a necessidade pela comunicação e habilidades variadas. Por
outro lado, se o objetivo se torna menos territorial e a tarefa mais complexa e
variada geograficamente, então haverá um aumento na comunicação e na
habilidade e um decréscimo no alcance do controle. (Nós não podemos
predizer em que isto ocorre ou em que proporções).

A descrição do exército de 1970 da sua própria organização


combina com as nossas expectativas. As unidades selecionadas têm as
seguintes composições.

A mais territorial, o batalhão de Infantaria, tem:

no nível da companhia de rifle,


6 oficiais (dos quais um é um capitão), e 165 homens;
no nível de batalhão de rifle,
1 oficial ( um tenente) e 43 homens;

e no nível de esquadrão de rifle,


nenhum oficial e 10 homens com os seguintes postos;
um sargento do staff, 2 sargentos, 4 especialistas e 3 particulares
de primeiras classe;
Também no nível do esquadrão existem duas peças de
equipamento de rádio.

No grupo intermediário territorialmente, os Rangers de transporte aéreo, tem-


se:

no nível da companhia,
8 oficiais 9 (dos quais 2 são capitães), e 208 homens;
no nível do pelotão,
258

3 oficiais (todos tenentes) e 129 homens;


e no nível da patrulha,
nenhum oficial e 5 homens com os seguintes postos:
1 sargento de staff, 1 sargento, 2 especialistas e um particular
de primeira classe;
também cada patrulha tem 3 peças de equipamento de rádio.

Para os Green Berets (que são menos territoriais), as unidades


são chamadas de destacamentos e são geralmente de três tipos: “A”, “B” e “C”.
O destacamento “A” é a unidade operacional básica e tem 2 oficiais (um
capitão e um tenente) e 10 homens, dos quais todos são sargentos de vários
postos. O destacamento “B” é uma unidade de comando pequena e tem 2
oficiais (um major e um capitão) e 3 homens, todos de vários postos de
sargento. O destacamento “C” tem 7 oficiais ( um tenente-coronel, 2 majores e
4 capitães) e 15 homens, todos de vários postos de sargento. Não há lista de
equipamento padrão para estas unidades. Suas necessidades variam por
missão e em geral eles terão pouco equipamento de comunicação, uma vez
que a forma preferida de contato entre eles é a face a face.

A partir desses dados, nós podemos ver que o exército, embora


relutantemente, se encaixa à nossa predição. Ele altera seus requisitos para
um alcance do controle, formas de comunicação, e habilidade de seus homens

conforme o grau da Territorialidade das missões mudam. As unidades de


infantaria têm um grande alcance de controle, o número mais baixo de oficiais
graduados por tropas e o menor número de oficiais por particulares de primeira
classe. A companhia Ranger tem o maior número de sargento por particulares
de primeira classe no nível do pelotão e mais um capitão por companhia do
que a infantaria. Também, os Rangers são divididos em pequenas unidades -
as patrulhas - e têm mais equipamentos de rádio. (Se eles não tivessem, se
esperaria um alcance de controle mais baixo). As Forças Especiais ou os
Green Berets têm uma proporção notavelmente maior de oficiais por homens,
e todos os homens têm os postos de sargento ou acima. (Se houvesse mais
equipamento de rádio por pessoa, poderia se esperar um alcance levemente
maior de controle).
259

A exanimação de organizações do exército em outros países, e


no passado (comparando, por exemplo, os objetivos territoriais e as
organizações internas das unidades de cavalaria e Infantaria), provavelmente
confirmaria as relações hipotetizadas. Quanto mais estudos são realizados,
mais precisas podem ser a calibração das relações e dos seus alcances.

Esta evidência foi tirada das regras publicadas da organização.


As regras podem não ser seguidas letra por letra na prática, mas elas
realmente influenciam um comportamento. Estes manuais são distribuídos
para as tropas e são usados nos cálculos estratégicos. Conforme qualquer
levemente familiarizado com a vida do exército pode atestar, o exército segue
o “manual” e as regras tão uniformes e inflexíveis quanto elas podem ser.

