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A reunião
Sheba
Os heróis
Ver para crer
A Montanha
A floresta
Sonhos
Corpo e alma
Seguindo em frente
Noite imortal
A cilada
O de alma mais valente
A resposta

.

Ela era a habitante mais velha da aldeia e um dia foi a maior dentre todos os seus guerreiros.Lann disse. O pequeno lago onde os bukshas bebiam. cheia de vida. . A roda do moinho estava imóvel.Annad sussurrou para seu irmão. Se o córrego não se encher. que só tinha 5 anos. . Depois de cinco dias. e por cada uma das outras . que era o guardião dos bukshas. Annad . do outro lado da aldeia. o lago estava tão raso que até a pequena Annad. nem no terceiro. a água do lago estava densa e marrom. No quarto dia. . eles vão morrer. como todos os outros. e o lago se mantivesse coberto até a borda. Na tarde do sexto dia. . conseguia tocar o fundo sem molhar a manga de sua blusa.Eles precisam de água mais doce. o povoado de Rin acordou e descobriu que o córrego que descia pela Montanha e atravessava a aldeia havia se reduzido a um pequeno filete de água. Não a Estrela . permanecia parado. . firme.Se não agirmos rápido. Eles só podem beber a água que vem da Montanha. senão ficam doentes. Annad começou a chorar bem baixinho. Não havia água para girar suas pesadas pás de madeira.A Estrela não vai morrer.Rowan explicou. Os bukshas não conseguiram beber nada hoje . Em uma manhã. Não havia lágrimas em seus olhos. mas Annad era muito pequena e amava Estrela. Os bukshas não podem beber a água do nosso poço. Os bukshas balançaram suas pesadas cabeças e bateram as patas contra o chão quando foram beber água de manhã e ao entardecer. As crianças de Rin não deveriam chorar. mas seu peito e sua garganta doíam cheios de tristeza e medo. Sempre foi assim. E a água continuava a não aparecer. Nada mudou no segundo dia. Nenhum fluxo de água chegava até ele para que sua superfície borbulhasse. . Rowan olhava em frente. a mais forte e ao mesmo tempo a mais gentil de todos. Ao anoitecer. até aquele fio de água tinha sumido. o povo bastante preocupado reuniu-se na praça do mercado para discutir o assunto. A tristeza era por Estrela. a Estrela vai morrer. Rowan? Você vai dar para ela um pouco de água do nosso poço. vai. sua amiga buksha.

A vida de todo o povoado de Rin dependia dos bukshas.O córrego vem da Montanha . era por ele mesmo. Então eles desceram a colina e se misturaram com os enormes. por Annad. Não haveria mais ajuda para arar os campos ou carregar a colheita. pela mãe deles e até mesmo por toda a aldeia. carregando nas costas as poucas coisas que possuíam. o garoto costumava imaginar como os colonos deveriam ter visto aquele lugar pela primeira vez. cobertas de lã. a carpinteira. Annad não conseguia imaginar o vale sem a aldeia. abrigado entre uma montanha altíssima ao fundo e as colinas onde eles estavam. porém gentis. Eles avistaram um córrego. principalmente. do outro lado do oceano. Ele a . Eles ficaram ali. a aldeia também morreria. O medo. bem longe da costa. . eles chegaram ao topo de um morro e olharam para baixo. Por ele. que eram mansos e não se assustavam com a presença daquelas pessoas. no entanto.a voz alta de Bronden. mas Rowan sim: sem os bukshas. Timon dando aulas sob a árvore e. em uma tarde. Quando Rowan lia histórias antigas na biblioteca ou quando ouvia. Viram árvores carregadas com pequenas frutinhas azuis e campos de flores que não conheciam. Aquele era o lugar perfeito. que ele conhecia pelo nome. no meio do continente. já meio adormecido. Seria o lar desse povo. interrompeu os pensamentos de Rowan. admirando a paisagem sem dizer uma palavra. uma terra rica e paz. Ali. um lago e um rebanho de estranhas criaturas cinza levantando suas cabeças com chifres que brilhavam ao sol para ver quem se aproximava. não haveria mais o cremoso leite para se tomar. Annad não sabia. eles tinham subido pelas colinas. Não haveria mais a grossa lã cinza para fazer as roupas. O povo nômade do litoral. nem queijo e nem manteiga para se comer. animais. Não haveria mais costas largas para transportar as cargas de grandes viagens até o litoral para trocar mercadorias com o inteligente e tranqüilo povo de Maris. havia um vale escondido. tinha mencionado um lugar ao pé de uma montanha proibida. Os colonos caminharam por muitos e muitos dias procurando esse lugar. eles encontraram silêncio. tranqüilidade. após lutarem contra um terrível inimigo.enormes criaturas corcundas. Sem eles. ao contrário de seu irmão. Eles tinham vindo de muito longe. Eles foram chamados de bukshas. coberto de vegetação. conhecido como os viajantes. Centenas de anos atrás. quando se sentava na grama ao lado do córrego enquanto os bukshas pastavam no silêncio da manhã. procurando um local nessa terra estranha que pudessem tomar para si. Alguns até já tinham perdido as esperanças. Ali. Então. Eles estavam exaustos.

observou cortar o ar com seu dedo grosso. O Dragão é só uma história que contamos para as crianças se comportarem. nós já o teríamos visto. . . Se existisse mesmo um dragão. Até os viajantes não se arriscam a ir lá. no topo.Não! . tem o Dragão. . e o nosso povo.Não podemos subir a Montanha. Há perigos terríveis esperando quem se atrever a subir. com o topo escondido pelas nuvens. E. Bronden zombou dele: -Você está parecendo um viajante louco.. Ele viria caçar os bukshas. - Então o problema deve ser lá.É a nossa única chance. . Neel! Não tem dragão nenhum. .Temos que subir a Montanha para descobrir o que é - Bronden continuou. Todos os olhos se voltaram para a altíssima montanha.. o oleiro. Tem alguma coisa errada lá em cima. balançou a cabeça. Alguma coisa está impedindo a água de descer.Neel. como sempre.. apontando ao longe.. lá em cima.

Depois disso.a voz calma e agradável de Allun. .Ouvimos o seu rugido quase todas as manhãs e todas as noites.Estou me lembrando agora. Os bukshas se agitavam e ficavam bastante inquietos nesses momentos. Rowan ouvia o som do Dragão. -Talvez ele vá caçar em outro lugar. Bronden girou os olhos com desprezo.. -No passado.ela ergueu a cabeça . ele se deu conta de algo. ele se levantou. O povoado o encarou curioso. Ele se esforçou para falar bem alto. falou no meio da multidão que cochichava.Já! . ao que parecia. algumas pessoas escalaram a Montanha em busca de novas frutas para plantar em nosso pomar. Quando cuidava dos bukshas nas frias e escuras manhãs de inverno e nas tardes em que o sol se escondia atrás da Montanha. fungavam e se agrupavam com medo. . mas Rowan estremeceu. Algo cm que ninguém tinha pensado antes. .. .A Montanha é muito íngreme.seu rosto sempre sorridente estava sério quando ele encarou Bronden. Nervoso. Não conseguimos subir. Ele precisava falar. E vemos o seu fogo nas nuvens. Ele também já tinha visto o fogo. teria a dizer? -O Dragão não rugiu mais desde que o córrego secou – Rowan disse. ele sentia suas veias pulando sob a sua fofa e espessa camada de lã. .Será que alguém já tentou? . . .Neel insistiu temeroso.Nem de manhã. . ele está certo . no céu acima das nuvens. De repente. Até Estrela soltava um gemido ao ouvir o Dragão rugir e.Bronden confirmou devagar. O que Rowan. Não sabemos nada sobre isso. Então o garoto se jogou de volta em seu lugar.Perdoe-me por parecer um viajante louco. Mas elas nunca voltaram. Os filhotes berravam. .. lembrando que o meu pai era um deles e que não se poderia esperar outra coisa de mim. nem à noite. faz dias que não vem nenhum som da Montanha . muito perigosa. mas sua voz parecia pequena no meio daquele grande silêncio.Então estou certa.confirmou Marlie. quando Rowan a acariciava no pescoço para acalmá-la.Sim. a alta e imponente tecelã e tintureira. -É mesmo? .. Tem alguma coisa errada lá em cima.Allun passou os olhos pelo povo. e os mais velhos baliam as patas contra o chão.Allun questionou.O garoto tem razão? . o padeiro.Mas não podemos fazer isso . o povo de Rin entendeu o aviso e deixou a Montanha em paz. . Já disse o que temos que fazer. o pequeno e tímido guardião dos bukshas. mas outras coisas nós sabemos . Na verdade. Bronden .

Rowan olhou em volta. .Marlie pediu.Está vendo? Se subirmos a Montanha.A Bronden tem razão.disse Jonn Forte. . As duas opções são arriscadas. ouvindo em silêncio.Não podemos simplesmente ficar aqui esperando a morte atacar aos poucos a nossa aldeia. .Espere! .Allun acrescentou.Marlie opinou.Está vendo só? . vamos morrer. ela estava ao lado de Ellis. se não subirmos a Montanha.Bronden gritou triunfante. o professor.Não devemos ir sem antes pedir a . . também vamos morrer.Bronden retrucou -. O que decidimos? Vamos ou ficamos? . Bree e Hanna. tinha se esforçado para ficar de pé. que tinha ficado debaixo da sombra. dizia que desde a infância ninguém nunca tinha visto os dois separados. que fazia deliciosos doces e bolos aos quais nunca conseguia resistir. Então Rowan viu Jiller se levantar lentamente e se unir a eles. . vendo ao seu redor os rostos familiares. Somente Neel e outras quatro pessoas permaneceram sentadas.E eu .Neel se zangou. . ele esticou as pernas trêmulas e ficou de pé ao lado da mãe.Vamos nos preparar e partimos ao amanhecer. seu irmão gêmeo.Então.Eu também . Até mesmo o rechonchudo e gentil Solla. a chefe do moinho.gritou a forte Vai. agora sérios e firmes.Mas. .Temos que ir .Ou ficamos aqui e torcemos para que o córrego se encha de novo sozinho.Sim! Nós concordamos! . os moradores da aldeia se levantaram.Eu também voto a favor . os jardineiros. . -Sim! -Sim! -Sim! Um por um. Como sempre. Também estavam de pé Timon.Jonn Forte disse. . . A já grisalha Lann se apoiava em sua bengala ao lado deles.Bronden gritou. Jiller. está decidido . Neel . ou subimos a Montanha e tentamos tirar do caminho o que estiver impedindo a água de descer. que cuidava da biblioteca. Com o coração batendo cheio de medo. . a mãe de Rowan. estava de pé. . Maise. o responsável pelo pomar. . Temos que nos decidir . . triturando os grãos até virarem farinha e sempre limpando a enorme construção de pedra. Sou a favor de irmos. ao lado de seu casal de filhos. para que nenhuma partícula de poeira nem o menor fiozinho de teia de aranha pudesse ser visto nas paredes. Val e Ellis faziam um trabalho pesado no moinho.

Não podemos perder nenhuma chance de pegarmos o caminho certo. a Grande Sábia. . .Estamos indo em direção ao desconhecido . Ela entende da Montanha como você e eu nunca conseguiremos entender.opinião da Sheba. Ela praticamente não conversava com ninguém.Bronden criticou. A Sheba entende de outras coisas além de ervas e feitiços. .Então vocês dois podem ir lá implorar para ela fazer um favor para nós já que parecem tão dispostos . . A Grande Sábia que veio antes dela a ensinou o caminho secreto. como toda a sua raça.A Sheba é velha. . Devemos pedir para ela nos ajudar.Jonn Forte concordou. Por que você não. Bronden. Se ela não puder. quando ela dizia algo.Isso aqui não é brincadeira.? . A Sheba sabe o caminho até a Montanha. arreganhando os dentes. Quem aqui é o que mais conhece a Sheba? .Marlie disse.Sejam rápidos. Muitos não confiavam em Sheba. ótimo. . . por favor! Que mal pode fazer? .A tolice dos viajantes! . E.Qualquer um que tenha sido curado de alguma doença com os remédios dela pode confirmar isso para você.a idosa Lann gritou..Jonn Forte afirmou.Bronden se intrometeu e virou as costas para eles.Ela vive apanhando uma erva que cresce debaixo das árvores de balango lá no pomar.Allun disse. . Allun. As pessoas começaram a murmurar. óleos e tintas que elaborava com o que colhia. Ela morava sozinha em uma cabana depois do pomar.Marlie disse em tom firme. raramente era agradável. .É uma boa idéia .Allun disse. As crianças de Rin eram uma turminha corajosa.ela disse com firmeza.E o tempo é precioso. .ele riu . não perdemos nada.Se a velha puder nos dizer uma coisinha que seja. .. . cultivando ervas medicinais e outras plantas e vendendo os remédios.Ah.Pego tintas roxas e azuis em troca de tecido. Temos muito o que planejar . que franziu a testa. só com os que negociava.Eu a conheço um pouco .Esperamos aqui até vocês voltarem . mas não é louca .Eu sempre negocio com ela . o que eu duvido. Mas elas tinham medo de Sheba e não a chamavam de Grande Sábia. . Ela é como a Bronden: não é mulher que .Aquela bruxa velha e louca? Aquela curandeira de dores no estômago que faz as crianças terem pesadelos? O que ela tem a ver com isso? . . Ela encarou Bronden. mas de bruxa.e tomem cuidado para não a insultarem.Já chega! . .

O dedo de Jonn apontava para ele! . Pelo menos uma vez! Rowan cruzou pelo meio do povo a passos largos.Faça o que pedem para você. . Ellis concordou com um gemido. Rowan ficou de olhos arregalados e boca aberta.. sem se mover. lá na cabana da Sheba. Rowan .Ele nunca vai ser o homem que o pai dele foi. . mais firmes. Rowan deu um pulo. Ele tinha pavor de Sheba.Eu vou .Esse garoto tem medo da própria sombra. . A mãe dele o cutucou.Jiller pediu com um sussurro.ele ouviu Val cochichar para o irmão quando passou por eles. Alguns risos soaram no meio da multidão. Então ele apontou alguém. . Dos mais velhos. . observando os habitantes que assistiam à discussão. A Sheba adora um queijo bem firme.Eu não tenho medo. . ao lado dele. com as bochechas queimando de vergonha. O humor dela vai melhorar com o presente. . guardião dos bukshas! Corra e pegue dois queijos na casa de frios.goste de gracinhas. Jonn Forte olhou em volta.Vá com ela.a pequena Annad se ofereceu. Rowan continuou às pressas..Jonn Forte chamou. .Coelhinho. . Leve-os para nós. na prateleira de cima.Menino Rowan .

que estava no quarto do andar de cima. o enorme casal de irmãos do moinho. Enquanto desviava dos galhos torcidos e dependurados. mesmo com o calor e a fumaça intensos o suficiente para afastar todos os outros. à medida que fossem consumidos. eles ouviram um barulho e viram o teto cair e as chamas saltarem e zunirem. onde estariam seguras. Jonn Forte. seu pai. ao sair tarde do mercado. Então. Mas não por muito tempo se novos estoques não substituíssem os antigos. ele subiu a escada e retirou da prateleira dois dos queijos mais velhos. que ficava logo depois do pomar. ele pensava em Sefton. Rowan pensava no que Vai havia dito. Chamas atacavam a escada. Sefton encontrou sua casa cm chamas. Uma noite. Até Val e Ellis. Tremendo. atrás de Rowan. Havia mais que o suficiente para todos. Ele saiu da casa de frios e se dirigiu correndo à cabana de Sheba. já inconsciente. amigo de Sefton e reconhecido por sua força. Rowan ofegava quando chegou à casa de frios. ele chegou até as árvores de balango. ele jogou um cobertor sobre sua cabeça e entrou novamente na casa. Em seguida. e a pequena bebê de suas camas e as levou para fora. Então. berrando de pavor. Até Jonn Forte. embalando Rowan em . As pessoas puderam ver Sefton pela janela do quarto de Rowan. Um pedaço de lenha havia caído da fogueira e começado a queimar o piso do andar térreo. e a casa estava tomada de fumaça. enquanto as chamas aumentavam. Ele retirou Jiller. Sefton gritou por ajuda e em seguida pulou por cima da escada flamejante. com o filho nos braços. Ele podia ouvir o barulho da multidão ainda reunida na praça do mercado e ficou aliviado por não precisar passar por eles no caminho. logo após o nascimento de Annad. Tropeçando um pouco na grama desnivelada. Eles o observaram abrir a janela e o ouviram gritar. todo enrolado em uma manta. correram para agarrar o que ele atirava pela janela: seu filho. de barris com coalhada cremosa e de tigelas cheias de manteiga. cada vez mais quentes e mais altas. Enquanto ele se encaminhava para as margens do vilarejo. O local estava carregado de queijos. Disseram que ninguém conseguiu impedi-lo.

retirava os nós de seus pêlos e os espinhos que grudavam em sua lã. Para sempre. Uma criança bem mais nova que Rowan poderia fazer o trabalho. que havia passado a trabalhar ainda mais depois da morte de seu pai. além de muito tímido. A Guerra das Planícies ainda estava viva na memória do povo e registrada em dezenas de livros na biblioteca. desde a noite do incêndio. Desde bem cedo. Ele também sabia. E. Rowan havia crescido sabendo que seu pai tinha morrido para salvá-lo. como se soubessem de seus problemas. lavrando os campos de trigo com Estrela. o povoado se formava de fazendeiros e comerciantes. Eles o encaravam com seus doces olhos castanhos e acariciavam as mãos do garoto quando ele estava triste. Ele aprendia como curar suas doenças. Ele nunca seria o homem que o pai dele havia sido. Na geração deles.seus enormes braços. ele corria. muitos dos mais velhos haviam lutado para defender o vilarejo. e ele não suportaria perder nem um dos animais. "A Val está certa". Ele sempre foi pequeno para a sua idade.. houve um episódio ruim com uma guardiã dos bukshas. ele se esforçava para fazer a vida dos animais a mais confortável possível. O povoado de Rin tinha orgulho de sua história de coragem. Hoje. Em troca. A entrada da mina na qual ela havia caído quando tentava resgatar um filhote perdido tinha sido fechada havia muito tempo. plantando e colhendo. Quando a neve do inverno atingia o vale. mas todos descendiam de grandes guerreiros. Na primavera. E também não teria a força de sua mãe. quando o ar ficava carregado com a doçura das flores do pomar. todas as crianças da aldeia aprendiam a correr. Rowan havia treinado junto com os outros. Tomar conta das grandes e gentis criaturas não exigia força nos braços nem muita coragem. nadar. Os bukshas o adoravam e conheciam sua voz. ele levava os mais velhos e enfraquecidos para o abrigo. Rowan tinha ficado com a função de pastorear os bukshas porque era fácil.. saltar. anos atrás. ele passou a ser ainda mais calado e nervoso do que antes. mas nunca tinha sido bom cm nada. Somente uma vez. soltou um grito de aflição. brincando com os filhotes. Mas ele havia deixado seus familiares. Sefton tinha salvado sua família. fato que o garoto agradecia muito. embora ninguém nunca tivesse dito. levando as safras para o moinho. c lutar. e levava para eles um punhado de . quando Rin foi ameaçada. cuidando de seus machucados e arranhões da mesma forma que sua mãe cuidava dos dele. que muitas pessoas da aldeia de Rin sentiam que a troca não tinha sido justa. escalar. Mas permitiram que ele continuasse cuidando dos animais. ele pensou. pois sabia que o vento gelado poderia matá-los.

Entretanto. ou se um buksha ia parar perto da cabana de Sheba e ele tinha que ir até lá para pegá-lo. essas lesmas foram pessoas de verdade . no meio pomar. à noite. Seus passos diminuíram de velocidade quando viu uma luz trêmula vinda da cabana de Sheba.Um dia.ela soltou uma risada sarcástica. . Ele podia ouvir as criaturas no campo ali perto. Apesar do ar frio do entardecer. a brincadeira dos dois ressurgia em sua memória. Rowan se desviou da cerca que demarcava os limites do pomar. Adeusinho ao tio Arthal! Agora temos o tio Lesma. temores dos quais sentia vergonha. Rowan pensou em deixar os queijos no chão. . Eles apontaram para as lesmas que retiravam das folhas do repolho: .. E foi isso o que ela fez com ele.ervilhas que roubava dos jardins quando ninguém estava olhando. Quando Rowan estava no meio das sombras sobre a grama.Olhe só. Ele colocou um tomate podre dentro da bolsa que deu para a Bruxa em troca de um remédio para dor de estômago. Então ele se lembrava daquela lesma gorda e lerda com a mancha na testa e estremecia. além da Sheba! .O córrego vem do topo da Montanha. Sabia mesmo. Sabemos que é ele por causa da mancha na testa. Era Sheba. de cima das nuvens – ela dizia. meus bons amigos. na soleira da porta. . e sombras gigantes se agitavam e rastejavam na estranha grama pálida que crescia ao lado da cabana. E ninguém conhece o caminho secreto. até o topo. Eram Jonn Forte e Marlie. Dois dos filhos de Bree e Hanna uma vez tinham dito a Rowan que Sheba poderia transformar qualquer pessoa em uma lesma gorda se ela quisesse.. Rowan parou para escutar. quando ele deu um passo à frente. aguda. Ele recomeçou a tremer quando se aproximou. os queijos com um cheiro forte. na cabeça. Mas às vezes. Quer dar um beijo nele? Eles empurraram o bicho contorcido contra a boca de Rowan e saíram gargalhando atrás dele enquanto o garoto fugia correndo. Nos braços. mas baixa. chegaram até ele algumas vozes vindas de dentro da cabana. Um tomate podre em uma bolsa com 20. a porta estava aberta. tropeçando no próprio pé. e voltar correndo para casa. Rowan sabia que aquela história era provocação deles. Aquele ali é nosso tio Arthal. Ele desejou estar com os bukshas.Da terra e das pedras ela sai para vir até Rin. na cama. Então vocês devem escalar a Montanha.eles disseram. . um galho se partiu debaixo de sua bota. resmungando e fungando umas para as outras enquanto o sol começava a mergulhar atrás da Montanha. E outra voz. e não ali.

