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Emílio Silva de Castro

O homem, ser finito, contigente, precário, não


tem em si a razão de sua existência. Procede de
outra causa para existir e a ela deve subordinar-se
para seu aperfeiçoamento. Acredite ou não, quer
queira, quer não, o homem tem um destino, foi cria-
do e ordenado para uma superior felicidade. Não
é na vida temporal que há de achar a dita. E está
nisto a tragédia do homem atual. Sente sede insa-
ciável de ser feliz e em vez de ir a desalterar essa
sede nas fontes de água viva que manam para a
vida eterna, seduzido pelo próprio orgulho quer em
seu pequeno mundo satisfazer sua indigência.
EMÍLIO SILVA DE CASTRO
Decano da Faculdade de Direito da Universidade Gama Fi-
lho — Catedrático da Universidade do Estado da Guana-
bara — Catedrático da PUC do Rio de Janeiro — Professor
BIBLIOTECA SÃO MIGUEL visitante da Universidade Autônoma de Guadalajara (Mé-
http://saomiguel.webng.com/ xico), etc.

Filosofias da hora
e
Filosofia perene

Edições G R D
São Paulo
1990
Capa: Traço de Roberto R. Rocha

ÍNDICE

Apresentação — Antônio Paim 9


Prefácio ................................... 15
O mundo e a necessária renovação e reforma do pensar
filosófico ............................ 21
Castro, Emílio Silva de, 1902-
A noção de filosofia .................................. 25
Filosofias da hora e filosofia perene / Emílio Silva Castro.
— São Paulo : GRD, 1990.
A atualidade filosófica 39
Classificação sistemática 45
Bibliografia. Pervivência de velhos sistemas 49
O relativismo e seus variados aspectos 59
1. Filosofia I. Título. A) relatividade do conhecimento .......................... 60
B) o relativismo fenomênico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
a) psicologismo ........................................ 66
b) fenomenismo .......................... 69
c) evolucionismo...................................................... 71
90-0353 CDD-100
d) outras correntes relativistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
índices para catálogo sistemático:
e) evolucionismo histórico-biológico de Spengler 78
f) o idealismo 80
1. Filosofia 100 g) resumo e conclusões 82
Filosofias da crença e pragmatismo 87
Historicismo 105
O existencialismo multiforme ." 115
primeiras tentativas existencialistas 125
para uma definição do existencialismo 127
Reservados os direitos de tradução, reprodução e adaptação. Copyright
by Emílio Silva de Castro. Direitos da presente edição reservados por
apreciação e crítica do movimento existencialista 137
G. R. DOREA, rua Topázio, 478/41 (Aclimação), CEP 04105, São Alonso-Fueyo ........................................ 139
Paulo, SP. Theodoro Háecker . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
Comélio Fabro 147
Jaeques Maritain . . . 149
Jean-Paul Sartre 154
Visões cristãs .. 157
J. Hessen 161
Martin Heidegger .. 163
Recapitulação 169
Philosophia perennis ,. 179
APRESENTAÇÃO
1. A. Steuco cria a denominação
"Philosophia perennis" 179
2. Que se entende por filosofia perene? 185 Monsenhor Emílio Silva nasceu em Sarria, Espanha, a
3. As formas históricas da filosofia perene 187 24 de março de 1902. Lúcido e plenamente ativo, está pres-
4. Equivalência de filosofia perene e filosofia cristã? 192 tes a completar 88 anos.
5. Princípios primários do conhecimento em Aris-
tóteles e em São Tomás 205 A família destinou-o à carreira sacerdotal. Iniciada na
Espanha — em Poio-Pontevedra, ordenando-se sacerdote em
6. Conhecimento de natureza e conhecimento de
1925 —, sua formação concluiu-a em Roma, na Academia
pessoa em Amor Ruibal 206
Tomás de Aquino, onde defendeu tese de doutorado. A tese
7. Aspectos negativos das filosofias da hora . . . . 208
estudava a dedução e a indução (De demonstratione tum
8. Conclusões 216 deduetiva tum inductiva). Estávamos em 1930 e o jovem
Bibliografia selecionada , 219 padre tinha então 28 anos de idade.
Foi mandado ao Brasil em 1935, inicialmente para diri-
gir o Patronato de São Raimundo Nonato, no Piauí, sendo
posteriormente transferido para a Bahia e, em 1946, para o
Rio de Janeiro, onde se radicou em definitivo. Monsenhor
Emílio tem portanto 55 anos de permanência no Brasil. Em-
bora revele grande orgulho de sua condição de espanhol,
nossa terra tornou-se, por adoção, sua segunda pátria.
Em sua longa e fecunda existência, Monsenhor Emílio
produziu uma obra significativa, versando tanto matéria reli-
giosa como filosófica. Entre os primeiros destacam-se: A
prova ideológica da existência de Deus (1931); São Pedro
Pascual, modelo para os nossos tempos (1937); O pão nosso
de cada dia (1955); Manual da piedade cristã (1949) e Magis-
tério espiritual de Santa Teresa (1973). No que se refere à
filosofia, mantém duas grandes fidelidades: ao filósofo espa-
nhol Angel Amor Ruibal (1869/1930) e ao tema da filoso-

9
fia perene, como veremos mais detidamente adiante. Ocupou- olhar inquiridor como um campo de Agramante, onde im-
se de alguns temas políticos como a questão da pena de perava a luta de todos sem possibilidade de encontro nem de
morte e o conceito de democracia. diálogo?
Monsenhor Emílio Silva exerceu ainda atividade do- Nesse instante é que toma contato com a obra de Angel
cente. Regeu cursos na antiga Faculdade Nacional de Filo- Amor Ruibal: Los problemas fundamentales de Ia filosofia
sofia, da Universidade do Brasil (1948-1950) e, durante mui- y dei dogma (1914) e Los problemas fundamentales de Ia
tos anos, lecionou na Pontifícia Universidade Católica do Filologia Comparada (1904-1906). Ruibal aponta-lhe um ca-
Rio de Janeiro. Tornou-se professor emérito e decano da minho, o da filosofia perene, e sugere alguns marcos do pro-
Faculdade de Direito da Universidade Gama Filho e cate- cesso de sua constituição.
drático de Filosofia Geral na Universidade do Estado da Gua-
A idéia de que haveria um critério segundo o qual
nabara (atual UERJ). Nesta apresentou duas teses para con-
poder-se-ia incorporar novas verdades ao legado da filosofia
curso: Filosofias da hora e filosofia perene (livre docência,
grega, preservado e reestruturado pela Escolástica, tinha sido
1962) e Nova fundamentação metafísica da ordem moral
(cátedra, 1963). Viajou muito para pronunciar conferências sugerido por Agostino Steuco (1497/1548), também conhe-
em universidades do México, Itália, França e Estados Unidos. cido como Steuchus Augubinus, pela referência à sua cidade
de origem (Gubbio), numa obra publicada em 1540. Popu-
Revelou-se também um grande estudioso da cultura es- larizada mais tarde por Leibniz (1646/1716), essa idéia aca-
panhola, tendo dedicado estudos a Menendez Pelayo, Una- bou perdendo o seu vigor pela tendência da neoescolástica,
muno, ao senequismo ibérico, à cultura medieval galego- iniciada no século passado e florescente no presente, de iden-
portuguesa, etc. Graças a isto foi nomeado membro titular tificá-la pura e simplesmente com o tomismo.
do Instituto de Cultura Hispânica, de Madrid, e recebeu a
O contato com essa problemática deixa entusiasmado ao
comenda da "Ordem de Isabel, Ia Católica". Integra também
jovem prelado. Amor Ruibal mostrava-lhe que nem tudo esta-
o Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica, sediado no Rio
de Janeiro. va perdido. Eis como descreve o novo estado de espírito:
"Foi sobretudo sua criteriologia filosófica o que mais
Sua paixão pelos livros levou-o a constituir uma biblio-
teca com cerca de 70 mil volumes, entre os quais muitas me impressionou. Descontente com as tediosas e fáceis expo-
raridades bibliográficas. sições e análises dos sistemas que mais agitaram a mentali-
dade moderna, topava de repente com um robustíssimo pen-
No período de sua formação, o jovem padre Emílio en- sador que, possuidor de assombrosa e universal cultura e
contrava-se em grande perplexidade diante da falta de uni- conhecendo as grandes criações do pensamento segue-as em
dade e da dispersão vigente nas filosofias moderna e contem- seus meandros e descobre-lhes a filiação e recíprocas cone-
porânea. Na biografia intelectual que elaborou a pedido do xões. Amor capta em sua gênese e segue a trajetória de cada
Padre Stanislavs Ladusans — por este incluído em sua obra sistema, percorrendo com os próprios pensadores o caminho
Rumos da filosofia atual no Brasil, em auto-retratos, São mental por eles trilhado, a fim de descobrir-lhes a índole e
Paulo, Loyola, 1976, Emílio Silva, auto-retrato filosófico, estrutura nos menores matizes e poder assim apreender, com
págs. 171-220 — diz que então se colocava a seguinte ques- justeza, o que de positivo ou de inconsistente encerra cada
tão: "Como vencer essa crise e adentrar-se, com ânimo deci- um. Que prazer mental, que satisfação para qualquer espí-
dido e sereno, pelos arraiais de uma disciplina que, mesmo rito sequioso da verdade ver como o grande Mestre, defron-
exercendo um fascinante atrativo, só se apresentava ao meu tando-se com o positivismo e com o idealismo romântico

10 11
à minha vontade, orientaram as minhas atividades noutras
penetra por assim dizer no interior de ambos os sistemas e direções. Todavia, nunca desisti de meu propósito e muito
vai direto aos seus pontos de vista capitais. Mas não pára tenho meditado o problema metafísico, dentro da esfera filo-
aí, pois, servindo-se logo dos mesmos pressupostos lógicos
sófica."
e metafísicos dos autores estudados, coloca-os em constante
contradição interna e os conduz com inflexível dialética ao Nos sessenta anos desde então transcorridos, Monsenhor
aniquilamento do próprio sistema. Emílio jamais perdeu de vista o seu projeto original. Averi-
guou detidamente o significado metafísico do existencialismo
Subjugado pelo amplo panorama de sua concepção cien- e do neopositivismo, a fim de avaliar se não atenderiam à
tífica e pela mágica de sua dialética, adentrei-me logo no
pretendida restauração metafísica. Sua conclusão seria nega-
estudo de toda a sua obra.
tiva e, no que respeita à primeira das correntes, a apresen-
Amor Ruibal, antes da formulação de suas doutrinas taria no II Congresso Nacional de Filosofia, realizado em
pessoais, estuda e torna objeto de sua acertada crítica todos Curitiba em 1953, na comunicação intitulada "Para uma de-
os grandes sistemas filosóficos, assestando rudes golpes tanto finição do existencialismo".
no platonismo como no aristotelismo, no idealismo em suas Muito escreveu sobre Angel Amor Ruibal, entregando
variadas modalidades como no empirismo, não saindo nin-
à publicação os seguintes ensaios: "Amor Ruibal, metafísico"
guém ileso de suas investidas.
(Pontevedra, 1931); "En torno a unos inéditos de Amor
De modo particular, submete a severo exame o esquema Ruibal" (Salamanca, 1969); "Recordando ei Maestro" (Ma-
metafísico aristotélico-escolástico; peça por peça o vai des- drid, 1969) "No centenário de um sábio, Amor Ruibal"
montando e fazendo ver quanto de artificioso e inconsistente (São Paulo, 1969); e recentemente "Amor Ruibal, genial
encerra na grande maioria de suas afirmações capitais. renovador de Ia filosofia cristiana", Homenaje a Mons.
A conclusão que era mister deduzir parecia-me óbvia O. N. Derisi, Buenos Aires, 1988.
e veio-me sem tardar à mente: a Metafísica tradicional ne-
cessita, não apenas de uma revisão, mas sim de uma com- O tema da filosofia perene aparece na mencionada tese
pleta reformulação; partindo de método mais apropriado, de livre docência, concluída em 1962 (Filosofias da hora e
cumpre reedificá-la sobre novas bases. filosofia perene). Igualmente no referido autoretrato, apa-
recido em 1976, traça um amplo painel do caminho a se-
A idéia empolgou-me e, sem reparar na pequenez e na
guir para alcançar o que denomina de "unidade orgânica
desproporção de minhas forças para um tal empreendimento,
objetiva dos ramos do saber filosófico". Acredita sobretu-
comecei a tomar apontamentos e orientar minhas pesquisas
do ter solucionado satisfatoriamente a complexa relação
no intuito de escrever uma Ontologia em novos moldes, na
entre a condição de católico e a de filósofo. Resumindo-a,
qual aproveitasse todas as sugestões do pensamento reno-
teria oportunidade de afirmar: "Enfim, acho que se, por um
vador e originalíssimo do Mestre de Compostela".
lado, o pensador cristão há de sentir-se plenamente livre no
O jovem padre Emílio freqüentou o mestre e dispôs-se vasto campo das ciências e da especulação racional, sem que
a completar a sua obra, levando em conta, como diz, "que a sua fé religiosa obste esta liberdade, desde que se mova
a parte construtiva do seu sistema correlacionista não che- sempre com amor puro e irrestrito à verdade; por outro, o
gou o autor a publicá-la". Ruibal morreria logo depois. A par pensador cristão, no que sob alguns aspectos oferece como
disto, informa Monsenhor Emílio: "Não cheguei então a redi- prolongamento das aquisições da razão filosófica, poderá
gir a por mim suspirada e planejada ontologia. Exigências
da vida, viagens ao exterior e circunstâncias diversas, alheias
13
12
prestar inestimáveis benefícios — como já se verificou em
épocas passadas — ao edifício comum da sabedoria humana."
De sorte que o livro que ora se entrega ao público —
graças ao empenho de Gumercindo Rocha Dorea, outra per-
sonalidade movida por uma grande vocação, neste caso a
vocação editorial — representa meditação de muitas déca-
das. Trata-se da obra de um erudito mas sobre a qual o
leitor se debruçará com prazer. Monsenhor Emílio Silva está
longe de ser um erudito seco, tratando-se na verdade de alma PREFÁCIO *
bondosa, capaz de cultivar enormes afeições. Expressando
aqui o voto de seus inúmeros amigos e admiradores, espera-
mos tê-lo ainda por muitos anos em nosso convívio. "A nova edição deste livro saúda o novo século". Assim
Vitória, janeiro de 1990. começava Frederico Paulsen o prólogo da quinta edição de
sua Ética, mas, em seguida a tão eufórico cumprimento,
Antônio Paim estampa, melancólico, este testemunho: "O começo do século
XIX assinalou-se pelo império das idéias, o começo do século
XX assinala-se pelo império da força".1
Paulsen escrevia nos anos mais prósperos que desfrutou
a Europa e quando a mais irrestrita liberdade política, tanto
de palavra como acadêmica, imperava em quase todas as
nações. Qual teria sido sua reação se sobrevivera e presen-
ciara as grandes guerras européias e as tremendas convulsões
sociais que hoje agitam a tantos povos?
O que mais surpreende no caso, porém, é a surpresa de
Paulsen. Que outra coisa podia ele esperar do magistério
que a maioria dos filósofos do século XIX, ele mesmo inclu-
sive, vinha exercendo? Eles abdicaram da verdade. Nosso
século chegou ao rompimento definitivo com o caráter dog-
mático da Revelação e com a filosofia escolástica que se
aferrava à existência de verdades absolutas. "A mentalidade
histórico-genética do "saeculum historicum" tomou o lugar

* Este livro, com alguns retoques e aditamentos, é constituído


à base da Tese para Livre Docente na Faculdade de Filosofia da
Universidade da Guanabara.
1. Friedrich Paulsen, System der Ethik, 5." ed., Berlin, 1900,
p. IX.

14 15
daquelas instâncias, renunciou à posse de verdades absolutas: que o Ocidente desorientado derivasse e ainda continue por
"só se dão verdades relativas, não há verdades eternas".2 caminhos de arbitrariedade e violência. Com efeito, se o ho-
Não querendo admitir nem mesmo a certeza das verdades mem está convicto de que a verdade das coisas é um pro-
da fé, afirma que esta "não se apoia em provas ou demons- duto de sua vontade ou do seu entendimento, se não admite
trações racionais, não vem do entendimento, senão do cora- que este há de se submeter a uma ordem objetiva do ser,
ção e da vontade".3 independente da vontade humana, nestas condições sua cos-
Na própria obra de cujo prólogo copiamos as primeiras movisão será apenas imagem, projeção, imaginação subjetiva
palavras deste escrito, insurge-se Paulsen contra a; manuten- do mundo, sem a menor garantia de verdade objetiva. Tal
ção de um sistema educativo que, nascido há séculos num subjetivismo é, no fundo, um perfeito ceticismo, ruína de
meio intelectual inteiramente diferente, "se acha em muitos toda verdade. Como poderá edificar-se sobre tal alicerce mo-
pontos em aberta contradição com as realidades e doutrinas vediço uma forma de vida estável?
mais aceitas em nosso tempo".4 O que ele visava era a refor- As nações do Ocidente, e já agora, após as duas grandes
ma do ensino, precisamente no terreno doutrinário, revisão Guerras Mundiais, o mundo todo, está passando momentos
das doutrinas básicas do Cristianismo: fora o sobrenatural, de trágica ansiedade, os povos vivem desde há bastantes
a Bíblia, os dogmas religiosos e tudo mais estranho ao anos em perpétua soçobra, na mais angustiosa incerteza, pois
homem hodierno! as filosofias dominantes não são de molde a gerar e manter
Essas idéias e princípios não eram algo peculiar a Paul- a solidez das instituições e das-relações sociais e contribuir
sen. Se, de início, escolhi seu nome, foi porque ele, melhor eficazmente para estabelecer a paz na ordem das nações.
que qualquer outro, excetuando talvez a Eucken5, reflete a Neste nosso trabalho, que intitulamos: FILOSOFIAS
mentalidade reinante na Europa em começos do presente DA HORA e FILOSOFIA PERENE, pretendemos, após
século. À vista de tais princípios e doutrinas, não admira uma sucinta exposição das filosofias vigentes em nossos dias,
demonstrar a radical ineficácia ou insuficiência da maior parte
delas, para responder às autênticas exigências da consciên-
2. Em Immanuel Kant, cit. por Josef Donat, em Die Freiheií
der Wissenschaft, Ein Gang durch das moderne Geistesleben, 2." ed., cia contemporânea, e dilucidar as possibilidades que se
Innsbruck, 1912, p. 57-58. abrem para o bem-estar do mundo nos princípios e doutri-
3. Paulsen, Einleitung in die Philosophie, 32.ª ed., Stuttgart und nas que integram a chamada filosofia perene.
Berlin, 1920, p. 269.
4. Paulsen, System der Ethik, p* 228.
5. Rodolfo Eucken, vítima também do agnosticismo e deso-
rientação filosófica e religiosa do seu século, não esconde o desa-
lento que essa situação lhe produz: "Wir sind am Grundstock unseres
Lebems und Wessens kre geworden, es hat sich uns inmitten aller
Aufhellung nach aussen hin der Sintí unseres Daseins verdunkelt,
wir treiben wehrlos dahin, ohne zu wissen wohin" (o grifo é meu).
Geistesprobleme und Lebensfragen, Leipzig, 1918, p. 145. Para
tais dubiedades e angústias Eucken, também como Paulsen e tantos
outros, não divisa mais remédio que a substituição dos valores tra-
dicionais de nossa cultura e a «forma completa do Cristianismo.
Seus inveterados preconceitos racionalistas anuviavam-lhe a vista e
lhe impediam verificar que é precisamente o Cristianismo que nos
oferece perfeita e natural solução para os tremendos problemas da
nossa origem, natureza e destino eterno.

1.6 17
PE. GÜÍLLERMÔ VÁZQÜEZ NÜ5ÍEZ
Mestre benemérito que iniciou
e encorajou o Autor em seus estudos filosóficos, é autor de
notáveis trabalhos sobre a Teologia espanhola no sec. XVI.

19
Capítulo I

O MUNDO E A NECESSÁRIA RENOVAÇÃO


E REFORMA DO PENSAR FILOSÓFICO

Sob a égide da filosofia moderna, num ambiente agnós-


tico e materialista, processaram-se as formas de vida e de
civilização em que vivemos, desprezando em sua estruturação
os princípios da velha sabedoria e ainda a noção mesma da
verdade. Destarte o homem hodierno foi perdendo o sentido
mesmo da sua existência, e passou a viver no mais lamen-
tável desnorteamento. Só a filosofia perene que, de mãos da-
das com a teologia, proporcionou séculos de sossegado viver
à sociedade ocidental, poderá trazê-la de novo ao caminho real.
Não o filosofismo racionalista e agnóstico que, sob os mais
variados disfarces e sob os nomes de sensualismo, enciclope-
dismo, criticismo kantiano, positivismo, evolucionismo, prag-
matismo, etc. etc, destruiu a crença em Deus e, com ela, os
princípios eternos da justiça e da moral e os fundamentos de
toda a sociedade. Esse agnosticismo, como já frisamos antes,
assumiu um caráter de extrema virulência durante o século
XIX, mas, em virtude da lei da inércia, que também no cam-
po dos valores tem vigência, a sociedade cristã ocidental pôde
subsistir, posto que não sem graves sobressaltos, até a I Gran-
de Guerra. Mas numa sociedade assim minada, numa socie-
dade em cujo bojo jaziam latentes os princípios mais deleté-
rios, uma guerra, das proporções daquela, só podia desenca-
dear essas forças e acarretar o desespero, o ceticismo total.

21
E então as massas desiludidas, sem roteiro, desvairadas, pro- não houve revolução no mundo que não fosse precedida du-
curavam sofregamente guias ou condutores que as levassem ma propagação de idéias que a tornaram possível. Na ordem
a um destino seguro. É este um caso patente de como a filo- psicológica William James atualizou a doutrina de Carpenter
sofia, de par com a religião, se faz sentir na marcha da sobre a assim chamada "ação ideó-motriz", assentando este
humanidade. princípio: "toda idéia de movimento provoca em nós o
Os acontecimentos posteriores, e de modo particular as movimento efetivo que representa".5 As idéias motrizes são
últimas conflagrações mundiais, longe de minorar, agravaram em nossa mente como as aduelas do arco, forças sempre vi-
estas condições do mundo. vas até encontrarem o equilíbrio na ação. Daí a enorme im-
portância que reveste, para o bem ou para o mal, a difusão
Em tais circunstâncias torna-se mais urgente a restaura- das idéias filosóficas: se as semearmos boas transformaremos
ção duma autêntica filosofia: restabelecer a vigência dos va- um povo, se ruins, pervertê-lo-emos. Dizia o profeta Oseas
lores do espírito e formar individualidades que possam con- que aqueles que semeiam ventos colhem tempestades.6 Três
duzir os povos à paz e à prosperidade. Hoje é patente a armas são necessárias, na opinião de Carr, para manter o
falência dos elementos dirigentes em todos os domínios e a domínio político na esfera internacional: "o poder militar, o
causa está "na deformação dos espíritos pelo ensino da filo- poder econômico, e o poder sobre a opinião pública".7 Eis
sofia em curso".1 Eis porque, com toda a razão, não podia a razão do colossal esforço da propaganda que hoje fazem
Unamuno compreender que houvesse um bom condutor de todas as nações para conquistar esta última.
povos e forjador de nações que não meditasse na origem e
no fim último de todas as coisas.2 Graves são, na atualidade, os perigos que ameaçam a
civilização ocidental, pois a filosofia agnóstica criou e ali-
E Nef, o arguto analista e intérprete ianque, julga indis- mentou a revolução em cujos arraiais entrou sem escrúpulos,
pensável dar o máximo valor à religião, à filosofia e às belas com armas e bagagens, a revolução que possui em suas mãos
artes se quisermos que a nação se eleve ao alto grau de cul- os meios mais eficazes para a difusão das idéias. Daí o inte-
tura de que é capaz.3 Ainda mais longe vai outro filósofo resse que oferece o estudo aprofundado e comparativo da
ianque contemporâneo: "Abandonar hoje, diz, o cultivo da filosofia, para "limpar, fixar e dar esplendor" àquela que leva
filosofia, seria tão insensato como jogar ao mar o capitão do o apelido de perene e cujos princípios, se retornarem a infor-
navio porque se tscupa de estudar a carta marítima, e não vai mar o campo do direito, da sociologia, da política e das
padejar o carvão da caldeira".4 outras ciências do espírito, poderão satisfazer plenamente as
Por outra parte, diminuir o valor da filosofia na direção exigências autênticas da humanidade. Tenhamos presente que,
da vida dos povos, seria, além de contradizer a história, ne- se no transcurso deste meio século já se travaram duas gran-
gar ainda a dinamogenia das idéias. É de toda evidência que des conflagrações mundiais, e se alguns povos se debatem
ainda hoje em guerras revolucionárias intestinas, a tudo
1. Larivière, La Reforme de 1'enseignement de Ia Philosophie, precedeu uma longa preparação ideológica. Prévia à dos
Paris. Desclé, 1943, p. 13. O título primitivo da obra citada era campos de batalha, deu-se a luta nos acampamentos das
bem significativo: "La Reforme de 1'enseignement de Ia philosophie,
ou Ia mort de Ia France". Ver ibid., p. 9.
2. M. de Unamuno, La ciudad de Henoc, México, 1933, p. 60. 5. William James, Príncipi di Psicologia, trad. ital. de G. C.
3. John U. Nef, The United States and Civilization, Chicago Ferrari, Milano, 1901, p. 794.
Univ. Press, 1942, p. 127. 6. Ose. VIII, 7.
4. Edgar S. Brigtman, An Introduction to Philosophy, N. York, 7. E. H. Carr, The Twenty YeariCrisis 1919-1939, London,
1940, p. 15. 1940, cap. VIII.

22 23
idéias. Os povos tinham sido espiritualmente desarmados e
armaram-se materialmente; cumpre rearmá-los no espírito pa-
ra desarmá-los no corpo.
É esta a peleja em que hoje se acha empenhada, em vá-
rios países, uma legião de espíritos nobres e lúcidos, que não
se resignam em ver sucumbir a magnífica cultura do Oci-
dente e se aprestaram à sua defesa. Aliás, a luta é inerente
à natureza humana caída, e recusar-se a lutar seria já como
ser de antemão vencidos. "Viver, meu caro Lucílio, é com- Capítulo II
bater", repetia Sêneca, como um eco longínquo do livro de
Jó, e S. Jerônimo enunciava o mesmo pensamento naquele A NOÇÃO DE FILOSOFIA
dístico: "Quandiu enin vivimus, in certamine sumus"8. Gus-
tavo Le Bon fecha sua obra sobre as conseqüências da I
Guerra Européia com esta frase: "O destino dos povos de-
pende das idéias que os vão dirigir"9. Para proceder ordenadamente à questão da natureza da
filosofia, procuraremos responder às três perguntas que, com
Suposta pois a indiscutível necessidade do cultivo da objetivo diferente, formulava Schopenfyauer: "Was Einer ist?
filosofia e a ânsia dos povos por uma direção que os deixe Was Einer hat? Was Einer vorstell"?10. Ou: Que é filoso-
a coberto de tanta perturbação e instabilidade, surgem logo fia? Qual é o seu conteúdo? Que representa em relação com
no espírito várias questões: Qual é a natureza da filosofia? as outras ciências?
Qual de seus aspectos oferece mais interesse na hora atual? A definição nominal ou etimológica de filosofia é sem
Quais os sistemas ou orientações que dominam o pensamento dúvida a mais bela e significativa de todas. "Sofistas" ou
contemporâneo? Por que motivo as filosofias da hora não "sábios" chamavam-se os antigos que se consagravam à sa-
trouxeram a paz e a felicidade ao homem? Qual é a autên- bedoria. Pitágoras, mais modesto em suas aspirações, disse:
tica filosofia que chamamos de filosofia perene? Possui ela "homem nenhum é sábio, somente Deus o é", e começou a
resposta adequada e vitoriosa para as agudas exigências da chamar-se de "filósofo", sapientiae studiosus, etc, e a deno-
hora presente? minar "filosofia" ao gênero de saber racional que ele culti-
vava. Fez fortuna a palavra e Platão e Aristóteles empre-
gam-se para significar a ciência das coisas pelas suas razões
últimas. "Amor da sabedoria", eis um nome bem expressivo,
que por si já assinala o sentido de tendência e aspiração, pe-
culiar do pensar filosófico. Em rigor, que outra coisa é a
filosofia senão um intento de compreensão e explicação dos
problemas do ser e do saber, problemas que se apresentam
aos homens em todos os tempos e lugares e sob as mais di-
versas formas, e que deles recebem também variadíssimas
8. Adversus pelag. II, 5, col. 47.
9. Gustavo Le Bon, Premières conséquences de Ia Guerre, Pa- 10. A. Schopenhauer, Aphorismen zur Lebensweisheit, cap. I.
ris, 1917, p. 330. Sammtliche Werke. Hrsg J. Frauenstadt, Leipzig, 1908, t. V. p. 333.

24 25
soluções? Realmente, não há conceito mais estimulante e No que concerne à definição real da filosofia reina entre
dinâmico que o expresso pelo nome de "amante da sabedo- os seus cultores a maior dissenção. Os antigos, carentes duma
ria", pois o filósofo não dá nunca por concluso o edifício revelação que impusesse um sentido infalível e patente à
do saber, nem mesmo descansa nas soluções já propostas vida humana, refugiaram-se na Ética como norma das ações.
para os angustiosos problemas que a realidade apresenta. Xenofonte afirma que Sócrates reduzia toda a filosofia à
Por esta razão, ainda sendo a filosofia enquanto ciência, pelo moral. A Escola estóica acentuou ainda mais este caráter.
seu objeto, uma só, dela falamos amiúde em função de épo- Para Sêneca, a filosofia não passava de "ciência da vida
cas, lugares e escolas, v.g., filosofia medieval, filosofia mo- honesta". A tendência a fazer da filosofia uma ciência pre-
derna, filosofia grega, filosofia alemã, filosofia estóica, filo- dominantemente moral, surge também na filosofia moderna
sofia tomista, etc. Impressionados por esta variedade de con- como fenômeno concomitante da negação duma moral divina.
cepções, alguns filósofos incidiram no relativismo, negando A filosofia inglesa do último século é sobretudo moral.
a existência e a possibilidade duma filosofia verdadeira. Para
Para o Estagirita a filosofia deve ocupar-se "das pri-
Hegel a filosofia era o "espírito de cada época reduzido a
meiras causas e princípios"
conceitos"11, e para F. de Sarlo, "Ia filosofia é soprattuto
(Met. I, 1 (981b 28). A definição mais bela é, sem
espressione, esponente e valorizazzione di tutta Ia cultura
dúvida, a que deu Cícero: "rerum divinarum et humanarum
e di tutta Ia vita spirituale di un determinato período".12
causarumque, quibus hae res continentur, scientia" — isto é,
Para melhor compreender este caráter dinâmico da defini-
ção etimológica, repare-se que Cícero e em geral os autores a ciência das coisas divinas e humanas e das causas que as
latinos traduzem a palavra por cultor, studiosus, governam.15
que em português eqüivalem a aplicado, dado a, que busca, Este conceito manteve-se substancialmente até a idade
pois o verdadeiro filósofo não se aquieta na contemplação moderna. Mas no limiar desta começa logo a anarquia. Para
e amor da sabedoria possuída, mas procura repensar e des- Bacon de Verulam a filosofia helênica não é mais que "Verba
cobrir, por si mesmo, a solução dos problemas que o enigma otiosorum, fenum ad imperitos juvenes"}6 Não iria mais
da existência lhe oferece. longe um positivista convicto. No século XIX o cientificismo,
empolgado e enfatuado com os assombrosos progressos do
Que deleitoso se torna para os espíritos elevados este
saber empírico, julga poder dispensar a filosofia e chega a
estudo da sabedoria! Aristóteles antepunha-o a todas as outras
ciências, Santo Tomás, de resto tão sisudo, prorrompe nesta qualificá-la de obsoleta e fenecida: "Ora, diremos com Fa-
exclamação: "Dentre todas as ciências humanas, nenhuma rias Brito, nós sabemos que a ciência é filha da filosofia.
mais perfeita, mais sublime, mais útil e mais deleitável que Costuma-se mesmo dizer que a filosofia é como uma árvore
a do estudo da sabedoria".13 E o doutor Sabuco dizia: "Si de que resulta como fruto a ciência, é um fato que se prova
Ia sapiência tuviera forma visible, no hubiera cosa más ama- não só pela história do pensamento, como igualmente pelo
da de los hombres".14. exame direto do espírito. Mas aqui acontece que a filha
matou a própria mãe. Ê como se o fruto, desenvolvendo-se
em excesso, terminasse por matar a árvore de que foi gerado,
11. Ap. Gustavo E. Müller, Amerikanische Philosophie, Stutt- por lhe absorver toda a seiva e vigor".17 Alguns, porém, sau-
gart, Frommans Verlag, 1936, p. 287.
12. F. de Sarlo, II pensiero moderno, Firenze, 1919, p. 1.
13. S. Thomas, C. Gent. 1, 2. 15. Cicero, De Officiis II, 2.
14. Ap. Benjamin Marcos, Miguel Sabuco, Los grandes filó- 16. F. Bacon, Novum Organum Scientiarum. AfOr. LXXI.
sofos espanoles, Madrid, 1923, p. 299. 17. F. Brito, A Base Física do Espírito, Rio, 1912, p. 20.