A evidência para algumas dessas interrelações em outros tipos


de locais de trabalho pode ser reconstruída a partir do grande número de
trabalhos existentes sobre os ambientes da fábrica e do trabalho. Estes
estudos estão baseados no comportamento real ao invés de regras, embora
muito do comportamento no trabalho seja minuciosamente estipulado pela
regras. Muitos desses estudos não tinham a intenção de ser sobre a
Territorialidade, nem eles citam as cinco variáveis exatamente como nós
temos. Assim seus dados podem ser re-examinados para indicar os efeitos da
Territorialidade. Por exemplo, um estudo bem conhecido dos trabalhadores

industriais mede as seguintes características das tarefas: a variedade do


objeto - o número de partes, ferramentas e controles a serem estipulados; a
variedade do motor - a variedade em prescrever o local de trabalho, variedade
na locação física do trabalho, variedade das operações físicas prescritas do
trabalho; e autonomia - quantidade de latitude do trabalho na seleção do
método de trabalho, na seleção do ritmo de trabalho, em aceitar ou rejeitar a
qualidade de materiais de entrada, em servir para serviços externos; a
interação necessária - número de pessoas necessária para se interagir por
pelo menos duas horas, o total de tempo gasto nas interações necessárias; a
interação opcional no trabalho - número de pessoas disponíveis para interação
na área de trabalho, quantidade de tempo disponív el para interação enquan to
se trabalha; a interação opcional fora do trabalho - total de tempo que o
trabalhador é livre para escolher sair da área de trabalho sem repressão;
260

conhecimento e habilidade - total de tempo requerido para aprendera realizar


um trabalho com proficiência; responsabilidade - o grau de ação remedial
necessário para corrigir problemas da rotina do trabalho.

Em termos de variáveis da teoria, a Territorialidade ( t) pode ser


encontrada nas medidas de autonomia e nas interações opcionais dentro e
fora do trabalho. A complexidade geográfica (gv) é indicada pelo objeto e pela
variedade motor, e a complexidade/habilidade da tarefa (com) é indicada pelo
conhecimento/habilidade e responsabilidade. Como nós esperaríamos da
teoria, os dados mostram que os índices que nós usamos para a
Territorialidade estão inversamente relacionados com aqueles para a
complexidade/habilidade e variabilidade geográfica. É interessante notar que o
estudo revela também que as prerrogativas para a baixa Territorialidade e a
alta complexidade e a variabilidade geográfica estão positivamente
relacionadas com a satisfação no trabalho. Pode não ser surpresa dado que
nós sabemos sobre a subdivisão minuciosa do trabalho, o controle territorial e
a resistência histórica dos trabalhadores à disciplina da fábrica.

As interrelações específicas entre estas variáveis podem se


manter somente quando tudo continua o mesmo. Mas isto acontece raramente
mesmo no laboratório. O trabalho ocorre em um contexto social sempre em
mudança e as atitudes dos trabalhadores são variáveis. O trabalho moderno

requer uma força de trabalho gerenciável, para usar os termos de Foucault, de


“corpos dóceis”. Recentemente os trabalhadores no ocidente industrializado
têm aparentado ser menos dóceis. Nos anos de 1960 e 70 marcou-se um
período nos Estados Unidos de casos severos de ausência de trabalhadores,
e de baixa produtividade, e de sabotagem industrial. Estes problemas eram
parte de um descontentamento social mais geral.

Ignorando o contexto social maior e focalizando somente no


trabalho, têm-se colocado o peso da baixa produtividade do trabalhador sobre
os ombros do próprio trabalhador. Isto foi algo fácil demais. As uniões têm
tornado os trabalhos moles demais. O que é preciso é uma disciplina maior. As
uniões devem ser enfraquecidas, os salários abaixados ou a indústria deve ir
embora para encontrar grupos de trabalhos mais baratos ou mais dóceis. Em
261

resumo, a solução é ainda mais disciplina industrial. Outros nos


gerenciamentos põem a culpa no gerenciamento excessivo e geralmente
pobre. O planejamento de longo alcance e a tecnologia têm sido sac rificados
por lucros rápidos. A automação e a especialização minuciosa tem tornado os
trabalhos monótonos e o trabalho parece sem sentido. Os empregos deveriam
ser reprojetados e tornados mais interessantes e devem ser dadas maiores
responsabilidades aos trabalhadores.

