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MESAS FALAM E SE MOVEM

Escrita especialmente para o Grupo Confraria de Teatro, a peça estreou em abril de


2014, no Museu Capixaba do Negro em Vitória.

Elenco:

Luana Eva
Ludmila Porto
Tiara Pagani

Direção Geral de Luiz Fernando Marques

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MESAS FALAM
E se MOVEM

Figuras:

Mãe e Filha
Filha e Mãe
Mãe
A Voz do Pai

A ação se passa em três tempos distintos. A mesa é o único cenário. Ela se impõe.

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Escuridão. Trovões.

VOZ DO PAI

Nem dá pra saber se o que


lembramos, É o que
Realmente aconteceu.

UM. MÃE E FILHA

Mãe e filha ao redor da mesa. A filha numa dança cansada senta-se, permanece imóvel.
A mãe, eufórica e de preto.

FILHA. Era meu aniversário de 15 anos. Ele reservou a tarde inteira pra ficar aqui em
casa, comigo. A filha única não pôde sair de casa nesse dia. Tinha que ficar aqui, mesmo
sem festa, nada. Mas ficar aqui, presa. Ele sentou nessa cadeira. Ficou me olhando e
mandou que você servisse o café da tarde, como num dia normal, era o meu aniversário
e ele agia como se fosse um dia normal. Eu estava fazendo quinze anos. Quinze anos!
Isso é muita coisa, é uma grande data e ele só queria ficar sentado numa cadeira,
entulhando farelo na mesa? O que ele fez de diferente?

MÃE: Ele perdeu uma tarde de trabalho pra ficar perto de você.

FILHA: Isso é muita coisa?

MÃE: Ele morreu trabalhando.

FILHA: Isso é muita coisa?

MÃE: É nobre. Foi nobre da parte dele. E é desse tipo de lembrança que você quer falar
no dia de hoje.

FILHA: ?

MÃE: Eu preciso de você.

FILHA: Você precisava dele?

MÃE: Era uma condição. Você nunca vai entender isso. Aos vinte anos eu também
pensava assim.

FILHA: Faço trinta mês que vem.

MÃE: Que diferença faz?

FILHA: São dez anos, mãe. Dez anos é muita coisa.

MÃE: Não se você passa o tempo todo no mesmo lugar.

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FILHA: E desde quando isso muda alguma coisa? Tempo é tempo em qualquer lugar.

MÃE: Você está me ofendendo.

A mãe continua a ajeitar comidas na mesa.

FILHA. Você nunca consegue ouvir nada mais duro que/

MÃE: É senhora. Eu não sou umas das suas amigas.

FILHA: Eu não tenho nenhuma.

MÃE: Será que ninguém vai vir?

FILHA: É o preço que se paga.

MÃE: É melhor parar de me ofender.

FILHA: Ser fiel a uma cidade que nem lembra que você existe.

MÃE: Eu só fui fiel à ele.

FILHA: E agora ele descansa em paz?

MÃE: Você não precisa ser tão cruel comigo.

FILHA: Mãe, senta!

A mãe obedece à filha. A discussão agora se passa com as duas imóveis, sentadas.

FILHA: Eu tenho que te contar uma coisa. Uma coisa que eu estou escondendo tem um
tempo. E eu preciso, preciso te contar.

MÃE: Você acendeu as treze velas que te pedi?

FILHA: A senhora fala como se

MÃE: E não estamos?

FILHA: Eu acendi as velas, não se preocupe. Coloquei o pano branco na janela. Já


apaguei as luzes da sala. Ele está lá estirado, no seu devido lugar.

MÃE: Você não tem a menor noção de tudo o que ele fez por você, por mim. Por todos
nós. Por todos dessa cidade e agora/

FILHA: Ninguém aparece. E nem vai aparecer.

MÃE: Como é que você tem tanta certeza disso? Se eu tivesse te dado alguns tapas na
cara na sua adolescência, você não estaria assim. Essa petulância dos vintes anos...

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FILHA: Mãe, eu tenho trinta.

MÃE: Como se isso te tornasse alguém.

FILHA: O que você fez por mim? O que ele fez por mim? Você aguenta ouvir.

MÃE: Senhora, por favor.

FILHA: A senhora aguentaria me ouvir?

Batidas na porta.

MÃE: Engole seco agora. Eles chegaram. Tem comida o suficiente?

A Mãe sai de cena. Silêncio. A mãe retorna calada. Senta-se.

FILHA: O que eles fizeram dessa vez?

MÃE: Pegue um balde nos fundos. Com água e um esfregão.

FILHA: O que eles fizeram, agora?

MÃE: Tem uma mancha vermelha na porta. Uma mancha enorme. Está pingando no
tapete de boas vindas. Eu não quero que manche aquele tapete. Eu mesma fiz, gastei um
tempo. Ele me deu o tecido.

FILHA: É só um tapete. Eu não vou limpar a mancha.

MÃE: É melhor você comer. Está magra demais pra pensar em qualquer coisa. Não fala
nada que importa, coisa com coisa. Eu estou morrendo.

FILHA: Não, Mãe, Você a senhora não está morrendo.

MÃE: É uma mania irritante essa a sua de sempre parecer saber de tudo.