26 27
dosos da filosofia e não se resignando a dá-la por morta, Heidegger, que foi grandemente influenciado pela filo-
excogitaram um sucedâneo com o pomposo nome de "filo- sofia de Husserl, desprendendo-se do empirismo define a
sofia científica". Mas esta, se nos atermos como é obrigado, filosofia como sendo: "Ia puesta em marcha de Ia meta-
às exposições feitas pelos seus adeptos, como: Spencer, física: en esta adquiere aquella su ser actual y sus explí-
Büchner, íyndal, Strauss, Huxley, Mach, Avenarius, Le citos temas".23. Em análogo sentido se exprime Deussen,
Dantec, Renan e "outros contrabandistas do pensamento mo- muito embora este assinale horizonte mais dilatado à meta-
derno", como os denomina o grande filósofo brasileiro18, física.24 Realmente, se entendermos a metafísica no sen-
é antes que filosofia a negação mesmo da filosofia. De modo tido aristotélico tradicional, a definição citada encerra boa
geral, as escolas de tipo positivista são incapazes de formu- porção de verdade.
lar uma definição aceitável da filosofia, pois a base de tais
Respondendo agora, de nossa parte, à pergunta for-
sistemas e escolas está em aberta contradição com o que
desde a Antigüidade entendemos por autêntica sabedoria. mulada no começo sobre a natureza do pensar filosófico,
Após o descrédito do positivismo e do neo-criticismo os sis- diremos que filosofia é a investigação, pelas causas supre-
temas e escolas sucederam-se numa celeridade vertiginosa. mas, da gênese, natureza e destino de todos os seres e do
A filosofia moderna parece estar possuída, como atinada- modo de os conhecermos.
mente observa o filósofo cearense, "pela ânsia de ignorar, É hoje freqüente em muitos autores identificar-se a
não de conhecer a verdade, ávida de paradoxos, insaciável filosofia com a história da filosofia. Segundo Ortega y
de escândalos".19 Em tais condições o desconcerto foi em Gasset: "El concepto de Ia filosofia se realiza em su pró-
crescendo. pria historia".25 O filósofo argentino Vassalo exprime-se
no mesmo sentido: "Casi podria decirse, apurando Ia ex-
"Não há mais remédio, diz Külpe, que renunciar de pressión, que Ia história de Ia filosofia es Ia filosofia
todo a uma definição unânime da filosofia"20 visto que, como misma".26 E Marias, discípulo de Ortega, proclama de for-
frisa Windelband, "não há nenhuma definição de filosofia ma irrestrita que: "La filosofia es Ia historia de Ia filoso-
que goze de consentimento unânime" (Es gibt keine allge- fia".27 Este foi o pensamento de Hegel. Benedetto Croce,
mein anerkannte Begriffsbestimung der Philosophie).21 Por porém, mais radical que o mestre, identifica toda história,
esta razão Luiz Riehl dizia que na atualidade "o principal e não apenas a da filosofia, com a filosofia mesma: "Filo-
problema filosófico era a própria filosofia como pro- sofia e storia sono, non giá due forme, si bene una forma
blema".22 sola: non si condizionano a vicenda; s'identificano".28. "Né
A influência de Brentano, manifesta sobretudo na feno- Ia storia, acrescenta, precede Ia filosofia ne Ia filosofia Ia
menologia de Husserl e na filosofia dos valores de Max Schel-
ler, produziu em diversos setores um marcado acercamento 23. Martin Heidegger i Quê es Metafísica ?, trad. de X. Zu-
às fórmulas da philosophia perennis. biri, México, 1941, p. 58.
24. Paul Deussen, Die Elemerite der Metaphysik, 7.*, Leipzig,
1921, p. 5.
18. F. Brito, op. cit., p. 24. 25. Ver A. Diez Blanco, Historia de Ia philosophia contempo-
19. F. Brito, op. cit., p. 24. rânea, Valadolid, 1946, p. 266.
20. Oswald Külpe, Einleitung in die Philosophie, 7.a, Leipzig, 26. Angel Vassalo, i Qué es filosofia ? B. Ayres, Losada, 1945,
1915, p. 365. p. 23.
21. Wilhelm Windelband, Einleitung in die Philosofhie, 1923, 27. Juliári Marias, Introdución a Ia Filosofia, Madrid, 1947,
p. 10. cit. por Zaragüeta en Revista de Filosofia. Madrid IV, 1947, p. 308.
22. Alois Riehl, Einfürung in die Philosophie der Gegenwart, 28. Benedetto Croce, Lógica come scienza dei conceito puro,
5.% Leipzig, 1923, p. 5. Bari Laterza, 1909, p. 224.

28 29
storia: 1'una e 1'altra nascono a un parto".29 Da mesma
opinião é Gentile segundo o sul africano Bew.30
Importa, pois, determinar com precisão as idéias neste
particular e assinalar o sentido que daremos a esta dis-
ciplina. Reduzir a filosofia a ser apenas o relato dos sonhos
e visões humanas, "é una maniera, frisa F. de Sarlo, come
un'altra di negare 1'existenza delia filosofia quale forma
peculiare dei sapere".31
Diez Blanco, querendo sem dúvida justificar o pensa-
mento de Ortega, escreve: "Mientras que Ia ciência es im-
personal, hasta cierto punto, Ia filosofia depende muy prin-
cipalmente dei indivíduo que Ia hace y dei ambiente social
e histórico que Io envuelve. Por eso se puede hablar de
filosofia, pero no de ciência, inglesa o alemana. Y mientras
los científicos prescinden, ai estudiar su ciência, dela his-
toria de Ia misma, los filósofos no pueden prescindir de
Ia historia de Ia filosofia".32 Por sem dúvida que a filo-
sofia é, em larga proporção, filha do ambiente em que
surge e vincada pelas condições peculiares do autor. A
razão disto, porém, não se funda em nenhum determinismo
histórico, senão em que, versando pela maior parte a filo-
sofia sobre os valores, ressente-se, naturalmente, das varia-
díssimas apreciações que destes fizeram os homens nas di-
versas quadras do tempo e do espaço. Deduzir, porém, des-
tas diferenças, a absoluta relatividade do saber filosófico,
eqüivaleria a negar caráter objetivo aos valores, o que nos
levaria ao ceticismo absoluto.
"La historia de Ia filosofia, escreve Balmes, es Ia his-
toria de Ias evoluciones dei espirito humano en su porción
más activa, más agitada, más libre". 33 Considerada sob este
prisma e limitada a expor as opiniões dos filósofos e as
diversas soluções que deram aos problemas da sabedoria, é

29. Ibid. Ver ainda as págs. 338-341.


30. J. W. Bews, Life as a Whole, London, 1937, p. 216. JAYME BALMES
31. F. de Sarlo, II pensiero moderno, Firenze, 1915, p. 80.
32. Op. cit., p. 266. Um dos grandes expositores dos princípios
33. Balmes, Historia de Ia Filosofia, Prol. que constituem a filosofia perene

30
de sumo interesse para o estudioso, não apenas por satis- sem cuidar de sua natureza última nem do seu destino, e
fazer uma legítima curiosidade humana, senão, sobretudo, neste caso não sai do campo das ciências da natureza, ou
porque tal estudo nos auxilia grandemente a analisar e apro- o espírito intenta logo examinar de que forma nos são
fundar os aspectos de cada questão e, com freqüência, nos dados os elementos da experiência, qual a sua natureza e
sugere as soluções mais convenientes. Importa, sem embar- valor, que são as coisas em si ( dos gregos)
go, quando se escreve sobre esta matéria, não deixar-se levar de cuja existência nos dá testemunho a própria consciên-
por uma mal entendida imparcialidade, até o extremo de cia psicológica, e neste caso entra nos domínios da inves-
não oferecer a crítica dos sistemas e deixar no leitor a tigação autenticamente filosófica e metafísica.
impressão de que todas as opiniões possam ser igualmente Não se confunda, porém, essa análise da coisa em si,
verdadeiras. Nossa imparcialidade deve ser absoluta no que de que falamos, com o chamado método transcendental kan-
concerne à lealdade na exposição das doutrinas, mas a mes- tiano pois, apesar da aparente semelhança, são inteiramente
ma lealdade nos dita a obrigação de dizer o que achamos diversos.
destoante da verdade. Kant começa por separar originariamente os FENÔME-
Passemos agora a indagar sucintamente quais são os NOS dos NÓUMENOS. Os FENÔMENOS abrangem todo
assuntos sobre os quais versa a filosofia e o modo como nosso saber empírico que não é, em última análise, mais do
podemos chegar a eles. que uma série de representações de nossa consciência sem
outro valor transcendental. Os NÓUMENOS, que devemos
Antecedendo a toda determinação objetiva e a toda conceber, não como objetos do sentido, senão como COISAS
discriminação de subjetivo e objetivo, ideal ou real, con- EM SI, são "objetos puros do entendimento (bloss Gegens-
tingente ou necessário, distinções estas que são já resultan- tande des Verstandes) e que como tais poderiam dar-se numa
tes de posteriores elaborações de nossas faculdades cognos- intuição que não fosse a intuição sensível".34 Na base destas
citivas, devemos partir dos dados primitivos de nossa cons- noções Kant pergunta que podem ser tais COISAS EM SI,
ciência. Entendemos aqui, por consciência, não a moral mas abstração feita da forma que podem revestir em nosso conhe-
a psicológica, ou seja, as noções primárias, diretas, intuiti- cimento? Pergunta irrespondível e absurda porque, para res-
vas, mais ou menos distintas, dadas em nosso espírito no pondê-la, necessariamente teremos de nos valer de noções e
ato de conhecer. conceitos lógicos e estes já são excluídos pela pergunta. Por
Com efeito, pela consciência estabelecemos nosso pri- isso o próprio Kant responde logicamente com a negativa.35
meiro contato com a realidade — seja de que natureza for Instituída a reflexão filosófica sobre a interpretação do
— e só pela consciência é possível essa abordagem do ser, conteúdo e valor dos dados que nos subministra a consciên-
pois anteriormente ao exercício desta intuição cognoscitiva cia, assinalaremos, seguindo Amor Ruibal, três orientações
nada existe para nós, nem sujeito cognoscente, nem objeto gerais, que na história da filosofia se nos oferecem na solu-
cognoscível, nem realidade alguma determinável em cate- ção deste problema:
gorias. a) "La posición dei dogmatismo empírico que traduce
Ora, pressupostos os dados empíricos de que a cons- toda realidad por Ia percepción sensible, haciendo de esta per-
ciência direta nos prove, duas atitudes pode tomar o sujeito cepción ei objeto adequado dei ideal humano en ei conocer.
cognoscente: ou bem limita-se a estudar as coisas tal como
34. Kant, Kritik der reinem Vernunft, Ed. Reclam, págs. 254,
se lhe apresentam, investigando as condições em que os 248.
fenômenos se produzem e as relações mútuas das coisas, 35. Ibid., p. 255 et álibi.

32 33
b) La posición dei dogmatismo ideológico que halla en Nos seres contingentes podemos ainda distinguir duas
Ia idea toda realidad, o todo ei valor real dei ser objetivo. categorias: uma, a dos seres capazes de conhecer sua origem
c) La posición intermedia de un nexo real-ideal con e destino e aptos, portanto, para se dirigirem ao fim. Outra,
oscilaciones multiples en determinar Ia realidad y ei conteni- a dos seres incapazes de conhecer sua origem e seu destino
do de Io real respecto de Ia realidad, y ei contenido de Io real e que, por conseguinte, não podem dirigir-se. O fim destes
respecto de Ia idea, cuyo estúdio haremos oportunamente".36 seres é lei constitutiva do seu ser e eles o alcançam, indepen-
Esta última orientação dualista ideal-real, seguida por dente de seu conhecimento. A causa final preside a confor-
Platão e Aristóteles e por todas as escolas posteriores, que mação do universo inteiro, por isso nada escapa à sua orde-
em linhas gerais os acompanharam, funda-se no testemunho nação transcendente que tem sua origem na causa primeira
irrefragável da consciência e é logicamente irrecusável. de todos os seres.
Prosseguindo em nossa análise do dado consciente, admi- Do que fica exposto podemos já deduzir qual é o objeto
tido seu valor objetivo, ao refletirmos sobre a sua natureza do pensar filosófico. A filosofia estuda o ser necessário que
e existência defrontamo-nos fogo com dois modos de ser: é Deus e os seres contingentes que são o homem e as coisas
CONTINGENTE e NECESSÁRIO. O primeiro modo impõe- exteriores; noutras palavras, são objeto formal e adequado
se ao nosso entendimento com a evidência do imediatamente da filosofia as três ordens de realidades: divina, humana e
percebido, visto como a mesma consciência ao nos apresen- cósmica, consideradas em suas razões ou princípios últimos.
tar os dados da intuição empírica neles nos manifesta o co- Quando se toma em sua amplitude, sem as mutilações
meço ou termo de existências concretas, fato que, de per si, absurdas dos sistemas agnósticos, ou neo-kantianos, consti-
encerra o conceito da contingência. tue este estudo um empreendimento grandioso, digno de espí-
O modo necessário de existência, embora sua noção não ritos imortais, estudo que, se por vezes nos desalenta e de-
nos seja dada como intuição empírica direta e imediata — sespera, com mais freqüência nos proporciona horas de ine-
isto repugna intrinsecamente — não é, porém, menos evidente fável deleite, capazes de fazer inveja aos deuses do Olimpo
de maneira reflexa e deduzida, pois, suposta a existência real homérico.
do ente contingente, este inclui a existência real do necessá- O lugar da filosofia no conjunto das disciplinas huma-
rio, no qual ele acha razão adequada de existir e sem o qual nas é o mais central e principal. O Estagirita outorgava à
seria totalmente incompreensível. Ontologicamente Deus é o filosofia o papel de reitora e guia
ente primeiro, mas não o é cronologicamente, na ordem cog- de todas as ciências.
noscitiva humana, a menos que admitamos o ontologismo,
hipótese absolutamente gratuita e, por muitos conceitos, absur- Pode dizer-se que da filosofia dependem, para seu acer-
da. Nós não intuímos, em nossa condição carnal, o ser divino. tado encaminhamento, todas as atividades sociais, artísticas
Precisamos chegar a ele através de conceitos lógicos, analó- e políticas humanas. Com efeito, dela são os princípios redo-
gicos, que haurimos da contemplação de nossa experiência res das disciplinas que estudam: a possibilidade e condições
interna e externa, tal como nô-la oferece a consciência indi- de nosso conhecimento; a origem e destino do homem; a
vidual. necessidade da religião; os princípios supremos da ética e do
direito; a existência e a imortalidade da alma; a liberdade
humana; a origem da autoridade política; a natureza e con-
36. A. Amor Ruibal, Problemas fundamentales de Ia Filosofia dições de beleza, etc, etc. Se estes princípios forem bem for-
y dei Dogma, I, Madrid, sxl., p. 3. mulados e aplicados, o progresso será um fato; mas se não o

34 35
forem, o desastre pode ter conseqüências incalculáveis. Seria,
porém, exorbitar a questão, deduzir que a filosofia é como
um resumo e compêndio de todas as ciências. A verdade pura
é que a filosofia estuda apenas os princípios últimos do sa-
ber humano que transcendem e em parte servem de norma
a todas as ciências do espírito.
Com respeito à teologia, cumpre à filosofia viver em
perfeita harmonia e acordo com ela. Para isto deve partir do
princípio de que a verdade não pode contradizer a verdade,
por conseguinte, sendo a verdade revelada certíssima (como
se deduz dos motivos de credibilidade de que trata a apolo-
gética), em muitos casos servirá ao filósofo, embora que de
modo indireto, para não se afastar da mesma verdade eterna.
O que acontece é que o homem moderno, possuído de orgu-
lho desmesurado, sacudiu o jugo de toda autoridade e pre-
fere caminhar às cegas topando a cada instante nos calhaus
da estrada, antes que ser dirigido por autoridade nenhuma,
sequer seja a de Deus.
Não foi este o exemplo que nos legaram nossos grandes
mestres do passado: Orígenes, Clemente de Alexandria, os
Nazianzenos, Sto. Agostinho, Sto. Anselmo, Sto. Tomás, Des-
cartes, Leibniz, Suárez, Balmes, Amor Ruibal e tantos e tan-
tos outros gigantes do pensamento, possuidores de inteligên-
cia pujantíssima e perspicaz, bem superior à de tantos pig-
meus do racionalismo e do empirismo que se querem arvorar
em mestres e guias do pensamento.
Os que, porém, tiverem aptidões e pendores para a espe-
culação filosófica, saibam que, indo guiados por um sincero
amor à verdade podem navegar pelo dilatado mar da sabe-
doria sem temor de tropeçar nunca com dogmas em oposição
formal com os princípios do intelecto humano.
A verdade é que a fé e a ciência se prestam mútua aju-
da, como bem o compreendeu Clemente Alexandrino quando
dizia: Sífcíão conheço sabedoria sem fé nem fé sem sabedo-
ARISTÓTELES SANTO ANSELMO ria"37.
Quem primeiro formulou Precursor original da filosofia cristã,
os problemas da filosofia perene que escreve com a beleza e o fervor
de um filósofo existencial 37. Clemente Alexandrino, Stromata, L.V. 1, Migne, P.G.t.9.,
?. 10.
35
37
Agora indagamos: com a enorme difusão, posto que não
em profundeza, que atingiram nos tempos modernos os estu-
dos filosóficos, tornou-se a vida do homem mais satisfeita e
feliz? Estão as filosofias da hora presente fadadas com auspi-
ciosos sinais a devolver ao mundo, pacíficas, venturosas for-
mas de humana convivência? Ou pelo contrário, se prosse-
guirmos no mesmo rumo até tirarmos as derradeiras conse-
qüências que encerram os sistemas imperantes na hora, não
estaremos correndo o risco de uma derrocada abissal que arra- Capítulo III
saria esta civilização cristã-ocidental de que legitimamente
nos orgulhamos? Acostumados a contemplar o mundo e a
A ATUALIDADE FILOSÓFICA
história pelo prisma de nossa cultura, reduzindo assim con-
sideravelmente o ângulo de visão e ainda envolvendo o Cris-
tianismo como elemento inseparável desta civilização que em
alto grau o assimilara, custa-nos hoje compreender, pensar Ortega y Gasset, finíssimo observador, sensível às mais
sequer, num mundo em que o Ocidente não ocupasse mais o leves pulsações da vida intelectual, confessava paladinamente
lugar hegemônico que vem desfrutando desde muitas cen- que "todo en Europa se há vuélto cuestionable". De pouco
túrias. serve que logo, com um otimismo ainda mais questionável,
nos diga: "El que nuestra civilización se nos haya vuelto
Não nos iludamos, porém. Para Deus isto nada conta, problemática, ei sernos custionables todos sus princípios sin
e menos ainda Lhe custará suscitar na Ásia, berço da huma- excepción — o grifo é de Ortega — no es, por fuerza, nada
nidade e assento de culturas milenárias, ou noutra qualquer triste, ni lamentable".38 Registremos apenas o fato: tudo, sem
parte do universo, novas e magníficas cristandades que de- exceção, é problemático e questionável. È este o lado interno
senvolvam um tipo de civilização mais humana, mais im- da chamada "anarquia de sistemas".39 Quem mergulha na
pregnada do sobrenatural e mais leal a Cristo do que esta imensa floresta bibliográfica atual da temática filosófica, para
nossa fementida, crepuscular, civilização do Ocidente. logo fica atônito perante o incessante pulular de variados
E agora, outra pergunta: não devemos retornar à filoso- sistemas e nomenclaturas filosóficas.
fia perene, à procura de mais sólidos alicerces para funda- Ferrater Mora, em seu recente livro sobre a filosofia
mentação de formas de viver mais apropriadas, a fim de atual, após breves páginas sobre a "discórdia filosófica con-
sairmos ao encontro da ameaça catastrófica que paira sobre temporânea", não sem certo humorismo, oferece-nos "alguns
o mundo ocidental? exemplos" das novas concepções que, data venia, transcre-
vemos aqui, pois, melhor que longas explicações, nos dará

38. José Ortega y Gasset, Meditación de Europa, Obras inédi-


tas, Madrid, Rev. de Occidente, 1960, p. 26.
39. Esta frase é hoje comum para exprimir a atual atomização
e confusão reinantes no mundo filosófico. Dela se serviu, no próprio
título de sua Comunicação ao XI Cong. Intern. de Filosofia, A. P.
Carpio. The Anarchy of Systems and The Theory of Truth, Actes
du Xlème C. Int. de Philosophie, Bruxelles, 1958, t. I, p. 13.

38 39
idéia da "anarquia de sistemas" reinante: "De un modo o lógica e leva, por conseguinte, à constante divisão, subdivi-
de otro he mencionado Ias tendências siguientes: idealismo, são e amálgama das mais variadas doutrinas. A causa prin-
actualismo, personalismo, realismo, neo-realismo, realismo cipal, porém, da anarquia, devemo-la buscar originariamente
crítico, filosofia realista, inmanentismo, neutralismo, evolu- na tendência sempre crescente a um subjetivismo filosófico
cionismo, emergentismo, pragmatismo, intelectuaíismo, ope- e religioso sem limitações. Famosa se tornou aquela expressão
racionismo, intuicionismo, irracionalismo, racionalismo, feno- fichteana: "Was für eine Philosophie man wãhle, hángt da-
menologia, existencialismo, positivismo lógico, empirismo ló- von ab, was für ein Mensch sei".41 "A classe de filosofia
gico, empirismo científico, filosofia analítica, filosofia dei que se elege, depende da classe de homem que se é", e dá a
espiritu, marxismo y neoescolasticismo. En modo alguno pre- razão, pois "um sistema filosófico não é um utensílio morto
tendo que estos ejemplos agoten ei repertório. Muchas otras de que se pode botar mão ou não, quando nos apraza, senão
concepciones podrían figurar en él. Por ejemplo: behavio- que está animado pela alma do homem que o tem". Claro
rismo, convencionalismo, empiriocríticismo, espiritualismo, está que literalmente entendida, como parece que a entendeu
fenomenismo, formalismo, historicismo, modernismo, panca- Fichte, esta sentença, que fez tanta fortuna, é a consagração
lismo, solipsismo, vitalismo — por no decir nada de tendên- plena do subjetivismo em filosofia. Argüe-se: o pensar filo-
cias de índole más tradicional convenientemente acomodadas sófico não é algo impessoal, como os descobrimentos ou in-
a Ia usan?a contemporânea, como ocurre con ei atomísmo, venções técnicas, ou como as leis físicas e matemáticas? A
conceptualismo, criticismo, determinismo, dogmatismo, dua- filosofia envolve toda a pessoa do pensador; sua obra não é
lismo, eclecticismo, escepticismo, humanismo, individualismo, uma descoberta, porém uma criação, em tudo análoga aos
nominalismo, optimismo, pesimismo, pluralismo, sensualis- produtos do poeta ou do artista. Por esta razão o historiador
mo, subjetivismo, trascendentalismo, voluntarismo —. $1 re- da filosofia não se há de limitar a estudar os sistemas em si
pertório podría, además, enriquecerse con Ia mención de mesmos e em suas relações recíprocas. Ele deve, se quiser
nombres de escuelas albergadas en lugares específicos — co- obter resultados autênticos, olhar os sistemas como fruto do
mo Ias escuelas de Baden, Cambrigde, Gallarate, Lovaina, espírito do tempo e dos homens cujos dotes refletem a vida,
Marburgo, Milán, Oxford, Upsala, Varsovia, Viena y Zürich história e modos de um determinado povo.
— o con Ia referencia a orientaciones características de cier-
tos países, como ei actualismo y ei problematismo italianos, Harold Hõffding pergunta-se também pelos fatores que
mais influem no trato e soluções dos grandes problemas filo-
ei perspectivismo y ei raciovitalismo espanoles, ei experimen-
sóficos, e responde que "Ia personalitá dei filosofo si deve
talismo francês, ei idoneísmo suizo y ei reísmo polaco. Pa-
porre in primo luogo"42 porque, se esses problemas têm em
rece, pues, que en filosofia contemporânea todo es posible".40
comum acharem-se nos limites do conhecimento humano,
onde os métodos das ciências exatas são perfeitamente inú-
A que se deve, porém, este fenômeno? Várias e mui di-
teis, segue-se, de modo inevitável, que a personalidade do
versas são as causas. Com a generalização, quase diríamos
pensador determine a direção do pensamento.
democratização, dos estudos filosóficos e o relaxamento si-
multâneo que se verifica para com toda autoridade — tanto Sem dúvida, as condições de vida e do meio ambiente
religiosa como social ou doutrinária —, as antigas escolas e em que vive o pensador influem e às vezes condicionam sua
sistemas perderam sua coesão e sucedeu-lhes um desorbitado
41. J. G. Fichte, S&mtliche Werke, Berlim, 1845, I, 434. Cit.
sincretismo que, pela sua própria índole, carece de coerência por Eisler, Wôrtebuch der philosophischen Begriffe, 4.", Berlim, 1929
verbete Philosophie, II, 441.
40. José Ferrater Mora, La filosofia en ei mundo de hoy, Ma- 42. Harold Hõffding, Storia delia filosofia moderna, trad. ita-
drid, Rev, de Occidente, 1959, p. 38-39. liana por Martinetti, Turin, 1913, vol. I, p. X.

40 41
filosofia. "Ê a tragédia da própria filosofia que toda deter- actual su nivel máximo",44 veio se processando desde o início
minada fixação da verdade só tenha vital interesse para o e simultaneamente com a filosofia moderna. "Estamos nave-
tipo humano que lhe corresponda".43 gando, vários siglos ya, diz com exação Ortúzar, en un hervi-
Isto, bem entendido, é aceitável. Coisa, porém, inteira- dero de filosofias divergentes y en ciertos aspectos contradi-
mente diferente é afirmar, na linha do pensamento fichteano tórias, pero coincidentes todas en no dejar via libre a nin-
e de outros, que a especulação filosófica representa o fruto guna concepción, que sea de Ia natureza o de Dios, si no
da imaginação criadora; que o "homem é a medida de todas lleva Ia impronta subjetivista".45 E Cousin receiava que a
as coisas" e à sua ação se subordina assim a ordem da reali- prodigiosa quantidade de sistemas, "formant une masse con-
dade como a dos valores. fuse, un chãos, un vrai labyrinthe ou mille routes se croisant
en tous sens, ne permettent pas de s'orienter", a muitos desen-
Legitimado por esse subjetivismo, prolifera em nossa corajasse do estudo filosófico.46
época o mais desenfreado individualismo de pensadores que
assim procuram, não propriamente aumentar e reelaborar o Muito embora a multiplicidade de sistemas venha se pro-
cabedal de verdades adquiridas, porém assinalarem-se por cessando, com ritmo acelerado, nos três últimos séculos, o
alguma originalidade, quando não nas idéias, coisa tão difí- objeto de nosso trabalho são apenas as correntes de pensa-
cil, pelo menos nalgum bizantismo verbal, Referindo-se à mento que denominamos de FILOSOFIAS DA HORA. Qual
anarquia e à falta de profundidade que reinam no campo da é porém, o horizonte temporal destas filosofias? Posto que
especulação filosófica contemporânea, o gênio filosófico que nos referimos à atualidade, de que ponto ou data devemos
foi Amor Ruibal assim se exprimia numa carta: "El deseo partir? É um fato que todas essas filosofias, isto é, as que
desorientado de novedades y Ia incapacidad para una labor têm vigência na atualidade, são continuação ou têm sua fonte
constructiva que imponga en ei campo heterodoxo su jefa- próxima de inspiração, nas filosofias imediatamente anterio-
tura ocasiona ese universal desconcierto entre sus filósofos, res, razão pela qual afirma justamente Ferrater Mora que, na
empequeneciéndolos cada vez más" (Esta carta, junto com exposição ou exame de qualquer filosofia, não se pode pres-
outras cinco a nós dirigidas pelo sábio Mestre foram insertas cindir "de una cierta dimensión histórica".47 Por esta razão
por Gómez Ledo em sua bela obra: Amor Ruibal 6 La sabi- e havendo de assinalar uma data, que nestas matérias há de
duría con sencillez, Madrid, 1949, 317-326). Esquecem mui- ser inevitavelmente um tanto arbitrária (do mesmo modo que
tos que o progresso histórico da filosofia não consiste em no ensaio de Ferrater, cujo título, La filosofia en ei mundo
adquirir de um modo contínuo e sistemático fatos novos, mas de hoy, é análogo ao de nosso tema), abrangeremos o espaço
em aprofundar e perfilar aquelas grandes questões que inte- que compreende nosso século, dando preferência e mais am-
gram seu conteúdo, à medida que a experiência humana se plidão, está claro, às correntes ou derivações que mantêm
enriquece no decorrer dos séculos. maior atualidade.48
Sem embargo, a anarquia dos sistemas filosóficos, con- 44. Op. cit., p. 23.
quanto, como diz Ferrater Mora, "haya alcanzado a Ia hora 45. Martin Ortúzar, El ser y Ia acción en Ia dimensión humana,
Madrid, revista Estúdios, 1961, p. 4.
46. Victor Cousin, Histoire générale de Ia Philosophie, Paris,
1864, p. 4.
43. "Es ist die Tragik der Philosophie selbst, dass jede bes- 47. Op. cit., p. 13.
timmte Wahrheitssicherung auch nur für einen entsprechenden Typ 48. Julian Marias, sob a epígrafe La fitosofia de nuestro tiempo,
lebensbestímmend ist". Alois Dempf, Selbstkritik der Philosophie uhd "compreende os filósofos e sistemas vindos à luz no último quartel
vergleichende Philosophiegeschichte im Umriss, Viena, Herder, 1947, do século XIX", Historia de Ia filosofia, 4." ed., Madrid, Revista
p. 126. de Occidente, 1948, p. 352 ss.

42 43
Capítulo IV

CLASSIFICAÇÃO SISTEMÁTICA

O sincretismo é a nota dominante na filosofia contem-


porânea. Na maioria dos países a iniciação filosófica dos alu-
nos e os estudos superiores de filosofia não obedecem a ne-
nhuma linha sistemática e unitária. Todos os grandes siste-
mas, ainda os mais contraditórios, deverão ser apresentados
e discutidos pelos alunos desde as aulas do ginásio até as da
universidade, recebendo, de cada um dos mestres, uma orien-
tação filosófica diferente. Resultado? A desaparição comple-
ta de toda disciplina sistemática ou de escola e o predomínio,
na bibliografia filosófica, de autores e livros em que se amal-
gamam doutrinas ou elementos dos sistemas mais heterogê-
neos e amiúde contraditórios.
Gustavo Teodoro Fechner, em seu livro de confissões
A visão diurna em face da visão noturna, compara a moder-
na filosofia com a Penélope angustiada, em primeiro lugar
porque continuamente desfaz o tecido que tecera e, em se-
guida, porque tem muitos pretendentes, e não esposa nenhum
deles.49 É o que ocorre na atualidade: os filósofos fazem e
desfazem, combinam ou dissolvem e, por via de regra, não
esposam definitivamente nenhum sistema.
Compreende-se, pois, a dificuldade que oferece a classi-
ficação de pensadores e de sistemas para emoldurá-los em
49. Cit. por Max Ettlinger, Philos. Fragen der Gegenwart,
Kempten u. München, 1911, p. 279.

45
caixilhos perfeitamente definidos. Fogem a todo ensaio lógi- Nossa tese não é um trabalho de história da filosofia,
co de enquadramento, ou melhor, comportam logicamente senão de análise, comparação e crítica de idéias; não inten-
inúmeras classificações, dependendo apenas do ponto de vista tamos ser exaustivos na enumeração e exposição de sistemas.
ou da perspectiva escolhida; daí a grande diversidade e mes- Limitamo-nos, de acordo com nosso objetivo, àqueles siste-
mo perplexidade que provocam em todos os tratadistas e mas ou correntes doutrinárias que, a nosso juízo, exercem
modernos historiadores da filosofia de passadas centúrias, em maior influência nos espíritos de nossos contemporâneos e
que a coincidência na divisão e classificação de escolas e por conseguinte, sem pretender a rigor sistemático, agrupa-
pensadores é quase a mesma em historiadores das mais opos- remos as doutrinas em torno das correntes de maior signifi-
tas tendências. cação no momento.
Já em começos do século, Frischeisen-Kõhler,50 no em-
penho de classificar a filosofia moderna, manifestava-se im-
pressionado com o doloroso espetáculo de confusão e de de-
soladora anarquia que reinava no mundo dos filósofos. Não
de modo diferente se exprime também Riehí.51 Essas perple-
xidades e hesitações no delineamento do quadro da filosofia
atual, acham-se com freqüência em muitos expositores, v.g.
González Alvarez,52 E. Breton,53 Hans Pfeil54 e Johanes Hes-
sen.55 Baumann optou por dar-nos um catálogo enumerativo
das doutrinas segundo os autores;56 bem como a clássica his-
tória de Überweg-Heinze faz a exposição seguindo uma ordem
geográfica de países. Gómez Izquierdo, em sua excelente ex-
posição da filosofia do século XIX, sem pretender realizar
uma sistematização rigorosa de filósofos e escolas, intenta
um esboço de classificação "agrupando-os pela razão da afi-
nidade das doutrinas".57

50. Moderne Philosophie, Stuttgart, 1903, p. S.


51. Alois Riehl, Zur Einfürung in die Philosophie der Gegen-
wart, Leipzig, 1903, p. 236.
52. Historia de Ia filosofia en cuadros sinópticos, 4.*, Madrid,
EPESA, 1958, p. 120, 121.
53. Situation de Ia philosophie cõntemporaine, Paris, E. Vitte,
1959, p. 9-18.
54. Grundfragen der Philosophie in Denken der Gegenwart, Pa-
derborn, F. Shõning, 1949, p. 9-15.
55. Die Philosophie des 20 Jahrhunderts, Rottenburg, 1951,
p. 11-17.
56. Julius Baumann, Deutsche und ausserdeutsche Philosophie.
57. Alberto Gómez Izquierdo, Historia de Ia filosofia en ei
siglo XIX, Zaragoza, 1903, p. 7.

46 47
Capítulo V

PERVIVÊNCIA DE VELHOS SISTEMAS58

A) CRITICISMO KANTIANO — A filosofia de Kant


passou, através de largo século e meio de vida, por várias
vicissitudes e alternativas. O seu impacto, na vida filosófica
do ocidente, foi enorme e pôde assim manter, posto que não
sem várias metamorfoses, sua vigência continuada. Não são
menos verdadeiras, hoje, que em 1891, quando foram escri-
tas, as palavras de Menéndez Pelayo: "Apréciese como se
quiera Ia obra de este memorable pensador, a nadie es lícito
hoy filosofar sin proponerse antes que todo los problemas
que él planteó, y tratar de darles salida. Grande fué su in-
fluencia histórica, manifestada por todo ei desarrollo de Ia
filosofia moderna".59
O dualismo radical do criticismo kantiano, em si mes-
mo insustentável, conduzia necessariamente ao idealismo abso-

58. Usamos o neologismo "pervivência" e sabemos que não fi-


gura nos léxicos. Entretanto é de formação morfologicamente impe-
cável e, no aspecto semântico, não achamos outro que o possa subs-
tituir, sem recorrer a um circunlóquio. A partícula PER, em com-
posição, assim no latim como nas línguas românicas, acresce a signi-
ficação de CONTINUIDADE, DURAÇÃO, v.g.: PERDURAR =
manter-se, subsistir, PERSEVERAR = durar por longo tempo, PE-
RORAR = seguir falando. A idéia expressa na epígrafe deste pará-
MENENDEZ PELAYO grafo é a da continuação de vida dalgumas filosofias: PERVIVER =
Para quem a Filosofia Perene seguir vivendo.
constituiu o substrato de suas idéias estéticas 59. M. Menéndez Pelayo, Ensayos de crítica filosófica, Edición
e de seus ensaios histórico-filosóficos Nacional de Ias obras completas, XLIII, Madri, 1958, p. 139.

