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ÍNDICE

PROVA DE GEOGRAFIA
Localizando-se no Espaço: orientação e localização: coordenadas geográficas e fusos horários; e cartografia: a cartografia e
as visões de mundo, as várias formas de representação da superfície terrestre, projeções cartográficas, escalas e convenções
cartográficas..............................................................................................................................................................................................................................01
O Espaço Natural: estrutura e dinâmica da Terra: evolução geológica, deriva continental, placas tectônicas, dinâmica da crosta
terrestre, tectonismo, vulcanismo, intemperismo, tipos de rochas e solos, formas de relevo e recursos minerais; as superfícies
líquidas: oceanos e mares, hidrografia, correntes marinhas – tipos e influência sobre o clima e a atividade econômica, utilização
dos recursos hídricos e situações hidroconflitivas; a dinâmica da atmosfera: camadas e suas características, composição e prin-
cipais anomalias – El Niño, La Niña, buraco na camada de ozônio e aquecimento global: elementos e fatores do clima e os tipos
climáticos; os domínios naturais: distribuição da vegetação e características gerais das grandes paisagens naturais; e impactos
ambientais: poluição atmosférica, erosão, assoreamento, poluição dos recursos hídricos e a questão da biodiversidade. ......10
O Espaço Político e Econômico: indústria: o processo de industrialização, primeira, segunda e terceira revolução industrial,
tipos de indústria, a concentração e a dispersão industrial, os conglomerados transnacionais, os novos fatores de localização
industrial, as fontes de energia e a questão energética, impactos ambientais; agropecuária: sistemas agrícolas, estrutura agrá-
ria, uso da terra, agricultura e meio ambiente, produção agropecuária, comércio mundial de alimentos e a questão da fome;
globalização e circulação: os fluxos financeiros, transportes, os fluxos de informação, o meio tecnocientífico-informacional, co-
mércio mundial, blocos econômicos, conflitos étnicos e as migrações internacionais; a Divisão Internacional do Trabalho (DIT)
e as trocas desiguais; a Nação e o Território, os Estados territoriais e os Estados nacionais: a organização do Estado Nacional; e
poder global, nova ordem mundial, fronteiras estratégicas...................................................................................................................................27
O Espaço Humano: demografia: teorias demográficas, estrutura da população, crescimento demográfico; transição demográ-
fica e migrações; urbanização: processo de urbanização, espaço urbano e problemas urbanos; e principais indicadores socioe-
conômicos..................................................................................................................................................................................................................................41
Geografia do Brasil: O Espaço Natural: características gerais do território brasileiro: posição geográfica, limites e fusos
horários; geomorfologia: origem, formas e classificações do relevo: Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’Saber e Jurandyr Ross e a
estrutura geológica; a atmosfera e os climas: fenômenos climáticos e os climas no Brasil; domínios naturais: distribuição da ve-
getação, características gerais dos domínios morfoclimáticos, aproveitamento econômico e problemas ambientais; e - recursos
hídricos: bacias hidrográficas, aquíferos, hidrovias e degradação ambiental. ...............................................................................................44
O Espaço Econômico: a formação do território nacional: economia colonial e expansão do território, da cafeicultura ao Brasil
urbano-industrial e integração territorial; - a industrialização pós Segunda Guerra Mundial: modelo de substituição das impor-
tações, abertura para investimentos estrangeiros, dinâmica espacial da indústria, pólos industriais, a indústria nas diferentes
regiões brasileiras e a reestruturação produtiva; o aproveitamento econômico dos recursos naturais e as atividades econômi-
cas: os recursos minerais, fontes de energia e meio ambiente, o setor mineral e os grandes projetos de mineração; agricultura
brasileira: dinâmicas territoriais da economia rural, a estrutura fundiária, relações de trabalho no campo, a modernização da
agricultura, êxodo rural, agronegócio e a produção agropecuária brasileira; e comércio: globalização e economia nacional,
comércio exterior, integração regional (Mercosul e América do Sul), eixos de circulação e custos de deslocamento. ...............50
O Espaço Político: - formação territorial – território, fronteiras, faixa de fronteiras, mar territorial e ZEE; estrutura políticoadmi-
nistrativa, estados, municípios, distrito federal e territórios federais; a divisão regional, segundo o IBGE, e os complexos regio-
nais; e políticas públicas........................................................................................................................................................................................................77
O Espaço Humano: demografia: transição demográfica, crescimento populacional, estrutura etária, política demográfica e
mobilidade espacial (migrações internas e externas); mercado de trabalho: estrutura ocupacional e participação feminina;
desenvolvimento humano: os indicadores socioeconômicos; e urbanização brasileira: processo de urbanização, rede urbana,
hierarquia urbana, regiões metropolitanas e RIDEs, espaço urbano e problemas urbanos......................................................................84
GEOGRAFIA GERAL: LOCALIZANDO-SE NO ESPAÇO: ORIENTAÇÃO E LOCALIZAÇÃO: COORDE-
NADAS GEOGRÁFICAS E FUSOS HORÁRIOS; E CARTOGRAFIA: A CARTOGRAFIA E AS VISÕES DE
MUNDO, AS VÁRIAS FORMAS DE REPRESENTAÇÃO DA SUPERFÍCIE TERRESTRE, PROJEÇÕES
CARTOGRÁFICAS, ESCALAS E CONVENÇÕES CARTOGRÁFICAS.

As Coordenadas Geográficas são um sistema de mapeamento global utilizadas pela cartografia e baseado em linhas
imaginárias, ou seja, riscas sobre a superfície terrestre e alinhadas ao eixo de rotação do planeta.
Com efeito, esse método de mapeamento remonta aos antigos impérios babilônicos e fenícios, contudo, ficou pa-
tente quando o filósofo grego Ptolomeu definiu que um círculo completo poderia ser dividido em 360 partes (graus)
iguais, constituindo 360°.

Localizar Coordenadas Geográficas

De tal modo, estas linhas imaginárias que formam as coordenadas geográficas seguem caminhos horizontais e ver-
ticais, os quais são definidos como longitude e latitude, respectivamente.
A abreviatura “Lat.” corresponde à “Latitude”, enquanto a abreviatura “Long.” corresponde a “Longitude”. Note que
as longitudes determinam os fusos horários mundiais, enquanto as latitudes determinam os tipos de clima da Terra,
devido à incidência dos raios solares.
O GPS (Sistema de Posicionamento Global) informa nossa localização de acordo com as coordenadas de Latitude
e Longitude.
Portanto, a sobreposição destas duas linhas imaginárias determinam a posição de uma coordenada geográfica, da
qual as principais referências são: a Linha do Equador e o Meridiano de Greenwich.

Algumas Coordenadas Geográficas

• Berlim: 52º 30’ 00” N / 13º 25’ 48” E


• Brasília: 15° 50’ 00” S/48º 02’ 06” W
• Hong Kong: 22º 15’ 00” N/144º 10’ 48” E
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• Jerusalém: 31º 46’ 48” N/35º 13’ 12” E


• Londres: 43º 00’ 00” N/81º 00’ 00” W
• Sidnei: 33º 32’ 24” S/151º 49’ 12” E
• Tóquio: 35º 42’ 00” N/139º 46’ 12” E
• Washington: 38º 54’ 00” N/77º 01’ 12” W

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Pontos Cardeais Não obstante, da Linha do Equador (0°), até as extre-
midades da esfera terrestre, teremos 90° para polo geo-
gráfico norte, também chamado Boreal ou Setentrional e
dividido em termos numéricos positivos.
Por sua vez, abaixo da coordenada 0°, teremos - 90°
que se dirigem ao polo geográfico sul, também denomi-
nados Austrais ou Meridionais e considerados em termos
numéricos negativos. Em suma, marcam a distância refe-
rente à linha do Equador, posto que os paralelos formem
um ângulo entre o Equador e a coordenada estimada.
Em contrapartida, os Meridianos (ou longitudes) são
as linhas imaginárias que dividem a esfera terrestre ver-
ticalmente, partindo do polo Norte até o polo Sul e cru-
zando com os paralelos para determinar as coordenadas.
O principal marco meridional, por convenção, é a ci-
dade de Greenwich, próxima à Londres, na Inglaterra. As
longitudes também recebem valores positivos ou negati-
vos, de acordo com a orientação cardeal.
Assim, para aquelas coordenadas que estão a Leste
(Oriental) do Meridiano de Greenwich, os valores cres-
cem até 180°. Já para o outro lado, ou seja, à Oeste (Oci-
dental) do meridiano 0°, os valores decrescem até -180°.
Dessa forma, as longitudes constituem a distância
efetiva entre a coordenada estabelecida e o meridiano
de Greenwich, com quem forma um ângulo.

As Coordenadas Geográficas do Brasil


Os  pontos cardeais  (N=Norte/North, S=Sul/South,
E ou L=Leste/East, O=Oeste/West) são utilizados para
orientar as indicações das coordenadas geográficas, para
as quais se convencionou uma letra e um número, dividi-
dos por graduação (graus, minutos e segundos).
Portanto, para cada parte de 360, teremos 1°, o qual,
por sua vez, se subdivide em 60 minutos (60’), que se
dividem em até 60 segundos (60”) cada.

Paralelos e Meridianos

Coordenadas geográficas do Brasil: dados impor-


tantes para conhecermos o território do Brasil
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- Coordenadas Geográficas do Brasil: 10º S 55º O


- Área total do território brasileiro: 8.547.403,5 km²
- Área terrestre: 8.455.508 km²
- Área ocupada por águas (rios, lagos, córregos,
Os Paralelos (também chamados latitudes) são as li- etc): 55.457 km²
nhas que dividem a o globo horizontalmente, alinhadas - Centro Geográfico:  Barra do Garças (município si-
às do Equador, um paralelo por definição. tuado no estado do Mato Grosso).

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- Distância entre o ponto extremo Norte e do visto foi organizado, considerando também, a posi-
Sul: 4.320 km ção do observador que envolve o processo de seleção e
- Distância entre o ponto extremo Leste e Oes- recorte de uma cena. Voltando à cartografia temos que
te: 4.336 km recolocar suas propriedades enquanto uma documenta-
- Ponto extremo setentrional:  fica no estado de Ro- ção visual que produz narrativas verbo-visuais, ou seja, a
raima, na nascente do rio Ailã (monte Caburaí), fronteira denominação de lugares, mares e objetos, relacionados
com a Guiana. às instâncias de poder e governo e a representação grá-
- Ponto extremo Meridional:  fica no Rio Grande do fica e no espaço destes elementos. Seu traçado remonta
Sul, numa das curvas do rio Arroio Chuí, a 33° 45’ 03” de a um passado longínquo. Se pensarmos nas represen-
latitude Sul, na fronteira com o Uruguai. tações sobre o Brasil, por exemplo, podemos destacar
- Ponto extremo Oriental: fica no estado da Paraíba, os mapas e as cartas-portulanos dos séculos XVI e XVII,
na Ponta do Seixas. desenhadas por famílias com tradições em cartografia.
- Ponto extremo Ocidental: fica no estado do Acre, na Destinadas a reis e mercadores, eram peças únicas feitas
Serra da Contamana, nascente do rio Moa (fronteira com manualmente sobre pergaminho animal e ornamenta-
o Peru). Texto adaptado de CARVALHO. E. A. D; ARAÚJO. das com detalhes em ouro. Essas famílias pertenciam às
P. C. D. tradições de estudo e confecção de cartografia italiana,
flamenga, holandesa, francesa, inglesa e alemã.
OS MAPAS E AS VISÕES DE MUNDO No sistema figurativo na época das grandes navega-
Em meio aos documentos visuais disponíveis, pode- ções a representação de lugares ocupa posição central.
mos considerar os mapas como testemunhos concretos Na perspectiva daqueles que se arriscavam ao mar, a
de mentalidades, enfeixando elementos referentes ao cartografia foi instrumento de orientação no espaço em
imaginário e à cultura de uma época em seu caráter ad- conjunto com outros instrumentos como bússolas, sex-
ministrativo, político, estratégico e científico. Enquanto tantes, octantes e posteriormente, os globos. Os mapas,
uma construção social, ou seja, um documento elabora- ao firmar acordos sobre a repartição de terras, como o
do com determinado objetivo, os mapas históricos estão Tratado de Tordesilhas, por exemplo, impõem um pensa-
permeados por interesses econômicos e políticos. Como mento político. Continham também figuras representan-
documento visual, o mapa é portador de elementos sig- tes das regiões anexadas convenientes à exibição mais
nificativos para a compreensão de movimentos de ex- elegante e harmoniosa dos domínios conquistados de-
pansão territorial e mudanças nas e das fronteiras, mas, notando uma imposição “natural” e “sem conflitos”.
também, podemos vê-los como filtro e condensador de Estas representações, ricas em detalhes e símbolos,
um olhar sobre o mundo, na medida em que seus exe- articulam questões culturais envolvidas naquele momen-
cutores recortam, apreendem e transpõem em uma figu- to e a construção de ideias sobre civilização e barbárie
ração cartográfica, o desenho do mundo e de diversas que permanecerão arraigadas por muito tempo. Também
regiões. estes mapas revelam os valores que a paisagem cartográ-
Podemos rastrear os elementos estéticos da ciência fica registrava, divulgava e consolidava, graças ao papel
cartográfica a partir dos conhecimentos matemáticos e central que ocupava no processo de construção das re-
astronômicos em que se baseou o desenvolvimento da presentações sobre o mundo e não só do ponto de vista
cartografia desde o Renascimento, o que não descarta a geográfico. A questão de mapas históricos nos propõe,
existência de outros tipos de mapas executados por dife- por outro lado, pensar o conceito de fronteira. Objeto
rentes povos anterior a este período como os chineses e de investigação de várias áreas como a antropologia cul-
árabes por exemplo. Um mapa atrai o olhar por sua con- tural, sociologia, economia política, antropo-geografia e
cepção artística, por suas bases técnicas e revela mundos ciências históricas, o termo“fronteira”, segundo a Enciclo-
culturais em transformação e conflito pelas formas como pédia Einaudi, indica, em várias línguas, os substantivos
dispõe suas imagens. Podemos, assim, pensar não mais a correspondentes “a parte do território situada in fronte,
imagem do mapa, mas, o desenvolvimento do como se ou seja, nas margens”. “A linha de fronteira é, portan-
vê algo, e neste caso, fronteiras, regiões e países, ao lon- to uma abstracção que não tem existência real fora do
go do tempo. Ver algo ou o “outro” não é uma ocorrên- mapa geográfico. Mesmo o confim entre a terra e o mar
cia natural e sim um fato histórico que envolve critérios não é uma linha, mas sim uma orla ou margem traçada
de valoração e aos modos operativos de que o homem pelo mar. Possuindo caráter móvel e dinâmico, tem valo-
dispõe em determinados momentos históricos, por isso, res diferentes e as fronteiras mudam segundo a diferente
a função do olhar é de configurar e identificar o mundo, importância assumida no decorrer da história pelos múl-
construindo a forma dos seres da natureza e de seu en- tiplos atributos colocados pelos homens sendo permeá-
torno. veis ao intercâmbio de homens, ideias e bens culturais.
A imagem enquanto documento não deve ser consi- Relacioná-las aos mapas significa verificar as construções
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derada como mera ilustração de um texto escrito. Além e conformações de um território, país, região. Vejamos os
de seu cunho “conteudista” devemos refletir as diversas mapas cartográficos desenvolvidos em terras brasileiras
linguagens em cena, a produção das mesmas e as dife- e a expansão e constituição de fronteiras.
rentes faces e interfaces deste conjunto de visualidades: No século XVI e em parte do XVII, os registros eram,
pintura, caricatura, fotografia, cinema, cartografia, qua- sobretudo, de caráter geográfico. As cidades e as vilas
drinhos, fotonovelas, litografia, grafites, que propõem eram representadas esquematicamente como partes de
mediações, entre o mundo e seu observador, operadas trabalhos mais amplos. No século XVIII, com o desen-
por registros gráficos e também modos como este mun- volvimento da vida urbana nas regiões de mineração e

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nos principais portos, tornou-se importante para o go- CARTOGRAFIA; FUSOS HORÁRIOS; ESCALA; CUR-
verno português a aplicação de modelos mais complexos VAS DE NÍVEL; PROJEÇÕES
de controle urbanístico, que levaram à implantação de Nós não percebemos, mas utilizamos as informações
normas minuciosas e à elaboração de estudos e proje- e conhecimentos produzidos pela cartografia no cotidia-
tos em níveis de maior qualidade. Essa ação controlado- no. Ao consultarmos um guia de mapas de ruas, nas au-
ra foi facilitada pela presença dos engenheiros militares las de geografia da escola, no aparelho de GPS (Global
responsáveis pelos trabalhos de demarcação dos limites, Positioning System) do automóvel e em outras situações,
treinados em elaborar trabalhos cartográficos em sua for- estamos em contato com esta ciência que atua, principal-
mação profissional. A ação de expedições, e em especial, mente, na elaboração e interpretação de mapas. Portan-
da Expedição Geográfica dos Padres Matemáticos, entre to, a cartografia é uma ciência voltada para a elaboração
1730 e 1748, com o propósito de estabelecer os limites de mapas, unindo conhecimentos científicos, técnicos e
territoriais na América, fornece à Coroa portuguesa infor- artísticos.
mações essenciais para negociar com a coroa espanhola
os limites de extensão e a realização de tratados territo- História
riais, em uma condição mais segura e vantajosa, como Podemos dizer que a cartografia surgiu na antigui-
os tratados de Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777). A dade, pois encontramos representações de mapas na
mesma política portuguesa que promove a demarcação, Grécia Antiga, Império Romano, Mesopotâmia, entre ou-
fortificação e o traçado das plantas das cidades com a tros povos da antiguidade. Evidentemente que os car-
presença de especialistas europeus, atua, também, no tógrafos da época antiga não tinham muitos recursos
sentido de impedir a entrada de estrangeiros e vetar-lhes para produzirem mapas com precisão. Os mapas antigos
outros modos de conhecimento dos recursos naturais do eram repletos de imperfeições, principalmente, no que
Brasil. Na primeira metade do século XVIII é conhecida se refere à proporcionalidade. Mesmo assim, serviam de
apenas uma expedição à América Meridional, de 1735 a referência para viajantes e comerciantes da época, que
1745, patrocinada pelo governo francês e chefiada pelo necessitavam muito destas informações para planejarem
cosmógrafo Charles Marie La Condamine, que desce um suas viagens.
trecho do rio Amazonas. Na época das Grandes Navegações e Descobrimen-
As representações gráficas indicam não somente os tos Marítimos (séculos XV e XVI), os cartógrafos foram
aspectos econômicos, políticos e naturais de uma região, extremamente importantes. Cada expedição levava um
mas, podem ser lidas a partir da perspectiva humana uti- especialista em mapas, pois era importante que as em-
lizada para o levantamento destes dados e principalmen- barcações não se perdessem nos vastos oceanos. Foi no
te, a ausência de referências, naturais ou humanas, nos século XVI que os primeiros mapas do continente ameri-
chamados “vazios”. Esta consideração nos leva a refletir cano e também do Brasil foram elaborados.
sobre o que havia naqueles lugares, quais povos ou pes-
soas ali habitavam e porque não foram assinaladas. Cartografia na atualidade
As possibilidades de uso dos mapas históricos em Atualmente, os cartógrafos contam com informações
sala de aula envolvem não somente lidar com um do- gráficas enviadas por satélites. Estes dados chegam com
cumento que tem “leituras” de uma época a apresentar, total precisão, cabendo ao cartógrafo interpretá-los e or-
mas também, com os limites de seu próprio traçado: as ganizá-los de forma científica. Computadores avançados
ausências, as mudanças e as permanências. Este docu- são utilizados nestas operações, oferecendo resultados
mento nos coloca uma riqueza de possibilidades: a com- de grande importância.
paração de mapas em várias épocas históricas e a atua- Os mapas cartográficos auxiliam na agricultura, pre-
lidade, considerando os dados econômicos, políticos e visão do tempo, construção de rodovias, aviação, plane-
mesmo estratégico em muitos momentos; a confecção jamento ambiental e em vários sistemas de orientação
de mapas pelos alunos utilizando representações mais que usamos no dia-a-dia. Esta ciência também é muito
simples conforme sua série para configurar cartografica- importante para o estudo de diversas áreas da Geografia.
mente, uma região, sua cidade (e aí, por que não, seu
bairro, sua escola e sua sala de aula) ou mesmo a partir Escala Cartográfica
de um documento escrito, a disposição espacial descrita A escala cartográfica é a relação matemática entre
ou idealizada. as distâncias traçadas em um mapa e as existentes na
Este talvez seja o aspecto mais fascinante ao lidar natureza. O mapa é a representação geométrica, sobre
com mapas: o espaço. Localizar em um espaço as reali- um plano, de uma porção de superfície terrestre. Uma
zações do homem em determinado período, a natureza vez fornecidos os dados necessários pela geodésia (dis-
modificada e as transformações sofridas coloca-nos en- tâncias, direções e relevo), tais valores são reproduzidos
volver o aluno a perceber seu entorno e as mudanças no em mapa por meio de desenho, o qual mantém a rela-
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tempo de seu bairro, de sua cidade, de sua região, de seu ção constante e rigorosa entre as distâncias traçadas no
Estado, de seu país, das fronteiras em que estão inscritos, mapa e as extensões correspondentes na natureza. Para
do mundo em processo de constantes alterações, pela isso, usam-se escalas.
ação do homem ou pela relação do homem com outros Escala é a relação estabelecida entre a representação
e com a natureza. Texto adaptado de MOLINA. A. H.] do fenômeno no mapa e sua verdadeira dimensão. A
escala 1:1.000.000 significa que cada medida linear do
espaço real está reduzida, no mapa, à milionésima parte
(1km = 1mm).

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A indicação da escala de um mapa é direta quando boradas pelas forças armadas, encontra-se uma escala
feita junto à legenda, por expressão numérica ou gráfi- gráfica pertencente à classe das escalas de conversão ou
ca, e indireta, quando essa mesma relação é estabelecida binárias. É a escala de passos que, de um lado da reta,
por elementos de grandeza conhecida. As escalas podem tem uma graduação métrica e, do outro, uma graduação
ser: numéricas; gráficas; de declividades; e de cores. em unidades de passos. A posição oposta das duas gra-
duações ao longo da meta permite avaliar o número de
Escala Numérica metros para determinado número de passos e vice-versa.
Expressa por fração (1/2.000) ou por razão (1:2.000), a A distância conhecida é tomada numa tira de papel ou
escala numérica significa, de acordo com o exemplo, que no compasso de ponta-seca e lê-se o valor correspon-
a unidade de comprimento, no numerador, ou no primei- dente em unidades da escala oposta ao longo do tronco
ro membro, vale duas mil vezes essa mesma unidade no e do talão, da mesma maneira como se procede com a
terreno. Para tanto, é preciso conhecer o valor em me- escala gráfica simples.
tros, correspondente a um centímetro ou um milímetro Outro tipo de escala gráfica é o da composta ou de
da régua graduada aplicada sobre o mapa. Basta cortar deformações. A projeção cartográfica empregada na
as duas ou três últimas casas do denominador dentro da construção da rede de coordenadas geográficas (me-
razão. Exemplo: 1/2.000 indica que um milímetro da ré- ridianos e paralelos) no plano provoca deformações
gua corresponde a dois metros no terreno. lineares nos mapas geográficos. A escala composta é
As escalas numéricas podem representar relações tí- apresentada num conjunto em que são indicadas com
picas pela simples variação dos valores expressos: a in- exatidão as escalas de latitudes escolhidas, a primei-
dicação 10/1 ou 10:1 é uma escala de maior proporção, ra relativa ao equador. A ligação dos valores iguais das
indicando que a medida sobre o desenho ou fotografia é graduações das escalas forma uma série de curvas que
dez vezes o tamanho do objeto. Já a indicação 1/1 ou 1:1 permitem determinar graficamente o valor de distâncias
é a escala natural, em que a medida do desenho é igual à em qualquer latitude.
do objeto representado “em tamanho natural”. Por fim, a Nos atlas escolares empregam-se figuras geométri-
indicação 1/10 ou 1:10 é a uma escala de menor propor-
cas, como o quadrado da área conhecida, desenhada,
ção, do tipo usado na confecção de mapas.
na escala linear, num canto do mapa. É costume incluir
Não é costume utilizar uma escala numérica de su-
nos mapas de origem europeia o desenho esquemático
perfície para a avaliação de áreas em mapas. Mas, se for
do próprio país, na escala do mapa, o que permite ob-
usada, deve-se saber que a escala de superfície de um
ter imediata ideia da grandeza de outras terras mediante
mapa é a escala linear ao quadrado. Exemplo: 1:5.000
simples comparação visual.
linear é 1:5.0002 de superfície, isto é, um quadrado no
mapa representa 25 milhões de quadrados idênticos no
terreno. Escala de Declividades
A escala numérica para altitudes seria a escala linear Dá-se o nome de escala de declividades àquela que
do mapa. Mas, como o relevo (a terceira dimensão) é permite medir inclinações das vertentes e rampas das
imensurável no mapa, por ser apenas figurado por meios vias quando o relevo é representado por curvas de nível,
gráficos, o processo torna-se inaplicável. Assim, em plan- hachuras ou esbatidos. Tal escala, que envolve a terceira
tas e cartas topográficas encontra-se por vezes, junto à dimensão, é elaborada com retas graduadas de maneira
legenda expressa em números, a indicação da equidis- progressiva e em que os espaços marcados contam sem-
tância das curvas de nível, o que permite avaliar facil- pre a partir da origem.
mente altitudes e declives. Lê-se o valor mais próximo da escala entre curvas
consecutivas e, se for necessário obter valores mais pre-
Escala Gráfica cisos, interpolam-se as diferenças por estimativa. A gra-
As escalas gráficas exprimem com desenho a relação duação das escalas de declividades pode ser percentual
mapa-natureza e, com frequência, são empregadas junto ou angular. Uma dada escala só serve para determinada
com a escala numérica. Sua vantagem decorre da fácil e escala linear e determinada equidistância de curvas de
imediata leitura, o que permite a determinação da dis- nível.
tância por comparação ao longo da escala desenhada,
obtendo-se o resultado rapidamente, sem necessidade Escalas de Cores
de cálculo. Vantagem adicional da escala gráfica é o fato Usadas para a representação do relevo nos mapas,
de acompanhar as eventuais reduções ou ampliações do empregam-se escalas de cores que, conforme certas re-
mapa, conservando a razão da escala, o que não ocorre gras, indicam as zonas de altitude e depressão. Em ge-
com a escala numérica. ral colocadas junto às legendas, essas escalas designam
A escala gráfica simples é uma reta dividida em uni- com cores diferentes a altitude dos planos horizontais ou
dades na razão da escala. Gradua-se a reta, a partir do as curvas que limitam tais zonas.
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ponto zero, com uma unidade básica maior para a es- Para a prática da ciência cartográfica é de funda-
querda, e para a direita marca-se a mesma unidade bá- mental importância a utilização de recursos técnicos, e
sica maior tantas vezes quantas forem suficientes. A uni- o principal deles é a projeção cartográfica. A projeção
dade da esquerda chama-se talão ou extensão e acha-se cartográfica é definida como um traçado sistemático de
subdividida em unidades menores. linhas numa superfície plana, destinado à representação
Nas escalas gráficas, o resultado depende do cuidado de paralelos de latitude e meridianos de longitude da
e prática da operação de leitura e, esta, da finura da gra- Terra ou de parte dela, sendo a base para a construção
duação. Nas cartas topográficas, especialmente as ela- dos mapas.

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A representação da superfície terrestre em mapas,
nunca será isenta de distorções. Nesse sentido, as proje-
ções cartográficas são desenvolvidas para minimizarem
as imperfeições dos mapas e proporcionarem maior rigor
científico à cartografia.
No entanto, nenhuma das projeções evitará a totali-
dade das deformações, elas irão valorizar alguns aspec-
tos da superfície representada e fazer com que essas dis-
torções sejam conhecidas. Entre as principais projeções
cartográficas estão:
- Projeção Cilíndrica: o plano da projeção é um ci-
lindro envolvendo a esfera terrestre. Depois de realizada
a projeção dos paralelos e meridianos do globo para o
cilindro, este é aberto ao longo de um meridiano, tornan-
do-se um plano sobre o qual será desenhado o mapa.

- Projeção Plana ou Azimutal: a superfície terrestre é


representada sobre um plano tangente à esfera terrestre.
Os paralelos são círculos concêntricos e os meridianos,
retos que se irradiam do polo. As deformações aumen-
tam com o distanciamento do ponto de tangência. É uti-
lizada principalmente, para representar as regiões pola-
res e na localização de países na posição central.

- Projeção Cônica: a superfície terrestre é represen-


tada sobre um cone imaginário envolvendo a esfera ter-
restre. Os paralelos formam círculos concêntricos e os
meridianos são linhas retas convergentes para os polos.
Nessa projeção, as distorções aumentam conforme se
afasta do paralelo de contato com o cone. A projeção
cônica é muito utilizada para representar partes da su-
perfície terrestre.
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- Projeção Senoidal: executada por Mercator, Sanson


e Flamsteed, tem os paralelos horizontais e equidistan-
tes. Trata-se de um tipo de projeção que procura manter
as dimensões superficiais reais, deformando a fisionomia.

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Esta deformação intensifica-se na periferia do mapa. Para representar fenômenos que têm localização iso-
- Projeção de Mercator ou Projeção Cilíndrica Con- lada devem ser usados pontos. Quando a representação
forme: conserva a forma dos continentes, direções e os é qualitativa, ou seja, apresenta tipos diferentes de uma
ângulos verdadeiros. Muito utilizada para navegação determinada informação, usamos pontos de cores e for-
marítima e aeronáutica. mas diferentes. Quando são ordenados, representam
- Projeção de Peters ou Projeção Cilíndrica Equivalen- valores, usamos pontos de tamanhos diferentes. Confi-
te: não mantém as formas, direções e ângulos, conserva a ra no mapa abaixo um bom exemplo de representação
proporcionalidade das áreas, preservando as superfícies pontual:
representadas. Para demonstrar fenômenos que tem uma trajetória
- Projeção de Hölzel: Apresenta contorno em elipse, usamos as linhas. Quando a representação é qualitativa,
proporcionando uma ideia aproximada da forma esférica as linhas devem ser diferenciadas. Para quantidades dife-
da Terra com achatamento dos polos. rentes o ideal são espessuras diferentes. Confira o exem-
- Projeção Azimutal Equidistante Polar: O polo norte
plo de representação linear:
é o centro do mapa, e a partir dele as distâncias estão em
Há ainda um outro modo de representar fenômenos
escala verdadeira, bem como os ângulos azimutais.
na Cartografia temática conhecido como Anamorfose
- Projeção de Robinson: é uma representação global
Geográfica. Nele as forma e áreas geográficas são alte-
da Terra. Os meridianos são linhas curvas (elipses) e os
paralelos são linhas retas. radas e apresentadas de acordo com a sua importância
Cartografia Temática é usada na elaboração de ma- no assunto tratado. Confira um exemplo de mapa da po-
pas temáticos e cartogramas. São convenções, símbolos pulação mundial onde foi usada a técnica da anamorfose
e cores usadas para que haja uma melhor compreensão geográfica.
do tema exposto e seu espaço geográfico.
Além de indica o fenômeno e onde ele ocorre a Fuso horário brasileiro.
cartografia temática também pode através de símbolos Cartografia é uma área do conhecimento que, desde
indicar a qualidade, a quantidade e a dinâmica desses as suas origens e no seu longo processo de sistemati-
fenômeno. Para isso geralmente são usadas linhas, áreas, zação, vem incorporando saberes de outras áreas cien-
cores e pontos dependendo do assunto tratado. Confira tíficas, com o propósito de representar o espaço. Uma
alguns dos principais elementos usados: das áreas relacionadas é a Astronomia que, entre outros
ensinamentos, nos auxilia na compreensão da situação
do planeta Terra no contexto do Sistema Solar, seus mo-
vimentos e as consequências destes na nossa vida coti-
diana.
O conhecimento da noção de fusos horários nos dias
atuais tem uma importância fundamental para a com-
preensão das múltiplas relações entre os diferentes e dis-
tantes lugares de um mundo cada vez menor.
Apesar de quase imperceptíveis por causa da correria
do nosso dia-a-dia, a Terra executa movimentos, alguns
dos quais de forte influência sobre nós. Um desses mo-
vimentos interfere de forma muito marcante em nossas
vidas, sua influência é diária e suas consequências são
percebidas a cada hora, às vezes, a cada minuto: é o mo-
vimento de rotação.
Como podemos ver na figura anterior, é um movi-
mento realizado no sentido Oeste-Leste e, através dele,
a Terra dá um giro em torno do seu próprio eixo em um
período de 24 horas.
Por esse motivo, temos a impressão de que o Sol nas-
ce no horizonte a Leste e que, com o passar das horas,
descreve uma trajetória sobre nossas cabeças no sentido
Leste-Oeste, até o poente. Como sabemos, esse movi-
mento é apenas aparente. A verdade é que, pela manhã,
quando o Sol parece subir no horizonte, é a Terra que
PROVA DE GEOGRAFIA

está girando na direção contrária (Oeste-Leste).


Assim, quando o Sol aparece no horizonte às 6 horas
da manhã, devemos vê-lo horizontalmente. Às 7 horas,
a Terra já girou 15 graus e então o Sol já estará 15 graus
acima da linha do horizonte, às 8 horas, 30 graus, às 9
horas, 45 graus e assim por diante ao longo de todo o
dia. Por isso somos induzidos a acreditar que o Sol está
descrevendo essa trajetória, mas, é o movimento de rota-

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ção da Terra que provoca tal “ilusão”. É esse movimento 1º Fuso – é o fuso de –2h (menos duas horas) em
aparente do sol o responsável pela sucessão das horas relação à hora de Greenwich. Fazem parte deste fuso as
do dia, o que pode ser comprovado pelas sombras de ilhas oceânicas de Fernando de Noronha, Martin Vaz e
objetos fixos nos locais em que vivemos. Trindade, o Atol das Rocas, os Penedos de São Pedro e
Essa é a hora real ou solar, ou seja, é a hora definida São Paulo.
pela passagem do Sol sobre o meridiano de um lugar. 2º Fuso – é o fuso de –3h (menos três horas). É o
Como sabemos, a Terra conceitualmente é dividida em fuso de Brasília e representa a hora oficial do país. Todos
hemisférios. os estados das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, mais os
O Equador divide a Terra em hemisférios Norte e Sul e estados de Goiás no Centro-Oeste e Tocantins e parte do
o meridiano de Greenwich divide a Terra em hemisférios Pará, na região Norte.
Leste e Oeste. Neste último sentido, temos 360 meridia- 3º Fuso – é o fuso de –4h (menos quatro horas). Com-
nos de 1 grau de longitude. Cada grau é dividido em 60 preende os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do
minutos que, por sua vez, se dividem em 60 segundos. Sul no Centro-Oeste, a parte ocidental do Pará, Amapá,
Se quisermos falar em dimensões, devemos ver que Roraima, Rondônia e quase todo o estado do Amazonas
no Equador 1 grau de longitude tem uma dimensão, uma na região Norte.
amplitude ou largura de cerca de 111,3 km. Quando divi- 4º Fuso – é o fuso de –5h (menos cinco horas). É o
dimos esse grau por 60 minutos, teremos a largura de 1 fuso do Acre e do sudoeste do estado do Amazonas.
minuto de longitude, que é cerca de 1855 m.
Ao se dividir o minuto por 60 segundos, teremos a Figura 1: Fuso Horário do Brasil
largura de um segundo de longitude com cerca de 30,9
m. Portanto, a cada 30 metros e noventa centímetros,
teremos um meridiano de um segundo. Considerando-
-se que hoje, mais do que nunca, é possível determinar
com precisão 1/10” (um décimo de segundo), 1/100” (um
centésimo de segundo) e até 1/1000” (um milésimo de
segundo), devemos entender que a cada centímetro do
chão que pisamos é possível estabelecermos o lugar por
onde está passando um meridiano, mesmo que na práti-
ca isso não seja uma tarefa fácil.
Assim pensando, podemos entender que cada lugar
ou ponto do planeta, situado mais a oeste de outro, terá
sempre um tempo atrasado, seja uma hora, um minuto,
um segundo ou um milésimo de segundo. Em lugares
muito próximos isso não é percebido. Mas, quando um
lugar está distante de outro apenas 1º de longitude (no
sentido Leste-Oeste ou viceversa), isso significa que esse
lugar está adiantado ou atrasado em 1/15 (um quinze
avos) de uma hora, ou seja, está adiantado ou atrasado
em 4 minutos
Com quase 9 milhões de Km², o Brasil possui carac-
terísticas peculiares por conta dessa imensidão. Poucos O HORÁRIO DE VERÃO
países possuem mais de um fuso horário. O Brasil possui. 
No Brasil, um parecer da Comissão de Constituição O princípio fundamental deste horário é que, como
e Justiça da Câmara dos Deputados, em 06/06/1911 re- no verão o Sol nasce mais cedo, ao adiantar os relógios
comenda ser de alta conveniência o estabelecimento da em uma hora é possível aproveitar mais a luz do dia,
hora legal, visto que ao lado da hora do Rio, usada nas uma vez que a realização das atividades humanas nesse
estações telegráficas da União, encontram-se horas lo- período (à luz do Sol) ocasiona um menor consumo de
cais as mais variadas e arbitrárias, o que, evidentemente, energia elétrica. O horário de verão foi adotado no Brasil
prejudica as relações comerciais, já dificultando o esta- pela primeira vez em 1931 e, em geral, adiantavam-se
belecimento seguro do trafego mútuo nas estradas de as horas em todo o país. Após a constatação de que em
ferro, já impedindo a comparação das datas e horas dos alguns estados os seus efeitos eram insignificantes, nos
despachos telegráficos e a solução das transações mer- últimos anos, a adoção do horário de verão no Brasil é
cantis, dependentes de contratos que envolvem ques- seletiva, atingindo apenas as regiões onde, de fato, se
tões de tempo. pode economizar energia elétrica.
Com base nesta recomendação, o Congresso Na-
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cional aprovou a Lei nº. 2.784 em 18 de junho de 1913,


instituindo o Sistema de Fusos Horários. Como o país
tem dimensões continentais e sua distância longitudinal
(sentido Leste-Oeste) é grande, houve a necessidade de
dividir o espaço em 4 fusos horários. É importante ob-
servar que os fusos abaixo relacionados não obedecem
aos meridianos limítrofes originais. Eles são ajustados de
acordo com as conveniências regionais.

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Figura 2: Horário de Verão no Brasil O fato é que  Fernando de Noronha  já se encontra
numa faixa longitudinal que insere aquela ilha no fuso
horário GMT -2, portanto, uma hora adiantado em rela-
ção a Brasília.
Em suma, o Brasil tem 4 fusos horários, todos a Oeste
do meridiano de Greenwich e, por esse motivo, têm os
fusos  precedidos do símbolo negativo (-). O oficial, de
Brasília está no fuso -3 e abrange a maioria dos estados
(RS, SC, PR, SP, MG, RJ, ES, BA, SE, AL, PE, PB, RN, CE, PI,
MA, PA, AP, GO e DF).
Os demais estados das regiões Centro-Oeste e Norte
estão distribuídos no fuso GMT -4 ( RR, RO, MT, MS e a
maior parte do Amazonas) e no fuso GMT -5 (AC e su-
doeste do AM). Porém, há uma época do ano que uma
parte do Brasil muda de horário. É o Horário de Verão.
Quando se aproxima o verão no hemisfério Sul, os
dias no Brasil, nos estados mais ao Sul, ficam mais lon-
gos. Pensando na possibilidade de se aproveitar mais a
luz natural do Sol, adianta-se o relógio em uma hora no
intuito de fazer com que, no horário de pico do consumo
de energia elétrica que se dá entre 18h e 21h, haja ainda
insolação e, portanto, diminui o consumo de energia.
Desde 2008 que há data marcada para o Horário de
A razão para isso é que, considerando-se que cada Verão começar e terminar no Brasil. Inicia-se no terceiro
fuso possui 15º de extensão longitudinal (sentido Les- domingo do mês de outubro  quando se deve adiantar
te-Oeste), seria um grande erro que não houvesse mais em uma hora os relógios e termina no terceiro domin-
de um fuso horário no Brasil, visto que no sentido Leste- go de fevereiro (exceção feita se o domingo de carnaval
-Oeste, há em torno de 39º de extensão de acordo com a coincidir com essa data) quando se deve atrasar os reló-
diferença entre os pontos extremos Oeste-Leste do ter- gios em uma hora.
ritório brasileiro.  É bom que se diga que o horário de verão não é uma
invenção brasileira. A ideia de aproveitamento maior da
Nesse caso, faz todo sentido que, na parte continen- luz solar data do século XVIII, criada pelo inventor Benja-
tal, tenha pelo menos 2 fusos, seguindo o seguinte ra- min Franklin, na Inglaterra. No entanto, foi a Alemanha,
ciocínio: em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial que ado-
• Extensão Longitudinal (Leste-Oeste): 39º tou pela primeira vez de modo oficial o horário de verão
• Extensão de cada fuso horário: 15º num esforço de guerra para diminuir o consumo de car-
• Logo: 39/15 = 2,6. vão mineral usado para gerar energia elétrica.
No Brasil, a primeira vez que adotou-se o horário de
Devido a esse valor obtido, entre 2008 e 2013, o su- verão foi em 1931. Desde então, entre idas e vindas, o ho-
doeste do estado do Amazonas e o Acre foram incorpo- rário de verão vem sendo uma prática anual desde 1985.
rados ao fuso horário GMT -4, com uma hora a menos Anualmente, são divulgados percentuais de economia no
que o horário de Brasília. Complicou? Veja a seguir como consumo de energia elétrica gerada pela medida.
tudo isso foi ‘resolvido’ com base no jeitinho brasileiro. Os estados brasileiros que o adotam também se mo-
No entanto, devido ao clamor da população daquela dificaram bastante ao longo dos anos. Desde 2013, todos
região, em 2010 houve um referendo popular pra decidir os estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste ado-
tam o horário de verão.
se voltaria ao padrão anterior de horário (GMT-5, duas
horas a menos que o horário de Brasília). Como optou-
-se, segundo a maioria dos votos, pelo retorno aos ve-
lhos tempos, novamente o Brasil passou a ter 4 fusos ho-
rários quando sancionada a Lei o que ocorreu somente
em 2013.

Mas, qual é o 4º fuso horário no Brasil?


PROVA DE GEOGRAFIA

Bom, na realidade não é o quarto, mas sim o primei-


ro.  O Brasil tem uma extensa costa banhada pelo Ocea-
no Atlântico. Os países que fazem limite com mares e
oceanos possuem o  que se chama de mar territorial que
pode incluir ilhas localizadas nessa faixa territorial. É o
caso brasileiro, com o arquipélago de Fernando de No-
ronha.

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Texto adaptado de CARVALHO. E. A. D; ARAÚJO. P. C. D

O ESPAÇO NATURAL: ESTRUTURA E DINÂMICA DA TERRA: EVOLUÇÃO GEOLÓGICA, DERI-


VA CONTINENTAL, PLACAS TECTÔNICAS, DINÂMICA DA CROSTA TERRESTRE, TECTONISMO,
VULCANISMO, INTEMPERISMO, TIPOS DE ROCHAS E SOLOS, FORMAS DE RELEVO E RECUR-
SOS MINERAIS; AS SUPERFÍCIES LÍQUIDAS: OCEANOS E MARES, HIDROGRAFIA, CORRENTES
MARINHAS – TIPOS E INFLUÊNCIA SOBRE O CLIMA E A ATIVIDADE ECONÔMICA, UTILIZA-
ÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E SITUAÇÕES HIDROCONFLITIVAS; A DINÂMICA DA ATMOS-
FERA: CAMADAS E SUAS CARACTERÍSTICAS, COMPOSIÇÃO E PRINCIPAIS ANOMALIAS – EL
NIÑO, LA NIÑA, BURACO NA CAMADA DE OZÔNIO E AQUECIMENTO GLOBAL: ELEMENTOS E
FATORES DO CLIMA E OS TIPOS CLIMÁTICOS; OS DOMÍNIOS NATURAIS: DISTRIBUIÇÃO DA
VEGETAÇÃO E CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS GRANDES PAISAGENS NATURAIS; BIOGEO-
GRAFIA E IMPACTOS AMBIENTAIS: POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA, EROSÃO, ASSOREAMENTO,
POLUIÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E A QUESTÃO DA BIODIVERSIDADE.

GEOLOGIA
A geologia (do grego geo, terra e logos, estudo) é a ciência que estuda a crosta terrestre, a matéria que a compõe,
seu mecanismo de formação, as alterações que está experimentando desde sua origem e a textura e estrutura que sua
superfície possui atualmente.
As disciplinas da geologia são:
Cristalografia: é a ciência geológica que se dedica ao estudo científico das estruturas cristalinas. Os métodos cris-
talográficos se apóiam na análise dos padrões de difração que surgem de uma amostra cristalina ao irradiá-la com
um feixe de raios x, nêutrons ou elétrons. A estrutura cristalina também pode ser estudada por meio de microscopia
eletrônica.
Espeleologia: é a disciplina que estuda a morfologia das cavidades naturais do subsolo, estas são investigadas, to-
pografadas e catalogadas.
Estratigrafia: é a disciplina da geologia que estuda a interpretação das rochas sedimentares estratificadas, a iden-
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tificação, descrição, sequência (vertical e horizontal), cartografia e correlação das unidades estratificadas das rochas.
Geologia do Petróleo: é a combinação de diversos métodos ou técnicas de exploração para selecionar as melhores
oportunidades de encontrar petróleo e/ou gás.
Geologia Econômica: encarregada do estudo das rochas a fim de encontrar depósitos de minerais que possam ser
explorados pelo homem (mineração).
Geologia Estrutural: Estuda a geometria das formações rochosas e a posição em que aparecem na superfície. Inter-
preta e entende o comportamento da crosta terrestre perante os esforços tectônicos e sua relação espacial, determi-
nando a deformação que produz e a geometria destas estruturas.

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Gemologia: ciência de identificar e avaliar gemas. a chamada transgressão e regressão marinha, respectiva-
Geologia Histórica: estuda as transformações pelas mente. Geralmente demoram muito tempo para ocorrer.
quais a Terra passou desde sua formação (há 4,5 milhões Movimentos Orogênicos:  Assim como os movimen-
de anos). tos epirogênicos, são resultados de diferentes movimen-
Geologia Planetária: também chamada de astrogeo- tos tectônicos. Estes são responsáveis pela formação de
logia, trata da geologia dos corpos celestes (cometas, montanhas, muitas vezes propiciadas pelo chocamento
planetas, etc). das placas. O resultado pode acontecer através de um
Geomorfologia: tem por objeto a descrição e a expli- dobramento ou um falhamento.
cação do relevo terrestre, continental e marinho, como Nos dobramentos, um terreno, geralmente compos-
resultado da interferência dos agentes atmosféricos so- to por rochas pouco resistentes, tende a se dobrar, for-
bre a superfície. mando diferentes níveis de elevações. Já nas falhas, que
Geoquímica: estuda a composição e o comporta- ocorre em rochas mais fortes, há o surgimento de um
mento químico da terra, determinando a abundância trincamento, por conta da resistência da rocha quanto as
absoluta e relativa dos elementos químicos, distribuição forças do interior terrestre.
e migração dos elementos nas partes que formam a ter- Vulcanismo:  O modelamento acontece através de
ra (atmosfera, litosfera, hidrosfera e biosfera), utilizando uma derramamento vulcânico.
como principais amostras rochas e minerais.
Geofísica: estuda a terra do ponto de vista da física e Dinâmica externa
seu objeto de estudo está formado por todos os fenô- Este tipo de dinâmica compreende a ação de agentes
menos relacionados com a estrutura, condições físicas e externos na superfície terrestre.
história evolutiva da terra. Chuva:  A chuva tem forte poder no modelamento
Hidrogeologia: estuda as águas subterrâneas no terrestre. Pode ocorre em qualquer lugar com alta plu-
tocante a sua origem, sua circulação, seus condiciona- viosidade, porém é mais comum em encostas despidas
mentos geológicos, sua interação com os solos, rochas de vegetação.
e pantanais. Seu estado (líquido, gasoso ou sólido), sua Vento: Mais comum em regiões desérticas ou de du-
captação e suas propriedades (químicas, físicas, bacterio- nas. O vento atua principalmente no movimento de areia
lógicas e radioativas). solta.
Paleontologia: é uma sub-disciplina geológica que Gelo: O gelo tem grande poder de erosão, por con-
empresta elementos da biologia para o estudo de seres ta disso, foi e ainda é responsável por diferentes trans-
orgânicos desaparecidos, a partir dos seus restos fósseis. formações no relevo. Os fiordes são resultados da ação
Petrologia: consiste no estudo das propriedades físi- dele. é uma grande entrada de mar entre altas monta-
cas, químicas, mineralógicas e espaciais e cronológicas nhas rochosas. Os fiordes situam-se principalmente nas
das associações rochosas, bem como os processos res- costas da Noruega, Groenlândia, Chile e Nova Zelândia,
ponsáveis pela sua formação. onde são um dos elementos geomorfológicos mais em-
Sedimentologia: estuda os processos de formação, blemáticos da paisagem, e têm origem na erosão das
transporte e depósito de materiais que se acumulam montanhas devido ao gelo.
como sedimentos em ambientes continentais e mari- Rio:  Os rios criam diferentes passagens de água ao
nhos, que normalmente formam rochas sedimentares. longo do seu leito. Também pode sofrer a ação humana
Sismologia: estuda os abalos sísmicos e a propagação com a modificação de suas trajetórias.
de suas ondas. A sismologia também estuda os maremo- Mar:  O mar tem forte presença na modelagem lito-
tos e os movimentos sísmicos que antecedem os terre- rânea, seja elas com o avanço ou regressão das marés.
motos. As falésias, por exemplo, sofrem a ação do mar que, em
Vulcanologia: estuda os vulcões, a lava, o magma e contato com elas, formam grandes paredões de areia.
outros fenômenos geológicos relacionados.
BIOGEOGRAFIA
PLANETA TERRA: ESTRUTURA As florestas são importantes para todos os seres, por
O planeta terra está em constante mudança. Tais isso nesta lição mostraremos as formações vegetais em
transformações geralmente demoram milhões de anos todo mundo e no Brasil, bem como a biosfera e os pro-
e raramente são perceptíveis. Elas são causadas por di- blemas de não se cuidar do meio em que vivemos.
ferentes fatores, que dividem-se em internos (vindos da O solo e um clima de um lugar, são responsáveis pelo
ação de dentro das camadas da Terra) e externos (oriun- tipo de vegetação que ocorre. Os elementos climáticos
dos de fatores como chuva, vento e rios). Ambas tem são determinantes para o tipo de vegetação em uma cer-
como resultado uma constante mudança ou modela- ta área.
mento do nosso relevo. O clima pode definir a sua fisionomia, e a vegetação
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de acordo com a sua forma pode ser classificada em:


Dinâmica interna – Xerófilas: plantas que são adaptadas a aridez, como
Esta dinâmica vem em sua maioria de movimentos os cactos.
tectônicos no interior terrestre e suas consequências. – Tropófilas: são adaptadas a uma rotação seca, e ou-
Subdividem-se em: tra úmida.
Movimentos Epirogênicos:  São responsáveis pelo – Higróficas: plantas adaptáveis a muita umidade.
abaixamento (epirogênese negativa) ou soerguimento – Aciculifoliadas: tem folhas em forma de agulhas,
(epirogênese positiva) do continente, provocando assim como os pinheiros.

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– Latifoliadas: são de regiões úmidas, com folhas lar- Savana
gas. Permitindo intensa transpiração. A vegetação é variada, com arbustos, plantas herbá-
– Caducifólias: elas perdem as folhas em épocas frias ceas e gramíneas. Ocorre em regiões de clima tropical,
ou secas do ano. onde existe estações bem definidas: o verão úmido e o
  frio seco. Aparece no Brasil, África Centro Oriental. Nas
Formações vegetais savanas vive um grande número de herbívoros e animais
No planeta há diversas formações vegetais, tanto de grande porte, principalmente na África. Em meio a ou-
quanto a diversidade climática. E a situação geográfica tros tipos de vegetações, podemos encontrar pequenas
também influencia na classificação que mostraremos a
formações florestais, como:
seguir.
– mata galeria: é um tipo de mata que fica às margens
dos rios que cortam o cerrado e a caatinga. Isto ocorre
Floresta Temperada
Ela é típica na zona climática temperada. Surge em la- porque às margens do rio, o solo é fértil criando condi-
titudes mais baixas. São abertas, com pequena variedade ções propicias para o desenvolvimento da mata.
de vegetais. As flores temperadas aparecem na América – capão: surge nas depressões das áreas secas, aonde
do Norte e Europa, como a floresta negra (Alemanha). o nível hidrostático chega próximo a superfície, criando
boas condições para se desenvolver a mata, visto que o
Floresta de Coníferas solo é úmido.
É típica da zona temperada, ocorrendo em altas lati-
tudes. Abrange o norte da Eurásia. Nas regiões frias, Rús- Vegetação no Brasil
sia e Sibéria, desenvolve-se a Taiga, vegetação de coní- O Brasil apresenta várias formações vegetais, devido
feras anãs, predominando o pinheiro. Nestas regiões são as diversidades no clima. Temos um território extenso,
bem úteis como fonte de matéria-prima. por isso algumas regiões são ou próximas aos trópicos,
ou a linha do Equador. E isso influi no clima e, portanto,
Floresta Tropical na vegetação.  No Brasil existe desde grandes florestas
É típica de climas úmidos e quentes. Surge em baixas tropicais, até formações xerófilas, como a caatinga.
latitudes na América, África e na Ásia. As florestas tropi- A seguir mostraremos as principais formações flores-
cais são ricas em espécies de vegetais. São fechada e he- tais no território nacional.
terogênea, com uma formação vegetal higrófila e latifo-
liada. Nelas aparecem arvores de grande e médio porte.
Floresta Amazônica
Vegetação desértica Possui a maior diversidade em espécies de vegetais
São adaptadas a falta de água, que é a situação em e animais do planeta. Formada por plantas latifoliadas
climas árido e semi-árido. Por isso, as espécies são xeró- equatoriais, a floresta é densa. O solo está constante-
filas.  Aparecem em todos os continentes, com exceção mente coberto por camadas de folhas, galhos caídos,
da Europa. frutos apodrecidos, tudo úmido e em decomposição.

Tundra A floresta apresenta três estratos:


Vegetação rasteira, formada de liquens e musgos que
aparecem na zona próxima ao círculo Polar Ártico. Cres- – Várzea: com vegetação de médio porte, uma área
cem nos alagados na primavera e verão. E durante o in- que está sobre inundações periodicamente.
verno fica encoberta pelo gelo. – Caaigapó: áreas com vegetações de pequeno porte,
como a vitória régia, pois fica permanentemente alagada
Vegetação Mediterrânea ao longo dos rios.
Se desenvolve em regiões de clima mediterrâneo. É – Caaetê: área que não inunda, possuindo vegetações
uma vegetação esparsa com características xerófilas e as de grande porte, como a castanheira. É a mais afetada
formações dominantes são os maquis e garigues. pelo desmatamento e as queimadas.
 
Pradaria
Floresta latifoliada tropical
É composta  basicamente de capim. Aparece em re-
Foi grandemente destruída ao longo da história do
giões de clima temperado continental. Embora muito
usada como pastagem, é importante pelo solo rico em Brasil. Se estende do Rio Grande do Norte ao Rio Grande
matéria orgânica. Surge na Europa na Europa Central e do Sul. Sofre ação intensa das massas de ar úmido que
na Rússia, nos Pampas argentinos, e nas Grandes Planí- vem do oceano Atlântico.
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cies Americanas e na Grande Bacia Australiana.


Mata de araucárias ou pinhais
Estepe Nessa forma de vegetação predomina a araucária an-
Vegetação herbácea, constituída por tufos ou colô- gustifólia, espécie que é adaptável ao clima subtropical
nias de plantas afastadas umas das outras, deixando o ou temperado. Se encontra em várias áreas, região Sul,
solo parcialmente descoberto. Surge em climas semiá- Rio de Janeiro, Minas Gerais.
ridos. Cobre regiões na Ásia Central, oeste dos Estados No interior desse tipo de floresta pode se encontrar
Unidos e Argentina. erva-mate, canela, cedros entre outros.

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Mata dos cocais Planícies
Esta formação vegetal se situa entre a floresta ama- Superfície mais ou menos plana, de natureza sedi-
zônica, caatinga e o cerrado. É constituída por palmeiras, mentar, predominando os processos de deposição de
destaque ao babaçu, e carnaúba. sedimentos. Existem dois tipos de planícies: as costeiras
(junto ao litoral) e as continentais (interior dos continen-
Caatinga tes).
O nome caatinga vem do tupi-guarani e significa
‘mata branca’, que é cor predominante na época da seca. Depressões absolutas
A vegetação é xerófila, na qual predomina arbusto cadu- Porções do relevo mais baixas que o nível do mar; no
cifoliado e espinhoso. Brasil não há ocorrência deste tipo de depressão; porém,
existem as depressões relativas, mais baixas em relação
Cerrado às terras próximas e acima do nível do mar.
Sua formação florestal é constituída por uma vege-
tação caducifólia. Tem uma formação adaptada ao clima Chapadas
tropical, com raízes profundas, casca grossa e galhos re- Planalto de rochas sedimentares apresentando topo-
torcidos. grafia tabular.

Complexo do pantanal Cuestas


O pantanal agrupa várias formações vegetais em seu Presentes no planalto Meridional. São formas assi-
interior, dentre elas está a floresta tropical, cerrado e lu- métricas de relevo, formadas pela sucessão alternada de
gares inundáveis. Por isso o nome de complexo do pan- camadas rochosas cuja resistência varia de acordo com
tanal, pois é uma floresta de transição, várias formações o desgaste.
florestais juntas.
Depressões periféricas
Campos naturais
São áreas deprimidas formadas pelo contato entre
Tem uma formação rasteira ou herbácea, constituída
terrenos sedimentares e massas cristalinas. São comuns
por gramíneas. Pode se achar esse tipo de vegetação no
nos planaltos brasileiros.
extremo sul do país, em poucos pontos do Mato Grosso
Estes acidentes resultaram da ação de dois tipos de
do Sul e na Amazônia. Alguns associam a sua origem a
agentes ou fatores do relevo. De origem interna (vulca-
solos rasos, temperaturas baixas, áreas sujeitas a inunda-
nismo, tectonismo e outros) e de origem externa (água
ções ou solos arenosos.
corrente, temperatura, chuva, vento, geleiras, seres vi-
vos). É possível afirmar que o relevo brasileiro:
Vegetação Litorânea
No litoral surge vegetação rasteira, que é responsável 1.Apresenta grande variedade de formas, como pla-
pela fixação da área, impedindo que seja transportada nícies, planaltos, depressões  relativas, cuestas e monta-
pelo vento. Os mangues também são comuns, responsá- nhas muito antigas.
veis pela reprodução de espécies de peixes, moluscos e 2. Não se caracteriza pela existência de áreas de do-
crustáceos. São áreas inundadas pela água do mar, quan- bramentos modernos, formações originadas por vulca-
do este está em maré alta; e na maré baixa as raízes ficam nismo recente ou outras que dependam da glaciação de
expostas. Texto adaptado de FERREIRA. L. D. altitude, e nem mesmo por depressões absolutas.
3. Apresenta modestas altitudes, já que a quase tota-
RELEVOS lidade das terras possui menos de 1.000 metros de alti-
O relevo de todas as partes do mundo, assim como tude e somente meio por cento do território encontra-se
o relevo brasileiro, apresenta saliências e depressões acima desse limite.
oriundas das eras geológicas passadas. Estas saliências 4. É predominantemente constituído por planaltos
e depressões conhecidas como acidentes de primeira or- (58,5%), seguidos das planícies ou terras baixas conheci-
dem configuram as montanhas, planaltos, planícies e de- das como platôs (41%).
pressões; além desses acidentes existem outros menores:
as chapadas, as cuestas e as depressões periféricas.  TECTÔNICA GLOBAL
Em termos geológicos uma placa é uma grande mas-
Montanhas sa rochosa, rígida, no estado sólido. O termo tectônica
Grande elevação de terreno formada por ação de vem do grego e significa formar ou construir. A junção
forças tectônicas. Originam-se a partir de dobras, falhas destes dois termos, isto é, a tectônica de placas, refere-se
ou vulcões; quanto à idade, podem ser antigas, como as à constituição da superfície da Terra por placas indepen-
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serras do Mar e da Mantiqueira, ou recente, como a Cor- dentes.


dilheira dos Andes, dos Alpes e do Himalaia. A teoria da tectônica de placas parte do pressuposto
de que a camada mais superficial da Terra está fragmen-
Planaltos tada numa dúzia ou mais de grandes e pequenas placas
Superfície mais ou menos plana e elevada em relação que se movem relativamente umas às outras, sobre um
às áreas próximas, delimitadas por escarpas; o processo material viscoso, mais quente. Por essa razão utiliza-se
de desgaste supera o de deposição de materiais. também, frequentemente, a designação de teoria da de-
riva continental.

