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Copyright © 2016 by Néstor Garcia Canclnk “Talo do origina rn espanol [Bl Mundo Entere com Lagar tao Ficha eatalogtfica elaborads pelo Departamento Téenieo do Sistema (Garcia Canela Néstor (© Mando Inti coma Lugar Estranho / Néstor Garcia Cane e- dugg de LaiesFostione Locotel- Sto Paulo: Ealtoa da Universidade {Sto Pasi 20, 176 pps stem. saan gr8 See srs ‘Polit cultral, Andis calor, 5.Globaliagio. ¢.ndseria da comunicao, Locosell, Laisa Fostinone. 1. Tula. Dinsitor em lingua portoguesarecerrades Edugp~ Editors da Universidade de Sto Paste Roa da Praga do Relogi sog-A, Clade Unversitiria 24s08-040~ Sto Paulo ~sP~ Brasil ivisto Comercial: Te (1) 309-4008 /sopt4iso sworweduspcombr = email: edusp@uape Printed fa Beil 26 Foi feito o depésito legs! Para Ana 5.0 MUNDO INTEIRO COMO. LUGARESTRANHO ‘Talvez ja tenham escutado a piada do pai cubano que pergunta para o filho o que ele quer ser quando crescer. O filho responde: “Bstrangeiro”. Essa resposta radical representa ho'e a sensacao de milhdes de exilados que migram para livrar-se de governos auto- ritarios ou cidadaos descontentes com sua sociedade: procuram outro lar e o alivio de nao ter nenhumn. Falemos de uma experiéncia diferente que esti se estendendo. Latino-americanos que refizeram a vida na Espanha, nos Estados ‘Unidos ou no México sentem agora que esto angustiados com 0 desemprego, os maus-tratos xenéfobos ow a violéncia, e também nao acham atraente voltar 4s suas nagdes de origem ou mudar seu desarraigamento de destino. “Jé nao ha lugar para onde ir” “Uma terceira experiéncia sobre a impossibiidade da estra- neidade se produz quando se vive a comunicagao nas redes. Na etapa ut6pica das industrias culturais, e mais ainda com a expan- sao global da internet, imaginou-se que as barreiras fronteirigas cairiam e todos pertenceriamos a uma comunidade mundial. Agueles que temiam se abismar nessa interconexao ilimitada, constante, podiam resistir a usar 0 telefone celu‘ar ou colocar 0 filtro de spam em suas caixas de e-mail. ~ Para aqueles que hoje tém mais de cinquerta anos, a estra- neidade é habitar um mundo de teclas e fcones. Por que vocé nao. conta como era sua apreensio diante da internet no comego? ~ Eu achei que podia superé-la quando fique! sabendo como Stuart Hall a encarava. Nao soube por ele, quando nés conhece- ‘mos naquele evento de Stirling, mas por um de seus amigos, tao intimo que estava entre os tinicos de aos quais Stuart tinha dado seu e-mail. Como essa restrigZo me pareceu exagerada, decidi que minha lista se estenderia a vinte e abri minha conta em uma ONG alternativa chamada Laneta. No grupo de meus interlocutores digitais, ndo havia ninguém da Cidade do México: se quisessem falar comigo, que me ligassem. Entendi que nao podia continuar 58 0 MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO pedindo a amigos de outros pafses que esperassem quinze dias para que a carta deles chegasse a minha casa e que chegasse mi- nha resposta. Os que tivessem urgéncia e nao tivessem essa conta podiam usar o fax. Nao tenho certeza se esse colquio de Stirling aconteceu em 1999 01.2000, mas vamos supor que tenha sido em 1999, para parecer que sio ideias do século pasado. A pressio dos internautas crescia, ¢ 08 viciados no papel niio podiamos fugir dos olhares de compaixio. A catastrofe chegou quando, dois anos depois, convidado para um congresso mundial no Rio de Janeiro, confiei aos organizadores meu e-mail (pedin- do que nao o inclufssem na documentagao geral). Duas semanas depois, comecei a receber convites para outros simpésios, propa- ganda de hotéis cariocas e do Leste Europeu, avisos de que tinha recebido uma heranga em paises asidticos. Percebi que tinha me exilado sem sair de minha casa. Era possivel, como nos desterros geograficos, atenuar a perda des- feutando da nova paisagem e das pessoas? O territério difuso da internet nao estava habitado sé por usuarios do ¢-mail, mas por dispositivos que eu desconhecia e tinham se tornado indispensé: veis para escrever, editar ou fazer na rede o que, até entao, exigia ir ao banco, preencher 4 mao requerimentos para aquilo que préximo ou distante. Até havia quem propunha que as pessoas se mudassem da realidade para o Second Life: que isso tenha dura- do pouco me faz acreditar que o mercado de intercambios virtu- ais de vez em quando aterrissa em algum tipo de sensatez (o que ‘quer dizer sensatez?). Essa oscilago cotidiana entre pertencermos a uma comu- nidade mundial ou nos retrairmos no universo mais controlado dos amigos vai desvanecendo. Nosso