FILHA: Eu só estou dizendo que a senhora não aguenta nada. Eu preciso te contar que eu
vou embora. Que eu vou sair dessa casa.

MÃE: Eu estava no lago. Eu tinha vinte anos. Eu não era parecida com você. Eu era
melhor. Eu sei que eu era. Eu ficava calada. Coisa que você também deveria ficar. Eu não
sabia.

FILHA. E continua não querendo saber.

MÃE: Ele me viu no lago. Ele me espiava sempre aos domingos. E hoje que dia é?

FILHA: Domingo.

MÃE: Isso não é uma coincidência. Ele está me olhando lá de cima.

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FILHA: Ele está na sala ao lado, mãe.

MÃE: Não blasfeme na mesa.

FILHA: Não acredito que ele esteja num patamar desses.

MÃE: Desses? Qual?

FILHA: Essa função de céu. Eu não, mãe, eu não entendo. Pra ele, não.

MÃE: Ele me viu no lago. Ele ia todos os domingos. Uma vez eu tirei toda a roupa pra
ele.

FILHA: Certas coisas a senhora não precisa me contar.

MÃE: Fui eu. Eu quem estragou tudo. Ele me pediu em casamento vinte dias depois. E
eu tinha vinte anos. Foram quarenta anos e ele me deixou.

FILHA: A senhora sempre esteve sozinha.

Batidas na porta.

MÃE: Pode abrir pra sua mãe?

FILHA: Eles estão no direito deles.

MÃE: Eles querem ver o seu pai. Ele tinha muitos amigos nessa cidade. Essa cidade foi
muito boa com ele. Com a nossa família.

FILHA: Mãe, eu vou embora!

Batidas na porta.

MÃE: Eu quero uma lembrança forte, uma lembrança boa, o seu pai merece.

FILHA: Eu não tenho nada pra contar.

MÃE: Ele está vendo essa sua atitude. Você sabe que está magoando ele. Ele sempre foi
tão bom com você.

Batidas na porta cessam.

FILHA: Então, me conta. Eu quero saber a história toda. O que ele fez de bom pra mim,
pra você, pra todos aqui?

MÃE: Nós não precisamos te provar nada.

FILHA: Nós? Quem?

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MÃE: Seu pai e eu.

FILHA: Eu só quero entender como a senhora se sente com tudo o que aconteceu.

MÃE: Eu aos vinte também tinha o desejo de compreender certas coisas. Mas, passa.
Isso, passa.

FILHA: Quantos anos eu tenho, mãe?

MÃE: Quantos anos você quer ter?

Batidas na porta.

MÃE: Nos conhecemos num domingo de chuva no lago. Aquele que corta a cidade em
duas. A gente se beijou na bifurcação. Ele me chamava de a que engole tudo . Eu
respondia solarmente que esse era um bom apelido para se dar a uma mulher que se ama.
Ele ria. Ele não respondia se me amava ou não. Meus pais, seus avós, eles investiram em
mim. Eu combino com a pradaria da cozinha como nenhuma outra da minha família. Eu
aprendi a ser quieta, calada, na medida em que um novo prato era colocado na mesa, que
um novo eletrodoméstico era me dado, que um novo enfeite fosse colocado na estante,
que eu pudesse mudar o sofá de lugar de acordo com a iluminação que vem de fora. Eu
combino com a cortina da casa, você nunca reparou? Isso não é uma coincidência.

FILHA: A senhora precisa sair daqui.

MÃE: E pra onde eu iria?

FILHA: A senhora acha que aqui é o seu lugar, mas não é.

MÃE: Você pensa demais. Fala demais. Uma hora dessas você vai acabar dando um
escorregão. É melhor parar de dar importância ao que você pensa.

A mãe sente uma pancada no útero. Logo se recompõe.

FILHA: Eu estou saindo de casa. Essa noite. Não vou esperar o enterro. A senhora
também não deveria. A senhora devia vir comigo.

MÃE: Eu não posso deixar ele sozinho.

FILHA: A senhora já fez muito por ele.

MÃE: Ele é o homem da casa.

FILHA: O que ele fez por nós, mãe?

MÃE: Não foi culpa dele.

FILHA: Se ele não conseguia se controlar, isso é culpa de quem?

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MÃE: Dele é que não é.

FILHA: É sua?

MÃE: Talvez. Eu me trancava no quarto, sempre que ele pedia mais e mais. Eu não
conseguia. Ele teve que sair de casa pra conseguir.

FILHA: Às vezes ele não precisava sair de casa.

A mãe se levanta da cadeira. Atravessa a mesa e dá um tapa no rosto da filha. Retorna a


sua posição. Sem grandes emoções.

MÃE: Eles estão vindo.

A filha se levanta e olha pra fora.

FILHA: A senhora está ouvindo isso?

Silêncio.

FILHA: Eles estão podando a árvore.

MÃE: Ele gostava muito dessa árvore.

A mãe se levanta. Fica de pé. Mas não se move.

MÃE: É muita comida pra se jogar fora.

FILHA: Ninguém vai querer se despedir do pai, mãe.

MÃE: Você já fez as suas malas?

FILHA: Eles estão cortando, galho por galho.