48 49
luto ou ao agnosticismo. Com efeito: todo o conhecimento
Por sua vez, em contraste com a máxima esterilidade
deriva da experiência, mas esta só pode ter lugar na síntese
científica do idealismo, as ciências naturais alcançavam enor-
do dado experimental com as formas a priori. Acontece, po-
rém, que as formas a priori, tanto da sensibilidade como do mes êxitos, utilizando-se dos métodos experimentais cada vez
entendimento, são inteiramente subjetivas e por conseguinte mais aperfeiçoados. A comparação era inevitável e a eleição
nada nos dizem das essências das coisas, da COISA EM SI, estava feita: a filosofia com suas fantásticas construções,
que Kant declara absolutamente incognoscível. Deste modo, nada valia e de nada servia; era preciso que desse lugar à
nosso conhecimento fica confinado no mundo dos fenôme- ciência, única digna do homem moderno. Além disto, en-
nos, A conclusão é obvia; se nada conhecemos da COISA quanto na Alemanha dominava despótico o idealismo abso-
EM SI, como afirmar a sua existência? Portanto, assim racio- luto, cresciam na Inglaterra e na França sistemas de sinal
cinaram seus discípulos mais imediatos: fora com todas as oposto, isto é, materialistas. Estas direções demoram em se
realidades assim físicas como metafísicas; nada existe afora fazer sentir na Alemanha, mas à medida que o idealismo ia
o sujeito pensante, autor único das mesmas impressões que perdendo crédito foi também aparecendo lá, como numa fu-
atribuímos ao mundo exterior. são do materialismo darwiniano e do positivismo de Comte,
o materialismo germano.
Por outra parte, se não conhecemos ou mesmo se não
Assim sendo, vários pensadores, enfastiados daquela si-
existem as COISAS EM SI; se o entendimento especulativo
tuação, julgam achar um fundamento filosófico seguro, para
não pode atingir as essências das coisas, que constituem pre-
fugir ao materialismo e ao idealismo reinantes, no retorno a
cisamente o objeto da metafísica, fora com esta, a ciência
Kant. Para expressar-nos com Lange: "Do mesmo modo que
humana ficará fatalmente limitada aos objetos da experiência
um exército derrotado busca em redor um ponto seguro onde
sensível; sobre as entidades espirituais ou meramente ultra- espera reunir-se e pôr-se novamente em ordem, assim tam-
experimentais pesará o eterno ignorabimus; as coisas e ope- bém em todos os círculos filosóficos ouvia-se o brado: 'auf
rações cuja existência nos testemunha a consciência não se- Kant zurückgehen!', voltemos a Kant".60 O próprio Lange
rão mais que ilusões vãs. deu grande impulso a esse retorno com a enérgica refutação
Este último será o partido do positivismo como o ante- que fez do materialismo em sua famosa História do materia-
rior o foi do idealismo absoluto do romanticismo germânico. lismo. Em termos precisos descreve esta reação kantiana
Esta dupla orientação do pensamento seguirá em dire- Delgado Varela: "Como una doble reación se produjo en ei
ções cada vez mais opostas até meiados do século XIX. O panorama filosófico de Europa Ia 'vuelta a Kant': primero,
idealismo, desprezando os dados sensíveis e o caminho se- contra los epígonos kantianos, Fichte, Schelling y Hegel, que
guro das aquisições científicas, constrói belas e grandiosas habían llevado ei kantismo precipitadamente a zonas de pura
estruturas, sem base nenhuma na realidade. Kant, que ainda idealidad, ai idealismo transcendental o absoluto; segundo,
admitira o dualismo fenômeno-coisa-em-si e os postulados da contra Ia comente positivista que había llegado ai craso y
razão prática, é quase de todo esquecido; Hegel passa a do- multitudinario materialismo. Europa sueria con ei sistema uni-
minar sem competidor; durante vários anos, e para deses- i tário que todo lo explique, que venza, de una vez para siem-
pero de Schopenhauer, sua filosofia é oficial nas universida- pre, todas Ias dificuldades que Ia humanidad encontro en su
des germânicas. O idealismo subjetivo e fantasioso reina lento peregrinar, y de ahí dos sistemas unitários opuestos,
soberano. Isto levou ao maior descrédito e metafísica e ainda
toda a filosofia identificada, na opinião geral, com aqueles
60. Fr. A. Lange, Geschichte des Materialismus, 2." ed., Leipzig,
poemas filosóficos do idealismo. Reclam, 187S, v. II, p. 2.

50 51
dos monismos: ei ideal forjado por ei continuo bullir de cate- prezando formas ou expressões mais ou menos condicionadas
gorias a priori, y ei real o material, inmerso en Ia experiência pelo tempo em que escreveu. "Não insistiríamos, assevera
sensible".61 Natorp, em sepultar o corpo desta filosofia contanto que
Ao lado de Lange, e de Hemholtz, teve considerável vivesse seu espírito".63
influência na reabilitação de Kant o jovem e fogoso kantia- Com Kant negam os neocriticistas a possibilidade de
no Otto Liebmann. Em sua obra, Kant e os epígonos (1865), metafísica e reduzem toda a filosofia à gnoseologia. O mundo
assinala o caminho errado que na interpretação de Kant se- da cultura está demarcado em sua integridade pelas três
guiram seus adeptos e aos quais culpa do funesto divórcio ciências, lógica, ética e estética. Segundo o mestre de Kõnigs-
a que chegaram a filosofia e as ciências da natureza. Lieb- berg todo conhecimento é resultado de dois fatores: as intui-
.mann terminava todos os capítulos do seu livro com o estri- ções fenomênicas e as formas a priori. A escola de Marburgo
bilho: "es muss auf Kant zurückgegangen werden", "portan- rejeita esse dualismo. Segundo eles, a sensação não é fator
to, é indispensável voltar a Kant".62 do conhecimento, antes se parece com o X duma equação
matemática, é a incógnita que o entendimento por si há de
Qual foi pois o ensino de Kant? Qual o sentido geral de descobrir. Ê mediante as categorias, que são pura criação do
sua filosofia e de seu método de filosofar? As respostas a pensar, que o pensamento lógico resolve a incógnita, mas
estas interrogações agruparam-se em duas escolas, que por com dependência da sensação no sentido kantiano, isto é,
sua vez atraíram grande número de filósofos notáveis: a como síntese do elemento material com as formas a priori.
escola de Marburgo e a de Baden. A influência posterior des- "Rechazada Ia experiência como factor de conocimiento, re-
sas escolas, não apenas na Alemanha, mas no mundo inteiro, sume González Alvarez, queda en pie Ia sola razón discursi-
foi considerável, e ainda se faz sentir de modo especial no va. La filosofia se identifica con ei despliegue progresivo de
campo ético e jurídico. los juicios, versando sobre ei producto mismo de Ia actividad
Se todos os neokantianos ou neocriticistas, como são cognoscitiva, esto es, de Ias puras relaciones lógicas, inma-
mais comumente chamados, coincidem na exigência de voltar nentes a los conceptos mismos. La filosofia queda, de esta
a Kant, já não se acha a mesma coincidência na interpreta- manera, reducida a los limites de Ia lógica".64
ção da filosofia do mestre de Kõnigsberg. Assim, a escola de Marburgo dissolve toda realidade em
A escola de Marburgo teve por seu chefe indiscutível, puro logicismo ou panlogismo, desde a metafísica até a ética
durante muitos anos, a Hermann Cohen e a ela pertenceram e ao próprio Deus. Nada mais pobre do que a filosofia da
também Natorp, Cassirer, N. Hartmann, Paulsen, Vorlander religião de Cohen e de Natorp. Eles nem ante a existência
e o notável jurista Rodolfo Stammler. de Deus se detiveram e negaram validade aos postulados
kantianos, negando a demonstrabilidade e existência de Deus.
Mais que seguir ^literalmente a Kant, a escola de Mar-
Para Cohen, Deus é simplesmente a idéia moral e a religião
burgo procura interpretar o genuíno espírito do filósofo, des-
fica dissolvida na ética e na cultura. Natorp, mais radical
ainda, substitui a idéia de Deus pela idéia da Humanidade
61. José M. Delgado Varela, La Gracia divina en ei Correla-
tivismo (Publicaciones dei Monasterio de Poyo — 2, Madrid, re- em sentido comtista e confina totalmente a religião na cul-
vista Estúdios, 1961), p. 10 — A palavra correlativismo é perfilhada
pelo mesmo Delgado Varela como a mais apta para exprimir a 63. Cit. por J. Hessen, Die Philosophie des 20 Jahrhundert,
natureza do sistema filosófico originalíssimo de A. Amor Ruibal. Rottenburg, 1951, p. 42.
62. Ernst v. Aster, Geshichte der Philosophie, Leipzig, 1932, 64. A. González Álvarez, Historia de Ia Filosofia en cuadros
p. 344. esquemáticos, 4." ed., Madrid, EPESA, 1957, p. 42.

52 53
tura, privando-a de toda transcendência. Diz Delgado Varela: idealismo romântico alemão. Quando este se encontrava em
"Los filósofos de Ia 'vuelta a Kant', los neokantistas y neo- franco declínio na sua pátria e as vozes de "retorno a Kant"
criticistas, coinciden con ei materialismo y cientifismo deci- se faziam ouvir insistentes, surge vigoroso o culto e admira-
monónicos en negar a Dios y todo orden real transubjetiva ção por Kant e sobretudo por Hegel — razão por que o mo-
superior ai hombre. Dios y Io sobrenatural no existen. Tam- vimento anglo-americano é também chamado de neohegelis-
poco Ia ciência que preside ei estúdio de estas realidades: Ia mo — naqueles dois países saxônicos.
ontologia. Nos encontramos con ei punto álgido dei agnos-
ticismo religioso, ya de orden idealista, como en ei neocriti- Com efeito, na Inglaterra e nos Estados Unidos só na
cismo kantiano, ya de signo positivista o pragmatista, como segunda metade do século XIX foi dada atenção e importân-
en los filósofos de Ia experiência, de Ia acción y de Ia vida".65 cia ao idealismo transcendental germânico, especialmente em
sua versão hegeliana. Introduzido na Inglaterra por James H.
Simultânea com a de Marburgo floresceu também a Stirling, Thomas H. Green, Hohn Caird, Bernard Bosanquet
escola de Baden, cujas figuras principais eram Windelband, e nos Estados Unidos pelo grupo de St. Louis, com a revista
Rickert e Emilio Lask. Também eles procuraram antes de The Journal of Speculative Philosophy, sob a direção de
tudo desenvolver o kantismo, sem sujeitar-se muito à inter- William T. Harris e com Josiah Royce e James E. Creigton,
pretação literal. Como os pensadores de Marburgo, acentuam gozou desde o último quartel do século passado, até a Se-
o caráter criador do nosso pensamento; rejeitam a COISA gunda Grande Guerra, enorme predomínio no pensamento
EM SI kantiana e toda realidade independente da consciência. anglo-americano, principalmente sob o magistério indiscutí-
Entretanto não coincidem com aqueles na redução da filo- vel de Francis H. Bradley (1846-1924).67
sofia à pura gnoseologia. Para a escola badense a filosofia
deve considerar-se como filosofia da cultura universal e estu- Bertrand Russel que, segundo ele próprio afirma, come-
do dos valores. Talvez constitua o maior mérito desta escola a çava a estudar seriamente a filosofia no ano (1893) em que
ênfase que deram seus representantes aos valores e os magní- Bradley publicava sua obra mais importante, Appearance
ficos estudos que origindu sobre esse aspecto da filosofia. and Reality, declara que este livro produziu nele e em seus
contemporâneos grande entusiasmo e encarece os esforços de
Os neo-kantianos absorveram durante muitos anos a Bradley para a aclimatação da filosofia alemã na Inglaterra.68
atenção filosófica do mundo. Hoje, se excetuarmos a filosofia Pelo que se refere aos Estados Unidos, observa W. Riley
do direito, é muito menos perceptível sua influência, muito que, por aqueles anos, a influência alemã no pensamento
embora alguns daqueles autores achem ainda leitores para norte-americano "have been the most significant".69
várias de suas obras, não as puramente filosóficas mas as
críticas ou históricas. A filosofia desse grupo de pensadores sentia verdadeira
predileção por Hegel. Harris, servindo-se da revista antes
Carreras afirmava já em 1934 que "ei criticismo neo- mencionada, envidou todo o esforço por "fazer a Hegel falar
kantiano retrocede hoy en sus posiciones y a juzgar por una
multitud de sintomas, ha entrado en Ia agonia".66 67. G. Watts Cunningham, English and American Absolute Idea-
lisme, in A History of Philosophical Systems, edt. by Vergüus Ferm,
B) O IDEALISMO ABSOLUTO ANGLO-AMERICA- New York, s.d., p. 315-327.
NO — O idealismo anglo-americano é um fruto seródio do 68. Bertrand Russel, Philosophy of the Twentieth Cenfury,
Twentieth Century-Philosophy, edit. by Dagobert Runnes, New York,
65. Op. cit., p. 11. 1943.
66. J. Carreras Artau, Filosofia, in Enciclopédia Esposa, Suple- 69. W. Riley, American Thought from Puritanisme to Pragma-
mento de 1934, Barcelona, 1934, p. 347. tisme and Beyond, New York, H. Holt, 1923, p. 229.

54 55
em inglês". Neste pensador, ou melhor, no hegelianismo, calmente negativo. Creio, pois, que não serão muitos os que
esperavam achar armas com que aplastar o monstro de três com Muirhead lamentem que "não chegasse ainda o tempo
cabeças: anarquia em política, tradicionalismo em religião e em que seja possível uma apreciação de conjunto da obra do
naturalismo na ciência. Este movimento representou — na pensador mais original (?) de nossos tempos".73
opinião de Muirhead — uma verdadeira "ressurreição da
O historiador Guido de Ruggiero, nada suspeito, pois
metafísica" na Inglaterra.70 Não se pode, entretanto, identi-
é ele também idealista, indaga: "Que queda hoy de aquel
ficar o idealismo de Bradley, Bosanquet ou Royce com o
idealismo neo-hegeliano anglo-americano? Sus más grandes
idealismo transcendental de Hegel, e eles mesmos fazem ques-
corifeos han muerto y no Se hallan ya casi rastros de su
tão de distingui-lo.71
ensenanza".74 Por sua parte, Evans afirma que "muito em-
Bradley denomina seu sistema de idealismo absoluto. bora reconheçamos a poderosa influência daqueles pensado-
Para ele, a Natureza é o que resta de existência, quando res idealistas em nossa herança cultural, este reconhecimento
abstraímos na experiência tudo que é psíquico. A natureza não passa de um respeitoso tributo aos mortos".75
é pura aparência e é fora que temos de procurar a realidade:
"O mundo físico é para cada um de nós uma abstração da
realidade total".72
Que coisa é, porém, a realidade? É o Absoluto tomado
"como única experiência total que abarca e põe de acordo
todas as diferenças parciais". O Absoluto é a experiência
concreta e absolutamente completa de modo que nossos con-
ceitos de espaço e tempo, alma e corpo, a natureza, o eu e
até o bem e o mal nada mais são que abstrações do todo
Absoluto e, enquanto abstrações, não são realidades, e se por
tais as tomarmos, tornar-se-ão ilusões. Assim, pois, é esse
Absoluto que, como a idéia hegeliana, jaz no fundo do ser,
a um tempo universal e concreto, e que nós alcançamos nu-
ma "intuição imediata" por cima de toda a experiência.
Bradley e os outros neo-hegelianos, embora mantendo
entre si certas desinteligências, coincidiram em combater
acerrimamente o empirismo e o dogmatismo. Tirando, porém,
este valor positivo, é bem pouco o que do seu pensamento
se pode aproveitar e diríamos melhor que seu labor foi radi-

70. James E. Creighton, Two Types of Idealisme, in Philoso-


fical Review, XXVI, Sep. 1917, p. 514-536. 73. Op. cit., p. 316.
71. J. H. Muirhead, Contemporary British Philosophy, 2." ed., 74. Guido de Ruggiero, Filosofias dei siglo XX, Trad. Adriana
London, 1953, p. 303. T. Bo, Buenos Ayres, Ed. Abril, 1947, p. 11-12.
72. "The phisical world is for each of us an abstraction from 75. D. Luther Evans, The Ego-Centric Prerogative, in Perspec-
the entire reality", Appearence and Reality, Oxford, 1930, p. 232. tives in Philosophy, Essays by the Ohio State University, p. 31.

56 57
Capítulo VI

0 RELATIVISMO E SEUS VARIADOS


ASPECTOS

Em nossa época já não se podem sustentar os princípios


válidos outrora; é preciso compreender que os termos mu-
dam e com eles as coisas todas, o que para uns é verdade, é
para outros erro, o que uns têm por bom, outros o têm por
mau. Como, pois, poderemos estar certos de coisa alguma?
Com o tempo e as condições de vida transformam-se tam-
bém a moral e o direito; veritas filis temporis, diziam os
antigos, a verdade é filha do tempo e com ele muda também
de forma; como abrigar a pretensão de fazer valer hoje a
moral de tempos pretéritos?
Tais expressões, e outras análogas, ouvimo-las hoje com
a máxima freqüência, da boca de pessoas pertencentes a to-
das as classes sociais. É que o relativismo epistemológico,
como o jurídico ou o moral, penetrou intimamente em todos
os ambientes e de tal modo se difundiu que arrebatou dos
corações toda a certeza.
Em nossa exposição não englobamos o relativismo e o
historicismo num único capítulo, pois muito embora tenham
grande afinidade e partam de princípios substancialmente
idênticos, todavia não os podemos identificar, visto como o
relativismo apresenta no pensamento moderno uma extensa
AMOR RUIBAL gama de direções filosóficas diferentes, ao passo que o histo-
Gênio renovador da filosofia cristã ricismo demarca apenas uma parcela do território relativista.
58 59
O historicismo é hoje a forma de relativismo de mais des absolutas bem como tampouco religião nem philosophia
vigência e atualidade, uma vez incursos em completo des- perennis. Para cada tempo e categoria de pessoas não só se
crédito o positivismo e o evolucionismo spenceriano. Por esta justificam, como ainda se tornam necessários novos princí-
razão trataremos principalmente do relativismo em geral e pios e novas opiniões e perspectivas.
dedicaremos logo outro capítulo ao historicismo.
Do relativismo em sua forma temporalista deu-nos a
A) RELATIVIDADE DO CONHECIMENTO fórmula precisa um de seus modernos defensores: "È vero
che ogni tempo ha Ia sua filosofia, e che solo pel tempo di
Às formas do antigo ceticismo, que como tal já nenhum cui è il prodotto questa rapresenta Ia veritá definitiva".78
filósofo tinha coragem de defender, sucedeu o relativismo
que, com nome diferente, conota o mesmo conteúdo filosó- Mas nem todo relativismo é errôneo. No campo do pen-
fico do ceticismo. O relativismo é mesmo a forma moderna samento e da verdade, na constituição do ideal da ciência
do ceticismo: "Se vi è un motivo che resulti dominante nella há uma certa evolução e relativismo cuja aceitação é inevi-
filosofia e nella scienza di oggi, fruto di tutto il travaglio tável. Por esta razão, antes de entrarmos na exposição do
gnoseológico ed epistemologico degli ultimi cinqüenta anni, relativismo em suas várias formas que julgamos inadmissí-
é quello dell'insuperabile e costitutiva relativitá delia conos- veis, seja-me permitido fazer algumas indicações sobre os
cenza, e peró anche delia conoscenza scientífica".76 diversos sentidos que revestem a palavra relativismo ou rela-
tividade em filosofia.
Os teóricos do relativismo não vêem nas normas supe-
riores de conduta humana e nos princípios lógicos e meta- As palavras relativo e seu derivado relativismo têm múl-
físicos, necessários a todo conhecimento certo, mais que pro- tiplas acepções: "Casi pudiera decirse que apenas existem dos
dutos naturais da sociedade humana. O surpreendente, po- personas que, ai emplearlas coincidan exactamente, dando-
rém, é que não se limitam a propor sua teoria como uma les Ia misma amplitud de significado".79
simples opinião, mas pretendem demonstrá-la como certa e O conhecimento humano é essencialmente relativo: a)
segura. Entretanto, que outra coisa significa neste caso de- Por conhecimento em geral entendemos aquele ato primitivo
monstrar, senão dar por suposto que, por sobre o fluir das e indefinível pelo qual o ser ou as coisas se fazem de algum
representações singulares, há uma instância necessária, supe- modo presentes ao sujeito que conhece. Ou, como o define
rior, que todos devem admitir? "Quem demonstra o relati- Zaragüeta, "a assimilação ou projeção intencional de um
vismo, diz em frase concisa Windelband, o aniquila".77 objeto conhecido de caráter físico ou mental e de ordem
O relativismo não é propriamente um sistema, ele vem real ou ideal, por um sujeito cognoscente".80 Temos pois que
a ser como o substrato, o resultado ou derivação de vários em todo ato de conhecimento há três elementos: Um sujeito
sistemas mais ou menos agnósticos, coincidentes na negação que conhece, um objeto conhecido e a relação de presença
da metafísica realística e na afirmação de que não existem de um no outro que constitui o conhecimento. Esta relação
verdades imutáveis e sim apenas verdades temporais, mutá- é peculiar e diferente de toda outra relação. Por ela o sujeito
veis e relativas. Para o moderno relativismo não há verda-
78. Giuseppe Rensi, Leneamerifi de Filosofia Scetica, 2." ed.,
76. Franco Amerio, Epistemologia, Brescia, Mordelliana, 1948, Bologna, 1921, p. 241.
p. 388. 79. Alejandro Roldán, Fundamentos dei relativismo filosófico
77. Wilhelm Windelband: "Wer den Relativismus beweist, ver- moderno — in Pensamiento I, 1945, p. 181.
nichtet ihn", Praludien, 6.", Tubinga, 1919, I, p. 44. 80. Juan Zaragüeta, Vocabulário filosófico, Madrid, Espasa-Cal-
pe, 1955, p. 115.

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não é meramente passivo, ele entra em atividade vital para natureza limitada de nossa sensibilidade. Ê, principalmente,
assimilar e trazer a si o objeto e fazê-lo assim algo de pró- no conhecimento sensível onde cabe justamente o perspecti-
prio; entretanto, sob outro aspecto é passivo pois não age vismo: nossa apreensão dos objetos será sempre limitada
de modo nenhum sobre o objeto, antes dele recebe toda de- e determinada pela faculdade sensitiva, lugar, tempo, etc, de
terminação. Não é porque eu capte ou apreenda o trem em nossa atuação cognoscitiva. O resultado será de modo inevi-
movimento que sou causa de que ele se mova, nem tam- tável uma visão parcial do objeto e nunca a percepção total
pouco porque escute cantar o sabiá que minha audição exerça e absoluta do mesmo.
qualquer influência nos seus gorgeios. O objeto permanece Quanto ao conhecimento intelectivo, nele distinguimos
invariável em si, porém age ativamente como determinante dois elementos: de uma parte os primeiros princípios, inde-
do sujeito no ato cognoscitivo: o objeto é o correlato do monstráveis e ao próprio tempo fundamento de toda demons-
sujeito no ato de conhecer e constitui precisamente nesse ato tração, objeto de intuição racional, ou virtualmente inatos,
o término conhecido. O sujeito só é tal em ordem ao objeto, como queria Leibniz, implícita e necessariamente presentes
bem como o objeto só é objeto em ordem ao sujeito. Vemos em todo ato intelectivo e sem os quais estes não se concebem.
como a relação de sujeito a objeto é absolutamente insepa-
rável, imanente ao ato cognoscitivo e ela constitui justamente De outra parte o mundo todo de nossos conceitos ou
o conhecimento que sem essa relação é mesmo impensável. idéias, formas comuns da realidade e da inteligência pelas
Na relação tem seu assento também a veracidade ou falsi- quais aquela se torna inteligível e esta, inteligente da reali-
dade do conhecimento. Quando a assimilação ou imagem dade. Às idéias são de formação abstrativa, daí sua essen-
obtida reproduz o objeto fielmente, temos a verdade e, em cial limitação e a impossibilidade de que um conhecimento
caso oposto, o erro. que se verifica na base de separações e análises possa cons-
tituir um conhecimento absoluto.
Se agora analisarmos cada um dos três elementos, per-
Ademais, o relativismo do conhecimento intelectual de-
cebemos o grau ou medida em que podemos falar de rela-
riva sobretudo da impossibilidade de esgotarmos a completa
tividade do conhecimento.
ihteligibilidade dos seres, fenômeno que não precisa demons-
Com efeito, os relativistas partem desta relação consti- tração, pois a consciência nos dá testemunho irrecusável desta
tutiva do conhecimento, que todos os filósofos aceitam, sem limitação. Efetivamente, à nossa vista está o progresso e
por isso prejudicar a realidade extramental do objeto, — que desenvolvimento da civilização na base de novos, constantes
para os idealistas não seria admissível — para deduzir a e portentosos avanços das ciências naturais, isto é, do conhe-
absoluta relatividade do conhecimento. Isto porém excede cimento de novos aspectos e relações da natureza, antes des-
os dados do problema. conhecidos. Nas próprias verdades eternas da religião obser-
Dupla forma de conhecimento há em nós: o sensível vamos também um perpétuo progresso e aperfeiçoamento;
e o intelectual. Se considerarmos o objeto em cada uma des- bem como os fatos históricos, ainda os melhor estabelecidos,
tas formas de conhecer aparece indubitável sua relatividade: recebem novas iluminações, esclarecimentos e correções.
1." — porque nas sensações as qualidades, que percebemos, Outra fonte considerável do relativismo cognoscitivo ra-
em nós se acham formalmente, nos objetos porém só virtual- dica no juízo, ou relação que o entendimento estabelece entre
mente ou com real existência mesmo, como ensina a Escola, dois objetos mentais chamados respectivamente sujeito e pre-
fora dos sentidos. Em qualquer das hipóteses nossa apreen- dicado do juízo. O sujeito ocupa no juízo o lugar da reali-
são dos objetos é sempre relativa e parcial, como convém à dade e o predicado exprime os conceitos ou categorias do

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entendimento. Daí a noção escolástica da verdade: adaequatio vos que com facilidade torcem a retidão de nossa faculdade
rei et intelectus, uma conformidade dos conceitos com que judicativa.
pensamos as coisas e a realidade das coisas pensadas. Ora,
Além disto existe também todo um setor de conceitos
esse pronunciamento sobre a relação dos extremos do juízo
essencialmente relativos porque sua noção já inclui alguma
verifica-se através da comparação do seu conteúdo e exten- relação como, v.g., os de tempo, espaço, movimento, criatu-
são respectivos, na base de análise e síntese ou, como diziam ra, igualdade, etc. Nos juízos e combinações destes conceitos
os antigos, pela composição ou divisão, afirmando ou negan- entra em maior escala o elemento relativo.
do a conveniência da existência ou de atributos no sujeito;
mas como essa conveniência não nos é dada na imediata Se agora, do exame dos elementos por separado, nos
intuição das relações todas dos seres conhecidos, só laborio- elevamos à consideração do ideal da ciência, torna-se forçoso
samente e por graus as descobrimos; donde neste aspecto o admitir, com Amor Ruibal, que "Ia contingência y relatividad
conhecimento só poder ser relativo. intrínseca dei ideal dei humano conocer" é pura verdade
inegável.81
Se do objeto do conhecimento passarmos à análise do
Com sua profundidade costumeira esse genial metafísico
sujeito da relação cognoscitiva, descobrimos também por esse que é Amor Ruibal passa em revista os elementos que inte-
lado a relatividade do conhecimento. gram o ideal do conhecer em seu momento dinâmico e veri-
De um modo geral, aparece isto evidente ao considerar- fica a relatividade dos meios no conhecimento humano, para
mos simplesmente a finitude e essencial limitação do intelecto concluir categórico: "El ideal de nuestro conocer resulta de
humano pois é evidente logo que nessas condições o produto un dualismo essencial (ei elemento dinâmico y ei elemento
de sua atividade não poderá ser absoluta. estático) que jamás se reducen en ei hombre a Ia unidad. Este
caráter de nuestro conocer hace que sea siempre progressivo
Ademais, é claro que o conhecer se realiza em função y perfectivo, sin entrar nunca en posesión de un conocimiento
das condições individuais do sujeito cognoscente. absoluto".82 E mais adiante prossegue: "La relatividad de
No conhecimento sensível entram em jogo as condições los médios en ei conocimiento humano origina que este no
físicas e fisiológicas do sujeito; o estado e condições dos sen- puede constituir un ideal absoluto. Por Ia misma razón, un
tidos condicionam seguramente todas as funções sensórias. Meai -absoluto no puede tener como factores, médios de co-
iiOcimiento relativos. Es decir que ei ideal absoluto dei co-
Na ordem intelectual é bem sabida e experimentada por necer que comprende toda verdad, está sobre toda realiza-
todos a influência considerável que em nossos juízos exercem ción posible dei ideal huniano".83
as convicções prévias, os sentimentos, paixões, nacionalismos,
religiões, etc. Balmes escreveu aquele livro imortal de higie- Amor Ruibal estende seu (sistema de) correlativismo a
ne da alma, intitulado El Critério, que encaminha o homem todas «s esferas do ser e, baseado na finitude intrínseca de
no bom uso de suas faculdades para a obtenção da verdade. todo ente contingente, declara o ideal da ciência também
Em nossas operações cognoscitivas, para a formação de juí- essencial e intrinsecamente relativo e faz da relação uma pro-
zos, devemos levar em consideração a diferença entre juízos priedade transcendental do ente.84
puramente teoréticos ou científicos e existenciais e juízos de 81. Angel Amor Ruibal, Los problemas fundameníales de ia
valor. Nos primeiros não interferem os motivos emocionais filosofia y dei dogma, Madrid-Barcelona-Friburgo, s.d., T. I, p. 1.
ou interessados; entretanto, nos juízos de valor estamos sem- 82. Op. cit, I, p. 76.
pre na iminência de deixar-nos influir por elementos emoti- 83. Op. cit., I, p. 77.
84. Opxit., vol. IX, p. 253-300.

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Que concluir desta exposição? Se, pois, o conhecimento maior difusão e adeptos. Sua penetração em fins do século
humano e o ideal da ciência são intrinsecamente relativos, XIX foi enorme; e ainda nas primeiras décadas do século XX
terá razão o relativismo quando afirma que toda verdade é verificava Arnáiz que "ei ambiente actual dei pensamiento
contingente e mutável e que nós nada podemos conhecer com estaba saturado de psicologismo".86 Como por influência do
certeza das COISAS EM SI? neo-criticismo e do positivismo, a filosofia tinha-se reduzido
quase à teoria do conhecimento e à classificação das ciências,
B) O RELATIVISMO FENOMÊNICO foi precisamente nesse campo, onde se intentou impor a psi-
cologia como ciência única, da qual a lógica e as outras
Como dizíamos antes, o relativismo não é estritamente ciências normativas só seriam ramos» Lipps afirma que a
um sistema unitário — o que aliás estaria em contradição lógica não passa de umajlisciplina psicológica, por que "o
com sua própria natureza. Em geral, de uma ou de outra conhecer só se dá na psique e o pensar que nela se realiza é
forma, quase toda a filosofia moderna é adepta do relativis- um fato psicológico".87 'Essa identificação, ou melhor, con-
mo, cujas formas principais são: psicologismo, evolucionis- fusão da lógica com a psicologia teve seu grande patrocina-
mo, fenomenismo, criticismo, neo-criticismo, empirismo, prag- dor em Stuart Mill, que categoricamente afirma: "La lógica
matismo, existencialismo, etc. Alguns destes sistemas ou dou- no es una ciência distinta de Ia psicologia y coordenada con
trinas já foram expostos, outros revestem maior significação esta. En cuanto ciência, es una parte y ramo de Ia psicologia,
noutros aspectos e serão particularmente estudados. Vamos que se distingue de esta a Ia vez como Ia parte dei todo y
resumir agora mui sucintamente o relativismo de vários des- como ei arte de Ia ciência. La lógica debe sus fundamentos
ses sistemas: teoréticos. integramente a Ia psicologia, y encierra en si tanto
de esta ciência como es necessário para fundar Ias regias dei
a) PSICOLOGISMO — Define-se o psicologismo, de arte".88
um modo geral, como uma tendência a fazer derivarem todas
as ciências da psicologia, que constituiria assim o centro do Não faltaram porém adversários decididos desse psico-
saber. Em sentido mais estrito, o psicologismo pretende redu- logismo lóíico. Külpe é taxativo: não pode haver fusão da
zir os objetos das ciências normativas, — lógica, gnoseologia, lógica na psicologia porque "a interpretação que estas ciên-
axiologia, ética, etc. — a processos e vivências subjetivas e cias dão de um processo mental são duas coisas inteiramente
produtos psicológicos que derivariam de fatores e leis psico- distintas".89 Ao psicologismo se opuseram também, de várias
lógicos, emanados apenas do desenvolvimento psíquico. formas: Erdmann, Bolzano, Bergson, Volkelt e com mais vi-
Eisler diz que, em rigor, o psicologismo é quase sinôni- gor Husserl, que dedicou boa parte do 1.° volume das Inves-
mo de subjetivismo,85 e neste sentido se toma comumente em tigações lógicas90 à refutação do psicologismo, fazendo ver
filosofia, podendo traduzir-se em fórmula relativista pura: como este leva ao empirismo e ao puro relativismo. Ao ilus-
não há verdades absolutas, elas mudam de acordo com os tre pensador mexicano Vasconcelos não o convenceram os
sujeitos que as professam.
86. M. Arnáiz y B. Alcalde, Dicionário Manual de filosofia,
Psicologista foi Protágoras, como o foram também os Madrid, Ed. Voluntad, 1927, I, p. 524.
fenomenistas ingleses, Berkeley e Hume. Foi, porém, nos tem- 87. Teodoro Lipps, Elementos de Lógica, trad. de Ovejero,
Madrid, 1925, p. 6.
pos do predomínio positivista que o psicologismo obteve 88. Cit. por E. Husserl, Investigaciones lógicas, tra. Morente-
Gaos, Madrid, 1929, t. I, p. 68.
85. R. Eisler, Handworterbuch der Philosophie, Berlin, 1913, 89. Kulpe, Einleitung, etc, p. 54.
p. 520. 90. Husserl, Investigaciones, etc. I, p. 67-197.