crescente poder de escolha gragas a internet 6 colocado em dtivida quando reparamos que interagimos néo apenas como navegantes da rede mas também como espionados. A privacidade vai se esfumando por conta da cumplicidade dos governos e das empresas que dio ao mesmo tempo servicos de comunicagio e de vigilancia. Precisamos vol- tar a pensar, entao, tudo que a filosofia e as ciéncias sociais e as constituigdes dos paises acreditavam que era o piiblico ¢ 0 pri- vado, a soberania nacional e a soberania dos sujeitos modernos. (0 MUNDO INTEIRO COMO LUGAR 2STRANHO 39 © que significa habitar um mundo interconectado digital- mente onde cada vez é mais dificil ser estrangeiro? Para respon- der, é necessério ter em conta, ao menos, trés nodes dissemina- das na modernidade e pés-modernidade: a) aestraneidade como perda de um territério proprio; b) a experiencia de ser estrangei- ro-nativo, ou seja, sentir-se estranho na propria sociedade; c) a experiéncia de sair de uma cidade ou nagao que asfixia e escolher ser diferente ou minoria em uma sociedade ou lingua que nunca vamos sentir como inteiramente propria. — Voce jé escreveu sobre essas perdas, como muitos outros. Ve agora algo diferente? = Tudo esté mudando, até mesmo a condizao dos migrantes c exilados que saem de seu pais natal por desemprego, privagées econdmicas ou perseguicio politica. Essa ¢ a parte da estranei- dade mais estudada. Sabemos, por exemplo, quantos migrantes da América Latina e do Caribe vivem fora de seus paises: 57,5 Thées (42,8 milhSes nos Estados Unidos). Conhecemos estatisti- cas precisas dos migrantes econémicos e estirrativas varidveis de ilegais, desalojados e refugiados. Os organismos institucionais, como é Iégico, ocupam-se principalmente das migragoes forga- das, as situacdes de maior desamparo e do tréfico de pessoas. Os movimentos de migrantes, no entanto, dizem muito sobre o que existe antes e depois: crises de oportunidades, perseguicdes po- liticas e ideolégicas, violéncias insuportéveis, incapacidade dos pafses em aproveitar 0 capital educativo, cientifico e técnico de sua populacao. £, é claro, a expulsio de migrantes ou o modo de recebé-los evidencia a disposicao para tratar com os diferentes. Mas vejo condicdes ambivalentes sobre a estraneidade atual que as estatisticas registram pouco. Vamos partir de algo que é perceptivel nas formas mais visiveis da migracéo enoque revelam as remessas. Conhecemos a importéncia desses fluxos financei- ros para 0s paises que perderam de 10% a 15% de sua populacio, como 0 Equador, o México e 0 Uruguai. © México chegouarece- ber 2s bilhées de délares por ano, destinados quase inteiramente a0 sustento dos Jares no pais de origem. Sabe-se que a migragao nao é uma decisao individual, mas uma estratégia familiar: 20 mandar ao estrangeiro varios de seus membros, quase sempre 08 mais jovens, as familias diversificam suas fontes de ingresso ¢ tornam possivel que uma parte do grupo familiar continue em sua terra. Mas os migrantes nao enviam s6 dinheiro mas também informagao, trocam experiéncias nas duas diregdes e estabelecem “comunidades transnacionais” de comunicagio fluida. Fala-se hi alguns anos das “remessas culturais”: além de mandar dinheiro dos Estados Unidos, enviam as suas familias né México apare- Ihos de miisica e video, televisores, eletrodomésticos ¢ roupas da moda; do México, levam a California, a Chicago e a Nova York comida, miisica gravada, videos de festas e ceriménias familiares, Como registra Lourdes Arizpe, dos Estados Unidos trazem para o México “bens de prestigio e signos de sucesso”, emblemiticos da alta modernidade; do México levam para o norte objetos e men- sagens representativos de afetos tradicionais, solidariedade e rea- firma¢do comunitaria (Arizpe). Nessa troca, formam-se priticas biculturais. As remessas de ida e volta fazem ver que o desterro nao é sé intempérie; negocia-se entre o que se abandona ¢ o que se adquire e compartilha. Em outras migragées, mesmo nas dos exilados bem rece- bidos, nota-se que a negociagio intercultural é um jogo de dis- torgées. Tununa Mercado analisou o significado desse elogio paradoxal dado pelos mexicanos: “Vocé nao parece argentino” Para ser aceito, era preciso diferenciar-se do esterestipo que identificava essa nacionalidade com altissonancia ou soberba, ou seja, “aceitar a lisonja que na verdade disfargava a reticéncia ¢,naquele foro intimo em que cada um costuma esconder a am- biguidade, fizemos nossas regras do jogo, que, ao incluir-nos, exclufa-nos” A segunda modalidade ¢ a de quem, como nés, se sente es- trangeiro na prépria