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Rodrigo Domit (Org.

)
Comissão Julgadora – Textos
André Kondo, Edgar Borges e Rodrigo Domit

Comissão Julgadora – Ilustrações


André Kondo e Estela Ramos de Souza Oliveira

Revisão
Estela Ramos de Souza Oliveira

Ilustração da Capa
Gustavo Simas da Silva

Diagramação
Rodrigo Domit
Esta obra foi publicada com financiamento
do Instituto Federal de Santa Catarina, através do
Edital 11/2016 – Mostra de Arte e Cultura
Didascálico, da Pró-Reitoria de Extensão e Relações
Externas, e não pode ser comercializada.

A arte da capa, intitulada “Numa Folha


Qualquer”, é de autoria de Gustavo Simas da Silva e
foi selecionada entre as inscritas na categoria
Ilustrações do I Prêmio IFSC de Literatura.

Todos os direitos sobre as obras permanecem


reservados aos autores e autoras, que cederam o
direito de reprodução de suas obras, sem ônus, ao
IFSC, exclusivamente para fins de publicação desta
obra e divulgação do I Prêmio IFSC de Literatura.

Publicado no Brasil
2017
Índice
Prefácio.....................................................................5

Comunidade Externa – Menores de 21 anos

Caneta Nova..............................................................7
Miserável amor inimigo............................................8
Um condomínio esquisito..........................................9
Avesso: O lado de dentro.........................................10
Quaisquer coisas......................................................11
Língua elástica.........................................................12
Saudades.................................................................13
Tempo......................................................................14
Virar Poesia.............................................................15
Sobre amor..............................................................16

Comunidade Externa – Maiores de 21 anos

Escrevo....................................................................17
O Amanhã Sempre Morre.........................................18
Balanço do (a)mar...................................................19
Língua-mãe.............................................................20
Desde que perdi meu relógio....................................21
Mãos.......................................................................22
Olhos úmidos...........................................................23
Da Feitura de Amor.................................................24
Mente tecnológica...................................................25
O último ensaio de Susan........................................26
Canto do Rouxinol...................................................27
O cômodo................................................................28
noite o recinto.........................................................29
Era Uma Vez... Uma Casa….....................................30
Distância..................................................................31
Des (Amor)..............................................................32
O General................................................................33
Peixe de Escama-Brava............................................34
Barquinhos de Papel................................................35
Mito........................................................................36
Abominável.............................................................37
Marginalidade poética.............................................38
os gatos...................................................................39
A fila anda...............................................................40
As Bruxas estão à solta............................................41
Cópia.......................................................................42
Na Espreita da Vida.................................................43
Palavras e Atritos....................................................44
Pôr do sol................................................................45
Soneto a não existência...........................................46

Estudantes do IFSC

Metapoesia..............................................................47
A Poesia.................................................................48
Partiste Para Sempre – A Cantiga...........................49
Inferno....................................................................50
Medo........................................................................51
(sem título).............................................................52
Amor passageiro......................................................53
Dúvidas...................................................................54
Sensações................................................................55
Nostalgia Insular.....................................................56
Do outro lado de tudo..............................................57
Camadas da Reflexão..............................................58
Gotejar....................................................................59
Incógnita.................................................................60
Relógio....................................................................61

Servidores do IFSC

Loucura ou cura?.....................................................62
A vigília do mundo..................................................63
Estagiário monoglota..............................................64
A caixinha vermelha................................................65
Onde nascem os sonhos...........................................66
Fim..........................................................................67
Vamos tomar um café?............................................68
Uivando para a chuva..............................................69
Mais Um Dia Daqueles............................................70
No mesmo mar........................................................71
Erupção...................................................................72
Desabafos................................................................73
Controvérsias do amor............................................74
Fastio......................................................................75
Prefácio

Para respeitar o mesmo critério do Regulamento


do I Prêmio IFSC de Literatura, este prefácio não terá
mais do que mil caracteres. Mesmo que os números
tentem impor uma limitação, as letras dos textos desta
antologia parecem que a ignoraram. Afinal, as palavras
que preencheram os espaços (ou deixaram vazios)
expressaram sentimentos que desconhecem limites:
angústia, inquietação, esperança, amor... O que se
observa em cada um dos textos selecionados é uma
espiada no infinito.
Também observou-se a tentativa de uma
limitação geográfica, com participantes apenas de Santa
Catarina. Mas os textos aqui presentes ultrapassam
qualquer fronteira. São universais.
Da mesma forma, esta pequena antologia não se
limita ao seu tamanho de 10 por 15 centímetros. Quando
aberta, os textos aparentemente confinados dentro do
livro se expandem diante do olhar de quem busca, nas
palavras, o que muitos insistem em tentar limitar: a
vida.

André Kondo (Jundiaí, São Paulo), autor dos


livros Além do Horizonte, Amor sem Fronteiras, Cem
pequenas poesias do dia a dia, Palavras de Areia, Jabuti
sabe voar?, Alguém viu minha mãe?, O Pequeno Samurai,
Contos do Sol Nascente e Contos do Sol Renascente.

5
Caneta Nova

Guarda teu coração para


Que não venha ser atormentado
Por loucuras
De amor

Mas se a ti vem, vive


Vive

Porque é tão mais clichê falar


Do tempo
Que do amor
E em verdade e efemeridade
São tão inversos

Levanta tuas cadeiras


Muda teu sofá
Vasculha tua cama
Com licença, meu bem
Debaixo de qual mesa teu amor se esconde?

Adriel V. G. dos Santos (18 anos, Jaraguá do Sul)

7
Miserável amor inimigo

É como se o órgão pulsante fosse rompido e as


lembranças se espalhassem como tinta nos orifícios da
pele. Desisto de sofrer, de esperar, de amar alguém
como você e então desisto dessa ideia equivocada
porque é assim que tem que ser. O mundo pode parecer
bem pequeno quando o destino vive nele.
É como se eu estivesse constantemente com frio.
Não um frio absurdo e violento, mas aquele frio sutil e
progressivo cuja única maneira de extinguir é
lembrando-se do calor intenso do Sol e meu sol é você.
Dizem que nestes momentos você deve seguir sua
intuição, porém torna-se impossível quando essa voz
interior é persistente e aventureira, cismando sempre
em andar contra o vento, indo pelo caminho mais difícil.
O problema de andar contra o vento é que nós
começamos a cansar e minhas pernas não vão aguentar
muito. Andar contra o vento é resistir à saudade, então
só digo “até logo”, não como uma despedida definitiva,
mas como uma vírgula e assim anseio pela continuação
da nossa sentença.

Ágatha Samy Borba (15 anos, Blumenau)

8
Um condomínio esquisito

Eu moro num condomínio


Um condomínio esquisito
Aqui, tudo é proibido
Brinquedo, gente, mosquito.

Não há nenhuma criança


Quando tem, proibido brincar
Não se pode brincar de bola
Porque pode incomodar.

Nesse lugar, nada se pode


Aqui, se vive sozinho
Como alguém pode viver
Sem ter amor e carinho?

É só alguém pisar mais forte


O vigia vem avisar
Que aqui nada se pode
Ou alguém pode reclamar.

Subir rampa de bicicleta


Um carro pode atropelar
Desse jeito chato de viver
De tédio vão me matar.

