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O Dilema do DNA – Nova ação judicial desafia o direito de patentear gene

humanos por lucro – por Elizabeth Svoboda

Quando Lisbeth Ceriani foi diagnosticada com câncer de mama, ela quis
realizar exame de sangue com o objetivo de descobrir se era portadora de um dos
dois terríveis BRCA genes, os quais podem aumentar em 50%o risco de ela
desenvolver câncer de ovário. Ela decidiu que, em sendo portadora, pediria a
remoção de seus ovários. Entretanto, o único provedor dos testes BRCA, Myriad
Genetics, uma empresa sediada em Utah, recusou seu seguro-saúde. A empresa
Myriad é titular da patente sobre |BRCA genes e, consequentemente, sobre os
direitos de pesquisa e desenvolvimento a partir destes genes. Não há testes
alternativos, portanto, e Ceriani encontrou-se impossibilitada de decidir sobre o
futuro de sua saúde.

Em maio de 2009, Ceriani, conjuntamente com outras cinco mulheres com


dificuldades similares uniram-se à União Americana para as Liberdades Civis e a
outras organizações representativas de 150.000 cientistas para oferecer ação
judicial contra a Myriad e Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos.
Essa coalizão sustenta que as patentes da Myriad sobre os genes BRCA1 e
BRCA2 são inválidos em razão do argumento legal que afirma não serem
patenteáveis “produtos da natureza”. Os autores da ação esperam que sua vitória
poderá extinguir a prática de se patentear genes – a prática de se garantir
propriedade sobre um gene em razão de ser ter obtido um novo uso para ele, tal
como um teste para diagnóstico. “Patentes garantem às empresas controle total
sobre um gene” alega Sandra Park, advogada vinculada ao Projeto de Direitos
Femininos da ACLU. “Há um monopólio sobre os testes, e as empresas podem
fixar o preço que quiserem”(Myriad cobra U$ 3.000,00 para cada teste de BRCA)
BRCA .
Myriad está determinada a manter sua política. A empresa recusou-se a
comentar a ação, mas “(...)acredita firmemente que suas patentes são válidas e
obrigatórias, e que serão mantidas pelas cortes de justiça” afirma Richard Marsh,
conselheiro geral da Myriad, em outra declaração. A história está do lado da
Myriad: praticamente todas as ações judiciais desafiando a legalidade das patentes
sobre genes não alcançaram êxito. É certo que o Direito de Patentes identifica
produtos da natureza como impedidos de serem patenteáveis, mas o escritório de
Patentes dos Estados Unidos trata os genes como exceções, se estiverem isolados
de seu estado natural, que é o de parte do genoma de um organismo. Sob tal
justificativa, o escritório de patentes do governo dos Estados Unidos concedeu
milhares de patentes sobre genes, totalizando 20% de todos os genes humanos, o
que permite às empresas titulares das patentes colher lucros substanciais, seja
mediante testes de diagnóstico, seja cobrando licenças onerosas de terceiros para
conduzir pesquisas utilizando estes genes.
Os oponentes do patenteamento dos genes enfrentam um alto muro de
precedentes legais, reconhece Kenneth Berns, microbiologista na Universidade da
Flórida. Simultaneamente, ele parabeniza a iniciativa da ACLU para reduzi-las.
“genes humanos não são algo inventado por pessoas” diz Berns, “ quando se
patenteia genes, você paralisa a pesquisa e o desenvolvimento de novos
tratamentos, porque ninguém poderá faze-los sem permissão”. O controle absoluto
da Myriad sobre os genes BRCA, por exemplo, prejudicou a pesquisa sobre o
significado de pequenas variações entre os genes encontrados em grupos étnicos

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que não são caucasianos. Bill warren, especialista em ciências da vida no
escritório de advocacia Sutherland, sediado na cidade de Atlanta, considera que
desafiar diretamente o conceito de patentear genes pode ser uma estratégia
equivocada. A ACLU talvez obtivesse resultados melhores alegando que as
patentes da Myriad não requerem inovação substancial, sendo, portanto, sem
valor.
“Um tribunal recentemente decidiu que um pedido de patente sobre seqüência de
genes era invalida por se tratar de invenção óbvia”, expõe Warren. “Será muito
improvável, no entanto, os tribunais federais reverterem sua duradoura posição no
sentido de permitir patentes de genes humanos isolados” Ele também
desconsiderou a alegação dos autores da ação judicial no sentido de que o
patenteamento de genes impediria avanços na bioindústria. “A proteção conferida
pelas patentes sustenta um custoso programa de desenvolvimento de
medicamentos e respectivos testes clínicos” afirma. “Essas atividades não
conseguem ser desenvolvidas sem um monopólio temporário”.
Um sistema em que firmas de biotecnologia consigam lucros sem restringir
pesquisas pode ser a melhor solução, segundo Darvid Ewing Duncan, diretor do
centro para políticas sobre ciências da vida, em Berkeley, Universidade da
Califórnia. Duncan propõe uma iniciativa governamental que financie pesquisas
que relacionem seqüências de genes com doenças específicas. Qualquer empresa
poderia alugar esses resultados públicos por um período limitado e vender testes
genéticos em busca de lucro. Tal poderia viabilizar lucros para as empresas de
biotecnologia e ao mesmo tempo estimular pesquisas, uma tática que tem
funcionado com o desenvolvimento de vacinas. Apesar de ser improvável que o
litígio Myriad-ACLU alcance resultado tão pouco convencional, biólogos
acompanharão o caso. “ Não se pode sair por aí inventando genes”, Diz Park. “
Este é o ponto fundamental para todo o debate subseqüente”.