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SEMINÁRIO BÍBLICO PALAVRA DA VIDA

ROBERTO MOUZINHO FERREIRA

O CASAMENTO NO PENTATEUCO

ATIBAIA

2008

ROBERTO MOUZINHO FERREIRA

O CASAMENTO NO PENTATEUCO

Trabalho apresentado à disciplina Teologia Bíblica do Antigo Testamento, como requisito de avaliação orientado pelo professor Carlos Osvaldo Cardoso Pinto.

ATIBAIA

2008

SUMÁRIO

SUMÁRIO

1

1 INTRODUÇÃO

2

2 O CASAMENTO

4

2.1 DEFINIÇÕES

4

2.2 ORIGEM

5

2.3 PROPÓSITOS E DIRETRIZES DIVINAS

5

2.4 DESVIOS

7

2.4.1 Poligamia

8

2.4.2 Adultério

9

2.4.3 Divórcio

10

2.4.4 Casamentos mistos

11

2.4.5 Incestos e perversões

11

3

CONSIDERAÇÕES FINAIS

12

REFERÊNCIAS

13

2

1 INTRODUÇÃO

O casamento é um fenômeno universal. Embora a instituição varie, temporal e geo-

graficamente, em processo, forma e no exercício das funções das partes envolvidas, ela o-

corre em todas as sociedades, expressando-se basicamente no intercurso sexual e tendo co-

mo um dos principais objetivos a procriação.

Apesar dessa universalidade, e levando em consideração essa variedade, não é difícil

constatar a falta de uma convicção (fora da aceitação do testemunho e das afirmações das

Escrituras Sagradas) quanto à origem exata da instituição.

O presente trabalho pretende observar os escritos do Pentateuco (já tomando como

pressupostos básicos a sua autoria mosaica, conforme aceita, defendida e demonstrada por

Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, expressando-se resumidamente na frase “A Bíblia afirma

direta e indiretamente que seus cinco primeiros livros foram escritos por Moisés” 1 , e a ori-

gem divina, num processo de revelação proposicional, desses escritos 2 ) a fim de procurar

informações que ajudem a entender a origem, o objetivo e as instruções para um bom fun-

cionamento do casamento.

A hipótese levantada é a de que os cinco primeiros livros da Bíblia apresentam as in-

formações essenciais que o homem precisa ter sobre essa instituição, independentemente da

época e da sociedade na qual ele se insere, a fim de que sua prática seja bem sucedida – e os

eventuais desvios dessa prática, corrigidos.

Existe a necessidade de, como povo que traz sobre si o nome de Deus, vivermos de

acordo com os padrões por Ele exigidos, assim como Israel, que recebeu em primeira mão

1 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

p.17.

2 Id. Ibid. p. 18.

3

essas instruções, deveria vivenciar um relacionamento real com Yahweh e desfrutar das

bênçãos dele decorrente, por meio da obediência a essas instruções.

Este trabalho objetiva levar o leitor a refletir sobre o assunto e a procurar aplicar, em

sua prática conjugal, presente ou futura, os princípios aprendidos.

Os textos bíblicos citados ou indicados referem-se à versão Almeida Revista e Atua-

lizada.

4

2 O CASAMENTO

2.1 DEFINIÇÕES

Moisés afirma que “deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os

dois se tornam uma só carne” (Gn 2.24).

A Bíblia de Estudo de Genebra diz: “O casamento é uma relação exclusiva na qual

um homem e uma mulher se entregam mutuamente um ao outro numa aliança vitalícia e,

com base nesse voto solene, eles se tornam ‘uma só carne’” 3 .

Champlin assim conceitua: “No seu sentido bíblico e cristão, um casamento,

idealmente falando, é uma extensão da missão e do destino das partes envolvidas, ou seja,

uma ajuda ao cumprimento dos propósitos especiais dos cônjuges.” 4

J. D. Douglas define o matrimônio como “o estado no qual um homem e uma mulher

podem viver juntos em relação sexual com a aprovação de seu grupo social” 5 , indicando a

natureza social da instituição.