Bianca Juraski Camillo (11 anos, Florianópolis)

9
Avesso: O lado de dentro

Às vezes as coisas ficam às avessas


O barulho se mostra silêncio
E o silêncio grita estridente
Na mente há emoções
E na alma efêmeras razões
Em companhia uma casta ausência
Em solidão, doce presença
A tempestade que se faz calmaria
E a noite que traz o dia
Os calafrios em pleno verão
E o calor do aconchego nas noites de inverno
Quando a procura ofusca o que se tem
Quando um sonho é realizado
Mas o desejo continua ardente
Quando a vida vai na contramão
Em pista de mão inglesa
Na imagem espelhada de tudo que faço
Encontro no inverso tudo que sou
Porque a pergunta virou resposta
E agora a resposta pergunta:
– Espelho, espelho meu,
Existe avesso mais real que o meu?

Elisama Correa Tavares (21 anos, Florianópolis)

10
Quaisquer coisas

Quaisquer é uma palavra muito singular para ser


considerada uma qualquer. Dentro dela existem outras
duas: as quais vê quem quer.

Ester Jessica Hostert (19 anos, Blumenau)

11
Língua elástica

Procuro uma língua que me salve


Pode ser língua grande
Língua vulgar, língua culta
Pode ser língua áspera. Ácida.
Ou língua cansada, exausta de não ser ouvida.
Não ligo se ela vem entredentes, feroz.
Procuro língua falada, mesmo que surda.

Eu imploro pelos diálogos que tanto desprezei


e reconsidero minha opinião sobre os conselhos
Penso em quanto silêncio perdi
e o excesso de clichês que anunciei
Hoje, gosto de lamber palavra rabiscada, não
pode ser editada
Preciso de palavra vivência viva na língua
– pronta a suicidar-se boca afora.

Uma língua como uma âncora – fixa, e também,


como ponte – caminho.
Eu preciso da balbúrdia si-lá-bi-ca
Careço do que outrora havia relutado
E mesmo arriscando algumas palavras
preciso da palavra risco como preciso da
palavra linha que é uma palavra reta.
Toda língua deve ser concionada e ouvida
Nunca mais negligencio língua solta
Afinal, todo poeta é língua elástica.

Gabriel de Melo Cardoso (19 anos, Balneário Camboriú)

12
Saudades
Eu sinto sua falta…
Falta de seus hipnóticos olhares,
Falta de sua doce voz,
Falta de seus calorosos abraços,
Falta de seu afrodisíaco aroma,
Falta de seus radiantes e loiros cabelos.
Eu sinto sua falta…
Mas não é uma saudade qualquer,
Não é uma saudade a qual nossos corpos estão
separados, mas sim nossas mentes e almas.
Mentes e almas divididas por um enorme muro
rebocado pelo medo, pela insegurança, pela pressão,
pelo amor…
Vivíamos uma guerra fria, onde os dois ameaçavam,
mas não atacavam; e parece que essa guerra se
congelou de vez.
Talvez os dois lados saíram vitoriosos,
Talvez os dois lados saíram derrotados.
Sinto falta dessa guerra…
Sinto sua falta…
Sinto falta dos tempos em que vivíamos em sintonia,
em que vivíamos como dois cisnes apaixonados ou
como dois leões revoltados.
E por mais perto que seu corpo esteja do meu, ainda
sentirei sua falta…
Creio que esse é o pior tipo de saudade que existe no
mundo.

Gustavo M. F. do Nascimento (16 anos, Guaramirim)

13
Tempo

Penso nas horas vagas do viver


Penso nos minutos adoecendo o próprio ser
Penso nos segundos prejudicando todo o meu
entender
O entender dos milésimos de todas as horas,
todos os minutos dos segundos que irei perder.

Quero compreender a origem!


Saber a fantástica experiência da existência
Acreditar em todos os momentos de uma
própria miragem da vida.

Poderia ser apenas uma gota toda essa


trajetória
Como irei saber se a vida não é apenas uma
memória?
Uma memória passada de uma história,
Uma Vitória
Ou uma glória.

Voltar a viver
viver de novo
Perder tempo acreditando no novo!
Perder tempo esperando o que vai vir
Sem ter a certeza que você está mesmo
Existindo aqui.

Jeniffer E. Redivo Klagenberg (17 anos, Pomerode)

14
Virar Poesia

Deu vontade de largar tudo e virar poesia


Igual a noite vira dia
Quem sabe a dor
De doer se cansaria
E a tristeza, tão aflita por ser triste
Poesia tornar-se-ia
Deu vontade de largar tudo e virar poesia
De transcender a vida com versos e rimas
Talvez o amor, impaciente por tanto esperar
Suas asas abriria
Para bem longe voaria
Livre, enfim, estaria
Deu vontade de largar tudo e virar poesia
Rasgar os velhos hábitos
E quebrar os vitrais do horizonte
Com a alegria
De quem transformou o mundo em poesia

Lizandra Hak (21 anos, Blumenau)

15
Sobre amor

Era de manhã bem cedo ou quase noite, ele me


apunhalou nas costelas e saiu correndo com uma parte
muito amarela de mim.
Senti todos os movimentos discrepantes que
aquele furto causou dentro de mim. Meu coração
escapuliu para o lado direito por cerca de três segundos
antes de tudo se normalizar.
Era muito calor, meados do verão, ou
extremamente frio, no meio de um inverno rigoroso.
Aquela parte faltando me causou náuseas, febre e uma
paixão aguda por um ser microscopicamente ligado a
mim. Saí correndo. Onde já se viu paixão que nem pode
ser vista sem ajuda de uma lente cheia de ornamentos
caros e esdrúxulos?
Logo descobri que não se pode fugir de algo que
mora em você. Desatei a chorar. Eu só queria o que me
foi roubado de volta.

Maria Eduarda Daniel (14 anos, Balneário Barra do Sul)

16
Escrevo

Escrevo pelo prazer


de ver
na folha virgem
O sentimento feito quadro.

Escrevo para poder gritar


Sem ruídos, sem lágrimas
mostrar sentimentos
alterar roteiros estabelecidos.

Escrevo porque só assim


Consigo distribuir pelas letras
A dor e o amor
De que estou prenhe.

Escrevo por necessidade


De registrar com palavras
A incerteza da vida
A certeza da morte.

Ana Janete Pedri (Jaraguá do Sul)

17
O Amanhã Sempre Morre
Ele espera. Sentado em uma cadeira, os pés
saltitando, apenas espera.
A campainha toca. É agora!
– Chegou sua pizza.
– Hã?!
– Apartamento número 69.
– Aqui é o 66 – respondeu, virando o 9 e o trans-
-formando em um 6.
Voltou a sentar-se e notou uma barata no canto
da sala. Mas não podia levantar-se agora. E se chegasse
bem naquele momento?! Continuava aguardando.
A campainha mais uma vez toca. Será dessa vez?
– Olá garanhão. Pronto para a diversão?
– Como assim?
– Você ligou pedindo meus “serviços”, não ligou?
Número 66.
– Não, aqui é o 69 – disse ele, mais uma vez
invertendo o dígito na porta.
Ao virar-se, a barata ainda estava lá, imóvel.
Pegou o chinelo, apontou e jogou. Disparo certeiro. Um
tiro, uma morte. Levou o que sobrou até o banheiro.
Enquanto os restos mortais da barata rodo-
-piavam na descarga, ouviu um grito vindo da rua.
Olhou para fora e viu apenas as duas últimas letras do
luminoso do Clube Blergh.
A campainha toca novamente. Só pode ser agora!
Se não agora, quando então?

Bruno Ricardo Gessner (Jaraguá do Sul)

18
Balanço do (a)mar

Tudo o que vem, da mesma forma volta.

A vida mora nas ondas do (a)mar.

Não se afogue: a dor que te sufoca

em pouco tempo vai se desmanchar.

Assim como o prazer – sua face oposta –,

onda que nós torcemos pra durar.

Ao mar, nossa vontade pouco importa...

A nós, cabe somente navegar.

Carlos Manuel Rodrigues Nogueira (Florianópolis)

19
Língua-mãe

Estou grávida de palavras.