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Desde há muito que vários investigadores suspeita- A teoria de Wegener baseava-se no ajuste, bastante
vam que os continentes não mantinham uma posição evidente, entre a costa ocidental de África e a oriental
fixa, e que se moviam uns em relação aos outros. Esta da América do Sul, o que já tinha sido constatado, três
noção foi originalmente enunciada, em 1596, pelo car- séculos antes, por Abraham Ortelius. Todavia, Wegener
tógrafo holandês Abraham Ortelius no seu trabalho The- utilizou, também, informações referentes a estruturas
saurus Geographicus, em que este autor sugeria que as geológicas e a fósseis de plantas e animais encontrados
Américas “se afastaram da Europa e da África... devido em África e na América do Sul, que indicavam terem vi-
aos terramotos e cheias”. Ortelius referia mesmo que “os vido em continuidade geográfica embora, atualmente,
vestígios da ruptura são evidentes, bastando observar estejam separados pelo Atlântico Sul. Para este cientista,
um planisfério e considerar as costas dos três (continen- a presença de fósseis idênticos em ambos os continen-
tes)”. tes não podia ser explicada por qualquer processo de lo-
As ideias de Ortelius começaram a ser recuperadas comoção (isto é, seria fisicamente impossível para esses
no século XIX. Por exemplo, em 1858 o geógrafo Anto- organismos atravessarem o oceano a nadar, ou transpor-
nio Snider- Pellegrini desenhou dois mapas mostrando tados pelo vento, ou derivando em objetos flutuantes).
como, na sua opinião, a América e a África tinham estado Assim, o facto aludido surgia como a evidência mais res-
juntas, tendo-se separado posteriormente. saltante de que os continentes sul-atlânticos tinham ou-
trora estado juntos, tendo-se separado posteriormente
com a instalação do oceano Atlântico.

No entanto, foi necessário chegar-se a 1912 para que


esta noção de que os continentes se moviam uns em
relação aos outros fosse seriamente considerada como
teoria científica, designada por Teoria da Deriva Conti-
nental (e que foi a precursora da actual Teoria da Tectô-
nica de Placas). A formulação inicial desta teoria foi ex-
pressa em dois artigos publicados pelo meteorologista Para Wegener, a deriva dos continentes tinha ainda
alemão Alfred Lothar Wegener, então com 32 anos de o mérito de permitir explicar também as evidências de
idade. Baseado em evidências geológicas, paleontológi- grandes modificações climáticas encontradas nalguns
cas e geométricas, Wegener defendia que, há 200 mi- continentes. Por exemplo, a presença de fósseis de plan-
lhões de anos, os continentes estavam reunidos num tas tropicais (encontradas em jazigos de carvão) na An-
único super-continente, a Pangea (do grego: todas as tárctica permitia concluir que este continente gelado se
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terras) que, nessa altura, se começou a fragmentar. tinha já situado próximo do equador. Várias outras evi-
Alexander Du Toit, professor de Geologia na Johan- dências que não eram explicáveis (ou o eram muito di-
nesburg University, que foi um dos mais activos defen- ficilmente) pela geologia clássica, e compiladas por We-
sores das ideias de Wegener, propôs que a Pangea se gener, tornavam-se lógicas utilizando a teoria da deriva
tinha fracturado em duas grandes massas continentais: a continental. Entre outros, este cientista utilizou a distri-
Laurásia, no hemisfério norte, e a Gondwana, no hemisfé- buição de fósseis do vegetal Glossopteris descoberto nas
rio sul. Posteriormente, estes fragmentaram-se em con- regiões polares e a ocorrência de depósitos glaciais em
tinentes menores, que são os que existem atualmente. zonas tropicais de África.

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Quando Wegener propôs a sua teoria da deriva con- A elaboração da teoria da tectônica de placas foi uma
tinental a comunidade científica acreditava firmemente das maiores revoluções científicas do século XX, a qual
que os continentes ocupavam posições estáticas e per- fez com que a Terra fosse encarada sob uma perspec-
manentes. Não é de estranhar, consequentemente, que tiva diferente. Efetivamente, há a consciência, atual-
as suas propostas não tenham sido bem recebidas. A mente, que a tectônica de placas, como “motor” prin-
principal fraqueza da teoria de Wegener era a ausência cipal, direto ou indireto, da generalidade dos processos
de um mecanismo que permitisse explicar a movimen- geológicos, influencia de forma determinante o quotidia-
tação das massas continentais através de distâncias tão no do Homem.
longas. Wegener devotou o resto da sua vida à procura A espécie humana beneficia das forças e das conse-
de novas evidências que permitissem suportar a sua teo- quências da tectônica de placas, estando simultanea-
ria, até que morreu em 1930 numa expedição à calote mente sujeita aos aspectos negativos por ela induzidos.
glaciária da Groenlândia. A constituição da maior parte dos jazigos minerais que
Após a 2ª guerra mundial, as tecnologias para ope- o Homem explora para utilização no seu dia a dia foi di-
ração e detecção no meio marinho, que tinham sido retamente ou indiretamente condicionada pela tectôni-
desenvolvidas com objetivos militares, foram progressi- ca de placas. A própria paisagem, embora diretamente
vamente sendo postas à disposição da comunidade modelada pelos processos de geodinâmica externa, está
científica civil. Tal permitiu que, na década de 50, os co- profundamente influenciada pelos processos relaciona-
nhecimentos sobre o solo e o sub-solo marinhos fossem dos com a tectônica de placas. No entanto, os proces-
extremamente ampliados. No início da década de 60, os sos geológicos relacionados com a deriva continental
resultados entretanto adquiridos convergiam, de modo podem, também, ser profundamente prejudiciais para o
bastante nítido, para a recuperação da “velha” teoria da Homem e as suas atividades. A qualquer momento, qua-
deriva continental formulada por Alfred Wegener e ou- se sem aviso prévio, pode ocorrer um grande sismo ou
tros investigadores, segundo a qual os continentes não verificar-se uma erupção vulcânica.
eram estáticos. A década de 60 foi caracterizada por uma Não temos qualquer controlo sobre os processos
euforia nos meios científicos, com a realização de cente- relacionados com a tectônica de placas. Todavia, hoje
nas de cruzeiros científicos em que a obtenção de dados temos já conhecimento significativo sobre o seu fun-
ia permitindo, de forma consistente, verificar e refinar a
cionamento, tendo condições para beneficiar dos seus
teoria da deriva continental, que então começou a ser
aspectos positivos e evitar muitos dos seus aspectos ne-
designada por teoria da tectônica de placas ou da ex-
gativos.
pansão oceânica.
A rápida aceitação desta teoria (ao contrário do que
Placas Tectônicas
tinha acontecido cerca de meio século antes) teve como
Terremotos, tsunamis, vulcões em erupção, deforma-
base quatro fatores principais:
ções na superfície da Terra são sinais de que o interior do
a) demonstração de que a idade da crosta oceâ- planeta se movimenta. Esses são fatos que provam que a
nica é, em geral, bastante mais jovem do que a todo momento, ela está em constante atividade.
continental; As placas tectônicas são grandes blocos que fazem
b) confirmação de que o campo magnético terrestre parte da camada sólida externa do planeta Terra, respon-
teve múltiplas inversões no passado geológico (e que sável por sustentar os oceanos e continentes. Quando o
estão registadas nas anomalias magnéticas do fundo magma da Terra se movimenta em seu interior, as placas
oceânico); principais empurram as outras, que alteram alguns milí-
c) elaboração da teoria da expansão oceânica envol- metros e modificam em partes alguns cenários da Ter-
vendo a criação de nova crusta oceânica nas zona de rif- ra. Elas estão localizadas na camada da Terra chamada
tes e de consumo dessa crusta nas zonas de subsunção; de litosfera. Quando há o encontro dessas placas, uma
d) constatação de que a grande maioria dos sismos e enorme quantidade de energia fica acumulada nas ro-
da atividade vulcânica está associada às fossas abissais e chas, tendo um poder semelhante à bombas atômicas.
aos riftes. Quando essas cargas são liberadas, ocorrem os terremo-
tos. Já nos oceanos, podem ocasionar no surgimento de
A formulação da teoria da tectônica de placas teve vulcões, por exemplo.
ainda a virtude de propiciar uma abordagem multidisci-
plinar e interdisciplinar no estudo da Terra, envolvendo Teoria da Deriva Continental
ramos tão diferenciados como a paleontologia, a sis- O cientista alemão Alfred Wegener, em 1915, for-
mologia, a petrografia e a física dos materiais. Por outro mulou uma teoria chamada de Deriva Continental, que
lado, veio permitir que se percebessem fenômenos sobre trata da movimentação dos continentes, em sua obra
os quais, durante séculos, os cientistas tinham especula- ‘A Origem dos Continentes e Oceanos’. De acordo com
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do sem conseguirem atingir um cabal entendimento dos seus estudos, todos os continentes que existem teriam
processos. Com efeito, a teoria da tectônica das placas se separado até o local que se encontram hoje, de um
permite perceber, por exemplo, porque é que os sismos único grande continente, chamado de Pangea, rodeado
e as erupções vulcânicas se concentram em áreas espe- pelo mar Panthalassa. Antes dessa separação, o Pangea
cíficas da Terra, como é que as grandes cadeias monta- se dividiu dando origem a dois grandes continentes que
nhosas (como os Himalaias, os Alpes e os Andes) se for- foram chamados de Laurásia e Godwana. Essa movimen-
maram e porque é que o gradiente geotérmico é mais tação já havia sido apontada por outros cientistas que
elevado nuns locais do que noutros. mencionavam por exemplo, haver um encaixe de alguns

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continentes com outros. Além disso, com os estudos dos 1. Limites Transformantes ou Conservativos - ocorre
fósseis, havia uma semelhança entre aqueles que foram quando uma placa se desliza horizontalmente em rela-
encontrados em continentes diferentes. ção a outra. Nesse tipo de falha, não há criação e nem
Na Segunda Guerra Mundial, a teoria ainda estava em destruição da litosfera, mas apenas um afastamento que
fase de aceitação. Um dos eventos que contribuiu para pode gerar grandes rachaduras. Podem ser encontradas
sua comprovação foi a necessidade de conhecer o fun- dentro dos oceanos ou em continentes como a Falha de
do oceânico para a navegação dos submarinos. Surgiu
San Andreas, na California, onde há um deslize entre a
assim, um instrumento chamado de sonar, que em pe-
Placa do Pacífico e a Norte-Americana;
ríodos de guerra servia para a detecção de outros sub-
marinos, mas também detectava a profundidade, os obs- 2. Limites Divergentes - ocorre uma afastamento en-
táculos existentes, etc. tre placas que forma uma nova litosfera. Ou seja, nesses
Na década de 40, novas expedições foram realiza- limites ocorrem tensões que provocam o afastamento
das com equipamentos mais sofisticados a fim de cole- das placas, quando o magma é ‘empurrado’ para a su-
tar amostras e mapear o piso oceânico. Através desses perfície dá origem a uma nova crosta. Existem dois tipos
estudos foi possível detectar a existência de montanhas de limites divergentes:
submersas, chamadas de dorsais meso-oceânicas. Com Placas Tectônicas Rifte Islândia Separação de Placas
o avanço do método de definir a idade das rochas, os nos Continentes: quando há essa separação ocorrem
cientistas descobriram que as mais jovens eram aquelas atividades vulcânicas, terremotos ou vales em rifte. Um
que estavam perto das dorsais meso-oceânicas, já as que grande exemplo de riftes podem ser observados no Mar
estavam mais próximas dos continentes eram as mais an- Vermelho e no Golfo da Califórnia.
tigas.
No início da década de 60, Harry Hess e Robert Dietz
Separação de Placas nos Oceanos: no oceano, essa
sugeriram que a crosta se separava por meio de riftes
existentes nas dorsais meso-oceânicas, assim, devido a separação é verificada por meio de uma dorsal meso-
essas falhas, era formado um novo fundo oceânico, de- -oceânica que causa a expansão do fundo oceânico. A
rivados de processos que ocorriam no manto. Isso mos- partir dela, podem surgir vulcões ativos, riftes ou terre-
trava que o interior da Terra estava em constante movi- motos.
mentação provando a teoria de Wegener, que não era 3. Limites Convergentes - ocorre a colisão frontal,
muito aceita na época. Com os avanços nos estudos da onde uma desliza para baixo, sendo ‘sugada’ para o man-
geologia e geofísica marinha na década de 60 pode-se to. As consequências irão depender da densidade das
comprovar a teoria de Wegener. placas. Normalmente, uma placa que possui uma densi-
dade maior mergulha por cima da outra. Assim, existem
Teoria das Placas Tectônicas três tipos de convergência: oceano-oceano, oceano-con-
Além da Deriva Continental, a tectônica das placas se- tinente e continente-continente.
ria outra teoria que informava o motivo da movimenta-
ção dos continentes e que o contato entre elas causavam
Principais Placas Tectônicas
vários efeitos na superfície da Terra. Apesar de outros
geólogos e cientistas sugerirem a existência de placas,
comparando os estudos de Alfred Wegener e do fundo Placa do Pacifico
oceânico, os responsáveis pela descoberta foram Robert A placa do pacífico é considerada uma das maiores
Palmer e Donald Mackenzie, na década de 60. placas oceânicas, com extensão de 70 milhões de quilô-
De acordo com eles, toda a superfície terrestre esta- metros quadrados e está localizada na região do Havaí
ria ocupada por camadas rochosas em movimento, que e quando o magma sobe, formam-se ilhas vulcânicas. É
formam os continentes e também o piso dos oceanos, responsável por formar uma área de convergência com a
chamada de placas tectônicas. Os continentes ainda es- placa norte-americana.
tariam se afastando, devido as profundas falhas existen-
tes na crosta terrestre, e estariam sob placas tectônicas Placa de Nazca
organizadas lado a lado e que se movimentavam por es- Devido ao impacto com a placa sul-americana, vem
tar em cima de uma massa chamada magma.
diminuindo seu tamanho. Quando em contato com a
As placas deslizam, se separam, entram em atrito ou
sul-americana, esta sobe, causa vulcões e eleva as mon-
convergem causando muitas vezes, deformação nas ro-
chas, terremotos e outros fenômenos. Um exemplo de tanhas dos Andes.
formação por meio de placas tectônicas são a Cordilheira
dos Andes e o Himalaia. Com o desenvolvimento dos es- Placa Sul-Americana
tudos e a detecção das placas, houve a divisão das maio- Placa em que se localiza o Brasil, sendo que o país
res placas onde se localizam os continentes. está bem no centro dela. Devido a isso, é pouco afetada
por fenômenos como vulcões e terremotos.
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Movimentos e Limites entre as Placas


Os limites entre as placas tectônicas são áreas onde Placa da América do Norte e do Caribe
ocorrem intensas atividades geológicas, tais como falhas, É onde está toda a América do Norte e Central. É em
vulcões, abalos sísmicos, cadeias de montanhas, constru- um de seus limites, especificamente na Califórnia que se
ção de novas placas e crosta, bem como sua destruição. encontra a falha de San Andreas, uma região composta
São nessas áreas que ocorrem os movimentos das placas por terremotos violentos. Essa falha é uma grande racha-
tectônicas. Com base nisso, existem três limites entre as dura derivada de seu deslocamento horizontal em rela-
placas: ção à placa do Pacifico.

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Placa da África
Placa que faz parte do continente africano, divisa, especialmente, com a placa sul-americana. No fundo do oceano,
no limite entre elas, há uma falha que abre espaço para o magma do manto inferior. Isso causa um afastamento desta
placa em relação a sul-americana que antes era um supercontinente.

Placa da Antártida
Com cerca de 25 milhões de quilômetros quadrados, dá suporte à Antártida e parte do Atlântico Sul. Houve um
momento em que a parte leste da placa estava próximo da Austrália, África e Índia e se chocou com algumas placas
menores que deram origem a placa da Antártida.

Placa Indo-Australiana
Placa que sustenta a Austrália, Índia, a Nova Zelândia e grande parte do Oceano Índico. Quando se choca com a
placa das Filipinas, na parte nordeste, forma algumas ilhas.

Placa Euroasiática Ocidental


Com uma área total de aprox. 60 milhões de quilômetros quadrados, encontra-se na Europa, no Atlântico Norte, no
mar Mediterrâneo e em uma parte da Ásia. Quando entrou em contato com a placa indo-australiana formou o conjunto
de montanhas do Himalaia, ao sul da Ásia.

Placa Eurosiática Oriental


Localizada onde está o Japão, possui cerca de 40 milhões de quilômetros quadrados. É considerada uma das áreas
com maior índice de terremotos e vulcões, devido ao atrito com as placas das Filipinas e do Pacifico.

Placa das Filipinas


A placa das Filipinas é pequena e possui 7 milhões de quilômetros quadrados. É nessa placa que estão ativos vá-
rios vulcões na Terra. Quando entra em colisão com a placa euroasiática oriental pode provocar terremotos e grandes
erupções, das quais um exemplo é a do Monte Pinatubo, que em 1991, foi considerada uma das mais violentas e que
alterou o clima em várias partes do globo.

Desastres Naturais Causados pelo Movimento das Placas

Com o movimento das placas tectônicas diversos desastres podem deixar pessoas feridas, causar mortes ou arrasar
lugares. Dentre os desastres mais comuns estão a ocorrência de erupções vulcânicas, terremotos e tsunamis.
Após 1900 houve o surgimento de escalas de medição para terremotos e umas das mais famosas é a Escala Richter.
Ela foi criada pelo americano Charles Richter, e possui uma medida que varia de 0 a 9,5 ou mais, dependendo do último
terremoto ocorrido. Ela é responsável por medir a intensidade dos tremores. Um dos abalos mais violentos ocorreu no
Chile, em 1960, que chegou a magnitude de 9.5, na escala. As regiões mais suscetíveis à terremotos são aquelas que
estão nos limites das placas tectônicas.

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Além das alterações nas formas de relevo continentais e oceânicas, a movimentação das placas tectônicas também
acarreta outros fenômenos geológicos, como a ocorrência de terremotos e também a manifestação dos vulcões. Não
por acaso, os principais registros dessas ocorrências manifestam-se nas áreas limítrofes entre uma placa e outra, cujo
exemplo mais notório é o Círculo de Fogo do Pacífico, uma área que se estende do oeste da América do Sul ao leste
da Ásia e algumas partes da Oceania. Nessa área, os terremotos e, consequentemente, os tsunamis são frequentes e
intensos. Texto adaptado de DIAS. J. A.

HIDROGRAFIA
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Todos já escutamos a frase: “A água vai acabar”. Porém, na verdade, o problema passa menos pela escassez real de
água e mais pelo mau gerenciamento de seu uso. De verdade, a água do planeta jamais acabará. Ela está em eterno
processo natural de reciclagem: evapora, desaba como chuva, escorre para o fundo da terra e retorna para a superfície,
de onde volta a evaporar, num ciclo que se perpetua há bilhões de anos. Sim, a água é um recurso renovável - mas
não inesgotável. Do total de 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água que revestem o globo (e cobrem três quartos
da superfície), apenas 2,5% são de água doce (35milhões de quilômetros cúbicos). A maior parte dessa água doce está
congelada nas geleiras e calotas polares ou se encontram em depósitos subterrâneos. A proporção da água a que o
homem tem acesso fácil a superficial, de rios, lagos e pântanos - é de menos de 0,4% da água doce existente.

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Pode parecer pouco, mas são cerca de 100 mil quilômetros cúbicos de água – o suficiente para que cada um dos 7
bilhões de habitantes do planeta mate a sede, cozinhe, mantenha a higiene, gere energia e produza bens agrícolas e
industriais. Mas a grande parcela da população mundial sofre de escassez hídrica crônica, em parte por causa de fatores
naturais, como a distribuição geográfica das fontes, que é desequilibrada. Enquanto cada habitante da Islândia tem
disponíveis mais de 600 milhões de litros por ano, um morador do Kuwait, pequeno país do Oriente Médio, depende
da importação de água. Diferentemente das crises econômicas e políticas, a crise da água não costuma ser manchete
nos jornais. Mas, ainda que sem alarde, a escassez desse recurso natural, o mais importante do planeta, já assume pro-
porções de catástrofe iminente. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1 bilhão de pessoas não
dispõem hoje do mínimo de água recomendado para as necessidades básicas de sobrevivência. Mesmo populações de
países de tradicional riqueza hídrica têm de lidar com a oferta limitada de água potável. É o caso do Brasil, cujo território
detém mais de 12% das reservas mundiais de água doce superficial.
O problema é que mais de 70% desse recurso está na bacia amazônica, em cuja área mora pouca gente. A Região
Sudeste, por seu lado, onde estão as maiores e mais industrializadas cidades, abriga só 6% das reservas nacionais. Para
dar conta da demanda, é preciso trazer a água de bacias cada vez mais distantes. A cidade de São Paulo, por exemplo,
é abastecida com água trazida de rios há mais de 70 quilômetros de suas torneiras. Recentemente, a Agência Nacional
de Águas fez um prognóstico: em 2015, mais da metade dos municípios brasileiros poderá enfrentar desabastecimento.

Demografia e economia
Bastam 50 litros por dia para uma pessoa fazer a higiene, matar a sede e cozinhar. Mas, quando se inclui no cálculo
a água necessária para produzir os alimentos, cada cidadão precisa de 3 mil litros diários. No decorrer de um ano são,
pelo menos, 1 milhão de litros. Populações que têm acesso a menos do que isso vivem em regime de escassez hídrica.
O crescimento demográfico pesa na contabilidade da água também de maneira peculiar. Enquanto nas últimas seis
décadas a população mundial dobrou de tamanho, o consumo de água aumentou sete vezes. A água que se usa em
casa, aquela que sai das torneiras, representa uma pequena parcela do que cada cidadão consome em média - no total,
só 8% do consumo global. Mas o desenvolvimento da agricultura e da indústria tem grande peso na queda do nível
dos rios e aquíferos. Do total de água consumida pelo mundo, 70% são de responsabilidade da agropecuária e os 22%
restantes, da indústria.
Sem capacidade de pagar pela água (que muitas vezes precisa ser comprada de fornecedores particulares), as po-
pulações mais pobres apresentam altos índices de mortalidade e de incidência de doenças relacionadas à água conta-
minada, como diarreia e cólera. Ocorre que a ONU tem previsões pessimistas também para as nações ricas: regiões da
Itália, da França e dos Estados Unidos, que já vivem em estresse hídrico (com menos de 1,7milhão de litros disponíveis
por pessoa, a cada ano), devem passar à escassez hídrica a partir de 2015.

Água virtual
Todos os produtos e serviços que a sociedade consome de alimentos e computadores a eletricidade e transporte
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público dependem da água, como matéria-prima ou como insumo, para ser fabricados ou executados. O total de água
consumida direta ou indiretamente por um indivíduo ou toda uma população em determinado período recebe o nome
de pegada hídrica, que leva em conta não apenas a água agregada aos produtos, mas também o volume poluído na
cadeia produtiva. Com esses conceitos água virtual e pegada hídrica, fica fácil entender que, quanto mais desenvolvida
e industrializada é uma nação, maior é sua demanda por água.

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Nem todos os países deixam uma pegada hídrica equivalente à disponibilidade de água em seu território. Países
pobres em água importam alimentos ou produtos industriais e, com eles, na forma de água virtual, os recursos hídricos
de outras regiões do globo. Por isso que os chineses afetam indiretamente as bacias hidrográficas brasileiras quando
compram nosso frango e, no sentido inverso, os brasileiros gastam parte da água das bacias chinesas em cada ele-
troeletrônico “made in China”.

Valor econômico
A globalização, que tornou interdependentes os mercados de diferentes continentes, reforça o comércio interna-
cional de água virtual - o que destaca o caráter de valor econômico da água. O risco de transformar a água, de bem
natural, a que todos têm direito, numa commodity (matéria-prima com o preço internacional definido em bolsas de
valores) vem sendo tema recorrente em encontros internacionais.
No 5° Fórum Mundial da Água, em Istambul, na Turquia, em 2009, a polêmica entre ambientalistas de um lado e, de
outro, representantes dos governos e das companhias de distribuição de água provocou tumulto e violência. No ano
passado, a ONU aprovou uma resolução que define a água como direito humano fundamental. Pela legislação brasi-
leira, a água é um bem natural dotado de valor econômico. Em razão disso, desde 1997, grandes consumidores, como
indústrias, hidrelétricas e fazendas, pagam pela água retirada dos mananciais (água bruta).

Conflitos
A carência de água termina, ainda, por ser um dos estopins de guerras e revoltas pelo mundo. A ONU lista mais de
270 aquíferos (depósitos subterrâneos de água), que ficam exatamente sob fronteiras nacionais. Há, ainda, 160 bacias
hidrográficas transnacionais, que abrangem 145 países. Todas essas regiões têm grande potencial de conflitos arma-
dos. O Instituto Pacífico, especializado no assunto, contabilizou 49 episódios de confronto militar ou ataque terrorista
relacionado ao acesso a recursos hídricos de 2000 a 2010.
O controle sobre a água armazenada nos glaciares do platô tibetano, que alimentam grandes rios asiáticos, como
o Mekong, o Ganges, o Yang Tsé e o Amarelo, é um dos motivos estratégicos para o controle da China sobre a região
do Tibete. No Oriente Médio, a Síria disputa com a Turquia e com o Iraque o controle da bacia dos rios Tigre e Eufrates,
que banham os três países. Em sua disputa de décadas pelo mesmo território, israelenses e palestinos brigam também
pelo controle dos reservatórios subterrâneos de água da Cisjordânia, a que os palestinos tinham acesso livre até que os
israelenses ocuparam a região, na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Água no Subsolo
A água subterrânea, aquífero ou lençol freático representa uma das principais reservas de água da Terra e se for-
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ma quando a água das precipitações infiltra no solo e fica armazenada em camadas de rocha porosa (arenitos). Nos
aquíferos estão contidas cerca um quarto do total de água doce do planeta e de 97% da água própria para o consumo
humano. Este tipo de reservatório deixa a água livre de impurezas e partículas do solo, pois a água passa por diversas
camadas de solo e pedra antes de ficar armazenada no aquífero.
A água existente nestes reservatórios, a qual retiramos do subsolo através de poços ou fontes que brotam natural-
mente da terra, é chamada de mineral. Os minerais contidos nessa água são retirados das rochas quando a mesma se
infiltra no solo a grandes profundidades. Sendo assim, a composição das águas subterrâneas é diferente da água dos
rios e lagos.

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A água subterrânea que percola no subsolo constitui
fonte essencial de suprimento de umidade ao solo. Ela
desempenha papel importante na regularização dos flu-
xos fluviais, ou seja, atua na manutenção da perenidade
dos rios durante as estiagens mais prolongadas. Isso nos
mostra a relação entre a água subterrânea e a água dos
rios. Texto adaptado de GIBA.

OS CLIMAS DO MUNDO E DO BRASIL


O clima mundial é influenciado por diferentes fatores
e elementos climáticos, que contribuem para uma gran-
de diversificação climática. Assim, dependendo da região
do mundo e dos fatores que a influenciam, a atmosfera
terá características totalmente diferentes.
Atualmente, existem diferentes classificações climáti-
cas que definem o clima de acordo com os seus princi-
pais elementos: radiação, temperatura, pressão atmosfé- Por possuir um clima tropical, o Brasil é um destino
rica, umidade etc. Uma das classificações mais utilizadas muito atrativo para turistas que querem aproveitar belas
é a do geográfo alemão Wladimir Petter Kópen, proposta praias
em 1900 e aperfeiçoada por outros geográfos a partir de
então. Essa classificação volta-se, principalmente, para a Clima Temperado: Presente em áreas de médias alti-
temperatura e a umidade de cada tipo de clima. De acor- tudes é o único tipo de clima que possui as quatro esta-
do com essa classificação, o planeta possui vários tipos e ções bem definidas: Primavera, Verão, Outono e Inverno.
subtipos de clima, a saber: Possui  temperaturas  mais amenas, com médias anuais
Clima Equatorial: Presente nas zonas tropicais (Ama- que variam em torno de 8ºC e 15ºC, e umidade que varia
zônia, África e Indonésia), próximas à Linha do Equador. de acordo com a sua localização (quanto mais próximo
Apresenta  temperaturas  elevadas, com médias anuais ao litoral, mais úmido). Esse tipo de clima é dividido em:
em torno de 25°C, pequena amplitude térmica (diferença
1) Clima temperado oceânico - É um clima mais úmido e
entre a maior temperatura registrada e a menor) e mui-
que apresenta invernos menos rigorosos em virtude da
ta  umidade, com médias pluviométricas  superiores a
influência da umidade oceânica. Como a água demora
2.000 milímetros por ano.
mais tempo para se resfriar, ela mantém a temperatura
Clima Tropical: Ocorre na maior parte das regiões lo- atmosférica por mais tempo, diminuindo, assim, a am-
calizadas entre os trópicos de Capricórnio e de Câncer. plitude térmica entre o verão e o inverno. 2) Clima tem-
Apresenta elevadas  temperaturas, com médias anuais perado continental - como não é influenciado pela umi-
em torno de 20ºC, e duas estações bem definidas: uma dade oceânica, é mais seco e apresenta invernos mais
quente e úmida (verão) e outra mais fria e seca (inver- rigorosos.
no). A quantidade de  umidade  varia conforme a sua Subtropical:  Presente em áreas de transição entre o
localização. Regiões tropicais próximas ao litoral, que clima tropical e o clima temperado. Apresenta tempe-
são influenciadas pela  maritimidade, são mais úmidas raturas mais amenas e grande amplitude térmica anual,
do que as regiões localizadas no interior do continente, com temperaturas negativas no inverno e acima dos 30ºC
que são influenciadas pela  continentalidade. Assim, as no verão. As estações do ano, apesar de não serem tão
médias de pluviosidade variam entre 1.000 e 2.000 por bem definidas como as do clima temperado, já começam
ano e dependem da região em que se encontram. Em a se delinear. As chuvas são bem distribuídas durante o
virtude dessa variação de umidade, o clima tropical pode ano e apresentam maior ocorrência durante o verão.
ser dividido em: Clima tropical úmido ou litorâneo e Cli- Mediterrâneo:  Ocorre, principalmente, nas regiões
ma tropical continental ou clima tropical típico. As áreas próximas ao Mar Mediterrâneo. Apresenta duas estações
mais elevadas do clima tropical apresentam temperatu- bem definidas: verão (quente e seco) e inverno (chuvo-
ras mais amenas em razão da variação de altitude, o que so e menos quente). As médias de temperatura asseme-
configura o clima tropical de altitude. lham-se muito às do clima tropical, mas a quantidade de
chuvas é ligeiramente menor no clima mediterrâneo.
Frio (subpolar):  Presente nas regiões temperadas
mais próximas aos polos e apresenta duas estações bem
definidas: Verão fresco, com temperaturas em torno de
PROVA DE GEOGRAFIA

10º C, e inverno bastante rigoroso, com temperaturas


negativas. O índice pluviomético varia entre 100 e 1000
milímetros, sendo comum a precipitação em forma de
flocos de neve durante o inverno.
Frio de Montanha:  Ocorrem em regiões com gran-
des cadeias de montanhas, como os Andes, Himalaia,
as Montanhas Rochosas e os Alpes. Caracteriza-se pelas

21
baixas altitudes, com uma grande variação de tempera- isso há poucas diferenças na duração dos dias e noites
tura conforme a altitude (quanto maior a altitude, menor nas quatro estações do ano. Porém, à medida que nos
a temperatura), e a presença de neves eternas (que nun- aproximamos das regiões subtropicais e temperadas, es-
ca derretem). sas diferenças vão ficando cada vez maiores: no inverno,
Polar ou Glacial:  Ocorrem nas zonas polares ou em as noites são mais longas; no verão, os dias duram mais.
latitudes muito elevadas, próximas aos polos norte e sul. Essa é uma das explicações para o fato do horário de
Apresenta temperaturas baixas durante o ano todo, com verão, cuja aplicação tem pouco objetivo a economia de
médias anuais próximas a -30º C, uma grande variação energia elétrica no Brasil, não ser adotado na região Nor-
na duração do dia e da noite e baixa umidade, com um te e Nordeste, pois não teria resultados práticos.
índice pluviométrico de menos de 200 milímetros anuais.
A dinâmica do clima no Brasil
As massas de ar são de fundamental importância
para a explicação da dinâmica do clima. Massas de ar
são porções da atmosfera que conduzem características
e propriedades das áreas onde se originam (continen-
tes, oceanos, regiões polares, tropicais). Dependendo
de onde se formem, as massas de ar podem ser: fria e
úmidas (oceanos glaciais), frias e secas (áreas continen-
tais frias), quentes e úmidas (áreas continentais quentes
e úmidas, como a Amazônia), quentes e secas (desertos
quentes continentais). Quase todas as massas de ar que
atuam na América do Sul estão também no Brasil. Ape-
nas as massas de ar que se originem no Oceano Pacífi-
co têm atuação limitada no Brasil devido a presença da
Cordilheira dos Andes, que barra a sua passagem para o
interior do continente.
Em áreas de clima polar, predominam as baixas tem-
peraturas e a presença de neve durante o ano todo As massas de ar que interferem nos climas do Brasil
Por ter 92% de seu território na zona tropical e es-
Desértico:  Presente tanto em regiões temperadas tar localizado no hemisfério sul, onde as massas líquidas
quanto em regiões tropicais (norte da África, Oriente ocupam maior espaço do que as massas sólidas, o Brasil
Médio, oeste dos Estados Unidos, norte do México, li- é influenciado predominantemente pelas massas de ar
toral do Chile e do Peru, Austrália e noroeste da Índia), quente e úmido. As massas de ar que atuam no Brasil
geralmente em regiões de depressões. Apresenta uma são: massa equatorial continental (mEc); massa equa-
grande amplitude térmica durante o dia (com tempera- torial atlântica (mEa); massa tropical continental (mTc);
turas próximas aos 50ºC durante o dia e temperaturas massa tropical atlântica (mTa); e massa polar atlântica
negativas durante a noite), baixa umidade, chuvas escas- (mPa).
sas e irregulares e índices pluviométricos inferiores a 250
mm por ano. Massa equatorial continental (mEc)
Semiárido:  Localiza-se nas bordas dos desertos da Originária da Amazônia ocidental – área de baixa la-
titude e muitos rios, a mEc é uma massa de ar quente,
América do Norte, América do Sul, Austrália, África e na
úmido e instável. É a que exerce maior influência no Bra-
região Nordeste do Brasil, que, embora não esteja próxi-
sil: atinge praticamente todas as regiões durante o verão
ma a um deserto, também possui esse tipo de clima em
no hemisfério sul, provocando chuvas. Na Amazônia, as
virtude da baixa umidade existente na região. O semiá- elevadas temperaturas e as altas taxas de umidade, de-
rido caracteriza-se pela presença de altas temperaturas, correntes da atuação dessa massa de ar, são responsá-
com médias anuais em torno de 27º C, baixa umidade, veis pelos elevados índices pluviométricos da região. No
chuvas escassas e irregulares e médias pluviométricas inverno, a mEc recua e sua ação fica restrita à Amazônia
que variam em torno de 300 a 800 milímetros por ano. ocidental.

Climas Do Brasil Massa tropical atlântica (mTa)


O território brasileiro (8.514.876 km²) estende-se de De ar quente e úmido, mTa origina-se no Atlântico
5°16’ de latitude norte a 33°45’ de latitude sul, situando- sul. Formadora dos ventos alísios de sudeste, atua na
-se, portanto, em quase sua totalidade, no seguimento faixa litorânea brasileira, que se estende da região Sul à
de baixas latitudes (0° a 30°). A linha do Equador, que região Nordeste, e é praticamente constante no decorrer
divide os dois hemisférios terrestres, e o trópico de Ca- do ano. Durante o inverno, a mTa encontra a única mas-
PROVA DE GEOGRAFIA

pricórnio, que sinaliza o limite meridional da declinação sa de ar frio e úmido que atua no Brasil, a massa polar
anual do Sol, atravessam as terras brasileiras, indicando atlântica (mPa). Esse encontro provoca chuvas frontais no
que as marcas da tropicalidade devem aparecer aí com litoral nordestino. Por isso é comum ouvirmos notícias
grande vigor.” sobre chuvas que castigam Maceió, Salvador e Recife no
A quantidade de luz solar (insolação) recebida pelas mês de Julho, principalmente. No litoral das regiões Sul e
várias regiões do país durante o ano não é uniforme. Nas Sudeste, e o encontro da mTa com as áreas elevadas da
regiões mais próximas do Equador, essa incidência de luz serra do mar provoca as chuvas orográficas ou de mon-
solar é mais ou menos constante durante todo o ano, por tanha.

22
Massa polar atlântica (mPa) No extremo oposto está o Sertão do Nordeste, com
Por se originar no oceano Atlântico, ao sul da Argen- totais bem abaixo da média do país, como as localidades
tina, em zona de média latitude (de 30° a 60°), a mPa tem de Cabaceiras (PB), com 331 mm anuais, e Areia Branca
ar frio e úmido. Atua principalmente no inverno, dividin- (RN), com 588 mm. O restante, ou seja, a maior parte do
do-se em três ramos separados pela orientação do rele- território brasileiro, está na faixa entre 1.000 e 2.000 mm
vo brasileiro. Os dois primeiros ramos refere-se ao corre- de chuvas por ano. A porção situada abaixo do paralelo
dor de planícies interiores brasileiras, que estão cercadas de 20°LS, onde predomina o clima subtropical, tem como
por áreas de maiores altitudes, como os Andes (no oeste) característica a relativa uniformidade das chuvas ao lon-
e as serras brasileiras (no leste), permitindo o avanço da go do ano. Temperaturas Em quase 95% de nosso ter-
mPa sobre essas áreas mais baixas do nosso relevo. O ritório, temos médias térmicas superiores a 18°C, como
primeiro ramo sobe pelo vale do rio Paraná, atingindo decorrência da tropicalidade.
a região Sul, e traz ventos frios, como o minuano e o Entretanto, o comportamento das temperaturas está
sujeito à influência de outros fatores além da latitude: a
pampeiro, causando a formação de granizo, geada e até
altitude, a continentalidade e as correntes marítimas.
neve nas serras catarinenses e gaúchas. O morro da Igre-
ja (1828 m), localizado no município de Urubici, em Santa
Classificação climática brasileira
Catarina, apresenta, as menores temperaturas brasileiras Optamos pela classificação climática do cientista nor-
por reunir os fatores altitude e latitude, e o elemento cli- te-americano Arthur Strähler, por estar baseada na circu-
mático, no caso a massa polar atlântica. lação e na atuação das massas de ar que determinam os
A temperatura mais baixa registrada no Brasil até climas no Brasil. Considerando a dinâmica das massas de
2007 ocorreu em Urubici: -17,8°C. O segundo ramo, tam- ar que atuam no Brasil, encontramos os tipos de clima
bém consequência das baixas altitudes da área central descritos a seguir.
do território brasileiro, permite o avanço dessa massa de - clima equatorial úmido: Esse tipo de clima é deter-
ar frio e úmido que chega a atingir a Amazônia ociden- minado pela massa equatorial continental (mEc), e sua
tal e provoca queda brusca da temperatura, por alguns principal área de ocorrência é a Amazônia. Tem como
dias, em Matogrosso, Rondônia e Acre. É o fenômeno da características elevada taxa de umidade, em virtude da
“friagem”. O terceiro ramo refere-se ao avanço da massa presença dos rios e da vegetação na região, e altas tem-
polar atlântica pelo litoral brasileiro, do Sul ao Nordeste. peraturas, por encontrar-se em baixa latitude. As chu-
No Nordeste oriental (litoral), como já vimos, o encontro vas são constantes e abundantes (chegam a ultrapassar
da mPa (de ar frio e úmido) com a mTa (de ar quente e 2.500 mm anuais), resultado da convecção ou ascensão
úmido) provoca as chuvas frontais durante o inverno. vertical do ar e consequente resfriamento e condensa-
ção. Apresenta também baixa amplitude térmica anual (a
Massa equatorial atlântica (mEa) menor do Brasil), inferior a 4°C, e médias térmicas anuais
Massa de ar quente e úmido, a mEa origina-se pró- elevadas, que variam pouco, de 25 a 28°C.
ximo do arquipélago português dos Açores, na África. - clima litorâneo úmido: Abrange a faixa da costa do
Formadora dos ventos alísios de nordeste, atua, princi- Nordeste e do Sudeste e sofre influência da massa tro-
palmente, durante a primavera e o verão no litoral das pical atlântica (mTa). Apresenta como características chu-
regiões Norte e Nordeste. Conforme avança pelo interior vas concentradas no inverno, que variam de 1.500 a 2.000
do país, essa massa de ar vai perdendo a umidade, por mm durante o ano, e médias térmicas elevadas. Como vi-
isso não causa chuvas significativas na porção norte do mos anteriormente, nessa estação, no litoral nordestino,
o encontro da mTa (de ar quente e úmido) com a mPa (de
litoral nordestino.
ar frio e úmido), provoca chuvas frontais. Durante o verão
tanto no Sudeste como no Nordeste, o encontro da mTa
Massa tropical continental (mTc)
com as mais elevadas, como o planalto da Borborema
Por ter origem na depressão do Chaco (Paraguai), isto (no Nordeste) e as serras do Mar e da Mantiqueira (no
é, em uma zona de altas temperaturas e pouca umidade, Sudeste), provoca as chuvas orográficas.
é uma massa de ar quente e seco. No Brasil, atua no sul - clima tropical continental: É o clima mais represen-
da região Centro-Oeste e no oeste das regiões Sul e Su- tativo do Brasil, por isso chamado de tropical típico. Sua
deste, onde ocorrem longos períodos de tempo quente precipitação varia entre 1.300 a 1.500 mm Abrange área
e seco. Também provoca um bloqueio atmosférico que das regiões Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sudeste.
impede a chegada das massas de ar frio, quase sempre Apresenta duas características marcantes:
nos meses de maio e junho, quando ocorrem dias com
temperaturas mais altas, chamados de “veranico”. A presença de duas estações bem definidas:
- verão: estação chuvosa, provocada pela massa de ar
As chuvas equatorial continental (mEc) e pela massa tropical atlân-
Apesar do Brasil apresentar médias anuais pluviomé- tica (mTa);
PROVA DE GEOGRAFIA

tricas em torno de 1.000 mm, as chuvas não se distri-


buem de modo uniforme por toda sua extensão. Algu- - inverno: estação seca. Nessa época, a mEc se retrai,
mas áreas, como trechos da Amazônia, o litoral sul da deixando espaço para a atuação de outras massas de
Bahia e o trecho paulista da Serra do Mar, recebem mais ar: a polar atlântica (mPa) e a tropical continental (mTc).
de 2.000 mm de chuvas por ano. Como exemplos pode- A mPa aproveita o corredor formado pelas terras mais
mos citar, na Amazônia, a localidade de Belém (PA), com baixas da região Centro-Oeste e atinge a porção sul da
2.204 mm anuais, e, em São Paulo, a área banhada pelo Amazônia, quando a temperatura pode chegar a 10°C
rio Itapanhaú, em Bertioga, com mais de 4.000 mm. (fenômeno da friagem).

23
Amplitudes térmicas anuais elevadas devido à in- sencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
fluência da continentalidade. Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preser-
vá- lo para as presentes e futuras gerações.”
- clima tropical semi-árido: Característica do Sertão No Brasil, o CONAMA (Conselho Nacional de Meio
nordestino e do norte de Minas Gerais. As massas que Ambiente), órgão instituído pela Lei nº 6.938, de 31 de
atuam para a ocorrência desse tipo de clima são a tro- agosto de 1981, responsável pela legislação ambiental,
pical atlântica (mTa) e a equatorial continental (mEc). analisa, desde meados da década de 80, por meio do Es-
Quando chega ao interior do Nordeste, a mTa já perdeu tudo de Impacto Ambiental (EIA), os impactos ambientais
a umidade, pois barreiras montanhosas impedem a pas- no país, a fim de apresentar soluções para os problemas
sagem das chuvas que caem no litoral. É o clima brasilei- causados ao meio ambiente.
ro com menor índice pluviométrico anual. O que causa Assim, esse estudo pressupõe um controle preventivo
o problema da estiagem é a má distribuição das chuvas, dos impactos ambientais ocasionadas, principalmente,
concentradas em alguns meses do ano. O índice de chu- pela atividade humana. Após essa avaliação minuciosa
vas anuais chega, às vezes, a ser inferior a 500 mm. As das consequências geradas pelo meio ambiente é reali-
médias térmicas anuais e as temperaturas são elevadas. zado o Relatório de Impacto do Meio Ambiente (RIMA)
- clima subtropical úmido: Representativo do Sul do com o intuito de divulgar as estatísticas atualizadas sobre
Brasil, é dominado pela massa tropical atlântica (mTa), o tema. No Brasil, biomas como a Amazônia, Mata Atlân-
mas sofre grande influência da massa polar atlântica tica, Pantanal vem sendo devastados pela ação humana.
(mPa) no inverno. Apresenta o segundo maior índice plu- Segundo o Artigo 1º da Resolução do CONAMA (Nº
viométrico anual (em torno de 2.500 mm), só perdendo 001, de 23 de janeiro de 1986), “Para efeito desta Resolu-
para o clima equatorial úmido. Tem as estações do ano ção, considera-se impacto ambiental qualquer alteração
bem definidas e chuvas bem distribuídas durante o ano. das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio
No inverno são constantes as ondas de frio, a formação ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou
de geada e chuvas de granizo. Pode ocorrer neve nas energia resultante das atividades humanas que, direta ou
áreas de maior altitude, como na região de São Joaquim, indiretamente, afetam:
em Santa Catarina. I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população;
- clima tropical de altitude: Localiza-se nas áreas de II - as atividades sociais e econômicas;
maior altitude da região Sudeste. Sofre grande influên- III - a biota;
cia anual da massa tropical atlântica (mTa), que é úmida. IV - as condições estéticas e sanitárias do meio am-
No inverno, a massa polar atlântica (mPa) é responsável biente;
pelas baixas temperaturas e pelas geadas que costumam V - a qualidade dos recursos ambientais.”
ocorrer nessa época. Diferencia-se do clima tropical típi- Além do CONAMA (órgão legislativo), o IBAMA (Insti-
co ou continental por abranger maior índice pluviométri- tuto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
co anual (acima de 1.700 mm), verões menos quentes e Renováveis), criado pela Lei nº 7.735 de 22 de fevereiro
invernos mais frios. Texto adaptado de ARAÚJO. F. de 1989, é responsável pela execução das leis estabeleci-
das pelo poder legislativo. Assim, esse órgão executivo a
Impactos ambientais nível federal, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente,
Os impactos ambientais designam as diversas formas promove ações de preservação, conservação e fiscaliza-
de afetar o meio ambiente bem como desestruturar o ção do patrimônio ambiental, além de conceder licenças
ecossistema causados pelo ação humana, desde aumen- ambientais aos empreendedores.
to da urbanização, implementação de indústrias (sobre-
tudo energéticas, petrolíferas e mineradoras), massifica- Principais Impactos Ambientais Gerados pelo Ho-
ção do turismo, dentre outros. mem
Os impactos ambientais alteram as condições nor- O ser humano tem sido um importante protagonista
mais de funcionamento da natureza e podem causar da aceleração dos impactos ambientais no meio ambien-
danos irreversíveis ao mundo, desde assoreamento dos te, o que levou, dentre outras coisas, as alterações climá-
rios, desertificação, infertilidades do solo, poluição da ticas, perdas de espécies e de habitats.
água, perda de espécies vegetais ou animais. Para tanto, isso ocorre decorrente da falta de cons-
Atualmente, devido ao aceleramento das alterações ciência ambiental na população, posto que cada vez mais
climáticas o meio ambiente tem sido um dos temas mais utilizamos indiscriminadamente os recursos naturais (re-
discutidos do século XXI, o que levou a criação de pro- nováveis e não renováveis) para suprir nossas necessi-
gramas e ações, bem como o estabelecimento de legis- dades.
lação na área a fim de minimizar os impactos causados Medidas para evitar esse aceleramento focam em
nos recursos do meio ambiente. Os Estados Unidos, foi evitar o desperdício de água e de energia, assim como
PROVA DE GEOGRAFIA

o país precursor da implementação de legislação na área o descarte adequado do lixo e a diminuição do uso de
por meio da criação da Lei Federal denominada “National automóveis. Elas caracterizam práticas simples que dimi-
Environment Policy Act – NEPA”, aprovada em 1969. nuiriam os danos causados ao meio ambiente.
Com a globalização e o aumento do consumo mun-
Legislação Brasileira dial, esse processo tem se acelerado cada vez mais ge-
De acordo com a Art. 225, da Constituição Brasileira rando diversos impactos que muitas vezes se tornam
de 1888, “Todos têm direito ao meio ambiente ecologi- irreversíveis. Alguns exemplos dessas práticas são inten-
camente equilibrado, bem de uso comum do povo e es- sificados pelo crescimento das cidades, desde constru-

24
ções de estradas, ferrovias, rodovias, pontes, implemen- da região com maior formação de nuvens e a célula de
tação de indústrias, o que levam ao aumento significativo circulação de Walker fica bipartida. Podem ser observa-
do desmatamento, das queimadas, da poluição (água, ar das águas quentes em praticamente toda a extensão do
e solo), bem como da agricultura intensiva e pecuária, Oceano Pacífico Equatorial. Esse fenômeno interfere na
os quais induzem ao aumento do efeito estufa, aqueci- circulação geral da atmosfera.
mento global, chuva ácida, dentre outras consequências De acordo com a intensidade, o El Niño pode ser fra-
negativas para o meio. co, moderado ou forte. As anomalias climáticas associa-
das a esse fenômeno são desastrosas e provocam sérios
Impactos Ambientais Positivos e Negativos prejuízos econômicos e ambientais.
Embora os impactos ambientais estejam associados No Brasil esse fenômeno causa um grande aumento
às questões negativas causadas nos ecossistemas terres- de chuvas na região Sul, o que pode acarretar prejuízos
tre os quais interferem em sua composição e ações natu- aos agricultores. Na região Norte ocorre redução de chu-
rais, levando aos diversos prejuízos ambientais; existem, vas nos setores norte e leste da Amazônia, levando ao
por sua vez, os impactos ambientais considerados positi- aumento significativo de incêndios florestais. No Nor-
vos ou benéficos, visto que resultam numa melhoria das deste também ocorre diminuição das chuvas, sendo que
condições de vida no planeta. Para exemplificar, pode- no Sertão nordestino essa diminuição pode alcançar até
mos pensar no plantio de mudas, na limpeza ou no de- 80% do total médio do período chuvoso. Ocorre também
sassoreamento dos rios, construções de barragens com o aumento nas temperaturas do Sudeste e Centro-Oeste.
intuito de recuperar ou impossibilitar danos ambientais, Grandes secas na Índia, Austrália, Indonésia e África
dentre outros. são causadas por esse fenômeno. No Peru, Equador e no
meio oeste dos Estados Unidos ocorrem enchentes. Na
Tipos Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guina Francesa
Dependendo da área atingida, o impacto ambiental, as chuvas são reduzidas, com exceção da costa da Co-
pode ser classificado em local, regional ou global. Com lômbia que recebe intensas chuvas.
efeito, além dos tipos de impactos citados acima, ou seja,
os positivos (benéficos) e negativos (adversos), eles po- La Niña
dem ser classificados em: La Niña (“a menina” em espanhol) é um fenômeno
oceânico-atmosférico caracterizado pelo resfriamento
• Diretos e Indiretos
anormal nas águas superficiais do Oceano Pacífico Equa-
• Temporários, Permanentes e Cíclicos
torial, ou seja, suas características são opostas as do El
• Imediatos, de Médio e Longo Prazo
Niño (aquecimento anormal das águas do oceano Pací-
• Reversíveis e Irreversíveis
fico).
O fenômeno La Niña caracteriza-se pela intensifica-
El Niño
ção dos ventos alísios, que sopram na faixa equatorial
O El Niño é um fenômeno climático de escala glo- de leste para oeste. Com a intensificação dos ventos,
bal. Caracteriza-se pelo aquecimento anormal das águas uma quantidade maior que o normal de águas quentes
superficiais do Oceano Pacífico, predominantemente na se acumula no Pacífico Equatorial Oeste, enquanto no
sua faixa equatorial. Ocorre em intervalos médios de 4 Pacífico Leste, próximo ao Peru e Equador, verifica-se a
anos. Esse aquecimento é geralmente observado no presença de águas mais frias, causando um aumento no
mês de dezembro, próximo ao Natal, por isso recebeu o desnível entre o Pacífico Ocidental e Oriental.
nome de “El Niño”, em referência ao “Niño Jesus” (Meni- O aumento na intensidade dos ventos alísios provoca
no Jesus), que foi dado por pescadores peruanos. intensificação dos movimentos de ressurgência(subida
Em anos sem a presença do El Niño, os ventos alísios das águas profundas e frias para as camadas superficiais
sopram de leste para oeste, acumulando água quente na do oceano) no lado leste do Pacífico Equatorial, junto
camada superior do Oceano Pacifico perto da Austrália e à América do Sul. Essas águas profundas sobem carre-
Indonésia. Como as águas do oceano no Pacífico Oeste gadas de nutrientes e micro-organismos que vão servir
são mais quentes, há mais evaporação e formam-se nu- de alimento para os peixes, atraindo cardumes para as
vens numa grande área. Para haver formação de nuvens águas superficiais e favorecendo a pesca.
o ar teve que subir. Nos níveis superiores da atmosfera os As águas quentes que ficam “represadas” mais a oes-
ventos sopram de oeste para leste, assim o ar frio desce te do Pacífico geram evaporação e consequentemente
no Pacífico Leste (junto à costa oeste da América do Sul), ocorre formação de nuvens de chuva, que geram a célula
completando a circulação atmosférica de grande escala de circulação de Walker (o ar quente sobe no Pacífico
chamada “Circulação de Walker.” Equatorial Central e Oeste e desce no Pacífico Leste, jun-
Os ventos alísios, junto à costa da América do Sul, fa- to à costa oeste da América do Sul), que fica mais alon-
vorecem um fenômeno chamado de ressurgência: a água gada em anos de La Niña.
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fria do fundo do oceano flui para a superfície carregando Em geral, o fenômeno La Niña ocorre em intervalos
nutrientes e micro-organismos que servirão de alimento de 2 a 7 anos, com duração de 9 a 12 meses, com al-
para os peixes, permitindo o surgimento de uma cadeia guns poucos episódios persistindo por mais que 2 anos.
alimentar nessa região. Em geral, episódios de La Niña ocorreram em menor fre-
Em anos de El Niño, ocorre enfraquecimento dos ven- quência que o El Niño durante as últimas décadas.
tos alísios, fazendo com que a camada de águas superfi- Assim como o El Niño, o La Niña também interfere
ciais quentes do Pacífico se desloque ao longo do Equa- na circulação geral da atmosfera, provocando mudanças
dor em direção à América do Sul. Há um deslocamento nas condições climáticas de várias regiões. Na Colômbia

25
e Austrália as chuvas se tornam abundantes, podendo Entenda as relações e diferenças entre o Efeito Es-
causar enchentes. Ocorre diminuição das chuvas no oes- tufa e o Aquecimento Global;
te da Argentina e do Chile, no Peru, Paraguai e Equador.
No Brasil, os efeitos são diferentes daqueles provo- Os gases de efeito estufa são:
cados pelo El Niño. Em anos de La Niña ocorrem chuvas Monóxido de Carbono (CO)
mais abundantes no norte e leste da Amazônia, com con- Dióxido de Carbono (CO2)
sequente aumento na vazão dos rios da região, causan- Clorofluorcarbonos (CFC)
do enchentes. No Nordeste também ocorre um aumento Óxido de Nitrogênio (NxOx)
Dióxido de Enxofre (SO2)
de chuvas, o que é benéfico para a região semiárida. Na
Metano (CH4)
região Sul observa-se a ocorrência de secas severas e
aumento das temperaturas, prejudicando as atividades Causas
agrícolas da região. No Sudeste e Centro-Oeste os efei- A principal causa do aquecimento global é a emissão
tos são imprevisíveis, podendo ocorrer secas, inundações de gases de efeito estufa. Estimativas sugerem que as
e tempestades. emissões de gases do efeito estufa, em decorrência de
atividades humanas, aumentaram em 70%, no período
Aquecimento global de 1970 a 2004.
O aquecimento global corresponde ao aumento da Existem várias atividades que emitem esses gases, as
temperatura média terrestre, causado pelo acúmulo de principais são:
gases poluentes na atmosfera. O século XX foi considera- Uso de combustíveis fósseis: A queima de combustí-
do o período mais quente desde a última glaciação. Hou- veis fósseis usados em automóveis movidos a gasolina
ve um aumento médio de 0,7°C nos últimos 100 anos. e óleo diesel libera dióxido de carbono, considerado o
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Cli- maior responsável pela retenção de calor.
máticas (IPCC), órgão responsável por estudos sobre o Desmatamento: O desmatamento além de destruir
aquecimento global, acredita que o cenário para as pró- grandes áreas de floresta, também libera gases de efeito
ximas décadas é de temperaturas ainda mais altas. estufa.
Estudo recente, de 2017, indica que são de 90% as Queimadas: A queima da vegetação libera quantida-
des significativas de dióxido de carbono.
chances do aumento das temperaturas médias, no século
Atividades Industriais: As indústrias que fazem uso
XXI, para valores entre 2 a 4,9 °C. Um aumento de 2 °C já
de combustíveis fósseis também são responsáveis pela
resultaria em graves e irreversíveis problemas ambientais. emissão de gases poluentes. Essa situação compreende
Por isso, o aquecimento global é considerado um proble- a maior parte da emissão de gases de efeito estufa em
ma ambiental urgente e com graves consequências para países desenvolvidos.
a humanidade. Porém, o tema ainda é controverso. Para
alguns cientistas, o aquecimento global é uma farsa. Eles Consequências
argumentam que a Terra passa por períodos de esfria- Como vimos, os gases poluentes formam uma espé-
mento e aquecimento, o que seria um processo natural. cie de “cobertor” em torno do planeta. Eles impedem que
a radiação solar, refletida pela superfície em forma de
Efeito Estufa e Aquecimento Global calor, se dissipe para o espaço.
O fenômeno natural do efeito estufa está intimamen- O aquecimento global provoca uma série de altera-
te ligado às mudanças climáticas que ocorrem no planeta ções no planeta, das quais as principais são:
Terra. • Mudança na composição da fauna e da flora em
O efeito estufa apesar de relacionado com o aque- todo o planeta. Derretimento de grandes massas de gelo
cimento global, é um processo que garante que a Terra das regiões polares, ocasionando o aumento do nível do
mantenha a temperatura adequada para a vida. Sem ele, mar. Isso poderá levar a submersão de cidades litorâ-
o planeta seria muito frio, a ponto de muitas formas de neas, forçando a migração de pessoas.
• Aumento de casos de desastres naturais como inun-
vida não existirem.
dações, tempestades e furações.
O problema está no aumento da emissão de gases
• Extinção de espécies.
poluentes, os chamados gases de efeito estufa. Eles se • Desertificação de áreas naturais.
acumulam na atmosfera e com isso, há uma maior reten- • As secas poderão ser mais frequentes.
ção de calor da Terra. • As mudanças climáticas podem ainda afetar a pro-
dução de alimentos, pois muitas áreas produtivas podem
Então, como acontece o aquecimento global? ser afetadas.
O aumento na concentração dos gases de efeito estu- • As regiões congeladas estão sob maior pressão do
fa provoca alteração nas trocas de calor, ficando a maior aquecimento global, devido à elevação da temperatura
PROVA DE GEOGRAFIA

parte retida na atmosfera. Em consequência, ocorre o superior à média mundial. O derretimento das calotas
aumento da temperatura, o que causa o aquecimento polares já é uma realidade e os impactos negativos na
global. região já podem ser observados.
É importante destacar que o aumento da emissão de • Os animais que vivem nas regiões congeladas e so-
gases de efeito estufa é resultado das atividades huma- frem com as consequências do aquecimento global são o
nas. Esse processo iniciou no século XVIII, com a Revolu- pinguim, a baleia orca e a baleia franca. Além disso, pes-
ção Industrial e perdura até os dias de hoje. quisadores apontam que esta também seja uma possível
causa da extinção do mamute.

