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Nº 2009-035

#1

Fernando Mendes

Professor Manuel J. Gandra

Cultura Material e Símbolo

February 5, 2010

Um estudo iconográfico da capa do álbum de estreia dos The Velvet Underground,

desenhada por Andy Warhol, em 1966


Nº 2009-035 #2

ÍNDICE

Introdução

1. Descrição iconográfica da capa da banana de A. Warhol

2. História da fruta que não dá sumo

3. Amarelo (preto e branco)

Conclusão

Bibliografia

Anexos
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Introdução

Concebida e executada em 1966, a banana de Andy Warhol ganhou quase

instantaneamente o estatuto de ícone cultural. Este trabalho é uma tentativa de encontrar

a fundamentação iconográfica que origina tal efeito. Para tanto torna-se essencial situar e

descrever esta capa no tempo, no espaço e no contexto em que se insere.

A capa da banana, como ficou popularmente imortalizada, tornou-se um símbolo da

contra-cultura novaiorquina quando os The Velvet Underground, sob o manto mais do que

protector de Andy Warhol, lançam o seu álbum homónimo de estreia, The Velvet

Underground and Nico (anexa-se cópia do álbum original, com a respectiva capa).

A infame banana do polaco católico de Manhattan enfeita hoje malas, papéis de

parede, tee-shirts, calçado e roupa diversa. No formato papel podemos encontrá-la em

cartazes um pouco por todo o lado, diluída na parafernália da imagética rock e pop,

pródiga em contradições, erros grosseiros e muita indulgência.

Deixou-se propositadamente de fora deste trabalho uma análise biográfica de Andy

Warhol, por se não considerar absolutamente relevante para o estudo em questão.

Já sobre os The Velvet Underground torna-se essencial fazer um curto apanhado do

seu percurso e história para melhor entender o conteúdo e o contexto que levaram (ou

não) Andy Warhol a conceber esta capa.

The Velvet Underground & Nico é o álbum de estreia da banda rock norte-americana

The Velvet Underground e foi lançado originalmente no ano de 1967 (a produção da capa

alongou por vários meses, desde 1966). Este álbum ganhou notoriedade pelas suas
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tendências experimentais e pela temática das suas composições ser controversa, como

na canção Heroin por exemplo, abordando temas que até aí não tinham tido espaço no

universo pop anglo-saxónico. Convenhamos que, tirando um ou outro autor, o rock era um

tipo de som direcionado para um público adolescente. Os The Doors na costa leste

introduziam alguma poesia adulta no seu “discurso” psicadélico, mas é apenas com os

Velvet que a grande poesia e literatura fazem a sua entrada no espectro do Rock. Lou

Reed é formado em Língua Inglesa e estuda com Delmore Schwarz e John Cale toca

peças clássicas no violino desde os 6 anos. É desta mistura que são feitos os Velvet.

Adicione-se o som negro das ruas de Nova Iorque pela guitarra de Sterling Morrisson, a

batida sincopada e hipnótica de Maureen Tucker e a presença teutónica de Nico e temos

a formação original da mais importante banda de rock de todos os tempos. Embora um

real fracasso comercial no lançamento, o álbum tem, desde então, sido considerado um

dos mais influentes e criticamente bem-sucedidos álbuns da história, aparecendo em 13º

na lista dos “500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos” feita pela revista Rolling Stone.

A presença de Nico, que ocasionalmente ocupava o cargo de vocalista principal,

deve-se à insistência do produtor e mentor da banda, Andy Warhol. Nico canta em três

faixas (“Femme Fatale”, “All Tomorrowʼs Parties” e “Iʼll Be Your Mirror”) e integra ainda o

coro em Sunday Morning.

O álbum é notável pelas suas descrições explícitas de temas como o uso (e abuso)

de drogas, prostituição, sadomasoquismo e comportamento sexual desviante. “Iʼm Waiting

for the Man” descreve a aventura e corrida desenfreada pelas ruas de NY para obter

heroína, enquanto “Venus in Furs” é quase uma interpretação literal do livro homónimo do

século XIX. “Run Run Run” ostenta também as drogas como premissa. Uma das canções

mais famosas do álbum é “Heroin”, cuja letra descreve o uso deste opiáceo por um

indivíduo (Lou Reed?) e os seus efeitos sobre o mesmo.


