Você está na página 1de 17

clóvis gruner

luiz carlos ribeiro


organizadores

Utopias e
experiências
operárias
ecos da greve de 1917

São Paulo
2019
Editora Intermeios
Rua Cunha Gago, 420 / casa 1 – Pinheiros
CEP 05421-001 – São Paulo – SP – Brasil
Fones: [11] 2365-0744 – 94898-0000 (Tim) – 99337-6186 (Claro)
www.intermeioscultural.com.br

UTOPIAS E EXPERIÊNCIAS OPERÁRIAS: ECOS DA GREVE DE 1917

© Clóvis Gruner | Luiz Carlos Ribeiro

1ª edição: maio de 2019



Editoração eletrônica, produção Intermeios – Casa de Artes e Livros
Capa Lívia Consentino Lopes Pereir
Revisão Jacob Lebensztayn

CONSELHO EDITORIAL
Vincent M. Colapietro (Penn State University)
Daniel Ferrer (ITEM/CNRS)
Lucrécia D’Alessio Ferrara (PUCSP)
Jerusa Pires Ferreira (PUCSP)
Amálio Pinheiro (PUCSP)
Josette Monzani (UFSCar)
Rosemeire Aparecida Scopinho (UFSCar)
Ilana Wainer (USP)
Walter Fagundes Morales (UESC/NEPAB)
Izabel Ramos de Abreu Kisil
Jacqueline Ramos (UFS)
Celso Cruz (UFS) – in memoriam
Alessandra Paola Caramori (UFBA)
Claudia Dornbusch (USP)
Barbara Arisi (Unila)
Nikita Paula (Ancine)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

G891     Gruner, Clóvis, Org.; Ribeiro, Luiz Carlos, Org.


   Utopias e experiências operárias: ecos da greve de 1917 / Organização
de Clóvis Gruner e Luiz Carlos Ribeiro. – São Paulo: Intermeios: Curitiba:
UFPR-PPGHIS, 2019.
  
   194 p. ; 16 x 23 cm.

  ISBN 978-85-8499-155-6

   1. Sociologia. 2. Sociologia Urbana. 3. Sindicalismo. 4. Movimento


Operário. 5. Greve. 6. Greve Geral. 7. Greve de 1917. 8. Anarquismo. 9.
História do Brasil. I. Título. II. Ecos da greve de 1917. III. Greves, resistências
e utopias. IV. Greves. V. Experiências. VI. Utopias. VII. Gruner, Clóvis,
Organizador. VIII. Ribeiro, Luiz Carlos, Organizador. IX. Lopreato, Christina
da Silva Roquette. X. Boschilia, Roseli. XI. Mendonça, Joseli Maria Nunes.
XII. Fabris, Pamela Beltramin. XIII. Arend, Silvia Maria Fávero. XIV. Ferrer,
Christian. XV. Avelino, Nildo. XVI. Ojeda, Jorge Pavez. XVI. Intermeios –
Casa de Artes e Livros.
CDU  331
CDD 322 
Catalogação elaborada por Regina Simão Paulino – CRB 6/1154
Um snob anarquista:
o maximalismo libertário
de Lima Barreto

Clóvis Gruner
Universidade Federal do Paraná

Eu não me canso nunca de protestar.


Minha vida há de ser um protesto eterno contra todas as injustiças.
Lima Barreto

É conhecida entre seus leitores a opção de Lima Barreto pelo que definiu
como uma literatura militante. Para o escritor, quanto mais sinceramente voltada
aos problemas do seu tempo, mais digna a escrita literária. Influenciado, entre
outros, pelo crítico conservador francês Ferdinand Brunetière,1 para Lima
Barreto “a literatura [...] tem por fim interessar, pela virtude da forma, tudo o
que pertence ao destino de todos nós; e a solidariedade humana, mais do que
nenhuma outra coisa, interessa o destino da humanidade”.2 A militância faria
ainda mais sentido em um país como o Brasil, cujo presente e futuro mereceriam,
da pena de seus literatos, mais que o elogio vazio a “cavalheiros de fidalguia
suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado”: “[...] devemos

1. Em sua obra mais conhecida, “L’évolution des genres dans l’histoire de la littérature”,
organizada a partir da transcrição das aulas na École Normale Supérieure por um de seus
alunos, Brunetière defende a aplicação, ao estudo da literatura, de alguns dos preceitos do
positivismo de Comte e do evolucionismo de Darwin; seu projeto consistia, grosso modo,
em dar à história da literatura francesa as bases objetivas para o estudo de sua evolução.
Lima tinha em sua biblioteca pessoal, a “Limana”, algumas obras de Brunetière; “L’évolution
des genres” não é uma delas, mas é bastante provável que o escritor a tenha lido. É possível
também que Lima o conhecesse a partir de sua colaboração com a “Revue des Deux Mondes”,
periódico literário de perfil conservador, do qual Brunetière foi redator-chefe e que tinha
Lima Barreto entre seus leitores brasileiros. Cf.: BRUNETIÈRE, Ferdinand. L’évolution des
genres dans l’histoire de la littérature. Paris: Librairie Hachette, 1914 [1892].
2. BARRETO, Lima. Literatura militante. In: Impressões de leitura (Obras de Lima Barreto,
vol. XIII). São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 73-74.
158 utopias e experiências operárias

