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Cooperativismo,

Economia Solidária
e Inclusão Social:
Métodos e Abordagens

Sandra Suely Soares Bergonsi


Gustavo Biscaia de Lacerda
Organizadores

Andréa Midori Hamasaki


Daniele Rodrigues Pereira da Silva
Denise Cássia da Silva
Denys Dozsa
Emerson Leonardo Schmidt Iaskio
Fernanda Freire Figueira
Izamara Vanessa Carniatto
Lúcia Helena Alencastro
Márcia Silva Fernandes
Maria Madalena Bal
Ricardo Prestes Pazello
Sandro Lunard Nicoladelli

Curitiba - 2007
PROEC - UFPR
Sumário

Apresentação................................................................09

Parte I - Questões de Método


1. Estrutura e funcionamento da incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná ITCP -
UFPR................................................................................15
Sandra Suely Soares Bergonsi
Gustavo Biscaia de Lacerda

Editora UFPR
2. Problematizando o trabalho com grupos populares:
as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR...........................33
Gustavo Biscaia de Lacerda
Capa: Samuel de Castro Daniele Rodrigues Pereira da Silva

Diagramação: Izamara Carniatto e Samuel de Castro


3. O que é Economia Solidária?.............................................49
Revisão: a revisão dos artigos é de responsabilidade dos autores. Emerson Leonardo Schimdt Iaskio

4. Extensão rural e o cooperativismo: O novo cenário..........67


Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

Parte II - Questões Cultural-Pedagógicas


5. Autogestão e educação popular para o trabalho
Ficha catalográfica comunitário...............................................................87
Márcia Silva Fernandes
Lúcia Helena Alencastro

6. Cooperativismo freireano: uma atividade de


comunicação..................................................................103
Ricardo Prestes Pazello

7. Cultura organizacional e autogestão: um processo


em construção...............................................................119
Fernanda Freire Figueira
Andréa Midori Hamasaki

5
Parte III - Questões Econômico-Administrativas

8. Economia solidária: A consolidação jurídica de uma política


pública.....................................................................................137
Sandro Lunard Nicoladeli

9. A economia política da economia solidária:


limites, desafios e possibilidades.............................................155
Emerson Leonardo Schimdt Iaskio

10. A busca da identidade autogestionária por uma


cooperativa popular..................................................................177
Lúcia Helena Alencastro

11. Comércio justo e consumo consciente:


Possibilidades de inserção de cooperativas
populares no mercado............................................................197
Izamara Vanessa Carniatto

12. Viabilidade econômica de empreendimentos de


Economia Solidária: estudo de caso da Coopermandi..............213
Maria Madalena Bal

13. Diretrizes para a gestão de design em cooperativas


Populares...............................................................................129
Izamara Vanessa Carniatto

Sobre os autores...................................................................241

Anexo I.................................................................................245

Anexo II................................................................................247

6
Apresentação

Enquanto Coordenadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas


Populares, um Programa de Extensão da Universidade Federal do Paraná
(ITCP-UFPR), apresento esta coletânea de artigos, que é o resultado da
reflexão sobre a prática extensionista, apresentados por estagiários,
bolsistas e/ou servidores técnico-administrativos, em congressos e
eventos no ano de 2005.
Esse livro foi organizado, contemplando três grandes seções
temáticas: a primeira é dedicada a questões teórico-metodológicas que
norteiam o trabalho da ITCP-UFPR; a segunda seção aborda as questões
“cultural-pedagógicas”, que envolvem a relação ensino-aprendizagem,
considerando a identidade e a cultura dos grupos populares; a terceira
seção aborda questões “econômico-administrativas”, isto é, problemas
teóricos e práticos relacionados à Economia Solidária e ao trabalho com
grupos populares.
Na primeira seção temática, Sandra Bergonsi apresenta, as linhas
gerais da estrutura e do funcionamento da ITCP-UFPR, assim como os
princípios que a norteiam. Gustavo Lacerda e Daniele Rodrigues
discutem algumas dificuldades que a equipe da Incubadora enfrenta nas
ações junto aos grupos populares.
Emerson Iaskio elabora uma revisão teórica do conceito de economia
solidária, procurando conciliar as diferentes opiniões de diversos
autores em torno de um conceito único (porém abrangente), que
procure não ferir as múltiplas ideologias sobre o assunto. Denys Dozsa e
Denise Silva tratam sobre o cooperativismo rural brasileiro, sob a ótica
da nova proposta de Extensão Rural construída pelo Ministério de
Desenvolvimento Agrário MDA - em conjunto com entidades
governamentais e não-governamentais envolvidas com a agricultura

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familiar no Brasil. Izamara Carniatto discute a importância da gestão do Design nas
cooperativas populares.
A segunda seção inicia-se com um artigo conjunto em que Márcia
Fernandes e Lúcia Alencastro apresentam uma reflexão teórico-prática, Destaco a importância das parcerias de diferentes instituições
a partir da experiência vivenciada e sistematizada na ITCP-UFPR, aliada municipais, estaduais e federais, públicas e privadas, nacionais e
aos pressupostos teóricos da educação popular freireana. internacionais, bem como o comprometimento de técnicos, estagiários,
gestores e populações locais, que tornaram possível desenvolver e
Ricardo Pazello aborda a importância da atividade educacional no
registrar as atividades da ITCP-UFPR.
contexto das alternativas de economia solidária, não só enquanto
técnica de trabalho, ou manancial de conhecimento ilustrado, mas sim
como forma de apreender o mundo, aprendendo-o, pautando-se assim,
numa abordagem crítica da aprendizagem, fundamentada em Paulo
Freire.
Fernanda Figueira e Andréa Hamasaki têm como objetivo levar o Sandra Suely Soares Bergonsi
leitor a refletir sobre a cultura organizacional em uma cooperativa Coordenadora de Extensão da Universidade Federal do Paraná e Coordenadora do
popular e autogestionária, a partir das contradições existentes entre os Programa de Extensão Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares
valores declarados e a prática efetiva dos cooperados.
Lúcia Alencastro apresenta a experiência desenvolvida pela equipe
de formação e assessoria da ITCP-UFPR junto a uma cooperativa popular
de produção, visando refletir e construir, com os trabalhadores,
ferramentas capazes de contribuir efetivamente com o processo de
organização autogestionária, na perspectiva de concretização de uma
cultura organizacional própria e coerente com os valores e princípios
cooperativos.
Na terceira parte do livro, Sandro Nicoladeli desenvolve uma reflexão
sobre o reconhecimento estatal da Economia Solidária no âmbito das
políticas públicas na esfera federal e seus desafios na esfera
institucional, adequados à luz de uma nova institucionalidade e suas
implicações jurídicas.
Emerson Iaskio, discute os desafios econômicos que as cooperativas
populares têm que enfrentar para manterem-se como
empreendimentos autogestionários.
Izamara Carniatto desenvolve uma reflexão sobre dois aspectos da
Economia Solidária: o comércio justo e o consumo consciente, ou seja, a
regulação da atividade econômica de acordo com critérios de justiça
social e de respeito ao ser humano e ao meio ambiente.
Maria Madalena Bal avalia as dificuldades de elaboração de estudos
de viabilidade econômica de empreendimentos associativos populares,
apontando para a necessidade da inclusão dessa temática nos fóruns de
discussão sobre Economia Solidária.
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Parte I - Questões de Método
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 1

Estrutura e funcionamento da incubadora


Tecnológica de Cooperativas Populares da
1
Universidade Federal do Paraná ITCP - UFPR
Sandra Suely Soares Bergonsi

1 INCUBADORA TECNOLÓGICA DE COOPERATIVAS - O


CONTEXTO DE SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO NO
PARANÁ
A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares, da
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, ITCP/UFPR, é um programa de
extensão (intervenção/comunicação) e pesquisa vinculado à
Coordenadoria de Desenvolvimento Social-CDS, órgão da PRÓ-
REITORIA DE EXTENSÃO E CULTURA PROEC/UFPR. Este programa
teve seu início em junho de 1998 quando um grupo de professores da
UFPR participou do Seminário Nacional de Divulgação de Incubadoras
de Cooperativas promovido pela Coordenação de Programas de Pós
Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro -
COPPE / UFRJ. Esta proposta chega à Universidade Federal do Paraná
apoiada pela administração central e delegada a responsabilidade de
coordená-lo a Pró - Reitoria de Extensão e Cultura - PROEC e a então
Coordenadoria de Apoio à Cidadania - CAC.
A partir deste evento a representante da Universidade Federal do
Paraná caminha, apoiada pela administração, para a qualificação da
equipe e para a implantação do Programa na UFPR. Em novembro de
1998 teve o seu programa aprovado pelo Comitê de Extensão. Em 22 de
março de 1999 a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná foi institucionalizada como um
Programa de Extensão, vinculada à Coordenadoria de Apoio à Cidadania,
órgão da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, com apoio de outras
Universidades Públicas Brasileiras, da Unitrabalho e da CUT. O

1
Este artigo se fundamentou nos projetos, relatórios e documentos de arquivo da Incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal do Paraná ITCP UFPR.

15
Estrutura e funcionamento da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná ITCP - UFPR Sandra Suely Soares Bergonsi

movimento de instalação da ITCP/UFPR ocorre paralelamente ao Trabalho para serem atendidas na modalidade de cursos de qualificação
lançamento da REDE UNIVERSITARIA DE INCUBADORAS em cooperativismo e associativismo, mas que tinha a orientação para a
TECNOLÓGICAS DE COOPERATIVAS POPULARES, no Seminário Incubagem.
“Economia Solidária: Iniciativas de Autogestão e Cooperativismo
A natureza desse trabalho de extensão demandava a criação de
Popular” em Curitiba, estando presentes não menos de cem entidades
espaços de aprofundamento teórico no interior da universidade, em
representativas e apoiadoras.
especial no que se referia aos aspectos legais do empreendimento. É
O grande desafio estava lançado: Identificar no interior da assim que a Faculdade de Direito se insere e cria o Núcleo de Direito
Universidade profissionais, se por um lado capazes tecnicamente, por Cooperativo e Cidadania e no ano de 2001 culmina na formação de uma
outro politicamente comprometidos com a proposta, se não pela área de concentração no Curso de Mestrado em Direito - Direito
proposta de incubadora, mas que estivessem comprometidos com o Cooperativo e Cidadania, com o objetivo de aprofundar, no plano
projeto de eliminação da pobreza e da inclusão social. Este evento teórico, as questões decorrentes da extensão universitária realizada pela
culminou na assinatura de um Termo de Cooperação Técnica entre a ITCP/UFPR.
Universidade Federal do Paraná e a Universidade Federal do Rio de
Esse conjunto de atividades teve por finalidade abrir espaços para a
Janeiro em julho do mesmo ano.
extensão e as pesquisas universitárias comprometidas com a afirmação
Com a instalação da Incubadora iniciaram-se os trabalhos de da cidadania, interagindo com movimentos sociais, sindicatos,
organização de grupos e articulações políticas para fomento das associações de moradores e outras formas de organizações coletivas, que
atividades. Nessa atmosfera motivadora, já integrante da Rede atuam para responder ao processo de exclusão social, precarização das
Universitária de Incubadoras de Cooperativas Populares a UFPR passa a relações de trabalho e escassez da renda, que vêem na economia
integrar também a Rede das Américas para Estudos Cooperativos e solidária, no cooperativismo e outras formas autogestionárias, um
Associativos. A primeira oferece suporte de articulação política interna espaço para a superação dos problemas decorrentes deste processo.
e a segunda possibilita a intercooperação entre dezenove universidades
Por meio deste programa a Universidade não só se aproximou de
latino americanas, através do incentivo à produção científica, sob a
movimentos sociais e organizações comunitárias, mas também passou a
coordenação da Universidade de Sherbrooke Canadá, financiada pela
atuar em conjunto com os Governos Estadual e Municipais do Paraná, no
Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional ACDI.
programa específico de Associativismo e Cooperativismo.
Este momento é privilegiado pela política pública do Governo
A Universidade oferece apoio a este Programa de Geração de
Federal, através do Ministério do Trabalho, de geração de trabalho e
Trabalho, Renda e Cidadania, disponibilizando estrutura de pessoal
renda: o Plano Nacional de Formação PLANFOR que deveria ser
através dos seus servidores: professores e técnico-administrativos, toda
executado pelos Estados através de suas Secretarias do Trabalho. No
a infra-estrutura de salas, transporte, materiais e equipamentos, luz,
Paraná, a Secretaria de Estado e das Relações do Trabalho, no governo
água e telefone e bolsa de estudos para os acadêmicos dos diferentes
Jaime Lerner assume ainda na primeira versão o “Programa de Apoio ao
cursos de graduação e pós-graduação.
Cooperativismo e Associativismo” e já em 1999 tem suas ações, no
âmbito da formação de grupos, incluídas no PLANFOR e financiadas, A Incubadora conta com o apoio de parceiros públicos
ainda que muito timidamente, pelos recursos do Fundo de Amparo ao comprometidos com o Programa, tais como Secretaria do Trabalho,
Trabalhador FAT e mais maciçamente financiada pela Universidade. Emprego e Promoção Social, Secretaria de Estado de Ciência e
Tecnologia, bem como parceiros privados: Federação das Indústrias do
Algumas dificuldades foram enfrentadas com esta parceria durante
Estado do Paraná, Paraná Tecnologia, e ONG.
estes anos: 1)com a liberação dos recursos do FAT, que por ser específico
para a formação profissional, não são contínuos, sendo assim chocam-se A ITCP-UFPR vem atuando na organização de grupos populares e na
com a proposta da Incubadora cujo trabalho não pode ser fragmentado e consolidação de empreendimentos cooperativos de pequeno porte,
deve obedecer a continuidade da formação e não da mera qualificação; através de ações que capacitem os trabalhadores para a gestão e na
2) com o número de demandas encaminhadas pela Secretaria do doutrina, valores e princípios do cooperativismo e da autogestão, para
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Estrutura e funcionamento da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná ITCP - UFPR Sandra Suely Soares Bergonsi

que sejam capazes de compreender a estrutura e funcionamento deste continuada em cooperativismo e autogestão, e assessoramento técnico
modelo de gestão, aliado à compreensão do mundo do negócio e do profissional respeitado no objeto do empreendimento visando a sua
trabalho. consolidação no mercado; apoiar a organização e implantação de novos
empreendimentos de Economia Solidária na Região Metropolitana de
No ano de 2003, a ITCP, identificando a demanda dos agentes
Curitiba e Litoral; incentivar a intercooperação entre empreendimentos
comunitários por capacitação passa a oferecer cursos básicos de
cooperativos, associativos e solidários como crença no princípio que
extensão universitária visando à formação em Educação Popular,
assegura a sustentabilidade destes empreendimentos no mercado.
Metodologia de Intervenção e de Cooperativismo, além de cursos
instrumentais com conteúdos administrativos e de base econômico - Fazer cumprir o papel da Universidade de produtora e difusora de
financeira que propiciem o exercício da autogestão. conhecimento através da capacitação dos agentes públicos e das pessoas
envolvidas em trabalhos comunitários, nos fundamentos e nos
Como produtora de metodologia a ITCP-UFPR foi convocada para
instrumentos da Economia Solidária, do Cooperativismo,
atuar em nível de Estado do Paraná na Formação de Formadores, voltada
Associativismo e Autogestão para através do Curso de Economia
à qualificação de agentes públicos e comunitários, através de curso de
Solidária: Cooperativismo e Associativismo, desenvolverem o Programa
Formação em Cooperativismo e Associativismo, para atuarem na
de Economia Solidária no Estado do Paraná. Acompanhar, supervisionar
formação e acompanhamento de grupos comunitários com o intuito de
e avaliar a implantação do programa Paranaense de Economia Solidária
gerar trabalho e renda. Realizou também o acompanhamento e a
em âmbito local. Produzir pesquisa e relatórios a partir das experiências
supervisão destas ações em nível de Estado do Paraná.
de incubagem, préincubagem e divulgá-los.
Hoje, com o fortalecimento da parceria com a Rede de Incubadoras,
Para a concretização destas atividades a ITCP está assim organizada:
participa do movimento nacional de publicização do Cooperativismo
Popular e da Economia Solidária, fomentando a instalação dos vários
fóruns regionais e do Fórum Brasileiro de Economia Solidária. Essas ESTRUTURA ORGANIZACIONAL
ações foram responsáveis pela decisão do governo Federal pela criação
da Secretaria Nacional de Economia Solidária, no ano de 2003. Neste A incubadora vem se organizando administrativamente a fim de dar
mesmo ano a ITCP-UFPR contribuiu nas discussões para a implantação maior agilidade e qualidade ao trabalho realizado internamente e no
da Coordenadoria de Economia Solidária junto à Secretaria de Estado contato com o público alvo além de favorecer ao pessoal técnico
do Trabalho, Emprego e Promoção Social. administrativo e professores e estagiários menor exposição a pressão
fazendo reduzir o nível de stress elevando o desempenho e a qualidade
do trabalho realizado.
2 FUNÇÃO SOCIAL DA ITCP Atualmente é desta forma que se localiza no interior da Universidade e a
O objetivo da proposta da ITCP UFPR é promover através de sua própria estrutura externa:
articulações com as políticas públicas de governo federal e estadual, • Reitoria da UFPR
ações que possibilitem efetivar a proposta de Economia Solidária, com
objetivo de geração de trabalho e renda, da qualificação profissional, do • Pró - Reitoria de Extensão
desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida, contribuindo • Coordenadoria de Desenvolvimento Social
desse modo para a inserção social dos trabalhadores e para o
• Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares
desenvolvimento sustentável locais.
No início de suas atividades a ITCP UFPR buscou alocar pessoal
Este objetivo só se concretiza na medida em que a ITCP se
técnico administrativo para execução e apoiar as rotinas
compromete em: dar continuidade às ações de incubagem em
administrativas, além daqueles que tinham afinidade para o trabalho
andamento, desencadeadas no âmbito do Programa de Economia
comunitário, professores dos departamentos dos cursos de graduação e
Solidária, que não admitem interrupção, proporcionando formação
pós-graduação das diversas áreas do conhecimento, atuando
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Estrutura e funcionamento da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná ITCP - UFPR Sandra Suely Soares Bergonsi

diretamente nas comunidades e na orientação e supervisão dos alunos formação à equipe; incentivar a participação e realização de eventos
estagiários. técnicocientíficos; sistematizar ações; elaborar projetos e garantir o
cumprimento da metodologia do programa e os princípios
A partir de meados de 2002 ocorre a mudança política da gestão da
cooperativistas e autogestionários e a ética das relações humanas e
universidade, que reordena a incubadora para a mudança de
organizacionais.
coordenação. Esse processo leva vários membros da equipe a se
afastarem do trabalho, fazendo surgir a necessidade de buscar novas Apoio administrativo - É composto por técnicos administrativos que
pessoas para integrar a equipe. Este recrutamento e seleção de pessoal se dividem em áreas:
para o trabalho comunitário passou a fazer parte das reflexões da equipe
a) 2 Secretárias responsáveis pela rotina administrativa tais como
que optou por pessoas com afinidade com o trabalho comunitário, com
elaboração, recebimento, expedição e arquivamento de documentos e
disposição de participar do processo formativo específico em
correspondência, zelar pelo acervo bibliográfico catalogando,
cooperativismo, associativismo e autogestão, educação popular e
registrando a sua entrada e saída bem como o controle do seu retorno,
metodologia de intervenção, além do compromisso de participar das
digitação de relatórios, atendimento ao público pessoalmente e ao
reuniões semanais da equipe para avaliar, planejar e preparar o trabalho
telefone, relatório de freqüência de estagiários, participar das reuniões
comunitário e de formação continuada e de integração. Este processo
de equipe e de formação;
de reflexão ação, impeliu para a busca de um professor da área da
educação popular para orientar a equipe. A integração deste professor b) 1 servidor técnico administrativo que é responsável pela elaboração
orientador, no ano de 2003, levou o grupo à reflexão que os motivou a das minutas de convênio, acompanha o trâmite interno dos processos
disponibilizar os conhecimentos produzidos até então, para a faz a gestão dos convênios junto às instâncias competentes, prepara a
comunidade interna e externa de interessados pelo tema, o que documentação necessária ao convênio e ao Plano de Trabalho;
possibilitou a sistematização do conhecimento da prática extensionista. c) 1 servidor técnico administrativo responsável pela elaboração das
Este momento foi envolvido de grande magia para a equipe que planilhas de custo, negociação financeira dos projetos, participação em
conseguiu aliar teoria prática e dar sentido a extensão. reuniões com os parceiros, identificação de demandas e plano de
A organização, mesmo ainda precária da equipe fez emergir a viabilidade de atendimento da demanda, atendimento e orientação ao
necessidade de realização de encontros e seminários para discussão e público interessado, participar de reuniões internas de formação -
reflexão sobre a prática tanto das atividades desenvolvidas na integração e de equipe;
Incubadora como na prática comunitária durante o ano de 2003 que d) 2 técnicos administrativos facilitadores, responsáveis pelos trabalhos
culminou no final do ano em um grande seminário para elaborar o comunitários em campo, um atua junto aos empreendimentos rurais e
diagnóstico participativo da Incubadora e construir o planejamento outro junto aos empreendimentos urbanos com a equipe de estagiários
participativo das atividades dos grupos que diretamente atuam na fase garantindo a presença nas reuniões de formação integração, nas
de pré-incubagem e de incubagem e da organização do trabalho da reuniões de avaliação, planejamento e no trabalho junto aos
Incubadora como um todo. O fruto deste trabalho está sendo avaliado e empreendimentos. Identificar as necessidades da equipe e dos grupos
replanejado no processo. incubados e buscar atendê-las, ou quem possa, facilitando o trabalho
Assim, foi definida a nova estrutura administrativa e pedagógica da como um todo. Elaboração de relatórios e planejamentos e projetos;
Incubadora com a descrição das atribuições dos seus integrantes: e) 1 professor responsável pelos projetos de extensão que visam a
1) Coordenação Geral do Programa ITCP - Está subordinada a formação e integração da equipe e da comunidade externa, além de
Coordenadoria de Desenvolvimento Social e tem como atribuições orientar os alunos na metodologia de intervenção e em educação
representar a incubadora interna e externamente em eventos popular;
científicos, técnicos e divulgação; buscar apoio técnico e financeiro para f) 1 professor coordenador do núcleo de direito cooperativo que orienta
o Programa e para os empreendimentos incubados; articular parcerias os alunos sobre a área específica acompanhando os empreendimentos
externas e internas; coordenar os trabalhos da equipe; proporcionar
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na elaboração de estatutos, regimentos, documentos, realização de incubadas. Quanto às estratégias e metodologias dos trabalhos junto aos
assembléias e preparação dos cooperados para as audiências e buscar grupos cooperativos, a incubadora pretende preservar as decisões das
representá-los. Realizar estudos que auxiliem tanto a equipe quanto os equipes, respeitando os princípios autogestionários, considerando, no
cooperados em questões do contencioso administrativo e judicial; entanto, as orientações estatutárias e regimentais da UFPR.
g) 2 professores que integram a equipe e são responsáveis pela
orientação dos estagiários e cooperados na gestão econômico 4 PÚBLICO ALVO
financeira do empreendimento ensinando plano de viabilidade, plano de
negócios, lançamentos contábeis, custos; O público alvo diretamente atingido pelo Programa Incubadora de
Cooperativas Populares compõe-se de trabalhadores desempregados,
h) Assessores - são professores ou técnicos administrativos competentes subempregados, em risco de perda de emprego, pequenos produtores e
tecnicamente, no objeto social da cooperativa, que, pontualmente, trabalhadores autônomos, seja da zona rural quanto da zona urbana, que
orientam estagiários e/ou orientam os cooperados diretamente, tais tenham como objetivo organizar-se em associações, visando a geração de
como; nutricionistas, agrônomos, veterinários, engenheiros de pesca, renda, através do trabalho cooperativo. Este público alvo é encaminhado
engenheiros florestais, etc. que são demandados, a partir das para a Incubadora, após a consolidação da demanda realizada pelo
necessidades dos grupos cooperados diagnosticados pelas equipes, por Conselho Estadual do Trabalho, com base nas solicitações dos Conselhos
solicitação dos facilitadores; Municipais, conforme o Plano de Desenvolvimento do Município para a
i) Estagiários - são alunos dos cursos de graduação e de pós-graduação área de geração de trabalho e renda.
das diferentes áreas do conhecimento que sob a orientação de um Após esta análise as demandas são encaminhadas para a Secretaria
professor atuam diretamente na comunidade no processo formativo e na de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social, que contrata a
sua área específica do conhecimento, além de propor e participar de ITCP-UFPR para realizar as ações, que são financiados pelo Fundo de
eventos de natureza técnico - científica, apresentar trabalhos, escrever Amparo ao Trabalhador FAT. A partir de 2003 houve uma busca para a
artigos, participar das reuniões de integração - formação e reuniões de ampliação das fontes de financiamento e a sensibilização dos agentes
equipe para avaliação e planejamento. públicos para a especificidade do projeto que não é só uma qualificação
Neste sentido, estes profissionais e alunos se agrupam em áreas profissional como prevê o Programa Nacional de Qualificação PNQ
interrelacionadas em uma proposta co-gestionária: financiado pelo recurso do FAT, mas sim um processo de formação que
não permite descontinuidade. Assim, a Secretaria do Trabalho,
• Coordenação Geral
sensibilizada com a argumentação, buscou recursos junto ao Governo do
• Apoio Administrativo Estado do Paraná e à Secretaria Nacional de Economia Solidária
• Formação SENAES, para o financiamento do Programa Estadual de Economia
Solidária. Elaborado e executado pela ITCP-UFPR a partir do ano de
Esta estrutura construída pelo grupo coletivamente é que 2004, o Programa Estadual de Economia Solidária, além do público alvo
possibilitou a construção da dinâmica de funcionamento das equipes acima descrito, fomentou uma nova categoria: a dos técnicos, agentes
junto aos grupos cooperativos e na própria Incubadora. do sistema público do emprego e conselheiros do trabalho e demais
instituições, que atuam para responder ao processo de exclusão social,
precarização das relações de trabalho e escassez da renda, e vêm na
3 GESTÃO DA INCUBADORA economia solidária, no cooperativismo e outras formas
O modelo de gestão da ITCP-UFPR se fundamenta na co-gestão, que é autogestionárias, um espaço para a superação dos problemas
o limite da heterogestão para autogestão, posto que se convive nestes decorrentes deste processo. Assim tivemos mais uma opção de
ambientes da organização com o modelo heterogestionário da financiamento, além do Programa Nacional de Incubadoras PRONINC,
universidade e o modelo autogestionário proposto para as cooperativas uma linha própria de financiamento do FINEP para Incubadoras de
Cooperativas.
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5 ESTRATÉGIA METODOLÓGICA DE INCUBAGEM • Identificação das potencialidades econômicas do grupo;


O processo metodológico de incubagem pressupõe a construção • Mapeamento do público alvo;
participativa do processo de formação continuada em Economia
• Apresentação da proposta da Incubadora através de seminário;
Solidária cooperativismo e associativismo, numa perspectiva
autogestinária e está composta de quatro etapas:
MOBILIZAÇÃO - DIAGNÓSTICO

5.1 1ª etapa: Ações pré incubagem • Identificação de trajetórias e profissões dos participantes e
potencial dos recursos humanos;
• Organização do grupo considerando a diversidade cultural,
SENSIBILIZAÇÃO
religiosa, associativa etc;
Na pré-incubação se promove um Diagnóstico Participativo de
• Estabelecimento de contatos recíprocos e apresentação do plano
Cooperativas (DPC), a partir de reuniões, oficinas e encontros, tanto
de curso;
com os técnicos envolvidos no projeto como com o grupo de pré-
cooperados. Nesta ocasião, tenta-se apurar as visões dos cooperados • Formação do grupo como sujeito participativo do processo na
acerca do empreendimento e do cooperativismo enquanto alternativa perspectiva da criação da cooperativa como possibilidade de
econômica. Embasada no eixo central de capacitação, assessoria e geração de renda.
acompanhamento, esta fase tende a delinear não apenas os passos
seguintes da incubação, mas também os parâmetros básicos para se
projetar os êxitos a serem obtidos durante e depois da incubação. Nesta 5.1.1 2ª etapa: Curso básico de cooperativismo
etapa do processo se estuda o negócio e o mercado conjuntamente com
o grupo de cooperados a partir de oficinas sobre a organização HABILIDADES BÁSICAS
cooperativa, enquanto empreendimento econômico e social. O próximo
passo é a realização de oficinas para que os cooperados reflitam sobre a • Apresentação aos indivíduos interessados da comunidade o
doutrina e a filosofia cooperativa, articulando conceitos do conceito, objetivos, doutrina, valores e princípios do
cooperativismo com os conceitos de mercado. Cooperativismo;

Ainda nesta etapa ocorrerão consultorias específicas a respeito de • Torná-los capazes de distinguir conceitos de empresas e
estudo de mercado, bem como de análise de potencialidade do empresários, conforme os conceitos de empresa mercantil e
empreendimento. Finalmente, o grupo pré-cooperativo estuda os cooperativa, e modelos de gestão de empreendimentos :
principais elementos da legislação cooperativa para poder elaborar o autogestão e heterogestão;
estatuto e legalizar o empreendimento cooperativo. Esta etapa • Tornar conhecidos a estrutura e o funcionamento de cooperativas;
corresponde em média de 04 a 06 meses dependendo das
• Divulgar conhecimentos sobre a composição dos recursos
especificidades dos grupos e do tipo de atividade escolhida para o
monetários de uma cooperativa.
empreendimento.

PLANEJAMENTO E PROJETO DA COOPERATIVA


SONDAGEM PRELIMINAR
• Primeiros contatos com lideranças comunitárias; Os dados obtidos através das pesquisas participativas realizadas
durante as primeiras etapas do processo de Incubagem serão
• Aplicação de pesquisa e levantamento de dados para conhecer a organizados, analisados e avaliados com vistas à inserção da cooperativa
realidade da comunidade; no mercado, através de: pré-diagnóstico, diagnóstico, pesquisa de

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mercado, pesquisa de viabilidade econômica e financeira, discussão e da apropriação e da inserção do seu negócio no mercado, a partir da
elaboração do estatuto, regimento interno e ata de fundação da oferta de novos produtos e/ou de serviços diferenciados e inovadores.
cooperativa. Deve-se deixar claro que nem todo grupo que participa da Esta é uma etapa onde acontecem muitas consultorias específicas de
fase de pré incubagem está habilitado para a incubagem. acordo com o tipo de atividade da organização e a necessidade do
trabalho.

HABILIDADES GERENCIAIS
HABILIDADES GERENCIAIS
• Caracterização do potencial da cooperativa;
• Definir a estrutura organizativa e funcional de uma cooperativa;
• Planejamento estratégico e projeto de viabilidade econômica,
específico para cada cooperativa, respeitando suas características • Apresentar conceitos, princípios e mecanismos de autogestão
e objeto social de produção e de prestação de serviços objetivando aplicados às cooperativas;
sua capacidade de sobrevivência no mercado cada vez mais • Definir indicadores e parâmetros de qualidade, assim como
competitivo; procedimentos e estratégias de marketing;
• Identificação do mercado consumidor; • Assessorar na pós-constituição da cooperativa em aspectos
• Avaliação das condições da concorrência; jurídicos, de gestão econômico financeira e contábeis.
• Levantamento dos investimentos necessários;
• Pesquisa de mercado. 5.1.3 4ª etapa: Avaliação continuada
Busca-se avaliar a qualidade técnica e pessoal dos profissionais
cooperados, a qualidade do serviço das cooperativas, a organização do
CURSOS DE CAPACITAÇÃO TÉCNICA
grupo, a participação política das cooperativas e a sua inserção no
• Habilidades Específicas; debate local, através de indicadores sociais. Por outro lado, há o processo
• Gestão econômica - financeira das cooperativas de avaliação conjunta - equipe e cooperativas - tanto do trabalho da
Incubadora, quanto da ação da cooperativa. Esses resultados são
subsídios a mudanças e realinhamento constante do trabalho para a
5.1.2 3ª etapa: Incubagem verificação da efetividade do programa.
A etapa, denominada de incubação, só começa após a constituição da O cumprimento dos valores e princípios cooperativos será avaliado
organização cooperativa enquanto pessoa jurídica, e ocorre durante um pelo balanço social cooperativo, instrumento que permitirá medir a
período que pode ir de 18 a 24 meses. Esta etapa é chamada de responsabilidade social de cada uma das cooperativas, com indicadores
Consolidação Cooperativa (CCO) e corresponde ao período de singularizados para cada caso e variáveis para cada princípio
consolidação do grupo a partir de processos de capacitação, de cooperativo.
assessoramento e de acompanhamento permanente. A CCO é composta
Nesta fase também se contempla a desincubação e se constituí por
por uma série de oficinas de trabalho visando as análises de cenários de
oficinas de auto-avaliação e de estratégias de crescimento (AEC) que
negócios; as estratégias de participação e a educação cooperativa; o
priorizam, sobretudo a inclusão da cooperativa em redes de cooperação,
plano estratégico e de negócio cooperativo; a gestão organizacional, a
de projetos locais, de financiamento e de negócios. As temáticas das
gestão financeira e de pessoal; as estratégias de comunicação e o plano
oficinas abordarão temas referentes à articulação e estratégias de
de marketing cooperativo; os sistemas de controle; a organização em
ampliação e diversificação do negócio, mecanismos de auto-avaliação e
redes, entre outros. Esse processo requer que a participação dos
técnicas de resolução de problemas e conflitos em cooperativas.
cooperados se torne cada vez mais pró-ativa na direção da articulação,

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Estrutura e funcionamento da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná ITCP - UFPR Sandra Suely Soares Bergonsi

6 RESULTADOS ESPERADOS PELO PROCESSO DE INCUBAGEM Beneficiamento de Pescados de Antonina SERRAMAR, Cooperativa dos
Pequenos Produtores e Artesãos de Mandirituba- COOPERMANDI,
O processo de incubagem, no primeiro olhar, espera que o grupo se
Cooperativa dos Profissionais em Tecnologia COOPTECH e a
constitua como empreendimento sustentável, promovendo trabalho e
Cooperativa dos Taxistas de Foz do Iguaçu- COOPERTÁXI.
renda para os seus associados.
Em meados do ano de 2002 o processo metodológico é refletido e
Porém, para que gere trabalho e renda o processo deve ter atingido o
paulatinamente transformado. A Incubadora define não incubar mais
seu objetivo educativo, fazendo com que os trabalhadores organizados
nenhum grupo e investir na sustentabilidade dos oito grupos acima
superem suas dificuldades e apreendam os conteúdos necessários à
relacionados.
gestão do próprio negócio. Este processo se complexifica na medida que
para a aquisição das habilidades gerenciais é necessário que os A partir de meados de 2002, os esforços foram empreendidos no
trabalhadores tenham acesso aos conteúdos da educação formal que são sentido de elaborar projetos que pudessem atender em curto prazo as
pré-requisitos para o desenvolvimento de tais habilidades. Portanto, a necessidades de investimento dos empreendimentos, seja para a
relação teoria e prática não pode perder a sua inter-relação para que o aquisição de máquinas e equipamentos, seja para capital de giro.
trabalhador perceba a relação de importância entre os conteúdos Sabedores que somos que as agências de fomento não financiam o
teóricos formais e sua prática no cotidiano da vida organizacional. público alvo das Incubadoras, visto que atuam na lógica do mercado
tradicional fomos impelidos a buscar as ONG que apóiam estes
Outro resultado que se espera alcançar e que se constitui no maior
empreendimentos a fundo perdido ou com carência compatível com o
desafio é que os trabalhadores compreendam a contradição que permeia
capital e com a natureza do empreendimento. Foi assim que
a sua prática, no interior da cooperativa e garanta o exercício da
conseguimos dar ao grupo incubado condições de produção e de geração
autogestão e da solidariedade pautado no exercício dos princípios
de renda.
cooperativistas e ao mesmo tempo compreendendo que na sua relação
com o mercado sua prática está permeada pela lógica capitalista de Surpreendentemente, deu-se o incentivo à produção naqueles
produção, distribuição e consumo. empreendimentos que tinham os princípios estabelecidos e
conseqüentemente mantiveram os grupos coesos para produção e para
Finalmente, espera-se que o grupo se insira na comunidade
enfrentar as adversidades do mercado.
participando das instâncias de decisão política de seu município
contribuindo desta forma para o desenvolvimento da comunidade em Desde o final do ano de 2004, o Programa se tornou referência no
que o empreendimento está inserido e assim atuando na qualidade de Estado do Paraná e a Incubadora assumiu a incumbência de transferir a
vida das pessoas e na construção da cidadania. tecnologia de incubagem para outras universidades públicas,
prefeituras e ong´s que desenvolvem trabalhos comunitários de geração
de trabalho e renda e construção da cidadania para que um maior
7 RESULTADOS DAS AÇÕES número de pessoas em processo de exclusão sejam beneficiadas. Com
De 1999 a 2002 a incubadora atendeu um número expressivo de esse intuito foram implantados: o Projeto incubação de incubadoras, do
pessoas, que compunham vinte e cinco grupos comunitários. No ano de curso de aperfeiçoamento: Introdutório à Economia Solidária
2002 constatava-se que destes 25 grupos atendidos, somente oito deles Cooperativismo e Associativismo e o curso de Capacitação de Agentes
buscavam sustentabilidade e atuavam segundo os princípios Municipais em Economia Solidária; Supervisionar e avaliar a
cooperativistas e autogestionários. implantação do Programa de Economia Solidária e organização de
grupos cooperativos. Essas atividades foram fundamentais para a
São eles: a Cooperativa de Embalagens Brasil COEMBRA; A construção da política pública de Economia Solidária no Estado do
Cooperativa dos Trabalhadores em Portaria, Conservação, Limpeza e Paraná.
Jardinagem CooperAtiva 21, Cooperativa Mista de Trabalhadores da
Capital Paranaense COOPERCAMP, Cooperativa dos Pequenos Hoje, das oito cooperativas incubadas que em 2002 a ITCP definiu
Produtores Rurais de Quitandinha -DIRETO DA ROÇA, Cooperativa de como prioridade para investimento, tem-se o seguinte cenário:

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Estrutura e funcionamento da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
Universidade Federal do Paraná ITCP - UFPR Sandra Suely Soares Bergonsi

• Consolidação de três grupos COOPERMANDI, COEMBRA e transcende a competência da ITCP-UFPR, pois está ligado à consciência
COOPERTAXI. Essas cooperativas foram avaliadas como solidárias do desemprego alarmante com que o país convive, a pobreza
e autogestionárias, do ponto de vista da consciência de institucionalizada e os graves problemas sociais que acompanham as
participação e responsabilidade coletivas, além de tendências exclusoras e marginalizantes dos indivíduos, que devem se
economicamente sustentáveis. constituir em ações estruturantes das políticas sociais.
• A COOPETCH foi desligada do programa por não aceitar o trabalho Hoje se tem um cenário propício para o desenvolvimento da
fundamentado nos princípios cooperativista e da autogestão. Economia Solidária, considerando que a sociedade civil está organizada.
Os trabalhadores são sujeitos e atores sociais, cujas reivindicações são
• A cooperativa SERRAMAR está em fase de desincubação e foi
coletivas através de seus fóruns de representação. Existem ações
avaliada a necessidade de treinamentos na área de
articuladas entre os diferentes Ministérios e Secretarias de Estado para
comercialização e abertura de novos pontos de venda.
o fortalecimento destas organizações e de instituições de apoio, como é
• A COOPERCAMP e a COOPERATIVA XXI se desarticularam, em o caso das Universidades, que a partir da Extensão produzem
conseqüência da obrigatoriedade de mudança de objeto social, conhecimento e ensino na área.
definida através de Termo de Adequação de Conduta do Ministério
Apesar da constatação deste cenário ser positiva, muitas
Público do Trabalho. No entanto os cooperados da COOPERCAMP
preocupações surgem, pautadas em fatos: falta de investimento na
continuam desenvolvendo sua atividade de higienização
sustentabilidade da organização de Economia Solidária; legislação
hospitalar, com emprego formal em uma empresa de terceirização
cooperativista, ainda regulada pelo instrumento de 1971, que atende o
de mão de obra. A COOPERATIVA XXI se constituiu em uma
cooperativismo oficial e as grandes cooperativas organizadas aos moldes
empresa de jardinagem, agregando poucos dos antigos cooperados
das grandes empresas.
e os demais retornaram às suas antigas atividades (portaria,
vigilância), e também um contrato de comodato com a CAIXA A pesada carga tributária é outro fator que desmobiliza as
ECONÔMIC A FEDERAL, para gerenciamento de um organizações populares. Somente no Estado do Paraná, é que o
estacionamento para clientes. Cabe ressaltar que esses movimento conseguiu - através de uma medida de governo para
cooperados, no início do trabalho de incubação, não tinham beneficiar as “micro” e as pequenas empresas - a isonomia de
qualificação profissional. A qualificação proporcionada pela ITCP / tratamento no que diz respeito á alíquota do ICMS.
UFPR foi que possibilitou o seu ingresso no mercado formal de
A conseqüência de toda a mobilização das áreas de governos e
trabalho.
instituições públicas e privadas deveria, sem dúvida, ser a transformação
• O grupo DIRETO DA ROÇA, decidiu não dar continuidade às do Programa de Economia Solidária em Política de Governo, com ações
atividades da cooperativa, embora a mesma esteja formalizada. continuadas de geração de trabalho e renda, dirigidas à população
vítima da exclusão social, articuladas com outras políticas públicas.
Do final de 2004 a meados de 2007 sessenta e dois grupos passaram
pelo processo de pré-incubação da ITCP-UFPR, sendo que destes, seis
estão incubados.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora o trabalho ITCP UFPR seja referência, pela qualidade
demonstrada nas atividades desenvolvidas, tanto na extensão quanto no
ensino e na pesquisa, não se pode perder de vista que existe a vontade
política dos governos Federal, Estadual e Municipal em fazer acontecer
estas ações. Assim, o comprometimento com a execução destas ações
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Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 2

Problematizando o trabalho com grupos populares:


as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR1
Gustavo Biscaia de Lacerda
Daniele Rodrigues Pereira da Silva

1 INTRODUÇÃO
É preciso que saibamos que, sem certas qualidades ou virtudes como
amorosidade, respeito aos outros, tolerância, humildade, gosto pela
alegria, gosto pela vida, abertura ao novo, disponibilidade à mudança,
persistência na luta, recusa aos fatalismos, identificação com a
esperança, abertura à justiça, não é possível a prática pedagógico-
progressista, que não se faz apenas com ciência e técnica. (FREIRE, 1996,
p. 120).

A ação junto aos grupos populares, para ser eficaz, isto é,


emancipacionista e sustentável, deve ser planejada e pautar-se por um
processo contínuo e permanente de educação, que desconstrua os
valores próprios ao capitalismo e crie outros, solidários, incorporando-
os à prática desses grupos. É necessário que essa ação constitua modelos
econômicos baseados em seus valores e que sejam viáveis ao longo do
tempo, minimamente capazes de resistir à concorrência capitalista.
A proposta de grupos de ação popular constitui um programa prático
com uma série de pressupostos e implicações: a busca de uma sociedade
includente, a educação popular participativa, a democracia e a
liberdade, bem como a necessidade de fazer frente ao capitalismo.
Acima de tudo, pressupõe uma ação intencional, planejada para fazer
acontecer os valores solidários.
A idéia do planejamento - da ação pensada anteriormente à execução
- é muito importante para nós neste momento, pois pressupõe uma ação
intencional, com vistas a algum objetivo específico, que sempre
antecede as ações, mas pode ser o resultado de alguma avaliação a
1
O presente artigo foi apresentado no IX Seminário Internacional da Rede Universitária das Américas
para Estudos Cooperativos e Associativismo, realizado entre 3 e 5 de outubro de 2005, na Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Ele surgiu a partir de uma discussão inicial com os colegas da ITCP-UFPR
Douglas Cleverson Fróis, Artur Heinrich, Denise Vieira e Enzo Maschio, a quem devemos diversas
sugestões e a quem somos agradecidos.

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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

posteriori de outra(s) ação(ões). Sem grande rigor: por meio do cooperativo ou participativo. (THIOLLENT, 1986).
planejamento, determinamos quais os meios que adotaremos, em face O objetivo é interagir com um grupo social específico, examinando
de algumas condições específicas, para atingir algum resultado. Nesse algum problema, alguma dificuldade e, no processo de interação (que
sentido, considerando a especificidade do projeto da Economia não é asséptico como um termo acadêmico pode dar a entender),
Solidária na sociedade capitalista, o planejamento das ações é encontrar a solução desse problema ou dificuldade. Esta pesquisa é
extremamente necessário e desejável. dialética: a todo instante parte da realidade concreta dos grupos
A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da populares em direção à reflexão teórica e acadêmica, retornando para a
Universidade Federal do Paraná (ITCP-UFPR), procurando desenvolver realidade dos grupos. Literalmente, é uma aplicação prática e social dos
uma forma de Economia Solidária por meio do cooperativismo popular, conhecimentos acadêmicos.
elabora planejamentos tendo chegado a sistematizar sua forma de Sem querer esgotar as características da pesquisa-ação, importa
atuação junto aos grupos populares no que denomina “metodologia de notar outro de seus traços: ainda que o pesquisador seja o detentor de
incubação”. um conhecimento técnico, especializado, a clássica e tradicional
O que nos interessa, neste artigo, é a natureza desses planejamentos, distinção entre o sujeito e o objeto não se apresenta ou, pelo menos, não
ou melhor, de uma etapa metodológica desenvolvida pela ITCP-UFPR ao de maneira tão categórica quanto em outras metodologias. O sujeito e o
realizar ações junto a grupos populares: a “pré-incubação”. A objeto participam da mesma experiência, vivem a mesma realidade e
metodologia da ITCP como um todo considera como uma necessidade o estão engajados conjuntamente na solução dos problemas. Os
diálogo permanente e, portanto, o respeito e a compreensão profunda obstáculos enfrentados pelo grupo tornam-se, em vários sentidos, os do
das particularidades de cada indivíduo para quaisquer ações com grupos pesquisador: não há uma separação rígida entre o pesquisante e os
populares. Ou, como diria Paulo Freire: pesquisados, mas, até certo ponto, uma mistura, uma “com-fusão” entre
Se, na verdade, o sonho que nos anima é democrático e solidário, não
ambos. Uma importante conseqüência dessas características é que a
falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo como se fôssemos os evolução do grupo trabalhado afetará também o pesquisador: ao longo
portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprenderemos a do trabalho, ambos - “sujeito” e “objeto”, “pesquisador” e
escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles. Somente quem 2
“pesquisados” - passarão por mudanças, por alterações . Nenhum dos
escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas
condições, precise de falar a ele. (FREIRE, 1996, p. 113).
dois pólos da relação sai incólume e, o que é muito importante, nem
deseja sair incólume, inalterado.
Como citamos acima, a discussão que nos interessa diz respeito à
pré-incubação: quais seus objetivos? Quais seus passos? Quais suas Uma forma de pesquisa-ação teorizada a partir de outra área do
possibilidades e seus limites? Mais que apresentar conclusões, conhecimento (e da prática), diz respeito à pedagogia do oprimido, ou
pretendemos propor, neste artigo, algumas questões surgidas a partir da melhor, a pedagogia da autonomia, proposta por Paulo Freire (1996),
reflexão dos processos de pré-incubação desenvolvidas pela ITCP-UFPR, que, para os nossos objetivos, fornece os substratos teóricos para o
a fim de aperfeiçoar esta metodologia, a compreensão que dela temos e contato mais direto com os grupos populares. Para Freire, o processo
as possibilidades de inclusão social de grupos excluídos. pedagógico é eminentemente dialógico e envolve contínuas trocas entre
o educador e o educando: trocas de conhecimentos, de afetos, de
experiências, de idéias. Esse processo é criativo, e estimula a riqueza
2 QUESTÕES DE MÉTODO “espiritual”, com a finalidade de permitir que o educando seja capaz de
assumir sozinho sua própria vida, sua própria história dentro de um
Esta pesquisa baseia-se principalmente no método da pesquisa-ação, contexto social específico que deve ser modificado por uma mesma ação.
que pode ser definida como: 2
Essa afirmação pode passar por um truísmo: é claro que ao cabo de uma investigação o pesquisador
[...] um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e terminará “alterado”: afinal, ele adquiriu mais conhecimentos, refletiu sobre o que conheceu e,
realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um supostamente, amadureceu. Por outro lado, toda ação prática visa a alterar algum objeto. O que está em
problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes questão na pesquisa-ação e que não torna um truísmo a afirmação acima é que, na pesquisa-ação, ao
longo de um mesmo processo, tanto o pesquisador quanto o objeto passarão por mudanças, que são
representativos da situação ou problema estão envolvidos de modo desejadas e esperadas (embora elas não sejam predizíveis).

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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

A “riqueza pedagógica”, para Paulo Freire, pode ser percebida pela é possível afirmar que o complexo trabalho com grupos populares para a
quantidade de atributos exigidos para uma prática pedagógica constituição da Economia Solidária assume ainda outras características
verdadeira: há que se ter generosidade, respeito, empatia, esperança, - em função da realidade de exclusão do Brasil - que tornam prementes
alegria, competência profissional e seriedade na relação mútua (mais não apenas as mudanças socioeconômicas, como também a própria
especialmente da parte do educador). alfabetização dos grupos populares.
Para o que nos interessa, importa citar outra característica
fundamental. É importante considerar que a ação pedagógica é sempre
“ideológica”, valorativa, com profundos pressupostos e implicações
3 A PRÉ-INCUBAÇÃO: METODOLOGIA E OBJETIVOS
políticas e sociais. Toda ação de educar tem conseqüências sobre a Nesta seção, comentaremos as características gerais da pré-
sociedade, sobre o relacionamento humano e sobre a maneira com que incubação. Para isso, porém, são necessárias algumas palavras a respeito
as pessoas percebem o mundo. Podemos, assim, ter uma pedagogia que do processo mais amplo de incubação e da metodologia desenvolvida
liberta homens, que lhes abra o mundo ao diálogo e que os leve à troca de pela ITCP-UFPR.
idéias, à descoberta individual e coletiva de realidades, que estabeleça
No início da ITCP UFPR, a incubação dos grupos era estabelecida de
relações sociais fraternas e igualitárias e que não tema as mudanças
maneira muito prática: os grupos que precisavam de assessoria e
sociais. Assim como é possível haver uma pedagogia que escraviza os
formação para iniciarem empreendimentos autogestionários,
seres humanos, que lhes tolha a liberdade de pensamento, que
procuravam a universidade. Infelizmente não era possível atender a
institucionalize relações de submissão entre a autoridade que dita as
todas as demandas - como ainda não é - e com base em algumas conversas
regras e os comportamentos “adequados” e o aluno (ou cidadão) que
com os candidatos, selecionava-se o considerado mais viável. Com o
recebe as palavras e os conhecimentos e a eles submete-se passiva e
desenrolar das atividades, observava-se que nem sempre a escolha tinha
mecanicamente. (cf. FREIRE, 1996).
sido a melhor opção. Eram necessárias mais informações para tomar tal
Assim, as relações entre o pensamento e a realidade vivida são muito decisão. Além disso, notava-se que a grande maioria do público-alvo não
mais amplas do que se poderia imaginar à primeira vista: o pensamento tinha qualquer contato anterior com economia solidária,
abstrato baseia-se no pensamento concreto e volta a ele, isto é, há uma cooperativismo ou autogestão. Com freqüência deparava-se com pessoas
relação dialética entre o pensar e o viver. A estreita relação estabelecida que sequer sabiam o significado dessas palavras. Diante desse quadro
por Paulo Freire entre a ação pedagógica e a realidade sociopolítica percebia-se a necessidade de uma etapa preliminar, que proporcionasse
deixa claro que, em certo sentido, não importa a idade dos educandos: a um ambiente mais fértil para a incubação, além de permitir um maior
maneira como o conhecimento é transmitido e apropriado tem o poder contato com o grupo para conhecê-lo e avaliar uma possível incubação
de moldar a realidade. com mais categoria.
Essas questões são de fundamental importância para a ação com os Assim em 2003, a ITCP amadureceu a sua metodologia de incubação,
grupos populares. As cooperativas são uma alternativa à exclusão sistematizando-a em três etapas sucessivas, cada qual com suas
capitalista para geração de renda e trabalho. Todavia, isso não esgota características distintas: a pré-incubação, a incubação propriamente
seu projeto, pois têm um aspecto e um sentido político inequívoco ao dita e a desincubação.
visarem a promoção da democracia direta e participativa. (cf., p. ex.,
Para a eficiência das atividades desenvolvidas na incubação,
Singer, 2003b, p. 117). Ora, a passagem dos hábitos próprios do
pressupõe, da parte da ITCP, um conhecimento mínimo do grupo
capitalismo para os da Economia Solidária não é fácil ou simples.
popular, suas características, suas possibilidades e seus limites. Da parte
Consiste acima de tudo, em um processo pedagógico (no sentido da
do grupo popular, é necessário não só um conhecimento mínimo do
pedagogia da autonomia freireana e nos marcos da pesquisa-ação3).
cooperativismo e da Economia Solidária, mas também de seus valores e,
Abaixo, apontaremos em que consiste a pré-incubação. Porém, desde já,
igualmente, de suas possibilidades e de seus limites. É importante o
3
Cf., a esse respeito e a partir de uma perspectiva da mudança de identidade do grupo (de um grupo conhecimento mútuo, para que sejam exploradas suas possibilidades, a
individualista nos marcos do capitalismo para um grupo solidário), Alencastro et alii (2004).