sociedade. A forma priméria, literal, dessa es- traneidade é a dos indigenas ou colonizados, despojados de suas terras e seus direitos, proibidos de usar sua lingua, a apropriacgo livre dos recursos de seus antecessores: povos origindrios como os tzofziles em Chiapas, os mapuches na Argentina e no Chile, centenas de etnias americanas cujos costumes sio subordinados a leis impostas e alheias. Ser exdtico na propria terra, servir de treinamento para turistas, ouvir a mtisica e ver os rituais transfor- mados em fetiches ou mercadorias so alguns dos procedimentos que tornam estranhos uns so milhées de indigenas e 150 milhdes de afro-americanos na América Latina. Junto com essas formas antigas, encontramos as estraneida- des geradas por deslocamentos contemporaneos*. A linguagem corriqueira nomeia como migrantes aqueles que tém dificuldade para passar do analégico para o digital e, como nativos, criancas ¢ jovens formados na internet. Da mesma forma, sentem-se es- tranhos os que veem seu pais se transformar ao aumentarem as pessoas com outras roupas ¢ outros idiomas; ou aqueles que ja nio podem, por causa da violéncia cotidiana, sai: 8s ruas de noite ou que deixam de usar lugares estimados da propria cidade. ‘Ainterculturalidade e as comunicagies globalizadas nos tor- nam estrangeiros néo apenas das paisagens que eram prdprias para nés ou nossos pais. Somos convidados ou pressionados a viver outras “patrias”, Nés nos atraimos por pertencer a comuni- dades longinquas, baixar miisica ¢ filmes de mais culturas que as, difundidas pelas lojas de discos ou salas de cinema. Amplia-se 0 horizonte e, ao mesmo tempo, esfumam-se as fronteiras que nos davam cextezas: 0 que diferencia agora a intimidade do puiblico, 0 consumo legal e a pirataria, os originals e as cépias? Importam, por isso, as estraneidades nao territoriais. Estran- geiro nao € sé 0 excluido da légica social predominante. E tam- ‘bém aquele que tem um segredo: sabe que existe outro modo de vida, ou existiu, ou poderia existir. Se é um estrangeiro em sua propria sociedade, um estrangeiro-nativo, sabe que houve outras formas de trabalhar, divertir-se e comunicar-se, antes que chegas- sem turistas, empresas transnacionais ou jovens que mudaram os 2. Primeiro contexto em que o termo utilizado, no originsl em espanhol,€ dis- locamtentas, ¢ mio desplazamiento. Mais do que deslocanento no sentido de “mudar de lugar” (pr6prio do voedbulo desplazamienty), este termo (mals ccomum em espanhol sob a forma dislocacién) traria 0 sentido, em portugués, de deslocamento como “desarticulacio’,“alteragio’, especialmente da articu- Iago de oss05 ou de formasDes geolgicas. Como a lingua portuguese nfo permite a varlagio entre dois vocabules, utilizar-se-d sempre o termo “des- Tocamento” e serd apontado em nota de rodapé quando no original em espa- hol for utilizado 0 termo dislocamiento (x. dat). cy (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO modos de conversar e de fazer. Uma das experiéncias de estra- neidade perturbadoras do “proprio” 6 do migrante que retorna seu pais de origem dez anos depois e, a0 falar com seus compa- triotas usando palavras que nao se usam mais, ouve perguntarem: “Vocé no é daqui, no é mesmo?”, ‘Aestraneidade como consciéncia de um desajuste, perda da identidade em que antes nos reconheciamos. Podemos nos sentir estranhos em nosso préprio pais, tio somente porque andamos junto com outro estrangeiro ou porque nos aplicam uma cate- goria com que nunca nos identificamos. Andrea Giunta fala de estraneidades situacionais, desclassificagdes que partem do olhar dos outros ou que ativamos nos mostrando como estranhos. Pro- curamos fazer que os desajustes e as diferengas sejam convertidos em téticas e estratégias para estar de outro modo. Por meio de atos criativos, a ordem estabelecida se altera. Esses choques e es- sas discordancias, como outras indecisdes do sentido, sempre es- timularam 0 trabalho artistico, especializado nos desvios ocultos e deslocamentos. As poéticas poderiam ser pensadas como atos que transmutam as distdncias culturais, geogréficas ou tecnol6gi- cas com forga inovadora. Descobrit o poder criativo da estraneidade leva a experimen- té-la no apenas como expulsdo ou perda mas também como de- sejo. O pés-modernismo exasperou isso sob a forma do nomadis- mo. Na modernidade, predominaram as estéticas da localizacao ¢ do arraigamento. O folclore celebrava o territério, deleitava-se com a paisagem natural e cultural imediata, A formagao dos Es- tados e culturas nacionais ampliou a escala desse entorno como contéiner das experiéncias. Chama