Logo darei a luz a um poema.

Espero que reconheças o filho:

tem as tuas aspas e as minhas reticências.

Mas, por favor,

não o registre em um livro qualquer.

Deixa-o livre para decidir

em qual leitor ele vai viver.

Carolina Meyer Silvestre (Criciúma)

20
Desde que perdi meu relógio

Perdi meu relógio ao meio dia em ponto. E só tive


certeza da hora porque olhei para o sol. Desde então me
oriento pelas sombras projetadas. Só fico um pouco
perdida em dias nublados.
Sem relógio, só durmo depois que o caminhão do
lixo passa, pois ele atiça os cachorros. Acordo quando o
vizinho tira o carro da garagem, então sei que é o
momento de levantar.
Depois que perdi meu relógio, descobri que a
espera na sala do dentista leva, em média, vinte páginas
de um livro, e que dá para devorar umas cinquenta
páginas enquanto se espera o motoboy trazer a pizza.
Meu relógio tem pulseira de metal. Nunca usei
algemas, tipo aquelas que se colocam em quem perde a
liberdade por cometer um crime. Mas depois que perdi
meu relógio tenho a impressão de que passei muito
tempo algemada sem saber, exatamente, o crime que
cometi.
Fica, então, um pedido: se alguém achar meu
relógio, por favor, não me devolva!
Pois desde que perdi meu relógio, nunca mais
perdi meu tempo.

Cristiane Dias (Criciúma)

21
Mãos

Viu-as pela primeira vez ao entregar-lhes um


folheto que caíra. Nem tocá-las pôde, tão fugaz fora o
encontro. Mas houve outros e, então, sentiu o tremor da
primeira vez: suaves, leves, delicadas. Sentia-se
maravilhado ao tomá-las e levá-las por longos caminhos.
Paralisava quando deslizavam docemente por entre seus
cabelos. Seus gestos eram uma linguagem silenciosa,
mas repleta de significados. Tornaram-se mais belas
com a aliança que lhes dera. As flores que eventual-
-mente seguravam eram simples adornos às suas
perfeitas linhas. Tudo nelas era marcante: a destreza ao
esgrimar as agulhas no crochê; o carinho no trato das
crianças; a elegância na caligrafia de geométrica beleza.
Impossível esquecê-las. Nem o tempo roubou-lhes o
encanto. Os anos subtraíram-lhes a umidade, mas nelas
lapidaram a leveza e o toque terno e carinhoso. E assim
que, devotado, acompanhou-as até vê-las descansarem,
já pálidas e sem energia. A ausência do afago daquelas
mãos é a dor que seu coração ainda amarga.

Danilo Silvio Aurich (Florianópolis)

22
Olhos úmidos

Acalma-te

Repousa teus pensamentos na canoa

Deixe-a flutuar

Ondas, nuvens, e olhos úmidos

E se a brisa carregar o cheiro da lágrima

Chore mais, até que transborde

Chore menos, mas não deixe secar

Então que seja lágrima por risada

Até ambas se confundirem

Até você se exaltar

Elaine Santos Corrêa (Joinville)

23
Da Feitura de Amor

Quero saber de ti
Como se ajeitam teus jeitos
Como exalam teus cheiros
Como tocam teus tatos…

Em nós
Que todos os sentidos espalhem-se
Subindo-nos um calor unânime
Por todos os lados
Ávido
A encontrar atalhos
Pela tua pele curvilínea
De horizonte orgástico
Cujas extremas soam
Tua voz em sons incógnitos...

Quero ser, contigo, o ato


A própria e pura estrutura
Da tal feitura
De amor.

Fábio Dantas Amaral Lisbôa da Silva (Florianópolis)

24
Mente tecnológica

Olhe à janela!...

O mundo cresce, globaliza, tecnologiza!

Você se conforta, eu me conforto, nos

saciamos;

Um clique, um touch, uma passagem...

E tudo o mais nos parece sorrir!

Olhe à janela!...

Dentro em pouco a contradição.

Mude a lente que mente e verás,

Quem sabe, se assim o quiseres,

Nossos restos pelo chão!

Flávio Theodósio Junkes (Biguaçu)

25
O último ensaio de Susan

“É esta a praia?”
“É,” ela respondeu, largando a coleira de Dipsie,
o cachorro. Me deu uma longa olhada.
“Não vai fazer o que deve?”
Preparei a câmera em silêncio. O mar rugia na
tarde cinza.
Se aproximou de mim e deu um lento beijo.
Senti vontade de impedir. Mas não.
Afagou de leve o cãozinho, sorrindo. Dipsie fazia
de tudo para pedir, pelo-amor-de-Anúbis, que eu não
deixasse Susan cometer aquela loucura. Ignoramos o cão
em silêncio.
Tirou as sandálias. Os outros seguiam na direção
contrária do mar, que tempestuava mais e mais pela
areia. De costas, sem chapéus, vestidos de verão ou
sorrisos.
A primeira imagem seria dela desnudando-se,
como o combinado. Cliquei.
Um relâmpago. Dipsie uiva. Suas pegadas
dirigem-se às ondas. Sem adeus, charminho ou
goodbyes.
Outra foto. O ensaio faria a cidade inteira amá-la,
lembrá-la, homenageá-la. Susan, a modelo mais sexy e
escultural daquela geração, na sua jornada pela
eternidade. Caminhando, clique a clique, em direção ao
suicídio.

Gabriel Daros Lourenço (Florianópolis)

26
Canto do Rouxinol

Escute... Escute atentamente, minha filha


A briosa canção do pássaro parnasiano
E o belo verso mariodeandradiano
Ressoando como sonora maravilha.

Preste atenção, minha filha, no arcano


Manuscrito na azulada abobadilha,
Que decora a casa e não empecilha
A cor transpor o transparente pano...

Repare como a vida é fugidia e pura


Como somos em amor uma só criatura
No plano da perfeição aborrecida de Deus...

Pense... Veja como somos únicos e vários,


Dentro dos mundos celestes imaginários,
Inabitados nos corações entre você e eu...

Gerson de Almeida Lima (Jaraguá do Sul)

27
O cômodo

O ar parado do cômodo me sufoca, me prende,


me leva ao passado, a um lugar distante, ao fundo, tira
minha paz, minha luz, minha sanidade.

O ar viciado do cômodo me entristece, me vira do


avesso, me consome, me hipnotiza, faz perder-me em
meus pesadelos.

O ar bolorento do cômodo me desumaniza, me


transforma, me padroniza, me destrói, faz de mim meu
pior inimigo, me faz desistir.

O ar tristonho do cômodo se acalma, silencia, se


ilumina enquanto sua boca deliciosamente diz.

– Posso abrir a janela?

Gilberto Theves (São José)

28
noite o recinto

a porta ficou entreaberta e dava pra ver as


partículas do som ainda saindo e se misturando às do
silêncio da névoa exterior, e um que estivesse ali como
testemunha apreensiva sentiria os barulhos das solas na
madeira em movimentos confusos até se aproximarem
enfim da chama e depois saírem como que assustados
num tropel e uma cadeira caindo e estalando em três
impactos. uma pena não haver ninguém para ler o
bilhete, ou, as pegadas de terra-barro seco, que ficaram
escritas em alto-relevo, clarasombreadas pela luz
vacilante:

não é que seja a noite que caminha


infinita pela salas oculares,
nem porque não seremos os últimos
a sair vivos das lavras dos seus passos.
tampouco o sopro ofegante
exalado das asas
teria a angustia da lamparina acesa
intermitente na envergadura da alma.
quem chegar antes de mim, por favor,
esqueça esse passado tremeluzindo
nalgum canto das horas que não existem,
e apague estas palavras

Henrique Pitt (Navegantes)

29
Era Uma Vez... Uma Casa…

Segunda-feira: todos os dias quando vou para o


trabalho, eu sempre passo em frente a uma daquelas
casinhas típicas de cidade do interior, que têm vasos de
violetas nas janelas, gaiola de canarinho pendurada na
varanda, jardim florido com muro baixo e portãozinho
de ferro. Essa casa é uma das poucas que ainda existem
no quarteirão. E eu gosto de observar a simpática
casinha. Hoje, por exemplo, o gato ruivo que mora lá
estava deitado tranquilamente no telhado tomando sol.