Propostas para tornar o trabalho mais atraente têm passado das


mudanças essencialmente domésticas na descrição do trabalho, para o
aumento real das complexidades dos mesmos, para ter os trabalhadores se
envolvendo no gerenciamento. Daquilo que aumenta a complexidade (real ou
aparente) e as responsabilidades das tarefas, a maioria implica se não for
construída explicitamente na nova descrição, em um controle menos
estritamente territorial sobre o trabalho. É claro que é isto que a lógica
territorial sugere. Enquanto as tarefas foram simplificadas usando-se a
Territorialidade para reduzir o ambiente, relaxar a Territorialidade ajudaria a
“aumentar” e tornar as tarefas mais complexas. Como a teoria espera, e o
trabalho no gerenciamento industrial demonstra, para tarefas especificas, a
complexidade do trabalho, o movimento discreto no espaço e no tempo e uma
satisfação com o trabalho são geralmente interrelacionados. As restrições
territoriais certamente teriam que ser elevadas até algum grau se os

trabalhadores tivessem que participar no gerenciamento. Se eles têm que


ajudar a fazer a companhia andar, eles também devem ter acesso a maioria
das áreas no local de trabalho. Mesmo as tentativas mais modesta em
aumentar a responsabilidade do trabalhador geralmente resulta em se dar aos
trabalhadores uma liberdade geográfica maior correspondentemente

Um dos esforços pioneiros em aumentar a complexidade do


trabalho e a responsabilidade do trabalhador foi realizado na indústria
automotiva sueca. No meio dos anos 70, a Volvo e a Saab deram aos
trabalhadores tarefas mais complexas alterando a linha de montagem para
incluir “grupos de trabalho” e “buffers”. Um time de trabalho para a linha de
montagem automotiva é composto de sete trabalhadores;
262

seis trabalham em pares enquanto que o sétimo serve como um coordenador,


vendo que materiais chegam e entrando em cena quando alguém está
temporariamente ausente. De algumas maneiras o coordenador tem a função
do capataz, mas há uma diferença importante: a posição é alternada entre os
membros do grupo numa base de uma semana. Os grupos não somente
constrói as carcaças, ele leva à cabo mui tas funções até então reserv adas
para trabalhadores habilidosos e para empregados de colarinho branco. Ele
faz a maior parte da manutenção do seu maquinario, a maior parte do controle
de qualidade e, em consultas com o gerente, contrata novos membros e
controla um... orçamento para um novo equipamento. Ele também pode,
dentro dos limites, contratar substitutos temporários para membros doentes.

O buffer é um meio de estocar o trabalho de forma que

a próxima peça... não chega ditada por um tempo mecânico pela linha mas é
removida do estoque do buffer; o time de produção vai ao buffer entre ele e o
grupo subsequente. As conseqüências desse sistema é que a autonomia do
grupo é radicalmente aumentada. O grupo controla o seu próprio tempo de
produção. E uma produção mais rápida para preencher o buffer, permite
intervalos mais longos, geralmente de mais de um hora e meia. O sistema de
buffer permite a cada grupo controlar o seu próprio processo de trabalho mais
ou menos como ele gosta. Os limites são definidos pelo tamanho do buffer,

mas, dentro deles, o grupo estabelece o seu próprio tempo, determina o seu
calendário e se o buffer estiver completamente cheio, pode simplesmente tirar
uma hora ou mais de folga.

Os grupos de trabalhos e as zonas de buffer não estão sem


problemas. “A união tem dificuldade em persuadir os grupos a contratarem
mulheres e trabalhadores mais velhos que podem cortar a eficiência do
grupo... e problemas pessoais têm se desenvolvido”. E o sistema de buffer é
caro de se manter, “porque ele requer espaço para os buffers entre os grupos
e ele amarra o capital no estoque”. Entreta nto ele tem os seus benefício s. Ele
tem uma flexibilidade maior e menores custos para o gerenciamento, trabalho
mais interessante e maior controle do processo de trabalho pelos
263

trabalhadores. Estas mudanças têm diminuído as faltas e a rotatividade de


trabalhadores.