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As críticas da época foram pouco menos do que demolidoras. De “Flores do Mal” a

“lixo branco”, todo o género de epíteto lhes foi aposto. Andy Warhol também não foi

poupado e por diversas vezes foi acusado de manter uma corja de junkies sob o tecto da

Factory. A aversão aos VU assumiu contornos grotescos, com a maioria das canções a

serem literalmente banidas das rádios norteamericanas. Estranhamente ou não, na

Europa, a partir sobretudo da repescagem de Lou Reed pelo David Bowie, começa a

crescer um culto devoto aos Velvet, que em meados de 80 seria finalmente reconhecido

pelos EUA e por Nova Iorque, com a entrada da banda para o lendário Rock And Roll Hall

of Fame. Vinte anos depois, fazia-se justiça a uma banda absolutamente ímpar no

panorama musical mundial.


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1. Descrição iconográfica da capa da banana

de A. Warhol

À primeira vista, a singeleza e simplicidade técnica da banana é confrangedora.

No quadrado de 31,43 cm de lado (a medida oficial da capa ou bolsa em cartão do

popular long play, em vinil) não há mais do que uma banana amarela com manchas

pretas sobre um fundo branco imaculado. O contraste e recorte entre o fundo e a banana

é absolutamente chocante, fazendo com que a banana pareça quase saltar do plano a

duas dimensões para um muito vívido efeito a três dimensões. Apesar de se tratar de uma

peça a duas dimensões, esta sensação de tridimensionalidade parece saída de um

qualquer estúdio fotográfico, como se Warhol tivesse disposto o fruto sobre uma mesa de

reprodução e a tivesse realmente fotografado.

Mas o que mais nos desperta os sentidos é indubitavelmente o jogo cromático que o

artista utilizou. Branco, preto e amarelo, sem a mínima concessão à gradação, matiz ou

sombreamento. Apenas amarelo, preto e branco. Um fundo branco tão imaculado quanto

chocantemente ascético, talvez mesmo agressivo e uma banana estilizada, simplificada

até à sua depuração mais extrema, com traços e manchas grosseiras, dando forma a uma

banana amarela, num tom dessa cor que não conseguimos imaginar mais intenso e

poderoso, com a capacidade de nos quase cegar se fitada por algum tempo. As zonas/

manchas a negro demarcam-se de forma ostensiva, impondo-se ao amarelo e branco do

fruto e do fundo, respectivamente.

Ao invés da quase totalidade das art-covers dos anos sessenta, a capa é assinada

pelo autor, à maneira clássica, no canto inferior direito da mesma, num tipo gráfico de
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influência script, eventualmente simulando a caligrafia do artista, num statement que

julgamos indicar possessão e (muito) orgulho, como se de uma pintura se tratasse. Ainda

mais curioso e inédito é o facto do nome da banda não figurar sequer na capa (dada esta

ausência, o álbum adquiriu o petit-nom porque é conhecido em todo o mundo, o álbum da

banana). À direita da banana, em cima, uma pequena frase: “Peel slowly and see”.

Voltaremos a esta frase mais à frente...

Andy Warhol produziu este trabalho inicial dos The Velvet Underground de uma forma

que não caberia nos cânones actuais. Comercialmente, se atendermos ao período em

que esta banda e respectivo álbum foram lançados, penso que não é excessivo dizer-se

que esta estratégia não poderia redundar em muito mais do que num rotundo fracasso. E

assim foi, de facto.

No entanto e apesar do total fracasso de vendas que foi a estreia dos The Velvet

Underground, esta banana estava longe da podridão.