Terça-feira: hoje, quando passei em frente à


simpática casinha, me espantei ao ver alguns homens
desmanchando o telhado.

Quarta-feira: a casinha já não tem mais telhado,


e agora os homens estão tirando as portas e as janelas.

Quinta-feira: a casinha ficou com apenas uma


parede e o assoalho.

Sexta-feira: hoje restaram algumas pilhas de


tijolos quebrados, um canteiro com margaridas, o gato
sentado no muro e a lembrança da casinha típica do
interior na minha memória.

Iara Clarice Sabino (Guaramirim)

30
Distância

Cada palavra dita mata um sentimento

cada sentimento traduzido perde

o ritmo

a distância mata à falta de toque

ou ao excesso de toque

na tecla

a distância é uma palavra

de estante

gestante

de poemas.

Jair Lucas Mariano Júnior (Itajaí)

31
Des (Amor)

Tentávamos nos equilibrar sobre a fina camada


de gelo que formava naquela mesma calçada por onde
caminhou um tal de escritor que eu tanto gostava.
Outras vezes, nossos pés afundavam na neve. Lembro
que nesses momentos sentia que a respiração do mundo
cessava. Era eu e você.
Esquecemos nossas luvas e tudo estava conge-
-lado. Meu nariz, meus pés, minhas pernas, parecia que
andava nua por aquelas ruas. Você compartilhava da
mesma sensação? De vez em quando, presenteávamos
com um beijo nos lábios já rachados. Lembro que
gostava dessa sensação da boca seca e da sua respiração
quente. Como era mesmo?
O problema é que nunca fomos cuidadosos. Por
isso nos perdemos. Você sempre soube para onde ir.
Diferente de mim, que sempre optou por estar perdida.
E você me olhava com aqueles olhos escuros e falava que
tudo ficaria bem. Não, nada ficaria bem. Hoje ando
perdida pelos mesmos erros, as mesmas falhas e faltas,
as mesmas atitudes. Dessa vez, sem sua mão e sua boca
com os lábios rachados.

Joana Amarante (São José)

32
O General

Por causa dele,


Meus filhos puderam enxergar o mundo.

Por causa dele,


Consegui pedir minha mulher em casamento.

Por causa dele,


Minha família se reúne para almoçar todo
domingo.

Não pude participar,


Mas acompanhei pela televisão a luta dos
nossos heróis.

Teve um preço, claro,


Só Deus sabe como o outro lado está depois de
tantas bombas.

Mas tudo bem,


O importante é que ganhamos a guerra!

Por que então,


Enforcou-se o general?

João Alberto Pizzolatti Neto (Balneário Camboriú)

33
Peixe de Escama-Brava

De novo o sono fugiu de mim.


A claridade do dia me entristece porque é à noite
que nossos encontros acontecem.
O silêncio do escuro me serena.
Água da fonte quero beber na tua fonte, ó Apolo
que retorna do mergulho ao mar!
O fogo perfumado do teu desejo me tira o
oxigênio.
Alinhavo as palavras para que compreendas o que
sinto,
para que minhas palavras surtam efeito em ti e
toquem tua alma.
Há algo entre nós que me lembra um ímã.
Sei que ficas Zen ao som de qualquer pizzicato.
Quem dera eu tivesse dominado essa arte só para
acalmar-te, ó touro andaluz!
Ainda que eu prefira o som do lundu, por ti
renuncio a meus caprichos.
Faço isso para ver-te bem, ver-te e ter-te calmo,
ter-te de qualquer jeito
e também porque aprisionaste minha alma, tu
mesmo, peixe de escama-brava.
Não reclamo.
Nas noites enluaradas escamar-te-ei até que
fiques igual a xantungue acariciando minha pele.
Tenho paciência de Jó, destreza de sushiman e
sou filha de pescador.

Josemeri de Sousa Coelho (Jaraguá do Sul)


34
Barquinhos de Papel

Vai,
Segue teu curso
Deságua teu drama
Usa todo o feminino recurso,

Entre as pedras corre,


Desatina todo fluxo
Das árvores,
Pedes sombra,
Te encolhes,
Ah, com essa tua teimosia
Me assombras, faz poesia,

Sonhei, confesso,
Quis dar-te o anel,
Maliciosa,
Tu foste tão cruel,
Nunca a verei sob o véu,

Hoje pobres das minhas juras,


Nas tuas águas mansas,
Desfilam em forma de
Barquinhos de papel...

Lais Rodrigues Sabin (Pomerode)

35
Mito

Ser é um quebra-cabeças
Os menores erros nas escolhas
O até breve ao adeus
Pronomes nossos em vez de seus.

Ser é um cubo mágico


Ao melodramático o trágico
À segunda chance a primeira
O seríssimo pede besteira.

Ser é um saber nonsense


Ao insensato que se pense
Uma oração de sujeito oculto.

Ser é um erro de concordância


Encontrar na vida a fragrância
As reticências que te fazem mito.

Márcio Dison (Florianópolis)

36
Abominável

aquilo bate no espelho e espalha memórias


de alguma voz escorre outra metáfora

entre
frestas
atravessa
horroroso
o olho
invernal

a matéria
fria fica
sob a janela
pra dizer que
tudo é humano

Marcos Rogério de Oliveira Jr. (Florianópolis)

37
Marginalidade poética

Ora caóticas,
almas circulares
desencaixam

Formam ondas
planares
e somem
na espuma

Ora melancólicas,
almas espiraladas
cerram

Como flores
noturnas
se escondem
na lua

Mergulhadas
no marinho azul
emergem

Bolhas marginais
flutuam
poéticas

Mariana Silva Villela (Florianópolis)

38
os gatos

os gatos, a noite inteira,

passeiam matreiramente

pra lá e pra cá no muro.

o que pra nós é barreira

pra eles é simplesmente

o caminho mais seguro.

Mauro Bartolomeu (Florianópolis)

39
A fila anda

Na fila da padaria, um casal demonstrava o início


da paixão, quando a distância de dois dedos parece um
oceano. Pensei: já que o término é um fato, quanto
tempo durará? Quase disse: não se incluam em todas as
possibilidades de futuro, porque, quando isso acabar, vai
restar o que pra seguir? Trocar status virtuais, deletar
fotos e contatos salvos como “amor”, ah o amor, não
dizer seu santo nome em vão. Na vida real: perder
contato com pessoas, cancelar os compromissos, “traga
minhas coisas, leve as suas”, e afogar sonhos feitos no
tilintar de taças de vinho. Argumentos nada convin-
-centes aos olhos cegos dos amantes e, por isso, assisti
calada quando ele pediu “quatro pão”. O amor não
precisa ser singular até na conjugação. Quando saíram,
eu desejei que o nós de ontem não se transforme em nós
na garganta, e que as borboletas do estômago não voem
nesses socos que a vida nos dá. Pedi sonhos. Se não
posso realizá-los, vou comê-los. A fila anda e, para mim,
a do lado sempre flui mais.