Sheba fez uma careta. Como é que eu vou saber se não estão me enganando? Tentando me empurrar coisas de má qualidade? .Jonn Forte fez uma reverência para ela. . deu-lhe um leve empurrão.Estão bons . levantando-se um pouco de sua cadeira.ela pediu . menino! Venha até aqui e deixe esses famosos queijos no meu colo.Como você disse que estariam. . .O próprio Rowan os escolheu lá na prateleira de cima da casa de frios. corajosa Marlie! . E se ele tivesse feito uma má escolha? E se os queijos afinal não fossem bons? E se Sheba achasse que ele estava tentando enganá-la? A velha levantou o olhar: . Ele os forçou para a frente. A velha sentada ao lado da fogueira cheirou o ar e estalou os lábios com um tom de gula.Obviamente . Rowan hesitou. que estava ao lado dele. Mas Sheba já tinha perdido o interesse por ele.ela anunciou.É o que você diz .Os queijos! . Marlie. a roupa velha e ervas amargas. Ela curvou os ombros e encarou Rowan. . e seus cabelos caíam como finas trancas cinza ao redor de seu rosto. Rowan abraçou a si mesmo e estremeceu enquanto se protegia daqueles terríveis olhos vermelhos ao se esconder atrás da alta Marlie. Então franziu a testa e espremeu os olhos . Ele colocou seu braço atrás das costas de Rowan e o forçou para dentro da cabana.Agora. Nosso presente para você.Sheba soltou uma risada desagradável.Eu disse mais perto. Rowan foi até a cadeira. prendendo o fôlego e tentando não olhar para ela. Sheba . Ela cheirava a cinzas e poeira. Sheba – ele disse cordialmente. Seus pés pareciam ser de pedra. vai nos dizer o que queremos saber? . . Ela apanhou alguns gravetos de uma cesta ao lado dela e os .Ah. seus olhos pareciam vermelhos. . À luz da fogueira.O que você está escondendo? . . colocou os queijos redondos sobre o colo dela e recuou bem devagar.O garoto com os queijos. estava preso um trapo roxo. .mais perto.São os melhores que temos.Marlie começou com firmeza -.Traga-os aqui . Sheba . um passo por vez.Finalmente! .Sheba perguntou em tom ríspido. Ela cutucava os queijos amarelos com seus dedos ossudos.ela olhou com satisfação. Você vai gostar. . cheirando cuidadosamente cada um dos dois. . . menino.Em troca por sua explicação do caminho.a cabeça de Jonn Forte apareceu na porta. Sobre sua testa. Jonn do Pomar.Marlie disse.

rápida como o bote de uma cobra.Se o garoto é o único com medo aqui. Não faria mal nenhum ser guiado por ele! ..a velha gracejou.Pare com suas historinhas.ela mostrou para ele os compridos dentes marrons em um sorriso sinistro. Houve um instante de silêncio.ela zombou. Mas a Montanha não vai deixar você escapar. Jonn do Pomar . ela jogou um graveto na direção de Marlie.Você vem até aqui para me pedir um favor. . .Corajosa enquanto faz seus tecidos. Sheba começou a arreganhar os dentes.Não precisamos de seus avisos. E ele escolheu queijos excelentes para você! Você deveria pedir desculpas a ele. protetor das árvores! Um homem distinto.ela disse em um tom firme. ... Rowan estava congelado de terror.Então. você quase matou o menino de susto. que gritou e pulou para o lado assustada. chorando pela mamãe quando a Sheba passava por perto? . ria.. Você vai se contorcer e berrar como um bebê no berço quando estiver na Montanha. mas seus olhos tinham um brilho vermelho vivo.Novamente ela se inclinou para a cesta ao lado. .ele disse. Olhe só. . como vão descobrir. quase pelado.Sheba gargalhou. Mas você continuará corajosa na Montanha? A Montanha domina muito bem mulheres corajosas como Marlie. então ele é o único de vocês que está com a razão. devo pedir desculpas a ele .Elas não impressionam. nem a Marlie. Sheba .E. Mas o que você foi um dia senão um menininho esfarrapado. as chamas aumentavam. nem a mim. esse pobre coelhinho magricela.A Montanha não irá testar sua força. Jonn. Então. . Da mesma forma como destruiu a força de homens duas vezes mais corajosos que você. e fica sonhando que todos a reconheçam por isso. Jonn Brasa riu. A Montanha tem muitas. jogou na fogueira. Você não pode achar que somos tolos o suficiente para seguir o exemplo dele. que são tolas o suficiente para tentar usar sua força contra ela. ignorando Marlie. Sheba . alto! . . Ela irá destruí-la. Rowan percebeu Marlie ficar tensa e viu suas bochechas começarem a flamejar: . À medida que os gravetos pegavam fogo. Então ele colocou as mãos no quadril e se dirigiu com seriedade à velha: . na segurança de sua casa. realmente. O pequeno Rowan é o único que pode temê-las aqui. muitas formas de dominar vocês. As sombras dançavam no rosto de Sheba quando ela se voltou para os outros: .E Jonn! Jonn Brasa. .

ela disse com clareza: "Sete corações seguirão pelas temíveis trilhas.Não posso lhes dizer mais nada. .Agora vão .Mas. Suas mãos acariciaram os queijos em seu colo como se fossem um par de gatos. finalmente. Por um instante. Ele agarrou o graveto com as mãos e viu sangue começando a pingar de uma ferida em sua testa. estou farta! Não agüento mais essa infantilidade de vocês. Então. Encare as presas do medo de que não gosta e veja clara e certa a resposta. As lembranças de casa deverá jogar fora Para terminar sua busca e ir embora.Sheba. então talvez seja hora de encerrar esse encontro. Só continuará o de alma mais valente quando o sono for a morte e a esperança estiver ausente. Ela se recostou em sua cadeira e fechou parcialmente os olhos. . de qualquer forma. Talvez mudem de idéia mais tarde. O caminho que devemos seguir - Marlie enfatizou.Não? Bem. o que eu posso.Jonn Forte esbravejou.E eu lhe peço minhas desculpas. vocês verão. sua expressão se carregou e ela impaciente acenou com a mão para eles.deixando que o pedaço de madeira em chamas atingisse diretamente Rowan. Esperem. Vou dizer o que vocês querem saber. Ela olhou Rowan. Depois. Marlie e Rowan com um olhar vazio. . Ela começou a sussurrar e murmurar coisas para ela mesma. A fogueira ardia. Sheba. . O garoto cambaleou para trás e quase caiu. ninguém conseguia entender suas palavras.Fui? .Sheba disse tranqüila.Um presente da Sheba . Pelo menos. Por um tempo. Jonn Brasa soltou uma exclamação de raiva e deu um passo à frente com os punhos cerrados. Rowan dos Bukshas.É só um arranhão . você foi longe demais! .Você não nos disse nada! . De sete formas cairão nas armadilhas. .Não até que você nos diga o que viemos aqui para ouvir - Marlie intimou. cansada e rabugenta.E rápido! Precisamos cuidar da testa do menino.ela pediu. escondido nas sombras. .Bem. . Ela não parecia mais uma bruxa. Só uma senhora velha. .a velha rosnou. . . ." As pálpebras de Sheba tremeram e ela abriu os olhos.ela perguntou. . Os lábios dela se curvaram: . ela encarou Jonn.Mas e o caminho. como se estivesse imaginando por que eles estavam ali. .

." Ele se viu repetindo os versos cm um murmúrio. menino Rowan .Jonn Forte disse com um tom de nojo. "Sete corações seguirão pelas temíveis trilhas. Eles aguardaram.. Fui pega de surpresa. .Dormindo ou fingindo . Os outros já esperaram demais por nós.E com Rowan sangrando..Rowan sussurrou. Rowan sabia que ela se preocupava com o falo de ele ser tão nervoso c frágil. e não se incomodar com pouco.Seja como for. Jiller simplesmente sorriu e encolheu os ombros. Todas as crianças de vez cm quando tinham que passar por coisas desse tipo. A estranha canção que ela havia sussurrado parecia ter sido gravada a fogo cm sua mente. ela começou a roncar. nunca poderei me perdoar por ter deixado que o graveto atingisse você. . "Só continuará o de alma mais valente.Jiller . quando o sono for a morte e a esperança estiver ausente. Logo você vai estar em casa com sua mãe ele trocou olhares com Marlie. Rowan.E o que ela vai me dizer por levá-lo de volta para casa nesse estado.Olhe lá.. acompanhando o ritmo ao bater na perna o graveto que ainda segurava.. Rowan sabia que as palavras que sua mãe dirigia para Jonn Forte e Marlie eram lambem para ele.ele acrescentou a meia voz. .Agora me deixem em paz. como um digno habitante de Rin. Depois de observar o corte na testa do filho.. Ela disse que não era nada sério e que poderia cuidar daquilo mais tarde em casa. Devemos voltar. . Aqueles avisos horríveis que ela havia dado giravam como um redemoinho na cabeça do garoto. estava se sentindo tonto c fraco. . não conseguiremos nada mais aqui. O queixo de Sheba se afundou cm seu peito e ela ficou em silencio. .. mas não sabia dizer se era por causa do corte em sua testa ou simplesmente pelo terror que havia sentido na cabana de Sheba. De sete formas cairão nas armadilhas.Jonn Forte foi inflexível. ele tinha ouvido sua mãe comentar sobre isso com Jonn Forte ao lado da casa deles. . A culpa foi minha.Ela está dormindo . . as luzes da aldeia.Aquele demônio velho queria mesmo era que o Rowan sofresse . . Ele não conseguia esquecer.Jonn Forte disse apreensivo. Eles saíram da cabana e se apressaram em direção à aldeia. acompanhando o ritmo acelerado dos dois pelo pomar.Tire isso da cabeça. mas ela não ergueu a cabeça novamente.E vamos voltar de mãos vazias .Marlie lamentou. . Ela estava lembrando ao filho que ele deveria ser corajoso.Ela estava me punindo por ter rido dela e pedido que ela se desculpasse com ele.. Rowan. Depois de um tempo. ." . Um ou dois meses atrás.

Val o encarou com um olhar frio.disse que tentava ter paciência.Deixa para lá . Quem vai? .Agora dois dos nossos melhores queijos estão lá naquelas patas imundas e nós não sabemos nada a mais do que antes." .Eu disse que a Sheba era perda de tempo! .. Ela não compreendia o filho e desejava que o pai deles estivesse vivo.Bronden gritou. da sua coragem nem do seu direito. acompanharemos vocês na Montanha. .. Val e Ellis estavam conversando bem baixinho.Eu vou . Todos sabiam que Vai e Ellis não gostavam que ninguém fizesse piadinhas por causa de sua mania por limpeza e organização. Rowan saiu meio escondido. Bronden. Val levantou sua voz rouca: -Até que o moinho volte a funcionar. do pai e até da pequena Annad. em direção ao quarto que agora dividia com Annad. era bastante complicado. Ela irá destruí-la.ela disse. ali não haveria consolo nenhum.ele gaguejou. ali estava ele. não temos nenhum trabalho a fazer . De repente.Por que não? . . Entretanto. em pé ao lado de sua mãe. com os olhos sobre Bronden. Agora precisamos tomar outra decisão. embora quisesse se jogar nos braços da mãe e pedir. tonto e com os olhos ardendo.Bronden protestou um pouco satisfeita e um pouco irritada. para o andar de cima. Ele ficou deitado em sua cama por um bom tempo. às pressas. enquanto outros moradores de Rin se entreolharam admirados. encolhendo os ombros. Agora.Eu também . .Jonn Forte questionou. Ela encarou o resto do povo como se estivesse intimidando alguém que ousasse se opor a ela. Jonn. Os dedos de sua mãe pressionaram o braço de Rowan. . consolo. Rowan achou que seu coração tinha sido espremido por uma mão de gelo. Só vergonha. . Ele não disse nada.Vocês poderiam dar uma limpada na casa para variar – Allun provocou. . chorando. Não podemos todos subir a Montanha. sem pensar cm nada.Allun disse. Melhor isso do que ficarmos parados esperando...Então.Ninguém duvida da sua vontade. Às vezes. - Decidimos que iríamos tentar e tentamos. mas Rowan era muito diferente dela.Não! .Marlie disse firme. . Ele se lembrou das palavras de Sheba: "A Montanha não irá testar sua força. Da mesma forma que suponho que ninguém duvide dos meus. . somente prestando atenção à dor triste que deixava seu peito carregado. Também vou. . que sempre se demonstrava tão valente.

Concordo. . a mãe dele. Vocês precisam de mais alguém. Talvez o perigo mais terrível de todos os que já encaramos. embora tudo .Um perigo terrível já está nos ameaçando. mas por lágrimas que não queriam cair. um cantor risonho e de olhos castanhos que chegou ao vilarejo em um outono acompanhado de seu grupo de viajantes. enquanto estamos aqui. como um pobre padeiro vai se ocupar durante esses dias? . . como vamos sobreviver? E se os zebakianos invadirem Rin mais uma vez? Ou se algum perigo terrível nos ameaçar? . alguns de nós têm que fazer uma jornada em direção ao desconhecido.Allun viu Bronden começar a abrir a boca para se opor. Outra: consigo lidar muito bem com uma fogueira em um acampamento. Bronden. ainda acho que o grupo está muito pequeno. a Marlie.Você pode trabalhar no meu jardim. Foi quando ela se apaixonou pelo homem que se tornaria o pai de Allun.Isso é loucura . Somente Rowan e Allun perceberam que suas mãos apertavam seu avental. ela tinha se deixado levar por eles. incapaz de se manter em silêncio por mais um segundo. cujo poder temia. Para proteger a aldeia dele. Ela já tinha vivido tempo suficiente para ouvir as velhas histórias sobre a Montanha. Tenho também um ótimo repertório de músicas e piadas. Rowan já tinha ouvido sobre isso muitas vezes. esses loucos. brincou. se a Vai e o Ellis. o Ellis. torcendo o pano branco. os mais fortes de todos nós indo para o desconhecido! . e que seus olhos piscavam não por causa do riso. Neel . Allun . graças ao sangue viajante do meu pai. É exatamente por isso que os mais fortes são os que devem ir . Allun deu um passo à frente: . Somente uma vez. não estiverem aí no moinho para fazer farinha.se eles não voltarem. Além disso. o Jonn.Agora. muitos anos atrás. sei que não sou um filho legítimo de Rin e que posso não ser tão forte quanto vocês. . os moleiros.ele se dirigiu para a multidão . Eu entro para o grupo para que tenhamos um número par e possamos nos dividir melhor .Sara.ela se virou para Jonn. As pessoas em volta soltaram um riso coletivo. Sara sabia esconder seus sentimentos. Allun era seu único filho.. Mas também não sou fraco.Isso não é brincadeira! A Bronden. como uma verdadeira filha de Rin. Uma: sei manter o sangue frio. a Vai.reclamou Neel. o oleiro. A velha senhora sorriu.ah..a velha Lann disse.Mesmo assim. E tenho também outras. . Entretanto. então se apressou em continuar . Acredito que domino todas as habilidades necessárias para a jornada.

Mas ela se manteve decidida e. andava cambaleante atrás da mãe. a vida de viajante não tinha mais sentido para ela. as amplas planícies. já que o garoto . Mas a batalha havia sido muito longa e custado a vida de muitos corajosos guerreiros. Sem seu amor. cutucões e cochichos dos colegas. Debaixo da árvore que servia de escola ao ar livre. Foi nessa época que começou a Guerra das Planícies. Allun erguia a cabeça e sorria dos olhares. os povoados de Rin e de Maris e os viajantes foram forçados a se unir para lutar contra os invasores que vinham do mar: seus antigos inimigos. a amável professora da aldeia. que durou cinco anos. fora da escola. Sara voltou ao vilarejo com seu pequeno filho. com suas grandes bochechas. iria sair de Rin para se casar com um viajante sem rumo. Alguns balançaram as cabeças e disseram que aquele sorriso não iria durar. muito diferente das altas e fortes crianças de Rin. Rowan sempre pensava que Allun talvez fosse a única pessoa no vilarejo que entendesse como ele se sentia. A história já fazia parte da tradição do vilarejo e era ouvida sempre que uma tribo de viajantes acampava nas proximidades. os zebakianos. Jiller. Val. Sara então decidiu ficar novamente com seu povo. junto com Bronden. Uma dessas vidas era a do marido de Sara. O povo de Rin viu Sara alguns anos depois de sua saída.tivesse acontecido vários anos antes de ele nascer. A maioria das pessoas ficou horrorizada e tentou de tudo para que ela mudasse de idéia. ela os acompanhou. No entanto. Rowan ficava imaginando como deveria ter sido chocante a notícia de que Sara. embora não nos motivos que fariam Sara parar de sorrir. E eles estavam certos. as florestas e as trilhas sinuosas que pareciam não ter fim. Mas. Assim como seus ancestrais fizeram antes deles. ele se esforçava para se parecer ao máximo com os outros. com olhos escuros e cabelos encaracolados. quando os viajantes continuaram seu caminho. Outra vez. para Allun. lar eram as barracas coloridas dos viajantes. deixando para trás a paz e a segurança de seu antigo lar para vagar pelo mundo com o homem que amava e sua tribo. Logo ele aprendeu que sua força não poderia se comparar à deles e que sua sabedoria era sua melhor arma. Ellis e outras crianças da mesma idade que eles na época. cujo rosto se enchia de felicidade para todos verem. o cheiro das fogueiras queimando durante a noite. O pequeno Allun. quando sua mãe e seu pai ainda eram crianças. Depois disso. os três povos finalmente conseguiram expulsar os zebakianos. em seu antigo lar. quando os viajantes passaram por acaso ali outra vez. Magro e pequeno. Allun era a cópia de seu pai.

E agora Allun iria subir a Montanha. Pensou em Estrela.Jonn disse às pressas. Jiller tinha limpado o corte na testa de Rowan. minha mãe . Rowan se lembrou da expressão sarcástica de Sheba. certamente não gostando nada do sexto membro. .também era fraco. Allun iria sumir junto com os outros para dentro do labirinto secreto de penhascos e florestas que se estendia sobre eles. Rowan ainda permaneceu acordado em sua cama. cansada com tantos transtornos. mas. então vá! O meu vestido de luto vai sair do armário mais uma vez . Ele fez tudo o que pôde para transformar esses pensamentos em coisas boas. Outra vez. quando ele visitava sua casa com Marlie e Jonn Forte. ele costumava brincar com Rowan. . Mas muitos. -Agora .Ah. mas a Montanha aparecia como uma mancha negra no céu. todos devem ter uma boa noite de sono até antes do amanhecer. Não que Allun tivesse dito algo sobre isso. Tentaria mais uma vez provar que era um habitante digno de Rin. mas incapaz de pensar em uma boa razão para negar a participação dele.Obrigado. sorrindo e batendo as mãos em desespero enquanto seus olhos ainda brilhavam com lágrimas contidas. As palavras debochadas do aviso de Sheba ainda o atormentavam. bem! Se você quer ir. pois se sentia bastante constrangido com demonstrações públicas de afeto .a velha Sara disse. Então. mas todos perceberam claramente seu amor e admiração. Um padeiro engraçado e sempre bem à vontade. Jonn e Marlie pareciam satisfeitos. porque algo seria feito para resolver o problema que tinha surgido de forma tão inesperada e acabado com a tranqüilidade de suas vidas. Alguns se agitaram e até sentiram inveja da idéia da grande aventura que esperava pelos escolhidos. mas sua cabeça ainda doía. Bronden encarou Vai e Ellis e girou os olhos. foram para suas camas naquela noite com os corações apertados. diferente dos outros. pois os líderes e os heróis do povoado sairiam para uma busca perigosa pelo bem de toda a comunidade. Alguns se sentiram aliviados. vendo pela janela a enorme imensidão da Montanha. no novo filhote que logo .Allun disse. Mesmo depois de Annad finalmente ter adormecido. demonstrava interesse no que o menino estava fazendo e até inventava desculpas para os seus erros. Os habitantes se desejaram boa-noite e aos poucos foram se encaminhando para suas casas. A luz do luar estava forte.sugiro irmos para casa e começarmos a preparação para a jornada. como Neel. E talvez nunca voltassem. De acordo? Os outros balançaram as cabeças. obscura e cheia de mistério. Seu tom de voz era suave.

no gosto do suco gelado e azul dos balangos. Mas. E nas lembranças de sua mãe da época em que ele era bebê.nasceria. Ele estava de volta à cabana de Sheba. mas ela não tinha língua: o interior de sua boca era amarelo e macio como um pedaço de queijo. cheio de pesadelos. Uma Jiller mais gentil. mais feliz.Se você é o único com medo. . Por fim. de onde saíam água e limo. mas agora as quatro paredes eram feitas de pedra. até que tudo que ele pudesse ver fosse o rosto dela e tudo que ele pudesse sentir fosse o hálito dela queimando contra suas bochechas. cada vez mais perto. coelhinho magricela. . E Sheba era enorme. quando ele estava quase caindo no sono. mas os dois não se mexeram quando a bruxa se inclinou na direção dele. as tranças cinza e oleosas penduradas como grossas cordas ao redor de seu rosto sorridente e de seus olhos vermelhos e penetrantes. Então ela abriu a boca para soltar uma enorme gargalhada. que cantava para ele. com um nariz longo e pontudo. mas teve um sono leve.Sheba gemeu. Jonn Forte e sua mãe estavam ali com ele. você é o único que está com a razão . os outros pensamentos sombrios se arrastavam outra vez para sua mente e o deixavam com medo de fechar os olhos. ele acabou adormecendo.

Então. Era dura e afiada o suficiente. mesmo assim. para que o papel não se enrolasse outra vez. na verdade. . a camisa de seu pijama estava toda suada. a saliência foi para a frente. com um caminho marcado em . Ela não iria acordar e ele poderia olhar mais de perto essa coisa estranha que segurava nas mãos. Era um bom graveto: reto e grosso. Então o calombo se mexeu! Sob o dedo de Rowan. Fazia muito frio. Rowan apanhou o graveto e ficou passando os dedos nele. Debaixo das roupas estava o graveto que Sheba havia atirado contra ele. Ele precisava saber o que eram. Mas a idéia de voltar a dormir deixava Rowan em pânico. que ainda dormia. ele podia ver que o pergaminho não estava em branco. Havia figuras. Era um pergaminho muito bem enrolado. Pelo menos ela não estava tendo sonhos ruins. trêmulo e molhado de suor. Rowan passou a ponta do polegar contra a saliência e achou que possivelmente era essa a parte que tinha cortado sua testa. com a boca um pouco aberta e uma mão em volta da sua fofa miniatura de buksha. Ele a puxou fascinado. não era um graveto. E o graveto começou a se descascar! O garoto ofegava enquanto a superfície lisa debaixo de seu dedo se transformava em uma folha bem fina. cada vez mais. Ele a retirou e rapidamente começou a puxar as roupas usadas durante o dia. Então ele percebeu que o "graveto". que havia empilhado no chão quando se trocou para ir dormir. Rowan passou os olhos por Annad. Ele o tinha carregado até sua casa. Rowan acordou ofegante. com cuidado. O sonho parecia ter levado horas. mas talvez. Ele não fazia idéia de que horas eram. e ela foi se desenrolando. sem pensar. de uma ponta a outra. Ele jogou as cobertas de lado e pulou da cama. só tivesse durado alguns segundos. se não fosse por um pequeno calombo pontudo no meio. Era um mapa da Montanha. ele colocou a lamparina ao lado e observou o desenho. e levado até o quarto. colocou os seus sapatos e os da irmã. Mesmo sem luz. e correu para acender a lamparina. O ar gelado da noite soprava na janela e. linhas e palavras. Estendeu o pergaminho sobre o chão de madeira e. A pequena saliência no centro era o que o mantinha fechado. nas pontas. tão liso que parecia ter sido polido. Annad dormia tranqüilamente.

Eu tive um sonho e. Rowan achou ter visto os lábios da mãe tremerem. sabendo o tempo todo que Rowan carregava exatamente o que eles precisavam. . . devemos sair logo - ela disse. Calçou os sapatos e ficou em pé.E agora. . .Se quisermos nos despedir do grupo da Montanha com o resto da aldeia.Bronden mandou. Talvez Jonn Forte também tivesse achado o mesmo. Assim como ele..ele se corrigiu tão alto que Annad se mexeu e começou a acordar sozinha.. e o capuz de seu casaco caía sobre os ombros.Eu não consigo acreditar! . Jiller estava toda vestida. com os pensamentos a mil.Eu... . . Rowan . Sabendo que eles poderiam nunca descobrir o que ela lhes havia dado.. Ela tinha fingido decepcioná-los. ignorando as exclamações da multidão. Rowan usou o termo infantil sem pensar.e foi em direção à cama da garotinha.Rowan! O que está fazendo? Ele se virou para encontrar os olhos surpresos da mãe. Ele viu o rosto da mãe se enrugar e a ouviu inspirar rapidamente.Ah.. . .Ele está com o mapa da Montanha . Ao lado da porta. ..por um instante. rápido! Mostre para nós! .Esses pesadelos! O que faço com você. . Sheba havia enganado a todos. . já estava calma outra vez.. . pois ele a encarava com um olhar admirado. . . batendo as bolas duras contra o chão gelado. ela o encarava boquiaberta. Vou acordá-la . Quando as abaixou.Mamãe.Mãe . As bochechas dela estavam rosadas de tanta agitação.Jiller repeliu para Jonn Forte. Ele piscou os olhos..Mãe.Jiller suspirou irritada. no meio do quarto.Eles vão partir ao amanhecer.engasgado. nervosa. como se fosse sair. eu estou com o mapa. O mapa da Montanha! *** . Rowan precisou tapar a boca com a mão para impedir a si mesmo de soltar um grito. Como ela deveria ter rido sozinha da raiva de Jonn Forte e da decepção de Marlie! Rowan enrolou bem o mapa novamente e apertou o fecho. . também surpreso.no meio de sua confusão.Então. meu filho? ..vermelho. ele estendeu o mapa enrolado.ela se conteve e levou as mãos ao rosto. Deixe esse graveto aí e pegue as roupas da Annad. esta manhã. Rowan a achou muito bonita naquele instante. .

Veja você mesma! Bronden desenrolou o pergaminho e o analisou por um momento. . Também estou pregando uma peça nos mais velhos. dando as costas a Rowan...Mas a questão é que ele não está aí agora.. . . e flechas. não? Acontece comigo às vezes. e um caminho marcado em vermelho. .Allun disse. dando um tapinha no ombro do menino. pegando o mapa da mão de Rowan e o entregando para Bronden.seu queixo caiu e ela apontou para Rowan..Mas era real .Muito queijo no jantar.Rowan deixou escapar. E palavras. Estava totalmente em branco.É claro que não .ela gaguejou. O que estava acontecendo? O que ele tinha leito agora? Ele levou alguns instantes para perceber que. -Esses garotinhos deviam aprender que é um grande erro tentar pregar peças nos mais velhos só porque querem chamar atenção. com o rosto vermelho e assustado.Marlie concordou. Eu vi..O Rowan mostrou o mapa para mim. ninguém olhava para ele. eu acredito neles . As pessoas olhavam para o pergaminho em suas mãos. Rowan.. na verdade. Talvez a Sheba quisesse que criássemos esperanças para depois acabar com elas. Então os cantos de sua boca viraram para baixo e ela entregou o pergaminho a Jonn e Marlie. .ela disse. estava morrendo de curiosidade. Jiller sorriu para ele agradecida.Se a Jiller e o Rowan dizem que o mapa estava ali.Allun. Ele encarou o papel.Ela. . oh! . com a respiração saindo de sua boca como nuvens de fumaça branca no ar frio da manhã.. .Jiller afirmou. . que levava para depois das nuvens! Estava aí! Bronden bufou e sacudiu a cabeça em direção à folha em branco que ainda estava nas mãos de Jonn. ao lado de Rowan e Jiller.ele disse. viu que os olhares de todo o povoado estavam sobre ele. As coisas parecem ser reais.Talvez você estivesse sonhando.O que é isso? O que o garoto achou? Jonn Forte virou o pergaminho para que os outros pudessem vê-lo. . .Olhem! Olhem! .Jiller interrompeu. Rowan .Seria bem típico dela .Estava aí! Um desenho da Montanha. Suas sobrancelhas estavam enrugadas e seus olhos encaravam o pergaminho como se ela ainda não conseguisse acreditar. Pensativo. . . .. . Jonn Forte mordeu o polegar. Bronden? Houve um silêncio constrangedor. e a pontada de .É preciso ver para crer . As pessoas exclamavam e arregalavam os olhos.Por que aquela velha iria fazer uma coisa dessas? Tem certeza de que o menino não está nos fazendo de bobos? . ...Então? .Mas. Então ele entregou o pergaminho de volta para Rowan. .