mostrar nas nossas obras que um negro, um índio, um português ou um italiano


se podem entender e se podem amar, no interêsse comum de todos nós”.3
Não pretendo retomar uma discussão antiga, embora ainda pertinente,
acerca dos aspectos autobiográficos que, de distintas maneiras, afetaram a
literatura de Lima Barreto, e explicam parcialmente suas críticas e opções.4
Mas é necessário, para que melhor se entendam suas razões, situar espacial
e temporalmente a arquitetura de sua obra, erigida sob o ritmo das mudanças
ocorridas no Brasil durante a Primeira República.
As duas décadas que antecedem a proclamação da República são, por
assim dizer, de “preparação” para o advento das mudanças que viriam a ser
implementadas, muitas delas à força, nas décadas subsequentes. Segundo
Herschmann e Pereira, é ainda no período após 1870 que “assistimos ao
desenvolvimento de várias estratégias de construção de um novo ordenamento
político-cultural nacional, de uma República capaz de romper com o esquema das
oligarquias regionais, consagrando assim, definitivamente, a emergência de uma
sociedade urbano-industrial”.5 A abolição da escravidão, um ano antes do ocaso
da monarquia, é um acontecimento emblemático desse processo. Com o fim do
regime escravo, é preciso revestir o trabalho de um caráter positivo e criar nos
“homens livres” a noção de que, por ele, se alcançariam a dignidade, a honra e
a ascensão social. Associada à ideia de trabalho estão as noções positivistas de
“ordem” e “progresso” que, alçadas à condição de lema republicano, sintetizam
o desejo, entre as nem tão novas elites, de elevar o Brasil à condição de país
civilizado e moderno.
À construção desse projeto civilizador correspondem duas esferas que,
embora conceitualmente distintas, são complementares e correspondentes.
Primeiro, tratava-se da “modernização” das cidades brasileiras, a começar pela
capital, investindo em mudanças significativas no espaço público. Incluem-se
aí as reformas urbanas, tais como a patrocinada por Pereira Passos; um melhor
aparelhamento policial, tanto humano quanto tecnológico; e políticas mais
consequentes de higiene pública, ainda que delas resultassem tragédias urbanas
e humanas, como a Revolta da Vacina. A essas políticas modernizadoras,

3. BARRETO, Lima. Obra citada, p. 73.


4. Além de artigos, teses e livros que se debruçam sobre aspectos mais específicos de sua
trajetória, há duas excelentes biografias de Lima Barreto disponíveis aos leitores interessados:
BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1964; SCHWARCZ, Lilia. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia
das Letras, 2017. Há reedições recentes da primeira.
5. HERSCHMANN, Micael M.; PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O imaginário moderno
no Brasil. In.: HERSCHMANN, Micael M.; PEREIRA, Carlos Alberto Messeder (org.).
A invenção do Brasil moderno: medicina, educação e engenharia nos anos 20-30. Rio de
Janeiro: Rocco, 1994, p. 12.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 159

corresponde um investimento na constituição de novos costumes e sensibilidades,


que compõem o quadro do que chamaria aqui, assumindo o risco de uma definição
por demais precária, de “modernidade”. O imaginário moderno no Brasil é tecido
na contextura dessas ações que reformam, ou pretendiam reformar, os mundos
material e sensível – e eu insisto na importância de pensar a “modernização”
e a “modernidade” não como fenômenos excludentes, mas complementares.
Entre outras características – o apelo à ciência, aos discursos raciais e a
um modelo europeu de progresso, por exemplo – o processo modernizador aqui
implantado tem como traço fundamental o patrocínio estatal, a centralização
política e administrativa e um favoritismo que reforça o caráter excludente do
novo regime. No Brasil, a República, que deveria representar uma conquista
democrática, afasta as classes populares da participação política, perpetuando a
segmentação e o paternalismo imperiais, do qual é herdeira. Em uma democracia
que exclui ao invés de incluir, a “cidadania” e o seu exercício são, não raros,
tratados como problema de polícia, e não de política. É principalmente ao Estado
quem compete conceder e distribuir direitos; o que significa também que cabe
principalmente a ele a prerrogativa de decidir a quem e em que condições tais
e quais direitos serão conferidos – daí o neologismo estadania,6 cunhado por
José Murilo de Carvalho em texto hoje referência nos estudos sobre a Primeira
República.
Essas contradições, por outro lado, não são percebidas de pronto por parte
dos intelectuais coevos. Entre outras coisas, porque o discurso que confere ao
novo regime um verniz de modernidade civilizatória harmoniza-se com as
aspirações cosmopolitas de alguns dos homens de letras do período, e com a
necessidade de “reformar”, “civilizar”, “regenerar” a sociedade e o país. Mas à
medida que a República recrudesce seu viés autoritário, fincando mais e mais os
pés em uma ditadura de feição militar, e se consolida alijando de seu interior a
participação intelectual, o entusiasmo inicial começa a arrefecer.7 Abortado o
sonho, parte da produção literária do período terá como tema o conflito advindo
com o desencanto e a perplexidade causados pelas fissuras e descontinuidades
do projeto republicano e modernizador.
A frustração com a República, se ganha ares de ressentimento entre
intelectuais que foram republicanos de primeira hora e a defenderam desde
antes de sua proclamação, surge de modo algo diferente na literatura anarquista
do período. Parte de uma vida cultural pulsante e diversificada, a produção

6. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi.
São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 42-65. O uso da expressão aparece na página
50.
7. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: Tensões sociais e criação cultural na
Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999, pp. 78-118.
160 utopias e experiências operárias

literária ácrata apareceu em meios também distintos. Há crônicas, contos,


novelas e romances cuja circulação não se limitava à imprensa libertária; são
vários os exemplos de escritores e livros publicados, alguns por prestigiosas
casas editoras, fazendo da criação ficcional uma modalidade a mais na difusão
do ideal e das ideias libertárias no Brasil, uma “literatura útil”, como a ela se
referiu o escritor anarquista Curvelo de Mendonça em resposta à enquete do
cronista João do Rio.8
A caracterização aqui proposta é obviamente bastante esquemática, e por
isso deixa de lado nuances que, por razões de espaço, não pretendo explorar.
Interessa-me enfatizar o caráter tenso dessas obras, independente da sua filiação.
Tensão que nasce, principalmente, das metamorfoses que as alimentam: a
instauração da República não mudou apenas o regime político; assim como a
virada do oitocentos para o novecentos não alterou apenas o calendário. Novas
percepções e representações de espaço e tempo são forjadas, quase sempre
de forma dramática, no interior daquelas transformações. Trata-se de uma
“literatura de crise” que tenta apreender, ainda que por caminhos contraditórios
– utópicos ali, distópicos acolá; às vezes românticos, noutros messiânicos
– as “temporalidades em trânsito”, no dizer de Foot Hardman, que parecem
caracterizar períodos de rupturas mais ou menos intensas.9

* * *

No torvelinho literário das primeiras décadas do século XX, a obra de Lima


Barreto situa-se em uma espécie de “não lugar”, se tomarmos lugar a partir
da acepção que lhe confere Michel de Certeau: “configuração instantânea de
posições”, ele implica sempre fixidez e estabilidade, não apenas territorial, mas
identitária.10 E se não falta à literatura de Lima coerência, nem por isso esta
pode ser confundida com alguma coisa que possamos definir como “estável”.

  8. Um dos principais estudos sobre a cultura anarquista na Primeira República segue sendo o
livro de Francisco Foot Hardman, publicado originalmente nos anos de 1980: HARDMAN,
Francisco Foot. Nem pátria, nem patrão! Memória operária, cultura e literatura no Brasil.
São Paulo: Unesp, 2002. A respeito do tema, ver também: HARDMAN, Francisco Foot.
Palavra de ouro, cidade de palha: literatura anarquista. In: SCHWARZ, Roberto (org.). Os
pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983, pp. 79-87; LUIZETTO, Flávio.
O recurso da ficção: um capítulo da história do anarquismo no Brasil. In: PRADO, Antonio
Arnoni (org.). Libertários no Brasil – Memória, lutas, cultura. São Paulo: Brasiliense, 1986,
pp. 131-149. A passagem de Curvelo de Mendonça está em: RIO, João do. O momento
literário. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1908, pp. 151-160.
  9. HARDMAN, Francisco Foot. Antigos modernistas. In: NOVAES, Adauto (org.). Tempo e
história. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, pp. 289-305.
10. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994,
p. 201.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 161

Talvez fosse melhor falar dela como de uma “narratividade delinquente”, usando
de novo os termos de Certeau. Narrativa que se desloca daqui para lá, que não
se permite localizar em algum lugar assente, ela nem por isso é “marginal”,
mas produzida nos interstícios daqueles mesmos códigos e discursos que, por
intermédio de sua existência errante, abalam e desestabilizam. Em Lima tudo,
da linguagem ao conteúdo que elas emolduram, é político.11 Seria demasiado
cômodo limitar-me a apontar o teor antirrepublicano da obra de Lima Barreto
como testemunho do caráter político de sua literatura. Excertos de uma crítica
ácida e por vezes ressentida à ditadura fardada e bacharelesca não faltam, em
seus romances, contos e crônicas.
Mas, diferente de um Euclides da Cunha, por exemplo, ele nunca foi um
republicano de primeira hora a quem o regime, com sua violência, frustrou as
expectativas. Se aquele precisou presenciar a barbárie contra Canudos para
desfazer a convicção de que se dirigia ao sertão baiano com a missão histórica
de cobrir a “nossa Vendéa”, Lima nunca alimentou ilusões quanto aos meios e
aos fins da República. Em artigo publicado pouco mais de uma década depois
da Revolta da Vacina, o escritor enfatiza sua ojeriza: “Sempre fui contra a
República. [...] Sem ser monarquista, não amo a república”. Entre o tom crítico e
o testemunho melancólico, Lima acusa o regime de ter dissolvido o “sentimento
de solidariedade entre os homens”: “Eu, há mais de vinte anos, vi a implantação
do regímen. Vi-a com desgosto e creio que tive razão”.12
Em parte, é essa repulsa que sustenta a sua simpatia pelas ideias e pelo
movimento anarquistas. Mas, de novo, é preciso evitar explicações demasiado
fáceis. Se, por um lado, Lima os toma como referência possível de crítica e
recusa à ordem republicana e sua modernidade conservadora e excludente, de
outro manteve com eles uma relação baseada numa “proximidade distante”.
Trocando em miúdos, o escritor se aproxima do anarquismo e dos anarquistas
pela crítica à burguesia, ao Estado que a representa e às desigualdades e injustiças
que ambos sustentam e legitimam. Mas ao mesmo tempo, sua independência
frente ao movimento confere a ele uma liberdade de fazer das ideias libertárias
um uso que está fora dos limites mais estritos da militância. Em Lima Barreto,
a opção pelo anarquismo é, antes, uma escolha ética e moral; qualidade, aliás,
já observada há muitos anos por Antonio Arnoni Prado, que vê na sua defesa
das teses libertárias um “sentimento reformista de fundo moral”.13 Mas embora