O gerenciamento tem tentado outros sistemas menos


hierárquicos e centralizados. Um exemplo é chamado de organização matriz.
Este sistema coloca os indivíduos em arranjos sobrepostos de grupos de
tomada de decisão. Cada indivíduo pertence a mais de um grupo e quando
quer que seja possível as decisões são feitas pelo consenso. Uma tentativa
interessante na introdução da organização matriz ocorreu dentro de um dos
ambientes de trabalhos mais tradicionalmen te rígido e hierárquico e territorial:
o navio. A vida e o trabalho a bordo de um navio é enormemente dividida
territorialmente. O espaço é dividido de acordo com a posição. A história dos
navios pode dar exemplos contínuos mais antigos das relações entre a
Territorialidade e a hierarquia. Para experimentos modernos, uma companhia
marítima mercante norueguesa tentou democratizar o navio; para se ter
decisões tomadas não-hierarquicamente, através de matrizes organizacionais
e consensos. Isto tornou claro que um aumento na flexibilidade significa uma
diminuição na Territorialidade. Além disso, planos para uma nova organização
do navio e o projeto incluíam “equiparar as condições de vida; e espaço
comum para todos a bordo, incluindo uma biblioteca, um bar, etc.”.

Exemplos do aumento da flexibilidade das tarefas e a diminuição

da Territorialidade podem ser encontrados no ambiente de trabalho da escola.


As escolas elementares têm tentado criar atmosferas de sala de aula
estruturadas menos rigidamente. No lugar das tradicionais salas de aulas
“fechadas” nas quais os estudantes estão presos às suas carteiras (como se
fossem trabalhadores nas estações de trabalho de uma fábrica), recebendo um
calendário rígido de tarefas do professor que geralmente está estacionad o na
frente da sala supervisionando a turma, as escolas têm tentado uma sala de
aula aberta na qual as crianças tem a permissão para se mover de um lugar
para outro dentro da sala para selecionar o seu próprio assunto e trabalhar no
seu próprio ritmo. As salas de aulas abertas geralmente contém mais de uma
série por turma, permitindo assim à criança um alcance maior de
oportunidades das quais elas podem escolher. A questão é que dando a
criança mais liberdade para selecionar o que ele quer aprender e quando ele
264

quer aprender aumentará o seu interesse geral no aprendizado. (Se isto


diminui ou não o alcance do controle é algo que ainda não foi determinado).

O trabalho e a Territorialidade não formam um sistema fechado.


Isto dificulta se ter confiança de que as interrelações que se mantém em um
contexto se manterão em outro. Então muito do equilíbrio depende das
preocupações sociais maiores e de como o ambiente do trabalho é percebido.
A pesquisa sobre o projeto do escritório ilustra esta complexidade. Em uma
revisão compreensiva da literatura de Oldham e Brass apontou que dois
efeitos opostos do design do escritório aberto podem ser esperados. Por um
lado, o que os autores chamavam de método da interação social nos levaria a
esperar que um plano de um escritório aberto encorajaria a interação, que a
interação maior aumentaria a amizade e estas aumentariam a performance no
trabalho. Pelo outro lado, o que os autores chamaram de método sócio-técnico
onde uma falta de barreiras claramente física, tais como as paredes, reduziria
a claridade das tarefas do sentido da autonomia individual e assim diminuiria a
efetividade do trabalho no geral. Cada um usa partes diferentes dos efeitos da
Territorialidade. O primeiro enfatiza (como aqueles que clamavam por uma
divisão menor do trabalho) o enriquecimento do trabalho que vem de menos
territorialidade, e o segundo (como aqueles que clamavam por uma divisão
maior do trabalho), a clareza da definição que vem de uma maior
Territorialidade. Os mesmos autores tentaram determinar que efeitos

realmente operaram em um caso particular.