Milene Batista Maciel (Araranguá)

40
As Bruxas estão à solta

Hão de aparecer a sua volta


Quando fracasso e sucesso
Forem anedotas tênues de papéis
Que se invertem para adestrar sua visão

Os ciclos protegem a nós das castas


Onde notas exatas estão no teto
Para que os segredos róseos contem
Aos fiéis e sábios que os calarão

Os caldeirões guardam almas


Os cantos anciões trazem novas
Formas de fazer do passado
Fermento do futuro, igualmente ocorrido

Entre Fernandos e Pessoas


Me exilo em Cruzes e Sousas

E que os símbolos me livrem


Dos Deuses monetários
E dos mosteiros falidos
Da tal contemporaneidade

Pedro Ivo Moreira Gorrão (Florianópolis)

41
Cópia

A palavra tem de estar próxima ao corpo, não


somente ao pé da página.

Precisa inverter a hora dos despertadores,


pausando o calcanhar e a fome em branco.

Deve sair desavisada, destituída de retas e


pronta aos tombos.

Necessita da flor e do ponto final,


para que as reticências amanheçam.

O verbo avança nas linhas pelo rosto da


contramão, sem as setas do texto.

Mesmo que findo, aqueduto ou labirinto, o


grafite imprime águas.

Submerso, o amor descansa nestes rascunhos.

Rita de Cássia Alves (Joinville)

42
Na Espreita da Vida

Ela, tensa e lúgubre.


Espreita-me desde meus primeiros suspiros de
vida.
Nas curvas da estrada escura,
Nos fundos dos becos sombrios,
No acelerar do carro,
No beber em demasia.
Ela me observa, me espreita.
Antes, na juventude, medo eu tinha.
Hoje, sei que ela me espera.
E dela não poderei fugir.
Então só tento ao máximo,
Retardar nosso encontro.
Que a vida seja bela,
Vívida e arteira.
Porque depois de muitos anos,
Vamos nos encontrar:
Eu, a morte e o fim da ladeira.

Rô Mierling (Passo de Torres)

43
Palavras e Atritos

As palavras que dizemos

nos dizem.

São armas brancas

desgastando afetos

no atrito da convivência.

Mesmo após o silêncio retornar

à mesa de jantar,

o assunto continua lá,

aboletado na cadeira da ponta.

Latejando no estômago de todos.

Sandra Meyer Silvestre (Criciúma)

44
Pôr do sol

Sou do tipo excêntrica: não gosto de tomate, tiro


a salsicha do cachorro-quente e como primeiro o miolo
do pão. E gosto dos pores do sol no verão. Quando estive
em Jericoacoara, pude presenciar uma cena muito
agradável. Ao final do dia, depois do último feixe de luz
que não conseguiu mais desviar do mar, ouvi as palmas
de dezenas de pessoas presentes naquela duna. Estavam
todas ali esperando, exatamente, aqueles instantes
finais. Nesse momento, lá de cima, senti saudade. E
quem não sentiu o mesmo? Maria sentia saudades da
juventude, daquelas pernas fortes que a deixavam correr
pela orla de Fortaleza; Creuza, que tinha pernas fortes,
sentia saudades do João, que a trocou por uma dançarina
do Pirata Bar. Adamastor do coco gelado sentia saudades
de quando o coco dava mais lucro. Bento não sentia
saudades de nada. Estava ali, bem quietinho, porque a
vó prometera um picolé de açaí. E aquele pôr do sol foi
se mostrando como numa tela de Picasso. Único.

Vaniele Medeiros da Luz (Pedras Grandes)

45
Soneto a não existência

Atormenta-me a existência doída


Que por inexistência clama ao nada
Constrange a flor assim despedaçada
Que, sem pudor, é covardemente destruída.

Se não fosse jogada a sorte,


A possibilidade de existir ou não nascer
A escolha de não existir seria mais forte
Pois a ausência nos levaria a não sofrer.

Se o sofrimento leva ao aprendizado,


Que como um feitiço nos aprisiona
Que seja ignorante o pobre coitado.

Se por desamor sofre a alma


Na mão do impiedoso destino,
Não seja a flor vítima deste desatino.

Wyllyan Rodrigues do Nascimento (Florianópolis)

46
Metapoesia

Feliz é o poeta
Que um prato cheio faz da literatura,
Que alimenta a alma com a ternura,
Que a partir dela traça sua meta.

Tão feliz é o poeta


Que da flor da poesia faz exalar seu perfume,
Que a virtude exalta na palavra que trabalha,
Pelo mais puro amor, não por seu ciúme.

Quão sofredor é o poeta,


Que de sua dor faz seu pensamento,
Oriundo da agonia, do mais cru tormento,
E da sua arte faz o próprio alento.

Mas sofre tanto o poeta!


Quem da privação extrai doçura,
Em seu destino, vê claramente a tortura,
E da limitação faz a sua literatura.

Porém, é alegre o poeta,


Aquele que suporta toda a dor,
Leva a criação onde reina o torpor,
Na alegria de fazer o que faz por amor.

Amanda Arruda Coelho (Biguaçu)


Espanhol, Câmpus Florianópolis-Continente

47
A Poesia

A poesia dá paz aos enfurecidos


Dá calma aos aflitos
Dá palavra ao coração

A poesia é a voz do silêncio


É o sabor do vento
É a luz da escuridão

A poesia traz fé aos esquecidos


Traz força aos abalados
Traz amor à solidão

A poesia que me esquenta em noites frias


Que me guia no vazio
Que me estende sempre a mão

A poesia simplesmente não importa


Se é um sussurro ou um grito
Uma imagem ou um borrão

Carlos Eduardo da Silva (Jaraguá do Sul)


Engenharia Elétrica, Câmpus Jaraguá do Sul-Rau

48
Partiste Para Sempre – A Cantiga

Saíste sem aviso prévio,


Abandonaste o meu leito,
As noites tornaram-se sôfregas,
Arderam chamas em meu peito.

Oh, meu amigo!


Que o navio não tenha partido,
Que o tempo revogue as escolhas,
Que tomaste sem ter consentido.

A lua minguante ilumina meus prantos;


Contemplo-a junto ao som do mar,
Maldito seja, oceano impetuoso,
Que meu amado teve de levar.

Oh, meu amigo!


Desejaria eu que não tivesse cedido,
Para em esperança de guerra, no combate
atuar,
Pois, pelas ondas do mar, foste engolido.

Resta-me o silêncio do vazio sublime,


Sobra-me a dor em meu coração,
No qual as saudades chagas abriram,
Chagas as quais jamais cicatrizarão.

Ernani Antonio Wolter Júnior (Canoinhas)


Técnico em Alimentos, Câmpus Canoinhas

49
Inferno
Quando pequeno, eu era religioso, nunca
entendi o porquê de minha mãe fazer-me ir à igreja
todos os domingos. Ela dizia que, se não fôssemos,
iríamos pagar pelos nossos pecados no Inferno.
E aqui estou eu, enterrado até meu queixo de
mármore chamado Prestações e enxofre chamado
Desamor, à espera dos demônios para que venham
logo me atormentar.
Existem vários demônios aqui, ninguém me
faz sofrer tanto quanto eles, formados por partes de
mim que me consomem todos os dias. Dei a eles
nomes baseados nos aspectos que me atormentam:
Responsabilidade, Aparência, Caráter, Notas e
Medo são alguns deles.
Sinto como se este local fosse composto por
átomos que vibram negativamente para formar estes
meus pensamentos mais profundos. Curiosamente,
inferno significa profundezas.
Hoje entendo o que é o inferno, e que todos
têm por natureza o poder de criar seus próprios
demônios. Então me pergunto: Será que todo este
tormento é apenas por causa de alguns Domingos?