66 67
arrazoados de Husserl e continua mantendo a lógica na psi- Perante o fato da absorção da lógica pela psicologia,
cologia: "no nos meteremos, diz com gracejo, en Ias discusio- alguns pensadores reagiram em sentido inverso e foram parar
nes inacabables de psicologistas y locigistas (Husserl), sobre no logicismo, considerando a psicologia como uma prepara-
si fué primero ei huevo que Ia gallina o viceversa. Si Ia psi- ção para a teoria do conhecimento.94
cologia estudia el alma, es claro que cae bajo su dominio Ia
estructura mental dei alma que es Ia lógica, y si ai estudiar b) FENOMENISMO — Este sistema tem sua mais ade-
esta estructura se topa con los axiomas, los princípios, los a quada formação na frase de Berkeley, esse est percipi, 'o ser
prioris que no da Ia experiência, le bastará a Ia psicologia consiste em ser percebido'. Entendemos por fenomenismo em
con senalar el hecho y decir sucede que el alma piensa — geral a doutrina que reduz a realidade a fenômenos e todo
mediante estructuras que nos da Ia experiência".91 conhecimento ao conhecimento dos mesmos. Nessa doutrina
Erdmann, cujo pensamento não estava mui seguro ao os fenômenos são puramente sensações, fatos ou dados da
princípio, depois, sob os ataques que lhe dirigira Husserl, consciência e o mundo todo não é mais que o conjunto das
ratificou na 2.a edição da Lógica, em 1907, sua convicção da sensações.
irredutibilidade da lógica à psicologia.92 Pfánder, seguindo na No fenomenismo fica excluída a COISA EM SI e por
trilha de Husserl, combate os psicologistas que confundem ò conseguinte também a substância.
pensamento com o ato de pensar. É inadmissível fundar o Esta doutrina foi claramente formulada pelos antigos
princípio de contradição no fato psicológico comprovável de céticos da Grécia e recebeu grande vigor nos empiristas ingle-
que o homem não pode ter por veídadeiros dois juízos seme- ses Berkeley e Hume. Foi porém Kant quem lhe deu apa-
lhantes, pois a verdade dos juízos é totalmente independente rência mais científica e assim penetrou mais ampla e profun-
de que estes sejam considerados verdadeiros por um, por vá- damente em toda a filosofia moderna.
rios ou por todos os homens. Pelo contrário, pode até acon-
tecer que um juízo determinado seja verdadeiro não obstante Kant distingue os FENÔMENOS e os NÓUMENOS. Fe-
a maioria dos homens o considere falso ou vice-versa.93 nômenos são as aparências das coisas que nós apreendemos
pelos sentidos. Nóumenos são aquelas coisas que nós, por ne-
Além do mais, o psicologismo destrói o valor universal cessidade subjetiva pensamos, mas que nem por isso têm rea-
e imutável dos princípios lógicos de nosso conhecimento por- lidade objetiva. A natureza física das coisas consiste apenas
que, ao reduzir as leis lógicas a fenômenos psicológicos, co- nos fenômenos, pois tudo o mais que, como COISA EM SI,
mo estes são fatos da história pessoal e carecem de certeza se acha sob os fenômenos, pertence ao mundo dos nóume-
absoluta, não pode neles alicerçar-se à validade da lógica, nús, que é inacessível ao nosso entendimento. Há em nós
pois é evidente que o fundamentado não pode pretender mais certas formas que por mera necessidade subjetiva nos cons-
certeza que a do fundamento em que se apoia. Este argu- trangem a admitir alguma causa transcendente para os fenô-
mento é igualmente válido contra qualquer forma de empi- menos internos e externos. Esta causa, no entanto, permane-
rismo. ce totalmente ignota para nós, porque aquelas formas não se
preenchem, com as essências ideais de algumas coisas, nem
o que manifestam é de nenhum modo abstraído da ordem
91. José Vasconcelos, Lógica Orgânica, México, 1945, p. 64. real dos seres existentes, senão que tudo isso o tiram do
92. Ver B. Erdmann, Logik, 2.* ed., Halle, 1907, t. I, p. 27.
93. Ver A. Pfánder, Lógica, trad. de Pérez Bances, MadridK
1928, p. 32-37. 94. Ver R. Eisler, Worterbuch etc, II, p. 551-52.

68 69
entendimento pensante, e isto é o que chamamos nóumenos. espírito existe, mesmo quando não sente, não pensa nem tem
Mas os nóumenos carecem de toda realidade objetiva assim consciência de sua própria existência, fica reduzida à crença
exterior como interior à nossa mente. Daqui a desoladora numa possibilidade permanente destes estados.
conclusão: os corpos não constituem nenhuma realidade
absoluta, senão só fenômenos e só e exclusivamente fenô- Não escapou a Stuart Mill a grave aporia a que o levava
menos os que nós conhecemos. sua doutrina. Se consideramos o espírito como uma série de
sentimentos, somos obrigados a completar a proposição, cha-
Os sucessores de Kant foram mesmo alijando essas som- mando-o uma série de sentimentos que se conhece a si mes-
bras no mundo inteligível, e os últimos resíduos dogmáticos ma como passado e como futuro; e então surge a seguinte
em favor da tendência crítica. Assim seus imediatos seguido- alternativa: crer que o espírito ou o eu é diferente das séries
res não se detiveram até imbicarem no idealismo absoluto; de sentimentos ou de possibilidades de sentimentos, ou então
e os neo-kantianos, não contentes com eliminar toda reali- admitir o paradoxo de que alguma coisa que, ex-hypotesi,
dade extra objetiva, reduziram a filosofia a uma pura teoria não é mais que uma série de sentimentos, pode-se conhecer
do conhecimento de base puramente fenomênica. enquanto série.
O ponto mais grave, porém, de todo o fenomenismo é o Assim, pois, no fenomenismo de Hume, Hamilton, Stuart
referente à substância e à causalidade, pelas enormes reper- Mill e outros desaparece a metafísica por impossibilidade
cussões que provoca em toda a ciência e vida humanas. Com intrínseca de sua existência, visto como tudo é condicionado
efeito, a negação da substância leva implícita a da alma e relativo a nossas sensações, e que, por conseguinte, o espí-
humana. rito jamais pode atingir as COISAS EM SI; corpo, alma, eu
Locke, embora declarasse incognoscível a substância, re- pessoal, substância, absoluto, etc, não passam de represen-
conhecia a necessidade de sua existência, como única expli- tações subjetivas. Isto é o nihilismo. Em tais condições nada
cação das sensações e sustentáculo das qualidades primárias resta ao homem que esperar, nenhum fim a atingir. Sua vida
de nossos sentidos. torna-se vazia e carente totalmente de sentido.
Hume não se deterá nessas dificuldades e disposto a
destruir irá até negar a existência da alma humana. c) EVOLUCIONISMO — Constitui o evolucionismo
Hume parte do princípio empirista: toda idéia real há um dos movimentos mais impetuosos e universais que regis-
de proceder de uma impressão que a origina. Mas acontece tra a história do pensamento humano.
que não existe impressão sensível que responda à idéia de O que em sua origem não passava de uma hipótese
substância, portanto nós não conhecemos nenhuma substân- científica de trabalho, adquiriu logo, com os escritos de
cia, nem tampouco os corpos ou a alma. O eu não é nem Spencer e de Haeckel, uma extensão extraordinária, favore-
simples nem idêntico; é apenas uma série em perpétua mu- cida, sem dúvida, pelo ambiente positivista dominante na
tação, um complexo de representações. Europa, ao qual ia servir às maravilhas o evolucionismo uni-
Stuart Mill, que nesta doutrina seguiu fielmente a Hu- versal spenceriano, ministrando-lhe um esquema fácil e
me, afirma que a noção de espírito é simplesmente a noção atraente para a explicação puramente natural do cosmos.
de alguma coisa cuja permanência contrasta com o fluir per- Esse evolucionismo não se deteve apenas nos problemas
pétuo das sensações e de outros sentimentos ou estados de biológicos e antropológicos como convinha a uma teoria pu-
consciência que nós lhe atribuímos. A crença de que meu ramente científica. Ele se projetou em todo o campo do pen-

70 71
samento e dele, de uma boa parte dos seus adeptos, partiram existência é indiscutível; este é um sistema ou teorias —
violentos ataques contra toda ordem transcendental teológica, pois se dão diversas no evolucionismo — cujo intento é
ética, jurídica e moral. explicar o ser e devenir do mundo,
O evolucionismo dominante em começos deste século Lamarck e Darwin, descontentes com o fixismo dos na-
continuava sustentando vivos os postulados mais caracterís- turalistas anteriores, que não lhes subministravam elementos
ticos do positivismo, que já noutras zonas do saber tinham para explicar algumas mutações e variações das espécies,
sido abandonados. O evolucionismo positivista contrapunha rejeitaram essa imutabilidade específica e propuseram novas
os fatos às causas, as qualidades sensíveis às essências, as hipóteses.
sensações às idéias, a estrutura orgânica à percepção, a Segundo Lamarck, as espécies viventes se transformam
herança fisiológica fatal à personalidade livre, o determinis- e sob as influências do meio chegam a mudar de tipo. Para
mo absoluto à espontaneidade e vontade pessoais, a cega Darwin, por causa da exuberante fecundidade dos seres vi-
combinação mecânica de átomos ao princípio vital. Isto tudo, vos, estes entram em concorrência vital ou luta pela vida
levado até as suas extremas conseqüências lógicas, significava (strugle for life) na qual sobrevivem os mais aptos para a
nada menos que eliminar do horizonte humano: Deus, a na- luta, e sucumbem aqueles cujos caracteres não são tão aptos
tureza e a vida com seu intrínseco finalismo, a razão humana para a luta.
reitora do pensamento, e a realidade individual e social do
homem. Foi através do evolucionismo e do transformismo que Estas teorias eram puramente científicas e não tinham
o velho materialismo francês do século XVIII, e o germâ- maior alcance filosófico, embora alguns dos seus seguidores
nico de meiados do século XIX, puderam entrar de contra- fizessem aplicação delas ao campo teológico e filosófico.
bando e manter algumas posições até os nossos dias. Estava reservado a Spencer fazer aplicação universal do
É claro que foge à finalidade e objeto de nosso estudo princípio biológico evolucionista. Já Comte tinha observado
seguir as doutrinas evolucionistas no que respeita ao aspecto que a explicação do superior pelo inferior constituía a nota
científico natural. É sua atitude filosófica e a implicação dou- característica do materialismo. Spencer concebe a evolução
trinária de seus ensinamentos o que nos interessa. como passagem gradual do homogêneo ao heterogêneo, do
O evolucionismo é tão antigo como a filosofia. Anaxi- desordenado ao ordenado, do simples ao composto, por di-
mandro, na Jônia, já introduz o conceito de evolução cós- ferenciação e integração sucessivas, segundo uma lei rítmica
mica para explicar a origem das coisas desde o Mireipwy necessária. Ora, se o simples derivasse do composto e o mais
à matéria indeterminada. O sistema pluralista-atômico é tam- saísse do menos, entendendo-se que o menos está potencial-
bém substancialmente evolucionista, e evolucionista pode mente no mais ou que o mais o contém virtualmente, nada
igualmente ser considerado Leibniz, "pois ele afirma a con- haveria que objetar. Acontece, porém, que o evolucionismo
tinuidade ideal e morfológica das espécies, esperando que o do século XIX, eliminando a ordenação teleológica do mun-
filósofo inglês as una com laços genealógicos".95 Não é, po- do, exclui a intervenção do Ser Supremo nele, e sustenta que
rém, o mesmo, evolução que evolucionismo. Aquela é um o perfeito deriva do imperfeito e o mais do menos, o que é
fato que realmente se dá em inúmeras circunstâncias, e cuja absurdo, sem sentido e contraditório.
A evolução constitui, na pena de Spencer, o deus ex
95. Ch. Lahr, Cours de Philosophie, 24." ed., Paris, Beauchesne, machina, que tudo explica, e revela todos os segredos. Na
1923, vol. II, p. 424. origem o universo era u'a massa confusa e homogênea. Len-

72 73
tamente essa nebulosa foi, por sucessivas transformações, temporalidad y de história".97 De modo semelhante se expri-
modificando-se até produzir a vida e, sucessivamente, a sen- me Klimke: "O evolucionismo domina hoje notadamente não
sibilidade e a inteligência com as outras faculdades psíquicas. só nas teorias biológicas do conhecimento, senão que a Filo-
Em resumo, tudo evolui: matéria, vida, pensamento; sofia e as ciências em geral se apoiam mais ou menos nele.
sempre aquele movimento rítmico que constitui a integração Pode se afirmar que dita teoria é considerada como a chave
das partes solidárias entre si. Porém, nesta evolução tudo única capaz de abrir todos os segredos, tanto do mundo ma-
parte da matéria e nela termina, embora em diversos está- terial como espiritual, sensível ou intelectual".98 De fato: a
gios e com diversos nomes. Spencer, sem embargo, não quer quase totalidade dos escritores contemporâneos aceitam co-
parecer ateu, não se atreve a negar a Deus; admite-o, deno- mo assunto pacífico a evolução, apesar de vários combaterem
minando-o Incognoscível, porque nosso entendimento, encer- o evolucionismo enquanto sistema explicativo do universo.
rado nos fenômenos, não pode chegar até Ele. Boa parte das publicações atuais estão escritas à luz que à
evolução parece derramar em torrentes sobre todos os ramos
Nada mais mesquinho do que a explicação de como se do saber humano. A despeito de serem já tantos os adeptos
originam o sentimento moral e a consciência humana: por da evolução, seu número aumenta sem cessar, com uma cele-
evolução chega o homem a alcançar o instinto de sociabili- ridade que assombra. O espírito evolucionista é universal,
dade. Sob seu influxo percebe e distingue as ações que são seu influxo não se insinua apenas, senão que domina em
a favor de seus semelhantes e as que são contrárias. Nele todas as regiões do pensamento. O espírito de evolução é o
se estabelece a colisão; quando a pessoa se comporta em espírito da ciência moderna.
sentido contrário ao do instinto de sociabilidade surge o sen-
timento de dor e tristeza que, sob o influxo de novas condi- Acontece, porém, que o materialismo fez causa comum
ções, se converterá em remorso. "Este constitui o primeiro com os evolucionistas que, explicando mecanicamente a trans-
germe de moralidade em que se resolve a luta entre a socia- formação das espécies "sem necessidade de recorrer à finali-
bilidade e o egoísmo".96 dade, serviam os intuitos daquele sistema".99 Se excetuar-
mos aqueles que militam no campo da filosofia perene, a
O evolucionismo tem evoluído muito de Spencer para imensa maioria dos evolucionistas está imbuída de materia-
cá. Poucos são hoje os que admitem; como explicação total lismo. Esse preconceito materialista — que não passa de um
do universo, a evolução spenceriana. Entretanto, são cada vez preconceito a atitude materialista —, invalida ou mutila os
mais numerosos os que voltam os olhos e a atenção para os mais altos ideais do espírito nos sábios evolucionistas. Certa-
agudos problemas que suscita a evolução antropológica: ori- mente, partindo da matéria como de único elemento da evo-
gem do homem, da vida, linguagem, instintos, sociabilida- lução cósmica e antropológica, ficam, ipso jacto, demarcados
de, etc. e fora da visual científica: todos os princípios transcenden-
É bem verdade o que ainda há pouco verificavam alguns tais sobre o homem e o mundo; toda causalidade criadora;
professores da ilustre Universidade de Salamanca: "La pala- todo plano ordenador inteligente; toda finalidade prevista na
bra 'evolución' se ha constituído en una de Ias senales incon-
fundibles de nuestro tiempo. Parece responder a una nueva 97. Pontifícia Universidade de Salamanca, El Evolucionismo en
categoria dei pensar contemporâneo, todo él impregnado de Filosofia y en Teologia, Barcelona, J. Flors, 1956, p. VII.
98. F. Klimke, Hist. de Ia Filosof., trad. espanhola, Barcelona,
Labor, 1947, p. 708.
96. Ver José M. Llovera, Tratado de sociologia cristiana, 8.* 99. Ver Maurice Gex, Einfüírung in die Philosophie, Berna, A.
ed., Barcelona, L. Gili, 1953, p. 30-33. Francke, 1949, p. 48.

74 75
origem e existência dos seres, assim viventes como inorgâ- porém a fé católica manda defender que as almas são criadas
nicos. A rigor, é a própria pessoa humana que desaparece imediatamente por Deus".102 Não é a mesma coisa atribuir
submergida na torrente evolucionista do universo, na qual ao homem uma origem total evolutiva da matéria ou limitar
não conta mais do que uma gota ou uma das moléculas que a evolução só à formação do corpo; o primeiro é contra a
o constituem. doutrina católica firmada; o segundo é discutível, embora
Em nossos dias, tem-se consagrado especialíssima aten- nos pareça pouco provável, e o Papa deixa aos sábios cató-
ção à hermenêutica dos três primeiros capítulos do Gênese licos ampla liberdade no estudo da questão.103
em função dos dados que nos subministram os estudos mais Numa palavra: o evolucionismo radical dominou em
sérios da evolução,100 grande parte da mentalidade européia. Seu materialismo e
No atualíssimo comentário da Bíblia por professores de seu relativismo absoluto ocasionaram imensos desastres e dei-
Salamanca, vem resumido em cinco conclusões o que, com xaram às escuras a humanidade, com a negação da espiritua-
mais certeza, se pode deduzir do texto bíblico com respeito lidade e da destinação eterna do homem. Hoje, ainda entre
às teorias evolucionistas antropológicas. Condensamos: a) os católicos, são grande maioria os que admitem um limitado
Deus criou o primeiro casal humano, b) Quanto ao corpo evolucionismo. Neste ponto cumpre ao sábio proceder com
humano "os textos do Gênese não se opõem nem patrocinam toda cautela, pois como frisa Aldama: "si nos elevamos aún
a concepção evolucionista". c) "No relato bíblico insinua-se más en ei pensamiento evolucionista de nuestro tiempo, en
a intervenção direta de Deus na infusão da alma nas palavras ei que Ia evolución se ha designado como ei modo de pensar
misteriosas 'façamos o homem à nossa imagem e semelhan- que se impone, como Ia categoria más característica de Ia
ça' ". d) A humanidade procede de um casal primitivo, época, no es posible ignorar los riesgos inevitables de una
único.101 filosofia evolucionista".104
Desde logo, que a origem do homem se dá por pura Fugindo dos absurdos que encerra o evolucionismo mo*
evolução da matéria, sem nenhuma intervenção divina, ja- nista materialista ou qualquer outra forma de evolucionismo
mais o provaram os evolucionistas e tampouco a filosofia radical, busquemos nesse grande movimento de doutrinas as
cristã o admitiu. O sábio Pontífice Pio XII, na encíclica parcelas de verdade que encerra para contribuirmos, assim,
Humani Generis, de 12-VI1-1950, referindo-se ao problema com nosso quinhão, à libertação do homem pela verdade.
antropológico tem estas prudentes palavras: "O magistério
da Igreja não proíbe que — segundo o estado atual das ciên- d) OUTRAS CORRENTES RELATIVISTAS — Co-
cias e da teologia — nas investigações e disputas, entre os mo já de início frisamos, o relativismo é antes uma atividade
homens mais competentes de ambos os lados, seja objeto de do que um sistema. Daí que se ache presente na maioria dos
estudo a doutrina do evolucionismo, enquanto busca a ori-
gem do corpo humano numa matéria viva preexistente — 102. Em Pascual Galindo, Coleción de encíclicas y documen-
tos pontifícios, 4." ed., Madrid, 1955, p. 848. — Sobre a Encíclica
Humani Generis ver: Comentários a Ia encíclica Humani Generis,
Estúdios teológicos de Ia Diócesis de Bilbao, Desclée de Brouwer,
100. Ver, entre outros, Luiz Arnaldich, El origen dei mundo y 1952, e XI Semana Espanola de Teologia, La encíclica Humani Ge-
dei hombre segun Ia Bíblia, Biblioteca dei Pensamiento Actual, Madrid, neris, Madrid C.S.Y.C., 1952.
Rialp, 1957, ou M. Gómez-Moreno, Adan y Ia Prehistória, Madrid, 103. Ver J. A. Aldama, El evolucionismo antropológico ante Ia
Tecnos, 1959. Iglesia, em El Evolucionismo en Filosofia y Teologia, Barcelona, J.
101. Professores de Salamanca, Bíblia Comentada, Biblioteca Flors, 1956, p. 237-252.
de Autores Cristianos, Madrid, Ed. Católica, 1959, vol. I, p. 81. 104. Loc. cit., p. 251.

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sistemas contemporâneos. O criticismo kantiano, intuicionis- Em tais condições fica excluído da totalidade o sentido uni-
mo de Bergson, pragmatismo, historicismo, existencialismo, tário; a história universal converte-se numa multiplicidade de
são também intrinsecamente relativistas, mas pelas suas pe- culturas descontínuas, cada uma das quais termina, em si,
culiares características e implicações obtêm tratamento se- seu ciclo. "Por causa de seu relativismo, diz Sawicki, a con-
parado. cepção histórica de Spengler exclui um sentido unitário da
História".105
Além das correntes relativistas já expostas, psicologismo,
fenomenismo e evolucionismo, há outras de menor significa- A duração de cada cultura, a modo de um organismo
ção, bastando, apenas, recordá-las brevemente. vivente que vai passando pelas três fases, ascensão, apogeu
e decadência, é de, aproximadamente, um milênio. Também
e) EVOLUCIONISMO HISTÓRICO-BIOLÓGICO DE nos domínios da arte se verificam os mesmos movimentos
SPENGLER. — Após a Primeira Guerra Mundial esteve na rítmicos vitais; cada ciclo cultural experimenta a sucessão de
moda a filosofia do relativismo filosófico-culturál e histórico, períodos arcaico, gótico e barroco. Para Spengler o clímax
de Oswaldo Spengler, parcialmente seguida também por Th. da história cultural do Ocidente é constituído pela alta Idade
Lessing e Toynbee. Sua obra principal, A Decadência do Média, na qual desabrocharam as que ele chama flores da
Ocidente (1918-1922), muito discutida ao tempo de sua apa- humanidade: os dois primitivos estamentos, nobreza e sacer-
rição é hoje quase esquecida; a crítica científica tem demons- dócio. Com a ascensão do 'terceiro estado', começa a morte
trado o alto grau da artificialidade e fantasia que Spengler do ocidente.
pôs a serviço em sua construção.
Por último, a "cultura" converte-se em "civilização".
Segundo Spengler, a história universal não se desenvol- Esta se caracteriza pelo predomínio das grandes urbes. As
ve como um processo unitário contínuo senão a modo de massas das metrópoles erguem sua cabeça, elas são como uma
sucessão biologista das culturas que, como expressões espe- plebe ignara que só quer panem et circenses.
cíficas do espírito, diferem entre si essencialmente. Assim se O pensamento de Spengler está todo embebido de rela-
sucederam na Europa a cultura grega (apolínea), a arábica tivismo. Para ele cada novar 'verdade' é só um juízo crítico
(mágica) e a ocidental (fáustica). de outra verdade, ultrapassada, pois não há verdades 'eter-
As diversas culturas não mantêm entre si relações estrei- nas'. "As verdades só existem em relação a uma determinada
tas. Antes, cada uma, v.g. a indica, chinesa, pode ser consi- humanidade".106 Por isso "resulta vão o intento da alta espe-
derada como um organismo autônomo, que segue rigorosa- culação de descobrir verdades eternas". E do mesmo modo
mente as leis do crescimento e ocaso. Cada cultura tem sua se pode afirmar que cada filosofia é válida apenas nos limi-
primavera, eleva-se até a maioridade cultural e entra logo em tes do círculo cultural onde surgiu.
declínio, até o país ser invadido por outro povo jovem que, O pensamento histórico de Spengler, apesar de ser o
por sua vez, começa novo ciclo cultural. Esta cultura nas- realismo a sua recomendação permanente, é em alto grau
cente não se prende à alta cultura das épocas passadas, senão
que se inicia com uma nova primavera de fisionomia própria
105. Franz Sawicki, Dte Geschichtsphilosophie ais philosophia
e percorre logo as mesmas fases das culturas anteriores. perennis, in Philosophia perennis, Festgabe Joseph Geyser zum 60,
Geburtstag, Regensburg, 1930, I, p. 518.
Segundo Spengler, a humanidade não pode esperar ne- 106. Wahrheiten gibt es nur bezug auf ain bestimmtes Mens-
nhum fruto duradouro de todas essas culturas, isoladas e chentum, cit. por Rudolph Tschierpe, Ein Weg in die Philosophie,
transitórias, porque não há entre elas íntima continuidade. 2." ed., Hamburg, 1949, p. 476.

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romântico, e pronunciadamente unilateral, em favor dos va- gnoseológico: só conhecemos o que as coisas são para nós e
lores estético-culturais. A crítica tem censurado a Spengler de modo nenhum conhecemos o que elas são em si mesmas.
sua tendência a estabelecer analogias superficiais e sua par- Há também uma forma de agnosticismo chamada rela-
cialidade na eleição dos grandes materiais em que intenta tivismo do tempo e do lugar que sustenta serem mutáveis as
apoiar suas teorias. Vicente Risco condena sua manifesta verdades de acordo com as circunstâncias do tempo e do
hostilidade e por vezes incompreensão e má fé, com respeito lugar; assim, v.g., que dois e dois são quatro, não sempre,
ao catolicismo, que o leva em ocasiões a tergiversar a inter- nem em todos os planetas, é verdade.
pretação dos fatos.
De imediato se constata o absurdo dessa doutrina, essen-
A obra toda de Spengler — como a de Burckardt —, cialmente relativista. Quem poderia conter o sorriso se es-
está sombreada por uma nuvem de pessimismo. cutasse um professor falar para os alunos assim: no Brasil a
hipotenusa é maior que qualquer um dos lados do triângulo;
f) O IDEALISMO — Não há porque nos detenhamos ou também: nos tempos de Euclides a hipotenusa era maior
a expor o idealismo, sistema de contornos dilatados "a causa, que qualquer um dos lados do triângulo?
diz Zaragüeta, de Io plural y proteico de su sentido",107 e
que abarca praticamente, dentro dos seus limites, toda a filo- Tampouco nos detemos na exposição do POSITIVIS-
sofia moderna. MO VITALISTA de Nietzsche, pois este filósofo-poeta semeou
seus livros de doutrinas as mais contraditórias e assistemá-
Para nosso objeto basta esta sumária indicação: o idea- ticas possíveis, e não seria oportuno dilatar este estudo quan--
lismo reduz a realidade inteira à idéia e ao sujeito pensante. do só alguma parte se refere a nosso objeto.
Nestas condições o conhecimento não pressupõe nada extra-
subjetivo de que ele dependa. O quanto nós afirmamos ou Se o mencionamos é porque algumas vezes se externou
negamos não passa de relações puramente subjetivas entre contra a imutabilidade das verdades metafísicas e em sua
dois estados de consciência de que nós mesmos somos os obra póstuma achamos este ex-abrupto: "A falsidade de um
autores. O que nós conhecemos, ou assim unimos no juízo, juízo não é para nós uma objeção contra este juízo. É isto
talvez o que em nossa nova linguagem parecerá mais estra-
não é mais do que fenômenos psicológicos, aparências que
nho. Trata-se de saber em que medida este juízo acelera e
para serem conhecidas por nós, não podem existir, cujo ser conserva a vida, mantém e desenvolve a espécie".108 Nestas
se reduz ao fato de nós o conhecermos. palavras está em germe o sistema pragmatista essencialmente,
Que estes fenômenos correspondem ou não a realidades, este sim, relativista.
a COISAS EM SI exteriores, que jamais serão acessíveis ao Enfim, seja-me permitido terminar a exposição do rela-
nosso entendimento, não podemos saber. tivismo com uma alusão ao antigo patriarca de todo o reja-
Assim sendo, está claro que não podemos alcançar mais tivismo, Sexto Empírico, que, em sua obra, Instituições pir-
que a verdade fenomenal, isto é, a conveniência do pensa- rênicas, reuniu ou esboçou quase todos os argumentos que,
mento consigo mesmo, com suas representações, e não com no decorrer dos tempos, haviam de esgrimir todos os céticos
as coisas mesmas. Isto é pura e simplesmente o subjetivismo e relativistas posteriores.

107. Vocabulário Filos., p. 272^ Ver ainda, do mesmo Zara-


güeta, Una Introdución moderna a Ia filosofia escolástica, Univer- 108. F. Nietzsche, Más allá dei bien y dei mal, trad. esp.,
sidade de Granada, 1946, 11-70. Madrid, 1932, p. 10.

80 81
No capítulo IV define o ceticismo como sendo "aquela nhece a necessidade que temos de admitir algumas verdades:
faculdade que confronta e acerca entre si as aparências sen- as doutrinas kantianas ou afins do kantismo negam a possibi-
síveis e as percepções da mente e do entendimento", e pros- lidade de conhecermos as COISAS EM SI, mas admitem que
segue explicando aonde se chega com tal atitude filosófica: conhecemos o relativo, ou seja, que nossos conhecimentos são
todos condicionados, e portanto, relativos, pelas formas aprio-
= "do qual (ceticismo) vimos logo, rísticas de nossas faculdades cognoscitivas.
pela igualdade das razões pro e contra; primeiramente à
suspensão de juízo ( ) e depois à sereníssima O transformismo lógico, o positivismo e o historicismo
imperturbabilidade" ( ).109 ensinam que a verdade é relativa ao estado mental de tal
Interpretando em seguida palavra por palavra as ante- homem em tais ou quais circunstâncias, mas que pode tornar-
se falsa no decurso do tempo, e com a continuação voltar
riores noções, dá Sexto Empírico a explanação de "paridade
verdade falsa e verdadeira.
no peso das razões", assim chamo a "certa igualdade para
assentir ou dissentir, de tal modo que nunca demos prefe- Para o psicologismo a verdade difere segundo as várias
rência, como mais digna de fé, a uma opinião sobre outra", inteligências que a concebem; por conseguinte, "a necessi-
Eis a grande palavra de Sexto Empírico dade dos juizos categóricos não é absoluta, senão condicio-
"equilíbrio ou equiva1ência de razões", nada, não é categórica, senão hipotética".111
a que melhor resume a atitude cética ou relativista do ho- Numa palavra, para o relativismo não existe verdade em
mem. Para cada razão há outra oposta. Quem está certo? si, ela é sempre e somente verdade em nós.
Não sabemos. A Verdade absoluta nos foi escamoteada. Cada
um seguirá a que mais lhe aprouver e servir melhor aos seus Salta à vista o absurdo destas doutrinas e os desastrosos
efeitos que acarretam.
interesses.110
g) RESUMO E CONCLUSÕES — É o relativismo uma Noutro parágrafo deixamos exposto em que medida e
forma de ceticismo que só difere deste quanto ao método; até que ponto nosso conhecimento é relativo. Não há dúvida
conduz, porém, às mesmas conseqüências. Recusam-se, geral- que & verdade, pelo lado do objeto conhecido ou do sujeito
mente, os relativistas a serem chamados de céticos, pois en- cognoscente, não é estática senão dinâmica, histórica e evo-
quanto o ceticismo nega, pura e simplesmente, que nós pos- lutiva, não porém considerada em seu aspecto de relação
samos atingir a verdade, o relativista, por via de regra, reco- cognoscitiva. Nos dois aspectos ditos, no perspectivismo, as
relações de dependência do espaço e do tempo são a ela
109. Sexti Empirici, Opera graece et latine, cum H. Stephani intrínsecas em nossa condição ontológica temporal. E é por
versione, Leipsig, 1718, p. 3. esse lado que podemos falar do caráter intrinsecamente rela-
110. Isto corresponde, na realidade, ao relativismo individual
de Protágoras, para quem "todo pensamento é verdadeiro^ para aque- tivo do nosso conhecimento e do ideal da ciência.
le que o pensa". Esse relativismo individual ou biológico aparece Parte também desse modo de ser o caráter progressivo
posteriormente, repetidas vezes, no campo filosófico, em idéias iso-
ladas. Em nossos tempos, já como teoria sistemática sob o nome de do conhecimento, que com marchas e contramarchas, através
Pragmatismo, "se fez presente nos Estados Unidos (Royce, Pierce, de muitas vicissitudes e desalentos, vai descobrindo e con-
Dewey, James) e na Inglaterra (F.C.S. Schiller) e, bastante atenuado,
também na Alemanha, representado por W. Jerusalém e G. Jacoby"
(V"id. Aloys Muller, Welt X und Mensch in ihrem irrealem Aufbau, 111. B. Erdmann. "Die Notwendigkeit der apodiktischen Urteile
Leiden, 4.a, 1951, p. 200.) Mas do Pragmatismo nos ocuparemos mais ist demnach keine unbedingte, sondern eine bedingte, keine 'katego-
devagar, no capítulo seguinte. rische', sondern nur eine Hypothetische." Logik, 2.ª ed., Halle, 1907,
I, p. 532, n.° 415.

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quistando novas posições nos domínios do saber. Não pode-
mos realmente desconhecer que mesmo os caminhos errados cimento sensível do mundo exterior é evidente que os sentidos
do pensamento humano não se revelam de todo vazio de não nos apresentam os objetos tais como são em si mesmos.
alguns conhecimentos certos e que sua história, apesar das Que semelhança podemos descobrir, v.g., entre os movimen-
fragmentações e vacilações de sucessivas correntes, "nos dá a tos corpusculares ou ondulativos e as sensações luminosas
conhecer o paulatino crescimento e a conquista segura de de vermelho, amarelo, etc, dos objetos que percebemos? A
uma soma de verdades indiscutíveis".112 luz nos invade, nos envolve, é condição natural de vida; com
ela subsistimos desde o nascimento até a morte, tem o misté-
Mui outra é a atitude da filosofia moderna que, da veri- rio do impalpável, sua natureza escapa aos meios ordinários
ficação das limitações do conhecimento humano, conclui que de investigação e entretanto é uma realidade tão natural e
nada do que é real corresponde ou é conforme com as nossas imediata, tão certa e familiar que não há quem resista ao
percepções; que um relativismo radiòal, assim lógico como intenso de decifrar-lhe a constituição. Conhecemos, porém,
ontológico, é o apanágio do entendimento humano, o qual a natureza da luz? Não, conhecemos somente sua existência
jamais poderá atingir alguma coisa em si, isto é, nada abso- e sentimos seus efeitos.
luto.
Suárez, como outros escolásticos, reconhecia abertamen-
Qual é, porém, a diferença que estabelecemos entre este
te esta limitação e relatividade de nosso conhecimento do
relativismo radical e o que com Amor Ruibal designamos
mundo exterior. "Não julgo improcedente conceber que nesta
como relatividade intrínseca do humano conhecer?
vida não conhecemos a essência de nenhuma substância . . .
Distinguimos entre os elementos estático e dinâmico de Quem até agora explicou suficientemente o que vem a ser o
nosso conhecimento e a vinculação ou relação cognoscitiva som, o cheiro e coisas semelhantes?"113
que entre ambos elementos se estabelece.
Já não acontece o mesmo no conhecimento intelectual
O elemento estático é todo o mundo do ser que, de qual- onde nosso espírito intui imediatamente a própria existência
quer modo, pode constituir objeto do conhecimento; e o di- como sujeito a quem se referem todos os fenômenos psicoló-
nâmico corresponde à atividade cognoscitiva do sujeito que gicos. Nesta captação da própria existência e do eu que pen-
conhece. O vínculo ou nexo entre ambos é o pensamento, sa e quer, o objeto é algo absoluto e não relativo. Do mesmo
pronunciação ou produto da atividade cognoscitiva sobre o modo, como já noutro lugar frisamos, o entendimento per-
elemento objetivo. cebe os primeiros princípios diretores da razão especulativa
O elemento formal, a essência, diríamos, da verdade, é e da razão prática e que de modo nenhum estão submetidos
esse pronunciamento, pois ela não se acha no objeto nem na à relatividade que condiciona o conhecimento sensível.
faculdade que com ele entra em relação gnoseológica, senão Por parte do elemento dinâmico, já em páginas anterio-
na mesma relação, isto é, na conformidade do entendimento res anotamos a enorme influência que as condições do sujeito
com seu objeto. e sua própria limitação intrínseca exerciam no conhecimento.
Assim, pois, a verdade considerada em relação com o Resta-nos examinar a relação cognoscitiva ou nexo entre
elemento estático pode ser relativa ou não, de acordo com os elementos estático e dinâmico. Esta relação é capital no
a natureza respectiva do objeto; pelo que respeita ao conhe- problema da realidade do conhecimento. O pronunciamento
112. Jos. Ant. Endres, Einleitung in die Philosophie, 3.* ed.,
Philosophische Handbibliothek, 1. Munique, 1923, p. 37. 113. F. Suárez, Disputationes Meíaphisicae, Disp. XXX, sect.
III, n. 5.