aatengo que até as rupturas com o conhecido e a busca de formas inéditas nas artes foram identificadas com sobrenomes nacionais: construtivismo russo, muralismo mexicano ou pop norte-americano. Na sequéncia, 0 pés-modernismo declarou extintas as na- ges e imaginou que a desterritorializagao e o cruzamento de fronteiras eram a condigio normal da humanidade. O mundo foi visto como uma sala de embarque. Muitos museus passaram de registros das culturas e das artes de um pais a lugares onde cele- brar os cruzamentos entre pessoas ¢ imagens distantes. Criticos e (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO 63 curadores pediam obras que pudessem ser vistas “como algo que - viajou’, conforme a formula usada por Guy Brett paraas “pintaras aeropostais” de Eugenio Dittborn, essas “balsas dobriveis e com- partimentadas” que a gente recebia para voltar a envié-las: eram para ‘ver entre duas viagens’, Poética do transitério. Serviu para deixar de lado a obrigagio de representar identidades embalsa- madas e dar ressonancia a noves dramas. Mudaram as questdes da arte e da antropologia. Escrevia James Clifford que “o normal nao seria mais perguntar ‘De onde é vocé?’, mas ‘De onde vocé vem e para onde vai?”. Essa perspectiva se tornoa um cosmopolitismo abstrato quando idealizou 0 poder liberador de qualquer deslocalizagéo. ‘Crescem agora outros modos de falar artisticamente das via- gens e migragdes, nao interessados unicamente no registro docu- mental e em seu sentido épico ou dramatico. Ocupam-se também de outras experiéncias de deslocamento, talvez mais expressivas da condic4o transtertitorial contemporanea. Afastados da utopia de sermos cidadaos do mundo, percebemos ac variadas maneiras de modificar os lagos natais. O desejo de ser estrangeiro se mostra diferente nos migran- tes geogrificos e nos estrangeiros-nativos, naqueles que devem se exilar, perseguidos por uma ditadura e por uma parte da socie- dade que os julga estranhos; ou os que por razGes semelhantes permanecem como dissidentes, exilados internos, desqualifica- os como cidadaos: em um insilio. Acompanham com espanto, de dentro, a transicao de seu pais. Por isso, quem regressa depois de um longo tempo se decep- ciona. Ao reinstalar-se em sua terra de origem, alguns comegam a sentir falta da cidade onde viveram como migrantes. Mais de um se lembrou da frase de James Baldwin: “Me'hor que nao volte, porque, se vocé fizer isso, no poder mais manter a jlusio de ter uma patria’. E “John Berger respondeu em uma entrevista concedida a Gra- cicla Speranza por que tinha deixado de viverna Gra-Bretanha: Desde que eu terminei a escola, com dezesseis anos, comecei a sentir {que tinha algo em mim que incomodsva os ingleses, Sem nenhuma inten- 04 (0 MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO ‘0, sem nenhum tipo de provocacao, simplesmente tentando ser eu mesmo ~ falando, escutando, mexendo-me, reagindo -, sentia que provocava uma espécie de desconforto a0 meu redor. , é claro, quando alguém vive em um ugar onde o tempo todo pensa estar volando alguma regra para incémodo dos demais,jé ndo se sente em casa. Porque “se sentir em casa” significa pre- ‘cisamente saber que vocé pode ser voc# mesmo ¢ ser actito pelos demais. ‘O que se faz com esse desconforto? Pode-semudar de pais ou ficar como estrangeiro. Existem dilemas estéticos que tm a ver com o estilo de vida, com a sensibilidade e as formas de pensar e elaborar 0 que se sente. Costumam expressar-se no modo de re- organizara cotidianidade, o trabalho ea familia dentro da mesma sociedade ou no pafs escolhido para mudar-se. “Por que a Franca depois?”, pergunta Speranza a Berger: Primeiro pensei na Italia, um pais que amo profundamente porque se trata de um povo que entende o prazer (..). Vivina Itlia durante um tem- fiz amigos lé ¢ conheci pessoas extraordinarias como Moravia, Carlo Levi, Pasolini, Mas também ali havia algo que nao fencionava completa- mente. Assim como entendem 0 prazer, os italianos nao entendem o silén- cio,a necessidade de estar sozinho.E uma cacacteristica adorsvel, digamos, mas cria uma dificuldade na sociabilidade porque a necessidade de siléncio ‘ou solidio se transforma em uma questo pessoal. Berger diz ter escothido a Franga porque falava a lingua e por- que pensadores e escritores importantes para ele nesse momento eram franceses (Merleau-Ponty, Camus): “Chegar a Franga era como entrar em um edificio do qual eu conhecia os corredores do pensamento” © problema seguinte é 0 que fazer quando é preciso viver ‘em dois lugares: 0 novo destino e o de origem. Uma “solusao” éa