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TT247

Dna=D
É Eio
Lélia Gonzalez
Carlos Hasenbalg

Num pais
dos brancos dominantes
onde o preconceito racial ativo racial,
se disfarça detrás do mito da democracia
LUGAR DE NEGRO
coisas no lugar.
ie EU muitas
— mili tant e do Mov ime nto Negro —
Lélia Gonzalez ia neg ra entre 05 negros
con sciênc
ERRAR ER: Euler es] or
— sociólogo é pesquisad
PTS [ES LL Hasenbalg ro no Brasil —
do pro ble ma do neg
azinhas” dos negros
PRATO A LER RUCA: “bo
pelo mundo dos brancos.
LUGAR DE NEGRO

traça um panorama sucinto


entes de nosso pais,
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onde o pro blema étnico está, des
do destino político
ligado à questão das classes e
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TOR Eae Ta CRE

10)
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EDITORA MARCO ZERO LTDA.


EDITORA MARCO ZERO LTDA. Ea a
Exemplar nº Lélia Gonzalez
19h6 Carlos Hasenbalg

Lugar de negro

Copyrght by Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg — Direitos Editora Marco Zero Limitada
adquiridos pela Editora Marco Zero Limitada, Travessa da Rio de Janeiro
Paz, 15 — 20250 — Rio Comprido — Telefone: 273-2337
à — Rio de Faneio -—- RJ 1982
COLEÇÃO 2 Índice

PONTOS

Volume 3

Diretores: -— Sobre og AUÍOLOS ...cccccccasitccera

. ilvei — O Movimento Negro na Última Década 9


MartaMaria
Tania José Sireita
Mendes Lélia Gonzalez
Danicl Anrão Reis Filho va
Felipe José Lindoso O polpe de 64, o novo modelo éeconômico no
e a população negra ... -Pt-
Movimento ou movimentos negros? ct
Projeto Gráfico: Experiências e tentativas ....ccccecrer 21
Denise Pimentel A retomada político-ideclógica .. 130
O Movimento Negro Unificado contra a
Discriminação Racial .............. 43
— Raça, Classe e Mobilidade ........... 67
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte | Carlos Alfredo Hasenbalg
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
re mma memom erramos O Estudo das relações raciais nos Estados
Gonzales, Léia, Unidos .....cciceiseeeseenaenees 71
Ges20 Lupar de negro / Léia Gonzatog.o Relações entre negros & brancos no Brasil 84
Caros Hasenbalg. — Rio de Janeiro « Racismo e desigualdades raciais no Brasil 89
Marco Zero, 1982. Conclusão ..cicccesecerirsa raras 98
(Coleção 2 Pontos ; v.3) Notas ..ciccciciciieiessierccrstao 109
1. Negros no Brasil 2. Negros no
Brasil — Segregação 3. Problemas ra-
— O Negro na Publicidade ............. 103
ciais |. Hasenbalg, Garoa ll, Título Carlos Alfredo Hasenbalg
lt. Séria .

CDD — 301.45195081 |
82-0008 CDU — 323. 119/91 =96)
Sobre os Autores

Lélia de Almeida Gonzalez é conhecida mili-


tante do movimento negro e do movimento das
mulheres. Professora de Antropologia e de Cultura
Popular Brasileira, licenciada em Filosofia e His-
tória e mestre em Comunicação, Lélia escreveu vá-
Os autores dedicam este Livro a: rios artigos sobre o racismo € participou de confe-
Brício, um raio de sol rências e seminários, no Brasil e no exterior, sobre
o negro e a mulher.
Olímpio Marques, um lutador
Carlos A. Hasenbalg é professor do IUPERF
Candeia, sempre vivo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Ja-
neiro. Escreveu vários artigos sobre as relações
raciais no Brasil e é autor do Livro “Discriminação
e desigualdades raciais no Brasil”, publicado em
1979,
O MOVIMENTO NEGRO
NA ULTIMA DÉCADA

Lélia Gonzalez
O golpe de 64, o novo modelo
econômico e a população negra

O golpe militar de 1964 procurou estabelecer


uma “nova ordem” na sociedade brasileira já que,
de acordo com aqueles gue o desencadearam, “o
caos, a corrupção e o comunismo” ameaçavam o
país. Tratou-se, então, do estabelecimento de mu-
danças na economia mediante a criação do que foi
chamado de um novo modelo econômico em substi-
tuição no anterior. Mas para que isso se desse, os
militares determinaram que seria necessário impor
a “pacificação” da sociedade civil. E a gente sabe
o que significa esse termo, pacificação, sobretudo na
história de povos como o nosso: o silenciamento, a
ferro e fogo, dos setores populares e de sua repre-
sentação política. Ou seja, quando se lê “pacifica-
ção”, entenda-se repressão.
E muitas foram as medidas tomadas no sentido
de garantir a nova ordem das coisas. À supressão
dos antigos partidos políticos (ficando ARENA e
MDB em seu lugar), a cassação- do mandato de nu-
merosos representantes políticos e o consegiiente en-
fraquecimento do Congresso. Além disso, a disper=
são das ligas camponesas, a supressão das guerrilhas
trbanas, as prisões, as torturas, os desaparecimentos
e os banimentos constituíram o “pano de fundo”
necessário para o estabelecimento da “paz social”,

tl
Os Atos Institucionais, que tiveram no malfadado trabalhador negro participava do mercado de tra-
AI-5 a expressão mais acabada da ditadura, foram balho industrial. Enquanto isso, no /campo, desa-
o instrumental privilegiado para que ela impusesse patecia a pequena propriedade rural para dar lugar
suas decisões. E foi dentro desse quadro que se par- à criação de latifúndios, por parte das poderosas
tiu para a concretização do que ficou conhecido corporações multinacionais, amparadas pelo governo
como o “milagre econômico” brasileiro. militar. Era o capitalismo invadindo todos os seto-
E o que foi que caracterizou esse tal “milagre”? ves da economia brasileira,
De acordo com analistas econômicos e políticos, sua | Essa ofensiva ocasionou grandes índices de de-
caracterização se constituiu naquilo que eles chama- semprego no campo. E se a isto se acrescenta a
ram de “Tríplice Aliança”, ou seja, no “casamento política de diferenciação do salário mínimo por re-
entre estado militar, as multinacionais c o grande giões (beneficiando sobretudo o sudeste), a gente
empresariado nacional”. E foi graças a essas “núp- pode imaginar qual o tipo de saída encontrado pelo
cias” que se deu o processo de crescimento desse trabalhador rural para fegir da miséria: o desloca-
“barato” que a gente tanto discute nos dias de hoje, mento para a periferia dos grandes centros urbanos.
mas que está saindo muito caro pará o trabalhador Começava, desse modo, a inversão da relação po-
brasileiro: a dívida externa. Desnecessário dizer que ptilacional entre campo e cidade (de acordo com o
as massas, pra variar, ficaram completamente excluí- censo de 1980, a população urbana passou a cons-
das da partilha do bolo do “milagre”. Muito ao con- tituir 67,57% do total). Graças a esse êxodo rural,
trário, os “benefícios que receberam tiveram como as cidades não cresceram, mas “incharam” com o
resultado o seu empobrecimento, determinado pela aumento do número de favelas e o surgimento desse
política do arrocho salarial, E quando a gente fala novo perscnagem, o “bóia-fria”, no cenário da his-
em massas, a gente está se referindo também, ou tória dos despossuídos deste país.
principalmente, ao grande contingente de negro que
delas faz parte e que, desde as décadas de cingiienta Com tal afluxo de mão-de-obra, não foi difícil
e sessenta, vinha num processo de crescimento po- pata os tecnocratas do poder realizarem seu projeto
pulacional, de crescimento econômico. A indústria automobilis-
tica, assim como a de construção civil, serviram de
A entrada agressiva do capital estrangeiro no pontas de lança do processo que afogou os demais
país ampliou o seu parque industrial. E, à primeira setores da economia brasileira na voragem do im-
vista, até que poderia parécer um grande avanço perialismo multinacional. A construção civil foi
para a totalidade da população brasileira, Mas acon- sobretudo um grande escoadouro da mão-de-obra
tece que tal agressividade determinou, por sua vez, barata (majoritariamente negra), porque não-qualifi-
a desnacionalização ou o desaparecimento das pe- cada. E toma de abrir rodovias, de desativar ferro
quenas empresas. E era justamente por elas que o vias etc. e tal. Eram as grandes obras do “milagre”;

i2 13
e o seu exemplo mais grandiloguente está aí, na pon- melhoria do nível de vida para o conjunto da po-
te Rio-Niterói, que também poderia ser considerada pulação negra.
como túmulo do trabalhador-desconhecido, tal o As condições de existência material dessa po-
número de vidas anônimas ceifadas durante a sua pulação negra reinetem a condicionamentos psico-
construção. lógicos que devem ser atacados e desmascarados.
Outro grande escoadouro de mão-de-obra bara- Os diferentes modos de dominação das diferentes
ta foi a prestação de serviço. Também ali encon- fasos de produção econômica no Brasil parecem
tramos o trabalhador negrofortemente representado, coincidir num mesmo ponto: à reinterpretação da
sobretudo em atividades menos qualificadas tais tcoria do lugar natural de Aristóteles. Desde a épo-
como limpeza urbana, serviços domésticos, correios, ca colonial aos dias de hoje, a gente saca a existên-
segurança, transportes urbanos etc. Sua presença era cia de uma evidente separação quanto ao espaço
pequena, por exemplo, num tipo de polo industrial físico ocupado por dominadores e. dominados. O
como o do ABC paulista, uma vez que o nível tec- lugar natural do grupo branco dominante são mo-
nológico das indústrias ali concentradas exigia um rdias amplas, espaçosás, situadas nos mais belos
tipo de especialização que a maioria dos trabalha- recantos da cidade ou do campo e devidamente pro-
dores negros não possuía. Em suma, deslocando-se tegidas por diferentes tipos de policiamento: desde
do campo para a cidade, ou do nordeste para o su- os antigos feitores, capitães do mato, capangas etc.,
deste, e se concentrando num mercado de trabalho até a polícia formalmente constituída. Desde a casa-
que não exige qualificação profissional, o trabalha- grande e do sobrado, aos belos edifícios e residên-
dor negro desconheceu os benefícios do “milagre”, cias atuais, o critério tem sido sempre o mesmo. Já
Como já foi dito, o arrocho salarial, imposto o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente:
como uma das condições para o desenvolvimento do da senzala às favelas, cortiços, porões, invasões,
país, resultou na queda do nível de vida da grande Jos e conjuntos “habitacionais” (cujos mode-
massa trabalhadora (basta lembrar que em 1976 são os guetos dos países desenvolvidos) dos dias
cerca de 80% da força de trabalho era constituída de hoje, o critério também tem sido simetricamente
por trabalhadores manuais, rurais e urbanos). Se em o mesmo: a divisão racial do espaço.
1960 a população pobre participava da renda na- No caso do grupo dominado o que se constata
cional numa faixa de 18%, em 76 essa percentagem são famílias inteiras amontoadas em cubículos, cujas
havia caído para 11%, Por outro lado, se em 1960 condições de higiene e saúde são as mais precárias.
a participação do negro na força de trabalho não Além disso, aqui também se tem a presença policial;
era das mais significativas, em 76 ela atingia a faixa só que não é para proteger, mas para reprimir, vio-
dos 40%. Por aí se vê que esse aumento de parti- lentar e amedrontar. I por aí que se entende que o
cipação no mercado de trabalho não significou uma outro lugar natural do negro sejam as prisões.c os

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hospícios. A sistemática repressão policial, dado o paisagem: os “presuntos” (cadáveres) “desovados”
seu caráter racista (segundo a polícia, todo crioulo pelos “justiceiros” da nova ordem. Vale notar que
é marginal até que se prove o contrário), tem por 70% desses “justiçados” eram negros. Discrimina-
objetivo próximo a imposição de uma submissão cão racial? Era proibido falar dessas coisas naqueles
psicológica através do medo. A longo prazo, o que anos de “milagre”, uma vez que se estaria ferindo a
se pretende é o impedimento de qualquer forma de Lei de Segurança Nacional por crime de subversão.
unidade e organização do grupo dominado, median- Enquanto isso, os novos setores da classe média
te a utilização de todos os meios que perpetuem sua funcionavam como suporte ideológico do “milagre”.
divisão interna, Enquanto isso o discurso dominante Bra a grande euforia do “Ninguém segura este
justifica a atuação desse aparelho repressivo, falando país”: eletrodomésticos, carro do ano, tevê a cores,
em ordem e segurança sociais. Copa 70, Irmãos Coragem, compra de apartamento,
A partir daí, o sistema se beneficia com a ma- de casa na praia, na montanha, disso, daquilo e
nutenção de tais condições, na medida em que, desse muito mais, E a turma tava que tava, muito orgu-
modo, conserva à sua disposição a mão-de-obra mais lhosa de si e de seu país. Portanto nada mais natural
barata possível. Isto porque a comunidade negra nada do que a gente ver, nos plásticos dos automóveis,
mais é do que mão-de-obra de reserva, utilizável se- «pressões tais como “Brasil: ame-o ou deixe-o”,
gundo as necessidades do sistema. Ouseja, além dos Propaganda e publicidade firmes em cima, fazendo
aspectos, acima assinalados, a estratégia também, se cabeca: muito riso, muito brilho, muita assepsia,
exerce de maneira a favorecer os patrões, mediante muito perfume. Muita festa, grandes carnavais...
a repressão policial (que exige dos negros, como do- Enquanto isso, dos subterrâneos do regime, emana-
cumento, a apresentação da carteira profissional). vam odores pestilenciais, acompanhados de choro e
Pressionado pela polícia, de um lado, e pelas pés- ranger de dentes. Curioso que provenientes de jo-
simas condições de vida, do outro, o negro oferece vens dessa mesma classe média,
a sua força de trabalho por qualquer preço no
mercado de trabalho. Sabemos que as contradições internas do mo-
delo vigente, aliadas à crise do petróleo, acabaram
A Baixada Fluminense, nesse sentido, apresen- par desmascarar o “milagre”, Não foi por acaso que
ta-se como exemplo privilegiado. Seu crescimento o governo Geisel iniciou-se sob o signo da “disten-
populacional (a “inchação” de que falamos) gerou são”. E também não foi por acaso que diferentes
suas cidades-dormitórios e, em poucotempo, levou-a setores da sociedade civil começaram a desencadear
a ocupar as manchetes do noticiário policial; foi seu q »sso de contestação ao regime durante aque-
transformada em área preferencial da ação dos es- le governo. Foram os estudantes que deram o alerta
quadrões da morte e congêneres. Seus habitantes geral em termos de movimentos e conquistas po-
logo se acostumaram a um novo componente da pulares...

16 17
Movimento ou movimentos negros? cnrúter autoritário e racista da sociedade brasileira
em geral, assim como nos diferentes meios que ela
tom utilizado para concretizálo. Agora, se a gente
junta tudo isso (e muito mais), uma pergunta se
coloca: será que dá pra falar do Movimento Negro?
fi cliro que, se a gente adota a perspectiva aci-
tm delincada, não dá, Como não daria pra falar
Na verdade, falar do Movimento Negro impli- do Movimento de Mulheres, por exemplo, No en-
no tratamento de um tema cuja complexidade, tuna, a gente lula. Exatemente porque está epont:
dada a multiplicidade de suas variantes, não per- do jm quilo que cs diferencia de todos os outros
mite uma visão unitária. Afinal, nós negros, não inovimentos; ou seja, a sua cspecificidade. Só que
constituímos um bleco monolítico, de características numo movimento, cuja especificidade é o significan-
rígidas e imutáveis. Os diferentes valores culturais lo negro, existem divergências, mais cu menos fun-
trazidos pelos povos africanos que para cá vieram ds quando le o desss eopec
(iorubas ou nagôs, daomeanos, malês ou muçulma- tudo, Dove 01 ar e reproduzir tudo o
nos, angolanos, congoleses, ganenses, moçambicanos ro que é afronegro?
3, apesar da redução à “igualdade”, imposta pela Ousomar os dois? Ou ter uma visão crítica de am-
wicdão, já nos levam a pensar em diversidade, hum gro lutar pra vencer na vida através
Além disso, os quilombos, enquanto formações so- to ne ro al para, desse modo, provar
ciais alternativas, o movimento revolucionário dos aqu paz quanto o branco? Ou lutar com e
malês, as irmandades (tipo N.S. do Rosário e 8, pelo conjunto da popula negro? Juntamente com
Benedito dos Homens Pretos), as sociedades de aju- também ontimidos? Ou não? Por um
da (como a Sociedade dos Desvalidos de Salvador), vo nesta sociedade? Ou pela transformação dn
o candomblé, a participação em movimentos popu- ma? Ete, . = Os diferentes tipos de
lares ete., constitufram-se em diferentes tipos de » 8 a muitos outras, ac
resposta dados ao regime escravista, Por outro lado, gonte a falar de movimentos negros
que se pense nos “ciclos” da economia e seus des- ento Nepro, Pois é.
locamentos (não só da população escrava, mas dos 3, à partir dessas consi
centros de decisão política), assim como nas dife- te vma escolha, que é
ren regionais que daí resultaram, Que se pense cus esitori endo, Consegilenteimente, ele
no advento da sociedade burguesa e das relações ca- designorá alguns traços que considero imo 5
pitalistas, com seus abolicionismos e republicanis- para a compreensão do Movimento Negro (MN). E
mos. E que não se deixe de pensar, sobretudo, no 5 enfoque adotado não deixa de explicitar a pors-

ig 19
Experiências e tentativas
pectiva de um movimento negro: o Movimento Ne-
gro Unificado (MNU). O que se segue é resultante
de leituras, papos, algumas escritazinhas próprias,
alguma prática, assim como da entrevista que fiz
à irês companheiros: Hamilton (MNU/SP), Astrô
(ANU/RD e Paulo Roberto (Instituto de Pesquisa
das Culturas Negras, IPCN, do Rio). No perfodo que se seguiu à abolição, o negro
buscou organizar-se em associações que nós, de um
modo geral, nos habituamos a chamar de entidades.
Hamilton Cardoso assim as caracteriza:

Elas são conseguências direta de uma confluência


entre o movimento abolicionista, as sociedades de
ajuda e da alforria e dos agrupamentos culturais ne-
gros. Seu papel é o de legitimar a existência do ne-
gro dentro da sociedade, diante da legislação. Elas
reúnem os negros oficialmente, de forma indepen-
dente, para praticar o lazer e suas culturas específi-
cas. Escondem no seu interior pequenas organizações
familiares de ajuda e solidariedade, para o desenvol-
vimento social, Reproduzem, em muitas de suas ati-
vidades sociais, os sistemas dominantes de organiza-
cão social, (...) Um dos exemplos é o Clube Flo-
resta Aurora, do Rio Grande do Sul, estado de baixo
índice de negros, mas de tradição militante no movi-
mento negro (1981, p. 15),

Dependendo do tipo de atividade desenvolvida,


podemos considerá-las como entidades negras recrea-
tivas, com “perspectivas e anseios ideológicos elitis-
tas”, e culturais de massa (afoxés, cordões, maraca-
tus, ranchos e, posteriormente, blocos e escolas de
samba). Estas últimas, justamente por imobilizarem
as massas, a nosso ver, sempre foram objeto de