11. Deleuze e Guattari chamam de “menor” essa literatura que, como a de Lima, “faz com
que todas as questões individuais estejam imediatamente ligadas à política”. DELEUZE,
Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka, para uma literatura menor. Lisboa: Assírio & Alvim,
2003, p. 39.
12. BARRETO, Lima. O momento. In: RESENDE, Beatriz; VALENÇA, Rachel (orgs.). Toda
crônica: Lima Barreto. Rio de Janeiro: Agir, 2004, pp. 174.
13. PRADO, Antonio Arnoni. Lima Barreto: o crítico e a crise. Rio de Janeiro: Cátedra;
162 utopias e experiências operárias

a leitura da obra limiana por Arnoni Prado seja, além de seminal, passagem
obrigatória para quem estuda o escritor carioca, tenho algumas reservas em
relação ao modo como a relação de Lima com o anarquismo é apresentada.
Basicamente, discordo da assertiva que faz do anarquismo de Lima
mero purgativo às dores e sofrimentos humanos, um “itinerário da ruptura
que permanece no enunciado” e que, ao não se constituir como projeto de
ação e intervenção políticas, configura-se, ainda que inconscientemente,
mera “concessão individualista à desigualdade, purgativo e moralmente
conformista”, fruto da marginalização e do ressentimento e que aponta para
a prostração resignada.14 A essa leitura, gostaria de propor outra, que não
rejeita o ressentimento como componente do seu discurso libertário; mas o
toma como um ingrediente de onde ele extrai o sumo de sua inquietação e de
sua revolta: “mulato” em um país que despreza a herança e a cultura negras;
funcionário público em um Estado que, para além da hierarquia e da burocracia,
é movido a apadrinhamentos políticos os mais diversos; escritor que aspira ao
reconhecimento em uma “República das letras” que alça à fama alguns poucos,
condenando outros tantos ao limbo e ao esquecimento.
A condição de excluído nem por isso conduz Lima Barreto a uma posição
resignada frente ao mundo. Recusando-se a representar o papel de vítima, ele
faz da “sua mágoa uma investida, não um isolamento”, no dizer de Antonio
Candido.15 Ao escritor e à literatura compete, então, uma visada crítica que tem
no presente seu objeto privilegiado: é preciso denunciar o mito e a metáfora
em que transformaram o Brasil os mandatários da República; mito e metáfora
que, por detrás do ufanismo nacionalista, encobrem a desigualdade, a injustiça,
a arrogância, o racismo – a violência, enfim, a física e a simbólica, exercidas
pelo Estado.
É na recusa a essa violência que podemos encontrar a matriz do anarquismo
de Lima Barreto. Suas investidas contra o Estado e a burguesia brotam em
diferentes discursos: na sátira alegórica de “Os Bruzundangas”; na denúncia
do autoritarismo, da intolerância e do racismo presente em contos como “O
único assassinato de Cazuza”, “À sombra do Romariz” ou “O pecado”; e
ainda na fina ironia à burocracia estatal por intermédio de personagens como
Xisto Beldroegas, de Vida e morte M. J. Gonzaga de Sá, bacharel em direito e
funcionário da Secretaria de Cultos, atacado certa vez de uma “pequena crise

Brasília: INL, 1976, p. 86.


14. PRADO, Antonio Arnoni. Obra citada, principalmente pp. 86-89 e 102-103.
15. CANDIDO, Antonio. Os olhos, a barca e o espelho. In: A educação pela noite e outros
ensaios. São Paulo: Ática, 2003, pp. 39-50. A esta leitura, acrescentaria a de Alfredo Bosi;
penso que ambas convergem para interpretações mais ou menos comuns. Cf.: BOSI, Alfredo.
Figuras do eu nas recordações de Isaías Caminha. In: Literatura e resistência. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002, pp. 186-208.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 163

de nervos, porque, por mais papéis que consultasse no arquivo, não havia meio
de encontrar uma disposição que fixasse o número de setas que atravessam a
imagem de São Sebastião”.16
Para os fins deste texto, no entanto, utilizo algumas crônicas e também
pequenas passagens de seu diário. Nas próximas páginas, mais que uma
demonstração exaustiva da relação de Lima Barreto com o universo ácrata,
me proponho apresentar algumas facetas dessa aproximação. Interessa-me,
especificamente, discutir como as escolhas libertárias de Lima estão associadas
à sua militância intelectual e seu profundo comprometimento com o tempo
presente. Mas, principalmente, e em consonância com a ideia que anima esta
coletânea, a intenção é mostrar como, a partir desse compromisso, de sua pena
brotaram algumas das mais contundentes acusações contra o Estado brasileiro,
certamente, mas também intensas manifestações de contrariedade às injustiças,
bem como a irrestrita solidariedade para com os indivíduos e grupos fragilizados.

Uma militância literária

Em seu artigo de estreia como colaborador do jornal A voz do trabalhador,


Lima Barreto faz uma defesa da presença anarquista e dos anarquistas no Brasil,
polemizando com um cronista conservador que, dias antes, defendeu e justificou
o anarquismo no continente europeu, “civilização brilhante exteriormente,
mas internamente carunchosa”, mas criticava a militância libertária no Brasil,
civilização ainda jovem e de características distintas do “Velho Mundo”.17 Para o
escritor carioca, e distintamente de seu coetâneo, “as condições [...] da civilização
do Brasil, quer econômicas, quer as morais, quer as de território, justificam
que haja quem desinteressadamente, brasileiro ou não, seja anarquista”. E
conclui: “Os anarquistas falam da humanidade para a humanidade, do gênero
humano para o gênero humano, e não em nome de pequenas competências de
personalidades políticas”.
O acercamento já vinha de algum tempo. Embora Francisco de Assis Barbosa
trate do assunto bastante ligeiramente, na mais recente biografia do escritor Lilia
Schwarcz reconstrói uma espécie de genealogia da relação entre Lima e os
anarquistas cariocas do início do século XX.18 Contemporâneo e relativamente
próximo de nomes como José Oiticica e Fábio Luz, foi principalmente por
intermédio deles que se familiarizou com as ideias e o movimento, ainda nos