MÃE: Eu tranquei a porta. Está tudo manchado lá fora. De vermelho. Eles estão no
quintal. É melhor você não sair.

FILHA: Até chegar na raiz vai demorar um pouco.

MÃE: Você não vai conseguir ir embora tão cedo.

FILHA: Ela nunca deu frutos mesmo. Ele ficava rodeando essa árvore. A árvore também
está manchada.

MÃE: Melhor que cortem tudo.

FILHA: A senhora está com raiva agora?

MÃE: Não diga essa palavra dentro de casa. Preserve a alma dele. Respeite o corpo do
seu pai.

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FILHA: Ele que não respeitava o corpo de ninguém.

MÃE: Você é só uma criança.

FILHA: Fica calma, mãe.

MÃE: Senta aí, na mesa e coma! Não quero desperdiçar toda essa comida. Ele trabalhou
duro pra que a gente não passasse fome. E agora eu não vou mandar tudo isso pra lata de
lixo.

A filha se senta e começa a comer.

FILHA: Eu fiz as minhas malas, mãe. Eu vou hoje.

MÃE: A porta está trancada. Ninguém entra ou sai. Sou eu quem decido as coisas agora.

FILHA: O que esse homem fez com você?

MÃE: Esse homem é o seu pai.

FILHA: Ele também me levava pra debaixo da árvore.

MÃE: Coma.

Uma jovem entra em cena. Ela veste-se com um maiô e toca de banho. A jovem sai de
cena.

FILHA: A senhora sempre soube de tudo o que ele fez. A senhora não quer se lembrar.
Mas isso aconteceu, mãe. Aconteceu.

MÃE: A gente vai terminar de comer. A gente vai pra sala ao lado. A gente vai velar o
corpo do seu pai. A gente não vai sair dessa casa. A gente vai ficar com ele. Sou eu quem
decido as coisas, agora.

FILHA: Eu não consigo esquecer.

MÃE: A gente é acostumada a misturar as lembranças. Nem dá pra saber se o que


lembramos de fato aconteceu. Finja que é tudo mentira.

Silêncio.

FILHA: Meu pai foi um grande homem.

MÃE: Amém.

A mãe sofre um golpe no útero. Começa a chover. Goteiras sobre a mesa.

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MÃE. A mãe sabe que a filha não sai de casa tão cedo. A mãe se alegra com isso. A filha
sabe que deve honrar a cadeira que senta. A filha olha agora pela janela e se imagina
longe dali. A mãe estende a mão à filha e a filha não consegue imaginar mais nada.

Escuridão. Luz.

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DOIS. FILHA E MÃE

Barulho de motor de carro. Um carro estaciona do lado de fora. A jovem mãe da janela,
avista a filha saindo do carro. A filha carrega um monte de mala e um guarda-chuva.
Chove. Há goteiras caindo do teto sobre a mesa.

MÃE. Isso é difícil de falar. Mas eu farei o melhor possível para ser entendida. Acidentes
acontecem em qualquer lugar, o tempo todo. Mas dá pra evitar se você tem força de
vontade, no seu caso, eu não sei. O que aconteceu com você, foi culpa da sua fraqueza.
Isso nunca aconteceu com nenhuma mulher dessa família antes, você deveria honrar o
sangue que tem. Você, desde pequena, sempre negou ser domada, sempre negou qualquer
tipo de ordem e isso sempre te fez parecer mais idiota do que realmente é. Não dá pra
entender o tipo de mulher que acha que está ganhando alguma coisa enquanto encara a
realidade. As mulheres desta família nasceram para negar o convívio da porta pra fora.
Você tem que aprender de uma vez por todas, que toda essa sua vontade, toda essa sua
disposição em deixar o que é cômodo para trás, só vai fazer com que você envelheça
sozinha. Não adianta, o que eu disser agora, vai parecer rusga à toa. Se na minha casa ele
insiste que sempre tenha peixe no almoço, ninguém aqui dentro pode ter a audácia de
dizer que não come nada que tenha vida. Você me entende agora? É melhor que saiba
antes de passar por essa porta que aqui dentro, de agora em diante, eu passarei todo o
tempo que precisar, que eu tiver, tentando dar um jeito nessa sua fraqueza. Nessa sua
anemia. Vamos envelhecer juntas.

A filha passa pela porta, deixa as malas no chão. Senta-se na cadeira. Na mesa.

FILHA. Ela sempre foi assim. Sempre tentando colocar a culpa em alguém. Um dia você
está em casa, quieta, e ela te prepara banhos demorados, no outro ela joga suas roupas
pela janela e te faz dormir no quintal. A mãe nunca está satisfeita.

Silêncio.

FILHA. Eu não vou ficar por muito tempo. Eu só tô de passagem.

MÃE. E como foi quando ele foi embora?

FILHA. Ele não foi embora.

MÃE. Você não devia ter feito isso.

FILHA. Ele não quis sair. Eu não podia fazer mais nada.

MÃE. Podia ter insistido. Ele era um homem bom, ele trabalhava, ele te sustentava.

FILHA. Eu preciso de dinheiro.

MÃE. E acha que aqui você vai conseguir ganhar dinheiro?

FILHA. A quantia não é muita.