21
grande controle por parte das “autoridades”, Que e é São Paulo, Mais exatamente, na cidade de São
se atenie para a significação do “pedir passagem” Paulo, estendendo-se para outras cidades do interior.
dos abre-alas dos blocos e escolas de samba, Na Com isso estamos querendo ressaltar o seu caráter
verdade, elas sempre tiveram que se submeter às eminentemente urbano, uma vez que é o negro da
impostas por tais “autoridades”. Afinal, qual- cidade que, mais exposto às pressões do sistema
quer aglomeração de negros sempre é encarada como dominante, aprofunda sua consciência racial.
caso de polícia (um exemplo bem próximo de nós Por outro lado, a industrialização e a moderni-
refere-se a tm famoso bloco negro de Salvador, o ão, que se dão a partir de São Paulo para o
Apaches; que se consulte os anais daquela cidade
esto do país, farão com que a organização política
ra se ter uma idéia da violência e perseguição po-
do negro encontre ali suas forças de expressão mais
Ece que foi cbjeto, a ponto de ter sido comple-
avançadas. É em SP que se inicia o processo de
te domesticado). Não esqueçamos, por exem-
i ão do negro na sociedade capitalista, so-
que os templos das religiões afro-brasileiras,
bretudo nos anos trinta, quando a imigração euro
o o candomblé, tinham que se registrar na po-
péia é interrompida pelo governo Vargas. É por aí,
í para pederem funcionar legalmente... De
também, que se compreende porque a FNB cons-
qualquer modo, as entidades culturais de massa têm
fituiu-se num dos setores mais atrasados do op
sido de gtande importância na medida em que, ao
viado paulista (embora, a partir de um racha inter
transarem o cultural, possibilitarem ac mesmo tem- no, a Frente Negra Socialista lhe fizesse oposição).
po o exercício de uma prática política, preparadora
Após o seu fechamento enquanto partido político,
do advento dos movimentos negros de caráter ideo-
em 1937, acentiam-se Os rachas internos e ela não
lógico. atá o ano de 38, O Estado Novo, com o
ultra
Emsuma, esses dois tipos de entidades negras seu “trabalhadores do Brasil”, não deixará de
remetem-nos para dois tipos de escolha: o assimila- sibilizar a comunidade negra, grandemente benefi-
cionismo e a prática cultural, O primeiro grande ciada por sua legislação trabalhista. De qualquer
movimento ideológico pós-abolição, a Frente Negra modo, a ENB é um marco dos mais importantes do
Brasileira (1931-1938), buscou sintetizar ambas as projeto de organização política do negro brasileiro.
práticas, na medida em que aíraiu os dois tipos de As entidades culturais, organizadas no mesmo
entidade para o seu seio. Por :í, dá pra entender estilo das recreativas, mas que se propõem a um
também o sucesso de sua mobilização, Afinal, cla melhor conhecimento ou a umaprática cultural mais
conseguiu trazer milhares de negros para os seus politizada, encontrarão sua melhor expressão no
quadres. Precedida pelo trabalho de uma imprensa período pós-Estado Novo. Nesse sentido, o grupo
negra cada vez mais militante, a PNB surgiu exata- que trabalhava no mais importante órgão da impren-
mente no grande centro econômico do país que era sa negra, o Clarim da Alvorada, e criador da Frente

22 23
Negra Socialista há pouco citada, reestruturou suas dos anos cingiienta. Além disso, não se pode deixar
Florestan
atividades através do Clube Negro de Cultura Social. de recordar que não foi por acaso que um
O período que se estendeu de 1945 a 1948 Fernandes, por exemplo, tenha iniciado suas pesqui-
caracterizou-se, portanto, pela intensificação das sas sobre o negro nesse período.
foi
agitações intelectuais e políticas dessas entidades Ao lado do teatro negro, a poesia também
expres sões das elites negras
que, agora, tratavam da redefinição e implantação uma das mais vigorosas
definitiva das reivindicações da comunidade negra, daquela fase que, sem perda de continuidade, mar-
O Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de cou as novas gerações. Solanc Trindade de certo
Janeiro, foi a mais alta expressão desse tipo de en- modo sintetiza esses dois aspectos, tanto pela criação
tidade. Sua posição crítica em face do racismo e do seu Teatro Popular, quanto por sua extraordiná-
suas práticas, seu trabalho concreto de alfabetiza- ria produção poética. Afirmação de identidade cul-
ção, informação, formação de atores e criação de tural e denúncia da exploração dos oprimidos cons-
peças que apontam para a questão racial, significou gituítam a temática da poesia revolucionária de So-
um grande avanço no processo de organização da tano. O movimento poético negro dos dias de hoje
o €
comunidade. O TEN inaugurou um importante pro- não perde de vista a perspectiva de que racism
bem arti-
cesso que se estenderia pelos anos sessenta até os exploração sócio-econômica estão muito
co-
dias atuais (apesar do auto-exílio do seu fundador culados quando se trata de limitar e reprimir a
Abdias do Nascimento, nos Estados Unidos, a partir verda-
imunidade negra. Vejamos o que nos diz esse
de 1968). Estamos falando do teatro negro que, nos deiro manifesto que é a Aprese ntação dos Cader nos
anos setenta, por exemplo, teve no Grupo Evoluçã
Negros, em sua edição de lançamento, datada de 25
de Campinas uma das suas expressões mais qualifi-
de novembro de 1978:
cadas, no sentido de efetuar um trabalho cultural
numa perspectiva política, a, um
A África está se libertando!, já dizia Bélsiv
Vale notar que é também a partir do período postas . E nós, prasil eiros de otige m
dos nossos velhos
1945-1948 em diante que vamos encontrar a pre-
africana, como estamos?
sença de representantes dos setores progressistas amos no limiar de um novo tempo. Temp
o de
brancos junto às entidades negras, cfetivando um vida nova, mais justa é mais livre e, inspira
Africa
tipo de aliança que se prolongaria, de mancixa mais ras
dos por ela, renascemos arrancando as másca
ou menos constante, aos dias atuais. E nesse ponto, fim à imitaç ão. Desco brimo s a lava-
ranças, pondo
indo
a gente se pergunta sobre a importância do papel gem cerebral que nos poluía c estamos assum
forte, Estam os limpa ndo nosso
desempenhado pelo TEM para além dos limites da nossa negrura bela e
que so
comunidade negra; estamos nos referindo ao movi- espírito das idéias que nos enfraquecem e
mento de renovação do teatro brasileiro, a partir servem aos que nos querem dominar € explorar.

25
24
Cadernos Negros marca passos decisivos para ção do Movimento Negro Unificado Contra a Discri-
nossa valorização e resulta de nossa vigilância con- minação Racial...
tra as idéias que nos confundem, nos enfraquecem
e nos sufocam. As diferenças de estilo, concepções Além da contribuição das entidades culturais,
de literatura, forma, nada disso pode mais ser um vale ressaltar que as entidades negras de massa,
muro erguido entre aqueles que encontraram na poe apesar de todas as tentativas de manipulação por
sia um meio de expressão negra. Aqui se trata de le- parte do Estado Novo, continuaram seu projeto de
gítima defesa dos valores do povo negro. A poesia
como verdade, testemunha do nosso tempo,
resistência cultural. E se nos remetemos às escolas
Neste 1978, 90 anos pós-abolição — esse conto do de samba, por exemplo, constatamos que sua pro-
vigário que nos prepararam —, brotaram novas ini- dução não deixava de expressar a resposta crítica da
ciativas de conscientização, e, Cadernos Negros surge comunidade negra em face dos dominadores. À gui-
como muis um sinal desse tempo de Africa-consciên- sa de exemplo, vale recordar o que Candeia e Isnard
cia e ação para uma vida melhor; e, neste sentido, nos contam a respeito do desfile de 1940 da Por-
fazemos da negritude, aqui posta em poesia, parte da tela, cujo enredo cra “Homenagem à Justiça”; como
luta contra a exploração social em todos os níveis, o samba de Paulo da Portela não fei bem ensaiado,
na qual somos os mais atingidos.
Cadernos Negtos é a viva imagem da África em
“os componentes mudaram o sentido das palavras
nosso continente. E a Diáspora Negra dizendo que trcando “Salve a Justiça” por pau na justiça...
sobreviveu e sobreviverá, superando as cicatrizes que Esse ato falho diz-nos muito mais sobre o que sentia
assinalam sua dramática trajetória, trazendo em suas e pensava a comunidade do que todos os temas de
mãos o livro. enredo que pintaram durante e depois do Estado
Essa coletânea reúne oito poetas, a maioria deles Novo. Segundo os mesmos autores, foi a partir de
da geração que durante os anos 60 descobriu suas 1955 que elementos da classe média branca passa-
raízes negras. Mas o trabalho para a consciência ne- ram a fregiientar as escolas de samba. Como já vi-
gra vem de muito antes; por isso, Cadernos Negro 1 mos anteriormente, tratarseia de representantes
reúne também irmãos que estão na luta há muito
tempo. Hoje nos juntamos como companheiros nesse dos setores progressistas brancos. Daí para os anos
trabalho de levar adiante as sementes da consciência sessenta, começaria uma sério de mudanças nas
para a verdadeira democracia racial, condições materiais de vida da população negra,
OS AUTORES como já vimos (deslocamento do campo para a ci-
dade, etc.).
Ecoam nesse texto sonoridades que nos reme- O golpe de 64 implicaria na desarticulação das
tem às vozes de um Frantz Fanon, de um Agostinho elites intelectuais negras, de um lado, e no processo
Neto, de um Amílcar Cabral, de um Malcoln X, de de integração das entidades de massa numa perspec-
um Solano, de um Abdias e de tudo o que eles re- tiva capitalista, de outro. As escolas de samba, por
presentam. Vivie-se, naquele tempo, a recente cria exemplo, cada vez mais, vão se transformando em

26 27
empresas da indústria turística. Os antigos mestres
de um artesanato negro, que antes dirigiam as ativi- “Tem o PIS, o PASEP e também o FUNRURAL/
dades nos barracões das escolas, foram sendo subs- Levando ac homem do campo a segurança total...
tituídos por artistas plásticos, cenógrafos, figurinistas Não haveria muita diferença entre esse enredo e
etc. e tal. O cargo de presidente de ala transformou- aquele da Portela, em 1941 (Dez Anos de Glória,
se numa profissão lucrativa com a venda de fania- cm homenagem à Revolução de Trinta), ou ain a
sias. Os sambas foram simplificados em sua estrutu- aquele outro, da mesma Portela, em 1951 (A Volta
ra, objetivando não só o fato de serem facilmente doFilho Pródigo, em homenagem à volta de Vargas
aprendidos, como o de poderem ser gravados num ao poder); mas existe uma diferença, de caráter
mesmo disco. Os “nêgo véio” da Comissão de Fren- qualitativo. O crescimento da população negra, sua
te foram substituídos por mulatas rebolativas e te- maior concentração urbana, as relações capitalistas
sudas. Os desfiles transformaram-se em espetáculos em todos os níveis, a indústria cultural/cultura de
tipo teatro de revista, sob a direção de uma nova massas, o maior controle, mas também uma nova
figura: o carnavalesco. Levantaram-se arquibancadas consciência quanto à exploração econômica...
Para ricos, pobres e remediados, autoridades c povo,
nacionais e estrangeiros, com a venda de ingressos
nos respectivos preços. Tudo isso com a presença de
jornalistas, fotógrafos, cinegralistas e câmeras de
tevê durante os desfiles. Estes, por sua vez, passaram
a se dar segundo novas regras e horários rigorosos.
Afinal, tempo é dinheiro...
O regime militar não deixou de se beneficiar
por aí também. Retomando o populismo inaugurado
por Vargas, iria aplicá-lo ao seu estilo proporcio-
nando estímulo a novas escolas (quanto ao primeiro
gripo) ou reforçando as mais antigas, Na verdade,
ele sacou a importância das formas organizativas
encontradas pela comunidade negra, enquanto en-
tregue à própria sorte (o texto de Candeia e Isnard
nos dão um bom exemplo disso), e mandou ver.
Quem não se lembra do primeiro desfile da Beija
Flor no primeiro grupo? Seu samba enredo era uma
exaltação sos efeitos da “revolução” de 64:...

28
t...) eulia no jornal (sobre as guerras) de libertação
À retomada político-ideológica dos países africanos, e muita coisa que acompanhei
também do movimento dos negros nos Estados Uni-
dos. Uma coisa que me chamou muito a atenção, no
início dos anos setenta, fim de 68, foi o livro do
Cleaver, Alma no Exílio. A primeira vez que ouvi
falar desse livro foi em 68; cu o li naquela época e
andava sempre com esse livro; e esse livro, pra mim,
cra o meu cartão de visitas nos lugares em que che-
Dissemos gue as elites intelectuais negras fo- gava. Então, eu uma vez, eu me surpreendi que eu
ram desarticuladas pelo golpe de 64. De fato. O começava a falar nisso com alguns negros, algumas
pessoas que... elas não tinham as mínimas preocupa-
auúto-exílio de Abdias do Nascimento, enquanto fi-
ções. Então a minha experiência pessoal começa por
gura das mais representativas, senão a mais, de todo aí, quer dizer, a partir daí, pelo meu próprio inte-
um irabalho desenvolvido na fase anterior, confirma resse cu começava a ir em alguns lugares, conhecia
o que dissemos. Semnunca abandonar sua militância, dois ou três, a gente acabouse juntando e num certo
ele iria enriquecê-la no exterior, continuando sua momento, uma certa comunidade de pessoas que es-
denúncia do racismo brasileiro (nesse sentido, vale tavam interessadas na questão racial do negro (...)
não esquecer que suas acaloradas discussões com Aí, me surpreendi porque fui conhecendo pessoas
exilados brasileiros muito contribuíram para que que eu nunca imaginava que o cara tivesse aquilo
estes, além de outras experiências vividas lá fora na cabeça, mas elo também não tinha com quem
retornassem ao Brasil com um novo entendimento falar; então, era incrível quando a gente se encon-
trava,
da questão negra). Enquanto isso, por aqui, a repres-
são desmobilizou as lideranças negras, lançando-as
numa espécie de semiclandestinidade isolada das E é no início dos anos setenta que vamos ter a
Organizações propriamente clandestinas (sabemos retomada do teatro negro pela turma do Centro de
hoje que foi pequeno o número de negros partici- Cultura e Arte Negra (CECAN), em São Paulo, o
pantes dessas organizações; principalmente no que alerta geral do Grupo Palmares, do Rio Grande do
se refere aos que militavam ro Movimento Negro).
Sul, para o deslocamento das comemorações do ire-
A turma só se encontrava socialmente para bivitar e
ze de maio para o vinte de novembro, etc. No Rio de
falar de generalidades. Mas a regadinha jovem co-
ineçou a atentar para certos acontecimentos de ca- Janeito, enquanto isso, ocorria um fenômeno novo,
ráter internacional: a luta pelos direitos civis nos efetuado pela massa de negros anônimos. Era a co-
Estados Unidos e as guerras de libertação dos povos munidade negra jovem, dando sua resposta aos meé-
negronfricanos de língua portuguesa. Vejamos o gue canismos de exclusão que o sistema lhe impunha.
nos diz um dos nossos irmãos, companheiro de luta: Estamos falando do movimento “soul”, depois ba-

30 3
tizado de Black Rio. Vejamos o depoimento de al é universitários também. O fato é que a negrada
guém que dele participou: jovem da Zona Norte e da Zona Sul começou a se
cruzar nesses bailes, que reuniam milhares de pes-
€...) Embora já chegasse alguma coisa no Brasil,
soas, todas negras. O fenômeno também se esten-
através dos meios de comunicação de massa, só foi deria para São Paulo; e se a gente pega um dos
entendido como coisa negra, a partir de 71, por aí. números do Jornegro (Ano I, nº 2, maio de 1978)
Nessa época, eu andava muito pelo subúrbio e já e Jê a entrevista da negadinha (18 a 20 anos), a
havia esse tipo de baile. Ainda não era exatamente gente vê uma coisa, e isto é essencial, ela não é alie-
como ele apareceu para o grande público, mas já era nada: todos rum, porque o vivenciam no seu
o embrião. Eram bailes que tocavam muito James cotidiano, a existência do racismo e suas práticas.
Brown, por exemplo. Um negócio que o pessoal Vale notar que a reação do “grande público”, em
“curtia” muito e tinha mais ou menos a mesma. es- face do soul, foi de surpresa e temor (mas a polícia
trutura. Parece que surgiu a partir dos discotecários sempre esteve lá para garantir a “ordem”); enquan-
“Big Boy” e Ademir que promoviam, nos subúrbios,
to isso, a intelectualidade progressista acusava-o de
bailes e concursos de dança. E o pessoal conseguia
dançar bem. Isto, aliás, é um dado importante: quem
alienação, dizendo que crioulo tinha mais é que
dança bem o “soul”, dança bem o samba (...) De dançar samba...
repente, o pessoal percebeu: “Bom, se o Big Boy! Ainda segundo Carlos Albsrto, o Renascença
pode fazer a equipe dele, eu também posso me es-
pecializar nisso, ganhar dinheiro ete.". Começam, en-
Clube inaugurou seus bailes-soul com as Famosas
tão, a surgir equipes de negros. (...) realmente há Noites do Shaft, ponto de encontro da turma que
um dado de alienação, há esse aspecto de fantasia, articulou o movimento negro no Rio, Nesse mesmo
que faz parte da coisa teda. Mas, no mesmo tempo ano (1974), o Centro de Estudos Afro-Asiáticos, a
em que existe esse dado, existe também um fator Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil
importante, que é o da aglutinação. (...) No momento (SECNEB, de Salvador), com a colaboração do Mu-
em que se pode perceber “já que eu posso me unit seu de Arte Moderna, realizaram as Semanas Afro-
para fazer isso, eu posso me unir para fazer uma
Brasileiras, no período que se estendeu de 30 de
coisa mais positiva”, isso se torna importante. É claro
que nem todo mundo faz essa passagem (Carlos AL maio a 23 de junho, com exposição de arte afro-
berto Medeiros, em entrevista dada a Artefuto, Jornal brasileira, experiências de danças rituais Nagô, de
de Cultura, p. 12-14, Ano II, nº 10, sd). música sacra, popular e erudita afro-brasileira. Tudo
isso acompanhado de seminários e palestras, com a
Interessante notar que o “soul” foi um dos ber- presença de 6 anil pessoas, vindas de diferentes bair-
ços do movimento negro do Rio, uma vez que a ros e camadas sociais do Rio (Cadernos Cândido
moçada que ia aos bailes não era apenas constitui Mendes, Estudos Alro-Asiálicos, Ano 1, n.º 1, jon/
da de trabalhadores, mas de estudantes secundários abr. de 1978). A exposição de arte sacra (objetos