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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

partir de uma relação de confiança e respeito. Esses diversos (60 horas) e o pré-estudo de viabilidade econômica (20 horas). A
conhecimentos são obtidos, inicialmente, na fase de pré-incubação. primeira etapa tem como objetivo avaliar preliminarmente o grupo: sua
composição, sua origem, seus interesses, suas perspectivas, bem como
A pré-incubação é um conjunto de ações que se inclui em um
sua identificação com os valores do cooperativismo e da Economia
conjunto maior com vistas à incubação de cooperativas populares.
Solidária. A segunda etapa visa a apresentar alguns dos elementos
Como o próprio nome indica, é a etapa preliminar à incubação.
básicos do cooperativismo e da Economia Solidária. Finalmente, a
O prazo de duração da pré-incubação é fixo, contado em horas-aula e terceira etapa consiste em uma avaliação das possibilidades e
em horas-técnicas. Seus objetivos são bastante claros e precisos, de potencialidades econômicas do grupo. O formato “canônico” tem 96
maneira que se pode distinguir facilmente a incubação de sua fase horas, mas pode variar em função de diversos motivos, como, por
preliminar. exemplo, a disponibilidade do grupo e sua participação e envolvimento
A incubação visa à constituição da cooperativa popular como nas atividades.
empreendimento autogerido de Economia Solidária. Na incubação, a Esse formato de 96 horas surgiu a partir de uma demanda específica
ITCP-UFPR atua em conjunto com um grupo popular organizado em da Secretaria de Trabalho, Emprego e Promoção Social do Paraná
cooperativa, com ações de assessorias técnicas e atividades de formação (SETP). A agência estatal, estabeleceu contato com a ITCP-UFPR para
(como o planejamento estratégico participativo e alfabetização planejamento de cursos para divulgação da proposta do Cooperativismo
solidária). Anteriormente, fizemos referência à pesquisa-ação: a e da Economia Solidária, a serem ministrados à cerca de 70 grupos
incubação é o momento e, por assim dizer, o “espaço” em que se dá a populares, ao longo do ano de 2005, no Programa Estadual de Economia
atividade da ITCP nos marcos da pesquisa-ação. Solidária.
A partir de suas primeiras experiências, a ITCP estabeleceu o período Essa proposta se encaixa dentro dos parâmetros da pré-incubação,
de incubação variando de três a quatro anos. que a partir desta demanda, tornou-se uma ação autônoma, com início,
Já a terceira e última fase, a desincubação, não apresenta a mesma meio, fim e objetivos muito claros. É evidente que ela pode - e mesmo
clareza que as duas fases anteriores, pois consiste em “não-ações”, um deve, quando possível - articular-se com as demais etapas do grande
fim de um conjunto de medidas, e não propriamente ações positivas. processo de incubação, mas isso não impede, nem invalida a pré-
incubação como ação isolada.
Os empreendimentos que ficaram no ambiente seguro da ITCP por
alguns anos, não podem passar abruptamente para um ambiente sem tal Ao término de cada pré-incubação, deve-se elaborar um denso
segurança, de modo que há algumas etapas e medidas a serem tomadas relatório, considerando aspectos objetivos e subjetivos da realidade
para a saída. Ainda assim, essa fase consiste no progressivo término de vivida e experimentada pelo grupo-objeto (sempre considerando
4
atividades anteriores . referências teóricas da pesquisa-ação e da pedagogia da autonomia).
Esse relatório é um instrumento importantíssimo para qualquer outra
Feitos esses comentários, passamos a tratar especificamente da pré- ação que se pretenda desenvolver com o grupo em questão.
incubação.
No que se refere à execução do Programa Estadual de Economia
A pré-incubação consolidou-se em uma fase com três etapas que Solidária do Paraná, por exemplo, estes relatórios são importantes
perfazem 96 horas: o diagnóstico participativo e sensibilização (16 documentos já que se tem o objetivo de ter um diagnóstico sobre cada
horas), o curso introdutório à Economia Solidária e ao Cooperativismo um dos grupos, que serviriam para justificar o eventual financiamento
4
A descrição de cada uma das três fases (pré-incubação, incubação e desincubação) foi sumária, por de demandas específicas de cada um (cozinhas comunitárias, barracões
não caber neste texto uma discussão mais pormenorizada de cada uma delas. A despeito disso, importa para separação de material reciclável, etc.).
notar que, efetivamente no marco da pesquisa-ação, a ITCP-UFPR ainda está amadurecendo sua
reflexão e sua metodologia para a desincubação e isso por um motivo muito simples: enquanto há O relatório final de cada pré-incubação serve como um indicador das
diversos grupos incubados e ainda muitos mais na pré-incubação, até hoje apenas dois grupos foram
desincubados; além disso, esses dois tinham características muito particulares, de modo que a atividades desenvolvidas pelos grupos, de sua situação socioeconômica
experiência obtida com eles não pode ser generalizada. De qualquer forma, uma apresentação em relação aos diversos indicadores sociais, das percepções que os
sistemática da metodologia da ITCP-UFPR pode ser obtida em ITCP-UFPR (2005).

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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

grupos têm da sociedade e das realidades por eles vividas. geração de renda e trabalho, à participação política e à vida no
município em que estão;
Como dissemos anteriormente, a pré-incubação é a etapa preliminar
à incubação. Mais que um simples pré-requisito, ou formalidade, a pré- 4 - Definição da possibilidade de incubação: um quarto objetivo que
incubação cumpre um papel importante na medida em que permite à se pode determinar na pré-incubação é, sem dúvida, a determinação da
ITCP conhecer a realidade dos grupos populares nos aspectos relevantes possibilidade de incubação. O grupo tem que corresponder a três
para o processo de incubação, isto é, permite determinar se os grupos requisitos fundamentais: aderir aos valores do cooperativismo, ser
têm condições de serem incubados. Quais seriam os objetivos da pré- economicamente viável e ter necessidade de ser incubado pela ITCP.
incubação? Destacaremos abaixo alguns dos que nos parecem os mais Evidentemente, nenhum desses pré-requisitos é avaliado de maneira
importantes. aleatória, nem visa a punir qualquer grupo por qualquer questão. O que
se apresenta é: a demanda por incubação é maior do que a ITCP pode
1 - Formação: a principal atividade da pré-incubação, consiste no
atender. A responsabilidade social da ITCP, ao assumir um grupo em
curso introdutório à Economia Solidária e ao Cooperativismo (60
detrimento de outro, é enorme em virtude do fato de simplesmente não
horas). Ela pode ser considerada uma fase independente das demais. Ao
possuir condições para incubar todos ao mesmo tempo. Assim, os
apresentar os princípios do cooperativismo, do associativismo e de
grupos incubados, conquanto sejam promessas no término dos
outras formas de Economia Solidária, a pré-incubação cumpre um papel
processos de pré-incubação e no início do de incubação, devem ser
formador para os grupos populares, na medida em que propõe uma
promissoras. Em caso negativo, não são incubados. Essas três avaliações
alternativa de geração de renda, de inclusão social, de resgate da
constam do diagnóstico participativo.
dignidade e da cidadania e de estímulo à organização igualitária e
equânime dos trabalhadores (na forma da autogestão). Na verdade, Muitas vezes, não é possível determinar em apenas 96 horas se um
lembrando o que comentamos ao apresentarmos as perspectivas de grupo possui os requisitos para entrar no processo de incubação, se ele
Paulo Freire, a instituição da democracia participativa começa já nessa tem ou não aptidão para o trabalho cooperado. Assim, fazemos uma
fase, ao tornarmos os educandos verdadeiramente atores sociais e não observação atenta de todos os passos e todas as etapas, avaliando,
meros recipientes do conhecimento; momento a momento, se o grupo é incubável. Caso cheguemos à
conclusão negativa, encerramos nossas atividades com esse grupo.
2 - Difusão de práticas alternativas de relacionamento: é interessante
registrarmos uma conseqüência extremamente importante da ação Como apontamos acima, nossos procedimentos são todos adotados
pedagógica da pré-incubação: ela permite difundir, divulgar os valores em constante e permanente diálogo, de maneira que a decisão de um
do cooperativismo e da Economia Solidária. O processo de incubação é grupo em particular ter ou não o perfil do cooperativismo é tomada em
bastante complexo e a ITCP-UFPR não consegue atender todas as conjunto com ele. Além disso, uma decisão desse tipo envolve uma
demandas. Como se trata de um processo bastante mais rápido que a quantidade enorme de variáveis, que inclui a percepção dos membros do
incubação propriamente dita, a pré-incubação (com apenas 96 horas) grupo como um grupo de fato, sua adesão aos valores e princípios do
pode atingir um maior número de grupos, fato que facilita a difusão das cooperativismo, a organização do trabalho cooperado (no caso das
propostas da autogestão e da Economia Solidária como alternativas ao cooperativas de produção, que são as com que a ITCP-UFPR trabalha) e a
capitalismo. viabilização técnica e financeira do empreendimento. Todos esses
elementos são levados em consideração em todas as avaliações.
3 - Elaboração do diagnóstico participativo: é um momento em que a
equipe da ITCP conhece a realidade do grupo. De maneira crítica, que Decidir se um grupo pode ou não ser incubado é uma decisão séria e
vise à emancipação social, o próprio grupo passa por um processo de extremamente consciente da parte da equipe da ITCP-UFPR, e pode ser
autoconhecimento. O relatório inclui uma descrição da realidade tomada em qualquer etapa (durante a pré-incubação ou a incubação).
socioeconômica municipal e local, passando para a história do grupo e
dos indivíduos que o compõem; considera os indicadores
socioeconômicos e culturais do grupo e avança para uma avaliação das
perspectivas do grupo em relação a si mesmo, à Economia Solidária, à
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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

4 PROBLEMATIZANDO A PRÉ-INCUBAÇÃO Outro problema que se apresenta são os altos índices de evasão
escolar. Se considerarmos a pré-incubação um processo pedagógico, é
Apresentada a metodologia utilizada durante a pré-incubação,
lícito falar-se em “evasão escolar” para referirmo-nos à redução do
formularemos algumas dificuldades de realização na fase do processo
quadro de educandos ao longo da pré-incubação. A experiência indica
maior de incubação a partir da experiência concreta da ITCP-UFPR.
que pelo menos 50% desistem de participar do processo antes de sua
A primeira dessas dificuldades diz respeito ao analfabetismo, sempre conclusão, o que, além de ser um dado com que a equipe da ITCP tem
presente nos grupos populares. Como é fácil perceber, esse fato que trabalhar, é por si um fator de desestímulo para os demais
constitui-se em um empecilho para qualquer trabalho a ser educandos.
desenvolvido, na medida em que prejudica o acesso a conhecimentos e a
É importante notar que sempre existe um pequeno grupo que
dados do dia-a-dia.
permanece. Sua força de vontade para mudar a realidade e buscar
De modo geral, os grupos populares são vítimas de situações sociais alternativas de renda, de trabalho e de solidariedade é um fator
que produzem o analfabetismo e essa é uma situação que, de uma forma importante, de encorajamento e de respeito, podendo-se, às vezes, falar-
ou de outra, tem que ser contornada. Por isso, na pré-incubação, 6
se até em grupos de “resistência” .
realizam-se atividades dinâmicas para a discussão de diversos temas,
Sem procurar uma ordem de importância, podemos citar diversos
que, a partir da realidade concreta e cotidiana dos grupos populares,
fatores que causam ou que influenciam poderosamente as evasões:
questões mais amplas sejam discutidas.Esse processo considera o
caráter participativo e as indicações de Paulo Freire a respeito da - a baixa auto-estima: a crença arraigada que as pessoas têm de que
educação popular. “não são capazes de fazer”, não são capazes de superar seus problemas,
suas limitações e suas dificuldades, é um traço psicológico que se
Uma formação política e o desenvolvimento da consciência do grupo
traduz, na prática, em um fatalismo mais ou menos profundo. Isso é
a propósito de sua condição social, de suas possibilidades efetivas, da
possivelmente modificável com uma ação (mas de longo prazo), bem
importância de sua atuação, podem ser desenvolvidos sem,
elaborada e bem desenvolvida em que o grupo e cada um dos indivíduos -
necessariamente, o auxílio dos conhecimentos da leitura. Porém, ainda
e mesmo a equipe da ITCP - precisam perceber que, mesmo com todas as
assim, há algumas questões que exigem os conhecimentos da leitura e
limitações impostas pela realidade, seus destinos não estão selados: com
da escrita, em particular as relacionadas às formalidades burocráticas.
generosidade e persistência, é possível mudar as coisas para melhor;
Na verdade, o problema do analfabetismo não se reduz à questão da
- o choque de culturas expresso pelos diferentes linguajares de cada
leitura e da redação de textos, mas tem um importante aspecto político,
grupo e pela eventual dificuldade de entender o que os educadores dizem:
na medida em que ler e escrever integram a cidadania e permitem
5 sabe-se que as maneiras como determinados grupos sociais falam podem
exercitá-la . 7
ser formas de exclusão . Para quem não teve acesso à instrução formal e,
A única forma de resolver esse problema é alfabetizar os educandos portanto, a determinados recursos lingüísticos, até a maneira de os
quando necessário. Todavia, aí surge uma limitação que não deixa de ser educadores se expressarem pode, involuntariamente, parecer
uma fonte de desagrado e frustração: em virtude de suas características 8
pernóstica e provocar situações de exclusão . Esse tipo de problema
e de seu objetivo, a pré-incubação não trata de ações de alfabetização. O
6
Na realidade, encontramos esses “grupos de resistência” não apenas nos processos de pré-incubação
máximo que se pode fazer, seguindo sua lógica, é indicar nos relatórios a como também nos de incubação. Sem dúvida, podemos afirmar, sem nenhum exagero, que o ideal do
realidade do analfabetismo, sugerir contatos e soluções posteriores e, cooperativismo e da Economia Solidária no Brasil tem também como característica esse caráter de
resistência.
durante a ação, adotar metodologias solidárias e de educação popular 7
O “choque de culturas” pode assumir inúmeras outras formas, mas a diferença de linguajares é uma de
para “construir” em conjunto a compreensão dos conteúdos. suas manifestações mais claras e mais fortes.
8
Como vimos na seção II deste artigo, a equipe da ITCP-UFPR tem um cuidado especial em evitar esse
5
Mais recentemente, nos últimos dez anos, uma outra forma de analfabetismo e, portanto, de exclusão tipo de situação. Todavia, ainda assim, ela pode estar sempre à espreita, de maneira que sua menção
surgiu, pari passu ao avanço da informática: a exclusão digital. Não são apenas os rudimentos da leitura aqui serve como um aviso, uma espécie de lembrete, no sentido de respeitar os grupos populares e evitar
e da escrita que integram uma caracterização da cidadania, mas, cada vez mais, o domínio de que uma forma sutil de exclusão ocorra por meio de uma equipe que deseja a superação dessa
habilidades relativas à informática e o acesso ao “mundo dos computadores”. Assim, a exclusão é levada exclusão.que uma forma sutil de exclusão ocorra por meio de uma equipe que deseja a superação dessa
ao paroxismo, pois um analfabeto, hoje e cada vez mais, será duplamente analfabeto. exclusão.

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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

pode ser resolvido por dois caminhos complementares: por meio da grupos já existiam e iam à Universidade em busca de apoio técnico.
adaptação do linguajar e, de modo geral, do comportamento da equipe Todavia, a demanda da SETP, acima apresentada, inverteu
da ITCP frente à realidade vivida pelo grupo popular, sensível à realidade completamente a situação, pois é a Universidade que busca os grupos,
dos grupos, com a utilização de um diálogo franco e aberto, sem medo e que, por sua vez, ao longo dos processos de pré-incubação, constituem-
sem condescendência (que seria tudo, menos emancipadora); se como tais10. Mais que um problema para a ITCP-UFPR, esse fato
apresenta um problema geral para o cooperativismo no Brasil: até que
- a falta de comprometimento dos membros dos grupos com o curso e
ponto esse padrão é recorrente no país como um todo, isto é, até que
com as atividades da pré-incubação: nesse caso, a possibilidade de ação
ponto o cooperativismo é “induzido”?
da ITCP-UFPR é muito pequena. Além do diálogo franco e aberto com o
grupo, já comentado, pouco se pode fazer. Na verdade, esse tipo de Outra questão refere-se à existência de grupos de apoio e de tutela.
situação põe em relevo um dos fundamentos da ação pedagógica De modo geral, os grupos populares têm grupos de apoiadores como
solidária, que é o próprio grupo assumir-se como ator social, isto é, ONGs, igrejas ou outras instituições que colaboram na consecução de
perceber-se como capaz de uma ação, estabelecer um objetivo e, seus objetivos, auxiliando-os das mais diversas maneiras, como, por
principalmente, engajar-se em um compromisso com sua história. O exemplo, com impulsos iniciais para a organização, com recursos
objetivo da autogestão, tão celebrada na Economia Solidária, consiste, materiais, com eventuais contatos. Todavia, há uma tênue linha
em última análise, nessa percepção; separando os grupos de apoio dos de tutela, entre a ação emancipatória
de apoio (que é, em um sentido preciso, uma ação de “apoio”) e a ação
- a não-adesão aos valores do cooperativismo e a permanência nos
que controla e impede que os grupos desenvolvam-se e gerenciem-se
valores próprios ao capitalismo (individualismo, heterogestão): esse
com autonomia.
fator é muito semelhante ao anterior, embora tenha um caráter mais
individual. A participação de alguém que não leve a sério os ideais do A dificuldade surge no momento em que se deve decidir quando o
cooperativismo ou da Economia Solidária em um grupo comprometido auxílio bem-intencionado e bem realizado deixa de existir e o apoio
com esses ideais pode exercer uma ação repulsiva sobre esse indivíduo. torna-se uma relação de dependência e submissão (por exemplo, na
Quando isso não se dá não ocorre uma aceitação ou identificação com os forma de assistencialismo ou na forma da instrumentalização político-
valores solidários. De fato, a margem de ação é bastante reduzida. partidária11). Todas as ações da ITCP-UFPR têm um caráter político - e
Muitas vezes, o próprio indivíduo sai da cooperativa ou do grupo que visa situações como essas são essencialmente políticas - tanto no que se
a constituir-se solidariamente. Em outras ocasiões, o grupo é maduro e refere aos grupos populares quanto no que se refere ao relacionamento
consciente de si e de seus valores para conversar com o indivíduo que da ITCP-UFPR com os apoiadores. Esse tipo de situação não possui
discorda dos valores do cooperativismo em busca de uma solução. exatamente uma “solução”, requerendo uma análise muito atenta de
cada caso em relação aos grupos e aos apoiadores para decidir-se o curso
As questões acima se referem ao processo pedagógico característico
da pré-incubação. Porém, gostaríamos de apresentar duas questões que de ação12.
as antecedem e que as permeiam, influenciando o conjunto e o
resultado das ações 9.
5 CONCLUSÕES PARCIAIS
A primeira dessas questões refere-se à constituição dos grupos e, de
Ao invés de colocarmos “Considerações Finais” no título desta seção
certa forma, ao próprio desenvolvimento de políticas públicas relativas à
geração de renda e trabalho em geral e à Economia Solidária em 10
Que fique claro: não criticamos esse processo de seleção per se, mas indicamos um de seus limites e os
particular. O que deve fazer a ITCP-UFPR ao deparar-se com questões perigos que ele pode apresentar (por exemplo, resultar nos altos índices de “evasão escolar”,
burocráticas ou com grupos realmente não-existentes, ou que existem comentados há pouco). Acima de tudo, é uma questão para reflexão e para futura decisão a respeito das
políticas para a Economia Solidária, da parte dos grupos populares, da ITCPs e do Estado de maneira
apenas no papel? Isso põe em questão a maneira como surgem os grupos geral.
11
com que a ITCP-UFPR trabalha. No início das atividades da ITCP, os É claro que ambas as práticas o assistencialismo e a instrumentalização político-partidária podem
andar juntas como, de fato, costuma acontecer.
12
9
Poderíamos, sem dúvida, incluir outras questões igualmente cruciais para a incubação, mas essas duas Apenas para insistir em um aspecto: esse tipo de situação pode ocorrer na pré-incubação mas não
afetam mais diretamente o processo de pré-incubação. apenas nela: durante todo o processo de incubação ele pode vir a acontecer.

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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Gustavo Biscaia de Lacerda e Daniele Rodrigues Pereira da Silva

final, preferimos pôr “Conclusões Parciais” não devido a questões de resistência, é possível ultrapassar-se essa tensão desfavorável aos grupos
estilo, mas em razão de a metodologia da ITCP não estar ainda populares.
concluída, porque várias questões aqui apresentadas não têm solução
imediata, ou não tiveram ainda solução ou mesmo porque talvez não as
tenham. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Mas há outros motivos para essa discussão não ser conclusiva. As
várias etapas apresentadas anteriormente, relativas à incubação como ALENCASTRO, L. H.; FREIRE, F. F.; HAMASAKI, A. M.; IASKIO, E. L. S.;
um todo e à pré-incubação em particular, haja vista serem abertas, têm GODÓI, G. F. & GONÇALVES, G. M. Autogestão: os caminhos
muito mais o caráter de um roteiro ou de um mapa, do que de uma percorridos por uma cooperativa popular na busca de sua identidade
cartilha a ser seguida à risca e ao pé da letra. À parte temos o fato de que cultural autogestionária. Trabalho apresentado no VIII Seminário
as realidades sociais dos grupos populares são inesgotáveis, Internacional da Rede universitária das Américas em estudos
impossibilitando um fechamento da metodologia. Como vimos, há cooperativos e associativismo, realizado em Sherbrooke (Canadá), de 4
muito para aperfeiçoar na pré-incubação. a 8 de outubro. 2004. Disponível em: Http://www.unircoop.org/index.asp
Para este artigo, apresentamos duas questões finais, referentes ao ?section=semin&lang=pr&action=detailconf&conf_ID=249&ID=9. Acesso em:
31.ago.2005.
prosseguimento e à implementação das ações. A pré-incubação é um
ciclo completo (ainda que faça parte de um ciclo maior), com
características próprias. Como citamos em páginas anteriores, após um FREIRE, P. O compromisso do profissional com a sociedade. In: _____.
processo que costuma durar quatro meses, a ITCP-UFPR retira-se do Educação e mudança. 5ª ed. São Paulo: Paz e Terra. 1982.
cotidiano de muitos grupos, considerando concluída sua missão. Certo?
Não, errado. Todavia, na medida em que a pré-incubação não leva
necessariamente à incubação, a descontinuidade das ações muitas vezes _____. Pedagogia da autonomia. 30ª ed. São Paulo: Paz e Terra. 1996.
gera frustrações em ambos os grupos - nos populares e no da ITCP - algo
que, sem dúvida, não é fácil e nem agradável. A solução desse problema
implica no aprofundamento das discussões sobre a metodologia de ITCP-UFPR. A ITCP-UFPR. Relatório apresentado no Iº Seminário de
incubação, de educação popular e nos diálogos com os grupos Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares do Proninc,
populares. realizado em São Paulo em 2 e 3 de maio de 2005. Curitiba: Incubadora
A partir da exposição acima, podemos perceber que vários dos Tecnológica de Cooperativas Populares. 2005. Disponível em:
motivos de “evasão escolar” nos cursos da pré-incubação referem-se à http://www.acompanhamentoproninc.org.br/seminario.htm. Acesso
assimilação de valores, tanto ou mais que à busca de alternativas em: 30.ago.2005.
econômicas para uma situação socialmente injusta e excludente.
Essa talvez seja a grande tensão na Economia Solidária e, em SINGER, P. A Economia Solidária: Teoria e Debate, São Paulo, n. 47,
particular, no cooperativismo: como conciliar a tentativa de fev.-abr. 2001. Disponível em: http://www.fpa.org.br. Acesso em: 25.
constituição de uma nova forma de produção econômica com uma mar.2005.
realidade econômica excludente? Sendo mais precisos: como é possível,
ao mesmo tempo, agir em busca de uma sociedade mais justa - em uma
ação baseada em valores e em princípios subjetivos e pessoais por _____. Introdução. In: SECRETARIA NACIONAL DE ECONOMIA
definição - e implementar projetos que têm relação com a realidade do SOLIDÁRIA. Economia Solidária em desenvolvimento. Brasília:
capitalismo excludente? Essa questão não se resolve do ponto de vista Secretaria Nacional de Economia Solidária. 2003a
teórico, mas na prática: apenas pela contínua afirmação e reafirmação
dos valores do cooperativismo e da Economia Solidária e por meio da
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Problematizando o trabalho com grupos populares: as ações de pré-incubação da ITCP-UFPR Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 3

_____. Economia Solidária. In: CATTANI, A. D. (org.). A outra


economia. Porto Alegre: Veraz. 2003b.

THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez.


1986. O que é Economia Solidária?
Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

1 INTRODUÇÃO
O início do século XXI, no Brasil, tem sido marcado pela inserção
cada vez mais profunda do país no que hoje se chama globalização. Desde
o Consenso de Washington e da implantação de práticas neoliberais pelo
mundo, inicialmente por Tatcher na Inglaterra e por Reagan nos EUA, o
planeta passa por um processo reestruturação produtiva e
desestruturação do mercado de trabalho.
A partir do fim da década de 1970 e nas duas que se seguiram,
produziram-se taxas elevadas e persistentes de desemprego e índices
crescentes de pobreza na maioria dos países capitalistas desenvolvidos,
mas, principalmente, nos países da periferia.
No Brasil, o trabalho em tempo integral por prazo indeterminado
vem sendo substituído pelo trabalho temporário, pela jornada em tempo
parcial (part-time job), pelo trabalho domiciliar e por aprendizes e
estagiários. Também a prática de subcontratação/terceirização tem-se
tornado parte integrante desse processo (CULTI, 2002, P. 01).
Como alternativa às práticas neoliberais, governos de esquerda e
centro-esquerda ascenderam ao poder nos anos 80 e 90. Contudo,
demonstraram não possuir projetos concretos, procurando encobrir
suas deficiências com a instituição de políticas emergenciais de
atendimento a desempregados e a pequenos produtores autônomos e
informais.
É nesse contexto que ressurgem, após décadas de “hibernação”,
iniciativas que propõem uma forma de trabalho alternativa à tradicional,
iniciativas essas pautadas em princípios de solidariedade, propriedade
coletiva dos meios de produção e participação coletiva das tomadas de

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O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

decisão. Essas iniciativas são o que hoje se chama economia solidária. para não confundi-los com economia social e/ou terceiro setor, que
possuem significados distintos e expressam ações diferentes.
No Brasil, as iniciativas capituláveis como integrantes da economia
solidária têm se expandido significativamente, tanto na forma de Vejamos o que alguns autores consideram como economia solidária.
iniciativas sociais espontâneas como de políticas oficiais. (GERMER, Para Paul Singer (2002, p. 10):
2005, p. 01). A economia solidária é outro modo de produção, cujos princípios básicos
são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade
O presente artigo pretende fazer uma revisão teórica do conceito de individual. A aplicação desses princípios une todos os que produzem numa
economia solidária, procurando conciliar as diferentes opiniões de única classe de trabalhadores que são possuidores de capital por igual em
diversos autores em torno de um conceito único (porém abrangente) cada cooperativa ou sociedade econômica.
que procure não ferir as múltiplas ideologias sobre o assunto. Embora o autor não deixe claro o que seria sociedade econômica, ao
A primeira parte do artigo faz uma revisão de bibliografia do conceito longo da mesma obra cita, ainda, como empreendimentos de economia
de economia solidária. Em seguida, compara o conceito com outros que solidária as cooperativas de consumo, de crédito, de produção, de
provocam confusões metodológicas: economia social e terceiro setor. compra e vendas e os clubes de troca. Além disso, afirma que:
Por fim, mostra que é possível conceituar a economia solidária de uma O conceito [economia solidária] se refere a organizações de produtores,
forma que não sejam feridas as diversas ideologias ligadas ao tema. consumidores, poupadores etc., que se distinguem por duas
especificidades: (a) estimulam a solidariedade entre os membros mediante
a prática da autogestão e (b) praticam a solidariedade para com a
população trabalhadora em geral, com ênfase na ajuda aos mais
2 O CONCEITO E SEUS AUTORES desfavorecidos. (idem, 2003, p. 116).
Conceituar economia solidária não é uma tarefa fácil, pois, por Euclides Mance (2000, p. 01) e Tauilie & Debaco (2002) assumem a
tratar-se de um assunto relativamente novo, existe uma multiplicidade pluralidade de conceitos. Mance também afirma que nem todas as
de definições. Além disso, há muitos autores que consideram diversas características elencadas estão presentes em práticas consideradas
ações como economia solidária. Também o próprio conceito economia como economia solidária:
solidária não é unívoco, sendo adotado por alguns autores como O termo economia solidária abriga muitas práticas econômicas e não há
economia popular solidária, economia popular ou socioeconomia um consenso sobre o seu significado. Em geral ele está associado a
solidária e é até mesmo comparada e/ou confundida com economia práticas de consumo, comercialização, produção e serviços (entre os
social. Em idiomas anglo-saxônicos (em especial nos Estados Unidos), quais o de financiamento, em particular) em que se defendem, em graus
variados, a participação coletiva, autogestão, democracia, igualitarismo,
alguns autores utilizam a expressão terceiro setor para definir essa forma cooperação, auto-sustentação, a promoção do desenvolvimento humano,
de organização. responsabilidade social e a preservação do equilíbrio dos ecossistemas.
Entretanto, nem todas essas características estão presentes nas diversas
Marcos Arruda justifica a multiplicidade de conceitos como uma práticas concretas que são elencadas como economia solidária em
tentativa de dar outro sentido à palavra economia, modificada de seu estudos e análise distintas que temos encontrado. (Mance, 2000, p. 01).
sentido original: Apesar da multiplicidade de conceitos, por ora podemos caracterizar a
Por trás da diversidade de conceitos que visam a instituir novos modos de economia solidária como o conjunto de empreendimentos produtivos de
organização do trabalho e da produção economia social, economia de iniciativa coletiva, com um certo grau de democracia interna e que
proximidade, economia solidária ou de solidariedade, socioeconomia remuneram o trabalho de forma privilegiada em relação ao capital, seja no
solidária, economia social, humanoeconomia, economia popular, campo ou na cidade. (TAUILIE & DEBACO, 2002).
economia do trabalho, economia do trabalho emancipado, colaboração
solidária existe uma busca comum de se recuperar o sentido original do
Armando Lisboa amplia a “lista” de ações que poderiam ser
vocábulo economia, que em grego significa a gestão, o cuidado da casa. consideradas como economia solidária, além de afirmar que tais
(ARRUDA, 2003, p. 234; grifos no original). empreendimentos podem constituir redes próprias de comercialização,
Como se verá mais adiante, os termos acima citados pelo autor além de inserirem-se no mercado:
referem-se geralmente às mesmas ações. Contudo, é necessário cuidado A EPS [Economia Popular Solidária] surge a partir de iniciativas de base

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O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

1
comunitária em geral construídas por organizações vinculadas aos 2002b, p. 02) .
setores populares. Trata-se de atividades produtivas que tanto se inserem
no Mercado quanto constituem redes de comercialização próprias (o O autor chileno Luís Razeto imprime um caráter acadêmico para a
Mercado Solidário). O campo da EPS, baseado na pequena empresa economia solidária e enfatiza a necessidade de uma modificação na
comunitária, na agricultura familiar, no trabalho doméstico, autônomo,
teoria tradicional e conceitua a economia solidária como:
nas cooperativas e empresas autogestionárias, aos poucos supera o
desafio do Mercado e viabiliza (e se visibiliza) sua competitividade no Uma formulação teórica de nível científico, elaborada a partir e para dar
mesmo, constituindo-se como uma alternativa desde o interior das conta de conjuntos significativos de experiências econômicas [...], que
relações mercantis. Trata-se de um outro circuito econômico diferenciado compartilham alguns traços constitutivos essenciais de solidariedade,
do mercantil-capitalista e do estatal no qual os pobres constroem suas mutualismo, cooperação e autogestão comunitária, que definem uma
próprias alternativas comunitárias de provisão material da sua racionalidade especial, diferente de outras racionalidades econômicas.
existência através de relações de solidariedade. (LISBOA, 2005). (RAZETO, 1993, p. 40).

Liana Carleial dá certa ênfase aos empreendimentos e aos princípios Assim como Arruda (2003), Razeto também concorda que a teoria
comuns que ligam as pessoas que fazem parte da economia solidária: tradicional não tem dado conta de explicar uma parcela significativa da
Por Economia Popular Solidária compreende-se uma pluralidade de tipos sociedade que realiza atividades econômicas que não são enquadradas
de empreendimentos econômicos, resultantes da associação voluntária de em tal teoria. Dessa forma, há a necessidade de se desenvolver uma nova
pessoas. Esses empreendimentos, que assumem formas variadas de teoria acerca dessa realidade de empreendimentos que, apesar de fazer
organização (cooperativas, associações, grupos) pautam-se pela gestão
parte da economia de mercado, não se baseia na propriedade privada dos
coletiva, a propriedade comum dos meios de produção e as relações de
trabalho normatizadas pelos princípios de autogestão, participação, meios de produção e nem no trabalho assalariado.
cooperação, desenvolvimento humano e igualitarismo. (CARLEIAL, 2003,
Ainda que os autores citados nas páginas anteriores possam divergir e
p. 05).
considerar umas ou outras práticas como economia solidária (até
Com o objetivo de conceituar a economia popular, Icaza & Tiriba mesmo quanto aos termos utilizados) todos convergem ao afirmar que
afirmam que: ela prega uma forma de trabalho diferente da dominante no capitalismo.
A economia popular é o conjunto de atividades econômicas e práticas Essa forma, baseada em solidariedade, fatores humanos, autogestão e
sociais desenvolvidas pelos setores populares com vistas a garantir, propriedade coletiva dos meios de produção, é o diferencial da economia
através de sua própria força de trabalho e dos recursos disponíveis, a
solidária frente ao sistema dominante.
satisfação das necessidades básicas, tanto materiais como imateriais.
(ICAZA & TIRIBA, 2003, p. 101). Ambos os autores, por meio da utilização dos mais diversos termos
As autoras citam outros exemplos de economia popular além (economia popular, socioeconomia solidária, economia popular
daqueles empreendimentos com vistas a ganhos monetários. Há solidária etc.) e da história, afirmam que a economia solidária surge
também as manifestações espontâneas de solidariedade entre familiares principalmente como resposta à incapacidade da economia de mercado
e vizinhos, além de mutirões para construção de casas populares, de garantir provimento às necessidades básicas da população, em
consertos do telhado do vizinho ou mesmo cuidado com as crianças especial a partir da implantação de modelos neoliberais no final da
enquanto os pais estão trabalhando. década de 1970 e início da de 1980.

Jean Louis Laville caracteriza a economia solidária como: Assumindo diversas formas, tais como cooperativas, associações ou
Um conjunto de atividades econômicas cuja lógica é distinta tanto da
empresas autogestionárias e, mais tarde, também os clubes de troca, a
lógica do mercado capitalista quanto da lógica do estado. Ao contrário da economia solidária surge para dar conta da crescente massa de
economia capitalista, centrada sobre o capital a ser acumulado e que desempregados, gerada pela preocupação constante dos capitalistas em
funciona a partir de relações competitivas tendo por objetivo o alcance de reduzir custos e aumentar lucros. Esses empreendimentos, cujos meios
interesses individuais, a economia solidária organiza-se a partir de
fatores humanos, favorecendo as relações onde o laço social é valorizado
de produção pertencem aos próprios trabalhadores e por eles geridos,
através da reciprocidade e adota formas comunitárias de propriedade. são pautados na solidariedade entre seus membros, na democracia e na
Ela distingue-se também da economia estatal que supõe uma autoridade
central e formas de propriedade institucional. (LAVILLE, APUD LECHAT, 1
LAVILLE, J. L. e ROUSTANG, G. L'enjeu d'un partenariat entre État et société civile. In : DEFOURNY
e OUTROS. Économie social au Nord et au Sud. Bruxelles : Deboeck, 1999. p. 217-238.

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O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

participação. mais ou menos adormecidas, ou pelo menos, sem um crescimento que


merecesse destaque, durante o período conhecido como Welfare State. A
A economia solidária, portanto, pode ser caracterizada como toda
partir da década de 1930, em que a ênfase era dada mais à geração e
forma de trabalho associado, de produção e/ou comercialização de bens
manutenção de empregos tradicionais e políticas de pleno emprego, os
e serviços com vistas à geração de trabalho e renda. Sua especificidade
sindicatos ou organizações de trabalhadores lutavam para a ampliação
consiste na propriedade coletiva dos meios de produção, na associação
ou manutenção dos direitos trabalhistas adquiridos, e não por uma
livre e voluntária e na autogestão.
revolução.
Durante esse período, a chamada economia social perde, de certa
3 ECONOMIA SOLIDÁRIA ECONOMIA SOCIAL maneira, a perspectiva solidária das primeiras experiências trabalhistas
Lechat (2002b) e França (2002) têm preocupação em tentar do século XIX, passando a ser utilizada para designar mais ações de
conceituar economia solidária, além de tentar traçar fronteiras fraternidade que propriamente de solidariedade.
conceituais entre economia social, economia solidária, economia Lipietz afirma que:
popular e terceiro setor. Ambos fazem essas distinções, procurando e Após a segunda guerra, por ocasião do estado de providência, a economia
comparando diversos autores que falem sobre os termos. Os dois social se encontra pouco a pouco instrumentalizada por ele, dando
autores, assim como Carleial (2003), ligam a economia solidária e a progressivamente outros contornos a sua ética de solidariedade,
economia social às mesmas raízes históricas, ou seja, o surgimento de provocando a “assimilação pela opinião pública da economia social a
uma espécie de subaparelho do estado”. (LIPIETZ, apud WAUTIER, 2003,
movimentos cooperativistas e associativistas na Europa no final do p. 111)
primeiro terço do século XIX. Esses movimentos foram liderados por
pensadores como Marcel Mauss, Saint-Simon, Fourrier e Proudhon, que Isso ocorreu porque a macroeconomia keynesiana, destinada ao
preocupavam-se com problemas sociais gerados pela economia de pleno emprego no welfare state, desestimulou, de certa forma, ações no
mercado. Nesse cenário surgiu o termo economia social para tratar das sentido de gerar novas formas de organização do trabalho. As
ações que a teoria econômica da época não dava conta. cooperativas, associações e mutualidades, criadas sobretudo na Europa
social-democrata, destinavam-se mais a prestar assistência a pessoas
É notável que no século XIX todas as tendências políticas embarcaram
nesta nova proposta. Tanto socialistas (Pecqueur, Vidal, Malon) como menos favorecidas. Essas ações, que continuam funcionando até hoje,
social-cristãos (Le Play) e mesmo liberais (Dunoyer), sensibilizados com o integram o que se chama economia social.
custo humano da revolução industrial, criticaram a ciência econômica
por não integrar a dimensão social. (LECHAT, 2002b, p.02). Sobre as diferentes ações da economia social, Jean-Loup Motchane
afirma que elas têm características comuns:
Para França (2002, p. 12), as iniciativas que recusavam a autonomia
Inseparável da história do movimento operário, de suas divisões e da
do aspecto econômico em suas práticas, em face dos aspectos social, resistência à construção de uma sociedade fundada sobre o lucro, a
político, cultural, entre outras, ficaram mais conhecidas sob a rubrica economia social, ou "terceiro setor", reúne estruturas muito diferentes
economia social. quanto ao tamanho e à natureza de suas atividades. Quer tenham a forma
de mutualidades, de cooperativas, de associações ou de fundações, na
Guélin afirma que: França, na Itália, na Espanha e na Alemanha, ou organizações de auto-
Ela [a economia social] é composta de organismos produtores de bens e ajuda, de instituições de caridade, de organizações voluntárias não
serviços, colocados em condições jurídicas diversas no seio das quais, lucrativas na Grã-Bretanha, todas essas instituições afirmam
porém, a participação dos homens resulta de sua livre vontade, onde o compartilhar cinco princípios sagrados, um objetivo fundamental e
poder não tem por origem a detenção do capital e onde a detenção do exigências sociais: a independência em relação ao Estado, a filiação
capital não fundamenta a aplicação dos lucros. (GUÉLIN2, apud LECHAT, voluntária dos sócios, a estrutura democrática de poder (uma pessoa, um
2002a). voto), o caráter inalienável e coletivo do capital da empresa e a ausência
de remuneração do capital, eis os princípios. O objetivo fundamental
As práticas de economia social, sob perspectiva solidária, ficaram define-se pelo fornecimento de bens e serviços, ao melhor custo, de forma a
servir ao interesse mútuo dos associados ou, mais amplamente, assegurar
um serviço de interesse geral que o Estado não quer ou não pode assumir.
2
GUÉLIN, A. L'invention de l'économie sociale. Paris: Economique, 1988.

54 55
O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

(Motchane, 2000). melhor termo na Bélgica, o próprio termo économie sociale foi utilizado
Dessa forma, a economia social aparece principalmente como uma antes e depois que os estudos sobre o assunto ganharam maior destaque.
espécie de “apêndice do aparelho do Estado” (França, 2002, p.13), Porém, devido à ampliação do campo de estudo, outros autores
independente em relação ao mesmo, e destinada mais a prestar serviços preferiram utilizar diferentes apelações para as outras ações, para
aos associados e a outras pessoas do que propriamente gerar trabalho e referir-se somente ao seu campo de estudo.
renda e proporcionar educação e formação política, como se verá mais Lechat afirma ainda que também no Brasil alguns autores utilizam o
adiante. termo economia social para designar as mesmas ações da economia
As organizações da chamada economia social hoje na França, por solidária. Porém, segundo a autora:
exemplo, como alguns hospitais, ditos cooperativas ou organizações
Há uma forte preocupação em atribuir a apelação de solidária somente
mutualistas, representam grandes estruturas tecnoburocráticas que
àqueles empreendimentos onde, de maneira comprovada, além de haver
dificilmente se distinguem, na sua dinâmica de funcionamento, de uma
relações de trabalho autogestionárias, solidárias e democráticas entre
empresa privada ou pública (idem).
seus membros, a solidariedade se manifesta em relação à comunidade
Essas formas conhecidas como economia social surgiram envolvente, demonstrando assim uma vontade política de transformação
das relações sociais e, por conseqüência, da sociedade. (LECHAT, 2002b,
principalmente durante o welfare state, uma vez que os movimentos
p. 06).
sociais eram mais destinados à manutenção dos empregos e dos direitos
trabalhistas adquiridos. Contudo, a partir do final da década de 1970 e A autora cita também o editorial da revista Recma, em que se
do início da de 1980, a “falência” do modelo macroeconômico apontam algumas possíveis diferenças entre economia solidária e
keynesiano e a consecutiva aplicação de modelos neoliberais em economia social: a primeira seria uma economia de sujeitos desiguais e a
diversos países geraram um desemprego estrutural na economia segunda estaria mais apoiada numa economia de iguais.
mundial. Portanto, a economia social, com suas cooperativas, associações e
Não havendo mais um Estado de Bem Estar que pudesse prover o mutualidades destinadas principalmente a prestar serviços aos menos
pleno emprego, os trabalhadores que perderam seus postos de trabalho favorecidos (mas não somente a eles), teria caráter mais unilateral e
durante a crise e as pessoas que atingiram a idade de trabalhar sem ter filantropo. Para a economia solidária, por outro lado, a solidariedade se
sequer uma oportunidade no mercado foram excluídos quase que opõe à caridade. Dessa forma, o laço entre os sujeitos desiguais da
permanentemente na nova ordem econômica que se instalara. economia solidária seria recíproco em torno de objetivos comuns.

É nesse contexto que ressurge a idéia de solidariedade e surge o que Na economia social existe a separação entre os atores; benfeitores de
hoje se chama de economia solidária3. A necessidade de satisfazer as um lado, fazendo parte dos empreendimentos dessa economia e
necessidades básicas levou grupos de trabalhadores sem perspectiva de beneficiados de outro, que recebem seus serviços. Na economia
emprego, em risco de perder seus empregos ou insatisfeitos com suas solidária, por sua vez, os benfeitores e os beneficiados fazem parte de um
relações de trabalho a criarem seus próprios empreendimentos. mesmo grupo - que produz bens e serviços coletivamente, não só a
Cooperativas foram iniciadas principalmente com trabalhadores que terceiros, mas também para pessoas do próprio grupo - gera trabalho e
assumiram a massa falida das fábricas, mas também a partir da união de renda e participa integralmente das decisões do empreendimento.
pessoas com desejo de trabalhar coletivamente em seu próprio Quanto às ações consideradas economia social, situam-se as
empreendimento. cooperativas, as associações e as mutualidades criadas por sujeitos
Ainda sobre a diferença entre economia social e economia solidária, iguais, destinadas a prestar serviços à sociedade.
o professor Jacques Defourny, diretor do Centre d'Études Sociales, em No campo da economia solidária estão as cooperativas, as
Liége, Bélgica,em entrevista concedida a Lechat (2002b), não se mostra associações e as empresas autogestionárias, geralmente formadas por
preocupado com a diferença de conceitos. Para ele, não existindo pessoas excluídas do mercado formal de trabalho. Esses
3
empreendimentos pautam-se em princípios de propriedade coletiva dos
É importante ressaltar que o conceito de solidariedade que surge aqui refere-se não ao sentido anglo-
saxônico, de caridade, mas sim ao sentido latino, de laço, de vínculo recíproco. meios de produção, associação livre e voluntária e autogestão.
56 57
O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

É necessário, no entanto, tomar cuidado para não excluir totalmente uma outra forma de regulação social, reduz-se a possibilitar apenas o
convívio “solidário” entre classes desiguais. (LISBOA, 2003, p. 256).
a economia social quando se tratar de economia solidária, pois, como
dito anteriormente, alguns autores utilizam a mesma apelação para Dessa forma, o terceiro setor não visa nem a ruptura da propriedade
ambas as ações, ações essas que, no limite, refletem a mesma privada e nem a criação de novas relações de trabalho. Pensando a
necessidade de tratar de ações que a ciência econômica tradicional não solidariedade como filantropia, comum na tradição anglo-saxônica, as
dá conta. organizações sem fins lucrativos tendem apenas a preencher lacunas
deixadas pelo sistema capitalista, sem propor, portanto, uma nova forma
de pensar o trabalho coletivo.
4 ECONOMIA SOLIDÁRIA TERCEIRO SETOR
De acordo com as principais características do terceiro setor, é
Enquanto a expressão economia solidária guarda relações muito possível fazer uma relação com a economia social. Embora existam
estreitas com a economia social, tendo sua nomenclatura muitas vezes algumas diferenças conceituais entre os dois termos, não há muitos
trocada, não se pode dizer o mesmo do terceiro setor. Para França (2002, problemas metodológicos em colocá-los em uma única definição. O
p. 10), “O termo terceiro setor é herdeiro de uma tradição anglo- mesmo acontece com economia social e terceiro setor que, como já dito,
saxônica, particularmente impregnada pela idéia de filantropia. Essa são utilizados como sinônimos por alguns autores.
abordagem identifica o terceiro setor ao universo das organizações sem
O problema existe quando se tenta fazer o mesmo com economia
fins lucrativos”.
solidária e terceiro setor. As ações são diferentes e, ao abolir a distinção,
O terceiro setor integra o que se conhece na América do Norte por non- os empreendimentos de economia solidária não teriam mais o caráter de
profit organizations ou non-profit sector. A principal conseqüência dessa
classificação consiste na característica principal que dá nome ao setor: a
mudança social, de autogestão, e nem o de trazer trabalho e renda aos
de não distribuir lucros. Aliás, muitas vezes emprega-se os dois termos seus sócios, mas sim o caráter de caridade, de ajuda unilateral. Chaves4 ,
como sinônimos. É, por exemplo, o caso do trabalho de Defourny e Monzón apud Lechat (2002b), admite que há um problema real em colocar sob
que, num livro bilíngüe franco-inglês de 1992 o termo économie sociale foi uma mesma denominação coisas tão diferentes como a filantropia de
traduzido por third sector. (LECHAT, 2002a, p. 04).
empresas capitalistas e a organização das empresas autogeridas pelos
Segundo o The International Classification of Non-profit trabalhadores.
Organizations, essas organizações guardam cinco características
Não se pretende, contudo, desqualificar as organizações sem fins
principais: (a) ser formais; (b) ser privadas e independentes do governo;
lucrativos componentes do terceiro setor e nem a filantropia. Ações
(c) ser independentes; (d) não distribuir lucros; e (e) possuir grau
filantrópicas são muito importantes, sobretudo em países como o Brasil,
significativo de participação voluntária. (Salamon e Anheier, 1996, p.
em que a linha de miséria atinge mais de 30 % da população. (IPEADATA,
05).
2005).
Os estudos desses autores admitem a dificuldade de classificar os
diferentes tipos de organizações, mas identificam três grandes grupos:
(a) as instituições financeiras; (b) as organizações não-governamentais 5 DEFININDO A ECONOMIA SOLIDÁRIA
(ONGs); e (c) as cooperativas, as sociedades mutualistas e os grupos de
A economia solidária é, portanto, toda organização formada e gerida
auto-ajuda.
por trabalhadores que detêm os meios de produção, com vistas à geração
De acordo com essa classificação, deduz-se que as organizações do de trabalho e renda. Essa organização deve ser pautada em princípios de
terceiro setor pautam-se mais na filantropia que propriamente na solidariedade e de autogestão. Entre os empreendimentos de economia
solidariedade; elas são instituições grandes, destinadas a prestar apoio e solidária estão as cooperativas, as associações, as empresas
ajuda onde não cabe nem o aparelho estatal e nem o setor privado. autogestionárias e qualquer outro empreendimento cujas
Seu sentido é atuar onde o Estado e o mercado são incapazes ou características conferem com o as descritas.
inadequados. Expressa uma forma de pensar a solidariedade enquanto 4
CHAVES, Á. R. La economía social como enfoque metodólogico, como objeto de estudio y como
filantropia, onde a dimensão do político é negada. Por não buscar fundar
disciplina científica. CIRIEC-ESPAÑA, n. 33, p. 116-139, 1999.

58 59
O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

A característica principal e essencial (porém não única) da economia As cooperativas de consumo e de crédito tampouco podem ser
solidária é a autogestão, que dá aos empreendimentos o caráter consideradas como empreendimentos econômicos solidários. Embora
solidário, e não filantropo. Isso a diferencia de outras denominações, tenham objetivos claros de prestar assistência a seus associados - e
tais como terceiro setor e também a economia social. muitas vezes de forma solidária -, essas cooperativas não são associações
Por autogestão, em sentido lato, entende-se o conjunto de práticas sociais de trabalhadores que visam geração de trabalho e renda. Os associados
que se caracteriza pela natureza democrática das tomadas de decisão, que desse tipo de empreendimento não necessariamente nele trabalham e
propicia a autonomia de um “coletivo”. É um exercício de poder tampouco dependem da receita gerada nessas cooperativas para
compartilhado, que qualifica as relações sociais de cooperação entre sobreviver. Essas cooperativas, embora não possam ser consideradas
pessoas e/ou grupos, independente do tipo das estruturas organizativas
ou das atividades, por expressarem intencionalmente relações sociais economicamente solidárias, podem contribuir para o seu
mais horizontais. (ALBUQUERQUE, 2003, p. 20). fortalecimento.
Dentro da economia solidária, a autogestão nega a separação entre As associações são consideradas por alguns estudiosos e por
quem toma as decisões e quem as executa. O poder de decisão cabe, programas sociais do governo como empreendimentos de economia
portanto, exclusivamente aos trabalhadores. solidária. Elas não possuem legislação específica, sendo regidas, no
Brasil, pelo capítulo II do novo código civil, instituído pela lei n° 10.406
As cooperativas, sobretudo as de produção, são as unidades que
de 10 de janeiro de 2002. Segundo esse capítulo do código civil, as
melhor representam um empreendimento de economia solidária. As
associações não devem ter fins econômicos e não há direitos e
cooperativas possuem uma legislação própria no Brasil. São regidas pela
obrigações recíprocos entre os associados.
lei nº 5.764/71, que determina toda a forma de funcionamento das
cooperativas5, quem é seu representante e a forma como se dá a Apesar da existência de algumas associações em que os trabalhadores
contabilidade e tributação. Entre as mais diversas formas de produzem e vendem seus produtos, juridicamente isso não pode
cooperativas existentes, há as de produção, as agrícolas, as de consumo acontecer. Contudo, o que deve ou não caracterizar um
e as de crédito. empreendimento como economia solidária não é apenas a sua forma
jurídica, mas o ato em si. Portanto, para determinadas associações, suas
Dentre essas, a cooperativa de produção é a que mais se aproxima das
ações podem caracterizá-las como empreendimentos de economia
características definidoras da economia solidária, em razão da
solidária, embora sua forma jurídica não o permita. As associações são
característica de propriedade comum dos meios de produção e da
geralmente preferidas pelos produtores em detrimento das cooperativas
produção conjunta dos trabalhadores, que são todos (ou, pelo menos, a
em razão da tributação das cooperativas, da burocracia, da dificuldade
maioria) associados.
para se fundar uma cooperativa e também pela lei do cooperativismo
As cooperativas agrícolas, ainda que muito importantes para o exigir um número mínimo de 20 associados.
desenvolvimento econômico de muitos países do mundo, inclusive o
Outros empreendimentos que podem ser caracterizados como
Brasil, não podem ser consideradas empreendimentos de economia
economicamente solidários são as empresas autogestionárias. Não
solidária. Destinam-se principalmente à comercialização (tanto de
existe uma forma jurídica específica para empresas autogestionárias.
insumos quanto de produtos finais). As maiores fazem também
Elas são formadas como empresas capitalistas comuns, sendo seu
processamento e industrialização de produtos dos associados, como
diferencial o fato de os trabalhadores serem os próprios sócios da
cooperativas de laticínio, por exemplo. Quando essas cooperativas
empresa.
decidem industrializar seus produtos, porém, não são os cooperados que
trabalham na linha de produção, mas sim trabalhadores assalariados. Mesmo que a legislação de empresas permita que o capital possa ser
Essa característica de contar com trabalho assalariado e “discriminá-lo” mais remunerado que o trabalho e que a produção seja baseada no
dos associados retira das cooperativas agrícolas a denominação de trabalho assalariado, empresas autogestionárias são caracterizadas pela
empreendimentos de economia solidária. propriedade comum dos meios de produção e pela produção baseada no
trabalho associado. Funcionam, assim, como uma cooperativa de
5
A lei nº 5.764/71 rege todas as cooperativas, sejam ou não empreendimentos de economia solidária. produção, embora com outra denominação. Geralmente, a
60 61
O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

denominação de empresa autogestionária é preferida por exigir a lei do último e o único aceito. Essa não é a primeira contribuição nesse sentido
cooperativismo um número mínimo de 20 associados e também pela e certamente surgirão inúmeros outros tratamentos científicos ao
carga tributária favorecer esse tipo de organização. conceito de economia solidária.
Empreendimentos de economia solidária, portanto, têm como
unidade principal a cooperativa de produção e, por mais que se mude a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
denominação desses empreendimentos, eles funcionarão como
cooperativas de produção.
ARRUDA, M. Socioeconomia solidária. In: CATTANI, D. (Org.). A outra
economia.1. ed. Veraz editores: Porto Alegre, 2003.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mesmo que seja difícil, conceituar economia solidária é possível.
Mesmo que diferentes autores possam considerar os mais diversos tipos ALBUQUERQUE, P. P. Autogestão. In: CATTANI, D. (Org.). A outra
de empreendimentos como pertencentes a essa categoria, pode-se economia.1. ed. Veraz editores: Porto Alegre, 2003.
partir de princípios comuns e estabelecer as qualidades principais que
caracterizam a economia solidária.
CARLEIAL, L. Economia Solidária e Informalidade: Pontos de
A solidariedade, a autogestão e a posse comum dos meios de Aproximação, Propriedade Conceitual e “Novos” Desafios para a
produção estão entre essas qualidades. Além disso, os empreendimentos Política Pública. In: XI CONGRESSO DA FIEALC (Anais do congresso).
de economia solidária são formados e geridos pelos próprios Osaka, 2003.
trabalhadores, com vistas à geração de trabalho e renda.
Ainda que tenha as mesmas raízes históricas que a economia social, a
economia solidária se diferencia no que tange ao beneficiário de suas CULTI, M. N. O cooperativismo popular no Brasil: importância e
ações: enquanto a economia social é composta de pessoas que representatividade. In: TERCER CONGRESO EUROPEO DE
trabalham em favor de outras, na economia solidária o beneficiário é o LATINOAMERICANISTAS. (Anais do congresso). Amterdam, 2002.
próprio trabalhador. Disponível em: <http://www.ecosol.org.br> Acesso em: 23 Ago 2005.

O terceiro setor não visa nem a ruptura da propriedade privada e nem


à criação de novas relações de trabalho. Pensando a solidariedade como FRANÇA, G. C. Terceiro setor, economia social, economia popular:
filantropia, as organizações sem fins lucrativos tendem apenas a traçando as fronteiras conceituais. Revista Bahia Análise & Dados.
preencher lacunas deixadas pelo sistema capitalista. Não propõem, Salvador: SEI, v. 12 n. 1. junho 2002.
portanto, uma nova forma de se pensar o trabalho coletivo, ao contrário
da economia solidária, que promove um rompimento com as relações
tradicionais de trabalho. GERMER, C. M. A 'economia solidária': uma crítica com base em
Marx. In: IV Colóquio Marx e Engels, 2005, Campinas, SP. Anais do IV
É necessário conceituar o termo economia solidária à luz da sua
Colóquio Marx e Engels, 2005.
diferença em relação aos conceitos de economia solidária e economia
social por tratar-se de ações totalmente diferentes, embora
convergentes em um ou outro aspecto. Essa tarefa certamente permitirá ICAZA, A. M. S. ; TIRIBA, L. Economia Popular. In: CATTANI, D. (Org.).
um aprofundamento dos estudos que se dedicam exclusivamente à A outra economia.1. ed. Veraz editores: Porto Alegre, 2003.
economia solidária e suas ações.
Não se espera, contudo, que o conceito aqui desenvolvido seja o

62 63
O que é Economia Solidária? Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

IPEADATA, Banco de dados do Instituto de Pesquisa Econômica SALAMON, L. M. ; ANHEIER, H. K. The International Classification of
Aplicada. IPEADATA, 2005. Disponível em: <http://www. Nonprofit Organizations: ICNPO-Revision 1, 1996. Working Papers of
ipeadata.gov.br> Acesso em: 28 Set 2005. the Johns Hopkins Comparative Nonprofit Sector Project, no. 19.
Baltimore: The Johns Hopkins Institute for Policy Studies, 1996.