Eles examinaram a atitude dos trabalhadores em um jornal de


tamanho médio, antes e após eles serem movidos de um lugar fechado para
uma estrutura de escritório aberto. A mudança ocorreu em parte porque o
gerenciamento esperava que um plano de escritório aberto au mentasse o
sentido de coesão do grupo - para criar uma “atmosfera familiar”. Os
resultados dessas pesquisas intensas sugerem que neste caso os
trabalhadores estavam menos satisfeitos após a mudança do que antes, e
primariamente por causa da falta de privacidade, da falta de descrição das
suas tarefas e dos seus subgrupos. Eles acharam o plano escritório aberto
barulhento , descrevendo como uma “grande estação central”, ou como “viver
em um aquário”.
265

Este caso particular sugere que o ponto chave foi alcançado


entre a diminuição da territorialidade, o aumento da variabilidade do emprego
e a satisfação no emprego. Mas porquê ele foi alcançado? É difícil responder
isto apesar do projeto experimental elaborado do estudo. O novo escritório era
excessivamente aberto e barulhento. Umas poucas divisões e uma diminuição
do barulho poderia ter feito com os trabalhadores sentissem que a mudança
teve uma melhoria. Mas talvez uma pista mais básica possa ser encontrada
nas razões do gerenciamento e procedimentos para a nova realização. A
mudança foi originariamente estimulada por um desejo em parte do
gerenciamento em aumentar o sentido do trabalhador de corporativismo, mas
aparentemente o processo foi feito sem a consulta e assistência dos
empregados. Talvez a motivação do gerenciamento e o sentimento dos
trabalhadores como se estivessem em um aquário, apontem que no começo
haviam sérios problemas de gerenciamento que deveriam ser agravados por
qualquer mudança iniciada pelo gerenciamento.

Os desenvolvimentos nos novos tipos de comunicação podem


ser esperados de se afetar à organização espacial territorial e não-territorial.
Nós temos visto que a Igreja Católica tem relaxado algumas de suas pressões
territoriais sob seus paroquianos na luz da sua mobilidade geográfica
crescente e que a televisão tem dado a alguns ministros evangélicos

congressos nacionais. Novos meios de “manter em contato” também têm


diminuído o controle territorial dos prisioneiros. Os convictos podem ser
liberados mais cedo se eles permitirem um pequeno transmissor seja colocado
em seus pulsos ou tornozelo tal que a polícia seja capaz de monitorar eles em
qualquer lugar. Estes são os casos da tecnologia mudando os acessos e do
uso da estratégia espacial mais eficiente (neste caso a não-territorial) para
manter o contato.

Juntar a lógica da Territorialidade com a teoria organizacional


tem ofertado hipóteses específicas sobre o território, sobre a complexidade do
trabalho, hierarquia e tecnologia. A abertura do ambiente de trabalho tornar
difícil afinar até mesmo estas relações específicas para um caso particular, e
quase impossível generalizar sobre eles e fazer previsões. O máximo que se
266

pode esperar é que se esteja a par das possibilidades, que é o caso para a
teoria social no geral. Uma boa teoria social ajuda a dar sentido aos eventos
do passado e do presente e indica o que razoavelmente pode ser esperado se
certas condições forem obtidas.

Se as interrelações entre a Territorialidade e a mudança das


estratégias gerenciais e tecnologia são importantes, mas difíceis de se prever,
então o que muda nas relações sociais? Como elas afetariam a organização
territorial e vice-versa? A democratização do local de trabalho reduziria as
suas necessidades pela Territorialidade? O Socialismo e o Comunismo
reduziriam o controle territorial no local de trabalho e no reino político? Ou a
organização territorial é de uma forma ou de outra essencial para qualquer
sociedade complexa e tecnologicamente avançada?