16. BARRETO, Lima. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Obras de Lima Barreto, vol. IV).
São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 143.
17. Publicado sob o pseudônimo de “Isaías Caminha” em 15 de maio de 1913. BARRETO,
Lima. Palavras de um snob anarquista. In: Feiras e mafuás (Obras de Lima Barreto, vol.
X). São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 213-218.
18. SCHWARCZ, Lilia. Obra citada, pp. 344-369.
164 utopias e experiências operárias

primeiros anos do 1900. Em 1907, junto com outros militantes e intelectuais


anarquistas, fundou a Floreal;19 de inclinações libertárias, a revista publicou,
já em seu segundo número, o artigo “Spencerismo e anarchia”, de Ribeiro de
Almeida, por exemplo.
Além disso, a solidariedade com os subalternizados e o exame sempre
crítico da violência estatal são uma constante na produção limiana, e colaboraram
para a afinidade entre ele e o anarquismo, e seu desencanto com a República.
Em Lima, não se trata de uma crítica ao Estado, simplesmente, mas de um
desmascaramento dos processos de legitimação de uma modernidade em cujo
interior persistem o conservadorismo e a tradição política autoritária, excludente
e ostentatória preservados e, sob certo ponto de vista, acentuados pela República.
O recrudescimento da repressão republicana contra organizações e sindicatos
de trabalhadores e a eclosão da Grande Guerra, em 1914, contribuíram para
ampliar sua inserção nos círculos ácratas do Rio de Janeiro. Influenciado por
obras e autores anarquistas, especialmente Kropotkin, mencionado em cartas e
crônicas e cujas ideias o influenciaram visivelmente, com os anos sua orientação
libertária se tornou mais evidente.20
Mas a adesão de Lima Barreto, no entanto, nunca avançou para além
da militância literária, por assim dizer; nem tampouco resultou em um
alinhamento teórico com alguma das tendências do período. Enquanto muitos
de seus companheiros estenderam seu engajamento intelectual à ação militante,
alargando a dimensão teórica em uma prática revolucionária, Lima permaneceu
nas trincheiras das letras; a literatura era a sua práxis.21 Tampouco sua simpatia
pelo anarquismo o impediu de manifestar seu entusiasmo com a Revolução
Bolchevique e seus principais líderes, Lênin e Trotski: ele encerra um breve artigo

19. Também escritores, Ribeiro Filho, Elísio de Carvalho e Curvelo de Mendonça fundaram a
revista junto com Lima. De vida efêmera, o periódico, especializado em literatura, circulou
poucos meses e apenas quatro números. Lima Barreto era seu diretor, e foi nas páginas da
Floreal que publicou, como folhetim, seu Recordações do escrivão Isaías Caminha, cuja
primeira edição como livro aparece dois anos depois.
20. Mais uma vez, a “Limana” serve como uma referência possível para aferir a apropriação
das ideias anarquistas por Lima Barreto. Além de algumas obras de vulgarização, no
inventário de sua biblioteca consta uma obra de Kropotkin, “Entraide”. O pensador russo
é mencionado também em artigos e na correspondência de Lima.
21. Sobre isso, é interessante a afirmação de Francisco Assis Barbosa, seu primeiro biógrafo:
“Lima Barreto nunca foi, nem seria nunca, um revolucionário militante. Mas é fora de dúvida
que sempre alimentou ideias, princípios e sentimentos anarquistas. Era, como se usa dizer,
um simpatizante”. Cf.: BARBOSA, Francisco de Assis. Obra citada, p. 224. A apreciação de
Barbosa é corroborada por Astrojildo Pereira, segundo o qual “sua formação sofria do mal
muito comum do ecletismo, uma certa mistura de materialismo positivista, de liberalismo
spenceriano, de anarquismo kropotkiniano e de outros ingredientes semelhantes”. Cf.:
PEREIRA, Astrojildo. Prefácio. In: BARRETO, Lima. Bagatelas (Obras de Lima Barreto,
vol. IX). São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 14.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 165