LISBOA. M. Terceiro setor. In: CATTANI, D. (Org.). A outra


economia.1. ed. Veraz editores: Porto Alegre, 2003. SINGER, P. Introdução à economia solidária. 1.ed. São Paulo: Fundação
Perseu Abramo, 2002.

______. Economia solidária e autogestão: imprecisões e limites. In: I


JORNADAS ECONOMIA REGIONAL COMPARADA - PUC/RS: Porto TAUILE, J. R.; DEBACO, E. S. Autogestão no Brasil: a viabilidade
Alegre, 2005. econômica de empresas geridas por trabalhadores. São Leopoldo:
Unisinos, 2002. Disponível em: <http://www.ecosol.org.br> Acesso em
21 abr 2005.
LECHAT, N.M.P. As raízes históricas da economia solidária e seu
aparecimento no Brasil. In: II SEMINÁRIO DE INCUBADORAS
TECNOLÓGICAS DE COOPERATIVAS POPULARES. Unicamp, 2002a. WAUTIER, A. M. A economia social na França. In: CATTANI, D. (Org.). A
Disponível em <http://www.ecosol.org.br> Acesso em 03 mar 2005. outra economia.1. ed. Veraz editores: Porto Alegre, 2003.

______. Economia social, economia solidária, terceiro setor: do que


se trata? Civitas Revista de Ciências Sociais, Porto Alegre Brasil, v. 2, n.
1, p. 123-140, 2002b. Disponível em <http://www.ecosol.org.br>
Acesso em 03 mar 2005.

MANCE, E. Economia Solidária: um novo paradigma? In: SEMINÁRIO


REDES DE COLABORAÇÃO SOLIDÁRIA - CONSTRUINDO UMA NOVA
SOCIEDADE. Curitiba, 2000. Disponível em: http://www.milenio
.com.br/mance/redes1.htm

MOTCHANE, J. L. Economia social e economia solidária: álibi ou


alternativa ao capitalismo?. 2000. Disponível em: <http://www.
ecosol.org.br>. Acesso em 19 mar 2005.

RAZETO, L. Economia de solidariedade e organização popular. In:


GADOTTI, M. e GUTIERREZ F. (Orgs). Educação comunitária e
economia popular. São Paulo: Cortez, 1993.

64 65
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 4

Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário


Denys Dozsa
Denise Cássia da Silva

1 INTRODUÇÃO
Este trabalho tem por objetivo estudar o cooperativismo rural
brasileiro sob a ótica da nova proposta de Extensão Rural construída
pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário MDA - em conjunto com
entidades governamentais e não-governamentais envolvidas com a
agricultura familiar no Brasil.
Essa proposta atual pode ser melhor analisada a partir da história
recente do modelo de desenvolvimento adotado predominantemente
pelo setor agrícola brasileiro. Assim, uma retrospectiva das décadas de
setenta e oitenta, relacionando a Extensão Rural e o cooperativismo ao
novo cenário da Assistência Técnica e Extensão Rural - ATER pública no
Brasil, será delineada abaixo.
A década de 1970 é conhecida como o período do chamado “milagre
econômico brasileiro”. Com forte presença do Estado, por meio do
governo militar, é considerada o auge da extensão rural difusionista. A
política de desenvolvimento predominante nesse período tinha por
objetivo a “modernização” do setor agrícola, por meio da adoção de
novas tecnologias no campo, no intuito de produzir para o
abastecimento do mercado interno, além de excedentes para a
exportação. Essa política pública marcou-se também pela utilização das
cooperativas como sendo a forma de organização para que os pequenos e
os médios produtores rurais que aderissem à proposta pudessem
armazenar e escoar sua produção.
Ao final dos anos 1980, com a abertura política, o Estado deixou de
intervir e a sociedade civil foi chamada a participar, apontando para um
novo cenário mundial, em que a extensão difusionista aos poucos
apresentou suas limitações, e cedeu espaço à “participação” e ao
66 67
Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

desenvolvimento local. O ano de 1990 foi marcado pelo fim da Empresa (SCHMIDT; PERIUS, 2003).
Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural EMBRATER -, ou
As cooperativas diferem-se das empresas capitalistas, pois têm como
seja, pelo desaparecimento do sistema oficial de extensão rural, que
elemento central o homem. Fundamentam-se na gestão democrática,
ressurge através da reivindicação dos movimentos sociais do campo,
“um indivíduo, um voto”, valorizando o homem, e não o capital.
com a nova proposta de ATER, desta feita no Ministério do
Baseiam-se em valores como ajuda mútua, solidariedade, democracia,
Desenvolvimento Agrário, que é atualmente o responsável pelas
participação e autonomia. E possuem sete princípios norteadores,
políticas públicas voltadas ao pequeno produtor rural e à agricultura
originados dos pioneiros de Rochdale, e reformulados no congresso da
familiar.
Aliança Cooperativa Internacional (ACI) em 1995:
1) adesão livre e voluntária;
2 COOPERATIVISMO 2) controle democrático pelos sócios;
O movimento cooperativista teve início na Inglaterra do século XIX
3) participação econômica dos sócios;
em resposta à Revolução Industrial, marcada pelo desemprego, fome e
miséria. 4) autonomia e independência;
Em 1844, em Rochdale, Manchester, um grupo 28 tecelões, 5) educação, formação e informação;
influenciados pelas idéias de Robert Owen, reuniram-se a fim de 6) intercooperação e
procurar formas de livrar-se da exploração por parte dos comerciantes
locais e poder comprar produtos de melhor qualidade a preço justo. 7) preocupação com a comunidade (ACI, 2006).
Surgiu aí a primeira cooperativa de que se tem registro na história, a dos Dentre esses princípios, destacamos dois que julgamos de particular
“Pioneiros Eqüitativos de Rochdale”, uma cooperativa de consumo. interesse para o presente trabalho:
Esse movimento chegou ao Brasil no final do século XIX com a - autonomia e independência: as cooperativas são organizações
Colônia Tereza Cristina, fundada em 1847, no Paraná, pelo médico autônomas de ajuda mútua controladas por seus membros que, ao
francês Jean Maurice Faivre, sob influência das idéias de Fourier. Ainda relacionarem-se com quaisquer outras organizações, pessoas ou capital
no século XIX, podemos destacar outras iniciativas cooperativistas: externo, devem manter sua autonomia e independência; e
• Ouro Preto, MG, Sociedade Econômica Cooperativa dos - controle democrático pelos sócios: as cooperativas são organizações
Funcionários Públicos de Minas Gerais (1889); democráticas controladas por seus sócios que participam ativamente do
• Limeira, SP, Funcionários da Companhia Telefônica (1891); estabelecimento de suas políticas e das tomadas decisões, cabendo-lhes
a gestão do empreendimento. Cada sócio representa um voto,
• Rio de Janeiro, RJ, Militares (1894); independentemente do capital investido, - número de cotas-parte que
• Camaragibe, PE, Cooperativa do Proletariado Industrial(1894). possua - na cooperativa.
No inicio do século XX, surge a primeira cooperativa de crédito em
Nova Petrópolis, RS, (1902) Caixa Rural do tipo Raiffeisen, e a primeira 3 O MODELO DIFUSIONISTA DE EXTENSÃO 1970
cooperativa de produção agropecuária, em Minas Gerais (1907).
(UNIRCOOP, 2003). Para entender a predominância do modelo difusionista como aporte
para a extensão rural no Brasil, é necessário um breve regaste histórico.
As sociedades cooperativas são definidas como sendo “associação
autônoma de pessoas, unidas voluntariamente, para atender suas A extensão rural no Brasil iniciou-se em 1948 com a criação da
necessidades e aspirações econômicas, sociais e culturais comuns, por Associação de Crédito e Assistência Técnica Rural de Minas Gerais
meio de uma empresa coletiva e democraticamente controlada ACAR -, ligada ao incremento do sistema produtivo nas áreas rurais. O
objetivo da ACAR era a adoção de novas tecnologias e técnicas de
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Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

produção por parte dos agricultores na busca do aumento da qual o modelo a seguir seria sempre o das áreas adiantadas, ditas
produtividade e, conseqüentemente, dos lucros. Utilizavam-se de civilizadas”. (PIRES, 2003, p. 53).
estratégias e métodos persuasivos para induzir os agricultores a aderir
Analisando a agricultura brasileira e o processo de transformação por
aos “pacotes científicos e tecnológicos”.
que passou do fim da década de 1940 ao final da década de 1970, Romeu
As diversas Associações de Crédito e Assistência Rural - ANCARES Padilha tenta explicar qual foi o papel desempenhado pelo sistema
que surgiram no Brasil passaram a ser representadas pela Associação ABCAR - EMBRATER. Conforme nos relata Figueiredo (1979) em
Brasileira de Crédito e Assistência Rural ABCAR -, responsável por números, é possível verificar a evolução e o crescimento das atividades
manter e distribuir os recursos econômicos, capacitar os recursos extensionistas, pois em 1948, resumia-se a uma pequena equipe de
humanos e disseminar as atividades de extensão. Entretanto, não se técnicos brasileiros e americanos atuando em quatro municípios de
engajava na luta pela reforma agrária e não promovia o estímulo ao Minas Gerais. Já 1979 eram mais de 12 mil técnicos, formando uma rede
cooperativismo. Ao discorrer sobre a ABCAR, Bordenave (1983), de empresas públicas, que atuavam em mais de 3.000 municípios,
destaca que “O objetivo fundamental da informação agrícola e da excetuando-se apenas o estado de São Paulo e Fernando de Noronha.
informação rural era a difusão de inovações tecnológicas que (FIGUEIREDO, 1979).
incrementassem a produção e a produtividade da agricultura”.
Porém, existem muitas críticas a esse modelo, principalmente no que
(BORDENAVE, 1983, p. 28).
se refere ao tratamento dispensado a agricultura de base familiar,
Para financiar todo o maquinário e os equipamentos necessários para conforme destaca Schneider (1981):
atender as exigências da Revolução Verde, a partir de 1965, foram Esse modelo de modernização foi acusado pela literatura de favorecer
criadas linhas de crédito agrícola, que foram disponibilizados pelo médios e grandes agricultores voltados à cultura de exportação, em
Sistema Nacional de Crédito Rural SNCR. O SNCR aliou-se ao Sistema detrimento de uma agricultura de subsistência desenvolvida pela
agricultura de base familiar. (SCHNEIDER,1981 apud UNICOORP, 2003).
Brasileiro de Extensão Rural SIBER - e o cooperativismo ganhou
destaque como forma de viabilizar a comercialização dos gêneros Como conseqüência desse modelo, diversos produtores realizaram
agrícolas. empréstimos para a compra de insumos e máquinas, na busca pela
As ações desses sistemas são desenvolvidas em áreas de grandes modernização, chegando até mesmo a perder a própria propriedade,
densidades de pequenos e médios proprietários, visando transformá-los sem falar da intensificação do êxodo rural provocado pela redução dos
em consumidores de “insumos modernos” e produtores de excedente postos de trabalho no campo.
comercializável, em alguns casos engajados em cooperativas para a
comercialização. (FIGUEREDO, 1979).

Em 1970, as diversas ANCARES são substituídas pela Empresa de 4 O COOPERATIVISMO NO MODELO DIFUSIONISTA DE EXTENSÃO
Assistência Técnica e Extensão Rural EMATER. A ABCAR por sua vez é
O movimento cooperativista brasileiro, conforme ressalta Rios
substituída pela Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão
(1987), foi organizado para promover a elite econômica e política,
Rural EMBRATER. Apesar de a EMBRATER propor um diálogo
sustentáculo do modelo agrário exportador. Portanto, não surgiu da
participativo como afirma Bordenave (1983), ao reconhecer que “não é
base, mas foi imposto. Não se constituiu como um modelo social de
o extensionista quem muda ou transforma a realidade rural a seu modo”
conquista, foi baseado em uma política de controle social e de
senão que “esta é uma tarefa dos produtores e suas famílias em que o
intervenção estatal.
agente de extensão é o co-participante”. (BORDENAVE, 1983, p. 29).
Não era objetivo do modelo cooperativista brasileiro interferir na
O que acabou ocorrendo foi a permanência do modelo difusionista,
propriedade da terra. Conforme Rios (1987), essa política pública se
pois manteve-se a adoção de inovações tecnológicas persuasivas,
constitui num movimento da elite conservadora, concentrado,
incluindo-se até mesmo um conjunto de normas que deveriam ser
sobretudo no meio rural, com a finalidade de concretizar a
adotadas por todos os membros da família do produtor rural. Como
modernização agrícola.
observa Pires (2003), “Tratava-se de um novo processo civilizatório, no

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Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

A economia era a agrário-exportadora e as políticas agrícolas poder de autorizar o funcionamento das cooperativas, fiscalizar e nelas
favoreciam a exportação, privilegiando as culturas agrícolas produzidas intervir.
da elite:
Exemplo disso temos no fato que, em 1975, mais de 50% dos recursos
creditícios alocados a cooperativas foram destinados às de trigo e soja, 5 ANOS 1980
concentradas no sul do país. Já o volume de crédito para as cooperativas
que tinham arroz, feijão ou milho como seu principal produto, ficou em Os anos 1980, “considerados por muitos autores como a década
menos de 8% do total. (RIOS, 1987, p.53). perdida” (Tauk Santos, 2000, P. 294), caracterizaram-se pelo processo
de abertura política no Brasil. O período foi de transição para a extensão
Outros dados estatísticos que merecem ser destacados,
rural, pois começou-se a refletir sobre o modelo de extensão até então
demonstrando qual era o objetivo da revolução verde e do
predominante. Destacamos a obra de Freire, “Extensão ou
cooperativismo:
comunicação?”, que influenciou tanto os meios acadêmicos quanto as
As exportações do setor cooperativo aumentaram de 44,8% entre 1974 e
organizações a propósito da reflexão sobre o modelo difusionista de
1977. Em 1973 as cooperativas brasileiras receberam e comercializaram
45% do total de soja produzida no país, 84% do trigo e 62% da lã. (RIOS, extensão rural. Isso fez com que as organizações governamentais
1987, p.10). incorporassem o discurso freiriano da participação popular na
comunicação rural. Todavia, é importante assinalar que “essa postura
Isso fez com que o cooperativismo brasileiro se tornasse um
dos órgãos governamentais não representou uma ruptura com o modelo
movimento marcado pela desigualdade, confirmando que foi
difusionista modernizador”. (PIRES, 2003).
desenvolvido para a elite agrário-exportadora, pois somente ela podia
arcar com os custos relativos aos serviços, às tecnologias, além das altas Ainda que timidamente, iniciaram-se tentativas de introdução de
taxas de juros e das exigências bancárias. Rios (1997), destaca a modelos dialógicos de comunicação. Começaram a surgir novas
polarização do cooperativismo entre pobres e ricos: mesmo que esse não metodologias de trabalho, tal como o diagnóstico rural participativo, em
tenha sido o objetivo, o movimento intensificou a diferenciação entre as busca de uma atuação mais próxima da realidade e das necessidades dos
classes sociais, porque levou à concentração do poder político, da agricultores.
riqueza e do prestigio social pelas cooperativas da classe dominante:
Podemos dizer que o modelo difusionista de extensão foi um sucesso,
Existe um cooperativismo de elites e um cooperativismo dos pés-no-chão; uma vez que “atingiu seu objetivo”, a modernização da agricultura e a
um cooperativismo legalizado, letrado e financiado e um cooperativismo
'informal', 'sem lei e sem documento', não financiado e mesmo reprimido.
produção de excedentes para a exportação. Entretanto, por trás desse
O cooperativismo não está pois 'imune' à divisão da sociedade em classes. sucesso existe um passivo gerado por essa política ao pequeno produtor
(RIOS,1997, p.64). sejam “no âmbito da produção, sejam na falta de acesso à terra e ao
É igualmente desse período a lei no 5764/71 que regulamenta as crédito o concomitante empobrecimento das famílias camponesas
sociedades cooperativas e tem como marca principal a regulação do impulsionaram o êxodo rural, provocando o esvaziamento dos campos e
Estado. Para a constituição de uma sociedade cooperativa, era o inchamento das cidades”. (PIRES, 2003).
necessária a autorização de funcionamento fornecida pelo Estado. A assistência técnica é uma garantia constitucional, lembra Pires
Devemos relembrar que estávamos no auge do regime militar, período (2003), devendo ser pública e gratuita. Mas não foi isso que ocorreu no
de exceção em que foram fechados sindicatos, associações e partidos Brasil. Em 1990, no governo Collor, em resposta ao “Estado mínimo”
políticos, principalmente os de esquerda. Todavia, contraditoriamente, extingui-se a EMBRATER.
o regime lança mão das cooperativas, instrumento de ideologia
Estamos diante de um cenário em que o Estado não tem como
socialista, como forma de proporcionar o escoamento da produção
manter controle sobre todas funções executivas como se acreditava. A
agrícola para a exportação.
lógica da globalização e do neoliberalismo é que Estado envolva-se cada
Com isso, podemos observar que o princípio cooperativista da vez menos com políticas sociais. O Consenso de Washington sinaliza que
autonomia e independência foi infringido, pois era o Estado que tinha o Estado deve ser fraco, não se opor à sociedade civil, possibilitar eleições

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Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

livres, reconhecer a todos o direito de opor-se às políticas, não impedir a renda e para os socialmente excluídos.
formação e a autonomia de associações, movimentos sociais e conceder
Não é objetivo deste artigo discutir o papel das ONG's. Entretanto,
liberdade de expressão. Como ressalta Boaventura Souza Santos (2002),
salientamos que as práticas extensionistas, hoje, sobretudo no meio
o “Estado tem de intervir para deixar de intervir, ou seja, tem de regular
rural, não se pautam mais no difusionismo tecnológico, mas antes de
sua própria desregulação”. (SANTOS 2002, p.38).
tudo são iniciativas para promover um processo emancipatório.
As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas também pelo
O Estado conta com diversas parceiras com ONG's, organizações
fortalecimento dos movimentos sociais, tanto urbanos como rurais, que
privadas e Universidades, fazendo com que o conhecimento produzido
até então eram reprimidos pelos governos ditatoriais das décadas
nesses centros possam ser apropriados pelas pessoas que vivem no
anteriores. Muitos deles foram oriundos dos movimentos eclesiais de
campo, com o objetivo de fortalecer a autonomia e a sustentabilidade
base da igreja católica, inspirados na teologia da libertação e nas ligas
dos processos e dos projetos na lógica do Desenvolvimento Local
camponesas. Esses movimentos, além da luta pela reforma agrária,
Sustentável. Portanto, a pertinência da associação dos temas
passam a reivindicar por políticas públicas para o pequeno produtor
Cooperativismo e Extensão Rural desenvolvidos neste texto, no sentido
rural.
de analisar a proposta do cooperativismo contida na atual política de
Como forma de superar a ausência do Estado, os movimentos passam ATER.
a criar estruturas que possibilitem aos agricultores que já superaram, na
luta, o problema da posse da terra, a busca de soluções para os
problemas relacionados com a produção, com o crédito e com a 6 A NOVA PROPOSTA DE ATER
comercialização da produção. Por sua origem, apostam em modelos Com a criação do MDA, surgiram novas propostas de políticas
produtivos não-convencionais, ou seja, na agricultura orgânica, no públicas para atender ao pequeno produtor rural. Dentre elas, a nova
crédito solidário e na comercialização através de associações ou proposta de Assistência Técnica em Extensão Rural ATER -, dessa vez
cooperativas. inspirada no modelo freiriano.
Desta forma, a luta não é mais tão somente pela posse da terra: A nova proposta de ATER foi construída de forma participativa,
A discussão sobre a questão da terra foi ampliada: o lema anterior, luta articulada com diversas esferas do governo federal, envolvendo os
pela terra, foi acrescido da idéia de luta na terra, significando uma
governos das unidades federativas e suas instituições representativas,
preocupação em se adequar ao momento atual. O próprio discurso da
Comissão Pastoral da Terra passou a refletir o processo de globalização, assim como os segmentos da sociedade civil, lideranças e
com incorporação de elementos econômicos, tais como, gestão, produção representações dos agricultores familiares, bem como dos movimentos
e comercialização de produtos agropecuários. (TAUK SANTOS, 1999, p. sociais comprometidos com essa questão. (Brasil, 2004 p.3).
67).
Essa proposta tem como objetivo “implantar e consolidar estratégias
Os movimentos sociais reivindicam também políticas públicas para o de desenvolvimento rural sustentável, estimulando a geração de renda e
pequeno produtor rural de base familiar. Assim, foi criado o Ministério de novos postos de trabalho”, tendo por base a produção de alimentos
do Desenvolvimento Agrário MDA -, que passa a atender ao pequeno saudáveis. (BRASIL, 2004 p.3).
produtor rural, deixando o Ministério da Agricultura responsável pelas
políticas do agronegócio. Muitas das ações desenvolvidas pelo MDA A estratégia adotada pela nova ATER contraria o modelo difusionista
passam a ser executadas em conjunto com as organizações não adotado pela revolução verde. Diferentemente do modelo de
governamentais ONG's - ligadas aos movimentos sociais do campo. desenvolvimento agrário do período do governo militar, em que as
políticas públicas voltadas para o cooperativismo visavam atender aos
Maria Gohn (2003), destaca o fato de nos anos 90, as ONG's grandes produtores, a nova proposta de ATER é construída tendo por
passarem a ter mais importância do que os movimentos sociais. São base o governo democrático e popular. Sendo assim, o público dessa
ONG's que tem por finalidade estabelecer parcerias com o poder público nova proposta passa a ser o agricultor familiar; os povos indígenas;
e com a sociedade, viabilizando serviços sociais para pessoas de baixa pescadores artesanais, entre outros, na direção do desenvolvimento
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Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

rural sustentável e da inclusão social.


A nova ater deve abandonar o paradigma extensionista baseado na Teoria 7 COOPERATIVISMO AUTOGESTIONÁRIO
da Difusão de Inovações e nos tradicionais pacotes da “Revolução Verde”,
substituindo-os por novos enfoques metodológicos e outro paradigma Em 1988, com o advento da nova Constituição Brasileira, o
tecnológico, que sirvam como base para que a extensão rural pública
possa alcançar novos objetivos. Processos semelhantes, embora a partir cooperativismo ganha a sua autonomia e independência em relação ao
de outras bases tecnológicas, ocorreram também nas ações junto aos Estado. À exceção das cooperativas de crédito, que continuam a
pescadores artesanais e mesmo com grupos indígenas, privilegiando depender de autorização do Banco Central para seu funcionamento. Não
ações “modernizadoras”, com enfoque claramente “transferencista”.
(BRASIL, 2004 p.5).
é mais necessária autorização do Estado para seu funcionamento,
bastando tão-somente que preencham os requisitos legais quanto ao
A política de ATER substitui o modelo difusionista de extensão rural estatuto e ao número de sócios, e que seja feito o devido Registro na
dos pacotes de inovações tecnológicas, em que ocorre a invasão cultural, Junta Comercial, e demais órgãos, como qualquer outro tipo de
na qual as pessoas são vistas como meros objetos de depósitos de sociedade mercantil.
conhecimento. A nova proposta é dialógica: há uma interação entre o
conhecimento dos agricultores e o dos técnicos, privilegiando a Existem vários projetos tramitando no Congresso Nacional para
participação. modificar a Lei nº 5764/71, de forma a permitir maior flexibilidade do
movimento cooperativo frente às novas conjunturas de mercado. A
A esse cenário, acrescentam-se também as discussões sobre as novas citada lei não atende mais as necessidades do cooperativismo atual,
ruralidades. O meio rural não é mais entendido como “atraso” e nem se devido às novas exigências econômicas e produtivas. (UNIRCOOP,
refere somente às atividades agrícolas, mas inclui atividades não- 2003).
agrícolas como pesque-pague e turismo rural. Para Maria Luiza Pires
(2003), não há como tentar estabelecer limites entre o rural e o urbano. Nesse novo cenário brasileiro, surgem outras temáticas em torno do
Concorda a pesquisadora com José Eli da Veiga, considerando que, em cooperativismo, que passa a ser visto como uma possibilidade de
meio a grande urbanização, o Brasil continua mais rural do que nunca. O inclusão social, desvinculando-se da imagem de um cooperativismo
mesmo se aplica a Nazareth Wanderley, com quem a autora comparte a excludente:
idéia de que “o rural permanece aí apesar das projeções históricas terem No caso brasileiro, o esforço de revitalização das práticas cooperativas se
datado seu desaparecimento”. inscreve dentro de um movimento mais amplo de modernização das
atividades e de ampliação da democracia, e ganha ressonância com as
As orientações estratégicas para as ações de ATER pública, discussões sobre economia solidária / terceiro setor. (UNIRCOOP, 2003,
p.79).
apresentam constam vários itens, dentre os quais destacamos o que
recomenda “Incorporar às ações de ATER os princípios da Economia Na visão da economia solidária, é incompatível dissociar cooperativa
Solidária e da Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável”. de autogestão. O momento atual aponta para o retorno aos princípios
Paul Singer (2003) conceitua economia solidária como: que nortearam a formação da cooperativa dos pioneiros de Rochdalle,
com ênfase à democracia e à igualdade dentro dos empreendimentos.
organização de produtores, consumidores e poupadores etc, que se
distinguem por suas especificidades: a) estimulam a solidariedade entre
Esse “novo cooperativismo”, termo cunhado a fim de distinguir as
os membros a mediante a pratica da autogestão e b) praticam a cooperativas da economia solidária das “cooperativas empresas”, que
solidariedade para com a população trabalhadora em geral, com ênfase muito pouco se diferem das empresas capitalistas tradicionais, pois
na ajuda aos mais desfavorecidos”. (SINGER, 2003). guardam consigo algumas características: a) são formadas
O autor aponta, como modelo clássico desse tipo de organização a normalmente por um número pequenos de pessoas; b) a gestão é feita
cooperativa. Mas não o cooperativismo agrícola empresarial que pelos próprios sócios; c) estão normalmente ligadas a setores
1
abandonou a autogestão . Afinal, para ser entendido como solidário, o progressistas dos movimentos sociais, dos sindicatos e da igreja.
empreendimento deve ser autogestionário. A participação democrática é o fundamento da autogestão e o
1
Autogestão igualdade de direitos, de participar nas decisões, na propriedade do capital, e na elemento chave do sucesso desses empreendimentos. Demo(1998),
escolha dos responsáveis pelos diversos setores administrativos do empreendimento.

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Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

destaca que a participação exige comprometimento, envolvimento e agroindústrias, casas familiares rurais, escolas comunitárias
presença em ações. Não basta apenas aparecer quando se é solicitado, agrícolas, cooperativas, organizações não-governamentais e
pois a participação nega o comodismo e o imobilismo. sindicatos de trabalhadores rurais) comprometidos com a
Participação, por conseguinte, não é ausência, superação, eliminação do promoção da agricultura familiar.
poder, mas outra forma de poder. Tomando o caso do planejamento,
Para que esses objetivos possam ser alcançados são considerados
quando o concebemos e realizamos participativos, não se trata de
comparecer somente quando é chamado, solicitado, requerido pela quatro eixos estratégicos de ação:
comunidade ou pelos interessados, por que isto facilmente recairia no
• O controle social do crédito: através do reforço do capital social
imobilismo, até mesmo porque o fenômeno da participação na
comunidade também não acontece de graça. (DEMO, 1998, p.21). representado pela organização dos agricultores familiares;
• Sustentabilidade da agricultura: o esforço explícito de construção
8 COOPERATIVISMO RURAL SOLIDÁRIO: O SISTEMA CRESOL de uma “agricultura sustentável”;

Esse modelo de empreendimento cooperativo solidário no meio rural • Fortalecimento, ampliação e consolidação das parcerias;
pode ser exemplificado com o caso do Sistema CRESOL de Crédito • Sustentabilidade institucional: saúde administrativa e financeira e
Solidário, que tem sua origem nos movimentos eclesiais de base da ampliação da carteira de crédito.
igreja católica, após a experiência com fundos rotativos para o
Esse sistema é composto pelo conjunto das Cooperativas de Crédito
financiamento da produção de pequenos agricultores do oeste do
Rural com Interação Solidária, das Cooperativas Centrais Base de
Estado do Paraná. Esses fundos eram administrados pelos próprios
Serviços Regionais e das Cooperativas Singulares de Crédito Rural com
agricultores, em resposta ao alto índice de exclusão do sistema bancário
Interação Solidária filiadas. O sistema conta com uma central, a
tradicional. (BITTENCOURT, 2000 apud JUNQUEIRA, 2003).
CRESOL BASER, constituída por um conselho administrativo composto
No início dos anos 1990, começam a ser criados programas de dez membros, que obrigatoriamente já foram conselheiros de
governamentais voltados especificamente à agricultura familiar (como cooperativas singulares. E uma coordenação executiva que é composta
o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - de cinco membros do Conselho de Administração, responsáveis pela
PRONAF), evidenciando a necessidade de criação de uma organização tomada de decisões operacionais junto ao Banco Central BACEN-, e a
que fosse confiável aos participantes e pudesse manter uma relação articulação do sistema junto aos demais parceiros como o Banco
estável com os órgãos oficiais, responsáveis por essa política pública. Nacional de Desenvolvimento -BNDS e o PRONAF.
Entretanto, o sistema bancário, ainda que estatal, muito dificilmente
Na sua estrutura, o sistema CRESOL possui também bases regionais
tinha disposição de fazer chegar os recursos creditícios ao público
responsáveis pela emissão de balancetes mensais das cooperativas
visado pelo PRONAF. (ABRAMOVAY; VEIGA, 1999 apud JUNQUEIRA
singulares associadas. Diariamente, as bases regionais recebem, via
2003) .
malote, os movimentos contábeis das cooperativas singulares, que ao
Dessa forma, o sistema CRESOL surgiu com a missão de fortalecer a final de cada mês, irão gerar um balancete. Esse balancete será então
organização da agricultura familiar e facilitar o acesso ao crédito. O enviado para a cooperativa, bem como para a central CRESOL BASER.
Sistema de Cooperativas de Crédito Rural com Interação Solidária
Cada cooperativa possui autonomia com relação à sua estrutura
CRESOL-, iniciou suas atividades em 10 de janeiro de 1996, com o
administrativa e também nas suas relações com os sócios. Uma das
objetivo de possibilitar a melhoria das condições de acesso ao crédito
poucas restrições à cooperativa singular diz respeito ao seu raio de
rural para a agricultura familiar, através de um desenvolvimento
atuação. Quando atinge um número de sócios superior a 1500,
sustentável. Seus objetivos centrais são:
recomenda-se que essa cooperativa desmembre-se, abrindo sedes em
• Atender as camadas pobres e excluídas da população rural; municípios distintos. Orientação que tem por finalidade possibilitar
• Fortalecer o desenvolvimento local sustentável a partir da uma participação maior dos sócios na tomada de decisão na cooperativa.
articulação com os diversos atores sociais (associações, pequenas
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Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário Denys Dozsa e Denise Cássia da Silva

Outro elemento importante na estrutura, referente às cooperativas em tecnologia e prática gerenciais modernas. Não podemos esquecer
singulares são os agentes regionais de crédito, que são os próprios que esses empreendimentos precisam ter sustentabilidade econômica.
cooperados, escolhidos entre os grupos comunitários, cujo papel é Porém, as cooperativas de cunho popular que vêm surgindo hoje, não
servir de elo entre a base e a direção da cooperativa. No grupo, são necessitam somente geração de renda, mas também, de cidadania.
tomadas as decisões relativas ao crédito e seus membros são os
Portanto, a Extensão Rural precisa estar atenta a todas essas
responsáveis pelo crédito concedido, o chamado aval solidário, que foi
mudanças, dentre elas, a chamada “novas ruralidades”, em que o espaço
desenvolvido pelo sistema CRESOL e incorporado pelo PRONAF. Cabe
rural não é mais visto como local que contenha somente atividades
ressaltar que, devido a esses mecanismos, os índices de inadimplência
agrícolas, mas também inclui as atividades não-agrícolas.
das cooperativas chegam muito próximos de zero.
A nova proposta de ATER constitui-se em um primeiro passo para
uma “nova extensão rural”. A começar pela sua construção, que se deu
9 CONCLUSÃO de forma participativa, com envolvimento de órgãos governamentais,
segmentos da sociedade civil, lideranças das organizações que
A Extensão Rural que se pautava no difusionismo tecnológico não
representam os agricultores familiares e os movimentos sociais. A
responde aos anseios dos agricultores familiares, pois, as expectativas
construção de nova ATER possibilitou a abertura para a participação dos
de melhoria de vida, com o aumento de produtividade, gerando lucro,
pequenos produtores rurais, procurando reparar os danos sociais
não se estendeu a todos: o bolo cresceu, mas não foi repartido.
impostos ao homem do campo resultante do modelo anterior. Dessa
Surgiram assim, novas propostas de trabalho baseadas em forma, justifica-se a aposta na Economia Solidária, no “novo
metodologias participativas, promovendo o diálogo entre o cooperativismo”, na autogestão e na participação democrática como
conhecimento dos agricultores e o dos técnicos. A comunidade foi formas de viabilizar a nova proposta da extensão rural no Brasil.
chamada a discutir seus problemas, suas causas e propor soluções. Em
síntese, “executa quem planeja”. Ninguém melhor para identificar os
problemas, buscar as soluções e planejar ações do que quem os vive. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
É importante que as comunidades possam participar dos programas
e projetos desenvolvidos, bem como definir e acompanhar políticas
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públicas para promoção do Desenvolvimento Local.
coop/principles.html. Acesso em: 10.jul.2006.
O Desenvolvimento Local não se resume apenas em geração de
renda, mas inclui a garantia de acesso ao conhecimento, a mobilização
dos atores sociais, a participação nos programas e projetos, ou seja, BORDENAVE, J. E. D. O que é comunicação rural. 3ª ed. São Paulo:
considera a valorização dos potenciais endógenos e exógenos de um Brasiliense, 1983.
território.
A cooperação, por meio de associações e cooperativas, apresenta-se BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Secretaria da
como uma das formas de viabilizar o Desenvolvimento Local, para que, Agricultura Familiar. 2004. Política Nacional de Assistência Técnica e
juntos, os produtores rurais tenham poder de barganha e agreguem Extensão Rural. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário.
valor à produção. Assim, concordamos com Pires (2003, p.62): “Não Disponível em: http://www.pronaf.gov.br/ater/Docs/pnater.doc. Acesso
resta dúvida de que a cooperação é a única saída para se enfrentar essa em: 06.jul.2005.
economia hostil e excludente, caracterizada como globalização.”
As cooperativas são cobradas cada vez mais para gerar trabalho e
renda, e que sejam administradas com competência, pois estão
inseridas em um mercado seletivo e competitivo, exigindo investimento
80 81
Extensão Rural e Cooperativismo: O Novo Cenário

CAPORAL, F. R. s/d. Superando a Revolução Verde: A transição TAUK SANTOS, M. S. Igreja e reforma agrária: representações de
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82 83
Parte II - Questões Cultural-Pedagógicas
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 5

Autogestão e educação popular para o trabalho


comunitário
Lúcia Helena Alencastro
Márcia Silva Fernandes

1 INTRODUÇÃO
O tema autogestão tem-se configurado, nos últimos anos, como
centro de inúmeros debates e mesmo confusões a respeito de sua
delimitação conceitual. Em primeiro lugar, em face de mudanças
ocorridas no âmbito da reorganização da dinâmica administrativa das
empresas, decorrente da globalização de mercados; em segundo, devido
ao crescimento da busca de organização dos trabalhadores de maneira
mais democrática e participativa.
Neste trabalho, a autogestão é entendida como uma categoria de
análise distinta e independente de outras formas de gestão, como por
exemplo, a gestão participativa, a co-gestão e outras formas que
imprimem limitações claras ao grau de participação dos trabalhadores.
Portanto, entendida como sinônimo de participação efetiva, sem
distinção entre sócios e trabalhadores, uma vez que os trabalhadores são
os sócios e vice-versa, extinguindo-se assim a possibilidade de qualquer
outro vínculo de trabalho. (SINGER apud SATO, 2002).
Faria (2006) percebe a autogestão, na atualidade, como referência
para as experiências de organização dos trabalhadores no seio do
capitalismo, podendo ser analisada e mesmo validada como categoria, a
partir das ações e relações que se configuram internamente e com a
sociedade. Partindo-se desse referencial, infere-se que a autogestão não
preexiste, mas se articula na dinâmica estabelecida internamente entre
o corpo de sujeitos, que busca romper com uma forma de organização
alienante e de expropriação do seu saber e sua força de trabalho.
Representa um processo em permanente construção, que se articula no
enfrentamento cotidiano de aspectos sócio-culturais, presentes em uma
lógica de educação calcada em valores adversos aos valores e princípios

87
Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

de uma organização autogestionária. Educação, aqui entendida como trabalhadores.


processo formal de ensino/aprendizagem, que se dá através da escola ou
A quarta parte apresenta um recorte das reflexões que se têm
aprendizagem social, uma vez que o indivíduo se educa também em
desenvolvido a partir da articulação entre os fundamentos da educação
outros espaços sociais que freqüenta. Conhecimentos que vão se
popular, e a prática de intervenção psicossocial junto a grupos
construindo ao longo da vida dos sujeitos, principalmente em contextos
populares. Delimita alguns avanços, que se acredita ter construído em
laborais.
relação à metodologia de incubação, especificamente no tocante a
Este trabalho representa o resultado de um exercício teórico, alguns aspectos considerados fundamentais à formação para a
combinado com as reflexões desencadeadas na intervenção junto a autogestão.
grupos populares, incubados pela Incubadora Tecnológica de
Finalmente, teceremos algumas considerações sobre o momento
Cooperativas Populares da Universidade Federal do Paraná - ITCP-UFPR,
atual da ITCP-UFPR, e alguns dos desafios que compõem o exercício
em uma perspectiva autogestionária. Tais reflexões suscitaram algumas
prático do trabalho com grupos populares, haja vista a realidade
indagações, especificamente relacionadas à abordagem pedagógica,
socioeconômica e cultural em que ocorrem essas práticas.
que vinha orientando a prática de intervenção da equipe de formação da
ITCP, a saber: em que medida se realizava a concretização de uma
prática formativa, capaz de engendrar um rompimento sociocultural 2 REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A EDUCAÇÃO TRADICIONAL
com os valores educacionais construídos ao longo do desenvolvimento
histórico das relações de trabalho (valores que sempre exerceram No Brasil, o cooperativismo popular e autogestionário, na
influência direta no modo de produção capitalista)? perspectiva da Economia Solidária, emerge de uma realidade
globalizada com altos níveis de exclusão social. Disso resultou um
Coloca-se como objetivo deste artigo apresentar uma reflexão público-alvo muito específico: trabalhadores excluídos não apenas do
teórico-prática, a partir da experiência vivenciada e sistematizada na processo produtivo formal, mas, na sua maioria, do acesso à educação,
ITCP-UFPR, aliada aos pressupostos teóricos da educação popular da oportunidade de participar criticamente como cidadãos do aparato
freireana. Dessa forma, pretende-se contribuir para o desenho de um social constituinte do seu tempo, da sua história. Mesmo os
projeto político-pedagógico, com vistas à incubação de trabalhadores que tiveram acesso ao Ensino Fundamental e/ou Médio,
empreendimentos populares para autogestão e o desenvolvimento de compartilham de uma formação acrítica, sem a sensibilização para
uma prática pedagógica progressista, diferenciada do referencial outras possibilidades que não a lógica capitalista de organização do
tradicional de educação. trabalho. (SINGER, 1999).
A próxima seção deste artigo procura refletir a orientação Urge analisar o perfil desse trabalhador e, dentro dessa organização
pedagógica calcada num modelo de educação desenvolvida sob a lógica em construção (isto é, da Economia Solidária) procurar formas efetivas
da produção capitalista, presente nas práticas educativas adotadas no de inserção econômica, porém, que resultem em crescimento humano,
Brasil e as transformações advindas da revolução tecnológica nas não só da apropriação de saberes técnicos, mas, principalmente
últimas décadas no mundo do trabalho. propiciadores de valores críticos, negados na educação formal desde
A terceira parte apresenta algumas referências que se tem utilizado seus primórdios. Pode-se considerar que a submissão de trabalhadores e
na construção de um processo formativo direcionado aos trabalhadores. trabalhadoras a qualquer tipo de relação social que contenha a
Nessa perspectiva, toma-se como referência central a obra desenvolvida dominação e exploração, não é de forma alguma espontânea. Derivam,
pelo educador Paulo Freire, que apresenta elementos fundamentais para na maioria das vezes, de fatores como a coerção direta, necessidades
a constituição de um novo modo de pensar a educação de jovens e econômicas ou interiorização de tais relações como necessárias, justas
adultos, na ótica da educação popular e que se desenvolve no Brasil ou inevitáveis e, geralmente, da correlação desses fatores. (ENGUITA,
desde a década de 1960. Esses elementos são considerados de extrema 1993, p. 208).
relevância para instituições que, assim como as incubadoras de Examinando o sistema educacional nas suas origens, percebe-se que
cooperativas visam contribuir para a formação e organização coletiva de
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Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

a educação não brota de uma necessidade espontânea do homem, em práticas na estrutura escolar. (Suárez, 1995, p. 254). Essas
busca do conhecimento para realização do seu trabalho e do seu ser investigações apontam a penetração de discursos centrados na
social. Apresenta-se, no percurso histórico das sociedades, como qualificação e na eficiência educacional, influenciando diretamente o
aparelho reprodutor ora de interesses religiosos, políticos e caráter social e pedagógico da escola pública.
econômicos, ora com definição ideológica específica no direcionamento
O autor refere-se à importância de pesquisas científicas relacionadas
de uma educação voltada ao fortalecimento da força de trabalho da
aos mecanismos desenvolvidos pela lógica neoliberal, instalada
classe operária, fundamental ao desenvolvimento industrial,
mundialmente, colocando aspectos ideológicos de formação e
permanecendo, ao longo da história, em consonância com as mudanças
legitimando-os como se fossem as únicas possibilidades existentes.
ocorridas nas relações de produção.
Como exemplo, o pesquisador toma o argumento utilizado frente ao
Bowles e Gintis apud Enguita (1993, p. 252), desenvolvem uma desemprego estrutural, que justifica a qualificação dos trabalhadores,
reflexão em relação às insuficiências e contradições encontradas nas como um dos elementos que restringe o acesso ao mercado formal de
grandes reformas educacionais liberais, assinalando que os objetivos trabalho. Nessa perspectiva, assiste-se ao surgimento de um conjunto de
principais direcionavam-se, basicamente, ao ajuste da força de trabalho articulações de instituições públicas e privadas, visando superar a
às relações de produção. Concluem que essas reformas responderam barreira da desqualificação profissional por meio da criação de inúmeros
sempre a transformações no modo de produção e na estrutura de classes cursos de qualificação. No entanto, esses cursos não demonstram uma
do capitalismo. Esses mesmos autores estabelecem uma relação direta preocupação com a construção de conhecimentos significativos para a
entre as relações sociais de produção e a estrutura escolar, em seus classe trabalhadora e, passíveis de, efetivamente, contribuir para o seu
diferentes níveis de formação, correlacionando a estrutura hierárquica empoderamento e mesmo autonomia frente à situação de desemprego.
dos diferentes níveis de formação com os níveis da divisão hierárquica do Ao contrário, em muitos casos, acaba por gerar uma falsa ilusão. O
trabalho: a)aspectos de submissão a normas, encontradas no Ensino trabalhador passa a acreditar que aquele certificado terá o poder de
Básico; b)confiabilidade e capacidade de funcionar sem uma supervisão reintegrá-lo ao mundo do trabalho formal. Estas práticas de qualificação
direta e contínua no Ensino Médio; c)interiorização de normas não visam o desenvolvimento de uma percepção crítica sobre a
percebidas como naturais e necessárias no Ensino Superior, realidade, mas tão somente, o despejar de conhecimentos técnicos
demonstrando uma correspondência com os condicionamentos do sobre algum campo de atuação, como promessa de um futuro emprego,
mercado de trabalho. numa perspectiva bancária de educação, como veremos a seguir.
Ao analisar a realidade brasileira, percebe-se que surgiram, nas
últimas décadas, diferentes estudos, integrando os temas educação e
3 EDUCAÇÃO POPULAR PARA A INTEGRAÇÃO DO TRABALHADOR
trabalho, estimulados sobretudo, pelas transformações relacionadas às
novas tecnologias e formas de organização, gestão e racionalização da A proposição central deste trabalho, conforme já citado, é refletir
produção. Os resultados desses estudos têm-se constituído referencial sobre algumas premissas educacionais, que permitam superar o
teórico-metodológico divulgado em cursos técnicos de magistério, alheamento do trabalhador em relação a sua condição social e ao mesmo
graduação e pós-graduação em Educação. Entretanto, cabe questionar o tempo contribuir para a sua integração à realidade, por meio da
quanto essas reflexões conseguiram influenciar, de maneira direta, o organização coletiva do trabalho. Tem-se o grande desafio no processo
campo educacional, especificamente, em termos curriculares e formativo: como conseguir a superação de uma consciência acrítica
pedagógicos a educação e a qualificação de jovens e adultos. Ao para uma consciência criticizadora e questionadora da realidade, não-
contrário, ao refletir algumas referências teóricas que analisam as reduzida a condição de conformismo? No intento de responder a essa
políticas educacionais do neoliberalismo na América Latina, indagação, um tanto complexa, buscamos nos referenciais da educação
constatamos que tais práticas se resumem em uma integração entre as popular, contribuições a fim de dar conta do desafio que permeia o
práticas econômicas de qualificação/disciplinamento da força de processo de incubação de grupos populares.
trabalho nos processos produtivos flexibilizados e os efeitos dessas Segundo Melo Neto (2004), a educação popular historicamente vem

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Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

se desenvolvendo desde o início do século passado. No Brasil, pode-se e não o acúmulo produtivo. Paulo Freire oferece uma reflexão bastante
considerar que as primeiras experiências tiveram origem nas significativa sobre o modelo de educação contrário à autonomia, quando
universidades livres, em alguns estados do país. Num primeiro alude ao conceito de “educação bancária”.
momento, tinham elas o objetivo de discutir diferentes temáticas com o
A concepção bancária de educação dificulta o pensar crítico, pois
povo, porém, sem articulação com os movimentos sociais mantendo-se,
nela, o educador assume o papel de principal agente do processo
na realidade, distanciadas das classes populares e configurando-se como
educativo, tendo como objetivo saturar os educandos dos conteúdos de
experiências vinculadas diretamente ao meio intelectual. Outras
sua narrativa. Conteúdos esses, que são recortes da realidade,
referências importantes são as escolas sindicais ou escolas partidárias
desconectados da totalidade. “A educação se torna um ato de depositar,
com propósitos mais veiculados aos interesses das classes
em que os educandos são os depositários e o educador o depositante. Em
trabalhadoras, assim como diversas outras experiências com apoio do
lugar de comunicar-se, o educador faz comunicados e depósitos que os
movimento estudantil e de outras instituições.
educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e
Entretanto, o paradigma da educação popular, indubitavelmente, repetem”. (Freire, 1987, p. 58). O processo educativo com essa
considera-se a partir do método Paulo Freire de alfabetização. Surgiu na conotação, não proporciona as condições necessárias para a apropriação
década de 1960, com a campanha “De pé no chão também se aprende a da realidade pelo trabalhador; apenas cumpre o papel de reprodução do
ler”, na cidade de Natal (Rio Grande do Norte) e foi disseminada por que está posto: sem cidadãos críticos, a educação não permite um
vários estados brasileiros. Esse método tem marcado presença, desde processo de transformação social.
sua origem, em diferentes experiências de educação popular, não
A construção de uma relação diferenciada de organização do
somente no Brasil, mas também em outros países, como uma referência
trabalho e da produção autogestionária, requer uma prática
revolucionária para a educação. Neste, a conscientização apresenta-se
comunitária embasada em uma visão de sociedade fundada nos valores
como categoria primeira, mas a prática em consonância com a reflexão
de cooperação, igualdade, solidariedade e justiça social. O
leva a compreensão de outra categoria não menos importante: a
individualismo e a exacerbada motivação que se coloca para a
necessidade de organização como fundamento capaz de levar a
competição nas relações socioeconômicas, são valores estabelecidos
transformação social. (GADOTTI, 2000).
pelo capitalismo, onde o trabalhador é reconhecido como força
Entre as diferentes e preciosas contribuições do educador Paulo reprodutora do trabalho. Omite-se a percepção desse homem como ser
Freire, cabe destacar que ele assumiu como preocupação central, a integral, possuidor de necessidades, capaz de desenvolver suas
construção de uma teoria do conhecimento e não especificamente uma potencialidades, e que deveria encontrar no seu espaço de trabalho as
teoria pedagógica. Esse fato, certamente, engendrou uma outra condições necessárias, não só à manutenção da vida e à sua reprodução,
perspectiva no fazer educação: “a educação como ato de mas também a sua auto-realização como ser social, integrado ao seu
conhecimento”, referenciado pela totalidade da experiência humana. momento histórico.
“O ponto de partida é a experiência concreta do indivíduo, em seu grupo
Ao analisar o ser humano vocacionado como sujeito, Paulo Freire
ou sua comunidade. Esta experiência se expressa por meio do universo
parte da compreensão deste como um ser de relações, que não apenas
verbal e do universo temático”. (ANDREOLA, 1993, p. 33).
está no mundo, mas com o mundo. Nas suas relações com o mundo, esse
Neste sentido, a formação dos trabalhadores para a autogestão sujeito integrado capta de maneira crítica os dados da sua realidade e
deverá, necessariamente, conter elementos capazes de contribuir com estabelece as relações entre os fatos. O ser humano integrado é o sujeito
uma reflexão crítica acerca da sua realidade por meio de uma postura crítico que superou a atitude de ajustamento ou acomodação, é capaz de
auto-reflexiva sobre o seu tempo e o seu espaço (Freire, 2002). Caso apreender os temas e tarefas de sua época, de conhecer criticamente a
contrário, corre-se o risco de uma mera domesticação dos trabalhadores realidade para nela interferir. “A sua humanização, afirmação como
em relação ao cooperativismo, sem contribuir com uma visão crítica sujeito, ou sua minimização como objeto, depende em grande parte de
desses sujeitos sobre a necessidade de uma outra conformação social, sua captação desses temas”. (Freire, 2002, p. 52). A partir deste
capaz de edificar relações laborais, cuja centralidade seja o ser humano referencial de integração do homem à sua realidade, do sujeito crítico,

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Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

encontramos um aporte teórico passível de estabelecer uma interface demandas cotidianas movia-nos com maior intensidade. O
entre este trabalhador, seus referencias culturais, sua história de luta reconhecimento negativo sobre uma prática deslocada da reflexão levou
pela sobrevivência e a necessidade de engendrar-se uma outra à organização interna do trabalho e avançou para a construção de um
configuração social do trabalho. espaço coletivo e integrador de todos os atores sociais envolvidos no
trabalho comunitário: corpo docente, discente e de servidores técnico-
Dessa forma, o significado da organização coletiva para o trabalho,
administrativos. Nesse espaço, conteúdos capazes de re-significar as
para o nosso trabalho. Não mais para o emprego, para o meu emprego,
dúvidas que um fazer desafiador impõe cotidianamente, passaram a se
mas para a restauração do elo perdido entre o ser trabalhador e o saber-
mostrar reveladores de conteúdos antes não percebidos. Esses
se sujeito dotado de qualificações e potencialidades para além da
conteúdos podem estar na teoria, na experiência prático-teórica de
técnica. Situá-lo enquanto sujeito da própria criação da técnica.
pesquisadores e mesmo na discussão e reflexão da equipe. Importantes
Tais reflexões permitem pensar a educação para o trabalho sem contribuições se mostram a partir do entrelaçamento de olhares mais
negligenciar a importância da formação técnica, entretanto, sem atentos e aguçados. Foi possível constatar maior amadurecimento da
desintegrá-la do sujeito e de sua capacidade de apreensão cognoscível equipe, que ao refletir o seu fazer, encontrou mais questionamentos do
sobre o objeto de conhecimento. Neste sentido, Freire (1971), que respostas, sobre o significado do que se tinha desenvolvido no
referindo-se a importância do diálogo no processo educativo, coloca-o cotidiano de trabalho. Paralelamente, ocorreu a necessidade de
como aspecto central em qualquer que seja a proposição de sistematizar as discussões e reflexões, o que acabou por estimular a
conhecimento que se pretende: conhecimento científico, técnico ou produção teórica, por meio de pesquisas nas diferentes áreas do
mesmo experiencial. É por meio do diálogo, traduzido em conhecimento, que fazem parte da prática comunitária.
problematização, que poderão emergir as interações indiscutíveis entre
A criação de um espaço sistemático para validação e/ou negação do
o conhecimento e a realidade concreta. Conhecimento enquanto
fazer, culminou na proposição de alguns princípios, como forma de
produto desta realidade, que ao mesmo tempo a modifica e possibilita a
evidenciar e evitar vícios recorrentes no processo de intervenção.
sua compreensão e transformação. Na medida em que o trabalhador é
Elencados a partir dos pressupostos teóricos, desenvolvidos por Paulo
estimulado a interrogações sobre o seu contexto, e percebe que há no
Freire (sem, com isso, negar outras contribuições importantes), esses
grupo o compartilhamento de algumas das suas dúvidas, angústias,
princípios visam, sobretudo, sensibilizar os atores para a complexidade
limitações, sonhos e necessidades, inicia-se um pensar coletivo sobre as
que o exercício prático de incubação coloca, quando se pretende a
questões não mais individuais de análise do contexto sócio-econômico
construção de relações mais justas, solidárias e humanas, em
local. Aos poucos se torna possível ampliar está análise e perceber que
detrimento do individualismo articulado pelo mundo do trabalho nas
este contexto local não está descolado de uma realidade macro e mesmo
últimas décadas.
histórica.
Primeiro, o compromisso ético do educador com a sua prática.
Esse princípio tem como objetivo sensibilizar o educador que participa
4 ALGUNS AVANÇOS NA FORMAÇÃO PARA A AUTOGESTÃO do processo de incubação de que a transformação social é possível e
A constituição de um grupo de estudos na ITCP/UFPR em 2004, necessária. Ou, a compreensão de que a sociedade, como se apresenta, é
sobre os referenciais de educação desenvolvidos por Paulo Freire e a injusta e excludente, e que a educação é uma forma de intervenção que
prática comunitária que vinha sendo realizada, desencadeou um sempre dá origem a algum movimento, jamais é neutra. Esse movimento
importante processo de reflexão crítica sobre o trabalho desenvolvido pode ser no sentido de conformação do que está posto ou do
até aquele momento. enfrentamento e superação das condições que contribuem para a
acomodação dos coeficientes de desigualdade. Entende-se pois, ser o
O volume de trabalho demandado à Incubadora condicionava uma comprometimento do educador com a sua prática, condição
prática, muitas vezes, pautada pelo ativismo social, uma “fazeção” de fundamental à intervenção junto aos grupos populares. “A primeira
atividades, sem priorizar a criticidade sobre esse fazer. Não que a condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em
reflexão inexistisse, entretanto, a necessidade de agir e o volume de
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Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

ser capaz de agir e refletir”. (Freire 1979, p.16). Isso significa ter ou sua construção”. (FREIRE, 2001, p. 25).
consciência sobre o seu estar no mundo, sabendo-se que este estar no Assim, busca-se o desenvolvimento de um ambiente formativo, em
mundo ao mesmo tempo condiciona sua consciência. Portanto, que a prática comunitária esteja impregnada pela dialogicidade (ou seja,
somente por meio da sua capacidade de reflexão sobre seu estar no pelo encontro entre a reflexão e ação dos sujeitos envolvidos). O diálogo
mundo e conseqüente ação sobre este mundo será possível deve implicar a análise crítica da realidade e, portanto, não deve ser
transformações sociais efetivas e, sobretudo, um envolvimento entendida como a simples troca de idéias ou o ato de alguém depositar a
verdadeiro com os sujeitos de sua ação. sua idéia no outro ou, ainda, uma forma de impor a verdade ao outro: o
Assim, desenrola-se um verdadeiro encontro entre equipe e grupo. diálogo deve ser percebido como a possibilidade de construção de
Encontro de vidas, em que pesem as diferenças socioculturais, que conhecimento. “Daí que não possa ser instrumento de que lance mão um
possibilita a construção de uma rede de significações sobre o como sujeito para conquistar o outro. A conquista implícita no diálogo é a do
estamos, porque estamos e o que queremos a partir do reconhecimento mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro”. (Freire, 1987,
de tudo o que temos, enquanto sujeitos históricos. Caso contrário, p. 79). Por fim, esse diálogo deve estar permeado pela crença no
teremos atores a quem cabe um papel de mera representação discursiva, potencial dos homens, na sua capacidade de realização, que,
vazia de significado, incapaz de gerar mudanças e estabelecer um conseqüentemente, deverá conduzir a um vínculo de confiança.
vínculo de confiança junto aos grupos comunitários. Por tratar-se de um O terceiro princípio diz respeito à clareza sobre as motivações do
aspecto subjetivo, torna-se difícil a identificação da coerência entre o grupo em relação à mudança. Mogilka (2002), desenvolve considerações
discurso e a prática educativa. Entretanto, o educador comprometido sobre fatores que poderão fazer-se presentes em um projeto de
buscará compreender a realidade social para, a partir da ação-reflexão, intervenção social, e que devem ser considerados com certa atenção.
descortinar outras possibilidades, reinventando o seu fazer e Entre eles, indica o desejo do grupo por alguma forma de mudança.
transformando a realidade. “O compromisso próprio da existência
humana só existe no engajamento com a realidade, de cujas 'águas' os A experiência tem demonstrado que em um primeiro momento, o
homens verdadeiramente comprometidos ficam 'molhados', grupo mobiliza-se a partir de suas necessidades concretas, sentidas
ensopados”. (FREIRE, 1982, p. 19). diante da situação de desemprego e exclusão do mercado formal de
trabalho. Portanto, o trabalho, seja formal ou não, apresenta-se como
O segundo princípio proposto, refere-se à superação do ensinar condição fundamental para sobrevivência e desenvolvimento humano.
tradicional, à intervenção comunitária, compreendida como um Nesse sentido, é primordial a elucidação crítica dos aspectos que
processo que vai além da transmissão de informações e conhecimentos, compõem a lógica excludente a que os sujeitos estão submetidos, ou um
entendida como interação dialógica, entre sujeitos, capaz de propiciar a verdadeiro mergulho nos aspectos que constituem o referencial cultural
construção desses conhecimentos. A exemplo do processo de formação desses trabalhadores, e de onde emerge em verdade a sua história de
para a autogestão, essa proposição coloca-se como condição primeira, exclusão. Assim, o diálogo em torno de uma outra forma de organização
uma vez que, a organização solidária resulta da construção cotidiana de do trabalho, irá permitir, gradativamente, a conscientização sobre que
um coletivo de trabalhadores. Nessa construção, as demandas se trabalho poderá verdadeiramente compor o seu desenvolvimento a
apresentam a partir dos entendimentos e significações individuais, partir do enfrentamento da sua situação de exclusão. As suas aquisições
advindas das necessidades imediatas da organização, mas que, em termos de conhecimentos devem estar em permanente consonância
necessariamente, terão que resultar em conhecimentos coletivos, dos com os seus desejos. Do contrário, estaríamos apontando uma
quais depende a superação dos problemas concretos e a continuidade da contradição, onde a formação estaria se limitando a doutrinação sem, no
organização. Essa percepção do processo educativo permite ao entanto, elucidar a autenticidade de pessoas concretas, que se
educador considerar na sua prática, o educando como sujeito da própria apropriam de um desejo coletivo com consciência sobre a representação
história, possibilitando que estabeleça uma relação entre experiências social daquilo que buscam construir. O caminho que se vai percorrendo é
vividas e aquele conhecimento que se lhe apresenta. “Ensinar não é no sentido de consubstanciar a identidade do grupo sem, no entanto,
transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua produção sobrepor verdades externas ou internas ao mesmo.