disjungao: Berger mora uma parte do ano nos Alpes ¢ outra em Pa- “Na verdade, sou bastante pratico. Comprometo-me totalmen- te com o que est acontecendo e também com as pessoas do lugar. B isso € assim na cidade e no campo”, Essa maneira de organizar separadamente um lugar e outro se vincula em Berger com a expli- caso que dé sobre o que acha que incomodava os ingleses nele: (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO 5 ‘Uma certa intensidade, Mas quem sabe mais alguraa coisa. Na logica tipica do discurso inglés voeé tem de falar daquilo e depois daguilo outro para poder finalmente chegar a isso. Essa mecinica da comunicagio signi- ficava um grande esforgo para mim e era evidente que algo em mim parecia estranho para os demais. Um de meus avés era imigrante, um italiano de Trieste, ¢ por algum motivo a maioria de meus amigos mais intimos eam imigrantes polacos, alemies, tchecoslovacos, htingaros, Com eles eu me sentia em casa, sabia que me aceitavam. # posstvel levar mais longe essa experiéncia de sentir-se em casa com estrangeiros e transformé-la em uma flosofia que exal- taa estrangeiridade, mesmo no préprio pais, acima de qualquer forma de localismo. O antropélogo Roger Bartra dizia em uma mesa-redonda: “O mais dificil no México é viver como estran- geiro sendo mexicano’: Edward Said, palestino de origem, que viveu no Cairo, no Libano e assumiu criticameate sua residén- cia mais longa, Nova York, para explicar por que nao procurava reconciliar esses pertencimentos em tensio, citava uma frase de ‘Hugues de Saint-Victor: “Quem acha sua patria doce é ainda um tenro aprendiz; quem acha que todo solo é como o nativo, jé é for- te; mas perfeito € aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estranho”” Eu diria que a aspiraco que tira contemporaneidade dessa formula é “perfeita’, As fronteiras e os deslocamentos” migratéries so processos econdmicos e socioculturais, como sio estudados pelos demé- grafos, antropélogos e socidlogos, e também processos simbé- licos que se expressam como metéforas, e nao apenas com con- ceitos. — Ao comparar as representacées cientificas ¢ artisticas surge a pergunta: quanto pode ser dito sobre as migracSes por meio de discursos cientificos, formados com conceitos uaivocos, cifras e dados duros, e quanto conseguem abarcar as linguagens artisti- cas, cuja polissemia esta urdida com metéforas? ~As praticas atuais de pesquisadores e artistas se aproximam. ‘Também a gente das cincias usa metiforas, meve-se por apro- No original, dislocansientos. Ver nota na p. 6, (w. da). 66 (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR BSTRANHO ximagio.e compete, com teorias dispares, querendo provar qual delas tem maior capacidade explicativa. Por sua parte, os artistas lidam com conceitos e organizam intelectualmente suas repre- sentagdes do real; transforma suas instituigoes em linguagem, comunicam-nas ¢ contrastam-nas com experiéncias sociais. Exis- te um problema compartilhado pela epistemologia e pela estéti- erseccionam o movimento pelo qual a linguagem ganha dinamismo e significacao gragas 4s metéforas com 0 movi- mento que busca precisar e fixar o sentido em conceitos. ‘Talver.as diferengas entre pesquisadores e artistas aparegam, antes, nos critérios de julgamento e na exigéncia de legitimidade de seus trabalhos. Para aquele que faz.ciéncia, interessa construir conhecimentos em relagao a referentes empiricos observaveis; para o artista, mais do que a produgio de um saber, o que atrai é administrar a incerteza na sensibilidade e imaginagio. Qual é 0 interesse de discutir sobre linguagens conceituais e metaféricas para falar das estéticas migratérias? A migragao im- plica um modo radical de experimentar a incerteza ea passagem de uma maneira de nomear e dizer a outra: essa descontinuida- de é maior se, quando se vai para outro pais, muda a lingua, mas ocorre também ao mudar para outra sociedade que fala o mesmo idioma com modulag6es diferentes. - Mas ¢ legitimo estender a interagdes nao territoriais, em sentido metaférico, anogao de estraneidade? = Falar do estrangeiro como metéfora nao é referir-se sé em sentido figurado ou imaginario a estraneidade. Mesmo as formas geogrificas da migracdo, as mais vistveis e contundentes, incluem estranhamentos que vao além da mudanga de passagem ou de lin- gua. O migrante também se sente alheio a trajetérias histéricas, condensagées secretas de sentido que formaram outro modo de viver. Por isso, a metafora nao é uma cena secundaria ou derivada, cuja verdade decisiva residiria nos dados duros que os estudos demogréficos ou