32 33
litúrgicos segundo modelos tradicionais Nagô-Yoru- mento, O atraso de alguns manifestou-se num tipo
ba), recriação de símbolos e arte popular, foi organi- de moralismo calvinista e machista, que caracteri-
zada por Juana Elbein dos Santos e Mestre Didi zava o quanto se sentiam ameaçados pela capacidade
to Assogba Maximiliano M. dos Santos, do Axé Opô c sensibilidade das companheiras mais brilhantes;
Afonjá, de Salvador). Antes de chegar ao Brasil, ela em seus comentários, falavam de mal-amadas e coi-
fora apresentada em Lagos, Ácra e Dacar na África, sas que tais (baixaria mesmo). Desnecessário dizer
assim como eni Paris, Londres e Buenos Aires. As que suas esposas ou companheiras nunca participa-
Semanas fotam decisivas para o movimento negro ram de tais reuniões, na medida em que ficavam em
carioca. casa cuidando das criunças, da casa ete., o que é
Vale aqui um pequeno comentário. Interessan- sintomático; De um modo geral, esses machões
te que o MN do Rio teve duas fontes de origem: eram de uma geração mais velha, porque os mais
de um lado, a comunidade negra, “dando ciência” jovens cresceram junto com suas irmãs de luta. Aliás,
de como recebeu os efeitos do movimento negto vale notar que não existe coisa mais homossexual,
norte-americano; do outro, uma iniciativa oficial, e no pior sentido, porque não conscientizado e as-
acadêmica, transada não em termos de “Oropa, sumido, do que o ressentimento sectário dos ma-
França e Babia”, mas, ao contrário, via “Bahia, chistas. De qualquer modo, o avanço das mulheres
África e Oropa” e com muito axé em cima. Pois é... negras, dentro do movimento negro carioca, marca-
A partir das Semanas, a “tiurma” entrou em ria sua diferença com relação a outras regiões (onde,
contato com o Afro-Asiático, e passou a se reunir hoje, o quadro é diferente, apesar dos pesares), No
em suas dependências. Durante o decorrer da sema- ano seguinte (2 de julho de 1975), num encontro de
na, encontravam-se duas vezes para preparar dois mulheres realizado na Associação Brasileira de Im-
tipos de texto: um, com o noticiário a respeito de prensa, lá estavam aquelas jovens e valentes negras,
atos de discriminação e, outro, relativo ao período marcando sua posição num importante documento,
pré-colonial na África. Aos sábados, reunião geral ende diziam:
para discutir os textos, na base da dinâmica de
grupo. No domingo, tava todo mundo na Noite do
O destino da mulher negra no continente americano,
Shaft no Renascença, A cada reunião o grupo
assim como de todas as suas irmãs da mesma raça,
crescia.
tem sido, desde a sua chegada. ser uma coisa, um
Chegou a um ponto que as mulheres passaram objeto de produção cu de reprodução sexual, Assim,
a mulher negra brasileira recebeu uma herança cruel:
a se reunir separadamente para, depois, todos se reu- ser não apenas o objeto de produção (assim como o
nirem numa sala maior, onde se discutia os proble- homem negro também o eta), mas, mais ainda, ser
mas comuns. É claro que pintou machismo e pa- zer para os colonizadores. O fruto
ternalismo, mas também solidariedade e entendi- dessa covarde procriação é o que agora é aclamado

34 35
si”, ou seja, “chamaràs falas”, Pois é... Mas, volte-
como o único produto nacional que não pode ser mos às reuniões do Afro-Asiático.
exportado: a mulher mulata brasileira. Mas se a Dizíamos que o grupo crescia, Sobretudo no
qualidade deste “produto” é tida como aíta, o trata-
aprofundamento do nível político das discussões.
mento que cla recebe é extremamente degradante,
sujo e desrespeitoso,
Nesse momento, setembro de 74, o grupo transfor-
mou-se em entidade, a Sociedade de Intercâmbio
Brasil-África. Meses depois, surgiu um racha em
Foi a partir da convivência com essas irmãs, já função de divergências quanto ao método e ao onde
no Movimento Negro Unificado, que passei a me desenvolver um trabalho concreto, O grupo dissi-
preocupar e trabalhar sobre a nossa própria espe- dente, que saiu, preferia desenvolver um trabalho
cificidade. E nesse trabalho, tem dado pra sacar, na Zona Sul, enquanto o pessoal da SINBA defen-
por exemplo, que pelo fato de não ser educada para dia a tese de que se deveria partir pra Zona Norte.
se casar com um “príncipe encantado”, mas para Vejamos o que nos diz Paulo Roberto a esse respeito:
o trabalho (por razões históricas e sócio-econômicas
concretas), a mulher negra não faz o gênero da sub- (...) é esse pessoal que ficou pro lado da Zona Sul
missa. Sua prática cotidiana faz dela alguém que acabou se encontrando com outro grupo, meio celi-
tizado de Zona Sul que eram os famosos atores da
temconsciência de que lhe cabe batalhar pelo “leite TV Globo; não eram todos atores mas havia um
das crianças” (como ouvimos de uma “mulata do grande número de atores que se reunia — negros,
sargenteli"”), sem contar muito com c companheiro todos negros — que se reunia na Zona Sul (acres
(desemprego, violência policial e outros efeitos do centando que alguns elementos eram profissionais
liberais. também da Zona Sul), no apartamento de
racismo e também do sexismo). De fato, as últimas algumas pessoas. E nós acabamos encontrando esse
pesquisas efetuadas demonstram que, em matéria de grupo no Teatro Opinião. Exatamente por causa de
mulher chefe de família, a mulher negra taí pra con- um problema que tinha pintado na Rede Globo, por
ocasião daquela novela — Gabriela, cravo e ca
ferir. (É por ai também que dá pra sacar uma das
nela — onde a Vera Manhões, mulher do An-
razões pelas quais os negros que “subiram na vida” tônio Pitanga (...) que seria escolhida para o
preferem se casar com mulheres brancas; são mais papel, foi preterida em função da Sônia Braga. En-
submissas, também por razões historicamente anali- tão, o pessoal ficou p. da vida e (...) o grupo todo
sáveis. Mas isso é papo pra outros escritos.) Se a se encontrou e houve uma série de reuniões lá no
gente junta a essa prática uma consciência política, Tentro Opinião. E acabou surgindo daf o IPCN,
Instituto de Pesquisa das Culturas Negras que, eu
dá pra entender porque não sé nossos irmãos, mas
particularmente acho, foi um eufemismo que encon-
determinados setores do movimento de mulheres te- tramos (...) para criar uma entidade que procurasse
nham ficado chocados com a nossa autonomia e não só trabalhar a nível cultural, mas: que pudesse
agressividade de mulheres negras. Aliás, é impor- ser uma entidade de mobilização política do negro.
tante ressaltar que agressividade significa “chamar a
37.
36
Mas acabeu tendo, no seu início, não uma ação po- Semana de Estudos sobre o O Negro na Formação
lítica, mas um trabalho principalmente culturalista. Social Brasileira, na Universidade Federal Fluminen-
Acho que um grupo que tinha poder econômico se, reunindo professores e pesquisadores nas mais
dentro da entidade e que, de certa mancira, era diferentes áreas, especialistas na questão negra. A
maioria na diretoria; esse grupo, consequentemente, 8 de dezembro desse mesmo ano, um grupo de com-
poderia dirigir objetivamente a entidade porque, co-
positores, sambistas, pessoas ligadas ao samba e sob
mo todos sabemos, algumas providências a nível or-
ganizacional dependem da estrutura financeira pra
a liderança de Antônio Candeia Filho, fundavam o
poder funcionar. Então esse grupo, pelo simples fato Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Sam-
de ter dinheiro, de poder manipular seus talões de ba Quilombo. Oito de dezembro, dia de Oxum, a
cheques, impôs algumas tarefas de caráter extrema- deusa das águas doces... Reproduzamos aqui, as
mente culturalista, que nos atrapalharam pra cacete diretrizes básicas dessa agremiação que não se pre-
no Rio de Janeiro. É essas tarefas foram o quê? Por
exemplo, promover shows, showzinho do artista Fu-
tende apenas uma escola de samba, mas um céntro
lano de Tal aqui, teatrinho ali; sabe, esse tipo de
de cultura negra:
coisa foi muito negativo pra entidade. Num certo
aspecto, a gente teve um desgaste político; não um Estou chegando...
desgaste a nível da comunidade porque, até pelo con- tim
Venho com fé. Respeito mitos e tradições. Trago
trário, a gente andou muito pela Zona Norte naquela canto negro. Busco a liberdade. Não admito
moldes.
época. Me lembro que nós fomos a vários bairros, a As forças contrárias são muitas. Não faz mal...
aqueles conjuntos habitacionais; e a partir da nossa vitória.
Meus pés estão no chão. Tenho certeza da
presença nesses lugares, muitos grupos foram criados
Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado.
pa periferia. E esses grupos, na sua grande maioria, Aqui todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
tornaram-se grupos de teatro ou de dança. Mas houve Teorias, deixo de lado. Dou vazão à riqueza de um
um desgaste político muito grande nessa época, por O
conta desse grupo que o seguro ideologicamente
mundo ideal. A sabedoria é meu sustentáculo.
amor é meu. princípio. A imaginação é minha ban-
por muitos anos. deira.
Não sou radical, Pretendo, apenas, salvaguardar o
expli-
que resta de uma cultura, Gritarei bem alto,
De qualquer modo, o trabalho desenvolvido cando um sisiema que cala vozes importantes e
per-
pelos elementos mais coerentes do IPEN em seus mite que outras, totalmente alheias, falem quando
“circuitos itinerantes”, resultaria, em 1976, na cria- ti-
bom entendam. Sou franco-atirador. Não almejo
ção de uma outra entidade: o Centro de Estudos tulos. Não almejo glórias. Faço questão de não virar
a meu
Brasil-África, localizado em São Gonçalo. Ainda em academia. Tampouco palácio, Não atribua
€&
1975 (novembro), a questão negra passava a ser nome o desgastado sufixo “ão”, Nada de forjadas
literárias, Deixo os complexos
formalmente discutida na universidade; o Grupo de mal feitas especulações
temas à observação dos verdadeiros intelectuais. Eu
Trabalho André Rebouças realizava- sua primeira
39.
38
sou povo. Basta de complicações. Extraio o belo das sica etc. O anais significativo de tudo isso foi o espí-
coisas simples que me seduzem. tito de solidariedade e colaboração não só dos ami-
Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas bai
gos e colegas de EAV (que, juntamente com seus
nas rendadas, sambando sem parar. Com minha co-
missão de Trente digna de respeito. Intimatnente Ji-
alunos, ajudaram na realização dos eventos) mas
gado às minhas origens. dos irmãos e companheiros do Olorum Baba Min,
Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departa- do IPCN, do CEBA, da SINBA, da Zona Norte, da
mentos culturais, profissionais, não me incomodem, Zona Sul, dos subúrbios, das favelas e até mesmo
por favor. da África (o cineasta nigeriano Olá Balogum e o
Sintetizo um mundo mágico. cantor angolano Sá Moraes). Em 78, um dos eventos
Estou chegando... do que então chamávamos' Ciclo do Negro-Homena-
gem a Zumbi, foi um espetáculo de música e poesia
Em 1976, cu mesma iniciava o primeiro Curso para o qual convidamos numerosos cantores, músi-
de Cultura Negra no Brasil, na Escola de Artes Vi- cos e atores negros. Interessante notar que, dos ato-
suais (no Parque Lage), justamente no momento em res e atrizes convidados para participar, apenas dois
que, graças à sua nova e jovem direção, aquela atores compareceram e deram sua colaboração; os
instituição se renovava. Reunindo artistas e intelec- demais, ficaram com medo da “repressão” e nos
tuais progressistas, cuja produção implicava numa acusaram de radicais, Exatamente porque, a essas
visão crítica da realidade brasileira, a EAV tornou- alturas, eram os membros do MNU/R]J que estavam
se o maior espaço cultural do Rio de Janeiro naque- à frente da organização dos eventos. De qualquer
le período (tanto que sua desativação foi determi- forma, o espetáculo foi um sucesso, dada a qualida-
nada a partir de Brasília no início de 1979, com o de dos textos e das músicas. Reportamo-nos a esse
afastamento de sua direção). fato justamente porque nos parece importante uma
reflexão sobre um certo tipo de negro que a gente,
Além do curso tcórico (que em seguida se arti-
hoje, chama de jaboticaba (preta por fora, branca
culou com outros dois: um, de danças afro-brasilei-
por dentro, doce... mas com caroço que não dá
ras e, outro, de capocira), que visava analisar as pra engolir). Falaremos do jaboticaba mais adiante.
instituições e os valores culturais negros, assim como
Foi também em 1976 que se iniciaram os con-
sua presença na formação cultural brasileira, o es-
tatos entre o Rio e São Paulo, em termos de movi-
paço da Escola também [oi aberto para a expressão
mento negro. A turma de São Paulo tomou conhe-
viva de artistas e intelectuais negros. Durante três
cimento do que se passava por aqui, através do Bo-
anos (76, 77, 78), no mês de novembro, realizamos
letim do IPCN, e, então, pintou por aqui pra levar
exposições de artistas plásticos, apresentações de um papo. Este foi o primeiro encontro de uma
grupos de dança e de poesia, exibição de filmes, se- sério que se realizaria em São Paulo, Rio Claro, São
minários, lançamentos de livros, espetáculos de mú-

40 41
Carlos etc. As discussões se dariam em torno de O Movimento Negro Unificado Contra
uma questão fundamental: a criação de um movi- a Discriminação Facial (MANU)
mento negro de caráter nacional. E foi assim que
começaram a ser lançadas as bases do Movimento
Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, o
MNU, Sua criação eletiva, que se daria em junho de
78 em São Paulo, como veremos em seguida, resul
tou de todo um trabalho dos setores mais conse-
Vejamos, através de seu primeiro documento,
giientes das entidades cariocas e paulistas, empe-
nhados numa luta política comum. Vale dizer que a como se deu a criação do então denominado Movi-
fundação do MNU não conteu com a participação mento Unificado Contra a Discriminação Racial.
de nenhuma grande personalidade, mas resultou do Trata-se da carta convocatória para o ato público
esforço de uma negrada anônima, dessas novas li- contra o racismo:
deranças forjadas sob o regime ditatorial militar. Nós, Entidades Negras, reunidas no Centro de
Cultura é Arte Negra no dia 18 de junho, resolvemos
criar um: Movimento no sentido de defender a Co-
munidade Afro-Brasileira contra a secular explora-
ção racial e desrespeito humano a que a Comunidade
é submetida. '
Não podemos mais calar. À discriminação racial
é um fato marcante na sociedade brasileira, que barra
o desenvolvimento da Comunidade Afro-Brasileira,
destrói a alma do homem negro e sua capacidade de
realização como ser humano,
O Movimento Unificado Contra a Discriminação
Racial foi criado para que os diteitos dos homens
negros sejam respeitados. Como primeira atividade,
este Movimento realizará um Ato Público contra o
Racissno, no dia 7 de julho às 18,30 horas, no Via-
duto do Chá. Seu objetivo será protestar contra os
últimos acontecimentos discriminatórios contra ne
gros, amplamente divulgados pela, Imprensa.
No dia 28 de abril, numa delegacia de Guaia-
nazes, mais um negro foi morto por causa das tor-
tuxas” policiais. Este négio era Robson Silveira da
Luz, trabalhador, casado-e pai de filhos. No Clube

42 43
de Regatas Tietê, quatro garotos foram barrados do
time infantil de voleibol pelo fato de serem negros. Centro de Arte e Cultura Negra, Associação Rectea-
O diretor do Clube deu entrevistas nas quais afirma
tiva Brasil Jovem, Afrolatino América, Associação
as suas atitudes racistas, tal a confiança de que não
será punido por seu ato. Casa de Arte e Cultura Afro-Brasileira, Associação
Nós também sabemos que os processos desses xistã Beneficente do Brasil, Jornegro, Jornal Aber-
casos não darão em nada. Como todos os outros ca- tura, Jornal Capceira, Company Soul, Zimbabwe
sos de discriminação racial, serão apenas mais dois Soul. Nas reuniões seguintes, a primeira se retirou
processos abafados e arquivados pelas autoridades
e a segunda começou a se atemorizar com a repres-
deste país, embora um dos casos tenha a agravante
da tortura e consequente morte de um cidadão, são. De qualquer modo, um grupo de membros do
Mas o Ato Público Contra o Racismo marcará CECAN organizou-se como o Centro de Luta Decisão
Fundo nosso repúdio e convidamos a todos os seto- e levou adiante a idéia de realização do Ato Público.
res democráticos que lutam contra o desrespeito e as Formou-se, então uma comissão que organizaria a
injustiças aos direitos humanos, a engrossarem filei.
tas com a Comunidade Afro-Brasileira nesse ato con- manifestação. Ao chegar a ocasião do Ato Público,
tra O racismo, pram as seguintes as entidades e grupos: Afrolatino
Fazemos um convite especial x todas as entida- América, Decisão. Instituto Brasileiro de Fstudos
des negras do país, ampliarem nosso movimento. As Africanistas, Brasil Jovem, Capoeira, Atletas Negros
entidades negras devem desempenhar o seu papel e ACBB.
histórico em defesa da Comunidade Afro-Brasileira;
e, lembramos, quem silencia consente. Contatos foram estabelecidos com o Rio de Ja-
Não podemos mais aceitar as condições em que neiro. Um dos atletas negros do Tietê veio ao nosso
vive o homem negro, sendo discriminado da vida encontro para informar sobre os acontecimentos;
social do país, vivendo no desemprego, subemprego e cabia-nos, agora, mobilizar as entidades negras cario-
nas favelas, Não podemos mais consentir que o negro cas. Abdias do Nascimento, que chegara ao Rio al-
sofra as perseguições constantes da polícia, sem dar guns dias antes, proveniente dos Estados Unidos,
uma resposta.
topou logo participar de processo. E não dá para
TODOS AO ATO PÚBLICO CONTRA O
RACISMO esquecer aquela tarde ensolarada em que a gente se
CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL mandou pra Coelho Neto, pra levar um papo com
CONTRA A OPRESSÃO POLICIAL Candeia sobre a participação da Quilombo no Ato
PELO FORTALECIMENTO E UNIÃO DAS ENTI Público. Papo vai, papo vem, ele nos presenteou
DADES AFRO-BRASILEIRAS com o folheto do enredo para o próximo carnaval:
Noventa Anos de Abolição. Fora escrito por ele,
Assinavam o documento os seguintes. grupos e Candeia, “baseado nas publicações de Edson Car-
associações: Câmara de Comércio. Afro-Brasileira, neiro, Lélia Gonzalez, Nina Rodrigues, Arthur
Ramos (...), Alípio Goulart”...
44
45
Surpresa e emocionada, disse-lhe que ainda não velho temor do comprometimento. Argumentava-se
tinha um. trabalho publicado digno de ter meu nome que um ato público era algo de muito sério e, no
ao lado daqueles “cobras” (afinal, um artiguinho caso, até mesmo temerário, Felizmente a lucidez e a
aqui, outro acolá, e de tempos em tempos, não sig- firmeza dos mais decididos não se abateu diante de
nificava nada). Ele retrucou, dizendo que sabia tais receios,
muito bemdo trabalho que eu vinha realizando “por
aí” e que isso era tão importante quantoos. livros Cabe aqui uma referência quanto a uma cons-
dos “cobras”: E foi aí, então, que me incumbiu de tatação de caráter pessoal, Na verdade, a oportuni-
representar a Quilombo no Ato Público: “Não im- dade de poder ter participado de um evento muito
porta o que você diga, que.eu assino embaixo”. Pela importante, a nosso vet, para a consolidação daquele
primeira vez, para mim, alguém me fazia refletir movimento que viria a surgir em São Paulo. À con-
sobre a responsabilidade que se tem quando. se co- vite do Departamento Cultural da Prefeitura de Sal-
meça um trabalho “por aí”... A 16 de novembro vador, dirigi-me para aquela cidade, na primeira
daquele ano, Candeia trocou a sua situação de com- semana de maio, para dar um curso cujo título era:
panheiro de lutas pela de ancestral (ou seja, faleceu, “Noventa anos de abolição: uma reflexão crítica”.
segundo a expressão tradicional). E os já então com-
O entusiasmo dos debates com aquele público emi-
panheiros da Quilombo me indicaram para resumir nentemente negro e jovem, deu-me a dimensão do
e discutir com os membros da Ala dos Compositores
que estava ocorrendo com a moçada negra em di-
o enredo que ele eserevera. Nei Lopes e Wilson Mo-
ferentes pontos do país. Representantes do Grupo
reira (essas duas “feras”) tiveram o seu samba-en-
Malê, do Centro de Estudos Afro-Brasileiros, assim
redo escolhido como o melhor, dentre outros muito
como de blocos e afoxés de Salvador lá estavam dis-
bons. E num trecho do samba, eles dizem: “E os
cutindo e reivindicando, denunciando e se posicio-
quilombolas de hoje em dia/São candeia que nos nando contra o racismo, Chegamos a um ponto que
alumia”... tive que adiar a viagem de tetorno ao Rio para que
Além da Quilombo, o Renascença Clube, o Nú- pudéssemos melhor aprofundar as discussões. O re-
cleo Negro Socialista, o Centro de Estudos Brasil sultado desse encontro foi a criação de um novo
África (CEBA) e o Instituto de Pesquisa das Cultu- grupo, constituído por membros dos anteriormente
ras Negras (TPCN) foram as associações cariocas citados, assim como pelos que a eles não pertenciam.
que apoiaram o novo movimento e assinaram uma Mas pot que um novo grupo, se já existiam outros?
nota conjunta de solidariedade que foi remetida para A novidade dele estava no fato de articular de ma-
São Paulo. Enquanto isso, naquela cidade, como vi- neira explicitamente política a questão racial. O
mos, ocorriam as primeiras defeoções, determinadas Grupo Nêgo viria a ser a base a partir da qual o
pelo velho temor da repressão & pelo não menos futuro MNUCDR se estenderia a Salvador.