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Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

Portanto, uma vez articulado o espaço de pessoas concretas com buscar uma utopia alicerçada em uma compreensão crítica do que está
desejos que muitas vezes se contradizem entre si e com a equipe de posto em termos de realidade social, para que se concretize uma opção
formação, constitui-se em verdade o espaço permanente de entre a continuidade por meio da reprodução ou enfrentamento por
negociações. Essas negociações representam o lugar por excelência da meio da transformação. A opção de enfrentamento deverá culminar com
formação. É nesse momento que serão firmados os entendimentos, onde um planejamento político-social, capaz de dar conta do que foi proposto
necessariamente se farão presentes necessidades individuais, os em termos de rompimento, alicerçado naqueles fatores que o grupo
diferentes interesses e, principalmente, os diferentes desejos. entendeu que devem ser mudados.
O quarto princípio diz respeito à importância da participação efetiva As ações propostas no planejamento participativo devem conter
do grupo nas diferentes etapas do processo. “Neste contexto, todas as dimensões constitutivas das necessidades humanas, não se
participação não é simplesmente aquela presença, aquele compromisso limitando a um plano de qualificações meramente econômicas, como
de fazer alguma coisa, aquela colaboração [...] a possibilidade de decidir sugerem alguns modelos de planejamento estratégico. Ao contrário,
alguns pontos esparsos e de menor importância; participação é aquela como parte do processo de formação, Gandin (2001, p. 92), refere-se ao
possibilidade de todos usufruírem os bens, os naturais e os produzidos caráter transformador do mesmo, indicando duas dimensões
pela ação humana.” (Gandin, 2001, p 81). Percebe-se um avanço na fundamentais: as mudanças no âmbito do fazer e do ser. Não
equipe de formação, no sentido de ampliar a compreensão do simplesmente, as coisas devem mudar, mas as transformações devem
significado da participação, não só na fase inicial de intervenção com o ocorrer também nos indivíduos a fim de concretizar mudanças externas
grupo, nomeada de reconhecimento da comunidade-, mas o sentido e coletivas, de interesse de todos e capazes de transformar a realidade
mais amplo e processual dessa participação, desencadeada pelo existente. O planejamento como algo vivo, alimentado pela permanente
diagnóstico participativo. Esse diagnóstico visa empreender um esforço tensão dialética entre a realidade existente e a realidade desejada,
à luz de referenciais teóricos para a apreensão, por parte da equipe de demonstrando, assim, a necessidade permanente de avaliação e de
formação e do grupo, sobre os diferentes matizes que perpassam o redirecionamento das ações propostas, discutido e construído por todas
espaço coletivo de organização. Aspectos objetivos e subjetivos, que as pessoas que dele fazem parte.
ilustram as diferentes histórias de vida, bem como o entrelaçamento
dinâmico entre a realidade local, reconhecida e vivificada pelo grupo e o
contexto sócio econômico amplo que o determina. O diagnóstico 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
participativo, entendido como ação educativa e, ao mesmo tempo, A metodologia da práxis, que se constitui no movimento dinâmico e
momento privilegiado de interação identitária, capaz de contribuir na dialético entre o fazer e o pensar sobre o fazer, tem-se constituído como
consolidação efetiva do grupo. Esse diagnóstico volta-se para além do aspecto fundamental na tentativa de negação do ativismo social, pela
mapeamento de uma situação, trazendo a compreensão das rotas possibilidade de refletir sobre a prática. A práxis é condição fundamental
desenvolvidas pelo grupo e o porquê de certos caminhos terem sido para se avançar no processo educativo com clareza sobre os objetivos
trilhados, em detrimento de outras possibilidades que poderiam ser pretendidos.
construídas. Essa perspectiva permite pensar coletivamente que temas
deverão ser incorporados ao processo de formação. O reconhecimento Atualmente, após um redimensionamento da proposta de incubação,
coletivo do que conhecemos e o que necessitamos apreender, para percebe-se indicativos de superação de algumas deficiências,
consolidar uma organização autogestionária. conquistadas a partir da integração prática e teoria. Certamente, a
reflexão é permanente e o processo de construção do conhecimento não
Finalmente, o planejamento participativo. O objetivo do se esgota. Algumas ferramentas foram introduzindo-se na busca do
planejamento participativo é a partir do diagnóstico, pensar o lugar em desenvolvimento e fortalecimento do cooperativismo popular e
que se encontra o grupo, com suas articulações políticas, culturais, autogestionário, o que para nós tem-se mostrado uma realidade possível.
econômicas e sociais e o lugar que se pretende no futuro. Em outras Porém, persiste uma série de aspectos ainda nebulosos, visto que este
palavras: qual a utopia do grupo? Segundo Gandin (1994), deve-se processo de incubação não ocorre em ilhas, mas faz-se em meio a uma

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Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Lúcia Helena Alencastro e Márcia Silva Fernandes

realidade sócio-econômica-cultural, da qual os grupos são parte, bem FREIRE. P. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
como a própria Universidade.
A Economia Solidária, no seio de um sistema de produção capitalista, _____. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
representa um paradoxo, que certamente traz conseqüências diretas a
toda e qualquer proposta de formação, pois incide diretamente sobre os
pontos cruciais dessas organizações, no que se refere à sua sobrevivência _____. Alfabetização e cidadania.In: Gadotti, M. & Torres, C. A. (orgs.).
no mercado, tanto em relação aos empreendimentos, como em relação Educação popular. Utopia latino-americana. São Paulo: Usp, 1994.
às instituições estimuladoras desta forma de economia. Devemos
lembrar que no presente a Economia Solidária não existe como política
pública e não possui ainda o devido reconhecimento, em termos das _____. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
inovações que propõe, como a gestão coletiva e apropriação eqüitativa
do trabalho. (Essa falta de reconhecimento pode estar impedindo a sua
legitimidade como projeto sustentável, independentemente dos rumos _____. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e
políticos que se possam construir no futuro). Terra, 2002.
O grande desafio que se apresenta parece ser a busca de uma
legitimação jurídica, respaldada por investimentos teóricos, visando à GADOTTI, M. Perspectivas atuais da Educação. São Paulo: Perspectiva,
afirmação do movimento de Economia Solidária como uma v.14, n. 02, p. 03-11, jun./2000.
possibilidade concreta de transformação social e não um mero remendo
social, ressuscitado em decorrência de mais uma crise entre capital e
trabalho FRIGOTTO, G. (org.). Educação e crise do trabalho: perspectivas de
final de século. Petrópolis: Vozes, 1998.

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ANDEREOLA, B. A. O processo do conhecimento em Paulo Freire. v.1, n. 1, p. 81:95, jan.-jun./2001.
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Direito da Universidade Federal do Paraná, 2005.

100 101
Autogestão e educação popular para o trabalho comunitário Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 6

MOGILKA, M. Educação Popular, subjetividade e intervenção


democrática. Salvador: Ágere, v. 6, p. 113-130. 2002.

SINGER, P. Globalização e desemprego: diagnóstico e alternativas. 3ª Cooperativismo freireano:


ed. São Paulo: Contexto, 1999. uma atividade de comunicação
Ricardo Prestes Pazello
SUÁREZ. O princípio educativo da nova direita: neoliberalismo, ética
e escola pública. In: Gentili, P. (org.). Pedagogia da exclusão. Petrópolis:
Vozes, 1995.

Trabalhando o sal
Pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa
Encontrar a família a sorrir
Filho vir da escola
Problema maior de estudar
Que é pra não ter meu trabalho
E vida de gente levar
(Canção do Sal, Milton Nascimento)

1 INTRODUÇÃO
Em um conto de Roberto Gomes, um velho professor assevera: “a
sabedoria do educador é colocar-se na pele do aluno”. O conto trata
justamente da problemática de um professor, à beira da aposentadoria,
que começa a discutir o mundo em suas aulas, dando vazão às mais
repreendidas tematizações. Por isso, é claro, haveria de ser taxado de
louco. Tecendo comentários sobre o decrépito sistema educacional
universitário em que vivia, a personagem chega a conclusões como esta:
Estes meninos da pós-graduação pensavam o quê? Que nos livros,
nalguma mágica de redação de tese de mestrado iam resolver as questões
da educação? Toda uma vida para dar uma aula, para escrever um artigo,
para parir uma idéia. Todos vítimas da educação bancária. Acumulavam
bibliotecas, decoravam a lição, saíam com um título debaixo do braço1 .

É de acordo com essa perspectiva, a de não compreender o mundo a


partir de abstrações e idealismos, que este trabalho vem à luz. Nos livros
e nas grossas teses não se encontram as respostas para o mundo que está
aí. O mundo que está aí precisa ser vivido e, para tal, só o ser humano
pode exercer tão altaneiro papel.

1
GOMES, Roberto. Sabrina de trotoar e de tacape, p. 35, no conto “Loucuras de um velho professor”.

102 103
Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

Nesse sentido, o entendimento de que o mundo necessita ser Enrique Dussel chamaria, na esfera da cultura latino-americana, como
3
mudado, e com ele sua sociedade, ganha vez. Depreende-se disso, então, nevralgia do ser autóctone de nosso continente . Paulo Freire, também,
que a tentativa de transformação precisa se aperfeiçoar e, para ela, nada serviu de base para o ensejo de tal idéia. No entanto, tal concepção,
melhor que discutir a organização do trabalho sob novos paradigmas, contextualizadamente, não se assentou como se poderia pensar. Em um
4
consoante um ímpeto revolucionário. Aqui, insere-se o vislumbre das muito interessante artigo, Vanilda Paiva traz-nos o atraente fato de se
alternativas propostas pela economia solidária, em especial o ter restrições quanto à ontologia dessa educação do colonizador, já que
cooperativismo, como contraponto, tenaz e factível, ao modo capitalista pareceria ser o contraponto a uma educação construída nos moldes da
de produção, com sua virulência social que mais faz marginalizar a burguesia nacional. Pareceria, então, que, ao invés de querermos uma
população e explorar o trabalho. pedagogia do colonizador, quiséssemos uma que fosse montada dentro
Pretende-se, contudo, aqui, abordar um aspecto dos mais relevantes, dos próprios princípios da opressão nacional-burguesa. Sob esta ótica
senão o de maior relevo, qual seja, a atividade educacional no contexto interpretativa poderíamos entender, junto com Paiva, que, em última
das alternativas de economia solidária. Acerca-se de tal objeto porque, análise e grosso modo, o Freire de Educação e Atualidade Brasileira
mesmo entendendo que o sistema econômico então vigente o (1959) e Educação como Prática da Liberdade (1965) ainda estaria
capitalismo tenha de ser mitigado por formas outras de manejo da comprometido com a ideologia nacional, não devidamente aquilatada
produção, não se pode recair em ingenuidade de acreditar que tais no que tange a seu teor burguês, só se esboçando como verdadeiramente
alternativas podem conviver pacificamente com um sistema selvagem. revolucionário, já com bom ferramental socialista, com a Pedagogia do
Retomando a velha problemática de Rosa Luxemburgo, em Reforma ou Oprimido (1970). Assim, a referida autora nos interessa por partir da
Revolução, faz-se necessário compreender que o movimento idéia de que
cooperativista não serve de panacéia, ele é, isto sim, uma forma que deve necessitamos, ainda, de uma teoria do movimento operário como meio de
2 emancipação prática dos trabalhadores e que precisa encontrar a sua
ser praticada para combater o grande capital . No entanto, ainda que
pedagogia: uma pedagogia que seja capaz de contribuir para transformar
uma proposta alternativa ao capitalismo, no seio deste, possa as formas pré-políticas de consciência de classe em ações conscientes de
configurar-se como gérmen de um novo modelo, não significa que seu 5
classe .
sucesso e parcial implantação resultem em declínio da exploração e Mesmo que tais ressalvas sejam muito importantes de serem
exclusão sócio-econômica geradas pelo capitalismo. consideradas, entendemos que o próprio Paulo Freire, e a autora não o
Este é o grande arcabouço contextual para justificar nossa análise. nega, já nos apresenta subsídios para uma práxis pedagógica que se
Em que pese o interesse de se encontrar saídas econômicas para o apresente como palpável no processo de libertação popular latino-
estado de coisas, faz-se imprescindível a abordagem crítica da americana, mesmo antes de sua radicalização discursiva.
aprendizagem. Não só enquanto técnica de trabalho, ou manancial de Nascido em 1921, na cidade do Recife, Paulo Freire costumava partir
conhecimento ilustrado, mas sim como ferina forma de apreender o de sua família para encontrar a gênese de sua dialogia. Educador,
mundo, aprendendo-o. Assim, eis o porquê da eleição de Paulo Freire formado em direito, dedicara-se a estudos filosóficos e trabalhara no
como aporte teórico de tal demanda. A conscientização se fazendo Estado, no período anterior ao do golpe militar de 1964. Com este
presente, ferramental chave para o desenvolvimento de crítica e solução ocorrido, fora preso por 70 dias, tendo sido rotulado como subversivo e
ao vigente. 6
traidor da pátria, indo para o exílio no Chile . Viria a trabalhar também
como educador auxiliar dos governos luso-africanos, após o processo de
sua descolonização.
2 PAULO FREIRE: UMA PEDAGOGIA DO OPRIMIDO
Consagra-se com o livro Pedagogia do Oprimido, tornando-se este
Durante muito tempo se costumou mencionar a existência de uma
3
educação do colonizador, contra-face de um sistema educativo nacional, DUSSEL, Enrique. Cultura, cultura latino-americana e cultura nacional, p. 25-63.
4
PAIVA, Vanilda. Do “problema nacional” às classes sociais.
autêntico. Autenticidade, aliás, que o filósofo argentino-mexicano 5
PAIVA, V. Idem, p. 13.
6
Conferir FREIRE, Paulo. Conscientização, em especial a primeira parte, um relato (auto)biográfico do
2
Vide LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução?, p. 80 e seguintes. pedagogo brasileiro.

104 105
Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

libelo da educação que vise a libertação cultural dos educandos. É a “Os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma
partir, mesmo, de seu conteúdo que podemos empreender uma análise forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se
mais acurada sobre uma pedagógica libertadora, compreendendo-a tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da
9
como formulação necessária no âmbito cooperativo e em sua humanidade de ambos” .
decorrente ligação com as formas de economia solidária.
Transforma-se, então, numa relação que deve ser superada. No
entanto, tal superação lobriga-se em toda a sua arduidade, já que os
2.1 Categorias Centrais próprios oprimidos tornam-se hospedeiros da opressão, sendo
necessária a sua expurgação. Marca-se, também, pelo medo da liberdade,
A obra de Freire é marcada pela presença de algumas categorias que item o qual leva a dois caminhos, em essência, quais sejam, o de conduzir
lhe são bastante peculiares e que conferem a seu pensamento grande o oprimido a igualmente oprimir ou descorçoá-lo e mantê-lo na opressão
incisividade. É sempre bom ressaltar que a práxis freireana esteve, de inafastável. É, enfim, a visualização de um grande dilema: “querem ser,
contínuo, imbricada com a prática docente e, por isso mesmo, ligada mas temem ser” .
10

com a relação humana da mesma. Para ele há que se atentar para uma
humanização de todo o processo histórico, uma “vocação dos homens. Por tudo isso, a libertação é uma grande dor, equivalente à dor do
Vocação negada, mas também afirmada na própria negação. Vocação parto, já que gerará o homem novo, superada a contradição opressor-
negada na injustiça, na exploração, na opressão, na violência dos oprimido. Nesse âmbito, a pedagogia do oprimido tem de ser uma
7
opressores” . Desde antes, podemos inferir de seu pensamento a pedagogia do homem, não se desconsiderando nenhuma faticidade
transgressão dos modelos clássicos da relação educador-educando; o engendrante das mais diversas e complexas relações humanas. O
educador não é mais aquele que soliloquiamente professa o saber, nem educador, dessarte, tem de agir na práxis, e para tal precisa ser educado,
mesmo o educando é aquele ente carente de luz própria, o qual não tem não lhe sendo suficiente o mero contato distanciado com aqueles aos
capacidade de apreender autonomamente os vários saberes quais se destina sua tarefa.
apresentados pela vida. A obra de Paulo Freire é um instrumento da A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá
dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando
biofilia e uma armadura contra a opressão. Não se pode rejeitar o mundo
o mundo da opressão e vão comprometendo-se, na práxis, com a sua
de quem está disposto a aprender; e quem quer fazer parte dessa relação transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora,
de ensino/aprendizagem como pólo educativo não pode se fechar aos esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos
11
ensinamentos que o outro, mesmo analfabeto, tem a oferecer. “A leitura homens em processo de permanente libertação .
do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a A opressão nada mais é que se sentir dono do outro; ser dono significa
8
continuidade da leitura daquele” . A crítica deve sempre estar presente possuir alguma coisa; assim, o homem é tido como coisa. Reifica-se-o, e
no processo e é por isso que categorias como opressão, educação daí se passa a lutar pela sobrevivência, passando ao largo da vivência. É
bancária e problematizadora, dialogicidade, conscientização, temas uma situação de controle, controle para que o dominado não se
geradores e situações-limite merecem um apreço especial em todo esse humanize, não se liberte. Assim, evidencia-se de fundamental
contexto. Vamos a elas. importância o momento em que os opressores mudem de lado e,
integrando a adesão aos oprimidos, constituam a luta de libertação.
2.1.1 Contradição opressor-oprimido A atração pelo opressor vige, é inegável. Vencê-la é um grande desafio.
Mas não o é, porém, individualmente; é coletiva a peleja. Um dos
A teoria freireana, como se pode perceber do título de seu livro mais
subtítulos do primeiro capítulo da Pedagogia do Oprimido nos revela
conhecido, parte da constatação de que há uma opressão e que esta não
bem essa idéia: Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os
é mero devaneio filosófico, ela é real. Leva, irrefreavelmente, a um lutar
homens se libertam em comunhão.
contra, por parte de quem é oprimido, em oposição a quem oprime.
9
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido, p. 30.
7 10
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido, p. 30. FREIRE, P. Idem, p. 35.
8 11
FREIRE, P. A importância do ato de ler, p. 22. FREIRE, P. Idem, p. 41.

106 107
Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

Aqui a ação política equivale à cultural, a crença no oprimido não se 2.1.3 Dialogicidade e conscientização
desfaz e, por meio do diálogo, caminha-se para a revolução, a libertação “O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto
na pedagógica, estendida aos demais nichos sociais em que o homem a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade,
desempenha seu papel. Ganha, pois, a revolução, um iminente caráter 14
como inconclusão em permanente movimento na História” . Tendo em
pedagógico. vista que a educação da libertação, e não da alienação, parte do Outro, da
exterioridade transcendental de uma totalidade, não se pode olvidar que
é só com o outro que se poderá galgar tal libertação, e para tanto o
2.1.2 Educação bancária versus educação problematizadora
diálogo se faz imprescindível. Não um diálogo homogeneizador, como já
Na dicotomia das educações de tipo bancário e problematizador ficou patente, mas um que apresente os dissensos e parta para novos
reside dos mais utilizados conceitos freireanos, muitas vezes até de consensos (da denúncia ao anúncio); um diálogo de conscientização.
maneira banalizada, mas que se constitui no grande obelisco de seu
pensamento. Foi contra a educação bancária que Paulo Freire Paulo Freire denomina a concepção problematizadora da educação
desenvolveu toda sua pedagogia, contra uma concepção educacional como, em sinonímia, sendo a educação dialógica. Remete-nos, assim, ao
que, nada mais nada menos, é um instrumento de opressão. ideário de participação da comunidade na formação dos novos
consensos, ou seja, da relação dialógica que na pedagógica adquire um
A concepção bancária de educação é aquela “em que a única margem enlevo de dialogicidade entre o educador e o educando e todos os seus
de ação que se oferecesse aos educandos é a de receberem os depósitos, congêneres.
12
guardá-los e arquivá-los (...); os grandes arquivados são os homens” . Os
educandos são eternos contêineres prontos para receberem todo o O diálogo na práxis freireana se imanta de uma série de predicados, já
conhecimento, sem questionamento algum, via professor, o depósito que é feita numa realidade dialógica, e não num plano ideal. Com a
maior, que tem por desiderato último despejar todo seu saber nas pobres crueza da realidade nem sempre se consegue aplicar os belos conceitos
cabeças vazias de seus alunos. Despreza-se, como se vê, todo o mundo teorizados nas escrivaninhas dos filósofos. Por isso que nos apresenta
provocador de saberes que compõe o entorno do educando, sua leitura alguns pontos que não podem ser minorados: o amor, a humildade, a fé
15
passa longe de seu ensino, numa reprodução ideologicamente postada nos homens, a confiança e o pensar crítico . A ação dialógica da
para manter a opressão característica da ordem vigente. educação ainda se nos aparece com outros caracteres, os quais vale a
16
pena enumerar: a colaboração, a união, a organização e a ação cultural .
Frente a isso, a essa domesticação deliberada, é que se exsurge uma
outra concepção de educação, qual seja, a problematizadora. Visa ela Já a conscientização é a tentativa por desvelar o mundo de opressão
não a adaptação ao mundo, mas a sua transformação efetiva. Libertação que nos rodeia a todos. É a politização, que tem seu ponto inicial no
autêntica é práxis para transformar o mundo. O quefazer do educando diálogo. Freire destrinchou sua concepção a partir do processo de
nesse processo não é meramente como se fosse a posição de um vaso no alfabetização de adultos, mas a despeito de isso cremos ser aplicável em
contexto da tela, mas antes a de um pintor que esquadrinha a nova sentido lato em toda a problemática educativa latino-americana. A
realidade. Dota-se de uma futuridade revolucionária em que se faz a conscientização é a dialetização dos homens mediatizados pelo mundo,
denúncia da opressão e depois se encaminha para fazer o anúncio do é busca contínua pela não superficialidade das coisas. Os homens se
novo tempo. A inconclusão do homem e a consciência por ele da mesma educam mutuamente e assim conscientizam-se. Não se quer dizer, com
é que o levaria à busca por ser-mais, numa solidariedade dos existentes. isso, que uns não possam estar em estágios mais avançados de
Então, a concepção problematizadora tem um aporte crítico que rompe consciência crítica, mas sim que de nada adianta tê-la sem procurar
com o fatalismo da prática da dominação e dirige-se à libertação. “Só materializá-la na relação com o outro. Só faz sentido a conscientização
existe saber na invenção, na reinvenção, impaciente, permanente, que quando socializada, em conjunto.
13
os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros” .
14
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia, p. 154.
12 15
FREIRE, P. Idem, p. 58. Vide FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido, p. 79 e seguintes.
13 16
FREIRE, P. Idem, ibidem. Vide a mesma Pedagogia do Oprimido, mas agora o último item do capítulo 4.

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Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

No diálogo de conscientização é que se sobressaem alguns de transformação social. É o que ocorre quando se fala em incubação de
instrumentos de libertação pedagógica que podemos pincelar aqui. cooperativas populares. Apesar de ser chamada de extensão
Todo o conteúdo programático a ser abordado na prática educativa de universitária, trata-se de comunicação da academia, menos
libertação deve corresponder aos anseios e necessidades do conjunto de academicista, mais voltada à práxis, com a sociedade, em especial, a
educandos. Veja-se, não é uma liberalidade, mas sim um esforço para menos privilegiada, e desta com aquela. Enfim, um diálogo social.
fazer ter sentido tudo o que será ensinado/aprendido naquela relação.
Paulo Freire, por sua vez, não gostava do termo extensão. Discutiu a
Para tal, bom vetor dessa conciliação prático-teórica é a busca pelos
questão no livro Extensão ou Comunicação? Para ele, tanto
temas geradores.
lingüisticamente quanto gnosiologicamente, o termo “extensão” não
O que se pretende investigar, realmente, não são os homens, como se expressa uma prática educativa para a liberdade. O educador que
fossem peças anatômicas, mas o seu pensamento-linguagem referido à
realidade, os níveis de sua percepção desta realidade, a sua visão do
participa com a comunidade da utilização de técnicas desenvolvidas no
17
mundo, em que se encontram envolvidos seus “temas geradores” .
seio acadêmico, em franco diálogo com os seus costumes, não pode
deixar, e ninguém o pode, que “seu trabalho seja rotulado por um
O conteúdo programático se organiza a partir do presente, num 19
conceito que o nega” . No que concerne à lingüística, então, o termo
diálogo de proposta de problematização da existência do povo. Esse está mais para o significado de persuasão propagandista, o que conflita
conteúdo-diálogo provém de uma realidade que inicia o processo de com o entendimento de educação como liberdade, desopressão, já que
investigação dos temas geradores de uma sociedade. O homem, estender algo a alguém é desconsiderar a contribuição deste alguém e,
diferente do animal, é histórico; tem consciência, pode trans-formar sua assim, colocá-lo na posição de objeto, de coisa.
realidade. No entanto, sói acontecer que o homem vê sua existência
determinada: eis as situações-limite. É preciso ultrapassá-las e para tal, Para educar e educar-se com liberdade não é possível compreender-se
compreendê-las. Uma unidade epocal (conjunto de valores) aporta os o processo de aprendizagem como domesticação, como substituição do
temas geradores, os quais são o embasamento da realidade; vão do mais saber do homem do povo pelo saber do homem da academia.
geral ao mais particular. Num mundo o atual em que vigora o Ao contrário, educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles
irracionalismo mistificador, faz-se premente uma crítica dinâmica que que sabem que pouco sabem por isto sabem que sabem algo e podem assim
chegar a saber mais em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam
retire as situações-limite, como manto dos temas geradores, e, então, que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada
18
transforme a realidade a partir de um inédito possível e viável . sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais .
20

Por isso que se propala o termo “comunicação”, pois o conhecimento


não se dá passivamente, é fruto da reflexão e ação do homem no mundo.
3 UMA PRÁTICA DIALÓGICA 21
“Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos” . Não havendo técnica
O enfoque freireano que pretendemos dar procede de uma prática neutra nem dicotomização entre homem e mundo, aprender significa
bem específica, a da incubação de cooperativas por programas apropriar-se do aprendido, para em seguida apreendê-lo e, assim,
universitários. Aí está nosso lastro teórico-prático. A metodologia da reinventá-lo, ou seja, aplicá-lo em situações concretas da
Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade quotidianidade.
Federal do Paraná (ITCP-UFPR) tem como um de seus marcos teóricos o
célebre educador recifense. Nada melhor, destarte, que utilizá-lo É dessa forma que se nos afigura o labor cooperativo em
quando se trata de cooperativismo popular, não entendido como fim em comunidades populares. Quando Freire teorizava, falava dos educadores
si, e sim como parte do processo, encabeçado pela conscientização. agrônomos. Agora, falamos dos educadores cooperativistas. O trabalho,
compreendido como meio de sustento e de vivência (e não só de
A universidade tem de se comunicar com a comunidade da qual faz sobrevivência dos trabalhadores), passa a ser o foco dessa educação. Não
parte. E não só a acadêmica, mas principalmente a que a engloba. se trata de substituir, pura e simplesmente, uma visão já enraizada do
Afirmar-se como espaço público é seu papel, e para tal deve ter o escopo 19
FREIRE, P. Extensão ou Comunicação?, p. 23.
17 20
FREIRE, P. Idem, p. 88. FREIRE, P. Idem, p. 25.
18 21
Conferir FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido, a partir da página 86. FREIRE, P. Idem, p. 27.

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Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

que seja o ato de trabalhar, enquanto constante no imaginário das tanto da preocupação de sensibilizar o trabalhador para a opressão do
pessoas. Como se deu, certa vez, em uma ocasião em que estávamos em sistema capitalismo, delimitando-o como não natural e sim como
um grupo de catadores de material reciclável e uma das senhoras nos resultado da força humana, do ímpeto humano desumanizador, bem
disse que o trabalho na cooperativa, então em formação, não era como da necessidade de não fazer do próprio trabalhador um vetor da
trabalho mesmo, pois não havia carteira assinada, patrão ou salário com opressão do mando. Assim, nas práticas autogestionárias que o
benefícios e descontos. De nada adiantaria dizer o contrário, como se o cooperativismo tem empreendido, pode-se verificar a dificuldade
mero palavrório conseguisse transformar concepções de mundo de uma tamanha na organização sem patrões e empregados, com todos
hora para outra, de uma palavra a outra. Era necessário que a responsáveis pelo trabalho, sem hierarquia. Isso não quer dizer, todavia,
autogestão, forma trabalhada no cooperativismo, fosse vivenciada no que o empreendimento autogestionário prescinda da disciplina ou do
dia-a-dia. E assim se deu. compromisso. Muito pelo contrário. A responsabilidade se torna
intrínseca ao grupo e as atribuições, democraticamente decididas, vão
Pensamos, pois, que o processo de transformação passa diretamente
delineando os compromissos de cada um na cooperativa.
pela relação de ensino-aprendizagem. Não necessariamente a formal, do
Estado, nos carcomidos moldes das salas de aulas enfileiradas, É de se notar, entretanto, que o não se adaptar, o mudar, exige um
castradoras do potencial dos estudantes. Mas a conscientização que esforço muito grande. Por isso a comunicação entre pesquisadores e
reúne no aprender-apreender-reinventar a mola propulsora da trabalhadores tem de ganhar vínculos estreitos. Isso porque a tradição
transformação social, daquilo que chamamos anteriormente de aferroada em nossa sociedade é a de uma democracia indireta, com
revolução, sendo teoria e prática itens inolvidáveis desse trajeto. representantes que tem de fazer por nós, tendo ficado o povo, ente quase
metafísico para os donos do poder e seu discurso demagógico, relegado a
mero eleitor. Há de se ver, ainda, que nem mesmo a democracia indireta
3.1 A opressão do capital tem profundos laços com nossa compreensão decisória, já que o
A opressão constatada no sistema do capital é ponto fulcral para a autoritarismo teve vigência em ditaduras e coronelismos e ainda
concepção libertadora da educação freireana. Tal constatação sobrevive na família e mesmo nas instituições públicas.
demonstra que, apesar de sua imperfeição, o homem é ser ativo no Remanesce, porém, o autoritarismo, preponderantemente, na
mundo. “Não sou apenas objeto da História mas seu sujeito igualmente. iniciativa privada, na empresas capitalistas, nas bocas dos patrões, dos
No mundo da História, da cultura, da política, constato não para me gerentes, dos chacais da heterogestão.
22
adaptar mas para mudar” .
Em Educação como prática da liberdade, Paulo Freire comenta
E o que se constata de fato? A opressão da organização do trabalho. acerca da inexperiência democrática brasileira: “teria sido a experiência
Precipuamente, o trabalho é concebido hodiernamente e pode se dizer de autogoverno, de que sempre, realmente, nos distanciamos e quase
que esta tem sido a tônica histórica a partir de uma estrutura nunca experimentamos, que nos teria propiciado um melhor exercício
hierárquica, heterogestionária. Assim sendo, identifica-se com uma 23
da democracia” . Remontando ao processo de colonização sofrido pelo
relação de mando, com uma hierarquia laboral, do patrão que subordina Brasil, Freire resgata, em um livro que seria editado no exílio, a idéia de
seus empregados, do chefe que tem poder de vida e morte sobre o uma fraqueza democrática, de uma democracia às avessas em solo
trabalho de seus assalariados. Isto quando o proletariado não engrossa tupiniquim.
as grandes filas do desemprego, do exército industrial de reserva, ponto
Assim, um contexto tão obnubilado não poderia desfazer a opressão
essencial para o perfeito desenvolvimento do capitalismo.
empregatícia, sendo o direito trabalhista voltado para tal ideário e a
Superar tal imaginário é superar a alienação que acomete o formação econômica, desde as priscas eras, untada por tal concepção. A
trabalhador, quando trabalha, mas também o hospedeiro em potencial proposta cooperativa, então, passa a ter de se ocupar, necessariamente,
em que o mesmo pode se transformar. A problemática gira em torno com o desvelar da contradição opressora enquistada no modelo de
produção capitalista. Desvendá-la torna-se preocupação inerente a todo
22
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia, p. 87 (grifado no original). 23
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade, p. 74.

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Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

promotor de tal alternativa econômica e aí o processo educativo vai De tudo, fica que a problematização da empreita cooperativa
ganhando mais e mais importância. perpassa os trilhos da crítica constante, já que o aperfeiçoamento faz-se
sempre necessário. Para tal, imprescindível é uma ação crítico-
democrática no processo educativo, tanto para os que agem como
3.2 Problematizando o trabalho educadores-educandos quanto para os que agem como educando-
A educação problematizadora ganha na crítica seu fundamento educadores.
metodológico. Inserido que está no contexto do capitalismo, o trabalho,
enquanto proposta cooperativa, passa a ter de ser visto sob a ótica do
3.3 Conscientização dialógica: o cooperativismo
questionamento e toda e qualquer comunicação feita, por exemplo,
entre a universidade e a comunidade, tem de passar por seu crivo. O diálogo conscientizador se dinamiza no processo cooperativo. A
necessidade que os trabalhadores têm de receber colaboração da
A educação bancária, esta que costumamos receber nos bancos
comunidade em geral evidencia bem essa situação. O consumo
escolares quando crianças, depositando conhecimento em nossos
compulsivo e irresponsável, despreocupado com a proveniência do
bestuntos, tem de ser expurgada da relação de promoção cooperativista
produto, já não é mais cabível. Agora, não só o trabalhador, mas também
nos setores populares. Paulo Freire quando ajudou no processo
o que consome têm de auscultar a exigência educativa do
educativo de países luso-africanos recém-descolonizados politicamente,
cooperativismo.
escreveu em um dos Cadernos de Cultura Popular sobre o trabalho: “o
trabalho que transforma, nem sempre dignifica os homens e as A comunicação feita com os cooperados deve alcançar, criticamente,
24
mulheres. Só o trabalho livre nos dá valor” . Denota-se já aqui uma a sociedade. O projeto cooperativo não é e nem pode ser entendido sob o
criticização de conteúdos, os mais diversos, dentre os quais o trabalho. E prisma da parcialidade. Logrará êxitos, apenas e tão-somente, se for
é justamente o trabalho que deve ser problematizado, para ser parte de uma totalidade conscientizadora. O educador, o trabalhador e o
aprendido. O cooperativismo não pode, nas mãos e cabeça dos consumidor, todos cidadãos, devem ter em mente quais são os frutos da
trabalhadores, virar mero conjunto de conceitos e princípios. Ele tem de opressão e quais são as tentativas de superá-la.
ser reinventado na prática, em seus quotidianos. Enquanto arsenal No âmbito, entrementes, da relação de aprendizagem para o
principiológico, se descolado da materialidade, não serve de nada. cooperativismo, a situação não se mostra diversa. O educador popular
Nessa conjuntura, podemos reavivar outro momento do pensamento que pretender se vincular ao projeto de trabalho cooperativo, como
de Freire, quando este consignou a existência de três formas de ação qualquer outro de índole realmente popular, deverá discuti-lo sob o
25
educacional: a ingênua, a astuta e a crítico-democrática . A ingênua é aporte do diálogo, da não indiferença pelos saberes do educando, da
aquele que crê piamente na existência de uma neutralidade da consciência da própria ignorância, ainda que parcial, e pela vontade de
educação. Chama-nos a atenção, dessarte, Freire, para o fato de “não ser modificar uma realidade tão fustigada.
possível pensar, sequer, a educação, sem que se esteja atento à questão É preciso, todavia, evitar que as práticas se degenerem, por algum
do poder. (...) A burguesia, (...) chegando ao poder, teve o poder de resquício antidialógico, em conquista, divisão, manipulação ou invasão
26
sistematizar a sua educação” . A concepção astuta, por seu turno, cultural. Paulo Freire mesmo relacionará a invasão cultural, tema
amolda-se na assunção da ideologia opressora. Ingênuos taticamente, desenvolvido em seu Pedagogia do Oprimido, com a extensão, conforme
os astutos tendem a se assumir como reacionários e opressores. Por fim, o segundo capítulo de Extensão ou Comunicação? É preciso, pois, notar
a concepção crítico-democrática é justamente aquela que se apóia nos que
saberes populares e, a partir deles, em diálogo contínuo, desenvolve uma
rejeitar em qualquer nível, a problematização dialógica é insistir num
ação revolucionária de libertação do povo, para uma sociedade injustificável pessimismo em relação aos homens e à vida, É cair na
democrática e crítica. prática depositante de um falso saber que, anestesiando o espírito crítico,
24
serve à 'domesticação' dos homens e instrumentaliza a invasão cultural27.
FREIRE, P. A importância do ato de ler, p. 74
25
FREIRE, P. Idem, p. 32 e seguintes.
26 27
FREIRE, P. Idem, p. 27. FREIRE, P. Extensão ou Comunicação?, p. 55.

114 115
Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Ricardo Prestes Pazello

Dessa forma, a antidialogia torna-se óbice para a transformação. profunda, deparar-nos-emos com um momento de ruptura e mudança.
Mesmo que os conteúdos sejam os mais potencialmente revolucionários No entanto, a mudança não pode ser falseada, pois sabemos o quão
possíveis, ainda assim, se a prática educativa for impositiva, de conquista aparente se mostra a mudança tecnológica ou das formas de governo
pelo melhor discurso, manipuladora ou de práticas afins, o que era que se olvidam do povo. Há, assim, uma ausência
latentemente revolucionário, perder-se-á no poço profundo da negação de correspondência entre o sentido da mudança, característico não só da
da alteridade. democracia, mas da civilização tecnológica e uma certa rigidez mental do
homem que, massificando-se, deixa de assumir postura conscientemente
Assim sendo, o conteúdo programático a ser debatido com os 28
crítica diante da vida .
trabalhadores deve ser uma construção dialógica. Se o futuro cooperado
quiser saber o que significam as monstruosas palavras “capitalismo”, É por isso que a mudança da forma de trabalho, do assalariamento
“imperialismo” ou “neoliberalismo” como soeu ocorrer conosco ou, para o cooperativismo, da heterogestão, hierarquia, para a autogestão
então, quiser entender porque o preço do dólar ou do petróleo econômica, tem de receber o acompanhamento crítico da
interferem no valor de compra dos materiais recicláveis, ou ainda, o conscientização. Toda e qualquer tentativa de se propor uma alternativa
porquê de se dizer que o Brasil é um país tão rico, mas, ao mesmo tempo, ao regime selvagem que se nos apresenta tornar-se-á vã se renegar o
com tantos pobres, o educador não poderá se furtar a, não só discuti-los, diálogo e obliterar a conscientização inerente ao processo de
mas também inseri-las no conteúdo programático, o que exigirá um seu suprassunção crítica da consciência da população.
esforço na busca da compreensão de tais temas. E mais, se os cooperados Contudo, a elevação de consciência dos trabalhadores para uma nova
não se mostrarem atentos a tais temáticas, deverá o educador introduzi- forma de produção não se pode dar por decreto nem de acordo com as
las de alguma forma nas discussões, as quais deverão ser, agora sim, imposições dos intelectuais iluminados. Tem de ser apropriada pelos
permeadas pelo conteúdo, digamos, técnico do cooperativismo, desde a oprimidos e aplicada, conforme suas necessidades, que, aí sim, têm de
legislação, passando por organização administrativa, postura ser desvendadas, indo de situações-limite a inéditos possíveis.
econômica até o objeto do trabalho em si.
Foi o que o professor do conto que citamos no começo do artigo disse:
Axialmente, por sua vez, deverão os temas geradores conduzir o 29
“A idéia básica é a seguinte: é impossível ensinar; é possível aprender” .
trabalho educativo, procurando desvendar as situações-limite dos E este deve ser o esforço da sociedade que aí está. Encalacrada no
educandos-trabalhadores e anunciando inéditos possíveis. Dessa forma, capitalismo, sistema econômico de opressão e exclusão, não poderá ter
catadores de material reciclável terão o cooperativismo apresentado de perspectivas de futuro. É necessário aprender, e nada melhor que a
forma diferente se comparado a costureiras ou trabalhadores da práxis para tal, um novo caminho a se percorrer. Quiçá seja o
limpeza. Como exemplo, podemos citar o fato de alguém que tinha cooperativismo; se for, porém, ter-se-á de mudar toda a realidade social
dificuldade com contas matemáticas, mas que necessitava de tal em que vivemos e sua consecução só será possível com a conscientização
conhecimento, pois lidava com pesagem e recebimento de dinheiro (eis do povo.
o tema gerador). Aqui, já se vislumbra a situação-limite, pois o caso em
tela refere-se a alguém que não queria fazer o trabalho por ter medo de
ser enganado nas contas. O inédito possível não pode ser outro que não o REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
aprendizado do manejo dos números e seu conseqüente enfrentamento
no dia-a-dia das pesagens e dos pagamentos.
DUSSEL, Enrique. Oito ensaios sobre cultura latino-americana e
libertação. Tradução de Sandra Trabucco Valenzuela. São Paulo:
4 CONCLUSÃO: O NECESSÁRIO DIÁLOGO ENTRE EDUCAÇÃO E Paulinas, 1997.
COOPERATIVISMO
Se entendermos a proposta alternativa do cooperativismo, não como
28
fim em si mesmo, mas como propulsor de uma mudança social mais FREIRE, P. Educação como prática da liberdade, p. 98.
29
GOMES, R. Sabrina de trotoar e de tacape, p. 35.

116 117
Cooperativismo Freireano: Uma atividade de comunicação Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 7

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se


completam. 18 ed. São Paulo: Cortez, 1987.
Cultura organizacional e autogestão:
_______. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma um processo em construção
introdução ao pensamento de Paulo Freire. 3 ed. São Paulo: Moraes,
Fernanda Freire Figueira
1980.
Andréia Midori Hamasaki
_______. Educação como prática da liberdade. 22 ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, s. d.

_______. Extensão ou Comunicação? 8 ed. Tradução de Rosica Darcy de 1 INTRODUÇÃO


Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
O termo “cultura”, emprestado da Antropologia e incorporado no
âmbito das organizações como “cultura organizacional”, é foco de
_______. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática atenção e de discussões teóricas e metodológicas que inúmeras vezes se
educativa. 11 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. contradizem ao estabelecer divergências conceituais.
Neste artigo, para evitar polêmicas, assumiremos os conceitos de
cultura organizacional desenvolvidos por Schein um dos autores mais
_______. Pedagogia do Oprimido. 39 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, citados na literatura sobre a área e por Morgan. Esses conceitos
2004. possibilitarão a discussão de visão de cultura organizacional como um
GOMES, Roberto. Sabrina de trotoar e de tacape. Curitiba: Criar processo dinâmico, que se dá a partir das interações sociais e que atua
Edições, 1981. dialeticamente na construção da identidade dos indivíduos que fazem
parte de uma organização.
Neste trabalho, será abordado o tema “identidade”, segundo
LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? Tradução de Lívio
Kleiman (1998), para quem a concepção de identidade não é uma
Xavier. São Paulo: Expressão Popular, 1999.
condição permanente, mas transitória e dinâmica, constituída a partir
das relações de poder que se configuram na interação com a realidade
PAIVA, Vanilda. Do “problema nacional” às classes sociais. IN: Revista subjetiva e social, sendo a interação um instrumento mediador dos
Educação e Sociedade. São Paulo: Cortez e Moraes, ano I, nº 3, maio de processos de identificações dos sujeitos na prática social.
1979, p. 5-14. É imprescindível levar em conta essa inter-relação quando se pensa
esse processo em uma organização de trabalho popular e solidária, que
tem como princípio a não-centralização de poder e cujo planejamento e
tomada de decisões derivam de uma ação democrática e participativa.
Devido a isso, os integrantes desse tipo de gestão coletiva confrontam
todas as suas percepções acerca do trabalho, sendo necessário criar
novas opções coerentes com os princípios e valores firmados por
modelos autogestionários (como, por exemplo, as cooperativas e as
associações). É nesse processo de transformação cultural que residem as
118 119
Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção Fernanda Freire Figueira e Andréia Midori Hamasaki

principais dificuldades no que se refere à sustentabilidade atores sociais, possibilitando sua emancipação com base no domínio de
organizacional do empreendimento. Nesse momento a identidade saberes fundamentais e necessários à organização e à gestão do
historicamente construída, permeada por concepções capitalistas, empreendimento.
influencia a forma de organização para o trabalho cooperativo.
Desse modo, o principal objetivo deste artigo é verificar as
contradições existentes entre os valores declarados e a prática efetiva, a 2 CULTURA ORGANIZACIONAL E IDENTIDADE
fim de facilitar e contribuir com o processo de redefinição da cultura A cultura é a criação e o compartilhamento de valores, idéias,
organizacional em uma cooperativa popular e autogestionária. comportamentos, princípios, regras e compromissos por uma união de
O programa Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares pessoas. É um modo específico de encarar e agir no mundo, que se
(ITCP), da Coordenadoria de Extensão da Pró-Reitoria de Extensão e consolida ao longo das gerações e que constitui o homem um ser
Cultura da Universidade Federal do Paraná (CoexProec-UFPR), tem singular e social. As grandes instituições de nossa sociedade, tais como a
como pressuposto o compromisso de interação com a comunidade. família, a escola, o trabalho e a igreja são exemplos da necessidade
Desta forma, desenvolve um trabalho extensionista articulado ao ensino gregária do homem e da constituição e consolidação de algumas
e incorporado pela pesquisa, que permite a troca de experiências entre culturas.
comunidade e universidade. Dessa maneira a instituição atualiza seus A organização de um número de pessoas na forma de grupo, segundo
conhecimentos por meio do saber popular e das práticas sociais. Enriquez (1994), só se dá quando existe um objetivo em comum, um
Composta por uma equipe de estudantes, professores e servidores projeto compartilhado por todos os seus componentes. A partir da união
técnico-administrativos, através de um trabalho interdisciplinar realiza dessas pessoas, realizada pela identificação e formação de um laço
a formação e o acompanhamento de cooperativas populares e promove emocional, começa-se a observar características peculiares a toda e
espaços de discussões, conjuntamente às comunidades, com a qualquer formação grupal. Surge, então, um sentimento de fascinação,
finalidade de repensar a prática e suas diversas possibilidades de de força e invencibilidade, além de uma idealização alimentada pela
atuação. Para ilustrar o trabalho da equipe ITCP, serão discutidas ilusão e pela crença, na qual não reconhecem claramente a distância
algumas experiências vividas por uma cooperativa popular de produção entre irreal e real, verdadeiro e falso, possível e impossível. Essa
situada na periferia de Curitiba (PR) e incubada desde o ano 2000. A formação grupal tem que possuir um conjunto de valores
atividade desta Cooperativa consiste no beneficiamento e na suficientemente interiorizados, no qual só se pode agir quando se tem
transformação de embalagens de madeira anteriormente descartadas e uma maneira de representar a si próprio, o que se almeja ser, o que se
incineradas, advindas de uma empresa multinacional em novos quer fazer e em qual sociedade ou organização deseja-se intervir, além de
produtos, gerando trabalho e renda e permitindo a preservação do meio sentir-se coletivamente a necessidade de transformar um sonho em
ambiente. realidade.
Este estudo foi realizado através de discussões e reflexões em grupo e A partir de então, a organização passa a se estruturar e funcionar
baseou-se no método pesquisa-ação, conforme Thiollent (1997), em que sobre determinados alicerces que determinam e direcionam a cultura
a pesquisa ocorre por meio da interação entre pesquisadores e atores organizacional e da qual só participam efetivamente aqueles que se
sociais da organização. Portanto, partiu-se de um diagnóstico identificarem com tais objetivos e normas. Assim:
participativo e continuado, no qual foram identificadas necessidades [...] um modelo de pressupostos básicos que determinado grupo inventou,
que possibilitaram o planejamento e a execução das ações, elaborando- descobriu ou desenvolveu no processo de aprendizagem para lidar com os
se, assim, avaliações constantes e dinâmicas. Da mesma forma, este problemas de adaptação externa e interna. Tendo funcionado bem o
suficiente para serem considerados válidos, esses pressupostos são
artigo foi baseado na metodologia desenvolvida por Freire (1996) no seu
ensinados aos demais membros como sendo a forma correta de se
livro “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática perceber, pensar e sentir em relação a estes problemas. (SHEIN apud
educativa”. Nesse livro o autor compreende o conhecimento como algo CAVEDON 2004, p. 445).
que não pode ser meramente transferido, mas sim gerado pelos próprios
Esses pressupostos básicos a que o autor faz menção podem ser
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Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção Fernanda Freire Figueira e Andréia Midori Hamasaki

percebidos no dia-a-dia, segundo Morgan apud Cavedon (2004), pela cada vez mais avançadas ao mesmo tempo em que o trabalhador foi
observação das interações sociais entre os indivíduos, pela linguagem socialmente excluído. Mais uma vez, ocorreu a desvalorização do
utilizada, pelos temas e imagens presentes nas conversas. A definição de trabalhador e o desenvolvimento do sentimento de inutilidade, do
Schein permite compreender que a construção da cultura preconceito, do olhar desigual da sociedade e da fome.
organizacional ocorre por meio do enfrentamento dos conflitos.
O que se percebe ainda hoje é o mercado de trabalho muito restrito,
Portanto, sendo os conflitos freqüentes, as organizações encontram-se
as relações de trabalho pautadas pelo autoritarismo, a valorização do
em constante movimento. Nessa perspectiva, Morgan apud Cavedon
trabalhador pelo que produz e pela quantidade, tempo e pouco recurso
(2004), define a cultura como algo vivo, cujo contexto organizacional
que utiliza para essa produção. Embora tenham ocorrido
pode ser criado e recriado na interação social a partir de fatores
transformações, o principal objetivo, o capital, continua o mesmo.
históricos. Desse modo, qualquer organização está vinculada ao
contexto cultural em que se desenvolveram e que determina o seu Em todo o seu desenvolvimento, o trabalho ocupou um papel na vida
caráter. A exploração dos aspectos culturais da organização permite do sujeito, um território central, em que ele molda sua subjetividade e
apontar as suas características históricas. passa a reconstruir tanto a identidade individual quanto a coletiva.
A cultura organizacional, que em sua prática efetiva é sempre Kleiman (1998, p. 281), pressupõe:
atrelada a uma construção histórica acerca do trabalho, neste artigo é [...] que essas identidades são construídas na produção conjunta de
entendida principalmente em relação ao modo de produção capitalista: significados sociais e que há espaço, na interação, para a criação de novas
significações que podem levar à reprodução ou à transformação dos
é retrato fiel dos modelos de relação do trabalho nas quais se
processos de identificação do outro e de reafirmação ou rejeição da
marginalizou a subjetivação do indivíduo, criando trabalhadores identidade dos participantes, dentro dos limites que o caráter normativo
homogêneos sob as relações de poder e dominação. Nessa situação, a das instituições permite. Pressupomos, portanto, que a construção da
cultura organizacional sempre imposta e sem espaço para uma identidade está determinada pelas relações de poder entre os grupo
sociais, mas divergimos de um conceito de identidade baseado apenas na
redefinição constante das regras e normas de conduta por todos os
ordem social preestabelecida, tal qual dada pelas relações de poder entre
atores sociais que fazem parte da instituição culmina em adoecimento, grupos sociais.
em que o indivíduo não encontra espaço como sujeito ativo e
participante, de acordo com Magnólia (2003). O processo tecnológico Assim, há limites para a atuação dos sujeitos em uma instituição,
substituiu o tempo dos homens pelo tempo das máquinas, valorizando- reafirmando a imposição de internalização de traços culturais já criados
os não como sujeitos singulares, mas de acordo com sua produtividade, pela organização e transformando também sua identidade. Esse modelo
impondo-lhes formas de ser, pensar e sentir que, por um procedimento de construção de identidade é baseado no sistema capitalista, que por
de assimilação, internalizaram e tomaram como verdades que acabaram meio das relações de poder e das manipulações que visam a que seus
por permear a sua identidade. membros “apropriem-se” da cultura organizacional imposta,
transformem sua identidade e passem a agir, pensar e sentir de maneira
Cada contexto histórico tem uma configuração própria. O Brasil homogênea e voltados a um único objetivo: o lucro. Nesse contexto,
incorporou tardiamente, após a II Guerra Mundial, os padrões de gestão Kitzinger apud Kleiman (1998, p. 308), afirma que as identidades “não
desenvolvidos na I Revolução Industrial. O Estado brasileiro manteve o são propriedades dos indivíduos, mas sim construções sociais,
seu papel de promotor do desenvolvimento econômico (mas não social), suprimidas ou promovidas de acordo com os interesses políticos da
sem distribuição de renda, com concentração agrária, intenso fluxo ordem social dominante”.
migratório dos trabalhadores do campo. Além disso, houve um processo
de urbanização desorganizado, o surgimento de uma periferia Embora existam imposições da classe dominante, as identidades não
marginalizada, a existência de políticas sociais principalmente voltadas têm um caráter estático, sendo passíveis, em um processo social, de
à saúde, cidadania restrita e regulada, ao mesmo tempo em que a classe sofrer transformações.
privilegiada usufruía um capitalismo sem riscos, segundo Lopes (2000).
Nesse contexto, houve expansão industrial com o uso de tecnologias