26
Aquecimento Global e o Brasil
No Brasil, a principal fonte de emissão de gases do efeito estufa é originária da queimada e derrubada de florestas,
especialmente na Amazônia e Cerrado. Essa situação o torna um dos países mais poluidores do mundo.
Entretanto, o Brasil figura como um dos líderes mundiais nas discussões para diminuir os efeitos do aquecimento
global. O maior potencial do país para redução da emissão de gases do efeito estufa é a redução do desmatamento.
A preocupação com as mudanças climáticas é mundial. Por isso, vários acordos internacionais já foram firmados
com o objetivo de reduzir as emissões de gases poluentes.
O Protocolo de Kyoto é um tratado internacional assinado, em 1997, na cidade de Kyoto, no Japão. Ele tem a finali-
dade de alertar para o aumento do efeito estufa e do aquecimento global. Para isso, os países se comprometeram em
reduzir o volume de gases lançados na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono.

https://www.todamateria.com.br/impactos-ambientais/
https://www.infoescola.com/clima/la-nina/
https://www.infoescola.com/clima/el-nino/
https://www.todamateria.com.br/aquecimento-global/

O ESPAÇO POLÍTICO E ECONÔMICO: INDÚSTRIA: O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO,


PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, TIPOS DE INDÚSTRIA, A CON-
CENTRAÇÃO E A DISPERSÃO INDUSTRIAL, OS CONGLOMERADOS TRANSNACIONAIS, OS
NOVOS FATORES DE LOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL, AS FONTES DE ENERGIA E A QUESTÃO
ENERGÉTICA, IMPACTOS AMBIENTAIS; AGROPECUÁRIA: SISTEMAS AGRÍCOLAS, ESTRU-
TURA AGRÁRIA, USO DA TERRA, AGRICULTURA E MEIO AMBIENTE, PRODUÇÃO AGROPE-
CUÁRIA, COMÉRCIO MUNDIAL DE ALIMENTOS E A QUESTÃO DA FOME; GLOBALIZAÇÃO
E CIRCULAÇÃO: OS FLUXOS FINANCEIROS, TRANSPORTES, OS FLUXOS DE INFORMAÇÃO,
O MEIO TECNOCIENTÍFICO-INFORMACIONAL, COMÉRCIO MUNDIAL, BLOCOS ECONÔMI-
COS, CONFLITOS ÉTNICOS E AS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS; A DIVISÃO INTERNACIO-
NAL DO TRABALHO (DIT) E AS TROCAS DESIGUAIS; A NAÇÃO E O TERRITÓRIO, OS ESTA-
DOS TERRITORIAIS E OS ESTADOS NACIONAIS: A ORGANIZAÇÃO DO ESTADO NACIONAL;
E PODER GLOBAL, NOVA ORDEM MUNDIAL, FRONTEIRAS ESTRATÉGICAS.

População Mundial é o número total de pessoas que existem no planeta.


O número total da população do planeta atingiu 7 bilhões ou 7 mil de pessoas em 31 de outubro de 2011. De
acordo com projeções populacionais, este valor continua a crescer a um ritmo sem precedentes antes do século XX.
Entretanto, a taxa de crescimento vem caindo desde que os índices de crescimento atingiram seu auge em 1963. A
população está em explosão demográfica desde a Revolução Industrial que começou na Inglaterra em meados do
século XVIII.
Em 2002, a “Population Reference Bureau” (organização sem fins lucrativos especializada em estudos demográficos)
publicou uma estimativa onde afirma que mais de 106 bilhões de pessoas já viveram na Terra. A estimativa foi classifi-
cada pelo próprio autor como semi científica, dada a falta de dados demográficos para
99% do período desde o qual a espécie humana existe no planeta. Previsões de Cientistas americanos dizem que o
mundo terá 11 bilhões de pessoas em 2090.
A Ásia abriga mais de 60% da população mundial, com quase quatro mil milhões. A China e a Índia sozinhas têm
21% e 17% respectivamente. Essa marca é seguida por África com 840 milhões de pessoas, 12,7% da população mun-
dial. Os 710 milhões de pessoas da Europa correspondem a 10,8% da população mundial. A América do Norte tem
uma população de 514 milhões (8%), a América do Sul, 371 milhões (5,6%) e a Oceania em torno de 60 milhões (0,9%).

ATIVIDADE INDUSTRIAL:
PROVA DE GEOGRAFIA

CONCEITOS BÁSICOS
O mundo capitalista apresenta diversos conceitos e métodos de produção. Um deles se trata do fordismo (em
referência ao método da empresa Ford) surgido nos anos 20, além do toyotismo (relativo ao conceito de produção
da Toyota), nos anos 70. Os conceitos trouxeram novas configurações nas cadeias produtivas industriais e romperam
paradigmas.
Em linhas gerais, no toyotismo, o operário pode exercer várias funções e ainda conta com robótica. O sistema co-
meçou nos anos 70. Já no fordismo, ocorre produção em massa, redução de custos e gastos.

27
PRINCIPAIS ASPECTOS Resposta: letra A. Essas práticas contribuíram muito
Em relação às semelhanças, ambos os métodos es- para os impactos ambientais citados.
tão focados em métodos iniciais de produção, mas se
diferem na maneira como as atividades são executadas,
com menos ou mais aparatos tecnológicos. O fordismo, ATIVIDADE AGRÍCOLA
por exemplo, busca atingir maior produção de massa e
estabelece funções para executar as tarefas. Outro foco População mundial é o número total de pessoas que
é trabalhar com custo mínimo e aumento produtivo, em existem no planeta.
larga escala. Isso traz baixa precificação nos produtos
O número total da população do planeta atingiu 7 bi-
vendidos.
lhões ou 7 mil de pessoas em 31 de outubro de 2011. De
Já o toyotismo abrange a produção seguindo a de-
acordo com projeções populacionais, este valor continua
manda, a necessidade pelo produto. O foco pela qualida-
de e melhor acabamento do produto, de fato, aumenta a crescer a um ritmo sem precedentes antes do século
– já que o método busca mobilizar pessoas que possam XX. Entretanto, a taxa de crescimento vem caindo desde
garantir esses processos de qualidade. que os índices de crescimento atingiram seu auge em
1963. A população está em explosão demográfica des-
TAYLORISMO de a Revolução Industrial que começou na Inglaterra em
Antes mesmo do fordismo ou toyotismo existia o tay- meados do século XVIII.
lorismo, o conceito era focado em trabalhos e funções Em 2002, a “Population Reference Bureau” (organiza-
bem divididas entre os trabalhadores e surgiu no início ção sem fins lucrativos especializada em estudos demo-
do século 20. Como consequência, tem-se aumento na gráficos) publicou uma estimativa onde afirma que mais
produção, mais funções de trabalho e maior quantidade de 106 bilhões de pessoas já viveram na Terra. A estima-
de profissionais subordinados, já que existe a fragmen- tiva foi classificada pelo próprio autor como semi cientí-
tação de funções. fica, dada a falta de dados demográficos para
99% do período desde o qual a espécie humana exis-
te no planeta. Previsões de Cientistas americanos dizem
#FicaDica que o mundo terá 11 bilhões de pessoas em 2090.
Não confundir os três conceitos como re- A Ásia abriga mais de 60% da população mundial,
gras obrigatórias adotadas por todas as com quase quatro mil milhões. A China e a Índia sozinhas
empresas, mas se tratam de sistemas de têm 21% e 17% respectivamente. Essa marca é seguida
produção usados como referência quanto a por África com 840 milhões de pessoas, 12,7% da po-
garantir resultados desejados. pulação mundial. Os 710 milhões de pessoas da Europa
correspondem a 10,8% da população mundial. A Améri-
ca do Norte tem uma população de 514 milhões (8%), a
SE LIGA! América do Sul, 371 milhões (5,6%) e a Oceania em torno
O Frodismo E Taylorismo São Mais Seme- de 60 milhões (0,9%).
lhantes Por Focarem Mais No Aumento Pro-
dutivo. O Toyotismo Já Foca Mais Na Quali- PAÍSES DESENVOLVIDOS
dade E É Mais Tecnológico.
Neoliberalismo: O que se convencionou chamar de
Neoliberalismo é uma prática político-econômica basea-
da nas ideias dos pensadores monetaristas (represen-
tados principalmente por Milton Friedman, dos EUA, e
EXERCÍCIO COMENTADO Friedrich August Von Hayek, da Grã Bretanha). Após a
1. (ENEM– 2017) A conclusão tardia e perversa para o crise do petróleo de 1973, eles começaram a defender a
meio ambiente é o verdadeiro desastre ecológico e eco- ideia de que o governo já não podia mais manter os pe-
nômico ocasionado pelo plantio de café em terrenos de-
sados investimentos que haviam realizado após a II Guer-
clivosos. E o mais grave é que tal lavoura continua a ser
ra Mundial, pois agora tinham déficits públicos, balanças
praticada em moldes não muito diferentes daqueles que
comerciais negativas e inflação. Defendiam, portanto,
arrasaram florestas, solos e águas no século XIX.
SOFIATTI, A. Destruição e proteção da Mata Atlântica no uma redução da ação do Estado na economia. Essas teo-
Rio de Janeiro: ensaio bibliográfico acerca da eco-histó- rias ganharam força depois que os conservadores foram
ria. História, Ciências, Saúde, n. 2, jul.-out. 1997. vitoriosos nas eleições de 1979 no Reino Unido (ungindo
Margareth Thatcher como primeira ministra) e, de 19880,
PROVA DE GEOGRAFIA

A atividade agrícola mencionada no texto provocou im-


pactos ambientais ao longo do século XIX porque nos Estados Unidos (eleição de Ronald Reagan para a
presidência daquele país). Desde então o Estado passou
a) reforçava a ocupação extensiva. apenas a preservar a ordem política e econômica, dei-
b) utilizava o solo do tipo terra roxa. xando as empresas privadas livres para investirem como
c) necessitava de recursos hídricos. quisessem. Além disso, os Estados passaram a desregu-
d) estimulava investimentos estrangeiros. lamentar e a privatizar inúmeras atividades econômicas
e) empregava mão de obra desqualificada. antes controladas por eles.

28
A Nova Ordem Mundial tado de Varsóvia e assinando com o presidente estaduni-
Utilizamos como marco inicial para a assim chamada dense o famoso acordo START (Strategic Arms Reduction
“Nova Ordem Mundial” (ou “Nova Ordem Internacional”) Treaty), através do qual a OTAN e outras organizações fi-
a queda do Muro de Berlim, com tudo o que simbolizou lo-fascistóides dos Estados Unidos e aliados comprome-
em termos políticos, econômicos e ideológicos. Eviden- tiam-se a diminuir seus arsenais e interromper a corrida
temente, muitos aspectos anteriores já indicavam uma armamentista. Na prática, pouco foi feito a este respeito
nova era econômica em formação. O Muro de Berlim não e é correto afirmar que as nações do Oeste (Estados Uni-
apenas separava uma cidade e um povo. Ele simbolizava dos e Inglaterra à frente) venceram a Guerra Fria contra
o mundo dividido pelos sistemas capitalista e socialista. o socialismo.
A sua destruição, iniciada pelo povo de Berlim, na noite Naturalmente, a última palavra a este respeito ainda
de 9 de novembro de 1989, pôs abaixo não apenas o não está dada. Outrora um dos maiores problemas de
distribuição na URSS era representado pela filas: todos
muro material; mais do que isso, rompeu com o mais sig-
tinham dinheiro para comprar os bens necessários, parti-
nificativo símbolo da Guerra Fria: a bipolaridade.
cularmente numa nação que foi capaz de manter o preço
Como foi possível a queda do Muro de Berlim, em
do pão em três copeques durante mais de setenta anos!
plena Guerra Fria, num país sob forte hegemonia da Mas formavam-se filas imensas para esperar que produ-
União Soviética? Estas coisas não acontecem, por assim tos raros do ocidente chegassem às prateleiras dos su-
dizer, “como um raio em céu azul”. Uma série de fato- permercados, delas desaparecendo rapidamente. Hoje,
res a tanto conduzem, liderados pela Corrida Armamen- em Moscou, o que se vê é, além do retorno da prostitui-
tista. Paralelamente ao abandono do Estado capitalista ção, da miséria, da mendicância e da violência, levando
com gastos sociais, seguindo a orientação “neoliberal”, uma nação que já foi uma superpotência a rivalizar com
este passou a investir cada vez mais pesadamente em países subdesenvolvidos neste quesito, supermercados e
armamentos de ponta, mandando a conta da “defesa do lojas de conveniência abarrotadas de bens para os quais
mundo livre” para os países subdesenvolvidos. A União ninguém mais tem dinheiro para comprar... O russo mé-
Soviética e seus aliados, sem terem “satélites” ou países a dio se pergunta se teria feito um bom negócio ao sair do
utilizar como fonte de recursos para esta finalidade – que socialismo para o capitalismo...
contraria o princípio básico do socialismo, a Paz – passou Os blocos econômicos são associações criadas entre
a defender-se como pode. De todo o modo, se o bloco os países, a fim de estabelecer relações econômicas entre
capitalista, dispondo de seu potencial de exploração de si. Eles surgiram do reflexo da constante competição de
praticamente todo o mundo subdesenvolvido e do apa- economias que estão sempre buscando o crescimento.
rato de propaganda que a isto se segue, criou armas cada Além disso, é um movimento cada vez mais comum no
vez mais sofisticadas e inacreditáveis. Em fins da década mercado mundial para aguentar o ritmo acelerado dos
de 80 falava-se no desenvolvimento, por conglomerados países.
anglo-estadunidenses, de um projeto de “Guerra Nas Essa união acontece por interesses mútuos e pela
Estrelas”, uma espécie de malha de satélites voltada a possibilidade de crescimento em grupo. Esse crescimen-
destruir armamento inimigo em terra com canhões laser! to passou a ser bem visto porque logo se percebeu que,
Especulava-se ainda acerca de uma arma (que, se efetiva- por mais forte que fosse uma economia, ela não poderia
da jamais foi utilizada na prática, que se saiba, até os dias competir de igual para igual com grupos de economias
unidas entre si.
de hoje) chamada de “Bomba de Nêutrons”, capaz de
destruir completamente a vida sem afetar o patrimônio,
O que são Blocos Econômicos?
um verdadeiro emblema do ideal capitalista... Deslocan-
Bloco econômico é uma união de países com inte-
do recursos da produção de alimentos, medicamentos, resses mútuos de crescimento econômico e, em alguns
educação e salários para a Defesa, as nações socialistas casos, se estende também à integração social. Tem como
foram levadas a um crise econômica sem precedentes uma das ideias principais garantir uma maior integração
históricos, este o cerne do problema. entre países e trazer a facilitação do comércio. Os blo-
Em 1985, a eleição de Mikhail Gorbatchov para a li- cos econômicos começaram a surgir no fim da década
derança da União Soviética tinha por finalidade encon- de 40, após a 2ª Guerra Mundial. Nesse período, a Euro-
trar formas pacíficas de sobrevivência democrática entre pa estava devastada por causa da guerra e também era
regimes econômicos antagônicos. Se os socialistas rea- fortemente influenciada pelo mercado norte-americano,
firmavam a necessidade da intervenção estatal na eco- que estava em processo de crescimento econômico e,
nomia, encontravam, na outra ponta a competitividade portanto, poderia ameaçar as economias europeias.
mercantil daqueles que se nutriam da morte e da destrui- O primeiro bloco econômico nasceu em 1944 com a
ção, numa palavra: da competitividade. Abandonaram-se criação da BENELUX formada por Bélgica, Holanda e Lu-
as metas cooperativistas e passou-se a pautar-se pela xemburgo. Seu objetivo era ajudar os países-membros a
mais rapinante competitividade. Reconhecendo que fal- se recuperarem da guerra. Após ele, principalmente de-
PROVA DE GEOGRAFIA

ta de transparência e democracia na revelação dos fatos pois da Guerra Fria, outros foram criados.
constituía um entrave ao desenvolvimento do socialis-
mo, Gorbatchov publicou seu clássico Perestroika, novas Classificação dos Blocos
ideias para o meu país e o mundo que, contudo, foi mais São definidos quatro estágios ou tipos de blocos:
utilizado pelos adversários do que pelos amigos do so-
cial. Era sem dúvida a expressão de uma crise. • Área de Livre Comércio: o primeiro seria a de-
Gorbatchov tentou ainda acordos com o ultradireitis- terminação de uma área de livre comércio, que significa
ta Ronald Reagan, administrando mesmo o final do Tra- que produtos produzidos por um país podem entrar em

29
países que têm esse acordo de livre comércio com ele, bloco é manter políticas comuns com relação a barreiras
isento de taxas e burocracias tradicionais de uma impor- alfandegárias, leis financeiras, padrões e acesso aos mer-
tação normal; cados dos países-membros.
• União Aduaneira: numa segunda fase, de inte-
resses mais amplos, a união aduaneira apresenta a imple- Comunidade Andina de Nações - Pacto Andino
mentação de condutas de comércio, além de regras para A Comunidade Andina de Nações foi criada em 1969,
comércios com países que não fazem parte dessa união. formada pela Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. Tem
• Mercado Comum:  a terceira parte é a criação como foco a integração comercial e o acesso dos mer-
de um mercado comum, que implica numa integração
cados. É um dos principais parceiros dos Estados Unidos.
maior entre as economias e regras de comércio interno
e externo, além de englobar a passagem de mercadorias,
pessoas e capital entre esses países de forma livre. APEC
• União Econômica e Monetária: o estágio má- A Cooperaçao Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC)
ximo de ligação é o de união econômica e monetária, foi criada em 1993, na Conferência de Seattle, nos Es-
que é um mercado comunitário, mas com o diferencial tados Unidos e é formada por países das Américas, da
de ter uma moeda comum em circulação nos países que Oceania e a Ásia.
compõem esse grupo.
Globalização
Esses estágios são baseados nas fases ou categorias Todo esse movimento de união de países, às vezes
vividas pelos blocos, mas há uma ordem obrigatória para perto geograficamente outras vezes não, só é possível
sua criação. O bloco que seguiu todos os passos citados pelas seguidas formas que o homem achou de aproximar
foi a União Europeia, mas outros já formados não segui- pessoas distantes. Os avanços no setor da comunicação
ram necessariamente essa ordem. possibilitaram esse contato e fizeram com que os indiví-
O Mercosul, por exemplo, é classificado como união duos conhecessem e vivessem culturas e costumes dife-
aduaneira; a União Europeia já atingiu o nível de união rentes de outras regiões que, antes desses avanços, eram
econômica e monetária. Aliás, esses passos são baseados improváveis de se conhecer.
na formação desse bloco. Outro fator importante foram os avanços do setor de
transportes. Aviões com capacidade e comodidade cada
Principais Blocos Econômicos
vez maior deram a chance de mais e mais pessoas reali-
União Europeia zarem viagens para lugares distintos, gastando um tem-
Na Europa existe a União Europeia que é um bloco po menor do que anos anteriores. Isso é o chamado efei-
formado por 28 países. Ele surgiu pela necessidade dos to da globalização que integra países e aproxima nações.
países de se unirem após a destruição causada pela 2ª
Guerra Mundial. Ele contém economias fortes que con- Lista dos Blocos Econômicos no Mundo
seguiram resistir a diversas crises econômicas mundiais.
Sua moeda comum é o Euro, mas existem aqueles que Países ACP (Associação de países da África, Caribe e
não aderiram à moeda. Ainda que a Grécia, Espanha e Pacífico)
outros países tenham passado por sérias dificuldades, o ACP-EU  (Acordo de Cotonou. Um acerto comercial
fato de estarem inclusos na União Europeia os deu prote- entre a União Europeia)
ção e inclusive apoio financeiro quando foi preciso. AEC (Associação dos Estados do Caribe)
AELC (Associação Europeia de Livre Comércio)
CEI ALADI (Associação Latino-Americana de Integração)
Há ainda na Europa, a Comunidade dos Estados In- ALALCt  (Associação Latino-Americana de Livre Co-
dependentes (CEI), que foi criada em 1991. Ela é formada mércio)
pelos países Armênia, Cazaquistão, Belarus, Federação ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas)
Russa, Moldávia, Quirquistão, Tadjiquistão, Ucrânia, Uz-
ALCA (Área de Livre Comércio das Américas)
bequistão, Azerbaidjão e Turcomenistão (membro asso-
APEC (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico)
ciado).
ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático)
Mercosul CEFTA (Acordo Centro-Europeu de Livre Comércio)
O Mercosul é um bloco que foi criado em 1992, sen- CAFTA-DR (Comunidade de Livre Comércio entre Es-
do formado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. tados Unidos Central e República Dominicana)
A Venezuela entrou no bloco em 2012, mas existem ou- CAN (Comunidade Andina de Nações)
tros em processo de adesão e associados. O objetivo da CAO (Comunidade da África Oriental)
Mercosul é trazer uma integração política, econômica e CARICOM (Comunidade do Caribe)
PROVA DE GEOGRAFIA

social entre os países participantes, auxiliar no aumento CARIFTAt (Associação de Livre Comércio do Caribe)
da qualidade de vida e fortalecer o vínculo entre os cida- CEA (Comunidade Econômica Africana)
dãos do bloco. CEDEAO  (Comunidade Econômica dos Estados da
África Ocidental)
Nafta CEEA (Comunidade Econômica Eurasiática)
O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAF- CEEAC (Comunidade Econômica dos Estados da Áfri-
TA) foi criado oficialmente em 1994 e é formado por Mé- ca Central)
xico, Estados Unidos e Canadá. O principal objetivo do CEI (Comunidade dos Estados Independentes)

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CEMAC  (Comunidade Econômica e Monetária da duz à integração passiva das partes, pois os fluxos não
África Central) são só financeiros – tendentes à homogeneização –, mas
IBAS (Fórum de Diálogo Índia-Brasil - África do Sul) também migratórios (inclusive turísticos), informacionais
COMECOMt  (Conselho para Assistência Econômica e culturais – tendentes à diferenciação –, o que promove
Mútua) a valorização da diferença e a descoberta de que a or-
COMESA (Mercado Comum da África Oriental e Aus- ganização interna das sociedades se revela decisiva nas
tral) dinâmicas globais.
MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) De fato, há lugares ameaçados de estandardização,
NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) de perda de substância, no entanto os efeitos das inte-
OCDE (Organização para a Cooperação e desenvolvi- rações são múltiplos e complexos, é por isso nenhum re-
mento Econômico) sultado é dado de antemão. As interações são enredadas
OECO (Organização dos Estados do Caribe Oriental) em campos de forças fluidos, onde os atores interiores
SAARC (Associação Sul- Asiática para a Cooperação não são desprovidos de meios de ação e onde os atores
Regional) exteriores estão longe de ter pleno poder de manipula-
SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da Áfri- ção de todas as variáveis em jogo. Além das hegemonias,
ca Austral) distinguíveis entre nações, organismos internacionais e
UA (União Africana) empresas (Ianni, 2004), a globalização representa a pos-
UAAA (União Aduaneira da África Austral) sibilidade de começarmos a divisar com maior nitidez
UE (União Europeia) uma “chorodiversidade” mundial.
UEMOA  (União Econômica e Monetária dos Oeste Essa “chorodiversidade”, nunca é demais repetir,
Africano) é fruto do trabalho vivo realizando-se sobre o traba-
UMA (União do Magrebe Árabe) lho morto. Mas, o trabalho morto que se impõe sobre
UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) o trabalho vivo, não é matéria inerte, uma vez que as
infra-estruturas territoriais construídas sob a égide do
Estado nacional são elementos ativos da produtividade
Ao surgirem os modernos Estados territoriais já her-
dos lugares. Por isso, nosso argumento é o de que os
daram um espaço interior compartimentado, porquanto
compartimentos políticos do espaço, com a relevância
preexistia aos territórios nacionais uma divisão espacial
das fronteiras, mantém-se, apesar de a globalização ter
do trabalho e uma divisão política do território. Com o
produzido uma história mundial única, como obstáculos
desenvolvimento do capitalismo a divisão do mundo em
à tendência de homogeneização do espaço.
territórios nacionais se sedimenta, e é com base nesta es-
trutura que as sociedades politicamente se enquadram. Formas gerais da compartimentação do espaço
Neste quadro as fronteiras têm o papel de limites demar- As compartimentações do espaço estruturam-se a
cadores dos distintos projetos sociopolíticos. partir das divisões sociais e territoriais do trabalho e das
Hoje, em face à globalização, a compartimentação do divisões políticas. Assim, argumentamos que as duas di-
espaço mundial revela duas facetas contraditórias e so- visões (do trabalho e política), em conjunto e reciproca-
lidárias. Por um lado, as fronteiras devem delimitar com mente, são elementos funcionais da expansão do capital,
clareza o território nacional que consagra à sociedade tanto nos territórios nacionais quanto no mundo.
que nele vive seu abrigo, este é o princípio da soberania De acordo com Smith (1988), três escalas são funcio-
internacional, mas por outro lado a economia transnacio- nalizadas pelo capital, ao mesmo tempo em que a ele
nalizada opera fluxos financeiros e normativos que atra- impõem restrições: a escala urbana, a escala do Estado-
vessam as fronteiras, promovendo um enfraquecimento -nação e a escala global. A escala global corresponde à
de suas funções destinadas à proteção. As oportunidades universalização do trabalho assalariado, onde o capital
de fluidez oferecidas pelo meio técnico-científico e infor- exige as mesmas condições de exploração para que pos-
macional (Santos, 1996) – as revoluções nos transportes sa existir e se reproduzir. A escala do Estado-nação é o
e nas comunicações ilustram sobejamente esse processo refúgio e o fundamento da universalização do capital.
–, possibilitaram a unificação técnica do planeta, mas pa- Quando o conjunto dos capitais nacionais é ameaçado
radoxalmente, desde o seu surgimento, esse meio geo- pela economia mundial, o Estado os defende com o uso
gráfico testemunha sua maior compartimentação. Nesta de barreiras alfandegárias, tributárias, sanitárias, em-
Era da velocidade, de encurtamento das distâncias geo- bargos comerciais e até o uso dos tanques de guerra.
métricas, os territórios nacionais padecem, em distintos Já a escala urbana, origina-se da divisão entre cidade e
graus, das influências de um mundo que efetivamente se campo. Com o desenvolvimento da cidade capitalista, há
globaliza, mas é a partir deles que se efetivam as relações uma diferenciação sistemática entre o local de trabalho e
interestatais, é na sua estrutura que se fundam quadros o local de residência, entre a produção e a reprodução. A
legais de legitimação do poder e reconhecimento das escala global é a escala da “igualização”, enquanto que a
PROVA DE GEOGRAFIA

soberanias. escala urbana é a escala da “diferenciação”. É nesta escala


Nesse contexto duas razões são confrontadas, uma que o capital tira vantagens com relação às diferenças de
global, representada pelas grandes corporações e or- salários, impostos, infraestruturas, legislações ambien-
ganismos transnacionais, e outra local (Santos, 1996). tais, etc. Daí a diferenciação interna ao Estado-nação ser
Ordens e normas globais atingem os lugares reorga- necessária e funcional ao capital.
nizando a vida de relações a partir de parâmetros sem Apesar de Smith (1988) não analisar o papel das fron-
referência com o meio local. Mas, em seu processo de teiras internas na “diferenciação” do espaço, porque não
difusão, a dinâmica espacial da globalização não se re- se constituem propriamente numa escala, é fundamental

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destacar que num país de organização política federa- Mas, há mobilidades que não são promovidas pelo
tiva como o Brasil, as diferentes legislações (tributárias, Estado, não são geopolíticas, mas pelas empresas, tendo
fiscais, ambientais, etc) só existem porque as fronteiras portanto um fundamento mais geoeconômico. A realiza-
internas circunscrevem espaços políticos com poder para ção de investimentos empresariais tem na localização da
legiferar. população um de seus trunfos, talvez o mais fundamen-
Outro argumento refere-se à seletividade de expan- tal. Tendo interesse primordial em possuir mão-de-obra
são do capital produtivo stricto senso. Como é de sua qualificada onde fazem os investimentos, as empresas
lógica, o capital procura os lugares que proporcionam são responsáveis hoje por boa parte da distribuição po-
maiores lucros: força de trabalho mais barata; menores pulacional.
impostos; leis ambientais mais flexíveis; sindicatos mais Segundo Raffestin (1993), boa parte das migrações
fracos; legislações trabalhistas e fiscais mais dóceis; equi- internas nos países capitalistas ocidentais tem sua razão
pamentos públicos apropriados; boa infraestrutura de de ser nos investimentos das empresas, ou melhor, nas
circulação e de comunicação, etc. É assim que o capital estratégias das empresas que determinam os movimen-
se aproveita da contingência de um espaço já construí- tos.
do para aprofundar as desigualdades e as diferenciações No caso do Brasil as estratégias empresariais contam
socioterritoriais, que por sua vez são o motor de novas com o apoio do Estado. É comum encontrarmos poderes
compartimentações territoriais. locais e regionais que praticam a guerra fiscal, inclusive
Uma terceira variável, eminentemente política, tam- fazendo propaganda de tal estratégia para atração das
bém se impõe. É impossível para uma única autoridade empresas, todavia os mesmos poderes públicos que via-
política administrar os territórios, sobretudo os de gran- bilizam seu território para as empresas, protestam contra
de extensão. Raffestin (1993) lembra que sem partições o aumento populacional havido em função da presença
o poder não tem referência e estrutura, e dessa forma da empresa.
não sabe como exercer suas coerções. No famoso axio- Uma quinta variável de nossa argumentação é guiada
ma “dividir para reinar” encontra-se essa preocupação pela análise de Foucault (1993) sobre as redes de poder.
com as partições do poder, não só com referência às Para Foucault (idem) uma das lições que se tira do Livro II
suas estruturas sociais, mas também com referência às de Marx é que não existe poder no singular, mas muitos
suas estruturas territoriais. O exercício do poder implica poderes ou formas de dominação. São sempre formas
sempre na manipulação da oposição entre continuidade locais e regionais de poder. Possuem sua própria moda-
lidade de funcionamento e são todas formas heterogê-
e descontinuidade. O guerrymandering, técnica que con-
neas de poder.
siste em recortar circunscrições eleitorais em função de
Ou seja, o poder não se exerce territorialmente só de
interesses circunstanciais, retrata o jogo do poder que,
cima para baixo, dos altos escalões territoriais para baixo,
criando e recriando constantemente limites[4], sustenta
mas a estrutura do poder baseia-se também no poder
os jogos do poder.
que emana dos escalões inferiores. A configuração do
Num país como o Brasil, onde os municípios também
poder na Confederação Helvética e na conformação da
produzem leis, a manipulação dos recortes político-ad- primeira federação do mundo, os EUA, obedeceram ao
ministrativos é uma tentação constante para os grupos princípio do poder que também emana de baixo para
que pretendem acessar os instrumentos político-consti- cima.
tucionais do poder. Por fim, destacamos uma posição menos empírica e
Uma quarta variável diz respeito às duas faces da mo- mais filosófica da imposição dos limites. Segundo Orte-
bilidade, o transporte (de materialidades) e a circulação ga y Gasset (1960), além dos limites e sua reprodução
(de informações). Como não há integridade territorial fazerem parte das atividades humanas, é constitutivo
sem circulação e transporte, a ação do Estado sobre seu do homem sentir-se em um mundo regionalizado, onde
território orienta-se a partir de uma antiga concepção cada coisa e cada homem devem pertencem a distintas
geopolítica, a de que os grandes impérios econômicos regiões, a distintos “mundos”. Não se trata de interpreta-
ou políticos, em todos os tempos, traduziram-se e ex- ções imaginárias com as quais a mente do homem reage
pressaram-se por suas redes. Brunhes (1962[1956]) afir- em função de sua perspectiva e localização, mas trata-se
ma que o poder sempre traça e constrói estradas quando de algo que é constitucional ao homem.
se instala em uma nova região e Ratzel (1987[1897]) de- Toda relação depende da delimitação de um campo,
clara que as estradas oxigenam o território. As questões onde se realizam as relações e onde elas se chocam com
estratégicas da mobilidade projetam sobre os territórios os limites traçados do campo. Desde que o homem sur-
o poder do Estado. As redes de transporte são os vetores giu defrontamo-nos cotidianamente com a noção de li-
por onde as populações podem se estabelecer em loca- mite, sem que nunca, apesar da sua evolução, a noção de
lidades novas ou de difícil acesso e, portanto de delicado limite tenha desaparecido.
controle político. É banal dizer que os Estados preocu- “Não há por que se admirar, pois o limite é um sinal
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pam-se com os “vazios demográficos”. ou, mais exatamente, um sistema sêmico utilizado pelas
Assim, levar populações para locais de menor den- coletividades para marcar o território: o da ação imediata
sidade traz consigo a necessidade de novas divisões no ou o da ação diferenciada” (Raffestin, 1993:165).
território para a instituição de novos poderes locais, in- As fronteiras políticas são formas assumidas pelos li-
clusive para a administração da vida de relações que se mites que, cristalizadas no território, são a expressão da
estabelece. As autonomias locais também nascem desse relação que o homem mantém com os outros homens
processo. Estes aspectos são próprios de uma política por meio do território. A fronteira política é um dos tipos
eminentemente estatal, geopolítica. de limites impostos às atividades humanas[5].

32
As compartimentações do espaço encontram sua nistra o satélite TV-Eutelsat (Grã-Bretanha, Itália, França,
explicação em variáveis culturais, sociais, econômicas e Alemanha e Iugoslávia representada pela República Fe-
espaciais, e, da fertilização cruzada destas variáveis, o deral Sérvia), cortou as transmissões desse satélite para
que torna o tema bastante complexo. Neste texto, privi- a Iugoslávia, criando um importante precedente em ma-
legiamos a análise das compartimentações produzidas a téria de não-discriminação da informação obtida por
partir da divisão social e territorial do trabalho, promo- esse meio. O principal meio de comunicação Sérvio foi
tora das especializações produtivas com a fundação de destruído por alguns países europeus (Virilio, 2000). No
quadros de referência regional, e da divisão política que conflito militar que se desenrolava, a OTAN (Organização
impulsiona a fundação de novos poderes político-admi- do Tratado do Atlântico Norte) possuía a desvantagem
nistrativos. de desconhecer a configuração territorial[7] Sérvia, um
saber local[8] evidentemente dominada pelos sérvios,
Unificação técnica e compartimentação política o que impedia uma invasão militar imediata por terra.
do território Assim, uma das estratégias da OTAN foi desmantelar o
O caráter autônomo da informação se consolida no sistema de informações Sérvio, independentemente da
atual período. Antes do aparecimento da telegrafia, da natureza das mensagens que eram transmitidas por um
radiotelegrafia, do telefone e, mais recentemente dos satélite de TV.
satélites, eram os homens e os objetos que tinham a A interdependência global dos lugares é patente no
propriedade de transportar a informação, mas com o atual período, mas também o é a existência de centros de
controle técnico e científico das ondas eletromagnéticas comando de redes de informação[9]. Antes da guerra, no
a informação adquiriu um novo status, o de ser transpor- vigor do acordo de “não-discriminação” da informação,
tada independentemente dos fluxos materiais. o território iugoslavo era banhado pelas comunicações
A partir do final do século XIX e começo do século necessárias à sua vida social. No momento da guerra a
XX, as técnicas aplicadas à transmissão da informação fonte secou, os “velhos” Estados-territoriais fizeram valer
promoveram a dissociação entre a rede de circulação de sua força.
homens e bens e a rede de transmissão de informações, Portanto, além das fronteiras não terem perdido suas
ainda que homens e bens continuem a portar e transmitir funções político-militares, delimitadoras de campos de
informações (Raffestin, 1993). forças[10], hoje elas ganham um novo atributo, que é
A difusão dos tradicionais sistemas de comunicação o de também delimitarem campos informacionais, pois
já havia propiciado a autonomia da informação, mas ain- apesar de os satélites não conhecerem fronteiras, todos
da não era possível conectar qualquer ponto do planeta os sistemas de recepção e decodificação das informações
em tempo real. No pós-guerra, mas mais especificamen- obedecem a critérios territoriais, senão não seria possível
te a partir da década de 1970, as NTCI’s (Novas Tecnolo- a um único satélite, provedor de informações para cinco
gias da Comunicação e da Informação), apoiadas na tele- países, interromper o sistema de comunicação para um
mática (telecomunicações + informática) e capitaneadas só território, como ocorreu no caso da Iugoslávia.
em escala planetária pelos satélites, propiciaram tecnica- A ideologia da união do mundo, que fundamenta o
mente a interconexão dos sistemas de telecomunicações. discurso do fim das fronteiras, obnubila as novas hierar-
O período que emerge dessa revolução informacio- quias da divisão internacional do trabalho. A criação de
nal[6] promove o encurtamento das distâncias físicas e novas fronteiras políticas evidencia o oposto daquilo que
o surgimento do “tempo real”. SANTOS (1996) considera é pregado pelo discurso da globalização econômica: de
a “convergência dos momentos” como um dos atributos um mundo aberto à circulação, às trocas; de um mundo
do atual período, ou seja, a possibilidade de uso ime- em que as novas tecnologias de transporte, especialmen-
diato das informações em qualquer parte do planeta. Os te as de informação, eliminam as compartimentações
eventos, antes restritos a pedaços do globo e difundidos territoriais. O que se verifica é que quanto mais satélites
num tempo lento, passam a capilarizar todo planeta num são colocados em órbita, mais fronteiras são produzidas
mesmo momento, produzindo, pela primeira vez, uma – ainda que para serem atravessadas –, ou seja, à medida
empiricização do tempo e uma história única. que aumenta a densidade técnica planetária, o mapa po-
Os mesmos eventos que atuam como solventes de lítico do mundo fica mais sincopado.
antigas ordens, também são catalisadores de uma nova
ordem (Barraclough, 1976). As variáveis explicativas das Fronteira: zonas e linhas
antigas ordens deixam de reinar neste “momento” de As formas podem ser materiais ou imateriais. Um rio
transição, sem que as variáveis em ascensão tenham se ou uma montanha quando usados como limites, são co-
mostrado em sua totalidade, daí a gestação neste pe- mumente chamados de fronteiras naturais. Já o entre-
ríodo/crise, de discursos que, absolutizando as técnicas, cruzamento de latitudes e longitudes na delimitação dos
pregam o fim das fronteiras. De fato, as fronteiras não territórios, faz com que a forma confunda-se com seu
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são barreiras à unificação telecomunicacional do mun- conteúdo técnico. Uma forma não elimina a outra, pois
do, mas isto não significa a federação política do mundo, mesmo as fronteiras baseadas em marcos naturais, são
nem mesmo a coabitação solidária das diferentes partes alvo de demarcação tecnológica. Do ponto de vista for-
de um território nacional. Velocidade e compartimentos mal (material ou imaterial) a fronteira pode ser uma zona
políticos são dois caracteres distintivos do período atual. ou uma linha, servindo a uma vasta tipologia[11].
Em verdade, a circulação da informação também A fronteira como linha é sempre mais absoluta, ser-
obedece a regras ditadas pelos compartimentos políti- vindo como marco onde os Estados nacionais, segundo
cos. Em maio de 1999 o consórcio Europeu que admi- a intensidade de seus poderes, exercem a vigilância (sa-

33
nitária, demográfica, ideológica, policial ou militar). In- como limiar nas despesas de exploração ou circulação”.
ternamente as linhas delimitam as subunidades dos ter- Para Vidal de la Blache (apud Ancel, 1938), “a civili-
ritórios nacionais quando estes já têm todo seu espaço zação é a luta vitoriosa do homem contra os obstáculos
apropriado (Cataia, 2001). A linha é um limite facilmente que a natureza colocou diante dele; não há muralha nem
cartografável. Já a zona (menos a de guerra), é de difícil fosso que não possam ser vencidos”.
demarcação, flexível segundo os arranjos socioterritoriais Hoje, no mapa político do mundo, os obstáculos à
dos campos de forças opostos. livre circulação dos homens e das coisas são represen-
Para Ratzel (1987[1897]), linhas e zonas são limites. As tados pelas fronteiras políticas, que in-formam onde é o
zonas representam a coisa real, enquanto que as linhas dentro e o fora. A fronteira é uma das formas da infor-
representam sua abstração. A linha pode ser desenhada, mação.
memorizada, medida e é estabelecida por uma decisão
política, enquanto que a zona é por essência indetermi- A fronteira como informação
nada e não dependente de decisões políticas para sua De acordo com Jameson (1985), o mecanismo opera-
existência. cional central da dialética, tanto hegeliana quanto mar-
Tendencialmente, a zona de fronteira dá origem à li- xista, é a contradição entre uma forma e seu conteúdo.
nha de fronteira. Nesse sentido a fronteira como linha é Até Hegel o pensamento filosófico concebia o conteúdo
o produto de um movimento, sempre transitório, justa- como matéria, material inerte, passivo. A mudança de
mente porque é histórico. Para Ratzel (1987[1897]), toda matéria para conteúdo permitiu ver a dinâmica da rela-
forma de vida que se propagou sobre a Terra, sempre ção sujeito-objeto, ou em outras palavras, da indissocia-
tomou a forma de um domínio, dotado de uma posição, bilidade entre forma e conteúdo.
uma configuração e um tamanho, um espaço de propa- A forma-conteúdo (Santos, 1996), torna transparente
gação, cujos pontos extremos podem ser demarcados o caráter informacional das fronteiras. A fronteira é uma
sobre uma linha que nomeamos de fronteira. concreção da vida social que se realiza por meio de sua
Considerando que um território faz fronteira com cristalização. Dizer que a fronteira é informação significa
um ou mais territórios, Foucher (1991) assinala que as dizer que ela porta uma ação social e que justamente por
fronteiras são formadas por díades, termo que designa a isso ela condiciona a sociedade que a criou.
fronteira comum a dois Estados contíguos. Uma fronteira A etimologia do vocábulo informação deriva da pa-
internacional é formada por tantas díades quantos são os lavra informar, que significa colocar em forma, dar uma
países limítrofes, ou em outras palavras, a díade refere-se forma ou um aspecto, formar, criar. A informação pode
a segmentos de fronteira. A fragmentação de um territó- ser compreendida como algo que é colocado em for-
rio, dando origem a um novo Estado, produz fronteiras ma, colocado em ordem. A dispersão de letras sobre um
internacionais e díades para aquele que se autonomizou, papel nada significa se as letras não obedecerem a um
e novas díades para os territórios limítrofes. O século XX sistema de classificação que dê sentido àquilo que está
foi pródigo na criação de novos compartimentos: no iní- sendo ordenado, portanto a informação implica no or-
cio do século o mundo possuía aproximadamente cin- denamento de elementos ou partes de um sistema mais
qüenta territórios nacionais, hoje esse número passa dos amplo. A informação expressa a organização das partes
duzentos. Assim, o surgimento de díades ou fronteiras de um sistema. Para Zeman (1970), a informação é, ao
também é função do tempo. lado do espaço, do tempo e do movimento, outra forma
A forma é sempre datada, incorporando novas fun- fundamental da existência da matéria.
ções à medida que novas ações dotam a forma de no- Do ponto de vista da organização dos territórios, não
vos conteúdos. As fronteiras não decorrem só do espaço, é a informação em si, medida em bits, que dá significado
mas também do tempo: extensão e duração formam o aos elementos do sistema de limites, mas o seu efetivo
conceito de limite. É o tempo que dá significado à forma, uso político, interessando aos estrategistas seu conteúdo
ou seja, mais importante que a forma das fronteiras é a e significado e não a quantidade de sinais. Para Morin
sua formação. Sendo histórica, resulta de eleições, por (1993[1977]), “La numeración en bits de las Tablas de la
isso afirmamos a inexistência de fronteiras naturais. As Ley, del Código Civil, de los pensamientos de Pascal, del
fronteiras, mesmo quando apoiadas em marcos naturais, Manifiesto Comunista no tiene sentido ni intrínseco ni
são o resultado de eleições sociais e não de imposições comparativo“.
naturais. De fato, nos albores da história, os elementos Informações transmitidas por cabos ou por ondas
naturais condicionavam os homens e suas atividades, im- eletromagnéticas não são do mesmo gênero daquelas
pondo-lhes barreiras físicas. Uma montanha, um deserto que os homens portam, uma vez que cabos e ondas cir-
ou uma floresta podiam significar limites (zonais) à cir- culam com mensagens carentes de significação afetiva e
culação, todavia o desenvolvimento técnico superou as emocional.
barreiras naturais e, à medida que estas iam caindo uma Para Raffestin (1993), a fronteira é uma informação
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a uma, erigiam-se outras barreiras, agora não mais natu- lato senso indispensável a qualquer ação. Como informa-
rais, mas políticas[12]. Quanto mais limites naturais fo- ção, constitui-se numa dimensão que nunca está ausen-
ram rompidos e o mundo ecumenizado, mais limites po- te, participando de todo projeto econômico, político ou
líticos foram produzidos. Para George (197_, p. 147), “os social de um Estado.
limites naturais, quando autoritários, podem enquadrar A fronteira é informação porque são os homens, as
diversas ‘agitações’, mas, quanto mais progridem as téc- sociedades que lhe atribuem essa função. Delega-se às
nicas, mais propendem os limites imperiosos a ser trans- fronteiras o papel de informar – para controlar – ao con-
gredidos, não surgindo, nesse caso, o obstáculo senão junto da sociedade o que pertence e o que não perten-

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ce a um dado espaço. Autônomo ou soberano o espaço uniam os avanços da ciência com a produção, por exem-
político sempre possui margens. Em verdade, o território plo: nas fábricas, robôs ligados aos computadores acele-
nasce das estratégias de controle necessário à vida social, ravam (e aceleram) a produção, ocasionando a redução
o que é outra maneira de exprimir a soberania. A obser- da mão-de-obra necessária, outro exemplo são as redes
vação de Latour (1996, p. 160-161) com relação aos obs- de televisão que facilitam ainda mais a realização de ne-
táculos de rua, utilizados para diminuir a velocidade dos gócios, com as suas transmissões em tempo real.
automóveis, também é válida para as fronteiras políticas: A globalização envolve países ricos, pobres, peque-
“Pode-se considerar que esse obstáculo age com nos ou grandes e atinge todos os setores da sociedade,
brutalidade /.../ acontece que o engenheiro das pontes e por ser um fenômeno tão abrangente, ela exige no-
e calçadas, os prefeitos e os pais de alunos decidiram vos modos de pensar e  enxergar  a realidade. As coisas
usar a intermediação desses objetos técnicos para obter, mudam muito rápido hoje em dia, o território mundial
justamente, comportamentos convenientes.” ficou mais integrado, mais ligado. Por exemplo, na dé-
Ao lembrar as diversas funções das fronteiras, Raffes- cada de 1950, uma viagem de avião cruzando o Oceano
tin (1993) observa que a função legal nunca está ausente. Atlântico durava 18 horas; hoje a mesma rota pode ser
De fato, as funções são a expressão da informacionaliza- feita em menos de 5 horas. Em 1865, a notícia da morte
ção das fronteiras. A fronteira sempre estará ali, ali onde de Abraham Lincoln levou 13 dias para chegar na Europa,
pode a qualquer momento incorporar uma nova infor- mas hoje, ficamos sabendo de tudo o que acontece no
mação e transmiti-la, expressando uma ordem: dentro e mundo em apenas alguns minutos.
fora, comunhão e excomunhão. Não podemos negar que a globalização facilita a vida
Por isso as fronteiras não se enfraquecem. As frontei- das pessoas, por exemplo o consumidor foi beneficiado,
ras podem ter deixado de expressar uma dada ordem, pois podemos contar com produtos importados mais ba-
mas elas continuam ali, como um prático-inerte[13] ratos e de melhor qualidade, porém ela também pode di-
(Santos, 1996; Moraes, 2000). Continuam no seu lugar ficultar. Uma das grandes desvantagens da globalização
esperando o momento adequado para expressar outras/ é o desemprego. Muitas empresas aprenderam a produ-
novas ordens zir mais com menos gente, e para tal feito elas usavam
novas tecnologias fazendo com que o trabalhador per-
SUBDESENVOLVIDOS E EMERGENTES desse espaço.
A necessidade de união causada pela Globalização
A terminologia para denominar países desenvolvidos fez com que vários países que visavam uma integração
e subdesenvolvidos varia bastante, o termo “pais emer- econômica se unissem formando os chamados  blocos
gente”, foi bastante utilizado na década de 1990, atual- econômicos (ALCA, NAFTA e Tigres Asiáticos, por exem-
mente este termo é usado para países subdesenvolvidos, plo), o interesse dessa união seria o aumento do enrique-
ou seja, aqueles que são menos industrializados. cimento geral.
Como exemplo são os países asiáticos e africanos. Não podemos esquecer também que, hoje em dia, é
essencial o conhecimento da língua inglesa. O inglês, que
Globalização: ao longo dos anos se tornou a segunda língua de quase
O termo globalização surgiu após a Guerra Fria  tor- todos nós, é exigido em quase todos os campos de tra-
nando-se o assunto do momento, aparecendo nos círcu- balho, desde os mais simples como um gerente de hotel
los intelectuais e nos meios de comunicação, tornando até o mais complexo, como um grande empresário que
possível a união de países e povos, essa união nos dá a fecha grandes acordos com multinacionais.
impressão de que o planeta está ficando cada vez menor. Para encarar todas estas mudanças, o cidadão precisa
Um dos mais importantes fatores que contribui para a se manter atualizado e informado, pois estamos vivendo
união desses povos é, sem dúvida, a internet. É impossí- em um mundo em que a cada momento somos bombar-
vel falar de globalização sem falar da Internet, que a cada deados de informações e descobertas novas em todos os
minuto nos proporciona uma viagem pelo mundo sem setores, tanto na música, como na ciência, na medicina e
sair do lugar. Dentro da rede conhecemos novas culturas, na política.
podemos fazer amizades com pessoas que moram horas Intimamente vinculada à questão da globalização
de distância, trabalhamos e ainda podemos nos aperfei- econômica é a mudança no papel do Estado. A globali-
çoar cada vez mais nos assuntos ligados a nossa área de zação significa que as variáveis externas passaram a ter
interesse, através dela, milhões de negócios são fechados influência acrescida nas agendas domésticas, reduzindo
por dia. o espaço disponível para as escolhas nacionais. Já men-
A globalização não é uma realização do presente, vem cionei que os requisitos para a competitividade externa
de longa data. Tudo começou há muito tempo quando levaram a uma maior homogeneidade nos aspectos ins-
povos primitivos passaram a explorar o ambiente em que titucionais e regulatórios dos Estados, que tais requisitos
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viviam. No século XV os europeus viajavam pelos mares a deixaram menor margem de manobra para estratégias
fim de ligar Oriente e Ocidente; a Revolução Industrial foi nacionais altamente diferenciadas em relação, entre ou-
outro fator que permitiu o avanço de países industrializa- tros, ao trabalho e à política macroeconômica. O equi-
dos sobre o restante do mundo. líbrio fiscal, por exemplo, tornou-se um novo dogma,
No final dos anos 70, os economistas passaram a usar conforme bem ilustra o Tratado de Maastricht da União
o termo “globalização” fora das discussões econômicas Europeia, que fixa parâmetros dentro dos quais devem
facilitando as negociações entre os países. Nos anos situar-se os números do equilíbrio orçamentário de seus
80, começaram a ser difundidas novas tecnologias que países-membros.

35
Tanto a opinião pública internacional quanto o com- cia no Brasil). Pois é justamente isto o que ocorre. Ao
portamento dos mercados também passaram a desem- realocar seus recursos e suas prioridades para educação
penhar um papel que antes não tinham na redefinição e saúde, num país com os grandes contrastes sociais do
dos limites possíveis de ação para o Estado. A informação Brasil, o novo Estado estará contribuindo para a realiza-
movimenta-se livre e rapidamente. Se, por exemplo, cir- ção de algo em que ele falhou no passado: promover
cula a notícia de que um determinado país está enfren- maior igualdade de oportunidades numa época em que
tando dificuldades para controlar seu déficit orçamentá- a qualificação e a educação constituem pré-requisito não
rio ou estará proximamente elevando suas taxas de juros, apenas para a conquista de um posto de trabalho, mas
os mercados financeiros intencionais tomam, com funda- também para aumentar o grau de mobilidade social no
mento nestas notícias, decisões que poderão ter impacto país.
real no pais em questão. Hoje, mais do que nunca, metas caras à esquerda
Os países, seus líderes e as políticos por eles adota- podem ser alcançadas junto com e em virtude de nos-
das estão sob vigilância próxima e constante da opinião sos esforços para aumentarmos as capacidades nacio-
pública internacional. Qualquer medida julgada por estas nais com vistas à participação competitiva na economia
entidades imateriais como passo em falso pode impor mundial. Além disso, este Estado remodelado precisa ser
penalidades. Ao contrário, decisões ou eventos interpre- ainda mais forte no desempenho de suas tarefas sociais
tados como positives solo recompensados. A opinião pú- e melhor preparado para regulamentar as atividades re-
blica internacional e, sobretudo, os mercados tendem a centemente privatizadas. As dificuldades no processo de
ser conservadores, a seguir certa ortodoxia em matéria transição do papel do Estado são sentidas em toda parte
econômica. Estabelecem um padrão de conduta econô- e não podem ser subestimadas. A reforma da Previdência
mica que praticamente não admite desvios num mundo Social na França e as difíceis negociações para a aprova-
em que h;! imensa variedade de realidades nacionais. 0 ção do orçamento nos Estados Unidos são exemplos dos
complexo processo de ajuste não deve ignorar tal diver- obstáculos a serem superados pelos Governos, basica-
sidade. mente porque não há respostas imediatas e evidentes ao
A globalização modificou o papel do Estado num ou- desafio da transição. Abandonar as práticas tradicionais
tro aspecto. Alterou radicalmente a ênfase da ação go- do Estado do Bem-Estar não implica deixar de lado a ne-
vernamental, agora dirigida quase exclusivamente para cessidade de melhores padrões de vida para os nossos
tomar possível As economias nacionais desenvolverem povos.
e sustentarem condições estruturais de competitividade
em escala global. Globalização e a questão da inclusão e exclusão
Isto não significa necessariamente um Estado menor, Gostaria agora de passar ao exame de outra con-
muito embora este também seja um efeito colateral de- sequência da globalização: a questão da exclusão e in-
sejável da mudança de ênfase, mas certamente pede um clusão social. E minha primeira observação é a de que
Estado que intervenha menos e melhor; um Estado que a globalização está dando origem a uma nova divisão
seja capaz de mobilizar seus recursos escassos para atin- internacional.
gir prioridades selecionadas, um Estado que possa cana- Os pontos cardeais já não explicam de forma satis-
lizar seus investimentos para as áreas vitais na melhoria fatória o mundo. As divisões Leste-Oeste e Norte-Sul
da posição competitiva do pais, tais como infraestrutura eram conceitos que minha geração empregou para lidar
e serviços públicos básicos, entre os quais melhor edu- respectivamente com a realidade política da Guerra Fria
cação e saúde; um Estado que esteja pronto a transferir e com o desafio econômico do subdesenvolvimento. A
para mãos privadas empresas melhor administradas por situação internacional desta metade da década de 90 é
elas; um Estado, finalmente, no qual os funcionários pú- muito mais complexa. O mundo pode ser dividido en-
blicos estejam à altura das demandas da coletividade por tre as regiões ou países que participam do processo de
melhores serviços. globalização e usufruem seus frutos e aqueles que não
E tudo isso tem de ser feito num tempo em que os va- participam. Os primeiros estão geralmente associados à
lores democráticos e uma sociedade civil fortalecida tor- ideia de progresso, riqueza, melhores condições de vida;
nam ainda mais amplas as reivindicações de mudança. A os demais, à exclusão, marginalização, miséria. É certo
transformação do Estado tem também de ser conduzida que a globalização produziu uma janela de oportunida-
num quadro econômico de disciplina fiscal e austeridade des para que mais países pudessem ingressar nas prin-
no gasto público, em que o Estado conta com menos cipais correntes da economia mundial. Os Tigres Asiáti-
recursos financeiros. Não se trata de tarefa simples. Re- cos e mesmo o Japão são exemplos significativos. Estes
quer uma mudança substancial de atitude e determina- países souberam aproveitar as oportunidades dadas pela
ção para combater interesses velados dentro do aparato economia mundial através da adoção de um conjunto de
estatal. Mas não há alternativa. No caso do Brasil, temos, políticas que incluem, entre outras, o desenvolvimento
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em suma, de reconstruir o Estado se quisermos ter qual- de uma força de trabalho bem treinada e qualificada,
quer possibilidade de êxito na transição do modelo au- aumento substancial da taxa de poupança doméstica, e
tárquico do passado para outro em que nossa economia implementação de modelos voltados para a exportação
se integre plenamente nos fluxos mundiais de comércio e baseados na intervenção estatal seletiva em alguns se-
e investimento. Pode parecer paradoxal que esta remo- tores.
delação do Estado de nenhuma forma conflite com ideais Para outros países em desenvolvimento mais com-
tradicionais da esquerda (e orgulho-me de ser fundador plexos, entre os quais o Brasil e a Índia, a integração
e membro do partido que representa a Social Democra- na economia global está sendo feita à custa de maior

36
esforço de ajuste interno e numa época de competição políticas corretas. A segunda seria promover programas
internacional mais acirrada. Nossos avanços são conheci- dos órgãos oficiais e do setor privado que sejam destina-
dos, e não tenho dúvidas de que nossos dois países estão dos ao retreinamento dos trabalhadores dispensados por
tendo êxito em gradualmente colher os frutos dos laços setores nos quais já não conseguem encontrar um posto
econômicos mais profundos que estão estabelecendo de trabalho. Um terceiro passo seria tornar mais flexível
com o resto do mundo. o conjunto de regras relativas às relações de trabalho, de
O mesmo acredito será válido para as chamadas eco- modo a preservar o número de empregos. Esta flexibi-
nomias em transição dos antigos países comunistas, que, lização deveria possibilitar, por exemplo, que empresas
não obstante, estão pagando um preço alto pelo ajuste e trabalhadores negociassem livremente um leque tão
aos princípios da economia de mercado impostos pela vasto quanto possível de tópicos, tais como o número de
realidade atual. horas de trabalho e de dias de férias, a forma de paga-
Para os países menores e mais atrasados, prevalece, mento das horas extras, etc. Deveria também resultar em
porém, um grande ponto de interrogação. Serão eles ca- menores custos para a contratação de trabalhadores. Por
pazes de algum dia poder superar os desafios da globa- fim, há alguns instrumentos à disposição do Governo que
lização? Estão seus povos condenados por uma lógica podem ser atrelados à expansão da oferta de empregos,
perversa a viver na pobreza absoluta, a ver suas institui- tais como a concessão de créditos pelos bancos estatais
ções ruírem e a depender da ajuda externa num mundo e a inclusão de incentivos na legislação tributária. Em paí-
menos predisposto a oferecê-la e mal preparado para ses de grande população como o Brasil e a Índia, deve-se
canalizá-la de modo eficiente? Reconheço que as dificul- também ter sempre presentes, ao pensar-se a questão
dades a serem enfrentadas por esses países são enormes. da geração de empregos, as formas de funcionamento
No entanto, recuso-me a aceitar que seu destino esteja da chamada economia informal. Em que medida a eco-
predeterminado ao fracasso, como se nada pudesse ser nomia informal reduz empregos na economia formal e
feito, como se a comunidade internacional pudesse con- em que medida oferece postos de trabalho adicionais?
viver confortavelmente com a indiferença e a paralisia em Um melhor conhecimento destas questões é necessário
relação aos países mais pobres. A marginalização perver- para que possamos tirar as conclusões corretas e adotar
te a boa consciência da humanidade. A marginalização, as medidas apropriadas.
todavia, não está confinada unicamente aos países ainda
não integrados na economia internacional. Ela também BLOCOS ECONÔMICOS E COMÉRCIO MUNDIAL:
está crescendo-nos próprios países prósperos.
A globalização significa competição com base em As transformações econômicas mundiais ocorridas
maiores níveis de produtividade, ou seja, maior pro-
nas últimas décadas, sobretudo no pós segunda guer-
dução por unidade de trabalho. O desemprego resulta
ra mundial, são fundamentais para entendermos as di-
assim dos mesmos motivos que levam uma economia a
nâmicas de poder estabelecidas pelo grande capital e,
ser competitiva. A situação é particularmente grave na
também, pelas grandes corporações transnacionais.
Europa. Os que são demitidos nos países ricos podem
Além delas, não podemos deixar de mencionar a im-
recorrer a mecanismos de proteção social de diferentes
portância crescente das instituições supranacionais, que
tipos; alguns poderão ser treinados para um trabalho
atuam como verdadeiros agentes neste jogo de interes-
substituto. Mas pouco poderá fazer-se para aliviar a frus-
ses, como por exemplo, o Fundo Monetário Internacional
tração dos jovens que querem ingressar no mercado de
trabalho e não conseguem. A falta de esperança, o con- (FMI), o Banco Mundial, entre outros.
sumo de drogas e álcool, o desmembramento da família
são alguns dos problemas trazidos pelo desemprego e
pela consequente marginalização. Há um sentimento de
exclusão, de mal-estar em vastos segmentos das socie-
dades ricas integradas na economia global, alimentan-
do a violência e, em alguns casos, atitudes de xenofobia.
Como lidar com a complexa questão do desemprego é
um desafio com o qual se defrontam praticamente todos
os países que participam da economia global. A resposta
a ele certamente não deve ser encontrada numa reação
à globalização, seja mediante um fechamento da econo-
mia ao comércio com parceiros externos, o que apenas
agrava a marginalização de um país, seja mediante o es-
tabelecimento de regras muito rígidas nas relações de
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trabalho, passo que corre o risco de, em vez de estimular,


dificultar a criação de empregos. Nova York, uma das cidades mais globalizadas do
Apesar de que dificilmente se poderia considerar a mundo (Foto: Wikimedia Commons)
criação de empregos uma responsabilidade direta dos
Governos, estes dispõem de uma ampla gama de pos- O cenário que se afigura com a chegada destes novos
sibilidades de ação para atacar o problema. A primeira e agentes econômicos é imprescindível para compreen-
talvez mais importante medida seja a promoção do cres- dermos o significado da chamada globalização econô-
cimento econômico sustentado, através da adoção de mica. Esta tem como características:

37
-A ruptura de fronteiras, ou seja, tal ruptura é atribuí- mostra que o jogo de poder exercido pelas nações tenta
da à dinâmica do capital, que circula livremente pelo glo- garantir as áreas de influência das mesmas, controlan-
bo, sem respeitar a delimitação de fronteiras territoriais; do mercados e estabelecendo parcerias com nações que
-Perda da soberania local, ou seja, países, estados e despertem o interesse dos blocos econômicos. 
cidades tem que se submeter à lógica do capital para Além disso, o jogo de poder também está presente
conseguir gerar lucro em seus orçamentos; internamente aos blocos, ou seja, existem países líderes
-Expansão da dinâmica do capital, fato que se rela- dentro do bloco, que acabam submetendo os outros paí-
ciona à ruptura de fronteiras, ou seja, o capital se dirige ses do acordo aos seus interesses. Assim, nem sempre
agora também à periferia do capitalismo, uma vez que a constituição de um bloco econômico é benéfica a to-
as transnacionais compreenderam que a exploração (no dos os membros; por exemplo, a constituição do NAFTA
sentido de explorar a força de trabalho diretamente) dos (México, Canadá e EUA) fez com que a frágil economia
países subdesenvolvidos promoveria grandes lucros para mexicana aumentasse ainda mais sua dependência em
estes. relação aos EUA, o Canadá, por sua vez, passou a ser con-
Com o crescimento expressivo da atuação do capital siderado uma extensão dos EUA, dada sua subordinação
em nível mundial, chegou-se a questionar o papel do Es- à economia de seu vizinho.1
tado, isto é, o Estado seria de fato um agente importante
neste processo ou atuaria como um impeditivo para a DIT
livre circulação do capital, uma vez que poderia criar re- A DIT (Divisão Internacional do Trabalho) é uma divi-
gras ou leis que inviabilizariam a livre circulação do capi- são produtiva em âmbito internacional. Os países emer-
tal? Segundo este raciocínio, as transnacionais estariam gentes ou em desenvolvimento que obtiveram uma in-
comandando a dinâmica econômica mundial em detri- dustrialização tardia  e que  possuem economias ainda
mento dos Estados. Vale destacar que muitas empresas frágeis e passíveis de crises econômicas oferecem aos
transnacionais passaram a desempenhar papéis que an- países industrializados um leque de benefícios e incen-
tes eram oferecidos pelo Estado, como serviços ligados à tivos para a instalação de indústrias, tais como a isenção
infraestrutura básica (exemplo: transporte e saneamento parcial ou total de impostos, mão-de-obra abundante,
básico). entre outros.
No entanto, as sucessivas crises geradas pelo capita- A Divisão Internacional do Trabalho direciona uma es-
lismo mostraram que o papel do Estado não se apagou, pecialização produtiva global, já que cada país fica desig-
como pensavam alguns, pelo contrário, em momentos nado a produzir um determinado produto ou partes do
mesmo, dependendo dos incentivos oferecidos em cada
de crise financeira, o Estado é chamado a ajudar as em-
país. Esse processo se expandiu na mesma proporção
presas em dificuldade econômica. Portanto, o papel do
que o capitalismo. Nesse sentido, um exemplo que pode
Estado no contexto de globalização reestruturou-se,
ser usado é a montagem de um automóvel realizada na
passando este a atuar como um salvador dos excessos
Argentina, porém com componentes oriundos de dife-
e econômicos promovidos pelas empresas nacionais
rentes países, como parte elétrica e eletrônica de Taiwan,
ou internacionais, controlando taxas de juros, câmbios,
borrachas da Indonésia e assim por diante. Isso  ocorre
manutenção de subsídios em setores estratégicos, bem
porque cada país oferece certos atrativos. Desta forma,
como fiscalizando, direta e indiretamente, os recursos o custo do produto final será menor, aumentando os lu-
energéticos. cros.
A Divisão Internacional do Trabalho provoca desi-
A Formação dos Blocos Econômicos  gualdades. Os países emergentes ou em desenvolvimen-
O surgimento dos blocos econômicos coincide com to, como México, Argentina, Brasil e outros, adquirem
a mudança exercida pelo Estado. Em um primeiro mo- tecnologias a preços altos, enquanto que os produtos
mento, a ideia dos blocos econômicos era de diminuir a exportados pelos países citados não atingem preços sa-
influência do Estado na economia e comércio mundiais. tisfatórios, favorecendo os países ricos.
Mas, a formação destas organizações supranacionais fez A DIT corresponde a uma especialização das ativida-
com que o estado passasse a garantir a paz e o cres- des econômicas em caráter de produção, comercializa-
cimento em períodos de grave crise econômica. Assim, ção, exportação e importação entre distintos países do
a iniciativa de maior sucesso até hoje foi a experiência mundo.
vivida pelos europeus. Antes desse processo vigorar no mundo, mais preci-
A União Europeia iniciou-se como uma simples enti- samente na década de 50, os bens manufaturados eram
dade econômica setorial, a chamada CECA (Comunidade oriundos restritamente dos países industrializados, como
Europeia do Carvão e do Aço, surgida em 1951) e depois, Estados Unidos, Canadá, Japão e nações europeias. Os
expandiu-se por toda a economia como “Comunidade países já industrializados tinham suas respectivas pro-
Econômica Europeia” até atingir a conformação atual, duções primeiramente destinadas ao abastecimento do
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que extrapola as questões econômicas perpassando por mercado interno, e depois, o restante direcionado ao
aspectos políticos e culturais. fornecimento de mercadorias industrializadas aos países
Além da União Europeia, podemos citar o NAFTA subdesenvolvidos que ainda não haviam ingressado efe-
(North American Free Trade Agreement, surgido em tivamente no processo de industrialização.
1993); o Mercosul (Mercado Comum do Sul, surgido em Os países subdesenvolvidos tinham a incumbência de
1991); o Pacto Andino; a SADC (Comunidade de Desen- gerar matéria-prima com a finalidade de fornecê-la aos
volvimento da África Austral, surgida em 1992), entre ou- países industrializados.
tros. A busca pela ampliação destes blocos econômicos
1 Fonte: www.educacao.globo.com

38
Após a Segunda Guerra Mundial, muitas empresas, território dominado por um Estado e apresenta caracte-
sobretudo norte-americanas, começaram a instalar filiais rísticas físicas, naturais, econômicas, sociais, culturais e
em diferentes países do mundo. Isso foi intensificado outras. No nosso caso, o Brasil é o país e a República
com o processo da globalização, que transformou mui- Federativa do Brasil é o Estado.
tos países subdesenvolvidos, que no passado eram me-
ros produtores primários, em exportadores também de Conceito de Nação
produtos industrializados, alterando as relações comer- Por outro lado, o conceito de Nação, por sua vez,
ciais que predominavam até então. também possui suas diferenças e particularidades em
Apesar da modificação apresentada na configuração relação aos demais termos supracitados. Nação significa
econômica, os países da América Latina, Ásia e África, uma união entre um mesmo povo com um sentimento
ainda ocupam destaque na produção de produtos pri- de pertencimento e de união entre si, compartilhando,
mários. muitas vezes, um conjunto mais ou menos definido de
O que os mantêm como produtores primários é prin- culturas, práticas sociais, idiomas, entre outros. Assim
cipalmente o modo como os países subdesenvolvidos sendo, nem sempre uma nação equivale a um Estado, ou
foram industrializados. Grande parte das empresas e a um país ou, até mesmo, a um território, havendo, dessa
indústrias existentes em países pobres é de nações de- forma, muitas nações sem território e sem uma soberania
senvolvidas e ricas. Diante desse fato, todos os lucros territorial constituída.
adquiridos durante o ano não permanecem no território A Espanha é um exemplo clássico de Estado multi-
no qual a empresa se encontra, e sim, migra para o país nacional, ou seja, com um grande número de nações vi-
de origem da mesma. Em outras palavras, as empresas vendo em seu território. Existem os espanhóis, mas tam-
transnacionais sempre buscam os interesses próprios bém existem os catalães, uma nação atualmente sem um
sem considerar as causas sociais, econômicas e ambien- Estado soberano e, portanto, sem um território político
tais de onde suas empresas estão instaladas. definido, além dos bascos, navarros e alguns outros. A
maior parte dessas nações reivindica, inclusive, a criação
O que é território? de seus Estados independentes, com a delimitação de
É importante, primeiramente, definir o que é territó- seus respectivos territórios, algo que ainda não foi con-
rio. Na Geografia, assim como ocorre com a maioria dos seguido.
conceitos básicos de todas as ciências humanas, não há Outro exemplo de nação sem território são os curdos,
um consenso exato sobre o que seja, simplificadamente, conhecidos por serem a maior de todas as nações sem
o território. Mas, aqui, podemos compreender esse ter- um Estado correspondente, de forma que seu povo habi-
mo como sendo o espaço geográfico apropriado e de- ta vários países situados ao longo do Oriente Médio, no
limitado por relações de soberania e poder. Em alguns continente asiático. Essa nação vem solicitando a vários
casos, o território possui fronteiras fixas e muito bem de- países e instituições internacionais a criação de seu país,
limitadas (a exemplo do território brasileiro); em outros, que se chamaria Curdistão.
seus limites não são muito claros (como o território deli-
mitado por algum grupo terrorista ou por um consórcio O estímulo ao nacionalismo como exercício da so-
de grandes empresas). berania
Portanto, quando falamos, por exemplo, em “território Muitos Estados, para garantirem o exercício de suas
brasileiro”, não estamos falando do Brasil propriamente soberanias em seus territórios, tentam criar entre os seus
dito, mas do seu espaço delimitado correspondente, de- habitantes um sentimento nacional, ou seja, a ideia de
limitação essa exercida por meio de um domínio que é que aquele país equivale a uma nação geral, o que cos-
reconhecido internacionalmente, o qual chamamos de tuma ser chamado de nacionalismo. O estímulo ao na-
soberania. Por assim dizer, podemos entender que o Bra- cionalismo é visto com bons olhos por muitas pessoas
sil é soberano sobre o seu território, exercendo sobre ele no sentido de essas valorizarem os seus territórios e suas
a sua vontade, ou seja, os interesses de seus habitantes. populações, mas é preciso ter cuidado, pois os fatos his-
tóricos já demonstraram que um nacionalismo extremo
Conceito de Estado pode provocar uma onda de fascismo. Nesse caso, o go-
Assim sendo, a soberania territorial é exercida pelo verno e até as pessoas passam a considerar que a sua
Estado brasileiro. Perceba que esse termo, com “E” maiús- nação (ou “raça”) é naturalmente superior às demais, jus-
culo, difere-se do estado (com “e” minúsculo), que é ape- tificando ações bélicas e formas de preconceito diversas,
nas uma unidade federativa ou uma província do país. O tal qual foi o caso do Nazismo na Alemanhaem meados
Estado é, portanto, um conjunto de instituições públicas do século XX.
que administra um território, procurando atender os an-
seios e interesses de sua população. Dentre essas insti- A Nova Ordem Mundial – ou Nova Ordem Geopolíti-
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tuições, podemos citar as escolas, os hospitais públicos, ca Mundial – significa o plano geopolítico internacional
os departamentos de política, o governo e muitas outras. das correlações de poder e força entre os Estados Nacio-
nais após o final da Guerra Fria.
Diferença entre Estado e País Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o esfa-
É necessário, contudo, estabelecer a diferença entre celamento da União Soviética, em 1991, o mundo se viu
Estado e País. Enquanto o primeiro é uma instituição for- diante de uma nova configuração política. A soberania
mada por povo, território e governo, o segundo é um dos Estados Unidos e do capitalismo se estendeu por
conceito genérico referente a tudo o que se encontra no praticamente todo o mundo e a OTAN (Organização do

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Tratado do Atlântico Norte) se consolidou como o maior misfério norte (como os Estados do Oriente Médio, a Ín-
e mais poderoso tratado militar internacional. O planeta, dia, o México e a China) encontram-se nos países do Sul,
que antes se encontrava na denominada “Ordem Bipo- enquanto os países do hemisfério sul (como Austrália e
lar” da Guerra Fria, passou a buscar um novo termo para Nova Zelândia), por se tratarem de economias mais de-
designar o novo plano político. senvolvidas, encontram-se nos países do Norte.
A primeira expressão que pode ser designada para No mapa acima também podemos visualizar as áreas
definir a Nova Ordem Mundial é a unipolaridade, uma de influência política dos principais atores econômicos
vez que, sob o ponto de vista militar, os EUA se tornaram mundiais. Vale lembrar, porém, que a área de influência
soberanos diante da impossibilidade de qualquer outro dos EUA pode se estender para além da divisão estabele-
país rivalizar com os norte-americanos nesse quesito. cida, uma vez que sua política externa, muitas vezes, atua
A segunda expressão utilizada é a multipolaridade, nas mais diversas áreas do mundo, com destaque para
pois, após o término da Guerra Fria, o poderio militar não algumas regiões do Oriente Médio.
era mais o critério principal a ser estabelecido para de- A “Guerra ao terror”
terminar a potencialidade global de um Estado Nacional, Como vimos, após o final da Guerra Fria, os Estados
mas sim o poderio econômico. Nesse plano, novas fren- Unidos se viram isolados na supremacia bélica do mun-
tes emergiram para rivalizar com os EUA, a saber: o Japão do. Apesar de a Rússia ter herdado a maior parte do arse-
e a União Europeia, em um primeiro momento, e a China nal nuclear da União Soviética, o país mergulhou em uma
em um segundo momento, sobretudo a partir do final da profunda crise ao longo dos anos 1990 e início dos anos
década de 2000. 2000, o que não permitiu que o país mantivesse a con-
Por fim, temos uma terceira proposta, mais consen- servação de seu arsenal, pois isso custa muito dinheiro.
sual: a unimultipolaridade. Tal expressão é utilizada para Em face disso, os Estados Unidos precisavam de um
designar o duplo caráter da ordem de poder global: “uni” novo inimigo para justificar os seus estrondosos inves-
para designar a supremacia militar e política dos EUA e timentos em armamentos e tecnologia bélica. Em 2001,
“multi” para designar os múltiplos centros de poder eco- entretanto, um novo inimigo surgiu com os atentados
nômico. de 11 de Setembro, atribuídos à organização terrorista
Al-Qaeda.
Mudanças na hierarquia internacional Com isso, sob o comando do então presidente Geor-
Outra mudança acarretada pela emergência da Nova ge W. Bush, os Estados Unidos iniciaram uma frenética
Ordem Mundial foi a necessidade da reclassificação da Guerra ao Terror, em que foram gastos centenas de bi-
hierarquia entre os Estados nacionais. Antigamente, lhões de dólares. Primeiramente os gastos se direciona-
costumava-se classificar os países em 1º mundo (países ram à invasão do Afeganistão, em 2001, sob a alegação
capitalistas desenvolvidos), 2º mundo (países socialistas de que o regime Talibã que governava o país daria supor-
desenvolvidos) e 3º mundo (países subdesenvolvidos e te para a Al-Qaeda. Em segundo, com a perseguição dos
emergentes). Com o fim do segundo mundo, uma nova líderes dessa organização terrorista, com destaque para
divisão foi elaborada. Osama Bin Laden, que foi encontrado e morto em maio
A partir de então, divide-se o mundo em países do de 2011, no Paquistão.
Norte (desenvolvidos) e países do Sul (subdesenvolvi- O que se pode observar é que não existe, ao menos
dos), estabelecendo uma linha imaginária que não obe- por enquanto, nenhuma nação que se atreva a estabe-
dece inteiramente à divisão norte-sul cartográfica, con- lecer uma guerra contra o poderio norte-americano. O
forme podemos observar na figura abaixo. “inimigo” agora é muito mais difícil de combater, uma
vez que armas de destruição em massa não podem ser
utilizadas, pois são grupos que atacam e se escondem
em meio à população civil de inúmeros países.

https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/di-
ferencas-entre-estado-pais-nacao-territorio.htm
https://www.infoescola.com/trabalho/divisao-inter-
nacional-do-trabalho/
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/nova-or-
dem-mundial.htm

EXERCÍCIO COMENTADO
PROVA DE GEOGRAFIA

Mapa com a divisão norte-sul e a área de influência


dos principais centros de poder; 1. (CESPE/2015 – SEDU/ES) Com relação à geografia
política mundial, julgue o item a seguir.
É possível perceber, no mapa acima, que a divisão A formação de blocos econômicos em todos os conti-
entre norte e sul não corresponde à divisão estabeleci- nentes mostra uma tendência à regionalização da eco-
da usualmente pela Linha do Equador, uma vez que os nomia. 
critérios utilizados para essa divisão são econômicos, e
não cartográficos. Percebe-se que alguns países do he- ( ) CERTO ( ) ERRADO

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Resposta: “Certo” Os blocos econômicos trazem em No Brasil, o fator que exerce maior influência nos flu-
si a forma de regionalizar o espaço mundial, objeti- xos migratórios é o de ordem econômica, pois o modelo
vando atender aos interesses de todos os envolvidos, econômico vigente força indivíduos a se deslocarem de
isto é, tanto dos países que resistem à perda do poder um lugar para outro em busca de melhores condições de
político sobre seu território como daqueles que inten- vida e à procura de trabalho para suprir suas necessida-
cionam a globalização, des básicas de sobrevivência.
Uma modalidade de migração comum no Brasil, prin-
cipalmente, na década de 1950, é o êxodo rural, que con-
siste no deslocamento da população rural com destino
O ESPAÇO HUMANO: DEMOGRAFIA: TEO- para as cidades. O êxodo rural ocorre, principalmente,
RIAS DEMOGRÁFICAS, ESTRUTURA DA em razão do processo de industrialização no campo,
POPULAÇÃO, CRESCIMENTO DEMOGRÁ- que proporciona a intensa mecanização das atividades
FICO; TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA E MI- agrícolas, expulsando do campo os pequenos produto-
GRAÇÕES; URBANIZAÇÃO: PROCESSO DE res. Além do poder de atração que as cidades industria-
URBANIZAÇÃO, ESPAÇO URBANO E PRO- lizadas proporcionam para a população rural, que migra
BLEMAS URBANOS; E PRINCIPAIS INDI- para essas cidades em busca de trabalho.
Durante décadas, os principais fluxos migratórios no
CADORES SOCIOECONÔMICOS.
território brasileiro se direcionavam para a Região Su-
deste, isso ocorria devido ao intenso processo de indus-
trialização desenvolvido naquela Região. No entanto, as
População. migrações para o Sudeste diminuíram e, atualmente, a
A análise da dinâmica populacional é de fundamen- Região Centro-Oeste tem exercido grande atração para
tal importância para entendermos as transformações no os fluxos migratórios no Brasil, se tornando o principal
espaço geográfico promovidas pelas relações homem- destino.
-meio. Um dos elementos essenciais é o crescimento po-
pulacional registrado durante os séculos, fato que alte- URBANIZAÇÃO
rou de forma significativa a natureza. Um território industrializado é o combustível para
Até a Primeira Revolução Industrial, no século XVIII, configurar a urbanização, esses dois elementos, de fato,
o contingente populacional era inferior a 1 bilhão. Con- dialogam entre si. No Brasil, as cidades mais industria-
tudo, a população na Terra aumentou de forma muito lizadas proveram parques industriais que alimentam a
rápida e, conforme dados divulgados em 2010 pelo Fun- economia nacional, como São Paulo, Rio de Janeiro e
do de População das Nações Unidas (Fnuap), atingiu a Belo Horizonte.
marca de aproximadamente 6,9 bilhões de habitantes. Fica estabelecida ainda uma sociedade de consumo
Além do crescimento vegetativo, também chamado
de produtos industrializados. Porém com a globalização,
de crescimento natural, outro fator que contribuiu para
novas tecnologias e melhoria nos sistemas de transpor-
o aumento populacional foi o desenvolvimento tecnoló-
gico, proporcionando avanços na medicina (que prolon- tes, cidades de todas as partes têm acesso aos produtos
garam a expectativa de vida) e a intensificação da pro- da indústria. E justamente nesses centros industriais que
dução de alimentos e técnicas de armazenamento e de a população busca melhores condições de vida, o que
transporte. fomenta os processos migratórios.
Estimativas apontam que a Terra será habitada por 9
bilhões de pessoas até o ano de 2050, com taxa de cres- AGRICULTURA
cimento populacional de 0,33% ao ano, bem inferior à As produções agrícolas acompanham modernização
taxa atual, que é de 1,2%. Os continentes africano e asiá- e mecanização nas frentes de cultivo, com mudanças nas
tico, além da América Latina, apresentarão as maiores configurações de trabalho. O agronegócio é hoje um
taxas de crescimento; em contrapartida, a Europa poderá mix de atividades agrárias, econômicas e de mercado.
ter crescimento vegetativo negativo. A agricultura é também responsável pela exportação de
commodities agrícolas como açúcar, soja e laranja, entre
- Migração/mobilidade outros. O setor agrícola corresponde a cerca de 5% do
O termo migração corresponde à mobilidade espacial PIB nacional e representa bilhões em exportações.
da população. Migrar é trocar de país, de Estado, Região O Brasil tem bastante destaque no cenário agrícola,
ou até de domicílio. Esse processo ocorre desde o início sendo o maior produtor de açúcar do planeta. O produto
da história da humanidade.
brasileiro segue para diversos mercados, desde Europa,
O ato de migrar faz do indivíduo um emigrante ou
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Ásia, dentre outros. O café também tem grande desta-


imigrante. Emigrante é a pessoa que deixa (sai) um lugar
de origem com destino a outro lugar. O imigrante é o que, sendo maior produtor mundial, O produto é desti-
indivíduo que chega (entra) em um determinado lugar nado ao mercado dos Estados Unidos, Japão e Europa.
para nele viver. O setor agrícola ainda conta com modernização
Os fluxos migratórios podem ser desencadeados por tecnológica. No caso, o setor produtivo de açúcar, por
diversos fatores. Dentre os principais fatores que impul- exemplo, conta com mecanização de processos no culti-
sionam as migrações podem ser citados os econômicos, vo e plantio de cana, além de laboratórios que atestam a
políticos e culturais. qualidade do produto.

41
AGRICULTURA FAMILIAR bana, o que era demonstrado pelas péssimas condições
estruturais e sociais em que viviam os trabalhadores. E
Nesse panorama, verifica-se a agricultura familiar, esse tipo de estrutura se desenvolveu em vários países
que implica no cultivo de produtos e atividades agrícolas em que a industrialização se manifestou, estendendo-se
exercidas pelos membros de um núcleo familiar. Essas até o século XX, principalmente nos países subdesenvol-
modalidades têm simbologia sustentável e representam vidos, entre os quais o Brasil está situado.
parte da produção de alimentos no Brasil. A nação brasileira praticamente se urbanizou nos úl-
Porém, ainda existe bastante concentração fundiá- timos cinquenta anos, isto é, transformou-se de um país
ria, reduzindo as chances da agricultura familiar. Um dos rural em urbano neste intermédio. Cresceu não só o nú-
grandes desafios, porém, é buscar políticas públicas mais mero de habitantes das áreas urbanas, mas também o
eficazes para fomentar a atividade. número e o tamanho das cidades em todo o território
nacional, surgindo as regiões metropolitanas e as aglo-
Industrialização e urbanização merações urbanas como reflexo da concentração es-
A inserção da industrialização pesada no Brasil, a par- pacial das atividades geradoras de emprego e renda. A
tir da década de 1940-50, fez parte de um processo que intensificação deste acúmulo de pessoas nos conglome-
visava transformar a dinâmica e estrutura econômica do rados urbanos, fez com que nem todos tivessem as mes-
país, que até então era muito dependente da economia mas oportunidades de aumento de renda, o que levou
cafeeira exportadora. O país conquistou novos patama- muitos moradores dessas grandes cidades a se alocarem
res de crescimento e desenvolvimento através da imple- em espaços de baixa ou nenhuma qualidade estrutural,
mentação das políticas industriais, porém, as grandes os quais apresentam grandes áreas de risco, e passaram
metrópoles, principais redutos dessa nova infraestrutura a ser retratos da miséria, desigualdades, desemprego
produtiva, apesar de serem as principais concentradoras lenta ascensão social e violência nas cidades.
da riqueza da nação, passaram a abrigar uma população O crescimento exacerbado da população com a falta
ainda mais crescente, e esta em sua grande maioria não de planejamento promove a segregação espacial e social
gozava dos benefícios da prosperidade, assim, as famílias nas cidades, assim, bairros mais nobres e centrais contam
mais carentes passavam a residir nos lugares mais inade- com os serviços básicos de qualidade, como asfalto, sa-
quados e suburbanos da cidade. neamento, transporte, além da melhor localização para
A indústria, que passou a ser a espinha vertebral da acessar o trabalho; por outro lado existem aqueles que
economia nacional brasileira a partir de 1940-50, diz habitam a periferia urbana, os quais sofrem para con-
respeito ao processo de substituição de importações, seguir serviços de melhor qualidade, como escolas, mé-
e possibilitou uma maior produção nacional de manu- dicos, emprego, lazer, consequência da inexistência de
faturados, evento que possibilitou o fortalecimento do políticas públicas favoráveis.
mercado interno, que antes era muito dependente das Assim, a próspera grande cidade, que se tornou palco
importações, mas a partir desse momento passou a se de numerosas atividades industriais, convive com as con-
complexificar e ganhar autonomia. Isso expandiu o con- sequências da crise urbana, que é fomentada pela po-
sumo e acelerou o processo de urbanização, principal- pulação que não tem acesso aos empregos necessários,
mente, nas grandes metrópoles nacionais. e muito menos aos bens e serviços essenciais, situação
Porém o modelo dessa industrialização que veio a que não tem o devido respaldo do poder público para a
se desenvolver aqui, fomentou grande migração da po- alteração dessa realidade.
pulação para a zona urbana, o que intensificou o for-
talecimento do mercado interno nacional, liderado por DESIGUALDADES
empresas transnacionais a partir da década de 1950. A
formação da estrutura capitalista fez do país um dos mais As desigualdades econômicas e a dificuldade de de-
industrializado entre os subdesenvolvidos, mas o modelo terminadas regiões em se inserirem na economia nacio-
que foi se desenvolvendo foi responsável por criar uma nal, possibilitou a ocorrência de uma urbanização dife-
realidade distorcida e com poucos avanços na estrutura renciada em cada uma das regiões brasileiras.
social da nação. A região Sudeste, por concentrar a maior parte das
A inserção capitalista no Brasil não levou em consi- indústrias do país, foi a que recebeu grandes fluxos mi-
deração as particularidades deste país, uma vez que esta gratórios vindos da área rural, principalmente da região
propiciou um sistema onde a questão social foi sendo nordeste. Ao analisarmos a tabela abaixo, observamos
abandonada pelo Estado, assim, ao mesmo tempo em que o Sudeste é a região que apresenta as maiores taxas
que surgia uma estrutura moderna o país se aprofunda- de urbanização dos últimos 70 anos. A partir de 1960,
va nos seus dilemas sociais, entre eles o da urbanização com 57%, foi a primeira região a registrar uma superio-
acelerada, que passava a ser realidade. ridade de habitantes vivendo na área urbana em relação
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Já no século XVIII, em plena ocorrência da primeira à população rural. 


Revolução Industrial, Engels (1845) relatava que, as prin- Na região Centro-Oeste, o processo de urbanização
cipais cidades europeias, especificamente em Manches- teve como principal fator a construção de Brasília, em
ter, começavam a se inflar de pessoas, devido ao eleva- 1960, que atraiu milhares de trabalhadores, a maior parte
do número de proletários que chegavam para se alocar deles vindos das regiões Norte e Nordeste. Desde o final
na produção manufatureira, e naquele contexto já se da década de 1960 e início da década de 1970, o Cen-
observavam alguns problemas quanto à capacidade de tro-Oeste tornou-se a segunda região mais urbanizada
receber aquela grande população industrial na zona ur- do país.

42
A urbanização na região Sul foi lenta até a década de 1970, em razão de suas características econômicas de predo-
mínio da propriedade familiar e da policultura, pois um número reduzido de trabalhadores rurais acabava migrando
para as áreas urbanas.
A região Nordeste é a que apresenta hoje a menor taxa de urbanização no Brasil. Essa fraca urbanização está apoia-
da no fato de que dessa região partiram várias correntes migratórias para o restante do país e, além disso, o pequeno
desenvolvimento econômico das cidades nordestinas não era capaz de atrair a sua própria população rural.

Até a década de 60 a Região Norte era a segunda mais urbanizada do país, porém a concentração da economia do
país no Sudeste e o fluxo de migrantes dessa para outras regiões, fez com que o crescimento relativo da população
urbana regional diminuísse.

PROBLEMAS URBANOS

O rápido e desordenado processo de urbanização ocorrido no Brasil irá trazer uma série de consequências, e em
sua maior parte negativas. A falta de planejamento urbano e de uma política econômica menos concentradora irá con-
tribuir para a ocorrência dos seguintes problemas:
Favelização – Ocupações irregulares nas principais capitais brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo, serão fruto
do grande fluxo migratório em direção às áreas de maior oferta de emprego do país. A falta de uma política habitacio-
nal acabou contribuindo para o aumento acelerado das favelas no Brasil.
Violência Urbana – Mesmo com o crescimento industrial do país e com a grande oferta de emprego nas cidades do
sudeste, não havia oportunidades de emprego o bastante para o grande fluxo populacional que havia se deslocado em
um curto espaço de tempo. Por essa razão, o número de desempregados também era grande, o que passou a gerar um
aumento dos roubos, furtos, e demais tipos de violência relacionadas às áreas urbanas.
Poluição – O grande número de indústrias, automóveis e de habitantes vai impactar o aumento das emissões de
gases poluentes, assim como com a contaminação dos lençóis freáticos e rios dos principais centros urbanos.
Enchentes – A impermeabilização do solo pelo asfaltamento e edificações, associado ao desmatamento e ao lixo
industrial e residencial, fazem com que os problemas das enchentes seja algo comum nas grandes cidades brasileiras.
Em 2020, 90% da população brasileira estará vivendo nas cidades (a taxa de urbanização é hoje de 85%), assim
como seus vizinhos do Cone Sul (Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai).
Embora seja a menos povoada em relação ao seu território, a região da América Latina e do Caribe é a mais urba-
nizada do mundo e quase 80% de suas populações vivem hoje nas cidades. Apesar desse panorama, após décadas de
êxodo rural, o estudo demonstra que a explosão urbana é coisa do passado e que desde 2000 o crescimento médio
anual da população na região tem sido inferior a 2%, crescimento considerado normal, segundo o relatório.
O estudo aponta ainda que a desaceleração populacional na região, iniciada há cerca de 20 anos, deve continuar e
que até 2030 o número de habitantes na maioria dos países latino-americanos e caribenhos crescerá menos de 1% ao
PROVA DE GEOGRAFIA

ano. A atual estabilidade demográfica é muito vantajosa para várias dessas nações, onde a população ativa supera em
muito a de crianças e velhos.
A situação privilegiada, porém, não durará mais que 30 anos e as nações devem aproveitá-la para se preparar para
um futuro sustentável, com boa estrutura para os idosos que serão maioria em algumas décadas. Para aproveitar esse
momento, o estudo sugere uma série de medidas e novo modelo de crescimento diferentes dos atuais, que impulsio-
nem a expansão das periferias, de rodovias, condomínios fechados e veículos individuais.
A proporção de pessoas vivendo em favelas diminuiu nas últimas duas décadas, mas o relatório mostra que cerca
de 111 milhões de pessoas ainda vivem nesses espaços, a maioria segregada socialmente e espacialmente, com pou-

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cos locais de lazer, pouco transporte público, serviços básicos precários e poucos equipamentos sociais e estruturas
produtivas. Atualmente, 124 milhões de habitantes nas cidades vivem em situação de pobreza, uma em cada quatro
pessoas nas áreas urbanas.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (ENEM– 2017) Na antiga Vila de São José del Rei, a atual cidade de Tiradentes (MG), na primeira metade do século
XVIII, mais de cinco mil escravos trabalhavam na mineração aurífera. Construíram sua capela, dedicada a Nossa Se-
nhora do Rosário. Na fachada, colocaram um oratório com a imagem de São Benedito. A comunidade do século XVIII
era organizada mediante a cor, por isso cada grupo tinha sua irmandade: a dos brancos, dos crioulos, dos mulatos,
dos pardos. Em cada localidade se construía uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Com a decadência da
mineração, a população negra foi levada para arraiais com atividades lucrativas diversas. Eles se foram e ficou a igreja.
Mas, hoje, está sendo resgatada a festa do Rosário e o Terno de Congado.
CRUZ, L. Fé e identidade cultural. Disponível em: www.revistadehistoria.com.br. Acesso em: 4 jul. 2012.

Na lógica analisada, as duas festividades retomadas recentemente, na cidade mineira de Tiradentes, têm como propó-
sito

a) valorizar a cultura afrodescendente e suas tradições religiosas.


b) retomar a veneração católica aos valores do passado colonial.
c) reunir os elementos constitutivos da história econômica regional.
d) combater o preconceito contra os adeptos do catolicismo popular.
e) produzir eventos turísticos voltados a religiões de origem africana.

Resposta: letra A. De modo geral, a cultura brasileira é profundamente influenciada por referências africanas, tam-
bém presentes na culinária e identidade do brasileiro.

GEOGRAFIA DO BRASIL: O ESPAÇO NATURAL: CARACTERÍSTICAS GERAIS DO TERRITÓ-


RIO BRASILEIRO: POSIÇÃO GEOGRÁFICA, LIMITES E FUSOS HORÁRIOS; GEOMORFOLOGIA:
ORIGEM, FORMAS E CLASSIFICAÇÕES DO RELEVO: AROLDO DE AZEVEDO, AZIZ AB’SABER E
JURANDYR ROSS E A ESTRUTURA GEOLÓGICA; A ATMOSFERA E OS CLIMAS: FENÔMENOS
CLIMÁTICOS E OS CLIMAS NO BRASIL; DOMÍNIOS NATURAIS: DISTRIBUIÇÃO DA VEGETA-
ÇÃO, CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS, APROVEITAMENTO
ECONÔMICO E PROBLEMAS AMBIENTAIS; E - RECURSOS HÍDRICOS: BACIAS HIDROGRÁFI-
CAS, AQUÍFEROS, HIDROVIAS E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL.

Relevo
O relevo brasileiro é de formação antiga ou pré-cambriana, sendo erodido e, portanto, aplainado. Apresenta o pre-
domínio de planaltos, terrenos sedimentares e certas áreas com subsolo rico em recursos minerais. Um outro aspecto
importante consiste na ausência de vulcanismo ativo e fortes abalos sísmicos, fatos explicados pela distância em rela-
ção à divisa ou encontro das placas tectônicas, somado à idade antiga do território.

Clima
O país apresenta o predomínio de climas quentes ou macrotérmicos, devido à sua localização no planeta, apresen-
tando uma grande porção de terras na Zona Intertropical e uma pequena porção na Zona Intertropical e uma pequena
porção na Zona Temperada do Sul.
É fundamental perceber que a diversidade climática do País é positiva para a agropecuária e é explicada por vários
fatores, destacando-se a latitude e a atuação das massas de ar.
PROVA DE GEOGRAFIA

DOMÍNIO AMAZÔNICO

Relevo
O Domínio Geoecológico Amazônico apresenta um relevo formado essencialmente por depressões , originando os
baixos planaltos e as planícies aluviais. Apenas nos extremos norte e sul desse domínio, é que ocorrem maiores alti-
tudes, surgindo os planaltos das Guianas ao norte e o Central (Brasileiro) ao sul. (Classificação de Aroldo de Azevedo).
O planalto das Guianas, situado no extremo norte do Brasil, corresponde ao escudo cristalino das Guianas. Trata-se,
portanto, de terrenos cristalinos do pré-cambriano, altamente desgastado pela erosão, apresentando, como conse-

44
qüência, modestas cotas altimétricas em sua maior parte. afluentes da margem direita que formam grande número
Entretanto, nas fronteiras com as Guianas e a Venezuela, de quedas e cachoeiras nas áreas de contatos entre o
existe uma região de serras, onde aparecem os pontos planalto Brasileiro e as terras baixas amazônicas (Tocan-
culminantes do relevo brasileiro: o pico da Neblina (serra tis, Tucuruí).
do Imeri), o pico 31 de Março e o monte Roraima. Den- Apresenta a maior variedade de peixes existentes em
tre as serras podemos citar: Parima, Pacaraima, Surucucu, todas as bacias hidrográficas do mundo. A pesca tem uma
Tapirapecó, Imeri, etc. grande expressão na alimentação da população local.
A maior parte do Domínio Amazônico apresenta um Além da grande quantidade de rios na região existem
relevo caracterizado por terras baixas. As verdadeiras os igarapés (córregos ou riachos); os furos (braços de
planícies (onde predomina a acumulação de sedimen- água que ligam um rio a outro ou a um lago); os para-
tos) ocorrem somente ao longo de alguns trechos de rios nás-mirins (braços de rios que contornam elevações for-
regionais; os baixos planaltos (ou platôs), também de mando ilhas fluviais) e lagos e várzea.
origem sedimentar, mas em processo de erosão, apre-
sentam a principal e mais abrangente forma de relevo Solos
da Amazônia. A maior parte do Domínio Amazônico apresenta so-
los de baixa fertilidade. Apenas em algumas áreas restri-
Clima tas, ocorrem solos de maior fertilidade natural, como os
A Amazônia apresenta o predomínio do clima Equa- solos de várzeas em alguns trechos dos rios regionais e
torial. Trata-se de um clima quente e úmido. Região de a terras pretas, solo orgânico bastante fértil (pequenas
baixa latitude, apresenta médias térmicas mensais eleva- manchas).
das que variam de 24 ºC e 27 ºC.
A amplitude térmica anual, isto é, as diferenças de Vegetação
temperaturas entre as médias dos meses mais quentes e A floresta amazônica, principal elemento natural do
mais frios, é bastante baixa (oscilações inferiores a 2 ºC); Domínio Geoecológico Amazônico, abrangia quase 40%
os índices pluviométricos são extremamente elevados, da área do País. Além do Brasil, ocupa áreas das Guianas,
de 1500 a 2500 mm ao ano, chegando a atingir 4.000 Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia, cobrindo
mm; o período de estiagens é bastante curto em algumas cerca de 5 milhões de km².
áreas. A região é marcada por chuvas o ano todo. A floresta Amazônica possui as seguintes caracterís-
ticas:
Clima Equatorial • Latifoliada: com vegetais de folhas largas e grandes;
Este pluviograma apresenta a região de Uaupés, no • Heterogênea: apresenta grande variedade de espé-
Estado do Amazonas, com o tipo de clima predominante cies vegetais, ou grande biodiversidade;
na área. Observe que a linha de temperatura não cai a • Densa: bastante compacta ou intricada com plantas
menos de 24 ºC e que a pluviosidade é alta durante o muito próximas uma das outras;
ano todo, não se observando estação seca. • Perene: sempre verde, pois não perde as folhas no
As precipitações que ocorrem nessa região são exem- outono-inverno como as florestas temperadas (caduci-
plos de chuvas de convecção, resultantes do movimento fólias);
ascendente do ar carregado de umidade; essas correntes • Higrófila: com vegetais adaptados a um clima bas-
de ar ascendentes são conseqüências do encontro dos tante úmido;
ventos alísios (convergência dos alísios). • Outros nomes: Hiléia, denominação dada por Ale-
A massa de ar Equatorial Continental (Ec) é responsá- xandre Von Humboldt, Inferno Verde, por Alexandre Ran-
vel pela dinâmica do clima em quase toda a região. So- gel e Floresta Latifoliada Equatorial.
mente na porção ocidental a frente fria (Polar Atlântica) Apresenta aspectos diferenciados dependendo, prin-
atinge a Amazônia durante o inverno, ocasionando uma cipalmente da maior ou menor proximidade dos cursos
queda de temperatura denominando friagem. fluviais. Pode ser dividida em três tipos básicos ou flo-
A massa de ar Equatorial Atlântica (Ea) exerce alguma restais:
influência somente em áreas litorâneas (AP e PA). • Caaigapó: ou mata de igapó, localizada ao longo
dos rios nas planícies permanentemente inundadas. São
Hidrografia espécies do Igapó a vitória-régia, piaçava, açaí, cururu,
A hidrografia regional é riquíssima, representada marajá, etc.
quase que totalmente pela bacia amazônica. • Mata de várzea: localizada nas proximidades dos
O rio principal, Amazonas, é um enorme coletor das rios, parte da floresta que sofre inundações periódicas.
chuvas abundantes na região (clima Equatorial); seus Como principais espécies temos a seringueira (Hevea
afluentes provêm tanto do hemisférico norte (margem brasiliensis), cacaueiro, sumaúma, copaíba, etc.
PROVA DE GEOGRAFIA

esquerda), como o Negro, Trombetas, Jari, Japurá, etc., • Caaetê: ou mata de terra firme, parte da floresta da
quanto do hemisfério sul (margem direita), como o Juruá, maior extensão localizada nas áreas mais elevadas (bai-
Purus, Madeira, Tapajós, Xingu, etc. Esse fato explica o xos planaltos), que nunca são atingidas pelas enchentes.
duplo período de cheias anuais em seu médio curso. Além de apresentar a maior variedade de espécies, pos-
O rio Amazonas (e alguns trechos de seus afluentes) sui as árvores de maior porte. São espécies vegetais do
é altamente favorável à navegação. Por outro lado, o Caaetê o angelim, caucho, andiroba, castanheira, guara-
potencial hidráulico dessa bacia é atualmente conside- ná, mogno, pau-rosa, salsaparrilha, sorva, etc.
rado o mais elevado do Brasil, localizado sobretudo nos

45
O DOMÍNIO DOS CERRADOS Clima
O principal clima do Cerrado é tropical semi-úmido;
O Cerrado é um domínio geoecológico característi- apresenta estações do ano bem definidas, uma bastante
co do Brasil Central, apresentando terrenos cristalinos chuvosa (verão) e outra seca (inverno); as médias térmi-
(as chamadas “serras”) e sedimentares (chapadas), com cas são elevadas, oscilando entre 20 ºC a 28 ºC e os índi-
solos muito precários, ácidos, muito porosos, altamente ces pluviométricos variam em torno de 1.500 mm.
lixiviados e laterizados. Verifica-se pelo climograma anterior a estação seca
A expansão contínua da agricultura e pecuária mo- no meio do ano, destacando-se a queda de temperatura.
dernas exige o uso de corretivos com calagens e nutrien-
tes, que é a fertilização artificial do solo. A mecanização Vegetação
intensiva tem aumentado a erosão e a compactação dos O Cerrado é a vegetação dominante; apresenta nor-
solos. A região tem sido devastada nas últimas décadas malmente dois estratos: um arbóreo-arbustivo, com ár-
vores de pequeno porte (pau-santo, lixeira, pequi) e ou-
pela agricultura comercial policultora (destaque para a
tro herbáceo, de gramíneas e vegetação rasteiras com
soja).
várias espécies de capim (barba-de-bode, flechinha, co-
O Cerrado apresenta dos estratos: o arbóreo-arbus- lonião, gordura, etc.).
tivo e o herbáceo. As árvores de pequeno porte, com Os arbustos possuem os troncos e galhos retorcidos,
troncos e galhos retorcidos, cascas grossas e raízes pro- caule grosso, casca espessa e dura e raízes profundas. O
fundas, denotam raquitismo, e o lençol freático profun- espaçamento entre arbusto e árvores é grande favore-
do. A produção da lenha e de carvão vegetal continua a cendo a prática da pecuária extensiva.
ocorrer, apesar das proibições e alertas, bem como da Ao longo dos rios, conseqüência da maior umidade
prática das queimadas. do solo, surgem pequenas e alongas florestas, denomi-
nadas Matas Galeiras ou Ciliares. Essas formações vege-
Localização tais são de grande importância para a ecologia local, pois
O Domínio Geoecológico do Cerrado ocupa quase evitam a erosão das margens impedindo o assoreamento
todo o Brasil Central, abrangendo não somente a maior dos rios; favorecem ainda a fauna e a vida do rio.
parte da região Centro-Oeste, mas também trechos de Nos últimos anos, como conseqüências da expansão
Minas Gerais, parte ocidental da Bahia e sul do Maranhão da agricultura na região, as Matas Galerias e o Cerrado
/ Piauí. sofrem intenso processo de destruição, afetando o meio
ambiente regional.
Relevo
A principal unidade geomorfológica do Cerrado é o O DOMÍNIO DAS CAATINGAS
planalto Central, constituído por terrenos cristalinos, bas-
tante desgastados pelos processos erosivos, e por terre- Este domínio é marcado pelo clima tropical semi-ári-
nos sedimentares que formam as chapadas e os chapa- do, vegetação de caatinga, relevo erodido, destacando-
dões. -se o maciço nordestino e a hidrografia intermitente.
Destacam-se nesse planalto as chapadas dos Parecis, A Zona da Mata ou litoral oriental é a sub-região mais
dos Guimarães, das Mangabeiras e o Espigão Mestre, que industrializadas, mais populosa, destacando-se o solo de
divide das águas das bacias do São Francisco e Tocantins. massapé (calcário e gnaisse), com as tradicionais lavou-
ras comerciais de cana e cacau. O agreste apresenta pe-
Na porção sul desse domínio (MS e GO) localiza-se
quena propriedades com policultura visando a abastecer
parte do planalto Meridional, com a presença de rochas
o litoral. O sertão é marcado pela pecuária em grandes
vulcânica (basalto) intercaladas por rochas sedimentares,
propriedades. Já o Meio-Norte, apresenta grandes pro-
formando as cuestas Maracaju, Caiapó, etc. priedades com extrativismo.
Solos Clima
No Domínio do Cerrado predominam os solos pobres O Domínio da Caatinga apresenta como característi-
e bastante ácidos (pH abaixo de 6,5). São solos altamen- ca mais marcante a presença do clima semi-árido. É um
te lixiviados e laterizados, que para serem utilizados na tipo de clima tropical, portanto, quente, mais próximo do
agricultura, necessitam de corretivos; utiliza-se normal- árido (seco); as médias de chuvas anuais são inferiores a
mente o método da calagem, que é a adição de calcário 1000 mm (Cabaceiras, PB – 278 mm, mais baixa do Brasil),
ao solo, visando à correção do pH. concentradas num curto período (três meses do ano) –
Ao sul desse domínio (planalto Meridional) aparecem chuvas de outono-inverno. A longa estação seca é bas-
significativas manchas de terra roxa, de grande fertilida- tante quente, com estiagens acentuadas.
de natural (região de Dourados e Campo Grande). Esse pluviograma da região Cabaceiras, Na Paraíba,
é o mais representativo do clima semi-árido do Sertão
PROVA DE GEOGRAFIA

Hidrografia nordestino. A região apresenta o menor índice pluviomé-


A densidade hidrográfica é baixa; as elevações do pla- trico do Brasil, com 278 mm de chuvas. Observe o pre-
nalto Central (chapadas) funcionam como divisores de domínio do tempo seco e a temperatura elevada durante
águas entre as bacias Amazônica (rios que correm para o o ano todo.
norte) e Platina (Paraná e Paraguai que correm para o sul) A baixa e irregular quantidade de chuvas dói Domí-
e do São Francisco. nio da Caatinga pode ser explica pela situação da região
São rios perenes com regime tropical, isto é, as cheias em relação à circulação atmosférica (massa de ar), relevo,
ocorrem no verão e as vazantes no inverno. geologia, etc.

46
Trata-se de uma área de encontro ou ponto final de A leste atinge o planalto de Borborema (PE) e a Cha-
quatro sistemas atmosféricos: as massas de ar Ec, Ta, Ea pada Diamantina (sul da Bahia). A oeste estende-se até
e Pa. Quando essas massas de ar atingem a região, já o Espigão Mestre e a Chapada das Mangabeiras. Nos
perdem grande parte de sua umidade. limites setentrionais desse domínio, localizam inúmeras
O Planalto de Borborema raramente ultrapassa 800 serras ou chapadas residuais, como Araripe, Grande, Ibia-
m de altitude, sendo descontínuo. Portanto, é incapaz de pada, Apodi, etc.
provocar a semi-aridez da área sertaneja. O interior do planalto Nordestino é uma área em pro-
A presença de rochas cristalinas (impermeáveis) e so- cesso de pediplanação, isto é, a importância das chuvas é
los rasos dificulta a formação do lençol freático em algu- pequena (clima semi-árido) nos processos erosivos, pre-
mas áreas, acentuando o problema da seca. dominando o intemperismo físico (variação de tempera-
Um dos mitos ou explicações falsas do subdesenvol- tura) e ação dos ventos (erosão eólica), que vão aplainan-
vimento nordestino é a afirmação de que as secas cons- do progressivamente o relevo (fragmentação de rochas
tituem a principal causa do atraso socioeconômico dessa
e de blocos).
região, causando também migração para São Paulo e Rio
É comum no quadro geomorfológico nordestino a
de Janeiro.
presença de inselbergs, que são morros residuais, com-
Na realidade, a pobreza regional é muito mais bem
explicada pelas causas históricas e sociais. posto normalmente por rochas cristalinas.
As arcaicas estruturas socioeconômicas regionais (es- Os solos do Domínio da Caatinga são, geralmente,
truturas fundiária, predomínio da agricultura tradicional pouco profundas devido às escassas chuvas e ao predo-
de exportação, governos controlados pelas elites locais, mínio do intemperismo físico. Apesar disso, apresentam
baixos níveis salariais, analfabetismo, baixa produtivi- boa quantidade de minerais básicos, fator favorável à
dade nas atividades econômicas, etc.) explicam muito prática da agricultura. A limitação da atividade agrícola é
melhor o subdesenvolvimento nordestino que as causas representada pelo regime incerto e irregular das chuvas,
naturais. problema que poderia ser solucionado com a prática de
A seca é apenas mais agravante, que poderia ser solu- técnicas adequadas de irrigação.
cionada com o progresso socioeconômico regional. A paisagem arbustiva típica do Sertão Nordestino,
que dá o nome a esse domínio geoecológico, é a Caatin-
Hidrografia ga (caa = mata; tinga = branco). Possui grande hetero-
A mais importante bacia hidrográfica do Domínio da geneidade quanto ao seu aspecto e composição vegetal.
Caatinga é a do São Francisco. Apesar de percorrer áreas Em algumas áreas, forma-se uma mata rala ou aber-
de clima semi-árido, é um rio perene embora na época ta, com muitos arbustos e pequenas árvores, tais como
das secas possua um nível baixíssimo de águas. É nave- juazeiro, a aroeira, baraúna, etc. Em outras áreas o solo
gável em seu médio curso numa extensão de 1370 km, apresenta-se quase que descoberto, proliferando os ve-
no trecho que vai de Juazeiro (BA) a Pirapora(MG). Atual- getais xerófilos, como as cactáceas (mandacaru, facheiro,
mente essa navegação é de pouca expressão na econo- xique-xique, coroa de frade, etc.) e as bromeliáceas (ma-
mia regional, devido à concorrência das rodovias. Rio de cambira).
planalto, apresenta, sobretudo em seu baixo curso, várias É uma vegetação caducifólia, isto é, na época das se-
quedas, favorecendo a produção de energia elétrica (usi- cas as plantas perdem suas folhas, evitando-se assim a
nas de Paulo Afonso, Sobradinho etc.). evapotranspiração.
A maior parte de seus afluentes são intermitentes ou Os brejos são as mais importantes áreas agrícolas do
temporários, reflexo das condições locais.
sertão. São áreas de maior umidade, localizadas em en-
Além do São Francisco, existem vários outros que
costas das serras ou vales fluviais, isto é, regatos e ria-
drenam a Caatinga: os rios intermitentes da bacia do
chos. As cabeceiras são formadas pelos “olhos d’água”
Nordeste como o Jaguaribe, Acaraú, Apodi, Piranhas, Ca-
(minas).
pibaribe, etc.

Convém lembrar que o rio São Francisco possui três Projetos


apelidos importantes: A região Nordeste é marcada por projetos, destacan-
• Rio dos Currais: devido ao desenvolvimento da do os relacionados à irrigação. O mais famoso envolve
pecuária extensiva no sertão. as cidades vizinhas e separadas pelo rio São Francisco,
• Rio da Unidade Nacional: devido ao seu trecho Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). O clima seco e a irrigação
navegável ligando o Sudeste ao Nordeste, sendo as re- controlada favorecem o controle de pragas, e o cultivo
giões mais importantes na fase colonial. de frutas para exportação marca a paisagem, com in-
• Rio Nilo Brasileiro: devido à semelhança com o fluência de capital estrangeiro.
PROVA DE GEOGRAFIA

rio africano, pois nasce numa área úmida (MG – serra da Porém, existem projetos eleitoreiros, que não saem
Canastra) e atravessa uma área seca, sendo perene. Além do papel, como o da transposição das águas do São
de apresentar o sentido sul-norte e ser axorréico. Francisco: antiga ideia de construir um canal artificial,
envolvendo Cabrobó (PE) e Jati (CE), ligando os rios São
Relevo Francisco ao Jaguaribe, com 115 km. Deste canal, nasce-
No domínio das Caatingas predominam depressões riam outros, levando águas para o Rio Grande do Norte,
interplanálticas, exemplificadas pela Sertaneja e a do São Paraíba e Pernambuco. Mas o projeto é polêmico, po-
Francisco. dendo colocar em risco o rio São Francisco.

47
O DOMÍNIO DOS MARES DE MORROS Esses rios apresentam cheias de verão e vazante de
inverno (regime pluvial tropical).
Localização
Esse domínio geoecológico localiza-se na porção Clima
oriental do País, desde o Nordeste até o Sul. Na região O Domínio dos Mares de Morros apresenta o predo-
Sudeste, penetra para o interior, abrangendo o centro- mínio do clima tropical úmido. Na Zona da Mata Nordes-
-sul de Minas Gerais e São Paulo. tina, as chuvas concentram-se no outono e inverno.
Na região Sudeste, devido a maiores altitudes, o cli-
Relevo ma é o tropical de altitude, com médias térmicas anuais
O aspecto característico do Domínio dos Mares de entre 14 ºC e 22 ºC. As chuvas ocorrem no verão, que é
Morros encontra-se no relevo e nos processos erosivos. muito quente. No inverno, as médias térmicas são mais
O planalto Atlântico (Classificação Aroldo Azevedo) baixas, por influência da altitude e da massa de ar Pa (Po-
é a unidade do relevo que mais se destaca; apresenta lar Atlância).
terrenos cristalinos antigos, datados do pré-cambriano, No litoral, sobretudo no norte de São Paulo, a plu-
correspondendo ao Escudo Atlântico. Nesse planalto es- viosidade é elevadíssima, conseqüência da presença da
tão situadas as terras altas do Sudeste, constituindo um serra do Mar, que barra a umidade vinda do Atlântico
conjunto de saliência ou elevações, abrangendo áreas (chuvas orográficas ou de relevo). Em Itapanhaú, litoral
que vão do Espírito Santo a Santa Catarina. de São Paulo, foi registrado o maior anual de chuvas
Entre as várias serras regionais como a do Mar, Man- (4.514 mm).
tiqueira, Espinhaço, Geral, Caparão (Pico da Bandeira = 2
890 m), etc. Vegetação
A erosão, provocada pelo clima tropical úmido, asso- A principal paisagem vegetal desse domínio era, ori-
ciada a um intemperismo químico significativo sobre os ginalmente, representada pela mata Atlântica ou floresta
terrenos cristalinos (granito/gnaisse), é um dos fatores latifoliada tropical. Essa formação florestal ocupava as
responsáveis pela conformação do relevo, com a presen- terras desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande
ça de morros com vertentes arredondadas (morros em do Sul, cobrindo as escarpas voltadas para o mar e os
Meia Laranja, Pães-de-Açúcar). planaltos interiores do Sudeste. Apresentava, em muitos
Entre a serra do Mar e a da Mantiqueira, localiza-se a trechos, uma vegetação imponente, com árvores de 25 a
depressão do rio Paraíba do Sul (vale do Paraíba) forma- 30 metros de altura, como perobas, pau-d’alho, figueiras,
da a partir de uma fossa tectônica. cedros, jacarandá, jatobá, jequitibá, etc.
Com o processo de ocupação dessas terras brasilei-
Solos ras, essa floresta sofreu grandes devastações. No início,
Na Zona da Mata Nordestina encontra-se um solo de foi a extração do pau-brasil; posteriormente, a agricultu-
grande fertilidade, denominando massapé; originou-se ra da cana-de-açúcar (Nordeste) e a do café (Sudeste).
da decomposição do granito, gnaisse e, ás vezes, do cal- Atualmente, restam apenas alguns trechos esparsos
cário. em encostas montanhosas.
No Sudeste, ocorre a presença de um solo argiloso,
de razoável fertilidade, formado, principalmente, pela O DOMÍNIO DAS ARAUCÁRIAS
decomposição do granito em climas úmidos, denomina-
do salmourão. Localização
É o domínio geoecológico brasileiro mais sujeito aos Abrange áreas altas do Centro-Sul do País, sobretudo
processos erosivos, conseqüência do relevo acidentado Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
e da ação de clima tropical úmido. O intemperismo quí-
mico atinge profundamente as rochas dessa área, for- Relevo
mando solos profundos, intensamente trabalhados pela O Domínio das Araucárias ocupa áreas pertencentes
ação das chuvas e enxurradas. É comum a ocorrência de ao Planalto Meridional do Brasil; as altitudes variam entre
deslizamentos, causados pela destruição da vegetação 800 e 1.300 metros; apresentam terrenos sedimentares
natural, práticas agrícolas inadequadas, etc. (Paleozóico), recobertos, em partes, por lavas vulcânicas
(basalto) datadas do Mesozóico.
Hidrografia Além do planalto arenito basáltico, surgem a De-
As terras altas do Sudeste dividem as águas de várias pressão Periférica e suas cuestas. São relevos salientes,
bacias Paranaica (Grande Tietê, etc.), bacias Secundárias formados pela erosão diferencial, ou seja, ação erosiva
do Leste (Paraíba do Sul, Doce) e Sul. sobre rochas de diferentes resistências; apresentam uma
A maior parte dos rios são planálticos, encachoeira- vertente inclinada, denominada frente ou front e um re-
PROVA DE GEOGRAFIA

dos, com grande número de quedas ou saltos, corre- verso suave. Essas frentes de cuestas são chamadas ser-
deiras e com elevado poder de erosão. O potencial hi- ras: Geral, Botucatu, Esperança, etc.
dráulico é também de vários rios de maior extensão que
correm diretamente para o mar (bacias Secundárias ). A Solos
serra do Mar representa uma linha de falhas que possi- Aparecem, nesse domínio, solos de grande fertilida-
bilita, também, a produção energética (exemplo: usinas de natural, como a terra roxa a oeste do Paraná, solo de
Henry Borden I e II que aproveitam as águas do sistema origem vulcânica, de cor vermelha, formado pela decom-
Tietê – Pinheiros- Billings). posição do basalto.