46 47
Por aí a gente constata que o 7 de julho é um Campanha contra a discriminação racial, contra
marco histórico muito importante para nós, na me- a opressão policial, contra o desemprego, o sub-
dida em que se constituiu em ponto de convergên- emprego € à muirginalização. Estamos nas ruas para
cia para a manifestação, em praça pública, de todo denunciar es péssimas condições de vida da Comu-
um clima de contestação às práticas racistas, assim nidade Negra.
Hoje é um dia histórico. Um novo dia começa
como da determinação de leves adiante a organiza-
a surgir para o negro!
vão política dos negros. Ora, esse clima e essa de- Estamos saindo das salas de reuniões, das salas
rerminação já haviam pintado em diferentes pontos de conferências e estamos indo para as ruas. Um
do país, como já dissemos. Faltava esse 7 de julho, novo passo foi dado na luta contra G racismo.
garantia simbólica de um movimento negro de cará- Os racistas do Clube de Regatas Tietê que se
cubram, pois exigiremos justiça. Os assassinos de ne
ter nacional. ros que se cuidem, pois n eles também exigivemos
... E estávamos todos tá, nas escadarias do Tea- justiça!
tro Municipal de São Paulo. Muita atividade (distxi-
buição da carta aberta à população, colocação de O MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A
DISCRIMINAÇÃO RACIALfoi criado para ser um
cartazes, faixas ete.), muita alegria, muita emoção.
instrumento de Juta da Comunidade Negra, Este
As moções de apoio chegavam e eram lidas com voz movimento deye ter como princípio básico o trabalho
forte e segura. À multidão aplaudia. Como aplaudia de denúncia permanente de todo ato de diserimina-
os discursos que se sucediam, Graças às mensagens gão racial, a constante organização da Comunidade
de solidariedade de grupos, organizações, entidades para enfrentarmos todo e qualquer tipo de racismo.
negras e brancas, de São Paulo e do Brasil; graças Todos nós sabemos o prejuízo social que causa
às falações que iam fundo em suas denúncias; gra o racismo. Quando uma pessoa não gosta de um
ças aquela multidão ali presente (cerca de duas mil negro é lamentável, mas quando toda uma sociedade
pessoas), negra na maioria (mas muitos brancos assume altitudes racistas frente a um povo inteiro, ou
se nega a enfrentar, aí então o resultado é trágico
também); graças a todo umespírito de luta pluri-se- para nós negros:
cular de um povo, a emoção tomava conta da gente, Pais de família desempregados, filhos desampa-
causando uma espécie de vertigem. E um sentimen- tados, sem assistência médica, sem condições de pro-
to fundo tomou conta de cada um, quando ouvimos teção familiar, sem escolas e sem futuro. E é este
a leitura, a duas mil vozes, da Carta Aberta à Popu- racismo coletivo, este racismo institucionalizado que
lação que assim dizia: dá origem a todo tipo de violência contra um povo
inteiro. E este racismo institucionalizado que dá se-
Contra o Racismo gurança para a prática de atos racistas como os que
ocorreram no Clube Tietê, como o ato de violência
Hoje estamos na rua numa campanha de de- policial que se abateu sobre Robson Silveira da Luz,
múncial no 44º Distrito Policial de Grraianazes, onde este
negro, trabalhador, pai de família, foi torturado até

48 49
à» tnorte. No dia 1.º de julho, Nilton Loure
nço, mais voz alta o documento acima reproduzido. As Iágri-
um negro operário, foi assassinado por um
policial mos 6 impediamde fazê-lo. Marcou-me fundo o seu
6
no bairro da Lapa, revoltando toda a comunidade gesto de enxugó-las na manga do paletó, passando o
o povo em geral. braço nos olhos...
Casos como estes são rotina ém nosso país que
Dia seguinte, os jornais noticiavam em man-
ss diz democrático.
e chetes de primeira página: E estávamos no nonagé-
E tais acontecimentos deixam mais evidente
reforçam a justiça de nossa luta, nossa necessidade
de simo ano após a chamada abolição da escravatura.
mobilização. . “Retornamos ao Rio, após a assembléia de ava-
E necessário buscar formas de organização. É liação do Ato Público. Reunimo-nos, então, para
preciso garantir que este movimento seja um forte discutir as propostas que levaríamos para a assem-
instrumento de luta permanente da comunidade, onde bicia que se realizaria no dia 23 de julho na capital
todos participem de verdade, definindo os caminhos paulista, Dentre as propostas que levamos, destaco
-
do movimento. Por isso chamamos todos a engros
eatem o MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A uma: a que propunha o acréscimo do significante
DISCRIMINAÇÃO RACIAL. megro ao nome do movimento. Daquela data em
Portanto, propomos a criação de CENTROS DE nte, passamos a ser o MOVIMENTO NEGRO
LUTA DO MOVIMENTO UNIFICADO CONTRA A FICADO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RA-
DISCRIMINAÇÃO RACIAL, nos bairros, nas vilas,
CIAL, Nessa mesma assembléia interestadual (SP e
nas prisões, nos terreiros de candomblé, nos terreiros
de umbanda, nos locais de trabalho, nas escolas de RD. reunida nas dependências da ACBB, continua-
samba, nas igreias, em todo o lugar onde o negro vam a pintar as divergências; os setores mais con-
,
viver CENTROS DE LUTA que promovam o debate servadores não deixavam de demonstrar seus receios
a informação, a conscientização e organização da em face das propostas mais avançadas dos setores
comunidade negra, tornando-nos um movimento forte, progressistas do movimento, Desnecessário dizer que
ativo e combatente, levando o negro a participar em eles começaram a se afastar do projeto com que nos
todos os setores da sociedade brasileira. havíamos comprometido, Apóscalorosas discussões
Convidamos os setores democráticos da socieda-
de (para) que nos apóiem, criando condições neces
foi eleita uma Comissão Provisória que se encarre-
sáries para criar uma verdadeira democracia racial, garia de elaborar o ante-projeto dos documentos
CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL básicos do MNUCDR: Carta de Princípios, Estatuto
CONTRA A OPRESSÃO POLICIAL e Programa de Ação. ,
PELA AMPLIAÇÃO DO MOVIMENTO .
POR UMA AUTENTICA DEMOCRACIA RACIAL Dias depois, seguíamos para Salvador, Abdias
eceu,a fim de colocarmos os irmãos daquela cidade
a par dos acontecimentos (também eles haviam
Pessoalmente, não poderei esquecer a imagem enviado sua moção de opoio ao Ato de 7 de julho).
daquele velho homem negro, que mal podia ler em

so
5
propostas vinham sendo derrotadas, retirou-se sob
Sua adesão foi imediata, assim como seu compromis- protesto, dado o esquentamento dos ânimos. Mesmo
so de comparecimento à Assembléia Nacional a ser assim, as discussões continuaram no maior entusias-
realizada no Rio de Janeiro. Lá pelos fins de agosto, mo. Lá pelas tantas, eram evidentes os sinais de
um grupo de intelectuais negros do Rio e de São cansaço, resultantes de tanta empolgação, de tanta
Paulo seguiu para Belo Horizonte, a Fim de paxtici- entrega. Era bonito-de ver aquela negada tão cheia
par da II Semana de Estudos Afro-Brasileiros, orga- de vida, tão ardorosa, mesmo que discordante, em-
nizada pelo Instituto de História e Arte de Minas penhando-se inteira naquela assembléia. E o lance
Gerais. Todos, à exceção de um, pertenciam ao mais incrível se deu quando o sono começou a amea-
MNUCDR e, dentre estes, dois eram membros da ar o andamento dos trabalhos. Já exa alta madruga-
Comissão Provisória. Ao regressarmos, já tínhamos da de segunda-feira; estávamos todos exaustos, exau-
conseguido a adesão de um casal negro, que se en- vidos, mas com uma determinação que teimava em
carregou de criar e organizar o movimento naquela transcender tudo isso. E era um tal de nêgo cochi-
cidade. Minas Gerais também se comprometia a lando aqui, outro acolá, outro mais adiante, todos
comparecer à Assembléia no Rio. insistindo em permanecer no plenário (ainda hoje,
Esta última foi realizada nos dias 9, 10 e 11 quando a gente papeando se recorda da cena, a gente
de setembro, nas dependências do IPCN. Presentes, se acaba de rir).
as delegações de São Paulo, Bahia, Minas Gerais e
Espírito Santo, além dos cariocas e Huminenses, De qualquer modo, o importante foi que se
Eram cerca de trezentas pessoas que alí estavam conseguiu fechar a pauta. Os documentos básicos
pata discutir e votar não só os documentos básicos foram votados, a Comissão Executiva Nacional foi
do movimento, mas também eleger a Comissão eleita (os Centros de Luta dos respectivos estados
Executiva Nacional e caracterizar a posição do escolheram seus representantes, à exceção dos com-
MNUCDR em face das eleições de 15 de novembro. panheiros do Espírito Santo que deixaram para fa-
zé-lo mais tarde) e se decidiu o posicionamento que
As discussões foram prolongadas e cansativas, teríamos. diante das eleições, mediante a noção de
umavez que posições diferentes insistiam em defen- voto racial) Este último significava o estabelecimen-
der seus pontos de vista com todas as forças. O to de timaplataforma das exigências da comunidade
grupo fluminense, que já a 23 de julho ameaçara negra, primeiramente apresentada aos candidatos
se afastar, retirou-se praticamente nos primeiros negros e, caso não a encampassem (o que acabou
momentos em que se iniciavam os trabalhos. Pas- ocorrendo), aos candidatos progressistas da oposi-
samos todo o sábado discutindo e votando O estatu- ção, em seguida, para que a divulgassem durante a
to. No domingo, foi a vez da carta de princípios e campanha e buscassem efetivá-la durante o manda-
do programa de ação, O acirramento foi de tal or to, Estes últimos cumpriram ou tentaram cumprir a
“ dem que quase o pau quebrou. Um dos grupos cujas
53:
az
seu importante trabalho sobre o drama de ser ne-
primeira parte, nada fizeram com relação à segunda, gro no Brasil, tais mecanismos de ocultamento e
exceto alguns belos discursos (o que a gente já
negação são devidos ao fato de, em termos psica-
previa).
nalíticos, o branco ser vivenciado como ideal do
Vale recordar aqui um fato muito interessante, ego. De nossa parte, de acordo com as pesquisas do
que nos remete à ideologia do branqueamento. Como Cheikh Anta Diop, e também numa perspectiva psi-
se sabe, ela consiste nó fato de os aparelhos ideoló- canalítica, a universal “fobia de negro” remeteria
gicos (família, escola, igreja, meios de comunicação justamente para o contrário, Mas isso é assunto para
etc.) veicularem valores que, juntamente com o mito um outto papo, posto que a reprodução da ideologia
da democracia racial, apontam para uma suposta do branqueamento é um fato concreto que só con-
superioridade racial e cultural branca. Vale notar firma o que a Neusa diz. Isto feito, aqui vai o nosso
que é justamente por aí, por essa articulação entre relato.
o mito e a ideologia, que se deve entender o caráter
disfarçado do racismo à brasileira, Daí se segue que Fui designada pelos companheiros de movimen-
pessoas negras (pretas ou mulatas, porque dá no to para levar nossa plataforma política a um famo-
mesmo) internalizam tais valores é passam a se ne- so e respeitado candidato da oposição, que é negro.
gar enguanto tais, de maneira mais ou menos cons- Na sala de espera de seu escritório, fui abordada
ciente (o mesmo acontecendo com as pessoas “bran- por uma jovem recepcionista, “morena queimadi-
cas”, isto é, aquelas cujós traços revelam uma as- nha”, que foi logo me dizendo: “Escuta aqui, minha
cendência negra, mas que são vistas coho brancas; filha; se você veio aqui pra pedir emprego ao Dr,
Abdias do Nascimento as chama de “brancóides”). (...), nem adianta, porque ele não vai te receber.”
Emsuma, elas sentem vergonha de sua condição ra- Por aí se vê que, de acordo com sua bela cabecinha,
cial e passam a desenvolver mecanismos de oculta- uma crioula querendo falar com o candidato, só po-
mento de sua “inferioridade”. Esses mecanismos re- dia ser para pedir emprego... Após uma verdadei-
cobrem um amplo quadro de racionalização que vão ta odisséia, consegui ser levada à presença do Dr.
desde um efetivo racismo às avessas (negros ou (...), que leu atentamente o documento que lhe en-
“brancóides”-que, por palavras 6 atos, “não gostam treguei. Após issso, me disse solidariamente: “Mas
de preto”) até àatitude “democrática” que nega a
é claro que eu apoio todas essas reivindicações por-
questão racial, diluindo-a mecanicamente na luta de que, afinal de contas, o problema de vocês é muito
classes (por aí se vê como certas posições de esquer- sério.” Ao quê eu lhe retruquei: “De fato, Dr. (...),
da nada mais fazem do que reproduzir o mito da muito mais sério do que a gente pensava até aqui e
democracia racial, criado pelo liberalismo paterna-
agora” Pois é... Desnecessário dizer que nem du-
lista que elas dizem combater). De acordo com nos-
tante sua campanha foi levantada a questão do ne-
sa companheira de MNU, Neusa Santos Souza, em

5. 5a
gro. (Netsa, você tem carradas de razão, podes te, inclusive, com provocações e agressões às pes
crer.) soas que orientavam cs transeuntes a participarem
da Assembléia. Foi um passo importante para o nosso
Uma nova Assembléia Nacional foi marcada pa-
Movimento, pois definimos pontos programáticos,
ra o dia 4 de novembro em Salvador. Vejamos o de- data para a reunião preparatória do Congresso de
poimento de um companheiro: Culturas Negras das Américas e tiramos um do
cumento Nacional do Dia da Consciência Negra. (De-
poimento de Milton Barbosa, do Centro ds Luta De-
“A reunião do Movimento Negro Unificado Contra
cisão, do MNUCDR — Jornal Versus nº 27)
a Discriminação Racial fere a Lei Afonso Arinos”,
Esta a desculpa apresentada pelo presidente da Asso-
clação dos Funcionários Públicos da Bahia ao desis- Na verdade, ficou estabelecido o 20 de novem-
tir de ceder a sede de “sua” entidade para a realiza-
ção da II Assembléia Nacional do Movimento Negro bro como o Dia Nacional da Consciência Negra. Nos
Unificado, na cidade de Salvador, na Bahia, Durante anos seguintes, teríamos os atos públicos, as passea-
a manhã do dia 4 de novembro, vários telefonemas tas e outras formas de manifestação, ocorrendo a
de Brasília determinavam às entidades de estudo das nível nacional enquanto expressões de um assenti-
relações raciais, para que não apoiassem a Assem-
mento: o da Comunidade Negra. Graças ao empe-
bléia, enquanto a Polícia Federal se encarregava de
tentar impedir a reunião. E a proibição da reunião nho do MNU, ampliando e aprofundando a propos-
por este organismo, foi o argumento utilizado pela ta do Grupo Palmares, o 20 de novembro transfor-
responsável pelo Teatro Vila Velha, o local alter- mou-se num ato político de afirmação da história do
nativo, determinado pela Coordenação Nacional, or- povo negro, justamente naquilo em que ele demons-
ganismo dirigente do Movimento Negro Unificado
trou sua capacidade de organização e de proposta
Contra a Discriminação Racial, (...)
Ao chegarmos ao teatro Vila Velha fomos infor- de uma sociedade alternativa; na verdade, Palmares
mados de que a polícia federal proibira a Assembléia, foi o autêntico berço da nacionalidade brasileira, ao
pois considerava que sua realização feria a Lei Afon- se constituir como efetiva democracia racial e Zum-
so Arinos. Nós, negros, sempre desconfiamos desta bi, o símbolo vivo da luta contra todas as formas de
Lei, pois temos certeza que, apesar deser uma lei exploração. E hoje, tamos nf, constatando a impor-
que deveria garantir o direito do negro lutar contra tância da iniciativa do MNU, uma vez que grupos
o racismo, nunca funcionou contra os racistas. De: e entidades negras de todo o país se mobilizam em
veria ser usada contra nós. Foram colocados vários
policiais neste teatro e muitas viaturas circulavam
torno dessa data magna. E o treze de maio, cada vez
ostensivamente nas suas imediações. mais, caracteriza-se como data oficial de órgãos go-
Voltamos para o ICBA (Instituto Cultural Brasil xernamentais, ou seja, como papo de branco (o que
Alemanha) e realizamos nossa assembléia, indiferentes é até coerente, pois, a chamada abolição resolveu os
às pressões do aparato repressivo, que se fez presen problemas das classes dominantes brancas e não O