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Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção Fernanda Freire Figueira e Andréia Midori Hamasaki

3 AUTOGESTÃO E COOPERATIVISMO outras instituições e organizações dificultam e problematizam a


estrutura interna do grupo cooperativo, assim como a prática de suas
A história do mundo do trabalho e o atual contexto social, econômico
regras e dos ideais que defende. Isso também acaba por gerar a
e político em que vivemos remete-nos à reflexão sobre o significado do
reprodução dos moldes tradicionais e conseqüentes conflitos entre seus
termo “trabalho” e em que condições ele se apresenta. Tanto para a
membros.
procura de um melhor ideal de trabalho quanto para uma alternativa
frente às precárias propostas de atuação para o trabalhador, a A cooperativa, como forma de organização baseada na valorização do
autogestão mostra-se não apenas como uma nova maneira de ser humano e de suas capacidades pregadora da igualdade, da
administração, mas como uma mudança social, econômica, política e democracia, da inexistência hierárquica entre seus membros, focada em
técnica, como nos aponta Albuquerque (2003). Segundo o autor, em um trabalho mais saudável, dentro dos limites individuais de cada um,
termos sociais, as ações e os resultados devem ser pensados e realizados com a participação de todos, inclusive nas decisões e planejamentos
por todos os membros. No âmbito econômico, o capital deve ser mostra-se como um instrumento muito eficaz para a criação de uma
concebido em segundo plano, em que o trabalho se constitui como tema consciência crítica nos trabalhadores dos dias de hoje. Esses
central. Politicamente falando, é necessário que se criem instrumentos trabalhadores se submetem a condições laborais extremamente
capazes de garantir que as decisões sejam um construto coletivo para precárias na tentativa de acompanhar o ritmo consumista pregado e
realmente funcionar democraticamente. Há que se ter também o devido exigido pelas propagandas, pelas próprias organizações de trabalho e
respeito aos diferentes “atores e papéis sociais de cada um dentro da pela sociedade como um todo.
organização” (Albuquerque, 2003, p. 23), tudo pautado por valores,
No entanto, as cooperativas constituem um projeto de grandes
princípios e práticas específicas e favoráveis ao exercício da autogestão,
dificuldades em relação à concretização de seus objetivos em busca de
que o autor sugere como uma nova forma de organização e de divisão do
uma mudança maior e dentro dos próprios limites. Quando se expandem
trabalho.
em termos financeiros e humanos, acabam reproduzindo o sistema
Para tanto, a literatura nos mostra que é necessário levar em conta capitalista que, por uma característica histórico-cultural, ainda se
indicadores que definam e caracterizem a autogestão, de acordo com encontra muito presente no cotidiano das organizações cooperativas.
princípios como a apropriação dos bens de produção pelos próprios Devido a isso, há uma cultura organizacional em constante construção,
trabalhadores, sendo seus resultados divididos eqüitativamente por singular a cada grupo, e que se apresenta em uma dialética entre o
meio da participação plena de todos os membros. Porém, só poderá ser discurso e a práxis.
caracterizado como um empreendimento autogestionário aquele que
cumprir todos esses princípios em conjunto e não cada um
isoladamente. (Faria, 2005).O cooperativismo, como um dos principais 4 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NA PRÁTICA
exemplos de exercício da autogestão, apresenta-se como uma forma de
Na perspectiva de uma visão global da constituição de uma
organização do trabalho contrária aos moldes capitalistas, em que o
cooperativa de produção e dos seus principais passos rumo a uma
trabalho humano e não mais o lucro é o aspecto principal a ser
organização autogestionária, é fundamental compreender seu processo
considerado. Nessa proposta transformadora e alternativa, é necessária
histórico - antes e depois da fundação do empreendimento - para
uma nova estrutura e um funcionamento diferenciado, tanto das
entender-se o caminho e principalmente os obstáculos à transformação
relações de trabalho quanto das maneiras de realizar uma gestão capaz
identitária e cultural.
de possibilitar espaços de livre expressão.
Antes mesmo da fundação da cooperativa, seus atores sociais
A forma de organização cooperativa traduz uma forma diferente de
estavam em um processo que se identifica com o de muitos
lidar com a sociedade na qual se encontra inserida. Sociedade essa,
trabalhadores de outras metrópoles brasileiras: o de exclusão social que
calcada por uma mentalidade consumista, individualista, competitiva e
atinge os mais pobres. Excluídos, passam a morar em áreas cada vez mais
exploratória. Portanto, presencia-se um constante conflito entre o ideal
distantes das áreas centrais em busca de moradia, obtida pela ocupação
de sociedade almejada e o que se vive. As relações com o mercado e com

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Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção Fernanda Freire Figueira e Andréia Midori Hamasaki

de terras urbanas, em contrariedade com o aspecto jurídico da realizou contato com algumas multinacionais do setor automobilístico
propriedade. Desse modo, a participação em mobilizações e na luta pela para o fornecimento de resíduos de madeira destinados à queima. O
moradia constituía-se em uma característica do grupo que já se resultado dessa busca foi um acordo com uma empresa multinacional,
encontrava estabelecido em áreas de invasão nas periferias de Curitiba. que passou a fornecer os resíduos. Após esse período, começou a busca
Com a criação, no ano de 1999, da Incubadora Tecnológica de de um barracão para sediar a cooperativa. Contudo, foram encontrados
Cooperativas Populares da Universidade Federal do Paraná (ITCP- inúmeros obstáculos para efetuar a locação, uma vez que as exigências
UFPR), o grupo teve a oportunidade de realizar um curso formativo em para esse fim são inúmeras e distantes da realidade dos cooperados. Mas,
cooperativismo e autogestão, culminando com a fundação da com a colaboração de um cliente interessado em adquirir resíduos de
cooperativa em dezembro de 2000. madeira reciclada, foi possível a locação de um barracão na Cidade
Industrial de Curitiba.
Além de seu histórico comum de luta pela moradia, essas pessoas
migraram para Curitiba na esperança de condições melhores de Para dar início à produção propriamente dita, a cooperativa passou a
trabalho e de vida. Porém, por não possuírem escolaridade e qualificação enfrentar novos desafios, como a conquista de clientes que confiassem
profissional, foram marginalizadas não só do mercado de trabalho assim no seu trabalho e o financiamento de capital de giro para a compra de
como da vida social. máquinas maiores, necessárias ao aumento do empreendimento.
Porém, nos meios oficiais de financiamento, novamente as exigências
A criação de uma cooperativa não foi impulsionada somente pela
passaram longe da realidade dos cooperados, sendo realizados
necessidade econômica. Gaiger (2004), vê o surgimento de
empréstimos particulares para a compra de equipamentos
empreendimentos solidários como motivados por uma conjunção de
recondicionados.
circunstâncias que não devem relacionar-se unicamente a pressões
econômicas. Entre essas circunstâncias, a vivência de práticas Um ano após início da atividade produtiva, os cooperados haviam
comunitárias e de lutas e mobilizações sociais são passíveis de confiado na administração de alguns membros que dominavam o ofício.
engendrar um estilo de comportamento muito propício à busca de Porém, essa equipe diretiva, além de não compartilhar integralmente
organizações que extrapolem uma visão capitalista. dos valores solidários da proposta cooperativista, desfalcou
financeiramente o empreendimento, motivando um movimento dos
A cooperativa tem como objeto de trabalho a produção de
cooperados que resultou em sua expulsão. Nesse período, contraíram-se
embalagens de madeira desde o início de suas atividades. Porém, apenas
dívidas e houve uma desmobilização do grupo. Alguns membros
uma parte dos cooperados contava com experiência anterior em relação
afastaram-se e envolveram-se com a campanha eleitoral municipal de
ao objeto-fim da cooperativa. O grupo foi constituído, na sua maioria,
2000, tanto em virtude do ganho diário como em função de promessas
por mulheres, donas-de-casa que, em um esforço contínuo, aprenderam
eleitorais de alguns candidatos. Permaneceram sete cooperados que não
a trabalhar nesse ramo.
dominavam o processo de trabalho e de gestão do empreendimento, mas
A primeira dificuldade encontrada pelo grupo estava relacionada a que resistiram e continuaram desenvolvendo o trabalho, alternando
aspectos financeiros. Para iniciar as atividades, era necessária a atividades entre a cooperativa e os “bicos” para obter alguma renda. Dos
aquisição de alguns equipamentos, assim como recursos para capital de demais, alguns efetuaram seu desligamento e outros decidiram pedir o
giro. Quanto à falta de equipamentos, a solução foi um mutirão na busca afastamento provisório.
de capital por meio de algumas promoções, como venda de almoços,
Esse momento foi decisivo para o destino da cooperativa. O grupo
rifas e bingos para buscar fundos, além de empréstimos pessoais.
optou pela continuidade, pois compreendeu que aquele
Em um primeiro momento, os cooperados começaram a desenvolver empreendimento não representava apenas mais um trabalho e sim um
suas atividades em um barracão improvisado na casa de um dos conquista profissional própria, consolidando a consciência em relação à
cooperados, visando a saldar as dívidas contraídas com a compra dos importância dos valores cooperativistas na perspectiva do resgate da
primeiros equipamentos recondicionados. autonomia.
Em um segundo momento, a ITCP, juntamente com os cooperados, A identidade, então, ganhou dimensões representativas. Esse grupo
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Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção Fernanda Freire Figueira e Andréia Midori Hamasaki

de cooperados pode ser considerado como o que Castel apud Wanderley em junho de 2003. Nesse momento, a palavra “novos” ganhou um
(2002, p. 21-22), denominou “desafiliados”, referindo-se àqueles sentindo real, ou seja, a divisão entre novos e velhos. Como seria a forma
sujeitos cuja trajetória sofreu uma série de rupturas com instâncias que de entrada das pessoas que não participaram dos esforços e conquistas
lhes conferiam certo equilíbrio. Essa expressão refere-se a populações que os fundadores haviam realizado? Diferentes questões, mesmo que
com carência de recursos materiais, mas também àquelas que sofreram não-aparentes, entraram em cena, exigindo um longo processo de
perda dos vínculos sociais e que, mesmo ainda mantendo alguns reflexões. Somente por meio de intenso diálogo foi possível elucidar o
vínculos, sentem a ausência de estruturas que têm um sentido. Assim, a que, na verdade, era a representação afetiva sobre o que havia sido
cooperativa passou a representar, para esse grupo, exatamente uma construído com muito trabalho e resignação para ser dividido com
estrutura geradora de sentido. pessoas até então estranhas àquele grupo. Alguns reflexos dessas
questões ainda surgem nos dias atuais.
Quando se percebeu a certeza demonstrada pelo grupo em continuar
com as atividades da cooperativa, a ITCP começou a discutir, com os Com o aumento do número de cooperados e a continuidade do
cooperados, estratégias capazes de viabilizar o trabalho. O primeiro processo produtivo, o novo grupo, constituído com certo equilíbrio
desafio era diminuir as despesas de locação com o barracão, que entre homens e mulheres, manteve as mesmas condições em termos de
certamente era um dos principais fatores que inviabilizavam o escolaridade e qualificação profissional em relação ao beneficiamento
empreendimento. Os altos custos com a carga tributária também foram de madeira. Outro aspecto bastante visível no grupo foi o fato de a
um fator agravante. Após conversas com o governo do estado do Paraná, maioria dos participantes novos e antigos, ao integrar a cooperativa,
renegociou-se a dívida. Com a mudança de governo estadual, as encontrar-se há muito tempo excluída do mercado formal de trabalho,
mercadorias produzidas por pequenas empresas tiveram isenção de além de haver pessoas com idade avançada, já aposentadas, e outras
impostos, o que, em termos tributários, incluem-se as cooperativas. donas de casa que nunca haviam trabalhado fora. Dessa forma,
configura-se como um grupo totalmente heterogêneo, tanto em relação
Após intensa mobilização, a coordenação da ITCP, por meio de uma
às experiências laborais quanto às histórias e perspectivas de vida.
parceria com o TECPAR (Instituto de Tecnologia do Estado do Paraná),
conseguiu o empréstimo de um barracão desativado. A partir desse Nas discussões cotidianas de planejamento e organização da
momento, foi possível transferir as atividades para um local sem aluguel. cooperativa, questões de gênero, valorização diferenciada das etapas
A mudança de barracão, porém, tornou necessária uma nova licença que compreendem o processo de trabalho e a inexistência de
ambiental. Devido à burocracia pública, isso deixou o empreendimento conhecimentos específicos necessários ao planejamento e à gestão do
sem sua matéria-prima por alguns meses. Como o barracão era, como é, empreendimento caracterizam a diversidade de experiências. Por outro
longe do local em que o grupo morava, não havia dinheiro para o vale- lado, geraram uma riqueza de possibilidades que, quando dialogadas,
transporte e muito menos para a alimentação no local de trabalho. Para puderam resultar em soluções criativas para as questões relacionadas à
a solução de mais esse problema, foram criadas alternativas para dar organização e à gestão do empreendimento.
continuidade ao empreendimento, como, por exemplo, a realização de
Assim, na perspectiva de não repetir situações de desconfiança e
um rodízio para não deixar o local de trabalho abandonado e assim
construir um real processo democrático de gestão do empreendimento,
equilibrar os custos de transporte e alimentação.
a participação efetiva de todos no processo de gestão deveria
Como era necessário organizar a produção, chamar novos representar uma conquista individual em benefício do grupo. Porém,
cooperados e pensar em estratégias de comercialização para ampliar o isso não aconteceu sem resgatar a história de vida e principalmente a
número de clientes, em março de 2003 a equipe da ITCP iniciou um experiência do trabalho de cada indivíduo, ou seja, não ocorreu sem
intensivo trabalho junto aos cooperados em função das necessidades levar em conta sua identidade. Kleiman (1998), considera que a
surgidas de um diagnóstico. O primeiro passo foi a realização de um construção da identidade dá-se pela produção conjunta de significados
curso básico de cooperativismo para a entrada de novos cooperados. sociais que, na interação, têm o espaço para criar novas significações
que podem levar à reprodução ou à transformação dos processos de
Realizado o curso e sanados os problemas com o fornecimento de
identificação do outro e de reafirmação ou rejeição da identidade dos
matéria-prima, passou-se à fase de formalização dos novos cooperados,
128 129
Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção Fernanda Freire Figueira e Andréia Midori Hamasaki

participantes. É nesse ponto que se fixam as principais dificuldades de encontra inúmeras barreiras para sua real concretização, visto que está
um empreendimento autogestionário. O principal aspecto que se inserida em uma relação direta com o sistema vigente, contrário à sua
observa é a contradição existente entre os valores declarados e a prática proposta. Esse fato implica a construção identitário-cultural que
efetiva, a qual é constantemente encontrada no processo organizacional caracteriza o principal impasse na conquista dos princípios,
da cooperativa. proporcionando sentido à autogestão.
Ainda a respeito da possibilidade de impor-se contra a exclusão social A totalidade do indivíduo, sua história, sua cultura e suas
a que estava submetida e calcada a identidade e experimentar a experiências constituem uma forma única de pensar, agir e ser no
inclusão social, Maheirie (1997), afirma que, na dialética de exclusão- mundo. Essas características, em um contexto grupal, definirão sua
inclusão, os sujeitos são atores e produtores de significados que própria dinâmica. É nesse sentido que a cultura organizacional, quando
constroem a sua história. Nesse processo, há tanto transformações pensada em um contexto solidário, de valorização do trabalhador e não
como reproduções que se constituem em um movimento espiral de do capital, fundamenta sua construção no resgate e apreensão da
quedas e avanços e que expressam as contradições. É desse processo que singularidade de cada sujeito, atribuindo-lhe um papel fundamental
se apontam possibilidades futuras de superação. nesse processo.
Isso fica muito claro quando se analisa a constituição do regimento A constante dialética entre o ideal de trabalho que os indivíduos
interno da cooperativa. No início da discussão sobre esse assunto e objetivam alcançar e as experiências e saberes que acumularam desde
também no questionamento sobre sua importância, a fala de um dos sua origem proporcionam um repensar e, conseqüentemente, uma re-
membros do grupo foi: “o regimento vai ser nosso patrãozinho”. Essa significação sobre os sentidos do trabalho, ou seja, do papel que exerce
afirmação revela uma necessidade de algo maior, a figura de um poder na vida do sujeito, apontando perspectivas de superação.
que mantenha o controle da organização. Após algumas discussões, o
regimento foi construído pelo grupo com discussões marcadas por
insatisfações, resultando em punições, como, por exemplo, desconto de REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
dinheiro em caso de atrasos e faltas. É interessante notar que toda a
construção do regimento interno foi pautada nos moldes capitalistas e
que era muito comum a afirmação: “quando eu trabalhava na firma era ALBUQUERQUE, P. P. Autogestão. In: CATTANI, A. D. (Org.). A outra
assim”. Porém, ao mesmo tempo em que se reproduz esse tipo de economia. Porto Alegre: Veraz Editores, 2003, p. 20-25.
relação de trabalho, também proporciona alguns avanços na direção da
autogestão. O grupo, a partir da sua necessidade de organização de
BRINK, A. A identidade. In: SANTOS, M. F. S. (Org.). Identidade e
produção, estabeleceu reuniões de planejamento semanais,
aposentadoria. São Paulo: EPU, 1982.
compreendeu a valorização de todas as etapas do processo produtivo
com transparência, participação e tomada de decisões de maneira
democrática , caracterizando um início de transformação e construção CAVEDON, N. R. Cultura organizacional: gerenciável, homogênea e
de identidades tanto pessoais como sociais, possibilitando a (re) quantificável? In: BITENCOURT, C. (Org.) Gestão contemporânea de
construção de uma outra cultura organizacional pautada nos valores e pessoas. 1 ed. Porto Alegre: Bookman, 2003, v. 1, p. 438-453.
princípios da autogestão.

ENRIQUEZ, E. O vínculo grupal. In: (A. LÉVY, A. NICOLAÏ, E.


5 CONCLUSÃO ENRIQUEZ & J. DUBOST, org.). Psicossociologia: análise social e
A proposta autogestionária de organização do trabalho, ao mesmo intervenção. Petrópolis: Vozes, 1994. p.56-69.
tempo em que se coloca como uma ideologia capaz de proporcionar
transformação e mudança social aos atores sociais em questão, também

130 131
Cultura organizacional e autogestão: Um processo em construção

FARIA, J. R. V. Autogestão. In: Gediel, J. A. P. (Org.). Estudos de Direito


Cooperativo e cidadania. Curitiba: UFPR, 2006. p. 113-124.

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132 133
Parte III - Questões Econômico-Administrativas
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 8

Economia Solidária:
a consolidação jurídica de uma política pública
Sandro Lunard Nicoladeli

1 A ATUALIDADE DO DEBATE
O secretário nacional de Economia Solidária, Paul Singer, conceitua
Economia Solidária como uma nova forma de expressão socioeconômica
nas relações de produção:
[...] outro modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade
coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade individual. A
aplicação desses princípios une todos os que produzem numa única classe
de trabalhadores que são possuidores de capital por igual em cada
cooperativa ou sociedade econômica. O resultado natural é a
solidariedade e a igualdade [...].(SINGER, 2002, p. 10).

Indicando outros elementos caracterizadores da Economia


Solidária, acrescenta: “O que distingue esse 'novo cooperativismo' é a
volta aos princípios [do cooperativismo], o grande valor atribuído à
democracia e à igualdade dentro dos empreendimentos, a insistência na
autogestão e o repúdio ao assalariamento [...]”. (SINGER, 2002, p.
111).
O objeto desta reflexão será o reconhecimento estatal da Economia
Solidária no âmbito das políticas públicas na esfera federal e seus
desafios na esfera institucional, adequados à luz de uma nova
institucionalidade e suas implicações jurídicas.

2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA NO GOVERNO LULA


Com a eleição presidencial de 2002, constituiu-se a então equipe de
transição dos governos. Nesse sentido, o movimento nacional da
Economia Solidária, representado pelo Fórum Brasileiro de Economia
Solidária, articulou-se e propôs à equipe de transição do governo Lula
uma política pública que expressava o consenso das organizações que
137
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

compunham o referido Fórum representado no Grupo de Trabalho estudo só corrobora o que se percebe no mundo real: milhões de pessoas
1
Brasileiro da Economia Solidária (2002, p. 27) . Esse consenso foi excluídas do mercado formal e sem qualquer perspectiva de retorno ao
elaborado em São Paulo, em dezembro de 2002, durante a I Plenária regime de assalariamento.
Nacional da Economia Solidária. Consumadas as negociações políticas,
No entanto, a proposta inicial do governo, cujo objetivo era fixar os
confirmou-se a criação da Secretaria Nacional da Economia Solidária
parâmetros dos debates no FNT, ficou muito aquém das expectativas do
(SENAES), no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego, sob a
movimento da Economia Solidária, na medida em que ficaram limitadas
direção do Professor Paul Singer.
as discussões sobre a aplicabilidade da legislação trabalhista nos ramos
A partir do primeiro governo do presidente Lula (2003-2006), com a do cooperativismo de trabalho e na responsabilidade do tomador de
instalação, à época, do Conselho de Desenvolvimento Econômico e serviços (solidariedade/subsidiariedade), no caso de terceirização de
Social, foram constituídas diversas comissões temáticas, visando ao mão-de-obra, ao passo que a pauta dos movimentos da Economia
amplo debate dos problemas nacionais com a sociedade civil, Solidária transcendia, em muito, a proposição governamental. À guisa
promovendo, assim, a democratização, a concertação e a consulta de exemplo, destaca-se a possibilidade do avanço do conceito clássico do
participativa das forças sociais. A articulação com a sociedade civil Direito do Trabalho para o direito ao trabalho, evolução conceitual
visava à necessária legitimação do governo federal na promoção da necessária para induzir a incorporação das outras formas de trabalho
agenda de reformas e à construção de uma nova regulação das relações não assalariado, entre elas, o trabalho associado e da Economia
entre o Estado e a sociedade. Solidária.
Na distribuição dessas atribuições, coube ao Ministério do Trabalho e Pode-se concluir que mais da metade dos trabalhadores, hoje,
Emprego (MTE), a organização do Fórum Nacional do Trabalho (FNT), sobrevive organizada sob “outras formas” de atividades produtivas ou de
um espaço de discussão e concertação social cujo objetivo é a reforma da trabalho que não o assalariado. Essas “outras formas” são atividades
legislação trabalhista e sindical, debatida no conjunto dos atores sociais econômicas dos trabalhadores componentes da Economia Solidária,
(governo, empresariado e trabalhadores). popular e informal, que participam de experiências comunitárias dos
empreendimentos cooperativos e/ou de associações autogestionárias.
Na organização desse Fórum, o tema “Economia Solidária”, relativo
a “outras formas de trabalho”, analisou a problemática das “micro” e A inexistência de um arcabouço jurídico que confira legalidade às
pequenas empresas, dos empreendimentos de autogestão e da práticas de trabalho que não as assalariadas, outorgando-lhe a validação
informalidade, tarefa desenvolvida pelo grupo de trabalho n. 8 (GT-8). necessária aos empreendimentos, acaba por situá-los na vala comum do
rigorismo dos direitos Tributário, Comercial e Falimentar, sem relevar as
Esse debate teve repercussão no âmbito do MTE, pois possibilitou a
reais condições econômicas desses empreendimentos, que se
ampliação do reconhecimento público sobre a existência de segmentos
encontram constantemente “em guerra” para manter as ocupações e
sociais de trabalhadores até então tratados como casos de polícia
postos de trabalho gerados, sendo mesmo tratados como quaisquer
(ilegalidade ou alegalidade?) ou de ações compensatórias (assistência
outras empresas.
social), de maneira residual, marginal e emergencial.
A adequação de um marco regulatório deve contemplar a diversidade
Nesse sentido, basta rememorarmos os dados avaliados pela Folha de
de empreendimentos inserida no que se denomina Economia Solidária.
São Paulo (Fernandes, 2004, p. B-4), a partir do estudo elaborado pelo
A legislação exigida para a regulação do trabalho associado deverá
Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo
definir e organizar as organizações produtivas diferenciadas, criadas ou
por base o censo de 2000 e encomendado pela Organização
a partir da falência da empresa “capitalista” ou a partir da organização
Internacional do Trabalho (OIT): infere-se que cerca de 58% da
popular em “associações ou cooperativas de produção e trabalho”.
população economicamente ativa encontra-se na informalidade! O
A dura realidade desses empreendimentos é que são ora tratados
1
A plataforma definida para a Economia Solidária foi “Financiamento; marco legal; redes de como “caso de polícia”, quando se tratam de práticas de economia
produção, comercialização, consumo; democratização do conhecimento e da tecnologia;
organização social da Economia Solidária”.
popular (ambulantes e artesãos), ora vistos como “caso de assistência

138 139
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

social”, quando se referem a práticas associativas comunitárias mais em sua fase constitutiva dos empreendimentos, bem como em sua
rudimentares da economia familiar (clube de mães, cozinhas relação com o Estado na esfera tributária e de acesso às fontes de
comunitárias etc.). financiamento que viabilizem sua formação e consolidação.
O grande desafio dessa política pública é a inclusão da grande massa O desafio do reconhecimento estatal das “organizações produtivas
dos trabalhadores. Assim, as possibilidades que a reforma trabalhista solidárias” e a crônica incompatibilidade entre o modelo legal vigente e
oferecia, esgotaram-se naquilo que é seu eixo principal: as “relações de as peculiaridades dos empreendimentos da economia popular e solidária
trabalho”. As formas jurídicas específicas da Economia Solidária foram analisadas por estudioso de Direito Cooperativo:
(associações, cooperativas e empresas autogestionárias) somente Dessa forma, o Direito tem uma visão individualista e, quando um grupo se
poderão significar ganhos de visibilidade e legalidade quando organiza sob formas associativas, esse grupo se expressa, juridicamente,
consideradas partes dos direitos humanas universais ou com a criação como uma unidade pessoa jurídica embora por trás dessa unidade se
esconda uma pluralidade e uma diversidade, ditadura da forma jurídica
de tutelas a um direito ao trabalho associado protegido. que não responde às necessidades do grupo, das atividades e da
complexidade de inserção desse grupo no mercado. (GEDIEL 2003, p.
117).
3 O DESAFIO DO MARCO REGULATÓRIO DA ECONOMIA
Nesse sentido, a proposição de um “marco jurídico” para a Economia
SOLIDÁRIA
Solidária, considerando a especificidade e a contemporaneidade do
movimento, com suas diversas ramificações, deve superar os modelos
3.1 Do Direito do Trabalho ao Direito ao Trabalho jurídicos tradicionais propostos.

Uma importante e recente institucionalização de ator político da Na verdade, esse marco jurídico deve articular todas as necessidades e
Economia Solidária, foi o Fórum Brasileiro da Economia Solidária. dificuldades dos empreendimentos concentrados nas áreas tributária,
Constituído do resultado da união de diversas entidades de apoio e sanitária, trabalhista, previdenciária, falimentar e comercial,
fomento, gestores públicos e empreendimentos inseridos no mundo da perpassando a relação com os poderes instituídos, bem como a
Economia Solidária, que anteriormente constituíam o Grupo de facilitação da constituição do cooperativismo de crédito e o acesso aos
Trabalho Brasileiro de Economia Solidária. fundos públicos específicos, que promovam o desenvolvimento
econômico dessas populações, por meio do fomento aos
Dentre as plataformas de políticas públicas de Economia Solidária, o empreendimentos.
Fórum elenca e propõe como prioridade, em sua pauta, o adequado
“marco legal” da Economia Solidária com as seguintes demandas: Evidentemente, essa proposta exigirá muita formulação teórico-
prática, inicialmente, dos operadores do Direito e, posteriormente, das
[...] um sistema próprio, reconhecendo legalmente suas diferenças perante
o setor com fins de lucro, evitando que os critérios e parâmetros exigidos assessorias dos empreendimentos, combinado com o diálogo constante
por tal caracterização sejam excludentes e restritivos com relação à entre os movimentos, entes governamentais e os parlamentos (idem, p.
diversidade de práticas da Economia Solidária que, em seu conjunto, 117).
articulam-se e asseguram o trabalho e a renda como um direito humano;
elaboração da nova legislação específica para o cooperativismo e Algumas iniciativas em administrações populares são dignas de
empresas autogestionadas, considerando elementos como o número de registro: programa Oportunidade Solidária em São Paulo e os programas
participantes, não-obrigatoriedade da unicidade da representação, acesso de geração de renda com foco em Economia Solidária nas prefeituras de
ao crédito e diferenciação tributária. (Grupo de Trabalho Brasileiro de
Economia Solidária, 2002, p. 27). Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Belo Horizonte (Minas Gerais), Recife
(Pernambuco), Londrina e Maringá (Paraná). É importante salientar que
Verifica-se que a pauta “marco legal” do movimento da Economia essas políticas foram institucionalizadas por meio de manifestações
Solidária, deveria focar-se no reconhecimento jurídico dos estatais de natureza legislativa, buscando constituir-se em um “espaço
empreendimentos solidários (cooperativas, associações e empresas regulatório” da Economia Solidária.
autogestionárias), onde se propunha a adoção de critérios mais flexíveis

140 141
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

3.2 O Direito ao Trabalho como Direito Humano Fundamental trabalho humano (ibidem).
O reconhecimento do direito ao trabalho associado/cooperado Por fim, Proscurcin (2003, p. 244) defende a tese da modernização
como direito humano fundamental é premissa fundante da construção normativa a partir de um novo paradigma regulatório trabalhista, tendo
jurídica assecuratória dos direitos sociais fundamentais. (idem, p. 122; por princípio os direitos sociais fundamentais. No caso brasileiro, esses
Proscurcin, 2003, p. 222-250; Singer, 2003a, p. A-10). Nesse sentido, direitos derivariam da combinação do artigo 1o, inc. III, (dignidade da
Gediel (2003) defende a inserção dos “novos direitos” oriundos dos pessoa humana e trabalho) e dos artigos 6º a 11 (direitos sociais) da
pleitos do movimento da Economia Solidária no rol de políticas públicas Constituição Federal, destacando-se os direitos ao trabalho, à educação
para, posteriormente, edificar-se um marco jurídico que em premissas e à previdência social. As demais interagiriam de maneira suplementar.
que levem em consideração as necessidades sociais dos trabalhadores O autor supra citado identifica no plano internacional a experiência da
que labutam nos empreendimentos, como valores fundamentais para o Comunidade Européia, que em 1989 sancionou a Carta Comunitária dos
reconhecimento da cidadania efetiva. Direitos Sociais Fundamentais dos Trabalhadores, assegurando, dentre
O secretário nacional de Economia Solidária, Paul Singer, advoga a os principais direitos, “o direito dos trabalhadores à livre circulação na
tese da universalização dos direitos sociais, na condição de direitos comunidade, garantia de emprego e remuneração, igualdade de
humanos fundamentais, para todos os trabalhadores que desenvolvam tratamento, formação profissional”. Os autores, Proscurcin e Singer,
qualquer atividade econômica, independentemente de ela ser ou não resgatam o papel da OIT como fonte jurídica para a construção dos
albergada sob o regime do assalariamento. Para tanto, Singer (2003b, p. direitos sociais fundamentais.
244-245) invoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos em seus Em suma, o devido marco regulatório adequado aos interesses da
artigos 23 “direito ao trabalho, salário e remuneração condignas”, 24 Economia Solidária passa, em primeiro lugar, pela harmonização dos
“tempo de descanso” e 25 “direito à moradia, alimentação vestuário, interesses dos empreendimentos, que, atualmente, voltam suas
previdência social dentre outros” e até a adoção dos princípios preocupações para manutenção de suas atividades produtivas,
estabelecidos pela Organização Internacional do Trabalho - OIT, asseguradoras de sua própria subsistência e da continuidade de suas
previstos na Declaração sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no unidades produtivas.
Trabalho.
Para tanto, os atores sociais vinculados à Economia Solidária buscam
Dessa forma, qualquer trabalhador autônomo, individual ou regras que assegurem a viabilidade econômica, vinculadas a um
associado deveria ter assegurado um mínimo social pelo desempenho regramento diferenciado na sua relação com os poderes públicos e de
de qualquer atividade produtiva, noutras palavras: acesso a políticas de fomento. Saliente-se que a questão dos direitos
[...]Os direitos sociais são na verdade direitos humanos no sentido de que sociais não figura como principal prioridade dos movimentos. Noutro
constituem fundamentos da civilização democrática que a humanidade sentido, caminham os autores citados, apontando que qualquer
vem construindo nos últimos séculos. Constituem alicerces essenciais construção jurídica que edificadora do arcabouço jurídico no devido
desta civilização que as pessoas não proprietárias de capital e que,
portanto dependem de seu trabalho para viver e sustentar seus dependentes “marco legal” da Economia Solidária deve assentar-se no plano da
não tenham que trabalhar até a exaustão. (SINGER, 2004, p. 6). universalização e das garantais dos direitos sociais fundamentais,
baseados nos princípios na Declaração Universal dos Direitos Humanos,
Singer avança nessa tese, afirmando inexistir comando delimitador
da Constituição Federal ou, quiçá, a adoção da Declaração da OIT sobre
da aplicabilidade do artigo 7o da Constituição Federal somente aos
os princípios e os direitos fundamentais no Trabalho (OIT, 1998).
trabalhadores assalariados. Mesmo reconhecendo que alguns incisos
somente são aplicáveis aos assalariados, o autor parte da premissa de
que qualquer trabalho deve ser albergado pelos direitos sociais dos 3.3 Elementos Jurídicos já Existentes
trabalhadores previstos na Constituição Federal, invocando a
irrenunciabilidade de tais direitos, conferindo um caráter extensivo de Resta, portanto, o desafio de ajustar-se um marco regulatório capaz
um instituto do Direito do Trabalho para qualquer atividade que envolva de assegurar o direito de os trabalhadores organizarem-se

142 143
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

associativamente, sob a égide dos princípios da Economia Solidária2, em assegurar-lhes por que não? acesso a crédito subsidiado e/ou uma
que os direitos sociais mínimos sejam assegurados, mas que, em intervenção estatal promotora da indução do desenvolvimento
contrapartida, esses mesmos empreendimentos deveriam receber do econômico estimulador da manutenção dos postos de trabalho dos
poder público tratamento diferenciado. empreendimentos eventualmente falidos que possuam viabilidade
econômica.
Algumas experiências podem fornecer “pistas” para a construção
dessa regulação. Uma delas é a vivenciada na autogestão da mão-de-obra Negar essa possibilidade organizativa de novas formas de trabalho
do trabalho portuário, em que os próprios trabalhadores, por meio de não-assalariado poderá agravar, ainda mais, os níveis de desemprego e a
seus sindicatos e do Órgão Gestor de Mão-de-Obra (OGMO), embutem falta de ocupação dos trabalhadores, que assim aumentam os índices de
no cálculo os custos da mão-de-obra que deverão ser arcados pelos criminalidade e da desagregação social. Sem falar ainda, do total
armadores dos portos, assegurando, obviamente o pagamento dos desabrigo desses trabalhadores, pois sequer possuem vínculos com o
direitos sociais. sistema de seguridade social oficial.
Outro exemplo é o das políticas - já praticadas no fomento da
atividade agrícola - que promovem o estímulo das atividades produtivas,
4 A IMPLEMENTAÇÃO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA NAS POLÍTICAS
assegurando acesso ao crédito de maneira subsidiada e até promovendo
PÚBLICAS
a entrega das propriedades por meio da reforma agrária, fixando e
estimulando, dessa forma, o trabalho do homem no campo. A recente
lei de recuperação de empresas e falências Lei 11.101/2005, configura- 4.1 A Economia Solidária como alternativa de inclusão social
se em importante ferramenta jurídica viabilizadora da autogestão por
De maneira geral, o papel do Estado no recente processo de
trabalhadores de empresas em estágio falimentar ou de recuperação
desemprego mais agudo, tem recebido diversos tratamentos por parte
judicial.
dos governos. Freitas Júnior (1999), indica que,
O aproveitamento dessas experiências e oportunidades de políticas [...] examinando o que vem se procurando fazer com vistas ao
públicas e práticas laborais, podem auxiliar na construção para abrandamento do problema, é possível afirmar que as políticas públicas e
eventuais alternativas de construção do marco jurídico. As experiências as figuras jurídicas concebidas nessa direção já não mais priorizam a
das políticas aplicadas no campo podem e devem ser transferidas, para expansão do emprego típico mas, diversamente, têm procurado
desenvolver um conjunto de medidas destinadas a estimular a ocupação
o espaço urbano, como políticas indutoras de trabalho e renda, remunerada, ainda que precária, transitória e com modestos níveis de
garantindo a ocupação aos trabalhadores e, organizando-os de forma retribuição [...].(FREITAS JÚNIOR 1999, p. 101).
associativa e autogestionária. Nesse sentido, pode-se e deve-se
Por outro lado, algumas experiências de políticas públicas de
2
trabalho empenharam-se em fomentar alternativas de geração de
“1º princípio: A solidariedade, a cooperação e a democracia, como formas de vida e de convivência
humana, norma que deve cumprir toda a pessoa e organização laboral empresarial que faça parte do trabalho, ocupação e renda fundamentadas no ideário da Economia
Setor da Economia Solidária. 2º princípio: A supremacia do trabalho sobre o capital, com o qual se Solidária. Assim estimulando as formas associativas de produção e
reencontra a origem da economia e o desenvolvimento humano, e se resgata o trabalho e sua dignidade
da escravidão exercida pelo capital. 3º princípio: O trabalho associado como base fundamental da
consumo - organizadas em cooperativas populares, empreendimentos
organização da empresa, a produção e a economia, com a qual se substitui o trabalho isolado autogestionários e outras expressões da economia popular -, como
característico do capitalismo e causa principal das disparidades sociais, da injusta distribuição da respostas à crise do emprego formal, foram estimuladas em diversas
riqueza, da pobreza e da exclusão social. 4º princípio: A propriedade social dos meios de produção, por
parte dos trabalhadores, que como produtores diretos, são os proprietários e gestores da empresa como experiências de políticas públicas.
comunidade de trabalho e beneficiários plenos dos resultados econômicos, com o qual se elimina a
exploração do homem pelo homem, do homem pelo Estado, é a causa fundamental da luta de classes. 5º No plano federal, historicamente, os sistemas e políticas públicas de
princípio: A autogestão, como forma superior de participação dos trabalhadores na gestão da empresa, emprego foram formatados para o diálogo com o mercado de trabalho
a economia e a condução da sociedade e do Estado, com a qual se elimina a marginalidade e se constitui
e consolida a Democracia Real. 6º princípio: A supremacia do serviço, o bem social e a igualdade, sobre formal, tanto pela concessão do seguro-desemprego, quanto pela
o benefício e o acúmulo individual, o lucro e a mais-valia. 7º princípio: a integração, entre as unidades e (re)qualificação profissional (ambos via recursos do Fundo de Amparo
organizações de Economia Solidária a nível horizontal e vertical, para a conformação do Setor
Macroeconômico da Economia Solidária” (PAEZ, 2001, p. 18).
ao Trabalhador - FAT), ou pela tradicional ação de intermediação de

144 145
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

mão-de-obra, buscando firmarem-se como respostas aos efeitos do redistributivos, melhoria dos mercados e do bem-estar individual com a
prática democrática, o desenvolvimento comunitário e a conseqüente
desemprego crônico. dinamização da sociedade [...]. (NASCIMENTO, 2000, p. 86).
A Secretaria de Desenvolvimento do Trabalho e Solidariedade da A adoção dos modelos jurídicos (associações e cooperativas)
Prefeitura Municipal de São Paulo (Schwengber, 2003, p. 139), coadunados aos princípios da Economia Solidária, juridicamente
analisando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística organizados por cooperativas, associações e outras formas organizativas
IBGE-, verificou que, no período de 1940 a 1980, de cada dez empregos reconhecidas ou não pela institucionalidade, (como a economi
gerados no Brasil, oito eram assalariados e, desses, sete eram popular), constituem novos paradigmas de políticas públicas, seja do
devidamente contratualizados (isto é, com carteiras de trabalho ponto de vista da atenção do aparato estatal a essas formas
assinadas). Essa tendência inverteu-se a partir da década de 1990, organizativas, seja na introdução de novas demandas sociais para além
quando de cada dez empregos criados, apenas três eram assalariados e da mera política assistencialista e/ou passiva das políticas públicas de
apenas um contratualizado; os outros dois eram informais. Os demais emprego tradicionais. A incorporação dos pleitos da Economia Solidária
postos criados não eram regulados por nenhum diploma legal vigente na exige da administração pública enorme porosidade para captar as
legislação brasileira, denominados dessa forma, pelos autores, como demandas socioeconômicas dos empreendimentos autogestionários e
ocupações “alegais”, pois não dispunham de regulação específica e populares.
própria, expressando claramente, um “vazio jurídico” regulatório dessa
massa de trabalhadores. A difusão da cultura cooperativista e da Economia Solidária é
fundamental para a sensibilização das comunidades e dos
Logo, a implementação do cooperativismo e o associativismo como desempregados que foram formados profissionalmente sob a lógica do
resposta à crise do trabalho assalariado caracteriza-se como um novo trabalho assalariado, ou seja, exige-se o rompimento do paradigma da
eixo de desenvolvimento econômico e social. Ao estimulá-los, sociedade salarial, rumando para experiências cooperativas,
conferimos factibilidade aos comandos normativos constitucionais, comunitárias, associativas. Enfim, para experiências coletivas de
destacando-se: o princípio solidarístico insculpido como valor fundante organização do trabalho. As políticas de fomento à Economia Solidária
da República Brasileira (artigo 3o, inc. I), bem como os artigos 5, inc. exigem o treinamento dos trabalhadores e dos empreendimentos em
XVIII, e 174, § 2o, que estimulam o associativismo e o cooperativismo capacitação empresarial, acesso ao crédito, tecnologia e mercados,
como formas de organização da atividade econômica. Só essas formas sendo imprescindível às administrações públicas atentarem para a
são capazes de resgatar a primazia do trabalho humano como valor construção das cadeias, redes e arranjos produtivos estimuladores dos
fundante da ordem econômica previsto nos artigos 1o e 170 da empreendimentos da Economia Solidária, de modo a viabilizar
Constituição Federal de 1988. economicamente os empreendimentos e organizações envolvidas nesses
Nessa esteira, configuram-se como políticas públicas implementadas processos econômicos.
nas esferas governamentais: federal (MTE-SENAES), estaduais (no Rio
Grande do Sul, no Paraná e no Mato Grosso do Sul) e municipais,
políticas incorporadoras de “lógicas sociocoletivas e eficiência 4.2 Institucionalização da Economia Solidária: a Senaes
empresarial, portanto operam em relações de mercado e em formas de No plano jurídico, o resultado decorrente dos processos de acúmulo
interação e solidariedade social [...]” (bocayuva, 2001, p. 92). Mesmo a dos empreendimentos, das organizações de apoio e fomento e das
visão do cooperativismo oficial, representada pela Organização das políticas públicas teve seu ápice na edição da Lei nº 10.683/03, que
Cooperativas Brasileiras (OCB), admite o cooperativismo inserido na tratou da estruturação e organização do governo federal, quando em seu
lógica de mercado, defendendo a importância das cooperativas para o artigo 27, inc. XXI, alínea “h”, “o cooperativismo e associativismo
desenvolvimento econômico das sociedades, argumentando que: urbanos”, aparecem como área de competência do Ministério do
[...] o comportamento racional, que é entendido pelo desejo das pessoas Trabalho e Emprego. Foi ainda criado o Conselho Nacional de Economia
melhorarem suas condições de vida, deve se juntar ao comportamento Solidária, que, de acordo com o artigo 29, inc. XXI, § 2º. O movimento
solidário para que simultaneamente sejam alcançados objetivos da Economia Solidária, fez-se representar neste conselho de forma

146 147
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

tripartite, composto pela bancada de empreendimentos da Ecosol, nacional de Economia Solidária [...] as cooperativas do Sistema de
bancada de entidades e organizações de apoio e bancada Economia Solidária (ECOSOL) e de outros movimentos paralelos, que já
governamental, tendo sido nomeado o referido conselho em 2006. recusavam a liderança da OCB” (idem, p. 61).
No entanto, o instrumento jurídico que consolida o nascimento da A visão do então Ministro do Trabalho, Jacques Wagner, relatando a
SENAES, como estrutura vinculada ao Ministério do Trabalho e importância das ações programáticas inseridas no plano plurianual do
Emprego é o Decreto n. 4 764/03, cujo artigo 16, estabelece como governo federal, é a seguinte:
missão fortalecer experiências de autogestão como resposta ao Queremos ainda ser protagonistas de um programa de
desemprego, promovendo as potencialidades emancipatórias da Economia Solidária que estimule formas coletivas criativa
Economia Solidária e tornando-se referência de políticas públicas de geração de renda e de atuação cooperativa [...]. É
implementadas com participação social, para outros órgãos do governo fundamental iniciarmos o processo de reescrita dos
e programas correlacionados. paradigmas que têm regido o funcionamento da economia
Os órgãos vinculados à SENAES são o Departamento de Estudos e do trabalho em nosso país. (BRASIL. MinistÉRio do
Divulgação e o Departamento de Fomento à Economia Solidária. O Trabalho e Emprego. Secretaria Nacional de Economia
Departamento de Estudos e Divulgação, com competências Solidária, 2003, p. 6).
estabelecidas pelo artigo 17 do Decreto nº 4.764/03, têm suas ações Do ponto de vista governamental, a importância da temática da
correlacionadas ao desenvolvimento e divulgação de pesquisas na área Economia Solidária não fica adstrita somente à sua inclusão na
da Economia Solidária; a articulação com o Departamento de estrutura ministerial. Passa também a figurar como elemento fundante
Qualificação, da Secretaria de Políticas Públicas de Emprego; a das novas diretrizes previstas nas políticas públicas de qualificação e
promoção de ações formativas no campo da Economia Solidária e a formação social e profissional, nas diretrizes constantes da Resolução nº
promoção de seminários, encontros e outras atividades que tenham por 333 do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador
objetivo a divulgação e promoção da Economia Solidária, são outras (CODEFAT), organismo gestor dos recursos oriundos do FAT, que tem
competências estabelecidas no diploma legal. parte de seus recursos destinada ao financiamento das ações de
As ações relacionadas ao desenvolvimento e fortalecimento da qualificação dos trabalhadores, tratadas em seu artigo 2o do Plano
Economia Solidária estão sob responsabilidade do Departamento de Nacional de Qualificação (PNQ)3.
Fomento à Economia Solidária, discriminadas no artigo 18 do Decreto O PNQ, sucessor do Plano Nacional de Formação Profissional
nº 4.764/03. A esse departamento compete a articulação e o (PLANFOR), estabelece um salto qualitativo na política de qualificação
desenvolvimento de parcerias com organizações não-governamentais, profissional, com a novidade da inserção da qualificação social, ou seja,
entidades de classe, universidades e outras instituições; a expansão dos busca-se a formação integral do trabalhador (inc. I), com vistas à
empreendimentos solidários; a articulação de políticas de geração ou à manutenção de ocupação dos trabalhadores (inc. II), seja
financiamento e comercialização; o desenvolvimento de linhas de na perspectiva clássica, o emprego, seja na modalidade de
crédito mais adequadas aos empreendimentos solidários e ações empreendimentos individuais e/ou coletivos (inc. V).
correlatas.
O reconhecimento da Economia Solidária como força emergente é 3
Eis essas diretrizes: “Artigo 2º O PNQ deve contribuir para promover a integração das políticas e para a
pontificado pela doutrinadora clássica do cooperativismo, Diva Pinho articulação das ações de qualificação social e profissional do Brasil e, em conjunto com outras políticas
e ações vinculadas o emprego, trabalho, renda e educação, deve promover gradativamente a
(2004), como movimento social, denominando-o “vertente universalização do direito dos trabalhadores à qualificação, com vistas a contribuir para: I a formação
cooperativista solidária”, representada pela Secretaria Nacional de integral (intelectual, técnica, cultural e cidadã) dos/as trabalhadores/as brasileiros/as; II aumento da
probabilidade de obtenção de emprego e trabalho decente e da participação em processos de geração de
Economia Solidária, que, na visão da autora, acabara cindindo a oportunidades de trabalho e de renda, reduzindo os níveis de desemprego e subemprego; [...] V
unicidade de representação do sistema OCB, por ela denominada aumento da probabilidade de permanência no mercado de trabalho, reduzindo os riscos de demissão e
as taxas de rotatividade ou aumento da probabilidade de sobrevivência do empreendimento individual e
“vertente pioneira”, a autora expressa seu reconhecimento ao aduzir coletivo” (BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Conselho Deliberativo do Fundo de
que “por outro lado, passaram a buscar orientação na Secretaria Amparo ao Trabalhador, 2003; sem grifos no original).

148 149
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

O § 1º do mencionado artigo destaca a importância das ações representam majoritariamente as ocupações dos trabalhadores
articuladas pela Economia Solidária como fonte de execução dos brasileiros. O grande limitador para a implementação dessa política é a
objetivos traçados no caput do artigo: própria estrutura, historicamente, arquitetada no Ministério do
§ 1º Para fins da consecução dos objetivos indicados neste artigo, as ações Trabalho que tem sua lógica instrumental direcionada ao emprego
do PNQ serão orientadas no sentido da crescente integração com outros formal.
programas e projetos financiados pelo FAT, particularmente a
intermediação de mão-de-obra, o microcrédito, a Economia Solidária e o Finalmente, a SENAES, configura-se como ente fomentador e
seguro desemprego, e outras políticas públicas que envolvam geração de articulador de políticas públicas para o desenvolvimento dos
trabalho, emprego e renda (BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E empreendimentos, instituições de pesquisa e organizações não-
EMPREGO. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador,
governamentais inseridas no campo da Economia Solidária.
2003; sem grifos no original).
A experiência acumulada no primeiro mandato do Presidente Lula
O artigo 8º da Resolução n. 333, no que concerne ao detalhamento
nno desenvolvimento de políticas públicas voltadas à Economia
da população prioritária dos investimentos dos recursos do FAT, elenca
Solidária, constituiu-se como fonte inspiradora da adoção dessas
os empreendimentos da Economia Solidária como destinatários dessa
políticas pelo Ministério da Economia Popular da Venezuela.
política pública, que estejam compreendidos nos segmentos
cooperativados, associados e autogestionários: Nesse sentido, a consolidação jurídica da Economia Solidária como
Artigo 8º A população prioritária do PNQ, para fins de aplicação de política pública, requer a constante e insistente articulação da
recursos do FAT, compreende os seguintes segmentos: sociedade civil e dos atores governamentais para a construção de um
I trabalhadores/as sem ocupação cadastrado/as no Sistema SINE e/ou marco regulatório para além das iniciativas governamentais, mas,
beneficiários/as das demais políticas públicas de trabalho e renda, constituindo-se em efetiva iniciativa estatal de caráter permanente e
particularmente: ações de 1º emprego, seguro desemprego, intermediação devidamente implementado nas esferas federal, estadual e municipal.
de mão de obra; microcrédito e de ações de economia solidária;
[...] A consolidação dessa nova visão de desenvolvimento econômico por
III pessoas que trabalham em condição autônoma, por conta própria,
meio de políticas públicas, includentes socialmente, mas, sobretudo,
cooperativada, associativa ou autogestionada. (ibidem; sem grifos no geradoras de oportunidades de trabalho e renda são as efetivas indutoras
original). da desejada emancipação sócio-econômica da classe trabalhadora.
Logo, os trabalhadores e os empreendimentos da Economia
Solidária estão inseridos no rol prioritário da destinação das ações e
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
recursos do FAT para sua manutenção, ampliação e qualificação, seja dos
empreendimentos, seja dos trabalhadores nele inseridos.
BOCAYUVA, P. C. C. Pensando uma política pública de geração de
trabalho e renda. In: FONSECA, I. & VEIGA, S. M. (orgs.).
5 CONCLUSÃO
Cooperativismo: uma revolução pacífica em ação. Rio de Janeiro: DP&A.
A SENAES cumpre papel determinante na elaboração e indução de 2001.
políticas públicas promotoras de desenvolvimento local com inclusão
social. Seu desafio é tornar as políticas públicas de Economia Solidária
em ações de transversalidade com as demais políticas implementadas no BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Secretaria Nacional de
Governo Federal. Economia Solidária. 2003. Economia Solidária em desenvolvimento.
Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego. Disponível em:
Como visto nesse estudo, a criação da SENAES, abre espaço de
<http://www.mte.gov.br/Empregador/EconomiaSolidaria/programa/
interlocução com a massa de trabalhadores desprotegida de qualquer
Conteudo/apresentacao.pdf>. Acesso em: 09.fev.2006.
legislação social, a então denominada, “outras formas de trabalho”

150 151
Economia Solidária: A consolidação jurídica de uma política pública Sandro Lunard Nicoladeli

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152 153
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 9

A Economia Política da Economia Solidária:


limites, desafios e possibilidades
Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

1 INTRODUÇÃO
O momento atual é caracterizado por níveis de desemprego,
subemprego e informalidade cada vez mais altos, em especial no Brasil,
embora, algumas poucas iniciativas tenham sido tomadas pelos
governos, sem alcançar um nível satisfatório¹. Depois da implantação do
Estado neoliberal, esperava-se que a informalidade pudesse dar conta
desse problema, hipótese essa que não tem se confirmado.
A continuidade desse problema por mais de uma década, desde os
anos 80, mostrou que não se podia e que ainda não se pode esperar do
Estado muita coisa, já que não observou-se mudança positiva nos níveis
de desemprego. É nesse contexto que ressurgem, após décadas de
“hibernação”, iniciativas, pautadas em princípios de solidariedade,
propriedade coletiva dos meios de produção e participação coletiva das
tomadas de decisão, que propõem uma forma diferente de trabalho.
Essas iniciativas são o que hoje se chama economia solidária.
É dentro do sistema capitalista - em que predominam
empreendimentos privados, cujo objetivo principal é o lucro - que
surgem esses empreendimentos. Para alguns, essas iniciativas podem
são o gérmen da formação de um novo modo de produção, não-
capitalista. Os objetivos e os princípios da economia solidária são
claramente diferentes dos objetivos capitalistas.
Resta saber, contudo, se tais empreendimentos conseguem
sustentar-se ao longo do tempo, convivendo com empresas tradicionais,
ao mesmo tempo fazendo parte do sistema e do processo de

¹ A taxa de desemprego no Brasil de 1989 a 2006 aumentou de 8,83 para 16,60%. Comparativamente a
outros países (Canadá, França, Itália, Japão, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido), essa taxa
continua alta e aumentou mais que nos países mencionados. (IPEADATA, 2006).