Se nós encontramos dificuldades em comparar os efeitos


territoriais de um local contemporâneo de trabalho com outro, seria tolice se
esperar respostas precisas para estas questões amplas e importantes. Tudo
que pode ser sugerido é que a Territorialidade, embora de formas diferentes e
com efeitos diferentes, parece ser um elemento onipresente da organização
em quase todas as sociedades primitivas, embora quando ela foi usada lá,
fosse um mecanismo para controlar os recursos entre as pessoas. Além disso,
está claro que a Territorialidade sozinha não pode alterar as relações sociais a

ponto de mudar a compleição de uma sociedade inteira, mas ela pode, através
de suas próprias dinâmicas internas, colocar em movimento, conseqüências
sociais imprevisíveis e geralmente indesejáveis até aqui. Isto foi verdade com
as civilizações antigas. Foi verdade com a Igreja Católica. Foi o caso com o
sistema territorial americano e o local de trabalho. De toda forma é verdade
nos países socialistas e pode-se esperar que seja verdade nas tentativas de
estabelecer organizações comunais mais utópicas. Os efeitos da
Territorialidade são múltiplos, importantes e devem ser considerados.

7. Conclusão: sociedade, território e espaço.


267

O espaço e o tempo são componentes fundamentais da


experiência humana. Eles não são meramente facetas da realidade geográfica,
mas são transformados por ela, e afetam as pessoas e suas relações umas
com as outras. A Territorialidade como a expressão geográfica básica da
influência e do poder oferece uma ligação essencial entre a sociedade, o
espaço e o tempo. A Territorialidade é o pano de fundo do contexto geográfico
- ela é o aparelho através do qual as pessoas controem e mantém as
organizações espaciais. Para os humanos a Territorialidade não é um instinto
ou impulso, mas ao invés disso uma estratégia complexa para afetar,
influenciar e controlar o acesso de pessoas, coisas e relações. Sua alternativa
geográfica é o comportamento espacial não-territorial. Focalizar neste último
tem levado a ciência geográfica e a social a enfatizar os efeitos no
comportamento humano de tais propriedades métricas de espaço como a
distância. Infelizmente, este enfoque tem sido restrito demais para permitir o
desenvolvimento de uma lógica espacial complexa. Adicionar um componente
territorial com uma ênfase não-métrica para a análise geográfica pode ajudar a
expandir a lógica do espaço, tornando-o mais flexível e realístico incrustando-o
nas relações sociais.

Os territórios são formas construídas socialmente de relações espaciais


e seus efeitos dependem de quem está controlando quem e para quê
propósitos. A tarefa da teoria da Territorialidade é descobrir os possíveis

efeitos da Territorialidade em níveis que são ao mesmo tempo gerais o


suficiente para englobar suas muitas formas, e também específicos o suficiente
para iluminar e seus exemplos particulares. As interrelações múltiplas e
complexas entre as tendências e as combinações constituem as dinâmicas
internas da teoria. Algumas destas, como dividir e conquistar, são familiares. A
maior parte não é. Mesmo as familiares são tornadas mais claras quando as
suas conexões lógicas com outros efeitos territoriais são especificadas. Nós
entendemos mais do papel da Territorialidade em dividir e conquistar quando
nós percebemos que a Territorialidade pode resultar no emprego conjunto de
um grupo específico de tendências, e que usar estes com ênfases levemente
diferentes podem ajudar as organizações a se tornarem hierárquicas e
burocráticas ou pode levá-las à ineficiência ao invés de ajudá-las a dividir e
conquistar.
268

A estrutura interna complexa da teoria - seus pontos de máximo e


mínimo - revelam as dinâmicas internas da própria Territorialidade. Quais
desses efeitos e interrelações são realmente usados e qual seria a sua
importância depende dos contextos sociais de quem está realmente usando a
Territorialidade e para quê propósitos. Especificar o contexto não é
simplesmente uma questão de descobrir os fatos, nós caminhamos para a
evidência e as interpretações que nós damos a elas dependem de nossas
idéias ou os modelos de quem está à cargo, partindo do nível pessoal através
do social. Este livro explorou somente umas poucas das muitas muitas
conexões possíveis entre a Territorialidade, a teoria e o contexto. Reexaminar
as ligações da Territorialidade a estas, bem como explorar as suas conexões
com outras, oferece um caminho amplo para pesquisa futura.