Gabriel Vieira Flores (Florianópolis)


Técnico em Eletrônica, Câmpus Florianópolis

50
Medo

Eu tenho medo
Medo de ceder com esse seu sorriso logo cedo
que me faz derreter

Eu tenho medo
Medo do seu toque
que acaba com o estoque de orgulho que há em
mim

Eu tenho medo
de que nada disso se resolva,
e eu me iluda toda te querendo feito boba

Eu tenho medo
Medo que eu me perca nessa ida
e esqueça de restaurar a minha vida

Eu tenho medo
Medo que seja em vão
a minha tentativa de reconstruir tudo, depois
dessa confusão

Isabela Cristina Mot (Canoinhas)


Técnico em Alimentos, Câmpus Canoinhas

51
...

Ainda me recuso a aceitar, embora seja


inegável
A vida me esmurra a cara
Ao passo que me lembro
que já não somos metade do que fomos
e, o pior, nos orgulhamos disto

Não que tenhamos saído da merda


Apenas optamos por afundar-nos sozinhas

Meu problema é que eu não sei lidar com a


perda
Eu não aprendi a ser abandonada
Eu não aprendi a desistir e ficar calada

Me entristece lembrar a garota que fui


Olhar-me e me sentir estranha a mim mesma
Ora!, tornei-me tal e qual as mulheres que
menos admirava

Sabe o que é?
Eu mudo de endereço
Não de confusão

Liv Gabrielle Mengue Salerno Ferreira (Jaraguá do Sul)


Técnico em Química, Câmpus Jaraguá do Sul-Centro

52
Amor passageiro

Às 6h10min da manhã e lá está você em mais


um início de semana subindo o ônibus, voltando à
rotina. É tanto tempo confinada dentro de um ônibus
que você começa a gravar cada pessoa que sobe e
quais ainda irão subir. Você fica observando o mundo
lá fora acordar e decorar cada ponto que o ônibus
precisa parar, parece perda de tempo.
É apenas mais uma pessoa subindo, um garoto
normal qualquer. Por que ficar nervosa?
Troca de olhares. É assim que tem sido
diariamente. A necessidade de encontrá-lo em um
dos bancos, esperando-me. Fingindo não se importar
e com sorrisos bobos. Um dia irá acabar.
Quantas vezes, pedi para que chovesse só para
te ver um pouco mais ou que tive vontade de puxar
assunto. Às vezes peço para não ter tanto medo da
sua reação ao falar com você, coisa que possível-
-mente nunca terei coragem de fazer.
Queria saber o seu nome. Já bastava. Mas,
daqui alguns dias já não nos veremos mais e essa
história não vai passar de um amor passageiro.

Luana Willemann Albino (Forquilinha)


Técnico em Edificações, Câmpus Criciúma

53
Dúvidas

Em que ventrículo está o seu amor?

Lucas Vinicius Rodrigues (São Miguel do Oeste)


Técnico em Agroindústria, Câmpus São Miguel do Oeste

54
Sensações

Ela olhava para as estrelas com uma expressão


sonhadora,
Pensando no futuro enquanto estava presa ao
passado,
Mal conseguindo viver o presente.

Ela olhava para o céu com um sorriso no rosto,


Desejando poder voar como um pássaro e
Se livrar das correntes que a prendiam
Como o vento.

Ela encarava o oceano com a respiração ofegante,


Ouvindo o quebrar das ondas no mesmo instante
Que sentia seu coração se rachar
E sua vida acabar.

Ele a observava de longe, na espreita,


Esperando-a o notar e o encarar.
Mas ela estava ocupada demais admirando
A escuridão do abismo a sua frente para se virar.

Ela fechou os olhos enquanto voava, sentindo-se


livre como o vento.
Ela viu aquele que partiu seu coração,
E aquela foi sua última visão.

Milena Leithold (Jaraguá do Sul)


Técnico em Química, Câmpus Jaraguá do Sul-Centro

55
Nostalgia Insular

Andando por tuas estreitas


Agora movimentadas
Viajando ao passado
Às vezes fico calada
Escutando o burburinho
E a algazarra da criançada.

Rio caudaloso o da Bulha


Encontro das lavadeiras
Lavavam as roupas na fonte
Cantando a ratoeira.

Mercado Público, histórias


Próximo da Alfândega está
Chegavam as embarcações
Das freguesias pelo mar.

Entre monumentos e lembranças


Cais e trapiche Miramar
Encontro de artistas e boêmios
Derrubaram para aterrar
Mergulhamos como crianças
Que moedas iam buscar
Na recordação, na história
Da vida que havia no lugar.

Nerivalda Duarte de Sousa (Florianópolis)


Espanhol, Câmpus Florianópolis-Continente

56
Do outro lado de tudo
A porta!
Cadê o sol, lua, estrelas e as pessoas, cadê
todo mundo?
Não ouço mais o som dos instrumentos, nem o
sino.
Horrores na penumbra de uma chona eterna! E
este barulho, o que é? É o passar da carruagem que
se vai ao longe, descendo a serra! A luz torna-se cada
vez mais tênue e o desbrilho tende a só aumentar.
Além das rodas não mais ouço. Espera! Tenho coisas
a fazer, amigos e meus familiares não se fazem
presentes neste devoluto. Pra onde vamos? Não me
pediste pra subir e sem esforços e sem mãos já estou
aqui! Por que o silêncio presente num momento sem
compreensão e lágrimas maçadas, estranho tudo isso,
preciso voltar! Agora já posso acordar! Preferia que
fosse somente um sonho, vejo que não o é! E que a
sombra da negreira nuvem culminante e atraente da
obscuridade, não fosse além da incerteza, e do vazio
da alma sem lágrimas. Assim sigo a viagem sem
querer, e sem querer descer, prosseguir e mais do
que isso, sem sentir ou sem sentimentos. Este é o
caminho além da porta.

Paulo Cesar Rubio (Gaspar)


Tecnologia em Processos Gerenciais, Câmpus Gaspar

57
Camadas da Reflexão

Marsi notou que algo estava errado quando


começou a entediar-se com as palavras que ouvia das
pessoas em uma janta qualquer. Retirou-se para lavar
o rosto. No banheiro, encarou sua imagem e,
observando as gotas de água caírem, lembrou ser
adolescente.
Com ares de melancolia, pôs-se a observar o
céu estrelado. Avistou um planeta qualquer,
lembrando a distância que os separava. Começou a
imaginar o quão bonita deveria ser aquela cena de
encarar o céu com um olhar espantado. Aquele olhar
que todos diziam ter algo de estranho, de triste.
Tirou seu chapeuzinho e começou a pensar
novamente nas coisas que pensava percebendo o
quanto tais coisas não significavam nada. Marsi
entendia o quanto não entendia. Se tentasse falar,
não conseguia; se tentasse escrever, acabava que do
papel ria. E, então, notou que quanto mais ela sabia,
menos ela sabia.