154 155
A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

concorrência capitalista sem desviar-se de seus objetivos e princípios sistema em que predominam as práticas de concorrência e de mercado.
iniciais. Um dado de realidade que se faz necessário reconhecer, é a existência dos
mercados, isto é, a predominância ou hegemonia da atividade econômica
Essa preocupação resulta da observação de cooperativas que, diante que ocorre em função e através destes mercados, em detrimento de outras
da necessidade de acumular capital e inovar tiveram ou que centralizar formas de produção e distribuição (ou apropriação) do excedente
sua administração ou transformar-se em empresas capitalistas. Além econômico. (TAUILIE, 2001, p. 03).
disso, há também um grande problema comum enfrentado por Ainda que neguem a separação entre proprietários dos meios de
empreendimentos de economia solidária: a falta de capital. produção e trabalhadores, e que preguem a gestão coletiva dos
O referencial teórico marxista utilizado ao longo do presente resultados e das decisões, as iniciativas de economia solidária
trabalho justifica-se por ter sido Marx o autor em economia que mais funcionam num sistema no qual predominam outros empreendimentos,
completamente teorizou sobre o capitalismo, o socialismo e as relações cujos princípios são totalmente opostos e funcionam em consonância
sociais de produção. Conceitos básicos, como a formação de uma taxa com o sistema capitalista.
média de lucro, os preços de produção, a mais-valia e a composição A concorrência constitui-se num fator muito importante no sistema
orgânica do capital, desenvolvidos ao longo do texto, são importantes capitalista. A lei da oferta e da demanda afirma que é a partir da relação
para que se tenha uma compreensão real de como funciona o entre as quantidades ofertadas e produzidas que as quantidades
capitalismo, e como é o comportamento esperado das empresas vendidas e os preços de mercado são determinados. (MARX, 1980).
capitalistas diante da concorrência.
É por meio da concorrência que os preços de mercado e os salários são
Uma vez que empreendimentos de economia solidária são determinados, assim como também o é o comportamento dos capitalistas.
caracterizados pela posse comum dos meios de produção, e que muitos Na verdade, o que define os valores e os salários são as condições médias
de trabalho, ou o trabalho social médio. São as condições médias que
teóricos da economia solidária se dizem marxistas, torna-se necessário determinam o valor da mercadoria. Os preços de mercado, por sua vez,
desenvolver esses conceitos. são determinados pela relação entre oferta e demanda, que os desvia em
relação aos preços de produção das mercadorias, dependendo da
Mostra-se com isso como se comportam empresas capitalistas diante concorrência. (idem).
da concorrência, assim como algumas das práticas mais adotadas. Em
seguida, mostram-se exemplos de cooperativas que se desviaram dos Quando o capitalista entra na circulação, relaciona-se com muitas
princípios cooperativos, tentando levantar os fatores motivadores desse outras atividades. Os capitais de diversos ramos de produção, se
desvio. vendessem seus produtos pelos seus valores (c+v+m)³, obteriam taxas
de lucro completamente diferentes. Isso acontece porque diferentes
Antes disso, desenvolve-se o conceito de economia solidária, capitais possuem composições orgânicas distintas. Devido às diferenças
diferenciando-o de outras práticas, como o terceiro setor e a economia de composições orgânicas, os capitais tendem a migrar dos ramos
social. menos rentáveis para os mais rentáveis (ibid.).
A parte final consiste em levantar algumas possíveis soluções que Porém, todos os produtos são necessários, e os diferentes ramos
podem garantir a sobrevivência dos empreendimentos de economia estão intimamente relacionados, seja para a venda de mercadorias, seja
solidária como, por exemplo, a proposta de formação de redes de para o fornecimento de matérias-primas, seja porque os consumidores
economia solidária. Concluir-se-á que as empresas solidárias devem necessitam de seus produtos. As constantes migrações provocam uma
adaptar-se ao sistema para cumprir seu papel social de gerar trabalho e flutuação de preços de mercado que promove a redistribuição da mais-
renda, mas sem perder suas características solidárias. valia dos diversos ramos, formando a taxa média de lucro e os preços de
² O referencial teórico deste artigo está fortemente baseado na concorrência perfeita, em que o
produtor não determina os preços. Há, contudo, outras estruturas de mercado, tais como monopólios,
2 A CONCORRÊNCIA² oligopólios e cartéis, em que há possibilidades de ser o produtor o tomador de preços, mas o artigo as
considera como exceções à regra.
Os empreendimentos de economia solidária funcionam em um ³ Como se verá mais adiante, “O valor de toda mercadoria M na produção capitalista se expressa na
fórmula: M=c+v+m.” (MARX, 1980, p. 30).

156 157
A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

produção (c+v+l, em que l é o lucro médio). necessariamente, mas provavelmente os preços de venda e as
6
“... As taxas diferentes de lucros, por força da concorrência, igualam- quantidades vendidas serão determinados pela concorrência .
se numa taxa geral de lucro, que é a média de todas elas.” (Marx, 1980, p. Uma primeira conseqüência da relação produção-circulação, a saber,
179). A taxa média de lucro é, portanto, a média das taxas dos setores é a transformação do valor em preço. Isso significa que, se o preço de
que se relacionam entre si. Na concorrência, portanto, os preços de venda é determinado pelo mercado, ou pela concorrência entre oferta e
mercado oscilam em torno dos preços de produção. demanda não necessariamente será igual ao valor. A diferença principal
Ao se produzir uma determinada mercadoria para vendê-la, tanto os entre preço de venda e valor é que o valor é determinado na produção,
capitalistas quanto os trabalhadores de empreendimentos de economia enquanto o preço de venda é determinado na circulação. Como dito
solidária devem necessariamente participar de duas esferas; a da anteriormente, o valor é determinado na produção segundo as
produção e a da circulação. Só há circulação de mercadoria quando há condições sociais médias.
mudança de proprietário. Por isso mesmo, não há circulação de Uma vez que a mercadoria entra em circulação, dependendo da
mercadorias na esfera da produção; somente na circulação. “... Mas o concorrência, os preços de venda serão desviados em relação ao preço de
processo imediato de produção não abrange a vida toda do capital. produção da mercadoria. O preço de venda poderá ser igual, menor ou
Completa-o o processo de circulação...” (Marx, 1980, p. 29 grifos no maior que o preço de produção.
original). A produção serve, nesse caso, para geração de valor, enquanto
Dependendo do preço de venda, a mais-valia pode ser realizada
a circulação serve para compra e venda de mercadorias, ou seja: na
completamente ou não. Se esse preço for igual ao valor, isso acontece. É
circulação realiza-se o valor gerado na produção.
quando o capitalista consegue repor todo o capital adiantado e ainda
Quando uma mercadoria é produzida para ser vendida, deverá entrar realizar sua mais-valia completamente. Uma segunda situação ocorre
na circulação, para que o capitalista consiga repor o capital adiantado e quando o preço de venda é maior que o valor. Nesse caso, o capitalista,
também realizar a mais-valia produzida na esfera da produção. (Marx, além de repor todo o capital adiantado, consegue realizar uma mais-
1980). A empresa solidária também entra na circulação para repor o valia ainda maior que aquela determinada na produção.
4
capital adiantado e para realizar as sobras , que serão ou reinvestidas ou
A terceira situação é aquela em que o preço de venda é menor que o
redistribuídas entre os trabalhadores associados, conforme decisão
valor. Neste caso, o capitalista não conseguirá realizar toda a sua mais-
coletiva.
valia. Três diferentes possibilidades podem derivar dessa conseqüência:
Durante a produção, o capitalista adianta o capital constante (que
a) A mais-valia realizada é igual a zero. Isso significaria que, vendendo
pagará os meios de produção) e o variável (parte do capital que paga as
por tal preço, o capitalista conseguirá repor todo o capital adiantado,
remunerações da força de trabalho). Além disso, a produção determina
porém não realizará mais-valia. Dito de outra forma, esse é o caso em que
também, dadas as condições médias, qual será a taxa de mais-valia. Esses
o preço venda é igual ao custo, não gerando nenhum excedente;
três fatores (capital constante, capital variável e mais-valia)
determinam o valor da mercadoria, ou seja, o valor pelo qual o b) O preço de venda é tão menor que o valor, que a mais-valia
5
capitalista gostaria que ela fosse vendida . (Idem). realizada teria valor negativo. É a situação em que o capitalista não
conseguiria repor o capital gasto pela mercadoria, ou seja, teria
Ao entrar na circulação, a mercadoria inevitavelmente terá seu preço
prejuízo. Em outras palavras, venderia a mercadoria a um preço menor
de venda determinado pela oferta e pela demanda. Sendo assim, não
que seu custo;
4
Como se verá adiante, as sobras são apenas mais uma denominação para a mais-valia gerada pelos c) A mais-valia não é totalmente realizada, mas ela tem um valor
empreendimentos solidários.
5
Deve-se lembrar aqui que a taxa de mais-valia não é determinada segundo os desejos de cada capitalista
maior que zero. A diferença entre o preço de venda e a parcela destinada
individual, uma vez que ela depende do valor da força de trabalho. Quando se diz da taxa de mais-valia que o a repor o capital (constante e variável) é o lucro que, como visto, pode
capitalista “deseja” realizar, deve estar implícito que ele sabe qual a taxa de lucro que deverá se realizada, segundo
as condições sociais médias (o capitalista sequer sabe o que é mais-valia). O mesmo deve ser observado em relação ser maior, menor ou igual à mais-valia. O lucro é, portanto, o valor
ao valor. O valor, como dito anteriormente, é determinado segundo as condições médias. Portanto, o valor que o
capitalista “deseja” realizar é aquele que as condições médias determinam. (MARX, 1980; 1983). 6
Considerando-se concorrência perfeita.

158 159
A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

excedente àquele que repõe o capital. Nesse ponto, entra uma segunda preços de venda, desde que haja mais de um produtor em determinado
conseqüência da relação produção-circulação: a mais-valia transforma- ramo. Se um produtor consegue obter custos abaixo da média de outros
se em lucro. produtores, vendendo as mercadorias pelo preço de mercado,
certamente obterá lucros acima da média.
Diante dessa análise, percebe-se que é a produção que determinará à
circulação o preço mínimo pelo qual a mercadoria deverá ser vendida. A Geralmente, o inovador pratica preços inferiores aos dos outros
7
menos que o capitalista deseje praticar dumping , o preço mínimo produtores, a fim de conquistar fatias adicionais de mercado. Esses
deverá ser igual à parcela de capital gasta para produzir a mercadoria. preços, embora abaixo da média, devem estar em um patamar tal que
Dito de outra forma, o preço de venda deverá ser, pelo menos, igual ao proporcione ainda assim ao produtor, lucros acima da média. Para obter
custo da mercadoria. lucros acima da média, porém, o produtor deve vender uma maior
quantidade de mercadorias.
Se a concorrência determina diretamente o preço de venda da
mercadoria, indiretamente definirá qual o lucro do capitalista ou as Com o passar do tempo, contudo, outros produtores também
sobras dos empreendimentos de economia solidária, assim como a reduzirão seus custos forçando, pela concorrência, os preços de
8
remuneração dos trabalhadores dos mesmos . mercado para baixo. Mais uma vez, os necessitar-se-á reduzir ainda mais
os custos para obter lucros acima da média.
Uma vez que não cabe ao produtor determinar nem preços de
mercado e nem quantidades vendidas, seu lucro somente poderá Cada produtor busca individualmente, portanto, reduzir seus custos
aumentar por meio da redução de custos unitários. Essa redução, por para obter lucros acima da média. O conjunto de produtores de
sua vez, implica elevação dos custos totais, necessária para elevação da determinado ramo de produção, em termos agregados, com o passar do
escala de produção e conseqüente redução dos custos unitários. tempo, reduzirá seus custos de tal forma que a redução de preço de
Reduzindo-se os custos unitários, mantendo-se os preços de venda venda praticada por cada um torne-se geral. Começa-se, assim, um novo
9
constantes , a diferença entre esse preço e custo aumenta, elevando-se ciclo de reduções individuais de custos com o objetivo de obter lucros
assim o excedente. acima da média, num ciclo que se repete constantemente, sem
interrupções.
Dessa forma, é quase somente por meio da redução de custos
unitários que o capitalista conseguirá obter o lucro desejado. É sobre os A concorrência força à acumulação aqueles capitais cuja produtividade e
magnitude são inferiores à produtividade e à magnitude normais, e, desse
custos que deve atuar obsessivamente, a fim de reduzi-los e aumentar o modo, um tempo de trabalho socialmente necessário é fixado como norma
excedente (lucro). dentro do setor. Simultaneamente, outros capitais buscam lucros extras
aumentando o capital investido de modo que ele fique acima da norma. A
Porém, como dito anteriormente, é a concorrência que determina os concorrência leva então a um novo valor de mercado e a uma a magnitude
mínima de capital a ele correspondente, decrescendo um quando o outro
7
aumenta, respectivamente. (FINE, 1983, P. 75).
Praticar preços abaixo do custo por determinado tempo, a fim de se eliminar a concorrência.
8
Os salários dos trabalhadores, como dito anteriormente, são determinados pelas condições médias de A busca obcecada pelo lucro resulta em busca obcecada por menores
produção, que são os preços médios dos meios de subsistência dos trabalhadores, que corresponde ao custos unitários. A concorrência entre capitalistas obcecados resulta
mínimo que garante a reprodução da força de trabalho. O valor da força de trabalho, portanto, pode
aumentar ou reduzir conforme flutuam os preços dos meios de subsistências dos trabalhadores. Dada a em preços de mercado mais baixos. Portanto, a única maneira para se
concorrência dentro de cada ramo, a diminuição do tempo necessário para a produção de cada um dos aumentar os lucros, é vender maior quantidade a um preço de venda
meios de subsistência, na totalidade, reduzirá o valor da força de trabalho. “... A totalidade dos meios de
subsistência compõe-se [...] de diferentes mercadorias, todos produtos de indústrias particulares, e o
menor. Isso é possível por meio do aumento de produtividade.
valor de cada uma dessas mercadorias constitui uma parte alíquota do valor da força de trabalho. Esse
valor diminui com o tempo de trabalho necessário à sua reprodução, cuja redução total é igual à soma
A concorrência, portanto, obriga os produtores a buscarem
de suas reduções em todos aqueles ramos de produção particulares.” (MARX, 1983, p. 251). constantemente custos mais baixos e maior produtividade, sempre
9
O capitalista que consegue reduzir custos acima da média venderá sua mercadoria por um preço reduzindo os preços de venda a fim de conquistar maiores fatias de
abaixo da média dos outros produtores, a fim de conquistar maior fatia de mercado. Mesmo assim, mercado. Essa redução de preços, por sua vez, encontra um limite, que é
obterá lucros acima da média. Quando se fala “mantendo os preços constantes”, é para simplificar o
raciocínio numa equação “l = p c”, em que “l” é o lucro, “p” é o preço e “c” é o custo. Nessa equação, o limite do próprio custo, fazendo com que se procure novamente
mantendo-se “p” constante, “l” aumenta quando “c” diminui.

160 161
A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

reduzi-lo. composição orgânica e elevar a produtividade, é necessário que exista à


sua disposição maquinário o suficiente para tanto. Ele depende também
Empresas capitalistas e de economia solidária comportam-se de
das transformações técnicas ocorridas nos setores produtores de meios
maneira semelhante diante da concorrência, porém com diferentes
de produção.
resultados. Vejamos, nas seções a seguir, como se comportam empresas
capitalistas e solidárias diante da concorrência, e quais os efeitos Quando cada capitalista, individualmente age para aumentar a sua
ocorridos. composição, em nível agregado, o conjunto de capitalistas do setor
também está agindo para isso, formando uma nova composição orgânica
média.
2.1 Empresas capitalistas diante da concorrência 10
Para o setor como um todo, quando os capitalistas investem em
Viu-se, anteriormente, que a concorrência gera um ciclo constante
produtividade, estão contribuindo para o aumento da mais-valia no
de redução de custos unitários e preços de venda por parte dos
setor, pois estão reduzindo o tempo de trabalho socialmente necessário
produtores. Vejamos, agora, como os empreendedores capitalistas,
para a produção de cada unidade de mercadoria. Conseqüentemente,
individualmente, fazem para reduzir seus custos e obter lucros acima da
contribuem para a elevação dos lucros.
média.
Quanto maior o preço cobrado por um capitalista em relação ao seu
“O valor de toda mercadoria M na produção capitalista se expressa na
preço de custo, maior o seu lucro. Na seção anterior discutiu-se a
fórmula: M=c+v+m.” (Marx, 1980, p. 30). “No fim do processo de
formação dos preços de produção P=c+v+l, em que l é o lucro médio
produção surge a mercadoria cujo valor é c+v+m, representando m a
dos setores. Capitais com composição orgânica superior à média
mais-valia...” (idem, 1983, p. 173). Na fórmula, “c” é a parcela destinada
conseguem obter maiores desvios em relação ao valor, na formação de
a repor o capital constante, “v” ao capital variável e “m” a mais-valia.
uma taxa média de lucro. (idem, 1980, p. 178). Esses capitais com maior
Capital constante é o valor dos meios de produção consumidos para a
composição orgânica, por sua vez, produzem menos mais-valia que os
fabricação da mercadoria; capital variável é a parcela destinada ao
capitais médios e, com isso, sua taxa de lucro seria menor que a média.
pagamento dos trabalhadores; e a mais-valia, o excedente.
Contudo, como há uma redistribuição da mais-valia total, esses capitais
“Dentro de um setor, os distintos capitais caracterizam-se por níveis recebem mais-valia dos outros setores, para que possam auferir o lucro
de produtividade mais ou menos desiguais.” (Fine, 1983, p. 75). Em médio.
termos agregados, a média desses níveis desiguais corresponde a um
É, portanto, sobre a composição orgânica que o capitalista atua, de
nível de produtividade médio. A fim de aumentar a mais-valia, o
modo a aumentar a produtividade e reduzir custos. A menos que a
capitalista deve investir de forma a obter uma produtividade se não
demanda pela mercadoria aumente mais que a produtividade, com
superior, ao menos igual ao nível médio.
capital mais produtivo, mesmo que com maior produção, a tendência é
O aumento da produtividade está intimamente relacionado ao que o capitalista demita seus trabalhadores, pois não mais deles
número de mercadorias produzidas por unidade de força de trabalho. necessita.
Isso significa que, com produtividade maior, reduz-se em cada
Cada capitalista, individualmente, procura obter maior capital
mercadoria a parcela destinada à reposição do capital variável.
possível e menor número de trabalhadores para obter maiores desvios do
Embora a parcela destinada tanto para o capital variável quanto para preço de venda de suas mercadorias em relação ao valor. A conseqüência
o capital constante seja reduzida, a proporção entre esses capitais é dessa ação dos capitalistas é o desemprego dos trabalhadores,
modificada, tendendo a aumentar proporcionalmente o capital contribuindo para a formação do exército industrial de reserva.
constante em relação ao variável, ou seja, tende a aumentar a
composição orgânica do capital. Geralmente, são mais produtivos os
capitais com maior composição orgânica.
Porém, para que um capitalista individual consiga aumentar a sua 10
A referência a “setor” aqui é o setor produtivo no qual o capitalista encontra-se inserido.

162 163
A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

2.2 Empresas solidárias diante da concorrência não com eles construídas, como acontece na economia solidária), para
A empresa capitalista pertence aos investidores, que desejam maior que os mesmos escolham entre uma opção “A” ou “B”, dando a falsa
retorno possível sobre o dinheiro investido para a aquisição dos meios de impressão de que naquela empresa ocorre um processo democrático.
produção. Para que esse retorno seja obtido o mais rapidamente Contudo, as unidades de economia solidária estão, assim como as
possível, “O poder de mando, na empresa capitalista, está concentrado empresas capitalistas, sujeitas à ação da concorrência, da mesma forma
totalmente (ao menos em termos ideais) nas mãos dos capitalistas ou que os outros empreendimentos. Devem comprar insumos, matéria-
dos gerentes por eles contratados.” (Singer, 2001). prima, equipamentos etc., e vender suas mercadorias, assim como as
Empreendimentos de economia solidária, por sua vez, pertencem empresas capitalistas. Dificilmente empreendimentos de economia
aos trabalhadores, e é a eles que cabem as decisões. Justamente por solidária comprarão e venderão mercadorias somente para outras
causa da propriedade coletiva dos meios de produção, não há, na empresas solidárias. O modo de produção dominante é o capitalista:
empresa solidária, pelo menos de forma predominante, trabalho O modo de produção capitalista nasce da reunião de quatro
características da vida econômica, até então separadas: a) um regime de
assalariado.
produção de mercadorias, de produtos que não visam senão ao mercado;
O lucro, principal força motriz do capitalismo, é chamado sobra em b) a separação entre os proprietários dos meios de produção e os
trabalhadores, desprovidos e objetivamente apartados daqueles meios; c)
empresas de economia solidária. As sobras são divididas entre os
a conversão da força-de-trabalho igualmente em mercadoria, sob forma de
trabalhadores ou reinvestidas no próprio empreendimento ou, ainda, trabalho assalariado; d) a extração da mais-valia, sobre o trabalho assim
em ambos, de acordo com a decisão tomada pelos associados, cedido ao detentor dos meios de produção, como meio para a ampliação
geralmente em assembléias gerais. incessante do valor investido na produção; a mais-valia é a finalidade
direta e o móvel determinante da produção, cabendo à circulação garantir
O que diferencia as sobras (dos empreendimentos de economia a realização do lucro e a reposição ampliada do capital. O capitalismo,
solidária) do lucro (dos empreendimentos capitalistas) é a apropriação portanto, está fundado numa relação social, entre indivíduos
desigualmente posicionados face aos meios de produção e às condições de
coletiva, quase sempre em forma de remuneração, ou a decisão coletiva
posta em valor de sua capacidade de trabalho. (GAIGER, 2003, p. 05).
quanto à destinação das mesmas para o reinvestimento no
empreendimento. Não parece, portanto, que se esteja perto da ruptura do modo de
produção capitalista, pois todas as características acima citadas ainda
Quando as sobras são divididas entre os trabalhadores, o critério são dominantes. As empresas de economia solidária, embora funcionem
primeiro de divisão não é o capital investido, mas sim a quantidade de de forma diferente, sobrevivem dentro do capitalismo e estão sujeitas às
trabalho, segundo critérios estabelecidos pelos trabalhadores (unidades mesmas condições que as demais. São unidades dentro do mundo
produzidas, horas de trabalho etc.), cabendo uma parte menor, se capitalista.
houver, à remuneração do capital.
Vimos como uma empresa capitalista age diante da concorrência, a
O controle do empreendimento pelos próprios trabalhadores, fim de eliminar seus efeitos. Vimos também que a empresa solidária,
chamado autogestão, é garantido pelo princípio um homem, um voto, pautada em princípios de solidariedade, democracia, propriedade
independentemente do capital empregado pelo sócio. Os próprios coletiva dos meios de produção e de autogestão, funciona de forma
trabalhadores decidem o que e como fazer, além de terem também igual totalmente diferente da empresa capitalista. A concorrência leva à
poder de decisão no que se refere à destinação das sobras. Cabem acumulação os capitais com produtividade inferior ao nível médio, e que
também, a esses sócios-trabalhadores, a organização do processo a acumulação força o aumento da composição orgânica, que aumenta o
produtivo e as estratégias econômicas de atuação no mercado. exército industrial de reserva, reduz os salários e reduz também os
Em uma empresa capitalista comum, todas as decisões cabem aos custos para o capitalista.
proprietários (ou ao conjunto de sócios) e poucas (ou nenhuma) opções Empreendimentos de economia solidária, por sua vez, nem sempre
são levadas para que os trabalhadores decidam. Mesmo quando isso é conseguem acumular. Geralmente, são formados por pequena
feito, normalmente as opções são levadas prontas aos trabalhadores (e quantidade de capital e já iniciam suas atividades com equipamentos

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A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

obsoletos. A autogestão é, dessa forma, comprometida pela falta de autogestão um empecilho para o desenvolvimento do empreendimento?
recursos.
Rosa Luxemburgo (2002) faz uma crítica às cooperativas de
São inegáveis os problemas de se trabalhar com os “restos do produção. Para ela, a cooperativa não pode praticar todos os métodos de
capitalismo”. As empresas de autogestão são formadas por pessoas que
não possuem grande patrimônio pessoal e, normalmente, têm reduzido
concorrência que o mercado exige e que tão bem fazem as empresas
grau de instrução. Mesmo quando estas empresas têm à disposição capitalistas. As cooperativas estariam fadadas, então, ou ao fracasso ou à
equipamentos para trabalhar, estes costumam ser antigos e, muitas vezes, transformação em uma empresa capitalista. “Por causa dessa
obsoletos. A falta de patrimônio faz com que a empresa nasça com uma contradição morre a cooperativa de produção, uma vez que se torna uma
estrutura de capital deficiente e que freqüentemente a necessidade de
capital de giro seja superior à sua capacidade de financiá-lo. Outro
empresa capitalista ou, se os interesses dos operários forem os mais
problema está relacionado à falta de instrução formal dos cooperativados fortes, se dissolve.” (idem).
e, particularmente, daqueles que ocupam cargos de direção. Não obstante
o conhecimento prático e tácito que estes trabalhadores tenham do
Para a autora, isso acontece porque existe uma contradição: a
processo produtivo em si, a sua carência de conhecimentos técnicos e de produção é socialista e a troca é capitalista. A superação dessa
experiência em questões mercadológicas, bem como macro-institucionais, contradição garantiria a sobrevivência da cooperativa:
agrava as dificuldades naturais para se construir um quadro de
[...] a cooperativa só pode assegurar sua existência no seio da economia
administradores com competência adequada àquelas novas (e
capitalista suprimindo, por um desvio, a contradição que encerra entre o
inovadoras) situações. (TAUILE e DEBACO, 2002, p.03).
modo de produção e o modo de troca, subtraindo-se artificialmente às leis
O problema dos equipamentos obsoletos é observado com da livre concorrência. Ela só pode fazer assegurando um mercado, um
freqüência, tanto em cooperativas formadas por trabalhadores quanto círculo constante de consumidores, a cooperativa de consumo fornece-lhe
o meio. (ibid.).
aquelas formadas pela ocupação de fábricas falidas. Nesse último tipo,
os trabalhadores utilizam equipamentos pouco produtivos e assumem Diante do dilema “competição”, muitos empreendimentos
um empreendimento com muitas dívidas. necessitam deixar de ser solidários e “desvirtuam-se” de seus princípios
cooperativos iniciais. “Muitas empresas que nasceram como solidárias
Além de todos esses problemas enfrentados pelos empreendimentos
acabam por se adaptar ao capitalismo e por isso deixam de ser
de economia solidária, estes devem enfrentar, ainda, a concorrência.
solidárias.” (SINGER, 2001).
Como dito anteriormente, a concorrência força à acumulação de capital
a fim de que se reduzam custos. Um exemplo de cooperativa que deixou de ser solidária tem-se
Rochdale, considerada a “mãe” de todas as cooperativas. A partir do
A autogestão nos empreendimentos de economia solidária é
momento em que o número de sócios era muito menor que o número de
fragilizada também pelo próprio mercado. Ao produzir mercadorias em
trabalhadores empregados, tornou-se uma empresa capitalista.
qualidade e quantidade determinadas pelo mercado, de certa forma os
trabalhadores perdem sua autonomia. Nesses casos, em que a decisão Outro exemplo de cooperativa que de certo modo desvirtuou-se de
sobre a produção caberia aos trabalhadores, estes devem submeter-se ao seus princípios é a Mondragón Corporacion. Diante da abertura de
mercado. Para alguns cooperados, “o cliente é o nosso patrão”. mercado da Espanha, quando o país associou-se à União Européia,
corporações multinacionais invadiram o mercado espanhol e muitas
As faltas de capital e de condições financeiras dificultam a
pequenas empresas e cooperativas faliram. Respondendo à ameaça, a
acumulação nesses empreendimentos. Mesmo quando conseguem
Cooperativa Mondragón Corporacion centralizou sua administração
superar essa falta de capital, a acumulação força para cima a
para competir no mercado global. Além disso, os princípios
composição orgânica do capital, de modo que a produtividade aumenta
cooperativistas não fizeram parte da expansão internacional da
e não se necessite mais de tantos trabalhadores.
cooperativa. Nenhuma das fábricas fora da Espanha é cooperativa.
Porém, como estes não podem ser demitidos, pois são proprietários
As Grandes cooperativas agrícolas do Brasil também funcionam sob
dos meios de produção, a cooperativa enfrenta mais uma dificuldade.
uma ótica diferente da economia solidária: sua estrutura se caracteriza
Como então ela poderá reduzir seus custos, se não por meio da demissão
por um trabalho autônomo, porém associado de produtores. Apenas os
de trabalhadores? Além disso, mais uma questão pode surgir: será a

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A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

produtores são associados das cooperativas, enquanto aqueles que estudos de mercado, localização, custos e capacidade do
trabalham nas fábricas, no beneficiamento dos produtos, são todos empreendimento gerar renda.
assalariados.
Sobre algumas comunidades e seus produtos, Singer (2004, p. 02)
Dessa forma, o aumento da composição orgânica de capital nas afirma que:
indústrias pertencentes às cooperativas permite a demissão de Elas conseguem vender ao exterior produtos artesanais, extrativistas, de origem
funcionários para redução de custos. Funcionam, portanto, como se vegetal e animal etc., mas que alcançam preços baixos, porque sua oferta tende
fossem empresas capitalistas tradicionais. sempre a superar a demanda por larga margem. São muitos os pobres que vivem da
venda de produtos, que em geral são adquiridos por uma elite cultural relativamente
pequena. Do desequilíbrio entre oferta e demanda emana uma pressão perene de
baixa das remunerações dos que vivem desses tipos de produtos.
3 DISCUSSÃO ACERCA DOS LIMITES DA AUTOGESTÃO
A questão localização também se mostra importante quando o
Vimos surgir um paradoxo quanto aos princípios autogestionários produto não oferece diferencial em relação aos concorrentes. Montar
em empreendimentos de economia solidária. A autogestão prega algo uma panificadora, por exemplo, em um bairro em que já há pelos menos
diferente do que as empresas predominantes utilizam, e é justamente três não parece ser uma boa solução. Enquanto os concorrentes
esse “algo diferente” que provoca certa dificuldade para que esses trabalhariam com apenas três ou quatro trabalhadores,
empreendimentos sobrevivam no sistema capitalista, enfrentando a empreendimentos de economia solidária teriam de dar conta de gerar
concorrência constantemente. trabalho e renda para 20 pessoas.
O presente estudo não teve como objetivo mostrar que As incubadoras podem também atuar em outro problema citado por
empreendimentos de economia solidária são inviáveis, muito menos que Tauilie e Debaco (2002, p.03), que é a falta de instrução em questões
a autogestão inviabiliza o funcionamento de tais empreendimentos. gerenciais. A instrução a ser levada não deve ser aquela encontrada em
Pelo contrário, traz à luz esses problemas, para que se encontrem formas livros tradicionais de administração, que são dirigidas e
que viabilizem esses empreendimentos autogeridos. empreendimentos heterogestionários, mas sim adaptada à economia
Uma possível solução, também adotada por empresas capitalistas, solidária. É importante que todos os trabalhadores do empreendimento
seria a inovação. Por meio da inovação, produzindo mercadorias não façam parte da instrução, pois isso levará transparência à gestão do
produzidas por outros, ou com algum diferencial, como dito empreendimento. Uma vez que todos detêm o conhecimento da gestão,
anteriormente, a empresa solidária pode atuar quase como monopolista dificilmente haverá fraudes.
em seu ramo. Isso permite à empresa solidária tornar-se formadora de Certamente que a educação na área gerencial não elimina a
preços. concorrência das empresas solidárias, mas permite a esses
Esse diferencial deve ser algo que atraia o consumidor. Por estar empreendimentos maior autonomia em questões decisivas, como por
sujeita à economia de mercado, é importante que o produto da empresa exemplo, aceitar ou não a encomenda de determinado cliente, a partir
solidária esteja de acordo com as tendências modernas de marketing, do conhecimento, por parte dos trabalhadores, da capacidade produtiva
publicidade e design. Aqui se evidencia a importância das incubadoras da cooperativa.
de cooperativas ou de empreendimentos de economia solidária, que O trabalho das incubadoras pode ajudar os empreendimentos de
incentivam a inovação nesses empreendimentos. economia solidária, portanto, principalmente quanto à capacidade não
Mais que incentivar a inovação tecnológica nos empreendimentos, só gerencial, mas também inovativa desses empreendimentos. É certo
uma atividade importante das incubadoras é a elaboração, juntamente que a economia solidária em si só já constitui uma inovação, como
com a comunidade, de projetos de viabilidade econômica. Esses projetos afirma Liana Carleial (2003), mas inovação que tornem esses
devem mostrar se os produtos pretendidos pelo empreendimento têm empreendimentos de certa forma únicos e fortalecidos no mercado é
algum mercado e possuem potencial para serem vendidos e gerar renda fundamental.
para todos os trabalhadores do empreendimento, além de possuírem Um outro problema encontrado por empresas solidárias é a falta de
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A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

capital de giro. Como dificilmente encontram-se fontes de dessa dificuldade, algumas soluções podem aparecer, como se adaptar
financiamento de capital de giro, é interessante que, ao escolher um ao sistema ou encontrar formas de redução de custos ou inovar em seus
produto principal, haja uma especificidade de não precisar de capital de produtos e serviços.
giro. É necessário que tais produtos sejam compostos por matéria-prima
Porém, ao dar à economia solidária o tratamento de solução ao modo
que se compra facilmente a prazo, e que o produto final seja vendido à
de produção capitalista e propor redes, não se está admitindo que esses
vista, ou em um prazo menor que o de compra da matéria-prima.
empreendimentos tenham de enfrentar concorrência, pois eles
Alguns autores, como Tiriba, Singer e Verano associam a economia formariam redes. Contudo, redes podem ser formadas mesmo dentro do
solidária a um outro modo de produção, não capitalista (Gaiger, 2003, p. sistema capitalista, para dar proteção às empresas solidárias.
02). Mais ou menos na mesma linha encontra-se Mance (2002), que
propõe redes de economia solidária e sustentabilidade. Para ele:
Essas alternativas podem superar a lógica capitalista de concentração de 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
riquezas e exclusão social, de destruição dos ecossistemas e de
A economia solidária propõe uma forma diferente de trabalho,
exploração dos seres humanos, afirmando a construção de novas
relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Organizadas em redes relações e gestão do empreendimento, pautadas em princípios de
de colaboração solidária, elas têm o potencial de dar origem a uma nova autogestão, propriedade coletiva dos meios de produção, solidariedade
civilização, multicultural, que deseja a liberdade de cada pessoa em sua etc., diferentemente da forma predominante de empreendimentos
valiosa diferença. A integração solidária dessas redes coloca no horizonte
encontrados no sistema capitalista, que têm por objetivo principal gerar
de nossas possibilidades concretas a realização planetária de uma nova
revolução, capaz de subverter a lógica capitalista de concentração de lucros ao seu proprietário.
riquezas e de exclusão social e diversas formas de dominação nos campos
Contudo, embora funcionem de forma diferente, empreendimentos
da política, da economia e da cultura. (Idem).
de economia solidária estão inseridos num sistema em que predominam
O autor propõe ainda algumas ações imediatas, como a difusão do empreendimentos privados, em que geralmente ocorrem práticas de
consumo solidário, organização de fundos de desenvolvimento solidário, competição que estão longe de serem solidárias. Além disso, necessitam
levantamento de produtos, serviços e valores movimentados e catálogos gerar excedente para que possam acumular capital e investir em
mundiais de economia solidária e remontagem de cadeias produtivas. aumento de produtividade.
Algumas dessas ações possuem o objetivo de formar redes de
informação, vindas da teoria econômica sobre firmas em rede. Uma vez que se necessita vender produtos para gerar renda,
necessariamente deve-se entrar na circulação e competir com outros
De posse dessas informações, como local de venda e preço dos empreendimentos. A competição faz baixar os preços de venda e força à
produtos, o comércio solidário que o Mance propõe seria facilitado. acumulação os empreendimentos para que melhorem sua
Além disso, seria ampliado também o número de contratos entre produtividade, reduzam os custos e possam vender seus produtos a um
empresas solidárias, que deixariam de produzir ou comprar produtos preço de venda mais competitivo. O ciclo de redução de preços de venda
que contribuíssem para o enriquecimento de capitalistas. Dessa forma, e custos unitários repete-se constantemente, quase que sem
a rede de economia solidária contribuiria para a criação de um novo interrupções.
modo de produção não capitalista.
Empresas capitalistas precisam, para conseguir competir, ajustar seu
Ademais, a formação de redes viria resolver o paradoxo encontrado capital para que tenha produtividade e escala no mínimo igual à média
desde o início do presente trabalho, pois eliminaria completamente a das demais empresas do setor, para que consigam reduzir custos
luta de classes. Por outro lado, não resolveria o problema a que se propôs unitários e vender seus produtos a preços menores, mas mesmo assim
discutir, e que dá o título a este trabalho, pois o modo de produção seria obtendo taxas de lucro maiores. Para isso, aumentam a composição
outro, que não pautado no capital e não haveria concorrência. orgânica do capital, aumentam a produtividade e demitem
Vimos como é difícil para um empreendimento de economia trabalhadores.
solidária sobreviver quando precisa enfrentar concorrência. A partir Empresas solidárias, paradoxalmente, encontram justamente no seu
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A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

diferencial, nos seus princípios, alguns obstáculos ao seu próprio pautadas sobre princípios diferentes da busca incessante pelo lucro e da
desenvolvimento quando enfrentam a concorrência. propriedade privada tornem-se viáveis.
Para começar, já iniciam suas atividades em defasagem em relação Contudo, embora devam se adaptar ao sistema, não podem perder
aos empreendimentos predominantes, pois possuem geralmente suas características solidárias. A empresa solidária precisa continuar
poucos recursos e pouco capital. Mesmo quando melhoram a tendo um certo nível de democracia interna, e não podem ter mais
produtividade, não há como um empreendimento solidário demitir empregados que sócios, o que estimula a discriminação entre
trabalhadores, pois eles são proprietários dos meios de produção. trabalhadores e sócios e só reproduz ainda mais as práticas capitalistas
dentro do empreendimento.
Além disso, há problemas como a falta de instrução formal dos
trabalhadores, instrução quanto à administração do empreendimento e Ainda que em um empreendimento solidário as relações devam ser
constante necessidade de capital de giro. Dificilmente uma empresa socialistas, fora dele é o mundo capitalista que domina. Os
solidária, formada com pouco capital, conseguiria praticar dumping ou trabalhadores devem, portanto, adaptar-se ao sistema e tentar, na
economias externas de escala. medida do possível, ajustar sua produtividade e sua escala de produção
aos níveis médios, para que os trabalhadores possam receber como
Diante desse problema, muitas empresas que nasceram como
remuneração um valor no mínimo igual à média dos outros
cooperativa desvirtuam-se de seu caminho solidário, e transformam-se
trabalhadores do setor. Isso por si só seria um ganho pois, além de
em empresas capitalistas, ou ainda que continuem utilizando-se da
ganharem igual à média dos outros trabalhadores, eles trabalhariam
apelação de cooperativa, adotam práticas capitalistas. Esse é o exemplo
num ambiente com maior nível de democracia interna e relações de
de Rochdale, a “mãe” de todas as cooperativas, e Mondragón, a maior
trabalho menos exploratórias, uma vez que eles mesmos tomariam posse
cooperativa do mundo.
da mais-valia produzida.
Algumas soluções podem aparecer para que essas empresas
solidárias sobrevivam ao sistema, como a inovação dos produtos,
sobretudo com o apoio das incubadoras tecnológicas de cooperativas REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
populares, e ainda formarem redes solidárias.
Alguns desafios ainda colocam-se diante desses empreendimentos de
ARRUDA, M. Socioeconomia solidária. In: CATTANI, D. (Org.). A outra
economia solidária. O capital para iniciar a produção é pequeno, e há
economia.1. ed. Veraz editores: Porto Alegre, 2003.
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Ainda quanto à inovação do produto ou serviço, esses
empreendimentos ainda estariam sujeitos à vontade do mercado, tendo CARLEIAL, L. Economia Solidária e Informalidade: Pontos de
que deixar de lado, de certo modo, o princípio de autonomia e Aproximação, Propriedade Conceitual e “Novos” Desafios para a
independência. Esse “passo atrás” é uma forma desses Política Pública. In: XI CONGRESSO DA FIEALC. Osaka, 2003.
empreendimentos garantirem sua sobrevivência e poderem competir.
Há também que se levar em consideração o tratamento que se dá à FINE, B. Concorrência. In: BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento
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estaria contribuindo para a construção do novo modo de produção. GAIGER, L. A Economia Solidária Diante do Modo de Produção
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172 173
A economia política da economia solidária: limites, desafios e possibilidades Emerson Leonardo Schmidt Iaskio

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174 175
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 10

A busca da identidade autogestionária


por uma cooperativa popular1
Lúcia Helena Alencastro

1 INTRODUÇÃO
O movimento cooperativista no Brasil, de modo geral, foi marcado
por um certo conservadorismo tanto a respeito da legislação que o
estimulou como em relação à sua prática. Muitos anos passaram-se até
chegarmos ao que se tem atualmente. Na avaliação de diferentes
autores, há, uma legislação que age na contramão, limitando e
restringindo a experiência no Brasil. Rech (2000), comenta que não se
trata da inexistência de uma forma básica que sirva como modelo, mas
os aspectos que o caracterizam remetem a um desenho meramente
compensador. Ou seja, visa apenas corrigir problemas econômicos
gerados pelo capitalismo, inibindo, portanto, a articulação de uma
proposta capaz de promover verdadeiramente o trabalho coletivo,
autogestionário e participativo, sedimentado pelas classes populares.
Alguns autores consideram que o cooperativismo tradicional ter-se-
ia instalado apenas nos limites permitidos pelo sistema do capital.
Arruda (1996), argumenta que possivelmente por esse fator, não se pode
esperar grandes inovações, uma vez que as cooperativas consolidadas no
país estariam mais para grandes empresas capitalistas. Contudo, o
mesmo autor afirma que, tanto no Brasil como em outros países, cresce
um cooperativismo de caráter popular, que busca organizar
trabalhadores ou consumidores em empresas associativas e
autogestionárias, com elementos filosóficos originários do
cooperativismo que incluem a prioridade no ser humano.
A busca do justo preço; a introdução de relações solidárias e cooperativas
nas transações; a abolição do sistema assalariado; e a construção de uma
co-sociedade cooperativa, gestora de um projeto próprio de
1
Este artigo é uma versão ligeiramente modificada do que foi apresentado no VIII Seminário
internacional da Rede Unircoop, realizado de 04 a 08 de outubro de 2004, em Sherbrooke, no Canadá.

176 177
A busca da identidade autogestionária por uma cooperativa popular Andréa M. Hamasaki, Emerson L. S. Iaskio, Fernanda F. Figueira, Guiomara F. de Godoi, Lúcia H. Alencastro

Desenvolvimento e capaz de estabelecer ao mesmo tempo relações trabalhadoras depararem-se com questões práticas de gestão que,
comerciais e solidárias entre si e com outros povos. (ARRUDA, 1996, p.
namaioria das vezes, não encontram precedentes em suas experiências
35).
anteriores. Muitos desses trabalhadores acumulam a experiência de
Veras Neto (2002) conclui que o e o aumento da economia informal empregados, executores de tarefas, na lógica da separação entre os que
e por conseqüência da exclusão social têm estimulado a criação de uma pensam - e, portanto, mandam - e os que não pensam - e, portanto,
economia solidária sob diferentes formas e conformada por diferentes obedecem. Mesmo tendo gerido suas vidas de maneira autônoma, sem
instituições, configurando-se como alternativas de geração trabalho e vínculos empregatícios formais, como nos afirma Sato (1999), muitos
de renda surgido como uma alternativa gerada espontaneamente pela enfrentam dificuldades em gerir o trabalho e a produção sem a
sociedade civil. Portanto, a economia solidária tem-se constituído, no possibilidade de mandar, substituir, contratar ou demitir as pessoas em
Brasil e em outros países da América Latina, como uma alternativa real função das necessidades do empreendimento, sem o advento do
de combate à exclusão social, mostrando-se, em alguns casos, geradora despotismo, de que dispõe o administrador capitalista. Segundo a
de uma economia dinâmica e auto-sustentável. presente autora, essa questão traduz um dos grandes desafios para a
Nessa perspectiva, o cooperativismo volta ao cenário como uma autogestão: como garantir o governo cotidiano de todos os
importante possibilidade de organização do trabalho, com pressupostos trabalhadores na empresa?
que o distinguem do modelo tradicional desenvolvido no Brasil, como Sato (ibd) reflete também sobre a importância da constante
aponta Singer (1999), alertando para o fato que atualmente se pode negociação no trato de questões coletivas e individuais relacionadas à
distinguir claramente entre o cooperativismo tradicional e o novo vida na organização, para que, a partir dos trabalhadores implicados no
cooperativismo. Neste último é possível perceber as marcas da crise processo, desenhe-se o caminho a seguir. Coloca-se, então, como
ideológica vivida pela esquerda e a necessidade de enfrentamento do condição e caminho para a autogestão, o diálogo permanente entre
neoliberalismo, bem como a atual crise das relações de trabalho. trabalhadores e trabalhadoras para que a partir de suas experiências e
Portanto, o novo cooperativismo surge ao mesmo tempo que resgata os necessidades, assim como as necessidades do empreendimento, se
valores centrais do movimento operário socialista como: democracia na constitua o processo autogestionário.
produção e distribuição, desalienação do trabalhador, luta direta dos
movimentos sociais pela geração de trabalho e renda, contra a pobreza e Ainda que se trate de um empreendimento cooperativo, como afirma
exclusão social. Rios (1987), o fato de encontrar-se legalmente qualificada, não significa
que uma cooperativa esteja processando-se, na prática, como um
Aliado à mobilização dos movimentos sociais, assistimos ao empreendimento verdadeiramente autogestionário. Ou seja, faz-se
crescimento do número de experiências populares, voltadas ao necessária uma clara distinção entre “ação político-econômica
rompimento com o movimento tradicional cooperativista, em que a cooperativa e o enquadramento legal”. Nas reflexões desenvolvidas por
solidariedade ocupa lugar central a partir de uma perspectiva esse autor, é categórica a idéia de que a legislação latino-americana
autogestionária. Entendida como uma categoria de análise distinta e possui origens elitistas e que em muitos casos legitima apenas um tipo
independente de outras formas de gestão, como, por exemplo, a de cooperativismo, o conservador, excluindo o verdadeiramente
participativa, a co-gestão e outras formas que imprimem limitações transformador. Obviamente, a estrutura posta pelos princípios e valores
claras ao grau de participação dos trabalhadores. Portanto, autogestão cooperativistas e reafirmados na legislação brasileira vigente, apontam
como sinônimo de participação efetiva dos trabalhadores, sem distinção possibilidades concretas para a constituição de cooperativas
entre sócios e trabalhadores, uma vez que os trabalhadores são os sócios autogestionárias. Entretanto, caso não haja um cotidiano de
e vice-versa, extinguindo-se, assim, a possibilidade de qualquer outro significação desses pressupostos que a diferencie, corre-se o risco de a
vínculo de trabalho (SINGER apud SATO & ESTEVEZ, 2000). autogestão tornar-se apenas um ornamento, cujo sentido perde-se na
Face a esse referencial, um dos problemas que se apresenta no teia burocrática imposta pela competitividade a fim de garantir sua
trabalho com grupos populares para a constituição de um processo sobrevivência no mercado.
verdadeiramente autogestionário é o fato de esses trabalhadores e Nesse sentido, o objetivo deste artigo é apresentar a experiência

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A busca da identidade autogestionária por uma cooperativa popular Andréa M. Hamasaki, Emerson L. S. Iaskio, Fernanda F. Figueira, Guiomara F. de Godoi, Lúcia H. Alencastro

desenvolvida pela equipe de formação e assessoria da Incubadora contrariedade com o regime jurídico da propriedade.
Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal do
Em Curitiba
Paraná (ITCP-UFPR) junto a uma cooperativa popular de produção,
A ocupação do espaço metropolitano deu-se seletivamente: o valor da
localizada na região metropolitana do município de Curitiba. Ao longo
terra e da moradia e o custo das melhorias urbanas reservam para
de doze meses, a equipe realizou um trabalho de intervenção social Curitiba um morador com melhores níveis de renda, direcionando os
visando refletir e construir, com os trabalhadores, ferramentas capazes grupos empobrecidos e os migrantes de menor poder aquisitivo para as
de contribuir efetivamente com o processo de organização áreas periféricas internas e de outros municípios. (MOURA apud
KRUEGER et alii, 2002, p. 36).
autogestionária na perspectiva de concretização de uma cultura
organizacional própria e coerente com os valores e princípios A “Vila Formosa”, comunidade vizinha daquela em que vivem os
cooperativos. Em uma perspectiva interdisciplinar, nosso trabalho situa- cooperados, foi um dos primeiros palcos da luta pela moradia urbana em
se na tentativa de construção de um referencial teórico-prático de Curitiba, realizada de maneira coletiva e organizada a partir de 1978.
intervenção social, tomando como base metodológica a pesquisa-ação. Dessas lutas, surgiram as primeiras associações de moradores na capital
Partimos do pressuposto que é no cotidiano de trabalho, por meio de paranaense, com a participação integral de alguns dos fundadores da
mediações constantes, que a palavra assume caráter central, cooperativa.
propiciando as condições ideais para a geração de uma nova referência
Conjuntamente com o esforço pela moradia, outros desafios
de intervenção social e, portanto, base metodológica para o processo de
compõem o cenário de luta dessa comunidade: sendo a maioria dos
incubação de grupos populares. A palavra revela não só o objetivo, mas
cooperados migrantes, vieram para Curitiba, com a conhecida ilusão de
também o que se encontra latente: angústias, desejos e conflitos
conseguir trabalho. Entretanto, encontraram inúmeras dificuldades.
individuais e coletivos, que, ao encontrar espaço de manifestação e
Em sua maioria, apresentam baixa escolaridade (muitos apenas
negociação, podem indicar uma pré-disposição do grupo para a
possuem a primeira etapa do ensino fundamental) e pouca qualificação
organização autogestionária.
profissional, o que se constitui uma enorme barreira para a inserção no
mercado de trabalho.
2 RELATO DO CASO: A CONSTITUIÇÃO DA COOPERATIVA Segundo Justino (2002), a idéia de constituir uma cooperativa
surgiu de contatos do grupo de moradores com o Programa de Extensão
A fim de entendermos a origem da cooperativa que é objeto de estudo
Universitária ITCP-UFPR. O processo de incubagem, iniciado pela ITCP
deste trabalho, torna-se necessário um olhar sobre a trajetória de outras
no ano de 2000, consistiu em um curso formativo em cooperativismo e
lutas de organização social desse grupo, mesmo antes da sua
autogestão, culminando com a fundação da cooperativa em dezembro
constituição como cooperativa. Como nos alerta Gaiger (2004), o
do mesmo ano.
surgimento de empreendimentos solidários é motivado por uma
conjunção de circunstâncias que não devem relacionar-se unicamente a A cooperativa foi registrada com 32 fundadores, tendo como objeto a
pressões econômicas. Dentre essas circunstâncias, ressalta-se a vivência produção de embalagens de madeira reciclada. Neste início, apenas uma
de práticas comunitárias, lutas e mobilizações sociais como passíveis de parte dos cooperados contava com experiência anterior em relação ao
engendrar um estilo de comportamento propício à busca de objeto-fim da cooperativa. O grupo foi constituído, majoritariamente,
organizações, para além de uma visão econômica. por mulheres, donas de casa. O processo de formação do grupo incluiu
discussões sobre cooperativismo, autogestão e economia solidária.
A participação nos movimentos sociais de luta pela moradia e
ocupação do espaço territorial dos fundadores da cooperativa em Uma das primeiras dificuldades encontradas pelo grupo, segundo
questão, identifica-se com a dos trabalhadores de outras metrópoles relato do início da experiência, centrava-se em aspectos financeiros.
brasileiras, nas quais a exclusão territorial atinge os mais pobres - que Para iniciar as atividades produtivas, se fazia necessário a aquisição de
passam a morar em áreas cada vez mais distantes das áreas centrais em alguns equipamentos básicos, assim como recursos para capital de giro.
busca de moradia, obtida pela ocupação de terras urbanas, em A solução encontrada para a compra dos equipamentos foi a organização

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de um mutirão visando captar recursos, além de empréstimos pessoais e complexa. Os cooperados haviam confiado na administração de alguns
atividades produtivas. Inicialmente as atividades eram desenvolvidas em membros que dominavam o ofício. Porém, essa equipe diretiva, além de
espaço improvisado na residência de um dos cooperados, com a não compartilhar integralmente dos valores solidários contidos na
produção de utensílios menores para a comunidade local. proposta cooperativista, praticou um desfalque financeiro à cooperativa
desencadeando um movimento dos cooperados que resultou na
Em um segundo momento, a ITCP, juntamente com os cooperados,
expulsão dos mesmos.
realizou contato com algumas multinacionais do setor automobilístico
estabelecidas na região metropolitana de Curitiba. O objetivo desses Afastados esses cooperados, outros problemas surgiram. Os que
contatos era solicitar a colaboração dessas empresas para o ficaram não possuíam domínio sobre o processo de trabalho e gestão e,
fornecimento de resíduos de madeira. O resultado foi o estabelecimento por outro lado, as despesas com a manutenção da estrutura
de uma parceria com uma empresa multinacional que passou a fornecer representavam um valor superior à capacidade produtiva, sobretudo em
os resíduos e mantém-se até o presente. Nesse mesmo período, iniciou- relação aos custos de locação com o barracão. Havia na ocasião (outubro
se a busca por um barracão para sediar a cooperativa. Contudo, e novembro de 2002) dificuldades econômicas significativos. Somava-se
surgiram alguns obstáculos para efetuar a locação, uma vez que as ainda o afastamento da maioria dos cooperados. Tratava-se de um
exigências para esse fim são inúmeras e distantes da realidade dos período de eleições municipais, o que representava para aquela
cooperados. Finalmente, com a colaboração de um cliente interessado comunidade a possibilidade de ganhos diários, assim como, promessas
em adquirir resíduos de madeira reciclados, foi possível a locação de um políticas de alguns candidatos. Naquele momento, somente cinco
barracão na Cidade Industrial de Curitiba. cooperados resistiam e continuavam desenvolvendo o trabalho,
alternando atividades entre a cooperativa e trabalhos informais para
Para dar início à produção em maior escala a cooperativa passou a
obter renda, visto que a cooperativa não oferecia esta possibilidade.
enfrentar novos desafios, como a conquista de clientes que confiassem
no seu trabalho e o financiamento de capital de giro para compra de Após uma intensa maratona de discussões, incluindo cooperados e
máquinas maiores, necessárias ao aumento do empreendimento. equipe da ITCP, conseguiu-se reunir um número representativo de
Porém, nos meios oficiais de financiamento, novas exigências se membros para decidir sobre o futuro da cooperativa. Depois de muitos
apresentam. O problema é resolvido por meio de empréstimos conflitos, um pequeno grupo decidiu sobre a continuidade das
particulares e são adquiridos equipamentos recondicionados. O atividades. Entre os demais, alguns optaram pelo seu desligamento,
trabalho inicia-se agora em um barracão alugado com as condições enquanto outros decidiram solicitar o seu afastamento provisório.
ideais para desenvolver as atividades produtivas segundo o objeto da
Aqueles que permaneceram, demonstravam a compreensão que a
cooperativa.
cooperativa não representava apenas uma alternativa de trabalho ou um
“bico”. Não aceitavam ver o fim do que havia sido, provavelmente, a
grande conquista profissional de suas vidas, a liberdade de serem
3 RECONSTITUIÇÃO DA COOPERATIVA: CONCRETIZANDO UM
trabalhadores independentes de patrões. Havia consciência em relação à
IDEAL
importância dos valores cooperativistas, juntamente com a
Quando dos primeiros contatos da presente equipe da ITCP com a possibilidade concreta de conquistar autonomia frente ao processo de
cooperativa, em outubro de 2002, a situação era bastante complicada. trabalho. Percebia-se claramente a construção de uma identidade de
Havia um grupo já constituído, mas com uma sobrecarga de questões grupo capaz de sobrepor-se ao que, naquele momento parecia o mais
que estavam a ponto de minar qualquer possibilidade de continuidade óbvio: o abandono de um empreendimento em vias de falência para
do processo: “Do jeito que tá não dá mais, ninguém mais aparece para alguns.
trabalhar, são só estes que estão aqui, o jeito vai ser parar pra gente não
Nesse caso, a identidade ganhou dimensões representativas
se afundar ainda mais[...]”2. Tratava-se de uma situação bastante
fundamentais, visto que se tratava de pessoas, na sua maioria, excluídas
2
Ao longo deste texto, serão reproduzidas as falas originais dos cooperados. Essas falas forram
do trabalho formal, identificando-se com o que (Castel apud Wanderley,
extraídas dos relatórios produzidos pela atual equipe de formação da ITCP.