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MÃE. Eu não devia fazer isso, mas, você pode ficar aqui comigo. O tempo que precisar.
Eu sei que vai durar muito. Você foi abandonada. Até dar um jeito na sua vida de novo,
isso vai demorar.

FILHA. Eu tava cansada.

MÃE. Você nem sabe o que é isso.

FILHA. Ele sempre chegava em casa e queria que eu ficasse lá, esperando, em frente a
televisão. A televisão nunca tava ligada quando ele chegava e eu nunca tava lá.

MÃE. Ele está certo.

A filha tira de dentro de uma das malas, uma câmera fotográfica.

FILHA. Eu não vim até aqui pra uma discussão como essa. E tô aqui pra isso.

MÃE. Você trancou a porta?

FILHA. Eu quero tirar uma foto sua.

MÃE. Você ainda não me contou como tudo aconteceu. Foi um acidente, não foi?

FILHA. A senhora pode botar a roupa que quiser. Eu só gostaria que a senhora olhasse
diretamente pra câmera, pode ser?

A mãe senta-se numa cadeira. Desmancha-se.

MÃE. Pra se conhecer a história dessa mãe, é preciso um retrato franco e sem meias-tintas
do seu rosto. A filha sentia agora que a casa não estava mais como na época da sua
adolescência. Não estava mais conforme o seu gosto. Não era mais moderna. A mãe ainda
está se recuperando da sua viuvez e começando a se sentir novamente ela mesma. Por
isso, a mãe, foi a primeira a concordar que uma nova decoração, de cima a baixo, era o
que se pedia. Tinha muito espaço para melhoramentos naqueles interiores velhos e
cansados. A mãe começou o seu luto vendendo uma das peças mais tradicionais de sua
coleção, só pra fazer caixa para seus novos projetos de reforma. A mãe costuma ser
sempre assim.

FILHA. Como foi o enterro do meu pai?

MÃE. Estava chovendo. Como hoje. E só.

MÃE. Como nos filmes. Eu achei que era um filme.

FILHA. A senhora ainda guarda aqueles antigos? Os rolos antigos?

MÃE. Tem um ruído no meu ouvido.

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MÃE. Você tem que entender que era uma época complicada pra mim. Eu tinha aqueles
distúrbios.

FILHA. Isso nunca foi comprovado.

MÃE. Eu vivia de hospital em hospital.

FILHA. A senhora ainda toma as pílulas?

MÃE. Daí a mãe resolveu que uma mesa grande, na sala de jantar, isso seria o suficiente
pra mudar tudo.

FILHA. Você se esqueceu das paredes. Mudou tanto os móveis que se esqueceu das
paredes. É infiltração pela casa toda. Esse cheiro.

MÃE. É o cheiro do seu pai.

FILHA. O meu quarto?

MÃE. Ele não existe mais.

FILHA. O que a senhora fez com aquelas caixas?

MÃE. Foi um acidente, não foi?

FILHA. Eu só preciso de um retrato perfeito.

MÃE. O dia em que a filha abandonou a casa. A filha tinha dezessete e a mãe, quarenta.
A mãe resolveu não se despedir. O pai resolveu tentar compreender o que aquelas fotos
estavam fazendo no quarto. A mãe preferiu não responder e resolveu que naquele dia, ela
teria que lavar a casa toda. Foi uma enxurrada, marcada pelos telefonemas dos vizinhos.

FILHA. Ele me ligou, no meu aniversário de trinta anos. Ano passado. Eu sabia que o pai
tava doente, mas eu não podia voltar. A senhora sempre soube a causa da minha ida,

MÃE. Você está com fome?

FILHA. No carro, vindo pra cá, eu resolvi que eu tinha que passar no cemitério e visitar
o túmulo do pai. Tinha lama pra tudo quanto é lado e o carro morreu numa das ladeiras,
então eu quase desisti. Achei que podia ser um aviso. Não se faz esse tipo de coisa com
uma criança!

MÃE. Você não vai embora de novo, vai?

FILHA. Eu conheci essa mulher enquanto servia uma das mesas da lanchonete.
MÃE. Eu achei que você tivesse estudado, se tornado alguém mais firme.

FILHA. Essa mulher pediu o número do meu telefone. Eu passei o lá de casa. Ele atendia
e eu dizia que era uma amiga.

MÃE. Você tem que evitar esse tipo de situação. Quando você saiu de casa, fugiu de casa,
eu achei que você amasse o seu pai.

FILHA. Era a minha única opção.

MÃE. Eu posso esquentar o que sobrou do almoço.

FILHA. Eu prefiro que você tire toda a roupa para a foto.

MÃE. Eu sou uma velha, agora.

FILHA. A mãe teve a filha aos vinte e poucos anos. A mãe era humilhada pelo pai. A
mãe era obrigada a se deitar sempre de quatro. O pai não era muito delicado quando
anoitecia. A mãe, então passou a dar banhos na filha todos os dias de manhã, todos os
dias a tarde e todos os dias a noite. O total de três banhos por dia. A filha ficava com o
dedo enrugado e se achava uma velha e foi assim até que a filha completou seus quinze
anos. A filha, então, tarde, conheceu um garoto na escola. A mãe a espancou, na saída da
escola pra todo mundo ver. A filha estava com raiva da mãe, a filha sentia nojo da mãe,
a filha não queria que o pai soubesse. O pai sentava na mesa e a ensinava a fumar. A filha
achava divertido. A mãe gostava da filha encharcada no banho e de tirar fotos. A filha
puxou a mãe.