O código de Hamurabi diz no §128: “Se um awilum [‘(

)

na sociedade babilônica, o

homem livre, o cidadão em pleno uso de seus direitos’ 6 ] tomou uma esposa e não redigiu o

seu contrato, ela não é esposa” 7 . Emanuel Bouzones, comentando esse parágrafo, afirma que

“o legislador determina que o elemento jurídico essencial para constituir o matrimônio é o

contrato escrito” 8 . Dessa forma, percebe-se que não há, nessa legislação, uma ordem superi-

or que confira à união conjugal de um homem com uma mulher o status de casamento. Na

sociedade babilônica, apenas um contrato redigido faz dessa relação um matrimônio.

3 BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo de Genebra. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo e Baru- eri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. Edição revista e atualizada no Brasil. 1728p. Nota “Casamento e divórcio”, p. 1090.

4 CHAMPLIN, Russell Norman; BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. v. 4. São Paulo: Candeia, 1991. p. 174.

5 Matrimônio. In: DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1978. p. 1012.

6 RÖLING, W. Apud: BOUZON, Emanuel. O Código de Hammurabi. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1992. p. 46.

7 BOUZON, Emanuel. Op. cit. p. 128.

8 Id

Ibid.

5

A afirmação mosaica é de que o homem se une à sua mulher, ou seja, a mera união

os torna marido e esposa, pelo fato de que Deus idealizou e considera dessa forma. Comen-

tando sobre Gn 1.28, Champlin define o matrimônio como uma instituição divina 9 .

O que fica claro, a partir do texto bíblico, é que o casamento é realmente uma institu-

ição divina, anterior à queda do homem, e envolve um indivíduo de cada sexo, numa relação

de convivência e intimidade total, reconhecida socialmente no ambiente em que ela se dá.

2.2 ORIGEM

O casamento tem sua base bíblica em Gn 2.18-24 10 . Vários autores o vêm como uma

criação divina, tanto na origem quanto na sua expressão. Segundo Champlin, Deus formou a

mulher do homem para o homem e levou-a até o homem 11 . E é exatamente isso que Moisés

quer mostrar ao seu público-alvo, ao registrar mais esse ato criativo de Deus. Yahweh é o

Deus único, e Ele cria o ser humano e o casamento, instituição na qual o homem tem a o-

portunidade de refletir o Seu caráter. O casamento começa em Deus e aponta para Ele.

2.3 PROPÓSITOS E DIRETRIZES DIVINAS

Tendo sua origem em Deus, é certo que o casamento tem objetivos planejados por

Ele. E o próprio relato em Gênesis nos dá algumas indicações desses propósitos. De acordo

com Gn1.26-28, um deles é a procriação, com o objetivo de encher a terra e sujeitá-la como

representantes e estando sob a autoridade de Deus 12 . O homem foi criado à imagem de

Deus, e também como macho e fêmea, para cumprir esse propósito.

9 CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo. v. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos. 2001. p. 20. 10 HARRIS, R. L. (Org.). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1988. p. 782.

11 CHAMPLIN, Russell Norman. Op. cit. p. 29.

12 CHAMPLIN, Russell Norman; BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. v. 4. São Paulo: Candeia, 1991. p. 174.

6

Outro objetivo divino para o casamento é a ajuda mútua no cumprimento do manda-

to cultural dado por Deus 13 . Isso fica claro quando Deus cria a mulher, afirmando que ela

seria uma auxiliadora à altura da tarefa que o homem tinha pela frente. O relacionamento

entre o homem e a sua mulher se dá, pois, num ambiente de cooperação para que a vontade

de Deus seja realizada e sua glória manifesta sobre a terra.

De Vaux afirma expressamente: “O relato da criação do primeiro casal humano, Gn

2.21-24, apresenta o casamento monogâmico como de acordo com a vontade de Deus” 14 .

Embora seja apenas uma inferência, não é contrário ao razoável pensar que se a intenção do

casamento fosse apenas procriação, Deus teria criado mais de uma mulher para Adão. Seria

mais rápido povoar a terra desse jeito. Mas ele diz claramente que Eva seria uma auxiliado-

ra à altura, capaz de cooperar com o homem em todos os aspectos e no desempenho de to-

das as tarefas e atividades prescritas por Deus no mandato cultural original. Esse ambiente

de cooperação inclui compromisso, comunhão, intimidade e exclusividade entre o casal e

obediência ao mandato divino, sendo a monogamia uma prescrição implícita como a instân-

cia ideal do casamento 15 , para que a potencialidade de cada um desses aspectos seja plena-

mente desenvolvida.