Quero dizer. primeiro desbotadas e depois cada vez mais definidas.A Sheba quer que o garoto vá conosco para a Montanha. formas e linhas ressurgirem na superfície do papel. as linhas e setas desapareciam.O que isso quer dizer? . Ela mordeu o lábio e tentou se recompor. Ela queria que esta cena que estamos vivendo agora acontecesse . .e fez uma pausa. concordou. .A Sheba está brincando conosco. as marcas. e finalmente o caminho pontilhado em vermelho. Ansioso. Acho que. Ele devolveu o pergaminho para as mãos de Rowan e viu.Você tem razão . sério. . Rowan entregou o pergaminho. Enquanto eles olhavam. passe o mapa para mim ...ele comentou. palavras. agarrando o filho pelo ombro. Jonn o pegou e o exibiu a todos.o Rowan é muito novo. E ele tem que cuidar dos bukshas também. .Não! .Ontem à noite.choque que ele sentiu foi imediatamente seguida por um relâmpago de alívio c alegria. ela enfeitiçou o mapa para que ele só revelasse seus segredos quando estivesse nas mãos do Rowan. mas valerá a pena para ele. Jonn Forte estendeu a mão: .Ela o jogou nele ontem. a Sheba ficou nervosa com uma coisa que eu disse e comentou sobre o Rowan assim: "Não faria mal nenhum ser guiado por ele". Jonn o entregou para a multidão.ele pediu.É bruxaria! . com o meu papel e com a minha tinta .Timon. Ele abriu caminho no meio da multidão. . . O Rowan pode ficar segurando o mapa enquanto eu o copio..Neel explodiu. . bastante tortuoso.Rowan.Acredito que sim .ele olhou para Marlie.E eu tenho a solução para esse pequeno dilema.ele abriu os braços. - ela continuou com cuidado . o pergaminho estava em branco novamente. Jonn Forte hesitou: . o professor. .a palavra saiu da boca de Jiller antes que ela pudesse impedir. .. Em instantes. Ele não pode ir. Houve um zunido de agitação e então um gemido de desânimo vindo do povo. Novo demais para ter alguma serventia para vocês. . O mapa estava aparecendo novamente.Pode levar uma hora.Temo que a intenção da Sheba seja que eu retire o que disse . Ela queria que ele descobrisse. Porque assim o Rowan irá . As pessoas encaravam o papel. jogando o pergaminho de volta para Jonn Forte. como se fosse venenoso.Marlie pensou alto. . que passava de mão em mão sem se alterar. . . por maldade. Formas. bem devagar.Jiller perguntou.Jonn concordou devagar. indo em direção ao topo da Montanha. .E é uma brincadeira perigosa a que ela está fazendo .É claro que não! . e os braços do Rowan vão se cansar.

feliz. Não é hora de sentimentalismo barato. ao lado. Nada mudou. vamos sem o mapa. .Jonn exclamou.E seu coração está dominando sua cabeça. garoto . jogou fora sua última caneta com um gemido de desgosto e se agachou ao lado de um bolo de papel amassado. Depois de meia hora.Val informou. enquanto vocês. Sempre que ele tentava. Rowan sentiu o braço de Jiller enrijecer e a viu levantar o queixo enquanto duas manchas rosadas surgiam em suas bochechas.Pelo menos pudemos dar umas olhadelas no caminho que devemos seguir. evitando com cuidado o olhar de Jiller. não teria havido discussão nenhuma. . saem para o seu passeiozinho. nós iríamos sem o mapa. . Pouco importava o que Timon tentasse. . O irmão dela. ele percebeu a verdade.para casa. . o que aconteceu com o Jonn? .O menino não pode ir . para cama. Devemos levá-lo conosco.Obrigado. E ele é muito novo. . embora funcionassem perfeitamente se tentasse desenhar qualquer outra coisa. Qualquer um pode substituí-lo para cuidar dos bukshas. devemos levar o garoto conosco também. Finalmente. .Isso! . Essa ligação que o menino tem com eles é besteira mesmo. do mesmo jeito - ele balançou a cabeça para Rowan. Jonn? O rosto de Jonn ardeu em um vermelho intenso.Antes disso. Mas Sheba não havia se esquecido de nada. .A aldeia depende disso.Marlie exclamou. as canetas que ele usava e jogava fora uma após a outra deslizavam sobre o papel em branco como se fosse manteiga.O mapa vai garantir nossa segurança e nosso sucesso. Ali havia outras crianças da idade dele. com um sentimento destruidor.Vamos usar a brincadeira da Sheba contra ela mesma! Ela se esqueceu de que nós não somos bukshas irracionais que se deixam enganar tão facilmente.Estamos de acordo com Bronden . Vamos nos lembrar bastante dele.Chega! . puxando a saia da mãe. ele não tinha conseguido copiar nem uma linha.O perigo é grande demais.Bronden foi bem direta.Mas isso não faz sentido! . Todos achariam natural que .Bronden interrompeu. . . .ele disse. .Mamãe. . . confirmou com a cabeça. coitados.Por que ele está vermelho daquele jeito? Jiller não respondeu. e isso já irá nos ajudar muito. por qualquer truque que seja. . ele não conseguia copiar o mapa. Rowan olhou para cada um dos rostos na multidão e.Jonn Forte insistiu.Annad sussurrou. aos poucos. Se toda aquela história tivesse acontecido com qualquer uma delas.Ou será que é porque a mãe dele é bonita demais? . Vá para casa agora com sua mãe. Agora. E se o mapa e o garoto estão unidos. .

Eu vou .. Rowan começou a estremecer. Timon. E acreditavam que Rowan não iria falhar com eles. os pais. Rowan não era pequeno demais. ele estava lá. pastando em sua volta. Rowan era o líder. "A Montanha não irá testar sua força. Ele percebeu que Jonn Forte amava sua mãe e estava tentando evitar que ela passasse vergonha e dor. Ele se viu nos campos dos bukshas. . No meio da névoa das manhãs geladas ou debaixo do calor do sol. um amigo.. Ela irá destruí-la. Jonn Forte só estava se posicionando daquela forma porque Rowan era.ele disse. medroso ou fraco. Eles também deveriam estar pensando: "Por que ele? A criança que mais traz decepção para nós em todo o povoado de Rin". Seria a maior aventura da vida dessa criança. prestes a esconder o rosto na saia dela. Por que desgraça ele teria sido escolhido o salvador daquele povo se tudo o que conseguia fazer era decepcionar a todos? Ele se virou para sua mãe. uma imagem passou por sua mente. E agora eles precisavam de água. As palavras de Sheba ressoavam em seus ouvidos. solidão e vergonha. com o focinho quente de Estrela sobre sua mão e as outras criaturas. quando eles estavam machucados. Ele nunca havia decepcionado os bukshas. Os bukshas confiavam cegamente nele. grandes. Ele ergueu a cabeça e olhou diretamente para Jonn Forte: . o simples guardião dos bukshas. Nunca. naquele instante. Esses pensamentos inundaram a mente do garoto com uma agradável sensação de conforto. mas. qualquer um ali.Eu vou com vocês para a Montanha. o que ela não seria capaz de fazer com Rowan. A chance que ela teria de realizar um ato heróico. Ele não conseguia suportar os olhares tristes dos moradores sobre ele. E ela desejaria ir. Para eles. ou quando precisavam ser acalmados depois de o Dragão rugir.a criança fosse: Jonn. que temia tudo? Seus sentimentos se dividiam entre pavor." Por que ela tinha feito aquilo com ele? Se a Montanha era capaz de destruir a força e a coragem de alguém como Jonn Forte. O mapa que ele segurava tremulou com a leve brisa que sempre soprava antes do amanhecer. calmas e amigas. Ele não conseguia suportar. Para eles. . que não tinha medo de nada. Rowan. ou parindo seus filhotes. um guia.

Era difícil saber como Ellis se sentia. Bem perto dele. e Rowan tinha crescido sem prestar muita atenção neles. sem reclamar. Um mundo habitado somente por duas pessoas. Para Rowan. nem quando eles passaram pelo moinho e pela enorme roda de madeira. Ao olhar para trás. silencioso. pois ele raramente falava alguma coisa. O mapa mostrava claramente que eles deveriam começar a subir no lugar cm que a água nascia do subsolo para formar o córrego. A mochila que ele carregava pesava demais sobre seus ombros. mas Rowan percebia que os passos lentos irritavam. Os outros diziam que em mais duas horas eles chegariam até ela. Mas. O vilarejo tinha ficado bem longe. Naquele ponto. eles simplesmente faziam parte da vidinha diária da aldeia. pois as árvores o tiravam de vista. Ele somente olhou e virou a cabeça em direção à Montanha. Na frente deles. Eles eram um casal estranho. Eles tinham mais ou menos a mesma idade que Jiller. ultimamente. como os outros adultos que ele conhecia desde que nasceu. ele percebeu que Val e Ellis eram mesmo diferentes e que sua mãe e pessoas como Jonn Forte e Allun também . e suas costas c pernas doíam muito. Rowan estava bastante cansado. Ele não havia dito nada. andando a passos largos na frente do grupo. Eles pareciam tão frios e inflexíveis quanto as paredes de pedra do moinho. eles iriam descansar um pouco e checar o mapa antes de continuar. Rowan tinha ouvido Jiller comentar com Jonn Forte que era como se eles vivessem em um mundo só deles. Mas ele sabia que tinha que continuar andando. Os outros tentavam manter um ritmo que fosse mais fácil para ele acompanhar. pelo menos. Rowan o observava agora. Bronden e Val. Eles já estavam caminhando ao longo do leito seco do córrego por horas. imóvel no lugar onde deveria passar a corrente de água vinda de um canal que saía do leito seco do córrego. Com facilidade ele carregava sua mochila e o peso extra de uma corda grande. Rowan não conseguia mais ver as grandes paredes de pedra do moinho. um pequeno machado e as tochas que usariam mais tarde. como uma parede maciça. a Montanha se erguia. a construção mais alta da aldeia. ia sua irmã.

Ou então: -Estamos quase lá. Sabia que Jonn. e sua raiva diminuiu. com Jonn Forte fazendo a retaguarda. Ao se lembrar disso.ele perguntava atencioso. "O Jonn tem mesmo que se sentir responsável por essa confusão". às vezes. sorrindo às vezes para Allun. "Sete corações . caminhava Bronden. E Jonn segurou as duas mãos dela e disse: -Vou cuidar. na praça do mercado. e você não precisa se esforçar quando realmente gosta de alguém. Juro pela minha vida que vou trazê-lo de volta para você. tinha sido forçado a se tornar o sétimo membro do grupo. Atrás de Val. que Jonn poderia sentir mais do que uma simples amizade por sua mãe. mas com Rowan ele nunca se sentia muito à vontade. Rowan sentiu uma pontada de raiva. Ele simplesmente achava que era responsável pelo garoto. Foi a provocação de Jonn que irritou Sheba e a fez deixar Rowan como o tutor do mapa. Qualquer um percebia. Rowan? . que ele se importava com Annad. companheiro. que andava atrás dela. Marlie vinha em seguida. Enquanto sua mãe se despedia de Jonn antes de eles partirem. Jonn conversava com ele. fracote e indesejado. Rowan tinha ouvido Jiller cochichar: -Cuide dele. Ele ficou imaginando se Jonn e Marlie se lembravam das palavras de Sheba. -Tudo certo. Rowan balançava a cabeça e resmungava uma resposta qualquer. Jonn era agradável e tratava todos bem. De vez em quando. Ele sempre foi amável com Rowan. E.Os pensamentos de Rowan mudaram de direção. assoviando e cantando como se estivesse em uma simples caminhada no campo. olhando direto para a frente. Era culpa de Jonn se Rowan. por exemplo. Jonn conversava com ele agora somente por causa de Jiller. Rowan pensou amargurado. Tinha sido horrível imaginar que ele poderia se casar com ela um dia.achavam isso. um palmo mais baixa. ele pensou. Mas isso era diferente de "gostar". mas forte e determinada. "Ninguém. Com que direito Jonn Forte olhava para a sua mãe daquela forma? Com que direito ele segurava as mãos dela como se fosse mais do que um amigo do marido morto dela? Rowan tinha levado um choque quando percebeu. "Ninguém vai tomar o lugar do meu pai". Rowan sabia disso. Rowan era o penúltimo da fila. Era o jeito dele. Jonn o chamava de "coelhinho magricela" e ria por ele ler medo das coisas." Ele seguiu fincando os pés no chão. na verdade. não ligava para o seu bem- estar. Ele se esforçava para ser gentil com o menino.

ele se aproximou de Estrela.Logo terão a água doce de vocês.Espere por mim. ainda com um pouco de água lamacenta. ele tinha escapado até os campos para se despedir deles. .ele contou. Ele não queria encarar a Montanha. as pedras ao pé da Montanha tinham ficado maiores e mais pontudas e o sol já aquecia as costas de Rowan. Vou trazer a água de volta. Ele sabia que Estrela não entendia suas palavras. sentindo aquele cheiro tão familiar e agradável para ele. Não vai demorar." Eles não comentaram nada. As criaturas estavam agitadas.Vamos ajudar vocês . -Adeus. E. Ele esticou os braços o máximo que pôde para envolver o pescoço dela e encostou a cabeça em sua lã macia. . Por último. Com o passar de mais uma hora de caminhada. dando tapinhas e fazendo carinho em cada um. se aquela parte da profecia tinha se realizado. Allun e Marlie pararam na frente dele. o leito seco do córrego havia se tornado um buraco profundo e arredondado. mas ela rosnou e fungou para ele.seguirão pelas temíveis trilhas. Ellis! . Um arrepio desceu pela espinha do garoto. pois precisava ir. . bem . mesmo quando seus joelhos tremiam de cansaço e sua respiração vacilava dentro de seu peito. -Ei.. procurando ansiosas por água no pasto ainda verde ao redor do lago agora lamacento. Havia uma abertura escura no penhasco. estendia-se um penhasco de rochas. De sete formas cairão nas armadilhas. sentada na cadeira com os olhos parcialmente fechados.Rowan disse enquanto passava entre eles. o que seria do resto dela? Rowan inclinou a cabeça para observar o chão sob seus pés. À frente e acima. A menos que ela realmente tivesse visto o futuro enquanto estava lá. Ao lado dele. Já fazia um tempo que ele só conseguia se manter de pé porque pensava nos bukshas.. como se tivesse se sentido consolada simplesmente pelo tom de voz do garoto. Enquanto Jiller preparava sua mochila para a jornada. Não vou decepcionar você.Se a Alvorada tiver o filhote antes que eu volte. elas vão ajudar. Ele deu um último abraço nela. . -A Annad e a minha mãe virão visitar você enquanto eu estiver fora . assim como ele. Ele parou quase em um tropeço e olhou em volta.ele disse. Mas a fé e a confiança de Estrela permaneciam com ele. Era impossível Sheba saber o número de pessoas que iriam viajar antes que eles saíssem. Estrela . mas certamente ficaram pensando naquilo.o grito de Jonn Forte penetrou nos pensamentos de Rowan. Elas prometeram para mim.

Ele tirou a enorme mochila das costas e procurou o cantil dentro dela.em cima do buraco. também se atiraram sobre a grama. .Não sabemos por quanto tempo nossos suprimentos vão durar.Allun pediu.Jonn Forte disse para Val e Ellis. Algumas ervas quase mortas e um pouco de musgo formavam uma crosta sobre as bordas lisas da abertura. - Não tem nada para se ver aqui embaixo. ..Deixe a gente ver. Ele estava muito cansado.É redondo. ajoelhando-se ao lado dele. Então ela se apoiou nas pedras para olhar pela abertura na parede do penhasco. Rowan tirou o mapa da mochila e o desenrolou sobre a grama. Mas ele se forçou a recolocar a tampa e. Ela esfregou a mão contra a rocha e a enfiou pela abertura no penhasco até onde seu braço alcançou. O caminho passa por . devemos começar a subir bem aqui mesmo. como se esperasse encontrar uma resposta ali dentro.Acredito que não haja mal nenhum se eu mesma verificar. não dá para ficar aqui sem se molhar todo com as gotas que espirram. . Mas segure o tempo todo.Marlie atacou. com gosto de metal. As figuras sumindo c aparecendo de novo embrulham meu estômago. por favor. colocando pedras sobre cada um dos cantos.Beba um pouco. enquanto o fazia. apontando a fenda na rocha. Em cima e embaixo é bem liso . Então.É o que qualquer um esperaria . .Bronden retrucou.De acordo com as marcas em vermelho. lágrimas saíram de seus olhos. - Todas as pontas foram desgastadas pela água.Allun recomendou.Quando ela está no volume normal. Rowan . Rowan se jogou sobre a grama. estão vendo? . Podemos não encontrar nenhuma água na Montanha. . . um por um. -A água costuma nascer ali . Então era dali que a água saía. . mas não muito . e a verdadeira viagem ainda nem tinha começado. parecendo incapaz de não se irritar com Bronden.ela informou e limpou as mãos cobertas de limo na roupa antes de voltar para a margem. Bronden chegou com dificuldade até o poço vazio e ficou andando em volta dele. Rowan verteu um gole de água morna. Os outros membros do grupo jogaram suas mochilas no chão e se espreguiçaram. Os outros se reuniram em volta. Estava deliciosa! Facilmente ele teria acabado com toda a água do cantil. .Jonn Forte disse com o dedo apontando para o mapa. sem dúvida.A Sheba disse que o problema era no topo da Montanha - Marlie afirmou. Marlie . -Estamos aqui.O mapa.. . Seus joelhos não o agüentariam por mais um segundo. . dando chutes na lama fresca.

o caminho é o mais importante e ele está bem claro aqui no mapa.Jonn Forte disse. elas pareciam saltar a seus olhos. O último ficava bem no topo. .ela suspirou fundo e voltou sua atenção para o mapa.Estão todas ao lado do caminho. O que aquilo significava? O primeiro espaço ficava no ponto em que o caminho se adentrava pelas árvores. É uma distância curta. não devemos levar muito tempo para fazer esse trecho. . -Parece que entramos na floresta primeiro .Jonn Forte disse em um tom agradável. e coisas muito úteis para trocar. Sei que a Marlie e o Jonn também têm uma.As orientações são bem claras. viramos para noroeste e passamos por esse terreno mais baixo. apontando o dedo para várias áreas no pergaminho.0 menino vai ter dificuldade. Será que a Sheba apagou algumas coisas importantes para trapacear com a gente? . Marlie franziu a testa: . . Espaços em branco em uma superfície totalmente coberta de cores e linhas.O que são essas manchas brancas? . Quando as árvores terminarem.Bronden opinou enquanto se espreguiçava e bocejava.E besteira nos preocuparmos com outra coisa além daquilo que sabemos que temos que fazer.Mas. Por que ele não havia percebido aquilo antes? Agora que ele tinha notado as manchas. . . . Simples! Por sorte.Val resmungou.ela se virou para Val e Ellis: .Isso é verdade . subimos e subimos até o topo.Bronden continuou. eu trouxe uma bússola.ele apontou para uma massa verde de folhas que flutuavam bem em cima deles. Lá em cima .ele perguntou. amigos. Logo eles descobririam o que aquilo queria dizer. Há tantas coisas interessantes para ver.cima da caverna de onde sai o córrego c continua até que a Montanha comece e apareçam as árvores. afinal de contas. . São seis. Eram espaços em branco com uma distância praticamente igual entre um e outro ao longo do caminho a ser percorrido por eles. Allun estava estudando o mapa atentamente: . E aí subimos. Mas Rowan encarava as manchas brancas no mapa com uma ansiedade cada vez maior.Não seria de se estranhar .Uma caminhada bem plana para oeste. . Nós as arranjamos juntos na nossa última viagem para o litoral .É uma subida bem íngreme . Deve ser bastante fácil. Só que e claro que o garoto vai fazer com que a gente leve mais tempo . .Então vamos ter que ajudá-lo .vocês deveriam participar das viagens que fazemos para trocar mercadorias.

não é? Posso não estar sentindo o medo de que estão me acusando. -Não iria dar para nós .Allun disse calmamente .Marlie sugeriu.Allun sugeriu em tom preguiçoso.ela disse depois que pensou um pouco - as bússolas são excelentes.ele confessou e se jogou de volta sobre a grama. . que foi você que insistiu nisso – Jonn Forte disse agressivo. -Sempre diz que está ocupado demais. estou apavorado! . como você bem sabe. . Marlie. mastigando uma folha de grama e olhando para o céu. Você está perdendo tanto quanto a Val e o Ellis! Bronden abriu a boca para dizer algo.Se fosse simples assim. -Você também nunca vai para o litoral.Ellis disse friamente. Val ficou em silêncio. não deveria ter entrado para o grupo. Um lugar para se temer. já que também temos outros pontos de referência para seguir. Bronden . . não precisaríamos ter trazido o mapa conosco. O povoado de Maris usa as bússolas quando vai viajar em mar aberto. . Até Rowan conseguiu dar um sorriso. Depois.então se endireitou e abriu bem os olhos.Bronden provocou. Nossa viagem vai ser muito mais fácil.Marlie se inclinou para a frente e continuou. -Mas um de vocês pode ir e o outro fica .De qualquer forma . -Seria melhor .se deixássemos nossas diferenças de lado . acho que podemos começar . por volta do meio-dia. esticou as mãos e as fez tremer violentamente. se o Allun está conseguindo sobreviver ao terror que está sentindo. . Bronden bufou. sacudindo a cabeça e batendo os dentes. primeiro encarando Allun e depois um ao outro.Se medo é a questão. -Bem.Não é assim que fazemos as coisas. Jonn Forte e Marlie riram. Escrevam o que estou dizendo. Chegaremos em casa amanhã.A Montanha é um lugar muito perigoso. . -Não esqueça Bronden. . Val encolheu os ombros: -O moinho não pode parar Bronden. pelo menos.Marlie observou. . mas não quero me arriscar a cair sobre essas pedras. Já é uma lástima termos que arrastar o menino conosco. Não podemos fechá-lo para sair por aí sempre que quisermos. retirando uma corda grossa de sua mochila. Mas Val e Ellis permaneciam quietos. Allun . Você não pode ignorar nada. eu.Vamos usar as cordas para subir. tremendo de medo dentro das botas dele. especialmente o que está bem diante dos meus olhos . Bronden encolheu os ombros e se virou. -Mas eu não ignoro nada. mas mudou de idéia.Se você está com medo.

Quando ele escorregava. Então seu corpo era jogado de volta contra as pedras com uma batida dolorida. Mas ele ficava tonto e pálido só de subir nesses galhos mais baixos. o chão também girava. ficava pendurado. Lá embaixo. . Por isso. não gostava muito de altura. Com uma corda. seu corpo leve. Quando havia pouca comida em Rin. Se Jonn escorregasse. Seus gritos de pavor ecoavam em seus ouvidos. A escalada que se seguiria era como o pior dos pesadelos para ele. Allun e os outros acima. E ele tinha que subir outra vez. trêmulo e dolorido em cada músculo. Suas costelas eram espremidas pela corda que o salvava. Rowan lutava para continuar. Machucado. Lá em cima. Rowan precisava subir nas árvores para baixar a ponta dos galhos cheios de folhas até as bocas ansiosas dos bukshas famintos. ele ficou amarrado a todos: Marlie. Mas pior ainda era o medo de que um dos outros se demonstrasse tão descuidado quanto ele. o que acontecia o tempo todo. o mundo girou diante de seus olhos por um instante antes que ele desmaiasse. Se um dos outros escorregasse. Quando finalmente ele foi arrastado até o topo do penhasco e caiu todo suado e ofegante sobre o chão. o céu girava. balançando no espaço até onde a corda permitia. puxado para baixo pela mochila. e Jonn Forte abaixo. talvez nem Jonn conseguisse segurá-los. A situação não estava nada boa. o peso poderia puxar todos para a morte sobre as pedras abaixo.