57
nosso). Mas vamos ao texto de 4 de novembro de JOGADO NAS FAVELAS, CORTIÇOS, ALAGA-
1978: DOS E INVASÕES, EMPURRADO PARA A MAR-
GINALIDADE, A PROSTITUIÇÃO, A MENDI-
CÂNCIA, OS PRESÍDIOS, O DESEMPREGO E O
AO POVO BRASILEIRO SUBEMPREGO tendo sobre si; ainda, o peso dest»
MANIFESTO NACIONAL DO mano da VIOLÊNCIA E REPRESSÃO POLICIAL.
MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO Por isto, mantendo o espírito de luta dos quilombos,
CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL GRITAMOS contra a situação de exploração a que
À ZUMBI estamos submetidos, lutando contra o RACISMO e
20 DE NOVEMBRO: DIA NACIONAL DA toda e qual forma de OPRESSÃO existente na
CONSCIÊNCIA NEGRA sociedade brasileira, e pola MOBILIZAÇÃO E OR-
GANIZAÇÃO da Comunidade, visando uma REAL
Nós, negros brasileiros, orgulhosos por descendermos emancipação política, econômica, social e cultural.
de ZUMBI, líder da República Negra de Palmares, Desde o dia 18 de junho somos o MOVIMENTO
que existiu no Estado de Alagoas, de 1595 a 1695. NEGRO UNIFICADO CONTRA A DISCRIMINA-
desafiando o domínio português e até holandês, nos ÇÃO RACIAL, movimento que se propõe a ser um
reunimos hoje, após 283 anos, pata declarar a todo
canal das reivindicações do negro brasileiro e que
tem suas bases nos CENTROS DE LUTA, Torma-
povo brasileito nossa verdadeira e efetiva data: 20 dos onde quer que O negro se faça presente,
de novembro, DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA É preciso que o MOVIMENTO NEGRO UNIFICA-
NEGRA! DO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL se
Dia da morte do grande líder negro nacional, tome forte, ativo e combatente; mas, para isso é
ZUMBI, responsável pela PRIMEIRA E ÚNICA ten- necessária a participação de todos, afirmando o 20
tativa brasileira de estabelecer uma sociedade demo- de novembro como o DIA NACIONAL DA CONS-
crática, ou seja, livre, e em que todos — negros, CIÊNCIA NEGRA.
índios, brancos — realizaram um grande avanço po- PELO DIA: NACIONAL DA CONSCIÊNCIA
lítico e social. Tentativa esta que sempre esteve pre- NEGRA
sente em todos os quilombos. PELA AMPLIAÇÃO DO MNUCDR
Hoje estamos unidos numa luta de reconstrução da POR UMA VERDADEIRA DEMOCRACIA
sociedade brasileira, apontando para uma nova of- RACIAL
dem, onde haja a participação real e justa do negro, PELA LIBERTAÇÃO DO FOVO NEGRO
uma vez que somos os mais oprimidos dos oprimidos;
não só aqui, mas em todos os lugares onde vivemos.
Por isto, negamos o treze de maio de 1888, dia da Em setembro de 1979, realizar-se-ia um Encon-
abolição da escravatura, como um dia de libertação. tro Nacional em Belo Horizonte visando um balan-
Por quê? Porque nesse dia foi assinada uma lei que ço crítico de nossas atividades, assim como a prepa-
apenas ficou no papel, encobrindo uma situação de tação do I Congresso do MNUCDR, marcado para
dominação sob a qual até hoje o negro se encontra: os dias 14, 15 e 16 de dezembro no Rio de Janeiro.

58 59
As atividades do MNU em seu primeiro ano de gação dos assaltantes do adolescente Ailton, da me-
existência se deram nos mais diferentes níveis. Des- nina Márcia, de Aézio, todos eles negros anônimos e
de a denúncia dos casos de violência policial (que pobres, vítimas, como tantos cutros, da violência
nos levou a defender a tese, junto ao Comitê Brasi- policial. E quando eclodiu o internacionalmente fa
leiro pela Anistia, em seus dois congressos de 1978 moso “caso Marli”, o apoio recebido sobretudo pelo
e 1979, de que o negro brasileiro também é prísio- movimento de mulheres foi um dos efeitos das de-
neiro político, na medida em que é colocado sob núncias efetuadas pelo MNUCDR desde 1978.
suspeita e preso pelo simples fato de ser negro), pas- (Robson da Luz e os ntletas-mirins do Tietê...)
sando pelas manifestações em praça pública (enterro Quanto aos aspectos negativos, deixando de la-'
da Lei Afonso Arinos, em São Paulo; realização de do o já tradicional “racismo às avessas” de que so»,
atos públicos e passeatas, por ocasião do 20 de no- mos acusados sempre que nós, negros, partimos para)
vembro, em diferentes capitais do país, etc.), ao tra- a denúncia do racismo e da discriminação, pintatam .
balho iniciado junto à comunidade negra. Seu tra- outras acusações como as de divisionistas, revanchis-|
balho de denúncia do racismo e da violência poli- tas etc. e tal, provenientes de certos setores de es-l
cial acabou por sensibilizar determinados setores da querda, além daquela de subversão, tão cara no re»
sociedade, tanto num sentido positivo quanto ne- gime. Mas a gente continuou a nossa Inta. E hoje,
gativo.
1981, é interessante observar que, apesar dos pesa-
No primeiro caso, vale notar, por exemplo, a res, enprossaram as fileiras dos aue estão interessa-
descoberta divulgada pela grande imprensa: a de dos na “questão negra”. O que não deixa de ser um
que o negro comum também é torturado. De acor- avanço...
do com a reportagem de um grande semanário, a Com esse tipo de perspectiva com relação ao
opinião pública brasileira só passou a tomar conhe- racismo, nosso trabalho de denúncia da situação do
cimento da existência da tortura a partir do momen- negro brasileiro também tem se dado a nível inter-
to em que a repressão passou a praticá-la nos jovens nacional, secundando aquele iniciado por Abdias do
de classe média que se opuseram ao regime. Um belo Nascimento a partir de 68. Assim é que puticipa-
dia, o cardeal do Rio de Janeiro, foi fazer sua visita mos de:
antial ao presídio, quando os presos (negros em sua a) Congressos -— como o IL Congresso das Culturas
maioria, vale lembrar) lhe revelaram a grande novi- Negras das Américas, realizado no Panamá em
dade. (Se a gente se interessasse mais pelo que se 1980;
passa efetivamente no cotidiano da grande massa
b) Seminários — “Democracia para O Brasil”, No-
negra, desde a escravidão, a gente saberia que tor-
va Jorque, 1979; “A Mulher sob o Apartheid”
tura sempre existiu em nosso belopaís tropical.) Ou- (promovidos pela ONU), no Canadá e na Finlân-
tros exemplos de sensibilização referem-se à divul.
dia, em 1980 (dos quais fui vice-presidente); “Si-
60 6t
tuação Política, Econômica e Social do Brasil”, crise econômica, haveria uma espécie de desloca-
Itália, 1981; mento das atenções. A segurança social ocuparia o
c) Simpósios -—- “Economia e Política do Mundo primeiro lugar das preocupações do governo, colo-
Negro”, Los Angeles, 1979; “Raça e Classe no cando num segundo plano, aparentemente a segu-
Brasil”, Los Angeles, 1980; renga nacional, Os projetos de diminuição da idade
d) Encontros — IV Encontro da Associação de Es- com relação à respónsabilidade criminal (18 para
tudos Latinoamericanos, Pittsburgh, 1979; En- 16 anos) e da prisão cautelar, apontavam para a
contro Preparatório da Conferência da Década principal vítima do sistema: a população negra, para
da Mulher, Suíça, 1980; II Enconito da Asso- vasiar. Os linchamentos já se sucediam e a pena de
ciação de Estudos da Herança Africana, Pitts- morte já cra vista como “natural” pelos vários
burgh, 1979; setores da classe média (duramente atingida pelo
e) Conferência — “Os Direitos Humanos e a Mis- “pacote de dezembro”, ponto de partida para
são da Mulher” (promovida pelo Conselho Myn- o seu empobrecimento progressivo). Diante de tal
dial das Igrejas), Veneza, 1979; Conferência AL quadro, os congressistas votaram a execução das se-
ternativa da Década da Mulher, Copenhague, guintes campanhas articuladas: MAIS EMPREGOS
1980; Sanções contra a África do Sul (promovi- PAPA OS NECROS e a campanha CONTRA A
da pela ONU), Paris, 1981; . VIOLÊNCIA POLICIAL. O desdobramento desta
£) Palestras (Estados Unidos, Europa e África: Se- última, no momento que as bombas tavam aí, explo-
negal, Aito Volta e Mali), entrevistas (imprensa dindo pelo país, levou nossos companheiros de Mi-
falada,escrita e televisada dos três continentes ci. nas à coractexizarem o fato de que a população negra
tados), participação em manifestações (Dia da Li- é objeto de um terror cotidiano.)
bertação Africana, 25 de abril; vale ressaltar que Também nós, mulheres negras, além da denún-
o Dia Nacional da Consciência Negra, o nosso cia do branqueamento do homem negro, em termos
20 de novembro, foi comemorado em Londres, de casamento, discutimos os problemas relativos à,
em 1980) etc. educação de nossas crianças, controle da natalidade,
O | Congresso do MNU significou um grande assim como nossa participação no processo de liber-
tação do povo negro e na luta contra O racismo. Ana-|
passo em termos de luta política do negro. Reunin-
do delegados do Rio, São Paulo, Bahia, Minas e Rio
lisamos tambéma situação da mulher negra enquan-
to empregada doméstica no quadro da reprodução
Grande do Sul, avançou uma série de questões que
do racismo (inclusive por parte de muitas militantes
seriam posteriormente confirmadas. Ao analisar a
brancas do movimento de mulheres).
conjuntura nacional, os congressistas avaliaram cor-
retamente a questão da violência: na medida em que Quanto à questão da cultura negra, sérias crí-
« à “abertura” se fazia, e com ela a aproximeção da ticas foramdirigidas ao processo de comercialização

62 53
Carta de Princípios, inspirou a criação de diversas
e foiclorização que ela tem' sofrido por parte das entidades e grupos negros em vátios pontos do país.
secretarias e agências de turismo. Conscientes da im- Finalizemos, então, com o texto de nossa Carta de
possibilidade de deter a invasão capitalista, reivin- Princípios:
dicou-se a proiissionalização dos produtores de cul-
tura popular. Era a consciência de que sobretudo
NOS, membros da população negra brasileira — en-
as entidades negras de massa haviam se transformado
tendendo como negro todo aquele que possui na cor
em empresas; consequentemente, por que não pa- da pele, no rosto ou nos cabelos, sinais característicos
gar salários para passistas, bateristas, compositores e dessa raça —, reunidos em Assembléia Nacional,
outros membros natos das escclas de samba? CONVENCIDOS da existência de:
Comrelação à estrutura do movimento, o Pro- — discriminação tacial
grama de Ação foi devidamente ampliado e aprofun- -— marginalização racial, política, econômica, social
dado. E como a luta prioritária do movimento é corm- e cultural do povo negro
tra a discriminação racial, seu nome foi simplificado — péssimas condições de vida
para (o que já se fazia na prática); MOVIMENTO — desemprego
NEGRO UNIFICADO (MNU). — subemprego
« discriminação na admissão de empregos e perse-
A guisa de conclusão deste depoimento, não guição racial no trabalho
podemos deixar de ressaltar que o advento do MNU — condições sub-humanas de vida dos presidiários
— permanente repressão, perseguição e violência po-
consistiu no mais importante salto qualitativo nas
licial
lutas da comunidade negra brasileira, na década de — exploração sexual, econômica e social da mulher
setenta. Vale notar que as entidades culturais que, negra
de um modo ou de outro, se distanciaram do MNU — abandono e mal tratamento dos menores, negros
(por discordarem de sua proposta ou por falta de em sua maioria
— colonização, descaracterização, esmagamento e co-
clareza política), foram obrigadas a se posicionarem
mercialização de nossa cultura
de maneira mais incisiva; justamente porque o MNU -
— mito da democracia racial
conquistou espaços políticos que exigiram esse avan- RESOLVEMOS juntar nossas forças e lutar por:
so por parte delas. Hoje não dá mais pra sustentar — defesa do povo negro em todos os aspectos poli-
posições culturalistas, intelectualistas, coisas que tais, ticos, econômicos, sociais e culturais através da
e divorciadas da realidade vivida pelas massas ne- conquista de:
gras, Sendo contra ou a favor, não dá mais pra ig- — maiores oportunidades de emprego
norar essa questão concreta, colocada pelo MNU: -— melhor assistência à saúde, à educação e à ha-
a articulação entre raça e classe. Por outro lado, o bitação
-— reavaliação do papel do negro na História do
advento do MNU e a difusão de sua proposta políti-
Brasil
«ca, objetivada em seu Programa de Ação e em sua
65
64
— valorização da cultura negra e combate sistemá-
tico à sua comercialização, folclorização e dis-
torção
-—extinção de todas as formas de perseguição, ex-
ploração, repressão e violência a que somos sub-
metidos
- liberdade de organização e de expressão do povo
negro
E CONSIDERANDO ENFIM QUE:
-— nossa luta de libertação deve ser somente dirigida
RAÇA, CLASSE E MOBILIDADE
por nós
-— queremos uma nova sociedade onde todos real-
mente participem Carlos Alfredo Hasenbalg
- como não estamos isolados do restante da socie-
dade brasileira
NOS SOLIDARIZAMOS:
2) com toda e qualquer luta reivindicativa dos seto-
res poptilares da sociedade brasileira que vise a
real conquista de seus direitos políticos, econômi-
cos e sociais;
b) com a luta internacional contra o racisma.
POR UMA AUTÊNTICA DEMOCRACIA RACIAL!
PELA LIBERTAÇÃO DO POVO NEGRO!

Axé...

BE
A expansão européia iniciada no século KV
teve como resultado o contato entre europeus bran-
cos e populações não-brancas das áreas que iam sen-
do incorporadas ao mercado internacional. Desses
contatos resultaram a incorporação de povos inteiros
nos domínios coloniais metropolitanos, migrações
forçadas de trabalhadores entre continentes e regiões
e a sujeição de populações de cor a sistemas repres-
-sivos de trabalho.
O racismo, cuja essência reside na negação total
ou parcial da humanidade do negro e outros não-
brancos, constituiu a justificativa para exercitar o
domínio sobre os povos de cor. O conteúdo desta
justificativa variou ao longo do tempo, tendo-come-
cado com noções imbuídas de uma visão religiosa /do
mundo que permitiram estabelecer a distinção entro
cristãos e pagãos. Mais tarde e de uma. maneira pa-
radoxal, o ideário de igualdade e liberdade surgido
no final do século XVII ecentuou a exclusão dos
não-brancos do universalismo burguês e levou à ne-
cessidade de reforçar a distinção entre homens (bran-
cos) e sub-homens (de cor). Já no século XIX) o
darwinismo social, o evolucionismo, as doutrinas do
“racismo científico” e a idéia da “missão civilizató-
ria do homem branco” aparecem intimamente rela-
cionadas à expansão imperialista dos países europeus.

es,
De fato, o início da revolta científica contra o O estudo das relações raciais
racismo e a definição das raças como entidades bio-
lógicas independentes de definições sociais data da
nos Estados Unidos
terceira e quarta décadas deste século, O antropólo-
go Franz Boas pode ser destacado como um dos pio-
neiros no ataque sistemático às interpretações bicló-
gicas da história e um dos principais responsáveis
pela mudança que levou a desenfatizar fatores bioló-
No que se refere no estudo científico das rela-
gicos e hereditários em favor de fatores puramente
ções raciais, não é de estranhar que grande parte
culturais na explicação da dinâmica social. Porém,
apesar do crescente descrédito do determinismo bio- das interpretações teóricas e análises empíricas te-
lógico e racial, o velho tema volta a aparecer com nha sido desenvolvida nos Estados Unidos, país
novas roupagens. Numa época em que a atividade multi-racial onde a questão racial tem ocupado um
das ciências sociais e biológicas tem refutado consis- lugar central no debate acadêmico e político. Em
tentemente a existência de desigualdades natirais en- termos do seu valor intrínseco e influência poste-
tre as raças, alguns produtos da atividade científica rior, a teoria do ciclo das relações raciais, formula-'
continuam a ser utilizados para sustentar a existên- da poriRobert E. Park) constitui um dos marcos ini-
cia de uma base genética das diferenças raciais: é ciais da interpretação sociológica do tema. Segundo”
o caso dos controvertidos testes de QI e as possíveis esse autor, as relações raciais são o produto de mi-
derivações racistas de uma disciplina nova e igual- grações e conquistas,as raças sendo entidades social-
mente controvertida como é a sociobiologia. mente definidas no contexto de interações competi-
tivas marcadas pelo etnocentrismo. Asrelações ra-
ciais tenderiama se adequar a um ciclo queinclui as
etapas de contato, competição, acomodação e assi-
milação.! Park formulou sua teoria tendo em vista
uma ampla gama de situações históricas. Seus vários
trabalhos refletem a sua crença numa tendência a
longo prazo no sentido da assimilação das minorias
na sociedade mais ampla é o consegúente desapa-
recimento de caiegorias étnicas e raciais enquanto
tais. Desta forma, a classe social tenderia a substituir
taga e etnicidade como critério de estratificação so-
cial e fonte de conflito.

mú z1
A sociologia americana posterior a Park não tas como estando numa situação basicamente igual
só está dominada pela premissa assimilacionista, co- à das minorias étnicas européias no passado. A par-
mo também fez um recorte mais paroquial do foco tir desta semelhança aparente com o imigrante se-
de análise, limitando-se a estudar quase que exclu- gue-se que o ritmode incorporação do negro e outras
sivamente as relações raciais nos Estados Unidos. De minorias raciais depende fundamentalmente de: a)
um ponto de vista teórico mais abstrato, o suposto a diminuição do preconceito do grupo branco e b) &
assimilacionista resulta de uma análise das exigên- aquisição pelas minorias raciais das normas cultu-
cias estruturais das modernas sociedades industriais: rais apropriadas à competição social na sociedade
universalismo, realização, eficiência instrumental e americana. No que se refere ao preconceito é discri-
capacidade individual dentro de uma estrutura aber- minação do grupo branco, além da tendência a
ta de oportunidades. Dada a lógica do industrialis- subestimar seu efeitos, existe um otimismo geral so-
mo e o caráter impessoal dos mecanismos de mer- bre as possibilidades de sua diminuição através da
cado, características individuais que não podem ser persuasão moral e contínuo esclarecimento do gru-
modificadas, como raça, etnicidade e sexo tendem po dominante. Por sua vez, o ritmo lento ou até a
a ser cada vez menos importantes como fontes-de ausência de progressos. no processo de incorporação
estruturação das relações sociais. Mais concretamen- é explicada por alguns autores. da escola assimilacio-
(te, os trabalhos mais expressivos da perspectiva assi- nista como resultado do fracasso. ou. incapacidade
| milacionista partem da idéia de que os Estados Uni- dis minorias raciais em operar as adaptações cultu-
| dos são uma nação constituída por sucessivas levas tais necessárias. A cultura da pobreza & formas anor-
| de imigrantes e onde as oportunidades econômicas mais de organização social e familiar constituem a
iem permanente expansão mantêm abertos os canais explicação do confinamento das minorias raciais na
| de ascensão social no sistema de classes. Cada uma base da hierarquia social, por baixo da linha cficial
das minorias étnicas de imigrantes europeus ingres- da pobreza. Numa. típica declaração em que “po-
sou nos Estados Unidos a partir de uma situação breza” constitui um cufemismo para referir-se fun-
desfavorável devido ao preconceito do grupo domi- damentalmente às minorias raciais, afirma-se:
nante, à ausência de familiaridade com os padrões
culturais vigentes e à falta de habilidades para com- “A pobreza engendra pobreza. Um indivíduo ou fa:
petir exitosamente no novo país. Porém, com o pas- mília pobre tem uma alta probabilidade de perma-
sar do tempo as minorias imigrantes aprenderam a necer pobre, Uma baixa renda carrega consigo um
cultura dominante, desenvolveram as habilidades alto risco de doenças, limitações na mobilidade, aces-
requeridas e se deslocaram para cima na Nierarquia so limitado à educação, informação e treinamento.
ceupacional. Nesta abordagem as minorias raciais, Os pais pobrês não podem dar a seus Filhos uma
as últimas a migrar para as grandes cidades, são vis- saúde e educação melhor, necessárias para melhorar
sua situação. A falta de motivação, esperança e in