publicado no jornal A.B.C. cerca de um ano antes de sua morte, reiterando seu
desejo de “paz e anarquia”, e celebra, de modo sutil, a vitória dos bolcheviques
na guerra civil que se seguiu à revolução de outubro.22 Em “No ajuste de contas”,
de 1918, após atacar a burguesia e o Estado que, mancomunados, ocupam-se
em “tornar mais ricos, os ricos; e fazer mais pobres, os pobres”, confessa que as
“medidas radicais” que defende foram inspiradas pela revolução, exortando-a
ao final: “A face do mundo mudou. Ave Rússia!”.23
O caráter majoritariamente literário da militância de Lima pode ter
contribuído para a impressão de uma ruptura discursiva que não ultrapassou
as fronteiras do enunciado, engessada pela resignação e pelo ressentimento.
Se é verdade que a sua trajetória biográfica (a loucura do pai, as dificuldades
financeiras, o alcoolismo etc.) em certa medida contribuiu para sua recusa em
passar da escrita à prática militante, tomada aqui a “militância” em um sentido
bastante restrito – a participação mais ativa em alguma organização anarquista,
por exemplo –, também o é que, para ele, a própria escrita e sua circulação eram
uma forma de engajamento, de prática e militância.
A assertiva está presente no já mencionado “Literatura militante”, espécie
de “texto programático” que sintetiza muitas das preocupações e objetivos do
escritor em sua relação com a escrita literária. Sua presença constante na chamada
“imprensa nanica”, onde publicou a maioria de suas crônicas; o recurso a uma
linguagem simples e direta, que ambicionava acessível a um número maior de
leitores; sua sensibilidade aguçada à cultura e aos problemas das comunidades
suburbanas; sua solidariedade com os trabalhadores; sua rejeição ao “bovarismo”
literário; suas críticas às elites intelectuais, econômicas e políticas; a denúncia do
racismo e das muitas formas de violência do Estado; enfim, sua indignação e sua
revolta, tantas vezes plasmadas em seus textos, eram a sua forma de intervenção.
Nas palavras de Maria Cristina Machado, ele “[e]sperava, com a exposição
das deformações da realidade, conseguir mobilizar as pessoas em direção à
sua rejeição”.24 Em alguns momentos essa intenção aparece de maneira mais
contundente. A greve geral de 1917 e, no ano seguinte, a paralisação liderada
também pelos anarquistas no Rio de Janeiro são dois deles.

* * *

22. BARRETO, Lima. D’Annunzio e Lênine. In: Feiras e mafuás (Obras de Lima Barreto,
vol. X). São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 202-207.
23. BARRETO, Lima. No ajuste de contas. In: Bagatelas (Obras de Lima Barreto, vol. IX).
São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 88-96.
24. MACHADO, Maria Cristina Teixeira. Lima Barreto, um pensador social na Primeira
República. São Paulo/Goiânia: Edusp/Editora UFG, 2002, p. 80.
166 utopias e experiências operárias

No dia 05 de setembro de 1917, Lima Barreto anota em seu diário:

De há muito sabia que não podia beber cachaça. Ela me abala, combale,
abate todo o organismo, desde os intestinos até à enervação. Já tenho sofrido
muito com a teimosia de bebê-la. Preciso deixar inteiramente.
No dia 30 de agosto de 1917, eu ia para a cidade, quando me senti mal. Tinha
levado todo o mês a beber, sobretudo parati. Bebedeira sôbre bebedeira,
declarada ou não. Comendo pouco e dormindo sabe Deus como. Andei
porco, imundo.
Ia para cidade, quando me senti mal. Voltei para casa, muito a contragôsto,
pois o estado de meu pai, os seus incômodos, junto aos meus desregramentos,
tornam-me a estada em casa impossível. Voltei, porque não tinha outro
remédio.25

Ele já havia registrado, em uma entrada de 03 de junho do mesmo ano:


“Hoje, depois de ter levado quase todo o mês passado entregue à bebida, posso
escrever calmo”.26 É possível que o estado constante de “bebedeira sobre
bebedeira” tenha afastado Lima da redação dos diários, e explique também
a ausência, em suas páginas, de qualquer menção à greve geral que, durante
praticamente todo o mês de julho, paralisou algumas das principais cidades
brasileiras.27 A paralisação, no entanto, não lhe passaria despercebida.
Em setembro mesmo, no dia 15, publica nas páginas do jornal O Debate
uma longa crônica investindo contra as “patifarias comerciais e industriais”
responsáveis, com a cumplicidade do Estado, pela “crescente carestia dos gêneros
de primeira necessidade à nossa vida”: “A nossa república [...] se transformou
no domínio de um feroz sindicato de argentários cúpidos, com os quais só se
pode lutar com armas na mão”. Para Lima, “só com a violência os oprimidos
têm podido se libertar de uma minoria opressora, ávida e cínica”. Contra essa
minoria, “toda e qualquer violência [...] é justa e legítima”.28 A concessão à
violência vinda de alguém normalmente avesso a ela, é em grande medida uma

25. BARRETO, Lima. Diário íntimo (Obras de Lima Barreto, vol. XIV). São Paulo: Brasiliense,
1956, p. 193.
26. BARRETO, Lima. Obra citada, p. 191.
27. Lima era um observador atento do cotidiano e não raro usava o Diário para anotações e
impressões sobre eventos políticos diversos. Muitas delas serviam de matéria-prima para a
redação de artigos e crônicas publicadas na imprensa, ou apareciam em contos e passagens
de seus romances. Sobre isso ver, de minha autoria: GRUNER, Clóvis. De uma revolta a
outra: memória, história e ressentimento em Lima Barreto. ArtCultura, Uberlândia, v. 8,
n. 13, jul.-dez. 2006, pp. 85-95.
28. BARRETO, Lima. Sobre a carestia. In: Marginália (Obras de Lima Barreto, vol. XII). São
Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 191-194.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 167

resposta exasperada a um contexto atravessado por outras formas de truculência,


responsáveis pela opressão dos menos afortunados.
Naquele mesmo ano de 1917, não apenas a carestia e a repressão aos
grevistas atormentavam Lima, mas a entrada do Brasil na Grande Guerra,
anunciada no começo de junho. No mesmo dia 03 em que anota sua retomada
da escrita do Diário depois de quase todo um mês “entregue à bebida”, registra:
“Tudo o que é revoltante e grosseiro vai por baixo disso tudo, sob o pretexto
de pátria. É de causar horror, tanto mais que os fortes burgueses querem,
aproveitando o estado dos espíritos, matar o indivíduo em proveito do Estado,
que são eles”. A greve voltaria a ser tema em outras duas crônicas, publicadas
também em O Debate.29 Nelas, denuncia o governo que, aliado dos interesses
dos “plutocratas”, decide expulsar do país, lançando mão de estratagemas legais,
algumas das lideranças estrangeiras do movimento paredista: “A República,
mais que o antigo regímen, acentuou esse poder do dinheiro, sem freio moral
de espécie alguma; e nunca os argentários do Brasil se fingiram mais religiosos
do que agora e tiveram da Igreja mais apoio”.30