Champlin comenta com muita propriedade os versículos 23 a 25 do segundo capítulo

de Gênesis 16 , dando-nos uma visão mais detalhada das prescrições de Deus para o casamen-

to.

Tendo a mulher sido tomada (edificada a partir) do homem e sendo ela osso e carne

dos ossos e carne dele, isso sugere o princípio de complementaridade que deve haver no re-

lacionamento conjugal, conforme planejado por Deus.

13

14

15

16

CHAMPLIN, Russell Norman; BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. v. 4. São Paulo: Candeia, 1991. p. 174.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 46.

CHAMPLIN, Russell Norman. BENTES, João Marques. Op. cit. p. 174.

CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo. v. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos. 2001. p. 29.

7

No ato de deixar pai e mãe, cada um assume não depender mais dos pais que o con-

duziram até então, e o casal assume diante de Deus a responsabilidade pela vida um do ou-

tro, outro princípio básico e importante na vida conjugal.

Deus requer que, ao unirem-se um ao outro, tenham em mente o compromisso de

permanecerem unidos para sempre, vivendo e mostrando a unidade que Deus proporciona

àqueles que assim se comprometem diante dele.

Ao tornarem-se uma só carne, marido e mulher experimentam intimidade física, pra-

zer na companhia um do outro e desfrutam de um tipo de comunhão que só é possível no

relacionamento conjugal, em contraste com qualquer outro tipo de relacionamento. Mais

tarde, Deus ordena a Moisés que o homem recém-casado seja liberado do serviço militar e

isento de encargos, a fim de promover “felicidade à mulher que tomou” (Dt 24.5). Deus se

alegra com o prazer da união conjugal e vela por isso.

Por fim, a intimidade plena proposta e exigida por Deus levaria o casal a um estado

de liberdade total entre si e diante do Criador, sem barreiras ou temor. E foi exatamente nes-

se ponto em que o pecado, tendo entrado no coração e no mundo do casal, primeiro mostrou

ser perverso e degradante.

2.4 DESVIOS

Com o pecado, a imagem de Deus foi manchada no homem, o que envolveu também

o relacionamento conjugal, através de desvios manifestados tanto na sua expressão quanto

nos propósitos com os quais ele havia sido instituído por Deus. Temos vários deles alistados

no Pentateuco, bem como o tratamento profilático e corretivo que Deus proporciona para

cada um deles, ou a regulamentação de casos onde a situação é irreversível, sempre visando

a uma volta – ou pelo menos a uma reaproximação – ao ideal elaborado e proposto por Ele

mesmo.

8

2.4.1 Poligamia

É significativo que o primeiro caso de casamento não-monogâmico aconteça exata-

mente na linhagem reprovada de Caim, com Lameque e suas duas esposas, Ada e Zilá 17 .

Quanto mais distante de Deus, mais o homem se desvia de seus propósitos e de suas pres-

crições. O relacionamento de Abraão com Hagar, apesar de ser uma prática cultural difun-

dida no Oriente Médio Antigo, e regulamentada no Código de Hamurabi foi claramente uma

manifestação da incredulidade dele e de sua esposa Sara. A poligamia de Jacó foi fruto de

um engano maldoso do seu sogro Labão.

A regulamentação existente em Dt 21.15-17 com relação ao tratamento da segunda

esposa é casuística, e não tem caráter de permissão ou recomendação. Ao dizer que “a bi-

gamia é reconhecida como um ato legal por Dt 21,15-17” 18 , de Vaux está dando valor de

regra à exceção, no que é acompanhado por Ricardo Lengruber Lobosco 19 . A passagem não

parece indicar o reconhecimento do ato como legal, mas sim que, uma vez tendo acontecido

o ato, ele deve ser regulamentado, a fim de se evitar maior prejuízo das partes envolvidas.