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Em vários trechos do Rio Grande do Sul, ocorrem vas- • A bacia hidrográfica do Paraná possui o maior po-
tas áreas do solos fértil, denominando brunizem (elevado tencial hidrelétrico instalado no País.
teor de matéria orgânica). • Hidrovia do Tietê-Paraná.
São encontrados ainda, nesse domínio, solos ácidos, • O rio Uruguai e rio Iguaçu apresentam um regime
pobre em mineiras e de baixa fertilidade natural. subtropical.
Clima O DOMÍNIO DAS PRADARIAS
O domínio das araucárias apresenta como clima pre-
dominante o subtropical. Ao contrário dos demais climas
O Domínio das Pradarias, também, conhecido como
brasileiros, pode ser classificado como mesotérmico, isto
Campanha Gaúcha ou Pampas, abrange vastas áreas
é, temperaturas médias, não muito elevadas.
As chuvas ocorrem durante o ano todo; durante o ve- (Centro-Sul) do Rio Grande do Sul, constituindo-se em
rão são provocadas pela massa deserta (Tropical Atlânti- um prolongamento dos campos ou pradarias do Uruguai
ca). No inverno, é freqüente a penetração da massa Polar e Argentina pelo território brasileiro.
Atlântica (Pa) ocasionando chuvas frontais, precipitações O centro-sul do Rio Grande do Sul é marcado por bai-
causadas pelo encontro da massa de ar quente (Ta) com xa densidade demográfica, clima subtropical e por uma
a fria (Pa). Os índices pluviométricos são elevados, varian- economia que apresenta cultivos mecanizados (soja) ou
do de 1.250 a 2.000 mm anuais. grandes estâncias com pecuárias extensiva. O povoa-
Forte influência da massa de ar Polar Atlântica princi- mento é de origem ibérica.
palmente no outono e no inverno, quando é responsável
pela formação de geadas, quedas de neve em São Joa- Relevo
quim (SC). Gramado (RS) e São José dos Ausentes (RS), Este domínio engloba três unidades do relevo bra-
chuvas frontais e redução acentuada de temperatura. sileiro: planaltos e chapadas da bacia do paraná (oes-
te), depressão periférica sul-rio-grandense (centro) e o
Vegetação planalto sul-rio-grandense (centro) e o planalto sul-rio-
O Domínio das Araucárias apresenta o predomínio da -grandense (leste). Trata-se de um baixo planalto crista-
floresta aciculifoliada subtropical ou floresta das Araucá- lino com altitudes médias entre 200 e 400 metros, onde
rias. Originalmente, localizava-se das terras altas de São
se destacam conjuntos de colinas onduladas denomina-
Paulo até o Rio Grande do Sul, sendo o único exemplo
das coxilhas, ou seja, pequenas elevações onduladas. As
brasileiro de conífera. Também denominada mata dos Pi-
nhais, apresenta as seguintes características gerais: saliências mais significativas (cristas), de maior altitudes,
• Os pinheiros apresentam folhas em forma de agulha são chamadas regionalmente de cerros.
(aciculifoliadas). No litoral do Rio Grande do Sul são comuns as la-
• Ocupam principalmente os planaltos meridionais do goas costeiras (Patos, Mirim e Mangueira), isoladas pelas
Brasil. restingas, as faixas de areia depositada paralelamente
• Não é uma floresta homogênea porque possui man- ao litoral, graças ao dinamismo oceânico, formando um
chas de vegetais latifoliados. aterro natural.
• É uma formação de vegetação menos densa.
• Foi intensamente devastada. Clima
• Área de colonização européia no século XIX (italia- O clima é subtropical com temperatura média anual
nos e alemães) baixa, devido a vários fatores, destacando-se a latitude e
a ocorrência de frentes frias (mPa).
Hidrografia Apresenta considerável amplitude térmica e, no ve-
O Domínio das Araucárias é drenado, principalmente, rão, as áreas mais quentes são Vale do Uruguai e a Cam-
por rios pertencentes às bacias Paranaica e do Uruguai panha Gaúcha, que registram máximas diárias acima de
(alto curso). 38º. As chuvas são regulares.
São rios de planaltos com belíssimas cachoeiras e
quedas, o que lhes confere em elevado potencial hidráu-
Vegetação
lico.
Embora o Paraná apresente um regime tropical, com A paisagem vegetal típica é constituída pelos Cam-
cheias de verão (dezembro a março), a maior parte dos pos Limpos ou Pampas, onde predominam gramíneas,
rios desse domínio possui regime subtropical (Uruguai, cuja altura varia de 10 a 50 cm aproximadamente. É a
por exemplo), com duas cheias e duas vazantes anuais, vegetação brasileira (natural) mais favorável à prática da
apresentando pequena variação em sua vazão, conse- pecuária, tradicional atividade dessa região.
qüência do regime de chuvas, distribuído durante o ano
todo. Nos vales fluviais, surgem capões de matas (matas de
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galerias ou ciliares) que quebram a monotonia da paisa-


Características Gerais gem rasteira, formando verdadeiras ilhas de vegetação
• Bacias do rio Paraná (parte) e do rio Uruguai (alto em meio aos campos.
curso).
• Os afluentes da margem esquerda do rio Paraná se Solos
formam nos planaltos e nas serras da porção oriental das Apresentam boa fertilidade natural.
regiões Sudeste e Sul; portanto, correm de leste para o Formação de areais e campos de dunas no sudoeste
oeste. do Rio Grande do Sul (Alegrete, Quarai, Cacequi).

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A utilização do conceito de desertificação é considerado inadequado para a região, porque ela não apresenta um
clima árido ou semi-árido, como também não existem evidências de que o processo estaria alterando o clima regional,
sendo assim o termo mais indicado, segundo a pesquisadora Dirce Suertegaray, é arenização.
O geógrafo José Bueno Conti utiliza o termo desertificação ecológica, que corresponde ao processo interativo entre
o homem (uso predatório dos recursos naturais por meio da agricultura e da pecuária) e o meio ambiente (clima úmido
– arenito Botucatu).

Hidrografia
Envolve partes das bacias hidrográficas do Uruguai e do Sudeste e Sul. Os rios desse domínio são perenes mas de
baixa densidade hidrográfica, com traçados meândricos (curvas), favoráveis à navegação.
Alguns correm para o Leste (bacia Secundária do Sul), desaguando nas lagoas litorâneas como Patos (maior do
Brasil), Mangueira e Mirim. Os rios Jacuí (Guaíba) e Camaquã são exemplos. Outros correm em direção ao Oeste (bacia
do Uruguai), como os rios Quarai, Ijuí, etc.

O ESPAÇO ECONÔMICO: A FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO NACIONAL: ECONOMIA COLO-


NIAL E EXPANSÃO DO TERRITÓRIO, DA CAFEICULTURA AO BRASIL URBANO-INDUSTRIAL
E INTEGRAÇÃO TERRITORIAL; - A INDUSTRIALIZAÇÃO PÓS SEGUNDA GUERRA MUNDIAL:
MODELO DE SUBSTITUIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES, ABERTURA PARA INVESTIMENTOS ES-
TRANGEIROS, DINÂMICA ESPACIAL DA INDÚSTRIA, PÓLOS INDUSTRIAIS, A INDÚSTRIA
NAS DIFERENTES REGIÕES BRASILEIRAS E A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA; O APRO-
VEITAMENTO ECONÔMICO DOS RECURSOS NATURAIS E AS ATIVIDADES ECONÔMICAS:
OS RECURSOS MINERAIS, FONTES DE ENERGIA E MEIO AMBIENTE, O SETOR MINERAL E
OS GRANDES PROJETOS DE MINERAÇÃO; AGRICULTURA BRASILEIRA: DINÂMICAS TER-
RITORIAIS DA ECONOMIA RURAL, A ESTRUTURA FUNDIÁRIA, RELAÇÕES DE TRABALHO
NO CAMPO, A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA, ÊXODO RURAL, AGRONEGÓCIO E A
PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA BRASILEIRA; E COMÉRCIO: GLOBALIZAÇÃO E ECONOMIA
NACIONAL, COMÉRCIO EXTERIOR, INTEGRAÇÃO REGIONAL (MERCOSUL E AMÉRICA DO
SUL), EIXOS DE CIRCULAÇÃO E CUSTOS DE DESLOCAMENTO.

A Geografia Econômica é o ramo do conhecimento responsável por compreender a lógica da produção e distri-
buição das atividades econômicas. Além disso, ela visa entender a influência dessas manifestações produtivas sobre o
espaço geográfico e as interferências que o meio realiza sobre elas.
Podemos considerar que o espaço geográfico, tanto no meio urbano quanto no meio rural é essencialmente produ-
zido, ou seja, é construído pelas práticas humanas. O estabelecimento dessas práticas está, quase sempre, relacionado
à manifestação de condutas no meio financeiro e tecnológico que irão sustentar ações de impacto.
Um exemplo dos efeitos econômicos sobre o meio geográfico é a ocorrência III Revolução Industrial que, via “re-
volução verde”, conseguiu dinamizar e, ao mesmo tempo, mecanizar a produção no campo, o que teve como conse-
quência a ampliação da fronteira agrícola no Brasil e a intensificação do êxodo rural nas sociedades subdesenvolvidas
em geral.
Em termos práticos, os estudos de Geografia Econômica costumam ser segmentados em três partes principais: a)
a distribuição das atividades econômicas e produtivas sobre o espaço; b) a história das estruturas econômicas e c) a
análise das composições da economia em nível regional e suas relações com a dinâmica global.
Nesta seção, esperamos oportunizar o estabelecimento de um local de estudos para a temática em tela, focando te-
mas como a produção e localização industrial, o processo de globalização, os efeitos das transformações tecnológicas
e tantas outras questões essenciais para a compreensão do espaço geográfico social e suas transformações.

Espaço indústrial e comércio


O Espaço Industrial Brasileiro, assim como em todos os lugares, seguiu as características gerais do processo de
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industrialização das sociedades a partir do modo de produção capitalista. O processo de criação e instalação de indús-
trias em um território literalmente produz o espaço, transformando-o e conferindo a ele novas lógicas e novos signi-
ficados. A industrialização contribui, principalmente, para a intensa e rápida urbanização do território, bem como para
as concentrações econômica, populacional, de infraestrutura e de investimentos financeiros.
No Brasil, o processo de industrialização iniciou-se enquanto política de Estado a partir da década de 1930, quando
a dependência econômica nas exportações de matérias-primas, com destaque para o café, levou a economia do país
a ruir diante da Crise de 1929. Tal proposição intensificou-se com o chamado Plano de Metas, na década de 1950, e
acarretou para uma ampliação da produção industrial brasileira.

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No entanto, essa concentração ocorreu, sobretudo, O problema é que esse processo de desconcentração
na região Sudeste do Brasil, com o predomínio da cidade industrial do território brasileiro não foi acompanhado de
de São Paulo, em função de sua posição geográfica estra- uma política de gerência urbana do espaço, acarretando
tégica e da herança econômica ofertada pela produção para a difusão de problemas socioambientais no espaço
cafeeira, que conferiram a essa cidade uma ligação com das grandes cidades, com o crescimento dos índices de
o Oeste e com o Porto de Santos através das ferrovias. violência e a precarização das escolas, que não possuíam
Além disso, a partir da década de 1950, a indústria capacidade para atender a todo o quantitativo popula-
automobilística consolidou-se nessa região, o que foi cional. Além disso, observou-se também a ocorrência da
fundamental para a concentração do parque industrial favelização das cidades, segregação urbana, crescimento
brasileiro na capital paulista e em sua região metropo- desordenado e precarização do trabalho assalariado, o
litana. Tais processos provocaram uma rápida e precária que reduzia o poder de consumo da população. Viver
urbanização, bem como a explosão de movimentos mi- nas cidades, sobretudo a partir do final do século XX, tor-
gratórios advindos das diferentes regiões do Brasil. nou-se um grande desafio.
O resultado foi o grande surto populacional da região Diante disso, observa-se atualmente o crescimento
Sudeste. Em 1872, São Paulo contava com cerca de 32 mil dos polos industriais e farmoquímicos, bem como sua
habitantes e era a décima maior cidade brasileira; ao final dispersão pelo país, o que vem resultando no processo
do século XX, já se tornara a maior metrópole do país e a de Desmetropolização das grandes cidades, que mesmo
quarta maior do mundo, com mais de 20 milhões de ha- registrando crescimentos populacionais, não vêm atrain-
bitantes, contando a cidade e sua região metropolitana, do mais a mesma quantidade de pessoas de outras re-
e 11 milhões, contando apenas a capital. giões como anteriormente.
Na década de 1970, a produção industrial da capital Em contrapartida, observou-se o crescimento das
paulista e de seu entorno representava quase a metade chamadas cidades médias, que se caracterizam por ter
de toda a produção industrial nacional. uma população fixada entre 200 e 500 mil habitantes e
Todavia, a partir da década de 1980 em diante, hou- por não se encontrarem em regiões metropolitanas. Tais
ve esforços governamentais que se preocuparam em cidades vêm se tornando verdadeiros atrativos para in-
proporcionar uma desconcentração industrial do país, dústrias que buscam menos prejuízos financeiros com
fato que só se efetivou claramente a partir da década de transporte (em razão dos congestionamentos das gran-
1990. Apesar disso, São Paulo continuou na liderança na- des cidades), além de impostos menores, terrenos mais
cional industrial, muito em virtude de sua modernização baratos e força sindical menos articulada, o que favorece
e ampliação de seu aparato tecnológico e industrial. a diminuição de custos com salários.
Outro fato que contribui para esse processo de des-
metropolização é a consolidação da malha rodoviária do
Brasil, diferentemente do que havia nos tempos de ins-
talação das indústrias brasileiras. Atualmente é mais fácil
– também em função da Revolução Técnico-Científica – a
dispersão de produtos e serviços para dentro e para fora
do território, de forma que a estratégia de localização da
indústria no espaço diminuiu em importância.
Essa dinâmica vem favorecendo o crescimento das
médias cidades que, no entanto, só oferecem boas con-
dições de subsistência para trabalhadores que possuem
qualificações ou experiência em ramos industriais cada
vez mais avançados tecnologicamente.
Apesar disso, é importante frisar que não é possível
dizer que as metrópoles tendem a reduzir suas popula-
ções nos próximos anos, até porque as cidades médias e
Observe o crescimento demográfico da cidade de pequenas já demonstraram não ser capazes de absorver
São Paulo no século XX e como ele diminuiu a partir do toda a mão de obra presente nas grandes cidades. A ten-
século XXI. dência que vem se revelando é que elas também passem
a apresentar problemas urbanos, sociais, ambientais e de
Desconcentração industrial e Desmetropolização mobilidade.
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988,
as Unidades Federativas brasileiras ganharam maior au- O Brasil conseguiu mudar de forma significativa o seu
tonomia no que diz respeito à política de implantação de comércio exterior, fato ocorrido nas últimas décadas, até
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impostos e de gerência de seu território. os anos 60 o país tinha produção restrita à exportação
O resultado disso foi a instauração de um fenômeno de produtos primários, tais como café, que no início do
chamado de “Guerra Fiscal”, em que os estados passaram século era responsável por 70% de toda exportação do
a brigar pela presença das indústrias em seus espaços. Tal país, e posteriormente outros produtos ganharam desta-
preocupação dava-se no fato de que a instalação de in- que, como cacau, algodão, fumo, açúcar, madeiras, car-
dústrias em um dado local ampliava a geração de empre- nes, minérios (principalmente ferro e manganês).
gos, elevava o consumo e angariava investimentos para
obras de infraestrutura.

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Hoje a economia é mais complexa e diversificada, Na passagem da ordem feudal para a capitalista, o
apresentando exportações de produtos industrializados processo de transformação das terras comunais em pro-
e processados (semimanufaturados), calçados, suco de priedades privadas, chamadas cercamentos, significou
laranja, tecidos, combustíveis, bebidas, alimentos indus- mudanças na estrutura fundiária inglesa. Esse processo
trializados, caldeiras, armamentos, produtos químicos, também se relaciona à Revolução Agrícola, ocorrida no
veículos de todo tamanho e suas respectivas peças de século XVIII. Os senhores de terras, adotando técnicas
reposição e aviões. modernas para a época, eliminaram os campos comunais
utilizados pelos pequenos camponeses. A criação de
Produtos industrializados e semimanufaturados, no ovelhas ganhou importância, sobretudo na produção de
ano de 1960, correspondiam à apenas 5% do total das lã para a indústria têxtil.
exportações do país, em 2005 esse tipo de produção já Esse conjunto de elementos, combinado a uma pro-
representava 60% de todo comércio exterior do Brasil, dução comercial capitalista mais produtiva, possibilitou
que indica e evidencia os avanços econômicos provoca-
o aumento da produção agrícola para abastecer as cida-
dos pela modernização do setor industrial.
des e o fornecimento de mão de obra abundante para as
O percentual sofre variações de acordo com o rendi-
indústrias nascentes.
mento do ano, que pode ser de 55% a 65%, por exemplo,
no ano que ocorre aumento na venda de aviões esses da- A substituição das ferramentas pelas máquinas, da
dos são elevados. Em contrapartida quando há aumen- energia humana pela energia motriz e do modo de pro-
to na produção e exportação agrícola, como no caso da dução doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolu-
soja, ocorre um crescimento no percentual de produtos ção Industrial; revolução, em função do enorme impacto
primários. sobre a estrutura da sociedade, num processo de trans-
O Brasil possui muitos parceiros comerciais, com des- formação acompanhado por notável evolução tecnoló-
taque para os seguintes mercados: toda União Européia, gica.
principalmente Alemanha, Itália, França, Espanha e Ho- A Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra
landa, além de Estados Unidos, Argentina, Japão, Para- na segunda metade do século XVIII e encerrou a
guai, Uruguai, México, Chile, China, Taiwan, Coréia do Sul transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acu-
e Arábia Saudita. mulação primitiva de capitais e de preponderância do
capital mercantil sobre a produção. Completou ainda o
Outra evidência da mudança econômica e industrial movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra
brasileira é os tipos de exportação, no passado eram no século XVII.
compostas basicamente por produtos manufaturados, Com o desenvolvimento da atividade industrial como
na atualidade esse contexto mudou, pois as importações, base do sistema capitalista, surgiu a necessidade de se
cerca de 40%, são de matéria prima como combustíveis, incrementar cada vez mais a produção. A indústria pas-
minérios, trigo, carne, bebidas, artigos de informática, sou a comandar outros setores da economia, principal-
telefonia, máquinas, motores, material elétrico, produtos mente a atividade agrícola e o setor de serviços.
químicos, insumos agrícolas, automóveis, tratores, peças, O sistema de fábrica caracteriza a indústria
eletroeletrônico etc. moderna. Trabalhadores, máquinas e matérias primas
ficam reunidos em um mesmo local. Trabalhadores não
Os principais exportadores de produtos para o Bra- são donos dos meios de produção. O sistema fabril com
sil são: Estados Unidos, União Européia principalmente sua divisão do trabalho e a organização para produzir
Alemanha, Itália, Espanha e França, Argentina, Arábia
em larga escala, representou um aumento significativo
Saudita, Japão, Venezuela, México, Uruguai, Chile, China,
no volume de produção.
Coréia do Sul, Kuwait e Nigéria.
Na década de 1860, uma nova palavra entrou no
A atividade industrial é a base do desenvolvimento
econômico mundial desde o século XVIII. As indústrias vocabulário econômico e político do mundo: “capitalis-
foram os primeiros estabelecimentos a empregar traba- mo”, embora haja relatos em 1848, mas tenha ganho am-
lhadores assalariados em grande número e na atua- plo uso naquele ano. O triunfo global do capitalismo é
lidade são responsáveis pela automação cada vez o tema mais importante da história nas décadas que
maior do processo produtivo em substituição a força da se sucederam a 1848. Foi o triunfo de uma sociedade
mão de obra. que acreditou que o crescimento econômico repousava
A atividade industrial é aquela pela qual os seres hu- na competição da livre iniciativa privada, no sucesso
manos transformam matéria-prima em algum bem, aca- de comprar tudo no mercado mais barato (inclusive
bando ou semiacabado. trabalho) e vender no mais caro. Uma economia as-
O artesanato, primeira forma de produção industrial, sim baseada e, portanto, repousando naturalmente nas
surgiu no fim da Idade Média com o renascimento co- sólidas fundações de uma burguesia composta daqueles
mercial e urbano e definia-se pela produção indepen- cuja energia, mérito e inteligência os elevou tal posi-
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dente; o produtor possuía os meios de produção: insta- ção, deveria – assim se acreditava – não somente criar
lações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho um mundo de plena distribuição material mas tam-
ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da bém de crescente esclarecimento, razão e oportunidade
produção. humana, de avanço das ciências e das artes, em suma, um
O artesanato antecedeu a indústria e era disperso mundo de contínuo progresso material e moral. Os pou-
pelo espaço geográfico. A produção era limitada e pre- cos obstáculos ainda remanescentes no caminho do livre
dominava o sistema familiar de trabalho. Nas cidades o desenvolvimento da economia privada seriam levados de
sistema de corporações produzia para o mercado local. roldão. As instituições do mundo, ou mais precisamente

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daquelas partes do mundo ainda não excluídas pela ti- Ao lado da indústria têxtil, a modernização das fun-
rania das tradições e superstições, ou pelo infortúnio de dições de ferro impulsionou o ciclo inicial da industria-
não possuírem pele branca (preferivelmente originária lização. Há séculos, o ferro era fundido em fornalhas a
da Europa Central ou do Norte), gradualmente se lenha. A utilização do carvão mineral em altos fornos
aproximariam do modelo internacional de um “Estado- capazes de gerar temperaturas elevadíssimas inaugu-
-nação” definido territorialmente, com uma Constituição rou a siderurgia moderna.
garantindo a propriedade e os direitos civis, assembleias A utilização do carvão mineral como força motriz teve
representativas e governos eleitos responsáveis por elas início com o aperfeiçoamento da máquina a vapor, em
e, quando possível, uma participação do povo comum na 1769. Mas apenas em meados do século XIX, na Inglater-
política dentro de limites tais que garantissem a ordem ra, a máquina a vapor substituiu o tear hidráulico. Fora
social burguesa e evitassem o risco de ela ser derrubada. das fábricas, a revolução do carvão expressou-se no setor
A economia agrícola, sob suas múltiplas formas, es- de transportes. As ferrovias e os navios a vapor “encur-
tende-se por todo o globo. Mesmo a noção de de- taram” as distâncias, ou seja, diminuíram o tempo utili-
serto não é absoluta: existem civilizações agríco- zado nos deslocamentos reduzindo brutalmente os
las do deserto. A economia industrial, ao contrário, é custos de transporte de matérias-primas e alimentos.
essencialmente descontínua, pelo menos quanto às suas O primeiro ciclo tecnológico da era industrial restrin-
implantações materiais, pois sua influência financeira e giu-se, praticamente, ao Reino Unido. No segundo ciclo,
social tende a ser universal. A mobilização das fontes de caracterizado pelo grande salto da siderurgia, permitin-
energia mecânica, que é um dos índices mais seguros do o uso do aço, em meados do século XIX, a industria-
da importância do desenvolvimento industrial, é muito lização se espalhou pela Europa, fincando raízes na
desigual segundo as regiões geográficas. Mais de três Bélgica, França, Alemanha, Suécia, entre outros países.
quartos da energia mecânica são consumidos por Além destes, a indústria estabelecia-se nos Estados
um terço da população do globo: os europeus, os Unidos e no Japão.
norte- americanos e os japoneses. O longo reinado de petróleo, iniciado no tercei-
As diversas regiões que compõem a economia global ro ciclo tecnológico da Revolução Industrial, imprimiu
da atualidade se industrializaram em períodos distintos suas marcas em diferentes escalas do espaço geográfi-
e com características diferentes. Chamamos de indus- co. Afinal, a tecnologia do motor a combustão interna,
trialização clássica a que ocorreu durante o período da impulsionados pela explosão de óleo diesel ou gasoli-
Primeira Revolução Industrial e de industrialização tardia na, ambos derivados do petróleo, dentro de um cilindro,
a que se desenvolveu ao longo do século XX. movimenta não apenas caminhões e automóveis como
A indústria representa um dos mais fortes agentes de também barcos e aeronaves, continua a ser ponto-chave
diferenciação espacial. Embora seja atividade básica ao na logística de transportes das sociedades modernas.
mundo moderno, apenas uma minoria de países foi até Além de sua inegável importância como fonte
hoje intensamente afetada pela atividade industrial, e primária de combustível para os transportes e para
esse conjunto assegura ainda o essencial da pro- a geração de calor em fornos e caldeiras industriais, o
dução mundial e se beneficia de elevado nível de vida. petróleo também serve de matéria-prima para um dos
Mas esse privilégio não é exclusivo: há crises nas antigas mais importantes setores industriais da atualidade: a
regiões industriais, que oscilam em seu desempenho, e indústria petroquímica.
surgem novos focos de industrialização em várias partes A indústria moderna nasceu da conjunção, na
do mundo. Esboça-se uma reorganização nas velhas Europa Ocidental, do racionalismo moderno, instru-
regiões industrializadas, enquanto aumenta a concor- mento do progresso do pensamento científico e das
rência dos países em via de desenvolvimento. Estru- descobertas técnicas dele resultantes, e de condições
tura-se um novo espaço industrial. financeiras próprias à aplicação dessas descobertas à
A localização e a limitação do número das re- produção. O impulso do grande comércio nos sé-
giões industriais não são estreitamente ligadas às con- culos XVII e XVIII e o mercantilismo asseguraram
dições geográficas de repartição das bases naturais de a acumulação de capitais, sobretudo na Inglaterra, e se-
industrialização. Aliás, se no começo do período indus- cundariamente nas principais encruzilhadas continentais:
trial pareceu que a indústria só podia desenvolver-se na na França, na Alemanha, na Suíça, na Áustria,
proximidade imediata das bases carboníferas, os pro- entre outros. Estas regiões constituíram os diver-
gressos técnicos tendem a libertar cada vez mais a sos centros de aplicação das novas técnicas, à medida
indústria dessas limitações geográficas, enquanto que que as condições políticas se prestavam à circulação dos
as necessidades de atividades e de produtos indus- capitais e das mercadorias, e à constituição de sistemas
triais são capazes de criar ditames bem mais autoritários. econômicos fortes. Sendo a máquina a vapor e as cons-
A fase pioneira da industrialização foi movida essen- truções técnicas, à base de fundição e de aço, as duas
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cialmente pela força da água corrente dos rios (energia primeiras formas mais importantes da revolução técnica
hidráulica). As rodas d’água transferiam energia para os do século XIX, a localização das minas de carvão e de
teares hidráulicos e, assim, o sistema fabril se impu- ferro teve papel importante na escolha das implan-
nha sobre a manufatura tradicional, que era baseada tações de estabelecimentos industriais. Entretanto, os
no tear manual. Os cursos fluviais, que sempre serviram fatores humanos também exercem sua influência. A in-
como vias de transporte, passavam a funcionar como dústria foi atraída, por exemplo, para terras ricas em mão
fonte de energia para o mundo industrial. As fábricas se de obra operária preparada para o trabalho industrial
estabeleciam junto aos rios. por longo passado de atividades manufatureiras, em re-

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giões onde o desenvolvimento comercial e uma tradi- - Descongestionar o mercado dos capitais criando
ção de transformação de matérias brutas já haviam bases industriais fora dos países primitivamente equi-
introduzido uma diferenciação econômica em relação à pados, ou empregando dinheiro a Estados estrangei-
estrutura agrícola dos países circunvizinhos. ros para facilitar- lhes o equipamento. Este proces-
A indústria moderna, em relação ao artesanato e à so permite efetuar um duplo desafogamento: por
atividade manufatureira anteriores, apresenta-se como exportação de capitais e pela venda de produtos
um fato concentrado. A concentração é primeira- e ferramentas indispensáveis à industrialização. Ele
mente técnica, o maquinismo exige o agrupamento apresenta um perigo para um futuro mais ou menos
das atividades produtivas em estabelecimentos maiores próximo: a criação de novos concorrentes no mercado
que as oficinas de outrora. Ela é também financeira. internacional.
A produção industrial tornou-se geradora de lucros, Até o século XVIII, a ação humana sobre a nature-
pelo funcionamento do sistema capitalista. Com efeito, za, salvo raras exceções, não ocasionava transformações
se o resultado do desenvolvimento industrial é a maior profundas e irreversíveis. O ser humano construía
quantidade e variedade da produção de objetos elabora- habitações, caçava e domesticava animais, recolhia
dos com matérias brutas provenientes do subsolo ou da frutos das árvores e derrubava uma parte pequena das
agricultura, seu fim, no quadro do sistema econômico e matas para fazer plantações. Pode-se dizer que havia
financeiro que presidiu à Revolução Industrial, é au- um equilíbrio nas relações do ser humano com a
mentar constantemente o capital. A gestão da empresa natureza. Foi a partir da Revolução Industrial, iniciada na
é concebida de modo que, para uma real produtividade segunda metade do século XVIII, que a natureza passou
do trabalho efetuado, a remuneração deste trabalho a ser profundamente modificada, até chegar ao gra-
seja tal que, uma vez pagas as matérias-primas, a ve problema atual de poluição e degradação do meio
energia, o encaminhamento e a apresentação das mer- ambiente.
cadorias fabricadas, e uma vez assegurada a amortiza- A Revolução Industrial, portanto, constitui um mo-
ção do material e do capital inicial, reste à disposição do mento importante na mudança das relações da hu-
conselho de administração uma margem a reempregar, manidade com a natureza. É por isso que dizemos
que por sua vez será geradora de lucros por meio que foi com a Revolução
do mesmo mecanismo. Cada empresa, cada conjunto Industrial que a sociedade moderna ou industrial pas-
industrial, cuja gestão corresponde a este esquema, cres- sou a produzir o seu espaço geográfico.
ce de maneira tal como uma bola de neve. Os maiores A evolução do processo de transformação de ma-
crescem mais rapidamente e, por meio da concorrên- térias-primas em produtos acabados ocorreu em qua-
cia, tendem a eliminar ou anexar os menores. Os lucros tro estágios: artesanato, manufatura, indústria e revolu-
constituem massas quantitativamente crescentes de ca- ção técnico-científica.
pitais, que foram reinvestidos, pelo menos no começo, A Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX), ocor-
no equipamento industrial dos primeiros países indus- rida na Inglaterra, disseminou-se por outros países da
trializados e nas empresas beneficiárias. Daí resultou o
Europa ocidental, pelo Japão, Estados Unidos e Canadá.
desenvolvimento das indústrias do próprio lugar de sua
Várias colônias da Ásia e da África foram ocupadas na
origem, enquanto que, no plano financeiro, edificavam-
busca frenética dos novos “donos” da indústria por ma-
-se os cartéis ou os trustes.
téria-prima e novos mercados de consumo. Essa época
O desenvolvimento da indústria exige o equipamen-
ficou conhecida como imperialismo. A nova atividade
to apropriado das regiões industriais em vias de co-
transformou e agilizou o que antes era chamado de arte-
municação de grande potência e em cidades para
moradia, providas das infraestruturas da vida de sanato e manufatura.
coletividades importantes. Uma vez realizado, este Estágio intermediário entre o artesanato e a ma-
equipamento oferece comodidades para o desenvolvi- quinofatura. Nessa etapa, além do trabalho manual,
mento imediato da indústria. A concentração geográfica havia o emprego de máquinas mais simples, divisão do
das indústrias é, pois o resultado das diversas formas de trabalho (cada pessoa desempenhava uma etapa da pro-
concentração técnica e financeira, e da criação de meios dução) e o trabalhador era assalariado.
favoráveis à implantação industrial, em vista de seus an-
tecedentes na matéria. A evolução da atividade industrial
Mas o mecanismo da economia industrial em Ao longo da história da humanidade a capacidade
sistema capitalista teve por resultado exceder as ca- de transformação do homem vem evoluindo e continua
pacidades de absorção de produtos industriais dos a evoluir até hoje. O homem desenvolveu novas técnicas,
primeiros países industrializados, a partir do momen- usou cada vez mais novos produtos, o que lhe permi-
to em que a massa crescente de produtos fabricados tiu uma maior quantidade e variedade de produtos. Para
excedeu, em valor comerciável, a quantidade de poder que isso acontecesse, várias transformações foram ne-
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aquisitivo disponível em cada mercado nacional. Duas cessárias na forma de produzir.


soluções apresentavam-se: Houve um tempo em que a única forma que o
- Vender a países cujos recursos fossem pro- homem conhecia para transformar materiais em novos
venientes da economia agrícola e do artesanato, produtos era a atividade artesanal. No artesanato o tra-
desprovidos de indústrias concorrentes, e que balho era manual, usando-se ferramentas simples.
possuíssem um poder aquisitivo representado pelo O produto era feito por uma única pessoa, o
produto da economia agrícola ou pelo das vendas artesão, que realizava sozinho todo o processo de
de materiais brutos. transformação. A produção era feita na própria casa do

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artesão ou em pequenas oficinas que reuniam alguns A atividade industrial continua evoluindo nos dias de
trabalhadores manuais. Os produtos feitos eram destina- hoje, empregando técnicas cada vez mais modernas e
dos para o uso da família ou para vender. Esta prevaleceu sofisticadas. Nos países mais industrializados há muitas
até meados do século XVII, mas sobrevive nos dias atuais. indústrias onde quase tudo é feito automaticamente
Sua principal característica é a produção individual, que e por máquinas robotizadas, apenas programadas
desenvolve todas as fases de produção e comercializa- pelos trabalhadores.
ção do produto, sem divisão de tarefas e apenas Esse processo de industrialização e evolução in-
com o uso de ferramentas simples dustrial demorou vários séculos para acontecer e se
Com o aumento do comércio das cidades, desenvolveu em diferentes épocas e nos diversos paí-
consequentemente do consumo, os comerciantes pas- ses do mundo de forma diferente preservando suas
saram a encomendar aos artesãos alguns produtos especificidades. Por isso nem todos os países têm hoje
que ele, comerciante achava que feitos com estas ou o mesmo desenvolvimento industrial e tecnológica.
aquelas características, seriam mais facilmente vendidos, A indústria inglesa moderna nasceu do desenvol-
logicamente por um preço maior do que aquele pago vimento da extração do carvão e da atividade do co-
ao artesão. A partir de um tempo alguns artesãos mais mércio marítimo, que assegurava ao mesmo tempo o
ricos passaram a comprar as oficinas dos artesãos mais reabastecimento em matérias-primas e o escoamento
pobres, estes por sua vez, tornaram-se trabalhadores as- dos produtos fabricados. Por conseguinte, parece ra-
salariados. zoável procurar as grandes regiões industriais inglesas
Com o tempo, houve a necessidade de au- na zona das minas de carvão e ao redor dos grandes
mentar a produção dessas oficinas e consequente- portos.
mente o número de trabalhadores empregados. Os do- Toda região carbonífera é região industrial, ten-
nos das oficinas perceberam que dividindo a tarefa entre do o carvão fixado as indústrias que o utilizam como
os trabalhadores, a produção tornava-se mais rápida e matéria-prima (fabricação de matais, química), ou como
maior e com isso os lucros aumentariam. Surgiu assim a fonte de energia (todas as indústrias de transformação).
manufatura, isto é, em vez de uma pessoa sozinha fabri- A densidade dos estabelecimentos industriais é particu-
car o produto inteiro, esse trabalho passou a ser dividido
larmente grande, onde a extração do carvão chega até
entre várias pessoas, cada uma fazendo uma parte do
o mar ou até grande estuários que permitem à navega-
produto. Esse tipo de indústria, que surgiu nos séculos
ção marítima penetrar no interior das terras.
XVII e XVIII, representou os primórdios do sistema ca-
Pensar a indústria e mais concretamente o espa-
pitalista. Suas características principais são a divisão de
ço da indústria nos remete a uma paisagem urbana
tarefas e o uso de ferramentas e máquinas simples. Ins-
tituiu a figura do dono dos meios de produção (patrão) e onde predominam as chaminés expelindo fumaça
o trabalhador assalariado (empregado) de tons e odores diferenciados, uma concentração de
Nessa etapa os trabalhadores usavam a matéria-pri- operários e um adensamento de redes de transporte.
ma e as ferramentas pertencentes ao proprietário do Ao contrário da atividade agrícola, que se estende
local onde trabalhavam passando a receber um salário, por imensas porções do planeta, a atividade industrial
pela sua carga horária de trabalho, não eram donos nem é altamente concentrada do ponto de vista espacial
de ferramentas e nem produziam mais os produtos so- e exige a inter-relação entre parcelas do espaço, já que
zinhos. está longe de ser uma atividade que se auto-sustenta.
Passam a ser usados na manufatura algumas má- Nesse sentido, enquanto suas instalações se acham
quinas simples que multiplicavam os gestos dos tra- concentradas espacialmente, suas relações e articula-
balhadores, aumentando a capacidade de produção. A ções ocorrem em nível mundial, graças ao desenvol-
manufatura foi assim o inicio da atividade industrial mo- vimento necessário de trocas, associadas ao processo
derna e de novas relações de trabalho entre os homens. de divisão social e espacial do trabalho. Se, por um
A indústria moderna substitui as ferramentas e as má- lado, a indústria é um fenômeno concentrado que gera
quinas simples pelas máquinas mais potentes e velozes, grandes aglomerações urbanas, de outro, suas articula-
movidas por novas fontes de energia e não mais pela for- ções extrapolam os limites do “espaço próximo” para se
ça do trabalhador, aumentando assim a capacidade de inter-relacionarem com espaços mais amplos, cujos limi-
produção. Esta iniciou com a Revolução industrial e tes são aqueles do globo terrestre.
compreende o atual estágio de desenvolvimento indus- Para que se dê início à atividade industrial faz-se ne-
trial. Suas principais características são o uso intensivo cessário a acumulação, nas mãos do capitalista, de uma
de máquinas, das mais simples às mais sofisticadas, di- quantidade de dinheiro (capital em potencial) e de meios
versas fontes de energia e a produção em larga escala. de produção; que haja concentração de trabalhadores
As formas de gerenciamento promovem a divisão dispostos a vender sua força de trabalho; e que exista
de tarefas, a automação industrial e a especialização da um mercado consumidor.
produção e do trabalho. Se parece óbvio que a existência da indústria vincu-
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Nas fábricas, concentra-se um grande número de la-se à concentração de capital e meios de produção nas
operários, todos recebendo um salário como pagamento mãos dos capitalistas de um lado, e de outro de mão de
pelas horas que passam trabalhando nas fábricas. Cada obra relativamente grande para constituir um merca-
operário da fábrica realiza apenas uma parte do pro- do, não é evidente que esta concentração foi gerada
cesso de produção, sendo treinado e especializado em condições históricas específicas, num determinado
para desenvolver aquela tarefa específica, ou seja, o momento da história específica, num determinado mo-
mundo industrial se torna um mundo de especialistas mento da história da humanidade e que constitui o
de técnicos. ponto de partida da produção capitalista.

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Este ponto se consubstancia na medida em que num havidas com a produção e uma quantidade suplementar
mesmo tempo e espaço, um número relativamente gran- de dinheiro, o seu lucro, que é a mais- valia transformada
de de trabalhadores, sob o mando e a vigilância de um no dinheiro adicional. Com esse dinheiro suplementar o
capitalista, tendo por base o estabelecimento de uma capitalista compra força de trabalho e meios de produ-
divisão do trabalho, reúne-se para produzir, ao mesmo ção suplementares, para obter a reprodução ampliada
tempo, um determinado tipo de produto. Este processo do capital em caráter permanente.
tem como pressuposto a divisão do trabalho na socie- O salário é, assim, o pagamento parcial da jornada
dade, a propriedade privada de bens e sua acumulação de trabalho do operário e com o qual este se suprirá no
em poucas mãos; isto é a chamada acumulação primitiva. mercado dos meios de subsistência de que necessita para
O processo histórico que produziu a acumulação pri- se reproduzir como homem vivo. O salário é o preço
mitiva, iniciada com o ressurgimento das cidades, gerou da reprodução de sua existência. Para que seu nível
a separação entre o produtor direto e os meios de fique sempre nos limites da subsistência o capital cria nas
produção através da expropriação dos trabalhadores, cidades um “exército industrial de reserva”. Com isto, o
formando a base sobre a qual se ergue o sistema capita- salário torna-se meramente o preço da reprodução da
lista de produção. força de trabalho do operário, que se tornará eterno ven-
A acumulação de capital e a revolução industrial dedor dela. Para elevar o nível salarial o operário tem que
são dois momentos fundamentais da história da huma- se apropriar de parte de trabalho excedente, na forma de
nidade, e refletem a passagem do modo de produ- mais salário. E é em torno da busca desse aumento que
ção feudal ao modo de produção capitalista. A ordem irão se dar os primeiros choques entre capital e trabalho.
capitalista sai das entranhas da feudal, à medida que o
processo de desenvolvimento social da humanidade, A alienação do trabalho
realizado em toda formação econômica e social, efeti- Marx afirma que a especialidade vitalícia de manejar
va-se por meio do aparecimento e da resolução de con- uma ferramenta parcial converte-se, com esse pro-
tradições. cesso, na especialidade vitalícia de servir a uma máquina
especial. O novo processo de produção e de trabalho
O espaço do capital vai se utilizar abusivamente da máquina para transfor-
Visto na sua aparência, o modo capitalista de mar o operário, desde sua infância, em parte de uma
produção é um modo de produção de mercadorias. máquina parcial. O filme Tempos Modernos de Charles
A produção da mercadoria, contudo, mascara a produ- Chaplin é um exemplo de como o homem se torna
ção da mais-valia. Visto na sua aparência apresenta-se escravo e apêndice da máquina.
como um modo de produção movido pelo interesse do A máquina aparece como o elo de transformação,
lucro. Mas o lucro é a mera forma que assume a mais- não do modo de produção em outro, mas do homem no
-valia após sua realização no lucro na forma do dinheiro. processo de trabalho e da mudança do seu papel neste
O trabalho produz mais-valia produzindo mercado- mesmo processo. A máquina, enquanto meio de pro-
rias. A mercadoria pela sua venda gera a transformação dução e meio material de existência do capital passa a
da mais-valia nela contida em lucro. O lucro se expressa ser o fundamento material do modo de produção capi-
em forma monetária e o dinheiro fecha um ciclo para talista. A grande indústria, ao revolucionar as relações
abrir outro. A mais-valia na sua expressão monetária gerais de produção da sociedade, produz uma nova con-
será reinventada na produção (na forma de compra su- cepção de trabalho, de vida, de relação entre os seres
plementar de força de trabalho, objeto e meios de traba- humanos. Isto é provocado pela mudança das relações
lho), para geração de mais mais-valia. Reproduzir-se-á entre o capital e o trabalho, pois a maquinaria de meio
em escala ampliada o ciclo da reprodução do capital. de trabalho, converte-se de imediato, em competidor
Esta é a dialética do capital, seu móvel e objetivo: a do próprio operário e a habilidade deste desaparece.
acumulação de capital. Não se exige mais que o operário produza algo com uma
Para o capital, os homens só existem enquanto ho- ferramenta que ele maneje com o movimento de seus
mens para o capital. O trabalho só é produtivo se for músculos. Exige-se, isto sim, que ele utilize uma máquina
trabalho produtor de mais-valia. Trabalho que não gera que ditará um novo ritmo de trabalho.
mais-valia é trabalho improdutivo. Tal fato é decorrente da mudança dos meios de pro-
A mais-valia é o trabalho não pago, o trabalho que dução gerada pelo desenvolvimento técnico que levou
excede ao equivalente ao valor da reprodução do tra- à mecanização do processo de trabalho e à necessida-
balhador e pago como salário. Expliquemos. Supo- de de um novo homem para operacionalizar o processo
nhamos um tempo de trabalho de oito horas/dia. Nes- produtivo, agora desenvolvido sobre novas bases. Não
tas oito horas o proletário deverá produzir mercadorias. será mais o homem que dominará a máquina, mas o con-
Numa parte da jornada do trabalho o proletário pro- trário.
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duzirá uma quantidade de mercadorias que, se posta Neste momento, a vida do operário passa a ser de-
à venda, iguala o montante do seu salário. Digamos terminada pelos ciclos da indústria. Em fases de desen-
quatro horas. Nas quatro horas restantes produzi- volvimento da atividade há um aumento da mão de obra
rá uma quantidade que excede o montante do empregada; em fases de crise e estancamento, libe-
salário que acabou de reproduzir, da qual o capital ração de empregados. Isso cria a insegurança e a
apropria-se. É a mais-valia. Ao vender a totalidade das instabilidade na classe trabalhadora, pois os operários
mercadorias que o proletário produziu na jornada vêem-se constantemente atraídos e repelidos do proces-
de oito horas, o capitalista terá de volta as despesas so produtivo.

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A introdução da máquina, que não tem por objetivo associação passou a ter caráter reivindicatório. Assim
aliviar o trabalho do homem e sim baratear as eco- surgiram as trade unions, os sindicatos. Gradativa-
nomias, acaba produzindo a intensificação do mente, conquistaram a proibição do trabalho infantil,
trabalho, desqualifica-o e transforma o operário em a limitação do trabalho feminino, o direito de greve.
uma parte da máquina. Com isso, o trabalho perde o seu Entre os anos de 1811 e 1812, surgiu na Inglaterra
conteúdo e passa a ser reprimido. o ludismo, um movimento social ocorrido na Inglaterra.
Contrários aos avanços tecnológicos ocorridos na Revo-
Revolução social lução Industrial, os ludistas protestavam contra a substi-
A Revolução Industrial concentrou os trabalha- tuição da mão de obra humana por máquinas. O nome
dores em fábricas. O aspecto mais importante, que do movimento deriva de um dos seus líderes, Ned Ludd.
trouxe radical transformação no caráter do trabalho, foi Com a participação de operários das fábricas, os
esta separação: de um lado, capital e meios de produção “quebradores de máquinas”, como eram chamados os
(instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o tra- ludistas, fizeram protestos e revoltas radicais. In-
balho. Os operários passaram a assalariados dos capita- vadiram diversas fábricas e quebraram máquinas e
listas (donos do capital). outros equipamentos que consideram os responsáveis
Em meio a tanta riqueza, vemos que essa nova situa- pelo desemprego e as péssimas condições de trabalho
ção se contrastava com a situação miserável dos vários no período.
operários que trabalhavam nos centros fabris. Essa situa- O Ludismo enquanto prática de destruição de má-
ção contraditória, em pouco tempo passou a ser perce- quinas passou a ser cada vez mais hostilizado pelo
bida por vários trabalhadores que trocavam o extensivo patronato que recorreram aos parlamentos, visando a
uso de sua força de trabalho por salários que não su- criação de leis mais severas para punir os envolvidos
priam suas necessidades materiais elementares. em revoltas. O Reino Unido que já possuía em sua legis-
Em muitos casos, essa situação era explicada lação uma lei datada de 1721 que definia o exílio como
pelo fato das fábricas reduzirem sensivelmente a de- pena máxima para a destruição de máquinas, em 1812
manda por mão de obra, graças ao uso das máquinas. como resultado da oposição contínua a mecanização
Nesse contexto, se organizava uma grande massa de adotou o Frame-Breaking Act definindo a pena de mor-
desempregados que se sujeitava a um pagamento te para casos de destruição de máquinas.
baixo mediante a falta de empregos e a grande dis- O movimento ludista perdeu força com a or-
ponibilidade de trabalho. Aos poucos, alguns traba- ganização dos primeiros sindicatos na Inglaterra, as
lhadores responderam a essa deplorável realidade. chamadas trade unions.
Uma das primeiras manifestações da Revolução foi
o desenvolvimento urbano. Londres chegou ao milhão Formas de organização do trabalho
de habitantes em 1800. O progresso deslocou-se para Outro tipo de inovação tecnológica é a que altera o
o norte; centros como Manchester abrigavam mas- processo de produção de trabalho, objetivando produzir
sas de trabalhadores, em condições miseráveis. mais em menos tempo. Este é o caso das diversas for-
Os artesãos, acostumados a controlar o ritmo de seu mas de organização do trabalho criadas no século XX,
trabalho, agora tinham de submeter-se à disciplina da que coexistem na atualidade e têm o mesmo objetivo
fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e comum, ou seja, aumentar a lucratividade para ampliar
crianças. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres for- os lucros.
mavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças
começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia Taylorismo/ Fordismo
garantia contra acidente nem indenização ou pagamento No início do século XX, o engenheiro Frederick Tay-
de dias parados neste caso. lor, criou um método de organização do trabalho
A mecanização desqualificava o trabalho, o que que ficou conhecido por taylorismo. Taylor observou que
tendia a reduzir o salário. Havia frequentes paradas havia um grande esbanjamento de tempo durante o pro-
da produção, provocando desemprego. Nas novas cesso produtivo, o que para ele significava tempo
condições, caíam os rendimentos, contribuindo para perdido. Assim, cronometrou cada fase do trabalho
reduzir a média de vida. Uns se entregavam ao al- e eliminou os movimentos longos ou inúteis, ou seja,
coolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e cada trabalhador desenvolveria uma atividade específica
as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lan- no sistema produtivo da indústria (especialização do
cashire (1779). Proprietários e governo organizaram uma trabalho). Com isso, a produção dobrou. A cronome-
defesa militar para proteger as empresas. tragem estabeleceu, para cada operário, o tempo de
A situação difícil dos camponeses e artesãos, ain- execução de certo trabalho, cabendo aos engenheiros –
da por cima estimulados por ideias vindas da Revolu- e não aos trabalhadores – definir esse tempo.
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ção Francesa, levou as classes dominantes a criar a Lei No taylorismo, o trabalhador é monitorado segundo
Speenhamland, que garantia subsistência mínima ao o tempo de produção, cada indivíduo deve cumprir sua
homem incapaz de se sustentar por não ter trabalho. tarefa no menor tempo possível, sendo premiados aque-
Um imposto pago por toda a comunidade custeava tais les que se sobressaem, isso provoca a exploração do
despesas. proletário que tem que se “desdobrar” para cumprir
Havia mais organização entre os trabalhadores espe- o tempo cronometrado. Segundo Taylor, os operários
cializados, como os penteadores de lã. Inicialmente, eles eram incapazes de determinar não apenas o tempo
se cotizavam para pagar o enterro de associados; a mas também o tipo de ferramenta que deveriam usar na

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execução de um trabalho. Taylor deixava claro em seus oito horas e a semana de 40 horas. Condições de traba-
escritos que os trabalhadores eram incompetentes por lho que virariam bandeiras de sindicatos da América do
não terem instrução adequada. Além disso, argumenta- Norte e da América do Sul. Para os empresários da épo-
va que eles muitas vezes se apresentavam indiferentes, ca, especialmente os da área de mineração e siderurgia,
não tendo vontade para executar de modo satisfa- que olhavam com preocupação o movimento que pas-
tório o que deveriam. Taylor enfatizava a importância sou à história como ‘Fordismo’, ele tinha uma resposta
do papel da gerência, cuja função era a de controlar toda pronta: “Se você corta os salários, simplesmente corta o
a produção; para tanto, era fundamental que o gerente número de seus consumidores.”
tivesse pleno domínio de todo o processo produtivo. Estavam lançadas, assim, as condições de trabalho
Desse modo, Taylor reduziu o trabalho humano a gestos pelas quais muitos sindicatos ao redor do mundo briga-
repetitivos, sem permitir ao trabalhador desenvolver ha- ram durante anos. A diferença é que Ford se antecipou
bilidades criativas. O empregado era comparado a uma às reivindicações que fariam parte da agenda dos traba-
máquina, passível de ser “programado”. lhadores. Não seriam as únicas mudanças que ele faria na
O ganho na produção trouxe, porém, sérios proble- conturbada relação entre capital e trabalho. O empresá-
mas para os trabalhadores, que não eram respeitados, rio também lançaria as bases sobre as quais floresceria
recebiam baixos salários e era explorado. a classe média americana ao abrir condições de
Dando prosseguimento à teoria de Taylor, Hen- crédito para que todos pudessem comprar seus carros.
ry Ford, dono de uma indústria automobilística Primeiro, Ford financiou seus próprios empregados. De-
(pioneiro), desenvolveu seu procedimento indus- pois, estendeu esse crédito aos consumidores.
trial baseado na linha de montagem para gerar A cadeia clássica fordiana foi rapidamente imitada e
uma grande produção que deveria ser consumida em adotada por todos os concorrentes (nomeadamente na
massa. Sabemos quanto a motorização e a mecanização Europa: Citröen, Renault, Fiat, Morris, Opel, Mer-
marcaram a sociedade industrial do Séc. XX: simbólica e cedes-Benz, etc.). A resistência operária (sobretudo
materialmente determinaram não só a produção e o da aristocracia operária) à introdução da “organização
consumo como o próprio conteúdo e a organização científica do trabalho” (como se dizia em França) foi-se
do trabalho. esbatendo até à época da grande crise mundial do capi-
Historicamente, a indústria automóvel desenvol- talismo (1929). Mesmo depois da II Guerra Mundial, é
veu-se de acordo com os princípios da produção em preciso esperar pelos anos 60 para que o taylorismo-for-
grande série, postos em prática por Henry Ford em 1913, dismo comece a ser contestado, primeiro do ponto de
na sua fábrica de Detroit. O que Ford na realidade fez, vista técnico e depois social. Durante mais de meio
primeiro que os seus competidores, foi juntar e inte- século (1910-1965), a indústria norte-americana
grar um conjunto de inovações (técnicas e organização). produzia anualmente mais de 50% dos veículos automó-
Na realidade, Ford é mais do que um grande veis. A supremacia começa a ser posta em causa pelos
capitão de indústria: o Fordismo é um sistema de construtores europeus e japoneses.
produção em massa e de consumo em massa, que teve
(e ainda) tem grande impacto na maneira como tra- Toyotismo
balhamos, vivemos e pensamos. Até aos anos 60 a O Sistema Toyota de Produção (Toyota Production
indústria automóvel norte-americana e os seus métodos System – TPS) tem sido, mais recentemente, referen-
baseados no taylorismo-fordismo reinaram sem con- ciado como Sistema de Produção Enxuta. A produção
testação. A partir de 1970, dá-se início a um processo de enxuta (do original em inglês, lean) é um sistema de pro-
reestruturação tanto espacial como organizacional. His- dução muito mais eficiente, flexível, ágil e inovador do
toricamente, foi graças ao taylorismo-fordismo que que a produção em massa; um sistema habilitado a
o automóvel se tornou um produto de consumo de enfrentar melhor um mercado em constante mudança.
massas ou pelo menos ao alcance da classe média, A Toyota entrou na indústria automobilística, es-
e inclusive dos operários que o fabricavam, graças ao pecializando-se em caminhões para as forças armadas,
seu baixo preço, aos salários elevados e às próprias mas com o firme propósito de entrar na produção em
facilidades de crédito introduzidas pela administração da larga escala de carros de passeio e caminhões comer-
Ford Motor Company. ciais. No entanto, o envolvimento do Japão na II
A intensificação do ritmo de trabalho, graças Guerra Mundial adiou as pretensões da Toyota.
à especialização, parcelarização e individualização das Com o final da II Grande Guerra em 1945, a Toyota
tarefas em linhas de montagem mecanizadas, permitiu retomou os seus planos de tornar-se uma grande monta-
um considerável aumento da produtividade, e, por con- dora de veículos. No entanto, qualquer análise menos
seguinte o abaixamento dos custos de produção. pretensiosa indicava que a distância que a separava dos
Com uma produção anual de quase 250 mil unidades, grandes competidores americanos era simplesmente
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Ford consegue baixar o preço do seu modelo T para monstruosa. Costumava-se dizer, há esta época,
os 500 dólares. Comercialmente, o modelo T foi uma que a produtividade dos trabalhadores americanos
história de sucesso: venderam-se mais de 15 milhões de era aproximadamente dez vezes superior à produtivi-
carros deste tipo até 1927. dade da mão de obra japonesa. Esta constatação serviu
Henry Ford surpreendeu o mundo ao anunciar, em para “acordar” e motivar os japoneses a alcançar a indús-
1914, um salário mínimo de US$ 5 por dia, quando nos tria americana, o que de fato aconteceu anos mais tarde.
Estados Unidos a média salarial era de US$ 2,34 por uma O fato da produtividade americana ser tão superior
jornada de nove horas. Fez mais: instituiu a jornada de à japonesa chamou a atenção para a única explicação

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razoável: A diferença de produtividade só poderia ser O Just in time
explicada pela existência de perdas no sistema de produ- Outra inovação japonesa tem sido implantada em
ção japonês. A partir daí, o que se viu foi a estruturação todo o mundo; o Just in time – “tempo justo”, que de-
de um processo sistemático de identificação e elimina- termina que nada deve ser produzido, transportado ou
ção das perdas. comprado antes da hora exata. Pode ser aplicado em
O sucesso do sistema de produção em massa For- qualquer organização, para reduzir estoques e os
dista inspirou diversas iniciativas em todo o mundo. A custos decorrentes. As atividades diárias da fábrica são
Toyota Motor Company. tentou por vários anos, sem programadas em função das demandas: quanto produ-
sucesso, reproduzir a organização e os resultados obti- zir? Qual é a cor preferida? Quem vai querer os acessó-
dos nas linhas de produção da Ford. rios? As respostas, definidas pela rede de distribuição e
A produção em massa precisava de ajustes e melho- vendas, desencadeiam a produção. Assim, o capital não
rias de forma a ser aplicada em um mercado discreto e fica empatado nos depósitos da indústria, aguardando
de demanda variada de produtos, como era o caso do as vendas, e pode se reproduzir no sistema financeiro
mercado japonês. Os trabalhadores eram sub-utilizados, voltado à produção quando preciso.
as tarefas eram repetitivas além de não agregar valor, Com este sistema, o produto ou matéria prima che-
existia uma forte divisão (projeto e execução) do traba- ga ao local de utilização somente no momento exato
lho, a qualidade era negligenciada ao longo do processo em que for necessário. Os produtos somente são
de fabricação e existiam grandes estoques intermediá- fabricados ou entregues a tempo de serem vendidos
rios. ou montados.
A Toyota começou a receber o reconhecimento mun- O conceito de just in time está relacionado ao de pro-
dial a partir do crise do petróleo de 1973; ano em que o dução por demanda, onde primeiramente vende-se o
aumento vertiginoso do preço do barril de petróleo afe- produto para depois comprar a matéria prima e
tou profundamente toda a economia mundial. Em meio posteriormente fabricá-lo ou montá-lo.
a milhares de empresas que sucumbiam ou enfrenta- Nas fábricas onde está implantado o just in time o
vam pesados prejuízos, a Toyota Motor Company. emer- estoque de matérias primas é mínimo e suficiente para
gia como uma das pouquíssima empresas a escaparem poucas horas de produção. Para que isto seja possível, os
praticamente ilesas dos efeitos da crise. Este fenômeno fornecedores devem ser treinados, capacitados e conec-
despertou a curiosidade de organizações no mundo in- tados para que possam fazer entregas de pequenos lotes
teiro: Qual o segredo da Toyota?!!! na frequência desejada.
Na verdade, a essência do Sistema Toyota de Pro- A redução do número de fornecedores para o mínimo
dução é a perseguição e eliminação de toda e qualquer possível é um dos fatores que mais contribui para alcan-
perda. É o que na Toyota se conhece como princípio do çar os potenciais benefícios da política just in time.
não-custo. Este princípio baseia-se na crença de que a Esta redução, gera, porém, vulnerabilidade em even-
tradicional equação Custo Lucro = Preço, deve ser subs- tuais problemas de fornecimento, já que forne-
tituída por Preço - Custo = Lucro Segundo a lógica tra- cedores alternativos foram excluídos. A melhor maneira
dicional, o preço era imposto ao mercado como re- de prevenir esta situação é selecionar cuidadosamente
sultado de um dado custo de fabricação somado a os fornecedores e arranjar uma forma de proporcio-
uma margem de lucro pretendida. Desta forma, era nar credibilidade dos mesmos de modo a assegurar a
permitido ao fornecedor transferir ao cliente os custos qualidade e confiabilidade do fornecimento. Um dos ca-
adicionais decorrentes da eventual ineficiência de seus sos em que esta redução trouxe resultados negativos foi
processos de produção. depois do terremoto que devastou o Japão em março de
Com o acirramento da concorrência e o surgimento 2011, quando muitas indústrias (inclusive as montadoras
de um consumidor mais exigente, o preço passa a ser da Toyota) ficaram sem fornecimento de matérias-pri-
determinado pelo mercado. Sendo assim, a única for- mas por meses, afetando também a produção em outras
ma de aumentar ou manter o lucro é através da redu- plantas ao redor do mundo. Os grandes fornecedores da
ção dos custos. montadora também compravam suas matérias- primas
Na Toyota, a redução dos custos através da elimina- de poucos pequenos fornecedores, o que contri-
ção das perdas passa por uma análise detalhada da ca- buiu para que toda a cadeia de suprimentos ficasse
deia de valor, isto é, a sequência de processos pela qual concentrada na dependência de poucas fábricas, agra-
passa o material, desde o estágio de matéria-prima até vando ainda mais o problema neste episódio do Japão.
ser transformado em produto acabado.
A urgência na redução dos custos de produção fez Tipos de indústrias
com que todos os esforços fossem concentrados na A preponderância de um fator ou de outro na alo-
identificação e eliminação das perdas. Esta passou a ser cação industrial vai depender do tipo de indústria a ser
a base sobre a qual está estruturado todo o sistema de analisada. As indústrias de bens de produção - também
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gerenciamento da Toyota Motor Company chamadas indústrias de base, pesadas ou intermediárias


O objetivo da Toyota é atender da melhor -, por transformarem grandes quantidades de matérias-
maneira as necessidades do cliente, fornecendo -primas ou de energia (como é o caso das side-
produtos e serviços da mais alta qualidade, ao mais bai- rúrgicas, das metalúrgicas, das petroquímicas e das
xo custo e no menor time possível. Tudo isso enquanto indústrias de cimento), tendem a se localizar perto
assegura um ambiente de trabalho onde segurança e de fontes fornecedoras ou de portos e ferrovias, o que
moral dos trabalhadores constitua-se em preocupação facilita a recepção de matérias-primas e o escoamento
fundamental da gerência. da produção.