MÃE. Eu imaginei, parada na porta da sua casa, que você quisesse ter um filho com ele.

FILHA. A senhora não sabe nada. Eu não dei uma noticia sequer desde que sai daqui e
isso já faz mais de dez anos.

MÃE. Você avisou o seu marido que.

FILHA. Ele sempre soube.

MÃE. Isso é fraqueza. Sabe que é pura fraqueza. Eu também fui fraca.

FILHA. Nas fotos?

MÃE. Está tudo empilhado no quarto. Todas as suas coisas estão empilhadas. Isso diz
mais de você do que de mim.

FILHA. E a caixa com as fotos?

MÃE. Eu não podia mais olhar pra elas?

FILHA. Você destruiu tudo?

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MÃE. Elas estão enterradas, como tudo aqui.

FILHA. A senhora devia ter me procurado. Pedido desculpas. A senhora devia ter ido me
visitar quando eu ainda tinha uma casa.

MÃE. Um dia eu parei o carro na frente da sua casa. Você tava lavando uma pilha de
pratos, eu vi do lado de fora, você na janela. Ele chegou por trás de você. Eu vi. Eu saí,
não percebi a velocidade e bati com o carro num muro pichado. Eu preciso que você se
esqueça do que eu fiz. Eu estava sob o efeito das pílulas.

FILHA. Onde?

MÃE. Debaixo da árvore. Mas tá chovendo e não adianta você tentar cavar. Só vai fazer
você sujar a sua roupa. Ou pegar uma pneumonia.

A filha sai de cena.

MÃE. Seja boazinha com ela.


Seja boa com ela. Você
é mãe.
Ela não sabe o que faz.
Três banhos por dia. O suficiente pra tirar toda a sujeira. O cheiro do cigarro.
Está sepultado. Sem penitência. Em nome do pai, do filho e do.

A filha retorna suja. O chão suja.

FILHA. Eu nunca vi uma chuva assim, aqui.

MÃE. Aqui nunca chove. É uma provação.

FILHA. Eu cavei. Eu consegui. Aqui estão elas. Onde tá o resto?

A filha joga na mesa algumas fotos, todas cortadas, desfocadas. Nada se vê.

FILHA. Essa mulher me ligou, numa madrugada. Eu atendi. Ele se levantou da cama e
ficou ouvindo de longe. Ele tem o ouvido bom/

MÃE. Tenho um ruído que não sai do meu ouvido.

FILHA. Essa mulher falava sobre como me queria com ela, eu sentia vergonha. Essa
mulher falava sobre a língua dela no meu corpo. Eu ria. Eu falava baixo, mas a risada eu
não conseguia controlar. Eu saí de casa, na madrugada, ele foi atrás. E a senhora sabe
como a história termina.

MÃE. Quando a gente sofre um acidente, tudo paralisa, mas depois, depois tudo volta ao
normal. Fica o barulho da derrapada na cabeça por um tempo, mas a gente se acostuma.
Você deveria ter se esquivado do muro. Ia ser mais fácil. Pra gente fraca como você, que
desperdiçou a chance de ter uma casa bem mobiliada por/

FILHA. Quer ver uma foto dessa mulher?

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MÃE. Você não faria isso?

FILHA. Eu tentei ver as fotos de novo e não dá. Olha pra elas. Não dá pra ver mais nada.

MÃE. O seu pai viu tudo. Ele sabia de tudo. Ele te ensinava a fumar.

FILHA. Fumaça pela casa toda.

MÃE. Não!

FILHA. Ninguém faz ideia de como a minha pele ficou com esses banhos. A Filha sorri
aliviada. A mãe chora.

Chuva.

MÃE. Eu estou falando num telefone de discar. Um velho telefone de discar. Que tive
que me desfazer quando resolvi trocar a mobília. O telefone não vale nada, como tudo
aqui dentro, nunca valeu. Essa sala é maior do que um estacionamento, a casa é tão grande
que me perdi quando ouvi o barulho do seu carro e resolvi descer para atender a porta.
Pra uma senhora sozinha é sempre difícil se acostumar com tudo vazio. Eu tentei te visitar,
eu cheguei a ir até a porta, eu tentei te ligar do telefone de discar. Eu tentei queimar as
fotos, antes dele ver, mas não deu. Elas não pegaram fogo. Nesse sentido, eu me ajoelhei
e rezei. Se não pegaram foto é que alguma maldição tem. Eu não fiz isso sozinha, você
também quis. As fotos no banho, você sorria. Sempre. Eu cuido de você se você ficar
aqui, não deve ser fraqueza. Sim, deve ser. Somos duas fracas. Você não aguenta nada,
nem eu. Era o efeito das pílulas.

A mãe com eça a se d espir e a luz cai aos poucos. A mãe vai se encharcando com as
goteiras. A filha tira a foto. Escuridão.