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mental afirma ou nega a conveniência do sujeito com o obje-
to, em que consiste formalmente a verdade. Ora, este pronun-
ciamento exclui toda relatividade, pois baseia-se no princípio
de contradição e não admite magis ac minus.
Com efeito, a conveniência entre os extremos do jufizo
existe ou não existe, não há meio termo: o triângulo é ou não
é uma figura de três lados; se é, não pode não ser, em qual-
quer tempo ou lugar que se pense; se não é, não pode ao
mesmo tempo ser.
Capítulo VII
Tinha razão o velho Tales de Mileto quando afirmava
que a água era o princípio originário das coisas? Ou Fichte FILOSOFIAS DA CRENÇA E PRAGMATISMO
quando entronizava a vontade na origem do ser? Teriam ra-
zão os dois? Não é possível. A razão humana resiste a admi-
tir tais dislates. No dédalo infindo de teorias gnoseológicas que, sobretu-
Convenhamos: a verdade em seu aspecto formal, isto é, do na filosofia moderna, dominam o pensamento filosófico,
enquanto afirma a igualdade entre o .conhecimento e seu podemos distinguir três orientações gerais: DOGMATISMO,
objeto, é imutável; considerada, porém, material e subjetiva- CETICISMO e RELATIVISMO, anexando a este último a
mente, é relativa. O conhecimento humano nos informa da FILOSOFIA DA CRENÇA que, muito embora seja em geral
realidade, todavia, de modo inadequado e relativo, em razão um certo relativismo, de que já tratamos, não se ajusta em
da essencial limitação de nossa inteligência. Nosso conheci- todas as suas variedades ao ceticismo relativista.
mento é incompleto e limitado, mas nem por isso é inexato, O DOGMATISMO que admite a capacidade original do
pois embora não alcancemos a essência íntima das coisas, nosso entendimento para conhecer com certeza a verdade, pois
muita coisa delas conhecemos realmente. representa a atitudei inicial da mente perante o problema da
verdade, constitui a própria essência da PHILOSOFIA PE-
RENNIS, se bem que, na determinação do campo de verdades
filosóficas, a que se pode denominar patrimônio comum da
inteligência humana, sejam grandes as divergências entre seus
seguidores.
Para o CETICISMO, doutrina epistemológica oposta a
toda sorte de dogmatismo, a razão humana nada pode conhe-
cer com certeza; considera impossível a apreensão real do
objeto pelo entendimento humano. O ceticismo é a natural
conseqüência de dogmatismos incompatíveis, em face dos
quais, ante o impasse por não conseguir compô-los ou resolvê-
los, nem deles se desvencilhar, opta a razão pela dúvida ou
pela negação de sua própria capacidade para conhecer as coi-
sas em si.

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Entre esses dois extremos está o relativismo epistemoló- te nas coordenadas de sua concepção anti-metafísica, todavia
gico, em suas variadas modalidades que, ao negar que possa- os reputa indispensáveis para fundamentar a ordem moral
mos conhecer as coisas como são em si, afirma a relatividade que, sem esses postulados se arruina e desvanece.
de todo conhecimento.
Uma das modalidades desta filosofia da crença é a de-
Três são as formas ou tipos mais destacados de relativis- nominada PRAGMATISMO, muito em voga nos países an-
mo, a que já antes nos referimos: glo-saxônios, pois, segundo a tese programática de Pierce,
a) PSICOLOGISMO, que pretende dar aos problemas que W. James aceitou e difundiu: "Nossas crenças são real-
mentais, lógicos, metafísicos e morais uma explicação psicoló- mente as regras para a ação".114
gica: a verdade difere segundo a diversa natureza das inteli- Ainda que no campo da pura filosofia seja o pragmatis-
gências que a concebem; de tal modo que, se para meu modo mo de diminuto valor, todavia, por representar a filosofia
de entender, dois mais dois são quatro, para outra inteligência, mais típica dos Estados Unidos e pela enorme difusão e
v.g. angélica ou divina, poderão ser cinco ou seis. estima de que desfrutou nas primeiras décadas deste século,
b) TRANSFORMISMO LÓGICO, segundo o qual a outorgamos-lhe, também, um breve espaço entre as filosofias
verdade é relativa ao estado mental de tal homem ou de tal da hora.
povo em certa época, mas, no correr do tempo ou mudando
"Nota característica do pragmatismo é que dele não é
as circunstâncias, pode resultar falsa. Tal solução ou transfor-
possível dar nunca uma definição formal e precisa". Com
mação foi exposta por Comte na famosa teoria dos três perío-
estas palavras inicia Barton Perry o capítulo dedicado ao
dos ou estados do espírito humano e desenvolvida amplamente
pragmatismo na sua obra sobre as tendências atuais em filo-
por Stuart Mill, por Spencer, por Paulsen e outros vários. Este
sofia.113 O próprio William James, arauto do pragmatismo,
último filósofo alemão denomina "categorias históricas" as di-
intitula a segunda das oito conferências que constituem seu
versas formas de pensar que com o tempo evoluem, como toda
livro Pragmatisme, com estas palavras: "Significado do Prag-
realidade, de tal modo que jamais poderá dar-se verdade algu-
matismo". No texto, apresenta-nos, com seu estilo brilhante
ma absoluta.
e imaginoso, diversos exemplos do pensar pragmático; afirma
c) RELATIVISMO CHAMADO DE LUGAR OU com ênfase o lado negativo: "o pragmatismo rompe de uma
TEMPO, segundo o qual as verdades dependem em cada vez por todas com uma série de hábitos inveterados dos filó-
caso do lugar e do tempo, de tal modo que, por exemplo, o sofos; deixa de lado a abstração e as soluções verbais, as
teorema de Pitágoras ou o postulado de Euclides podem não razões mais a priori, os princípios fixos e os sistemas fecha-
ser certos em outro planeta ou em outra época. dos. Volta-se, porém, para o concreto e adequado, para os
fatos, para a força onde domina o temperamento empírico".
d) Há por fim a forma de relativismo constituída pela Mas, afinal, que é o pragmatismo? James não o diz, apenas
FILOSOFIA DA CRENÇA: diante de uma afirmação que declara que não é um sistema filosófico a mais, senão sim-
não podemos justificar racionalmente, nem por isso a deve- plesmente "um método de pensar"; "a atitude de quem se
mos declarar ilusória ou sem valor: pode-se, com efeito, nela liberta das primeiras coisas, das categorias, princípios, su-
crer e examinar as conseqüências que dela derivam; assim
é que, de fato, procede Kant com os chamados postulados
da vida moral: existência de Deus, livre arbítrio e imortali- 114. W. James, Pragmatisme, London, 1907, eonf. II.
dade da alma, pois não podendo demonstrá-los racionalmen- 115. Ralph Barton perry, Present Philosophical Tendencies, New
York, 1912, p. 197.

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postas necessidades, e se entrega somente às coisas últimas, extraordinária à filosofia, com tal êxito que veio logo a ser
aos frutos, às conseqüências e aos fatos".116 "a figura mais importante e a mais original da filosofia nor-
Do mesmo modo, o notável filósofo inglês Schiller, adep- te-americana".121 Muito embora seus escritos sejam com fre-
to fervoroso do pragmatismo, que com algumas modificações qüência obscuros e desordenados, a maestria e brilhantismo
ele denominou HUMANISMO, consagra nos Estudos sobre filosófico fazem que ele seja, no dizer também de Kurtz, "com
o Humanismo, extenso capítulo à "Definição do pragmatis- probabilidade o filósofo mais profundo e criador que os Es-
mo e do humanismo", no qual, após longa dissertação acaba tados Unidos já produziram".122 Todavia, sua carreira filo-
também escamoteando-nos uma noção adequada do pragma- sófica foi desafortunada. Não achou editor para lançar seus
tismo ou do humanismo.117 livros filosóficos, nem obteve umaícátedra universitária. Ele
criticava o conservadorismo e formalismo dos "Colleges",
Diante da confusão, hesitações e contradições imperan- notando com ironia que "onde se der uma ampla classe de
tes no campo do pragmatismo o prof. A.O. Lovejoy publicou professorado acadêmico, com opulentos honorários, junto
um artigo já em 1908 que, no dizer de G. Boas,118 "logo se com o aparato de gente superior, ali, a investigação científica
tornou clássico", no qual o próprio título: "Os Treze Prag- languesce."123 Sua produção filosófica acha-se dispersa, não
matismos", irritou muito aos seguidores do sistema.119 em livros, senão em muitos artigos de revista e em inúmeras
Deixando de lado alguns conceitos do empirismo inglês, resenhas bibliográficas. Mesmo assim, ainda durante a vida,
de Hume e de Locke, que James chamou de "primeiros prag- exerceu notória influência direta nos espíritos mais seletos
matistas", é o próprio James que declara formalmente que de língua inglesa, de tal modo que o historiador alemão Gus-
o pragmatismo foi pela primeira vez introduzido formalmen- tavo Müller pôde afirmar que Pierce "é o pai da filosofia
te na filosofia por Charles Sanders Pierce, em 1878, Num científica nos Estados Unidos e seus artigos contêm em germe
artigo intitulado "How to make our Ideas Clear" e apare- o idealismo objetivo de Royce, o método pragmático de Ja-
cido na reyista "Popular Science Monthly", dizia Pierce — mes e a lógica matemática da filosofia natural do realis-
após estabelecer que nossas crenças são realmente regras mo".124
para a ação — que, "para desenvolver o significado de um
pensamento só é preciso determinar que conduta é apta para Pierce teve o seu nome lançado ao grande público por
o produzir; tal conduta será para nós sua única significa- W. James, numa conferência na Califórnia, em 1898, na qual,
ção".120 explicando o princípio epistemológico já antes aludido: "Para
desenvolver o significado de um pensamento só necessitamos
Charles Sanders Pierce (1839-1914) recebeu do pai, ma- determinar que conduta é a mais apta a produzi-lo: tal con-
temático notável, uma sólida e precoce educação científica. duta será para nós sua única significação", princípio este, de
A seus trabalhos profissionais juntou logo uma dedicação Pierce, que é o verdadeiro princípio do pragmatismo. Passou
116. William James, Pragmafisme: a New name for Some Old 121. Jacques Fáuve, La Philosophie aux Êtats-Unis, ín Weber-
Ways of Thinking, London, 1907, chap. II et passim. Huismann, Tableau de Ia Philosophie contemporaine, Paris, 1957,
117. F.C.S. Schiller, Êtudes sur VHumanisme, Paris, 1909, ps. p. 536.
1-27. 122. Paul Kurtz, American Philosophy in the Tweníieth Century,
118. George Boas, Dominant Themes of Modem Phil. A His- New York, 1968, p. 45.
tory, New York, 1957, p. 592. 123. Collected Papers of Ch. Sanders Pierce, ed. by C. Hart-
119. A. O. Lovejoy, The Thirteen Pragmatismes, in "Journal shorne and P. Weis, Harvard Univ. Press, 1931, vol. I, p. 22,
of Philosophy, Psychology and Scientific Method", V, pp. 5-12. 124. Gustav E. Müller, Amerikanische Philosophie, Stuttgart,
120. W. James, Pragmatisme, p. 46. 1936, p. 122.

90 91
inadvertido completamente durante uns vinte anos, continua
William James, "até que eu, em 1898, numa conferência na
Universidade da Califórnia, voltei a apresentá-lo, aplicando-o
particularmente à Religião. Por aquela data o tempo estava
disposto para recebê-lo. A palavra Pragmatismo projetou-se
rapidamente".125
De fato é a James a quem mais particularmente se deve
a formulação precisa e a difusão mundial do método e teses
pragmatistas.
William James (1842-1910) é o mais celebrado dos prag-
matistas. Seu pai, Henry James, também filósofo e escritor,
era muito dado à leitura do visionário e místico sueco Swe-
denborg. William, no aspecto religioso, ressentiu-se sempre
desta influência paterna. Seu pai mandou-o estudar na Euro-
pa. De regresso graduou-se em Medicina, na Universidade de
Harvard e ali lecionou muito tempo anatomia, fisiologia e
higiene, mas já em 1881 passou a ensinar Filosofia. A fama
de brilhante e original professor grangeou-lhe enorme pres-
tígio que chegou ao máximo com a publicação, em 1890, de
sua notabilíssima obra Princípios de Psicologia. O brilho, a
vivacidade e clareza de estilo, de par com a penetração e
agudeza de suas análises produziram impressão profunda e
foi logo traduzida para vários idiomas. Com essa obra consa-
grou-se já como "o filósofo norte-americano".126
Em anos anteriores a vida intelectual de James foi errá-
tica pelos diversos campos do saber e das artes. As correntes
evolucionistas de Darwin e de Spencer o impressionaram,
sendo precisamente essas inquietudes naturalistas que o de-
terminaram a acompanhar ao zoólogo suíço-americano Agas-
siz na viagem de exploração pelo Amazonas.

125. James, op. cit. ibid. Já, anteriormente, noutra obra, tinha
James declarado a primazia de Pierce sobre o método pragmático,
declarando que este havia prestado um bom serviço à filosofia "by
singling that principie out as fundamental and giving to it a Greek
name, Pragmatisme". The Varietíes of Religious Experience, London,
1903, p. 444.
WILLIAM JAMES 126. Vid. Dagobert D. Runes, The Dictionary of Philosophy,
Considerado o pai do pragmatismo New York, 1942, p. 152.

92 93
De seu pai, Henry James, "rejeitou ele o monismo e o O pragmatismo — tanto quanto a fenomenologia lius-
socialismo, reteve, porém, seu anticlericalismo, antiraciona- serliana, embora que com resultados diametralmente opostos
lismo e antimoralismo".127 Ainda que nascido e educado no — representam, na evolução da filosofia moderna, a reação
protestantismo viveu sempre num mar de dúvidas religiosas. contra as sutilezas ou requintes mórbidos dos intelectualis-
Em todos os seus escritos faz sempre freqüentes referências á mos abstratos e os racionalismos céticos, então dominantes.
matérias religiosas. Nunca, porém, apareceu uma confissão Primum vivere, o pensamento função da vida. Por isso é
clara, nem tampouco, uma negação categórica do cristianis- característico do pensamento norte-americano, como observa
mo. Escrevendo ao psicólogo J. H. Leuba dizia-lhe: "minha Heinemann, o intento de "limitar à esfera prática a espe-
posição é simples. Não tenho nenhum vivo sentimento de culação filosófica".130
relação com Deus. Invejo aos que o têm, pois sei que a posse "O ponto sobre o qual gira — the pivotal pari— o meu
de tal sentimento me auxiliaria muito . . . Contudo, ainda livro intitulado Pragmatisme, declara o próprio autor, é a
que esteja tão desprovido de consciência de Deus em sentido explicação da relação chamada verdade, que se pode obter
direto e pleno, há porém, alguma cçisa em mim que respon- entre uma idéia (opinião, crença, afirmação ou o que for) e
de quando ouço falar do assunto. Reconheço uma vôz seu objeto. A verdade, segundo ali afirmo, é uma proprie-
profunda. Algo que me diz: Thither lies truth — aí reside a dade de algumas de nossas idéias serem congruentes com
verdade, e estou bem seguro que não se trata de velhos pre- a realidade, assim como a falsidade é incongruência com a
juízos teístas da infância".126 realidade. Tanto para os pragmatistas como para os intelec-
Cria James na imortalidade da alma? É evidente, pois, tualistas é questão pacífica esta definição".
como no caso da crença em Deus, defendeu, desde logo, a "Mas onde nossas idéias não copiam definidamente seu
legitimidade dessa crença, não por interesse próprio, mas objeto, que significa essa congruência com tal objeto? O
pela humanidade em geral. À medida, sem embargo, que Ja- progmatismo responde: Verdadeiras serão aquelas idéias que
mes foi envelhecendo, veio a crer na imortalidade. Em carta nós podemos assimilar, validar, corroborar e verificar. Falsas
de 17 de julho de 1904, a seu amigo Stumpf, confessava: as que não".151
"Nunca senti a necessidade racional da imortalidade . . .
confesso porém, que à medida que vou ficando velho, sinto Como a questão pivô da problemática pragmatista é a
com muito maior força do que antes a necessidade prática noção de verdade, a ela consagrou James a sexta das confe-
dessa crença; e isso combina-se com razões que me dão uma rências que integram seu livro Pragmatisme; é dessa confe-
fé crescente na sua realidade".129 rência132 e de outra obra, O Significado da Verdade, que va-
mos extrair as idéias mais significativas.
Em 1898, inspirando-se em Pierce, como já indicamos,
abraça com entusiasmo a idéia pragmatista, para cômprome- O pragmatismo propõe assim a questão sobre a verdade:
ter-se logo plenamente no seu significado espiritual e em admitida como certa uma idéia ou uma crença, que diferença
seu sentido ético e religioso. concreta se deduzirá de sua veracidade para a vida atual de

,v 130. Fritz Heinemann, Die Philosophie in XX Jahrhundert. Eine


127. Vid. Herbert W. Schneider, A History of American Phi- Eàçyclopedische Darstellung ihrer Geschichte, Stuttgart, 1959, p. 286.
losophy, New York, Columbia Univ. Press, 1947, p. 557. 131. W. James, The Meaning of Truth, London, 1909, pgs.
128. Ap. R. Barton Perry, The Tought and Character of W. V-VII.
James, Cambridge, HUP, 1967, p. 266. 132. Vid. James, Pragmatisme and the Conception of Truth,
129. Vid. Perry, op. cit, p. 267-268. Sixth Lecture on Pragmatisme, London, 1907, passim.

94 95
alguém? Como será realizada a verdade? A isto responde
e os tempos. Estamos dentro do mais radical relativismo
que a verdade de uma idéia não é uma propriedade estagna-
gnoseológico.
da, a ela inerente. A verdade acontece a uma idéia; esta
se faz verdade; os acontecimentos fazem a idéia verdadeira. Podemos, assim, perguntar: são verdadeiras as afirma-
Sua verdade é de fato um evento, um processo, o processo ções por que dão bom resultado, ou o dão por que são ver-
de sua própria verificação ou demonstração; sua validade é dadeiras? O pragmatismo responde estar de acordo com a
o processo de sua validação". primeira proposição; o sentido comum de toda a humani-
dade opta pela segunda.
"Mas qual é o significado pragmático dos termos verifi-
cação e validação? Insistimos em que não é outro senão o de O pragmatismo que se proclama como um novo método
certas conseqüências práticas da idéia verificada e validada". de filosofar, é simplesmente a inversão do método racional
Temos pois que o valor de nossas afirmações e convic- criteriológico. Em vez de propor como critério de verdade a
ções devem ser apreciados pelas conseqüências práticas, ou experiência em sentido retrospectivo, como gênese das idéias
seja: se servem para conhecer, e para a vida prática, valem. e dos conhecimentos, toma-a em sentido prospectivo, como
Todo conhecimento para os pragmatistas é ação e daí que experiência verificadora e atuante. "O conhecimento, escreve
eles definem a verdade em função da ação, isto é, dos resul- Franco Amerio, não é reprodutivo ou revelador do real,
tados práticos. "Todo conhecimento empírico que permite senão apenas indicador de uma ação de possível realização
obter o resultado que se esperava, nos subministra o conheci- em ordem ao real".133
mento de uma verdade; A idéia triunfa quando a experiência Enfim, para o pragmatismo o que interessa é o valor
comprova". prático de uma afirmação, em ordem ao desenvolvimento
O pragmatismo, diz James, representa uma atitude com- intelectual ou moral do indivíduo ou do grupo social, posto
pletamente familiar em Filosofia: a posição empírica. "O que a verdade mede-se pelo êxito. Em duas expressões de
pragmatismo rompe, de uma vez por todas, com uma série James podemos sintetizar-lhe o pensamento: "Ê verdadeira
de hábitos inveterados dos filósofos". Deixa de lado a abstra- toda idéia que produz efeitos benéficos em nossa vida". E de
ção e a insuficiência, as soluções verbais, os princípios fixos, modo conclusivo: "Verdadeiro, para dizê-lo brevemente, é
os sistemas fechados, os "absolutos" e as "origens". Volta-se só aquilo que convém a nossos interesses profundos; do mes-
para o concreto e adequado, para os fatos, para a ação, para mo modo que justo não é mais do que o conveniente em
a força, pois em tudo isso domina o temperamento empírico. nosso modo de nos comportarmos". Sem dúvida, diremos
"Deixa aberta a porta a todas as possibilidades da natureza em sentido favorável, que a fecundidade de uma doutrina prá-
contra a artificialidade, o dogma e a pretensão de um fina- tica pode, algumas vezes, confirmar a verdade desta, servin-
lismo na verdade. Ao mesmo tempo vai à procura de resul- do-lhe no caso de validação experimental; mas isto não deve
tados particulares: é só um método". induzir-nos a generalizar e levar-nos a pensar que o êxito
é critério seguro da verdade de uma doutrina. Isto seria con-
James, às vezes, afirma que tudo o que pela experiência fundir a bondade com a verdade.
se demonstra útil é verdadeiro; e outras, que o verdadeiro é
o que proporciona êxito à nossa atividade. Nestas condições Amor Ruibal„que estudou a fundo o pragmatismo, assim
pode-se afirmar que nunca se dá a verdade, pois o que no resume e expõe esse pensamento dentro do contexto da filo-
momento atual proporciona um êxito, pode não proporcioná-
lo no futuro. A verdade seria então mutável com os lugares 133. Franco Amerio, Epistemologia, Brescia, Marcelianít, 1948,
p. 270.

96 97
sofia coetânea: "La base general dei pragmatismo encuèn- e parece-me que o estabelecimento do pragmatismo constitui
trase como en Ias teorias de evolución transcendente y de um passo de primordial importância para fazer prevalecer
evolución empírica en ei devenir, en ei continuo movimiento esse empirismo radical."
e inestabilidad de Io existente, que solo mediante ei espejis-
mo de ia representación sujetiva aparece algo consistente y "O empirismo radical consiste em três pontos: primeiro
estable. Lo real en nosotros no es más que ei obrar y Ia um postulado, logo a afirmação de um fato, e por último,
acción; lo real fuera de nosotros es ei flujo continuo y uma conclusão generalizada".135
amorfo, es Ia simple duración sin sujeto que dure, y ei O postulado exige que as coisas que se hão de debater
movimiento incessante y eterno sin objeto móvil. El sujeto entre os filósofos sejam definíveis em termos obtidos da expe-
de Ia duración, sin sujeto que dure, y ei movimiento inces- riência.
sante y eterno sin objeto móvil. El sujeto de Ia duración, O enunciado ou afirmação de um fato é que as rela-
como ei objeto movible, son formas representativas dei yo ções entre coisas, tanto as conjuntivas como as disjuntivas,
humano donde se cristaliza y solidifica, por decirlo asi, a los são matéria de experiência particular, nem mais nem menos,
fines de Ia acción individual, ei fluir caótico que Ias ideas que as coisas mesmas.
mismas y los sentidos objetivan.
Por último, "a conclusão generalizada é que, por con-
"Desde ei momento en que lo real es puro devenir, Ia seguinte as partes da experiência se mantêm unidas por rela-
estabilidad que expresan los conceptos responde a una posi- ções que são por sua vez partes da experiência".136
ción falsa o acomodaticia, que solo tiene razón de ser en Devido, principalmente, à importância e prestígio que,
cuanto es una creación de utilidad sujetiva y personal. Pre- pela sua grande obra Principies of Psychology, já desfrutava
tender reducir ei conjunto móvil o, mejor, ei movimiento que James, o pragmatismo, apesar de suas graves incongruências,
constituye Ia única realidad, a Ia representación imaginativa obteve logo crédito e uma difusão fulminante. Nos anos de
e ideal, es semejante, en frase de W. James, a querer encer- 1906 e 1907, pronunciou nas Universidades de Harvard e de
rar ei água en Ias mallas de una red; comparación que res- Colúmbia as conferências que logo constituíram seu livro
ponde ai pensamiento de Bergson y expressa bien Ias defi- Pragmatisme. O êxito foi extraordinário. Nas de Colúmbia
ciências de Ia idea, según ei pragmatismo, respecto dei uni- teve um auditório de mais de mil pessoas. Poucos dias de-
verso em si".134 pois, referindo-se a essas conferências e à recepção na Uni-
A citação, embora longa, nos proporciona em compen- versidade, disse ele próprio que "constituíam certamente o
sação uma síntese profunda e luminosa das raízes do prag- ponto mais alto de minha existência no que se refere ao
matismo. desdobrar de energias, "so far as energizing" •— e a ser "re-
William James, prosseguindo sua especulação filosófica conhecido".137
na rota iniciada, e neste caso com perfeita lógica, abocou A satisfação e confiança de James no seu método prag-
num empirismo radical, que ele considera como o ponto final mático eram ilimitadas. Enviando a seu amigo Teodoro Flour-
do pragmatismo. "Acho-me interessado, escreve, noutra dou- noy o texto das oito conferências universitárias, dizia-lhe: "Eu
trina filosófica à qual dei o nome de "empirismo radical", quero fazer de todos vós entusiastas conversos ao pragmatis-

134. Angel Amor Ruibal, Los problemas fundamentales de Ia 135. James, The Meaning of Truth, Preface, XI.
filosofia y dei dogma, tomo II, cap. II, n.° 23, (ed, dei CSIC. II), 136. Op. cit., p. XII.
p. 64. 137. Vid. Perry, op. cit., p. 296,

98 99
mo . . . Sinto-me totalmente inflamado pela sua idéia, pois desorientação total: "Es un error fundamental en ei pragma-
considero-a capaz de substituir a todos os sistemas raciona- tismo ei de confundir Ia expresión significativa de Ia idea,
listas . . . Tenho a esperança de que o pragmatismo seja a que constituye ei símbolo dei concepto, con ei contenido dei
filosofia do futuro. Todas as tendências sãs e profundas da concepto mismo. El símbolo de Ia idea, que en ei ordem
vida a ele podem submeter-se".138 externo es Ia palabra y en ei interno son los elementos que
E escrevendo a seu irmão Henry, dizia-lhe: "Não me sur- entran em su definición, es algo inmóvel y estático que cons-
preenderia que dentro de dez anos minha obra Pragmatisme tituye una forma en si despojada de Ia vida y movimiento de
seja considerada como o livro "que fez época", pois não tenho Ia realidad. Mas ei contenido de Ia idea, o sea, aquello que
a menor dúvida a respeito do triunfo definitivo desse modo Ia definición lleva ai fondo de Ia conciencia como corres-
geral de pensar; julgo que é algo muito parecido à reforma pondiente a Io real, no es un símbolo inmóvil, es Ia realidad
protestante". 139 misma tal como se ofrece y es susceptible de ser conoeida
por ei hombre, con su propia vida, con actividad y movi-
O êxito, a celebridade do movimento pragmatista apa- miento propios. Cuando queremos definir Ia corriente de un
rece manifestada, não só pelo número de seus seguidores em rio, o ei movimiento de Ias ruedas de una máquina, o una
diversas partes do mundo e pelos louvores e aplausos que hora de tiempo en ei reloj, Io hacemos ciertamente con ele-
suscitou, como também, por contraste, na séria oposição e mentos estáticos que nos dan una definición y que, como tal
acerbas críticas a que deu ocasião. es inalterable y fija; pero esa definición no es ei término de
Realmente não deixa de ser surpreendente que um mé- Ia acción intelectual, no es más que ei símbolo de algo más
todo de filosofia tão pouco filosófico e de tão escasso valor íntimo que alcanzamps mediante ella; y esto más íntimo es
dialético, como o pragmatismo ou o humanismo de Schiller, Ia realidad de Ia cosa significada tal como ella es o aparece
James, Royce, Dewey, etc. tenha alcançado tamanha popu- ser; es ei fluir de Ias águas como se realiza, es ei movimiento
laridade. mismo de Ias ruedas de Ia máquina que se ofrece a nuestro
espíritu, es ei correr imperceptible dei tiempo que ei reloj
Para Ortega y Gasset: "es muy escasa Ia estimación que marca y dei cual adquirimos conciencia. En una palabra, es
ei pragmatismo merece en cuanto filosofia".140 Como bem ei símbolo mental de una cosa no es Ia cosa a cuya percep-
fazia notar o filósofo ianque Reinhardt, não se pode aceitar ción nos conduce. De donde se sigue que dei ser estático e
a validade de uma filosofia "que considera a verdade só como inmóvil de Ia representación, nada se concluye contra Ia per-
um instrumento para o logro do progresso individual e social cepción de Ia realidad dinâmica y móvil que adquirimos y
e que nega explicitamente a possibilidade de alcançar uma de Ia que tenemos conciencia mediante aquella representa-
verdade absoluta e universalmente válida". 141 ción estática, contra Io que pretenden los pragmatistas". 142
Com sua costumeira acuidade desvenda Amor Ruibal o
Ainda que o pragmatismo seja sem dúvida condizente
grave equívoco do pragmatismo, e que é â causa de sua
com as características e o temperamento praticista e utilitário
138. Perry, op. cit, II p. 199. dos povos anglo-saxônicos, foi, sem embargo, na própria In-
139. The Letters of W. James, edited by his son, Henry James, glaterra, que um dos seus filósofos contemporâneos mais con-
Boston, 1920, II, p. 279.
140. José Ortega y Gasset, Obras Completas, Madrid, 1947, IV,
p. 97.
141. K. F. Reinhardt, A Realistic Philosophy, Milwaukee, 1944, 142. Amor Ruibal, op. cit., II, cap. II, n.° 39 (ed. dei CSIC, II),
p. 251. p. 80-81-

100 101
ceituados, achou o método pragmatista de uma "incridible fício, recordando aos homens uma verdade fundamental:
complication". Com efeito, explica Russell, tal método dá somente a verdade concreta, tomada em todos os seus aspec-
por suposto que uma crença é verdadeira quando seus efeitos tos, pode ser o verdadeiro objeto da filosofia".146 Cumpre,
são bons; mas para que esta definição seja útil precisamos sem dúvida, reconhecer que o pragmatismo, mercê de sua
saber o que é bom e quais são os efeitos desta ou daquela parcialidade, teve o mérito de esclarecer vigorosamente um
crença, para poder saber que alguma coisa é verdadeira pois, aspecto da verdade: sua eficácia prática.
"só depois de haver decidido que os efeitos de uma crença
são bons é que temos direito a chamá-la verdadeira . . . eu
acho, conclui, graves dificuldades intelectuais nesta dou-
trina".143
No pragmatismo, como disse um historiador mexicano,
a verdade é essencialmente relativa: "só cabe falar da ver-
dade de cada um ou das verdades no plural". Isto é puro
ceticismo.144 Paul Kurtz, ainda que simpático a James, não
obstante finaliza a nota biográfica reconhecendo que "sua
teoria pragmática da verdade, que de todas suas teorias filo-
sóficas foi a que mais atenções lhe grangeou, é repudiada
geralmente no presente, e de fato parece absolutamente insus-
tentável, is quite untenable",145
Assim, pois, é incontestável que o pragmatismo incorre
num grave erro, que invalida seu sistema, ao identificar pura
e simplesmente o verdadeiro e o útil; e ao afirmar que uma
crença religiosa é verdadeira na medida em que nos propor-
ciona consolação; pois é convicção universal do gênero hu-
mano que uma idéia não é verdadeira porque é útil, muito
pelo contrário, é útil porque é verdadeira.
Entretanto, nem tudo é negativo a respeito do pragma-
tismo. Pondera discretamente Gex que talvez não fosse pre-
judicial ao pensamento humano passar por uma fase do prag-
matismo apesar do incompleto e sumário de sua doutrina,
"pois o pragmatismo poderia impedir que a filosofia, levada
pelo prurido de novidades, se torne um enganoso e vão arti-

143. Bertrand Russell, History ~of Western Philosophy, London,


4, 1954, p. 845.
144. Antônio Pérez Alcocer, Historia de Ia Filosofia, México,
1948, p. 415.
146. Maurice Gex, Finführung in die Philosophie, Berna, 1960,
145. Kurtz, op. cit., p. 105. p. 172.