Alguns anos depois, Brian Eno, outra luminária da pop, rotularia os Velvet e o álbum

da banana de absolutamente seminais, chegando a proferir uma frase que se tornaria

famosa. A ideia seria que embora o álbum da banana apenas tenha vendido uma quantas

centenas de cópias aquando do seu lançamento, cada comprador teria, posteriormente,

formado uma nova banda. É hoje ponto assente que o álbum e a música dos Velvet

revolucionaram por completo o espectro da música pop, trazendo-lhe vanguardismo,

experimentalismo, temáticas até ai vedadas ao imaginário pop (o mundo adulto), sendo

que até aos dias de hoje a influência da banda se continua a sentir.

Embora não tenha particular interesse discutir aqui a relação da música da banda e

do álbum com a capa desenhada por A. Warhol, vale a pena reproduzir aquela que,

reconhecidamente, era a canção favorita do artista, “All tomorrowʼs parties”, título que
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poderia ser traduzido literalmente como “Todas as festas do futuro”. Andy Warhol nunca

esclareceu esta preferência, apenas que era a sua canção favorita...

And what costume shall the poor girl wear

To all tomorrow's parties

A hand-me-down dress from who knows where

To all tomorrow's parties

And where will she go and what shall she do

When midnight comes around

She'll turn once more to sunday's clown

And cry behind the door

And what costume shall the poor girl wear

To all tomorrow's parties

Why silks and linens of yesterday's gowns

To all tomorrow's parties

And what will she do with thursday's rags

When monday comes around

She'll turn once more to sunday's clown

And cry behind the door

And what costume shall the poor girl wear


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To all tomorrow's parties

For thursday's child is sunday's clown

For whom none will go mourning

A blackened shroud, a hand-me-down gown

Of rags and silks, a costume

Fit for one who sits and cries

For all tomorrow's parties

Lou Reed escreveu a maioria das letras do álbum mas nunca pretendeu escrever

para causar qualquer tipo de choque. Reed é fã de poetas como William Burroughs e

Allen Ginsberg e sobretudo admirador da obra de Poe (a quem dedicaria um álbum inteiro

em 2006). A sua grande ambição é tratar e adaptar os grandes temas da literatura ao

universo da canção rock. Embora os assuntos tratados no disco ainda hoje sejam

considerados revolucionários, muitas das canções tratam de temas que, na literatura,

passariam razoavelmente despercebidos. O álbum da banana poderia ter sido editado

como obra impressa e teria certamente passado incólume (e incógnito, porventura).

Muitas destas canções foram escritas a partir de observações das figuras da entourage

de estrelas do movimento Exploding Plastic Inevitable, de Andy Warhol.

De Warhol, ficaram famosas muitas das suas frases, proferidas a maior parte das

vezes em entrevistas que se transformavam em autênticos calvários para os jornalistas.

Algumas destas frases célebres podem ajudar-nos a contextualizar o trabalho de Warhol

e as suas motivações. A mais célebre por ventura é o postulado de que “no futuro, todos

terão os seus quinze minutos de fama”. Andy levava esta máxima a sério e tratava de
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proporcionar uma experiência única a todos os seus colaboradores. O trabalho e o

dinheiro eram tudo o que lhe interessava (a par do glamour dos artistas e das suas vidas

atribuladas). Muitas vezes num exercício de distanciamento das suas próprias obras,

abrindo o debate (à frente do seu tempo) sobre a autoria artística, o efémero, etc. “Não há

estrelas no céu de Nova Iorque, porque elas estão todas na rua”, uma referência ao star-

system novaiorquino (que idolatrava). “A maior forma de arte é ganhar dinheiro”, a

machadada final na imagem do artista torturado, pobre e íntegro. É a citação preferida

das inúmeras publicações sobre o (verdadeiro) Rei da Pop. Numa famosa e cómica

entrevista, o jornalista, exasperado, tentava em vão conseguir resposta às perguntas

dirigidas ao artista.

Jornalista: “Se lhe faço uma pergunta, espero uma resposta, obviamente!”

A. Warhol: “Compreendo... Mas peço-lhe que, para além da pergunta, me dê também

a resposta, ok?”

Jornalista: “Não estou a perceber...”