MÃE. Esse ruído no meu ouvido que não me deixa dormir. As pílulas que não fazem
efeito. O efeito é castigar. Isso. O meu castigo é engolir toda a água. Não conseguir
respirar. O seu pai. Para o seu pai. A mobília é para o seu pai. Tudo o que eu fiz. Eu quero
tirar o Sagrado Coração da porta da frente, mas isso castigaria a sagrada família. Eu nem
sou religiosa, o que eu tô fazendo? A mãe nunca pensou antes de falar ou de fazer
qualquer coisa, a mãe sorri e se afoga.

Mãe, de maiô, entra.

MÃE. Festa na piscina!

Trovoadas.

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TRÊS. A MÃE, A FILHA E O FILHO MORTO

Chuva e clarão.

MÃE. Ele sempre me falou de ter uma festa na piscina. Eu ficava naquela que, ótimo,
Mãe? Ele sempre pergunta isso. E quem sabe, mãe? Eu nunca sei explicar direito esse
negócio de mergulhar e respirar, eu nunca gostei de praia ou qualquer coisa que envolva
água, pra mim é o fim. Eu tenho medo de chuva.

A filha entra correndo, com um bolo na mão, a vela no bolo, acesa. Para diante da mãe
e da mesa.

FILHA. Eu ainda estou viva, mãe.

MÃE. Coloca o bolo na mesa, que daqui a pouco ele vem.

FILHA. Ele não vai vir, mãe.

MÃE. Se começar a colocar defeito, como sempre, é melhor ir embora.

FILHA. Quantas pessoas a senhora chamou, mãe?

MÃE. Ele está precisando de roupa, está crescendo rápido, quanto mais roupa ganhar,
pesa menos no meu bolso. Vinte pessoas, uns amigos, mais chegados.

FILHA. O pai disse que não vai vir, mãe.

MÃE. No aniversário do ano passado, você não se lembra? Ele apareceu para me ajudar
a limpar tudo, a tirar toda a decoração. Ele é um bom pai só não sabe disso ainda. Ele
sempre aparece no final. Ele gosta de fazer surpresas estranhas.

FILHA. Ele ainda tem tempo, mãe. Ele está lá em casa te esperando, mãe. Se a senhora
soubesse como isso é complicado e duro pra ele, mãe. A senhora, mãe, não ficaria
insistindo nessa, mãe.

MÃE. Você devia seguir o exemplo do seu irmão, sempre comigo, sempre dividindo
comigo, compondo comigo, isso sim é união. Você está naquela fase que eu nem gosto
de falar alto pra não causar mais agonia.

FILHA. Eu tenho quinze anos e sei bem mais das coisas do que você, mãe.

MÃE. Essa arrogância.

A filha coloca o bolo na mesa. Coloca o fone no ouvido. Dança sem música.

MÃE. Se você veio pra festa, mais cedo, pra não me ajudar e pra me ignorar, eu espero
que você volte pra casa e sente no sofá com o seu pai.

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FILHA. A filha começa a dançar. A filha não quer estar ali. A filha já não entende mais
nada. Mas finge entender. A filha ameaça um grito. A mãe tapa a sua boca, como sempre
fez, desde que ela era criança. A filha se dá melhor com o pai.

MÃE. Eu passei de carro pela rua e vi todo o movimento na janela. A vizinha do 303, ela
estava o telefone, com a vizinha do 307, elas não conseguem disfarçar, elas não. Eu decidi
fazer essa festa no clube. E eu vou fazer. Eu mandei convite pra algumas das suas
amiguinhas de cabelo esquisito.

A filha tira o fone do ouvido.

FILHA. A senhora não fez isso, mãe. Não fez, mãe.

MÃE. Tudo bem, desde que elas se comportem e parem de falar gritando.

FILHA. Mais um semestre sendo motivo de piada, mãe.

MÃE. É só mudar de lugar, de carteira, na sala de aula. Desviar do corredor. Você reclama
demais, na sua idade, na escola, a minha vida não era tão fácil assim.

FILHA. Pra quantas, mãe?

MÃE. Elas iam pular na piscina, a tinta ia sair aos poucos, ia ser um pouco constrangedor.
Aquele seu bando, metade dele, as gêmeas de cabelo azul, eu decidi não.

FILHA. A senhora nunca me entende, mãe.

MÃE. Eu vou preferir fingir que não ouvi nada. Antes que eu comece a. A decoração. Me
ajuda. Faça algo de bom pro seu irmão, ao invés de fechar a porta do seu quarto dessa
vez, pra ele não mexer em nada.

FILHA. A senhora, a tentativa de deixar o quarto do jeito que ele deixou, mãe.

MÃE. Ele vai gostar, não vai.

FILHA. Mãe, me olha, mãe.

MÃE. Doze anos, é uma bela idade.

FILHA. Mãe, a senhora precisa de. Mãe.

MÃE. Já vai começar a colocar defeito em tudo. Tudo bem, você não teve festa aos doze
anos, mas é que a minha cabeça. Eu não me lembro. O que aconteceu mesmo naquele
ano?

Silêncio. Trovões. Goteiras sobre o bolo.