Apesar de não ser expressamente proibida aos homens comuns, a prática era vedada

aos sacerdotes (Lv 21.1-15) e aos reis (Dt 17.17-20). Como esses líderes representavam a

nação diante de Deus, é razoável considerar que suas vidas deveriam ser tidas como refe-

rencial para aqueles a quem eles ministravam.

Na verdade, homens destacados por sua integridade de no Pentateuco eram monó-

gamos, como Noé, José e Moisés. Além disso, é fato que o ambiente familiar onde aconte-

cia a poligamia era muito mais propício a conflitos e tragédias 20 . Basta lembrar o caso de

Sara e Hagar, bem como o de Raquel e Lia.

17 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 46.

18 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 47.

19 LOBOSCO, Ricardo Lengruber. O Incesto nas Leis do Levítico: Análise da Lei de Santidade (Lv 18 & Lv

20) à luz do ‘Código’ de Hammurabi

20 SIQUEIRA, Neyd. Usos e costumes dos tempos bíblicos. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 63,64.

Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: PUC, 2007.

9

2.4.2 Adultério

No Pentateuco, o adultério é conceituado como o contato sexual de uma pessoa ca-

sada com outra do sexo oposto que não seja seu cônjuge 21 . Isso não inclui o concubinato

nem a poligamia, práticas não recomendadas mas toleradas em Israel. Champlin também diz

que “Os hebreus compreendiam o adultério como a sedução da mulher de outro homem,

mas esse mandamento também adverte contra a ditadura dos apetites do corpo 22 ”.

A proibição no decálogo é clara: “Não adulterarás” (Ex 20.14). E isso é colocado no

mesmo nível da proibição do homicídio e do roubo, como crime contra o próximo. Em Lv

18.20, o adultério é colocado entre as coisas abomináveis a Deus. De Vaux afirma:

Como em todo o Oriente antigo, o adultério é, pois, um delito privado, mas o texto de Lv 18.20 lhe acrescenta uma consideração religiosa e os relatos de Gn 20.1-13; 26.7-11, apresentam o adultério como uma falta castigada por Deus. 23

Os textos em questão são aqueles em que Abraão – e, posteriormente, Isaque – men-

tem sobre a relação de parentesco que mantêm com suas respectivas esposas, as quais são

levadas para comporem o harém de reis gentios. Deus aparece a estes ambos e lhes mostra a

gravidade do erro que estão cometendo. É interessante notar que ainda não havia a lei dada

por Yahweh a Moisés e que estes reis eram alheios ao povo escolhido. Mas ambos se arre-

pendem e buscam a misericórdia divina.

Ainda antes da concessão da Lei, no episódio com a mulher de Potifar, José tem

consciência de que adulterar com ela seria cometer uma grande maldade e um pecado, aci-

ma de tudo, contra Deus (Gn 39.9).

21 CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo: Dicionário – A-L/ v.6. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 3748.

22 CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo. v. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos. 2001. p. 779.

23 VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 59.

10

Pela Lei de Moisés, o adultério era punido com a morte por apedrejamento, confor-

me Lv 20.10 e Dt 22.23, sendo uma mulher noiva considerada tão pertencente ao noivo

quanto uma casada ao seu marido.

Esses textos bastam para mostrar a santidade do relacionamento sexual e como Deus

encara a violação do compromisso conjugal. De acordo com Champlin, o real interesse do

sétimo mandamento é “a sacralidade do matrimônio” 24 e a preservação da santidade do lar.

2.4.3 Divórcio

Talvez este seja o desvio mais difícil de ser tratado, provavelmente devido à forma

como a lei que o regulamenta. Sabe-se que sempre houve discussão em torno do que poderia

ser a “coisa indecente” citada em Dt 24.1, inclusive entre os rabinos. O adultério não está

incluso aqui, pois a pena da mulher seria o apedrejamento.

As duas proibições explícitas ao divórcio podem lançar alguma luz sobre esse texto

específico. Um homem que acusasse falsamente a esposa de ter sido infiel antes do casa-

mento (Dt 23:13-19) ou um homem que tivesse sido obrigado a casar com uma mulher sol-

teira a quem ele havia possuído (Dt 22:28,29; Ex 22;16,17) não poderiam nunca se divorciar

de suas esposas. A leviandade, portanto, não era tratada com indulgência.