Estrela estava lambendo as bochechas e a testa de Rowan com sua língua gelada e áspera.ele levou um cantil até os lábios de Rowan. A imagem de Estrela foi desaparecendo devagar. Val.alguém disse incomodado. devagar. Val tinha razão. mas sua cabeça parecia muito leve. com Marlie e Allun. Rowan continuou deitado. que não gostava dele. menino Rowan . Beba isto . olhando para o céu. apoiando as costas do garoto.Pare. com Jonn Forte. . A pressa é inimiga da perfeição.Val repetiu impaciente. O sol já ia alto. com uma ponta de amarga decepção. Dormindo. Estrela! Deixe- me em paz . -Ele está delirando .Você pode nos ajudar segurando o mapa para nós enquanto damos mais uma olhada nele. Ele se levantou e se afastou um pouco. Ele lutou até não poder mais. Rowan sorriu. como uma criancinha. Val e Ellis. - Quando você estiver se sentindo melhor . como esse fracote é um peso morto para nós! Olhem o sol! Já devem ser 11 horas! Jonn jogou de lado o pano úmido que estava passando no rosto de Rowan: -Ele já acordou . esticando as costas doloridas.Allun continuou.Já sabemos o caminho que devemos seguir . - Vá com calma.Devagar. encarando os outros com um olhar significativo -. nos campos dos bukshas com Estrela. Seu corpo parecia pesado. que bebeu agradecido.ele disse abruptamente.Minha nossa.E fracote ou não. . percebeu onde estava. Sonhando com sua casa. ele hesitou confuso.ele murmurou e virou a cabeça de um lado para o outro sobre a grama.ele empurrou a mochila de Rowan até o garoto. -Ele está delirando . . Seu rosto começou a queimar e ele se esforçou para se sentar.Bronden franziu . Tome . que o amava. Por um instante. nós continuamos para dentro da floresta. Não cm casa. que o desprezavam. que tinham pena dele. e com Bronden. Havia um pequeno zumbido em seus ouvidos. Ele deveria ter ficado deitado ali por um bom tempo. Rowan abriu os olhos e se deparou com o rosto sério de Jonn Forte. . Mas na Montanha. . ele lutou com muita coragem para subir aquele penhasco.Allun arreganhou os dentes e se sentou ao lado dele. Então. .

Val .a testa. Ela passava pelo desenho do leito do córrego.. com certeza as palavras não . pela abertura no penhasco. agora surgiam seis linhas escritas em preto.Ninguém tocou no mapa. . pelo próprio penhasco. . Ele tentou falar e quase se engasgou. Allun o encarou rapidamente e então voltou os olhos para o pergaminho.As palavras simplesmente apareceram desde a última vez em que o vimos." . esses jovens! Não podemos nos esquecer de que sou três anos mais velho que você. gritou: -Jonn! Jonn se virou e correu na direção deles enquanto os outros membros do grupo erguiam os pescoços para olhar. pelo buraco no qual a água costumava cair. No local ao lado do início do caminho pela floresta. Ela se inclinou sobre o mapa. . Em voz baixa. onde serão suas amigas luz e labareda. Ele soltou uma exclamação em voz baixa.Quem é que está fazendo essa brincadeira sem graça? .Val questionou. estudando as palavras como se tentasse descobrir como elas haviam parado ali. Rowan piscou. mas mesmo assim ele retirou o mapa da mochila e o desenrolou bem devagar. pelo caminho no meio. olhou e piscou de novo.Marlie respondeu. .Não faz a mínima diferença descobrir como elas apareceram - Allun comentou. Emudecido. .Isso é impossível! . O fim do caminho é a porta de seda.Ah. Rowan apontava para o mapa. Seus olhos passearam pela linha vermelha pontilhada..A questão é: o que elas querem dizer? Jonn Forte limpou a garganta: .ele disse -. Allun leu as palavras para os outros ouvirem: "Mantenha a voz baixa e o braço parado.Que absurdo é esse? .Bronden protestou.Allun sorriu. Rowan sabia que Allun somente estava fazendo aquilo para que ele se ocupasse de algo enquanto descansava. pela entrada para a floresta ao lado de uma pedra alta e pontiaguda não muito longe de onde eles estavam agora. . Não faria mal nenhum dar outra olhada. Bronden .A minha fraca memória está piorando. Então.Não precisamos do mapa. . onde antes havia um espaço em branco.Seja o que for . milhões de olhos observam o rumo trilhado. . Então se veja com olhar diferente e use o meio-dia para seguir em frente.

apesar dos machucados. .Dizem que não podemos mexer muito os braços nem falar muito alto .Jonn Forte estava bastante sério.Sugiro que comecemos nossa jornada pela floresta o quanto antes. .surgiram por acaso. Eles pararam na rocha pontiaguda e espiaram por entre as primeiras árvores. À medida que eles caminhavam cada vez mais para dentro da floresta. Vou seguir ao pé da letra. Diante deles. enrole esse mapa e o prenda no seu cinto por enquanto . o caminho já tinha dado tantas voltas e feito tantas curvas que eles não conseguiam mais ver o topo do morro de onde tinham saído. A iluminação estava fraca. -Garoto. . Ele não esperou uma resposta. Coisas muito estranhas já aconteceram.Isso está bem claro. . independente do que tivessem achado das instruções do mapa. A luz do sol penetrava no meio das folhas agitadas e iluminava partes do chão da floresta. Em poucos minutos. Allun -Marlie disse friamente.Talvez você descubra que isso não é nada fácil para você. vai ser meio-dia daqui a uma hora mais ou menos.O peso que estou levando está meio desigual.Qualquer minuto sem ouvir você matracando vai ser um alívio. . E o silêncio! Rowan. Os outros correram atrás dele.Então vá na frente. .Allun comentou. agora sem o enorme peso de sua mochila. simplesmente jogou as duas mochilas nas costas e começou a andar com passos largos em direção à rocha pontiaguda. Eles adentraram a floresta. além da minha. descobriu que conseguia acompanhá-los com certa facilidade.ele disse com firmeza. as árvores ficavam maiores c mais próximas umas das outras. . . Pelos meus cálculos.Allun observou. se você não se importar. E ninguém disse uma só palavra. Ele estendeu a mão para Rowan e o ajudou a se levantar. Preciso carregar sua mochila. Rowan. . entrelaçadas com cipós e cercadas de arbustos irregulares.Para mim está bom . Elas nos dão instruções e um aviso. havia um caminho bastante acidentado e tortuoso que logo se perdia na vegetação rasteira.Posso ir na frente? Vai ser mais fácil ficar de boca fechada e obedecer ao poema se eu fizer algo que exija bastante de mim.Bronden resmungou. para me equilibrar melhor. por favor . Rowan percebeu que todos mantiveram os braços bem juntos ao corpo. -Aí também fala sobre o meio-dia . que seguia Marlie .

deveria ser um grande bando de passarinhos. Enormes aranhas pretas aveludadas. O zumbido foi ficando cada vez mais alto. esticando os passos para que conseguisse acompanhar os outros.Bronden criticou. Allun não se mexeu. seu idiota. -Ugh! . Mas ele não respondeu. na direção do som.Allun. Um fraco zumbido vinha de lá adiante no caminho. . . Milhares delas. mas mesmo assim Rowan esperava ansioso encontrá-los voando e pulando por ali. que brincadeira é essa? . como um sussurro. trombou contra Allun. Ela estalou a língua e saiu correndo para alcançá-lo. mesmo assim." Rowan começou a ficar todo arrepiado. Então ele tropeçou e por pouco não caiu quando Marlie. Em instantes. Só mexeu a cabeça de um lado para o outro. Marlie havia ficado para trás. que estava parado. O zumbido parou no mesmo instante e deu lugar a um ruído rastejante. Ele se animou só com essa simples idéia. do tamanho das mãos de Jonn Forte. Pelo som. Eles teriam que caminhar por entre essas teias todas. e outras criaturazinhas que costumam habitar florestas essa? Então. As aranhas pararam e depois começaram a se mexer de novo. com as enormes aranhas vendo tudo e indo atrás deles. ofegante. Allun começou a andar mais rápido. tentou espiar por cima do ombro de Marlie quando o caminho fez mais uma curva. Então os outros viram o que ele tinha visto. e lagartos. Aranhas. Onde estavam os pássaros? E os grilos. Nos dois lados do caminho estreito. como se também estivesse interessado no que havia à frente. E. Eles provavelmente não estariam fazendo seus ninhos nesta época do ano. Jonn Forte agarrou o braço de Rowan e o ajudou a se equilibrar. Seus olhos brilhavam. arrastando-se por gigantescas teias de seda branca que formavam uma camada tão grossa sobre as árvores que não deixava ver a casca nem as folhas. mas esse som não se parecia com nada que ele tivesse ouvido antes. praticamente invisível no meio daquela quase escuridão. Aquelas pequenas aves deveriam pertencer a uma espécie que não habitava o vale. Rowan.Rowan ouviu um gemido estranho de alguém atrás dele. "Milhões de olhos. franzindo a testa quando Vai. achava que nunca havia estado em um lugar tão silencioso. Ellis e Bronden trombaram contra ele.de perto e ouvia os passos firmes de Jonn Forte atrás dele. Rowan conhecia todos os pássaros de Rin. Allun olhou para trás. O som dos pássaros era quase ensurdecedor agora. ele ouviu. bem devagar. e seus companheiros viram seu rosto pálido debaixo da iluminação fraca.

ele parecia ainda mais estranho e horrível. Tentando não olhar para os lados. Mas eles ouviam o som de seus pés. As aranhas estavam se comunicando mais uma vez. Ele morre de medo de uma pequenininha. fazendo o mínimo de movimento possível. . quase não respirando.. . Depois de alguns minutos. .Jonn Forte sussurrou um pouco em desespero.ela sussurrou. deixava escapar um gemido baixo por entre os lábios. com a voz cheia de preocupação e vergonha. Em casa não pode haver um montinho de poeira ou uma folha seca em um canto para que nenhuma aranha se abrigue lá. . Val puxou a manga da blusa de Jonn Forte: . como se fossem grilos venenosos. . Elas não estão no nosso caminho.sua irmã cochichou. Desde criança. todos obedeceram. Seu rosto brilhava de suor. tentando parecer o menor possível.a palavra quase não saiu da boca daquele enorme homem. Marlie e Allun se viraram incrédulos. Rowan. empurrou Allun. tremia e.Continuem! Ele não vai voltar.Ele. Então ele contornou a curva c ninguém mais conseguiu enxergá-lo.É o Ellis . com os punhos cerrados e cruzados sobre o peito. quase a tirando do caminho e a derrubando em cima de uma teia. por sua vez.. ele atrairia as aranhas novamente. nas enormes aranhas rastejantes c em seus milhões de olhos tão próximos dele.. Em silêncio. o zumbido recomeçou.N-não. Ele foi cambaleando de volta pela trilha que tinham seguido. indicando que ela continuasse. Mas eles só tinham conseguido andar alguns poucos passos quando se ouviu outro gemido de arrepio atrás deles.Ele não suporta aranhas.. De repente ele se virou e passou por Bronden. . ele não consegue... -Aranhas . de vez em quando. Jonn Forte esticou o braço por cima de Rowan c deu um leve empurrão em Marlie. correndo. esfregando devagar as enormes patas pretas e peludas umas nas outras. Não é longe. Jonn.. Agora que todos sabiam de onde o som vinha.Val sussurrou.. -Ellis? . Ele ofegava. Rowan se arrastava atrás de Marlie. Ela. Correndo para fora da floresta. Se Rowan se permitisse falar ou exclamar qualquer coisa. Dessas então. . Tocar em um dos fios da grossa camada de seda branca seria chamá-las para que elas corressem na direção deles. eles puderam ver Ellis duro como uma pedra. Atrás do rosto preocupado de Val.Continuem! . Se tomarmos cuidado. Ele já tinha visto uma quantidade suficiente de . que começou a ir para a frente bem devagar.Vamos. companheiro. Tentando não pensar nas grossas cortinas brancas que cobriam as árvores.

insetos ficar presa em teias para saber disso. Por isso, deveria
continuar andando e reprimir seu medo. Ele precisava manter a
cabeça no lugar e se lembrar das últimas linhas do poema: "O fim
do caminho c a porta de seda, onde serão suas amigas luz c
labareda. Então se veja com olhar diferente e use o meio-dia para
seguir em frente."
A porta de seda... o meio-dia. Já deveria ser quase meio-dia
agora.
Rowan deu um pulo nervoso quando a mão de Jonn Forte tocou
seu ombro. Ele levantou o olhar. Eles estavam em uma pequena
clareira. À frente se erguia a porta de seda. Era uma teia de
aranha enorme e brilhante, tão grossa que não se podia ver do
outro lado. Havia diversos gravetos e folhas espalhados na sua
superfície, presos nos frios grudentos. Ela ia de um lado a outro do
caminho, deixando-o totalmente obstruído. E por todo lugar
centenas de aranhas se arrastavam. Somente esperando.
Allun se virou cuidadosamente para encarar seus companheiros;
- E agora? - ele fez com os lábios.
- O poema - Marlie sussurrou.
- O poema não faz sentido - Bronden cochichou. - Corte a teia
e acabe com isso, Allun. Se você não tem estômago, deixe-me
passai que eu resolvo!
As aranhas fizeram um zunido e se mexeram sobre a teia.
-Não! - Jonn Forte sussurrou. - Não enquanto tantas aranhas
estiverem perto da teia. Assim que tocarmos na teia, elas estarão
todas em cima de nós. Não podemos arriscar.
- Talvez elas não façam mal nenhum - Val opinou.
- Talvez façam - Marlie discordou. - É como o Jonn disse, não
podemos arriscar. Já perdemos um membro do nosso grupo.
- E agora? - Bronden estava nervosa.
Ellis ter fugido da floresta havia sido um grande choque para
ela. Como um homem daquele tamanho e com aquela força
poderia ter uma fraqueza tão infantil? Ela eslava perplexa com
aquilo, mas tomou cuidado para não olhar para Val. "Ela deve estar
morrendo de vergonha", Bronden pensou.
De repente, a iluminação mudou. Bem acima deles, um raio de
sol penetrou na escuridão da floresta e os aqueceu. As aranhas em
volta começaram a chiar e recuar.
- Elas não gostam de luz - Rowan murmurou. - Era o que o
poema dizia: "Serão suas amigas luz e labareda."
- Labareda! Fogo! - Bronden sussurrou. - É só jogar uma tocha
na teia!
- Ellis estava carregando as tochas - Val disse amargurada.
Allun tateou os bolsos e pegou um isqueiro.

- Quem tem alguma coisa que queime fácil? Mesmo que seja
por pouco tempo.
- Não façam movimentos bruscos - Jonn Forte avisou, de olho
nas aranhas.
Marlie enfiou a mão no bolso da jaqueta. Ela retirou uma
bússola, um pente, um espelho... e um lenço. Ela estendeu o lenço
para Allun. Ele deu um nó frouxo nele c acendeu o isqueiro.
- Preparem-se! - ele avisou.
Então ele colocou fogo no tecido e o jogou bem no meio da
barreira branca de seda.
As teias chiaram e se encolheram enquanto o lenço pegava
fogo. As aranhas emitiram um som agudo e se espalharam. Mas
somente por um instante. Em segundos, antes que o grupo
conseguisse dar mais que um passo, as chamas já tinham se
apagado e as aranhas estavam de volta. Havia um buraco no meio
da leia agora. Mas, entre a fumaça que ainda saía das
extremidades escurecidas do buraco, centenas de aranhas
rastejavam. E mais delas estavam a caminho.
- Elas estão refazendo a teia - Allun ofegou. - Elas já estão
fechando o buraco!
- Temos que afastá-las dali! - Jonn Forte olhava em volta,
desesperado. - Tem que haver um jeito.
- Elas não gostam de luz - Rowan repetiu. - Elas não gostando
sol.
- Não temos material para fazermos uma tocha aqui, Rowan
-Marlie comentou. - Não lemos nada que faça uma luz que brilhe
tempo suficiente para mantermos esses insetos longe.
Mas Jonn Forte segurou no ombro de Rowan:
-Rowan, o poema. Repita os últimos versos.
Rowan repetiu cm voz baixa:
"Então se veja com olhar diferente c use o meio-dia para seguir
em frente."
Um pensamento passou pela sua cabeça e ele olhou
rapidamente para Marlie.
- Meio-dia... O sol! - Allun olhou para cima. - Mas o sol está
iluminando aqui, onde estamos. A teia está na sombra.
- O que foi, Rowan? - Marlie perguntou, encarando o garoto. - Por
que está olhando para mim?
- O espelho - Rowan sussurrou. - O seu espelho. No espelho nós
nos vemos de uma forma diferente. E o sol...
- Isso! - Jonn Forte cerrou os punhos. - Mas rápido, rápido! Antes
que a luz vá embora. Já ficamos tempo demais aqui.
Marlie entregou o espelho para Jonn, que o segurou e ficou virando
ate que a brilhante luz do sol se refletiu em cima da teia. As

aranha! pararam seu trabalho no buraco e saíram correndo de
volta para as sombras.
- Dê aqui! - Val pediu.
Ela retirou o espelho das mãos de Jonn e o sacudiu, fazendo a
luz refletida do sol dançar sobre a porta de seda. Val empurrou
Bronden para a frente dela:
- Vão! - ela gritou. - Agora!
Rowan correu junto com os outros. Seus olhos estavam fixos no
buraco da teia e viam manchas de verde ao fundo. A luz dançante
já estava sumindo. Ele chegou até a teia e pulou pelo buraco,
enquanto milhões de olhos brilharam nervosos nas sombras,
enganados por suas presas.

. Acho que o território delas termina ali mesmo na porta de seda. curvada sobre si mesma.Allun gritou. -Precisamos de você aqui! Você precisa vir. .Logo o sol vai. ele ainda estava inteiro. Jonn Forte. Só tinha algumas.Allun apontou para as árvores em volta. tropeçando de volta em direção ao buraco na teia.Val! . já estão todas mortas. com as mãos ao redor da boca. observando bem ao seu redor Então ela abriu o punho cerrado e olhou o espelho. . . Val olhou em volta com atenção. mas eu só consegui manter a luz sobre a teia enquanto fiquei debaixo do sol . já estamos quase no fim da floresta . .Está tudo bem. -Não! Não! .ele espiou pela abertura.. . Ela se sentou a começou a esfregar com força seu rosto. Só não consigo imaginar que outras surpresas essa floresta ainda tem para nós. Marlie e Allun batiam os pés contra a grama em volta dela.Jonn chamou. Jonn Forte e Bronden caíram ao lado de Rowan e saíram rolando pelo chão. Ela entregou o espelho para Marlie e se sentou.ele resmungou espantado . É um lugar um pouco estranho demais.Bronden observou. .Pelo menos longe de aranhas. seu ombros. -Foi muito útil. onde aranhas rastejavam depois de cair das roupas e de cabelo de Val.Jonn Forte berrou. sua nuca. Val. .Então sugiro que a gente siga em frente agora e que descanse e coma mais tarde.Pulei meio de longe mas algumas dessas criaturas já tinham voltado para o buraco antes que eu passasse por ele.. Rápido! Ouviu-se um grito do outro lado da teia e o som de pés correndo Então Val apareceu se atirando pelo buraco e caindo no chão com um estrondo. . Val! . .Parece que estamos seguros aqui . . Incrivelmente. procurando Ellis.ela explicou. Jonn dê um jeito de ela vir para cá! .Se eu me lembro bem do mapa. depois de passar por ela. encarando o vazio. .Marlie exclamou. .Val! Agora! Antes que o sol saia do lugar! .Ela está ali parada! .Ela está olhando para trás.

e não subindo. Ele linha ido embora. pegou seu cantil e um pão com queijo e começou a devorar a comida. eles estavam descendo. Em um acordo silencioso. mas a ausência de seu simples vulto entre eles fazia o grupo se sentir e parecer muito menor e mais fraco. Vamos conseguir comer melhor aqui. E então a floresta. ao longo da trilha. Sua irmã era quem tinha sido mais afetada. Em menos de cinco minutos. que de repente percebeu como estava faminto. rastejando. Ela caminhava como se estivesse doente ou completamente exausta. Sheba havia dito que seria assim. Era como se metade de sua força tivesse ido embora. Mesmo que a Montanha ainda se erguesse bastante íngreme à frente. Rowan se sentou agradecido. desde que ele acariciou Estrela e murmurou para ela. Agora eles eram seis.. Naquela mesma manhã! Era difícil acreditar que ele havia saído da aldeia havia tão pouco tempo. já tinha acabado com Ellis. e todos sentiam aquilo profundamente. quando ele se sentiu muito estranho c tímido. . Depois a terrível escalada pelo penhasco. Bem. Para oeste. Também chegaria a vez deles? De seus corações caírem nas armadilhas? Rowan seria o próximo? Se a jornada em si já eslava tão cheia de perigos.Vamos fazer uma parada . . como o mapa indicava. Houve a saída do vilarejo. eles perceberam que as árvores estavam se tornando mais finas e espaçadas. Ele quis cuspir tudo fora. Ela tinha dito que a Montanha iria acabar com a coragem deles e com o coração também. De uma forma que ninguém poderia imaginar.Parece que vai começar uma área baixa. chiando. A grama tinha se tornado bastante verde e densa. e o chão ficava mais macio a cada passo. O rosto de Ellis petrificado de medo antes de sair correndo. As aranhas. Rowan estremeceu. não horas. desde que ele abraçou Annad c deu um beijo de despedida cm sua mãe. não sete. Em outros cinco minutos. Então. Eles se dirigiram para noroeste. Ellis mal havia dito dez palavras durante a jornada. todos voltaram a caminhar. o que seria do fim dela? O Dragão? . Ele se lembrou com carinho de sua mãe arrumando o lanche para ele na cozinha de casa naquele início de manhã.. talvez um pântano. mas tomou um gole de água c se forçou a engolir. as árvores já tinham ficado para trás. Tantas coisas tinham acontecido com ele que pareciam dias.Jonn Forte sugeriu. O pão com queijo parecia sem gosto agora cm sua boca. deixando para trás seis corações que deveriam continuar. Jonn jogou a mochila para o garoto.

Aquele se liga menos às coisas. E Val permaneceu onde estava. . Da terra. Rowan se arrepiou outra vez.ela leu e franziu a testa. Enrole com cordas seu corpo e alma e deixe aquele feito de madeira o guiar com calma.Isso .ela passou os olhos por Allun.Jonn Forte disse . encostada em uma pedra.. Um passo por vez ou seus medos iriam derrotá-lo.Uma mensagem. frio. Bronden chegou até eles um pouco mais devagar. . meio com medo. E eu me arriscaria a dizer. . Estava preenchido.. esse aí não sou eu . e a verdade de sonhos se abastece.. resmungando.Então deve ser o menos emotivo do nosso grupo. Meio ansioso.E é claro que não é o Rowan...Sem sangue -Allun acrescentou esperançoso. Jonn Forte.Esse poema é mais confuso que o outro! .Marlie começou. Pelo menos não nesses últimos tempos.. "Nada aqui é o que parece.Jonn Forte esfregou o queixo outra vez. O que "aquele feito de madeira" significa? .Parece que vamos enfrentar novos perigos. Ele não . Allun e Marlie também se aproximaram correndo. Jonn estava atrás dele. Precisamos decidir o que vamos fazer em relação a isso. .e esfregou o queixo pensativo. . . .Mesmo assim. que não é você também. .. às pessoas.Allun exclamou..Madeira é algo duro.Rígido . . Um passo. ele olhou para o segundo espaço em branco. de cabeça baixa.Sem sentimentos.. . . -Bem. O mapa! Rowan o retirou de seu cinto e o desenrolou.Inflexível. liso. .ele começou timidamente. Ele olhou Rowan de lado e viu o garoto virar a cabeça.Duro... . olhando por cima do ombro do garoto.Esse também deve ser . sabemos que o último foi muito importante para nós . ." Rowan arregalou os olhos." Então dessa vez é bem importante saber quem vai nos guiar. Não ouça o lamento dos que ama.. Natural. .Sabíamos desde o começo . Sonhos são verdade. ."Não ouça o lamento dos que ama" . pois os que acreditam no que vêem a morte chama.Bronden ajudou.que todas as partes dessa jornada seriam assim . O que pode resistir melhor ao lamento dos outros.. -"Enrole com cordas seu corpo e alma e deixe aquele feito de madeira o guiar com calma. Ele não deveria pensar naquilo.Marlie comentou. Incapaz de sentir dor. É esse que deve nos guiar. Em uma fração de segundo.. .Allun disse decididamente.O mapa. .