* * *

A greve liderada pelos anarquistas cariocas em novembro de 1918 também


encontraria Lima Barreto em uma situação precária. Desde julho daquele ano, o
escritor vinha requerendo, sem resultado, sua aposentadoria do cargo de amanuense
na Secretaria de Guerra. Com a saúde já bastante debilitada pelo alcoolismo, ele
se queixava seguidamente que as viagens diárias de trem do subúrbio de Todos
os Santos, onde morava, à secretaria o deixavam ainda mais alquebrado. Além
disso, depois de quinze anos exercendo uma função burocrática menor, se sentia
esgotado pela rotina monótona, que, entre outras coisas, limitava o tempo dedicado
à literatura. No começo daquele mês é internado com a clavícula quebrada no
Hospital Central do Exército, onde permanece até o começo de janeiro do ano
seguinte.31 Suas crônicas e as anotações no Diário sobre a greve serão escritas
durante seus dias de internamento, seu quarto transformado em trincheira.

29. BARRETO, Lima. São Paulo e os estrangeiros [I]; São Paulo e os estrangeiros [II]. In:
RESENDE, Beatriz; VALENÇA, Rachel (orgs.). Toda crônica: Lima Barreto. Rio de
Janeiro: Agir, 2004, pp. 288-294.
30. BARRETO, Lima. São Paulo e os estrangeiros [I]. Obra citada, p. 288. Sobre a repressão
aos anarquistas após a greve de 1917: ALVES, Paulo. A verdade da repressão: práticas
penais e outras estratégias na ordem republicana (1890-1921). São Paulo: Arte & Ciência/
Unip, 1997, pp. 55-61.
31. SCHWARCZ, Lilia. Obra citada, pp. 376-377. Uma breve correção: a crise alcóolica e
a internação em Ouro Fino, Minas Gerais, não ocorreram em 1918, como mencionado á
página 377, mas dois anos antes. A mesma informação aparece correta na p. 435.
168 utopias e experiências operárias

Um dos alvos de sua ira são os principais jornais da capital e, por extensão,
alguns de seus cronistas e editorialistas. Nos dias seguintes ao início do
movimento, alguns dos maiores periódicos do Rio mantiveram em relação à
greve, e mais especificamente aos seus líderes, uma postura bastante negativa.
Primeiro a anunciar o seu início sob o título “A agitação”, o jornal A Noite
noticiava, com destaque, as buscas policiais e a prisão do “professor Oiticica”.32
No dia seguinte, o Correio da Manhã chamava de “graves acontecimentos” o
movimento iniciado na tarde anterior, acusando como responsável um “complot
anarchista” desbaratado pela polícia.33 A cobertura segue a mesma tonalidade
no Jornal do Brasil;34 em editorial de 20 de novembro, dois dias depois da
deflagração do movimento, o mesmo jornal elogia a rápida e eficiente ação
policial, que frustrou os objetivos dos anarquistas, e conclama os operários a
manterem a “ordem acima de tudo”:

Infelizmente, há, entre nós, perniciosos grupos de insatisfeitos, para os quaes


não há governo que sirva, justiça que seja idonea, instituições dignas de apoio.
O que esses impacientes e irrequietos ambicionam é a propria ascensão ao
poder, pois se julgam depositários de todas as providenciaes inspirações
que poderão salvar o paiz por elles julgado irremediavelmente perdido.35

Para Lima, não há dúvidas de que a cobertura monocórdica da grande


imprensa espelha seu alinhamento com o governo e a polícia, o que vale
igualmente para seus articulistas. Em uma entrada sem data, ele registra no Diário
suas impressões acerca da linha editorial assumida pelos jornais naqueles dias:

O artigo do Amaral tem o mesmo plano que o do Miguel Melo; o do Antônio


Tôrres o mesmo que o daquele último; o do filho de Leão Veloso o mesmo
que o do Tôrres.
Parece que o plano foi ditado pelo chefe de polícia, devendo tocar nos
seguintes pontos:
a) acoimar de estrangeiros os anarquistas, e exploradores dos operários
brasileiros;
b) debochar os seus propósitos e inventar mesmo alguns bem repugnantes
e infames;
c) exaltar a doçura e o patriotismo do operário brasileiro;

32. “A agitação – A policia effectua buscas e faz prisões”. A Noite, 18 de novembro de 1918.
33. “Os graves acontecimentos da tarde de hontem”. Correio da Manhã, 19 de novembro de
1918.
34. “Grave movimento subversivo”. Jornal do Brasil, 19 de novembro de 1918.
35. “A ordem acima de tudo”. Jornal do Brasil, 20 de novembro de 1918.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 169

d) julgar que êles têm razão nas suas reivindicações; que a dinamite não deve
ser empregada, etc.; que devem esperar, pois a Câmara vai votar o Código
do Trabalho, etc., etc.
Seria melhor mandar o Celso Vieira redigir uma circular, em papel da
Chefatura de Polícia, e, mediante pagamento razoável, publicá-la em todos
os jornais.
Viver às claras.36