Convém notar que a lei que permite o divórcio em Dt 24.1-4 é casuística. Moisés diz

o que deveria acontecer apenas “se

”.

Na verdade, a ordem propriamente dita encontra-se a

partir do “então

”.

O divórcio já existia e era um costume milenar. Como era normal que o

homem se divorciasse da mulher pelos motivos mais fúteis, é muito provável que o intuito

da lei fosse desencorajar essa prática 25 . Por isso uma mulher divorciada poderia voltar a ca-

sar-se com o marido, desde que não houvesse sido possuída por outro homem.

24 CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo. v. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos. 2001. p. 393.

25 Id. Ibid. p. 844.

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2.4.4 Casamentos mistos

Há uma clara proibição de casamento dos (as) israelitas com as (os) cananitas (e em

Dt 7.3,4; 20.10-18; e a razão é clara: há a possibilidade de desvio espiritual “para servir a

outros deuses”. Percebe-se que o casamento interfere na vida espiritual, tanto quanto é ver-

dadeira a recíproca. “Nesse sentido, o matrimônio vai além dos meros costumes sociais e da

procriação, tornado-se um aspecto do desígnio espiritual das pessoas” 26 . E isso ficou prova-

do mais tarde, na história de Israel.

2.4.5 Incestos e perversões

Os capítulos 18 e 20 de Levítico, juntos, denunciam várias formas de incesto e per-

versões sexuais, designando também as punições para vários dos casos levantados 27 . Rela-

cionamentos com parentes de sangue e seus cônjuges são considerados como confusão, i-

mundície e/ou abominação diante de Deus. Tudo que foge ao propósito de Deus para o ca-

samento agride a Sua santidade e é reprovado por Ele.

26 CHAMPLIN, Russell Norman; BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. v. 4. São Paulo: Candeia, 1991. p. 174.

27 CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo. v. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos. 2001. p. 558.

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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Olhando apenas para o Pentateuco, é possível perceber que todo o desenvolvimento

bíblico a respeito do casamento baseia-se nessa porção das Escrituras.

Deus criou o casamento para funcionar perfeitamente sob as Suas prescrições, pro-

porcionando felicidade ao ser humano e tendo como alvo a promoção do espalhamento da

Sua glória sobre a terra.

O pecado trouxe consigo, entre outras mazelas, o desvirtuamento dos propósitos ele-

vados de Deus para o casamento e a vida conjugal, levando a distorções e aberrações que

agridem tanto a santidade do Criador quanto a dignidade do homem criado à Sua imagem e

semelhança.

Mas Deus provisionou, na Sua bondade, graça e misericórdia infinitas, instruções pa-

ra que por elas o Seu povo escolhido pudesse pautar sua vida sua conduta, também na área

conjugal, tanto no sentido de evitar os erros quanto no de, tendo ocorrido erros, haver tam-

bém a possibilidade de se voltar o mais próximo possível do ideal quebrado.

Dessa forma, o Pentateuco se revela como ponto de partida para a discussão e o de-

senvolvimento de toda a teologia do casamento que percorre o Velho Testamento, e que de-

semboca nas instruções de Jesus Cristo e dos apóstolos dadas à Igreja, formada por judeus e

gentios.

REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo de Genebra. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. Edição revista e atualizada no Brasil. 1728p.

BOUZON, Emanuel. O Código de Hammurabi. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1992.

CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo. v. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos. 2001.

CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo:

Dicionário – A-L/ v.6. São Paulo: Hagnos, 2001.

CHAMPLIN, Russell Norman; BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. v. 4. São Paulo: Candeia, 1991.

DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1978.

HARRIS, R. L. (Org.). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Pau- lo: Vida Nova, 1988.

LOBOSCO, Ricardo Lengruber. O Incesto nas Leis do Levítico: Análise da Lei de Santidade

(Lv 18 & Lv 20) à luz do ‘Código’ de Hammurabi (§§ 154-158) e a questão do silêncio sobre o incesto com a(s) filha(s) no Antigo Testamento. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: PUC,

2007.

PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo:

Hagnos, 2006.

SIQUEIRA, Neyd. Usos e costumes dos tempos bíblicos. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.