socioeconémicos sobre as migragdes dao. Essa interagdo entre descrigSes cientificas, definigdes con- ceituais ¢ reelaboracdes metafricas das migrades leva a nos perguntarmos quais so 0s recursos visuais, literdrios ou digitais propicios para aludir as maneiras menos evidentes de ser estran- a: como se (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR BSTRANHO 87 geiro diante dos nativos, ilegal entre cidadios, letrado diante dos“ internautas digitais. Se 0 que caracteriza a condicdo de estrangeiro so osincémo- dos entre cendrios e representages, nao existe uma linguagem nem um género mais apropriados, mas problemas de relagio en- tre linguagens, vacilag6es na tradugao. Pode haver um momento épico na representacao e no imaginario artisticc dos migrantes a0 descrever a evasio owa confrontagao com os diferentes. De outro lado, os obsticulos para o reconhecimento reciproco incitam as vezes a escolher o melodrama. Mas em um mundo em que é raro que o poder possa ser absolutamente monopélico, ¢ 0 sofrimento possa existix sem negociagao e solidariedade, os movimentos os Gilantes de um lado e de outro sao propicios para ensaiar modos mais complexos, menos polares, de colocar luz sobre a intercul- turalidade. © acontecimento estético irrompe quando, em vez de afir- mar um sentido, se deixa emergir a incerteza eo estranhamento. Em sociedades laicas, em um mundo plural, ¢ possivel conceber todas.as obras culturais, todos os espagos e circaitos, como rascu- hos, tentativas de dizer. ‘A épica — nota-se em muita arte politica, nas fotos de Sebas- tido Salgado ~ tende a alinhar historias estrangeiras em uma sé. ‘Omelodrama encenaas discrepancias dos afetos, como escreveu Jess Martin-Barbero, ea dificuldade de reconhecer o outro, mas ‘busca um desenlace em que os filhos encontrem os pais, os estra- nhos desaparecam ou se arrependam ese integrem. A experiéncia da tradugo, em compensacio, relaciona o comparavel com o in- comparével, o que se pode comunicar e os siléacios. O migrante, todo migrante (até mesmo nos setores menos instruidos), é sempre um tradutor, ou seja, aquele qle faz cons- tantemente, entre seu lugar de origem e sua cultura adotiva, a ex- perigncia do que pode ou nao se dizer em outra lingua. O que é traduzir? Segundo Paul Ricoeur, além da tradugo que se conse- ‘gue fazer ¢ a experiéncia da diferenga insuperivel, existe a busca de como dizer algo equivalente, como dizé-lo de outro modo. Uma forma de fazer isso é recorrer 4s metéforas. E também acontece com os conceitos, mesmo 05 filoséficos ¢ cientificos, se recorda- 08 (0 MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO mos com Mieke Bal que os conceitos viajam (entre disciplinas, épocas ¢ comunidades académicas dispersas): os conceitos se parecem com as metéforas na medida em que nao condensam de um tinico modo o sentido, de uma vez por todas, porque sio pon- tos flexiveis de coincidéncia, “sedes de debates’, estratégias provi denciais para conversas, colaborar ou brigar, com certa coeréncia. Descobrimos que podemos serestrangeiros em nossa propria sociedade quando, diante de um compatriota, nos perguntamos: 0 que ele quis dizer? Ao relativizar as estraneidades territoriais e transnacionais, nZo quero diminuir sua importancia dramatica. Busco destacar outros modos de ser migrante e estrangeiro, dis- positivos que desestabilizam o préprio eo estranho, ainclusao ea exclusio, que ocorrem tanto no entorno imediato como em redes mundializadas. Jé vimos que atravessar 0 mundo ou percorrer a prépria cidade podem ser modos igualmente intensos e desa- fiantes de viajar. Uma arte e um saber que nos tornam sensiveis & face estrangeira da propria cultura contribuem para compreender como tratar com o intraduzivel ou com o que, as vezes, podemos dizer uns aos outros. ~ Vamos voltar as perguntas anunciadas no comeco desta conversa: a comunicacao por meio da internet conduza uma co- munidade mundial em que circulacio difusa pelas redes anulara © pertencimento? A transparéncia de nossas vidas espionadas e armazenadas nos bancos de dados da vigilancia afogara a diversi- dade ea discrepancia? — As dispares figuras da estraneidade tornam evidente que ser estrangeiro pode ser um castigo c também um direito. Ser es- trangeiro, mesmo sem sair do préprio pais, tem a ver coma arte da diferenca. As tentativas de homogeneizar das evangelizagoes forgadas, dos Estados nacionais ou das industrias culturais nio puseram fim a diversidade. Retomo o que analisaros sobre as maneiras de se desempe- nhar como estrangeiro para captar esta época em que parece que ja nao podemos