Grossas raízes brancas saíam deslizando dos troncos úmidos que se torciam pelo ar. A lama foi ficando cada vez mais mole. não havia nenhum caminho marcado pela vegetação. Allun sentiu o cheiro que se espalhava no ar e torceu o nariz: . aparentemente por . "Não agora. Eu vou nos guiar. Só acredito no que vejo com meus olhos." -Acho que. arrastando os pés. eles estavam de volta à jornada. e as botas de todos começavam a afundar um pouco na lama. O único som que se ouvia eram seus pés esmagando o chão mole com passos cansados. Eles ainda caminhavam em uma descida. Trinta minutos depois. Trabalho sozinha com madeira o dia todo.ele disse com nojo. que não se mexiam com o vento. Na frente deles. com folhas escuras. e o solo ficava cada vez mais úmido debaixo de seus pés.queria pensar em Jonn Forte e sua mãe.Eu não tenho família nem pessoas muito próximas. densa e meio amarelada. Nem nunca. atrás deles e em volta deles só havia névoa. As botas de Rowan espirravam barro a cada passo.Bronden comentou. já alimentados e descansados. ainda em um silêncio estranho. a névoa ficava mais densa. Val ia atrás dela. Depois. Dessa vez. Crostas de fungos brancos saltavam das cascas das árvores como se fossem línguas. para substituir as que tinham perdido por causa da fuga de Ellis. mudando de forma e de direção. parecia que eles tinham entrado em um mundo secreto. Ela também envolvia as árvores e subia como vapor da lama lisa e dos montes de cipó que se estendiam por todos os lados. Bronden ficou de bom humor pela primeira vez desde o início da viagem. Todos paravam com obediência quando Bronden pedia ajuda para cortar as extremidades pontudas das árvores que atrapalhavam a caminhada. Allun e Marlie vinham logo em seguida. balançando na frente deles e exalando um cheiro de pinho. Um mundo de névoa e lama. seguiam Rowan com Jonn Forte. todo dia. E assim ficou decidido. E então surgiu a névoa. .Um pântano! . À medida que os minutos passavam. Feliz por estar liderando o grupo. dos três que sobraram. Bronden se inclinou sobre sua bússola. que outra vez carregava a mochila do garoto "para equilibrar o peso". A grama verde já tinha desaparecido. franzindo a testa na tentativa de se orientar enquanto a névoa os circundava. paralisado. Por fim. Bronden disse que depois eles poderiam juntar os galhos e fazer tochas que durassem bastante. caminhando na direção noroeste indicada pela bússola. As árvores pelas quais eles passavam agora eram diferentes. eu sou a que mais combina com essas características . e gosto disso.

. E a lama chegava em sua cintura. em segurança. A névoa diminuiu e ele pôde ver Estrela girando os olhos em pânico. pense! Como a Estrela poderia estar aqui? É impossível. menino! Que idiotice foi essa? . puxaram os dois de volta.ele gaguejou. espremendo os olhos para tentar distinguir a imagem através da névoa que girava. disfarçando a forma do que ele via. Rowan gritou.Rowan gritou soluçante. Ele gritou outra vez e bateu os braços no monte de barro. Sem pensar.Você. Rowan viu algo se mexendo. Ele diminuiu o ritmo.Jonn Forte disse devagar c alio. E Estrela não parava de chamar por ele. .. Então. A forma de.. a minha buksha! Ela está ali! Ah. . . Eles caíram uns sobre os outros no chão lamacento.A Estrela! . . . . Ele estava se afundando naquela lama sem-fim. com o som medonho do barro querendo sugá-lo para baixo.a voz de Jonn Forte acordou Rowan de seu terrível pesadelo. .Foi. Pedindo ajuda para ele.. já que nenhum sopro de ar agitava as árvores.Estou indo.. Rowan conseguia ouvi-la.. A lama permanecia parada e tranqüila. Era Estrela! Estrela. Rowan . subia e descia. ignorando a exclamação de surpresa de Jonn.Peguei! Puxem! . Ele esfregou os olhos.. Rowan pulou para salvar Estrela. - Nada! Pense. inclinando-se sobre o garoto de forma ameaçadora. E Bronden e Vai. você arriscaria nossas vidas e . segurando os tornozelos de Jonn. Não havia solo firme. à sua esquerda.A minha Estrela. enquanto esperneava nos braços de Jonn Forte e batia no peito molhado e enlameado do companheiro.Que tolice. apavorada..vontade própria. As mãos de Jonn o seguraram por debaixo dos braços e o arrastaram para fora da lama. em seu peito. A luta de Rowan foi diminuindo..ele gritou. Ele não conseguia achar um lugar para apoiar seus pés. parecia tão real . .Bronden começou.. como antes.Real ou não. movendo o pescoço violentamente de um lado para outro na lama pegajosa e sufocante. arfando e ofegando em uma poça de lama que a sugava cada vez mais para baixo. vocês precisam me ajudar! Ela está se afogando! Ela está morrendo! Escutem só! -Não há nada ali. Mas a lama o puxava para baixo também. A névoa continuava em volta deles. Ele se aquietou e olhou para o local onde Estrela eslava.Bronden se enfureceu. Estrela! .. Algo grande e escuro. criança. berrando.

Vamos cuidar bem onde pisamos . Coberto de uma lama grudenta.. Você é filha de Rin e deveria ter bom senso... Aquela sujeira úmida grudada em suas roupas e presa em seus sapatos o deixava mais pesado.É só a névoa.Allun sugeriu. Marlie. .ele tapou o nariz -.Jonn Forte avisou. . enchendo suas bocas e narizes com o gosto e o cheiro do pântano. ..Você tem passado tempo demais com o seu amigo meio viajante. Não dê ouvidos às histórias dele. . olhando para trás. mas nem todos pensam como você. . ... .de repente ele parou de andar. .O mapa nos avisou sobre isso. na minha opinião. Allun e Jonn trocaram olhares. Ele falava de sonhos que pareciam verdade e de pessoas que amávamos que chamariam por nós. Bronden franziu a testa e se virou. lutando desesperadamente no pântano. Com certeza. .Marlie acrescentou rapidamente enquanto Bronden soltava um suspiro inconformado. ela era capaz de entender.Essa lama é uma armadilha. Mais do que ver.nossa missão para salvar uma criatura idiota? Que valor tem a vida de um buksha em comparação com a de um humano? Que loucura. Eles continuaram a caminhada a passos lentos.ela ofegou.Deixe o garoto em paz. Dedos gelados. O mapa ainda estava lá.Só. Bronden -Jonn interrompeu. no meu rosto.. E vamos ler que perder mais um pouco para o Rowan e o Jonn secarem as roupas deles. . no meu pescoço e. Marlie . . Podemos não ter tanta sorte da próxima vez. E mesmo assim ele só pensava em Estrela.O mapa . mas pelo menos não perdido para sempre. com a lama se agarrando em suas botas. A névoa ficou mais densa ao redor deles. O mapa! Rowan apalpou seu cinto ansioso. precisa muito ser feito. Ele ficou imaginando por que Bronden tinha se zangado tanto com ele.Dedos..Perdemos tempo.Vamos continuar .Estou sentindo. alguém está me tocando .Allun a acalmou. . . . O pescoço dele se contraiu e ele também olhou para trás.. Ele não ousava levantar os olhos com medo de vê-la outra vez. O que . ele sentiu Marlie começar a agitar as mãos e esfregar as bochechas e a nuca.. Rowan andava com a cabeça pendida sobre o peito. Há espíritos aqui que não querem o nosso bem. .? .Bronden fungou.Entendo que você tenha razões para dizer o que diz.Espíritos! .

Jonn agarrou Allun pela jaqueta e o puxou de volta. Jonn! .ela deu um tapa no seu pescoço e nos braços e esfregou o rosto.. seu idiota! Ela está me chamando.. Os outros viraram curiosos para ver o que ele encarava. empurrando Jonn e Rowan. .Como.Deixe-me em paz..Não tem ninguém aí! Jonn. olhando para a névoa. Perdida na névoa à frente. Mãe? Mãe! Espere! . Allun! . . . Bronden gritou. que o puxava para baixo.Marlie gritou.observando por cima do ombro de Jonn Forte.Não. Ela está perdida no meio do pântano. O queixo de Allun caiu.. . . faça ele parar! .É a minha mãe. somente uma vez.ele gritou. Mas não havia nada ali. Preciso chegar até ela. . .Ah! Pare! Pare de me tocar! .seus pés caíram pesados sobre a lama mole.O quê?. Allun se virou para ele nervoso: .então ela balançou a cabeça com violência. Ele começou a voltar pelo caminho que eles tinham feito.

A Bronden está. Allun.Jonn gritou.. -É uma visão! Uma visão! A sua mãe está em casa. Ellis! Marlie! Jonn! Socorro! A Bronden.. não! . Eu não consigo segurá-la. minha nossa. Ele começou a lutar.O que está acontecendo? . . Socorro! . tentando se desvencilhar dos braços de Jonn Forte.. . dando socos no rosto dele. venham me ajudar! Ellis! Ah. chacoalhando o companheiro.Não. homem! ..Val gemeu mais à frente no caminho.Por que vocês não vêm? Ah.

com o rosto virado para baixo.. Ela foi se enfiando cada vez mais dentro do lamaçal. Eu. que ouviu Allun gritar: . atravessado no caminho.Ajude a Marlie! Eu não consigo. mas Marlie era pesada e seus tornozelos estavam escorregadios com a lama. mas de forma determinada a escapar..Jonn! . Val gemeu. Rowan . Ela não me ouve.. mas começava a parecer mais confuso do que nervoso. Seus pés estavam sobre o chão sólido. até que ficou deitado de bruços. . Marlie retirou de sua mochila um rolo de corda.Para trás! Rowan! Tente me puxar para trás agora – Marlie gritou. mas fortes. e Rowan foi puxado para a frente. -De repente ela gritou e se jogou na lama . Ela esticava os dedos na direção de algo que só ela podia ver.ele grilou desesperado. Marlie e Rowan correram na direção da voz de Val. Jonn seguiu atrás. E Bronden lutava contra ela..Marlie! Houve algum movimento atrás dele. enfiado em um monte de cipó. . -Segure meus pés. . então duas mãos magras. . . Ela tinha suportado o peso de Bronden por muito tempo. Eles encontraram Vai deitada no chão.Val ofegou. arrastando Allun. – Não consigo puxá-la de volta. ele sentiu suas mãos começarem a escapar. Não conseguiria continuar segurando mais do que aquilo. enquanto o pântano a sugava para baixo. que ainda lutava. pousaram sobre as de Rowan. mas seu corpo se misturava com a lama e seus braços seguravam Bronden pela cintura. tentando alcançar Bronden.ela pediu e se jogou no chão ao lado de Val. Rowan segurou Marlie pelos tornozelos e a observou se esticar toda no meio dos cipós. Marlie era alta. Lutava em silêncio. se o Ellis estivesse aqui.Você consegue? Rowan puxou com toda sua força. mas não tanto quanto Val. Ah. Seus músculos se esticaram por completo quando Marlie colocou suas mãos por baixo das mãos de Val e enroscou a corda no cinto de Bronden. Em pânico. Eu não consigo pensar sem ele.

Val. Foi necessária a força de todos os três para puxarem Bronden de volta. e eu ainda era novo em Rin.Quem a Bronden viu? Jonn balançava a cabeça tristemente. Acho até que a Bronden tinha se esquecido da Ginna.seu rosto firme se contorceu e lágrimas começaram a cair de seus olhos. . Seria por isso . . Mesmo depois de estar segura ao lado deles. a Bronden tinha uma amiga. Na antiga mina. Ginna era quieta e tímida. Você sabe disso. -Peguei você. . Mas.. Marlie. Allun começou a puxá-la de volta em segurança. Val . Rowan. sozinha.Marlie disse devagar.A Ginna está aqui. Mas este lugar. . até as crianças. . Bronden gemia e chorava. saímos em busca dela na noite em que ela desapareceu. Ouvi a voz dela. Ele já tinha ouvido aquele nome antes.A Ginna morreu. Bronden gemeu e ergueu os olhos para Val. Todos nós.Rowan sussurrou para Jonn Forte. Elas nunca se separavam. Para a Bronden.Quem é Ginna? . brigona e destemida. .Ginna. Ginna.Ginna . . Ginna havia morrido procurando um buksha perdido. . Para a Ginna. . Bronden estava toda cheia de lama e continuava lutando contra os companheiros. com a corda que segurava a vida de Bronden presa em sua mão. Por que você não me deixou ir com ela? Jonn Forte se ajoelhou ao lado de Bronden: . encarando o choro de Bronden. enquanto Val se deitava exausta e Rowan ficava por ali sem saber o que fazer.ele disse em tom gentil.. Rowan arregalou os olhos. Rowan . Ela passou esses anos todos vagando por aqui. . só existia a Ginna.Eu a vi. Senti a mão dela no meu rosto.Os ossos dela foram encontrados junto com os ossos do filhote que ela estava tentando salvar. a não ser em um canto escondido bem no fundo da memória dela.ela chorava. .. que estava curvada sobre ela ansiosa.Eu tinha me esquecido da pequena Ginna . Ginna! .E sua mãe também deve se lembrar. gentil e tímida na mesma proporção em que a Bronden era exagerada. como ele.Val. só existiam a Bronden e os bukshas.Eu me lembro da Ginna . ela ainda é uma menininha. .ele disse.Allun começou a explicar -. Bronden ..Quando éramos crianças. a guardiã dos bukshas naquela época.ela gemeu. Uma garotinha quieta. -Tinha me esquecido completamente. mas não conseguia lembrar onde. Ela não cresceu. até que a Bronden ficou uma fera com você por pensar nos bukshas. tentando engatinhar de volta para o poço de lama que quase a tinha engolido para sempre. Ginna. Era a sua única amiga.

Val gemeu. ela vai parar e arrumá- los. Ela está a salvo. . Bronden .O Ellis não voltou para Rin .? -Não sabemos se aqueles ossos junto com os do filhote eram da Ginna . .Volte aqui! Mas Bronden não se virou nem hesitou.Ela ficou com os galhos que cortamos para fazer as tochas - Allun se lembrou. você precisa vir! . Eu posso sentir. E tentaram fazer com o Allun e a mãe dele. ela se desvencilhou de Jonn. descansando no túmulo dela. ainda em tom gentil.As aranhas! . Os espíritos do pântano pregaram uma peça horrível em você para que você saísse do chão firme.que. Ela não vai mais estar com medo e vai voltar a si. Em instantes. Ela se encolheu c pareceu exausta. .Ele está esperando por mim.Bronden olhou em volta com o rosto aterrorizado. .Não! . .Não temos certeza. vai ficar bem.Jonn. . -Vamos . Mas eu a vi. Seus polegares tapavam os ouvidos.Bronden fincou os pés no chão. Ela é forte. Val começou a estremecer. Ela lutou para ficar de pé. Eu sei. Sua expressão estava carregada de pena. . Jonn passou a mão na testa dela.Jonn Forte chamou. Ouvi – ela agarrou as mãos de Jonn Forte .Bronden resmungou. Rowan pensou..Não! Ofegante.Val gritou. "Agora somos cinco". os olhos opacos de pavor. ela já não podia mais ser vista.Não! Não posso! . Eu a senti.. Sempre imaginei. . .Bronden.Ela não vai conseguir atravessar a floresta! . não deixe que eles me toquem de novo! Não me deixe ouvir eles outra vez! Não vou agüentar. na beira da floresta.. virou-se e começou a correr de volta pelo caminho de onde tinham vindo. .ela sussurrou.Bronden! . .ele a ajudou a caminhar. ela pode queimar a porta de seda inteira e atravessar cm segurança. Bronden.Vamos. e os outros dedos cobriam os olhos. como o Ellis. e Bronden arregalou os olhos como um animal assustado. porque a Ginna não pode ter 10 anos ainda. Indo daqui para lá. .Mas você deve estar falando a verdade. -A Ginna morreu. A névoa se agitou em volta dela.. -Eu não acredito nessas coisas .Depois que sair daqui. . Como fizeram com o Rowan e a buksha dele. Ela vai voltar para o vilarejo.

Jonn. -Allun." Mas lágrimas rolavam pelo rosto triste e enlameado de Val. Eles enroscaram a corda de Marlie em suas cinturas e se amarraram um atrás do outro. .Vocês não vão entender. Vamos continuar. Rowan. Desde o berço. Mas eu não posso continuar com vocês . Allun soltou um sorriso cansado. Não podemos correr o risco que ninguém mais saia do caminho. Ela se virou para ir embora.ela informou.Já sabia disso quando chamei o Ellis enquanto a Bronden se debatia nos meus braços. Sua voz era suave. Allun e Marlie. . como se tivesse ouvido os pensamentos de Rowan. Não posso continuar sozinha.Marlie pediu. eu sinto muito. Nós nunca ficamos separados por tanto tempo em toda nossa vida. Mas eu não culpo vocês.Não posso continuar .Jonn Forte disse em tom firme. . O Ellis está me esperando." . Ela não olhou para trás. ela não conseguia continuar sem ele. Desculpem.Allun cante . . .ela disse. . . formando uma fila: Jonn. . Nós duas vamos juntas.Vamos nos amarrar uns nos outros.ela enfiou o rosto nas mãos. "Enrole com cordas seu corpo e alma. – Vou me apressar para encontrar a Bronden. Allun e Marlie olharam em silêncio enquanto Val se afastava.Não quero ouvir mais nada além disso. – E ainda temos muito pela frente. mas. . com dificuldade e tristeza.Menos mal que os que tenham restado sejam todos amigos. Os dois pareciam tão fortes.Vamos . "Somos só quatro agora.Era como se metade da Val tivesse ido embora junto com o Ellis. o que não lhes trouxe a paz que queriam.. mas.Sempre soube. Vocês vão pensar mal de mim. E ainda falta muito. Rowan. mantendo os olhos firmes no chão e os ouvidos atentos para o canto de Allun. mas parecia fraca e triste no meio da névoa.É verdade . no fim das contas. sem olhar para a esquerda ou para a direita.Também tenho como fazer umas tochas .Marlie disse finalmente. e eu preciso ir até ele. É estranho. ainda bem que você voltou a si a tempo de evitar que eu me afundasse na lama e ainda carregasse o pobre Rowan comigo - Marlie observou depois de um tempo. Está faltando metade de mim. Rowan pensou. Tentei demais não pensar nisso.. Ela foi corajosa e lutou. . . Eles continuaram a caminhada. .A Montanha está fazendo muito bem o trabalho dela – Jonn Forte comentou. "Quatro". Ele precisa de mim. Vamos. como se nada pudesse atingi-los.

Foi como se eu tivesse acordando de um sonho. Mas. o mais baixo do grupo. Se ele batesse contra o chão firme e a lama ficasse abaixo da marca. Mas eles só olhavam em frente e ignoravam os gemidos e lamentos que os provocavam. . em qualquer lugar que tentava. . esse pedaço de madeira.mas talvez as palavras tenham outro sentido. segurando firme na corda que os mantinha presos uns aos outros.ele anunciou. indo sempre para o noroeste. até que finalmente a lama começou a ficar mais firme sob seus pés e o chão começou a se inclinar. .O aviso do mapa dizia: "E deixe aquele feito de madeira o guiar com calma" . e fizeram uma marca na altura do ombro do garoto. sentindo o caminho.Allun disse. Teremos que achar outra direção. Então eles finalmente compreenderam as instruções do mapa e as obedeceram. . Ouviu-se um grito assustado vindo de Jonn Forte na frente da fila. era o que iria guiá-los. seu pé se afundava na lama. Então Allun e Marlie carregaram as mochilas de Jonn. que pegou Rowan e o colocou nas costas. Eles o mediram em Rowan. E sejam para nos ajudar agora.Acreditamos que o nosso guia deveria ser uma pessoa que não fosse tão sensível quanto os outros . Se o galho afundasse na lama até acima da marca. tirando uma perna molhada e lamacenta do chão movediço no qual havia se afundado. os quatro viam algumas formas surgirem bem diante de seus olhos e ouviam vozes sussurrando. ele afundava c ficava coberto acima da marca.Marlie começou hesitante.O que vamos fazer? . Eles sabiam que a temível jornada estava próxima do . E mais uma vez eles continuaram cm frente. eles lutaram para prosseguir.Ir para noroeste não dá certo . quase sempre mergulhados até o peito no meio da lama pesada e grudenta. Os quatro recuaram um pouco e apanharam o galho mais reto que conseguiram encontrar nas árvores. houve um momento em que.ela pensou por um segundo e continuou . Jonn afundaria o galho na lama pela qual eles teriam que passar. balançando a cabeça. Eles progrediam com muita lentidão e dificuldade. para qualquer lado em que se experimentasse a profundidade com o galho.Não dá para saber a profundidade desse pântano. -Ouvi a voz do Rowan chamando você . E esse galho. .Rowan perguntou. . Ele voltou cambaleando para trás. Jonn tentaria de novo e de novo até que encontrasse um ponto firme para se pisar. Ele pisou com cuidado ao redor. Finalmente. E o tempo todo aquela névoa amarelada pairava ao redor deles. eles dariam um passo naquela direção. Dando um passo de cada vez. Talvez elas queiram dizer exatamente o que elas dizem. Às vezes.

Cambaleando e exaustos. c chegaram a uma área onde a grama crescia verde outra vez. os quatro saíram do pântano e deixaram a névoa para trás. Ali eles se jogaram no chão e finalmente adormeceram. Eles subiram e subiram mais um pouco. .fim. até que o ar tivesse um cheiro agradável e o sol brilhasse sobre eles. junto com as árvores de folhas escuras.

Seus rostos e mãos estavam imundos. Enquanto eles comiam no círculo iluminado. Rowan observou os três adultos dormindo e ficou pensando no sentimento de carinho que agora tinha por eles.E acendermos uma fogueira. Agora. sorriu.É melhor acordarmos os outros . Ao redor do topo da Montanha. O ar estava ficando gelado. tudo parecia tão natural e tranqüilo. Ele ainda conversava e fazia as mesmas brincadeiras de sempre. endurecidos com a lama. Marlie e Allun ainda dormiam no chão. Rowan ficou sentado. deleitando-se com pão torrado c queijo derretido.. todos. mel. e Allun havia baixado a guarda. Já estava escuro e frio. contando histórias dos velhos tempos e lembrando coisas que os faziam rir. quando viu que o garoto a observava. Jonn.. pareciam mais novos e indefesos. ainda estavam úmidas e com o cheiro ruim do pântano. Ele pensou naquilo e ficou surpreso. Marlie e Jonn conversavam sobre o povoado.ela disse. Era porque Bronden. Como esse pequeno grupo era diferente daquele que havia começado a jornada com tanta coragem naquela manhã! E como ele se sentia diferente em relação à sua responsabilidade ali. Rowan tinha medo deles. Era quase como se estivessem sentados ao redor da lareira de Jiller em Rin. Val e Ellis não estavam mais entre eles. Ele se mostrava contente . . ouvindo-os como fazia em casa e pensando por que. coberto de nuvens. confiava neles. os cabelos. Assim. Logo depois. Ela se sentou e passou os dedos pelos cabelos pegajosos. até Jonn Forte. de repente. embora os conhecesse desde bem pequeno. mas sua boca não tinha mais aquela curva triste. Rowan acordou tremendo. o céu se pintava de laranja e vermelho. . os quatro estavam sentados ao redor da fogueira. frutas secas. mas também quase capazes de gostar dele. Marlie abriu os olhos. espalhados ao lado dele. Então ele percebeu. como as de Rowan. Rowan achava que eles não só eram capazes de cuidar dele. Allun. Suas roupas. bolo de aveia e a melhor torta que Solla fazia. piscou sonolenta por um instante e. A Lua jogava seu brilho esbranquiçado sobre o céu cheio de estrelas atrás de um véu de nuvens. Parece que vamos passar a noite aqui. Antes.