102
103
Capítulo VIII

HISTORICISMO

Não é possível dar noção unitária de um movimento


ideológico tão vário e polifacético como o historicismo. Sob
esse neologismo acolhem-se os produtos os mais variados do
pensamento histórico e filosófico moderno. A aplicação mais
usual desta palavra é geralmente para designar aquela forma
de historicismo que se caracteriza pelo predomínio de ele-
mentos vitalistas e existencialistas em sua estrutura e que,
como a esses sistemas, não é fácil traduzir em conceitos
lógicos.
Aliás, esta dificuldade na conceituação do historicismo
brota de sua mesma contextura, pois ele próprio se considera
como produto da experiência vivida, pessoal e intransferível.
Ele parte da evidência de que o fundo radical da realidade
é a vida humana "y esta, segundo se exprime um de seus
expositores, en todas sus dimensiones artísticas y científi-
cas, sociales y religiosas, es temporalidad, limitación y con-
tingência. Todo se me dá em mi vida. Pero mi vida misma,
es relativa a una época histórica".147 Daí que o vazar sua
forma em moldes conceptuais nos daria apenas um perfil
artificial e utópico. Por esta razão o historicismo é mais bem
explicado e definido como uma tendência do que como um
sistema determinado e concluso.
147. J. Sánchez VUlasenor, La crisis dei historicismo, México,
Ed. Jus, 1945, p. 10,

105
Hoje, entende-se comumente por historicismo a tendên- Como método sistemático, o historicismo só cabe dentro
cia que leva a considerar os produtos ou criações do espírito dos princípios do positivismo ou do pragmatismo. Nietzsche
e da cultura (filosofia, direito, moral, religião, etc.) somente dizia que nós necessitamos da história "para a vida e a ação,
em seu clima histórico, limitando seu valor de verdade, bon- não para a renúncia fácil à vida e à ação; queremos servir
dade e justiça ao tempo e lugar em que apareceram ou esti- à história só enquanto ela serve à vida".150
veram vigentes e, portanto, nega a esses produtos seu valor Já em capítulo anterior, salientamos que o relativismo
intrínseco fora daquele âmbito, ainda que sua pretensão de era o apanágio da filosofia moderna. Por ela circula em todas
validade o ultrapasse. Deste modo, v.g., tal doutrina que,
as formas e às vezes, frisa um escritor, "em forma informe";
tomada em si mesma, é falsa, ou tal ato que, abstratamente
todavia o cariz predominante de tal filosofia é o histórico;
considerado, é condenável, aparecem historicamente como
momentos necessários, como fases impossíveis de eliminar "o historicismo como sistema metafísico está em vigência
de uma evolução. desde começos do século".151
O homem vem, especialmente desde o século XVIII, pas-
Uma forma menos restrita de historicismo é aquela que
sando gradativamente ao primeiro plano no interesse espe-
na história de uma coisa vê a explanação suficiente da mes-
culativo dos filósofos. Nos nossos tempos, em alguns siste-
ma, ou a que descobre os valores dos processos históricos no
mas, v.g. no existencialismo, o tema do homem tornou-se o
mero exame de sua origem ou faz esses valores inseparáveis
único de sua filosofia. Não é, porém, o homem abstrato do
da evolução histórica.
racionalismo cartesiano: o homem ahistórico, vagamente hu-
Outros històricistas, sem chegarem a um relativismo manitário, construído de peças justapostas, submetidas em
tão radical, explicam as criações culturais não só em função seu funcionamento a um puro mecanicismo; o homem asso-
dos fatores racionais ou lógicos senão também levando em ciai, possuidor de direitos num frio individualismo; não é um
conta os alógicos e circunstanciais, como se verifica, por exem- homem "que no es de aqui o de allí, ni de esta época o
plo, no historicismo de Savigny. de Ia otra, que no tiene ni sexo ni pátria, una idea, en fin",
Já Eisler registra o historicismo como consideração da como disse Unamuno. Não, o homem objeto de tão espe-
natureza "e do mundo cultural do ponto de vista do proces- cial atenção na filosofia contemporânea "es ei hombre con-
so histórico em sentido hegeliano".148 E Runnes aplica, por creto, de carne y hueso; yo, tú, lector mio, aquel otro de
sua vez, a denominação de historicismo à evolução histórica más allá, cuantos pesamos sobre Ia tierra"152, é o homem
de K. Marx.149 totalmente imerso na temporálidade; sua estrutura fundamen-
tal é a historicidade, a atuação variada, inesperada, não sub-
O historicismo, enquanto negação do valor intrínseco e metida a leis ou instâncias superiores, apenas influída a cada
intemporal dos princípios, opõe-se ao racionalismo; tomado, instante pelo pensamento da finitude e da angústia.
porém, no sentido da filosofia de Hegel, segundo a qual o
acontecer humano é um processo essencialmente histórico,
espiritual, opõe-se ao naturalismo.
150. Nietzsche, UnZeitgemassé Betrachtungen, II, cit. em Eisler,
Handwortebuch, p. 277.
151. José Iturrioz, Tendências Filosóficas modernas (em comen-
148. Eisler, Worterbuch etc, t. II, p. 637. tários a Ia Ene. Humani Generís, Bilbao, 1952, p. 60-61).
149. Dagobert D. Runnes, The Dictionaire of Philosophy, 2." 152. M. de Unamuno, Del sentimiento trágico de Ia vida, Ma-
ed., New York, 1942, p. 127. drid, s.d., p. 6.

106 107
Esta descrição do historicismo não é, todavia, adequada porém, eram muito diferentes. Com efeito, essa escola ra-
a todas as formas do mesmo. cional e apriorista deificava a razão, erigindo-a em árbitro
supremo de toda instituição e de toda moral, daí o divórcio
Considerando o raio de aplicação da noção da realidade invencível entre o direito naturalista essencialmente racional
histórica, distingue Ferrater Mora, em seu excelente Dicio- e o direito positivo surgido da vontade do legislador ou das
nário, dois tipos de historicismo: o antropológico "que ads-
vicissitudes históricas dos povos. A escola racionalista do
cribe Ia historicidad ai hombre y a sus produciones"; e o
direito, considerando o homem em abstrato, pretende elabo-
cosmológico "que adscribe ia historicidad ai cosmos ente-
ro"; 153 o primeiro tipo está influenciado pelo modelo das rar um direito para tudo e sempre prescindindo totalmente
ciências históricas, ao passo que o segundo prende-se ao evo- das instituições e formas de uma determinada civilização.
lucionismo cósmico. "Despreza a observação dos fatos, diz Lessa, as lições da
história e a experiência do presente, supondo possível reor-
Esta classificação dicotômica não abrange a totalidade ganizar uma sociedade por meio de instituições engendradas
do historicismo, pois deixa fora o que, seguindo a nomen- pela imaginação criadora, que é ao que se reduz a inteligên-
clatura de Ferrater, poderíamos chamar de historicismo étni- cia, quando desajudada do seu imprescindível arrimo no do-
co, que corresponde à conhecida com o nome de Escola his- mínio da ciência".154
tórica ou Historicismo jurídico, cuja influência ainda hoje
se faz sentir, através dos remanescentes do positivismo nas Como sempre acontece em casos similares a esse exage-
doutrinas morais, jurídicas e políticas. É esta a forma de his- rado apriorismo racionalista, opunha-se a opinião dos que
toricismo que registra o Vocabulaire de Lalande. intentavam buscar na história o fundamento das instituições
jurídicas, e de sua evolução. Na medida que ia decrescendo
Os grandes clássicos da escola jurídica espanhola dos a escola racional ia tomando impulso a histórica.
séculos XVI e XVII prestaram especial atenção à história,
sem por isso descerem da concepção metafísica do direito. Esta, porém, não teve desenvolvimento uniforme. Viço
Surge, porém, especialmente nos arraiais protestantes, a mal sentiu vivamente o valor do histórico, e, alheio a toda polí-
chamada escola do direito natural, que alcança no século tica, guiado somente pela ciência, deixou-nos seu conceito
XVIII sua culminância com o filosofismo racionalista da historicista que consistia na descrição das leis e das razões
Ilustração. Esta escola é inteiramente apriorista, chamada tam- que, em consonância com o tempo e o espaço, lhes haviam
bém, justamente, escola racional ou idealista. Ela faz derivar dado origem. Viço possuía o fino senso da historicidade do
todo o direito da razão natural, absoluta, imutável, universal, acontecer humano. E é este senso do histórico que o leva a
igual para todos os povos e para todos os tempos, ou seja, repudiar o individualismo e caracteriza a sua mentalidade:
na pura razão havia de buscar-se, exclusivamente, não na "che noi dobiamo considerara, afirma Cicala, quindi come
experiência ou consentimento dos povos, o critério para dife- il vero e grande precursore delia scuola storica".155
renciar o justo do injusto.
Não foi, porém, este sadio historicismo de Viço o que
Em boa parte, as conclusões desta escola eram coinci-
dentes com as do direito natural escolástico; seus princípios,
154. Pedro Lessa, Estudos de Philosophia do Direito, Rio de
Janeiro, 1912, p. 309.
153. J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, Buenos Aires, 155. Bernardino Gicala, Filosofia e Diritto. I sommarii. Parte
Ed. Sudamericana, 1938, p. 650. seconda, Cittá di Castello, 1927, p. 356.

108 109
/

caracterizou a assim chamada Escola Histórica.156 blo, ei puro sentimiento de necesidad íntima que excluye ia
Esta surge na Alemanha em violenta oposição ao inten- posibilidad de un origen accidental y arbitrário".157
to de Thibaut (em 1814) de dar a toda a Confederação Ger- O estudo científico, e a defesa, contra a escola racional
mânica um só Código unificado, no molde dos códigos pro- do Espírito do povo (Volksgeist) induziu a muitos juristas,
piciados pela escola racional. filósofos e sociólogos, particularmente alemães, a uma con-
Os fundadores deste historicismo jurídico foram Gus- cepção puramente biológica da sociedade, levando-os a con-
tavo Hugo, Jorge R. Puchta e, sobretudo, Frederico Carlos siderar a nação como um todo vivo, consciente, ativo, ou
Savigny (1779-1861), que é o mais importante doutrinador seja, um verdadeiro indivíduo. Deploige pergunta-se, qual a
da escola histórica. O que propriamente constitui a doutrina origem do Volksgeist, dessa idéia orgânica do Estado? E
desta escola é a pretensão de que o direito é um produto responde, contra muitos, indicando o nome de Adam Müller
exclusivo do espírito do povo, criação coletiva deste, numa como autor dessa idéia e da concepção do Estado como uni-
união de todos os elementos culturais e vitais formando um dade biológica, bastante antes de Savigny.158
processo orgânico de desenvolvimento.
O direito, para o historicismo jurídico, não é já uma Partidário foi também desta escola o célebre historiador
idéia abstrata que emana da razão e por ela exclusivamente do direito natural F. J. Stahl, muito embora intente conciliar
elaborada, como pretende a escola do direito natural racio- o relativismo jurídico com a ordem cristã. Como Savigny,
nalista; é antes a expressão da consciência jurídica de um ele sustenta a correlação do direito com a formação da nação
determinado povo, que evolui e se aperfeiçoa, ao evoluir e e com a consciência nacional, a espontaneidade inerente das
aperfeiçoar-se o próprio povo. O sujeito pois, ativo, a causa suas primeiras origens e a lei de continuidade que rege sua
eficiente do direito, é o mesmo povo, o Volksgeist, instru- evolução. O presente não é mais que um movimento na con-
mento inconsciente que se traduz na cultura e na história de tínua evolução das idéias e das instituições; está, pois, sem-
cada povo. Assim resulta o direito de um produto espontâ- pre determinado pelo passado, do que não pode se separar,
neo do progresso social determinante do que é justo e do que incapaz de inovar na ordem das idéias, o mesmo que na das
é reto e bom. Na escola histórica "ei Derecho — precisa instituições, e dele não podemos ter uma clara inteligência se
Luno Pena — es ei resultado inconsciente dei espíritu popu- não à luz do mesmo passado.159
lar. Su origen es esencialmente consuetudinario. Su funda- O historicismo jurídico teve entre outros frutos o de
mento es ei espíritu dei pueblo, Ia convicción común dei pue- corrigir os tremendos exageros da escola racional jusnatura-
lista, segundo a qual, somente na razão natural, universal,
1S6. O notável jurisconsulto do Séc. XVIII, lovellanos, foi es- imutável e absoluta, se acha o critério para discernir o justo
clarecido partidário do historicismo jurídico, na linha doutrinai de do injusto com absoluta independência de sua realização
Viço. Naquela gema literária que é seu Discurso de recepção na Real
Academia de História, de Madrid, referindo-se ao Fuero Viejo de histórica; negando, deste modo, todo valor à autoridade e à
Castilla, tem observações como esta: "Llámenlas en buen hora bár- experiência em aras de um exagerado e geométrico dogma-
baras y groseras — as leis do Fuero — los que ignorando su origen,
son incapaces de penetrar su esencia; pero yo admiraré siempre Ia
prodigiosa conformidad que hay entre ellas y Ia constitución coetâ- 157. Enrique Luno Pena, Historia de Ia filosofia dei derecho,
nea . . . Y a Ia verdad, sefíores, que es Io que falta a Ias leyes 2.a ed., Barcelona, La Hormiga de Oro, 1955, p. 610.
para ser sabias cuando son convenientes?" — G. M. de Jovellanos, 158. Simon Deploige, Le Conflict de Ia Moral et de Ia Sociolo-
Discurso sobre Ia necesidad de unir ai estúdio de Ia legislación ei gie, 4.* ed., Paris, s.d., p. 157-163.
de nuestra historia y antigüedades. Em Obras escogidas, ed. por F. 159. Ver Frederico Júlio Stahl, Historia de Ia Filosofia dei De-
Soldevilla, Paris, 1887, p. 17-18. recho, trad. de E. Gil y Robles, Madrid, s.d., p. 663-686.

110 111
tismo. A escola histórica representa mesmo a reação antirra- Todavia, a falha mais grave do historicismo está no seu
cionalista, um movimento em. favor da espontaneidade, a ingênito relativismo, cuja lógica interna comporta a negação
tradição e continuidade históricas, frente às abstrações e aos de todos os valores estáveis de bondade, justiça e verdade;
princípios apriorísticos da Declaração de direitos e da Re- Realmente, embora esse historicismo tenha surgido no campo
volução Francesa. das ciências jurídicas e especialmente no estudo da jurispru-
dência civil, logo estendeu sua influência e suas conseqüên-
"Significou, frisa Lufio, uma exaltação do individual, cias ao campo das outras ciências sociais e econômicas e
do concreto e do histórico, como manifestação do espírito sobretudo às morais, modificando aquele caráter abstrativo,
popular nacional, frente ao individualismo racionalista, abs- dogmático e quase geométrico da escola racional jusnatura-
trato, anti-histórico da Revolução".160
lista. Para o historicismo jurídico, já nem os princípios abso-
Talvez a mais valiosa aportação do historicismo jurídico lutos da razão, nem as deduções lógicas que em tais princí-
fosse a revalorização do direito consuetudinário, muito em- pios se contém, nem mesmo aqueles nobilíssimos ideais que
bora "o exaltasse superlativamente" como reação — observa iluminam e enaltecem os sistemas metafísicos e a philosophia
Recaséns Siches — contra o desdém por aquele direito que perennis, fogem à destruição e ruína.
foi a "tônica racionalista e idealista dei pensamiento mo- Lamentavelmente, não faltaram, mesmo no campo cató-
derno, desde ei Renacimiento hasta ei siglo XIX".161 Na lico, como lamenta Cathrein,162 alguns escritores modernos
atualidade, além do Direito Canônico, é muito escasso o
que, pouco esclarecidos, não alcançaram o que de falso se
valor e respeito que se dá ao direito consuetudinário. E
contém no historicismo jurídico e aderiram aos seus postu-
onde a democracia liberal de sufrágio igualitário e univer-
lados, chegando até à negação do direito natural.
sal impera, não só o direito consuetudinário, mas, também,
os direitos natural e divino ficam eliminados. Esta é a situa-
ção jurídica, após a Revolução Francesa, de muitos povos
do Ocidente, outrora católicos.
Apesar das vantagens assinaladas, o historicismo jurídico
apresenta falhas gravíssimas que o invalidam.
Já antes sublinhamos que a escola histórica trata de eli-
minar o dualismo jurídico: direito natural e direito positivo,
pois, em sua doutrina da origem étnico-genética do direito
não há mais lugar que para o direito positivo, derivado da
"alma popular". Por isso, esse historicismo nega a existência
do direito natural clássico pois, se existisse seria anterior ao
positivo originado do povo, e por conseguinte anularia o
mesmo sistema cujo princípio é a consideração do povo e da
história como fatores únicos do direito.

160. Op. cit., p. 612.


161. Luis Recaséns Siches, Tratado general de Filosofia dei 162. Victor Cathrein, Moralphilosophie, 3." ed., Freiburg, Her-
Derecho, Mejico, Porrua, 1959, p. 288. der, 1891, t. I, p. 445.

112 113
Capítulo IX

O EXISTENCIALISMO MULTIFORME

Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, entre as


filosofias da hora, ocupou lugar preeminente e até exor-
bitante, a chamada filosofia existencial que, embora em sua
estrutura se apresente irracional e, por vezes, mesmo absur-
da e sempre pessimista, obteve, sem embargo, mercê de di-
versas circunstâncias favoráveis, sociais e políticas e não
propriamente filosóficas, um grande favor entre o público de
após guerra, na Europa, causando no campo filosófico mais
transtornos do que benefícios.
Nesta exposição intento apenas esboçar, em linhas ge-
rais, os elementos necessários para se chegar a uma noção,
o menos vaga e incerta possível, do que seja esse movimento
filosófico que recebeu o nome de existencialismo. Todavia,
muito embora se trate de problema de caráter filosófico, oca-
sionalmente revestiu tais modalidades e sofreu tão variadas
influências do meio ambiente que se torna indispensável
bosquejar previamente a sua definição, as condições sociais,
religiosas e políticas em que surgiu vigoroso esse movimento
e qual a gênese de suas orientações.

O MUNDO DE APÔS-GUERRA
Se a filosofia impropriamente chamada existencialista
tiver sua gênese, ou ainda sua razão de ser nos desastres
ocasionados pelas guerras dos últimos decênios; se esta filo-

115
sofia fora apenas uma legítima e eficaz evasão, nos tempos de
tormenta, teria, hoje, não menos que em anos passados, ra- lica com a filosofia atual, declara-lhes que o seu cometimento
zão de vigência, pois estamos vivendo constantemente amea- é de inadiável urgência, magni momenti et ingens causa.164,
çados e constrangidos diante dos presságios que nos depara Não vejamos, contudo, na fala de Roma uma censura
uma paz armada, uma paz ainda não firmada com várias aos pensadores que se esforçam seriamente por enriquecer a
nações — isto se escrevia em 1952 — uma guerra fria, de síntese cristã com novas conquistas do pensamento moderno.
maneira que, se ainda não caminhamos à luz fatídica dos A fé e a filosofia constituem duas ordens paralelas, diferen-
estampidos atômicos ou das bombas-foguetes, dá para enxer- tes. Para o filósofo, a fé é apenas, e de modo indireto, um
garmos no fundo do horizonte densas nuvens, prenúncios guia que lhe assinala os escolhos, sem no entanto tolher sua
certos da tempestade. liberdade de investigação. A ninguém ocorrerá dizer que o
farol da ilha Rasa, na baía de Guanabara, dispensa os conhe-
Entretanto, reconhecendo embora que a angústia co-
cimentos profissionais dos pilotos ou que, por guiá-los, limi-
letiva prepara e dispõe o ambiente e facilita a receptivi-
ta-lhes a liberdade; não, apenas lhes presta auxílio para nave-
dade de uma tal doutrina, mesmo assim pensamos que nem
garem com segurança.
a gênese nem a explicação adequada desta filosofia se encon-
tram nesses fatos de ordem exterior e coletiva, mas na dialé- Para melhor apreciar, em sua justa significação, o valor
tica racionalista-empirista dos últimos tempos e, sobretudo de certas intervenções pontifícias no campo filosófico cum-
em fatores de ordem religiosa, como logo veremos. pre salientar que no fundo de grande parte da filosofia mo-
derna, "jaz um sub-reptício endeusamento da existência"165
Os problemas de índole puramente temporal e filosó- que a leva a sacudir todo jugo ou limitação, seja de caráter
tíca racionalista-empirista dos últimos tempos e, sobretudo divino ou humano, e a induz a entrar, a cada passo, pela seara
deixou à livre discussão dos homens. O existencialismo, po- dogmática. Mais, ainda, como já um arguto teólogo re-
rém, reveste singular importância pela repercussão que mui- ceiou186 "talvez na base da construção heideggeriana esteja
tas de suas doutrinas alcançam nos domínios da fé e da latente o desígnio de dar satisfação a toda exigência humana
teologia. Eis o motivo porque o Papa se decidiu a alertar do divino, para lançar-nos numa secularização radical". Isto,
reiteradamente o mundo na encíclica Humani Generis, bem entendido, sem declarar explicitamente essa intenção, o
contra as "aberrações de algumas orientações desta nova que tiraria grande parte do valor suasório ao empreendi-
filosofia". Aliás, não foi esta a primeira vez que Pio XII se mento.
referiu à filosofia existencial, pois já o tinha feito, de modo
sem dúvida menos solene, no discurso aos membros do "Con- A tão grave ameaça vem responder em nossos dias a
gresso Internacional de Filosofia" celebrado em Roma de 15 Humani Generis. A palavra da Igreja, neste caso como
a 20 de novembro de 1946.163 Com admirável precisão de em outros análogos, tem para o pensador cristão algo assim
conceitos, frisava então o Papa a posição da Igreja católica como uma função sinalizadora que lhe aponta a baliza in-
em face das novas correntes. E um mês após a publicação transponível, além da qual a inteligência se extravia.
da Humani Generis (17-IX-50) na visita que lhe fizeram Em todo caso, como se trata de doutrinas humanas que
os assistentes ao II Congresso Tomista Internacional, no são expostas e defendidas no âmbito dos conhecimentos na-
qual foram especialmente estudadas as relações da fé cató-
164. Ap. Ecclesia, n.° 481, 30-IX-1950, p. 367.
165. Zubiri, Naturaleza, historia, Dios, Madrid, 1944, p. 465.
163. Vid. Ecclesia, n.° 282, dezembro, 1946. 166. Martin Ortúzar, En torno a "Sein und Zeit" de Heidegger,
in rev. Estúdios, 7-8, 1947, p. 176-177.

116 117
turais, nesse campo é que se moverá nosso exame e nossa delegado do Brasil ao Congresso Internacional de Oftalmo-
marcha em busca de uma exata compreensão e definição do logia, disse-me, de certa feita, que nada havia de exagero
existencialismo. E só acidentalmente, e para ilustração ou nas descrições jornalísticas dos clubes existencialistas, que
informação de algumas teses, frisaremos seu alcance dog- realmente constituíam nota degradante para uma sociedade
mático. que se diz civilizada. Ele me deu também um exemplar do
Notemos, também, a conveniência e oportunidade de "Guia de Turismo de 1950", publicado pelo The Sunday
estarmos atentos aos problemas filosóficos atuais, por causa Times, onde, com características muito pouco filosóficas,
da inusitada difusão de certas doutrinas, ainda fora da área convidam-se os turistas a visitarem tais clubes.
filosófica, eivadas de gravíssimos erros, que se vão inoculan- Dir-se-á, sem dúvida, que não é esse o verdadeiro exis-
do em grandes setores mesmo alheios às especulações filo- tencialismo filosófico. Concordo, fazendo notar, sem embar-
sóficas. Eugênio d'Ors, de regresso de um dos congressos go, que as premissas assentadas por vários existencialistas
de Filosofia de Roma, declarou que nele: "en cada uno de filósofos são tão radicais e materialistas que não se vê como
sus dias, se oía, ai menos, un millar de vezes Ia palabra exis- poderíamos qualificar de incoerentes,os que as levam às últi-
tencialismo".167 Ensaios, romances, dramas, revistas tudo ser- mas conseqüências. Sirvam, pelo menos, para nos tornar cau-
ve para expandir doutrinas que, com freqüência, de existen- telosos, não esquecendo que os grandes erros e calamidades
cialistas em sentido estrito conservam só o nome. sociais tiveram sempre um cérebro que primeiro lhes deu for-
É este um dos fenômenos sociais mais significativos do ma numa teoria filosófica. Se a árvore se conhece pelos fru-
após-guerra. Desgraçadamente ainda continua nalguns paí- tos . . . aos leitores deixo a inferência no caso.
ses revestindo cada vez um caráter mais amoral e, porque O existencialismo foi qualificado de filosofia da crise,
o não dizer?, abjeto. e de fato, quem lê os autores mais representativos do exis-
Registremos aqui os dizeres do professor Maurício de tencialismo fica logo impressionado pelo ambiente de angús-
Medeiros, em crônica de Paris, publicada num jornal carioca, tia em que se movem.
que diz: "No conhecimento dos ambientes atuais de Paris, Para Kierkegaard a ciência, a fé, o homem é presa da
a personagem principal é levada aos chamados clubes exis- angústia, e "é tanto mais homem quanto mais profundamen-
tencialistas. E é esse um dos aspectos mais dolorosamente te se angustia".169 Para Heidegger a essência do homem, do
impressionantes do Paris atual, porque, afinal, de clube só ser-aí, é a derelição, o estar arrojado no mundo. Para Gabriel
o que há é o nome. E "existencialista" é apenas um rótulo Mareei o homem é um ente capaz de desesperar. Karl Jas-
com que se designa uma tendência amoral, um relaxamento pers fala de situações-limites. E para Sartre o homem leva
geral dos costumes, uma livre expansão dos instintos, uma o nada no seu ser. Enfim, a filosofia existencial é essencial-
completa negligência nas atitudes tradicionais do homem que mente pessimista, uma filosofia "da evasão", como foi cha-
vive em sociedade".168. E segue o jornalista descrevendo mada algures.
discretamente a vida de alguns desses clubes.
Perguntamos agora: será esta filosofia um produto das
Nosso ilustre amigo, o Dr. Hermínio de Brito Conde, convulsões políticas e sociais modernas, ou será antes o fruto
Presidente da Liga Nacional de Prevenção da Cegueira, como da decomposição de uma cultura que nele nos reflete o der-

167. Vid. Revista de Filosofia, 21, 1947, p. 356 169. Vid. Cornelio Fabro, Problemi deWesistenzidlismo, Roma,
168. Ap. Diário Carioca, 24-X-1950. 1945, p. 21.

118 119
radeiro grau de decadência? Como se explica que uma dou- nando as massas populares. Deste modo, a Europa, que no
trina que a si mesma se apresenta como do desespero e da Medievo correspondia tão bem ao binômio de Hilário Belloc,
angústia tenha tal aceitação? • "Europa é a Fé e a Fé é a Europa", agora fazia saltar em
De fato, o existencialismo achou ambiente propício no pedaços a fé de seus pais e perseguia a Igreja que a civili-
clima criado pelas duas grandes guerras deste século; toda- zara, buscando sucedâneos econômicos e materialistas para
via, tanto estes conflitos como a filosofia existencialista deri- a satisfação das gentes. Finalmente, abandonado o Catolicis-
vam de causas comuns muito anteriores a seu aparecimento. mo procurava preencher o lugar com a CIÊNCIA, assim
escrita em letras capitais.
A filosofia existencialista não é filha das condições so-
ciais do mundo contemporâneo, simplesmente porque Kier- Deste modo, privado de Deus, despojado de suas cren-
kegaard, de quem traz a certidão de nascimento, é anterior ças em que outrora descansara tranqüilo, o homem sentiu
um tremendo abalo em toda a sua onticidade. Secaram-lhe a
de há quase um século, e então reinavam na Europa vitoriana
fonte de consolação que é a esperança cristã, sucedida pelo
a paz e a prosperidade. Além disto, não é pessimista em su-
desespero. "Nossa morte, escrevia melancólico Maeterlinck,
mo grau Schopenhauer, que vivia pelos mesmos tempos? E
é a guia de nossa vida, que não tem outro objetivo que nossa
Nietzsche, o homem do nihilismo moral, não escreveu nos
morte".170
gloriosos dias da Alemanha de Bismark?
A CIÊNCIA não cumprira as promessas de um futuro
Qual é pois a causa da atual angústia da humanidade? cheio de felicidade onde não caberia mais a questão do des-
Ah! eis-nos já em presença da Teologia, tocando com as nos- tino de além-túmulo. Dominada toda pelas escolas positi-
sas mãos o problema da Divindade. A gravíssima enfermi- vistas e empiristas desembocara numa hipertrofia do tem-
dade de que adoece o mundo hodierno é a perda, o aban- poral, que não deixava mais lugar para o eterno. O homem
dono da fé católica, é a ausência de Deus. Um dia lançava sentiu que a alma se lhe escapava e procurou algo a que se
Nietzsche aquele grito insensato e satânico: Gott is tot; num apegar. "E veio o pessimismo — diz Unamuno —. O pro-
wollen wir, dass der Ubermensch lebe. "Deus morreu, viva gressismo tampouco satisfazia. Progredir, para quê? O ho-
pois o Super-homem!" E escreveu logo as páginas mais ex- mem não se conformava com o racional, queria dar finali-
plosivas, pessimistas e destrutoras de todo valor, que o mundo dade à vida. E a famosa maladie du siècle, que se anuncia
ainda tenha lido. Viveu no desespero e acabou no manicô- em Rousseau, não era nem é outra coisa senão a perda da fé
mio. na imortalidade da alma, na finalidade humana do univer-
O mundo moderno foi, gradualmente, se afastando de so".171 Se reduzirmos a vida a um relâmpago entre duas
Deus e na mesma medida foi se tornando violento e triste. eternidades, então, será a mais detestável, a sorte do vivente.
Começou por isolar Deus e a razão, prosseguiu exaltando as Com o dito compreende-se que seja tão agudo o senti-
prerrogativas desta, mesmo por cima das verdades reveladas, mento de solidão e de angústia do homem hodierno. Com
e negando ou pondo em dúvida a religião cristã, e até o pró- que finitude poderá ele encher o vazio que deixa o infinito?
prio Cristo. Ah! impossível preencher com o humano o vazio que deixa
Nos começos, a impiedade ficava apenas nas classes
intelectuais; mas pouco a pouco, pela ação persistente e tenaz 170. M. Maeterlinck, El tesoro de los humildes, Valentia, s.d.,
p. 36.
do racionalismo e da maçonaria, a descrença, o ódio à igreja 171. Unamuno, Del sentimiento trágico de Ia vida, Madrid, s.d.,
e por vezes o mais cru ateismo, foram penetrando e domi- p. 292.

120 121
o divino. Eis aí a verdadeira causa, confessada ou não, da
inexprimível angústia que oprime a tantos homens de nossos
dias. É esta a angústia que, ao tornar-se consciente na mente
de um pensador, toma a feição de existencialismo em suas
mais diversas formas.
É interessante notar como o ilustre pensador brasileiro
Farias Brito que, muito embora combatesse o positivismo e
o materialismo, não teve a felicidade de chegar a integrar-se
plenamente na fé católica, sentiu também vivamente a soli-
dão, a angústia e o desespero característicos do existencia-
lismo. O nada, a aniquilação, constituía para o pensador
cearense a suprema libertação. "Pode dizer-se, escreve, que
a vida é uma agonia contínua; e o momento em que come-
çamos a viver é já, por assim dizer, um começo de morte.
É preciso que essa agonia termine. Para vencer pois, o de-
sespero e a desgraça irremediável da vida, só há um meio:
RAIMUNDO FARIAS BRITO o completo esquecimento de tudo no nada. O nada, eis pois
Um grande filósofo brasileiro a suprema libertação".172 Ele sentia também é com extrema
gravidade a derelição, o ser arrojado aí, a temporalidade do
Dasein heideggeriano e a condição de ser-para-a-morte: "Va-
gamos como sombras na noite do mistério, e em vão solta-
mos queixas e gemidos em face do impenetrável que nos
aterra; incertos do nosso destino; perdidos na imensidade do
espaço e no infinito do tempo; certos somente da fragilidade
de nossa existência e da morte inflexível que nos aguar-
da"." 3
Hessen diz que a questão central de toda filosofia exis-
tencialista é a de dar resposta à pergunta: tem algum sentido
a existência e em que consiste este sentido?174 A deslindar
essa questão se dirigem as análises de Heidegger. Esta foi
também a preocupação e o que fazer de Farias Brito: "É uma
verdade que sofremos, é uma verdade que lutamos na vida
e trabalhamos com todas as forças por descobrir a significa-
ção real da existência".175
172. Farias Brito, O Mundo Interior, Rio, 1914, p. 45.
MIGUEL DE UNAMUNO 173. F. Brito, op. cit., p. 31.
Autêntico existencialista 174. J. Hessen, Existenzphilosophie, Basilea, 1948, p. 7.
avant Ia lettre 175. Op. cit., p. 55.