sé-lo. No tempo das identidades nitidamente diferenciadas (nacionais, étnicas), predominaram dois modos de ser estrangeiros: o imposto ou discriminatério ¢ 0 eleito ou emancipador. No primeiro sentido, ser estrangeiro era nao ser (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO 69 nativo ou ter chegado tarde e nunca se sentir totalmente aceito: 0 desejo costumava ser se integrar. ‘No segundo sentido, a estraneidade era umaescolha, o aban- dono do pais onde vocé se sente incomodado e incomoda os de- mais, como diz John Berger. © desejo de ir emborae, mais do que se integrar, conquistar um espaco diferente que possa ser experi- mentado com conforto e liberdade. Em sua versio mais radical, ado nomadismo, aspirava-se nfo a encontrar uma patria melhor, masa desfrutar o fato de nao té-la, Anovidade contemporanea é nao poder ser estrangeiro. Ao menos no sentido em que isso foi praticado pelas maiorias, en- contrando algum tipo de equilibrio entre nao pertencer total- mente ¢ construir para si o proprio lugar. Para ser estrangeiro é necesséria, além da diferenga, a intimidade, Em um mundo onde nossa vida privada é armazenada para ser usada comercial e poli- ticamente, néo importa tanto a diferenga, mas a informagao sobre © que imaginévamos que nos fazia diferentes e que é organizada para nos agrupar como consumidores de certos alimentos, filmes e mensagens politicas. Nao podemos esconder nem o que pensa- mos sobre o que consumimos, nem as dores ou deficiéncias que nos impedem de pertencer a uma comunidade. Rafael Argullol conta que descobriu a aboliczo da intimidade quando foi comprar um carro e se preocupou com a altura do volante. O vendedor olhow a tela de seu computador e explicou que a altura era adaptavel: ~ Como o senhor mede 1,87 metro... ~ Como (0 senhor) sabe minha altura? ~Estd aqui. Argullol pediu para ver o que mais dizia no computador da concessionéria onde nunca tinha estado. Havia thuita infor- magio privada; por exemplo, que ele tinha feito uma operagio nas costas. O funcionério balbuciou que nao se tratava de um assunto de sua agéncia, mas da empresa multinacional, e que tinham os dados de qualquer um porque todos eam hipotéticos clientes. Nao podemos ser estrangeiros se somos clientes ou suspei- tos, espionados para adaptarem 0 que poderia ser vendido a nés 70 (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO 0 que deveriamos pensar. Conseguiré isso a espionagem univer- sal, as aliangas dos Estados Unidos ou da China coma Microsoft, © Google e 0 Yahoo? Se dévamos como uma das definiges de estrangeiro ter um segredo, as redes onfvoras de vigilancia e acu- mulagio de habitos, gostos, opinides do mundo inteiro parecem, destinadas a revelar qualquer segredo. Mas a sistematizagao de dados nao é sindnimo de uniformizagao. Os vastos arquivos glo- bais interconectam diferengas sociais e culturais; nao conseguem dissolvé-las. Essa diversidade continua requerendo, para além da captura informatica, a flexivel etnografia dos movimentos de insatisfaco com rostos diferentes. Apesar do aumento da vigilancia politica ¢ militar, nenhum especialista previu a queda do muro de Ber- lim, nem das Torres Gémeas, nem as revoltas arabes, nem os movimentos de protesto de 2013 em oitenta cidades brasileiras. ‘Também nio é possivel entender essas irrupgées surpreendentes superestimando o poder dos celulares e das redes digitais. Os movimentos de protesto podem convocar por meio da internet, mas nao nascem nas redes de comunicasao. Surgem nas sociedades, em jogos de inclusio e exclusio, de pertencimentos miltiplos e estraneidades dispersas. Alguns Estados fantasiam com 0 controle de milhées de e-mails, chats e chamadas de vi- deo que sio diariamente proporcionados a eles pelas empresas gestoras de internet, e assim conseguem, raras vezes, desmontar uma conspiracio, saber o que pensam jornalistas ¢lideres sociais, mesmo que nio publiquem isso. Mas nao conseguiram se ante- cipar as revelagdes de Julian Assange, nem de Edward Snowden, nem podem projetar eletronicamente uma sociedade em que ninguém deseje o acesso compartilhado a informagio, miisica, filmes, servigos de educagio e satide. Os movimentos de protesto e mudanca que persistem apesar das espionagens sio tentativas de nao ter de ir embora do pré- prio pafs, nem sentir que nao hé lugar para onde ir. Usam as re- des transterritoriais da internet para consolidar 0 que pode ser mudado em um territ6rio que querem sentir proprio. E impor- tante reconhecer sua diversidade para nao reincidir na iluséo da comunidade mundial sem fronteiras, fantasiada pelas utopias