Eles deveriam economizar a água em seus cantis para beberem. Rowan. Ninguém mencionou Bronden. poderia ser quem realmente era. de certa forma. "Normalmente eu reclamo para tomar banho. Mas depois a comida foi posta de lado. Eles tinham secado suas roupas da melhor forma possível e penteado os cabelos imundos. eles trançaram os galhos verdes de Bronden para fazer as tochas para o dia seguinte e a fogueira se transformou em brasas." E. sentindo-se protegido pela presença deles. Rowan se mexeu. ainda que Allun agora fosse adulto. mas não tinham como se lavar. Ele nunca seria aceito por completo. cutucando a fogueira. ele pensou. com amigos cm quem ele confiava. Uma vez a mãe de Rowan lhe disse que. "Minha mãe iria rir disso". agora. ou sobre as aranhas. independente do quanto quisesse e tentasse. em silêncio. Será que ela estaria pensando nele? O que ela sentiria ao saber que os outros haviam voltado? Allun passou os olhos pelo rosto triste do menino. Rowan daria tudo por um demorado banho quente. de uma só vez. Aos poucos eles foram ficando em silêncio. E precisava mesmo estar. já que era óbvio que alguns dos moradores de Rin. No seu modo de ver. Mas ali. achavam que Allun nunca seria um deles. Desconfortável. Então. . Jiller deveria estar sentada perto da lareira no andar de baixo. Ninguém olhou o mapa enquanto ele permanecia aberto no chão para secar ao calor do fogo. como os três que haviam deixado o grupo hoje. Sua consciência daquilo o mantinha alerta. E. Ninguém conversou sobre o pântano. ou sobre o caminho a ainda ser percorrido. ela tinha entendido que as brincadeiras e piadas de Allun formavam uma armadura ainda mais forte que os músculos de ferro de Val e de Ellis e que o mau humor de Bronden. Bronden e Val já deveriam estar chegando em casa. observando o rosto magro e moreno de Allun iluminado pelo fogo. Ellis. Eles não deixariam de jeito nenhum que a escuridão os interrompesse em seu caminho de volta. pois seu pai era um viajante. pelo menos.pelo simples fato de estar sentado ali. a escuridão começou a pesar sobre eles. Rowan podia ver que aquela armadura ainda estava sempre a postos. Naquela hora. Val ou Ellis. viu que de certa forma ele ficava dividido entre dois povos. quando eles eram crianças. Rowan ficou ouvindo a conversa dos outros. Talvez lendo ou costurando alguma coisa. Eles chegariam a Rin aos tropeços no momento cm que as pessoas começariam a apagar as lamparinas e ir se deitar. Annad já deveria estar dormindo no pequeno quarto que dividia com Rowan. uma pontada de solidão o feriu.

está muito bem escondido . . Garotinhos! . Marlie e confirmou com a cabeça para Jonn Forte: . eles teriam que seguir para oeste novamente. . lá estava o lugar onde ele havia estado. subindo até chegarem ao que deveria ser um grande penhasco. O coração de Rowan quase parou com a idéia de outra escalada horrível. Ele deu um sorriso tímido para Allun. pegou a torta das mão. Jonn Forte olhou para cima.Pense nisso. a mesma lua está brilhando sobre Rin . depois veremos. Apesar do cansaço. Rowan? . Dali.Vou dar uma olhada no mapa . Rowan .Mas não se esqueça de que pessoas também querem dizer armas e medo de estranhos.ele disse. apontando para o céu. e nós somos poucos.ele murmurou.Será que vamos encontrar pessoas nesse lugar? Ah. Saímos no primeiro raio de sol. Com o dedo.Não vale a pena guardar este último pedaço da torta." . . sua trilha surgirá iluminada afinal e o levará para longe da noite imortal. Vamos descansar agora.Marlie disse. Rowan ficou dei lado algum tempo sem .Aposto que você consegue comê-lo por nós.Allun exclamou. Ali a linha vermelha marcava uma subida acentuada. no lugar onde respira o rosto que admira seus brilhantes olhos com gosto. . Não acha. Marlie! E banheiras quentinhas para nós! E camas macias. Ao que parecia. já tinham concluído cerca de um terço da jornada. . .ele disse.Sabe.Jonn perguntou despreocupadamente quase ao mesmo tempo. cada um a seu modo. Ele se inclinou sobre o pergaminho e lentamente leu as palavras sob a fraca luz do que havia restado da fogueira: "Procure a mão que indica os caminhos e siga por onde brincam os garotinhos. -Mesmo assim. para a Montanha escura e silenciosa.Talvez . . estendendo o pacote para o garoto. . traçou o caminho que tinham leito e encontrou o local onde eles estavam acampados. E pratos de sopa! .Se houver algum povoado aqui por perto. Lá estava ele. Não convém chegarmos muito tarde para essa "visita". Rowan percebeu que todos estavam tentando consolá-lo.Marlie disse. Ele retirou a lama seca do pergaminho com as mãos. Ele olhou para o terceiro espaço cm branco no mapa. Elas podem ser muitas. Ou melhor. Então.O mapa já deve estar seco. pessoas querem dizer água.

por um instante. Outro dia. ele tinha passado tanto medo que. e Marlie esticada debaixo do dela. Ele imaginou os sons confusos dos animais cheirando a água ainda mais escassa que antes. E a Montanha continuava em silêncio..Depois de pensar bastante no assunto. com a fogueira ainda em brasas. "Logo estaremos no topo da Montanha. cheios de terror. Rowan pensou. "Estamos indo o mais rápido que podemos. havia se esquecido de verdade de seu maior temor. sempre terminando do mesmo jeito. Rowan ainda estava pensando nisso quando eles recomeçaram a viagem. você acha que o Dragão pode ter morrido? Ou ido para outro lugar? . Os outros estavam deitados em silêncio: Jonn e Allun enrolados em seus cobertores como lagartas." *** Rowan acordou com a cabeça pesada..Espero que sim . Eles deveriam estar com muita sede. "Noite imortal. Do mesmo jeito assustador que o manteria acordado e daria início a tudo outra vez.. Ainda não era dia. Noite imortal.conseguir dormir depois que todos trocaram boa-noite.Não ouvi nada vindo do topo da Montanha hoje de manhã . Amanhã ou no dia seguinte." Então ele percebeu uma coisa e seus olhos se abriram novamente. Estrela.... Então ele pensou em outra coisa. Até agora. "Ela vai sentir frio à noite". Eles experimentariam a lama marrom que havia restado e então balançariam as pesadas cabeças e bateriam as patas contra o chão.. Ele se sentia aquecido. mas o céu já clareava e pássaros cantavam em algum lugar. E o Dragão. Vamos fazer a água correr outra vez. Rowan pensou em Estrela e nos outros bukshas se encaminhando para o lago junto com Jiller e Annad para procurar água para beber. Outro amanhecer." Rowan fechou os olhos e pensou nessas palavras com toda sua força. . ouvindo Marlie jogar terra sobre a fogueira e Allun assoviando.Allun .Allun respondeu animado. cheguei à conclusão de que prefiro não cruzar com ele. Mas as palavras do poema no mapa não paravam de ecoar em sua mente. Noite imortal. . como se assim a sua mensagem pudesse chegar até sua amiga.. subindo em direção a oeste. Tanta coisa havia acontecido. Seu coração disparou e ele se sentiu tonto. Mais uma vez.ele chamou timidamente -. Logo. a não ser pelos pássaros. eles alcançariam o topo da Montanha. o Dragão não havia rugido. . E ficariam imaginando onde ele estava.

Ele apertou os lábios para prender o choro e o grito de pavor. era possível ver uma mancha verde. só no caminho íngreme à sua frente. na frente dele. só acreditava naquilo que estava na frente dela. Jonn Forte começou a andar mais rápido. E Bronden havia descoberto que estava errada. Não havia lugar para se apoiar os pés. ele não tinha mais energias para pensar cm nada. Encarando a Montanha lá de longe. Nada. Ele olhou para Rowan: . muitas rezes. aquele penhasco estava distante e parecia pequeno. estava um penhasco praticamente vertical em pedras de um vermelho meio dourado que reluziam sob os primeiros raios de sol. Muito errada. Nenhuma planta. Não há prova nenhuma de que as velhas histórias sobre ele sejam verdade.Nem eu. . Naquele instante.. o mesmo pensamento passou pela cabeça de todos.-Marlie comentou. .ele acrescentem . Contudo. Depois de um tempo. naqueles momentos. -A Bronden com certeza não acreditava nele . nenhuma pedra pontiaguda.É claro que muitos dizem . Estendendo-se sobre o topo das árvores bem cm cima deles. mais ele via que ninguém seria capaz de fazer aquela escalada. Quanto mais perto eles chegavam. Talvez como Jonn tinha planejado. Ele não conseguiria escalar aquilo. 0 brilho de uma faixa vermelha c dourada e a nuvem que escondia o cume. enquanto ia tomar conta dos bukshas ao nascer do sol. Rowan olhou para cima. Ninguém nunca o viu. Não havia nenhum lugar nas pedras avermelhadas para se enrascar e subir. mesmo sem o peso a mais.. nenhum buraco. Pois ele não era o único que não conseguiria subir o penhasco. e ele conseguia ver que ela descia da nuvem como uma parede. A simples visão da Montanha o enchia de terror. e Marlie gemeu. Nem ontem à noite .Marlie disse. o garoto precisou se esforçar bastante para acompanhar o ritmo. mas foi tomado por um completo desespero. Eles tinham chegado tão longe e lutado tanto para acabarem sendo derrotados pela Montanha.Jonn Forte concordou. Ele sabia que não seria capaz.que não existe dragão nenhum no topo da Montanha. Eles atravessaram alguns arbustos meio espinhosos agrupados no topo da subida. Ele estava carregando a mochila de Rowan de novo. Mas agora a Montanha estava ali. Então Allun exclamou. mas. Ele se deu conta de que já tinha visto aquele lugar antes. Uma parede quase tão lisa e plana quanto a do moinho de Rin. Ele quase perdeu o fôlego enquanto encarava fascinado o precipício. Bronden nunca acreditava em nada que não visse com os próprios olhos.

.Jonn exclamou. Rowan pôde distinguir seus gritos no meio dos gritos dos outros. . eles baixaram as cabeças e se agacharam no chão arenoso.Muito funda. . Allun e Rowan se levantaram devagar.É o que parece . quando saíram do meio das árvores e viram o que havia sob o pé da Montanha. enxugando o suor da lesta e estremecendo ao mesmo tempo. E longe do clima daqui de fora! . Ela formou uma labareda grande e depois diminuiu para uma chama branda e firme. -Talvez vejamos um caminho mais fácil quando chegarmos ao ponto certo. . A linha vermelha subia bastante acentuada sim. . Eles acenderam uma das tochas que haviam feito na noite anterior.Que alívio! Ela forçou um sorriso: -É mesmo .Quem vocês acham que estavam mais assustados? Nós ou os morcegos? .ela respondeu.Uma caverna! .? Rowan! Eles se amontoaram ao redor de Rowan enquanto o garoto desenrolava o mapa. O ar estava frio.Jonn Forte confirmou.Estamos com um problema . Os quatro foram recebidos por uns chiados agudos c pelas batidas de milhares de asas duras de centenas de morcegos que. meia hora depois. .Allun observou.Allun cantarolou.Maravilha! . Entretanto. e um vento gelado soprou ao redor deles.. mas não no mesmo ângulo em que o penhasco chegava até as nuvens. Será que.Marlie pediu. segurando a tocha com força enquanto eles entravam na caverna. Allun c Jonn pareceram muito sérios quando retomaram a caminhada. Jonn Forte.. roçando em seus rostos. perturbados durante o seu descanso diurno. aliás. Ele apertou os olhos e analisou o precipício. Aos gritos.Não vamos entrar cm desespero . Ele espiou dentro da negra abertura que mais parecia uma porta na rocha.Um caminho fácil. Rowan notou que eles não tinham a mesma esperança que Marlie. mas Rowan viu que o rosto dela ficou pálido. com os braços protegendo os olhos. Foi como se uma década tivesse passado ate que os chiados agudos acabassem e as criaturas apavoradas tivessem fugido. . respirando acelerado como se tivessem acabado de sair de uma corrida. Eles se olharam c Allun esboçou um sorriso: .ele se virou para Marlie: . Somente depois da calmaria é que Marlie. Marlie liderou o caminho. caíram do teto da caverna e rodopiaram em volta deles. eles compreenderam como suas palavras eram sábias.

-Olhem! .. "Procure a mão que indica os caminhos. Era mais fina na parte de baixo.Rowan gritou. sozinha. . aumentando as sombras. para dentro da Montanha. que mais parecia um dedo.. ao lado de uma abertura larga e curva que parecia levar para outra gruta. e da parte de uma saía uma pedra comprida e estreita. Bem no fundo da caverna. Gargalhadas de alívio ecoaram nas paredes de pedra. havia uma pedra grande. com um formato estranho. eles seguiram em frente e atravessaram a fenda na rocha. A tocha tremulou." Com a tocha erguida.

Deve haver metal nas rochas . Marlie levantou a tocha e Rowan prendeu o fôlego impressionado. -T-talvez sejam as pedras . como se fosse um caminho.ele começou. Rowan olhou em volta. E o formato delas. . Era aquilo mesmo: duas linhas formadas pelas estranhas pedras. Entre elas. Ela ficou inquieta.Mas é claro! . " Siga por onde brincam os garotinhos" . inclinadas e curvadas como crianças engatinhando.Aquelas pedras que são menores que as outras.Rowan gaguejou. A tocha jogou uma l u z amarela sobre o rosto dela.. mas logo hesitou. - Foi isso 0 que 0 mapa nos disse. . subiam pela escuridão. . Estava escuro. . abria-se um caminho de areia. refletindo as cores do arco-íris. . talvez.. -Fale. Ele esticou o dedo e apontou: .Jonn deu um passo à frente.. E muito frio. . seria besteira confiar totalmente na bússola. olhou a bússola e hesitou: . Mas. como vamos achar o caminho que devemos seguir? Podemos nos perder com muita facilidade nesse labirinto. ficou na ponta dos pés e esticou o pescoço até que viu o que estava procurando. Rowan . Ali tem um espaço entre elas. muito escuro. De qualquer forma. . Era impossível ver seu fim.Rowan citou. Ele não queria levá-los pelo caminho errado nem que rissem dele.Marlie sugeriu.Alguma coisa está interferindo. A agulha da bússola está oscilando . Talvez. Talvez ele estivesse sendo muito ingênuo. . -Eu acho que..ele disse.Isso não é hora para qualquer um que tenha um plano ficar de boca fechada. A caverna era enorme. apoiando- se cada hora em um pé. Grupos e filas de formas estranhas e achatadas saíam do chão.Jonn Forte pediu. sem ela.Allun pegou a tocha da mão de Marlie e os levou até o ponto que Rowan indicava. Só uma criança muito corajosa iria se aventurar aqui - Allun observou. Inúmeras hastes de pedra se penduravam do teto elevado da caverna.

tomem cuidado. Eles se espremeram pela abertura. Sempre para cima.ele gritou. . nunca ninguém iria encontrá-los. Eles iam cada vez mais para cima.Vejam com seus olhos . Os quatro quase não diziam nada. "A noite imortal". pois o caminho era muito íngreme. o que foi? . Eles viram o nariz de pedra torcido.Está aqui. Eles seguiram caminhando. E olhos brilhantes que emitiam raios .. as crianças de pedra se inclinavam e se esticavam em uma brincadeira que parecia não ter fim. Mas devagar. .Marlie gritou. com cuidado.ele disse. Grossas hastes de pedras amarelas e brancas pendiam do teto. O chão escuro e brilhante abaixo da margem onde eles estavam era liso como vidro. Ao olhar para trás. e a Montanha seria o túmulo deles. todos subiram na direção dela.Mas. Rowan tentou ignorar o medo. . Eles ficariam vagando pela noite imortal até que morressem. Diante deles. A tocha reapareceu e. ele pensou e estremeceu.Allun. Rowan tentou não pensar nas toneladas de pedra e terra que havia cm volta deles. . a sua respiração. .O rosto! . Para cima. O silêncio em volta deles era tão pesado quanto a escuridão. simplesmente enfiou a tocha pela lenda. -Mais uma caverna! . . Ele não sorriu quando os outros três se aproximaram.Procuramos um rosto que respira e que tem olhos brilhantes -Allun riu. . Ao lado deles. .Então o caminho já está marcado para nós . Eles estavam subindo pelo centro da Montanha. Eles o viram subir com dificuldade e a tocha desaparecer. .a voz de Allun chegou ate paredes que eles não podiam ver e ecoou de volta. mas ele cresceu e pressionou seu estômago e sua cabeça. guardando a bússola.ele exclamou. Ele os guiou com a tocha iluminando o caminho à frente. em direção à caverna acima. Uma saliência que parecia um rosto olhando para baixo. .O rosto . Allun estava de pé ao lado de uma larga fenda na rocha. na lateral ao longe. as bochechas inchadas. Não conseguimos enxergar. a boca rachada e o queixo grosseiro. Venham. Se eles se perdessem ali. Rowan viu a caverna se escondendo na escuridão... o ofegar de Marlie atrás dele e o som das botas de Jonn à sua frente esmagando a areia e batendo contra a rocha. abrindo caminho. . A voz dele soava estranha. Uma parede com uma saliência bem no meio. estava uma parede de pedra. Rowan ouvia somente o chiado da tocha. .E agora. de novo.a voz dele foi sumindo.Será interessante.Jonn conclui satisfeito. saindo de uma caverna e entrando em outra.O rosto está. impedindo o ar e a luz de entrarem. como se ele estivesse engasgado. ..Allun responda! Allun traga a luz de volta. dificultando a respiração.

levante-se! .Marlie questionou. . . como o poema disse. querida.Ele respira .Mas como eu poderia saber? Quem teria imaginado que seria assim? - ele esfregou os olhos e balançou a cabeça.E. formando círculos crescentes sobre a superfície lisa do que eles tinham imaginado que fosse chão sólido. . . um assovio. uma respiração.Agüentamos o frio e vamos nadando. e o cristal desapareceu. . "Sua trilha surgirá iluminada afinal. . Ele pareceu perturbado.É o ar de lá de fora que estamos ouvindo. ..Eu nunca teria vindo se soubesse . Ele estava de pé. Allun ergueu as sobrancelhas: -A questão. ainda com uma voz estranha . e ele os encarou também. Os viajantes se recusam a ter qualquer tipo de ligação com água em grande .Marlie pediu. Venha! Precisamos continuar.Água . Nesse instante.? . - Os viajantes deixam essa história de natação para o povo de Maris. porque são eles que tiram o sustento deles do mar. Pequenas ondas surgiram silenciosas. É o que faz mais sentido.O rosto respira.Eu acho ." Também havia um som ali. é que eu não sei nadar. muito funda. .ele explicou. Ela c escura e gelada e não dá nem para ver o fundo. . Um suspiro.Marlie sussurrou. Ouviu-se o som de golas espirrando contra o chão. ele escorregou para o chão e se sentou..Allun. .Jonn exclamou.Que brincadeira é essa? .Allun.Allun disse cansado. Marlie! Já subimos muito no meio dessas cavernas. não estamos entendendo nada do que você está falando.Allun disse. com as costas pressionadas contra a parede da caverna. que caiu sobre o chão negro c brilhante.Os viajantes não ensinam as crianças a nadar .Allun disse. Marlie. .O quê? Todos o olharam incrédulos.Deve haver uma abertura que deixa o ar passar! . que têm membranas entre os dedos para facilitar lodo esse negócio horrível de nadar.que pelo menos eu estou no fim da minha jornada agora. Com certeza. Jonn Forte fechou a cara e se virou. . . sua bota chutou um cristal da rocha. . de um jeito meio agressivo. devemos estar quase no fim da nossa jornada.de luz no chão. Quando os outros o encararam.Metade da caverna está coberta de água. E é muita água. .

Não tem água em Rin. etc. você não aprendeu a nadar quando era criança. O garoto até estremeceu ao se lembrar das aulas que teve no rio.ela o encarou desesperada.quantidade. Eu teria que pedir que me levassem para o rio da planície junto com as crianças de 3 anos! Como o Ellis teria se divertido com isso! .Como se pode imaginar. Marlie. mais do que caberia em uma banheira. Da mesma forma que você precisa saber escalar. Mas você poderia ter perguntado alguma coisa sobre aulas de natação.Ah. o garoto viajante. Ele acabou aprendendo a nadar. . Allun deu um sorriso amarelo: . embora não tivesse gostado nada da experiência. Se não.ele encolheu os ombros e fez uma careta engraçada. -Mas em Rin todos nós aprendemos a nadar. Como agora. Allun realmente entendia como ele se sentia. Mesmo que viva longe. ter todas as habilidades físicas que alguém pode ter. quanto mais eu adiava. .Somos quase que obrigados a aprender. sim. O Rowan pode confirmar isso para você. Em Rin. Esse tipo de coisas em Rin c visto como muito importante.Então. você não compreende nada. por exemplo. Allun. era silêncio. você precisa saber nadar.Eu já não era engraçado e ridículo o suficiente? Eu. mais impossível ficava .. . Praticamente logo depois que começamos a andar. . Mesmo assim. é muito difícil lidar com as brincadeiras de outras crianças. Allun! .As pessoas precisam estar preparadas para qualquer aventura com que possam se deparar. que confirmou com a cabeça. Marlie segurou no braço de Allun: -Eu compreendo. Ele dirigiu o olhar para Rowan. etc.Rowan comentou. . é diferente. O que eu iria fazer? Deixar aqueles moleques estúpidos que tinham aula comigo saberem da minha fraqueza e me fazerem de palhaço? Eu também não podia aprender escondido. ou seja. no meio do continente. magricela e desengonçado que nunca tinha usado sapatos e não conhecia nada da aldeia e de como vocês viviam? Aos 10 anos. . Então ele estava mesmo certo.Mas elas são importantes . lutar.Marlie disse.ele acrescentou. Mesmo que você precise viajar um dia e uma noite para aprender a nadar e fique um ano inteiro ou a vida toda sem precisar nadar. correr. etc.. Lamentável. Ele a criticou: -Não. Temos que ir para o litoral ou para o rio lá na planície especialmente para isso. você é considerado um inútil. Mas por que raios você não aprendeu quando chegou a Rin? Allun a encarou: . você precisa saber fazer tudo. a não ser pelo córrego e pelo lago dos bukshas. Em Rin.

Não muita. Até agora.. .Se você.ele completou em tom brando. -Jonn. De sete formas cairão nas armadilhas. o pântano será fatal. Você terá que dar um jeito de voltar para Rin. Espere até que voltemos.. depois que virou a cabeça para longe de Rovvan. Então essa idéia também não vai dar certo. . Vocês já vão ter trabalho suficiente só para tentarem se manter com a cabeça fora da água. Quem poderia esperar que uma fraqueza tão insignificante fosse o meu fim? E que por causa do meu orgulho besta eu decepcionaria meus amigos? .Allun sorriu. Allun. Perdoem-me.ele começou. . Nada . Eu não sei nadar. Jonn Forte balançou a cabeça: -Deve haver um jeito . . agora não precisa mais imaginar . -Sem um parceiro.Allun esfregou as mãos no casaco.Jonn ficou encarando o companheiro pensativo. como se retirar a lama seca que ainda estava grudada ali fosse o mais importante para ele...Allun reafirmou. Allun . mas virou o rosto.Se não voltarmos em três dias. você tem que aceitar isso. "Sele corações seguirão pelas temíveis trilhas.ele soltou um sorriso. .Não há nada para pedir perdão.Quando me dei conta. A água está muito gelada.. Imaginem tentarem impedir que eu me afogue também.Achei que eu seria um herói de Rin. Faça mais tochas se conseguir encontrar madeira boa. Espero vocês lá – ele deu um sorriso amargo. como eu aceitei. . se você está pensando em ajudar esse patinho feio puxando-o pela asa inútil.Você não pode voltar para Rin sozinho. acho melhor você pensar de novo..Vou acampar na entrada da caverna. Que iria mostrar para todo mundo o que um meio- viajante é capaz de fazer.Mas é claro que isso não fazia diferença . Para aqueles que nos amam.. É por isso que você nunca vai para o litoral nas trocas de mercadoria. .Bem. -Sempre fiquei imaginando.Então. Estamos de acordo? .ela deixou escapar. você não precisa mais esperar. . É melhor que eles fiquem sabendo do pior do que não fiquem sabendo de nada. que ainda conseguiu ouvir o que ele disse. As cordas não vão chegar até o outro lado. eu tinha me tornado aquele ser impensável: um adulto de Rin que não sabia nadar . . velho amigo. . Vamos precisar .. Marlie mordeu o lábio: .Eu daria tudo para que não precisasse ser assim. .Allun.ele hesitou e continuou em tom mais baixo. ..ele não olhava nos olhos de Jonn Forte." Mas Jonn o interrompeu com a mão: .Já pensei nisso .

Com a mão direita.ela sussurrou. eles golpeavam a água. Rowan sabia que não conseguiria fazer aquilo. Então. Ele cerrava os dentes só de imaginar o que seriam. Ele não se trocava mais nem na frente da própria mãe. . seguravam as mochilas que se arrastavam atrás deles. Em instantes. A água entrava por sua boca. ele percebeu que poderia ficar em pé. -Cuide-se.Você também. . . Ele ficou pulando para tentar se aquecer. cortante e amarga.ela recomendou. milhares de coisas desconhecidas encostavam em seus pés e pernas. Marlie abriu a mochila dele e pegou as roupas que ele tinha tirado antes de se jogar na água. Jonn Forte ergueu sua mochila para fora da água quando também chegou até a beira. mas ele levantou a tocha bem alto em resposta aos gritos dos companheiros. Marlie já estava saindo do lago. meio fora e meio dentro da água.Então vamos . Enquanto Rowan nadava. tossindo e pingando. eles entraram na água e começaram a nadar. Eles estavam todos cobertos pela escuridão. Marlie se agachou e estendeu a mão para ajudar a puxar Rowan para o lado dela. com a esquerda. mas continuava se empurrando para a frente com um braço que ficava mais pesado e mais devagar a cada momento. . Eles se viraram e gritaram para Allun. que aguardava ansioso do outro lado. Com os dedos gelados e muito trêmulos. Tão gelada que a pele de Rowan ardeu e depois ficou dormente. Rowan e Marlie retiraram as botas e as roupas mais pesadas e as enfiaram nas mochilas. sua mão bateu em uma rocha e. Marlie.Sim . . cheio de alívio. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Eles se arrastaram pelo lago negro. ele estava em pânico. mas é melhor do que nada. Os dentes do garoto batiam tanto que ele não conseguia nem falar. Ela abraçou Allun. Eslava realmente muito gelada. Então. Ele . . Ele olhou para cima. Não na frente de Marlie. O enorme rosto de pedra pairava sobre ele. Pelo menos ele sabia que eles estavam a salvo. Jonn. mas pior que a dor de continuar nadando era a idéia de se afundar naquele buraco negro e nunca mais ter luz e ar novamente. por isso Allun não poderia vê-los.Tire suas roupas molhadas e vista estas antes que você morra congelado .Nós vamos voltar . tremendo de frio. Atrás dele.Allun pegou a mão de Jonn e a apertou com força.Marlie disse. movendo-se de lado em direção às linhas iluminadas.Estão um pouco úmidas.

surgindo atrás deles. Assim podemos preservar nossa intimidade e nos aquecermos o mais rápido possível. segurando as roupas dela.Você foi atacado por aranhas gigantes. . Há coisas que um homem simplesmente não consegue fazer.Marlie exclamou espantada e meio irritada. Marlie.Jonn Forte sorriu. . Sugiro que você se vire para lá.vacilou um pouco. .Nem um pouco .Eu entendo perfeitamente. . Rowan! . tenha dó. acabou de quase congelar e se afogar nesse lago e agora está com vergonha de trocar de roupa na minha frente?! Você não acha isso ridículo? . ficou prestes a se afundar em um pântano.Ah.