Juntar a Territorialidade como nós fizemos a uns poucos modelos


amplos das relações sociais revela que alguns efeitos da Territorialidade
podem ocorrer em praticamente qualquer sociedade. Outros, entretanto, estão
geralmente mais associados com as organizações econômico-políticas
particulares. O surgimento das civilizações e surgimento do Capitalismo e da
modernidade, são duas transições históricas que têm visto as grandes
mudanças na Territorialidade. Na primeira, a mais importante mudança foi o
uso da Territorialidade para definir e controlar as pessoas dentro de uma

sociedade bem como entre as sociedades; e na segunda, foi o uso da


Territorialidade para criar um sentido de espaço esvaziável, de relações
impessoais e mascaramento das fontes do poder. Desta forma a
Territorialidade sofreu as duas maiores mudanças históricas, o espaço social e
o tempo parecem ter passado somente por uma mudança no significado das
proporções comparáveis, e isto ocorreu com o surgimento do Capitalismo e da
modernidade. A Territorialidade, e a mudança de significado do espaço e do
tempo, não ocasionaram estas mudanças econômico-políticas, mas elas
desempenharam papéis fundamentais na especificação da função do
significado da mudança.

As relações históricas e globais entre o território, o espaço, o


tempo e a sociedade são de longe importantes demais e complexas para que
269

tenhamos feito mais em um único volume do que esquematizar seus pontos


principais. Mesmo o enfoque no papel da Territorialidade nos tempos
modernos foi examinado dentro somente de um contexto cultural. Sem dúvida,
as três facetas modernas da Territorialidade - embora críticas para a
modernidade em todo lugar - aparecem com diferentes ênfases em outras
partes do mundo além dos Estados Unidos. Na Europa, por exemplo, o
desenvolvimento de um sentido abstrato de espaço não ocorreu tão logo no
nível territorial político como ocorreu nos Estados Unidos. E nos países do
Terceiro Mundo ela ainda não penetrou em níveis tão profundos quanto na
América do norte. O continente africano que, como o continente norte-
americano, foi explorado abstratamente e geometricamente pelo poderes
coloniais, retém, em nível local, muito mais de um sentido de uma definição
social do território, muito embora muitas dessas áreas territoriais tribais fossem
srcinariamente demarcações coloniais que tinham sido instauradas com
sentidos sociais. Similarmente na África e em outras partes do Terceiro
Mundo, a propriedade de terra, seja social ou pessoal, não tem um significado
histórico-cultural como tinha na América do Norte onde elas aparecem como
divisões esvaziáveis e preenchíveis. Embora nessas sociedades do mundo
ocidental o uso do território tenha se tornado mais importante, eles ainda
permanecem profundamente misturados com os padrões complexos dos
significados preexistentes e dos usos, e formam diferentes misturas e
intensidades do velho e do novo que são encontrados no exemplo norte-

americano. Mesmo no Japão, uma sociedade industrial moderna em qualquer


padrão, usa-se esses potenciais modernos da Territorialidade com diferentes
intensidades do que aquelas nos Estados Unidos. Comparar essas misturas é
outro motivo para se cuidar contra a associação das mudanças territoriais
inteiramente com as econômico-políticas. Justamente como a cultura, a
tradição e a história mediam a mudança econômica, elas também devem
mediar a maneira que o povo e o local estão ligados, o jeito que as pessoas
usam a Territorialidade, e o jeito que elas avaliam a terra.

Mesmo no contexto norte-americano nós podemos apontar para a


persistência das formas pré-modernas, bem como para as estratégias sobre o
espaço e o tempo que têm sido adotadas para neutralizar as experiências
prevalecentes da modernidade. E aqui também estas tentativas são
270