Poliana Telles da Silva (Jaraguá do Sul)


Técnico em Química, Câmpus Jaraguá do Sul-Centro

58
Gotejar
O gotejo da vida me parece lágrimas
Os segundos escorrem, tornam-se monótonos
Voam anos ligeiros ainda mais rápidos
Amontoam-se horas ainda mais lânguidas
E o futuro pinga tornando pretérito
Revelando o fim de um destino mórbido
Sinto, a cada gota, a morte mais próxima
As falsas ilusões quebram-se e desfazem-se
A vida dá as caras e entro em pânico
Porém, ergo os olhos diante das lástimas
E vejo um cintilar que embora tímido
Destrói a enclausura que o breu confina-me
O brilhante retorna aos meus olhos trêmulos
Sinto o sol me banhar com dourado mágico
Flores me sorriem com suas cores vívidas
O verde e o azul nos morros abraçam-se
Melodias fagueiras me cantam os pássaros
Feixes de alegria partem de meu cérebro
Viver com o sorriso me parece lógico
Eu enxergo agora esperanças sólidas
Felicidades bárbaras
Sorrisos esplêndidos
Prazeres inúmeros
Amores recíprocos
E o futuro próspero

Sandro Roberto Pauli Junior (Antônio Carlos)


Técnico em Eletrônica, Câmpus Florianópolis

59
Incógnita

A vida é uma incógnita pra mim. Assim como


tu é, só que tu é muito pior. A vida eu deixo passar,
mas tu, toda vez que passa me leva junto. Todo dia eu
digo para mim mesma que eu não vou mais te deixar
entrar. Então tu chega, bate na minha porta e entra
antes que eu consiga te impedir. Tu diz que sente
saudade, mas que não pode ficar. Eu nunca consegui
entender essa mania que tu tem de sempre aparecer
e me bagunçar como quer. O problema é que tu me
bagunça e foge. Tu sabe que não pode ficar, mas
sempre carrega meu endereço junto, pro caso de
precisar voltar.

Taynara Cristina Cataneo (Guaramirim)


Engenharia Elétrica, Câmpus Jaraguá do Sul-Rau

60
Relógio

Dizem que o tempo está mais rápido,


Se tornou um Larápio.
Deixando morte em seu rastro.

Outros dizem que é lento,


o suficiente para sentir dor
causar dor
E viver sem pudor.

Quero que o tempo passe rápido,


Assim a dor seria como arrancar um curativo
Dói
Mas no final é positivo.

Quero que o tempo passe rápido,


Não para que a vida acabe,
Mas que a felicidade tenha o tempo que lhe
cabe.

Sou o relógio do coelho,


Atrasado para tudo,
Especialmente para amar.
E caindo de cabeça como Alice,
Tudo que me resta é esperar.

Vinícius Lalau Domingos Lopes (Joinville)


Técnico em Mecânica, Câmpus Joinville

61
Loucura ou cura?

Protesto com minha loucura


A ordenação do sistema.
Sou louco para desvelar
A veracidade do tema.

Tu vês em mim o que és.


Reflito a tua imagem.
Uma árvore tem sentido
No contexto da paisagem.

Mergulho nesta viagem


Em busca de minha cura.
Encontrar a si próprio
Pode chamar-se “loucura”.

Transformar a política familiar


No cotidiano, no bairro, na cidade.
Vivendo a arte de amar
Recuperamos nossa sanidade.

Afonso Vieira (Joinville)


Psicólogo, Câmpus Jaraguá do Sul-Rau

62
A vigília do mundo

Digo a preguiça de dizer.


Começo a preguiça de começar.
O que nego é por hábito.
O que afirmo, nem sei.

Será que tudo já fora dito?


Espero algo a dizer...

E, num intervalo,
onde há música,
retiro o refrão de seu eco,
que já não é mais refrão,
apenas um som dismórfico
exilado da palavra.

É a soma de todas as vozes.


É a sombra de todas as formas.
Um grito humano,
cansado e sussurrante.

Há tanto sono no mundo,


que os homens, de tanto dormir,
dormiram para seus sonhos...

Diego Luiz Frozin Fernandes Cruz (Florianópolis)


Psicólogo, Câmpus Florianópolis

63
Estagiário monoglota

– Ainda não entendi bem... Você pode repetir?


– Égua, cê não intendinão? Ségui todavida
diapé até o sinaleiro, quebra as esquerda e pega o
zarco da gidion! Tanso…
– Ah, tá! Vou tentar.
Lá saí eu novamente sem entender nada.
Afinal, que língua é essa que se fala aqui em
Joinville?
– Por favor, o senhor poderia me indicar como
faço para chegar até a área industrial?
– Sei não. Sóvim comprá chineque e schmia e
javoíno.
É, não tem jeito. Vou caminhando, mesmo. Em
algum momento eu chego lá.
Depois de dois banhos de chuva e com um sol
de quarenta graus na cabeça, finalmente cheguei no
meu novo estágio. É complicado vir morar sozinho
numa cidade estranha. Mas, ainda bem que o dia
passa rápido.
– Por favor, qual ônibus pego para ir embora
para o Centro?
– Rapá, pergunta praquele Opa de zica!
Zica? Eu não! Vou a pé mesmo.

Edson Sidnei Maciel Teixeira (Joinville)


Professor de Mecânica, Câmpus Jaraguá do Sul-Rau

64
A caixinha vermelha

Pegou uma caixinha vermelha. Arrumou-a.


Tinha uma mesa plana de 3 por 4, uma cadeira sem
encosto e sem braços, de escritório. Olhou para a
caixinha vermelha. Tentou colocá-la de outra forma,
mais virada para a direita. Olhou. Não era ali. Tornou
a manipulá-la. Deslizou-a para a parte mais distante
da mesa, quando no canto superior direito. Olhou.
Não, ficava desequilibrado, muito longe. Deslizou-a
novamente, bem no centro. Olhou, ela parecia
desaparecer. Tormento. Aquela caixinha não cabia na
mesa de 3 por 4. Na cadeira, fez falta encosto e
braços. Era vazio ao seu lado, ia cair. Tentou trazer a
caixinha para perto de si, medianamente na mesa.
Olhou. A mesa se agigantava mais ainda. Tormento.
Suas mãos viveram. Dirigiram-se para a caixinha,
abocanharam-na. Um beijo. Sua boca mastigava a
caixinha e o vermelho vazava pelo canto de seus
lábios. Tranquilo.

Eduardo Silveira (Florianópolis)


Professor de Biologia, Câmpus Florianópolis

65
Onde nascem os sonhos

Ele acordou e desceu as escadas atraído pelo


som que vinha da cozinha. Pela primeira vez, em toda
a sua vida, viu que não estava sonhando. Lá, na
cozinha, de pé, com a velha xícara de chá nas mãos,
estava ela _ que todos os dias havia lhe desejado bom
dia. Emocionado, abraçou-a fortemente, desejando
que aquele momento durasse para sempre. Ela, sem
entender nada e inconsciente de si, ofereceu-lhe o
chá, antes que esfriasse. Ele bebeu, na esperança de
que todas as dores fossem esquecidas. Eles se
olharam demoradamente, como nunca haviam feito.
Ela, por fim, compreendeu o silêncio que se fez, e ele,
finalmente, se deu conta de que outra vez havia
anoitecido. Ela lhe acariciou o rosto e lhe beijou os
olhos desejando o último boa noite de sua vida.

Emerson Cardoso Nascimento (Araranguá)


Professor de Artes, Câmpus Araranguá

66
Fim

E mais uma vez sentamos ao lado da deusa da


loucura. Pela última vez a vimos passar através da
janela de nosso quarto.
Queríamos dominar o mundo.
Acabamos dominados…
E mais uma vez falamos abertamente de
nossos sonhos mais secretos.
Pela última vez…
Seríamos seres superiores.
Acabamos baixando a fronte…
Agora, tudo mudou. Você mudou: não pensa
mais em conversar com a deusa da loucura. Você a
jogou nos trilhos para que o trem da vida adulta a
levasse de volta para o mundo de onde vim.
Pela última vez, sorri com as ideias geniais dos
meus amigos.
Pela última vez, chorei com as palavras tristes
que saíam de ti.
Vou embora para a Terra da Seriedade!
Onde os homens são iguais.
Onde os pensamentos são iguais.
Onde você estará sentada me esperando.