123
Realmente, o mundo hodierno adotou esta filosofia pes- nosso Pai, na imortalidade da alma, no valor substantivo da
simista porque, privado de Deus, da alma e da imortalidade, esperança enflora sua vida presente com belezas inefáveis,
não lhe ficava outra escolha. "Que caminho pode seguir a mesmo em meio das inevitáveis vicissitudes e sofrimentos,
filosofia, declarava Pio XII em 1946,176 que não seja o mais abrindo diante dele uma vida de eterna felicidade além-
agudo desespero se não procura as soluções em Deus, na túmulo.
eternidade e na imortalidade pessoal?" Mas estas condições,
PRIMEIRAS TENTATIVAS EXISTENCIALISTAS
repetimos, não surgiram com os conflitos deste século e, sim,
com a impiedade e o trabalho profundo de descristianização O existencialismo discorre por várias vertentes e não é
que se vinha processando desde o século XVIII. De modo coisa fácil dar uma definição precisa que corresponda a to-
que podemos inverter os termos de Michele Sciacca, segun- das as suas formas. Há o existencialismo dos precursores:
do o qual o existencialismo elevou a crise duma época repre- Kierkegaard, Unamuno, Rilke, Dostoiewski, destacando-se,
sentada pelo drama duma existência desfeita e desgarrada sobretudo, o primeiro. Neles não tinha, ainda, contornos mui
pela guerra, à "crise da existência" em sentido universal. definidos. Vêm, depois, formas já mais elaboradas com Karl
Diremos melhor que a crise da existência em sentido univer- Jaspers, Heidegger, Mareei, Sartre, Abbagnano e Berdiaef,
sal, a crise de todo valor humano, foi precisamente a causa- juntamente com outros de menor significação. Há grandes
dora principal da pavorosa crise por que atravessa nossa diferenças, por vezes substanciais, entre estes pensadores,
época.177 embora possamos também achar em todos eles alguns pontos
Sintetizando as considerações precedentes podemos, pois, pelos quais os podemos reduzir ao denominador comum que
afirmar: A raiz profunda de onde dimanam os existencialis- se convencionou chamar de existencialismo.
mos mergulha na angústia que ao homem ocidental ocasio- Pio XII, ao referir-se a esta filosofia, não nomeia pes-
nam as tremendas e apocalípticas experiências que lhe coube soas, nem especifica escolas. Todavia, seguindo as indicações
em sorte viver, de par com a nostalgia da fé católica perdida, doutrinais qíie contém o documento pontifício, podemos, com
em que, outrora, achava sempre refúgio e esperança de liber- facilidade, determinar as referências. Censura o Papa aqueles
tação. Hoje está privado deste conforto, entregou-se deslava- para os quais "a filosofia perene não é senão a filosofia das
damente à perseguição do prazer em todas as suas formas e essências imutáveis, ao passo que uma mentalidade moderna
ficou, afinal, insatisfeito, sem a tranqüilidade da ordem exte- se deve interessar pela 'existência' de cada indivíduo e pela
rior, pois vive em contínuo sobressalto — haja vista a Euro- vida sempre em movimento". Mais adiante, prossegue: "ne-
pa nos últimos quarenta anos —, e sem a paz interior, pois só nhum católico pode pôr em dúvida quanto tudo isto seja
inquietação lhe produz a vida debruçada para o terrenal. Em falso, especialmente em se tratando de sistemas como o ima-
tais circunstâncias só uma evasiva se lhe antolha, porém, nentismo, o idealismo, o materialismo, seja histórico ou dia-
que trágica evasiva!: A MORTE, acompanhada de todos os lético, ou ainda como o existencialismo, quando professa o
agravantes por haver naufragado sua fé na imortalidade. ateismo ou quando nega o valor do raciocínio no campo da
metafísica".178 Como se vê, o Papa não condena em bloco
De quão diverso modo encara o católico autêntico a
tudo quanto se apresenta como doutrina existencialista. Indi-
existência humana e o seu fim, a morte! Sua fé em Deus

178. HUMANI GENERIS, N. 16, in Col. completa de EncU


176. In Ecclesia, n.° 282, XII-46. clicas Pontifícias, Buenos Aires, Ed. Guadalupe, II, p. 1803.
177. Michele Sciacca, La filosofia, hoy, Barcelona, 1947, p. 189.
125
124
ca, apenas, estes três pontos, muito embora não devamos graves e demolidoras. Por esta razão prestaremos mais aten-
esquecer que neles se fundamenta toda a doutrina: a) o anti- ção a esta filosofia.
essencialismo ou oposição radical à realidade e permanência
das essências; b) O ateismo; e c) O valor do raciocínio no PARA UMA DEFINIÇÃO DO EXISTENCIALISMO
campo da metafísica.
Dificilmente se achará um expositor da filosofia exis-
O ateismo é professado só por alguns existencialistas.
tencial que não comece encarecendo a extrema dificuldade
Mas os outros dois pontos são defendidos por todos eles. E
de interpretação e explicação deste movimento filosófico e
devemos salientar o grave alcance destes dois pontos pois
por conseguinte também de dar uma definição que convenha
atingem também ao chamado existencialismo cristão de Mar-
a todas as suas direções doutrinárias. Esta dificuldade deriva,
eei e outros.
principalmente, de cinco causas; l.a A divergência e, não
Realmente, era de esperar-se isto, pois as conseqüências raro, a oposição, existente entre os seus sustentadores; 2.a
dos dois pontos indicados alcançam enormes proporções na A obscuridade de estilo de vários de seus maiores expoentes,
dialética filosófica. Pelo anti-essencialismo arruína-se toda dificuldade que sobe de pronto em Heidegger, que não só se
ciência e por conseguinte também a teológica; e negar o exprime em linguagem arrevesada e cheia de neologismos
valor do raciocínio no campo metafísico comporta, além de bárbaros e intrincados, como ainda as palavras mais correntes
outras conseqüências, a de tornar indemonstrável pela razão em filosofia são usadas em sentido diferente do tradicional,
a própria existência de Deus; doutrina esta contrária à Sa- ocasionando ao leitor pouco advertido mil equívocos e, além
grada Escritura e reiteradamente condenada pela Igreja, co- disso, como frisa o escritor sueco Günther Anders181 porque
mo se pode ver no Ertchiridion de Denzinger.179 Aí ficam "o objeto da especulação filosófica não é para Heidegger a
esses esclarecimentos para os que, reconhecendo o inegável descrição do Cosmo na forma clássica sistemática e, sim, o
valor do pensamento católico, desejam conhecer sua atitude ser-aí do próprio homem"; 3.a Porque o existencialismo foge
no atinente ao existencialismo. Entretanto, repito, que no pros- a toda disciplina sistemática, tendo surgido em Kierkegaard
seguimento de nossa exposição e refutação da filosofia exis- precisamente como negação e em oposição a todo sistema;
tencial, servir-nos-emos de elementos de ordem puramente 4.a Pela resistência que uma doutrina do invididual e mu-
racional, não dogmáticos.180 tável oferece para deixar-se traduzir em conceitos lógicos,
vazar-se em fórmulas conceituais de valor unívoco e reco-
O Papa, no discurso de 1946, antes mencionado, aludia
nhecido universalmente, além de qüe, sendo a análise exis-
com palavras precisas ao existencialismo de Heidegger. É
tencial seu principal processo, a existência é absolutamente
esta, sem dúvida, a forma de filosofia existencial de mais
irredutível a qualquer conceito direto e próprio; 5.a E final-
aparente solidez estrutural, porém, sob a feição de neutrali-
mente pela necessidade de evitar o uso imoderado de termos
dade ou abstenção em ordem ao campo religioso, encerra em
suas premissas maior número de conseqüências das mais técnicos e de neologismos, pois em nenhum outro caso é tão
oportuno como, ao tratar do existencialismo, o conselho de
Arnáiz182 de evitar "as nebulosidades de certos estrangeiris-
mos exóticos que, como praga maléfica, invadiram a lingua-
179. Denzinger, Enchiridion symbolorum, N.°s 1670, 1785 e
2145.
180. Vid. I. Bochenski. Europaische Phiiosophie der Gegen- 181. In Die Neue Rundschau, I-X-1946, p. 52.
wart, Berna, 1947, sobre as implicações destes princípios existencia- 182. M. Arnáiz y B. Alcalde, Dic. Manual de Filosofia, Madríd,
listas no campo da metafísica. 1927, p. 8.

126 127
gem filosófica, convertida, muitas vezes, em logomaquia e a realidade em sua duração e incessante mudança, isto é,
ininteligível". perceber a vivência fundamental que é puro fluir da existên-
Afinal, o que é o existencialismo? Logicamente a defi- cia. Por isso chamamos o existencialismo de movimento por-
nição deveria surgir após a exposição da doutrina, como que representa apenas uma forma, uma tendência, um modo
síntese dos elementos que a análise descobriu no seu estudo. todo especial do acontecer habitual no pensamento filosófico.
Porém, como auxílio didático e metodológico para mais fácil QUE CENTRA O SEU OBJETIVO NA DESCRIÇÃO
compreensão doutrinária do que se segue, intentaremos pro- DO HOMEM — Detenhamo-nos um momento na palavra
por uma definição. Não desconhecemos a aventura que re- descrição. Ela nos ilustrará sobre o método existencialista.
sulta pretender encerrar nos precisos termos de uma defini- Surgiu esta filosofia em oposição aos métodos racionais de-
ção, por sua natureza esquemática, o essencial de uma forma dutivos, que se servem apenas dos dados lógicos e racionais,
de pensar tão polifacética e por vezes tão imprecisa nas suas sem levar em consideração nada que se não contenha nas
formulações como de fato é esta filosofia. São muito raras idéias e na razão, impossibilitando assim todo conhecimento
as coincidências dos escritores ao definir o existencialismo. verdadeiro do mundo exterior, como acontece na filosofia
Em nossa definição tentamos destacar-lhe, da melhor forma de Hegel a quem singularmente combatia Kierkegaard neste
possível, a orientação e os objetivos. Disse orientação, por- particular.
que, como é bem sabido, o existencialismo é mais que nada
um método, uma tendência filosófica; e objetivos, para assi- O existencialismo preconiza como só válido o método
nalar o elemento formal desta tendência. Assim pois, enten- fenomenológico-intuitivo. Assim como o filósofo-dedutivo vai
demos por existencialismo aquele movimento filosófico que avançando no conhecimento por aproximações sucessivas, nas
centra seu objetivo na descrição do homem como um exis- quais, de princípios gerais pouco a pouco infere novas rela-
tente que projeta sua própria existência. ções, o intuitivo procura captar seu próprio ser e tornar-se
artífice da verdade. A decifração intelectual há de o homem
O desenvolvimento desta definição nos irá dando uma operar analisando sua existência. Não são, dizem, a inteli-
visão geral bastante adequada do existencialismo que, de- gência e a razão incapazes da compreensão da vida real, que
pois, completaremos com uma breve exposição das doutrinas abrem o caminho da realidade, e, sim, a vivência irracional
de cada um dos seus principais representantes. Expliquemos, que nos põe em contato direto com o íntimo da existência.
por partes, a definição: Por isto o existencialismo, e aqui está um de seus maiores
erros, desdenha as definições, os conceitos precisos, a abstra-
O EXISTENCIALISMO É UM MOVIMENTO FILO- ção metafísica, a sistematização lógica do saber, sob pretexto
SÓFICO — Desde logo não podemos chamá-lo de sistema, de que, por esse caminho, alguma vez foi induzido a erro.
não só porque os seus próprios partidários repelem essa de- Minguada diferença restará entre o irracional e o homem se
nominação para a sua filosofia, como sobretudo porque, de a este o despojamos do conhecimento racional abstrativo!
fato, carece dos elementos que constituem o sistema. Esta Unamuno, prevendo já as possíveis impugnações dessa con-
palavra significa o conjunto de idéias e materiais científicos cepção irracional do existencialismo, escreveu: "No faltará
ou filosóficos, entre si relacionados, que se coordenam logi- a todo esto quien diga que Ia vida debe someterse a Ia razón,
camente para dar-nos um todo orgânico. O sistema requer a Io que contestaremos que nadie debe Io que no puede y
subordinação e harmonia e não conhece resíduos. Longe fica Ia vida no puede someterse a Ia razón. 'Debe, luego puede',
deste ideal o existencialismo cujo objetivo é só captar a vida replicará algun kantlano. Y le replicaremos: 'no puede, luegp

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no debe'. Y no Io puede porque ei fin de Ia vida es vivir
y no Io es compreender".183 Lamentável confusão entre as
ordens do ser e do conhecer no sujeito humano.
DESCRIÇÃO DO HOMEM — Sem dúvida, desde que
o homem começou a filosofar, foi ele próprio o objeto pre-
dileto de suas meditações. Cada um de nós carrega a si pró-
prio, sente em si o próprio ser de homem, compenetra-se
com ele e nada lhe é mais íntimo. Por isso dizia iá o ve-
lho Aristóteles:
." O conhecimento da alma é de todos o mais
importante".184 E Sto. Agostinho, em diversas obras, mas
de modo especial no De vera religione, nos convida a
mergulhar em nós para melhor nos conhecermos: "Noli foras
ire; in te ipsum redi; in interiore hominis habitat veritas".
Não queiras dissipar-te fora; penetra em ti mesmo, porque
no interior do homem reside a verdade.185 Ele porém sabia
quão difícil e intrincada é a consciência do homem. Homo
abyssus est, disse em frase lapidar: O homem é um abis-
mo.186 E referindo-se à natureza humana escreve: "Ecce
magis quaeritur quam comprehenditur": "Mais indagamos
que compreendemos".187 Dizia Kant que a pergunta "Was
ist der Mensch?" "Que é o homem?", resumia todos os pro-
blemas filosóficos. O existencialismo proclama também a to-
do pulmão que quer conhecer o homem, e só o homem em
sua concretização; pois mesmo os que, como Heidegger, pro-
curam a solução do problema do ser, ao propô-lo fazem-no
desde as dimensões do homem. Querem, porém, o homem
em sua íntegra complexidade. Dizia o já mencionado Una-
muno: "Este hombre concreto,, de carne y hueso, es ei sujeto
y ei supremo objeto de toda filosofia . . . El hombre, dicen,
es un animal racional. No sé porquê no se ha dicho que es

183. Unamuno, Del sent. etc, cap. VI.


184. Aristóteles, , A- 402.
SANTO AGOSTINHO 185. S. Agustin, De vera religione, cap. 39 (Ed. da BAC, IV)
Gênio universal p. 158.
primeiro representante da filosofia perene 186. S. Agustin, in Ps. 41, n. 13. Ap. Hessen. Existenzphilo-
no pensamento cristão sophie, p. 40.
187. Hessen, op. cit., ibidem.
130
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un animal afectivo o sentimental. Y acaso Io que de los de- abstrai do ato de ouvir e significa qualquer pessoa que de
más animales le diferencia sea más el sentimiento que no Ia
qualquer modo possa ouvir, esteja ou não ouvindo agora.
razón. Más veces he visto razonar a un gato que no reir o
A diferença dos dois conceitos é considerável, constitui a
llorar . . . Y asi, Io que en un filósofo nos debe más importar
base da metafísica e é daqui de onde parte, precisamente,
es el hombre".188
a chamada filosofia existencial; de modo que, bem compre-
Não nos iludamos, porém, porque muito embora o exis- endidas, estas noções nos darão um conceito claro da inova-
tencialismo reclame como objeto central a análise da existên- ção existencialista. Por isso vamos exemplificar um pouco
cia humana em sua totalidade, nos fatos se contradiz e não mais ditas noções a fim de que por todos possam ser logo
quer reconhecer no homem o que a pura análise fenomeno- compreendidas estas difíceis matérias.
lógica lhe não revela, deixando fora, portanto, a Causa Su- O OUVINTE, no primeiro sentido dado a esta pala-
prema e quanto de ordem espiritual não possa ser dado nos vra, ou seja, aquele que me está ouvindo, é o que chama-
fenômenos. O filósofo ianque Reinhardt observa atinadamen- mos um EXISTENTE, quer dizer, um indivíduo que possui
te que entre o existente humano de Santo Agostinho e o de a existência, a realidade, aquilo pelo que a essência se rea-
Heidegger medeia esta diferença: que "o primeiro tem seu liza e que me escuta. No segundo sentido, em que fizemos
último termo no Ser Divino, e o segundo termina na morte abstração do fato atual de ouvir, temos a ESSÊNCIA, ou seja
e mais nada".189 a noção daquilo pelo qual ao ouvinte chamamos de ouvinte
DESCRIÇÃO DO HOMEM COMO EXISTENTE — e não por exemplo dormente ou pedra. Se agora nos servi-
Dizíamos antes que o homem constitui o tema central das mos de termos gramaticais para diferenciar estes conceitos
descrições existencialistas. Mas o homem, dito assim, é um ficará tudo mais claro: OUVINTES, no primeiro caso, repre-
universal, uma idéia abstrata, um ente puramente lógico, sentam os existentes individuais e os designamos com os
uma essência, assunto principal de quase toda filosofia; nomes próprios. No segundo caso, representam as essências
entretanto o existencialismo não quer saber de entidades em abstrato, os conceitos específicos, e os designamos com
abstratas, de essências; seu objeto é a existência concreta, os nomes chamados em gramática específicos ou comuns.
como constitutiva única do ser humano. Assim: Sócrates, que é nome próprio, nome de um ser exis-
tente, não meramente possível, significa um existente ou
Para bem entender isto, que é essencial à compreensão "existência", como dizem os existencialistas, que viveu na
do existencialismo, será conveniente recordar algumas noções Grécia no século V antes de Cristo e foi filósofo notável. En-
da Ontologia. O ente é a idéia mais universal de todas. En- tretanto a palavra ou nome comum homem, significa a
tretanto, a palavra ente é tomada em duas acepções diferen- essência do ser humano, exista ou não na realidade das coisas.
tes: ora significa a existência, ou o fato de existir e que cor- Zaragüeta em sua Introducción moderna a Ia filosofia Esco>
responde ao particípio ativo do verbo ser; òrã a essência ou lástica chama ao ser nominal ou em abstrato ser existencial,
modo de ser duma coisa, quer exista ou não. Por exemplo, e ao ser real, existente.190
a palavra OUVINTE: Enquanto particípio designa qualquer
um que agora mesmo me está ouvindo; e enquanto nome Se o professor de Matemáticas quer explicar aos alunos
um teorema qualquer, v.gr. o de Pitágoras, começa dizendo:
"Tracemos no quadro negro um triângulo "assim". E com
188. Unamuno, Op. cit, c.l.
189. Kurt F. Reinhardt, A Realistic Philosophy, Milwaukee,
Bruce, 1944, p. 242. 190. Vid. Juan Zaragüeta, ob. cit., Univ. de Granada, 1946,
pgs. 189-190.
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esse desenho à vista procede logo à demonstração do teore- saber do homem em abstrato; o único que lhe interessa é
ma. Se, porém, ao findar a explicação um aluno redargüisse: o sujeito individual, o homem de carne e osso,- que vive,
— Professor, isso está certo quanto a esse triângulo; todavia, come, dorme e morre; todavia não é um homem qualquer
como posso eu saber se acontece igualmente com todos.- os alheio a si que ao existencialista interessa, pois ele não con-
triângulos? O Professor explicará, então, como aquela de- testa a alteridade ontológica, não nega, porém nada sabe
monstração não se refere, apenas, ao triângulo desenhado e, das outras realidades exteriores ou seres-em-si, que para ele
sim, a toda e qualquer figura plana formada por três linhas são apenas obstáculos que depara, coisas ininteligíveis e
retas que se cortam duas a duas, quer dizer, à essência do absurdas. Seu objeto é o próprio eu fenomenal tal como ele
triângulo, ao triângulo existencial (quer exista ou não) e não o capta imediatamente numa intuição introspectiva.
ao triângulo existente ou singular desenhado no quadro negro.
Entretanto, o triângulo existente, singular, está necessaria- Para evitar confusões e equívocos note-se ainda que o
mente envolto em outras condições que não poderiam ser conceito de essência existencialista ou simplesmente "exis-
atribuídas à essência do triângulo, como ser: o tamanho, ma- tência" não coincide com as noções que a filosofia tradicio-
téria, cor, etc. nal nos dá da essência e da existência. Para esta filosofia,
a essência é aquilo pelo que umar coisa é o que é, e se dis-
Como se vê pelo exemplo dado, a ciência só pode ser tingue das outras; e a existência é aquilo pelo que a essên-
da essência, significada pelo nome comum gramatical, neste cia se torna real, é a atualização da essência com a qual
caso o triângulo, e não daquele triângulo só, pois na natu- constitui adequadamente o existente. O existencialismo invó-
reza não se dá um triângulo, nem ser individual absoluta- lucro as duas noções; para ele é o próprio existente que
mente igual a outro, e, portanto, se por exemplo o triângulo elege sua essência, se determina pessoalmente a realizar seu
o tomássemos como objeto científico na sua concretização ser de homem de tal modo que a essência ou o ser não é
singular, que conota infinitas notas individuantes, as defini- mais do que a própria existência considerada em sua rea-
ções, leis, relações que dele enunciássemos de nada nos ser- lidade concreta. Destarte, entendidas a essência atual e a
viriam porque não se adaptariam a nenhum outro, e só existência no sentido tradicional, não cabe o problema da
àquele seriam aplicáveis. prioridade temporal de uma ou de outra sem cairmos no
Mais um pequeno esclarecimento e estaremos em con- absurdo. No existencialismo fala-se de prioridade da existên-
dições de situar exatamente o existencialismo. Na filosofia cia sobre a essência porque esta, na concepção existencialis-
tradicional o ente dotado de existência atual e subsistente ou ta, resulta das determinações que a existência se dá livre-
completo na ordem da substancialidade chama-se suposto, e mente ao projetar-se na história. A essência existencialista
se este suposto é dotado de razão chama-se pessoa, embora é, pois, o próprio ser do homem, ser primário e fundante da
suposto e pessoa se usem, hoje, indistintamente. Pessoa é personalidade humana que se acha no centro de todos os pro-
pois uma substância individual completa que goza de inde- blemas, ser entendido como possibilidade ilimitada e ine-
pendência no ser e no obrar e é dotada de razão. Desta mes- xaurível. Balmes intitula um capítulo de sua Filosofia fun-
ma noção depreende-se que ao suposto racional ou pessoa é damental desta maneira. "Toda ciência se funda no postu-
a quem compete a existência e a atividade. Vejamos, agora; lado da existência".191 Mas pelas explicações antecedentes
a situação no existencialismo. logo se alcança a enorme distância que separa os dois con-
Dizíamos que o objetivo do existencialismo era a descri- ceitos da existência.
ção do homem existente. Com efeito, o existencialismo con-
trapõe sempre as noções de essência e existência, nada quer 191. Balmes, op. cit., 1, V, cap. 7.°.

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O existencialismo operou uma nova e grande revolu- dico era muito irreverente. Um dia não se levantou pela
ção na concepção do mundo em ordem ao conhecimento. O manhã, a mulher avisou-o que o médico já fora chamado e
pensamento do mundo antigo girava todo ele em torno das vinha visitá-lo. O incurável humorista, que era Rusinol, res-
coisas exteriores. Kant cogitou de efetuar na filosofia uma pondeu: — Dizei-lhe, por favor, que volte amanhã porque
revolução semelhante à de Copérnico na astronomia: fazer hoje me sinto muito mal para o receber".192
que as coisas girassem em torno do pensamento. Por sua vez,
o existencialismo, que na ordem de conhecer só admite a Em todo caso, não se perca da memória o que antes
intuição introspectiva, declara: o centro não são as coisas, disse sobre quais eram as verdadeiras causas dessa angústia,
nem o puro pensamento kantiano e sim o eu existencial no desse desespero que os homens sentem ao advertir como
puro e irracional fluir de sua vida. Expliquemos, finalmente foram arremessados na vida, sem nada conhecerem do seu
as últimas palavras da definição: destino. É o terror ocasionado pela idéia da vida de pecado,
é a saudade de Deus que traz a humanidade acabrunhada.
QUE PROJETA SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA — Já
antes aludimos a este conceito que se baseia na liberdade APRECIAÇÃO E CRÍTICA DO MOVIMENTO
existencial como fundamento do ser humano. Mas a liber- EXISTENCIALISTA
dade existencialista não corresponde de maneira nenhuma ao
conceito comum de liberdade. O mundo é o conjunto dos Na primeira metade do século XIX dominou de forma
existentes entre os quais o homem desenvolve suas possibi- incontrastável o racionalismo, as construções ideais apríorís-
lidades e a liberdade é a capacidade desse homem para cons- ticas, que tudo enquadravam, inclusive o acontecer histórico
truir o mundo, para criar-se a si mesmo. Quer dizer, no cons- e vital, em fórmulas racionais.
tante fluir de sua existência escolhe entre as possibilidades Contra essa filosofia, de base sobretudo hegeliana, insur-
que se lhe deparam e vem a ser o que ele próprio faz de giram-se numerosos escritores em muitas partes. O Positivis-
si. O existencialismo defende tanto essa liberdade absoluta mo e o Evolucionismo, negando todo valor às concepções
de projetar seu ser que faz do existente uma descrição pro- metafísicas; o Historicismo, supervalorizando em filosofia
motora da liberdade. os dados da história a cuja evolução se reduziriam o direito,
Esta liberdade, porém, acha-se por si mesma limitada a moral e a religião; o Irracionalismo, baseado, principal-
porque o homem ao achar-se entre infinitas possibilidades de mente, nas ciências físicas e exatas, contestando o determi-
eleição, vê logo a impossibilidade com que tropeça na rea- nismo das leis físicas, até bem pouco universalmente admi-
lização do elegido e experimenta a "essencial deficiência" — tido; o Fenomenalismo, voltando-se para o exame das vivên-
diríamos "finitude" — da existência. Isto o lança na angústia ciais pessoais e referindo-se às suas respectivas essências,
que cresce sempre com o pensamento de ser-para-a-morte. puras e objetivas. Alinha-se aqui o movimento chamado
Existencialista que, reagindo também contra o racionalismo
O tema da angústia é caro a muitos existencialistas que dominante, intenta resolver o problema do ser partindo da
acham especial predileção em falar-nos dela. Receio que isto, intuição e exame fenomenológico da própria existência.
ao invés de curar do mal a seus semelhantes e de restaurar-
lhes o otimismo, só agravará a enfermidade. Lembro, a pro- Como toda filosofia, digna de tal nome, procura o exis-
pósito, um fato que do pintor catalão, Rusinol, nos relatou tencialismo descobrir a razão, e os motivos últimos do uni-
Tusquets em Ecclesia: "Costumava este senhor, já velho e
doente, passar as férias numa pequena localidade, cujo mé- 192. In Ecclesia, N.° 334, p. 14.

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verso. Entra, assim, esta filosofia na grande corrente histó- Dado o caráter polimorfo do movimento existencialista
rica da metafísica, pelo menos em seu principal representan- não vamos entrar no exame e crítica de cada uma de suas
te, Heidegger, para quem a filosofia é "uma investigação manifestações. Acho mais eficaz e expeditivo inserir, aco-
sobre o sentido do ser". modando-as ou abreviando-as segundo o caso, algumas rese-
nhas de obras de autores notáveis e estudiosos do existencia-
Mas se pelo escopo o existencialismo se entronca na ár- lismo que, nos tempos do maior auge do movimento publi-
vore metafísica, diverge logo enquanto se trata do método
a seguir. quei em Cultura, do Ministério de Educação e Saúde, do Rio
de Janeiro e na revista Vozes de Petrópolis, em 1950.
A metafísica peripatética e com ela, em geral, toda a
metafísica tradicional partindo da afirmação de que "não a) A ANÁLISE DO EXISTENCIALISMO POR
se dá ciência do particular, pois a ciência é só do universal", ALONSO-FUEYO.194
isto é, da essência abstrata dos seres, deixam fora da órbita
do saber científico o particular e o concreto que constitui a Professor de Fundamentos de Filosofia da Universida-
de de Valência, é o Dr. Alonso-Fueyo um dos jovens avan-
individualidade dos seres. A filosofia existencial reage forte-
tajados dessa nova geração de espanhóis que a história
mente contra esta forma de pensar e, deixando de lado a
chamará, sem dúvida, de "geração do 36". Estes jovens, à
consideração das essências, quer alcançar e explicar o ser
luz dos clarões do terrível incêndio revolucionário que aba-
a começar da dimensão do ser do homem. "A Filosofia exis-
lou a católica Espanha, submeteram a rigorosa revisão os
tencial é, no dizer.de Bochenski, uma filosofia personalista valores culturais que prepararam a catástrofe e que preva-
no pleno sentido da palavra".193 lecem ainda em considerável parte da Europa.
A filosofia será, pois, uma hermenêutica da pessoa hu- Em Existencialismo e Existencialistas, o autor, voltado
mana. Parte da experiência existencial, pelo método fenome- para o tnundo atual, para este nosso mundo que, desespe-
nológico atinge a existência, e nela descobre logo, o exis- rançoso e angustiado, "elabora mais uma filosofia, como úni-
tencialista, os outros seres, pois nos é dado na existência,
co caminho de evasão: o existencialismo" (pág. 13), expõe
assim o mundo exterior como o ente transcendente.
breve e lucidamente as doutrinas dessa nova corrente filo-
Até aqui, e nalguns pontos de somenos importância, sófica passando logo a aquilatar, à luz da filosofia perene,
coincidem mais ou menos os principais filósofos existencia- os valores relativos daquela filosofia.
listas. Mas ao tirar e interpretar os resultados da análise
Por suas páginas vão desfilando, com breve apresenta-
fenomenológica divergem totó coelo. Por exemplo, em reli-
ção, porém, bem perfilhadas e exatas, as mais destacadas
gião Kierkegaard e Mareei são profundamente cristãos, Jas-
figuras do existencialismo mundial. A gênese intrínseca do
pers oscila entre o teismo, panteismo ou ateismo, e Heideg-
existencialismo acha-a o autor no esforço por superar a opo-
ger é ateu e seu discípulo servil, Sartre, trata de desenvol-
sição realismo-idealismor oposição que domina toda a filo-
ver o ateismo do mestre. — Segundo as mais recentes infor-
sofia anterior. Porém, como "no existe exactamente una filo-
mações, Heidegger não só rejeita a denominação "existen-
sofia existencial y si, ciertos temas comunes a unos filósofos
cialista", que isto era já notório, como ainda se converteu
llamados existencialistas" (pág. 45) não é possível uma expo-
plenamente ao catolicismo.
194. Sabino Alonso-Fueyo, Existencialismo y existencialistas,
Valência, 1949, 244 páginas. Os números intercalados em nosso
193. Europâische PM. der Gegenwart, Berna, 1947, p. 198. texto referem-se a esta obra, e assim nas que seguem.

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sição única de conjunto, eis a razão por que o autor trata acrescenta: "No significan otra cosa que ei regreso a Ia más
seguidamente do existencialismo alemão, francês, russo, espa- baja tradición dei naturalismo francês de 1890" (pág. 113).
nhol e da problemática de um possível existencialismo cristão. Não surpreende pois que seus escritos tenham sido incluídos
no "Índice de livros proibidos".
O iniciador desta filosofia é Kierkegaard, e sua obra
apresentase como um reproche contra a concepção român- Sumamente interessantes e sugestivas são as páginas que
tica da vida. "Y este reproche se resume en estas palabras: A.-Fueyo dedica a Ortega y Gasset: "Filósofo militante, que
Perdida de Ia existência". Em seus livros acham-se elemen- piensa y sabe teorizar como poços: con poderosa inteligência,
tos dispersos sobre a existência, a angústia e outros temas frase feliz, metáfora justa: con una prosa siempre musical,
existencialistas porém sem conexão sistemática. cargada de relumbres poéticos" (pág. 131). O autor inves-
tiga primeiramente se Ortega é ou não filósofo existencia-
Heidegger e Jaspers são os dois mestres do existencia- lista e para responder cita ao próprio Ortega que, em Goethe
lismo alemão, com diferenças entre si muito marcantes, pois, desde dentro, declara que com dificuldade poderiam assina-
enquanto Heidegger chega à Filosofia partindo do método lar-se mais de "um ou dois conceitos importantes de Heideg-
fenomenológico de Husserl e da metafísica clássica, Jaspers ger que não preexistam, às vezes, com anterioridade de treze
o faz partindo da Psicologia. "Martin Heidegger es ei más anos, nos meus livros". Certamente que são muitos os con-
importante de los filósofos alemanes de Ia actualidad en cuya ceitos esparsos e noções antecipadas que hoje utiliza em gran-
doctrina se advierte Ia presencia constante de los grandes pen- de escala o existencialismo, o autor julga porém, que, falando
sadores de todos los tiempos: desde Aristóteles y Platón a com exatidão, não pode vincular-se o nome de Ortega à filo-
Hegel y Kant, pasando por S. Agustin y Descartes" (pág. 60). sofia existencial, "quizá, disse, representa más bien ei ratio-
O autor consagra mais de 20 páginas a expor o pensamento vitallsmo de Ortega una manifiesta reacción" (pág. 138).
dos dois filósofos germânicos formulando logo muito sérios Num contraste de admiração e de crítica dá-nos Alonso-Fueyo
reparos à sua filosofia. uma semelhança espiritual de Ortega muito perto, sem dú-
vida, da realidade: "Admiramos a Ortega y Gasset por sus
Mareei e Sartre são os mais notáveis representantes do dotes intelectuales y de escritor realmente extraordinário, por
existencialismo francês. Mareei é o primeiro que, mesmo su don inimitable de sábios encantamientos: es a Ia vez filó-
independentemente dos pensadores alemães, abriu caminho e sofo, poeta, historiador y periodista. Vero no conpartimos
formulou seu pensamento existencialista, entroncando-o, ao con ei maestro Ias líneas essenciales de su magistério doctri-
menos na intenção, com o pensamento cristão. nal. Enigmático y altivo, gran equilibrista mental, no se
Sartre, bem mais literato que filósofo, alcançou uma asienta en ei tema hasta agotarlo, hasta captar y transmitir
popularidade muito maior que Mareei. Unamuno disse algu- los íntimos temblores dei problema" (pág. 132).
res que "todo y sobre todo Ia Filosofia, es, en rigor, novela
o leyenda". Isto se realiza plenamente na obra de Sartre, no Detém-se logo o autor a examinar em breves páginas o
qual, não acertando a descrever a realidade ontológica vital, pensamento de Unamuno, o mais antigo seguidor de Kierke-
"toda descripeión va a tener aspectos más bien literários o gaard, muito embora o fosse com marcante originalidade.
sugestivos" (pág. 101). O autor após expor e fazer graves A Xavier Zubiri qualifica como "uno de los pensado-
reparos à obra de Sartre, insere alguns juízos recentes sobre res espanoles más sutiles y profundos desde Suáréz acá" (pág.
ela: "Sus novelas, disse B. Croce, son un centón de horro- 147). Não menciona o autor Zaragüeta, que é hoje um dos
res patológicos sin estética alguna" e por sua vez Papini valores mais positivos do pensamento espanhol e que em

140 141
várias de suas obras tem dedicado muitas páginas, cheias de
penetração e equilíbrio, a estes problemas da filosofia no-
víssima.
A segunda parte do livro abre-se com um capítulo sobre
o existencialismo cristão, no qual expõe o pensamento bas-
tante conhecido de Santo Agostinho. A respeito do Doutor
Angélico reconhece que sua filosofia "discurre fundamen-
talmente por via de Io abstracto y en este sentido se encuen-
tra en los antípodas dei existencialismo" (pág. 170).
Ao contrário de São Tomás, acha o autor que Suárez
situa-se plenamente na linha do pensamento atual. O doutor
Exímio ensina que o objeto formal do conhecimento não é
o universal, senão o singular como tal, por isto perguntava
o professor Legaz Lacambra: 6"Será que en Ia situaeiõn vital
en que se hallaba instalado Suárez comenzaba/a abrise Ia
ventana de Ia existência?" (pág. 173). (
Nos últimos capítulos da obra faz o autor algumas refle-
xões críticas sobre o existencialismo. Não é muito, certa-
mente, o que deixa subsistente do método e das grandes teses
existencialistas, porém é difícil escapar de seus raciocínios e
geralmente nos leva à plena convicção. "Broto ei existen-
cialismo, disse a certa altura o autor, como una filosofia de
entre dos guerras, como formulación filosófica de Ia desgar-
radora experiência de esta crisis sin ejemplo. Como un re-
curso supremo dei que ei hombre echó mano perdida su fe
en Dios y en Ia Razón, perdido ei império dei racionalismo
y de ese legitimismo dei conocimiento, fundando-se en Ia
Gnoseologia. Pero ei hombre no deja por eso de vivir angus-
tiado, de ansiar liberarse de Ia própria concoja. Y es que
no está ahi, ni mucho menos, ei camino de su salvación. No
está en Ia llamada filosofia existencial, sino en Ia sublima-
ción de una actitud espiritual de conjunto ante todos los pro-
blemas de Ia existência: en ei retorno a Io divino (pág. 189)
. . . Es que Ia persona vive, si, en Io temporal, pero no pèr-
tenece a Io temporal. Porque estamos constitutivamente for-
zados a buscar una instância superior y hallar fuera de no- JUAN ZARAGÜETA Y BENGOCHEA
sotros un centro de gravedad absoluto que nos explique ei Um dos grandes mestres da renovação
último sentido de todas Ias cosas" (pág. 183). filosófica

143
142
Perdoe, o leitor, esta longa transcrição literal, que além
foi literato, psicólogo, moralista, filósofo, teólogo e mís-
de mostrar o estilo do autor, explica a deficiência fundamen-
tico".196 No que todos coincidem é que se trata dum homem
tal de toda filosofia existencialista. Com esta obra prestou
genial, o maior pensador da Dinamarca, escritor polimorfo,
Alonso-Fueyo um excelente serviço à cultura. Nela não só
achará o leitor uma lúcida exposição das principais corren- temperamento de fogo, cujos escritos faiscam amiúdo lumi-
tes existencialistas, como ainda o que é mais importante e nosos raios e intuições surpreendentes.
mais difícil de achar: uma sucinta apreciação e valorização Estranho título da obra de Haecker a que resenhamos.
das novas conquistas filosóficas, para guiar aos que se em- Tem, sem embargo, sua razão de ser.
brenham nas florestas da novíssima filosofia. Teodoro Haecker, o famoso autor de Virgílio, pai do
Ocidente, que iniciou sua carreira literária com o livro Sobre
b) UMA CRITICA SINGULAR DE KIERKEGAARD.195 Kierkegaard e a Filosofia da inferioridade, encerrando-a com
outro sobre o mesmo filósofo, A corcunda de Kierkegaard.
Nos dias agônicos do Terceiro Reich falecia o notável Entre um e outro estende-se o fecundo labor deste pensa-
escritor Teodoro Haecker, livrando-se, assim, de presenciar dor cristão.
os tremendos sofrimentos que os vencedores inflingiram a
seu povo, bem mais torturantes em sua frialdade e cálculo, Neste seu último livro, de que nos ocupamos, intenta
do que os tormentos físicos quei também não lhes faltaram. Haecker penetrar mais a fundo na alma de Kierkegaard, achar,
se possível, uma chave que nos abra o segredo de muitas
Avoluma-se cada dia a literatura sobre Kierkegaard, o de suas idéias e reações.
famoso escritor dinamarquês a cujo nome se adscreve a pa-
ternidade da novíssima filosofia da existência. Lendo o livro de Magnussen, A cruz especial, cuja tese
é que "a cruz especial" de que falava muito Kierkegaard,
Após tantos estudos a ele dedicados a gente se pergunta: era, precisamente, sua corcunda e que esta deformidade físi-
Quem é, afinal de contas, Kierkegaard? Que denominação lhe ca imprimiu caráter em sua estrutura psicológica (pág. 44),
corresponde? É um filósofo original, profundo teólogo ou Haecker ficou surpreendido pelo descobrimento, e determinou
místico sempre inflamado no amor da Divindade? Ê um lou- examinar, com sua habitual penetração, mais de perto o
co genial, tema sugestivo para psiquiatras e psicanalistas? É alcance do fenômeno.
um cristão que educado no pietismo protestante vive curvado
sob o peso da lei moral e do pecado? Ê um espírito ator- Perguntará, sem dúvida, o leitor: que relação de depen-
mentado por fatores somáticos e psíquicos, dominado pela dência pode ter o externo, um acidente somático, com o
angústia, que se sente incapaz de debelar? acontecer histórico? Responde o autor: "La nariz de Cleo-
patra determina ei curso de Ia historia y Ia estructura polí-
Estas e outras muitas interrogações poderiam formular- tica dei mundo. Esto parece un chiste, pero encierra tambien
se a propósito da figura quase indefinível do pensador dina- su verdade" (pág. 52).
marquês. Dele dizia há pouco um escritor, não é um filó-
sofo, sua personalidade é tão complexa que foge a todos os Nas ciências especulativas e nas matemáticas, em ordem
esquemas em que se queira enquadrá-lo. "A um só tempo aos princípios básicos, nada, absolutamente nada, poderá
alterar qualquer fator externo ou corporal. Os princípios e
195. Theodoro Haecker, La joroba de Kierkegaard, Madrid,
196. Vernaux, Vues cavalières sur 1'existencialisme, ap. Lavai,
Rialp, 204 páginas.
Theol. et Phil, IV, 1948, p. 10.