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2002) denominou os “desafiliados”, referindo-se àqueles sujeitos cuja recursos financeiros para deslocamento e alimentação. A fim de
trajetória sofreu uma série de rupturas com instâncias que lhes solucionar esse problema, novamente o grupo de resistência, como no
conferiam certo equilíbrio. Essa expressão não se refere apenas a início, encontrou alternativas criativas para dar continuidade ao seu
populações com carência de recursos materiais, mas também àquelas empreendimento: mobilização de amigos e vizinhos, crédito para
que sofreram perda dos vínculos sociais e que, mesmo ainda mantendo compra de cestas básicas e outras formas de conseguir recursos para
alguns vínculos, sentem a ausência de estruturas que têm um sentido. transporte e alimentação. Novamente a demonstração do quanto era
Para essas pessoas a cooperativa passou a representar exatamente uma importante aquela organização em suas vidas.
estrutura geradora de sentido.
A cooperativa iniciava uma nova fase. Era necessário organizar a
Assim, toma-se como referência o lugar ocupado pelo trabalho como produção, chamar novos cooperados e pensar em estratégias de
fator de integração e engajamento sociais. Ainda que este seja comercialização para ampliar o número de clientes. Em março de 2003,
mobilizador de sofrimento para o sujeito, de acordo com Brink (1982), a equipe da ITCP iniciou um intensivo trabalho a fim de responder às
esse sujeito é levado, durante toda a sua vida, a considerá-lo uma necessidades surgidas a partir de um minucioso diagnóstico. O primeiro
seqüência lógica e natural de uma vida “normal”. Assim, estar afastado passo foi a realização de um curso básico de cooperativismo, para a
do mundo do trabalho, como têm demonstrado algumas pesquisas, entrada de novos sócios, visto que tratava-se de uma demanda do grupo.
mesmo que por motivos macroeconômicos, pode representar, no Naquele momento haviam sete pessoas - dois homens e cinco mulheres -
âmbito individual, acusações de incompetência e outros rótulos para dar conta de tarefas extremamente pesadas.
comuns. Nesse sentido, para os sujeitos afastados há muito tempo do
Realizado o curso e sanados os problemas com o fornecimento de
mercado formal, as cooperativas apontam uma possibilidade concreta
matéria-prima, passou-se à fase de formalização dos novos cooperados,
de resgate da auto-estima e respeito perante os familiares e amigos.
em junho de 2003. Neste momento, a palavra “novos” ganhou um
A partir da certeza demonstrada pela continuidade das atividades da sentindo real, ou seja, a divisão entre novos e velhos. Como seria a forma
cooperativa, a ITCP começou discutir com os cooperados estratégias de entrada das pessoas que não participaram dos esforços e conquistas
capazes de viabilizar o trabalho. O primeiro desafio era diminuir os que os fundadores haviam realizado? Diferentes questões, mesmo que
custos com a locação do barracão, assim como os altos custos com a não-aparentes, entraram em cena, exigindo um longo processo de
carga tributária que, no estado do Paraná, mesmo tratando-se de reflexões e negociações. Somente por meio de muito diálogo foi possível
cooperativas populares, com arrecadação mínima, não se enquadravam elucidar o que na verdade era a representação afetiva sobre o que havia
3
no sistema tributário simples - essa questão foi resolvida após alguns sido construído com muito trabalho e resignação para ser dividido com
meses de negociações com o governo do estado. pessoas até então estranhas àquele grupo. Alguns reflexos dessas
questões ainda surgem, em menor grau, até os dias de hoje.
Entre outras ações, a coordenação da ITCP, por meio de uma parceria
com o TECPAR (Instituto de Tecnologia do Estado do Paraná), Com os novos, a cooperativa atingiu um total de dezenove membros.
conseguiu o empréstimo de um barracão que se encontrava com uma Esse novo grupo, constituído com certo equilíbrio entre homens e
linha de montagem desativada. A partir desse momento, foi possível mulheres, manteve as mesmas condições em termos de escolaridade e
transferir as atividades para um local sem ônus para a cooperativa. qualificação profissional para o beneficiamento de madeira. Outro
Porém, não havia madeira para trabalhar: para a empresa multinacional aspecto visível deve-se ao fato de a maioria dos participantes, ao
continuar fornecendo a matéria-prima, era necessária a autorização dos integrarem a cooperativa - novos e antigos - encontrarem-se há muito
órgãos oficiais do meio ambiente em relação ao novo endereço da tempo excluídos do processo formal de trabalho, além de pessoas com
cooperativa. Esse processo demorou alguns meses em virtude da idade já avançada, aposentadas, e donas de casa que nunca haviam
burocracia. trabalhado fora. Entretanto, ainda assim, constituiu-se um grupo
heterogêneo, sobretudo em relação às histórias e perspectivas de vida.
Outra dificuldade que se apresentava, consistia na ausência de
3
O sistema tributário simples é a isenção do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Por um lado, tal configuração imprime às discussões cotidianas de
Serviços) para micro e pequenas empresas cuja receita é inferior a R$ 15.000, 00 mensais. planejamento e organização da cooperativa, uma série de conflitos a
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respeito de questões de gênero, valorização diferenciada das etapas que rotatividade de pessoas. Esse último, na maioria das vezes, é responsável,
compreendem o processo de trabalho e a inexistência de conhecimentos por certa desestruturação no processo de incubação, o que resulta em
específicos necessários ao planejamento e à gestão do empreendimento. um recomeço permanente.
Por outro lado, em face da diversidade de experiências, ocorre uma
No caso da cooperativa, um recomeço marcado por conflitos
riqueza de possibilidades, que expostas ao diálogo, podem resultar em
inerentes ao grupo, bem como àqueles relacionados à singularidade dos
soluções bastante criativas.
diferentes grupos incubados, isto é, derivados das relações
interpessoais. Possivelmente, dentre as maiores dificuldades vivenciadas
pela equipe de formação esses conflitos representem os maiores
4 A RECONSTITUIÇÃO DA COOPERATIVA: OS DESAFIOS
desafios: um grupo de pessoas que buscam partilhar sentimentos e
IMPOSTOS À ORGANIZAÇÃO AUTOGESTIONÁRIA DO
valores em uma situação de trabalho inusitada até então. Os referenciais
TRABALHO
pré-existentes, muitas vezes, mostram-se insuficientes, pois ainda que
A questão cultural, sob o viés antropológico, torna-se um referencial existam práticas de solidariedade e cooperação no âmbito familiar e
teórico de análise fundamental da dinâmica organizacional, a saber: local, as experiências laborais remetem a heterogestão e/ou autonomia
O conjunto de pressupostos básicos que um grupo inventou, descobriu ou numa perspectiva individual.
desenvolveu ao aprender como lidar com os problemas de adaptação
externa e integração interna e que funcionam bem o suficiente para serem Diferentes sentimentos advindos de suas experiências anteriores de
válidos e ensinados a novos membros como a forma correta de perceber, trabalho e de outras relações sociais surgem sobre diferentes matizes.
pensar e sentir, em relação a esses problemas. (SCHEIN apud FLEURY, Há momentos em que se confundem e se atritam desarticulando o
1989, p. 20). processo, e outros em que se complementam fortalecendo o grupo. Por
Assim, parte-se do pressuposto de que, na perspectiva vezes aflora certa indignação de saber-se em desvantagem, as margens
autogestionária, a cultura organizacional deve ser um processo em das benesses sociais, porém nunca de forma explícita. Tais sentimentos
permanente construção a partir das interações sociais vividas pelos surgem sob a aura da desconfiança ao mesmo tempo presente e dispersa
cooperados. Portanto, rejeita-se a idéia de uma cultura organizacional em diferentes atitudes, camuflando os verdadeiros motivos dos conflitos
pré-estabelecida a que os sujeitos devem adaptar-se, como ocorre em que aparecem cotidianamente. Inicia-se, portanto, o trabalho na
relação à cultura da sociedade industrial. tentativa de desconstrução/reconstrução de conceitos culturalmente
enraizados e que, na proposta de um empreendimento solidário, devem
Tratando-se do caso de um grupo popular com perspectivas
ser trabalhados, sob pena de elaborarmos apenas novos motes
autogestionárias, outro aspecto importante a ser analisado refere-se às
sobrepostos a velhos preconceitos.
dificuldades impostas por uma lógica de mercado nada compatível com
os menos favorecidos em termos de recursos materiais. Sato (1999), Assim, com o novo grupo integrado e plenamente disposto ao
mostra que a organização cooperativa é uma instituição social em que as recomeço, teve início o trabalho de organização da cooperativa,
mudanças são permanentes e o que em um determinado momento tomando-se como referencial a experiência anterior, sobretudo em
aparecia como solução, no momento seguinte torna-se novamente um relação aos aspectos negativos de gestão que não deveriam repetir-se.
problema. Ou seja, há idas e vindas que, muitas vezes, para além da Fazia-se necessário, construir perspectivas reais de um processo
interação do grupo, encontram-se diretamente relacionadas ao meio democrático de gestão do empreendimento por meio da participação de
externo de sobrevivência do empreendimento frente a um mercado nada todos os cooperados. Assim, havia a compreensão (grupo e equipe de
compatível com a perspectiva de organização popular e, formação) de que a participação efetiva de todos no processo de gestão
principalmente, autogestionária. Existe concretamente a necessidade deveria representar uma conquista individual em benefício do todo. Ou,
de sobrevivência dos sujeitos envolvidos que não possuem o tempo segundo a idéia de que a participação não é dádiva, doação ou presente,
financeiro, ou seja, não possuem as condições materiais necessárias como afirma (Almeida apud Gaiger, 2004), mas uma conquista. A
para um investimento temporal que permita à cooperativa tornar-se conquista, entendida como uma aquisição diária, como um esforço
auto-sustentável frente ao mercado, gerando, em muitos momentos, a contínuo de constituição de uma outra maneira de ser trabalhador. O

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desenho de uma outra cultura organizacional, em que o que antes era Como mencionado anteriormente, um dos grandes impasses à
negado, um espaço para ser ouvido, agora deve ser construído por todos organização do trabalho quando inexiste a figura do chefe e/ou gerente,
em uma perspectiva real de posicionar-se diante do “como deve ser”. mas os trabalhadores são os responsáveis diretos por toda a estruturação
Não há como obrigar ninguém a participar; todavia, somente por meio do empreendimento, coloca-se na dificuldade de visualizar o processo
da participação haverá um real comprometimento das pessoas capaz de como um todo. Nas primeiras discussões, não havia clareza sobre a
viabilizar um empreendimento solidário e autogestinário. importância de setores como cozinha e mesmo o escritório [...]“Eles
ficam lá em cima tomando cafezinho e nós aqui dando duro”.
Assim, foi se concretizado um planejamento, no sentido de dar início
a uma forma muito particular de organização de um empreendimento O importante era o produto final, sem o reconhecimento da
cooperativo. Pensado a partir da integração dos diferentes olhares dos interdependência das diferentes etapas de produção, bem como a
cooperados que, por meio de negociações permanentes em função da necessidade de pessoas trabalhando na busca de clientes. Nesse caso, os
diversidade de interesses (Sato, 1999), subjetivos, sociais, econômicos e cooperados atribuíam valor especificamente ao que possuía valor de
políticos, informaram a direção e o sentido daquilo que buscávamos. troca, ou seja o produto final. Essa lógica demarca uma sociedade regida
por uma cultura capitalista em que o mercado determina o que possui
As discussões e reflexões iniciais sobre como iria se estruturar o
valor, sobretudo para aqueles sujeitos cuja formação deu-se sob a ótica
processo de produção - em uma perspectiva que visualizasse a totalidade
do ser empregado. A divisão do trabalho acaba por impedir a visão do
do processo - desde a chegada da madeira até o produto final, incluindo
todo. O trabalhador, ainda que não tenha a experiência direta da fábrica,
escritório, refeitório e limpeza do barracão, suscitaram algumas
possui em seu imaginário um olhar fragmentado e, quando colocado na
dificuldades. Em primeiro lugar, vem claramente a questão de gênero.
perspectiva de trabalhador e organizador do trabalho, não consegue em
Segundo a fala de um cooperado, “é difícil [...], as mulheres não podem
um primeiro momento, reconhecer o conjunto de necessidades, pois seu
fazer algumas tarefas porque são muito pesadas e os homens não vão
referencial é de partes e sempre por meio da sujeição do trabalhador a
limpar banheiro ou cozinhar, isso é coisa de mulher”. Essa fala, assim
um planejador na perspectiva do taylorismo (Carmo, 1992). Torna-se
como outras que surgiam em meio às discussões, denunciam
difícil uma visão capaz de reconhecer e valorizar o global, constituído de
claramente o que (Prates apud Anteag, 2004, p. 148) afirma a respeito
diferentes momentos. Novamente, temos traços de uma cultura
da visão construída em nossa sociedade a propósito do trabalho
organizacional que é inerente à maioria das organizações e, mesmo em
feminino. A participação das mulheres em cargos que ainda
meio a transformações relacionadas à gestão participativa, co-gestão e
representam uma extensão das funções domésticas, relacionadas
outras formas que se têm desenvolvido nas últimas décadas, permanece
principalmente ao cuidar, reservando aos homens cargos por excelência
4 com traços marcantes da fragmentação do trabalho e ausência de
masculinos (chefia, vendas e outros) .
significado aos trabalhadores.
A elucidação dessas questões, dentre outras, permitiu estabelecer
Fizeram-se necessários diferentes exercícios a fim de elucidar as
um plano de trabalho com uma demanda de ações, refletidas e decididas
representações contidas na fala da maioria dos cooperados e que
pelos cooperados. A necessidade de entender e refletir o porque de
denunciavam um visão de trabalho ainda muito distante do que
determinadas proposições que se levadas a cabo, estariam contrariando
estávamos dispostos a construir. O diálogo se viu marcado por questões
os princípios e valores que o próprio grupo defendia. Ou o difícil
como: O que é trabalho? O que determina os significados e sentidos que
exercício de deslocar o discurso que facilmente é incorporado, para a
ora se apresentam como corretos e, portanto, únicos? Enfim, era
prática. Surgiu a necessidade explícita de desvendar o que não era
necessário o resgate histórico a fim de compreender como
aparente, mas que, se negado, poderia impedir a continuidade das
determinadas visões e práticas foram se construindo em detrimento
discussões e a proposição das ações necessárias à reestruturação da
outras. Em seguida, optou-se por realizar o levantamento sobre as
cooperativa.
motivações para o trabalho, as habilidades individuais, porém sem
4
Cabe a empreendimentos que buscam construir uma outra lógica de organização, tendo como negligenciar o encontro com o prazer na realização deste fazer. Neste
pressupostos relações mais justas e solidárias, refletir sobre todas as formas de dominação e poder que
não devem encontrar ressonância e ser reproduzidas nesse espaço como também um exercício diário caso, tendo como pressuposto o fato de que cada um possui suas
rumo a uma outra cultura.

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particularidades e potenciais e cooperar não significa a negação das produção por um determinado período da semana.
diferenças, mas sim a sua valorização em consonância com os interesses
Além do planejamento e avaliação do trabalho, esse espaço
do coletivo de trabalhadores.
configurou-se também como um momento de reflexões sobre as
Dado este primeiro passo, após vários encontros, respeitando-se o dificuldades e conflitos experimentados pelo grupo, uma vez que as
tempo do grupo, constituiu-se um desenho organizacional. Num diferenças estão sempre presentes. Como afirma Sato (1999), esse tipo
primeiro momento, houve certa resistência, insistiam na idéia de que de organização encontra-se dinamizado o tempo todo pelo binômio
não havia uma organização. Entretanto, a estruturação do processo se cooperação-confrontação. Todavia, a construção de um espaço para a
deu em grande parte, segundo a forma como realizavam o trabalho confrontação impõe, obviamente, inúmeras dificuldades,
cotidianamente, uma vez que, encontravam-se trabalhando, mesmo que principalmente quando isso representa uma diferença substancial em
em ritmo lento. Surgiu, uma lógica de organização muito peculiar e, relação a todas as experiências laborais anteriores do grupo. Portanto,
portanto, distinta de outras formas pré-estabelecidas. Construída num esse espaço para o confronto foi construído com muitas horas de
contínuo de discussões, testando, voltando a discussão e resolvendo assuntos e discussões que camuflavam o que realmente estava em
questões novas, surgidas na prática. Felizmente este processo é questão.
permanente visto que se trata de uma organização autogestionária as
Outro aspecto discutido, refere-se ao registro de regras para firmar
regras vão se estabelecendo a partir do consenso. Muitas vezes o que em
algumas das decisões e estabelecer a disciplina necessária ao andamento
alguns momentos parece satisfazer a todos, em outro retorna como
do empreendimento. Em princípio, o mecanismo usual e estabelecido
problema a ser novamente resolvido em face aos desafios impostos pela
seria o Regimento Interno, porém percebeu-se que essa estrutura não
realidade.
respondia às necessidades do grupo. Normalmente o RI apresenta-se
Nessa fase, fazia-se necessário a criação de um espaço efetivo de com uma formalidade jurídica muito distante da realidade cotidiana dos
validação dos acordos de participação de todos os cooperados sobre as cooperados e, conseqüentemente, não responde satisfatoriamente ao
decisões relativas ao 'quê', 'quando', e 'quanto' poderia ser produzido, seu fim. Após várias sessões com esse tema, o grupo optou por formalizar
assim como as necessidades do empreendimento. Foram criados alguns princípios no seu próprio ritmo, na medida em que a necessidade
mecanismos que propiciassem um fluxo de comunicação capaz de apresentava-se. Portanto, as regras foram se desenhando sem uma forma
permitir a interação de todos nas discussões e tomadas de decisões. pré-estabelecida, mas de acordo com o entendimento de que
Dessas discussões, saíram comissões responsáveis pela organização dos necessitavam de um instrumento efetivo e não apenas de mais um
diferentes setores, no intuito de realizar um elo para tomada de decisão, documento a ser arquivado.
com a participação total do grupo, uma vez que contariam com a
Percebeu-se também que, no grupo, somente um dos cooperados
participação de apoiadores a fim de diluir as responsabilidades entre
mais antigos possuía os raciocínios matemáticos necessários à
todos. Essa proposta veio no sentido da negação da centralização de
produção. Foi consenso a necessidade de investimentos em formação,
informações, pelos responsáveis pelo escritório, diretoria ou por
não só entre os que estavam chegando, mas também para o grupo como
qualquer outra instância. Também foi consenso do grupo a negação da
um todo. Deu-se início, então, a uma oficina de matemática, no próprio
necessidade de um gerente de produção, tão usual nas empresas de
barracão, ministrada pela equipe de formação. Inicialmente o objetivo
cunho mercantil.
foi trabalhar raciocínios básicos de matemática, em função da realidade
Outra proposta objetivando consolidar a participação de todos nos do grupo, até chegar a raciocínios mais complexos, como cubagem da
processos decisórios e de planejamento foi o reconhecimento do grupo madeira, cálculo de custos e orçamentos.
sobre a necessidade da constituição de um fórum semanal, sistemático e
A qualificação técnica, neste caso, motivada pela consciência de que
permanente de avaliação e planejamento do trabalho. Isso demonstrou,
apenas o domínio de fórmulas não era suficiente, sendo necessário um
para a equipe da ITCP, a maturidade do grupo, na medida em que houve a
trabalho visando a problematização dos conteúdos desenvolvidos em
percepção de que é necessário um espaço sacramentado para o diálogo
consonância com a realidade dos educandos. Tomou-se como referência
coletivo, ainda que para tanto se faça necessário interromper a
teórica o trabalho desenvolvido por Paulo Freire sobre educação popular
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de jovens e adultos em que o processo de ensinar não pode ser identidade própria em termos de organização do trabalho. Nesta
considerado a mera transferência de conhecimento, mas a geração de caminhada, pré-existem os aspectos sócio-históricos e culturais que lhes
possibilidades para a sua própria produção ou construção. (Freire, são inerentes, mas evidencia-se a clareza sobre a necessidade de
1996). Assim, a formação nas diferentes áreas do conhecimento, foi superação de alguns condicionantes que acabam por limitar a
pensada como uma possibilidade concreta de contribuir para a concretização do trabalho verdadeiramente autogestionário. Nesta
emancipação dos sujeitos a partir do domínio de conhecimentos caminhada conclui-se que não há possibilidade de um agente formador
fundamentais ao trabalho e necessários à organização e à gestão do como o caso das Incubadoras, instaurar a autogestão nos
empreendimento. empreendimentos, assim como não se pode considerar que em um
determinado momento haverá a consolidação definitiva de um processo
autogestionário. Se assim o fosse, estaríamos negando a autonomia dos
5 COMENTÁRIOS FINAIS trabalhadores e, portanto, a possibilidade autogestionária. Portanto, o
Em princípio, essas questões podem parecer óbvias em um papel dos agentes formadores refere-se a permanente mediação no
empreendimento que se intitula participativo. Mas o objetivo deste sentido de contribuir para a elucidação dos fatores culturais individuais
texto é alertar para o fato de que somente o que está posto em termos de e coletivos que agem na contramão do cooperativismo autogestionário.
estrutura e funcionamento de uma cooperativa legalmente não Para tanto, torna-se imprescindível à produção teórica e científica a fim
responde a uma gestão verdadeiramente democrática. Assembléias, de subsidiar organizações que não se incluem nos parâmetros
cada cooperado um voto, divisão eqüitativa das sobras e outros aspectos, estabelecidos pela administração. Ainda que tenhamos contribuições
sem dúvida são importantes, contudo, se faz necessária a atuação direta importantes desta área do conhecimento para organizações
sobre a dinâmica organizacional desses empreendimentos para que, autogestionárias, existem algumas especificidades que não são
pautados por realidades concretas, possamos refletir o que na prática respondidas e necessitam de aportes teóricos que contribuam para
deve compor uma cultura autogestionária do trabalho. concretização de uma outra lógica de gestão.

No final de 2003, o que percebemos foi um grupo integrado e


fortalecido em função dos resultados obtidos. Pôde-se constatar, no REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
decorrer de um semestre - período de retomada da produção, até
dezembro do mesmo ano um aumento - significativo da produção. O
faturamento foi gradativamente aumentando, na medida em que o ANTEAG. Autogestão e economia solidária: uma nova metodologia.
grupo se organizava e se fortaleciam os princípios e valores do Brasília: Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de
cooperativismo sobre a organização interna da cooperativa. Autogestão e Participação Acionária. 2004.
Atualmente, o empreendimento consegue operar com pleno emprego
de sua capacidade produtiva, uma vez que obteve a confiança dos
clientes em relação à estrutura existente e, principalmente, em relação ARRUDA, M. Globalização e Sociedade Civil: repensando o
à qualidade de seus produtos. cooperativismo no contexto da cidadania ativa. Trabalho apresentado
na Conferência Sobre Globalização e Cidadania, organizada pelo
A cooperativa encontra-se em um momento de maior tranqüilidade
Instituto de Pesquisas da Organização das Nações Unidas para o
em relação aos aspectos financeiros, mas não há dúvidas de que há um
Desenvolvimento Social, realizado em Genebra, de 9 a 11 de dezembro.
longo caminho a percorrer. Todavia, como equipe da ITCP, certamente
1996.
podemos considerar que esse grupo vem realizando uma trajetória
importante rumo a um tipo de organização que se propõe a negar alguns
pressupostos fundamentais das empresas capitalistas, assim como do BRINK, A. A identidade. In: SANTOS, M. F. S. Identidade e
cooperativismo tradicional. Portanto, o que se percebe é que esse grupo, aposentadoria. São Paulo: EPU. 1982.
como não poderia deixar de ser, encontra-se na construção de uma

192 193
A busca da identidade autogestionária por uma cooperativa popular Andréa M. Hamasaki, Emerson L. S. Iaskio, Fernanda F. Figueira, Guiomara F. de Godoi, Lúcia H. Alencastro

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194 195
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 11

Comércio justo e consumo consciente:


possibilidades de inserção de cooperativas
populares no mercado
Izamara Vanessa Carniatto

1 INTRODUÇÃO
A Economia Solidária, por meio dos empreendimentos associativos e
cooperativos, vem-se traduzindo como uma alternativa ao modelo
econômico capitalista. O movimento cooperativista popular vem sendo
a solução para a organização de comunidades de baixa renda em torno
de um ideal comum: a inclusão social (Singer, 2003). Essas cooperativas
são formadas por um grande contingente de desempregados e
trabalhadores informais, que não conseguem uma recolocação
profissional devido à baixa escolaridade e à desqualificação técnica. Uma
das causas dessa desqualificação é resultado de um sistema de produção
seriado em que o trabalhador passa a conhecer apenas uma pequena
parcela do processo total.
A união das pessoas em cooperativas e associações é apenas o
primeiro passo para a inclusão social propriamente dita. Por meio da
observação do desenvolvimento de algumas cooperativas, é possível
concluir que uma de suas maiores dificuldades é a inserção de produtos
no mercado de maneira competitiva, ou seja, os cooperados não
conseguem agregar valor às relações de troca e, por isso, perdem
competitividade. (CRÚZIO, 2003).
Nas observações dos casos estudados, percebeu-se que existem pelo
menos dois principais motivos básicos, internos às cooperativas, que
levam à dificuldade de inserção. O primeiro é justamente a falta de
recursos para a aquisição de equipamentos e insumos. O segundo fator
decisivo é a dificuldade de desenvolver a autogestão, que é conseqüência
do baixo grau de escolaridade e do histórico de subordinação,
acarretando dificuldades técnicas na gestão de seus empreendimentos.
Faz parte dos princípios do cooperativismo o investimento na
196 197
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

formação das pessoas, mas isso só é possível, se forem geradas sobras tendências de consumo como forma de identificar uma demanda em que
suficientes para serem investidas. O que acontece, na realidade, é que se possa vislumbrar uma colocação para os produtos dos
quanto maior a dificuldade em autogerir-se, menores as chances de empreendimentos de Economia Solidária.
conseguirem, por si próprios, gerar renda e proporcionar formação aos
Tanto o estudo teórico, quanto a pesquisa-ação, foram feitos com o
participantes.
intuito de encontrar alternativas viáveis face à realidade do mercado. Se
Independentemente dos motivos, o fato é que os empreendimentos existe uma tendência de evolução sob a ótica das relações de trabalho e
de Economia Solidária necessitam estabelecer-se em um mercado de organização social a Economia Solidária -, é necessário que haja uma
extremamente competitivo e baseado em uma realidade capitalista. evolução nos padrões de consumo.
Como concorrer com produtos que agregam alta tecnologia, sistemas
de distribuição e comercialização eficientes, além de estratégias
persuasivas de marketing? Como um empreendimento de Economia 3 PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES
Solidária pode ser viável, gerando renda e inclusão social, diante desse
A partir da globalização e das conseqüências sociais do capitalismo, a
cenário e com as dificuldades indicadas?
economia, segundo Ribas (2005), está divida entre vencedores e
Uma possível resposta para essas questões é o comércio justo, cujo perdedores, criando-se um abismo entre a minoria abastada e a grande
objetivo primordial é tornar as relações de troca, principalmente as massa desprovida. Em uma tentativa de amenizar essas desigualdades
internacionais, mais equânimes para os produtores menos favorecidos. sociais, surgiu o Estado de Bem-Estar Social. Essa nova forma de Estado
Existe uma possibilidade de unir-se uma nova forma de comércio com obteve sucesso por certo tempo, mas a globalização enfraqueceu as
uma tendência de organização do trabalho com objetivos em comum, fronteiras nacionais, dificultando a capacidade estatal de implementar
com benefícios para ambos, embora possam parecer distantes entre si. políticas públicas de combate às desigualdades.
[...] Esse contexto favorece o ressurgimento de uma reflexão ética que
propõe novos rumos para o desenvolvimento a partir de valores como a
2 QUESTÕES DE MÉTODO democracia participativa, a justiça social e a sustentabilidade. O comércio
justo e solidário se insere entre tais propostas. (Ibidem).
Para a realização deste trabalho, foram utilizadas a pesquisa-ação e a
Aos poucos, a sociedade dá-se conta de que sua participação é
pesquisa bibliográfica. A pesquisa-ação pode ser definida como:
indispensável para a melhoria da qualidade de vida, com inclusão social
um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada
e, principalmente, com sustentabilidade local. Segundo o relatório
em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema
coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da Pesquisa Mundial Comércio Justo (SEBRAE, 2004), a partir da década
situação ou problema estão envolvidos de modo cooperativo ou de 90, houve uma desestruturação familiar, invasão das pequenas
participativo. (THIOLLENT, 1986). cidades pelas grandes redes de varejo, aumento do desemprego, aperto
Este artigo foi realizado com base no trabalho desenvolvido junto às econômico de pequenos fazendeiros perante as exigências do mercado,
cooperativas acompanhadas pela Incubadora Tecnológica de sensação de impotência diante das empresas transnacionais,
Cooperativas Populares da Universidade Federal do Paraná (ITCP- degradação do meio ambiente e destruição da relação entre consumidor
UFPR). Por meio do contato com as cooperativas apoiadas, é que se e produtor (muitas vezes, não sabem mais quem produz nem como são
chegou aos questionamentos apresentados. A Incubadora possui uma feitos os produtos). De certa forma, esses acontecimentos colaboraram
equipe interdisciplinar que contribuiu com diversos conhecimentos, para que as pessoas percebessem, que são atores sociais importantes
fundamentais para sua realização, bem como do trabalho nas nesse processo, e que podem contribuir para uma sociedade mais
comunidades. equânime, se consumirem de maneira mais consciente.

A partir da pesquisa empírica da realidade das cooperativas, iniciou-


se a investigação teórica em busca de alternativas para a situação
apresentada, procurando estudos sobre a realidade do mercado e das
198 199
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

4 COMÉRCIO JUSTO grandes perspectivas de crescimento. As expectativas vêm


principalmente da comercialização dos produtos orgânicos: as
Segundo a IFAT (International Federation of Alternative Trade apud
estatísticas indicam que o consumo desse tipo de produto subiu 40 vezes
SEBRAE, 2004, p. 13):
nos últimos dez anos, sendo que a projeção de aumento para os próximos
O comércio justo é uma parceria comercial baseada em diálogo, [...] que
anos é de 10% a 15% ao ano. (SEBRAE, 2004, p. 31).
busca maior eqüidade no comércio internacional. É uma modalidade de
comércio que contribui para o desenvolvimento sustentável por meio de Não se pretende, neste artigo, encarar o comércio justo como o foco
melhores condições de troca e da garantia dos direitos para produtores e
da negociação dos produtos de Economia Solidária, apesar de muitos
trabalhadores marginalizados principalmente do [Hemisfério] Sul. (IFAT
apud SEBRAE, 2004, p. 13). grupos no mundo o praticarem com muito sucesso (mesmo porque a
atuação desse movimento ainda é relativamente pequena, além da
Os princípios básicos do comércio justo são “gerar oportunidades
abrangência limitada dos produtos que comercializam). O que se
para os produtores economicamente em desvantagem”, além de atuar
pretende é observar essa mudança positiva nas relações de troca e passar
como “estratégia para a diminuição da pobreza e do desenvolvimento
a adotar esses procedimentos em todo o comércio realizado entre os
sustentável. Seu propósito é gerar oportunidades para produtores que
grupos populares.
foram explorados economicamente ou marginalizados pelo sistema
convencional de comércio”. (SEBRAE, 2004, p. 13). Talvez uma das conseqüências mais relevantes do movimento de
comércio justo seja a afirmação de um público consumidor solidário e
Para que esses propósitos sejam aplicados, as entidades ligadas ao
consciente. Essa consciência ainda é maior nas camadas mais
comércio justo realizam a certificação dos produtos que comercializam.
esclarecidas, mas, ainda assim, as preocupações socioeconômicas estão
Por meio de um selo, os consumidores têm como reconhecer a
cada vez mais, fazendo parte das conversas do dia-a-dia dos cidadãos. “O
legitimidade dos produtos que adquirem nas mais de três mil world
consumidor busca produtos de maior valor social agregado. Ele quer
shops em toda Europa. Nessas lojas são oferecidos diversos produtos,
poder identificar-se com o produtor, deseja contribuir para uma coisa
entre os quais os mais vendidos são os alimentos, com 69,4%, e o
em que acredita”. (SEBRAE, 2004, p. 48).
artesanato, correspondente a 24,5% do total. A ligação entre o produtor
e as world shops é realizada pelos importadores ligados às entidades de
comércio justo. A idéia é que se reduza o número de atravessadores, 5 CONSUMO CONSCIENTE
garantindo, dessa forma, um preço final mais competitivo (idem, p. 21).
Em paralelo ao desenvolvimento do Comércio Justo, observa-se uma
Pode-se considerar que o comércio justo teve início por volta da tendência de consumo, sendo denominada “consumo consciente”, que é
década de 1940, quando diversas pessoas, ligadas a entidades religiosas “a capacidade de cada pessoa ou instituição, pública ou privada,
que realizavam missões nos países do “Terceiro Mundo”, começaram a escolher e/ou produzir serviços e produtos que contribuam, de maneira
levar produtos artesanais para comercializar nas suas cidades de origem ética e de fato, para a melhoria de vida de cada um, da sociedade e do
no intuito de colaborar com os produtores. A partir dessas iniciativas e ambiente”. (INSTITUTO KAIRÓS, 2005). O consumidor consciente é a
com o aumento considerável das vendas, surgiram as ATOs - Alternative pessoa que utiliza seu poder como propulsor da economia de maneira
Trade Organizations -, que passaram a realizar a importação e a solidária, ou seja, direcionando sua compra para produtos que estejam
exportação dos produtos. O processo continuou e criaram-se diversas engajados nas questões sociais e ambientais.
entidades com diferentes atribuições. Segundo a FLO (Fairtrade
Labelling Organization), o comércio justo certificado cresceu 18% de A pesquisa “Descobrindo o Consumidor Consciente”, realizada pelo
1997 (ano em que começou) a 2001 e chegou a 31% em 2002/2003. Instituto Akatu em 2003, investigou treze atitudes consideradas
Cerca de 800 mil famílias na África, na América Latina e na Ásia foram conscientes. Entre elas, podem-se citar comportamentos como desligar
beneficiadas. (SEBRAE, 2004, p. 23-25). aparelhos eletrônicos enquanto não são usados, pedir nota fiscal nas
compras e ler o rótulo antes de decidir a compra. Os consumidores
Apesar desse crescimento, o comércio justo representa ainda menos considerados conscientes adotaram de onze a treze dessas atitudes,
de 0,1 % da movimentação total do comércio global, embora com correspondendo a 6% da população. Foram considerados consumidores
200 201
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

comprometidos os que adotaram de oito a dez atitudes (cerca de 37% do elas são importantes para a coletividade, o que supõe que essas pessoas
total). Os considerados menos responsáveis foram os denominados têm um estilo de vida voltado para a sustentabilidade.
“iniciantes” (54% do total, com três a sete atitudes) e os indiferentes
O avanço da consciência do consumidor com relação ao seu papel
(3% do total, adotando menos de três atitudes).
primordial dentro do sistema econômico em que nos inserimos,
Um dos resultados mais relevantes dessa pesquisa é que as pessoas caminha para a concretização de um processo de desenvolvimento
consideradas conscientes estão bem distribuídas entre as classes sustentável. Segundo o Instituto AKATU (2004, p. 7), “esse processo
sociais, os níveis de escolaridade, os estados civis e as faixas de renda. inclui a busca do equilíbrio entre as necessidades individuais, as
Quanto ao grau de escolaridade, por exemplo, 24% têm nível superior, possibilidades ambientais e as necessidades sociais nas três etapas de
39%, nível médio e 37%, nível fundamental. consumo: compra (escolha), uso e descarte”.
Essa é uma informação muito interessante, pois mostra o papel que a Essas mudanças nas relações de troca podem significar a abertura de
mídia em geral tem sobre a conscientização da população, compensando
parcialmente o nível educacional mais baixo e o acesso menos consistente
um novo horizonte aos empreendimentos de Economia Solidária. Se
à informação dado pela renda mais baixa. Como conseqüência, ao levarmos em consideração o crescimento, por parte do consumidor, da
contrário do que se poderia esperar, o nível de consciência não está consciência de sua responsabilidade como cidadão, podemos entender
exclusivamente vinculado à escolaridade e ao poder aquisitivo. (AKATU, que o ciclo produção-comercialização-consumo fecha-se sem que se
2004, p. 15).
perca o ideal solidário. Tem-se, então, a produção por empreendimentos
É possível traçar, portanto, o perfil do consumidor consciente no de Economia Solidária, a comercialização justa e o consumo consciente.
Brasil. São pessoas predominantemente das classes A e B - apesar da
participação significativa das outras classes -, têm mais de 40 anos, são
casados e têm nível superior de instrução. (idem). Na pesquisa sobre 6 COMÉRCIO JUSTO, CONSUMO CONSCIENTE E ECONOMIA
comércio justo, a definição do perfil de consumidores de seus produtos SOLIDÁRIA
na Europa é parecida com a dos consumidores conscientes no Brasil:
O comércio justo e o consumo consciente não são conseqüências
pessoas com mais de 35 anos, principalmente mulheres das classes A e
diretas do movimento de Economia Solidária, porém se inserem em seus
B, com perfil não-materialista, que “escolhem profissões com maior
preceitos. Ou seja, um movimento não causou o surgimento do outro,
retorno intelectual que financeiro. Eles não gastam seu dinheiro com
pois eles são resultados distintos da evolução nas relações de troca em
artigos de luxo, mas também não são atraídos pelos baratos”. (SEBRAE,
direção à maior justiça. De qualquer forma, seus conceitos estão
2004, p. 49).
profundamente interligados com os do cooperativismo e, em
É um público que, diante da possibilidade de escolha entre um conseqüência, com os da própria Economia Solidária.
produto de comércio justo que corresponda a todas as suas
A questão que se apresenta neste momento é: o comércio justo e o
preocupações sociais e um outro que não, com certeza comprará o
consumo consciente são realizados na Economia Solidária em geral e no
primeiro. Porém, não adianta que este produto satisfaça somente às
cooperativismo em particular? Algumas iniciativas vêm surgindo, mas
questões sociais, se não o faz nas questões de funcionalidade, qualidade
ainda são incipientes. A possibilidade de se inserir os objetivos destes
e preço. Ou seja, eles não realizam a compra por caridade, embora sejam
dois movimentos na realidade cotidiana das cooperativas pode ocorrer
capazes de pagar um pouco mais pelo produto caso o seu diferencial
por meio da intercooperação, que é um dos princípios do
social pareça-lhes justificável.
cooperativismo. Segundo a OCB (2005) “as cooperativas servem de
A pesquisa junto ao consumidor brasileiro mostrou também que, maneira mais eficaz os seus membros e dão mais força ao movimento
dentre as atitudes que dizem respeito à questão solidariedade, as três cooperativo, trabalhando em conjunto, por meio das estruturas locais,
que os consumidores conscientes declararam praticar com maior regionais, nacionais e internacionais”, promovendo e incentivando a si
freqüência são: separação do lixo para reciclagem feita pela família, próprios.
compra de produtos reciclados e de alimentos orgânicos. Apesar de
É primordial para o crescimento das cooperativas, que a iniciativa de
essas atitudes não beneficiarem diretamente aqueles que a praticam,
202 203
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

um comércio mais justo parta delas mesmas, por meio da contribuir para o aumento da consciência de compra entre seus
intercooperação. A compra de produtos e a contratação de serviços cooperados.
devem ser realizadas prioritariamente com outros empreendimentos de
O número de cooperados nas cooperativas de consumo, também
Economia Solidária. Dessa forma, a competição no mercado contra
pode comprovar que há uma demanda por parte desses consumidores
empresas que não possuem esses preceitos torna-se menos onerosa,
para a satisfação de suas necessidades por meio de uma compra mais
além de viabilizar-se o crescimento das cooperativas envolvidas. Essa
responsável. Mesmo que, em princípio, o fator de adesão mais
prática deve ser adotada como uma alternativa real e plenamente viável
importante seja a aquisição com valores mais acessíveis, a possibilidade
de comercialização dos produtos do movimento solidário.
de adquirir-se produtos orgânicos ou provenientes de grupos populares
Contudo, vários problemas acontecem para que a intercooperação poderia ser mais um atrativo e, possivelmente, conseguiria atrair mais
ocorra, que prejudicam a prática dos conceitos citados anteriormente; pessoas e, com isso, ampliar o quadro de associados.
entre eles, talvez o maior seja a falta de maturidade do movimento
Na Europa, um dos impulsionadores da Economia Solidária é
cooperativista no Brasil. Por outro lado, é preciso ter em mente que os
justamente o consumo, ao contrário do que acontece no Brasil. Aqui, os
produtos de cooperativas devem, antes de tudo, ser compatíveis em
principais empreendimentos de Economia Solidária partem da
quantidade, qualidade e preço com relação aos demais ofertados no
necessidade de geração de renda e da luta contra o desemprego,
mercado.
enquanto na Europa a demanda pela Economia Solidária parte
As cooperativas de consumo são outra forma solidária de justamente da conscientização do consumidor e da criação do comércio
comercialização. Nesse caso, o consumidor é o próprio cooperado, que justo.
se beneficia adquirindo produtos de qualidade com preços acessíveis.
Na Itália, um dos maiores fenômenos espontâneos ligados ao
Estes grupos têm por finalidade comprar bens tais como alimentos,
consumo crítico é a criação dos GAS, “Gruppi di Acquisto Solidale”,
vestuário, eletrodomésticos e outros com a finalidade de revender a seus
grupos de consumidores que decidem adquirir coletivamente produtos
próprios associados. Seu surgimento no Brasil vinculou-se à
alimentares e de consumo diário, produzidos de maneira ética e
implantação das grandes indústrias na região Sudeste na década de
ecológica. Esses grupos têm diferentes formas organizacionais:
1950, como a Volkswagen e a Rhodia. A partir da década de 1970, essas
cooperativas, associativas ou mutualísticas. Esses empreendimentos
cooperativas passaram a sentir as mudanças no setor varejista e, nos
têm-se unido em uma rede de Economia Solidária da qual fazem parte
anos 1990, o número desses empreendimentos foi reduzido em 39%
distritos que tem como objetivo realizar o desenvolvimento local e a
(Pires, 2004, p. 57). Em 2003, estavam registradas na OCB 158
divulgação desse pensamento. Em Milão, em 2004 realizou-se uma feira
cooperativas de consumo, que correspondem a apenas 2,15% das
com milhares de participantes, chamada “Fà la cosa giusta!” que reuniu
cooperativas do Brasil. Todavia, o quadro de associados ainda é o maior
diversos GAS para a comercialização de produtos do comércio justo e
do país, correspondendo a 33% dos cooperados.
divulgação de um estilo de vida sustentável. Outros distritos também
É interessante perceber que, se um terço do total dos cooperados no realizaram eventos similares como “Festa dell'Altraeconomia” em
Brasil são justamente de cooperativas de consumo, isso pode significar Roma, “Terra Futura” em Firenze e “Eco&Equo” em Ancona.
que os consumidores (cooperados) buscam, ao associarem-se a esse tipo
Se as cooperativas de consumo no Brasil têm como base as grandes
de cooperativa, algumas vantagens ou facilidades que aparentemente
empresas por meio de seus funcionários, na Itália, como foi dito, isso
não encontram no mercado em geral. Se partirmos do pressuposto de
parte da iniciativa dos consumidores. De certa forma, a contribuição
que o grau de consciência para o consumo dessas pessoas é maior pelo
brasileira para a criação dos GAS veio das obras de Euclides Mance,
fato de participarem de um empreendimento solidário, podemos
bastante citado nos trabalhos italianos. No Brasil, no entanto, iniciativas
concluir que, se as cooperativas de consumo, além de oferecerem
de grupos de aquisição coletiva e solidária ainda são poucas. Podem-se
vantagens econômicas aos seus cooperados, oferecessem também um
citar a Cooperativa Mista de Consumo, Produção, Trabalho e Compras
produto adquirido de forma justa e tivessem, também preocupações
Coletivas em Porto Alegre (RS) e o Grupo de Consumo Crítico Solidário
ambientais, poderiam colaborar para uma economia mais justa e
e Coletivo de Passo Fundo (RS). Talvez a experiência européia possa
204 205
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

servir de referência para a organização de grupos como estes, que amadorística, pouco profissional. Por meio do perfil do consumidor
colaboram para a inserção dos demais empreendimentos nesse consciente abordado acima, podemos ver que esses eventos têm de
mercado. Outra alternativa, é a criação de feiras como as citadas transmitir para este público confiabilidade, sendo bem organizadas e
anteriormente, em que diferentes cooperativas possam comercializar oferecendo produtos com qualidade e preços compatíveis.
seus produtos diretamente.
A primeira coisa a se pensar é que esses consumidores são, acima de
Comparando as realidades européia e brasileira com relação ao tudo, pessoas com desejos e necessidades reais e quando vão a essas
desenvolvimento da Economia Solidária, é possível dizer que, na Europa, feiras, buscam essa satisfação. Portanto, se nesse momento essas
há um ciclo fechado: uma demanda, por parte dos consumidores, por pessoas perceberem que os ideais das feiras são outros (político-
produtos que sejam éticos e ecológicos que é correspondida pela criação partidários, por exemplo), que não a satisfação de seus anseios, sentir-se-
do comércio justo. No Brasil, por outro lado, vemos uma grande ão manipuladas, desacreditando as iniciativas. Se as feiras também têm
quantidade de pessoas que têm preocupações com o que consomem, por objetivo a divulgação da responsabilidade do consumo e dos
mas não encontram uma resposta direta às suas demandas, ou seja, empreendimentos envolvidos, essas questões devem ser abordadas com
locais em que possam encontrá-los. profissionalismo, de maneira que fique claro que o seu objetivo principal
é realizar a troca entre o produtor e o consumidor, satisfazendo as
Existe, no Brasil, uma movimentação muito grande quanto à criação
necessidades de ambos.
de empreendimentos de Economia Solidária, embora a distribuição de
produtos seja ainda muito tímida. A cada dia surgem novas lojas Além das feiras, lojas como as world shops são pontos de venda
interessadas em comercializar os produtos de “comunidades”. Mas até permanentes localizadas em regiões de boa circulação, onde toda e
que ponto essas iniciativas têm obtido sucesso? E de que forma essa qualquer pessoa pode entrar, comprar e passar a conhecer os produtos.
comercialização é feita? De maneira justa? Essas lojas tornam-se pontos de referência para as compras diárias, já
que as feiras não são permanentes. No Brasil existem lojas como a
O comércio, de maneira geral, está buscando esses produtos. Veja-se
Boutique Solidária - iniciativa de uma organização não-governamental
a campanha de diversas lojas de alto padrão que inseriram produtos de
chamada Parceiros da Vida - que comercializa diferentes produtos
grupos populares entre os seus como uma forma de mostrar sua
ecológicos e socialmente corretos. Entretanto, iniciativas como essa
“responsabilidade social” e assim angariar os consumidores
ainda são poucas.
conscientes. Será que essas redes perceberam o crescimento da
demanda desse tipo de consumidor antes do movimento de Economia Nas world shops os produtos são certificados por institutos como o
Solidária? Em nossa opinião, possivelmente sim. O que ocorre é que, Transfair e o Max Havelaar, reconhecidos por sua idoneidade. As
muitas vezes, o discurso no meio da Economia Solidária torna-se muito iniciativas como a Boutique Solidária do ponto de vista do consumidor,
teórico e pouco prático. Se percebermos o número de seminários e ainda não tem tanto renome, o que pode tornar difícil para o consumidor
encontros voltados para a discussão dos pressupostos da Economia distinguir lojas realmente preocupadas com as questões sociais e outras
Solidária, resumidos a um grupo relativamente pequeno de pessoas, que se aproveitam disso para lucrar. Por isso, a certificação traz maior
veremos que, em contrapartida, a realização de ações voltadas à confiança e, conseqüentemente, mais venda.
comercialização dos produtos é insuficiente.
Mesmo que feiras e lojas contribuam para que o consumidor tenha
É importante notar que, mesmo quando se realizam feiras de um acesso mais fácil aos produtos, ainda existe mais uma dificuldade
Economia Solidária, o seu público permanece restrito às mesmas exposta a seguir. Considerando o perfil dos consumidores, vemos que a
pessoas que já conhecem o ideal solidário. Não se pretende criticar essas maior parte ainda pertence às camadas A e B da sociedade. Assim,
ações, pois sua importância é reconhecida, porém, é preciso ampliar sua muitas vezes, é difícil para as cooperativas populares conseguirem
abrangência, divulgando-o e promovendo-o para mais pessoas. vender seus produtos (principalmente os não-alimentares), pois as
realidades entre produtores e compradores são muito distintas. Seus
Se uma forma viável de atingir o consumidor é por meio das feiras, o
padrões estéticos e seus valores são bastante diferentes, podendo
primeiro ponto a ser modificado é que estas são realizadas de maneira
comprometer a satisfação das necessidades destes consumidores.
206 207
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

Geralmente os grupos populares colocam em seus produtos as ideais em comum.


características daquilo que os agradam. No entanto, os compradores
Sabe-se que essas cooperativas não são auto-suficientes entre si.
podem não se identificar com essas características.
Muitas vezes, as demandas não podem ser supridas por outros grupos e
Em várias situações não há necessidade de adaptação da produção, nem mesmo o número de pessoas envolvidas e potenciais compradores
pois os valores dos consumidores e dos estilos dos produtos acabam são compatíveis com a realidade de suas necessidades.
correspondendo-se. Porém, em outros casos, para suprir as necessidades
Diante disso, buscou-se, a partir de uma compreensão mais acurada
do consumidor, será preciso que a cooperativa adapte seu produto.
do que vem acontecendo na Europa, o comércio justo, base para
compreender como a comercialização é feita lá e de que forma podemos
utilizar-nos dessas idéias para impulsionar a comercialização aqui. O
7 CONCLUSÕES comércio justo age realizando a venda para um determinado público,
É possível dizer que existe um crescente mercado potencial para os que pode ser denominado de “consumidores conscientes” (também
produtos de Economia Solidária, que vêm ao encontro das necessidades chamados “responsáveis” ou “solidários”). Essa conscientização do
de inserção dos produtos de cooperativas já apresentadas. É necessário consumidor é uma tendência mundial diante da busca por uma
enfatizar que o mercado é crescente, mas que o produto de sociedade mais justa.
empreendimentos solidários deve ser competitivo em aspectos, como
A partir disso, compreende-se que uma outra forma de realizar a
qualidade e adequação à demanda. Para o consumidor, “o fato de o
comercialização dos produtos de cooperativas populares é satisfazer a
produto ser de comércio justo lhes é simpático, mas não
demanda dos consumidores conscientes. Mas, para atingi-los, é preciso
necessariamente os faz gastar muito dinheiro regularmente. Este tipo
ter pontos de venda que facilitem sua integração com os produtos das
de cliente espera uma qualidade alta ou um produto único em troca de
cooperativas. Esses locais podem ser lojas exclusivas para sua
um preço mais elevado”. (SEBRAE, 2004, p. 49).
comercialização, com certificação de origem que dê garantia aos
Sugerimos, a seguir, alguns caminhos pelos quais se pode vislumbrar compradores, do destino social de sua compra. Além das lojas, podem
a geração de renda e inclusão social das pessoas envolvidas nos ser realizadas feiras - que reúnam diversos produtores - organizadas de
empreendimentos de Economia Solidária. maneira profissional e que se utilizem uma boa campanha de
comunicação. Tudo isso, com o objetivo de que o público em foco
O primeiro deles é a implementação de um princípio básico do
identifique-se com a causa e passem a colaborar com ela, além de atingir
cooperativismo, a intercooperação, para que haja uma relação maior
outras pessoas que porventura não tenham ainda essa preocupação, mas
entre as cooperativas e, com isso, seu fortalecimento.
que a partir de então passem a tê-la.
Um segundo caminho pode ser o da criação de cooperativas de
De modo geral, o cenário para esses empreendimentos demonstra-se
consumo consciente. Essas cooperativas, a exemplo das italianas, farão
positivo. A base para isso, no entanto, depende muito da divulgação dos
a comercialização de produtos adquiridos de outros empreendimentos
ideais da Economia Solidária e que ela passe a ser reconhecida como
de Economia Solidária com a remuneração justa dos produtores, tendo
forma legítima de organização que busca a diminuição das
sempre em vista as questões de sustentabilidade ambiental.
desigualdades por meio de ideais de democracia, solidariedade e
Essas duas propostas visam à comercialização entre pessoas que, igualdade. Espera-se também que os consumidores solidários
cooperadas ou participantes ativas de redes solidárias, já que atingidas aumentem entre todas as camadas, que tenham ciência de que são
por essa rede, constituem um grupo de consumidores. O que ocorre, atores sociais importantes para concretização dos ideais acima
muitas vezes, é que as cooperativas populares tentam, sem muito mencionados e que, por meio de suas atitudes, tenham o poder de
sucesso, a comercialização entre empresas sem preocupações sociais, viabilizar o desenvolvimento sustentável local e, como conseqüência, o
cujo interesse básico é o preço e a qualidade do produto que estão global.
comprando, independentemente se são feitos por grupos populares ou
não, e, com isso, deixam de trabalhar em conjunto com aqueles que têm
208 209
Comércio justo e consumo consciente Izamara Vanessa Carniatto

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210 211
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 12

Viabilidade econômica de empreendimentos de


economia solidária: estudo de caso da Coopermandi¹
Maria Madalena Bal

1 INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho é avaliar as dificuldades de elaboração de
estudos de viabilidade econômica de empreendimentos associativos
populares, que demonstram bastante fragilidade e devem merecer toda
a atenção, colocando-se na pauta das discussões da Economia Solidária.
O estudo de caso procura ilustrar os fracassos e os êxitos de uma
cooperativa de produção, a Cooperativa de Produtores Rurais e Artesãos
de Mandirituba (Coopermandi).
A Cooopermandi é uma das cooperativas atendidas pela Incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal do
Paraná (ITCP-UFPR), que contribui para a formação, constituição e
consolidação de empreendimentos populares organizados
coletivamente e executa um trabalho interdisciplinar fundamentado na
participação efetiva dos membros dos empreendimentos na sua
organização e gestão. A metodologia adotada para obtenção dos dados
deste estudo foi a pesquisa, com atividades realizadas no próprio local de
trabalho da cooperativa. Os dados empíricos foram anotados e
sistematizados a partir de ações como o planejamento participativo e a
avaliação continuada (dados obtidos no primeiro semestre do ano de
2005).
O entendimento coletivo das condições necessárias à viabilidade
econômica da atividade desenvolvida e a elaboração de estudos
econômicos são algumas das debilidades dos empreendimentos
populares e solidários, que devem ser enfrentados com conhecimentos e
procedimentos adequados. Há uma complexidade nos conceitos de
¹ Artigo apresentado na IIª Jornada Universitária sobre Cooperativismo, Economía Solidária y Procesos
Asociativos de la Universidad de la República, realizada em Montevidéu Uruguai nos dias 10 e 11 de
novembro de 2005.