12 73
centivo são uma barreira sutil mas não menos pode de constituir as tendências mais significativas da-
rosa que a falta de recursos financeiros, Assim, o dinâmica das' relações raciais.
cruel legado da pobreza é passado de pais para fi-
lhos"3 Antes de considerar as análises de classe da
questão racial e do racismo, tema central deste tra-
Nos diagnósticos desta variante a estrutura balho, é conveniente fazer uma breve menção a uma
[econômica é isenta de responsabilidades e o racismo outra interpretação acadêmica das relações raciais
“branco desaparece como fator explicativo. As víti- que não comparte a premisa assimilacionista domi-
imas são responsáveis pelos seus próprios defeitos que nante na sociologia americana, Trata-se do/ modelo
«explicam sua contínua subordinação social. Podem explicativo de casta e classe) formulado por antro-
pólogos e sociólogos na década de 1930, a partir de
se encontrar aqui ressonâncias da antiga crença ra-
estudos de comunidades locais no sul dos Estados
cista segundo a qual as pesscas de ascendência afri-
cana, como raça de “gente de cor”, não tinham a Unidos. Não obstante este modelo explicativo estar
atualmente em desuso e ter sido superado pelos
capacidade de melhorar por si mesmas.
acontecimentos, o mesmo teve acentuada influência
Interessantemente, o colapso da perspectiva as- nas linhas de pesquisa sobre relações raciais desen-
similacionista obedeceu menos à geração de novos
volvidas nas décadas de 1940 e 1950, Traçando uma
enfoques e desenvolvimentos teóricos do que à atua-
analogia com o sistema de castas da Índia, os gru-
ção política das minorias raciais. Com eleito, a ctise
pos brancos e negro foram conceitualizados como
da estratégia integracionista do movimento pelos di:
castas. O sistema de castas] caracterizado na maioria
reitos civis deu lugar, na década de 1960, a novas das definições pela ausência de intercasamentos e
formas de mobilização política do negro americano, mobilidade entre grupos, é contrastado com o siste-
'No clima de reafirmação da consciência étnica e ma dé classes, onde o intercasamento e mobilidade *
nacionalismo cultural característico do ativismo das entre grupos é possível. O padrão de relações ra-
minorias raciais naquele período, intelectuais e mi- ciais do sul americano era visto como implicando
|Iitantes desssas minorias passaram a definir a rela. | ambos fenômenos, com estruturas de diferenciação
(são de negros, índios, chicanos (imigrantes mexicanos de classes presentes dentro mas não através da linha
'g americanos de ascendência mexicana) e outros de separação das castas raciais. À linha de separa-
grupos com a sociedade americana como a de colô- ção de castas, que no período escravista estaria tra-
“nias internas. O modelo de colonialismo interno, cada nó sentido horizontal, tenderia a rotar sobré
“inspirado nas situações do colonialismo e neocolo- seu eixo no sentido diagonal como resultado da
nialismo curopeu, através da ênfase nas dimensões crescente estratificação interna do grupo negro. O
política e cultural da opressão racial, tendeu a de- modelo de casta e classe tem sido criticado pelo uso
monstrar que assimilação e integração estavam longe difuso e variado do conceito de casta; a cristalização

7% 75
de uma visão estática da estrutura social, incapaz de racial é essencialmente conflito político de classe. O
explicar as constantes mudanças no sistema de rela- explorador capitalista, sendo oportunista e prático,
ções raciais e pela inexistência, no caso americano, utilizará qualquer expediente para manter sua força
*
de trabalho e outros recursos livremente exploráveis.
das legitimações de ordem cultural e religiosas que Ele tramará e utilizará o preconceito racial quando
sustentam o sistema de castas da Índia.* The for conveniente? ,
Em contraposição à maioria das interpretações Seguindo este raciocínio: “O preconceito racial!
sociológicas que focalizam ações discriminatórias e constitui então a atitude justificativa necessária para,
v preconceito racial como elementos irracionais na
a fácil exploração de uma raça. Para dizê-lo de outra!
sociedade, destinados a desaparecer, as análises de
forma, o preconceito racial é a atitude social que
classeJda questão racial atribuem primazia às bases acompanha as práticas exploratórias raciais da clas-|
niatetiais do preconceito e discriminação racial, ten-
se dominante numa sociedade capitalista” 8
tando delimitar quais são os grupos ou classes so-
ciais que se beneficiam com o racismo, Esta interpretação está caracterizada pela io
Nas suas linhas essenciais, a interpretação mat-
portância atribuída ao racismo como mecanismo de
| xista corrente postula que racismo, preconceito e manutenção da dominação de classe, Os arranjos
racistas operam em benefício da classe capitalista é
| discriminação raciais são subprodutos necessários
| do desenvolvimento capitalista, implementados e em detrimento de todos os trabalhadoresDesde
+ manipulados pela classe dominante com os objetivos que todos os trabalhadores são economicamente ex-
plorados, independentemente da cor, segue-se a ne-
'de manter uma força de trabalho explorável, cons-
tituída pelos racialmente deminados, e criar divi- cessidade de alianças e coligações inter-raciais para
'sões dentro da classe trabalhadora, de forma a ate- enfrentar a classe capitalista dominante.
-jnuar ou diminuir o conflito de classes. Asreações críticas a esta interpretação apontam
não tanto para o fato da mesma estar errada ou
Segundo Oliver C. Cox, autor de formulação
deixar de assinalar aspectos relevantes da dinâmica
já clássica desta interpretação, a exploração e os
social, mas para seu caráter unilateral e simplifica-
precónceitos raciais se desenvolveram entre os eu-
dor. Em primeiro lugar, um suposto implícito na
ropeus junto com o nascimento do capitalismo e do
perspectiva marxista ortodoxa é o de que raça e cini-
nacionalismo. A origem do conflito racial se encon-
cidade constituem manifestações secundárias que
traria no processo mais geral de mercantilização do
apenas alteram a fórma mas não o conteúdo da di.
trabalho.
nêmica de classe, O relegamento do. preconceito
racial, racismo e identidades étnicas à esfera supe-
“ A exploração racial é meramente um aspecto do pro- restrutural, reflexo das relações de classe, subestima
blema da proletarização do trabalho, independente- o papel dos fenômenos raciais e étnicos na análise
-mente da cor do trabalho. Portanto, o antagonismo

7
de sociedades pluriraciais e multiétnicas. A insistên- pulação negra nos Estados Unidos simplesmente co-
cia em conceitualizar o negro simplesmente como mo uma classe explorada ou, ainda mais confusa-
mente, como um dentre um número de grupos étnicos
um segmento explorado (ou superexplorado) da
que o capitalismo tem oprimido de várias maneiras,
classe trabalhadora e explicar as hierarquias raciais Os negros americanos constituem não tanto uma
unicamente em termos dos interesses e estratégias classe como uma nação, e sua experiência nos Esta-
da classe capitalista tende a ofuscar o que há de des Unidos tem sido única. (...) A nacionalidade
específico na opressão racial. É por esse motivo que negra emerge de duas fontes: uma comunidade de
militantes e intelectuais negros americanos, não interesses em uma sociedade virulentamente racista;
obstante adotar posturas anticapitalistas, têm insis- e uma cultura particular que tem sido elu mesma
um mecanismo de sobrevivência tanto como de re-
tentemente assinalado a duplicidade da exploração sistência à opressão racista, Ao mesmo tempo, os ne-
de classe e opressão racial, gros vivem entre brancos e fazem parte da cultura
necional americana, Em definitivo, eles tanto são
Na maioria dos países a luta dos oprimidos tem se parte como estão aparte da nação americana
dado em termos de classe unicamente. Mas nos Es- Um segundo problema suscitado por esta pers-
tados Unidos os negros não só tem estado no maís
baixo degrau da economia, eles têm sido mantidos pectiva refere-se à estratégia de alianças inter-raciais.
(ali na base da raça... Não são somente os grandes Muitos marxistas americanos assinalam com certo
|negócios cu os administradores ou os dirigentes do fundamento como a ausência de unidade através da
(sistema econômico que estão aliados contra os ne- linha racial funciona como um obstáculo à solidarie-
ieros. E a população branca, Esto É o que concede à dade da classe trabalhadora. Porém, a dificuldade
Tuta do negro sua peculiar dualidade: é tanto uma
« Inta de classe dos que estão no último degrau revol neste ponto reside na defasagem entre teoria e rea-
|tando-se contra a própria estrutura do sistema ame- lidade, representada pelo racismo da classe traba-
(ticano, como também é uma luta racial porque está lhadora branca. Não é sem bons motivos que
idirigida contra a população branca americana que militantes negros afirmam a inexistência de bases
item mantido o negro nos porões de sua sociedade. históricas para a constante promessa de que os tra-
balhadores brancos irão se juntar ao negro numa
Desenvolvendo um argumento semelhante, Eu- frente comum contra o inimigo capitalista. Como
gene Genovese, historiador marxista de inspiração destaca |. Prager:
gramsciana, ao enfatizar o status de dependência
semicolonial do negro americano, postula as bases Para aceitar a teoria radical, é necessário relegar boa
de uma nacionalidade negra, parte da moderna história americana a uma história
baseada na falsa consciência. Somos forçados a acei-
A complexidade e dificuldade do problema racial são tar como artigo de fé uma hegemonia ideológica que
ainda mais obscurecidos pela tendência a ver a po- É capaz de implantar um racismo tão virulento (quan-

7%
to irracional) que às vezes escapa a qualquer con
trole. Implicitamente, a teoria racial afirma que 19% dos no segmento mais avançado da economia, e o
da população é capaz de fazer com que os restantes virtual monopólio branco das posições nas hierar-
99% da população se comportem não só como atores quias administrativas do setor privado. Este racio-
inconscientes (ou falsamente conscientes) mas atuem cínio sugere a possibilidade de que a perpetuação
de tal maneira a negar seus próprios interesses. das práticas racistasesteja relacionada à estririnra 4
Reduzir o racismo da população branca a um de interesses materiais, situação competitiva e be-
fenômeno de falsa consciência imposta pela classe nefícios simbólicos de grupos da população brança
dominante simplifica demasiadamente as profundas além dos detentores do capital. ,
raízes históricas do racismo na sociedade americana. Uma. outra variante de análise de classe da
A nível regional essa hegemonia pode ter existido questão racial localiza a fontedo racismo na com”
no sul dos Estados Unidos durante o escravismo e petição entre grupos de trabalhadores em mercados
no período que vai do fim da guerracivil até a cam- de trabalho segmentados étnica ou racialmente. Se-
panha pelos direitos humanos. Porém, o que se pode gundo Edna Bonacich, formiiladora desta inferpreta-
colocar em dúvida é até que ponto o capitalismo ção“... A empresa tenta pagar pelo trabalho o míni-
americano contemporâneo precisa propagar defibe- mo possível, independentemente da etnia, e é man-
radumente o racismo como mecanismo de assegurar tida em chegue pelos recursos e motivos do grupo
sua estabilidade política, de trabalhadores. Como recursos e motivos variam
com fregiiência segundo a etnia, é comum encon-
Dúvidas semelhantes podem ser levantadas a
trarem-se mercados de trabalho segmentados etnica-
respeito da distribuição dos benefícios derivados do mente” ” Num mercado de trabalho segmentado um
racismo. À visão segundo a qual o racismo só gera
conflito triplo, entre empresários, um grupo de tra-
ganhos materiais para a classe capitalista e perdas
balhadores melhor remunerado (usualmente branco)
para todos os trabalhadores subestima os benefícios
e outro mais batato (usualmente de cor) pode evo-
econômicos e não econômicos acumulados ac longo
luir para formas extremas de antagonismo racial.
do tempo por uma parcela significativa da popula-
ção branca pelo simples confinamento do negro às
“No que se refere aos interesses dessas classes, 05
empregadores desejam ter uma força de trabalho
posições inferiores da hierarquia social. De fato, o
tão barata e dócil quanto possível para competir com
resultado das práticas racistas de (Seleção social) é o
acesso preferencial dos brancos às posições de clas- outras empresas. O grupo de trabalhadores mais
bem pago é ameaçado pela introdução de trabalha-
se que comportam maior remuneração, prestígio e
dores mais baratos no mercado, pois pode excluí-lo
autoridade, No caso particular dos Estados Unidos
E conveniente lembrar a exclusão racial praticada do território ou reduzir o seu preço ao nível deste
último. O trabalho mais barato, por sua vez, é utili-
pelos setores organizados da classe operária, vincula-
zado pelas empresas para minar a posição do traba-
[o
'81
grupo para implementar ós arranjos de exclusão e
lho mais cáro, seja para furar greves ou para
casta. Alternativamente pode se sugerir que a po-
rebaixar o nível dos salários. Dependendo das rela-
sição do negro na estrutura de classes obedece aos
ções de poder entre esses três setores, três resultados
efeitos combinados das mudanças na composição da
típicos podem ocorrer. Em primeiro lugar o processo
força de trabalho requeridas pelo desenvolvimen-
de deslocamento pelo qual o trabalho mais barato
to capitalista e o nível e qualidade das práticas ra-
desloca o grupo de trabalhadores mais bem pago ou
cistas de seleção social e ocupacional, Como afirma
reduz o seu nível de salários, O segundo processo,
Sidney Willhem:
exclusão, tem mais probabilidades de ocorrer quan-
do o trabalho mais bem pago tem força suficiente
O racismo que alguns vêem como “endêmico” a al.
para se opor aos interesses dos empresários, Os tra- guns ou todos os setores da classe trabalhadora bran-
balhadores melhor remunerados resistem ao deslo- ca se desenvolveu e persiste porque até agora a clas-
camento quer impedindo a presença física de tra- se trabalhadora não tem sido capaz de criar um sis-
balhadores mais baratos ou expulsando-os se eles tema econômico alternativo e ainda deve, no me-
já estiverem presentes. A casta é o terceiro processo lhor dos casos, perceber suas estratégias dentro dos
e é o resultado mais provável onde quer que o tra- parâmetros do capitalismo. Porque a menos que uma
visão de uma ordem social melhor possa ser concre-
balho mais barato esteja presente e não possa ser tizada e relacionada às possibilidades presentes. as
excluído. A casta é implementada por uma aristo- pessoas lutarão por aquilo que podem conseguir den-
cracia do trabalho que se reserva certos empregos tro do sistema existente.
e torna ilegal a possibilidade dos empregadores uti-
lizarem trabalho mais barato para substituí-la.
Uma primeira observação crítica a respeito des-
ta teoria deriva de uma falha que ela comparte
com as conceitualizações do marxismo ortodoxo:
implicitamente apresenta uma visão simplificada da
estrutura de classes, composta só de capitalistas e
trabalhadores diretamente produtivos. A decorrên-
cia disso consiste em escamotear a responsabilidade
dos empregadores pela exclusão do negro nos cres-
centes setores da classe média assalariada, Em se-
gundo lugar, se a hipótese de Bonacich fornece uma
boa descrição das motivações e comportamento de
um setor da classe operária branca, ao mesmo tem-
po hiperdimensiona a importância e poder desse

83
82
A obra de Gilberto Freyre influenciou outra
Relações enire negros e brancos linha de indagação conduzida por aqueles que estu-
no Brasil daram as relações raciais no norte do Brasil, rural
e urbano, durante as décadas de 1940 e 1950,
Apesar da evidência contundente de uma forte as-
sociação entre cor e posição social, estes estudiosos,
impressionados pelas diferenças mais notáveis entre
os sistemas raciais do Brasil e dos Estados Unidos,
Voltando a atenção para o Brasil, podem ser desenfatizaram a discriminação racial e seus efeitos
identificadas três linhas de pesquisa que dizem res- na mobilidade social do negro. Algumas de suas pti-
peito às relações entre raça, classe e desigualdades meiras conclusões são: (a) existe preconceito no Bra-
sociais. A atual versão oficial das relações raciais sil, mas é mais preconceito de classe do que de raça;
teve sua formulação acadêmica feita no início da (b) a forte consciência das diferenças de cor não
década de 1930 por Gilberto Freyre. Ao destacar as está relacionada à discriminação; (c) estereótipos e
contribuições positivas do africano e do ameríndio preconceitos negativos contra o negro são manifesta-
para a cultura brasileira, este autor subverteu as pre- dos mais verbalmente do que a nível do comporta-
missas racistas presentes no pensamento social do mento; e (d) outras características tais como rique-
fim do século XIX e início do presente século. Si- za, ocupação c educação são mais importantes que
multaneamente, Freyre criou a mais formidável a raça na determinação das formas de relacionamen-
arma ideológica contra o negro. A ênfase na floxi- to inter-pessoal, Em uma conclusão bastante incon-
bilidade cultural do colonizador portugiês e no sistente, onde coexistem mito, fato e desejo, €.
avançado grau de mistura racial da população do Wagley afirma:
país o levou a formular a noção de democracia ra-
cial. A consegiência implícita desta idéia é a ausên- Não existem sérias barreiras raciais ao avanço secial
cia de preconceito e discriminação raciais e, portan- e econômico; à medida que as oportunidades au-
to, a existência de iguais oportunidades econômicas mentam, maior número de pessoas deverá elevar-se
no sistema social. O grande contraste nas condições
[e sociais para negros c brancos. Neste ponto É inte-
sociais e econômicas entre os estratos baixos de cor
'resante notar que nos Estados Unidos os negros e mais escura e a classo alta predominantemente bran-
[outras minorias raciais são as exceções reconhecidas ca deverá desaparecer. Porém, há perigos no caminho
(à ideologia de igualdade de oportunidades, enquanto em direção a este ideal, Há indicações tanto nestes
ina sociedade brasileira, hierárquica e permeada por estudos como em informes provenientes dos grandes
'grandes desigualdades sociais, o idea! de igualdade centros metropolitanos do país de que discriminação,
ide oportunidade é predicado fundamentalmente no tensões e preconceitos baseados na raça estão apa-
recendoé
«terreno racial,

84 8
A terceira linha de pesquisa, que incorpora A obra de «Florestan Fernandes,)sem dúvida a
uma análise de classe da questão racial, foi desen- mais importante contribuição aos estudos contempo-
volyida nas décadas de 1950 e 1960 pela escola de râneos sobre as relações entre brancos e negros no
São Paulo, à qual se vinculam indissoluvelmente os Brasil, é a que analisa mais detalhadamente o pe-
nomes de Florestan Fernandes, Fernando Henrique ríodo pós-abolição. Seus estudos enfocam a integra-
Cardoso e Octávio lanni. Não obstante os traba- cão do negro no mercado de trabalho e na estrutura
lhos de Cardoso e lanni sobre escravidão apenas da sociedade de classes emergente. Na sua avaliação |
tratarem secundariamente a situação pós-abolição, as da situação social e econômica do negro nas décadas|
análises desses três autores compartem algumas stt- imediatamente posteriores ao fim do escravismo, a |
posições e chegam a certas conclusões comuns. Em discriminação racial e a preferência dos emprega-|
linhas gerais, o sistema de relações raciais é enfo- dores por trabalhadores brancos imigrantes apare- í
cado a partir da análise do processo de desagrega- cem junto com uma forte ênfase nas deficiências|
cão do sistema escravista de castas e da constituição culturais do ex-escravo — ausência de normas orga-|
de uma sociedade de classes. A situação social do nizadas de comportamento, desorganização social e[
negro depois da abolição é vista à luz da herança familiar. Por outro lado, preconceito e discriminação
do antigo regime. Preconceito e discriminação ra- raciais são vistos como requisitos do funcionamento
ciais, o despreparo cultural do ex-escravo para assu- do regime escravista, mas como sendo incompatíveis |
mir a condição de cidadania e de trabalhador livre com os fundamentos jurídicos, econômicos e sociais,
e a sua negação do trabalho como forma de afir- de uma sociedade de classes. A adoção de um modelo|
mação da posição de homem livre resultaram na normativo de revolução burguesa e de sistema social |
marginalização e desclassificação social do negro, competitivo leva a uma sobreestimação do potencial |
que sc estendeu por mais de uma geração. Indepen- democrático e igualitário da sociedade de classes em |
dentemente de sua adequação, este diagnóstico está formação. Isto, junto com a visão do preconceito e
relacionado basicamente à região sul do país, onde discriminação raciais como sobrevivências anacrô-
a grande maioria da população negra tinha saído da nicas do passado escravista .—. destinados portanto
condição servil nos anos finais do sistemaescravista. a desaparecer com o amadurecimento do capitalismo
O mesmo não poderia ser extrapolado para o testo «— levam de forma implícita a um, diagnóstico oti-
do país, particularmente o nordeste e Minas Gerais, mista sobre a integração do negro à sociedade de
onde a transição entre a condição de escravo e ho- classes. O reconhecimento de que o racismo à bra-
mem livre foi mais gradual e a maioria da população sileira pode ser mais do que um fenômeno transi-
negra já era livre antes da abolição, apesar de ter tório se encontra apenas em algumas passagens iso-
ficado imobilizada, antes e depois da abolição, por ladas onde se contempla a possibilidade de uma so»
um sistema semi-servil de relações de trabalho.