A. W.: “Faz a pergunta e dá logo a resposta. É mais fácil para mim...”

Jornalista: “Só sei as perguntas... quer dizer...”

A. W.: “Seria muito mais fácil para todos se pudesse fazer como lhe peço. Acha que

pode fazer como lhe peço?”

Jornalista: “...”

A manipulação das emoções mais básicas do ser humano eram a grande

especialidade de Warhol. Com a banana dos Velvet garantiu o lugar cimeiro da

iconografia pop ligada à música. A recente edição “The Velvet Underground” (NY, Rizzoli,

2009) desvenda imagens inéditas da manipulação da banana original, em serigrafias e

impressões de grande formato que foram navegando pelas paredes metalizadas da

Factory até que Warhol lhe tivesse encontrado a escala para a capa dos VU. Isto sugere
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que, provavelmente, este “objecto” não se destinaria ao álbum da banda e que Warhol

“apenas” terá usado de alguma reciclagem (que promovia constantemente com as suas

inúmeras produções). Sabe-se também que os membros da banda não tiveram qualquer

papel activo na feitura da capa e tão-pouco puderam opinar sobre a mesma.

Nada disto belisca a simbologia associada a este objecto, que sobreviveu, apesar de

tudo, a todos os ataques e desconsiderações.


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2. História da fruta que não dá sumo

Nota prévia ao ponto 2

A expressão que fornece o título deste ponto foi usurpado ao Professor Manuel J.

Gandra, num comentário ouvido em sala de aula, no contexto da discussão dos trabalhos

solicitados. Intrigou-me e surpreendeu-me que nunca tivesse pensado nesta

particularidade ao longo do trabalho de pesquisa sobre este (vasto) tema (a banana). De

facto, se há fruta de que não se faz (que eu saiba) sumo, essa é a banana. São

conhecidas imensas utilizações do fruto na cozinha, particularmente na brasileira onde

integra um sem-número de pratos e confecções, mas na forma de sumo não consigo

lembrar-me de nenhuma referência, marca ou lembrança de juventude. Embora não tenha

descoberto, em pesquisas sobretudo na Internet, nenhuma informação relevante sobre

este facto, não deixou de me intrigar o facto de o Professor o ter proferido de forma tão

espontânea (o que me leva a pensar que algum “sumo” haverá nesta questão. Sites

generalistas e de duvidoso grau de seriedade como a Wiipédia mencionam o facto sem,

contudo, o relacionarem com qualquer aspecto simbólico: “A produção de sumo a partir de

banana é dificultada pelo facto de se produzir apenas polpa quando o fruto é esmagado.

Assim, não é possível obter "verdadeiro" sumo de banana, ainda que a sua polpa possa

ser misturada ao sumo de outros frutos.” (in http://pt.wikipedia.org/wiki/Banana)

Frutos, caça e pesca do Brasil

José de Santa Rita Durão, frei

[…]
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As fragrantes pitombas delicadas

São como gemas d'ovos na figura

As pitangas com cores golpeadas

Dão refrigério na febril secura

As formosas goiabas nacaradas

As bananas famosas na doçura

Fruta que em cachos pende e cuida a gente

Que fora o figo da cruel serpente

[…]

Reproduzido de Caramuru (poema épico do descobrimento da Bahia), Lisboa, Régia Oficina

Tipográfica, 1781. Transcrição da edição da Livraria Garnier, Rio de Janeiro, sem data,

possivelmente de 1913.

(Em Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil. Rio de Janeiro,

Livros Científicos Técnicos, 1977, p.114-116)

No princípio a banana não era mais comprida do que 6 a 8 cm e recheada de

numerosas sementes. Foi o homem que a fez doméstica, tornando-a na versão actual que

conhecemos e, sobretudo, comestível. O mais antigo fóssil data da era terciária, na Índia.

Neste País, a banana era considerada a fruta do Paraíso e os hindus pretendiam que Eva

tinha oferecido uma banana a Adão (e não uma maçã). Acredita-se ainda que as folhas da

bananeira lhes serviram de protecção para tapar “as partes” quando foram expulsos do

Paraíso terrestre.