212 213
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal

viabilidade econômica que é preciso desmistificar. Além do domínio dos novas experiências representariam a emergência de um novo modo de
cálculos, faz-se necessária a interpretação e a utilização dos resultados organização do trabalho e das atividades econômicas em geral. Porém,
das contas realizadas para o fortalecimento das organizações solidárias. há posições que afirmam ser a Economia Solidária um instrumento do
próprio capitalismo, sendo uma política compensatória que se abriga
Nas organizações populares, para que o projeto tenha sucesso, é
sob o modo de produção vigente.
essencial que o estudo de viabilidade seja feito com a participação
consciente de todos os envolvidos. É necessário que todos tenham as As cooperativas apareceram no meio capitalista, em meados do
informações corretas para avaliar e decidir, com segurança, sobre a século XIX, como reação às conseqüências da doutrina liberal e
viabilidade do projeto que pretendem implementar. Para isso, é preciso o individualista (aumento da fome, miséria e penúria). Mais
entendimento de que os empreendimentos solidários possuem uma recentemente, ressurgiram, após tempo de dormência, fortalecidas
lógica diferente da empresa capitalista. São necessários ganhos como uma das possibilidades de resgate da cidadania econômica, da
econômicos que sirvam ao fortalecimento do trabalho em grupo, construção da igualdade e do combate à exclusão social, para as vítimas
estimulando as iniciativas econômicas solidárias e a capacidade de das desigualdades geradas pelas mazelas da globalização e de políticas
iniciativa. Porém, de modo a proporcionar melhor relação entre os neoliberais.
associados.
O que distingue o “novo cooperativismo”, de acordo com Cláudio
A eficiência dos empreendimentos associativos não pode ser medida Nascimento (s/d), é a volta aos princípios originais, o grande valor
apenas pela capacidade de os integrantes transformarem-se em atribuído à democracia e à igualdade e a persistência em atingir a
pequenos ou médios empresários, mas também pela sua capacidade de autogestão. De acordo com esse autor, a estratégia da Economia
assegurar e ampliar postos de trabalho, condições efetivas de Solidária se fundamenta na tese de que as contradições do capitalismo
administração participativa, autônoma e responsável e de gerar novos criam oportunidades de desenvolvimento de organizações econômicas
empreendimentos solidários e populares. Nesse sentido, a lógica do cuja lógica é oposta à do modo de produção capitalista. O ressurgimento
trabalho associativo difere da lógica empresarial, que procura apenas a e o avanço de práticas cooperativistas não dependem apenas dos
eficiência, a competitividade e a produtividade. próprios excluídos e não prescindem do apoio estatal e dos fundos
públicos. Porém, de acordo com o projeto socialista, a construção da
O texto está estruturado da seguinte forma: a parte 1 refere-se à
Economia Solidária depende da disposição da população excluída de
introdução. Na parte 2, busca-se uma pequena contextualização da idéia
aprender e experimentar, da adesão aos princípios da solidariedade, da
de Economia Solidária e dos princípios cooperativistas. Na seção 3,
igualdade e da democracia e de sua disposição de seguir esses princípios
parte-se para o estudo de caso da Coopermandi centrado na avaliação
na vida cotidiana.
econômica do empreendimento, suas conquistas e seus fracassos em
termos econômicos e sociais. Para finalizar, fazem-se algumas O conceito de cooperativa, de acordo com o Congresso Mundial da
considerações sobre a cooperativa em questão. Aliança Cooperativa Internacional (ACI), realizado em 1995, é o
seguinte:
[...] Cooperativa é uma associação autônoma de pessoas, unidas
2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA E OS PRINCÍPIOS COOPERATIVISTAS voluntariamente, para atender suas necessidades e aspirações
econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa
A Economia Solidária, sem um aporte teórico e conceito adequado, coletiva e democraticamente controlada. (ACI apud SCHMIDT & PERIUS,
representa um grande “guarda-chuva” que abriga empresas 2003, p. 63).
autogestionárias, cooperativas, associações de produtores, grupos
Nesse congresso, foram discutidos e confirmados os valores e
comunitários, redes e feiras, clubes de troca e/ou tudo que não favoreça
princípios norteadores do cooperativismo. Com relação aos valores, as
unicamente o capital. A literatura sobre Economia Solidária, para
cooperativas estão baseadas na auto-ajuda, responsabilidade própria,
alguns autores, converge ao afirmar o caráter alternativo das novas
democracia, igualdade, eqüidade e solidariedade.
experiências populares de autogestão e cooperação econômica. Dada a
ruptura que introduzem nas relações de produção capitalistas, essas No que diz respeito aos princípios que são as linhas orientadoras por
214 215
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal

meio das quais as cooperativas levam os seus valores para a prática, identificação do que existe e do que é preciso construir ou encontrar.
foram confirmados os seguintes princípios:
São muitos os modos de organizar a produção. Mas é principalmente
1. adesão livre e voluntária: cooperativas são organizações a posse ou o regime de propriedade dos meios de produção que define
voluntárias abertas a todas as pessoas aptas a trabalhar e dispostas a como o produto será apropriado. O planejamento deve ser entendido
aceitar responsabilidades de sócios sem discriminação social, racial, como um processo contínuo e permanente, pelo qual os futuros
política, religiosa e de gênero; cooperados definem inicialmente os objetivos de atividades a serem
executadas, identificando as dificuldades a serem superadas e definindo
2. gestão democrática e livre: os associados participam ativamente
a maneira com que pretendem superá-las.
nas opiniões e decisões tomadas. Todos são responsáveis e cada sócio é
igual a um voto;
3. participação econômica de seus membros: os sócios contribuem 2.2 Objetivos do Estudo de Viabilidade
de maneira eqüitativa e controlam democraticamente o capital de suas O estudo de viabilidade tem três objetivos básicos:
cooperativas. Parte desse investimento é propriedade comum das
cooperativas; • identificar e fortalecer as condições necessárias para que o
empreendimento tenha êxito;
4. autonomia e independência: as cooperativas são organizadas
autonomamente para ajuda mútua e controladas por seus membros. Em • identificar e tentar neutralizar os fatores que podem dificultar o
acordo operacional com outras entidades - inclusive governamentais - êxito do projeto;
ou recebendo capital de origem externa, as cooperativas devem firmá-lo • permitir que todos os participantes conheçam a fundo o projeto
em termos que preservem o controle democrático pelos sócios e que estão por iniciar, comprometendo-se com as exigências e suas
mantenham sua autonomia; implicações.
5. educação, formação e informação: as cooperativas proporcionam Em um empreendimento associativo, as instalações, os
educação e treinamento para os sócios, dirigentes eleitos, equipamentos, as máquinas e as marcas pertencem ao conjunto dos
administradores e funcionários, de modo a contribuir efetivamente para envolvidos no projeto. As relações que se estabelecem entre si são
seu desenvolvimento; diferentes das existentes em uma empresa tradicional. Para que a
6. intercooperação: os empreendimentos atendem seus sócios mais atividade funcione, é preciso que cada um dos envolvidos assuma
efetivamente e fortalecem o movimento cooperativo ao trabalharem compromissos e responsabilidades. São essas regras de convivência
juntas por meio de estruturas locais, regionais e internacionais; e entre os associados que vão determinar as questões técnicas de produção
como, por exemplo, o que produzir, qual a quantidade necessária de
7. interesse pela comunidade: as cooperativas trabalham pelo produção para gerar-se renda, quais os equipamentos necessários, para
desenvolvimento sustentável de suas comunidades por meio de políticas quem produzir, qual o local da produção e também qual o preço de venda.
aprovadas por seus membros. São decisões técnicas e econômicas que serão resolvidas de maneira
diferente, conforme as regras de convivência estabelecidas pelo grupo.
2.1 Planejamento para as Cooperativas Outra questão decidida coletivamente diz respeito à distribuição das
sobras, que também depende das relações sociais que caracterizam o
A idéia autogestionária na organização de um empreendimento, no
trabalho em conjunto. A eficiência do trabalho associativo consiste em
planejamento do seu processo produtivo, na contabilidade de suas
proporcionar ganhos econômicos mediante relações assentadas em
atividades e nos resultados faz fluírem novas formas de relacionamento
valores éticos de solidariedade, cooperação e justiça. Assim, os ganhos
entre as pessoas. Para ordenar os pensamentos e as idéias de um
econômicos servem ao fortalecimento do trabalho em grupo,
conjunto de indivíduos que se propõe a interagir, antecipando os
estimulando as iniciativas econômicas solidárias e a capacidade de
problemas e as alternativas possíveis de decisão, é necessária a
iniciativa.
216 217
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal

O estudo de viabilidade dos projetos realizados de modo associativo despesas, sem gerar sobras para os cooperados.
engloba dois aspectos: o primeiro concerne à análise econômica do
O grupo, dada a improbabilidade de tornar aquele empreendimento
empreendimento que o grupo pretende realizar. O segundo refere-se às
sustentável, decidiu pela redefinição de ações. Em maio de 2004, a partir
questões de administração e às relações associativas, ou seja: a definição
de um processo de discussões e pesquisas junto à equipe da Incubadora
das relações que as pessoas envolvidas no projeto vão estabelecer entre
Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal do
si e as tarefas, compromissos e responsabilidades a serem tomadas
Paraná, os artesãos optaram por redirecionar a produção, reciclando
conjuntamente.
lonas de malote e caminhão. Começou a confeccionar bolsas femininas e
No aspecto econômico, há a necessidade de conhecer bem a universitárias, que, além de gerar trabalho e renda, contribuiu com o
atividade pretendida. Para isso, é preciso formular todas as perguntas e meio ambiente ao dar destino adequado a um resíduo que antes era
encontrar as respostas sobre os diversos aspectos necessários ao simplesmente destruído, sem nenhum projeto de reutilização. A
funcionamento do empreendimento. Não basta saber o que se quer aceitação dos novos produtos foi considerada satisfatória. Criou-se a
produzir: é necessário discutir a quantidade a ser produzida, os marca “Lona e Couro”, com vendas inicialmente para o público
investimentos, o processo de produção, a comercialização, a universitário. Em seguida, ampliou-se o mercado, ofertando-se pastas
administração e as questões financeiras. personalizadas para seminários, cursos e outros eventos em torno do
tema Economia Solidária.

3 ESTUDO DE CASO: COOPERMANDI


3.2 O Uso de Malote como Matéria-prima Essencial
O malote é obtido por meio de doação de órgãos públicos e privados.
3.1 Histórico da Fundação e Trajetória
Para tanto, é necessária a realização de convênios de doação, pois o
No ano de 2002, fundou-se a Coopermandi, localizada a 36 km de grupo necessita receber continuamente os malotes. No Quadro 1,
Curitiba, com o objetivo de viabilizar um projeto econômico, social e apresenta-se a quantidade aproximada dos malotes recebidos como
ambientalmente sustentável a partir da organização e união dos doação, assim como o número de trabalhadores, o total de horas e o
pequenos agricultores e artesãos da região de Mandirituba/Paraná. número médio de horas trabalhadas.
Quando da fundação da cooperativa, acreditava-se na possibilidade de
A respeito desse quadro, são necessárias algumas considerações:
desenvolver produtos de maior valor agregado, com o trabalho coletivo,
em que as potencialidades individuais poderiam ser trabalhadas em • no mês 1, foram produzidas 200 bolsas e vendidas para o Programa
favor do conjunto de agricultores e artesãos em um projeto único de Estadual de Economia Solidária;
comercialização de produtos.
• no mês 2, foram 225 as bolsas produzidas e vendidas no V Fórum
Em 2003, os cooperados alugaram um espaço, localizado no centro Social Mundial (realizado em Porto Alegre);
da cidade de Mandirituba, que se tornou a sede da cooperativa. No
• no mês 3, a produção foi diferenciada, pois foram confeccionadas
entanto, a comercialização de artesanato mostrou-se inviável: havia uma
3.10 0 malas/pastas escolares para a Prefeitura Municipal de
diversidade muito grande de produtos, em pequenas quantidades, assim
Mandirituba com a compra de todos os materiais necessários, de
como produtos de pouco alcance popular, mesmo com alto valor
modo que não foi utilizado material reciclável.
estético e de acabamento. Quanto aos produtos agrícolas, o local de
comercialização demonstrou ser inapropriado devido à pouca O grupo recebeu 4.183 malotes, desde o início das atividades - em
circulação de público interessado no consumo de produtos orgânicos. meados de 2004 - até o início de 2005, de acordo com o quadro acima. No
Apesar de todo o esforço empreendido no sentido de atingir a viabilidade início da produção, houve um período de testes e de estudos sobre a
econômica, o grupo passou a enfrentar sérios problemas para cumprir as elaboração dos modelos, que não se tem a quantidade de malotes
obrigações financeiras, como o pagamento do aluguel e das demais utilizada para esse fim (a primeira coluna da tabela, sem indicação de

218 219
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal
Quadro 2 - Composição de custos
Quadro 1 - Malotes recebidos, produção realizada e de horas trabalhadas na Coopermandi ITENS VALORES (R$)
Remuneração 2.700,00
MÊS 1 MÊS 2 MÊS 3 MÊS 4 Aluguel 350,00
Vendas (R$) 0,00 4.000,00 3.108,00 12.000,00 3.005,50 Luz 120,00
Trabalhadores - 10 9 9 7 Água 45,00

Total de horas - 1.369,80 1.291,10 * 885,10 Telefone 140,00

Média de horas trabalhadas - 137 143 * 126 Alimentação 100,00

Quantidade de bolsas vendidas - 229 225 * 63 Transporte 100,00


Material de expediente 40,00
Quantidade de malotes recebidos 106 2.003 80 1.299 695
Manutenção 70,00
Fonte: a autora.
Despesas bancárias 15,00
Nota: Os asteriscos assinalados no mês 3 significam produção diferenciada em relação aos Despesas (10%) 368,00
outros meses. Nesse mês, a cooperativa atendeu a um pedido da Prefeitura Municipal de
Total custos fixos 4.048,00
Mandirituba/PR, para confeccionar 3.100 pastas escolares para o ano letivo que se
iniciava. Nesse caso, não houve reaproveitamento de material reciclável, pois todas as Fonte: a autora.
pastas foram confeccionadas com nylon, apesar da cooperativa ter recebido doação de
malotes. Nota: O item “despesas (10%)” refere-se a uma previsão de perdas que venham a ocorrer
durante o processo de produção ou no caso de uma ou mais despesas ultrapassar o valor
estimado.
mês, representa esse período). Até o mês 4, os cooperados não tinham o
controle sobre o número de bolsas produzidas. Porém, sabe-se que a
quantidade vendida foi de 517 unidades. bancárias), têm-se os valores pela média dos três meses anteriores. Esses
valores são reais, de acordo com os pagamentos efetuados, entretanto, o
Depois desta primeira experiência, o grupo iniciou um planejamento
item “remuneração” foi projetado. A razão dessa projeção é para
de produção que consiste na contagem de malotes recebidos que foram
facilitar o estudo de obtenção dos custos. O total de custos fixos R$
desmanchados e lavados. Seguiu-se, então, para a etapa do corte. Após
4.048,00 foi dividido por 300, que seria um número de bolsas que o se
essa etapa, observou-se quantidade produzida depois do desmanche,
modo, R$ 4.048,00 / 300 = R$ 13,50; representa o custo fixo de cada
lavagem e corte. A experiência de controle de material utilizado
bolsa confeccionada.
demonstrou que, ao desmancharem-se 25 malotes de porte grande e em
bom estado (não muito desgastados), resultou na produção de 18 bolsas O malote tem custo de tratamento que foi estabelecido em R$ 3,50
de um modelo tamanho grande, do tipo executivo e sem couro. (três reais e cinqüenta centavos) por unidade produzida, incluindo o
desmanche, a lavagem, a secagem e, em alguns casos, descoloração do
A partir da observação acima, pode-se estimar que, com a entrada de
malote. Acessórios como botão, alça, zíper e fecho compõem o custo
6.000 malotes, a cooperativa poderá produzir até 4.320 bolsas. O
variável das bolsas e são adquiridos de acordo com a capacidade
cálculo foi realizado na proporção de 25 malotes para a produção de 18
financeira do grupo. Em muitos casos, as compras são realizadas de
bolsas. O grupo relata que, a proporção de reaproveitamento não é a
maneira não-satisfatória, pois são adquiridas em pequenas quantidades
mesma em todas as remessas de malotes recebidos. Por exemplo, no mês
e com preços mais altos.
3, a cooperativa recebeu 1.299 malotes. Porém, 60% eram de plásticos e
nylon e, portanto, não-reaproveitáveis. No quadro 3 temos os diversos modelos e seus respectivos custos
variáveis e fixos. Na última coluna, colocou-se o preço de venda final dos
Outros itens, como os custos fixos para manter em funcionamento o
produtos. Observa-se que, se se somar custo fixo mais custo variável, não
empreendimento, também foram considerados. No quadro 2, ao lado,
há correspondência com o valor de venda. Isso deve-se à projeção de 300
indicam-se os custos fixos e o preço de cada item.
unidades a serem produzidas mensalmente, que não foi atingida. Assim,
Após investigados todos os custos fixos (aluguel, luz, água, telefone, os custos foram maiores que o estimado. A variação no preço final de
alimentação, transporte, material de expediente, manutenção, despesas alguns modelos de mesmo nome ocorre de acordo com a quantidade de

220 221
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal

material utilizado. Por exemplo, nos modelos que têm o couro como Quadro 3 - Custos e Preço Final
matéria-prima, o preço final é maior e os modelos confeccionados
REF. MODELO CUSTO VARIÁVEL (R$) CUSTO FIXO (R$) PREÇO VENDA (R$)
apenas com a lona têm o preço final menor.
Mesmo que o grupo receba o malote como doação, há o custo de 1 Julia 9,54 13,50 35,00
tratamento que deve ser considerado, uma vez que o material precisa ser 2 Fernanda 8,62 13,50 30,00
lavado e, algumas vezes, tingido. Os custos com acessórios são pagos à
vista no ato da compra e, às vezes, há o parcelamento quando o volume é 3 Ana 8,62 13,50 30,00
maior. Os custos fixos são pagos na medida em que há dinheiro em caixa. 4 Daniela 16,74 13,50 40,00
Após o pagamento das despesas, se fazem os cálculos das sobras e da
remuneração dos trabalhadores. Observamos como realizam a 5 Larissa 14,70 13,50 50,00
distribuição das sobras no quadro 4. 6 Luzia 8,80 13,50 30,00
Os cooperados anotam diariamente o horário de entrada e de saída
7 Mochila gde 17,90 13,50 55,00
do expediente de trabalho. No final de um mês, totalizam o número de
horas. Após o pagamento das compras de matérias-primas e das 8 Mariane 7,85 13,50 38,00
despesas, o grupo realiza a distribuição eqüitativa das sobras. O cálculo
9 Alice 9,00 13,50 30,00
da hora de trabalho é obtido pela divisão das sobras pelo total de horas
de trabalho de todos os cooperados. 10 Alice 7,00 13,50 25,00

Hora de trabalho = sobra R$ / total de horas 11 Mochila med 16,90 13,50 45,00

Na seqüência, multiplica-se o valor da hora de trabalho pelo total de 12 Executivo 22,19 13,50 55,00
horas de cada cooperado, chegando-se a remuneração individual.
13 Juliana lona 8,50 13,50 35,00
No quadro 4 tem-se a sobra no valor de R$ 2.000,00, que foi dividido
por 1.369,80 horas. O valor obtido foi R$ 1,46, esse valor multiplicado 14 Juliana 10,30 13,50 40,00
pela quantidade de horas de trabalho de cada cooperado, resulta na 15 Cida 7,20 13,50 30,00
remuneração de cada trabalhador.
16 Luciane 7,04 13,50 35,00

17 Redonda 7,04 13,50 35,00


4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
18 Bicuda 7,04 13,50 35,00
A Coopermandi está regulamentada pela Lei do Cooperativismo
Brasileiro, Lei n. 5.764/71. Suas relações internas baseiam-se nos 19 Mara 8,62 13,50 35,00
valores e princípios do cooperativismo:
20 Isaura 9,12 13,50 35,00
• adesão livre e voluntária (o que significa um grau de inclusão
21 Brasileirinha 7,04 13,50 25,00
social);
22 Erika 14,49 13,50 35,00
• controle democrático das decisões pelos cooperados que atuam
diretamente na produção;
Fonte: a autora.
• participação econômica eqüitativa para o capital da cooperativa
Nota: Alguns modelos de bolsa têm o nome da cooperada que a criou, outros nomes
no pagamento das cotas-partes; representam a característica principal do produto: redonda, bicuda.
• independência, autonomia e valorização de educação, treinamento

222 223
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal

e informações para fortalecer a cooperativa; número de horas trabalhadas, independentemente da função realizada.
• tem como princípio o interesse pela comunidade ao participarem É importante notar que há alguns aspectos negativos ou dificultosos,
na discussão e na formulação das políticas locais. em particular a falta de capital de giro com que se poderia negociar
melhores preços nos acessórios por ocasião de compras maiores. Sem
Os conflitos são tratados democraticamente por meio de reuniões
dúvida, com base nas observações realizadas e também na experiência, o
tivo, quanto na gestão democrática do empreendimento. Pode-se dizer
empreendimento tem potencial de produção muito maior.
que esta cooperativa, após diversas dificuldades para a implantação,
formou-se e desenvolveu-se, até o ponto de sua consolidação, com a Os cooperados conseguem pagar os custos sem a necessidade de
criação e o desenvolvimento de bolsas e pastas a partir da reciclagem de recorrer a empréstimos. Conseqüentemente, não têm dívidas. Na
malotes bancários. Surgiu a marca “Lona e Couro”, de fácil aceitação, Coopermandi, os integrantes formam parcerias com instituições que
com apelo para o desenvolvimento sustentável. O processo de criação de descartam o malote, praticam o princípio da preocupação com a
modelos é realizado pelos cooperados, com base na observação das comunidade, pois contribuem para o desenvolvimento sustentável ao
tendências do mercado. reaproveitarem um material que seria descartado. Note-se: ocorre um
importante entrelaçamento de relações técnicas e sociais, em que o
O empreendimento tem parcerias com diversas instituições tanto no
valor econômico está presente, mas de maneira diferenciada em relação
recebimento dos malotes como no apoio recebido pelas instâncias
às empresas capitalistas, valorizando a figura do trabalhador e
políticas do município. O grupo demonstra bom nível de organização da
promovendo condições dignas de trabalho.
gestão administrativa. Tem claro qual é o objeto da produção, ou seja,
sabe o que está produzindo, calcula os custos, determina o preço de
venda e realiza a distribuição de forma eqüitativa. Não há discriminação
de gênero, nem remunerações diferentes: cada trabalhador ganha pelo REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARRION, R. & CARLEIAL, L. Projeto de pesquisa - inovações em


Quadro 4 - Distribuição das sobras Economia Solidária: potencialidades, desafios e limites. Edital
COOPERADO HORAS VALOR DA HORA DE
SOBRA (R$) Universal CNPq 01/2002, nº de registro do projeto 52.0372/00-0, 2002.
TRABALHADAS TRABALHO (R$)
Cooperado 1 172,80 1,46 252,29
Cooperado 2 204,10 1,46 297,99
Cooperado 3 234,50 1,46 342,37
CARLEIAL, L.; CARRION, R.; BAL, M. M. & TOSIN, M. Economia
Cooperado 4 139,20 1,46 203,23 Solidária e informalidade: pontos de aproximação, proposta
Cooperado 5 212,40 1,46 310,10 conceitual e novos desafios para a política pública. In: GARCIA, M. F. &
Cooperado 6 46,20 1,46 67,45 Katz, F. J. (orgs.). Emprego e trabalho: Uma visão multidisciplinar.
Cooperado 7 149,00 1,46 217,54 Maringá: UEM, 2004.
Cooperado 8 132,10 1,46 192,87
Cooperado 9 39,60 1,46 57,82
Cooperado 10 39,90 1,46 58,25 CATTANI, A. D. (org.). A outra economia. Porto Alegre: Veraz, 2003.
TOTAL 1.369,80 - 1.999,91

Fonte: a autora.
GAIGER, L. I. A Economia Solidária diante do modo de produção
Nota: O quadro acima mostra o número de 10 cooperados, diferentemente do quadro com
a composição dos custos fixos em que havia nove cooperados. O período de análise difere capitalista. Porto Alegre: Economia Popular Solidária. Disponível em:
entre um quadro e outro. Portanto, quando analisado o último quadro, havia 10 pessoas http://www.ecosol.org.br/acervo.htm. Acesso em 30 de junho de 2005.
trabalhando na cooperativa.

224 225
Viabilidade econômica de empreendimentos de Economia Solidária Maria Madalena Bal

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http://www.mtb.gov.br/economiasolidária. Acesso em 2 de setembro de
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consciência universal. 10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.

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_____. Uma utopia militante: Repensando o socialismo. 2ª ed.


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entrevista/dedoc/entr15052001.htm. Acesso em 25 de junho de 2005.

VEIGA, S. M. & FONSECA, I. Cooperativismo: uma revolução pacífica


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226 227
Cooperativismo, Economia Solidária e Inclusão Social: Métodos e Abordagens Capítulo 13

Diretrizes para a gestão do design


em cooperativas populares
Izamara Vanessa Carniatto

1 INTRODUÇÃO: ECONOMIA SOLIDÁRIA E DESIGN


A Economia Solidária vem sendo apontada como uma alternativa de
geração de renda para comunidades em que há desemprego e falta de
perspectivas. Por meio da Economia Solidária, essas comunidades têm
sido incentivadas a se unirem e a formarem empreendimentos
cooperativos e associativos a fim de lutar contra essa situação. Nesses
empreendimentos, um dos maiores problemas enfrentados diz respeito
ao desenvolvimento de produtos realmente competitivos que gerem o
retorno econômico desejado. Nesse sentido, o design pode ser um
instrumento útil, desde de que adaptado à realidade das cooperativas
populares.
Com o aumento do desemprego, a população passou a buscar sua
sobrevivência no trabalho informal. Esse tipo de ocupação, em geral, não
proporciona aos trabalhadores que dela sobrevivem um ambiente de
trabalho digno. O ideal da Economia Solidária é justamente organizar
essa massa de desempregados e trabalhadores informais em associações
e cooperativas populares, nas quais, por meio da autogestão, possam
obter renda e cidadania, contribuindo economicamente para o
desenvolvimento do país. (SINGER, 2003).
O cooperativismo nasceu na Inglaterra em meados do século XIX, em
meio à Revolução Industrial, como resposta às péssimas condições de
trabalho a que eram submetidos os operários. Ao longo do tempo,
desenvolveu-se em diversos países. No Brasil, seu desenvolvimento foi
modesto até os últimos anos do século XX, quando surgiu o chamado
“novo cooperativismo”. Em um momento em que a situação econômica
do país causou a eliminação de milhões de postos de trabalho formal e o
fechamento de grande número de empresas, esse movimento foi uma

228 229
Diretrizes para a gestão de Design em cooperativas populares Izamara Vanessa Carniatto

resposta da sociedade civil à crise das relações de trabalho e à exclusão venda e o sistema em que se insere”. (Ullmann, 2005, p. 1). Um aspecto
social. crítico, porém, é que a inserção do design em um empreendimento
popular tem diversas peculiaridades. O designer não pode simplesmente
Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras - OCB (OCB,
desenvolver um trabalho da mesma maneira que se desenvolveria em
2005), existem mais de 6 mil cooperativas com mais de 6 milhões de
uma empresa comum.
cooperados e 167 mil empregados no Brasil. O cooperativismo está
presente em 101 países; no Canadá, por exemplo, a média de cooperados As questões relacionadas ao design numa cooperativa passam pela
é de 50% da população. Esses dados demonstram a força do movimento inserção de conceitos tais como: definição de um público alvo,
cooperativo e comprovam que é uma forma viável de organização para o compreensão das necessidades do consumidor, adequação de processos
trabalho, na qual se prioriza a distribuição justa das sobras e não o de produção e utilização de materiais, identidade visual, entre outros.
acúmulo do capital que gera mais desigualdades sociais. (idem). Ao trabalhar com cooperativas populares, o designer depara-se com
diferentes situações, em um trabalho que pode ser considerado de
Com esse pensamento, o cooperativismo popular vem sendo a
gestão, pois envolve um gerenciamento do processo de produção como
solução para a organização de comunidades de baixa renda em torno de
um todo, delimitando quais serão as ações necessárias para alcançar um
um ideal comum: a inclusão social. Os empreendimentos são baseados
determinado objetivo. (Manual de Gestão de Design, 1997). Muitas
na autogestão, ou seja, na propriedade coletiva do capital e na
vezes, não haverá necessidade de desenvolvimento de novos produtos,
participação democrática. (Singer, 2003). Os cooperados são sócios do
mas sim a adequação dos produtos já existentes aos mercados. Haverá
empreendimento e suas ações são regidas pelos princípios da
situações em que será necessária a participação de outros profissionais
responsabilidade, igualdade, solidariedade, eqüidade, democracia e
que agreguem conhecimentos não só voltados à produção de objetos,
ajuda mútua. Esse tipo de organização privilegia a busca pela cidadania,
mas também à logística e à comercialização. (ULLMANN, 2005).
a diminuição das desigualdades sociais e o desenvolvimento local.
Outro ponto a ser considerado neste trabalho é que as cooperativas
Com os apoios dados pelo governo federal por meio da Secretaria
são formadas por pessoas que se reúnem por diferentes motivos, mas que
Nacional de Economia Solidária - SENAES -, por diversos outros órgãos
possuem características comuns. Podem ser atividades tradicionais de
estaduais e municipais e por entidades como organizações não-
determinadas regiões, passadas de pai para filho ao longo dos anos,
governamentais e incubadoras, várias cooperativas vêm surgindo, mas o
como as bordadeiras, os ceramistas, os pescadores e outros - ou
caminho para o sucesso tem sido árduo. Os grupos têm enfrentado
simplesmente pelos conhecimentos comuns - como costureiras,
várias dificuldades, que vão desde a concessão de crédito até a inserção
doceiras etc. Além disso, podem caracterizar-se também pela situação
no mercado. Não basta apenas o fornecimento de recursos e
social, como cooperativas de ex-detentos, de moradores de determinada
equipamentos: o desenvolvimento desses grupos depende, em grande
favela etc. A maioria dos grupos populares enquadra-se nessa categoria,
parte, do apoio de profissionais que repassem os conhecimentos
quanto aos conhecimentos profissionais ou tradicionais e pela situação
necessários para uma melhor utilização dos mesmos. Pode-se observar
social.
que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas cooperativas é a
inserção de seus produtos no mercado de maneira competitiva, ou seja, A abordagem da gestão deve ser adequada a essas categorias. Quando
não conseguem agregar valor às relações de troca, perdendo, com isso, se trabalha com grupos de profissionais tradicionais, eles provavelmente
competitividade. (CRÚZIO, 2003). já têm produtos com uma determinada identidade e, nesse caso, o
designer deve tomar todos os cuidados para preservar as técnicas, as
Já existe um trabalho bastante fundamentado quanto às ações de
características do produto, toda a tradição do trabalho, interferindo
profissionais de outras áreas voltadas para a Economia Solidária. A
minimamente. Já no que se refere a grupos unidos por conhecimentos
atuação do designer, no entanto, é pequena nos projetos que envolvem a
comuns que não possuem tradição na fabricação ou não têm definido um
Economia Solidária. A visão ampla deste profissional possibilita realizar
produto específico, bem como aos grupos com características sociais
o desenvolvimento de produtos que agrega conhecimentos das áreas
comuns, o trabalho de gestão será mais abrangente e terá uma
exatas e humanísticas. “O Design surge, então, como uma ferramenta
interferência maior. Nesse segundo caso, a principal tarefa será
indispensável para melhorar o propósito do produto, a sua estratégia de
230 231
Diretrizes para a gestão de Design em cooperativas populares Izamara Vanessa Carniatto

identificar quais pontos devem ser trabalhados para constituir-se a realizado conforme as necessidades de cada uma delas. Essas
identidade da cooperativa. Essa identidade servirá de estímulo aos necessidades são, na realidade, as dificuldades do dia-a-dia das
cooperados, que trabalharão com o objetivo de promover seus ideais, cooperativas, que num trabalho de pesquisa-ação, tinham como
sua cultura e sua história, agregados aos produtos. Assim, ao venderem objetivo, por um lado, solucioná-los e por outro, dar subsídios para a
um objeto vendem junto um pequeno resumo do que são. estruturação desta pesquisa.
O Design Social ainda é uma área que necessita de muita pesquisa; Por meio dessa interação entre cooperativas e estudantes de design,
por ser uma demanda bastante recente, os profissionais do design, bem pôde-se observar nas cooperativas trabalhadas que os resultados eram
como a maioria das universidades, ainda não possui bases de pesquisa superiores quando se tinha um conhecimento mais amplo das pessoas e
suficientes para desenvolver um trabalho consistente. Até mesmo o que do grupo. A abordagem e a comunicação tornaram-se mais fáceis e pôde-
se entende por essa denominação (Design Social ou Design Solidário), se direcionar as ações conforme sua realidade, suas necessidades e seus
ainda gera várias discussões necessárias, sem dúvida , pois levam à anseios reais.
reflexão e possivelmente a novas pesquisas. No contexto deste artigo, o
Observou-se também que o design ainda está muito distante da
Design Social será considerado como a utilização dos conhecimentos do
realidade desses grupos, causando uma dificuldade de reconhecimento
designer visando ao desenvolvimento de comunidades de baixa renda e
de sua importância para o empreendimento. Por outro lado, nos grupos
de empreendimentos sem fins lucrativos, colaborando para a geração de
em que houve uma sensibilização para o trabalho de design, o
renda e cidadania para as pessoas envolvidas.
profissional foi muito mais valorizado, aceito e mesmo requisitado.
Nas cooperativas em que houve o desenvolvimento de produtos,
2 RESULTADOS E ANÁLISE muitas vezes esses produtos eram aceitos em um primeiro momento,
mas logo eram deixados de lado e então se voltava a produzir o que era
Para se chegar às diretrizes aqui apresentadas, foi realizado um feito antes. Ao constatar essa atitude, pesquisou-se o porquê da rejeição
trabalho junto às cooperativas apoiadas pela Incubadora Tecnológica de dos produtos pelos cooperados, concluindo-se que os trabalhadores não
Cooperativas Populares da Universidade Federal do Paraná (ITCP- se apropriavam daquilo que era desenvolvido, e por esse motivo não
UFPR). A incubadora possui uma equipe multidisciplinar que agregou à criavam vínculo natural entre o criador e o objeto criado. Assim,
pesquisa, que resultou neste texto, diversos conhecimentos, terminavam por deixá-lo de lado, optando por produzir aquilo que era
fundamentais para a compreensão dos ideais do cooperativismo, da caracterizado por eles como legítimo. Verificou-se que a causa dessa
estrutura e da organização desse tipo de empreendimento. A pesquisa atitude foi um desenvolvimento pouco participativo. A partir do
foi realizada junto a cinco cooperativas, de diferentes ramos de atuação, momento em que o produto passou a ser desenvolvido, contando com a
durante um período de dois anos. O método utilizado foi o de pesquisa- participação dos cooperados, houve a apropriação do produto.
ação, que pode ser definida como:
um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada
Tendo como base as cooperativas pesquisadas, percebeu-se que um
em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema dos maiores problemas do empreendimento era a falta de uma
coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da abordagem de marketing adequada. Mesmo quando seus produtos
situação ou problema estão envolvidos de modo cooperativo ou tinham um potencial de venda razoável, não chegavam a gerar os
participativo. (THIOLLENt, 1996, p. 14).
resultados desejados. Isso ocorria devido à total falta de um trabalho de
marketing ou devido a ações inadequadas para a proposta do
2.1 Características gerais do estudo de caso empreendimento. As diretrizes que se seguem são baseadas nas
informações descritas acima, como resultados da pesquisa-ação
As cooperativas incubadas recebem apoio de estudantes e
realizada junto às cooperativas bem como os conhecimentos teóricos
profissionais de diferentes áreas, entre eles do design, para que possam
adquiridos.
estruturar-se e fomentar sua autogestão, tornando-se auto-sustentáveis.
O trabalho de inserção de conceitos de design junto às cooperativas foi

232 233
Diretrizes para a gestão de Design em cooperativas populares Izamara Vanessa Carniatto

3 INTERAÇÃO COM O GRUPO imensamente a abordagem e o desenvolvimento do trabalho.


Primeiramente, deve-se ter em mente que um empreendimento Com esses dados, é possível saber como deve ser realizado o trabalho
popular não dispõe de recursos para contratar um designer e, muitas desde a forma de abordagem até as possibilidades produtivas,
vezes, a pouca informação das pessoas envolvidas faz com desconheçam dependendo dos conhecimentos e aptidões dos participantes. É preciso
o design como instrumento para a melhoria do desempenho de seu considerar que, muitas vezes, o baixo grau de instrução - até mesmo o
empreendimento. Dessa forma, o trabalho do designer junto a esses analfabetismo -, além de toda a dificuldade enfrentada durante a vida,
grupos dá-se de duas formas: voluntariamente ou sob o patrocínio de pode dificultar bastante a introdução de conceitos que não façam parte
agências de fomento, “entidades envolvidas na problemática social” da realidade dos indivíduos e do grupo.
(Singer, 2003, Ullmann, 2005, p. 2). A partir da pesquisa-ação realizada,
constatou-se que é fundamental que o profissional conheça o histórico
do grupo com o qual está trabalhando. Para obter esse conhecimento, há 4 SENSIBILIZAÇÃO PARA O DESIGN
várias formas: pode-se utilizar informações cedidas pelos órgãos de Após o conhecimento do grupo, é necessário sensibilizar as pessoas
fomento, realizar questionários (ineficientes quando o grau de para o design. Com o objetivo de que possam entender melhor o porquê
escolaridade é muito baixo ou nulo) ou apenas observar, por meio de de não estarem obtendo sucesso com a comercialização de seus
conversas informais, a forma que gerou mais resultados na pesquisa. produtos e a forma com que o designer pode, em conjunto com os
Aliás, a pesquisa-ação possibilita - como possibilitou - perceber participantes, modificar esta situação. Não foram realizadas pesquisas
características individuais e de grupo que os questionários não revelam. estatísticas, mas, com base na observação, verificou-se que a maioria do
A pesquisa mostrou que para se conhecer a história e o contexto do cooperados não compreendia com clareza qual era a função do designer.
grupo, deve-se trabalhar em dois níveis:
Quando se trata de comunidades de baixa renda, o nível de educação
- os indivíduos: é necessário obter informações de cada pessoa formal costuma ser baixo, o que torna um pouco mais complexa essa
participante, tais como: faixa etária, grau de escolaridade, núcleo sensibilização. A sensibilização pode ser considerada um trabalho de
familiar, profissão, conhecimentos específicos, atividades que formação. Face à limitada qualificação profissional dos cooperados,
desempenha, grau de motivação e outros aspectos funcionais e houve necessidade de estender-se essa formação a outras áreas. Para
psicológicos. Cada profissional deve sentir quais informações são realizar a formação necessária, o designer deve ter consigo educadores e
relevantes para a realização do trabalho e buscá-las; profissionais especializados na educação para adultos que possam
- o grupo: considera-se o grupo como um todo e colhem-se dados transmitir conhecimento de maneira adequada. Quando se observou,
como o número de participantes, o grau de participação, os objetivos, nas cooperativas com que se trabalhou, a necessidade de formação
como se reuniram, sua história, a relação com a comunidade, se há técnica, isso se deu por diferentes motivos e com objetivos variados.
predominância de sexo, que tipo de atividade exercem e se há Cada abordagem procurou adaptar-se à realidade de cada grupo,
dinamismo. Analisando esses dados, tem-se uma visão geral de como se valorizando e aproveitando seus conhecimentos. Pôde-se observar,
dá o trabalho em conjunto, se há ou não união entre os trabalhadores e durante a pesquisa, que o conhecimento adquirido pelos cooperados
assim por diante. aumentou sua autocrítica em relação aos seus métodos e produtos,
induzindo-os a resolver seus problemas com soluções simples e criativas.
Para que se possa entender a importância do conhecimento do
Além disso, verificou-se que as possibilidades de obter bons resultados
grupo, é necessária uma importante diferenciação. Quando se trata de
foram fortemente aumentadas após terem sido adotadas as diretrizes de
um empreendimento capitalista, a interação é entre o profissional e a
interação com o grupo e de sensibilização para o design.
empresa, a relação é bastante institucionalizada. Já em um
empreendimento solidário, a relação é mais humanizada. Por isso,
conhecer a história desses indivíduos e do grupo como um todo - suas 5 DESENVOLVIMENTO PARTICIPATIVO
lutas, seus objetivos, suas dificuldades e expectativas pode facilitar
O desenvolvimento do projeto, de adequação ou de criação de
234 235
Diretrizes para a gestão de Design em cooperativas populares Izamara Vanessa Carniatto

produtos, alcançou resultados muito mais significativos quando realidade significa considerar a capacidade produtiva dos indivíduos, a
realizado juntamente com a comunidade. Esse envolvimento é tecnologia disponível e o ritmo que cada grupo possui.
fundamental para que novos conceitos sejam aceitos e, mais que isso,
O crescimento das cooperativas estudadas vincula-se ao
façam parte da vida e da história do grupo. Observou-se a importância da
desenvolvimento da autonomia dos grupos. Como vimos antes, a
valorização do conhecimento das pessoas: muitas vezes, o diferencial
autonomia é um dos princípios básicos do cooperativismo, de modo que
daquilo que produzem está justamente no seu modo particular de
o projeto não deve estabelecer relações com o mercado que possam
buscar soluções. Além disso, a identidade deve sempre ser preservada, o
prejudicar essa característica. Propostas de exclusividade, matérias-
que implica que as proposições feitas pelo designer terá que representar
primas que têm apenas um fornecedor e postos de venda que não
o grupo e sua realidade. O profissional precisa de muita sensibilidade
promovam a marca do empreendimento são exemplos de relações que,
para saber que não há imposição de conceitos e sim um trabalho em
além de limitar a autonomia do grupo, não permitem o crescimento do
conjunto, em que se deve levar em conta toda a história de vida do grupo
empreendimento e nem que ele seja economicamente competitivo.
e a beleza que há nas formas mais ingênuas ou até mesmo rudes com que
lidam com os materiais.
Outro fator importante a ser considerado é valorização dos aspectos 6 MARKETING ÉTICO
sociais e culturais do grupo, sem deixar de lado as questões ambientais. Até o momento, foram identificados três passos importantes para
Os grupos populares possuem uma grande interação com as uma inserção de conceitos de design adaptada aos empreendimentos
comunidades em que estão inseridos, de modo que educar populares: 1) a interação com o grupo; 2) a sensibilização para o design;
ecologicamente os cooperados significa atingir com esses ideais um e 3) o desenvolvimento participativo. Porém, para que um
grupo bem maior de pessoas. Além disso, ocorrem situações em que empreendimento de Economia Solidária obtenha bons resultados e gere
pensar em sustentabilidade pode significar mudar conceitos já bastante renda para todas as famílias envolvidas, não basta um bom produto: é
solidificados nos indivíduos. preciso atingir o consumidor. Nesse sentido, utilizar a própria
O trabalho de inserção de conceitos de design em cooperativas identidade do grupo como estratégia de marketing tem sido uma boa
populares deve ir além do desenvolvimento de produtos: deve privilegiar abordagem. Obviamente, há sempre a necessidade de muito bom senso e
também o desenvolvimento de pessoas. A pesquisa mostrou que o sensibilidade, pois a intenção não é promover a venda pelo
designer precisará buscar ajuda de educadores e psicólogos que possam assistencialismo, mas, ao contrário, promover o consumo consciente.
facilitar a transmissão de conhecimentos. Quando o trabalho é feito em Pôde-se constatar que muitas vezes a realidade social do grupo era
conjunto, o potencial criativo das pessoas é estimulado para que abordada de maneira pejorativa, o que levava os consumidores a adquirir
possam, no futuro, conceber elas mesmas as modificações e os produtos não por percebê-los como bons, mas por questões de
atualizações que julguem necessárias em seus produtos. Não se caridade. O “consumo consciente” (também chamado “consumo
pretende aqui destituir o designer do papel de criador com toda sua ético” ou “consumo responsável”) pode ser definido como “a capacidade
visão técnica. Contudo, não se pode subjugar a criatividade e o senso de cada pessoa ou instituição, pública ou privada, escolher e/ou
estético das pessoas. O que se pretende com o trabalho é que os produzir serviços e produtos que contribuam, de forma ética e de fato,
cooperados possam, aos poucos, fortalecer sua identidade e que tenha para a melhoria de vida de cada um, da sociedade e do ambiente”.
condições de desenvolver-se adaptando e alterando seu trabalho sem (Zerbini, 2005, p. 9). Essa definição mostra a amplitude do tema e está
ficar dependente, todo o tempo, de um profissional externo. Esse intimamente ligado às premissas da Economia Solidária.
fortalecimento da identidade ajuda a promover a autogestão. Um bom trabalho de comunicação também envolve o
No desenvolvimento da pesquisa, verificou-se que a inserção do desenvolvimento de uma identidade visual que comunique a cultura
design precisa ser adaptada a cada caso. Porém, alguns pontos devem ser interna do grupo, alinhando seus produtos e suas atitudes. Uma
especialmente enfocados. Nas cooperativas pesquisadas, o processo de cooperativa social e ética em marketing pode ser definida como “aquela
fabricação era essencialmente artesanal. Adequar o produto a essa que é capaz de administrar eficientemente o composto de marketing e

236 237
Diretrizes para a gestão de Design em cooperativas populares Izamara Vanessa Carniatto

ao mesmo tempo promover o desenvolvimento social, político e Educação Tecnológica do Paraná.


econômico dos associados ou empregados e seus familiares e membros
da comunidade local; que prima pela honestidade nas relações de troca
internas e externas, e pela equidade nas transações financeiras com CRÚZIO, E. O. Marketing social e ético nas cooperativas. Rio de
associados, empregados, fornecedores consumidores, agentes Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. 2003.
financeiros, membros da comunidade local e o público em geral; e que FRARE, A. P. Princípios básicos para comercialização de produtos e
procura honrar os estatutos do cooperativismo e as demais leis civis”. serviços de cooperativas e associações. Rio de janeiro: DP&A. 2001.
(Crúzio, 2003, p. 305). A definição apresentada resume perfeitamente
como deve ser a relação comercial entre um empreendimento solidário
e o mercado, balizando as ações do gestor de design no que diz respeito à FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática
divulgação e comercialização dos produtos das cooperativas populares. educativa. 26ª ed. São Paulo: Paz e Terra. 1996.

7 CONCLUSÃO ITCP-UFPR. Construindo o cooperativismo popular e autogestionário.


Curitiba: Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
As informações contidas neste texto não pretendem ser entendidas
Universidade Federal do Paraná. 2004.
como um método. São apenas diretrizes, baseadas na experiência
prática, que podem nortear o designer ao trabalhar com cooperativas
populares. Existe, atualmente, uma certa dificuldade em se criar uma
LIMA, R. Estética e gosto não são critérios para o artesanato. In:
parceria produtiva entre este profissional e comunidades. A formação do
Artesanato, produção e mercado: uma via de mão dupla. São Paulo:
profissional é centrada no trabalho com empresas capitalistas e, ao se
Central ArteSol. 2002. Disponível em: http://www.artesol.org.br/
tentar a aproximação com empreendimentos solidários, ocorrem
principal2.php. Acesso em: 10.out.2004.
muitos conflitos. Há dificuldades na comunicação, na interação e
principalmente no entendimento do verdadeiro papel do designer para
essas comunidades, que deve ser de gestão e de formação, muito mais Manual de gestão de Design. Porto: Centro Português de Design. 1997.
que meramente projetiva.
A atuação em cooperativas populares será sempre uma atividade
complexa, que dependerá não só dos conhecimentos técnicos do OCB. Cooperativismo no Brasil. Brasília: Organização das
designer, mas também da parceria com profissionais de diversas áreas, Cooperativas do Brasil. 2005. Disponível em: http://www.ocb.br/.
como psicologia, educação, marketing e outras, conforme o produto Acesso em: 10.fev.2005.
confeccionado pelo empreendimento. Cada caso necessitará de um
estudo específico. Porém, a adequação da linguagem é indispensável
OGG, C. Análise das relações entre comunidades envolvidas na prática
para que ambos, profissionais e comunidades, possam desenvolver um
projetual e suas influências na identidade do designer. Curitiba:
trabalho em conjunto com menos dificuldades.
Dissertação (Mestrado em Tecnologia). Centro Federal de Educação
Tecnológica do Paraná. 2002.
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intervenções realizadas na Costa do Descobrimento (BA). 2003. Brasília: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Curitiba: Dissertação (Mestrado em Tecnologia). Centro Federal de Cultura. 2003. Disponível em: http://www.artesol.org.br
/principal2.php. Acessado em: 10.out.2004.
238 239
Diretrizes para a gestão de Design em cooperativas populares

SINGER, P. Introdução. In: SECRETARIA NACIONAL DE ECONOMIA


SOLIDÁRIA. Economia Solidária em desenvolvimento. Brasília:
Secretaria Nacional de Economia Solidária. 2003.
THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez.
1996.
Sobre os autores
ULLMANN, C. Para um design solidário e sustentável. Disponível em:
http://www.designbrasil.org.br/. Acesso em: 10.ago.2005. Andréa Midori Hamasaki
[dehamasaki@yahoo.com.br ]
ZERBINI, F. A relação dos movimentos sociais com a responsabilidade Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e
do consumidor. Trabalho apresentado no I Seminário do Observatório integrante da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFPR.
Social das Relações de Consumo, realizado em Franca (SP). 2005.
Disponível em: http://www.institutokairos.org/projetos/Procon.PDF .
Acesso em: 09.fev.2006. Daniele Rodrigues Pereira da Silva
[danipeople@hotmail.com]
Graduanda em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Paraná
(UFPR) e integrante da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da
UFPR.

Denise Cássia da Silva


[deniseufv2001@yahoo.com.br]
Bacharela em Gestão de Cooperativas pela Universidade Federal de Viçosa
(UFV), Mestranda em Extensão Rural e Desenvolvimento Local na Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e gestora de cooperativas.

Denys Dozsa
[Denys@ufpr.br]
Mestrando em Extensão Rural e Desenvolvimento Local na Universidade Federal
Rural de Pernambuco (UFRPE), engenheiro florestal da Universidade Federal do
Paraná (UFPR) e integrante da Incubadora Tecnológica de Cooperativas
Populares da UFPR.

240 241
Emerson Leonardo Schmidt Iaskio Márcia Silva Fernandes
[iaskio@gmail.com] [Msfernandes23@yahoo.com.br]
Economista, pós-graduando em Sociologia Política e professor substituto da Bacharela em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e
Universidade Federal do Paraná. Atuou como pesquisador, formador e bolsista pesquisadora e formadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares
na ITCP-UFPR de 2003 a 2007. da UFPR.

Fernanda Freire Figueira Maria Madalena Bal


[fefrfi@yahoo.com.br] [madalena@sociais.ufpr.br]
Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Economista pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-graduanda em
integrante da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFPR. Sociologia Política pela mesma universidade e pesquisadora e formadora da
Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFPR.

Gustavo Biscaia de Lacerda


Ricardo Prestes Pazello
[gblacerda@ufpr.br]
[ricardo2p@yahoo.com.br]
Mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR),
doutorando em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina Graduando em Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador
(UFSC), sociólogo da UFPR e integrante da Incubadora Tecnológica de da iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Cooperativas Populares da UFPR. Tecnológico (CNPq) e bolsista integrante da Incubadora Tecnológica de
Cooperativas Populares da UFPR.

Izamara Vanessa Carniatto


Sandra Suely Soares Bergonsi
[izamaracarniatto@yahoo.com.br]
[sandrabergonsi@yahoo.com.br]
Designer de Produto formada na Universidade Federal do Paraná (UFPR),
mestranda em Design Sistemas de Produção e Utilização na mesma Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de
universidade e colaboradora da ITCP-UFPR. Marília, e Coordenadora de Extensão da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da
Universidade Federal do Paraná; também é a coordenadora da Incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares da UFPR.
Lúcia Helena Alencastro
[Luciah@ufpr.br]
Sandro Lunard Nicoladeli
Especialista em Psicologia do Trabalho pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR), Professora da Universidade Federal do Paraná, campus do Litoral e [Sandrol@pr.gov.br]
pesquisadora e formadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares Advogado trabalhista, assessor de entidades sindicais, técnico responsável pela
da UFPR. Coordenação de Programas de Geração de Trabalho e Renda e Qualificação
Profissional na Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social -
SETP, componente do Conselho Estadual Do Trabalho, mestre em Direito
Cooperativo e Cidadania pela UFPR, professor da Universidade Estadual de
Ponta Grossa UEPG.

242 243
Anexo I

Cooperativas atualmente incubadas pela ITCP-UFPR

Cooperativas de Pescados de Antonina - Coopserramar


Fundação: 10 de junho de 2000
Objeto: produção, beneficiamento e comercialização de carne de siri e
de bacucu.

Cooperativa Mista de Trabalhadores da Capital Paranaense -


Coopercamp
Fundação: 16 de setembro de 1999
Objeto: serviços de limpeza e higienização hospitalar e serviços gerais;
mudando de objeto para jardinagem.

Cooperativa de Embalagens Brasil - Coembra


Fundação: 08 de dezembro de 2000
Objeto: confecção de embalagens em madeira reciclada; reciclagem de
madeira.

Cooperativa dos Trabalhadores em Portaria, Conservação e Limpeza -


Cooperativa 21
Fundação: 09 de março de 2001
Objeto: serviços de conservação, limpeza, portaria e jardinagem;
especializando-se apenas em jardinagem.

244 245
Cooperativa de Pequenos Produtores Rurais de Quitandinha - Direto
da Roça
Fundação: 27 de maio de 2002
Objeto: cooperativa agrícola, produção olerícolas.
Anexo II
Cooperativa de Produtores Rurais e Artesãos de Mandirituba -
Coopermandi
Fundação: 14 de junho de 2002 Parcerias da ITCP-UFPR

Objeto: confecção de bolsas femininas e universitárias a partir de lona


de malotes. Agência Canadense de Cooperação Internacional - ACDI
[http://www.acdi-cida.gc.ca/]
Associação das Universidades do Grupo Montevidéu - AUGM
[http://www.ufpr.br/augm]
Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE
]http://www.brde.com.br/]
Caixa Econômica Federal - CEF (http://www.caixa.com.br)
Centro de Formação Urbano-rural Irmã Araújo - Cefuria
[http://www.cefuria.org.br/]
Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do
Paraná - CEDCA
Conselhos Municipais do Trabalho
Em Ação (OSCIP) [http://www.emacao.org.br]
Empresa de Correios e Telégrafos - ECT
[http://www.correios.com.br]
Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural -
EMATER [http://www.emater.pr.gov.br]
Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP
[http://www.finep.gov.br]
Fundação Banco do Brasil - FBB [http://www.fbb.org.br]
Fundo de Miniprojetos da Região Sul
Institut de Recherche et d'Enseignement pour les Coopératives de
l'Université de Sherbrooke - IRECUS
[http://www.usherbrooke.ca/irecus]

246 247
Instituto de Tecnologia do Paraná - TECPAR [http://www.tecpar.br]
Instituto Lixo e Cidadania
[http://www.lixoecidadania.pop.com.br/home.htm]
Itaipu Binacional [http://www.itaipu.org.br]
Ministério Público do Trabalho [http://www.mpt.gov.br/]
Organização não-governamental Moradia e Cidadania
[http://www.moradiaecidadania.org.br/]
Prefeituras Municipais de Curitiba, Região Metropolitana e Litoral
Rede Universitária das Américas em Estudos sobre Cooperativismo
e Associativismo - Unircoop [http://www.unircoop.org]
Rede Universitária de Incubadoras de Cooperativas Populares
Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do
Paraná - SETI [http://www.seti.gov.br]
Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social do
Paraná - SETP [http://www.setp.pr.gov.br/setp/index.php]
Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca
[https://www.presidencia.gov.br/seap/
Secretaria Nacional de Economia Solidária - SENAES
[http://www.trabalho.gov.br/Empregador/EconomiaSolidaria/default
.asp]
Tribunal Regional Eleitoral do Paraná - TRE [http://www.tre-
pr.gov.br/]

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