.Jonn sugeriu. depois que eles escalaram o rosto de pedra e espiaram para dentro dos olhos. "um é amigo. Em um está a cilada.Vamos dar uma olhada nos dois e então decidimos . embora a da esquerda fosse um pouco mais alta e larga que a da direita. Agora que eles estavam bem ali embaixo. descobriram que as duas grutas pareciam iguais.Talvez a gente deva tentar um de cada vez . Mas para quê? Qual dos dois era a saída que levaria ao topo da Montanha? Rowan baixou a cabeça para estudar o mapa outra vez. E. Não havia marca nenhuma indicando as passagens gêmeas. o outro é selvagem. . Um c amigo. podiam ver que os olhos eram ocos. de respiração. Eram entradas. no outro. As linhas vermelhas continuavam para cima. mas finalmente eles conseguiram acender uma. Mas. Vá por aquele que encobre a luz em seu leito e você saberá que está seguindo tudo direito. a passagem. As únicas dicas estavam no poema. o outro é selvagem"? . Os olhos brilhantes ainda emitiam reflexos sobre a água.Como assim. Jonn e Marlie se agacharam ao lado de Rowan enquanto o garoto desenrolava e abria o mapa sobre os joelhos. fazendo curvas e mais curvas. As duas tinham aparentemente o mesmo tamanho e formato. O mapa.O poema diz que devemos escolher aquele que encobre a luz - Rowan observou. tinha aparecido mais um poema.O desenho não dava nenhuma dica. As duas paredes cintilavam com um estranho bolor levemente azulado que brilhava na escuridão.Marlie questionou. como Rowan havia imaginado: "Para onde seguir: esquerda ou direita? Nos dois caminhos o fracasso está à espreita. no espaço em branco seguinte. E das duas saía o som de suspiro. que estava bastante enrolado e muito bem protegido pelas roupas de Rowan durante a travessia. havia sobrevivido. ." Os três levantaram a cabeça na direção do enorme rosto de pedra. As tochas estavam úmidas. .Os dois caminhos são iguais! .

Continue. No começo.Marlie pediu impaciente. . virando e virando. pois o teto era baixo.Parece mais amigável. que estava na frente.Não gosto deste lugar . bastante regular. Ele esfregou os dedos na parede e os cheirou. mais rápido a gente sai daqui! . c o viram levantar a dele e se virar para começar sua jornada solitária de volta até a entrada da caverna. Eles continuaram andando. mas Marlie e Jonn tinham que inclinar um pouco a cabeça.Marlie ofegou. depois outra. antes quase como uma gruta. Rowan começou a sentir um cheiro. o bolor preso às paredes. Então. Um cheiro de umidade e mofo. Mas a chama da tocha não tremulava. Depois.As paredes são bem lisas. Primeiro ele achou que fosse sua imaginação. . Ele diz "seguindo tudo direito". O som de respiração estava mais alto agora.Rowan murmurou. Ele conseguia caminhar de pé. a passagem. por exemplo.Jonn disse. O mapa nunca tinha deixado de ajudá-los antes. .Quanto mais rápido a gente for. . O chão era de areia. Então os três escalaram em direção à passagem da direita. De imediato ela fez uma curva. como o poema disse. como no pântano. em um caminho cada vez mais confuso. Ele atormentava os ouvidos e sussurrava em volta deles. . Não. tropeçando no chão de pedras. o bolor não tinha cheiro nenhum. Talvez o último verso esteja falando a pura verdade. Na frente deles. -E isso . sinalizando para Allun. diminuiu o ritmo e finalmente parou quando o túnel fez mais uma curva.Vamos tentar primeiro o caminho da direita. Marlie deu alguns passos e se mostrou incomodada. Eles caminharam com dificuldade. . Era demais esperar que a Sheba nos desse uma dica tão óbvia.Certo . . eles foram obrigados a parar. Mas também parece perigoso.para ver onde a chama da tocha fica tremendo e depois se apaga por causa do vento. E de uma escuridão fria. .O túnel vai começar uma descida bastante puxada .Jonn Forte concordou. não há nenhum lugar para apoiar as mãos c vai ser mais difícil firmar os pés no chão por causa da areia. Foi mais fácil caminhar pela passagem da esquerda. em que mal se podia engatinhar. A chama da tocha queimava com um brilho mais intenso que nunca. .Uma bela de uma cilada. Pelo que ele percebeu. agora se estreitava para um túnel pequeno. Jonn . balançando a cabeça para tirar os cabelos que caíam sobre os olhos. Eles levantaram a tocha. ela era rela c mais larga que a outra. de repente. Talvez queira dizer que devemos ir pelo lado direito. Jonn Forte. Agora vamos tentar o caminho da esquerda. e logo Rowan perdeu a noção de direção.

. O outro caminho está bloqueado.Não temos saída.Não totalmente bloqueado -Jonn disse. A linha vermelha no mapa era comprida. no outro. Sinto muito . conseguiremos passar. teriam . O túnel é estreito.ele começou. como Allun diria . mas talvez seja o único. O rosto queimado de sol de Jonn Forte demonstrava preocupação e ele se levantou com esforço: -Vendo o lado bom da coisa. Mas ele não comentou nada. Rowan engoliu em seco. Caiu no terrível penhasco que havia no fim do túnel. quase correndo. Os dois puxaram Marlie para junto deles enquanto saíam do túnel aos tropeços. Vamos ter que rastejar." Seu peito se encheu de medo. E rezar para que não seja muito longo. . Lembrem-se de que o poema rima "selvagem" com "passagem". Vai ser um caminho cruel. a passagem. -Há espaço para continuarmos rastejando. pelo menos agora sabemos que a passagem do lado direito é mesmo o caminho certo. mas. se deixarmos nossas mochilas e levarmos só o que couber nos bolsos. Era assustadora a idéia de entrar por ele engatinhando. . eles caíram de joelhos na entrada do túnel. O outro caminho tinha se revelado mesmo uma cilada. Esse lugar aqui tem cheiro de morte. Ela cambaleou na areia instável sob seus pés. Então a tocha caiu. tentando se levantar enquanto a tocha deslizava de suas mãos sobre a descida. Ela apanhou a tocha flamejante das mãos de Jonn. "Um é amigo. o outro é selvagem. Eles quase tinham morrido. virando-se para ela. Seus corações baliam com violência diante da idéia do horrível destino do qual tinham escapado.Vocês são dois loucos! Com a respiração curta e ofegante. Se queriam chegar ao topo da Montanha. tentando sorrir -. sem a mínima idéia de para onde ele estava indo ou quando aquele martírio iria acabar. e eles também teriam caído indefesos. Caiu. Em um está a cilada. Marlie deixou Rowan para trás. Tropeçando na última curva. caiu e caiu enquanto Marlie gritava.ela não parava de dizer. Marlie tremia: -Sinto muito. Rowan lambem estava tremendo. . A tocha atingiu o fundo com um ruído repugnante. ou meio minuto. deu dois passos e escorregou. Bastante comprida. Mais um minuto. pulando e girando. indo direto para a morte no penhasco subterrâneo. passou apressada por ele.Marlie disse.Bobagem . pensando naquele buraco escuro e apertado que tinham visto na caverna da direita. E eu concordo com o Rowan.

que desaparecia da vista deles com a curva do túnel da direita e que permanecia visível mesmo depois de minutos de caminhada no caminho reto da esquerda. Ele pensou que nunca tinha sentido tão pouco prazer em uma refeição antes." Era essa a luz a que o poema se referia.Jonn disse. como eles tinham pensado. . vamos comer . . sem possibilidade de voltar. Rowan respirou fundo quando se deu conta da verdade: "Vá por aquele que encobre a luz em seu leito. Eles acenderam outra tocha e se aproximaram da borda da passagem à direita. óbvia. eles tinham errado tudo. E. Quando eles chegaram ao ponto em que a passagem se estreitava. apontando para a comida que tinham deixado de lado. Entraram por ela e seguiram por uma curva fechada. mas ela não ergueu a cabeça. Ela rejeitou a comida que Jonn a ofereceu. mas a luz refletida no lago." A resposta estava ali. "Será que ela está passando bem?".que rastejar pelo túnel escuro. Então. Para eles. Rowan imaginou. na frente deles.É o túnel. Marlie se curvou sobre sua mochila com a respiração acelerada. que tirou de imediato a visão do lago reluzente.ele chamou outra vez. Ela não parecia ser ela mesma desde que entraram nas cavernas. mas também bastante inquieto por causa do medo e da água amarga que havia engolido no lago negro. O suor pingava de sua testa e ela mordia os lábios enquanto puxava seu cobertor e o deixava de lado com os dedos trêmulos.Não estou com medo . . . mesmo assim.Marlie negou em voz alta. a não ser pelos instantes em que nadaram no lago. duas vezes. Eles pegaram a corda e a amarraram em suas cinturas. Marlie e Rowan abriram suas mochilas e começaram a transferir as coisas mais importantes para os bolsos.Não sabemos quando vamos poder comer outra vez. Rowan se agachou no chão e começou a mordiscar um pedaço de pão com queijo. Não a luz da tocha. rastejar ali dentro seria penoso e desconfortável. -Marlie . E agora ela estava claramente perturbada.Jonn Forte chamou em voz baixa. mas ainda sem levantar o olhar. não é? É o túnel apertado que a está deixando preocupada. O corpo dela se enrijeceu. um no outro. . Não havia dúvidas de que nenhuma mochila caberia naquele buraco minúsculo. Jonn. "Vá por aquele que encobre a luz em seu leito e você saberá que está seguindo tudo direito. Jonn Forte e Marlie quase tampariam o buraco todo. Seu estômago estava vazio. Eles não tinham entendido os versos outra vez. -Antes de começarmos.Marlie . era o que fariam.

Não gosto de nenhum lugar fechado ..Você não pode me mandar de volta para casa.Não! . Eles só puderam agir quando a força dela finalmente não foi mais suficiente e ela começou a gritar e chamar por eles e a bater nas paredes de pedra. Então. é como se eu não conseguisse respirar.Jonn respondeu simplesmente. quando não consigo mexer meus braços à vontade. O que vamos fazer agora? Vamos fazer o que precisa ser feito . Ele sentiu seu rosto queimando. Ela tremia de medo e tensão. eu conseguiria. Tenho medo até de me enrolar em um cobertor . . Se seguirem com todo o cuidado o caminho que fizemos e se lembrarem.Mas quando não consigo levantar minha cabeça e meus ombros. A agonia de Marlie era tão intensa que os dois tiveram a sensação de que era algo com vida própria.Marlie sussurrou.Marlie. Eu estou com o mapa e você precisa .Marlie conseguiu retribuir o sorriso. -Quase morri congelada! . Você está apreensiva desde que entramos nas cavernas. Você tem uma bússola e o Rowan está com o mapa.. -Percebi. -Jonn.Jonn disse.Depois que começarmos.Marlie repetiu. ecoando alta no buraco da caverna.ela soluçou. Você sabe disso. Os dois viram a cabeça e os ombros dela desaparecerem no meio da escuridão. .Eu vou continuar. . sinto muito. Ela jogou a cabeça para trás e olhou nos olhos de Jonn.Se você acha que não consegue fazer isso. . tem que dizer agora.ela disse. E. . acalme-se . . Todos percebemos. Rowan. Devagar. Mas eles não tinham nada a fazer além de esperar.Jonn a confortou. Vocês dois se encontram com o Allun e voltam juntos para Rin.. . Você tem medo de lugares fechados.Não tenho não! Não estou com medo .Achei que talvez você só não estivesse com muito frio.Achei que dessa vez..ela ergueu a cabeça e buscou mais ar. . Marlie começou a se retorcer para entrar no túnel. por ser algo tão importante. - Vamos em frente. não dá! . Marlie. Somente I quando isso aconteceu é que eles a puxaram para fora daquela prisão sufocante que o medo dela havia construído e a ajudaram a respirar de novo e acalmaram seu choro. seu tronco e depois suas pernas e seus pés. Mas é maior que eu. Sempre foi .Mas você não pode ir sozinho! Jonn. Marlie.Achei que conseguiria vencer meu medo . Marlie o encarava horrorizada: . . Jonn. . não há como voltar .Jonn disse sorrindo. .Está tudo bem.Estou pronta . .ela enfiou o rosto nas mãos. Marlie. eu tenho que ir.Rowan ouviu a própria voz. Noite passada . . Ela caminhou até a estreita abertura e se jogou no chão. Mas sua voz estava tensa.

Jonn balançou a cabeça. E boa sorte no seu caminho de volta para casa. Dessa vez.ele continuou. o que tiver de ser será. em silêncio. Você precisa saber o que eles dizem. Marlie. Você irá conseguir. Jonn o encarou. Jonn Forte.Então. -E tenho que encontrar a água para os bukshas. .ele correu até a entrada da passagem estreita e se sentou na frente dela. Eu prometi para eles . coelhinho magricela. . então. .Rowan insistiu. - Vamos. você estará bem preparada para enfrentar os perigos. -Parece que você encontrou o seu igual. .Eu tenho que segurar o mapa para você . . . Rowan pensou no meio das trevas. Com o filho e com a mãe .ele suspirou. .Marlie pediu quando os dois desapareceram dentro do túnel. .ela observou Rowan atentamente. Jonn Forte e Rowan. Marlie esboçou um sorriso. Rowan .dele.e ergueu o queixo. -Quem diria? Jonn hesitou e então deu o braço a torcer: -Muito bem .ele deu dois passos largos e ficou ao lado de Rowan.ele colocou a enorme mão sobre o ombro de Marlie.Não posso fazer isso. antes que um de nós mude de idéia. Jonn Forte. Você primeiro.Tomem cuidado. "Agora". Há mais dois espaços em branco faltando. com um olhar curioso.Eu não vou voltar . Sua voz ecoou na caverna atrás deles e então deu lugar ao silêncio. Lembre-se de que tudo o que aprendemos. Você precisa me levar com você. "somos dois". sem saber o que fazer. Diga para Allun que nós quatro nos encontraremos de novo em Rin . São mais dois poemas com avisos que ainda faltam.Tomem cuidado . guardião dos bukshas. E a Sheba terá o que quer .Adeus.Você não pode me obrigar a voltar . .

e então se estirava imóvel no chão. Duas vezes eles acabaram adormecendo e acordaram no meio da escuridão. Allun e Marlie. De sete formas cairão nas armadilhas. um chamando pelo outro em pânico. Val. Em desespero. Bronden. Os dois últimos corações a caírem nas armadilhas da Montanha. gemendo de esforço enquanto lutava contra as paredes que pressionavam seus ombros largos. Só iam para cima. esfoladas e cortadas pela rocha. ele não tinha conseguido alcançar o seu cantil ou o de Rowan para beber um gole de água. Durante todo esse tempo. Agora eles já não sabiam mais por quanto tempo estavam dentro daquele túnel. Todos os movimentos de Jonn eram dificultados pelas paredes do túnel. Suas pernas doíam de cansaço. De cinco formas distintas. Já havia um bom tempo que eles não trocavam uma palavra. como uma pedra caída no meio do caminho ou qualquer outra coisa. como tantas vezes desde que aquela jornada terrível . Ellis. Ele estava exausto. Suas mãos sangravam. A passagem havia feito curvas e ido para lá e para cá várias vezes. Rowan sabia que não teria força suficiente para tirar o obstáculo do lugar. cinco corações valentes tinham sido forçados a abandonar a jornada envergonhados. Rowan seguia rastejando com os olhos fechados com força. e Jonn estava praticamente preso atrás dele." As palavras de Sheba ecoavam na mente exausta de Rowan. lutando para se mover. Rowan foi tomado pelo pânico. "Sete corações seguirão pelas temíveis trilhas. O túnel se estreitou mais ainda e Rowan se deparou com outra curva. rastejavam e descansavam. ele ouviu as botas e as roupas de Jonn Forte se esfregarem contra a rocha. Ele chegou à conclusão de que assim era melhor do que encarar a escuridão que suspirava à frente. Tudo o que sabiam era que estavam subindo. Eles rastejavam e descansavam um pouco. E Rowan também. Um ritmo apavorante que se repetia o tempo todo. Jonn ofegava. para cima e para cima. que o espremiam e apertavam. Ele podia ouvir Jonn Forte se arrastando atrás dele. Não sabiam nem se era dia ou se era noite. estariam perdidos. Agora só restavam ele e Jonn. A Montanha já tinha vencido cinco vezes. Todos tinham ido embora. Se eles se deparassem com algum bloqueio.

A imagem em sua mente ficou cada vez mais intensa. Era extraordinário. Jonn Forte continuava deitado.Estamos acima da nuvem. pensando em Estrela.ele berrou. molhou os lábios com a língua e gritou quando a brisa. fresca. As roupas de Jonn haviam sido rasgadas pelas pedras em muitos lugares. o vento uivava no meio da brancura da neve iluminada pela lua. os dois estavam deitados um ao lado do outro sobre o chão de uma gruta baixa que se abria para o ar livre. Rowan rastejou pela curva. A água saiu de sua boca formando bolhas de ar e pingou sobre o chão. Minutos depois. Rowan . em direção à origem daquele vento gelado e da fraca luz branca que se mostrava para ele. Rowan ficou esperando. Depois de um tempo. ignorando suas mãos machucadas e pernas doloridas. com a mão sobre o pelo dela. Ele podia mesmo sentir a brisa. Estava um frio terrível.ele murmurou. o rosto de Jonn começou a ganhar um pouco de cor. Rowan arregalou os olhos.Jonn! . o cheiro das flores no pomar. Alguns gravetos e folhas secas que haviam sido empurrados pelo vento estavam amontoados no canto da caverna. 0 rosto dele estava cinza de tão pálido. logo atrás.Venha! Chegamos! Chegamos! Ele se arrastou cada vez mais rápido. Lá fora. fria. Ele quase podia sentir o cheiro da grama amassada pelas pegadas dos animais. a brisa fresca batendo contra seu rosto. . procurou o isqueiro de Jonn e acendeu uma pequena fogueira. com um último e desesperado esforço. O fogo fez muita fumaça e estalou bastante.havia começado.Água . Enquanto segurava o cantil na boca de Jonn.. . O medo dentro dele desapareceu. mas afinal começou a aquecer um pouco o ambiente. Jonn se aproximou. E quase podia sentir a brisa fresca em seu rosto. Ele apertou mais ainda os olhos e respirou bem fundo. . a coisa mais tranqüila e amável que ele conhecia. rastejando. Seus olhos permaneciam fechados. ainda em agonia. Ele se imaginou caminhando ao lado dela em direção ao lago dos bukshas ao cair da noite. imóvel. bateu em seu rosto: . Rowan os juntou um pouco mais. Ele tremia sem parar. Era como se..Acho que ficamos dentro do túnel por uma noite. Rowan olhou para ele apavorado. onde a pele estava esfolada e sangrando. esfregando as mãos uma na outra.os lábios rachados de Jonn Forte gemeram. Agora ele praticamente podia ver o lago dos bukshas e Estrela baixando sua cabeça para beber. Ele sorriu na escuridão. quase congelante. Estrela também ajudava. E. Ele se mexeu e abriu os olhos. . um dia e um pedaço de . Ele tinha descoberto que isso era o que o acalmava um pouco. Ele ficou encarando o nada.

Jonn.Jonn. E eu não sou o mais valente.mais uma noite. todos se encontram onde o Dragão faz seu lar. terra e ar. Allun e Marlie já chegaram a Rin. Rowan leu os versos em voz alta.. . Ele vacilou. Desistiram da jornada seis almas de coragem. A linha vermelha termina ai. – Somos dois. agora só uma continua a viagem.Jonn disse e fechou os olhos outra vez. Você vai congelar! Vai morrer! Jonn.. – E perto de nós.ele virou o rosto para o outro lado. -Estamos quase no topo da Montanha . que passava pela nuvem. bem perto. "Quando o sono for a morte. acorde! Jonn não se mexeu. Como a Sheba previu . Dois! Jonn umedeceu os lábios com a língua: -Não. -E o poema? ..a voz de Jonn estava bastante fraca.. deve haver outra caverna ou alguma coisa do tipo. Você vai ter que me deixar aqui e ir sozinho ao amanhecer. O mapa. Mantenha as palavras que sabe em sua mente quando seu destino estiver à sua frente. Rowan desenrolou o pergaminho. não durma! Está frio demais. Rowan soluçou e bateu os punhos contra o chão.Rowan exclamou. Ele seguiu com os dedos o caminho que tinham feito até ali. Bastante grande. água. Eu tenho medo de tudo! De tudo! Os lábios pálidos de Jonn se curvaram: . "Só continuará o de alma mais valente." -Jonn! .." A fogueira soltou uma última faísca e se apagou.. -Jonn.Rowan gritou apavorado." -Mas. "Quando o sono for a morte e a esperança estiver ausente. com o mapa sacudindo em suas mãos trêmulas: "Fogo. ." -Então . Ele sacudiu o ombro de Jonn com tanta força que o homem se mexeu e gemeu. E nós estamos quase no fim da nossa jornada.. se estiverem a salvo.. Eu não consigo mais.ele disse devagar.Leia o poema. Foi isso o que ela disse. A essa hora. E profunda. Você está muito fraco. Rowan. eu não posso continuar sozinho! Você sabe disso! A Sheba não previu isso! A Sheba disse que o de alma mais valente iria continuar. Seus olhos tinham se direcionado para o penúltimo espaço em branco. o poema não está certo! .

As tochas esquentariam o ar. coelhinho magricela. com o coração a mil. E com medo você seguiu em frente. Então ele as mergulhou na neve e começou a construir uma parede de gelo ao redor da entrada..E com medo você subiu a Montanha. Ele se aconchegou ao lado de Jonn. Já estava amanhecendo e o vento havia diminuído. Rowan ainda tinha sua alma e sua esperança. A Sheba sabia disso. Então eles decidiriam o que fazer. Somente os tolos não têm medo. Ele demorou um bom tempo e.. sua primeira impressão foi a de que não havia passado um minuto. para aquecê-lo com seu corpo. As pedras iriam manter o calor mesmo depois que as chamas se apagassem. com sorte. Ele sabia o que tinha que fazer. e respirando. Rowan as acendeu e ficou observando quando elas se inflamaram e depois diminuíram para chamas mais calmas que Ficariam ardendo por algum tempo. E agora. Já estava mais quente ali dentro. apesar da jaqueta. foi ficando completamente calmo. o poema não estava completamente certo. Seu sono foi profundo e sem sonhos. Atordoado de cansaço apanhou algumas pedras e as colocou entre as cinzas.Eu cuido de você. observou Jonn. retirou sua jaqueta e a enrolou em volta das mãos. Mas então ele viu a luz fraca que iluminava a caverna pelo buraco na parede de neve e ouviu o silêncio. aos poucos. Você tem medo de tudo – ele murmurou. Rowan arregalou os olhos e. Rowan vestiu a jaqueta de volta. Então ele pousou sobre elas as duas tochas que ele e Jonn tinham carregado pela Montanha.. esquentariam as pedras. mas ainda não o suficiente para que ele ficasse a salvo. preenchendo o espaço vazio até que restou somente um pequeno buraco por onde o vento podia passar. o dia iria amanhecer e encontraria os dois vivos. Com medo. Ele estava aquecido. Isso é ser valente de verdade. Rowan se sentou e. . Jonn Forte estava deitado no chão ao lado das cinzas da fogueira. . Rowan finalmente fechou os olhos e adormeceu. Quando ele acordou.Durma agora . Rowan se arrastou até a entrada da caverna.. A Sheba sempre soube de tudo. . você encarou os perigos dela. bem perto. ." Não. Rowan. "E a esperança estiver ausente. -Isso mesmo. suas mãos tremiam de frio quando ele finalmente ficou satisfeito com o trabalho.ele sussurrou.