Nesta época, a bananeira selvagem era muito vezes utilizada por outras qualidades

que o seu fruto e muitas dessas utilizações subsistem ainda hoje. O tronco da árvore

fornece fibras com que se fazem cordames, roupas e sacos. Os mesmos troncos, ocos,
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podem ser transformados em excelentes flutuadores para embarcações. Também as

folhas tinham todo o tipo de utilizações, por exemplo, para fazer um tipo de “papel”.

Apesar da ciência ter reconhecido o efeito tonificante deste fruto, ele foi alvo de todo o

tipo de versões e interpretações contraditórias. Para os budistas seria o “sal da

inteligência” por conter muito fósforo, tornando-se num símbolo de fragilidade e

instabilidade das coisa terrenas. “As construções mentais são iguais a uma bananeira”

pode ler-se nos textos fundadores do Budismo.

A bananeira, acompanhando a vida do homem, alimentou também o seu imaginário.

Também a pintura chinesa retoma amiúde o tema do sábio meditando sobre a

volatilidade das coisas aos pés de uma bananeira.

Jane Grigson, no seu “Jane Grigsonʼs Fruit Book”, afirma que Musa tem origem na

palavra árabe mouz, que deriva do sânscrito moka. Lineu terá assim usado o termo

Musáceas para as definir. Lineu afirmou ainda que os sábios da Índia as conheciam bem

e delas se alimentavam: “A folha é como asa de pássaros (...) A fruta cresce directamente

do tronco e é deliciosa por sua doçura”.

Para os árabes, a bananeira seria a Árvore do Paraíso, ou seja, a Árvore do

Conhecimento do Bem e do Mal. Para os europeus – incluindo Plínio – a banana era

antes figo: figo de Adão, “figue du Paradis” para os franceses, antes de adoptarem o

termo banane. Lineu denominou então a banana de Musa Paradisiaca, contribuindo para

reforçar a versão corrente no século XVIII que atribuía o valor simbólico de fruta proíbida

à banana.

Um rabino, que escreveu há quinhentos anos um comentário sobre o Livro do

Genesis, sugere que a extraordinária fecundidade de Sara, mulher de Abraão, foi por

causa da ingestão de uma mandrágora, planta cujas flores púrpuras amadureciam em

frutos mágicos no outono e cujas raízes cresciam como um cacho de pénis. As


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mandrágoras carregavam a fertilidade dentro de si. Quando uma mandrágora era

arrancada da terra, dizia-se que o grito da planta fazia as pessoas enlouquecerem.

A carga sexual da banana e da árvore que a produz fica bem expressa no

Divertimento Erudito de Frei João Pacheco (Lisboa, 1734, p.293) onde se lembra o facto

da banana ter forma fálica, despertando o sentido erótico de Eva, além de ser a única

árvore que geme como a criatura humana nos momentos da frutificação (Gandra, 2007),

numa referência óbvia ao acto sexual e ao seu clímax.

Mas a bananeira não é da família das mandrágoras embora o seu fruto também

cresça como um cacho de pénis. Provavelmente, a semelhança com a mandrágora

associa-a à fecundidade e fê-la assim ganhar o peso de fruto proíbido...

Ásia e África são o berço da banana (não, não é oriunda da América do Sul!). Luís da

Câmara Cascudo diz na “História da Alimentação no Brasil” que ela foi introduzida no

século XVI. A banana tem no Brasil um peso cultural e comercial enorme. Na literatura

popular deste país, a banana é ainda a verdadeira fruta do Paraíso, onde (segundo essa

crença) as maçãs nunca constaram. Acredita-se ainda que quando uma bananeira não

produz frutos deve ser abraçada (fecundada?) por um homem (Gandra, 2007).

Os estereotipos culturais associados à banana são vários e extremamente explorados

pelos media em geral. Por exemplo, o acto de escorregar acidentalmente é

invariavelmente ilustrado com recurso a uma pele de banana (como se essa fosse a

substância mais escorregadia!) e são muitos os exemplos no cinema desta “deixa visual”.