representadas pela cultura. Os americanos têm tentado se manter no espaço


criando lugares históricos nas formas de parques históricos, monumentos
nacionais, museus ao ar livre, áreas de preservação histórica, e até mesmo
lugares pré-históricos nas áreas selvagens. Os americanos têm encorajado o
amor e a aliança no nacionalismo e no patriotismo, eles têm estabelecidos
raízes nas vizinhanças e pequenas cidades da América. Outro antídoto para
ver o espaço tão frio e abstrato e o esforço pelos geógrafos de incluir
componentes humanisticos para as análises geográficas: para lembrar-nos
que o espaço não é experimentado nos afazeres diários somente como uma
moldura esvaziável abstrata nas quais os eventos estão contingentemente
relacionados. Ao invés disso, o espaço e o local são preenchidos com
conteúdo e significado. Mas a sociedade moderna, e especialmente a
americana, usa outros meios e talvez mais penetrantes para colocar o
conteúdo pessoal em um espaço que é frio e abstrato. Ironicamente estes
meios são parte do mesmo processo que tem ajudado a extrair estas
qualidades frias e impessoais do contexto geográfico.

Nós temos visto o desenvolvimento de um espaço métrico


abstrato andou de mãos dadas com a necessidade do Capitalismo de
aumentar a produção e o consumo. Um espaço abstrato e o tempo oferecem a
economia uma mold ura poderosa, prática e facilmente manipulada para
organizar as pessoas e os recursos para uma sociedade de massa. Nós

também temos visto que este mesmo sistema espacial torna difícil se sentir em
casa, a se ligar a um lugar. Ao mesmo tempo que nós condenamos a perda
destes laços pessoais e tentamos restabelecer as raízes, o sistema econômico
com sua ênfase sobre o consumo, acena com uma promessa de uma solução
para estes paradoxos. Eles nos dizem que é através do consumo de produtos,
especialmente pela propaganda, que nós podemos novamente estar no centro
do mundo; que nós podemos estabelecer o controle sobre nossos próprios
destinos. O ato de consumir é visto como para criar conforto e contexto
significativo - ao mesmo tempo pequenos e grandes, efêmeros e substanciais -
assim ele alega citar muitos dos problemas de consumo que eles mesmo cria.
Ainda de fato o consumo aumenta o problema porque é através do consumo
que esses contextos geográficos e históricos são fragmentados, tornados
abstratos e justapostos.
271

A ordem econômica é novamente inegavelmente de maior


importância. Mas suas formas e efeitos depende dos contextos. A teoria da
Territorialidade reconhece que as diferenças existem no grau de que a
modernidade é manifestada nas sociedades diferentes e que estas diferenças
podem ser devido não somente aos contextos culturais mas também às
dinâmicas organizacionais. As estruturas organizacionais, como as
burocracias, podem ser relativamente imunes de todas as maiores mudanças
dentro dos sistemas político-econômicos, e algumas organizações podem
mudar bem mais do que os seus contextos socais. Há, em outras palavras,
uma dinâmica para as organizações que a Territorialidade divide. Esta
dinâmica é vista dentro da Igreja Católica; ela pode ser vista dentro das
burocracias dos países capitalistas e socialistas. Em termos de teoria social
isto significa que além da divisão econômica do trabalho existe divisões
sociais mais amplas tendo efeitos significantes em quem está controlando
quem e para quê propósitos. E a teoria da Territorialidade ajuda a especificar
os efeitos mais prováveis que podem ocorrer dentro das organizações sociais
complexas. Quaisquer que sejam os objetivos de uma sociedade - seja ela
capitalista, socialista ou comunista - e qualquer que seja a escala geográfica -
local, nacional ou global - uma sociedade, simplesmente como uma
organização complexa, precisará da Territorialidade para coordenar os
esforços, especificar as responsabilidades e evitar que as pessoas fiquem

umas nos caminhos das outras. E uma vez que Territorialidade será de uma
maneira ou outra empregada, nós devemos estar a par que ela possui as suas
próprias potencialidades para afetar e controlar, e que algumas destas podem
ser contrárias aos objetivos da sociedade. Planejar sem estas considerações
em mente seria negligenciar determinantes significantes das relações sociais.
A Territorialidade, como um componente do poder, não é somente um meio de
criar e manter a ordem, mas é um mecanismo para criar e manter muito do
contexto geográfico através do qual nós experimentamos o mundo e damos
sentido a ele.