Emerson José Soares (Joinville)


Professor de Elétrica, Câmpus Jaraguá do Sul-Rau

67
Vamos tomar um café?

Num café está uma relação a três. Você, o café


e a outra pessoa. Café de verdade abre sempre espaço
para alguém. Na xícara do café está o tempo para
tratar de coisas que também importam. Pessoas são
importantes.
Até os meus 16 anos não tomei café. Recordo
das palavras de Dona Mariquinha: “Quer uma
paradinha?". Nunca entendi essa expressão, mas
compreendia a magia das palavras: parar, sentar,
falar e escutar. Quem parava era especial. Tinham
aqueles que recusavam. Alguns entravam e não saiam
mais. Em 1988, não entendia os adultos e não bebia
café.
Em 1996, no seminário, me converti ao café.
Foram anos tomando e passando muitos cafés. Da
minha conversão veio a constatação: café atrai
pessoas. Percebi que, quando me ofereciam uma
xícara de café, me entregavam um pouco de si em
forma de conversa ou gentileza. Ao recusar, o
encanto se quebrava e as pessoas iam embora. Então,
o jeito foi aceitar, tomar e conversar. Por isso,
aprenda a fazer, ofereça e beba muitos cafés.

Fernando Mezadri (Gaspar)


Professor de Filosofia, Câmpus Gaspar

68
Uivando para a chuva

Porque muito antes desse tempo,


teu corpo me abraçava contra as pedras frias
juntos e nus estávamos, todos nós, enquanto eu
amamentava
os órfãos de caça, filhotes e crias...cobriam-me
de peles.
Porque houve aquele momento em que
acendemos as fogueiras
à luz da lua
E, em outras noites, dançamos nuas e sós,
afirmando a frágil
chama em uma noite eterna...contra maldições e
pragas.
E fizemos amor nos campos, em nome da terra.
E fizemos amor nos templos, em nome do povo.
E fizemos amor nas guerras, em busca da vida.
Corremos juntos das balas, encontrei abrigo em
teus lábios em sangue.
E torturada, forcei-me a esquecer teu nome.
E por tudo isso, este também é meu eclipse
E o vento que sopra na chuva, pelas frestas do
tempo
uiva em retorno...

Ginga Vasconcelos (Florianópolis)


Assistente de Alunos, Câmpus Palhoça-Bilíngue

69
Mais Um Dia Daqueles
Despertador toca.
Sair da cama dói.
Dor nas costas, nos pés, na cabeça, na alma.
Chove lá fora. Pior, chove dentro de mim.
Trânsito infernal, batida, buzina, motocicleta, espelho.
Estresse.
Trabalho, demanda, retorno, reunião.
Mais uma reunião e nenhuma decisão.
Almoço rápido. A comida? Engoli. Sabor? Não tinha.
Agora faltam só mais quatro horas.
Planilhas para preencher, relatório entregue.
Chefe. Injustiça! A culpa nem era minha.
Vingança. Meia hora na rede social, internet, baboseiras.
Bate cartão. Volta para casa.
Mais trânsito. Trânsito pior.
Enfim... casa.
Casa, não. Apartamento, pequeno, bem pequeno,
minúsculo.
Queria mais janelas. Queria mais ar.
Cuidado! Cocô no tapete. Pisei. Cachorro maldito.
Limpar, lavar.
Banho, jantar.
Morar sozinho é lavar a louça.
Ou talvez não, afinal morar sozinho é deixar para
amanhã.
Deitar. Programar despertador.
Ufa. Esse foi só mais um dia daqueles.

Joana Nunes Costa (Jaraguá do Sul)


Assistente de Alunos, Câmpus Jaraguá do Sul-Rau
70
No mesmo mar

Carregando no mar da insônia,


a levar um contêiner de solidão,
vejo na carta náutica, GPS e posição,
maresia que flui batendo na proa
trazendo a mesma situação,
que o lastro tenta equilibrar,
mesmo com um lotado porão.
Olhando no navio seu calado,
sofro eu calado no leme, distanciando da costa,
sinto uma saudade que gosta,
gosta de me por um nó na garganta,
um nó que porto algum me prende.
Coração seguindo de porto em porto,
que passa na doca quando precisa
um reparo ou mais fazer
vejo ferrugem, metal morto, muita coisa dizer.
Numa embarcação assim em plena cabotagem,
Peças diferentes se mostram e interagem:
Hélice, ferro, radar e imagem.
Um sol de rachar no convés, às vezes revés,
posso ver algumas paisagens, onde:
Manaus sempre se afasta, Fortaleza minha surge;
Em Suape a mais moderna, Santos o maior ilude
Paranaguá e Itajaí,
Já vejo a Sem Limites daqui.

João Henrique Alves Grava Molina (Caçador)


Professor de Química, Câmpus Caçador
71
Erupção

Tatuei
Sua tara
Impetuosa
Em meu
Impulso
Sinuoso.
Transbordamos
Em espasmos
Monstruosos
Sobre a grama
Sob a chuva
Preguiçosa
De outubro.
Fomos tudo.

Luiz Carlos de Oliveira (Blumenau)


Técnico em Assuntos Educacionais, Câmpus Gaspar

72
Desabafos

Poemas são desabafos


De dores e amores sentidos
Poemas revelam os trapos
Colocam pra fora retratos
Do que o coração tem sofrido
Nem sempre se escreve o belo
O feio, às vezes,
Como nuvem vem
Embaçar, romper o elo
Que o poema tem com o bem.

Margarete G. M. de Carvalho (São Miguel do Oeste)


Técnica em Assuntos Educacionais,
Câmpus São Miguel do Oeste

73
Controvérsias do amor

Ah, o amor!
Por que é tão complicado?
Se eu só quero te amar,
de alma e coração!

Diante das incertezas da vida,


nos altos e baixos,
entre amores e dissabores,
meu coração é camaleão

Meu peito clama por amor,


minha alma insiste em florescer,
E na travessia da vida,
entre idas e vindas, só os instantes dirão

Pode ser que a gente se encontre,


em um dia destes qualquer,
com cheiro de primavera,
E, pode ser que floresça

Entre mim e você, há um abismo certeiro,


Ah!, não quero um conto de fadas,
com final feliz
Eu quero ser feliz por inteiro!

Priscila de Matos (São Miguel do Oeste)


Auxiliar de Biblioteca, Câmpus São Miguel do Oeste

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Fastio

limiar entre fome e sede


no mesmo abismo em que se encontra
dantes decaído por suas injúrias
e desumanidades premeditadas:
olho leporino
unha-bicho-preguiça
língua bifurcada
(incendiário da encarnação)
corra-se de si mesmo

seu vazio ecoado:


excremento farto dia a dia
intento ceifador de sonhos
inconsciência letargia torpor coma
projeto inumano que se dilui
ser revivente a cada morte alheia

morre-se a cada lida


malquerer de dúbia existência
mau escrutínio da verdade
insanidade em apostasia
vazio de fome
alheio à sede

Pinheiro Rai (Florianópolis)


Assistente em Administração, Câmpus Florianópolis

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Esta obra foi composta em fonte
Stika Text e Stika Subheading

E foi impressa em Jaraguá do Sul


Reitora do IFSC
Maria Clara Kaschny Schneider

Pró-Reitora de Extensão e Relações Externas


Maria Cláudia de Almeida Castro

Diretor de Extensão
André Dala Possa

Diretor-Geral do Câmpus
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Diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão do Câmpus


Delcio Luis Demarchi

Coordenador de Extensão
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Equipe do Projeto
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Ramos de Souza Oliveira; Fabiana Alves dos Santos
Schrodi; Karla Viviane Garcia de Moraes; Luan
Hubner, Mara Leatrice Mayer; Miriam Hennig;
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de Oliveira e Thayna Schmidt Kosloski.

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