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MÃE. A mãe arrasta para a beira da piscina um aparelho de som antigo. A filha a espia
de longe. A filha não que espiar. A filha sente a falta da mãe e do pai, mas não quer sentir.
A mãe prepara o som. A mãe coloca a música favorita do filho. O filho gostava dos
Beatles. A filha ri e não sabe do quê.

FILHA. A senhora tem certeza que isso é música pra se colocar numa festa infantil, mãe?

MÃE. O que você sugere? Essas coisas eletrônicas e barulhentas do seu Walkman?

FILHA. É um Ipod, mãe.

MÃE. Eu disse pra você reservar metade da sua mesada pra comprar um presente pra ele,
Doze anos! O que você comprou?

Trovão.

FILHA. Nada, mãe.

MÃE. Eu não gostaria de ter que te bater com a idade em que você está.

FILHA. Eu preciso te falar uma coisa, mãe.

MÃE. Sempre ignorando a existência do seu irmão, isso só vai acabar com a nossa
família. Vocês precisam ser mais unidos!

O celular da filha toca.

FILHA. O pai, mãe.

MÃE. Melhor não atender.

FILHA. Não é melhor a gente desencanar de tudo, mãe.

MÃE. Eu aluguei o clube. Você está falando da chuva?

FILHA. Com chuva ninguém vai aparecer, mãe.

MÃE. O pai está cansado. A filha está cansada. A mãe está cansada.

FILHA. A filha desliga o som.

MÃE. Você não pode fazer isso, sem música não tem festa! Você pode buscar o seu
irmão. Ele estava na banheira. Terminando o seu banho. Ele já deve estar trocado. Vai ser
uma boa festa.

FILHA. O pai disse que não vem nem no final, mãe.

MÃE. Se ele não aparecer dessa vez, eu peço o divórcio.

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FILHA. Ele fica o dia todo, fumando em frente a TV. Ele assiste desenho animado, mãe.

MÃE. Ninguém mandou se aposentar tão cedo.

FILHA. A senhora não tem pena dele?

MÃE. No dia em que seu irmão nasceu, eu vi o rosto do seu pai, do meu lado. Não
esboçava nenhum tipo de animação, pra ele a gente devia ter parado em você. Seu irmão
foi crescendo, o seu pai se afastando, hoje sair pela porta é um sacrifício. Se ele não quer,
que fique sozinho. Daqui a pouco, ele cria raízes no sofá.

FILHA. A culpa não é dele, mãe.

MÃE. E quem está falando de culpa aqui? Eu nem acredito nisso.

FILHA. A senhora, mãe. A senhora sempre fala sobre culpa, coloca a culpa em tudo, mãe.

MÃE. Você fica na porta, você pode colocar os presentes dentro da caixa que eu deixei
na portaria. Abrimos quando ele chegar, antes dos parabéns e antes de cortar o bolo. Ou
melhor, depois?

FILHA. Ele não vai vir, mãe.

Sons de derrapada. Goteiras aumentam sobre a mesa e o bolo.

MÃE. O que você acha que o seu pai ganha com essa posição?

FILHA. Ele não está nessa, mãe.

MÃE. A de sempre estar ausente, a de nunca me ajudar nem nada. A de não demonstrar
qualquer tipo de afeto com o seu irmão. Seu irmão faz doze anos, hoje. Ele precisa da
presença do pai. Não quero que ele cresça tendo apenas a minha opinião como a certa.
Não quero que ele cresça debaixo da minha asa. Mas, com você é diferente. Sempre foi.
Com você por perto, seu pai até ameaça abaixar o volume da televisão, a mudar de canal,
a parar de fumar na sala. O seu irmão tem rinite e isso acaba com ele. Com o pulmão dele.
Acho que isso tem a ver com o fato dele não saber nadar. E eu já levei o seu irmão ao
médico, vários médicos um atrás do outro. Todos eles dizendo, que ele é um menino
normal. Que ele apenas tem medo demais. Medo demais, por quê? Seu irmão é homem,
vai ser um bom homem, ele é só distraído e na distração ele acaba sendo atropelado pelas
circunstâncias. Ele não entende muito quando eu chamo ele pra jantar, mas na nossa casa,
isso é o mais comum. Ninguém senta na mesa, pra jantar, na hora certa. E eu fico lá,
sempre esperando. Quieta e calma. Seu irmão é um pouco alheio as coisas da casa, mas
isso é a idade. Ele não era assim, tudo bem, quando ele tinha quatro anos as coisas
começaram a ter um novo sentido. Ele precisa de um novo sentido, se ele gosta de ver
campeonatos de natação apenas pela televisão que culpa ele tem? Eu o ensinei a respirar,
mas ele sempre insiste em manter a boca aberta, respirar com a boca aberta, isso só vai
fazer com que os dentes dele fiquem tortos. E filho meu não tem dente torto, não tem

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cárie, não usa roupa amarrotada e não fala comigo em voz
alta. Mas hoje é o dia dele, não quero tomar o dia dele pra mim e ficar falando... falando...
falando... Eu resolvi fazer a festa no clube porque ele pediu, ele precisa aprender a nadar.
Ele precisa aprender a chegar na hora certa na mesa, ele precisa aprender a não brincar de
esconde-esconde na garagem, embaixo do carro.