A simples visão de uma pele de banana no chão induz imediatamente essa lembrança

em todos nós. Eventualmente, terá raiz no próprio cinema e particularmente no

americano.

Os símios são, também eles, vítimas do fruto proíbido. Não há virtualmente nenhuma

ilustração de macaco que não inclua a malfadada banana. E lembremo-nos das


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Repúblicas das ditas. Nem é preciso viajar até à América do Sul... A ofensa suave

também é possível, sugerindo alguma ingenuidade, quando não a total palermice, quando

atiramos a alguém o dito: “que banana!”.


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3. Amarelo (preto e branco)

Amarelo – A cor mais contraditória. A cor do optimismo e do ciúme, mas também a

cor da diversão, do entendimento e da traição. Numa extremidade temos o amarelo do

ouro, para na outra enfrentarmos o amarelo do enxofre. Segundo Eva Heller (2000),

existem cento e quinze tons de amarelo. Destaquem-se o amarelo-banana (o objecto

deste estudo), o amarelo-açafrão (a rainha das plantas) e o amarelo-dos-artistas (Van

Gogh pintou a maioria dos seus girassóis com amarelo de crómio porque poucas vezes

se podia dar ao luxo de usar o amarelo de cádmio, mais nobre e consequentemente muito

mais caro). O clássico homem grego tratava as insónias e as ressacas com açafrão, mas

também o utilizava como afrodisíaco e estimulante sexual, misturando-o no banho.

“Quando falamos do mundo das plantas, das flores e dos frutos o açafrão tem o

significado de “não abuseis, sede prudente”” (Gandra, 2007).

É indiscutivel a má fama do amarelo, invariavelmente associada à doença e à morte

(se a isto juntarmos o preto do luto começamos a perceber o carácter malsão desta

banana).

O amarelo é, a par do azul e do vermelho, uma das três cores primárias, por não ser

possível obtê-las a partir da mistura de quaisquer outras cores. Das três é a mais viva.

Apesar da sua relação óbvia com o Sol, a luz e o ouro, raramente é uma cor apreciada,

porquê? Talvez por ser uma cor frágil, que não inspira confiança, uma cor que à mínima

influência de qualquer outra se altera de forma dramática. Um pouco de vermelho e temos

cor-de-laranja, um pouco de azul oferece-nos verde e um pouco de preto mata

definitivamente o amarelo.
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O amarelo só adquire contornos positivos se coadjuvado por outras cores. Cor-de-

laranja e vermelho tornam-no amável e conferem-lhe vida e energia. “Todo o mundo sabe

que o amarelo, o cor-de-laranja e o vermelho infundem e representam ideias de alegria e

de riqueza” (Eugène Delacroix).

Para muitas culturas, conceitos como luz e claridade são sinónimo de inteligência. O

amarelo pode então ser a cor de deus, o olho dentro do triângulo amarelo é o símbolo do

ser que tudo vê, omnisciente e omnipresente.

Quando o amarelo adquire contornos de positividade o termo é muitas vezes trocado

por “dourado”, por exemplo, raramente descrevemos um belo pôr-do-sol amarelo para

antes o elogiar como dourado. Também para as pessoas com o cabelo desta cor usamos

um artifício linguístico para fugir ao peso negativo do amarelo e estas pessoas passam a

louras.

Helios, o Deus grego, entediado pelo amor bacoco de Clítia, transformou-a num

girassol. Por isso estes se viram continuamente para o Sol. O verde da inveja tem raiz, na

verdade, na constatação do amarelo esverdeado da bilis.

Voltando à banana, o preto é simbolicamente a cor do pecado, e se combinado com o

amarelo puro transforma-se em símbolo da impureza, do desentendimento. A serpente

pintada por Hugo Vandergoes era amarela esverdeada, com cabeça de homem e tentava

Adão e Eva. Também Judas, o traidor, é amiúde representado na pintura em tons de

amarelo pálido e sem auréola.

Se pensarmos em termos mais recentes a combinação de preto e amarelo é muitas

vezes usada em sinais de advertência (perigos de explosão; veneno; etc).