A anotação pode ser lida como um primeiro e breve esboço do longo artigo
publicado, no dia 30 de novembro, no jornal A.B.C. Intitulado “Da minha cela”,
o texto é um libelo acusatório: contra o chefe de polícia, Aurelino Leal, de
acordo com Lima guardião da “tradição do nosso Santo Oficio policial”, e suas
investidas contra a União Geral dos Trabalhadores; mas, principalmente, contra
a imprensa, seu “ódio ao maximalismo russo” e sua “sociologia de revistas”.37
Ambas as instituições – a polícia e a imprensa – servem uma

[...] burguesia cruel e sem coragem, que se embosca atrás de leis, feitas
sob a sua inspiração e como capitulação diante do poder do seu dinheiro;
essa burguesia vulpina que apela para a violência pelos seus órgãos mais
conspícuos, detestando o maximalismo moscovita, deseja implantar o
‘trepoffismo’, também moscovita, como razão de Estado; esse ódio – dizia
– não se deve aninhar no coração dos que têm meditado sôbre a marcha das
sociedades humanas. A teimosia dos burgueses só fará adiar a convulsão
que será então pior [...].38

* * *

Escritor profícuo, Lima usou a literatura como um meio de engajamento,


percebendo a si mesmo como um intelectual imbuído de uma missão
literária. Nele, a literatura está “destinada a contribuir para a compreensão
dos acontecimentos do presente e, porque não, do passado, a fim de ajudar
ao leitor a construir uma sociedade mais justa e igualitária”.39 Nas crônicas,

36. BARRETO, Lima. Diário íntimo (Obras de Lima Barreto, vol. XIV). São Paulo: Brasiliense,
1956, p. 202.
37. Embora seja razoável supor que a crítica de Lima se dirigisse a diferentes veículos,
talvez pelas limitações de acesso impostas pela internação, o escritor direciona sua ironia
principalmente ao editorial do jornal O Paiz, cf.: “A posição do operariado”. O Paiz, 22
de novembro de 1918.
38. BARRETO, Lima. Da minha cela. In: Bagatelas (Obras de Lima Barreto, vol. IX). São
Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 97-106. Grifos meus.
39. BOTELHO, Denilson. Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto.
170 utopias e experiências operárias

fontes privilegiadas deste texto, percebe-se claramente essa coerência entre o


projeto literário e as ideias políticas, perpassados ambos pela crítica ao poder e
a solidariedade para com os “excluídos” – solidariedade ética, porque ausentes
tanto o paternalismo de cunho populista, como a piedade de fundo cristão.40
Como resposta à violência do Estado e da burguesia, empenhados em
uma politização da estética que acredita ser a escrita literária um meio de
intervenção e transformação do presente, Lima Barreto se proclamará “inimigo
irreconciliável do capitalismo”,41 reivindicando no mínimo o máximo – daí o
seu “maximalismo”, que ele define como “a aspiração de realizar o máximo de
reformas possíveis dentro de uma sociedade”.42 Reformas que, certamente, não
se realizarão pacifica e harmoniosamente, porque pressupõem a destruição do
Estado e o aniquilamento de todos os privilégios concedidos à classe burguesa.
Influenciado tanto pelas ideias anarquistas como pela revolução bolchevique
e seus ecos no Brasil, presentes principalmente na imprensa operária, ele
compartilha com libertários e marxistas sua concepção de Estado: ele está a
serviço da burguesia, que domina e manipula o mecanismo estatal.
Podemos falar ainda de ressentimento? Em se tratando de Lima Barreto,
certamente sim. Mas ele é apenas um dos fundamentos a partir de onde ele
tece, com sensibilidade ímpar, não apenas uma crítica ao regime que o excluiu,
como cidadão e escritor, mas apreende e aponta, desde os seus alicerces, as
contradições do progresso e da modernidade. Em especial a atomização social
e a dissolução e consequente ausência de laços éticos e solidários; ausência
que autoriza e justifica a exclusão, a opressão e a violência: em face delas, “os
operários só podiam lutar associados”.43
Há pouco, disse que a obra de Lima Barreto situa-se em uma espécie de
“não lugar”: a engrenagem que a move é alguma coisa entre o sentimento íntimo
de um artista que viu frustrados seus sonhos e projetos, e a solidariedade política
e ideológica de um escritor consciente de que a palavra é um instrumento de
crítica e intervenção sobre a realidade de seu tempo. E é nas fissuras deste tempo,
o presente, que instaura seu olhar e discursos de homem revoltado. Para ele,
mais que um reino de felicidade a ser instalado no amanhã, “a vida do homem
e o progresso da humanidade pedem [...] sonho, pedem arte, pedem cultura,

Tese de doutorado em História. Unicamp, 2001, p. 72.


40. RESENDE, Beatriz. Lima Barreto: a opção pela Marginália. In.: SCHWARZ, Roberto
(org.). Os pobres na literatura. São Paulo: Brasiliense, 1983, pp. 73-78.
41. BARRETO, Lima. A tal história da aniagem. In: Vida urbana (Obras de Lima Barreto, vol.
XI). São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 178.
42. BARRETO, Lima. Sobre o maximalismo. In: Bagatelas (Obras de Lima Barreto, vol. IX).
São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 157-165.
43. BARRETO, Lima. A tal história da aniagem. Obra citada, p. 178.
clóvis gruner | luiz carlos ribeiro (orgs.) 171

[...] pedem amor, pedem felicidade”.44 Talvez, de suas trincheiras literárias,


Lima Barreto tenha vislumbrado, nas greves de 1917 e 1918, a possibilidade
de realização desse projeto.

44. BARRETO, Lima. Sobre o maximalismo, Obra citada, p. 164.