FILHA. A culpa não é sua, mãe.

A filha tapa a boca.

FILHA. A filha não devia ter dito isso.

A mãe sen ta -se próxima ao bolo. As goteiras aumentam. A filha começa a encher balões
com a boca.

FILHA. Eu tentei falar com o pai, mãe. Eu tentei falar com ele que, pra senhora, isso aqui
é importante, mãe. Mas ele, mãe, ele não quis me ouvir dessa vez, mãe. Ele disse que a
senhora sempre faz isso, mãe. É como se a gente alimentasse essa situação, mãe. E isso,
disse o pai, isso não se faz com alguém que está em luto, mãe.

MÃE. A mãe ameaça um ataque. A mãe não consegue respirar.

O celular da filha toca novamente. A filha se despe. Filha e mãe de maiô.

FILHA. Se eu der um mergulho, a senhora vai ficar chateada, mãe?

MÃE. É melhor esperar todo mundo chegar.

FILHA. E se ninguém vier, mãe?

MÃE. A mãe sente uma pontada no útero. A filha sente uma pontada na cabeça. A mãe
ajeita o bolo na mesa, a filha estoura os balões coloridos. O filho está atrasado, o filho
não vai vir. O pai, em casa, muda incessantemente de canal. As vizinhas ainda estão no
telefone. O celular da filha para de tocar.

A filha e stá em posição de mergulho. Ela escorrega do nada, cai e machuca a testa.
Sangra e ninguém percebe.

FILHA. Os meus amigos, eles estão rindo de mim, mãe.

MÃE. Essa sua turma não era muito boa, não pra você. Mas se olhar bem você é como o
seu pai, fica bem sozinha. Vai sobreviver, é uma coisa que acontece. Mude de amigos,
você já tem idade o suficiente pra distinguir o que é bom e o que é ruim.

FILHA. Você convidou as vizinhas, mãe?

MÃE. Todos os anos, elas nunca aparecem. Fazem desfeita. Inveja da nossa casa, talvez?
Da nossa família?

FILHA. Elas ainda falam no telefone, mãe.

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MÃE. Elas ficam o dia todo na janela, precisam cuidar melhor dos filhos delas, eles ficam
na rua o dia todo, voltam pra casa, como cães, apenas pra comer. Se elas saíssem das suas
janelas e de seus telefones, o mundo, a nossa rua seria um lugar melhor pra se viver. Pra
se viver!

FILHA. A filha dá um mergulho. A mãe tapa os olhos.

MÃE. É pra esperar os convidados. Você nunca me obedece, se fosse o seu pai.

FILHA. Meu irmão não vai vir, mãe.

MÃE. É melhor você ir pegar seu irmão, porque se depender do seu pai.

FILHA. Ele não vai vir, mãe. É sempre assim, todos os anos, desde o aniversário de cinco
anos, ele nunca aparece.

MÃE. Olha na garagem, dá uma boa olhada, embaixo do carro.

FILHA. Ele sempre esteve lá, mãe. Não entendo o motivo pra tanta comemoração, mãe.

MÃE. A mãe não consegue respirar direito. A Filha respira fundo.

O celular da filha toca, outra vez. A mesa se parte ao meio. Deixando cair o bolo.

MÃE. É o que eu sempre digo: Ele precisa parar de sentir medo de água. Não faz o menor
sentido. Ele não vai mais se afogar.

FILHA. O pai, mãe. O pai no telefone, mãe.

A chuva e as goteiras, tudo cessa. Escuridão.

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Na escuridão.

VOZ DO PAI

Nem dá pra saber se aconteceu mesmo o que lembramos. É assim. O que acontece é que
você traga e segura por muito tempo, muito tempo mesmo. Como se estivesse embaixo
d’água ou algo parecido. Algo assim. Até que seus pulmões quase arrebentem e aí quando
você estiver soltando, quase soltando aquela fumaça doce, eu vou te apertar na cintura
com força mesmo como quando você é criança e está fazendo aquela brincando de
rodopiar, até ficar tonta e cair e desmaiar, só que aí por causa do oxigênio a falta dele
você vai precisar da minha ajuda. Não conte pra sua mãe. Nem tente contar. Ela nunca
vai atender. Ela nunca entende nada. Ela não vai entender como um pai pode amar a filha
dessa forma, a ponto de ensiná-la a fumar. Sim, eu vou embora. Mas nem por isso você
tem que começar a berrar. Essa é nossa casa. Senta aí, na mesa e a gente pode conversar
com calma. Eu vou me mudar, nem é tão longe. Ter duas casas, na sua idade, pode ser
divertido. Eu podei a árvore, essa era a minha vontade, desde quando eu te colocava
embaixo dela, pra gente ver o céu, eu cuidava de você, eu merecia muito mais, a sua mãe,
sabe, sempre soube, o que você vai fazer diante isso? Ir embora, não é a solução, nunca
foi. Eu fico de frente a TV, eu sei que eu não sou um bom pai, eu sei que eu não entendo
muito bem o que motivou o acidente, a sua mãe, ela sempre dirigiu muito bem, nesse dia,
a culpa não foi dela. De quem é a culpa, então?

Pássaros cantam alegremente!

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