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As indústrias de bens de capital (como as de máqui- Industrialização brasileira
nas e equipamentos) têm um papel fundamental: equi- A industrialização no Brasil foi historicamente tardia
par outras indústrias, leves ou pesadas, sem o que seria ou retardatária. Enquanto na Europa se desenvolvia a Pri-
impossível a produção de bens para um amplo mercado meira Revolução Industrial, o Brasil vivia sob o regime de
consumidor. Essas indústrias tendem a se localizar per- economia colonial.
to de empresas consumidoras de seus produtos, ou seja, A metrópole portuguesa proibia o desenvolvimento
em grandes regiões industriais. da manufatura e da indústria, especialmente por dois
Chegamos, por fim, àquelas indústrias mais espalha- motivos:
das espacialmente, no plano nacional e internacional, • os produtos iriam concorrer com o comércio do rei-
que se instalam preferencialmente nos lugares onde há no;
maior disponibilidade de mão de obra e maior faci- • a colônia poderia se tornar independente, o que não
lidade de acesso ao mercado consumidor. Graças à interessava à metrópole.
melhoria dos sistemas de transporte, elas encontram-se Em 1808, com a vinda da família real para o Brasil, o
localizadas em grandes, médios e pequenos centros ur- regente D. João tomou algumas medidas que favorece-
banos ou mesmo na zona rural de diversos países. Trata- ram o desenvolvimento industrial, entre elas:
-se das indústrias de bens de consumo ou leves, os quais • a extinção da lei que proibia a instalação de indús-
podem ser não-duráveis (alimentos, bebidas, remédios trias de tecidos na colônia;
etc.), semiduráveis (vestuário, calçados etc.) ou durá- • liberação da importação de matéria prima para
veis (móveis, eletrodomésticos, automóveis, apare- abastecer as fábricas, sem a cobrança da taxa de impor-
lhos eletrônicos etc.). A produção, portanto, destina-se a tação.
um mercado consumidor mais amplo: ao abastecimen- Essas medidas não surtiram o efeito esperado, pois o
to da população em geral. mercado interno ainda era pequeno.
Estados e governos estavam ligados a pessoas que
As consequências da Revolução Industrial desenvolviam atividades agropecuárias exportadoras e a
A partir da Revolução Industrial o volume de pro- preocupação era expandir a produção de café, de onde
dução aumentou extraordinariamente: a produção de provinha a riqueza e o poder.
bens deixou de ser artesanal e passou a ser maqui- Dessa forma o Brasil chegou ao fim do século XIX
nofaturada; as populações passaram a ter acesso a bens sem completar sua primeira Revolução Industrial, que só
industrializados e deslocaram-se para os centros urbanos ocorreu em 1930, cem anos depois da que ocorreu na
em busca de trabalho. As fábricas passaram a concentrar Inglaterra.
centenas de trabalhadores, que vendiam a sua força de
trabalho em troca de um salário. Fatores da Industrialização no Brasil
Outra das consequências da Revolução Industrial Vários fatores contribuíram para o processo de indus-
foi o rápido crescimento econômico. Antes dela, o trialização no Brasil:
progresso econômico era sempre lento (levavam sé- • a exportação de café gerou lucros que permitiram o
culos para que a renda per capita aumentasse sensi- investimento na indústria;
velmente), e após, a renda per capita e a população • os imigrantes estrangeiros traziam consigo as técni-
começaram a crescer de forma acelerada nunca antes cas de fabricação de diversos produtos;
vista na história. Por exemplo, entre 1500 e 1780 a • a formação de uma classe média urbana consumi-
população da Inglaterra aumentou de 3,5 milhões para dora, estimulou a criação de indústrias;
8,5, já entre 1780 e 1880 ela saltou para 36 milhões, devi- • a dificuldade de importação de produtos industria-
do à drástica redução da mortalidade infantil. lizados durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
A Revolução Industrial alterou completamente a estimulou a indústria.
maneira de viver das populações dos países que se in- A passagem de uma sociedade operária para uma ur-
dustrializaram. As cidades atraíram os camponeses e bano industrial, mudou a paisagem de algumas cidades
artesãos, e se tornaram cada vez maiores e mais impor- brasileiras, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro.
tantes.
Na Inglaterra, por volta de 1850, pela primeira vez em A Indústria e Getúlio Vargas
um grande país, havia mais pessoas vivendo em cidades O primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) foi
do que no campo. Nas cidades, as pessoas mais pobres decisivo para a industrialização brasileira.
se aglomeravam em subúrbios de casas velhas e descon- Ele conseguiu tecnologia e financiamento dos Esta-
fortáveis, se comparadas com as habitações dos países dos Unidos para a construção da Companhia Siderúrgica
industrializados hoje em dia. Mas representavam uma Nacional (CSN), em Volta Redonda, Rio de Janeiro, que só
grande melhoria se comparadas às condições de vida começou a produzir em 1947.
PROVA DE GEOGRAFIA

dos camponeses, que viviam em choupanas de palha. Outras usinas foram implantadas posteriormente,
Convivia com a falta de água encanada, com os ratos, o abrindo novos caminhos para a industrialização.
esgoto formando riachos nas ruas esburacadas. De 1930 a 1955 se desenvolveu setores da indústrias
O trabalho do operário era muito diferente do tra- de bens de consumo não duráveis (calçados, roupas, ali-
balho do camponês: tarefas monótonas e repetitivas. A mentos etc.) e duráveis (móveis, automóveis, etc.).
vida na cidade moderna significava mudanças inces- Entre os anos de 1956 a 1980 ocorreu a implantação
santes. A cada instante, surgiam novas máquinas, novos de setores mais diversificados de bens intermediários
produtos, novos gostos, novas modas. (autopeças para montadoras).

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Polos Tecnológicos do Brasil Considerando-se que a agricultura é a atividade eco-
No Brasil, um dos principais polos tecnológicos co- nômica mais antiga da sociedade e que, quando de sua
meçou a se formar no início da década de 50, no municí- sistematização, a Geografia surge em meio a uma
pio de São José dos Campos, onde foi instalado o Institu- sociedade agrária, na qual o econômico era o rural e
to Tecnológico da Aeronáutica (ITA). o tipo de organização espacial mais visível e dominante
Na década seguinte, instalou-se o Instituto Nacional era a rural, a ênfase nos estudos rurais foi, de certa forma,
de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pela constru- natural.
ção de satélites espaciais.
O Porto Digital, criado em 2002, com investimentos Pensar o agro do ponto de vista geográfico
do Governo do Estado de Pernambuco, de empresas A Geografia Agrária apresenta uma história muito
privadas do setor de TI e de universidades locais, abri- particular no tocante ao desenvolvimento da Geografia:
ga centenas de empresas do ramo de tecnológico. Todas conhecer a superfície da terra e detectar as formas de
são voltadas para o desenvolvimento de software para exploração (cultivos, técnicas) aparece como a primeira
gestão empresarial, soluções para o mercado financeiro, forma de analisar a agricultura.
para a área de saúde, etc. Definida como atividade econômica praticada pelo
No local estão instaladas a Microsoft, IBM, Sansung, homem e que visa à produção de alimentos e ma-
Motorola entre outras. Foi reconhecido pela A. T. Kearney téria-prima, assim como o extrativismo vegetal e a
como o maior polo tecnológico do Brasil. pesca, a agricultura é tema bastante antigo da Geo-
Nas universidades brasileiras formaram-se também grafia. Sem constituir propriamente uma escola, o estu-
centros de pesquisa ou polos tecnológicos em vários ra- do da agricultura dá- se em um contexto no qual ela é
mos do conhecimento. considerada um elemento da paisagem e, portanto, de
Além desse, vários outros foram sendo criados, como interesse de cronistas e viajantes mais que (propriamen-
a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embra- te) de geógrafos.
pa), o Instituto Adolfo Lutz, A Fundação Oswaldo Cruz Merece destaque os trabalhos de Sebastião Fer-
etc. reira Duarte, que foi o primeiro a se preocupar
Percebe-se no Brasil uma concentração da atividade em entender a lógica do comportamento da agricultura
industrial na Região Sudeste. Após a Segunda Guerra brasileira. Nele, Duarte procurou comprovar que a abo-
Mundial, o crescimento industrial de São Paulo ocorreu
lição do tráfico de negros não provocou a queda da
no chamado ABCD paulista (Santo André, São Bernardo
produção agrícola brasileira, já que a absorção da
do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), tendo como
mão-de-obra agrícola pela grande exploração ocor-
base a indústria automobilística estrangeira, durante o
ria em detrimento das culturas de subsistência.
governo de Juscelino Kubitschek.
Até a década de 1930, a literatura de interesse geo-
Durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, a existência
gráfico pode ser enquadrada em quatro fases. A primeira,
de programas de industrialização expandiu a industria-
lização para as regiões Norte, Nordeste, Sul e Centro- até a metade do século XVIII, é representada por traba-
-Oeste. lhos de cunho não-científico efetuados por cronistas,
aventureiros e comerciantes que, em crônicas e re-
Espaço agrário latórios, se preocupavam com a descrição dos homens e
O estudo da relação homem-natureza acompanha o da terra.
desenvolvimento da Geografia desde a sua origem. A A segunda fase, que compreende a primeira metade
análise das regularidades na localização do homem e do século XIX, foi marcada pela vinda de viajantes es-
de suas atividades procurou desvendar sempre a lógica trangeiros, os quais objetivavam conhecer diferentes
dessa distribuição sobre a superfície terrestre. áreas do país, observando e colhendo informações e
Se essa distribuição tem implícita uma variação no material para estudos.
espaço, objeto de estudo da Geografia, ela apresenta Compreendendo o período Imperial e a Primeira
também uma lógica temporal, ou seja, a relação homem- República, na terceira fase diferentes cientistas visita-
-natureza varia também no tempo. ram ou viveram no Brasil, “realizando trabalhos de cam-
Neste sentido, a Geografia se preocupa não somente po, levantamentos em áreas em que o governo pretendia
com o espaço, entendido como o local de atuação da investir nos mais diversos misteres. Eram, porém, estudos
sociedade, mas também com a conotação temporal, que esparsos, específicos sobre determinadas áreas ou so-
imprime uma configuração diferenciada, no decorrer do bre determinados problemas e não faziam convergir
tempo, a cada evento geográfico, seja ele um rio, uma para uma reflexão científica mais ampla, mais pura.
fábrica, uma propriedade agrícola, uma cidade. Entender Já em fins do século XIX e início do XX, na quarta fase,
e caracterizar os eventos geográficos também variou no alguns trabalhos de cunho literário demonstraram a
tempo e as mudanças nas formas de interpretar preocupação em estudar o processo de conquista
PROVA DE GEOGRAFIA

o espaço e as distribuições espaciais determinaram e ocupação do território brasileiro. São autores como
conjuntos de procedimentos e de temáticas distintos. Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha e Joaquim Na-
Nessa perspectiva, o interesse geográfico pelo es- buco, que escreveram demonstrando compromisso com
tudo do meio rural desenvolveu-se de forma bastante a Geografia como ciência (Andrade, 1994).
particular e alcançou um papel de destaque no con- A Geografia Agrária brasileira se desenvolveu
texto da ciência geográfica, sendo contemporâneo ao seguindo uma trajetória de influências oferecidas
desenvolvimento da Geografia Científica do século XIX e pela própria realidade e pelas mudanças paradigmáticas
início do XX. que determinaram os temas de estudo e as formas de

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estudá-los. Alguns geógrafos, além de preocupar-se tribuição dos eventos agrícolas; a Geografia Econômica,
com o estudo da realidade propriamente dita, efe- com a produção e o transporte dos cultivos; e a Geogra-
tuaram a discussão e a sistematização teórica desse fia Social, com o tratamento dos agrupamentos huma-
campo de conhecimento, dentro da Geografia. nos e das civilizações envolvidas com o trabalho da terra.
É possível percebermos que definir Geografia Agrária Outro autor que trata da Geografia Agrária na
não foi tarefa fácil para aqueles que a isto se propuseram. década de 1950 é Erich Otremba (1955). Segundo este
Uma das dificuldades principais esteve no fato de a Geo- estudioso, a economia agrária e a economia industrial
grafia Agrária ter como objeto uma atividade estudada estão interligadas, mas devem ser consideradas de for-
também por outras ciências. ma distinta. A economia agrária está submetida à ação
O estudo geográfico da agricultura foi realizado ao dos fatores naturais e sua variedade é resultado da
longo do tempo por diferentes enfoques que produziram dependência das características geográficas, con-
uma diversidade de definições, as quais refletiam o modo trariamente à economia industrial. Assim, Otremb fala
da existência de um método agrogeográfico e de outro
de pensar do momento. Assim, em princípio, a Geografia
industrial-geográfico.
Agrária era desenvolvida como “parte” da Geografia Eco-
As colocações de Otremba revelam dois aspectos
nômica, e os estudos econômicos em Geografia tinham,
importantes: primeiro, a função determinista, que o au-
na agricultura, seu foco principal. tor estabelece para o meio físico com relação à agricultu-
Apesar disso, a denominação Geografia Agrária não ra. Em seguida, a análise comparativa que traça entre a
era adequada, considerando-se que o conteúdo destes Geografia Agrária e a Industrial, buscando definir o papel
estudos voltava-se, prioritariamente, para a análise da de cada uma.
produção agrícola, da distribuição dos cultivos e pouca Fica evidente no trabalho deste autor a dife-
importância era dedicada às questões sociais. renciação de ramos que deveria compor os estudos
Entre as décadas de 1930 e 1940 a prioridade era geográficos. Como dissemos anteriormente, nos anos 50,
dada aos estudos econômicos que tinham na agricultu- a referência à indústria e à cidade passa a fazer parte dos
ra o interesse principal. A hegemonia da agricultura estudos de Geografia, e Otembra destaca tal fato quando
fez com que não houvesse necessidade de definir diferencia economia industrial e economia agrária.
um campo de estudo específico. O papel prioritário Podemos dizer que o geógrafo (agrário) estava preo-
desempenhado pela atividade agrícola, no período, co- cupado em estudar a atividade agrícola evidenciada na
locou-a como temática principal dos trabalhos. paisagem e distribuída distintamente pela superfície da
A partir da década de 1950, o desenvolvimento terra em função dos condicionantes naturais, dos sis-
do sistema urbano-industrial e a concretização da di- temas econômicos (sistemas de cultivos) e da popula-
visão social do trabalho colocaram a cidade e a indústria ção (hábitat, modo de vida). Esta é a Geografia Agrária
como precursores de uma nova realidade econômica. da década de 1950: imprecisa quanto à sua definição,
A complexidade das relações que se estabeleceram representativa como campo de interesse e numerosa
levou à necessidade de definição de novos campos, quanto à produção científica.
e a agricultura, de hegemônica, passou a ser coad- Para a década de 1970, grandes mudanças revelam
juvante num sistema econômico constituído por muitos um objeto de estudos modificado. O processo de mo-
elementos ou partes. A agricultura é uma delas. Então, dernização da agricultura levou ao campo novas for-
consequentemente, surgiram novos ramos do conheci- mas de produzir, relações de trabalho mais apropriadas
mento, sendo necessária a definição exata do cam- à lógica do sistema capitalista, numa situação na qual a
indústria passa a ser produtora de insumos para a agri-
po de estudos de cada um. A Geografia Econômica
cultura e consumidora de bens agrícolas.
preocupa-se com a análise estatística e quantitativa da
Um cenário de transformações também é sentido
atividade agrícola, estudando o volume de produção, o
no ambiente acadêmico pelas mudanças metodológicas
emprego dos produtos e a circulação. que ocorrem no meio científico da Europa e da América
Seguindo a mesma tendência em definir papel anglo-saxônica. No Brasil, os estudiosos começam a dis-
específico para a Geografia Agrária e a Geografia Eco- cutir o assunto e algumas tendências são projetadas. Os
nômica define-se poeticamente o objeto da Geografia trabalhos ligados especificamente à definição e à expli-
Agrícola: o “milagre anual da colheita sempre renovada, cação da Geografia Agrária demonstram preocupação
que é, no fundo, o próprio milagre da vida, repetido ao com a definição de uma nova ordem teórico-metodo-
infinito em todos os campos do mundo, entre os homens lógica que responda ao conteúdo e à natureza da
negros, debaixo do sol dos Trópicos e até além do círculo atividade agrícola, praticada sob nova lógica, em conso-
polar em certos pontos”. nância com as diretrizes do novo paradigma geográfico.
A prioridade, como observamos, é dada à descri- Embora as paisagens do campo e das cidades sejam
ção e à distribuição dos diferentes fatos agrícolas que diferentes, ambas acabam por formar uma só reali-
ocorrem no mundo. “Compete à Geografia econômica dade, comandada é claro pelo meio urbano, que é o
PROVA DE GEOGRAFIA

calcular as colheitas das diversas partes do mundo, centro do controle econômico, social e político.
proceder às classificações de produtores e consumi- Talvez seja esta pista que nos leve a justificar uma
dores, definir as correntes de transporte dos produtos mudança de abordagem do espaço agrário. Entretan-
agrícolas”. to, o que é evidente é a perda de hegemonia da ativida-
Assim, encontramos uma diferenciação importante de agrícola, fundamental em outros períodos. Por outro
nas colocações de Pierre George, definindo, para o es- lado, as diferenciações espaciais, as diversas formas de
tudo dos aspectos agrícolas, três campos diferentes. A organização do espaço agrário persistiram e deveriam
Geografia Agrícola, preocupada com a descrição e a dis- ser a prioridade dos estudos sobre a atividade agrícola.

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A representação, a seguir, que designamos por A escolha da agricultura como “meta prioritária” do
Síntese da Geografia Agrária Brasileira, resume o que governo reaviva as discussões que se travam em torno
consideramos fundamental para concluir a discussão da do conteúdo político e social das transformações que
questão da periodização na Geografia Agrária. Temos se operaram no campo brasileiro nas duas últimas dé-
aqui então resumida a história da Geografia Agrária Na- cadas. Nem mesmo a tão anunciada “super-safra” - que
cional. não chegou a ser tão “super” assim - consegue esconder
o “ressurgimento da questão agrária”, como parte dos
A questão agrária brasileira temas mais polêmicos do momento.
O debate sobre o que se convencionou chamar “A Evidentemente não é bem um “ressurgimento da
Questão Agrária no Brasil” vem se intensificando nos úl- questão agrária”, pois ela não foi resolvida anteriormen-
timos anos. te. De um lado, ela havia sido esquecida ou deixara de ser
Não é, entretanto, a primeira vez que esse tema é um tema da moda da grande imprensa. Do outro lado -
discutido entre nós. Na verdade, essa polêmica já polari- da parte daqueles que não a podiam esquecer, porque a
zou grande parte dos debates também em outras épo- questão agrária faz parte da sua vida diária, os trabalha-
cas da vida nacional. Na década de trinta, por exemplo, dores rurais - ela fora silenciada. Para isso foi necessário
essa discussão girava em torno da crise do café e fechar sindicatos, prender e matar líderes camponeses,
da grande depressão iniciada com a quebra da Bolsa de além de outra série de violências que todos conhecem
Nova Iorque em 1929. ou pelo menos imaginam.
Já no final dos anos cinquenta e início dos anos ses- Esse próprio “ressurgimento” serve para ilus-
senta, a discussão sobre a questão agrária fazia parte da trar um ponto fundamental para poder confundir a
polêmica sobre os rumos que deveria seguir a industria- questão agrária e a questão agrícola o grande economis-
lização brasileira. ta brasileiro Ignácio Rangel já havia alertado sobre isso
Argumentava-se então que a agricultura brasileira desde 1962. Dizia ele que o setor agrícola à medida
- devido ao seu atraso - seria um empecilho ao de- que avançasse a industrialização do país, teria que:
senvolvimento econômico, entendido como sinônimo da a) aumentar a produção, para fornecer às indústrias
industrialização do país. nascentes matérias-primas, e às pessoas das cidades os
alimentos;
Esse diagnóstico vinha reforçado pela crise da eco-
b) liberar a mão-de-obra necessária para o processo
nomia brasileira, particularmente no período 1961/67.
de industrialização;
Depois de 1967, até 1973, o país entrou numa fase de
Se a produção agrícola não crescesse no ritmo, neces-
crescimento acelerado da economia.
sário, configurar-se-ia então uma crise agrícola: faltariam
Nesse período, que ficou conhecido como o do
alimentos e/ou matérias-primas, o que inviabilizaria a
“milagre brasileiro”, pouco se falou da questão agrá-
continuidade do processo de industrialização. Por outro
ria. Em parte porque a repressão política não deixava
lado, se a agricultura liberasse muita ou pouca mão-
falar de quase nada. Mas em parte também porque mui- -de-obra em função das quantidades exigidas para a
tos achavam que a questão agrária tinha sido resolvida expansão industrial, configurar-se-ia uma crise agrária
com o aumento da produção agrícola ocorrido no pe- traduzida por uma urbanização exagerada ou deficiente.
ríodo do milagre. Embora todos reconhecessem que Essa separação entre questão agrária e questão
esse aumento vinha beneficiando os então chamados agrícola é apenas um recurso analítico.
“produtos de exportação” (como o café, a soja, etc.), Evidente que na realidade objetiva dos fatos não se
em detrimento dos chamados “produtos alimentícios” pode separar as coisas em compartimentos estanques,
(como o feijão, arroz, etc.), contra- argumentavam ou seja, a questão agrária está presente nas crises agríco-
alguns que isso era um desajuste passageiro que logo se las, da mesma maneira que a questão agrícola tem suas
normalizaria. Outros diziam ainda que não haveria pro- raízes na crise agrária. Portanto, é possível verificar que
blema se pudéssemos continuar exportando soja - que a crise agrícola e a crise agrária, além de internamente
era mais lucrativa - e, com os recursos obtidos, comprar relacionadas, muitas vezes ocorrem simultaneamente.
o feijão de que necessitávamos. Mas o importante é que isso não é sempre necessário.
Mas o “milagre” acabou. Passada a euforia inicial, Pelo contrário muitas vezes a maneira pela qual se resol-
muitos começaram a se dar conta de que os frutos do ve a questão agrícola pode servir para agravar a questão
crescimento acelerado do período 1967/73 tinham be- agrária.
neficiado apenas uma minoria privilegiada. E, entre os Em poucas palavras, a questão agrícola diz respei-
que tinham sido penalizados, estavam os trabalhadores to aos aspectos ligados às mudanças da produção em
em geral, e, de modo particular, os trabalhadores rurais. si mesma: o que se produz, onde se produz e quanto se
De 1974 em diante a economia brasileira deixa produz. Já a questão agrária esta ligada às transforma-
de apresentar os elevados índices de crescimento do ções nas relações sociais e trabalhistas produção: como
PROVA DE GEOGRAFIA

período anterior, e no triênio 1975/77 começa a se se produz, de que forma se produz.


delinear claramente outra situação de crise. No equacionamento da questão agrícola as variá-
É muito interessante observar que em 1978 muitas veis importantes são as quantidades e os preços dos
coisas voltam a ser discutidas, com o início de uma re- bens produzidos. Os principais indicadores da ques-
lativa abertura política no país. E, entre elas, retoma-se tão agrária são outros: a maneira como se organiza o
com pleno vigor o debate sobre a questão agrária, nova- trabalho e a produção; Qualidade de renda e emprego
mente dentro do contexto mais geral das crises do siste- dos trabalhadores rurais, a progressividade das pessoas
ma econômico capitalista. ocupadas no campo, etc.

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A força com que a questão agrária brasileira res- A tecnologia adotada é apropriada aos interesses do
surge hoje não advém apenas da maior liberdade com grande capitalista contra aos dos pequenos produtores.
que podemos discuti-la. Mas também do fato de que ela Mas isso não é próprio do sistema capitalista. É im-
vem sendo agravada pelo modo como têm se expandido portante voltar a lembrar que o objetivo das transforma-
as relações capitalistas de produção no campo. Em ou- ções capitalistas na agricultura (como em toda a eco-
tras palavras, a maneira como o país tem conseguido nomia é o de aumentar a produtividade do trabalho.
aumentar a sua produção agropecuária tem causado Isto é, fazer com que cada pessoa possa produzir mais,
impactos negativos sobre o nível de renda e de emprego durante o tempo em que está trabalhando. No sistema
da sua população rural. capitalista, quando o trabalhador produz mais, quem ga-
E a crise agrária brasileira já estava desde o início dos nha é o patrão. É ele que aumenta seus lucros. Por isso, o
anos sessenta ligada a uma liberação excessiva de po- sistema capitalista acumula riqueza de um lado e miséria
pulação rural. Eram milhares de pequenos camponeses de outro.
que, expulsos do campo, não conseguiam encontrar tra- Mas a elevação da produtividade do trabalho é fun-
balho produtivo nas cidades e daí os crescentes índices damental em qualquer sociedade. Numa sistema econô-
de migrações, de subemprego, para não falar na men- mico socialista, onde o trabalhador é o dono dos frutos
dicância, prostituição e criminalidade das metrópoles do seu próprio trabalho. Aí, quando uma pessoa produzir
brasileiras. mais por dia de serviço, ela ganhará mais e poderá in-
O fato é que a expansão da grande empresa ca- clusive trabalhar menos dias por ano, se isso for conve-
pitalista na agropecuária brasileira nas décadas de ses- niente para todos. É claro que, num sistema desse tipo,
senta e setenta foi ainda muito mais acelerado que em muitas tecnologias adotadas no capitalismo terão que
períodos anteriores. E essa expansão destruiu outros mi- ser abandonadas. Afinal, o objetivo não será mais au-
lhares de pequenas unidades de produção, onde o tra- mentar os lucros dos grandes capitais, mas promover o
balhador rural obtinha não apenas parte da sua própria bem-estar dos trabalhadores.
alimentação, como também alguns produtos que vendia Ocupação da terra no Brasil e a formação dos com-
nas cidades. É essa mesma expansão que transfor- plexos agroindustriais no Brasil
mou o colono em bóia-fria, que agravou os conflitos Do total de 850 milhões de hectares (8,5 milhões de
entre grileiros e posseiros, fazendeiros e índios, e quilômetros quadrados) do território brasileiro, 418,5
que concentrou ainda mais a propriedade da terra. milhões são ocupados por 4,3 milhões de fazendas
Falamos a pouco das transformações que a ex- e sítios. A maioria desses imóveis – 3,9 milhões – é
pansão do capitalismo no campo provoca sobre a de pequenas propriedades, que ocupam apenas 27% da
produção agropecuária. Mas qual é o sentido dessas área produtiva do país. Por outro lado, cerca de 112,5
transformações? mil propriedades rurais (2,6%) são latifúndios – ocupam
Com o desenvolvimento da produção capitalista na 214,8 milhões de hectares, ou seja, mais da metade das
agricultura (ou seja, nas transformações que o capital terras. Esses índices fazem do Brasil um dos campeões
provoca na atividade agropecuária), tende a haver mundiais de concentração de terras – um problema que
um maior uso de adubos, de inseticidas, de máquinas, persiste desde os tempos de colônia e só pode ser resol-
de maior utilização de trabalho assalariado, o cultivo vido com uma reforma agrária.
mais intensivo da terra, etc. Em resumo, a produção se A concentração fundiária no Brasil remota à criação
torna mais intensiva sob o controle do capital. das capitanias hereditárias, no início da colonização por-
Quer dizer, o sentido das transformações capitalistas tuguesa, no século XVI. Àquela época, a monocultura da
é elevar a produtividade do trabalho. cana para exportação era um bom negócio para a Coroa
Isso significa fazer cada pessoa ocupada no setor Portuguesa e ocupava boa parte das terras desbravadas.
agrícola produzir mais, o que só se consegue au- A produção de alimentos – inclusive para a subsistência
mentando a jornada e o ritmo de trabalho das dos próprios moradores das fazendas – ficava relegada
pessoas, e intensificando a produção agropecuária. a segundo plano. As pequenas áreas em que se permitia
E para conseguir isso o sistema capitalista lança mão dos plantar eram constantemente deslocadas para dar lugar
produtos da sua indústria: adubos, máquinas, defensi- a novas áreas de cultivo de cana. A precariedade dessa
vos, etc. Ou seja, o desenvolvimento das relações agricultura familiar causava problemas crônicos de abas-
de produção capitalistas no campo se faz “industriali- tecimento.
zando” a própria agricultura. O ciclo do ouro trouxe certo fôlego para a produção
Essa industrialização da agricultura é exatamen- de alimentos. Mas não o suficiente para regularizar a
te o que se chama comumente de penetração ou posse da terra e dinamizar o setor agrícola não expor-
“desenvolvimento do capitalismo no campo”. O impor- tador. Tanto que, no fim do século XVIII, a ocupação do
tante de se entender é que é dessa maneira que as bar- território colonial se mesclava ainda à política de doação
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reiras impostas pela Natureza à produção agropecuária por meio de sesmarias. Daí surgiram os latifúndios es-
vão sendo gradativamente superadas. Como se o siste- cravistas. Não havia legislação que possibilitasse dizer
ma capitalista passasse a fabricar a natureza que fosse quem era ou não proprietário.
adequada à produção de maiores lucros. A confusão perdurou após a independência, mas a
Assim, se uma determinada região é seca, tome lá partir de 1850, os barões do café – cultivo que substituía
uma irrigação para resolver a falta de água; se é um bre- o açúcar como motor da economia agrária – uniram-se
jo, lá vai uma draga resolver o problema do excesso de com dois objetivos: legalizar a posse de terras e garantir
água; se a terra não é fértil, aduba-se e assim por diante. a continuidade do fornecimento de mão-de-obra para

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nelas trabalhar. Com a perspectiva da iminente abolição A indústria gradativamente vai assumindo o co-
da escravatura, os cafeicultores só poderiam contar com mando do processo de acumulação de capital: o país
os escravos libertos e os imigrantes para trabalhar como vai deixando de ser “eminentemente agrícola” (como al-
colonos. Para isso, era necessário que essa parcela da guns ainda creem ser a sua “vocação histórica”). Du-
população não tivesse a possibilidade de adquirir as pró- rante essa fase, a industrialzi ação se faz pela
prias terras nem dominá-las. “substituição das importações”: um determinado pro-
No início do século XIX, a extinção do regime duto que era comprado no exterior, passa a ter sua pro-
de sesmarias, aliada à ausência de outra legislação
dução estimulada no país através de barreiras alfandegá-
regulando a posse das terras devolutas, provoca uma
rias, que incluíam desde impostos elevados até a própria
rápida expansão dos sítios de pequenos produtores.
Em meados desse mesmo século. Começou a declinar proibição da importação. Mas vai ficando cada vez mais
o regime escravocrata. Sob pressão da Inglaterra - agora difícil essa substituição. Antes eram tecidos, louças, cha-
interessada num mercado comprador para seus produ- péus; agora são eletrodomésticos, carros, que pre-
tos manufaturados, e não apenas interessada em vender cisam ser produzidos internamente.
escravos - o Brasil proíbe o tráfico negreiro em 1850. E para isso se faz necessário primeiro implantar a
Foi assim que o Império promulgou a Lei de Terras, indústria pesada no país: siderurgia, petroquímica, ma-
que estabelecia a compra e a venda como única for- terial elétrico, etc. - o que é feito no período de 1955/61.
ma de aquisição de qualquer gleba disponível. As Resolvido o problema da indústria, vai-se iniciar o que se
pessoas que já possuíam propriedade recebiam o título poderia chamar industrialização da agricultura.
de posse mediante prova de que residiam e produziam No início dos anos sessenta, que corresponde ao final
na terra. As áreas não ocupadas eram consideradas do da fase de industrialização pesada no Brasil, instalam-se
Estado e só poderiam ser adquiridas por meio de compra no país as fábricas de máquinas e insumos agrícolas. As-
nos leilões mediante o pagamento à vista – o que, é cla-
sim, por exemplo, são implantadas indústrias de tra-
ro, não estava ao alcance dos imigrantes e dos escravos
libertos. tores e equipamentos agrícolas (arados, grades, etc.),
Além de garantir as propriedades dos barões do café fertilizantes químicos, rações e medicamentos veteri-
das regiões Sul e Sudeste e dos latifundiários do Nordes- nários, etc. Evidentemente a indústria de fertilizantes
te, a Lei de Terras abriu brechas para todo tipo de fraude. e defensivos químicos só poderia se instalar depois
Uma consistia em reivindicar uma gleba com base em de constituída a indústria petroquímica; a indústria de
documentos falsificados. Pra dar aparência antiga à pa- tratores e equipamentos agrícolas, depois de implan-
pelada, as escrituras eram trancadas numa gaveta cheia tada a siderurgia; e assim por diante.
de grilos. Corroídos e amarelados por substâncias libera- O importante é que, a partir da constituição desses
das pelos insetos, os documentos pareciam autênticos. ramos industriais no próprio país, a agricultura brasi-
Daí vem o termo grilagem. leira iria ter que criar um mercado consumidor para
O período que vai da proibição do tráfico e da lei de esses “novos” meios de produção. Para garantir a
Terras até a abolição (1850/1888) marca a decadência do ampliação desse mercado, o Estado implementou um
sistema latifundiário-escravista.
conjunto de políticas agrícolas destinadas a incentivar a
Após 1888, começa a se consolidar no país um seg-
mento formado por pequenas fábricas de chapéus, de aquisição dos produtos desses novos ramos da indústria,
louças, de fiação e tecelagem, etc. Essas indústrias ser- acelerando o processo de incorporação de modernas
vem para fortalecer e consolidar vários centros urbanos tecnologias pelos produtores rurais. A industrialização
que antes eram puramente administrativos - cidades sem da agricultura brasileira entrava assim numa outra etapa.
vida própria (quer dizer, sem gerar produtos), como se Mas o desenvolvimento das relações capitalistas
“dizia”: como, por exemplo, São Paulo e Rio de Janeiro. na agricultura tem particularidades em relação ao da
Embora bastante incipiente, esse princípio de industriali- indústria. A principal delas é que o meio de produção
zação - e a consequente urbanização daí decorrente co- fundamental na agricultura a terra - não é suscetível de
meça a provocar várias alterações na produção agrícola. ser multiplicado (reproduzido) ao livre arbítrio do ho-
Consolida-se a produção mercantil de alimentos fora mem, como o são as máquinas e outros meios de produ-
das grandes fazendas de café: Além da produção ção e instrumentos de trabalho.
de alimentos, os pequenos agricultores têm também a É exatamente por ser a terra um meio de produção
possibilidade de produzir matérias primas para as indús-
relativamente não reprodutível - ou pelo menos, mais
trias crescentes (como por exemplo, o algodão, o tabaco,
etc.) uma vez que o latifúndio continua a monopolizar a complicado de ser multiplicado que a forma de sua apro-
produção destinada à exportação - o café. priação histórica ganha uma importância fundamental.
As alterações de preços dessa cultura provocam cri- Desde que a terra seja apropriada privadamente, o
ses periódicas durante o início do século XX, culminando seu dono pode arrogar-se o direito de fazer o que qui-
PROVA DE GEOGRAFIA

em 1932, ano em que se dá o auge dos reflexos da ser com aquele pedaço de chão. Em alguns países,
crise de 29 sobre o setor cafeeiro. como no caso do Brasil, o proprietário de terra tem até
O período que se estende de 1933 a 1955 marca uma mesmo o direito de não utilizá-la produtivamente, isto
nova fase de transição da economia brasileira. Nesse é, deixá-la abandonada, e de impedir que outro a utilize.
período, o setor industrial vai-se consolidando paulati- Por isso é que a estrutura agrária - ou seja, a forma como
namente e o centro das atividades econômicas começa a terra está distribuída - torna-se assim o ‘’pano de
vagarosamente a se deslocar do setor cafeeiro - expor- fundo” sobre o qual se desenrola o processo produtivo
tador. na agricultura.

65
Se fosse fácil fabricar novas terras, pouca importância Com o aumento do valor da terra, a pequena produção
teria a forma de apropriação dos solos criados pela Na- fica fragilizada frente às pressões do capital e, assim, mui-
tureza, quer dizer, dos solos não fabricados. O sistema tos dos seus agricultores foram obrigados a abdicar de
capitalista procura superar essa barreira da limitação suas terras. Muitos deles “optaram” em viver em cidades
dos solos disponíveis fabricando as terras necessárias (estimula-se que trinta milhões de brasileiros deixaram
através da utilização de tecnologias por ele desenvolvi- o campo pela cidade neste período). Uma outra parce-
das. Por exemplo, um determinado pedaço de solo não la deles transforma-se em assalariados permanentes ou
pode ser utilizado porque está inundado, ou porque é temporários nas empresas modernizadas. Uma percen-
muito duro e seco, ou ainda porque tem baixa fertilida- tagem das pequenas propriedades familiares consegue
de e não produz nada. Ora, com o uso de fertilizantes se capitalizar e penetrar no circuito da agroindústria,
de máquinas pode-se fazer a correção desses “defeitos” integrando-se aos CAIs, mas em compensação, perde
através da drenagem, a ração, irrigação, etc. grande parte de sua independência.
Claro que é possível hoje “fabricar terras” ou Na década de 90, chegaram ao poder os pre-
até mesmo produzir alimentos e animais praticamente sidentes Collor de Mello e Cardoso que assumiram
sem usar terra, como, por exemplo, através da agricultura práticas ligadas à doutrina neoliberal. No Governo
hidropônica ou do confinamento. Mas, evidentemente, Collor de Melo, a recessão, desemprego e inflação
isso não aconteceu num passe de mágica, senão atingiram patamares nunca vistos e que não foram debe-
que pressupõe toda uma história do desenvolvimento lados, apesar dos planos econômicos implementados.
das relações de produção capitalistas no campo, e das Já o Governo Cardoso obteve êxito quanto ao contro-
transformações que se operaram entre os vários agentes le da inflação, via Plano Real.
sociais da produção agrícola. Nesta década, o Estado não só perde a sua capacida-
Embora os complexos ou sistemas agroindustriais de de investimento em indústrias de base e em infraes-
(CAIs) no Brasil tenham se conformado de modo mais trutura, como também, vem-se retirando do processo
específico na década de 1970, algumas das raízes da mo- econômico com a política de privatização das estatais.
dernização agrária podem ser encontradas no século XIX. Abriu-se, por outro lado, o mercado brasileiro, até então
As mudanças ligadas às inovações do campo protegido em favor das indústrias existentes no país, ob-
ocorreram sob a lógica, os objetivos e as estratégias jetivando, via concorrência, elevar o padrão de qualidade
do capital, em princípio comercial, em seguida
dos produtos e serviços a preços baixos. A estabiliza-
industrial e, depois, financeiro. Naturalmente, os se-
ção da moeda, indubitavelmente, atraiu ao mercado
tores agrícolas básicos ligados à exportação, sobretudo
consumidor, sobretudo nos produtos de primeira neces-
café, cana de açúcar, e algodão, foram no passado os
sidade, uma parcela da população nacional de baixa ren-
mais susceptíveis na adoção de inovações, tanto a nível
da, ausente do circuito formal da economia.
técnico como nas relações de trabalho.
Em outro patamar, nesta década efetivou-se a
Ligado ao capital comercial, o complexo rural en-
aliança econômica entre os países sul- americanos do
contrava-se atado ao comércio externo através de um
produto valorizado no mercado internacional. As uni- chamado Cone-Sul, constituindo-se num supra-organis-
dades produtoras (fazendas e engenhos/usinas) eram mo, o MERCOSUL, com repercussões diferenciadas na
quase que auto-suficientes. Para realizar a produção vol- economia de todas as nações membros. Esta realida-
tada à exportação, elas se proviam, dentro de suas pos- de, embora muito recente, vem trazendo modificações
sibilidades, de artesanatos e manufaturas e, assim, pro- na esfera econômica e na organização do espaço bra-
duziam equipamentos rudimentares para o trabalho, sileiro, principalmente na região Sul, a mais pró-
bem como insumos simples, além de transporte. Neste xima dos países integrantes no macro- organismo.
contexto, a divisão social do trabalho apresentava-se Tudo indica que haverá a médio e longo prazo
bastante incipiente. É interessante ressaltar que o de- uma maior especialização setorial nas diversas regiões
senvolvimento industrial brasileiro, indutor de mudanças geoeconômicas, em função de sua proximidade, das po-
no setor agropecuário, ao contrário dos países centrais, tencialidades naturais e das vantagens comparativas.
ocorreu sem o substrato da revolução agrícola. Algumas, certamente, ganharão dinamismo enquanto
A efetivação das CAIs realizou-se de modo rápi- outras poderão ficar, até mesmo, marginalizadas
do e intenso pela ação de políticas governamentais
que incentivaram a criação de indústrias de maquinarias Modernização
e insumos básicos, tanto por iniciativa oficial, como par- Medidas de incentivo à demanda por bens industriais
ticular (empresas nacionais e internacionais). têm sido recentemente realizadas pelo governo brasilei-
As firmas multinacionais, algumas já atuando no ro como estímulo ao crescimento econômico. Exemplos
país, acorreram em grande número e passaram a ope- desta prática são as reduções do Imposto sobre Produto
rar, tanto na indústria de base quanto na de processa- Industrializado (IPI) sobre alguns produtos específicos,
PROVA DE GEOGRAFIA

mento, em forma de mono ou oligopólios. O Estado tam- como eletrodomésticos e automóveis. Entretanto, o País
bém cria incentivos ao consumo, via política de crédito é reconhecidamente competitivo na sua produção agro-
subsidiado, difusão de pacotes tecnológicos (revolução pecuária, e políticas de incentivo à demanda dos mes-
verde), facilidade de aquisição de terras, principalmen- mos não têm sido estabeleci-das na mesma magnitude
te nas áreas de fronteiras. daquelas dos produtos industriais. Além disto, faltam in-
A propriedade fundiária desfruta de um intenso centivos à industrialização, como política para aumento
processo de valorização, constituindo-se num bem com do valor adicionado na produção agrícola. Um exemplo
reserva de valor, acentuando a concentração fundiária. característico deste fato é representado por um dos se-

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tores agrícolas de maior expressão do País: setor de soja. trabalho analisou também o impacto na produção das
Na década de 2000, o Brasil exportou, em valores mone- principais carnes produzidas no País: bovina, suína e de
tários, cerca de 5 vezes mais soja em grão do que óleo frango. Já para os setores não agrícolas foram conside-
de soja, que é um dos produtos originados da industria- rados: “refino do petróleo e coque”; “fabricação de aço e
lização deste grão. Além disto, considerando-se os últi- derivados” e “máquinas, aparelhos e materiais elétricos”
mos 20 anos, a taxa anual de crescimento do valor das por serem, dentre os setores não agrícolas, aqueles com
exportações de grão de soja foi de 13%, contra apenas altos valores na produção nacional, e “eletrodomésticos”,
7% de crescimento anual no valor das exportações do “material eletrônico” e “automóveis, camionetas e uti-
óleo (FAO, 2012). litários” os quais, apesar de terem baixa produção, são
O setor agrícola tem grande importância na econo- setores considerados como de alto nível tecnológico e
mia brasileira. Em 2005, toda a cadeia de agronegócio cujos consumos têm sido constantemente incentivados
no País gerou 28% do PIB nacional. Além disto, o Brasil é pelo governo federal, principalmente pela redução de
também um dos maiores produtores mundiais neste se- IPI. Produtos do setor “máquinas, aparelhos e materiais
tor. Considerando-se o valor da produção agropecuária elétricos” também tiveram incentivos de demanda por
dos países da Organização Econômica para Cooperação medidas de redução de IPI e combustíveis provenientes
e Desenvolvimento (OECD), a produção brasileira perde do setor “refino do petróleo e coque”, a partir de 2012
apenas para a europeia e americana. Entretanto, o País apresentam preços deprimidos para o consumidor, os
tem ainda grande potencial de crescimento. Em 2007, a quais são subsidiados pelo governo. Embora o objetivo
produção agropecuária da União Europeia foi mais de 2,5 do subsídio neste último setor não seja o de incentivar
vezes superior à brasileira. Já o valor da produção dos Es- a demanda, mas, sim, de controlar a inflação, o estímu-
tados Unidos foi o dobro da produção do Brasil naquele lo à demanda proveniente desta política é inevitável. Os
mesmo ano. setores agroindustriais e os não agrícolas selecionados
Dada a importância do agronegócio na economia do responderam por 5% e 6%, respectivamente, de todo o
País, este estudo tem como objetivo fazer uma avalia- valor consumido de bens e serviços pela demanda final
ção comparativa dos encadeamentos provocados pelo da economia em 2006.
aumento de demanda de alguns dos principais setores
agrícolas (brutos ou processados), com aqueles induzi- Expansão Agrícola
dos em alguns setores não agrícolas selecionados (seja A fronteira agrícola representa uma área mais ou me-
com alta produção no País ou cujas demandas são cons- nos definida de expansão das atividades agropecuárias
tantemente incentivadas pelo governo brasileiro). Ou sobre o meio natural. Geralmente, é nessa zona que se
seja, pretende-se responder às seguintes perguntas: para registram casos de desmatamento ilegal e de conflitos
incentivar o aumento de renda e emprego no País, que envolvendo a posse e o uso da terra sobre as chama-
leva ao crescimento econômico, o estímulo de demanda das  terras devolutas, espaços naturais pertencentes à
nos setores industriais que tiveram recentes desonera- união e que não são delimitados por propriedades legais,
ções fiscais tem mais impactos na economia do que in- servindo de moradia para índios e comunidades tradicio-
centivos em setores agrícolas? Além disto, considerando nais e familiares.
a terra como recurso escasso, quanto o processamento A localização dessa área de expansão foi se modifi-
de produtos agrícolas brutos aumenta os impactos eco- cando ao longo da história. Durante o período após o
nômicos e sociais por área cultivada? Tais questões são descobrimento, quando a Coroa Portuguesa decidiu im-
importantes para promover não apenas o crescimento plementar uma produção agrícola no país, a zona litorâ-
do setor agropecuário como toda a economia por meio nea composta predominantemente pela Mata Atlântica
dos efeitos multiplicadores identificados. constituiu-se, então, como a primeira fronteira agrícola
Neste sentido, os setores eleitos para esta análise
brasileira.
foram, entre os setores agroindustriais: “arroz”, “milho”,
Posteriormente, sobretudo ao longo do século XX, as
“soja”, “cana-de-açúcar”, “silvicultura”, “álcool”, “abate de
práticas agrícolas expandiram-se de forma mais intensa
bovinos e outros”, “abate de aves”, “abate de suínos” e
para o interior do território nacional, em função tanto
“óleos vegetais”. Os quatro primeiros são setores carac-
da política de Marcha para o Oeste, implementada por
teristicamente agrícolas e ocuparam, em 2009, 73% de
Getúlio Vargas, quanto da política de substituição de im-
toda área colhida com vegetais e responderam por 60%
portações promovida por Juscelino Kubitschek.
da produção de lavouras temporárias e permanentes no
Nesse ínterim, a região de expansão passou a ser a
País. Além disto, segundo dados da Produção Agrícola
Municipal – PAM (IBGE, 2011c), de 1999 a 2009, este cres- região Centro-Oeste, com frentes migratórias de produ-
cimento foi superior a 10% ao ano para todos os produ- tores advindos do Sul e do Sudeste do Brasil. O resultado
tos. Os que tiveram maior crescimento foram soja (18% ao foi a transformação de estados como Goiás, Mato Grosso
e Mato Grosso do Sul em verdadeiros celeiros, produto-
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ano) e cana-de-açúcar (17% ao ano). Entretanto, a maior


parte da área dos estabelecimentos agropecuários no res principalmente de grãos, com destaque para a soja
País é utilizada com pecuária e criação de outros animais. voltada para a exportação. Além disso, houve também
Segundo o IBGE (2011a), enquanto estes últimos ocupa- uma intensiva devastação do Cerrado, que conta atual-
ram 62% da área dos estabelecimentos no País em 2006 mente com menos de 20% de suas reservas originais.
(dados mais recentes disponíveis), a produção vegetal foi Atualmente, a fronteira agrícola brasileira encontra-
responsável por apenas 31% desta área. Por este motivo, -se em direção à região Norte do país, registrando uma
além dos produtos vegetais anteriormente citados, este grande quantidade de conflitos na área da Floresta Ama-

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zônica, com destaque para o caso Doroth Stang, uma ati- O Plano Agrícola e Pecuário (PAP) 2007/2008 dá con-
vista estadunidense naturalizada brasileira que foi assas- tinuidade ao compromisso do Governo de apoiar o setor
sinada por fazendeiros na cidade de Anapu (PA). agropecuário no cumprimento de suas funções tradicio-
Em linhas gerais, a fronteira agrícola costuma confi- nais de abastecimento do mercado interno, expansão
gurar-se por meio de uma frente de expansão, seguida das exportações e geração de emprego, rendas, divisas e
por uma  frente pioneira.  Essa última é responsável por energia. Nesse sentido, apresenta uma sinalização segu-
consolidar de forma mais acabada a atividade agrope- ra quanto ao direcionamento da política agrícola para o
cuária em uma determinada região. Posteriormente, es- próximo ano-safra e define os principais objetivos a se-
sas atividades passam por uma etapa de modernização rem alcançados: redução dos custos dos financiamentos
produtiva. agrícolas; fortalecimento da média agricultura; redução
A frente de expansão agrícola é costumeiramente da probabilidade de ocorrência de situações de crise que
realizada pelos posseiros, que iniciam um processo de levem a intervenções pontuais e casuísticas do Governo;
cultivo sobre as terras devolutas, envolvendo agricultura estabilidade da renda agrícola e das normas gerais dos
familiar e de subsistência, com uma produção, em muitos instrumentos de Política Agrícola.
casos, organizada em cooperativas.
No entanto, essa frente de expansão costuma ser ra- Os ciclos e Subciclos Econômicos
pidamente sucedida por uma frente pioneira, represen- a) Atividade econômica brasileira: As atividades eco-
tada por grandes fazendeiros, que, através do processo nômicas brasileiras desde os inícios das colonizações fo-
de grilagem (falsificação de documentos e títulos de ram dirigidas para as exportações. Em decorrência dos
propriedades), afirmam serem eles os donos das terras interesses mercantis. As exportações representavam na
utilizadas por posseiros e até mesmo grupos indígenas. época a base de renda as colônias, sendo a metrópole a
Das disputas territoriais envolvendo indígenas e, prin- principal beneficiaria, o colonialismo e o mercantilismo
cipalmente, os posseiros e os grileiros surgem os prin- eram os sistema que determinavam a orientação da eco-
cipais conflitos no campo, com recorrentes assassinatos nomia para o comércio exterior. Durante o século XIX, a
e conformação das chamadas “terras sem lei”. Nesse participação da exportação na geração de renda global
entremeio, intensificam-se as atividades de remoção e foi se reduzindo lentamente, mas manteve-se elevado
comercialização ilegal de madeira oriunda de reservas
principalmente até 1930, a partir de então esse declínio
florestais.
acentuou-se, sendo hoje as exportações representam
Portanto, a principal necessidade do meio rural atual-
menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). O que
mente envolve uma ação pública que de fato resolva os
nos caracteriza como um país de economia fechada. Os
problemas do uso da terra no Brasil, controlando os con-
ciclos econômicos podem definido como um período em
flitos e fiscalizando as fraudes, haja vista que mais da me-
que um determinado produto atrai as forças econômicas,
tade dos documentos de posse de terra no país é ilegal,
constituindo um centro econômico, foram três os gran-
conforme pesquisa realizada pelo geógrafo Ariovaldo
Umbelino de Oliveira. des ciclos que marcaram mais profundamente a vida bra-
sileira: do açúcar, do café, do ouro, sucessivamente.
Modelo Agroexportador Brasileiro a.b) AÇÚCAR: foi o primeiro dos grandes ciclos eco-
É de fundamental importância o planejamento e es- nômicos, tornou-se o produto de maior valor no comér-
tratégia do modelo agro-exportador brasileiro, que en- cio mundial desde os fins do século XVI, ao longo do
volve tanto o produtor de pequeno, médio e grande ne- período colonial, o açúcar ocupou sempre o primeiro
gócio. Em 2007 o Brasil com produção da ordem de 91,0 lugar no valor das exportações brasileiras, ao menos no
milhões de toneladas/ano, os Grãos Soja, Milho, Arroz, comércio legal. Ainda hoje, Brasil e Cuba são os maiores
Trigo, Feijão e Cevada são largamente utilizados para o produtores e exportadores de açúcar de cana.
atendimento da demanda interna de sua população de a.c) CAFÉ: Só passou a ter alguma expressão econô-
mais de 168 milhões de habitantes e, ainda, tem desti- mica a partir da última década do século XVIII. Sua im-
nado seus excedentes à alimentação dos seus rebanhos portância foi crescendo lentamente nas décadas seguin-
pecuários e à exportação. Estes produtos, Café, Açúcar, tes, mas a sua face de expansão acentuada só ocorreu
Suco de Laranja e os derivados da Soja (farelo de soja e após a independência. O ciclo propriamente dita deve
óleo), são os principais produtos de Exportação agrícolas mais de século de duração (1825 – 1930).
do Brasil e representam hoje, para sua balança comercial, a.d) OURO: O correu no século XVIII, somente a partir
mais de 10,5 bilhões de dólares/ano. 1964 começaram a ser descobertas ricas minas ouro no
A produção agrícola brasileira, de uma maneira geral, Brasil. Calculou-se que no século XVIII foi extraída das
é competitiva em relação aos demais países, sendo ainda minas do Brasil cerca de um milhão de quilograma de
um dos poucos países do mundo com grande capacida- ouro e três milhões de quilates de diamantes quantidade
de de expansão de área física para a produção agrope- essa cujo valor corresponde ao “equivalente a mais da
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cuária. Além disso, o Brasil, a partir do início dos anos 90, metade das exportações de metais preciosos da Amé-
passou por um forte processo unilateral de liberalização ricas”.
comercial, o qual foi aprofundado com a implementa-
ção do MERCOSUL, além de uma redução significativa da O comércio internacional de produtos agrícolas:
intervenção do estado nos mercados, em particular nos É fundamental para garantir o desenvolvimento so-
mercados agrícolas. Em decorrência, pode-se inferir que cial no Brasil. O agro-negócio brasileiro é atualmente
o Brasil é favorecido com o aprofundamento do processo o segmento mais dinâmico das atividades econômicas
de liberalização dos mercados agropecuários voltadas para exportação, sendo responsável por grande

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parte dos superávits comerciais obtidos recentemente. de emprego. Assim, se na República Velha o setor indus-
A exportação tem considerável impacto estrutural nas trial crescia induzido pelo crescimento e pela diversifica-
contas públicas, o que permite ao Governo dar continui- ção do setor exportador, a partir de meados da década
dade às políticas de redução da pobreza. Além dessas de 1930 a economia retomou o crescimento do produto
considerações, a venda de produtos agrícolas tem refle- a despeito da crise do setor exportador, sob a liderança
xos diretos na promoção de investimentos no campo, na dos setores voltados ao mercado interno.
geração de renda e emprego rurais em bases sustentá- Contudo o que foi exposto podemos definir a econo-
veis. Os progressos não são mais significativos porque o mia brasileira em um estado “estável-crescente”, nos úl-
potencial agroexportador do Brasil está sujeito aos cons- timos anos o comércio das exportações cresceu de uma
trangimentos do aparato protecionista internacional. Es- forma global, houve contratos agrícolas brasileiros com
tudos da OCDE estimam que as restrições a importações a Europa e os Estados Unidos, somos atualmente um dos
de países em desenvolvimento e os efeitos negativos primeiros na área da exportação, as políticas fiscais es-
das políticas agrícolas dos países desenvolvidos sobre os tão favorecendo, o ministro da Fazenda recentemente
preços internacionais de commodities custam US$ 20 bi- em Março de 2008 diminuiu os impostos alfandegários
lhões aos países em desenvolvimento. Enquanto no setor nas exportações, somos um país com uma vasta terra ex-
manufatureiro as tarifas médias são de 4%, as alíquotas pansível, precisamos de planos de curto e longo prazo
médias dos produtos agrícolas na OCDE são de 60%. para uma economia com um superávit inigualável. Texto
Outro tema de grande importância em agricultura adaptado de PINHEIRO. R. D. S.
refere-se às medidas sanitárias e fitossanitárias, em es-
pecial ao pleito brasileiro de revisão do procedimento de Globalização
notificação para esclarecer os tipos de medidas a serem A Globalização no Brasil  perpassa por uma série de
obrigatoriamente notificadas à OMC. O tema é de es- fatores históricos e geográficos. Pode-se dizer que desde
pecial interesse, tendo em vista os impactos negativos que os europeus chegaram ao que hoje é chamado de
decorrentes da aplicação intempestiva de medidas que território brasileiro, o Brasil está inserido no processo de
não se encontram amparadas por critérios científicos Globalização. Entretanto, o consenso é que somente a
apropriados. Preocupações com a saúde humana e ani- partir da década de 1990 que a Globalização passou a ter
mal podem ser utilizadas com fins protecionistas, como um maior impacto na economia brasileira.
demonstra o embargo do Canadá às exportações brasi- A maior influência da Globalização no Brasil demar-
leiras de carne, em 2001, sob alegação de risco de conta- cou também a adoção de um modelo econômico que
minação com a BSE (“Síndrome da Vaca Louca”). As me- visava à mínima intervenção do Estado na economia,
didas canadenses, posteriormente retiradas, são um bom chamado de Neoliberalismo. Com isso, intensificou-se o
exemplo dessa nova face do protecionismo disfarçado processo de privatizações das empresas estatais e a in-
em preocupações sanitárias e fitossanitárias. tensa abertura para o capital externo.
O Brasil também deixou de ser denominado como
O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTA- país de terceiro mundo, uma vez que essa divisão deixou
ÇÕES: de ser adotada. Passou-se a dividir o mundo em países
do Norte (desenvolvidos) e países do Sul (subdesenvol-
Um dos traços mais marcantes da economia brasileira vidos). O que não mudou foi a dependência econômica
a partir de 1930 é a expressiva expansão do seu setor e a condição de subdesenvolvimento em que o país se
industrial. Este, principalmente após 1933, começou a li- encontrava.
derar as taxas de crescimento da renda e do emprego, ao Com a abertura de capitais, houve maior inserção das
mesmo tempo em que as culturas de exportação sofriam indústrias e companhias multinacionais no Brasil. Elas
os revezes da crise internacional. A crise da agroexporta- aqui se instalaram para ampliar o seu mercado consumi-
ção criava condições para que a economia se direcionas- dor e, também, para buscar mão de obra barata e maior
se preponderantemente ao mercado interno, o que con- acesso às matérias-primas. Isso acarretou uma maior
tou com a política econômica governamental a seu favor. produção de emprego, porém com condições de traba-
Iniciou-se, assim, um período de aproximadamente cinco lho mais precarizadas.
décadas. Embora a origem da indústria brasileira remon- Além disso, observou-se também a instalação de in-
te às últimas décadas do século XIX, tendo continuidade dústrias denominadas “maquiladoras”, uma vez que todo
ao longo da República Velha, foi na década de 1930 que o processo produtivo se fazia em outros países e apenas
o crescimento industrial ganhou impulso e passou por a montagem dos produtos era feita nacionalmente. O in-
certa diversificação, iniciando efetivamente o Processo tuito das empresas era driblar os impostos alfandegários
de Substituição de Importações PSI. Convém salientar, e diminuir os custos de produção, uma vez que a mão de
portanto, que se entende por substituição de importa- obra em países subdesenvolvidos como o Brasil costuma
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ções simplesmente o fato de o país começar a produzir ser mais barata que nos países desenvolvidos.
internamente o que antes importava, o que ocorrera no Em linhas gerais, o que se pôde observar com a Glo-
Brasil com certa expressão na República Velha. balização do Brasil foi a construção de uma contradi-
O que usualmente denomina-se PSI, todavia, supõe ção: de um lado, o aumento de emprego e a produção
mais que isto: que a liderança do crescimento econômi- e venda de maior número de aparelhos tecnológicos, já
co repouse no setor industrial, que este seja responsável do outro, o aumento da precarização do trabalho e da
pela dinâmica da economia, ou seja, que crescentemente concentração de renda, sobretudo nos anos 1990 e início
seja responsável pela determinação dos níveis de renda e dos anos 2000.