O amarelo foi ao longo da história também a cor da desonra e da vergonha, as

prostitutas usavam um lenço ou xaile amarelo na Hamburgo de 1445. Os judeus têm no

amarelo a sua cor maldita, desde obrigados a usar chapéus amarelos (séc. XII) a aros da
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mesma cor cosidos à roupa e, já em pleno séc. XX, o amarelo voltou para os discriminar.

Uma estrela de David amarela aposta às suas roupas desonrava-os e humilhava a sua

religião.

Não me alargarei sobre o branco do fundo, mas várias leituras cruzadas (embora

naturalmente insuficientes) sugerem um sentido ou presença da inocência feminina. O

branco é, para muitos, a cor do começo, do início e do reinício (da ressurreição). É

indubitavelmente a cor (é uma cor ou todas as cores?) da bondade e da perfeição.

Em jeito de conclusão sobre a problemática do amarelo penso poder atribuir à

combinação de preto e amarelo na banana do Warhol um único termo: perigo.


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Conclusão

Na primavera de 1967, os jovens hippies consomem uma grande quantidade de

bananas. O amor inesperado por este fruto advém da descoberta de certas proriedades

da musa paradisiaca: segundo alguns jornais underground (como o Oracle ou o Berkeley

Barb) a pele da banana conteria uma substância que actua sobre o sistema

cardiovascular e sobre o sistema nervoso central.

Ao mesmo tempo que surgem avisos sobre os perigos do consumo deste produto,

outros (sobretudo jornalistas) avançam mesmo com uma receita para produzir a suposta

droga: congelar uma banana, reduzi-la a puré, secá-la num forno e, finalmente, fumá-la!

O entusiasmo é tal que alguns adeptos do fruto proíbido começam a falar de um

yellow power (por analogia com o flower-power do momento). Em Março de 1967, dois mil

estudantes reúnem-se no campus de Berkeley.

Country Joe MacDonald, cantor Rock assegura que se pode atingir o céu fumando

pele de banana e distribui mesmo quinhentos destes cigarros num concerto, urrando: “It's

banana, it gets you high”.

De um dia para o outro, os mercados e lojas de fruta de Haight-Ashbury (centro

nevrálgico do movimento hippy) esgotam o stock de bananas.

Numerosos estudos antropológicos são publicados. Uns acreditam que se trata de

uma prática ancestral enquanto outros, químicos e cientistas em geral, procuram a

fórmula milagrosa na origem de tal devastador efeito.

Os insuspeitos Time Magazine e New York Times escrevem artigos sobre o tema.
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Algum tempo antes, em 1966, Donovan (o suposto propagador da ideia de que a pele

da banana é uma poderosa droga) publica a canção Mellow Yellow. Tema da canção?

Uma improvável banana eléctrica.

É aqui que entra a “nossa” banana. Nesse mesmo ano, Andy Warhol desenha uma

banana (que se pode pelar) sobre a capa do primeiro álbum dos The Velvet Underground.

Uma banana amarela, pintalgada de “nódoas negras”. Passa quase despercebida uma

pequena frase no topo superior à direita da banana, onde se pode ler: “Peel Slowly and

See”. Na realidade, a banana não é impressa directamente na capa. É um autocolante

que, uma vez levantado (descascada a banana), deixa antever uma outra banana, já

descacada e... rosa carne!

A produção da capa sofre diversos reveses que atrasam consideravelmente a saída

do álbum. Entre outros problemas, a tecnologia da altura não permitia uma colagem

perfeita do autocolante da banana sobre a versão “descascada” impressa a rosa. Será

preciso aguardar pela chegada de uma máquina especialmente encomendada para

proceder à produção gráfica e colagem do autocolante no sítio certo. Paralelamente, Andy

Warhol revela inúmeras indecisões a propósito da localização da sua assinatura. Craig

Braun, o técnico responsável pela impressão da capa confirma as dificuldades de todo o

processo. Reza a lenda que foi a própria editora (Verve Records) a sabotar toda a

produção com o único intuito de garantir a saída antecipada do álbum de estreia dos

Mother of Invention de Frank Zappa. A inimizidade entre os dois grupos era conhecida e a

editora parecia decidida a rentabilizar o maior potencial comercial de Zappa.