87
85
lidificação do paralelismo entre taça e posição na Racismo e desigualdades raciais
estrutura social, no Brasil
A despeito das diferenças no tratamento do
problema, a perspectiva assimilacionista está presen-
te nas três abordagens das relações raciais acima
destacadas. Num caso o papel da raça na geração
de desigualdades sociais é negado, noutro o precon-
ceito (racial) é reduzido a um fenômeno de classe e,
por último, a discriminação racial constitui um re- Emtrabalhos anteriores, o autor formulou uma
síduo cultural do já distante passado escravista. Ne- interpretação alternativa sobre a reprodução das de-
nhuma destas perspectivas considera seriamente a sigualdades raciais no Brasil e as relações entre taça,
possibilidade da coexistência entre racismo, indus- a estrutura de classes e mobilidade social* Do pon-
trialização e desenvolvimento capitalista, to de vista teórico, foi discutida a perspectiva se-
gundo a qual as relações raciais pós-abolição são vis-
tas como uma área residual de fenômenos sociais,
resultante de formas “arcaicas” de relações inter-
grupais formadas no passado escravista, Em oposição
a essa argumentação foi sugerido que: (a) precon-
ceito e discriminação raciais não se mantêm intactos
após a abolição, adquirindo novas funções e signifi-
cados dentro da nova estrutura social e (b) as prá-
ticas racistas do grupo racial dominante, longe de
serem meras sobrevivências do passado, estão rela
ciónadas aos benefícios materiais e simbólicos que
os brancos obtém da desqualificação competitiva do
grupo negro. Deste ponto de vista, não parece exis-
tir nenhuma lógica inerente ao desenvolvimento ca-
pitalista que Jeve a uma incompatibilidade entre
racismo é industrialização. À raça, como atributo so-
cial e historicamente elaborado, continua a funcio-
nar como um dos critérios mais importantes na dis-
tribuição de pessoas na hierarquia social, Em outras
palavras, a raça se relaciona fundamentalmente com
um dos aspectos da reprodução das classes sociais,

89
isto é, a distribuição dos indivíduos nas posições da
estrutura de classes e dimensões distributivas da es- plementadas no sudeste, cujo resultado foi a seg-
mentação regional do mercado de trabalho entre o
tratificação social.
fim do escravismo e a década de 1930.
No que se refere às desigualdades raciais con-
Com relação ao racismo, além dos efeitos das
temporâncas, a explicação que enfatiza o legado da
práticas discriminatórias, uma organização social
escravidão e o diferente ponto de partida de brancos
e negros no momento da abolição pode ser colocada racista também limita a motivação e o nível de as-
em questão, O poder explicativo da escravidão com
pirações do negro. Quando são considerados os me
canismos sociais que obstruem a mobilidade social
relação à posição social do negro diminui com o pas-
ascendente do negro, às ptáticas discriminatórias dos
sar do tempo, ou seja, quanto mais afastados esta-
brancos devem ser acrescentados os efeitos deriva-
mos no tempo do final do sistema escravista, menos ne-
dos da internalização pela maioria da poptlação
gra de uma auto-imagem desfavorável. Esta visão
se pede invocar a escravidão como uma causa da
tex-
atual subordinação social do negro. Inversamente, a
negativa do negro começa a ser transmitida nos
ênfase deve ser colocada nas relações estruturais € tos escolares e está presente numa estética
racista
no intercâmbio desigual entre brancos e negros no
veiculada permanentemente pelos meios de comu-
presente. nicação de massa, além de estar incorporada num
Dois fatores principais, ambos relacionados à res.
conjunto de estereótipos e representações popula
estrutura desigual de oportunidades de mobilidade Desta forma, as prátic as discri minató rias, a tendên -|
social depois da abolição, podem ser identificados cia a evitar situaç ões discri minató rias e a violên cia,
como os determinantes das desigualdades raciais simbólica exercida contra o negro reforçam-se
mu-l
contemporâneas no Brasil: a, desigual distribuição tuamente de maneira a regular as aspirações do ne-y
geográfica de brancos e negros e as práticas racistas gro de acordo com O que O grupo racial dominantel
do grupo racial dominante. , impõe & define como os “lugares apropriados” para,
Em relação ao primeiro aspecto, nota-se que um as pessoas de cor. !
número desproporcional de negros vive nas regiões Os dados da Pesqui sa Nacion al por Amost ra
predominantemente agrárias e menos desenvolvidas de Domicílios (PNAD) de 1976 permitem relacionar
do Brasil, onde as oportunidades econômicas e edu- a classificação de cor (brancos, pretos € pardos) com
cacionais são muito menores do que no sudeste, onde sócio-econômicas e traçar
algumas características
se concentra a parte majoritária da população bran- um perfil atualizado da estrutura de desigualdades
ca. Esta segregação geográfica dos dois grupos raciais raciais no Brasil.
foi inicialmente condicionada pelo funcionamento Como foi assinalado anteriormente, um dos de-
do sistema escravista e posteriormente reforçada pe- terminantes da apropriação desigual das oportunida-
las políticas de estímulo à imigração européia im- des econômicas e educacionais está relacionado com
0 9%
a segregação gecgráfica da população branca e não-
branca (esta última constituída por pretos e pardos, indústria de construção civil e prestação de serviços,
na denominação dos censos democráficos e da que englobam as ocupações menos qualificadas e
PNAD). A acentuada polarização geográfica dos dois pior remuneradas, Esses três setores absorviam 68%
grupos raciais está indicada pelo fato de quase dois dos não-brancos e 52% dos brancos economicamente
terços (64%) da população branca residir no Sudes- ativos. Inversamente, pretos e pardos estavam sub-
te (RJ, SP, PR, SC e R$), na região mais desenvol. representados nos setores de outras atividades, co-
mércio de mercadorias e indústria de transformação,
vida do país, enquanto uma proporção similar
cujas ocupações exigem maiores qualificações e são
(69%) de pretos e pardos concentra-se no resto do
melhor remuneradas.
país, principalmente nos Estados do Nordeste e Mi-
Por último, é lógico esperar que as desigualda-
nas Gerais. Um dos efeitos da distribuição geográ-
des existentes na distribuição regional, qualificação
fica dos grupos de cor entre regiões desigualmente
educacional e estrutura de emprego de brancos e
desenvolvidas aparece no local de residência desses
não-brancos determinem fortes disparidades na dis-
grupos, notando-se uma proporção mais elevada de
tribuição de renda. Entre as pessoas não-brancas
brancos residentes em áreas urbanas (63% de bran-
cos e 57% de não-brancos).
com rendimentos, 53,6% recebiam uma renda de
até um salário mítúimo. No caso do grupo preto essa
Outra dimensão das desigualdades raciais está proporção aumenta para 59,4% enquanto somente
constituída pelo acesso ao sistema educacional e às 23,2% dos brancos situavam-se nessa faixa de ren-
oportunidades de escolarização, Considerando-se as dimentos, No extremo oposto da distribuição, 23,7%
pessoas de cinco anos ou mais de idade na data de de brancos e 14,5% de não-brancos obtinham mais
referência, a proporção de analfabetos entre os não- de 2 a 5 salários mínimes, por sua vez 16,4% dos
brancos (40%) é quase o dobro da dos brancos brancos e 4,2% de não-brancos tinham rendimentos
(22%). O grau de desigualdade educacional experi- superiores a 5 salários mínimos.
mentado por pretos e pardos aumenta rapidamente
Foi sugerido anteriormente que as causas das
quendo são considerados os níveis mais altos de ins-
desigualdades raciais não só devem ser procuradas
trução. O grupo branco têm uma oportunidade 1,55
no passado, mas que elas também operam no pre-
vezes maior que os não-brancos de completar entre
sente, Isso leva a confrentar duas interpretações que
5e 8 anos de estudo e uma oportunidade 3,5 vezes
podem ser assim formuladas:. (1) segundo a noção
maior de cursar 9 ou mais ancs de estudo.
de “democracia racial” o negro usufrui hoje as mes-
Levando-se em conta 2 participação dos dois gru-
mas oportunidades que o branco e sua posição sccial
pos raciais na força de trabalho, segundo setores de
inferior é devida ao ponto de partida desigual no
atividade econômica, constata-se uma concentração
momento da abolição, e (2) a subordinação social
desproporcional de não-brancos nos setores agrícolas, do negro é devida ao diferente ponto de partida e à
52
93
persistência de oportunidades desiguais de ascensão Entre os filhos de trabalhadores rurais que ex-
social, À forma de dirimir as dúvidas consiste em perimentaram mobilidade ascendente, o principal
estudar o processo de mobilidade social dos dois ponto de destino são as ocupações manuais urbanas.
grupos raciais e assim determinar a existência ou não Os brancos nascidos neste grupo têm uma pequena
de oportunidades desiguais. vantagem sobre os não-brancos: não só a herança de
Os dados da Tabela 1 oferecem uma visão glo- status é menorentre os brancos (45,8%) do que en-
bal dos fluxos de mobilidade social entre gerações, tre os não-brancos, mas também só 9,6% de não-
segundo grupos de cor. brancos em comparação com 16,3% de brancos
atravessavam a linha manual/não-manual.
Tabela 1
As diferenças inter-raciais de mobilidade pas-
Mobilidade da Ocupação dos Pais até q Ocupação dos sam a ser maiores ao considerar-se pessoas nasci-
Entrevistados, segundo Grupos Raciais das nos estratos ocupacionais mais elevados. Entre
os nascidos no estrato manual, não só os não-brancos
brancos permanecem em maior proporção no mesmo estrato,
Ocup. do Não como também 39% de brancos e só 23,5% de não-
Pai Alta Manual Manual Rural brancos ascende aos dois estratos mais altos, Entre
as pessoas nascidas no estrato não-manual, 21,4%
Alta 47,0 283 226 24 100,0 de brancos e só 12,5% de não-brancos ascendem ao
Não manual 214 39,3 31,0 83 100.0 estrato mais alto. Por último, entre os nascidos no
Manual 14,8 24,2 57,2 3.8 100,0 estrato ocupacional alto, os brancos apresentam um
Rural 41 12,2 319 458 109,0 auto-recrutamento (47%) muito mais alto do que os
não-brancos. Um detalhe adicional reside no fato de
Não-Brancos que os não-brancos estão expostos a probabilidades
Ocup. do Não muito mais elevadas de mobilidade social descenden-
Pai Alta Manual. Manual Rural te, ou seja, perder as posições conquistadas na ge-
ração anterior, como é notório no caso dos nascidos
Alta 24,2 28,9 45,6 1,3 1000 nos estratos não-manuale alto.
Não manual 125 330 4 134 100,0 Em suma, levando em conta a ocupação do pai
Manual 72 16,3 68,7 78 1000 dos entrevistados, os brasileiros não-brancos têm
Rural 20 76 37,9 525 100,0 menores possibilidades de mobilidade social ascen-
dente do que os brancos. Ás diferenças inter-taciais
Obs.: Dados da PNAD 1976, relativos a homens de 20 a nas oportunidades de mobilidade ascendente aumen-
64 anos de idade, tam quanto mais elevado o status de origem familiar.

94 95
cumulativo de desvantagens que afeta sua mobilida-
Engranto os brasileiros braricos nascidos nas posi- de social, Noutras palavras, o negro enfrenta uma
ções sociais mais elevadas se beneficiam em grau estrutura de oportunidades sociais diferente e mais
maior de herança de status, o pequeno grupo de desfavorável que a do branen. ,
não-brancos nascidos em famílias de posição social
elevada estão muito mais expostos a perder essas
posições.
Ao considerar as fases do processo de trans-
missão de status, os dados da mesma pesquisa"?
também indicam que: (a) os não-brancos obtêm con-
sistentemente menos educação que cs brancos da
mesma origem social; (b) considerando pessoas com
o mesmo nível educacional, os não-brancos tendem a
concentrar-se em níveis ocupacionais mais baixes do
que os brancos; (c) considerando também pessoas
com a mesma educação, os não-brancos obtêm con-
sistentemente uma remuneração menor que es bran-
cos. Os retornos à educação, tanto em termos de
ocupação como de tenda, mostram um acentuado di-
ferencial em favor do grupo branco.
A pesquisa de Valle Silva atingiu resultados se-
melhantes.”” No seu modelo de consecução de status
social este autor aplicou as equações estruttrais dos
brasileiros não-brancos aos brancos. Controlando
todas as variáveis do ciclo de vida, encontrou
que 40% da diferença na educação atingida não é
explicada; 20% da diferença nos pontos da escala
ccupacional não é explicada; e que 50% da dife-
rença de renda permanece inexplicada. Estas dife-
renças não explicadas devem ser interpretadas como
consequências do racismo e das práticas discrimina-
tórias sofridas pelo grupo não-branco, Estas evidên-
cias empíricas recentes indicam claramente que a
população negra no Brasil está exposta a um ciclo
97
96
Conclusão maiores as dificuldades para manter as posições já
conquistadas, o o
Dada essa situação de fato, parece muito pou-
co provável que o ideal da igualdade racial seja atin-
gido através de um mecanismo calcado no mercado,
isto é, o processo de mobilidade social individual.

Transcorridos mais de noventa anos desde a


abolição do escravismo, a população negra brasilei-
ra continua concentrada nos degraus inferiores da
hierarquia social, Em contraste com a população
branca, parte majoritária da população negra loca-
liza-se nas regiões menos desenvolvidas do país. Seu
acesso 80 sistema educacional é restringido, parti-
cularmente nos níveis de instrução mais elevados.
A participação do negro no sistema produtivo
está caracterizada pela concentração desproporcional
nos setores de atividade que absorvem mão-de-obra
menos qualificada e pior remunerada. Por sua vez,
os fatos mencionados determinam uma participação
altamente desigual de brancos e negros na distri-
buição de renda e na esfera do consumo do produto
social,
Esse perfil de desigualdades raciais não é um
simples legado do passado; ele é perpetuado pela
estrutura desigual de oportunidades sociais a que
brancos e negros estão exposios no presente, Os
negros sofrem uma desvantagem competitiva em to-
das as etapas do processo de mobilidade social indi-
vidual. Suas possibilidades de escapar às limitações.
de uma posição social baixa são menores que a dos
brancos da mesma origem social, assim como são

98 59
NOTAS O -Boggs, James, Racism and the Class Struggle, Nova
lorque: Modern Reades, 1970, p. 28.
MN Gennóvese, Eugene D., In Red and Black, Nova Torque:
Vintage, 1972, pp. 57-58.
2º Bonacich, Edna “A Theory of Ethnic Antagonism: The
Split Labor Market”, American Sociological Review, vol.
57, nº 5, 1972, :
33 idem, idem.
1 Robert E. Park, “The Nature of Race Relations”, in “M Willhem, Sidney, “Can Maixism Explain America's Ra-
E. T, Thompson (ed.), Race Relations and the Race Problem, cism?”, Sociul Problems, vol. 28, nº 2, 1980, p. 104.
Durham, N. C.: Duke University Press, 1959. no
B Pierson, Donald, Negrocs in Brasil: A Study of Race
2 Os trabalhos mais representativos da escola assimilacio- Contact in Bahia, Chicago: The University of Chicago Press,
nísta são Handlin, Oscar, The Newcomers: Negroes end 1942 e Wagley, Charles (org) Race and Class in Rural
Puerto Ricans in a Changing Metropolis, Cambridge: Harv-
ard University Press, 1959; Glazer, Nathan e Danield P. Brazil, Nova Iorque: Columbia University Press, 1963, Uma
Moynihan, Beyond the Melting Pot, Cambridge: The M. LT. conceitualização semelhante encontra-se em Thales de Aze-
Press, 1963 e Gordon, Milton M,, Assimilat ion in American vedo, As Elites de Cor, Um Estudo de Ascensão Social, São
e, Nova Iorque: Oxford University Press, 1964, . Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955.
3 1964 Economic Report of the President, Washington, 16 Wagley, Charles, “From Caste to Class in North Brazil”,
D.C.: Government Printing Ofice, 1964, pp. 69-70. . em Comparativo Perspectives in Race Relations, Melvin
4 Expos'ções da teoria do colonialismo interno aplicadas Tumin (org), Boston: Little, Brown & Co., 1967, p. 60.
às minorias raciais podem set encontradas em Carmichael, 7 Fernandes, Florestan, A Integração do Negro na Socie-
Stokely e Charles V. Hamilton, Black Power, the politics of dede de Classes, São Paulo: Dominus, 1965 e O Negro no
1967
Hiberation in America, Nova Iorque: Random House, Mundo dos Brancos, São Paulo: Difusão Européia do Livro,
Racial Oppressi on in America, Nova
e Robert Blauner, 1972; Cardoso, Fernando Henrique, Capitalismo e Escravi-
Torque: Harper & Row, 1972. . dão no Brasil Meridional, São Paulo: Difusão Européia do
6 Estas críticas são elaboradas de maneira contundente por Livro, 1962 e Tanni, Octávio, As Metamorioses do Escravo,
Oliver C. Cox em Caste, Class and Race (1948), Nova lor- São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962.
que: Modern Reader, 1970, cap. 19. E Carlos A. Hasenbalg, Desigualdades Raciais no Brasil,
7 Ibid, p. 333. DADOS, nº 14, 1977, Discriminação e Desigualdades Ra-
.
8 Jbid., p. 476. ciais no Brasil, Rio de Janeiro: Graal, 1979 e Race and
a a daciante desta interpretação, bascada em análise Socioeconomic Inequalities in Brazil, trabalho apresentado
empírica de dados recentes, admite que o sistema de desi- no Simpósio sobre Classe e Raça no Brasil, Center for Afro-
gualdades raciais aumenta a desigualdade econômica entre American Studies, Universidade da Califórnia, Los Angeles,
a população branca através dos benefícios que pera para 1980, Para uma análise dos efeitos da discriminação racial
os capitalistas e uma fração de trabalhadores brancos me- nos diferenciais de mobilidade social entre brancos e negros,
lhor remunerada. Ver Michael Reich, Racial Inequality, ver Nelson do Valle Silva, “Cor e o Processo de Realização
Princston, N. [.: Princeton University Press, 1981,

t00 401
Sócio-Econômica”, sobre a divisão racial do trabalho no
N.
Brasil ver Lúcia Helena G. de Oliveira, Teresa Cristina
Arntjo Costa e Rosa Maria Porcaro, “O “Lugar do Negro
na Força de Trabalho”, trabalhos apresentados no IV Em
contro dg Associução Nacional de Pós-Graduação e Pes
guisa em Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 1980.
E Hasenbalg, Carlos, op. cit. “Rece and Sacioeconomis
Inegualities in Brazil”.
» Silva, Nelson do Valle, op. cit. “Cor e o Processo de O NEGRO NA PUBLICIDADE*
Realização Sócio-Econômica”.