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Estrutura geológica e riquezas minerais Sem uma política adequada e coerente, o que pode-
Os processos de ocupação da Amazônia têm apre- ria ser agente de um desenvolvimento harmônico e in-
sentado, como característica marcante, o fato de serem tegrado transforma-se em arma de cobiça e destruição.
orientados de fora para dentro, tendo como objetivo a Assim, deve-se analisar a questão mineral na Ama-
resolução de problemas alheios à realidade regional, seja zônia como parte desse contexto, ou seja, a mineração é
o abastecimento de mercados (normalmente externos), um dos agentes de ocupação, por ser a região parte de
seja a absorção de contingentes migratórios expulsos de um país periférico da economia mundial, e uma das úl-
outras regiões em consequência das distorções do de- timas fronteiras para a expansão da exploração mineral.
senvolvimento socioeconômico brasileiro. Essas premissas devem ser analisadas considerando-
Nas últimas três décadas, esses processos adquiriram -se as mudanças havidas nos cenários político e econô-
proporções alarmantes, incrementados pela miséria que mico do mundo, principalmente nos últimos 15 anos.
assola grande parte da população brasileira e estimula- Até o início da década de 1960, o conhecimento do
dos pelos mais diversos interesses, que vêem na Ama- subsolo da Amazônia estava restrito aos relatórios de
zônia a possibilidade de rápida capitalização a partir da
viagem de poucos pesquisadores, normalmente limita-
posse da terra ou da exploração dos recursos naturais,
dos à calha dos grandes rios. A atividade mineral resu-
particularmente madeira e ouro, a custo relativamente
mia-se apenas a um grande empreendimento produção
baixo.
Em decorrência, sua população cresceu mais de cin- de minério de manganês pela ICOMI no Amapá e a pou-
co vezes, atingindo cerca de 19 milhões de habitantes. cos garimpos de diamante, ouro ou cassiterita.
Tudo isso aconteceu sem que houvesse um “Projeto para A partir dessa década, em decorrência de uma políti-
a Amazônia”, que a partir do adequado zoneamento ca governamental voltada para a integração da Amazô-
ecológico, através de estudos que identificassem as reais nia, apoiada pelos incentivos fiscais, e da melhoria dos
aptidões e limitações de cada área (e convenientemente meios de comunicação e transporte, tem início a entrada
monitorados), possibilitasse a orientação da ocupação de capitais destinados a sua ocupação, com consequente
humana com desenvolvimento sustentado. Houve polí- atração dos fluxos migratórios.
ticas governamentais isoladas, algumas bem intenciona- O mundo vivia o clima de pós-guerra, com exacer-
das, mas a maioria casuística e desastrada, que muitas bação da guerra fria, num cenário em que os recursos
vezes tiveram como resultado o caos ambiental e social. minerais, além do valor comercial, ainda tinham um com-
Essa ocupação intempestiva e desorganizada não ponente estratégico bastante valorizado. Por outro lado,
transcorreu impunemente, surgindo graves conflitos pela dada a euforia daqueles anos dourados, sonhava-se com
posse da terra e de suas riquezas, com prejuízos muitas o crescimento ilimitado da economia mundial, com con-
vezes irrecuperáveis para as populações indígenas e o siderável expansão da industrialização e dos mercados
ecossistema. Legiões de deserdados passaram a ocupar nos países desenvolvidos e, consequentemente, do su-
seus territórios, convivendo com a fome, doenças (prin- primento de matérias-primas. Surgem, então, previsões
cipalmente a malária), promiscuidade, vícios e violência. alarmistas sobre a breve escassez dos recursos minerais,
O processo de ocupação da Amazônia tem acompa- ganhando corpo os primeiros movimentos conservacio-
nhado a tendência da economia brasileira, sendo essen- nistas.
cialmente concentrador de renda. Alguns poucos têm Assim, os primeiros investimentos na Amazônia fo-
feito fortuna com a exploração de suas riquezas, mas a ram feitos por grandes corporações industriais multi-
maioria dos migrantes tem permanecido como margina- nacionais. Tinham como objetivo principal a verificação
lizados sociais. das potencialidades minerais dessa vasta região ainda
Sua rede rodoviária, praticamente inexistente há trin-
desconhecida, considerando apenas o seu uso futuro.
ta anos, hoje embora mantida em condições precárias é
Estava presente a visão estratégica dos recursos mine-
superior a 60 mil quilômetros. Tem sido o principal agen-
rais, pois buscava-se alternativas de suprimento para
te facilitador da ocupação do solo, com suas trágicas e
atender ao futuro crescimento do mercado ou prevenir a
irresponsáveis queimadas, que destruíram, no período,
escassez decorrente de eventual crise nos países produ-
mais de 500 mil quilômetros quadrados da floresta tro-
tores, como decurso das políticas nacionalistas em vigor
pical.
na época. Dessa forma é que os primeiros investimentos
Os partidários do desenvolvimento a qualquer pre-
ço lembram que os acertos e desacertos da ocupação foram destinados à busca de minério de alumínio (cujo
também ocorreram na expansão de fronteiras em ou- mercado estava em expansão) e de manganês (essencial
tras regiões da Terra. Contudo, se esquecem do cenário para a indústria do aço), ambos dependentes da produ-
e do momento histórico dos processos, com diferenças ção de poucos países.
substanciais nos instrumentos que o homem tem a sua Transformações profundas nesse cenário começaram
disposição. As trilhas foram substituídas por rodovias, o a ocorrer a partir de 1973, como resultado do primeiro
“choque do petróleo”. De um lado, o início do período
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machado pela moto-serra, as canoas por aviões e he-


licópteros, o telégrafo pela comunicação via satélite, a recessivo da economia mundial, que com maior ou me-
informação pessoal por dados de sensores rastreado- nor intensidade tem atormentado a vida das populações,
res espaciais, a interpretação individual pelo tratamen- particularmente do mundo subdesenvolvido, reduz a
to com softwares especializados, etc. Tudo isso faz com taxa de crescimento do consumo dos bens minerais, com
que as mudanças ocorram em grande velocidade, sem o resultante queda dos preços. Este fato é agravado pelo
tempo devido para a correta avaliação das consequên- aumento da oferta de muitos dos minérios, em decorrên-
cias sobre um ecossistema essencialmente frágil. cia do sucesso dos programas de prospecção e pesquisa,

70
desenvolvidos na época por organizações governamen- eternidade do amor, ou, de forma mais prática, os gran-
tais e empresas, inclusive no Brasil e particularmente na des produtores de ouro conseguirem manter preços que
Amazônia (ferro, alumínio, manganês e estanho). bem remunerem os seus custos.
Por outro lado, o ouro com o seu preço já desvincula-  
do do dólar acompanha a valorização do petróleo, pas- A realidade do seu potencial mineral
sando o valor da onça troy de US$ 31, em 1973, para US$ A Amazônia corresponde a uma das maiores regiões
180 em 1974, e atingindo o valor máximo de US$ 850 em da Terra ainda desconhecida com potencialidade para a
1980, após o segundo «choque do petróleo». Torna-se, descoberta de bens minerais. Os primeiros empreendi-
assim, o principal objetivo de grande parte das empresas mentos, na década de 1960, tinham como diretriz básica
de mineração. a busca do desconhecido. Apesar das limitações ainda
Esses fatos, ampliação da oferta e redução da deman- existentes ao conhecimento do seu subsolo, os progra-
da são acompanhados por outra mudança estrutural: mas de geologia das últimas décadas revelaram uma
transferência da mineração, e mesmo da industrialização considerável variedade de ambientes geológicos, com
primária dos minérios, para os países do terceiro mundo, potencialidade para depósitos minerais, desde os utiliza-
em decorrência da exaustão de muitas fontes de produ- dos intensivamente pela indústria moderna até os mais
ção, da racionalização no uso da energia e dos controles valiosos.
ambientais cada vez mais rígidos nos países ricos. Essa Sabe-se que os minerais se acham distribuídos em to-
tendência é reforçada pela perda do valor estratégico das as rochas da crosta terrestre, mas apenas são passí-
dos bens minerais, que passaram a ser simples mercado- veis de exploração pelo homem quando encontrados em
rias com preços pressionados apenas pelas leis do mer- concentrações que permitam o seu aproveitamento eco-
cado. Na década de 1980, o controle da tecnologia con- nômico com a tecnologia disponível. As jazidas não ocor-
solida-se na substituição do controle do suprimento dos rem de forma aleatória, mas estão associadas a rochas ou
insumos minerais, como instrumento estratégico para o a sequências de rochas que, durante a sua formação ou
desenvolvimento das nações. evolução, apresentaram condições físico-químicas bas-
As empresas multinacionais, que se afastaram da tante favoráveis para a concentração e retenção do ele-
Amazônia durante a recessão da indústria mineral dos mento de interesse econômico. A seleção dos ambientes
anos 1980, só há três anos reiniciaram seus projetos de geológicos com potencialidade mineral corresponde ao
prospecção. Isso ocorreu devido ao período de instabi- primeiro cuidado de qualquer programa de prospecção.
lidade política e econômica do fim da ditadura militar à Para se vislumbrar o significado do potencial da Amazô-
transição para o governo democrático, bem como pelas nia, deve-se contemplar a avaliação de seus ambientes
restrições ao capital estrangeiro impostas na Constitui- geológicos, antes de simplesmente repassar as estatísti-
ção Brasileira de 1988, recentemente retiradas. cas de sua produção mineral atual.
Entretanto, os programas atuais diferem bastante Ao analisarmos as áreas potenciais da Amazônia, te-
dos ocorridos décadas atrás. Não se busca mais o inven- mos que ter em conta que a configuração da Amazô-
tário das potencialidades minerais da região, mas cada nia, como parte integrante do continente sul-americano,
empresa tem objetivos bem específicos, voltados para ocorreu em tempo geológico relativamente recente, a
atender a lucratividade de seus investidores, sejam co- partir de 150 milhões de anos atrás. Grande parte de sua
tistas de fundos, sejam acionistas de grandes complexos crosta foi consolidada quando a América do Sul ainda
industriais. pertencia ao continente gondwânico, junto com a Áfri-
De um lado, empresas com produção industrial ver- ca, Antártida, Austrália e Índia. Por outro lado, a gênese
ticalizada, que buscam a descoberta de uma jazida que de muitos de seus depósitos, como os de petróleo, gás,
possibilite a continuidade de suprimento do insumo mi- bauxita e caulim, está relacionada às mudanças estrutu-
neral, mas com características excepcionais, equivalente rais e ambientais que ocorreram com a deriva do con-
às melhores do mercado, e amplie a competitividade e a tinente sul-americano, que também foram responsáveis
margem de lucro de seus produtos. Há interesse prefe- pelo surgimento da cadeia andina e pela inversão das
rencial pelo cobre, zinco, níquel e caulim. águas no vale amazônico.
De outro, empresas, principalmente “júniores”, que Em termos mundiais, a maioria dos depósitos mine-
buscam a descoberta de “Eldorados”. A Amazônia possui rais metálicos está situada em terrenos pré-cambrianos,
muitos ambientes geológicos férteis para ouro e o declí- pertencentes ao mais longo período de formação da
nio da corrida garimpeira dos anos 1970 e 1980 mais de crosta terrestre, do início da solidificação do planeta até
800 mil garimpeiros estiveram em atividade, em decor- 570 milhões de anos atrás. As condições físico-químicas
rência de políticas governamentais equivocadas e com nesse períodoparticularmente na fase inicial do Arquea-
graves consequências ambientais está liberando muitas no, há mais de dois bilhões de anos eram bastante di-
áreas de produção. Esse tipo de investimento tem um ferentes das de hoje, com a crosta bem menos espessa,
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componente especulativo, e as atividades dessas empre- o que propiciava a ascensão de metais das zonas mais
sas estão sendo afetadas pela queda do preço do ouro profundas da Terra.
e pela crise dos mercados asiáticos. Não se sabe até Na Amazônia, as áreas de pré-cambriano correspon-
quando o ouro continuará sendo um bem valioso para dem a cerca de 40% do seu território. As suas sequên-
o homem e objeto de febril busca. Como o seu maior cias vulcano-sedimentares (do tipo  greenstone belt  ou
uso é para a joalheria e, em parte, como ativo financeiro, não), intrusões graníticas, derrames vulcânicos ácidos e
acredita-se que seu valor mitológico persistirá enquanto intermediários, complexos alcalino-ultrabásicos e bási-
o homem temer a volatilidade das moedas e acreditar na co-ultrabásicos, e coberturas sendimentares apresentam

71
potencialidade para uma grande variedade de depósi- últimos trinta anos, por uma produção da ordem de 400
tos minerais, tais como ferro, manganês, alumínio, cobre, toneladas, a maior de toda história do Brasil resultante
zinco, níquel, cromo, titânio, fosfato, ouro, prata, platina, de atividade artesanal. Houve mais de mil locais com ati-
paládio, ródio, estanho, tungstênio, nióbio, tântalo, zircô- vidade garimpeira, distribuídos numa área da ordem de
nio, terras-raras, urânio e diamante. Deve ser salientado 80 mil quilômetros quadrados. Apesar disso, os geólogos
que boa parte dos depósitos minerais, embora relacio- brasileiros estão divididos quanto à real potencialidade
nados a rochas pré-cambrianas, foram formados através da região: uns acreditam que os indícios são muitos for-
de processos de enriquecimento laterização, erosão e tes para a existência de grandes depósitos; outros lem-
concentração em tempos mais recentes, do Terciário ao bram que, como ocorreu na “corrida de ouro” do Alasca,
Quaternário. uma infinidade de pequenos depósitos primários podem
As concentrações residuais de óxidos de manganês, dar origem a concentrações residuais muito ricas.
descobertas na serra do Navio atual estado do Amapá na Contudo, seja qual for o resultado empresarial da
década de 1940, deram origem à primeira mineração da produção de ouro na Amazônia, os milhares de migran-
Amazônia. As minas, abertas em meados da década de tes que foram atraídos pela “febre do ouro” da década
1950, encontram-se em fase final de explotação. Atual- passada estão engrossando as legiões dos “sem terra”,
mente, os depósitos de minério de manganês com maior que clamam por uma solução para a questão agrária,
expressão econômica situam-se na região de Carajás. num país com dimensões continentais, mas onde as eli-
Ocorrências menores são conhecidas há várias décadas, tes dominantes, desde o tempo das “capitanias hereditá-
na região do rio Sucunduri, no estado do Amazonas. rias”, têm na posse de grandes extensões territoriais uma
Os primeiros depósitos de sulfetos de cobre da Ama- das formas de seu poder político. O garimpo na Ama-
zônia foram descobertos na região de Carajás, na década zônia correspondeu a simples paliativo, apenas adiando
de 1970. Recentemente, nas proximidades de Aripuanã, por duas décadas conforme já era previsível na época a
no extremo noroeste do estado de Mato Grosso, foram necessidade de uma solução para a questão agrária.
descobertas significativas ocorrências de sulfetos de zin- Além da reserva do Tapajós, a atividade garimpeira
co, com cobre e ouro subordinados. foi mais atuante ao sul de Carajás (Andorinhas, Tucumã e
Os garimpos de ouro, que no século XIX desenvol- Cumarú), na região do rio Gurupi, no Amapá, no norte do
veram-se apenas em duas áreas do Amazonas (Amapá estado de Mato Grosso (Juruena e Teles Pires), no alto rio
e Gurupi), começaram a adquirir importância produtiva Negro (Cabeça do Cachorro), em Rondônia (rio Madeira)
na década de 1960, com a descoberta dos aluviões do e em Roraima (Surucucus e vizinhanças).
Distrito Aurífero do Tapajós, situado no sudoeste do es- Ao sul de Carajás, o ouro está associado a sequências
tado do Pará. Entretanto, somente no início da década de de  greenstone belts. Algumas ocorrências estão sendo
1980, com a descoberta de ouro na região de Carajás, é pesquisadas por empresas, como as situadas nas proxi-
que se alastrou uma grande “corrida do ouro”, que ultra- midades da serra das Andorinhas. Também há pesquisa
passou as fronteiras da Amazônia brasileira, envolvendo empresarial na região do Gurupi. Entretanto, apenas no
quase um milhão de garimpeiros. A explosão dessa ati- antigo garimpo do Lourenço, no Amapá, houve atividade
vidade garimpeira foi motivada por vários fatores, des- produtiva por empresa de mineração.
tacando-se o agravamento da miséria de boa parte da Os ricos aluviões estaníferos de Rondônia foram res-
população brasileira, principalmente a rural e nordesti- ponsáveis pela primeira “corrida garimpeira” da Ama-
na, decorrente da falta de uma solução adequada para a zônia, na década de 1960 cerca de 10 mil garimpeiros
questão agrária. A elevação do preço do ouro ampliada estiveram envolvidos na produção de cassiterita, número
no Brasil, até poucos anos atrás, pela diferença excessiva bastante expressivo para a época. No final de década, a
entre as cotações do dólar oficial e do mercado paralelo, garimpagem foi proibida pelo governo federal, passando
o atrativo despertado pela ampla divulgação na impren- a produção para a mineração empresarial.
sa da descoberta de depósitos ricos como serra Pelada e Na década de 1970, surgiram novos distritos estanífe-
a complacência e mesmo um certo estímulo das autori- ros na Amazônia. Nas proximidades do rio Xingú, a oeste
dades governamentais, durante a década passada, foram de Carajás, no estado do Pará, a descoberta foi feita por
fatores que também contribuíram para a expansão da empresas de mineração, mas houve invasão garimpeira
atividade garimpeira por toda a Amazônia. temporária. Posteriormente, a explotação foi completa-
Entretanto, devido à exaustão dos depósitos super- da por mineradoras. Na serra de Surucucus, no extremo
ficiais mais ricos, acompanhada pela queda do preço oeste do estado de Roraima, na fronteira com a Vene-
do ouro e sensível redução da diferença cambial, esse zuela, a descoberta foi consequência de levantamentos
modelo social e econômico de ocupação da Amazônia radarmétricos realizados pelo governo federal. A invasão
encontra-se em rápido declínio. garimpeira ocorrida em 1976 correspondeu ao primeiro
Muitos dos depósitos auríferos secundários eluviões, contato de atividade produtiva capitalista com os índios
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aluviões ou leitos dos rios estão relacionados com jazi- ianománi. Por ser um contigente pequeno, da ordem de
mentos primários passíveis do aproveitamento econômi- 800 pessoas, foi possível a rápida desativação do garim-
co. Parte dos empresários do garimpo, desde que com po, sem grandes sequelas para os ianománi - isso ocor-
orientação e políticas adequadas, poderão transformar- reu com a “corrida do ouro” da década seguinte.
-se em pequenos ou médios mineradores. Algumas ten- Somente no início dos anos 1980 é que foram des-
tativas governamentais nesse sentido foram implemen- cobertos os mais expressivos depósitos de cassiterita da
tadas na “Reserva Garimpeira do Tapajós”, mas ainda sem Amazônia. A jazida do Pitinga, no estado do Amazonas,
resultados expressivos. Essa região foi responsável, nos está em produção por uma empresa de mineração e a de

72
Bom Futuro, no estado de Rondônia, continua com ati- Embora as sequências paleozóicas (570 — 230 M.A.)
vidade garimpeira, apesar dos esforços governamentais sejam potenciais para depósitos de carvão, a evolução
para regularizar uma atividade empresarial. das duas bacias não possibilitou a formação de jazimen-
A sensível queda do preço do estanho no mercado in- tos expressivos de carbono fóssil. Em relação a depósitos
ternacional tem desestimulado a abertura de minas, bem de petróleo e, principalmente, gás natural, ainda há boa
como a busca de novos depósitos. possibilidade de novas descobertas.
Os corpos graníticos da Amazônia também são po- Programas realizados pela Petrobrás, nas últimas
tenciais para depósitos de zircônio, nióbio, tântalo, duas décadas, levaram à localização de depósitos de óleo
tungstênio e terras-raras. Na mina do Pitinga há mine- e gás. As descobertas mais significativas ocorreram na
ralizações associadas de columbita-tantalita, zirconita e região dos rios Juruá (gás) e Urucu (gás e óleo), na sub-
criolita. No sudeste do estado do Pará há pequenos de- -bacia do alto Amazonas.
pósitos de volframita, que foram explorados parcialmen- Entretanto, alguns especialistas em prospecção de
te através da garimpagem. petróleo acreditam que as possibilidades da região, prin-
Na Amazônia são conhecidos três complexos alcali- cipalmente para gás, são bem maiores que as detectadas
no-ultrabásicos potenciais para depósitos de titânio, fos- até o presente. Esta conclusão é baseada na existência
fato, nióbio e terras-raras: Seis Lagos, no estado do Ama- de condições para a geração e acumulação comercial de
zonas, e Maicuru e Maraconaí, no estado do Pará. Em Seis hidrocarbonetos. Chegam a ampliar a possibilidade de
Lagos há um grande potencial em nióbio. O complexo de sucesso inclusive para as sub-bacias do médio e baixo
Maicuru está associado a um corpo de cabornatito; além Amazonas.
de suas reservas de fosfato, há um considerável potencial Do Paleozóico, há na Amazônia consideráveis depósi-
em titânio, mas sob a forma de anatásio, mineral para o tos de calcário, associados a sequências do Carbonífero.
qual ainda não há tecnologia que permita o seu aprovei- Esses depósitos têm sido pesquisados para a fabricação
tamento industrial em bases econômicas. de cimento; porém, poderão vir a ter importância como
Há vários complexos básico-ultrabásicos potenciais corretivo de solos, quando houver um programa de de-
para depósitos de níquel, cromo, platina e platinóides.
senvolvimento sustentado que possibilite o aproveita-
No estado do Amapá, nas proximidades do rio Vila Nova,
mento seletivo dos solos da Amazônia, particularmente
foi implantada pequena mina de cromita, destinada à
junto à calha do grande rio.
produção de ferro-liga.
Os sedimentos químico-evaporíticos do Carbonífe-
Os processos de laterização em rochas pré-cambria-
ro superior apresentam horizontes de salgema, sais de
nas podem levar à formação de depósitos de bauxita: há
potássio, anidrita e gipsita. Os depósitos de evaporitos
ocorrências associadas a rochas graníticas e a rochas bá-
estão recobertos por sedimentos mais recentes e fo-
sicas. Todavia, não foram objeto de maior interesse eco-
nômico, em função das jazidas de minério de alumínio ram localizados através de sondagens da Petrobrás na
de excelente qualidade derivadas de rochas cretáceas ou sub-bacia do médio Amazonas, em profundidades que
terciárias situadas nas proximidades do rio Amazonas. variam de 400 a 1.000 metros. Foram interceptados tan-
No passado, houve garimpos de diamante no rio To- to na borda sul região de Nova Olinda Maués e Tapajós
cantins, nas proximidades da cidade de Marabá. Hoje, a como na borda norte da bacia região do Nhamundá e
pequena produção de diamante está restrita à ativida- Trombetas. Nas proximidades de Nova Olinda, em Fazen-
de garimpeira no norte de Roraima, na fronteira com a dinha, a Petrobrás pesquisou expressivos depósitos de
Venezuela, e à pequena mineração no estado de Mato sais de potássio, associados a salgema.
Grosso. Há notícias de ocorrências de mineralizações pri- Na bacia do Parnaíba, há leitos de calcário e gipsita
márias de diamante, associadas a kimberlitos, sem haver, associados às sequências clasto-químicas permianas.
contudo, produção. O Mesozóico (230 — 65 M.A.), na bacia do Amazonas,
Muitos dos corpos graníticos da Amazônia apresen- foi marcado por prolongada erosão até o início dos tem-
tam características físicas que permitem o seu aproveita- pos cretáceos. Assim, os registros desse período estão
mento como rocha ornamental ou de revestimento. As restritos às manifestações vulcânicas básicas, preserva-
áreas mais próximas dos meios de transporte poderão das sob a forma de sills e diques de diabásio.
vir a ser lavradas para competir no promissor mercado Na bacia do Parnaíba, as coberturas mesozóicas estão
internacional. bem distribuídas, merecendo destaque a sedimentação
Depósitos de calcário de idade pré-cambriana são co- cretácea.
nhecidos no norte do estado do Tocantins e no sudeste Uma deposição sedimentar com características con-
do Pará, nas proximidades do rio Araguaia. Apresentam tinentais, predominantemente flúvio-lacustre, cobriu ex-
composição calcítica ou dolomítica, havendo possibilida- tensas áreas das bacias do Amazonas e Parnaíba, bem
de de sua utilização como insumo destinado à fabricação como das bacias costeiras. Como essa sedimentação
de cimento ou à indústria metalúrgica, bem como para teve início no Cretáceo, a perfeita caracterização dessa
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corretivo de solos. cobertura ainda não é uma questão resolvida, persistindo


Grandes movimentos tectônicos, precursores do iní- dúvidas quanto à estratigrafia e à nomenclatura, particu-
cio da deriva do continente sul-americano, deram origem larmente nas sub-bacias do médio e do baixo Amazonas,
a duas importantes bacias paleozóicas: do Amazonas, na e na plataforma Bragantina no leste do estado do Pará.
parte central, e do Parnaíba (do Maranhão), que tem ape- Na sub-bacia do alto Amazonas, essa sedimentação
nas sua borda ocidental situada na região. As duas bacias apresenta horizontes extensos de linhito, mas geralmen-
estão parcialmente recobertas por sedimentos mesozói- te de pequena espessura e baixa qualidade, o que impe-
cos e cenozóicos. de o seu aproveitamento econômico.

73
 Na plataforma Bragantina, ocorrem leitos de calcário mo ultramáfico introduziu níquel na província sendo que,
que permitem sua utilização para a fabricação de cimento. localmente, na sua extremidade leste, existe a presença
A evolução do relevo e os processos de laterização de cromo, platina e platinóides. A atuação conjugada do
que atuaram sobre essa cobertura areno-argilosa terciá- intemperismo e da erosão, em tempos mais recentes, so-
ria ou cretácea deram origem a extensos depósitos de bre sedimentos clasto-químicos relacionados com o vul-
bauxita, que estão concentrados em três distritos prin- canismo básico arqueano foi responsável pela concen-
cipais: Trombetas (médio Amazonas), Almeirim (baixo tração de depósitos residuais de ferro e manganês, bem
Amazonas) e Paragominas-Tiracambú (plataforma Bra- com de ouro sobre rochas básicas e de níquel laterítico
gantina). Esses distritos são responsáveis pelo terceiro associado aos corpos ultramáficos.
maior potencial em bauxita do mundo, superados ape-   Geologia de Carajás possui características próprias,
nas pelos da Austrália e da Guiné. A mineração foi im- não reproduzidas em outras províncias metalogenéticas
plantada apenas na jazida do Trombetas. da Terra. Alguns geocientistas que têm estudado a re-
O minério de alumínio da Amazônia motivou a cons- gião chegam a considerar o vulcanismo básico arqueano
trução da hidrelétrica de Tucuruí, a fim de atender aos como sendo um greenstone belt, mas com características
complexos de produção de alumina-alumínio da Alunor- específicas nessa província  greenstone belt  do tipo Ca-
te e Albrás, nas proximidades de Belém, e da Alumar, em rajás.
São Luís. Tudo começou na segunda metade da década de
Parte dos depósitos de bauxita, dos distritos de Al- 1960, quando duas empresas americanas iniciaram pro-
meirim e Paragominas-Tiracambú, apresentam caracte- gramas de prospecção mineral na região com o objetivo
rísticas químicas baixo teor de ferro que permitem sua de descobrir jazidas de manganês: a Union Carbide, para
utilização na indústria de refratários. Foram abertas duas suprir suas fábricas de pilhas eletrolíticas, e a United Sta-
pequenas minas para o aproveitamento deste tipo de tes Steel, para alimentar suas siderúrgicas. Ambas tive-
minério, nas proximidades das cidades de Almeirim e de ram sucesso em seus objetivos: a Union Carbide localizou
Paragominas. os depósitos do Sereno, em 1966, nas proximidades de
A cobertura terciária ou cretácea da Amazônia tam- Marabá, mas a United States Steel, um ano depois, foi
mais aquinhoada pela sorte, descobrindo os depósitos
bém tem importância econômica pelos seus expressi-
de Buritirama e também as fabulosas jazidas de ferro de
vos depósitos de caulim, distribuídos em três distritos
Carajás.
principais: Manaus (médio Amazonas), Almeirim (baixo
As jazidas de ferro de Carajás, com seus 18 bilhões
Amazonas) e Capim (plataforma Bragantina). O caulim
de toneladas de minério, correspondem à maior concen-
da região apresenta excepcionais qualidades para reves-
tração de alto teor já localizada no planeta. Estão distri-
timento de papel (tipo coating). Três minas estão em ati-
buídas em quatro setores principais: serra Norte (N1, N4
vidade: uma no estado do Amapá, nas proximidades do
e N5), serra Sul (S11), serra Leste e serra de São Félix, no
rio Jari, e duas no distrito do Capim. Há previsões de que, extremo oeste da região.
em breve, a Amazônia, em particular a região do Capim, A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), estatal fede-
venha a se transformar no principal centro mundial de ral recentemente privatizada iniciou sua explotação em
produção de caulim do tipo coating. 1985, no braço leste da jazida N4. Recentemente, a lavra
Na Amazônia, particularmente na sub-bacia do alto também foi estendida para o braço oeste da N4 e para
Amazonas, localizam-se as mais representativas áreas a jazida N5, ampliando a capacidade de produção anual
com sedimentos quaternários do país. Contudo, a impor- para cerca de 50 milhões de toneladas. A quase totalida-
tância econômica do Quaternário está restrita aos alu- de do minério é destinada ao mercado externo (Japão,
viões mineralizados, principalmente a ouro e cassiterita, Alemanha, Itália e outros). Na área de influência da fer-
que se distribuem pelas mais diversas áreas da região, rovia de Carajás a São Luís 890 quilômetros há algumas
em terrenos pré-cambrianos, e que motivaram a explo- usinas destinadas à produção de ferrogusa.
são garimpeira das últimas décadas. Além dos dois depósitos de manganês localizados
  nas primeiras pesquisas em Carajás, há também o do iga-
Província mineral de Carajás rapé Azul, descoberto no início dos anos 1970. A minera-
Entre as áreas pré-cambrianas da Amazônia, desta- ção foi implantada apenas nessa jazida, com produções
ca-se a “província mineral de Carajás”. Sua evolução foi anuais ao redor de um milhão de toneladas. As caracte-
beneficiada por uma série de eventos geológicos, desde rísticas do minério permitem a seleção de produtos para
a consolidação de sua crosta até os tempos mais recen- utilização siderúrgica, eletrolítica e química.
tes, todos bastante favoráveis à formação de depósitos O primeiro depósito econômico de cobre da Amazô-
minerais. A conjunção de fatores, tais como tectonismo, nia foi descoberto em Carajás, em meados da década de
vulcanismo, plutonismo, intemperismo e erosão, ocorri- 1970, nas proximidade do igarapé Salobo e a noroeste
da numa área relativamente limitada da ordem de 40 mil das jazidas de ferro de serra Norte. O cobre está asso-
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quilômetros quadrados deu origem a um conjunto ex- ciado a magnetita e ouro, com prata subordinada. Já foi
pressivo de jazimentos minerais de interesse econômico. concluído o projeto para implantação da mineração, que
Na província mineral de Carajás, predominou um vul- está na dependência apenas de reavaliação econômica e
canismo básico arqueano, responsável pela metalogenia financeira.
do ferro, do cobre (com zinco subordinado), do manga- Depósitos menores de cobre, localmente com zinco
nês e do ouro. O plutonismo granítico contribuiu para associado, foram descobertos na mesma época, no pro-
remobilizar talvez adicionando conteúdo metálico ao sis- longamento oeste da serra Norte, nas proximidades do
tema e concentrar os elementos minerais. O magmatis- igarapé Pojuca.

74
Nas cabeceiras do igarapé Bahia onde, na década de cuperação de 8 toneladas de ouro, para uma produção
1970, foram identificados os primeiros indícios de cobre anual de 200 mil toneladas de cobre.
em Carajás (anomalias geoquímicas em sedimentos de Os processos de laterização, que atuaram nos corpos
corrente) descobriu-se recentemente expressivos depó- ultramáficos de Carajás, deram origem a três depósitos
sitos de cobre (Corpo Alemão), associados a magnetita e limoníticos e garnieríticos de níquel: Vermelho, Onça e
ouro, que estão sendo avaliados. Puma. Entretanto, os recursos avaliados ainda não permi-
  Como esses corpos não afloram na superfície, sua tiram a sua exploração em bases econômicas.
descoberta foi fruto da integração de dados aerogeofísi- Além dos elementos citados, a região apresenta po-
cos e geoquímicos, efetuada com a utilização de softwa- tencialidade para depósitos de zinco, estanho e, even-
res especializados pela equipe da DOCEGEO empresa de tualmente, diamante. Entretanto, sua evolução meta-
exploração geológica da CVRD. logenética determinou uma vocação preferencial para
Esses estudos permitiram a seleção de mais de cem ferro e cobre, com ouro subordinado.
alvos com potencialidade para ocorrências de cobre, al- Deve ser lembrado que o programa de exploração
guns com programas de pesquisa em desenvolvimento geológica em Carajás encontra-se na sua terceira onda.
(Gameleira, Sossego, Liberdade, etc.). Os depósitos têm Na primeira, no final da década de 1960 e início dos anos
como característica fundamental a associação com mag- 1970, foram localizados os depósitos minerais com for-
netita e ouro. Alguns apresentam semelhanças com o tes indícios superficiais: ferro, manganês e níquel. Com a
tipo pórfiro. entrada da DOCEGEO, em 1974, a utilização de técnicas
Após a privatização da CVRD, a partir de alvos pré-se- mais aprimoradas de geoquímica e geofísica possibilitou
lecionados pelos levantamentos aerogeofísicos, dois no- um novo ciclo de descobertas: cobre-ouro do Salobo e
vos depósitos foram selecionados e estão em fase final Pojuca, e ouro do Igarapé Bahia e Andorinhas. A partir
de avaliação: Cristalino e 118. de década de 1990, a introdução de tecnologia de pon-
A CVRD readquiriu o controle total da jazida do Sos- ta em geofísica e a utilização de softwares especializados
sego (durante a fase de pesquisa, 50% estava sob o con- para a integração rápida, e com inúmeras simulações,
trole da Phelps Dodge) e está iniciando a implantação da dos dados de geologia, geoquímica e geofísica, permi-
lavra. Será a primeira mina de cobre de Carajás. tiram a elaboração de um novo modelo metalogenético
Pesquisadores, bem como técnicos das empresas que para a província. A primeira conclusão desse processo foi
atuam em Carajás, afirmam que a província de Carajás a identificação do seu alto potencial para cobre e ouro,
apresenta um considerável potencial, podendo vir a ser associado a óxidos de ferro, muitas vezes magnéticos a
um importante polo de produção de cobre no início do descoberta do expressivo depósito de cobre e ouro do
século XXI, só superado pelos Andes chilenos. Corpo Alemão, junto à mina de ouro do igarapé Bahia,
Entretanto, ainda não há uma política governamental foi a primeira comprovação dessa hipótese.
que oriente o seu aproveitamento econômico com o jus- A província mineral de Carajás é considerada uma das
to desenvolvimento regional. mais importantes anomalias metalogenéticas da crosta
A pesquisa da anomalia de cobre do igarapé Bahia terrestre, comparável, em potencial mineral e econômico,
possibilitou a descoberta, em 1985, de um depósito re- às regiões do Abitibi Belt, no Canadá, e de Witerwaters-
sidual de ouro, resultante da atuação dos processos de rand, na África do Sul. Tem a seu favor a imaturidade do
laterização em rochas vulcânicas básicas mineralizadas a nosso conhecimento geológico, pouco mais de 30 anos,
cobre e ouro. Corresponde à mais importante jazida de enquanto que as demais províncias apresentam mais de
ouro pesquisada até o presente na Amazônia. Sua lavra um século de história. Mesmo assim, sua produção de
foi iniciada em 1991; sua capacidade atual de produção é minério de ferro, manganês e ouro corresponde a um
de 10 toneladas por ano, o que a classifica como a maior valor bruto da ordem de US$ 1 bilhão por ano.
mina de ouro do Brasil. Os recursos totais em ouro, na  
zona intemperada, eram da ordem de 100 toneladas. Considerações finais
No leste da província, entre as jazidas de manganês O conhecimento da geologia da Amazônia, de modo
do Sereno e de ferro de serra Leste, situa-se expressi- geral, ainda é bastante preliminar — no mesmo nível
vo depósito de ouro onde, no início da década de 1980, em que os países com mineração desenvolvida encon-
surgiu uma das mais espetaculares áreas de produção travam-se no início do século XX. Tornam-se necessários
artesanal do mundo contemporâneo. O garimpo de serra maiores investimentos em estudos básicos, bem como
Pelada chegou a ter 60 mil homens em atividade, numa para o desenvolvimento de uma tecnologia de prospec-
cava que atingiu 200 metros de diâmetro e 80 metros ção e pesquisa adaptada à realidade regional, para que
de profundidade. Durante seis anos, foram produzidas se possa ter um melhor conhecimento de seus recursos
cerca de 50 toneladas de ouro. Entretanto, mais do que a minerais.
quantidade, o que impressiona nesse depósito é a con- Mesmo assim, os trabalhos executados nas três últi-
PROVA DE GEOGRAFIA

centração do ouro: durante o garimpo, foram retirados mas décadas já obtiveram expressivos testemunhos da
blocos com até 60 quilos. Associado ao ouro, há platina, riqueza de seu subsolo. A fertilidade de alguns de seus
paládio e ródio. Com o encerramento da produção ga- ambientes geológicos — onde jazidas de classe mundial
rimpeira, foram reiniciadas as pesquisas geológicas para já foram dimensionadas — indicam que a Amazônia de-
se verificar a possibilidade de implantação da mineração. verá ocupar posição de destaque na produção de alguns
Deverá haver expressiva produção de ouro, como bens minerais, tais como minério de ferro, alumínio, co-
subproduto da mineração dos depósitos de cobre de bre, ouro, manganês, caulim, estanho e, eventualmente,
Carajás. Na lavra da jazida do Salobo, está prevista a re- gás.

75
A mineração empresarial caracteriza-se pelo uso in- O caos da atividade garimpeira impede a apuração
tensivo de capital e tecnologia, mas com baixa utilização das responsabilidades pelos danos ambientais do passa-
de mão-de-obra, normalmente especializada. Entretanto, do, mas torna necessário um maior controle e fiscaliza-
essa atividade tem contribuído para o crescimento regio- ção pelas autoridades governamentais no presente.
nal, através da infra-estrutura implantada, dos empregos Quanto à mineração empresarial, os principais proje-
indiretos gerados e dos impostos pagos. Indiretamente, tos implantados na Amazônia têm apresentado controle
tem agravado o problema social da região, por criar po- ambientais bastante satisfatórios. Nas minas de Carajás
los de atração e facilidades para a penetração das cor- — ferro, manganês e ouro — o desmatamento tem fica-
rentes migratórias. do restrito às áreas de mineração e acesso, tendo havido
Por outro lado, o garimpo utiliza mão-de-obra inten- reflorestamento, com espécies locais, das zonas não mais
siva, geralmente despreparada, e tecnologia primitiva. A utilizadas. A construção de barragens de rejeito impe-
atividade garimpeira ocupou um grande contingente de dem que os resíduos sólidos da mineração sejam lança-
trabalhadores, porém de imigrantes, transferindo a misé- dos na drenagem regional.
ria do Nordeste para a Amazônia. A Companhia Vale do Rio Doce, enquanto era estatal
O aproveitamento da riqueza mineral tem sido res- e com a participação de institutos de pesquisa e univer-
ponsabilizado pelos problemas ambientais e sociais im- sidades, patrocinou estudos da flora, da fauna, dos sítios
postos à região nos últimos anos. Na realidade, a Amazô- arqueológicos, bem como desenvolveu programas de
nia passou a fazer parte das opções dos marginalizados apoio às comunidades indígenas nas áreas sob influência
pelo processo socioeconômico brasileiro, que tentam do projeto Carajás. Com a empresa privatizada, espera-
encontrar caminhos de sobrevivência no garimpo, na -se que os novos donos continuem seguindo a mesma
posse da terra ou na periferia dos grandes projetos e das política.
cidades. Tudo isso não impediu que a área do projeto corres-
Como a atividade garimpeira encontra-se em declí- ponda a uma verdadeira “ilha” de preservação ambiental,
nio, seus trabalhadores estão engrossando as legiões dos rodeada por um cinturão de ocupação, motivada pelos
“sem terra”. Torna-se necessário criar opções econômicas
mais diversos objetivos — posse da terra, pecuária, ex-
que permitam a participação dessa população — como,
tração da madeira e garimpagem.
por exemplo, o desenvolvimento agrícola sustentado das
Superados os equívocos iniciais, as demais áreas de
terras férteis e o reflorestamento das zonas degradadas
mineração da Amazônia — manganês de serra do Na-
da região. Os simples assentamento dessa população em
vio, caulim do Jari e do Capim, bauxita do Trombetas e
lotes, sem qualquer orientação técnica e científica, vai
cassiterita do Pitinga — também apresentam cuidados
contribuir para agravar os problemas ambientais e so-
ambientais satisfatórios.
ciais.
A discussão da problemática ambiental, relacionada Algumas áreas da Amazônia apresentam vocação
com a extração mineral na Amazônia, tem sido exacer- natural para uma industrialização baseada nos insumos
bada em função dos conflitos decorrentes da atividade minerais. No caso específico de Carajás — onde, ao lado
garimpeira. De fato, merecem cuidado e preocupação os da riqueza mineral da própria província, somam-se os
danos causados por centenas de milhares de homens, distritos da bauxita de Paragominas-Tiracambú e de cau-
que no período de duas décadas vasculharam boa parte lim do Capim — deverão ser contemplados os projetos
das drenagens da região. relacionados com a siderurgia, metalurgia do alumínio,
Considerando que o garimpo normalmente atua em silício, cobre e níquel, e refino do ouro, bem como a fa-
depósitos minerais superficiais, a área desmatada é bas- bricação de papel
tante significativa — mas muito inferior à das queimadas É necessário que se encontrem novas soluções para
motivadas pela posse da terra. Na exploração do casca- a questão energética da região. As grandes hidrelétricas
lho mineralizado, feita normalmente com uso de jatos de têm apresentado altos custos financeiros e ambientais,
água, há remoção de uma quantidade maior de material que comprometem todo o processo de desenvolvimen-
argiloso, que é lançado nos pequenos e grandes rios, tor- to. Alternativas poderiam ser encontradas na utilização
nando-os barrentos. sustentada da biomassa e do gás natural. O crescimento
Entretanto, o problema ambiental que tem causado industrial da Amazônia vai depender de disponibilidade
maior polêmica está relacionado com o uso do mercú- energética competitiva, mas de fontes ecologicamente
rio na concentração do ouro. Além da situação do pró- corretas, para que seus produtos não sofram rejeição nos
prio garimpeiro envolvido na amalgamação do ouro, foi mercados cada vez mais seletivos e críticos.
levantada a possibilidade de ter havido contaminação Os recursos minerais da Amazônia somente poderão
dos peixes nas regiões com maior atividade garimpeira, dar maior contribuição ao desenvolvimento nacional —
como na bacia do Tapajós. Felizmente, estudos recentes e regional — quando o processo de industrialização do
sugerem que a metilização do mercúrio, e sua entrada país permitir a elaboração de produtos finais com eleva-
PROVA DE GEOGRAFIA

na cadeia biológica, ocorreu apenas em casos isolados, e do grau de tecnologia agregada. Só assim será possível
uma maior conscientização dos garimpeiros tem reduzi- uma melhor remuneração para os produtos de origem
do a contaminação profissional. mineral, que tenham maior competitividade nos mutan-
A expansão garimpeira também contribuiu de manei- tes mercados atuais, num mundo onde há enorme dife-
ra direta para a disseminação da malária na região, tanto rença entre exportar potato chips ou micro chips.
em função do aumento da população nas áreas de risco, Investimentos terão que ser feitos para o desenvol-
agravado pelas condições sanitárias do garimpo, como vimento de uma competência científica e tecnológica na
pela constante migração de seus habitantes. Amazônia, voltada para a sua realidade e seus recursos.

76
E, antes de tudo, é necessário que sejam feitos esforços
para a valorização do homem da região, para que ele
possa participar — com responsabilidade — e usufruir
— com qualidade de vida — do aproveitamento de suas
riquezas.
A Amazônia precisa ser melhor conhecida em toda
sua complexidade física e biológica para que a utiliza-
ção de seus recursos realmente possa significar evolução
econômica e social da população do Brasil, e da própria
humanidade.
Talvez a avidez por lucros a curto prazo e a qualquer
preço desses tempos de globalização econômica insensí-
vel venha a contribuir para acelerar o saque de seu patri-
mônio mineral e biológico e essas preocupações venham
a ser lembradas apenas como um sonho utópico de al-
guns cientistas. Texto adaptado de SANTOS. R. M. D.

https://www.todamateria.com.br/industrializacao-
no-brasil/
https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/
comercio-externo-brasileiro.htm Posteriormente, com o intuito de adaptar às caracte-
https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/ rísticas econômicas, culturais, físicas e sociais dos Estados
espaco-industrial-brasileiro.htm em uma mesma região, o território nacional passou por
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/geografia- diversas regionalizações.
economica.htm  
Confira as distintas regionalizações do Brasil: 1913

O ESPAÇO POLÍTICO: - FORMAÇÃO TERRI-


TORIAL – TERRITÓRIO, FRONTEIRAS, FAI-
XA DE FRONTEIRAS, MAR TERRITORIAL E
ZEE; ESTRUTURA POLÍTICOADMINISTRA-
TIVA, ESTADOS, MUNICÍPIOS, DISTRITO
FEDERAL E TERRITÓRIOS FEDERAIS; A
DIVISÃO REGIONAL, SEGUNDO O IBGE, E
OS COMPLEXOS REGIONAIS; E POLÍTICAS
PÚBLICAS.

O Brasil é um país que possui grande extensão terri-


torial (8.514.876 Km2), sendo considerado um país con-
tinental. Essa grande área já passou por diversas divisões
administrativas. O Tratado de Tordesilhas (1494) foi o
primeiro responsável por uma divisão no território que
hoje corresponde ao Brasil, na qual a porção leste ficou
sob domínio de Portugal e a porção oeste pertencendo
à Espanha.  Divisão regional de 1913
Outra divisão ocorreu com as Capitanias Hereditá- Essa proposta de divisão regional do Brasil surgiu
rias (1534), que consistiu na fragmentação do território para ser utilizada no ensino de geografia. Os critérios uti-
brasileiro em quinze faixas de terra. Numa alternativa de lizados foram apenas os elementos – clima, vegetação
administração territorial, o império português disponibi- e relevo. Dividia o país em cinco regiões: Setentrional,
lizou a algum membro da corte que fosse de confiança Norte Oriental, Oriental e Meridional. 
PROVA DE GEOGRAFIA

do Rei, uma das capitanias. Os donatários deveriam go-


vernar e promover o desenvolvimento da capitania na 1940 
qual se tornasse responsável. Em 1940, o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE)
elaborou uma nova proposta de divisão para o país que,
além dos elementos físicos, considerou os aspectos so-
cioeconômicos. A região Norte era composta pelos esta-
dos do Amazonas, Pará, Maranhão e Piauí e pelo territó-
rio do Acre. Goiás e Mato Grosso formavam com Minas

77
Gerais, a região Centro. Bahia, Sergipe e Espírito Santo
formavam a região Leste. O Nordeste era composto por
Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba e Ala-
goas. Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Pau-
lo e Rio de Janeiro pertenciam à região Sul. 

Divisão regional atual

1990 
A regionalização atual é de 1970, adaptada em 1990,
em virtude das alterações da Constituição de 1988. Com
as mudanças realizadas, ficou definida a divisão brasileira
1945 que permanece até os dias atuais. O Estado do Tocantins
foi criado após o desmembramento do norte de Goiás e
incorporado à região Norte; Roraima, Amapá e Rondônia
Divisão regional de 1945 tornaram-se estados autônomos; Fernando de Noronha
De acordo com a divisão regional estabelecida em deixou de ser federal e foi incorporado ao estado de Per-
1945, o Brasil passou a ter sete regiões: Norte, Nordes- nambuco.
te Ocidental, Nordeste Oriental, Centro-Oeste, Leste Se-
tentrional, Leste Meridional e Sul. Na porção norte do Políticas (públicas) territoriais no Brasil (1930-64)
Amazonas foi criado o território de Rio Branco, atual es- Até 1930, o Brasil era um país agrário-exportador,
tado de Roraima; no norte do Pará foi criado o Estado com as seguintes características: a. base da economia
do Amapá. Mato Grosso perdeu uma porção a noroes- era a exportação de produtos agrícolas, principalmente
te (batizado como território de Guaporé) e outra ao sul o café; b. a maior parte da população residia no campo;
(chamado território de Ponta Porã). O Sul, Paraná e Santa c. a divisão territorial apresentava-se na forma de “ilhas
Catarina foram cortados a oeste, criando o território de econômicas”, sem a presença de uma articulação entre
Iguaçu.  as regiões. Após 1930, com o governo Getúlio Vargas,
inicia-se uma Política Nacionalista (defesa dos interesses
1950 nacionais), com o intento de transformar o Brasil num
Ponta Porã e Iguaçu foram extintos, e os Estados do país industrial-moderno. Dentro desta política naciona-
Maranhão e do Piauí passaram a integrar a região Nor- lista, destaca-se a política siderúrgica (e industrial) esta-
deste. Bahia, Sergipe, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de tal e nacional, onde o complexo Companhia Siderúrgica
Janeiro formavam a região Leste. Brasília foi criada em Nacional (CSN)-Volta Redonda (VR) é a expressão des-
1960, e o Distrito Federal, capital do país, foi transferido se “nacionalismo de base ampla”, estadista, trabalhista
do Sudeste para a Região Centro-Oeste. Em 1962, o Acre e populista com que se equaciona a política industrial
tornou-se estado autônomo e o território de Rio Branco do Brasil moderno a partir da política do aço6. Dentro
recebeu o nome de Roraima.  deste contexto, nada mel 5 Inserido neste contexto da
política nacionalista, para se alcançar os objetivos de um
1970  desenvolvimento industrial acelerado e o mais auto-sus-
Em 1970, o Brasil recebeu o desenho regional atual. tentado possível (política adotada pelo governo Vargas),
Foi criada a região Sudeste, composta pelos estados de o Estado priorizou suas políticas estatais e seus investi-
São Paulo e Rio de Janeiro, sendo agrupados a Minas Ge- mentos em programas maciços de infra-estrutura, ener-
PROVA DE GEOGRAFIA

rais e Espírito Santo. O Nordeste recebeu Bahia e Sergipe. gia e transportes.


Todo o território de Goiás, ainda não dividido, pertencia Entre eles, se destacam: o projeto Usiminas; a criação
ao Centro-Oeste. Mato Grosso foi dividido alguns anos da Petrobras,da Eletrobras e da Companhia Nacional de
depois, dando origem ao estado de Mato Grosso do Sul. Álcalis. No plano da modernização do Estado, destaca-se
a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) 1942, o qual foi de fundamental importância para
o desenvolvimento da Geografia no país, tendo uma das
metas o estudo do vasto território brasileiro. E o Banco

78
Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) 1952, as economias do Cone Sul (Uruguai e Paraguai), através
criado para permitir o reaparelhamento da indústria na- da construção da hidrelétrica de Itaipú, sob a hegemonia
cional e vindo a se tornar o principal órgão de financia- do Brasil. Poucos países do globo levaram tão a sério as
mento a longo prazo. Em seguida, no governo Juscelino propostas de Perroux quanto aos polos de desenvolvi-
Kubitschek (JK), o Plano de Metas (1957-60) praticamen- mento como o Brasil. Foram polos agrícolas, comerciais,
te alterou toda a estrutura econômica do país, em apenas bancários, industriais e até turísticos, levando ao extremo
quatro anos. Voltado preferencialmente para os setores a visão perrouxiana de economia dominante e de cres-
de ponta da estrutura industrial, nem por isso deixou de cimento polarizado. Neste contexto, os polos de desen-
afetar todo o conjunto produtivo do país, desde os se- volvimento revelaram-se o mais adequado ao modelo de
tores básicos, passando por transportes e energia, até a ordenação territorial proposto pelo Estado autoritário.
estrutura territorial como um todo. Esse modelo autoritário de crescimento econômico co-
Os investimentos nas áreas de energia, transportes, locou a construção do Estado na frente da construção da
siderurgia, obras de infraestrututa em geral e na cons- nação. A crise nesse modelo enfraqueceu a capacidade
trução de Brasília foram provenientes dos recursos do do Estado em planejar democraticamente o desenvolvi-
Tesouro Nacional. Já os investimentos na indústria au- mento sócio-espacial. Com o início da redemocratização
tomobilística, eletro-eletrônica e outros ramos de ponta (1985 em diante – governo Sarney/85-90), inicia-se no
(capitais produtivos) foram provenientes de recursos ex- país o processo das privatizações de empresas estatais,
ternos. Destacaremos dois aspectos: o setor de transpor- inserida na ótica do Neoliberalismo.
tes e a construção de Brasília. No setor de transportes, No governo Collor (1990-92), dando continuidade
privilegiou-se as rodovias, essencialmente as de escala à política neoliberal, intensificam-se as privatizações. O
nacional, com o intuito de auxiliar na integração territo- auge desta política se estabelece no governo FHC (1995-
rial do país. Foram construídos 12.169 km de rodovias e 2002), caracterizado por: arrocho salarial, aumento da
pavimentados 7.215 km. Através de “eixos rodoviários de pobreza, maior desigualdade social, reação da massa po-
penetração”, como Belém-Brasília, Acre-Brasília, Forta- pular (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra,
leza-Brasília, Belo HorizonteBrasília, Goiânia-Brasília, as- elevado crescimento do Partido dos Trabalhadores e de
sentaram-se as bases para a integração Norte-Sul, intuito outros partidos de esquerda nas últimas eleições), pres-
nacional perseguido desde a época do Império. são para a realização das reformas da previdência, tri-
A transferência da capital da República do Rio de butária, do judiciário, trabalhista e sindical, e do ensino
Janeiro para Brasília em 1960, representou simultanea- superior. Em relação ao governo Lula (2003-2006), pode-
mente, o resguardo de ataques marítimos à capital (em mos dizer que ele está atuando na contramão da história,
contexto de guerra) e, principalmente um importante as- pois está realizando as contra-reformas burguesas (libe-
pecto para a ocupação efetiva e desenvolvimento das re- rais) que o governo FHC não conseguiu realizar, privile-
giões Centro-Oeste e Norte. 6 Ademais, temos a criação giando as classes dominantes em detrimento do povo.
da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste As políticas territoriais descritas acima transformaram
(SUDENE) em 1959, dentro da política desenvolvimen- profundamente a sociedade, o Estado e o território, con-
tista do governo JK, tendo como objetivos: a integração tribuindo para as mudanças ao nível da formação e da
do Nordeste ao mercado nacional e o desenvolvimento estrutura do território nacional. Dentre elas, a construção
sócioespacial dessa região. Configuração do território da unidade nacional e da integração nacional; a moder-
nacional no período de 1964-84 As políticas territoriais nização conservadora; o “enxugamento” do Estado as-
após 1964 estão inseridas dentro do contexto do proje- sociado a “competitividade” do território; e o desmante-
to geopolítico para a modernidade da Ditadura Militar lamento das conquistas sociais. Concluindo: os debates
(1964-85). e projetos das futuras políticas territoriais brasileiras só
O período de 1968 a 1979 (dividido em “Milagre” poderão ser feitos conjuntamente, entre Governo (nos
Econômico 1968/73 e Marcha Forçada –1974/79) com- seus diferentes níveis) e sociedade civil (através de suas
preende uma fase em que o Estado Autoritário procurou entidades); para tanto, precisamos da confecção de um
sustentar índices elevados de investimentos, às custas forte pacto federativo que leve à construção de um novo
basicamente do endividamento externo, cuja expres- projeto nacional, onde se privilegie dessa vez o povo bra-
são está nos I e II Planos Nacionais de Desenvolvimento sileiro, isto é, a construção da Nação brasileira. Assim, es-
(PNDs), que através da participação maciça do investi- taremos mais bem preparados para as próximas décadas
mento estatal e da elevada abertura para o exterior, pro- do século XXI. Texto adaptado de TZU. S.
curaram impor um projeto territorial, baseado no ideal
da integração do Brasil Potência. Por sua vez, o proje- TERRITÓRIOS, FRONTEIRAS
to “Brasil Potência” clamava por: acelerar o crescimento O presente artigo versará sobre a importância para
econômico a todo custo, calcado no endividamento ex- o Brasil dos conceitos jurídicos contidos na Convenção
PROVA DE GEOGRAFIA

terno e compressão salarial. das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM),
Ademais, temos a definição da integração nacional assinada no dia 10 de dezembro de 1982, em Montego
como meta da gestão do território. Os principais intuitos Bay (Jamaica), em vigor, internacionalmente, desde 16 de
da integração eram: a. abri-la como fronteira econômica novembro de 1994, e que trouxe um grande arcabouço
e fechá-la como fronteira social (populacional); b. inte- político-jurídico, estabelecendo a “fronteira marítima”
gração produtiva das regiões periféricas ao núcleo dinâ- dos Estados costeiros.
mico (exemplos: polos petroquímicos de Camaçari – BA e Nessa Convenção podem ser encontrados, entre ou-
de Triunfo – RS); c. início do processo de integração com tros, os conceitos jurídicos de Mar Territorial, Zona Con-

79
tígua, Zona Econômica Exclusiva, Plataforma Continental fins de geração de energia elétrica e de outros recursos
e Plataforma Continental Estendida, compondo, então, a minerais no respectivo território, plataforma continental,
recentemente denominada “Amazônia Azul”. mar territorial ou zona econômica exclusiva, ou compen-
Sabe-se que, conjuntamente ao processo de globa- sação financeira por essa exploração”. (Art. 20, inc. V e VI
lização, vem ocorrendo certa pressão de atores trans- e §1, CRFB/1988) (grifo do autor)
nacionais que pleiteiam uma maior flexibilização dos Mas foi a Convenção das Nações Unidas sobre o Di-
Estados nacionais, mais precisamente buscando a per- reito do Mar (CNUDM), assinada no dia 10 de dezembro
meabilidade de seus territórios. Ao mesmo tempo em de 1982, em Montego Bay (Jamaica), e em vigor, interna-
que alguns países se envolvem em uma rede mundial de cionalmente, desde 16 de novembro de 1994, que trouxe
comércio e de fluxo de mercadorias - e, em alguns luga- o grande embasamento político-jurídico, estabelecendo
res, até de pessoas -, outros impõem barreiras aos fluxos a “fronteira marítima” dos Estados costeiros.
migratórios e à entrada de mercadorias, tentando, ora Apesar de assinada apenas em 1982, o início da for-
fortalecer seu Poder Nacional, ora rechaçando possíveis mulação da Convenção das Nações Unidas sobre o Di-
ameaças derivadas dos crimes internacionais, tais como reito do Mar deu-se a partir de 1958, em Genebra, na
o tráfico de entorpecentes, de armas, de pessoas e de Suíça. Todavia, esta primeira tentativa malogrou, tendo
biogenética. sido necessária mais duas reuniões para, enfim, ser con-
Como agravante, e mais uma “pitada” de complexida- cluída a Convenção.
de a esse contexto, a escassez dos recursos naturais do Na introdução da CNUDM, mais precisamente em seu
globo e a ânsia em um crescente aumento do consumis- preâmbulo, já se detecta os principais objetivos e fomen-
mo - o que, por consequência, gera uma corrida atrás de tadores de sua existência. Abaixo seguem alguns trechos:
energia -, aliados às ineficazes experiências de modelos “Animados do desejo de solucionar, num espírito de
de desenvolvimento sustentável em grande escala, faz-se compreensão e cooperação mútuas, todas as questões
surgir o receio por parcela dos Estados-Nações em como relativas ao direito do mar (...). Reconhecendo a conve-
garantir sua soberania e a continuidade de seu desen- niência de estabelecer por meio desta Convenção, com a
volvimento. devida consideração pela soberania de todos os Estados,
O Brasil, assim como a Índia, a China e a Rússia, países uma ordem jurídica para os mares e oceanos (...) e pro-
denominados pela sigla BRIC’s, entre outros em desen- mova os usos pacíficos (...), a utilização eqüitativa e efi-
volvimento, começam a despontar no cenário internacio- ciente de seus recursos, a conservação dos recursos vivos
nal, seja pelo índice de crescimento econômico atingido e o estudo, a proteção e a preservação do meio marinho
nos últimos anos, seja pela expansão de seus mercados (...).”. (CNUDM, 1982, Preâmbulo)
consumidores, seja, ainda, pela quantidade (e qualida- Antes mesmo da assinatura da CNUDM, segundo
de) de seus recursos naturais, muitos apenas detecta- RANGEL (2005), as nações já estabeleciam como princí-
dos, mas não explorados até o momento. Desta forma, a pio consagrado, por meio da Resolução nº 2.749 (XXV),
preocupação com a manutenção e o prosseguimento do de 17 de dezembro de 1970, da Assembléia Geral das
Desenvolvimento torna-se objetivo crucial. Nações Unidas, o seguinte:
À guisa de referencial teórico, serão abordadas as de- “(...) os fundos marinhos e oceânicos e o seu subsolo
finições de fronteira marítima, incluindo-se os conceitos para além dos limites de jurisdição nacional, bem como
de Mar Territorial, Zona Contígua, Zona Econômica Ex- os respectivos recursos são patrimônio comum da hu-
clusiva, Plataforma Continental e, a tão discutida, atual- manidade e que a exploração e o aproveitamento dos
mente, Plataforma Continental Estendida, a qual legitima, mesmos serão feitos em benefício da humanidade em
por exemplo, a exploração econômica do Brasil em áreas geral, independentemente da situação geográfica dos
além das 200 milhas náuticas, onde está abrangida, verbi Estados”. (Res. n. 2.749, 1970, ONU, apud Vicente Marot-
gratia, parte da camada do “pré-sal”, e que compreende ta Rangel, 2005, p. 249-) (grifo do autor)
a denominada “Amazônia Azul”. No Brasil, a CNUDM foi aprovada pelo Congresso Na-
________________________________________ cional ainda em 1987, tendo sido ratificada a 22 de de-
DA FRONTEIRA MARÍTIMA zembro de 1988 e promulgada pelo Decreto n. 1.530, de
22 de junho de 1995. Todavia, segundo Francisco Rezek,
Nessa parte do trabalho buscar-se-á, como arcabou- a Lei n. 8.617/93 já havia causado algumas alterações: a
ço conceitual-metodológico, principalmente (mas não redução da extensão do Mar Territorial (de 200 para as
exclusivamente), o Direito Internacional Público e os tra- 12 milhas marítimas) e a adoção do conceito de Zona
tados firmados pelo Brasil junto aos Organismos Inter- Econômica Exclusiva (ZEE), correspondente as 188 milhas
nacionais, pessoas jurídicas de direito público externo, adjacentes ao Mar Territorial.
assim reconhecidos consoante art. 42, do Código Civil Na verdade, os conceitos utilizados pela Convenção
nacional. não trouxeram, expressamente, o termo fronteira, mas
PROVA DE GEOGRAFIA

Além dos tratados e convenções a seguir, a própria sim algumas definições que amalgamaram a extensão da
Constituição Cidadã prevê, em seu art. 20, a preocupação soberania e a possibilidade de exploração econômica de
no tocante a essa faixa de mar: um país no mar – seus limites.
“São bens da União: V – os recursos naturais da pla-
taforma continental e da zona econômica exclusiva. VI MAR TERRITORIAL
– o mar territorial. (...) §1º É assegurada, nos termos da O primeiro e importantíssimo conceito trata do Mar
lei, aos Estados, (...) participação no resultado da explora- Territorial. Segundo J. F. Rezek (2005, p. 307) Mar Territo-
ção de petróleo ou gás natural, de recursos hídricos para rial “é a extensão da soberania do Estado costeiro além

80
de seu território e de suas águas interiores”. Para este É, portanto, na Zona Contígua que o Estado costei-
autor, dentro desse conceito estão abrangidos o leito do ro exerce ações de natureza preventiva, visando impedir
mar, o respectivo subsolo e, ainda, o espaço aéreo sobre- a ocorrência de delitos ou de outras anormalidades no
jacente. Rezek construiu essa definição a partir dos arts. território nacional. É o caso, verbi gratia, das inspeções
2º e 3º, ambos da CNUDM. sanitárias em navios, para fins de conferência da quali-
Essa ideia de soberania do Estado costeiro está in- dade dos gêneros transportados, ou das barreiras fitos-
trinsecamente ligada ao imperativo de defesa do territó- sanitárias criadas, eventualmente, com a finalidade de
rio. Para se ter uma noção acerca de sua importância, ao impedir alguma epidemia no território (nos últimos anos
romper do século XVIII adotava-se três milhas náuticas destacam-se a da gripe aviária e, mais recentemente, a
marítimas como Mar Territorial. Isso se justificava pelo
da gripe suína).
alcance máximo da artilharia costeira à época.
Nessa faixa de 12 milhas náuticas, após o Mar Territo-
No século XX, e por volta da II Guerra Mundial (II GM),
alguns Estados estenderam – sempre mediantes atos rial, é que o País costeiro também inibe a entrada de imi-
unilaterais – a largura dessa área (4, 6, 9 e mesmo 12 grantes ilegais (de forma clandestina) no seu território,
milhas náuticas marítimas). ou, ainda, evita que seres humanos sejam transportados
A partir de 1952, diversos países da América Latina – a de forma degradante, remontando-se, de certo modo, ao
começar pelo Chile, Equador e Peru – decidiram estender período do tráfico negreiro. Também nos últimos anos,
esse limite até as duzentas milhas, correspondendo a 370 inúmeros foram os casos de imigrantes clandestinos (a
quilômetros, aproximadamente. Justificaram, tais países, maioria africanos) terem adentrado o território brasileiro,
essa medida, tendo em vista as necessidades de ordem utilizando-se como porta de acesso o mar, mesmo com a
econômica. Nesse caso é fácil perceber o grande motivo: fiscalização e o controle já existente.
os três países têm como parte substancial de suas eco- Dentro desse aspecto, convém trazer à tona a recente
nomias a pesca industrial em águas salgadas, sobretudo edição da Lei Complementar (LC) Nr 136, de 25 de agos-
pelo aproveitamento da qualidade e da quantidade do to de 2010, que fez alterações importantes na LC 97, a
pescado, como consequência da corrente marítima fria qual dispõe sobre as normas gerais para a organização,
de Humboldt (ou do Peru) e da existência de uma área o preparo e o emprego das Forças Armadas. Com base
de ressurgência. nessas alterações, a Marinha do Brasil (MB) recebera uma
Os Estados Unidos não ficaram para trás: também série de atribuições subsidiárias para a fiscalização e o
logo após a II GM reivindicaram o limite de 200 milhas
maior controle sobre essa porção territorial: tratou-se da
para o mar territorial, “tendo em vista a necessidade de
extensão do poder de polícia - preventivo ou repressivo
proteger o seu território contra armas de longo alcance”
(MATTOS, 1990, p. 70). - a esta Força Armada.
O Brasil adotara o critério das 200 milhas náuticas, Seguiu tais alterações o já proposto e modificado
por lei, apenas em março de 1970, tendo sido o 9º país pela LC Nr 117/2004, a qual atribuía apenas ao Exército
da região a adotar esta medida. Mas essa extensão e de- o poder de polícia na faixa de fronteira terrestre do País
limitação não ocorreram apenas na América Latina: na [01], de forma integrada ou não. Agora, com o advento
Guiné, fixou-se 80 milhas; na Islândia, 50 (o que, inclusive, dessa nova LC, as Três Forças estão legitimadas a atua-
lhe custara um litígio com a Grã-Bretanha). rem com esse poder na faixa fronteiriça [02].
Portanto, tem-se como Mar Territorial a faixa adjacen-
te ao litoral de 12 milhas náuticas, a contar da linha de ZONA ECONÔMICA EXCLUSIVA
base do território. Por sua vez, linha de base é a linha O terceiro conceito, agora muito mais ligado à ex-
litorânea de maré mais baixa (baixamar). ploração econômica, vem ser o de ZEE (Zona Econômica
A doutrina, baseada na CNUDM, alerta que essa so- Exclusiva). Segundo Rezek (2005, p. 303-) é “uma faixa
berania não é absoluta como a do território, pois está adjacente ao Mar Territorial e cuja largura máxima é de
submetida a alguns senões. Como por exemplo, há o di- 188 milhas náuticas contadas a partir do limite exterior
reito de passagem inocente, reconhecido em favor dos daquele, com o que perfazem 200 milhas, a partir da li-
navios – mercantes ou de guerra – de qualquer Estado. nha de base”.
Mas lembra também os doutrinadores que essa re-
O art. 56, da CNUDM, expõe os direitos concernentes
lativização – a passagem inocente – deve ser rápida e
ao Estado costeiro sobre essa faixa de água. Inclui-se a
contínua, vez que há proibição de realização de mano-
bras militares, atos de propaganda, pesquisas e buscas soberania, no que diz respeito à exploração e ao aprovei-
de informações, atividade de pesca, levantamentos hi- tamento, a conservação e a gestão dos recursos naturais,
drográficos etc. vivos ou não vivos, das águas sobrejacentes ao leito do
mar e seu subsolo. Também autoriza a investigação cien-
ZONA CONTÍGUA tífica marinha e a produção de energia, a partir da água,
PROVA DE GEOGRAFIA

O segundo conceito criado pela CNUDM foi o de das correntes e dos ventos, e atribui como um dever a
Zona Contígua, que é uma área reservada às medidas de proteção e a preservação do meio marinho.
fiscalização, no que concernir à alfândega, à imigração, à Apenas levando-se em conta essa Zona com fins de
saúde e, ainda, à disciplina regulamentar dos portos e do exploração econômica e pesquisa científica, soma-se
trânsito pelas águas territoriais. Essa Zona não poderá ir para o Poder Nacional brasileiro uma área de cerca de
além das 24 milhas marítimas, contadas da mesma linha 3.500.000Km2 (ver Figuras 1 e 2).
de base do Mar Territorial. Isso é o que consta do art. 33
da CNUDM.