*** Eles se arrastaram pela neve. o que quer que fosse. ele prometeu a si mesmo. completamente errado. ele foi invadido por uma lembrança. O céu estava claro.Estamos quase lá.Tudo certo. Agora ele se apoiava com mais força sobre o ombro de Rowan. eles podiam ver o céu atrás de um véu de neblina. não havia mais nada.ele perguntou no tom mais alegre que conseguiu. vou voltar para Rin junto com o Jonn Forte. Já é de manhã. com a respiração cada vez mais difícil e rápida. Havia algo surgindo no meio da nuvem.Jonn . fazendo buracos gelados na neve. Temos que ir. com Jonn Forte se apoiando no ombro de Rowan. Nuvens pesadas flutuavam em volta deles. enquanto eles se afastavam de Rin. mas os animais em si não foram vistos.Acho que estou vendo alguma coisa. porém admirava a coragem do companheiro. Um eco da voz de Jonn Forte dizendo exatamente as mesmas palavras para ele. mas.ele sussurrou. Nós dois. . . Os rastros de animais que tinham saído à caça de comida durante a noite cruzavam o caminho. cm relação a Jonn o tempo todo? -Rowan! . . Rowan tocou em seu ombro: . Rowan teve a impressão de ver um focinho pontudo se movimentando em uma toca. mas ainda caminhava sem reclamar. atrás de uma parede natural de pedras cobertas pela neve. as botas afundavam na brancura macia. Rowan prendeu a respiração. Era branco nas bordas. em um piscar de olhos. Rowan pensou. Ele apalpou a bússola de Jonn em seu bolso e o mapa em seu cinto. De repente. embora soubesse que não conseguiria ver nada. Gentilmente.Jonn apertou o ombro do garoto. tentando ver através da nuvem. Do mesmo jeito. Jonn se esforçava atrás dele. Acima. Enquanto eles caminhavam. . Vou ver minha mãe de novo. com um tom pálido de rosa. "Deve estar um dia bonito em Rin". voltando o olhar para trás. na primeira manhã. Jonn? . "Com eles vou encontrar o caminho de volta". que ganhava um tom azulado. Rowan sentia muita pena de vê-lo sofrer tanto. Rin estava em algum lugar lá embaixo. Sei que vou!" Ele se virou para a frente e espremeu os olhos.Jonn! Acorde. e a Estrela e o lago dos bukshas ao amanhecer. e o . Será que Jonn sofreu por ele naquele momento como Rowan sofria por ele agora? E pelas mesmas razões? Será que ele estava errado. "Não importa quanto tempo leve. mas a nuvem escondia o vilarejo.

- Mas. Seu coração acelerou. As presas do Dragão da Montanha. alto e largo. A neve se espalhou e um imenso rabo se moveu violentamente. As paredes da caverna se elevavam em direção ao céu. Nenhum rastro deixado sobre aquele tapete de neve. Talvez em vários dias. Então o chão tremeu sob os pés deles. Era enorme... "Fogo. Nada havia passado por ali no último dia. terra e ar.. iam compreendendo.." Um tapete grosso de neve cobria o chão. Uma expressão de horror. Ele ajudou Jonn a cruzar as pedras enquanto se dirigiam para a entrada da caverna e olhavam com cuidado o que havia lá dentro. eles piscavam os olhos. à medida que chegavam mais perto.Rowan sussurrou. . abrir os olhos cor de sangue e fungar para ele. E. balançando-se para retirar a neve e o gelo de cima de suas brancas escamas cintilantes enquanto exibia suas presas.. Tudo branco. Eles continuaram. Rowan viu o fundo da caverna criar vida. Terríveis. Não havia som nenhum. A vista dos dois foi ofuscada por tanto branco. Admirados. Enormes cones de gelo se penduravam de cima da entrada e do teto da caverna. os dois se aproximaram. fazendo Rowan cair de costas no chão e Jonn Forte ser arremessado com força contra a parede. Estranhas formas de gelo cobriam as paredes e cresciam do chão.? Devagar. Rowan observou. da entrada até a parede de pedra onde eles estavam. Impressionantes. Enormes. Todo o topo da Montanha era oco.. Gritando. Acima daquilo. E todo o resto era neve. água. subindo pelas saliências de gelo c pelas dunas de neve que cobriam o chão. dando espaço para uma enorme caverna de pedra. neve e gelo. havia somente o céu. -Chegamos ao topo . com o reflexo do sol nascente parecendo uma fogueira branca.meio era de um azul pálido e ao mesmo tempo brilhante. Não havia nada além de um branco ofuscante e de um sombreado azul. Rowan se virou para falar com Jonn e viu a expressão dele mudar.

ao lado dos pés de Rowan. Uma idéia que estava passando por sua cabeça de repente ficou clara. Das presas afiadíssimas... Rowan se encolheu. Ele passou os olhos pela caverna. mas outra vez o Dragão não atacou. das presas e garras furiosas que o matariam. onde feridas feitas há vários dias se cercavam de sangue ressecado. Rowan. . O Dragão resmungou.Rowan! . Seus olhos estreitos. O Dragão abaixou a cabeça e abriu a enorme boca: um gemido saiu do fundo de sua garganta.Jonn Forte sussurrou. . - Jonn Forte? .Recue bem devagar e saia daí. observando o garoto. Aproveite! Rowan mal ouviu Jonn. Você está com o mapa e com a bússola. O Dragão inclinou seu enorme corpo para baixo e colocou a pala sobre o pescoço. Estou aqui . Ele permaneceu olhando para as marcas de arranhões no pescoço do Dragão. Não consigo me mexer. nenhuma carne. parecidos com os de cobra. o garoto se levantou. .o.Rowan chamou cm voz baixa. O Dragão estava muito perto. Jonn .ele murmurou para o Dragão como se estivesse conversando com Estrela. de alguma outra coisa. sem desviar o olhar. ele destapou os olhos.Você está sem comer . Rowan gritou na expectativa do bafo quente. Rowan os encarou c. soube de que se tratava: era a dor de um animal. sem desviar o olhar. admirado. Devagar. . Tomado de medo. golas ralas de sangue pingavam sobre a neve. Ele virou a cabeça na direção da voz de Jonn e depois olhou de volta para Rowan. Nenhum osso. Você tem uma chance. . Seus olhos pareciam um oceano vermelho de raiva e. E mesmo . com a mesma voz que usava para conversar com os bukshas. encaravam Rowan diretamente. Somente a neve recém-caída. tente se salvar.O que você tem? .O rabo desse monstro me prendeu contra a parede. .Jonn respondeu. . Vai conseguir voltar para casa. Um bafo quente e malcheiroso bateu contra seu rosto.ele disse em tom tranqüilo.Não tem saído para caçar. intimidando. Mas eles não vieram.

Um movimento equivocado e aquelas terríveis presas se fechariam de imediato. Ele se apoiou nas patas traseiras e bateu as asas brancas.Sou amigo. consciente da agonia que o Dragão estava sentindo. Rowan conseguiu afrouxar o osso. estava livre daquela dor horrível que o havia impedido de rugir e cuspir logo por tantos dias. Ele estava livre. O garoto se aproximou. O Dragão rugiu outra vez. escorregando no chão agora . Finalmente.assim os seus dentes estão cheios de sangue. Amigo. .Rowan gritou. Seus olhos cruzaram com os do Dragão. Rowan tinha tirado aquele graveto. E posso ajudar você - ele disse. Ele não atacaria o garoto que o havia curado com suas mãos gentis. ao girá-lo com delicadeza. A criatura resmungou de novo. como um graveto tinha uma vez ficado preso na boca de Estrela. poderia tirar aquele osso.Rowan pediu. .. . o Dragão se virou para Jonn. ..Fique parado .. Seus olhos vermelhos revelavam sua fome.. fumaça e fogo.Acho que sei o que está acontecendo. e chamas saíram de sua boca e de suas narinas. O som foi como o de um trovão. Se ele conseguisse conquistar a confiança do Dragão.Não! . Finalmente. O ar foi tomado por uma mistura de vapor. Você está bem. sem piscar. Os olhos do Dragão faiscaram. escamosas. "Encare as presas do medo de que não gosta e veja clara e certa a resposta. Ele olhou dentro da enorme boca vermelha que pingava sangue e então se inclinou para dentro. cada vez mais. A dor que o havia impedido de caçar c voar pelos céus sobre seu reino nublado.Agora.. Enfim... e faminto. É só. Ele trabalhou com cuidado. derretendo a neve e o gelo. branco. Bem aos poucos. ele tinha visto aquele olhar. Ele tomou sua decisão e respirou fundo. ecoando nas paredes de sua loca. . Muito tempo atrás. Ele correu para perto de Jonn. Aí a história era outra. .Agora nos deixe ir.. Agora. Mas o homem. Ele rugiu. Pedaços de gelo caíram do teto da caverna e se despedaçaram no chão." O osso era afiado e bastante claro. em outro lugar e em um par de olhos bem diferente.. Estava entalado entre um dente e a garganta do Dragão. Pode sair e caçar.. Ele se afastou da boca do Dragão e foi em direção a Jonn Forte enquanto segurava o osso nas mãos. Rowan o soltou.ele disse gentilmente. que tremeu com o impacto. até que encontrou o que estava procurando. O Dragão encarou Rowan. .

Mas ele não tinha arma nenhuma.O que eu faço? .. . As palavras flutuaram diante de seus olhos. Se não por você. . mas a lâmina da faca se entortou e quebrou ao contato com as brilhantes escamas brancas. que o perseguiam em seus sonhos e atormentavam seus pensamentos nos longos dias que haviam se passado: "Sete corações seguirão pelas temíveis trilhas. Saia enquanto pode..Ele está tentando assustar você e fazê-lo fugir. Ele tinha que fazer o Dragão mexer o rabo para que Jonn conseguisse escapar. As palavras que ele realmente sabia..Eu não sei o que fazer! "Mantenha as palavras que sabe em sua mente. eu prometi a ela.O mapa . menos a última. Encare as presas do medo de que não gosta e veja clara e certa a resposta." O último espaço em branco estava preenchido. Eu imploro. Rowan se curvou. Jonn grilou desesperado. "Mantenha as palavras que sabe em sua mente. . Só continuará o de alma mais valente quando o sono for a morte e a esperança estiver ausente. que ele tinha ouvido pela primeira vez no meio de um enorme temor. Rowan enrolou o mapa e retirou do bolso a bússola de Jonn. tirou o mapa de seu cinto e o desenrolou. Ele tinha que fazer isso antes que o Dragão perdesse a paciência e acabasse matando os dois.Jonn gemeu.cheio de gelo se derretendo.a voz de Jonn Forte estava fraca ao lado dele. As chamas e os rugidos continuavam a agredi-los sem parar. . . O Dragão virou e rugiu. . De sete formas cairão nas armadilhas. -Rowan..." Todas as profecias tinham se realizado. E aguardou pelo momento certo.Rowan gemia. O Dragão rugiu cheio de raiva e cuspiu uma labareda que chamuscou os cabelos e as sobrancelhas de Rowan.ele gritou. Ele se jogou ao lado do homem indefeso e o protegeu com o próprio corpo. Ele só está interessado em mim agora.. As lembranças de casa deverá jogar fora para terminar sua busca e ir embora.Ah. Os dois se apertaram um contra o outro em busca de proteção. E agora era a hora.Que palavras? Que palavras? . quando o movimento do animal o espremeu mais ainda contra a parede da caverna. por favor. Rowan. . Era inútil. Vá! Mas Rowan não desistiria. Rowan puxou sua faca e golpeou em pânico o rabo do Dragão." .Rowan . por Jiller. A última e a mais terrível.

"As lembranças de casa deverá jogar fora..."
O Dragão balançou sua cabeça para trás e outra vez rugiu com
raiva. Ele exibiu seu pescoço empalidecido, arranhado e
machucado por suas garras na tentativa de tirar o osso engasgado
e acabar com a dor.
Com toda a força e o desespero que seu medo lhe dava, Rowan
atirou a bússola naquele alvo pálido e sensível. Ela atingiu o
pescoço do Dragão como uma pedra dura e afiada. O animal
gemeu e se mexeu violentamente, com dor e fúria, jogando a
cabeça de um lado para o outro e tirando o rabo de cima do corpo
de Jonn.
Só por um instante. Mas foi o tempo necessário para Rowan
soltar Jonn e poder arrastá-lo pelo chão de gelo escorregadio em
direção à entrada da caverna. Rowan ainda conseguiu se virar e
jogar com toda força o mapa enrolado, que, girando, atingiu em
cheio o pescoço exposto do animal. Outra vez o Dragão rugiu e,
por segundos preciosos, virou a cabeça para o outro lado.
"As lembranças de casa deverá jogar fora..."
Logo os dois estavam correndo, saindo às pressas da caverna
do Dragão para encontrar um lugar onde se esconder, onde
poderiam se entocar como os animais da noite, longe da fúria do
Dragão.
"Para terminar sua busca e ir embora." Sim. A busca estava
terminada. Terminada e desperdiçada, perdida. Como eles, agora
também perdidos.
- Mãe... Estrela... - Rowan soluçou.
Seu coração estava em pedaços. E mesmo assim ele
continuava correndo.
A neve na frente da caverna tinha se derretido com o fogo do
Dragão e agora a superfície plana parecia uma piscina de gelo.
Rowan e Jonn escorregaram e caíram. Suas mãos se agitavam em
vão, com seus pés deslizando enquanto eles lutavam para se
manterem de pé e correrem outra vez.
Os olhos vermelhos do Dragão arderam. Ele se levantou
furioso. Chamas quentes como o calor de centenas de fornos
saíam de sua boca e de seu nariz, queimando sob os pés dos dois
e transformando o gelo fervente em um redemoinho de água
borbulhante e fumaça. Rowan e Jonn rolavam e se arrastavam
pelo chão, debatendo-se contra o gelo que se derretia na tentativa
de se salvarem.
Então, com um estalido alto, o gelo se partiu debaixo deles. O
gelo que havia se acumulado e permanecido congelado durante
todos os longos dias de dor do Dragão e que agora, finalmente,
estava sentindo o calor das chamas do animal e não resistia mais.
Derretendo. A água gelada e doce da neve derretida atravessou o

gelo em direção ao canal subterrâneo que era sua antiga saída do
topo da Montanha. Jonn e Rowan, tossindo e engasgados, foram
jogados no meio dessa corrente agitada de água. Rowan
recuperou o fôlego e lutou para se manter de pé. Eles estavam
debaixo da terra. Debaixo do gelo. Rowan não conseguia mais ver
o Dragão. Não conseguia mais ver o céu. A água o puxava para
baixo. Ele não seria mais capaz de resistir.
Estava tudo escuro, tomado por pedras lisas como vidro, pela
água congelante e por seu estrondo. Rowan chamou Jonn e
agarrou sua mão. De uma vez só, ele entendeu o que tinha
acontecido. Eles tinham descoberto o segredo do córrego de Rin.
Água doce espumava em volta deles, empurrando os dois para
baixo. Eles a tinham liberado de sua prisão de gelo. Agora ela
estava livre para fluir. E ela iria seguir descendo pelo comprido e
íngreme túnel que era sua trilha pelo coração da Montanha. E
estava levando os dois junto com ela. Para baixo, até o vilarejo de
Rin.

Val e Ellis foram acordados antes do raiar do dia por uma
batidinha na porta do moinho. Eles a abriram e se depararam com
um pesadelo: Allun e Marlie, imundos e esfarrapados, quase
desmaiando de cansaço e de sede. Os irmãos levaram os dois para
dentro do moinho, limparam seus ferimentos e lhes deram água e
comida. Então ouviram algumas coisas sobre a terrível jornada
que os dois viveram enquanto recontavam seus passos pelo
pântano e pela floresta até o topo do penhasco e depois até o pé
da Montanha. Eles trocaram olhares sérios quando souberam o
que havia acontecido nas cavernas.
- O Jonn Forte foi muito corajoso - Vai disse finalmente.
- Você fala como se ele tivesse morrido! - Allun reclamou,
empurrando sua caneca com desgosto.
- Se ele não está mesmo morto - Vai disse friamente -, logo
estará. E Rin também. Ele está sozinho na Montanha. Não vai
conseguir resolver o problema. E não vai conseguir sobreviver.
- Ele não está sozinho - Marlie protestou. - O Rowan está com

ele.
Val e Ellis a encararam como se ela estivesse louca.
-De que vai ser útil um garotinho fraco e assustado como o
Rowan? - Val questionou. - Ele precisa de um companheiro forte,
corajoso, para...
-Ele linha cinco companheiros fortes e corajosos - Allun
levantou a cabeça e a olhou direto nos olhos. - Todos fugiram.
Marlie enfiou o rosto nas mãos. Ellis finalmente se manifestou:
-Está amanhecendo. Precisamos ir falar com a Jiller – ele
murmurou. - Ela deve estar no campo dos bukshas, cuidando
deles. Temos que contar para ela o que aconteceu.
Com os corações apertados, os quatro deixaram o moinho. O
céu eslava com um tom rosado e dourado quando eles chegaram
ao lago seco dos bukshas. Eles viram Jiller ao lado de Annad no
meio do campo, com seu xale enrolado em volta da cabeça. Ela
olhava para a Montanha, tremendo com o vento frio. Então ela se
virou c viu os quatro. Sua expressão de tristeza se transformou em
terror. Jiller soltou um grito.
-Allun! Marlie! O que aconteceu? Cadê o Rowan? Cadê o
Rowan?
Naquele instante,do alto da montanha ouviu-se um rugido, que
começou e não parou mais.

***

Estrela levantou a cabeça e chamou Annad e Jiller com um
gemido. Annad não ouviu. Ela estava abraçando o novo filhote de
Alvorada, confortando-o enquanto ele tremia ao som do Dragão. E
Jiller, com enormes olheiras em volta dos olhos avermelhados,
estava imóvel entre Allun e Marlie. Ela não ouviu nada além do
rugido vindo do topo da Montanha e não viu nada alem do fogo
que iluminou o céu acima das nuvens.
Val e Ellis continuaram por perto, em silêncio. Agora, eles
estavam acompanhados de Bronden e de todos os outros
moradores da aldeia, que vieram correndo quando ouviram o
rugido. Agora estavam todos ali, olhando para cima, com seus
rostos tomados de medo e pavor. Nenhum deles prestou atenção
no chamado de Estrela.
A buksha se afastou do lago vazio e começou a caminhar pelo
leito seco do córrego. Ela não sabia por que estava se dirigindo por
aquele caminho. Ela só sabia que tinha que seguir por ali, córrego
acima. E rápido.
Uma cerca bloqueava sua passagem. Ela a afastou com o
ombro, passou por cima dela sem nem piscar os olhos e continuou.

Aquele chamado silencioso era mais forte que qualquer voz. E até agora. Como se fosse um rangido. ela se dirigiu para o córrego agitado e passou para a margem oposta. Ele conversava com ela. Ele vinha do canal do moinho. Ela começou a correr. As orelhas de Estrela se ergueram. como sempre fazia. Ela saiu da água e sentiu as mãos de Rowan segurando sua lã quando o garoto caiu no chão ao lado dela. Ela jogou a cabeça para trás c se atirou contra a água espumante.Estrela! O que foi? Eles corriam atrás dela. Mas havia mais um som. com sua enorme roda de madeira que havia permanecido silenciosa por tantos dias. -Estrela! Estrela! Estrela! Estrela respondeu ao chamado. lá na frente. mas não olhou para trás. Ela ouviu um som. que se agarrou a ela com toda força. A água surgiu em uma onda que aumentava a cada segundo. Ela inclinou a cabeça para jogar para cima de seu largo pescoço um peso que o garoto empurrava para ela c sentiu duas mãos agarrarem sua juba. batendo contra as laterais do córrego. apesar de todo seu peso. O moinho estava à sua frente. Devagar e com cuidado. esmagando os galhos presos entre suas pás. Uma voz que ela conhecia. do outro lado. onde a enorme roda rangeu e começou a tremer. O leito vazio do córrego formava um buraco marrom ao lado dela. Ela passou com esforço pela margem de terra em direção ao canal do moinho que saía ao lado do córrego. Ela se jogou no leito seco do córrego e saiu como um foguete na direção daquele som. Terra. E outro barulho.. Água! Sua garganta ressecada doía pela falta de água. empurrando as pás de madeira da roda do moinho. grama e flores se espalhavam sob suas patas. sem olhar para trás quando a enorme roda finalmente cedeu à imensa pressão da água e começou a girar. Ela podia ouvir a voz soluçante de Jiller e o som de vários pés atrás dela. Ela correu mais rápido ainda. ela chegou à roda do moinho e jogou seu focinho na direção da mão erguida de um garoto. Ele dizia para os dois: . Ela ouviu a voz de Rowan bem perto de seu ouvido. O alto moinho de pedra. de um movimento agitado. E com o homem que estava deitado sobre suas costas. passando por ele e seguindo em direção a Rin. ignorando os galhos e as pedras que batiam contra suas patas e esquecendo a vontade de parar c encher sua boca seca. Uma voz.. Estrela encarou aquele fluxo de água. Com um gemido de amor. . Ela ouviu o grito de Jiller ao longe e outras vozes. Água doce! Suas narinas receberam com prazer aquele aroma úmido. alívio e prazer.

A jornada deles de Rin até a caverna do Dragão havia levado longos dias e noites. Tão diferentes e ao mesmo . Juntos. Rowan se agarrou à mãe. havia levado minutos.. a salvo no vale. de repente com medo que aquilo fosse um sonho c que ele ainda estivesse no topo da Montanha. Eles estavam em casa. mas está vivo. a antiga dor fria que ele tinha em seu coração se derreteu como a neve diante do fogo: sem deixar vestígios. Tudo tinha acontecido muito rápido. Eles estavam salvos. Os olhos de Jonn se abriram e ele encarou os dois rostos preocupados inclinados sobre ele. -Acho que ele quebrou a perna . do terror e do desespero. no meio do fogo. *** Rowan enroscou seus dedos com mais força nos pêlos macios e úmidos de Estrela. e do seu amor. Mas. apertando-o como se nunca mais fosse soltá-lo.Está tudo bem. gritavam e riam alegres. -Rowan! Rowan! . chamando por ele. ao lado da margem do córrego. sentindo o alívio e a gratidão imensos dela pela volta do seu filho. que o garoto finalmente compreendeu. Era verdade. com a grama sob seus pés e a brisa da manhã cm seu rosto. ouvindo as palavras que ela não parava de murmurar para ele. com os braços abertos. Era Jiller. Parecia que o vilarejo todo estava ali. - Ele está sofrendo muito. Rowan podia ouvir que elas comemoravam. Estamos em casa. Parecia incrível estar ali. bem depois das duas. saboreando a palavra. A água tinha voltado para Rin. Alguém corria na direção deles.um grito soou agudo ao longe.. Annad corria atrás dela e. eles tiraram Jonn das costas de Estrela e se ajoelharam ao lado dele. Estamos salvos. Ele só conseguiu ver Jiller se aproximando dele e. Sua cabeça estava a mil. envolvendo-o em seus braços.Rowan disse em voz baixa. os campos verdes de Rin ainda estavam ali. À medida que as pessoas se aproximavam. Rowan levantou o olhar. E eles tinham vindo junto com ela. Ele fechou bem os olhos. do gelo. junto de Estrela e do córrego borbulhando ao seu lado. Mas seus olhos estavam marejados e ele não conseguia distinguir as pessoas. quando ele abriu os olhos novamente. surgia uma multidão. aquela terrível descida pelo córrego subterrâneo. .. que achou que tinha perdido. finalmente.ele repeliu. Naquele instante. correndo na direção deles. A volta.. -Em casa .

Rin fica em grande dívida com ele. com uma mão sobre a mão de Jiller e a outra sobre o peito de Jonn. Ele não tinha percebido a multidão que havia se reunido atrás dele. Com grande esforço. -Jonn. Ele viu as pessoas comemorando em volta dele. ela se afastou e foi em direção à margem do córrego.ele sussurrou c. Jiller. Timon. lutou para se levantar. Ali estavam Neel.. ele levantou a voz: -Foi graças ao Rowan que o córrego voltou a ter água . -Rowan! Rowan! . e os irmãos Val e Ellis. os jardineiros e o professor. afinal. o guardião de Rin! Jonn sorriu.ele disse. com os rostos ainda manchados de lama. O menor e mais fraco de todos nós provou.Jiller pediu. o guardião dos bukshas! Rowan. encarando-se admirados. -Ele nunca desistiu.. Ele lutou contra o frio e o fogo por mim quando poderia ler se salvado. Um passarinho cantou em uma árvore por ali. fique deitado . Ele não viu os olhares admirados em seus rostos quando ouviram as palavras de Jonn. doce c límpida. . Rowan se agachou na grama. E todos os outros. Não precisa. O homem todo ferido umedeceu os lábios rachados com a língua. Em silêncio. Eu prometi. . Rowan percebeu que cada palavra era um enorme esforço para ele. o oleiro. satisfeito. com a boca escancarada em um enorme sorriso. E então se ouviu um enorme estardalhaço. Ele tentou dizer alguma coisa. mas Jonn estava determinado a continuar. -Coelhinho magricela . agora cheio até a borda de água corrente. Estrela gemeu para si mesma. ser o mais forte c o mais corajoso.Não tente falar. -Preciso sim .Rowan. prometi que traria seu filho de volta para casa. Gritos de .ele disse. Mas foi o Rowan que me trouxe de volta. mas logo caiu no chão com um gemido. gritando e rindo e dando tapinhas um nas costas do outro. Ela ficou escutando. Só houve silêncio.eles grilavam. Ele me fez continuar quando eu ficaria aliviado em me deixar cair e morrer. viu Rowan começar a rir. Ali estavam Bronden. Ali estavam Allun e Marlie. -Há uma coisa que preciso lhe dizer. Ele enfrentou o Dragão sozinho. Rowan se virou assustado. Ele nunca desistiria. batendo palmas. Mas Jonn viu.tempo tão parecidos.

A água tinha chegado ao lago dos bukshas.alegria vindos da aldeia entraram baixos por seus ouvidos. .

Tudo estava como deveria. O rebanho estava salvo. Rowan estava salvo. Estrela baixou a cabeça para matar sua sede. O córrego fluía outra vez. . Finalmente.