Carics A, Hasenbalg

* Comunicação apresentada À 33º Reunião Anual da So-


ciedade ae
ad Brasileira p para o Pro gresso da da Ciência,
Ciênci Salvador,

* Agradeço as valiosas sugestões de Lélia Gonzalez, Cesar


Guimarães e Wanderley Guilherme dos Santos.

102
No registro que o Brasil tem de si mesmo o
negro tende à condição de invisibilidade. Alguns
exemplos servem para ilustrar as manifestações sin-
tomáticas desta tendência: o lugar irrisório que a
historiografia destina à experiência e contribuição
do negro na formação desta sociedade; a queima
dos documentos relativos. ao tráfico de escravos &
ao regime escravista; a retirada do quesito sobre a
cor da população nos censos demográficos de 1900,
1920 e 1970, e a negação obstinada de discutir a
existência de qualquer problema de índole racial,
O intento de fazer do negro um ser invisível
não deveria chamar a atenção em uma cultura que,
proclamando-se racialmente democrática, está per-
meada pelo ideal obsessivo do embranquecimento.
Basta lembrar os fatos pertinentes. Enquanto milha-
res de trabalhadores chineses chegavam a Cuba,
Peru e à costa ceste dos Estados Unidos, o Brasil
era O único país das Américas que, tendo passado
pela experiência do escravismo, nos anos posterio-
res à abolição utilizou fartos recursos públicos pata
subsidiar. a imigração européia e assim evitar a
“mongrelização” do país. Depois do episódio da
imigração japonesa, o decreto-lei n.º 7969 de 1945
destinava-se a garantir à “composição étnica da po-
pulação as características mais convenientes da sua

+05
ascendência européia”. Entretanto, o resultado de- definido por Lélia Gonzalez: “As imagens mais po]
mográfico do ideal de embranquecimento, através sitivas vistas das pessoas negras são aquelas que
do processo de miscigenação, foi a redução gradual representam os papéis sociais atribuídos pelo siste- ,
do segmento propriamente negro da população e o ma: cantor e/ou compositor popular, jogador de |
reforçamento da propalada “meta-raça” mestiça. futebol e 'mulata'. Em todas estas imagens há um |
Esta “tirada de cena” do negro pode ser vista como elemento em comum: a pessoa negra é um objeto de)
uma forma de resolver a tensão entre os sentimen- divertimento” *
tos de superioridade branca e a culpa de infringir de
os ditames da mitologia racial vigente. A tipificação cultural do negro nos polos
lifica do e “entertainer” remete ,
trabalhador desqua
Por sta vez, o escamoteamento do registro his- por sua vez, a outro elemen to em comum , conden -
tórico é a invisibilidade do negro relacionam-se com sado em atributos do corpo: vigor e resistência físi-
o processo de construção de sua identidade. Apesar ris-
ca, ritmo e sexualidáde. Ao negar outras caracte
dos intentos em sentido contrário, a identidade do
negro está basicamente definida pelo branco, Neste ficas, aestercoúpia nega o negto que não encaixa
ponto é necessário distinguir duas identidades. A nesses dois polos: o operário qualificado, o empre-
etc.
primeira, de caráter público)e oficial, deriva das gado de escritório, o bancário, o universitário
dade pú-
concepções formuladas por Gilberto Freyre na dé- As noções de invisibilidade e de identi
cada de 1930, Neste caso a identidade do negro está blica eprivada. imposta pelo branco “providenciaasm
r
balizada pelos parâmetros de uma democracia ra- os elementos conceituais mínimos. para analisa
na public idade, Na
cial; o negro é um brasileiro como qualquer outro imagens do negro apresentadas.
idade opera segund o & linha
e, como tal, não está sujeito a preconceitos e discri- medida em que a public
minações. A segunda identidade corresponde ao pla- de menor resistência e que sus função é vender
e não |
no(privado e incorpora duas dimensões. Uma delas, produtos ao maior número possível de pessoas
ela
a nível mais consciente e deliberado, traduz aquilo mudar estereótipos, a expectativa inicial é que
que, à boca pequena e em conversa entre brancos, tende a reproduzir as manifestações de racism o pre-|
constitui o repertório de ditados populates carrega- sentes na cultura. Dentre às diferentes modali
dades,
dos de imagens negativas sobre o negro. À outra, de publicidade, optou-se pela observação
daquel a
em plano mais inconsciente, corresponde à estereoti- veiculada pela televisão e um conjunto de revista s.
ipação dos papéis e lugares do negro. Nesta dimensão A observação resultou no registro de 117 anúnci
os
o negro é representado ora como trabalhador braçal, pelos três canais comer-
publicitários transmitidos
jnão qualificado, ora como aquele que ascendeu so- anúncios
rcialmente pelos canais de mobilidade considerados ciais da televisão do Rio de Janeiro e 87
publicados em sete revistas selecio nadas.”
- legítimos para o negro. Este último grupo é assim
to?
106
A primeira constatação derivada desse conjunto negro, executando tarefas no convés de proa de um
de anúncios relacicna-se diretamente à invisibilida- navio de guerra, À mensagem transmitida nesta ta-
de do negro e à auto-imagem embranquecida do refa de equipe apela para a defesa da pátria, tarefa
Brasil. Segundo a estimativa mais atualizada, pro- de todo brasileiro, independentemente da cor. A se-
veniente da PNAD de 1976, a população do país gunda propaganda do governo consiste em uma
contava com 41% de pretos e pardos. No mundo campanha de alistamento nas Forças Armadas. Ela
da publicidade a realidade é outra. Em um total de mostra um jovem negro navegando em canoa um
203 anúncios publicitários de revistas e televisão o rio, dirigindo-se à cidade mais próxima para apre-
negro está presente em apenas nove, sendo que em sentar-se no posto de alistamento. O anúncio insi-
três deles aparece em propagandas do governo, de nua a presença do negro que, no cumprimento de
caráter não comercial. Desta acentuada despropor- um dever cívico, transita confiante e de maneira
ção pode-se derivar a conclusão de que no raciocínio desimpedida pelo mundo dos brancos, neste caso
do publicitário o negro quase que inexiste como con- representado pelo funcionário da junta de alista-
sumidor. À limitada capacidade aquisitiva da popu- mento. A última propaganda governamental é uma
lação negra poderia dar conta da ausência de ape- campanha de vacinação contra o sarampo e mostra
los publicitários ao negro como consumidor poten- um grupo de crianças pobres, brancas e negras, que
cial de carros de luxo, banheiras com hidro-massa- constituem a população alvo da campanha. Além de
gem é sofisticados equipamentos de som. Não obstan- mostrar à preocupação do governa com a saúde da
tc isso, o leque de produtos anunciados inclui uma população, particularmente das camadas mais ca-
variedade de bens e serviços de consumo popular rentes, uma das mensagens implícitas reside na ine-
difundido. Na lógica subjacente à publicidade a per- xistência de divisões raciais no seio do povo. Estas
gunta possivelmente é: se anunciando para brancos três aparições do negro na publicidade filiam-se a
o negro também compra, por que arriscar-se a “de- sua identidade oficial. Os anúncios estão isentos de
negrir” a imagem do produto?! implicações racistas. Como cidadão brasileiro, no
. Constatada a invisibilidade do negro na publi- desempenho de suas obrigações cívicas, o negro apa-
cidade, o próximo passo consiste em determinar rece junto ao branco em situações de igualdade.
como e em que circunstâncias cle faz suas raras Considerando o exíguo 3% de atúncios publi-
aparições, Como as aparições são raras, elas permi- citários de caráter comercial em que o negro aparece
tem um exame caso a caso, começando com as pro- de alguma forma, serão analisados primeiros aque-
pagandas governamentais na televisão. les mostrados na televisão. A propaganda mais neu-
A primeira delas é uma campanha de recruta- tra do ponto de vista de suas implicações raciais É
mento de marinheiros para a Armada e mostra um a de um supermercado que atualmente expande sua
grupo de marinheiros de várias cores, de branco a rede de pontos de comercialização da zona sul para

108 109
a zona norte do Rio de Janeiro. Nela aparece uma na com outro grupo branco bebendo. Este é o único
multidão de pessoas em um espaço aberto, que vai anúncio que, possivelmente pela popularidade do
se juntando lentamente até formar uma massa com- produto, estabelece uma associação entre O negro
pacta. O grupo dá uma visão do corpo de funcioná- o produto, ainda que esta associação esteja diluída
rios da empresa e na segiiência final são destacados pela presença majoritária de pessoas brancas.
em close os rostos de várias pessoas brancas e ne- Deslocando a atenção para a publicidade das
gras. Apesar da ausência de implicações raciais, este revistas, ingressa-se no âmbito de produtos mais so-
anúncio evidencia um procedimento publicitário fisticados, onde se eleva rapidamente a proporção
onde existe uma assimetria no tratamento dado a de modelos publicitários brancos do mais puro tipo
brancos e negros. Trata-se de evitar a associação di- nórdico.
reta entre o negro e, produtos específicos, particular- Neste caso, a publicidade em que a estercotipação
mente de uso pessoal, A tínica exceção desta do negro aparece de forma mais evidente anuncia
associação direta que vem à memória é a da empre- uma linha de veículo de transporte. À composição
gada doméstica negra que, autorizada pelos seus inclui as fotografias de quatro veículos, Em três de-
longos anos de experiência na cozinha, pode afirmar las aparecem seus donos, brancos e um casal japonês,
que a marca x faz o cafezinho mais gostoso ou O junto a produtos hortigranjeitos à serem iranspoi-
detergente y lava melhor a louça. O anúncio seguinte tados, insinuando tratar-se de pequenos e médios
corresponde a uma rede de lojas que disputa a fatia agricultores. A quarta fotografia mostra um cami-
mais popular do mercado de eletrodomésticos. A nhão de mudanças junto ao motorista branco e a um
sequência inicial mostra um casal negro cantando e carregador negro, este último apresentado na ima-
dançando ao ritmo de um samba, segue enfocando gem mais contundente de trabalhador braçal desqua-
outro casal branco e termina mostrando um grupo lificado.
de pessoas de várias cores. Novamente, inexiste uma
associação entre o negro e produtos específicos. Por A segunda publicidade, de uma empresa de
outro lado, apesar da propaganda fazer um apanhado produtos metalúrgicos, está baseada na fotografia de
de pessoas comuns em situações de rua, a coreogra- um homem negro mestre-sala e uma porta-bandeira
fia do casal negro entoando um samba faz com que mestiça apresentando-se frente às arquibancadas. O
ele se aproxime da categoria de “enteriainer”, A anúncio sugere o contraste entre dois Brasis. Um, o
última propaganda televisiva é a de uma marca de Brasil de sempre, “tropical e abençoado”, represen-
cerveja (n.º 39). Dentro de um botequim e em um tado por negros desfilando numa escola de samba,
clima festivo, com samba como música de fundo, Outro, pela rigidez e eficiência das arquibancadas
ela mostra um grupo de jovens brancos bebendo de aço, de onde se vê o desfile. Este último é o Bra-
chopp, segue enfocando um homem negro e termi- sil novo, de mudança e progresso. Assim, temos
um contraponto entre a idéia de desenvolvimento,

10 111
positivamente conotada, e seu negativo “abençoa- c) A publicidade reproduz os estereótipos cul-
do”: o mero folclore, representado por negros. Além turais sobre o negro, assim contribuindo para deli-
do mais, o anúncio é uma instância de apropriação ar, no plano ideológico, “seus lugares apropria-
de produtos culturais do negro, apresentados como dos”. Estes lugares essotam-se na polaridade traba-
tipicamente brasileiros, na sua versão mais folclo- mo desqualificado/“entertainer”, “objeto de com
rizada e mercantilizada. sumo”,
A última publicidade, de um banco estadual Estas constatações sugerem a comparação com
de desenvolvimento, mostra uma fotografia de sete uma sociedade que, tida como racista, serviu como
homens negros puxando uma rede de pesca para exemplo negativo para constituir o mito da demo-
fora d'água, À evocação mais simples e direta é a cracia racial brasileira. Nos Estados Unidos o negro,
do trabalho rude, força e vigor físico, verdadeira minoria numérica, conquistou um lugar
Projetando a probabilidade desta amostra, se- irreversível e não estereotipado no âmbito da publi-
ria necessário observar aproximadamente três mil cidades — essa invenção típica e característica do
anúncios para registrar umas cem aparições publici- país do norte. Sem dúvida, esse lugar deriva das
térias do negro. Os poucos casos observados para profundas transformações culturais e políticas no
este trabalho impedem formular afirmações defini- sistema de relações raciais e do fato do negro ame-
tivas, mas permitem detectar tendências e chegar a ricano ter definido sua própria identidade, impondo
algumas conclusões preliminares: a mesma ao resto da sociedade,
a) À publicidade não é alheia à dinâmica sim- Na ausência de transformações semelhantes, o
bólica que rege as relações raciais no Brasil, Por negro brasileiro, exposto ininterruptamente às ima-
ação e omissão, ela é instrumento eficaz de perpe- gens de um mundo branco dominante, ficará confi-
jo de umaestética branca carregada de implica- nado às alternativas de uma auto-imagem negativa
ções racistas. Nela o negro aparece subrepresentado ou a adoção de um ideal deego branco nos seus
e diminuído como consumidor e como segmento da intentos de ascensão social.*
população do país, relorçando-se assim a tendência
a fazer dele um ser invisível, “retizado de cena”.
b) Nas suas escassas incursões na publicidade,
o negro tende a aparecer dissociado de produtos es-
pecíficos, o que sugere a estratégia publicitária. de
evitar a “contaminação” da imagem desses produtos.
Além do mais, suas aparições tendem a ficar diluí-
das e amenizadas pela presença conjunta de repre-
sentantes do grupo racialménie dominante.
1%

itz
COLEÇÃO

PONTOS

LUGAR DE NEGRO € o terceiro volume da Coleção


2 Pontos cujos livros trazem opiniões de dois ou mais au-
tores sobre um mesmo tema.
1 Lélia Gonzalez, “Racism and its Effects in Brazilian So- Ao publicar mais de um autor escrevendo sobre um
ciety”, trabalho apresentado na Women's Conference on mesmo problema, queremos colocar a possibilidade de se
Human Rights and Mission, World Council of Churches, abordar de modo diferente cada questão, as ênfases distin-
Genebra, julho de 1979, p. 4. tas, a discussão,
Os temas serão sempre polêmicos e atunis refletindo as
questões que, de uma ou outra maneira, fazem parte do
2 Foram registradas unicamente publicidades que apresen nosso dia a dia.
tavam figuras humanas no conteúdo do anúncio. No caso
da televisão, as propagandas repetidas foram contadas uma Livres já publicados:
vez só na enumeração total. Cada um dos canais comerciais
de televisão do Rio de Janeiro (4, 7 e 11) foram observados e Vida de Mulher — de Maria Quartim de Mo-
durante uma noite, em dia de semana, no horário de 19:00 raes e Maria Mendes da Silva;
às 23:00 hs. Revistas examinadas no mês de abril: Fatos e
o Os Índios vão à luta — de Márcio Souza,
Fotos 27-4-81; Playboy; Status; Manchete 25-4-81; Veja
15481; Isto É 154-81 e Cláudia.
José Ribamar Bessa, Mário Juruna, Me-
garon, Marcos Terena.
3 A ausência do negro não deve levar a pensar que o ideal
de beleza transmitido pela publicidade reflete as caracterfs- Próximos lançamentos da Coleção 2 Pontos:
ticas físicas externas típicas do branco brasileiro, Particular- e A Violência Urbana — de Técio Lins e Silva
mente no caso das revistas, destinadas « um público mais e Carlos Alberio Luppi;
restrito que o da televisão, o número de modelos brancas,
louras e de olhos azuis leva a pensar mais em publicações Homeopatia e Alopatia -— de Luiz Carlos Bet-
oriundas da Suécia do que do Brasil. tareilo e Orlando Orlandi;
Reforma Agrária — de Maria Yedda Linha-
4 Sobre a adoção de um ideal de ego branco pelo negro res e Moacir Palmeira;
em mobilidade ascendente, ver Neusa Santos Souza, Tornar- Saúde Popular e Saúde de Elite — de Carlos
se Negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Bra-
Gentilo de Mello e Douglas Carrara;
sileiro em Ascensão Social, tese de mestrado apresentada ao
Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de A publicidade — de Roberto Duailibi e Heitor
Janeiro, 1980, silva.

115
114
composim 6 impresso pon
EDITORA GRÁFICA LUNALTDA.
Aus Bargo da São Fállx, 128
Tal: 2-2 Rio Ad
“LUGAR DE NEGRO

a RAS
| Lélia Gonzalez
Carlos Hasenbalg )

EaTES
onde o ai racial ativo dos brancos dominantes
se disfarça detrás do mito da democracia racial,

LUGAR DE NEGRO

ForToRREe TCS pa Toi Ae A LR DSO


Létia Gonzalez — militante do Movimento Negro —
mostra 05 avanços da consciência negra entre os negros
brasileiros, e Carlos Hasenbalg — sociólogo e pesquisador
do problema do negro no [Te
desmonta as utilizações “boazinhas” dos negros
pelo mundo dos brancos.

LUGAR DE NEGRO
traça um panorama sucinto
de um dos problemas sociais mais candentes de nosso pais,
onde o problema étnico está, desde o começo,
ligado à questão das classes e do destino político
de nossa nação.

o
Um lançamento da

o] oo: als een Acto NDA |


EDITORA MARCO ZERO LTDA.