81
DA PLATAFORMA CONTINENTAL E PLATAFOR- FIGURA 2 – PROPOSTA BRASILEIRA JUNTO À ONU
MA CONTINENTAL ESTENDIDA E SUA IMPORTÂNCIA
PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL

Após definir Mar Territorial, Zona Contígua e Zona


Econômica Exclusiva (Figura 1), a Convenção das Nações
Unidas sobre o Direito do Mar estabeleceu o conceito de
Plataforma Continental, cujo teor é de suma importância
para o Brasil, sobretudo nos dias atuais.

FIGURA 1: CORTE TRANSVERSAL E VISTA DO MAR


TERRITORIAL, ZEE E PLATAFORMA CONTINENTAL, COM
A RESPECTIVA DIMENSÃO.

Fonte: http://www.mar.mil.br/menu_v/ccsm/impren-
sa/am_azul_mb.htm

A fim de atribuir o direito à exploração nessa Plata-


Fonte: Marinha do Brasil. forma Estendida (além da ZEE), a CNUDM exigiu, como
requisito, a instauração de uma comissão: a Comissão
Ressalva-se que, a partir deste conceito, é que a Pe- de Limites da Plataforma Continental, na qual os países
trobras e, por conseguinte, o Estado brasileiro, vem con- interessados deveriam depositar os mapas e as informa-
seguindo, legitimamente, realizar a exploração das reser- ções pertinentes para dar a devida publicidade do pleito.
vas de hidrocarbonetos de parte da denominada camada Tudo isso ocorreria junto à Secretaria-Geral das Nações
do “pré-sal”. Unidas.
A Plataforma Continental, consoante o art. 76, da O Brasil, para atingir esta finalidade, ainda em 1986,
CNUDM, em seus §§ 4º e 6º, significa, geograficamente, a efetivou o LEPLAC (Levantamento da Plataforma Conti-
parte do leito do mar adjacente à costa que não exceder nental), que se estendeu até 1996, com a confecção de
a 200 metros de profundidade e que, a uma boa distân- mapas que traçaram as linhas determinantes do limite
cia do litoral, cede lugar às inclinações abruptas que con- exterior da Plataforma Continental do território brasilei-
duzem aos fundos marinhos. ro.
Observa a Convenção de Montego Bay (1982) que o Destacaram-se duas grandes porções: o cone que se
limite exterior da plataforma continental coincidirá com prolonga a partir da Foz do Rio Amazonas e o trecho do
o limite da ZEE (200 milhas náuticas, a partir da linha de Espírito Santo ao Uruguai (Figura 3).
base do litoral), a menos que o bordo exterior da mar- No período de 30 de agosto a 17 de setembro de
gem continental – isto é, o limiar da área dos fundos ma- 2004, na sede da ONU, em Nova Iorque, ocorrera a de-
rinhos – esteja ainda mais distante: neste caso, o bordo fesa da tese brasileira, representada por integrantes da
será o limite da plataforma, desde que não ultrapasse a Marinha do Brasil, da Petrobrás e da comunidade cien-
extensão total de 350 milhas náuticas. tífica com vocação para a área de Oceanografia. A esse
Por conseguinte, tem-se, então, que a Plataforma grupo foi atribuída a denominação de “Bandeirantes das
PROVA DE GEOGRAFIA

Continental poderá se estender além das 200 milhas da Longitudes Salgadas” (SERAFIM, 2006) em referência ao
ZEE, nos locais em que ela não atingir os 200 metros de alargamento das fronteiras brasileiras só que, desta vez,
profundidade, criando-se, assim, a definição de Platafor- não da terrestre (como fora a partir de 1700), mas sim da
ma Continental Estendida (Figuras 2). marítima.

82
FIGURA 3 – ZEE E PLATAFORMA CONTINENTAL ES- A partir da década de 1990, sobretudo no seu final,
TENDIDA nota-se um preparativo dos países para o ingresso no sé-
culo XXI. No Brasil não ocorrera diferente: com o aumen-
to do tráfico internacional de entorpecentes e de demais
ilícitos que permeiam suas fronteiras, e com a descober-
ta de novas jazidas de hidrocarbonetos ao longo de sua
costa, o País se viu na necessidade de aprimorar não só a
disciplina do uso e das concessões, mas também a forma
de manutenção/garantia desses recursos, tendo como
pano de fundo o binômio da Segurança e do Desenvol-
vimento Nacional.
Uma das soluções encontradas fora a elaboração e
promulgação da Lei Complementar Nr 97, de 09 de ju-
nho de 1999, a qual, cumprindo o previsto no art. 142, da
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988,
estabeleceu a organização, o preparo e o emprego das
Forças Armadas.
Em 02 de setembro de 2004 é sancionada outra Lei
Complementar, a de Nr 117, alterando alguns disposi-
tivos da LC 97/99, e atribuindo ao Exército Brasileiro o
poder de polícia na faixa de fronteira terrestre (150Km ao
longo das fronteiras). A importância dessa faixa é revela-
da pela Constituição Federal de 1988, em seu art. 20, §2º,
onde, aliás, também recebe seu conceito: “fundamental
para defesa do território nacional”.
No último dia 25 de agosto, por meio da edição da
Lei Complementar Nr 136, fruto do Projeto de Lei Nr
543/2009, o poder de polícia foi estendido à Marinha do
Brasil e à Força Aérea. Pode-se apreender, portanto, nes-
sa recente evolução da história política do Estado brasi-
Fonte: http://www.mar.mil.br/menu_v/ccsm/impren- leiro, um incremento do papel estatal nas suas “linhas”
sa/am_azul_mb.htm (adaptado) delimitadoras de poder: as fronteiras.
É a essa área, compreendendo cerca de 4.500 milhões Pelas dimensões e na escala em que se está traba-
de quilômetros quadrados, ou seja, mais da metade do lhando - cerca de 17.000km de fronteira terrestre e de
território terrestre do Brasil, que os especialistas atri- 8.500km de fronteira marítima - sem contar os espaços
buem a expressão “Amazônia Azul”. aéreo e cibernético -, atrelado às novas e grandiosas des-
Além das explorações de hidrocarbonetos (petróleo cobertas de petróleo e gás natural na camada do “pré-
e gás natural) pode ser citada como importância dessa -sal”, em regiões marítimas inseridas na Zona Econômica
área o seguinte: mais de 90% do comércio exterior do Exclusiva e na Plataforma Continental Estendida, o Estado
País é feito por transporte marítimo; a pesca; minerais, brasileiro está se vendo na necessidade de aperfeiçoar a
como o cobalto, a platina, o manganês e o sulfeto; a bio- forma de controle sobre essa vasta e riquíssima área.
genética e a farmacologia; possibilidade de água potável; A compreensão da importância dos conceitos políti-
80% da população brasileira vive a menos de 200Km do co-jurídicos ligados ao Direito do Mar estabelecidos pela
litoral CNUDM e a implementação de medidas estatais - po-
líticas públicas - no âmbito interno, a fim de garantir a
CONCLUSÃO manutenção da soberania e do desenvolvimento, já é um
No atual cenário da globalização e da multilaterali- bom começo.
dade das decisões em escala mundial, percebe-se que
os Estados-nações se vêem apreensivos a respeito do https://jus.com.br/artigos/17519/o-direito-do-mar-
futuro de sua existência. Seja pelas inúmeras e cíclicas -e-a-fronteira-maritima-brasileira/1
crises econômicas às quais foram submetidos quase que
a totalidade dos países do globo (quiçá apenas “de fora”
os que já vivem em crise permanente), seja pelos seus Prezado candidato, sobre territórios federais, poderes
reflexos no campo psicossocial e político. e características confira a Constituição Federal no que diz
PROVA DE GEOGRAFIA

Com o contínuo aumento de demanda por produ- respeito ao Executivo, Legislativo e Judiciário e Organiza-
tos, e, em consequência, por energia para fabricá-los, ção administrativa.
necessário se torna aos Estados detentores de recursos
naturais em abundância, muitos dos quais nem explo-
rados, a preocupação com a manutenção dos requisitos
de sua respectiva existência: a soberania, o território e o
povo (além da finalidade, citada por alguns doutrinado-
res [04]).

83
O ESPAÇO HUMANO: DEMOGRAFIA: TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA, CRESCIMENTO POPULA-
CIONAL, ESTRUTURA ETÁRIA, POLÍTICA DEMOGRÁFICA E MOBILIDADE ESPACIAL (MIGRA-
ÇÕES INTERNAS E EXTERNAS); MERCADO DE TRABALHO: ESTRUTURA OCUPACIONAL E
PARTICIPAÇÃO FEMININA; DESENVOLVIMENTO HUMANO: OS INDICADORES SOCIOECONÔ-
MICOS; E URBANIZAÇÃO BRASILEIRA: PROCESSO DE URBANIZAÇÃO, REDE URBANA, HIE-
RARQUIA URBANA, REGIÕES METROPOLITANAS E RIDES, ESPAÇO URBANO E PROBLEMAS
URBANOS.

Crescimento demográfico, distribuição e estrutura


A população brasileira está irregularmente distribuída no território, isso fica evidente quando se compara algumas
regiões ou estados, o Sudeste do país, por exemplo, apresenta uma densidade demográfica de 87 hab/km2, as regiões
Nordeste, Sudeste e Sul reúnem juntas 88% da população, distribuída em 36% de todo o território, fato contrário à
densidade demográfica do Norte e Centro-Oeste, que são, respectivamente, 4,1 hab/km2 e 8,7 hab/km2, correspon-
dendo a 64% do território total. 

Os brasileiros atualmente exercem um grande fluxo migratório, internacional e nacionalmente, nesse processo é
importante salientar a diferença entre emigração (saída voluntária do país de origem) e imigração (o ato de estabele-
cer-se em país estrangeiro).
Acerca das migrações externas o significado está no fluxo de pessoas que saem do seu país para viver, ou mesmo
visitar, outro país, geralmente países desenvolvidos; já as migrações internas caracterizam-se pelo deslocamento po-
pulacional que se realiza dentro de um mesmo país, seja entre regiões, estado ou municípios. No Brasil cerca de 40%
dos habitantes residem fora dos municípios que nasceram.
Os principais fluxos migratórios no Brasil estão voltados para os nordestinos que saem em direção ao Sudeste e
Centro-Oeste, isso muita vezes é provocado devido às questões de seca, falta de emprego, baixo índice de industriali-
zação em relação às outras regiões, dentre outros fatores. 
Outro fluxo bastante difundido é em relação aos migrantes do Sul que saem em direção às regiões do Centro-Oeste
e Norte, esse processo deve-se aos agricultores gaúchos que procuram novas áreas de cultivo com preços mais baixos.

Geografia Urbana
O estudo da estrutura intraurbana não será satisfatório se não abarcar as localizações, os elementos da estrutura
urbana, nem as correlações ou partes componentes do todo das cidades, como aponta Flávio Villaça, em Espaço In-
traurbano no Brasil. Nessa perspectiva, faz-se premente a leitura dialética do ordenamento territorial encarado como
um processo o que conduz a uma abordagem em termos de movimento das estruturas urbanas, onde várias forças
PROVA DE GEOGRAFIA

atuam com sentidos e intensidades diferentes. Iniciamos a discussão, então, afirmando que o capital imobiliário é um
falso capital, visto que o mesmo não se origina na atividade produtiva, mas na monopolização dos acessos, das mo-
bilidades e das localizações intraurbanas; o capital imobiliário é um “valor” que se valoriza pelo poder do monopólio
reproduzido nas cidades. Esse enfoque é necessário em um momento em que a realidade social (refletida na produção
das cidades e nas relações do urbano e da urbanização) transforma-se tenazmente, de maneira que importa partir de
problemas estabelecidos, de amplas e integradoras propostas requerentes de novas teorias, novos métodos e busca
de novos elementos empíricos para a elucidação da Geografia Urbana que se projeta.

84
Um dos grandes desafios posto a geógrafos, arquite- leitura das formas ou das funções urbanas, mas sobretu-
tos, urbanistas e planejadores parece ser o de capturar as do, envolvida com a essência dos processos que ressig-
cidades enquanto totalidades urbanas inseridas na “tota- nificam as cidades em sua totalidade.
lidade-mundo”. As cidades são divididas em vários ele-
mentos, reproduzem-se estudos pontuais sobre temas O movimento das cidades – representações e diag-
particulares: densidade demográfica, áreas industriais, nósticos no planejamento urbano
áreas comerciais, preço da terra, setores do terciário
(avançado ou não), áreas de intervenção turística etc. A O processo especulativo decorre da extensão hori-
análise por meio de elementos estanques perfaz-se em zontal-vertical das cidades, com a implantação diferen-
uma frágil visão de totalidade ou de conjunto, o que a cial dos serviços coletivos que produzem a particularida-
torna insuficiente para auxiliar na estruturação de uma de das localizações. O capital monopolista urbano agrava
base teórica e prática sobre o espaço urbano. Pouco se a diferenciação e, consequentemente, faz emergir a cida-
avançou na investigação sobre o conjunto da cidade, so- de econômica em vias da privatização, em detrimento da
bre a articulação de suas várias áreas funcionais, ou seja, cidade social do coletivo. Logo, os produtos da escassez
sobre a estrutura intraurbana regida pelo movimento se afirmam vigorosamente e, com isso, ampliam-se as
das contradições da reprodução ampliada do capitalis- diferenças entre setores urbanos diante de uma urbani-
mo global. A renda diferencial no espaço urbano é, na zação corporativa (gestada pelos interesses das grandes
verdade, um diferencial de valor criado pelo poder do empresas, que se expandem e consomem os recursos
monopólio; as glebas de terra urbana possuem preços públicos depositados na infra-estrutura que as atendem).
diferentes porque têm valores diferentes e não porque As cidades crescem atendendo aos interesses das
produzem rendas diferentes e esse diferencial se dá pelo grandes e médias empresas e corporações, os quais
monopólio criado pela singularidade da localização. abrangem desde subsídios fiscais a infraestrutura territo-
Dentro desse escopo de análise posto por geógrafos rial. É importante reconhecermos que, no movimento das
e arquitetos, é primordial o entendimento da relação en- cidades, há uma íntima relação entre o seu crescimento
tre: os transportes, as localizações, a valorização da terra físico e as vias regionais de transporte vias de escoamen-
e a estrutura urbana. Em suma, cabe indagarmos as ne- to que entrelaçam o local-regional-nacional. Enquanto
cessidades, as possibilidades e os limites da circulação as ferrovias provocam um crescimento descontínuo e
territorial ou da mobilidade social que sustentam tanto fortemente nucleado (em que os núcleos de crescimen-
o mercado regional, nacional e, quiçá, global (não ape- to são as estações), as rodovias promovem uma expan-
nas nas grandes metrópoles contemporâneas), quanto a são descontínua, e menos nucleada do que as ferrovias,
vida do lugar. Nessa tendência, as singularidades locais como pode ser observado através das maiores rodovias
parecem ser os novos elementos de uma dinâmica que estaduais e federais do Brasil e o espraiamento das ci-
forja o capital simbólico da distinção urbana (daí a proje- dades ao longo desses eixos. Podemos concordar com
ção das cidades capitalistas pós-industriais e sua tercei- as afirmações e os indícios de que a estrutura espacial
rização). Um bom exemplo do movimento das contradi- das metrópoles brasileiras se configura mais enquanto
ções na “produção” da renda de monopólio em nossas setores de círculos, ou seja, setores mesmo de interven-
cidades grandes e médias, sobretudo, é explicitado por ção do capital, do que segundo círculos concêntricos. As
Maria Adélia Aparecida de Souza, em sua tese de livre- principais evidências deixam marca de que, nas metrópo-
-docência. Para a autora, a rápida instalação do processo les brasileiras, os bairros residenciais de alta renda des-
de verticalização urbana relaciona-se fortemente com o locam-se no sentido das principais vias e não em coroa
processo de periferização, caracterizado pela localização de círculos; a essência do sentido radial do crescimento
dos pobres em áreas da cidade esquecidas pelos agentes das cidades no Brasil ocorre pela necessidade de manter
imobiliários. Assim, é um equívoco pensar os problemas o acesso ao centro ou às principais centralidade urbanas,
urbanos ou a lógica da renda da terra urbana sem pon- enquanto as cidades dos países desenvolvidos cresceram
derar as contradições da organização social, os símbolos respondendo à coroa de círculos concêntricos, justificá-
e os sentidos que projetam as cidades e redirecionam vel pelo menor desequilíbrio entre as classes sociais e seu
as direções de seu crescimento. O preço da terra urbana movimento sobre o território urbano.
advém de três elementos primordiais, imbricadamente: A título de exemplificação, novos centros consolida-
seu preço de produção, seu preço de monopólio e seu dos após a década de 1970 – de Belo Horizonte (Savassi),
valor simbólico coletivo (também individual). Salvador (arredores do Iguatemi), São Paulo (as avenidas
A principal renda existente no caso urbano é a renda Faria Lima, Berrini, Chucri Zaidan e Paulista) e Recife (Boa
de monopólio, que rebate no preço da terra e agrega Viagem), seguiram os bairros residenciais de alta renda.
os outros dois componentes. Essas questões prelimina- A partir dos estudos consultados para este ensaio teóri-
res conduzem-nos ao pensamento sobre o planejamento co - Ermínia Maricato, Milton Santos e, especialmente,
PROVA DE GEOGRAFIA

de cidades e os instrumentos urbanísticos, bem como os Flávio Villaça -, fica claro que os bairros residenciais eli-
diagnósticos possíveis no movimento contraditório da tizados ou os bairros em processo de valorização, nas
produção do urbano e da revaloração simbólica e ima- grandes e médias cidades brasileiras, tendem:
ginária construída sobre as cidades com o apoio técnico- • A acompanhar as vias especiais de fluxos, os nú-
-científico e da informação. O presente ensaio introduz cleos existentes de edificação e os centros comerciais e
uma discussão preliminar sobre utopias e possibilidades financeiros proeminentes. Isso pode ser contemplado
do planejamento urbano; reconhece a importância de em eixos de São Paulo como a Avenida Paulista, Aveni-
uma geografia aplicada ao planejamento para além da da Faria Lima, Avenida Berrini, Rua Augusta, Marginal Pi-

85
nheiros; de Brasília, como o Plano Piloto (área central) e • Separação crescente entre zonas de moradias reser-
imediações das principais vias que atravessam a Asa Sul vadas às camadas sociais mais privilegiadas e zonas de
e a Asa Norte; de Belo Horizonte, como a Avenida Afonso moradias populares, mutuamente correlacionadas.
Pena e eixos transversais, as cercanias da Avenida Ama- • Esfacelamento generalizado das funções urbanas,
zonas e do Contorno e a região da Pampulha. disseminadas em zonas geograficamente diferentes e
• A seguir, junto às estratégias imobiliárias, a implan- cada vez mais especializadas (zonas de escritórios, zona
tação de instituições públicas e privadas, como as uni- industrial, zona de moradias, zona terciária de finan-
versidades, formando as chamadas cidades universitárias ceiras etc.). Isso representa a consequência espacial do
e seus bairros mais valorizados de entorno, como temos modelo modernista de fragmentação funcional. Apesar
em São Paulo (Butantã), Campinas (Barão Geraldo), Belo do zoneamento e com o zoneamento, novas centralida-
Horizonte (Pampulha), Brasília (Asa Norte) etc. des emergem como resistência ou busca de soluções à
• A crescer na direção dos terrenos de topografia fragmentação que redunda no distanciamento das áreas
mais elevada ou de melhor índice de habitabilidade, centrais urbanas. A separação crescente entre as zonas
longe de inundações e deslizamentos de terra. Caso dos de moradias de classes altas e baixas, o movimento das
bairros Bauxita, Vila N. Sra. de Lourdes e Jardim Alvorada, zonas industriais, comerciais e de serviços - que extrapo-
em Ouro Preto, onde o preço da terra é dos mais ele- la a delimitação política do município, algumas das vezes
vados dessa cidade setecentista. Como falamos em ten- - e os processos de intervenções territoriais setorizados
dência de ocupação e não em regra, também identifica- (renovação urbana) constituem as forças atuantes no
mos bairros nobres em áreas de risco, devido à maratona presente sobre a estruturação do espaço urbano (sobre-
por condomínios, especialmente nas grandes cidades. A tudo, metropolitano) no Brasil.
permissividade do Estado ratifica a ação, muitas das ve-
zes descompromissada, do mercado. Os instrumentos de gestão urbana e o papel do
• A acompanhar o movimento de escritórios, bancos, Estado – algumas anotações
lojas, novos setores financeiros e comerciais, tendência
evidente em diferentes áreas de nossas metrópoles. Diante desse quadro contraditório da produção do
• Ao longo das principais e mais fluidas linhas de urbano, ocorreu, no final do século XX, a transferência
transporte coletivo e individual.
das diretrizes federais para o desenvolvimento urbano
• A respeitar os promotores imobiliários, enquanto
(que envolvem questões de conflitos fundiários) para a
agentes capazes de desviar a direção de crescimento das
esfera dos municípios. Não é devido a ausência de leis ou
áreas residenciais ou comerciais e do terciário (o terciário
planos (considerando-se a institucionalização dos Planos
avançado segue as tendências dos promotores imobiliá-
Diretores para municípios acima de 20.000 habitantes,
rios, dinâmica esta emergente em grandes cidades como
no início do século XXI) que as áreas de risco geológico,
São Paulo, em que a Avenida Chucri Zaidan, na zona sul
de inundação ou escorregamentos são impropriamen-
da capital, poderá ser o maior polo de escritórios da cida-
de: os 872 mil m² existentes e em processo de renovação, te ocupadas, mas sim pela ausência de alternativas da
até 2016, serão o dobro da oferta da Avenida Paulista e população de baixa renda. As áreas que não despertam
40% superiores à da Faria Lima). o interesse do mercado imobiliário - vulneráveis à ocu-
Nessa tendência, o marcante traço da cidade capitalis- pação e/ou protegidas por legislação ambiental, restam
ta pós-industrial permanece na segregação socioespacial enquanto locais de morada dos pobres e formação de
dos bairros residenciais das variadas classes ou grupos, o favelas nas cidades brasileiras em suas distintas escalas,
que faz por criar sítios sociais singulares e simbólicos, o contraditoriamente, em face da permissividade estra-
que já era presente, em outra dimensão, na cidade mo- tégica do Estado. Vigora, em nossas cidades, o que já
derna industrial. Quer dizer que, para o planejamento ou tratamos por “construção social do risco socioambiental
diagnóstico de nossas cidades, devemos capturar a con- e um necessário combate à naturalização dos eventos
cretude da atratividade dos diferentes sítios urbanos que trágicos”.
compõem uma mesma cidade, a posição das diferentes Na perspectiva de uma dialética espacial (presente
vias de circulação, a localização das indústrias, do comér- em Edward Soja, David Harvey, Milton Santos e que tra-
cio e dos serviços, os traços da cultura urbana peculiar, zemos para nossa tese doutoral), o próprio espaço atua
em seus distintos sítios, e as novas políticas que redun- como mecanismo para exclusão, onde a segregação é a
dam, ao mesmo tempo, no espraiamento das cidades e manifestação da renda fundiária urbana, produtora de
na escolha dos setores de intervenção, o que leva à frag- uma diferenciação do atributo de localização que, no li-
mentação do urbano e à diluição da urbanidade. mite, reproduz a possibilidade do monopólio. No amplo
Essas são algumas das forças que imprimem movi- contexto do movimento contraditório das cidades, os
mento na estrutura urbana e levam ao crescimento das instrumentos de gestão transplantados de realidades ex-
cidades em sua totalidade orgânica e sistêmico-contradi- ternas pouco aprofundam no entendimento da realida-
PROVA DE GEOGRAFIA

tória. Logo, como as cidades são produtos de um vira-se de das cidades brasileiras. Os instrumentos urbanísticos
universal, devemos ter cuidado com os “modelos” sim- (planos diretores e leis de zoneamento) ignoram que, na
plificados de sua esquematização. Os modelos são es- cidade dos países periféricos ou mesmo em desenvolvi-
táticos e pouco capturam a tendência do movimento da mento, como é o caso do Brasil, o mercado residencial
urbanização. Devem ser considerados, para uma análise atende a uma porcentagem ínfima da população proble-
mais aprofundada, três tipos de segregação urbana. mas que se apresentaram com menos força às gover-
• Oposição centro valorizado – periferia precarizada nanças urbanas e até mesmo cientistas das prestigiadas
em simultânea dependência. cidades dos países do norte.

86
Uma Geografia Urbana Aplicada ou uma Geografia O planejamento e, por assim dizer, os planos direto-
Aplicada ao Planejamento (cuja metodologia analítica res e o zoneamento, devem primar pela construção de
virá sintetizada no tópico seguinte) não deve negligen- indicadores complexos e sua representação em mapas
ciar que a especulação imobiliária ou a renda da terra ur- sobre: índice de pobreza, índice de desenvolvimento, ín-
bana derivam da relação do sítio social com o mercado e dice de exclusão social, distribuição de renda, vulnerabi-
ante a disputa pela localização nas cidades inclusive com lidade social, serviços públicos, qualidade da água, qua-
novos símbolos e signos criados. É uma dinâmica que lidade ambiental, conforto térmico e outros possíveis. O
inclui expectativas, onde a sociedade urbana transforma indicador sintético dessa análise é a qualidade de vida
seletivamente os lugares em nome das exigências fun- urbana a ser apreendida por meio de análises empíricas
cionais e do valor simbólico que os lugares incorporam. participativas e interpretativas.
Em resumo, a oferta de loteamentos fechados, os condo- Outra relevante técnica (e possibilidade) nos diag-
mínios horizontais e verticais, junto às novas centralida- nósticos urbanos (que não devem excluir a perspecti-
des oriundas do movimento das cidades ou da expansão va da visão dialética da realidade citadina) consiste no
urbana recente (áreas eleitas para novos investimentos sensoriamento remoto, que pode nortear, inicialmente,
acompanhados de intervenções setorizadas como re- a leitura das cidades ou a tomada de decisão dos plane-
novação, requalificação, revitalização e reabilitação ur- jadores sobre: adensamento populacional, infraestrutura
e riscos ambientais, estudo da expansão urbana, cresci-
banas) parecem confabular a tipologia mais recente da
mento da mancha urbana, cobertura florestal ou de her-
expansão das cidades em nome do monopólio criado
báceas, atividades agrícolas, loteamentos recentes, áreas
pela localização, pela irreplicabilidade dos lugares e pelo
de intervenção urbana e outros possíveis. Nessa lógica, é
capital simbólico forjado.
comum a ideia de que os planos diretores devem prever
Essa tipologia retrata a relação imbricada e cada vez os eixos de expansão das cidades e, em função disso,
mais evidente dos valores de uso, de troca e simbólicos devem ser criadas propostas de intervenção democrática
que convergem no plano das cidades, de maneira que sobre a produção urbana. Porém, tais propostas ou lei-
devemos questionar o próprio valor de uso, sobretudo, turas presentes nos planos diretores ou leis de ocupação
do valor simbólico que se produz nas cidades Quais e uso da terra das cidades brasileiras nem sempre são
são os símbolos criados? Por que são forjados? Como viáveis, objetivas e convincentes.
se dá, nessa tendência, a relação comunidades-merca- Nossas cidades são produtos e produtoras de zonas
do-Estado? A humanização da política, do planejamen- específicas de uma fragmentação articulada na totalida-
to, das técnicas e dos técnicos faz-se urgente (utopia?). de do território urbano, ou seja, refletem o movimento
Os instrumentos urbanísticos - planos diretores e leis de entre a hibridez e a homogeneidade socioespacial in-
ocupação e uso da terra devem efetivar a leitura das traurbana, caracterizado pelo poder de localização e de
cidades enquanto totalidades urbanas inseridas na “to- acessibilidades que redundam no poder de monopólio
talidade-mundo”. Representações e diagnósticos devem rentista. Ao sobrevoarmos uma cidade, analisarmos uma
interpretar a extensão da urbanização, os novos centros imagem aérea de grande escala ou realizarmos um cam-
ou centralidades, as políticas públicas e a politização do po em cidades de topografia acidentada onde nos po-
território a partir das áreas segregadas e não das áreas sicionemos em pontos mais elevados, quase sempre é
valorizadas. possível identificarmos zonas diferenciadas de ocupação
que se correlacionam e se complementam. Grosso modo,
Zonas Homogêneas e Zonas Híbridas na valoriza- formam-se áreas com duas características paisagísticas:
ção da terra urbana – limites, possibilidades e meto- uma zona homogênea na periferia e outra zona homo-
dologia para uma representação cartográfica gênea e diferenciada nas áreas centrais ou pericentrais.
Esse golpe de olhar, no entanto, é incapaz de desvendar
Os bairros das cidades brasileiras (em suas diferentes o híbrido da forma-conteúdo dessas paisagens.
Há de se desvendar os interstícios do território aden-
escalas) tendem a apresentar uma homogeneidade so-
sado; o diagnóstico simultâneo à indicação cartográfica
cioespacial relativa. A partir da década de 1970 (com o
relatada é uma metodologia possível para uma com-
advento da chamada urbanização a baixos salários), as-
preensão mais detalhada do fenômeno urbano, através
sistimos a proliferação de favelas em áreas residuais, de-
de cada bairro que forma a cidade. Só assim podemos
vido ao movimento rural-urbano (que hoje, quase meio ultrapassar a impressão de homogeneidade das zonas
século após o surto industrial brasileiro, evidencia-se no urbanas (essa homogeneidade, reiteramos, é relativa do
viés urbano-urbano com a nova perspectiva incorporada ponto de vista da localização do observador e da profun-
pelas cidades médias e a dinâmica que as mesmas impri- didade da análise qualitativa). Se a segregação é um pro-
mem nos fluxos populacionais, dada a emigração-des- cesso necessário à dominação política e socioeconômica
concentração oriunda das metrópoles). Por assim dizer, nas cidades, a valorização de determinadas áreas corres-
PROVA DE GEOGRAFIA

uma importante metodologia de leitura das cidades em ponde à precarização de outras, produto do próprio jogo
sua totalidade encontra subsídio no planejamento urba- imobiliário. Quando os atributos de localização e acessi-
no com enfoque na dinâmica de bairros ou no planeja- bilidades - junto à valorização simbólica tendenciosa e
mento de bairros. Este é um relevante direcionamento classista imperam como quesitos de vanguarda do do-
a ser assumido pelo geógrafo de formação humanísti- mínio público-privado do urbano, o planejamento não se
ca, não se atendo à morfologia urbana; sua contribuição efetiva com as políticas sociais, tornando os discursos e
pode ser significativa no pensamento e na prática urba- até as práticas de democratização do urbano com efeito
nas. de curta duração.

87
Mais do que identificar áreas concêntricas de valori- poder de mobilidade e circulação na cidade. Implanta-se
zação do território, o que se explicita em nossas cidades um paradoxo ao mensurarmos a relativa mobilidade da
- na busca dessas zonas são manchas de valorização da população dessa zona precarizada, quando essas man-
terra urbana tributárias da precarização de outras áreas. chas correspondem às áreas mais necessitadas material
Difundem-se zonas homogêneas e zonas híbridas favo- e simbolicamente das áreas centrais, e mais: compreen-
recedoras da fragmentação articulada do território ur- dem, normalmente, os bairros de maior densidade de-
bano, e zonas homogêneas e zonas híbridas resultantes mográfica; são zonas de habitação de médio para baixo
da fragmentação articulada do território urbano. A nova ou precário padrão construtivo; representam áreas com
economia urbana atrai, aceleradamente, produtores ex- baixa presença da municipalidade (infraestrutura urba-
ternos da lógica de ordenamento do território intraur- na); retratam territórios de uso predominantemente resi-
bano, quer seja pelo poder do capital imobiliário, quer dencial com precário atendimento em comércio e servi-
seja pelos artifícios dos agentes econômicos da cultura, ços; por vezes, localizam-se nas chamadas áreas de risco.
de maneira que as áreas mais valorizadas tendem para Ou seja, a população dessa zona é, por um lado, a mais
os setores de comércio, de lazer e de serviços, para as dependente das antigas e novas centralidades urbanas,
quais se dirigem, também, parte dos bairros de classe e, por outro lado, são as de menor poder de mobilida-
média e alta. de e de acessos urbanos (aos serviços, ao comércio, ao
O que caracterizamos, genericamente, por zona ho- lazer, à cultura, à saúde, à vida digna, etc). Ora, a ho-
mogênea favorecedora da fragmentação articulada do mogeneidade dessa zona resultante da valorização de
território urbano corresponde ao grau de homogeneida- outras áreas se deve ao fato de que a morfologia das
de interna de certos bairros de uma cidade e ao caráter cidades reflete a realidade econômica e social definida
“coerente” da hierarquia estabelecida em relação ao cen- historicamente por nossas elites. Essa zona traz a for-
tro ou setores valorizados ou seja, apresenta articulação mação periférica das cidades constituídas a duras penas
positiva e complementar às áreas centrais do tecido ur- ao longo de nossa história de instalação, exploração e
bano, no que diz respeito aos usos do território e à circu- complexização territorial, ocorrida de forma mais intensa
lação. O agrupamento, o elevado índice de equipamen- no período da chamada modernização conservadora ou
tos, serviços e a maior presença de infraestrutura urbana, da industrialização a baixos salários. Acompanham esse
então, denunciam uma qualidade de vida superior a ou- movimento contraditório de ordenamento do território
tras áreas da cidade. Pode ser observada a presença de urbano identificável por meio de uma cartografia da to-
outras centralidades nessa zona, que não negligenciam talidade urbana mais dois tipos de zonas que se perfa-
o centro, mas representam a sua extensão mais positiva zem de maior hibridez: aquelas favorecedoras da frag-
com a troca de produtos e serviços, propiciando a flui-
mentação articulada do território por agregarem bairros
dez do território (comunicação, circulação, e localização).
que sofrem incipiente processo de valorização, quer seja
Essa zona que se aproxima de uma homogeneidade (re-
pelo comércio de abastecimento implantado, quer seja
lativa) tende a localizar o nó vital da rede de deslocamen-
por se constituir como novo eixo de expansão urbana
to e da produção urbana, da vida econômica e cultural de
para novas elites; e outras resultantes da fragmentação
uma cidade.
articulada do território urbano, que concentram as áreas
A paisagem urbana traduz as relações socioeconô-
mais precárias da cidade.
micas de que uma cidade é palco e, em seu movimento,
Nessas zonas híbridas (favorecedoras ou resultantes
retrata as transformações que interferem nas diferen-
tes localizações e nas distintas possibilidades de aces- da fragmentação socioterritorial), as condições de vida,
sos que, no limite, dizem respeito à “aproximação” das de infraestrutura e de moradia não são das melhores,
áreas centrais da mesma cidade. Um centro ou as áreas mas encontram-se, normalmente, em processo de avan-
centrais perfazem-se como territórios “chegáveis” e ver- ço; prevalece uma hibridez da forma-conteúdo que as
dadeiramente “alcançáveis” pelos agentes, atores ou su- dão notoriedade. Os bairros apresentam-se híbridos por
jeitos ligados, de alguma maneira, ao que tratamos por agregarem famílias de baixas camadas sociais e, em uma
zona homogênea valorizada do território urbano. Na rea- nova perspectiva de valorização incipiente da terra nes-
lidade, essa zona agrega uma paisagem urbana que, na sas áreas, receberem novos moradores da classe média
perspectiva dos fluxos, guarda o funcionamento interno e baixa que chegam ou se movimentam na cidade. Para
da economia urbana, tomada em sentido mais amplo, resumir, o que estamos tratando é de um modelo para a
para além do uso residencial. Como destaca Milton San- leitura do território urbano, o qual representa uma possi-
tos, em Manual de Geografia Urbana, a circulação é tanto bilidade de captura e interpretação do território intra-ur-
um epifenômeno resultante da distribuição espacial das bano em movimento, ou seja, é um modelo não-estático
atividades econômicas e do habitat das diferentes cate- e que se adéqua ao próprio movimento da urbanização
gorias sociais como o motor da evolução urbana. precária que assistimos no presente, no Brasil. Seguem
no esquema a tipologia desse olhar dialético de recípro-
PROVA DE GEOGRAFIA

Se, por um lado, esboçam-se manchas que conso-


lidam a zona homogênea favorecedora da fragmenta- ca determinação sobre o urbano:
ção articulada do território urbano, dialeticamente, seu • ZOHOFA - Zona homogênea favorecedora da frag-
produto e produtora é uma também consolidada zona mentação articulada do território urbano. Compreende
homogênea resultante da fragmentação articulada do as porções mais valorizadas do território urbano. Repre-
território urbano. Essa última pode ser tratada, também, senta a zona de interferência direta nas demais zonas (1,3
como zona precarizada do território urbano; esse terri- e 5) e, normalmente, a zona que depende da precariza-
tório, via de regra, comporta a população com menor ção das demais para subsistir.

88
• ZOHORE - Zona homogênea resultante da fragmen- ções urbanas, ou uma região com duas ou mais áreas
tação articulada do território urbano. Engloba as porções urbanizadas intercaladas com áreas rurais. No Brasil, a
mais precarizadas do território urbano. Fato que se deve Constituição Federal de 1988 deixa a cargo dos estados a
à interferência recíproca das duas zonas favorecedoras instituição de regiões metropolitanas, que não possuem
da fragmentação do território urbano (2 e 3). personalidade jurídica própria, e têm como principal ob-
• ZOHIFA - Zona híbrida favorecedora da fragmen- jetivo a viabilização de sistemas de gestão de funções
tação articulada do território urbano. Vai representar públicas de interesse comum dos municípios abrangidos.
antigas áreas degradadas ou novos eixos de expansão
urbana em processo de valorização. Sofre interferência e Rides são as regiões metropolitanas que se situam
interfere, mutuamente, em todas as zonas (1, 2 e 4). em mais de uma unidade federativa, criadas por legisla-
• ZOHIRE - Zona híbrida resultante da fragmentação ção federal específica. São três: Distrito Federal e Entorno
articulada do território urbano. Áreas em franco processo (DF/GO/MG), Pólo Petrolina e Juazeiro (PE/BA) e Grande
de precarização, tanto pela influência da zona homogê- Teresina (PI/MA).
nea mais valorizada (jogo do mercado imobiliário), quan-
to da zona híbrida em processo de valorização (4 e 5). Mercado de trabalho
No longo período de tempo compreendido entre
1970 e 2007, os padrões de localização dos trabalhado-
res e das trabalhadoras no mercado de trabalho apre-
sentaram algumas alterações. No último ano da série, a
indústria – aqui incluídas a de transformação e de cons-
trução civil -, e o agropecuário, seguidos do comércio,
nessa ordem, concentraram a ocupação masculina.Em
relação a 1970, registrou-se uma inversão, o agrope-
cuário perdendo terreno em favor da indústria: 51% dos
ocupados trabalhavam no agropecuário e 20% na indús-
tria, em 1970, versus 21,5% e 27,2%, respectivamente,
em 2007. No caso das trabalhadoras, os serviços – aqui
inclusos alojamento e alimentação, educação, saúde e
serviços pessoais, serviços domésticos e outros serviços
coletivos, sociais e pessoais¹- mantêm-se como áreas
privilegiadas de inserção das mulheres no mercado de
trabalho, mesmo que, no decorrer do longo período aqui
Apresentada essa metodologia de leitura do território considerado, venha se dando uma diminuição da ocupa-
urbano, que corresponde a uma possibilidade de inter- ção feminina, que, concomitantemente, se diversificou.
pretação do palimpsesto que se constitui nossas cidades Assim, em 1970, 54,9% das ocupadas o eram nos serviços
terciárias, das indústrias de ponta e do monopólio (inclu- e no setor social, em 1998, 47,5%, em 2002, 44,1% e, em
sive cultural), é importante afirmar que a maior barreira 2007, 43,6%.
imposta a uma Geografia Urbana Aplicada é a limitação Ressalve-se que, a partir de 1992 o IBGE – Fundação
do cientista ou do planejador que traz em sua formação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ampliou o
uma visão geométrica do mundo, que negue a perspec- conceito de trabalho adotado em seus levantamentos,
tiva existencial e dos sentidos da vida nas cidades. Para o que contribuiu para a maior visibilidade do trabalho
além de réguas e pranchetas, da outorga ou da leitura feminino. Além disso, a partir do Censo de 2000, com a
particular de instrumentos urbanísticos, os profissionais CNAE – Classificação Nacional de Atividades Econômicas,
geógrafo, planejador e arquiteto devem buscar a essên- que adota novas desagregações dos setores e seções de
cia que rege a produção do urbano, da urbanidade, da atividade , pôde-se esclarecer o peso de algumas ativida-
cidade e da vida na totalidade urbana, ou seja, em cada des na ocupação feminina e diferenciá-la, por compara-
um de seus bairros, em cada uma das zonas que formam ção, do padrão masculino. É assim que, por exemplo, na
o território, bem como as influências externas dessa pro- prestação de serviços, em 2007, 16,4% das ocupadas e
dução. Cada caso trará suas peculiaridades. cerca de 1% dos ocupados executavam serviços domés-
As possibilidades (para alguns, utópicas, pois o pla- ticos. Ou ainda, 16,9% das mulheres estavam exercendo
nejamento seria um mero instrumento perverso de con- atividades na área de educação, saúde e serviços sociais
trole do Estado) advindas dessa leitura são muitas, mas contra apenas 3,6% dos homens. E essas proporções são
convergem para um notório e importante elemento: a assemelhadas às de 2002.
produção de um indicador sintético da análise geográfi- Mas quais são as profissões desenvolvidas pelos bra-
PROVA DE GEOGRAFIA

ca aplicada ao planejamento, que é a qualidade de vida sileiros e pelas brasileiras?


urbana. Texto adaptado de COSTA. E. B. D. Analisando a matriz ocupacional de todos os traba-
lhos desempenhados pelos brasileiros e brasileiras, entre
Regições e RIDEs os anos 1998 e 2007, dois movimentos igualmente im-
Região metropolitana é um grande centro popula- portantes podem ser identificados². O primeiro diz res-
cional, que consiste em uma (ou mais) grande cidade peito a um padrão de inserção profissional segundo o
central (metrópole), e sua zona adjacente de influência. sexo que tendeu a se repetir em 2002 e 2007, denotando
Geralmente, regiões metropolitanas formam aglomera- uma clara segmentação quanto às áreas de atuação pro-

89
fissional de homens e de mulheres. Cerca de 1/3 destas, Naquelas famílias em que, entre 50 e 69% dos em-
por exemplo, desenvolviam profissões dos serviços, um pregos são femininos, encontramos profissões tradicio-
pouco mais de 10% em atividades de vendas no comér- nalmente femininas, p.ex., Técnicas em Administração (
cio, igual proporção em serviços administrativos. A pro- 55%), trabalhadoras da preparação da confecção de cal-
porção de trabalhos femininos relativos à agropecuária, çados ( 51%), ao lado de outras que vêm se feminizando
porém, decresceu no período, acompanhando a queda celeremente, como Farmacêuticos ( 68%), Técnicos em
da ocupação geral no setor: de 16,5% em 2002, para Turismo ( 62%), Cirurgiões-Dentistas ( 59%). Finalmente,
13,8% em 2007. Quer dizer, os dados informam que para na outra ponta, entre as famílias ocupacionais em que
o grosso do contingente feminino, as chances de traba- menos de 30% dos empregos são femininos- podendo
lhar são maiores em determinados setores econômicos ser consideradas redutos masculinos- podemos encon-
– principalmente o setor de Prestação de Serviços – , e trar:- a presença feminina mais disseminada, entre ou-
em grupos de ocupações típicos desse setor, nos quais tros, junto aos Artistas de circo ( 29%), os Peritos crimi-
sua presença já é tradicional, como professoras, pessoal nais ( 27%), os Catadores de materiais recicláveis ( 22%),
de enfermagem, secretárias, recepcionistas. Represen- os Engenheiros civis e afins ( 18%) e, – menos visível en-
tre os trabalhadores de apoio à agricultura ( 13,5%), os
tam, portanto, continuidades no padrão de ocupação
Técnicos em pecuária ( 11,5%), os Engenheiros mecânicos
das mulheres.
( 6%), os Motoristas de ônibus urbanos, metropolitanos
Os homens, por seu lado, têm maiores chances em
e rodoviários ( 1%).
trabalhos de produção de bens e serviços industriais, de
¹Até 1998, essas atividades encontravam-se agrega-
reparação e manutenção ( cerca de 33%), em profissões das em “prestação de serviços’ e “social”. Com a adoção
da agropecuária ( pouco mais de 20% e também decres- da CNAE- Classificação Nacional de Atividades Econômi-
cente no período), de vendas ( 11%), em profissões téc- cas, em 2000, o IBGE pôde desagregá-las nas categorias
nicas de nível médio ( próximo dos 7%). enunciadas. A comparação com anos anteriores ficou im-
O segundo movimento é a ampliação do leque pro- possibilitada em função das mudanças na agregação da
fissional das mulheres nos últimos 40 anos, de forma categorias, reduzindo a presente série a 10 anos. O ano
inquestionável e contínua, que se deve, entre outras de 1998 foi estimado a partir das proporções do Censo
razões, ao aumento da sua escolaridade e à diversifica- 2000.
ção das suas escolhas educacionais ( Veja série Mulheres Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações –
brasileiras, educação e trabalho). Os órgãos de imprensa Domiciliar ( CBO-domiciliar),utilizada pelo IBGE, desde
nos lembram desse movimento com freqüência, ao lo- 2000. Esta série histórica remonta a apenas 10 anos de-
calizarem algumas “pioneiras” , p.ex., pilota comercial, vido à adoção dessa nova classificação de ocupações, o
reitora de universidade, presidenta de banco ou de gran- que descontinuou a possibilidade de comparação com
de empresa, militar, deputada,senadora ou vereadora, anos anteriores. O ano de 1998 foi estimado a partir das
mas também mecânica de automóvel, atleta, tratorista, proporções encontradas no Censo de 2000.
condutora de ônibus ou caminhão etc. As informações
trazem indícios que ratificam esse cenário. É crescente a https://www12.senado.leg.br/cidadania/edicoes/350/
participação feminina, particularmente nas profissões de regiao-metropolitana-fica-em-um-so-estado-ride-e-
nível superior das ciências e das artes ( 7,9% em 1998, -mais-abrangente
8,3% em 2002 e 9,5% em 2007) e, embora menos ex- http://www.institutoiab.org.br/lugar-das-mulheres-
pressiva, em cargos dirigentes como membros superio- -no-mercado-de-trabalho-setores-de-atividade-e-estru-
res do poder público, gerentes e diretores de empresas tura-ocupacional/
( de 3,5% em 1998 para 4,2% em 2007). Esses números
adquirem maior poder explicativo quando comparados à
ocupação masculina, estável em torno dos 4,5% a 5% nos
dois grupos de ocupação mencionados, durante todo o
período analisado.
Para observar mais de perto esses dois padrões de
gênero nas profissões, classificamos as famílias ocupa-
cionais (agregados de ocupações) em faixas de maior ou
menor presença feminina, pelo montante de empregos
formais destinados às mulheres, em 2007 e , dentre cada
faixa selecionamos profissões femininas mais e menos
tradicionais.
Assim, entre as famílias ocupacionais em que mais de
PROVA DE GEOGRAFIA

70% dos empregos são femininos, estão, p.ex., profissões


de diversos níveis de qualificação, em que a presença da
mulher já é tradicional, como as Fonoaudiólogas ( 96%),
as Nutricionistas (94%), as Professoras de nível superior
do ensino fundamental de 1ª a 4ª séries ( 82,5%), as Téc-
nicas em Biblioteconomia ( 77%), as Cozinheiras ( 72,5%),
as Biólogas e afins ( 71%).

90
HORA DE PRATICAR!

1. (CESPE/2016 - POLÍCIA CIENTÍFICA/PE) No que se refere ao objeto de estudo da hidrologia, assinale a opção
correta.

a) A vazão dos canais e o nível dos reservatórios são avaliados pelo escoamento do lençol freático.
b) Nos estudos de interceptação natural, avalia-se o escoamento que ocorre de forma espontânea sobre a superfície
de uma bacia hidrográfica.
c) A geomorfologia é a área da hidrologia que está relacionada à análise das características da qualidade da água.
d) A hidrometeorologia corresponde ao estudo das características da água na atmosfera.
e) Os estudos de escoamento superficial são relativos à observação qualitativa da vazão dos cursos de água.

2. (IDECAN/2016 – SEARH/RN) Por sua dimensão continental, todas as massas de ar responsáveis pelas condições
climáticas na América do Sul atuam no Brasil direta ou indiretamente. A relação correta entre a massa de ar e as suas
respectivas características pode ser encontrada em:

a) Tropical Atlântica (mTa) – fria e seca.  


b) Polar Atlântica (mPa) – quente e seca. 
c) Equatorial Continental (mEc) – fria e seca.
d) Equatorial Atlântica (mEa) – quente e úmida.

3. (CESPE/2015 – CESPE) Os processos erosivos que ocorrem na superfície da Terra envolvem transporte e sedimen-
tação de materiais. Acerca desse assunto, julgue o item a seguir. Estratificações cruzadas são encontradas tipicamente
em depósitos sedimentares eólicos ou fluviais.

( ) CERTO ( ) ERRADO

4. (CESPE/2015 – MEC) Acerca da energia eólica, que é a denominação da energia cinética contida nas massas de
ar em movimento, julgue o item subsequente. O aproveitamento da energia eólica ocorre por meio da conversão da
energia cinética de translação em energia cinética de rotação, com o emprego de turbinas eólicas.

( ) CERTO ( ) ERRADO

5. (CESGRANRIO/2016 – IBGE)

Disponível em:<http://blog.arletemeneguette.zip.net/images/pictoricos.JPG>. Acesso em: 30 maio 2016.

Na representação cartográfica, símbolos como os apresentados acima são adequados para a composição da
PROVA DE GEOGRAFIA

a) escala numérica
b) legenda
c) escala gráfica
d) projeção
e) orientação

91
6. (IBF/2017 – IFB) Há diversas formações vegetais em
nosso planeta, as quais apresentam características, des-
de formações florestais muito densas, como outras de
GABARITO
menor densidade e diversidade de espécies. Este tipo é
bastante usado como pastagem, apresentando um solo 01 E
muito fértil. Este tipo de formação vegetal é:
02 D
a) Estepes  03 CERTO
b) Savana  04 CERTO
c) Mediterrânea 
05 B
d) Floresta boreal
e) Pradarias  06 E
07 D
7. (IFB/2017 – IFB) Nas últimas décadas, as questões
08 CERTO
ambientais vêm ganhando peso nas preocupações mun-
diais. As relações entre o modelo de desenvolvimento
econômico e o meio ambiente vêm sendo profunda-
mente questionadas. Julgue abaixo os questionamentos
a este respeito, assinalando (V) para os VERDADEIROS e
(F) para os FALSOS.

( ) As ideias associadas ao modelo de desenvolvimen-


to econômico hegemônico são a da modernização e pro-
gresso, que creem e professam um caminho evolutivo a
seguir, tendo como referencial de sociedade “desenvol-
vida” aquela que está no centro do sistema capitalista.
( ) Os diferentes espaços urbano e rural direcionam-se
para a formação das sociedades modernas, mercadolo-
gizadas tanto em escala regional, quanto em escalas na-
cional e global, impulsionados por um modelo desenvol-
vimentista, com características inerentes de preservação
ambiental.
( ) O modelo de desenvolvimento econômico hege-
mônico prima pelos interesses privados (econômicos)
frente aos bens coletivos (meio ambiente).
( ) A ideia de desenvolvimento econômico hegemô-
nico consubstancia-se em uma visão antropocêntrica de
mundo, gerador de fortes impactos socioambientais.
( ) A crítica mais comum à sociedade de consumo,
representante e representada pelo modelo de desenvol-
vimento hegemônico, é que essa sociedade está imersa
em um processo de massificação cultural.

A sequência dos questionamentos é:

a) F, F, V, V, F
b) V, F, F, V, F
c) V, V, F, F, V
d) V, F, V, V, V
e) F, V, F, V, V

8. (CESPE/2015 – MPOG) A respeito de tempo e clima,


julgue os itens a seguir. A afirmação “o aquecimento glo-
bal deverá elevar a temperatura média da superfície da
PROVA DE GEOGRAFIA

Terra em até cinco graus Celsius nos próximos anos” está


relacionada ao conceito de clima.

( ) CERTO ( ) ERRADO

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ANOTAÇÕES

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PROVA DE GEOGRAFIA

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ANOTAÇÕES

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