da (© MUNDO INTEIRO COMO LUGAR ESTRANHO 7” internet. O sentimento de ser estranho perante a ordem vigente’’.” pode se tornar mais eficaz se se admitem as distincias entre umas e outras indignagées, a fim de encontrar a solidariedade possivel. Bu gostaria de destacar um dos tragos compartilhados por esses movimentos: a insisténcia em reivindicar o puiblico, o que deve ser comum ¢ acessivel a todos. No Egito, defender pracas emblemiticas para que nao sejam transformadas em shopping centers; no Chile, a educagao gratuita e de qualidade; nas regiées indigenas, as formas comunitérias de apropriagio e gestéo dos bens naturais e sociais. Junto com essas defesas do publico lo- cal ou nacional, avangam internacionalmente 0s commons, como modelo de sociabilidade baseado na colaboracdo em rede, como acervo de produtos culturais e de ferramentas para produzi-los ¢.colocé-los a livre disposigao de quem deseja usé-los. No norte da Europa, estdo organizados nos chamados partidos piratas ¢, nos movimentos de protesto dos Estados Unidos, da Espanha, da Italia e dos paises latino-americanos, aprende-se compartilhando ecriando coletivamente. ‘Diz Margatita, uma entrevistada espanhole que encontramos no estudo sobre jovens criadores independentes: Vocé me deixou um mundo em que o maximo que vou ter vai serum quarto, esté bom, Nunca tezei um trabalho fixo, etd bern, Nunca terei ape- sentadoria, estd bem, Mas quero estar conectado, quero acesso & cultura, porque a cultura é abundante e, como ¢ abundante, nio me aplique af uma cescassez artificial, Enisso existe uma Iuta que nfo teruma expressio ideo- Iogica de esquerda ou de direita, tem a ver com outra galéxia ~ Pelo que diz, vejo que vocé nao considera a pirataria um palavrdo. E os hackers? . — Nio so, como as vezes se supde, os espides que assaltam paginas ocultas, mas os que, em nome de uma ética do compar- tilhar e da cooperacao, propiciam a informagao livre, 0 acesso ilimitado, a descentralizacao da criatividade. Quando se tornam militantes, falamos de hacktivistas. Diferentemente do blogger, diz. Margarita, que quer pér sua foto, o hacker “sempre seguiu pela ‘vida com pseudénimo’, Em suas manifestag6es radicais, organi- 72 (© MUNDO INTRIRO COMO LUGAR ESTRANHO zam-se em grupo, como 0 Anonymous, mas também dao lugar a estruturas mais “institucionalizadas’, como o Medialab-Prado- ea La Tabacalera, de Madri, ou os Pontos de Cultura, no Brasil. ‘Uma artista cubana teve a ideia de dar o troco no modo de pensara estraneidade na Espanha. A midia europeia descreveu mil vezes 0 autoritarismo do regime cubano, as dificuldades para sair desse pats e as facilidades para entrar emi Cuba dos turistas ehotéis espanhéis que obtém dtimos rendimentos nas praias onde os ha- bitantes da ilha nao podem entrar. Essas maneiras contraditérias de ser estrangeiro no proprio pais (ou sentir-se como “natural” no de outros) foram dissimuladas com programas sociais e culturais {que exibiam a “responsabilidade social das empresas” espanholas © europeias em Cuba ¢ em outros paises latino-americanos. O contraponto mais extremo dessa generosidade foi, no discurso midistico, expor a prostituicio de mulheres e homens cubanos, ou sua versio light: simular um casamento com um estrangeiro para adquirir outra nacionalidade ou ao menos poder sair de Cuba. Os Darcos, os botes e as malas em obras de artistas cubanos, literais, estilizados, naufragados, jé representaram esses dramas. Em 2014, 0 Prémio Internacional de Arte Contemporanea da Assembleia de Castellé foi concedido a obra Ajuda Humanitéria Cuba-Espanha, 2008-2013. Sua autora, Nuria Gell, declara que [.«] consiste em uma troca de servigos. Quando vivie em Cuba, eu me ofereei como esposa a qualquer outro cubano que quisesse emigrar para ‘a Espanha, pagando para ele os gastos do casamento e da passagem. Por meio de uma convocatéria pedi aos interessados que me escrevessem “a carta de amor mais bonita do mundo”; baseando-se nesse material, um jai da carta ganhadora ¢, portanto, de meu futuro esposo. O selecionado tinha de se comprometer a estar & minha disposigio para qualquer peticéo que eu fizesse enquanto durasse nosso “casamento’, por exemplo, ajudar # exteciorizar seu agrade- composto de trés prostitutas cubanas fez a seles cimento na midia ou me acompanhar em eventos piblicos. Depois de quatro anos de casados, men esposo jé adquirit: sua nacio- nalidade espanhola, portanto, como estabeleciam as bases, em breve nos divorciaremos, terminando com isso o contrato que nos une. Caso a obra seja vendida, dividiremos o lucro em partes iguais. I 6. POS-XEROX