Os temas controversos levaram o álbum e a banda a serem banidos de muitas lojas e

da exposição mediática que Warhol teria em mente. Várias rádios recusavam-se a passar

as músicas e as revistas recusavam-se a publicar publicidade ao álbum. A falta de


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sucesso também pode ser atribuída ao estúdio, Verve, que falhou completamente a

promoção do álbum, dedicando pouca ou nenhuma atenção ao assunto.

O mundo da crítica também votou ao ostracismo o álbum. Uma das poucas resenhas

impressas, na segunda edição da pequena revista de rock Vibrations em 1967, era

bastante positiva, descrevendo o som como um "ataque massivo aos ouvidos e ao

cérebro" e não deixando de lado os tópicos sombrios presentes na maioria das faixas.

Décadas depois, o álbum viria a receber, surpreendentemente o louvor unânime dos

críticos, muitos dos quais apontam a influência do disco nas canções do rock moderno.

As bandas que reclamam a influência dos Velvet é interminável. The Dream

Syndicate, The Feelies, The Modern Lovers, Big Star, Patti Smith, The Stooges, David

Bowie e muitos outros. Lou Reed é mesmo apontado como o verdadeiro pai do Punk.

A capa sofrerá, ao longo dos anos subsequentes, uma interminável lista de variações,

adulterações e imposturas várias. Nunca se saberá o que presidiu à intenção de Warhol

(ou se a houve sequer). Fosse ele influenciado pelo desvario químico da época e dos

próprios residentes da Factory, pela carga sexual do fruto (andy é um homossexual

dividido entre a compulsão gay e a profunda devoção católica) ou pela longa e simbólica

história da banana, uma coisa é certa: esta banana não apodrecerá nunca.

Pode mesmo questionar-se a autoria (do ponto de vista conceptual) se tivermos em

conta que muito do trabalho do artista era, na realidade, desenvolvido por outros artistas

da entourage da Factory. Pesquisando alguma coerência ou ponte com o trabalho gráfico

que desenvolve para outros artistas, é incontornável a capa que desenha para os Rolling

Stones em Sticky Fingers, onde parece retomar o “tema”. Desta vez trata-se de uma

fotografia, um grande plano da zona genital de um homem e umas calças de ganga

puídas, a salientar de forma explícita, um pénis escondido.


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Sobre o carácter fálico da banana e sobre o falo propriamente dito, muito se poderia

escrever mas essa análise ultrapassa em muito os limites deste (necessariamente) curto

trabalho.
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Bibliografia

GANDRA, Manuel J. Portugal Sobrenatural - volume I, Lisboa: Ed. Ésquilo, 2007, p. 243 e 482-483

GRIGSON, Jane. Jane Grigsonʼs Fruit Book, New York: Atheneum, 1982, p. 48-66

HELLER, Eva. A psicologia das cores. Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 2007, p. 83-102

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Global, 2004

THE VISUAL Food Encyclopedia. Montreal, Canadá: Les Éditions Québec/Amérique inc., 1996

THE VELVET UNDERGROUND. New York, USA: Rizzoli, 2009


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Anexos

Um cacho de bananas

Uma recolha sucinta de algumas interpretações da banana de Warhol, desde 1966

aos nossos dias. Anexa-se ainda uma cópia integral, em CD independente, do álbum

original “The Velvet Underground and Nico”, em formato audio.


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Reprodução posterior da capa original. Aqui o nome da banda aparece finalmente.


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A capa original de 1967.


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Uma interpretação livre. Anónimo.


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Abundam as reinterpretações da banana original...


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Aqui, uma peça promocional da Ericsson recria a capa original.


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Papéis de parede, t-shirts, sacos e roupa diversa, tudo se presta à colagem da banana e do seu

imaginário simbólico.
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Aspecto da banana descascada que surgia por debaixo do autocolante original.


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