144 145
as leis lógicas são eternas e coincidentes com a natureza de Haecker pensa que, talvez, este complexo somático tenha
nossas faculdades cognoscitivas. influído na orientação pragmática e ética da paixão pela ver-
Não acontece o mesmo com as verdades especulativo- dade que ardia em Kierkegaard, pois, conforme ele próprio
práticas, aquelas que comportam sempre um modo de agir de- declarava não era tanto a verdade em si mesma, "a pureza
terminado: Deus é bom? Cuida de mim? Por que me deixa da doutrina" que o apaixonava, senão o obrar com verdade
sofrer? Terá influência na resposta a estas perguntas a con- e com reta intenção. Nunca assim pensaram os grandes ho-
dição de saúde ou doença, formosura ou deformidade do mens e na lógica divina antes estão as verdades e os princí-
corpo? Com certeza, esses fatores facilitam ou enfraquecem pios doutrinários do que os imperativos éticos deles derivados.
muitas vezes a verdadeira fé. Pela deformidade que lhe pro- Deixo à perspicácia do leitor avaliar o enorme alcance
duz a lepra viu-se Jó tentado a negar a Deus. Por estas que em nossa vida e em nossas lutas cotidianas contra os
razões, considerar-se o corpo de Kierkegaard, e nele surpre- erros modernos e contra exóticas concepções de vida tem
ender as possíveis repercussões que: teve em sua alma não esta inversão de valores, dando a primazia à ordem prática
parece que seja inútil. e à vantagem imediata sobre os princípios que deveriam sem-
pre primar sobre todo o resto.
Como era Kierkegaard visto de fora? Algo infra ordinem
porque "era corporalmente anormal, raquítico, contrahecho, O livro de Haecker é um bem logrado ensaio de inter-
jorobado y enclenque, un fenômeno grotesco, para ei que solo pretação kierkegardiana avaliado por uma esmerada tradução
mira a Io externo, ai cuerpo" (pág. 112). Ora, Kierkegaard, e um magnífico prólogo em que Ramon Roquer estuda a filo-
parece que nunca se resignou a este papel inferior, no físi- sofia de Kierkegaard.
co, e lhe arranca fortes expressões de pessimismo: "Escucha
ei grito de Ia parturienta, diz, en Ia hora de su alumbra- c) CORNELIO FABRO ANALISA A
miento, contempla Ia agonia dei moribundo en sus últimos PROBLEMÁTICA EXISTENCIALISTA.197
momentos, y dime luego si Io que de tal manera empieza,
y acaba de tal modo, puede estar adecuado ai goce" (pág. A obra de Fabro faz parte da coleção Frontière, que
132). O autor esclarece como o pessimismo que resulta de publica a editora, A.V.E. de Roma. Fabro é entusiasta, em-
tantas páginas de Kierkegaard não pode identificar-se com bora não incondicional, do existencialismo e não é a pri-
o legítimo cristão que, embora reconheça a magnitude do meira vez que este fecundo escritor se ocupa desta matéria.
mal neste mundo, nem por isso desespera, tem uma abso- Já em 1943 publicara uma Introduzione alVesistenzialismo
luta e inabalável confiança em Deus que é Amor e o gover- (Vita e Pensiero, Milão) mais ampla do que a monografia
na. Entretanto, Kierkegaard chega a dizer que dar um filho que nos ocupa.
ao mundo é obra de "irresponsáveis". Definitivamente: "Kier- Nos Problemas do existencialismo o autor, sem dúvida,
kegaard não acabava de resignarse por completo a este agui- simpático a esta filosofia, nem por isso deixa de assinalar-lhe
jón de su carne desgarrava también a veces su pensamiento". os pontos fracos ou mesmo insolúveis que apresenta. Começa
Após farta argumentação conclui Haecker: "Si estas expli- dizendo que a "filosofia da existência pode considerar-se
caciones son justas, resulta que una joroba puede apartar como a última forma do pensamento ocidental. E é forma,
a un grand espíritu dei camino recto y sano dei conocimiento,
ai menos durante un trecho dei camino" (pág. 135). 197. Cornelio Fabro, Problemi delVEsistenzialismo, Roma, Edi-
trice A.V.E., 1948, 144 páginas.

146 147
quer dizer, método, fisionomia ou movimento do pensar e d) MARITAIN PROPÕE UMA ANÁLISE
não propriamente sistema" (pág. 7), porque o sistema é cons- CONTRADITÓRIA DO EXISTENCIALISMO.
trução orgânica, é harmonia, tudo quer explicar e não co-
nhece resíduos; basta, porém, olhar ligeiramente para a rea- Na Semana de Estudo sobre as Correntes Existencialis-
lidade da vida autêntica para que apareça logo patente a tas que a Academia Romana de São Tomás de Aquino cele-
vaidade da ilusão especulativa. "A realidade que se revela brou em 1947, Maritain apresentou um trabalho sob o título
na vida não é harmonia, senão ruptura e caos, não obedece O Existencialismo de São Tomás, que logo, em forma de
a sistema, é anormalidade, exceção, não discorre contínuo livro, ofereceu ao público.198
entre as aprazíveis ribeiras dos desejos próprios, irrompe a Maritain é, nos meios cultos, universalmente conheci-
borbotões, abre a estrada com choques e contrastes" (pág. 7). do, devendo-se, isto, em parte, além do seu valor obje-
Certamente que há de ser árduo justificar uma doutrina da tivo que não negamos, às suas atitudes, por vezes de ver-
qual previamente se declara que é inorgânica e desarmôni- dadeiro escândalo, em face dos acontecimentos políticos
ca. Nem se vê muito claro que razão pode assistir a Jaspers mundiais.
para afirmar, segundo Fabro, que "o existencialismo não é
Nesta ordem de idéias, digo, em filosofia política cristã,
irracionalismo".
sua obra é efêmera, incoerente e absolutamente inaceitável
O autor, ainda que com a melhor boa vontade para em nosso modo de pensar. Para formar-se um conceito apro-
com o existencialismo, por força de objetividade, não pode ximado da índole destes escritos basta dizer ao leitor que as
deixar de achar injustificadas e ainda contraditórias mui- atitudes políticas de Maritain não são com freqüência mais
tas doutrinas dos existencialistas. Mesmo no que diz respeito do que as reações das fobias que se aninham em seu cará-
ao "núcleo vivo do próprio movimento" (pág. 43), estão em ter apaixonado, originadas, talvez, em parte, por inconscien-
viva contradição, entre si, os autores mais destacados, e Fa- tes e inconfessáveis complexos étnicos. Daí a forma amiúde
bro concita-os a se porem de acordo, ao menos nos pontos imprecisa e ambígua de um estilo cheio de marchas e con-
mais radicais: "O existencialismo, que justamente intentava tramarchas, de observações marginais e sutis, de modo a dei-
pôr em crise o pensamento e a sociedade contemporânea, xar sempre lugar à escapatória para quando, premido por
vem a sofrer ele mesmo uma crise mortal" (pág. 43). boa dialética, se vê na obrigação de escamotear conclusões
O que, porém, mais preocupa a Fabro na filosofia no- incômodas. No que, aliás, eram mestres Marc Sangnier e
víssima é a atitude religiosa: "Kierkegaard, escritor religioso os católicos-liberais franceses, seguidos nestes assuntos por
e sentinela da Cristandade" (pág. 44), foi nisto suplantado Maritain sem mais originalidade que alguma novidade de
pelos pensadores germânicos que, perfilhando Hegel e Nie- linguagem.
tzsche, monopolizaram a nova forma de pensar. Heidegger, Em filosofia, porém, é um apreciável expositor da esco-
Jaspers, assim como Abbagnano e Sartre, baniram da filoso- la tomista, sem grande originalidade, com a vantagem, sem
fia a noção da Divindade. Fabro acha que isso está mesmo embargo, de repensar a filosofia escolástica em termos da
em contradição com os legítimos postulados duma filosofia filosofia moderna, na qual Maritain estava bem versado antes
existencialista e que seria ótimo serviço esclarecer este ponto: de sua conversão ao catolicismo.
"A este fim tendem, sob diversos aspectos, os ensaios deste li-
vro". "Se isto lograsse, termina Fabro, a filosofia chegaria a 198. Jacques Maritain, Court traité de Vexistence et de 1'exis-
ser "guida spirituale all'uomo nella vita terrestre* (pág. 133). tent, Paris, 1947, 240 páginas.

i48 149
Deste modo, tratando a filosofia clássica em função das misme, 5.a ed., p. 511) de superar a fenomenologia da exis-
exigências e problemáticas do pensador hodierno, conseguiu tência. "Reduzem-na, diz Maritain, ao momento de atuali-
Maritain levar ao conhecimento de homens e escolas, total- dade existencial atualmente experimentado" (pág. 55), no
mente divorciados da philosophia perennis, os princípios rege- qual termina toda sua fenomenologia existencial. Eles afir-
neradores desta filosofia e trazer vários para o campo de mam, sim, o primado da existência, mas a custo de des-
suas crenças. truir ou suprimir de certo modo as essências ou naturezas,
A esta orientação responde o Breve Tratado sobre a e levando à quebra a inteligência e o inteligível. "A este,
Existência e o Existente. Nele o autor propõe-se demonstrar diz o autor, chamo de "existencialismo apócrifo" (pág. 13).
que o existencialismo de São Tomás, na base da razão e da Muito diferente é o existencialismo tomista que ele cha-,
inteligibilidade, é o único existencialismo autêntico, bem dife- ma de existencialismo autêntico, o qual afirma o primado
rente das formas de existencialismo contemporâneo que são da existência mas incluindo e salvando as essências ou natu-
irracionais e assistemáticas. rezas e comporta uma suprema vitória da inteligência e da
Para prová-lo empreende Maritain uma hábil hermenêu- inteligibilidade. "Suprimi, diz, interpelando aos existencialis-
tica dos supostos básicos da ontologia tomista. Para o Aqui- tas, suprimi a essência, ou o que põe o ser, suprimireis com
nense "esse est actualitas omnium actuum, et propter hoc est ela a existência e o esse. Estas duas noções são correlativas
perfectio omnium perfectionum" (pág. 63). Assim, o ato de e inseparáveis, um tal existencialismo a si mesmo se devora".
existir (esse) é o ato por excelência, e vem afirmado impli- O livro contém a exposição de vários outros pontos
citamente pelo juízo que opera sobre a simples apreensão doutrinários do bom tomismo embora algumas vezes as inter-
do objeto considerado. pretações nos pareçam um tanto forçadas.
A metafísica tomTsta baseia-se toda ela no primado da Sem entrarmos no exame destes pontos que, aliás, fo-
existência, diz noutro lugar o Angélico, é a atualidade de ram já mil vezes estudados, queremos apenas formular algu-
toda forma ou natureza. mas observações marginais sobre o sentido e legitimidade da
Em virtude do tipo de abstração que lhe é próprio a tese principal de Maritain, — à qual aderiu também o ilus-
metafísica considera as realidades que existem ou podem tre medievalista Gilson, — por julgar de não pequeno inte-
existir sem a matéria. Faz abstração das condições mate- resse a precisão doutrinária em matérias hoje tão contro-
riais da existência empírica, não faz, porém, abstração da vertidas.
existência" (pág. 54), porque a existência real, seja ela atual Já de início, e para evitar possíveis equívocos, Mari-
ou meramente possível, é o termo em cuja função conhece tain afirma que o existencialismo de São Tomás é totalmente
aquilo que se conhece. O campo imediatamente acessível à diferente do que hoje nos servem com esse nome os filóso-
investigação metafísica é o ser do mundo empírico; antes de fos. Não se lhe objete, pois, que ele pretende rejuvenescer
elevar-se aos existentes espirituais o que a metafísica tem ao o tomismo num artifício verbal. O que intenta é pôr às
seu alcance é a existência empírica, a existência das coisas claras como o tomismo autêntico declara e reconhece o pri-
materiais (pág. 55). mado da existência e da intuição de ser existencial e, por
Daqui a enorme diferença entre os diversos existencia- conseguinte, ao declarar-se existencial, outra coisa não faz
lismos, e o que o autor chama de existencialismo tomista. Os do que exercer o direito de prioridade que em boa lei lhe
existencialistas mostraram-se incapazes, frisa Gilson (Le Tho- pertence.

150 151
Mesmo com estas reservas, será aceitável falar de exis- O existencialismo tomista é necessariamente de base me-
tencialismo tomista? tafísica. Ele parte da "intuição do ser existencial" percebida
no juízo de existência ao qual, por um realismo nativo (não
Sem julgar das intenções do autor, louváveis sem dú- crítico), damos pleno valor na ordem objetiva. Quer dizer,
vida neste caso, parece-nos que tal linguagem servirá para o ponto de partida é o ser exterior. Ora, o existencialis-
aumentar um pouco mais a balbúrdia já existente na lingua- mo tem seu ponto de partida na categórica rejeição desta
gem filosófica, como na linguagem política, onde é preciso base. Para ele as coisas todas e o próprio pensamento nos
perguntar, a cada escritor, para interpretá-lo direito, em que são dados na existência. O existencialismo é subjetivo —
sentido usa tais ou tais vocábulos. Por que tornar também não subjetivista —; na análise fenomenológica da própria
equívoco o termo "existencialismo"? existência vai descobrindo todas as mais coisas, o mundo
Com efeito, por existencialismo todos entendemos um exterior e ainda Deus, embora não haja nisto uniformidade.
produto histórico-filosófico determinado que, tendo sua base Mais do que uma filosofia o existencialismo é um método,
em Kierkegaard, obteve singular desenvolvimento nos últi- uma forma de filosofar, que não se detém na análise do
mos decênios, como nova atitude e novo método de pensar rico conteúdo da existência, senão que daí toma pé para
em filosofia. entrar logo por todo o campo filosófico, por mais que, nal-
guns de seus representantes, não passe os limites duma antro-
Vir agora, apoiando-se na etimologia do vocábulo, a pologia.
introduzir com aquele nome outro produto inteiramente dis-
tinto, embora possa ser excelente em si mesmo, servirá com Resumindo em breves palavras a antítese do existencia-
certeza para provocar o equívoco onde não existia. Com lismo tomista e do existencialismo contemporâneo, — em-
perfeita razão, pois, escrevia há pouco Gabriel Mareei: bora com certas limitações, pois os existencialistas divergem
"Se incluímos São Tomás, ou outro filósofo da antigüidade muito na exposição de suas idéias — diríamos que o tomis-
entre os existencialistas, a palavra perde no mesmo instante mo, de tipo racional e realista, parte da afirmação metafísica
toda a significação precisa".198 da existência das coisas para alcançar o homem e Deus; e
Esta pretensão marítaineana de referir a São Tomás o o existencialismo, irracional e subjetivo, parte do eu exis-
autêntico existencialismo, prende-se também à deficiente e tencial para ir encontrar a metafísica.
parcial concepção que do existencialismo contemporâneo Além deste uso equívoco da palavra existencialismo,
manifesta possuir o autor. Maritain utiliza sem discriminação — e isto é mais grave —
O nome tem a mesma origem nos dois casos, porém, o termo ens ou esse em seu duplo sentido. É sabido que
como frisa J. Ma. Alonso: "Entre existência dei existencia- a palavra ens pode usar-se como particípio ativo do verbo
lismo y existência, como 'actus essendi' dei tomismo gilso- ser ou como substantivo..No primeiro caso significa o mes-
niano — diga-se, maritainiano — apenas hay otra cosa en mo ato de existir, no segundo significa algo a que convém
común que ei nombre y una vaga relación a un cierto obje- a existência, já exista ou não.
tivismo transcendental".200 Como particípio significa o ^'ser da existência", como
substantivo o "ser da essência". Mas o objeto da metafísica
aristotélico-escolástico é, precisamente, o ente substantivo e
199. Temoignages, XIII, 1947, p. 158.
200. Ap. Estúdios, 7-8, 1946, p. 107. não o particípio. Maritain, embora use o termo nos dois

152 153
sentidos, faz força especial no sentido primeiro, da existên- dos o discutem, todos falam dele, porém, todos ainda for-
cia. Isto poderá servir melhor ao intento de provar sua tese, mulam a pergunta: "Que é o existencialismo?"
não serve, porém, do mesmo modo à verdade e o sábio hones-
to deve-se ater à verdade e não às conveniências dialéticas O autor, um pouco em chiste — julga coisa árdua para
de teses preconcebidas. um filósofo levar a sério um panfleto tão superficial, dispa-
ratado e contraditório como o de Sartre — responde à per-
Finalmente, Maritain afirma que "o conceito metafísico gunta parodiando uma definição do romanticismo: "O Exis-
do ser é uma visualização eidética do ser apreendida no juí- tencialismo, meu caro, é a estrela que chora, o vento que
zo" (pág. 51). Em Husserl, a quem pertence a atualização geme, a noite que arrepia, a flor que embalsama e o passa-
em metafísica do termo "eidético", esta palavra, em contra- rinho que adeja; o existencialismo é o lanço inesperado . . .
posição a "fáctico", representa o elemento formal do conhe- é a filosofia providencial geométrica dos fatos consumados,
cer, o que é imutável e sempre válido nos seres, o que é que se lança no vago das experiências para burilar as fibras
próprio das essências. Esta visualização eidética, pois, não secretas" (pág. 7).
achamos como conciliá-la com a "intuição do valor absolu-
tamente singular e primacial da existência" (pág. 208), que Antes de proceder à análise filosófica das idéias sar-
em rigor deve ser a base da verdadeira filosofia existencial. trianas, o autor estabelece em breves palavras sua atitude
em face da produção pornográfica de Sartre: "Os romances,
São estas, como dizíamos, pequenas observações a este diz, são o pasto dos ociosos ou de gente rica de lazer. Eu
livro cheio de análises a várias questões das mais abstratas não os leio e declaro francamente que a pornografia não me
da metafísica. O leitor que agüentar até o fim a leitura re- interessa. A pornografia não se refuta, apenas se varre da
pousada das duras páginas deste livro, não deixará de haurir rua quando embaraça. Tanto basta" (pág. 3).
alguma luz maior sobre vários dos momentosos problemas
que se nos deparam na metafísica. O texto de Sartre deixa largos espaços marginais em
branco e Lefèbre sugere ao leitor que considere suas glosas
e) EXISTENCIALISMO SARTRIANO como notas à margem. Vai seguindo a Sartre passo a passo,
embora com o fim de pôr alguma ordem onde toda ordem
faltava, reúne a matéria em torno de vários títulos. Assim,
Várias objeções têm sido dirigidas ao existencialismo.
trata sucessivamente de: a existência precede à essência;
J.-P. Sartre intentou dar resposta aos adversários numa con-
angústia, abandono e desespero; a subjetividade existencia-
ferência feita no "Club Maintenant". Publicou-a logo num
lista e o Cogito; a condição humana; à procura duma mo-
folheto esmeradamente apresentado, sob o título: VExisten-
talisme est un Humanisme. L. F. Lefèbre respondeu a este ral; conclusão. Sob estas alíneas vai o autor submetendo a
com outro opúsculo intitulado: Ê filósofo o existencialista? rigorosa análise as doutrinas de Sartre, a quem refuta e pul-
no qual, apesar do equívoco do título, não se refere a qual- veriza. Aliás, não é coisa difícil, pois, apesar da fama, o
quer existencialista mas, apenas, a Jean-Paul Sartre.201 " trabalho de Sartre não tem valor nenhum filosófico e sur-
preende que tais coisas se publiquem com o nome de filo-
O existencialismo, comenta Lefèbre, está em moda, to- sofia.
Veja o leitor algumas amostras, para julgar por si mes-
201. Luc J. Lefèbre, UExistencialiste est-il un philosophe?, Paris, mo da superficialidade e incoerência das idéias de Sartre.
1946, 128 páginas. Utilizamos para estas citações a obra original, pois nem todas
154 155
se acham em Lefèbre: "Entendemos por existencialismo uma
doutrina que torna possível a vida humana e que, ademais, as profundas semelhanças entre ambos os escritores, e as
declara que toda verdade e toda ação implicam um meio e pequenas discrepâncias.
uma subjetividade humana".202 Antes do existencialismo não Uma pergunta final, que, sem dúvida, farão muitos lei-
terá sido possível a vida humana? Definição vaga, imprecisa tores: em tais condições, como explicar a grande fama que
e tão genérica que ignoro a que grande sistema filosófico Sartre desfrutou? Parece-nos que o fato é pouco auspicioso
possa não convir. Se os meus alunos fossem tão incompe- para o porvir da filosofia, a "democratização" desta disci-
tentes para dar uma definição não passariam nas provas de plina, quer dizer, a nivelação, por baixo, da cultura, faz
lógica. "O existencialismo ateu ensina que, embora Deus pulular inúmeros sujeitos que nada compreendem de tais
não exista, há quando menos um ser cuja existência precede problemas.
a essência . . . e este ser é o homem" (ibid., pág. 21). Sem o
A verdadeira filosofia é e será sempre apanágio das inte-
ente necessário, nem existe, nem mesmo pode compreender-
se a existência do ente contingente. "A natureza humana não ligências de escol e destas só. Uma jovem, detida pela polícia
existe por que falta Deus que a possa conhecer" (ibid., pág. há poucos dias, no Rio de Janeiro, por ofensas públicas ao
22). Donosa lógica! Para Sartre, que tudo confunde, não pudor, disse em sua defesa: "Eu sou uma existencialista ras-
há distinção nenhuma entre a ordem causai e a ordem do gada, senhor guarda". Não é muito mais, o que de existencia-
conhecer. Com razão diz um crítico203 que: "O existencialis- lismo entendem vários dos que dele escrevem, ou que levam
mo de Sartre é a flor de um dia, e deve-se pensar se é possí- ao palco as obras de Sartre. O teatro e o romance contribuí-
vel continuar a chamar de filosofia, por otimista que se seja, ram muito para a fama de Sartre. Por isso, Lefèbre resume
ao que é pouco mais que um conjunto de afirmações arbitrá- assim sua crítica a este respeito: "Obra de artista, concedo;
rias, falsas, contraditórias e expressivas de uma multidão de de filósofo, nego". Sartre não merece o nome de filósofo.
erros filosóficos".
f) ALGUMAS VISÕES CRISTÃS DO
Lefèbre vai com acerada crítica esmiuçando e esfacelan- EXISTENCIALISMO
do os parágrafos literários de Sartre, vazios de todo conteú-
do filosófico. Embora se dirija de preferência a Sartre, seus Témoignage é uma publicação trimestral, dirigida pelos
raciocínios são aplicáveis, como frisa Riefstahl, "contra o beneditinos da Abadia de Pierre-qui-Vire, cujo intuito não
nominalismo, Descartes, Kant, os idealistas germânicos, Kier- é tanto o de subministrar informações e documentação sobre
kegaard, o pragmatismo e Bergson".204 o acontecer hodierno, como o de doutrinar e esclarecer os
problemas intelectuais e espirituais tão deturpados em mui-
O autor aproxima muito Sartre de Descartes, isto quer
tos espíritos de nossa época. Cada número é dedicado ao
nos parecer que não responde inteiramente à verdade. Sartre
estudo de um problema cultural em relação direta com as
é sectário de Heidegger, a quem segue muito de perto, até
mais profundas e angustiosas preocupações de nosso tempo.
na nomenclatura filosófica. Podem ver-se em Bochenski205
O interesse será momentâneo, porém, o valor perdurável.
O número XIII de Témoignage206 é dedicado ao pro-
202. Sartre, UExist. est un Hum., p. 12. blema do existencialismo, palavra que bem poucos seriam
203. Fz. de Viana, Rev. de Fil., VI, 1947, p. 552.
204. Zeitochríft für Phil. Forschung, II, 1948, p. 624.
205. Europãische Phil. der Gegenwart, p. 174-175. 206. Témoignages, Cahiers d'Humanisme Chrétien: XIII - Exis-
tentialisme, Saint-Léger-Vauban (Yonne), 1947, páginas 155-304.
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capazes de dar razão de seu significado e alcance. Insere dia pobres diabos cujo delito foi o de servir ao público
três estudos sobre filosofia existencial: Gabriel Mareei ocupa- pratos confeccionados consoante às receitas da UNESCO de
se de "existencialismo e pensamento cristão"; D.T. Dassance ontem e de ante-ontem" (pág. 171). Dassance trata de for-
tece diversas "reflexões sobre o homem"; A. Forest, estuda mular e fazer ver a conveniência duma concepção exata da
a oposição e as relações recíprocas da "essência e existência". natureza humana, porque, felizmente: "Ainda se encontram
Comecemos pelo último: "A distinção da essência e da espíritos persuadidos de que uma filosofia errada é um vi-
existência, declara Forest, corresponde a uma tese sutil e veiro inesgotável de desgraças para os indivíduos e para o
cheia de sabedoria do pensamento metafísico" (pág. 212). mundo" (pág. 172).
Ela surge do esforço do espírito para captar a íntima estru- Por esta razão, trata o autor d& determinar, com a pre-
tura do ser real. De sua dimensão brota o contraste do cisão doutrinária possível, as origens, natureza e destino do
essencialismo e existencialismo; divergência esta mais assi- homem salpicando, no texto e em notas, comentários incisi-
nalada, do que a existente entre o idealismo e realismo ou vos a doutrinas expandidas por muitos escritores franceses,
entre intelectualismo e voluntarismo. totalmente desorientados, embora se dêem a si mesmos o
O autor procede à análise dos dois conceitos, procuran- apelativo de escritores católicos, como os de Esprit, etc.
do surpreender a máxima realidade no conceito da essência O trabalho mais interessante, ainda que breve, é o de
existente e a existência na suprema abstração da essência. Mareei, sob o título: Existencialismo e pensamento cristão
Do exame das relações entre os dois conceitos Forest (págs. 157-169). Ele reitera uma vez mais sua repulsa ao
conclui que a base duma legítima filosofia da realidade não termo "existencialismo" que "pelo menos na França, diz,
deverá ser nem a pura essência, nem a pura existência, mas, fez fortuna, se não sempre entre os filósofos, ao menos entre
sim, a relação de uma à outra. os jornalistas ou entre os escritores que se gabam de possuir
uma filosofia, sem que tal pretensão apareça muitas vezes
O trabalho de Dassance é o mais extenso. O autor co- justificada" (pág. 157).
meça por delimitar a matéria, declarando que se limitará a
fazer breves reflexões acerca da: "origem do homem, sua Como podia esperar-se dum verdadeiro filósofo, e Mar-
natureza mista e sua vocação" (pág. 171), tomando pé num eei tem fibra de tal, a charlatanice de Sartre erigida em
reparo feito por Mauriac ao esquema de filosofia "mortal magistério arranca-lhe formal protesto: "Carece de sentido,
para a humanidade", proposta por Julian Huxley à UNES- diz, considerar a Sartre, não já como o fundador — ele mes-
CO. Mauriac limitou-se a propor uma pública discussão entre mo seria o primeiro a desmenti-lo — porém, nem como
Huxley e Gilson. O autor comenta: "Numa hora em que todo porta-bandeira do existencialismo contemporâneo. Sua posi-
dia algum novo jornalista enfrenta um pelotão de execução ção é realmente marginal e sua metafísica a antípoda do
pelo delito de haver semeado nas almas venenos menos mor- existencialismo propriamente dito".
tíferos do que os que Huxley oferece ao mundo por inter- Mareei julga que deve restringir-se no tempo o uso e
médio da UNESCO, bem pode um, sem farisaísmo, assôm- significado do vocábulo "existencialista". Já é muito refe-
brar-se do ingênuo liberalismo de Mauriac . . . Eis que após ri-lo a alguns dos precursores, v.gr. a Pascal, porém, aplicá-
longos meses ainda assistimos ao doloroso espetáculo dum lo a São Tomás ou a outro filósofo da antigüidade eqüivale
país, o nosso (a França), que rejeitando toda ortodoxia filo- a um puro equívoco. Sendo tão diversas as definições do
sófica, em nome da liberdade de pensamento, fusila cada existencialismo, para não aumentar o número e as diferen-

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ças, Mareei opta por dar uma definição genética do sistema.
g) VISÃO ATILADA E CONCISA
Para ele o existencialismo é, apenas, uma reação produzida
DO EXISTENCIALISMO, DE UM EMINENTE
no século XIX contra o sistema hegeliano. Ao menos é isto
que se infere de Kierkegaard. PROFESSOR DE FILOSOFIA

Não pode compreender Mareei que se negue a possibi- J. Hessen, autor de um pequeno livro sobre o existen-
lidade dum existencialismo cristão, e, precisamente, "o ponto cialismo,207 é já muito conhecido nos países ibéricos por
de partida em Kierkegaard está em conexão imediata com duas obras traduzidas em espanhol e em portuguêst Teoria
uma concepção especificamente cristã" (pág. 158). E é fato do Conhecimento e Filosofia dos Valores.
notório que toda a Teologia protestante contemporânea está Apesar dos imensos transtornos da passada tragédia
trabalhada pelo fermento existencialista. Na Teologia ca- mundial, Hessen não interrompeu suas profundas cogitações
tólica, pela sua bem melhor travada contextura, não pode e estudos filosóficos. Mal terminado o conflito publicou
penetrar o existencialismo na mesma medida. Teve nela Der Sinn des Lebens, Von der Aufgabe der Philosophie und
porém, sobretudo na Alemanha, bastante influência, como des Wesen des Philosophen e uma Religionsphilosophie em
nota Maritain no começo do livro, que em páginas anterio- dois volumes, além de outros trabalhos de menor significação.
res resenhamos. Mareei está persuadido de que o existen- Posteriormente, publicou um excelente Lehrbuch der Philo-
cialismo é essencialmente cristão e que só se toma ateu ca- sophie.20S
sualmente afastando-se de sua própria natureza. Seria pre-
ciso neste assunto examinar cada caso em particular, sobre- Hessen é um pensador católico independente e original.
tudo o de Heidegger: "Por uma parte Heidegger não se Bochenski coloca-o ao lado de Peter Wust, na escola agos-
reconhece a si mesmo como existencialista, mas, por outra, tiniana, "de tendências intuicionistas atualistas e com fre-
resulta de declarações formais feitas recentemente a amigos qüência até pragmatistas".209
filósofos que de nenhum modo aceita ser arrolado entre os O presente livro sobre a Filosofia existencial é consti-
ateus" (pág. 158). tuído, segundo nos informa a "Zeitchrift für philosophische
Descreve logo o autor, a grandes traços, seu" itinerário Forschung",210 por uma série de lições que o autor deu no
filosófico até chegar à ortodoxia católica e transcreve trechos curso de inverno de 1946-47 na Universidade de Colônia
de páginas que, escreveu há muitos anos nas quais já formu- para ouvintes de todas as faculdades. E, por certo deve de
lava vários problemas dos que mais tarde poria em voga ser interessante ouvir as lições de quem escreve com a flui-
o existencialismo. A angústia, que em Kierkeggard constitui dez, transparência e amenidade de Hessen.
uma categoria absolutamente fundamental, não tem para Já desde as primeiras palavras, chama o autor a aten-
Mareei esse papel preponderante na filosofia da existência, ção para a transcedência do tema: "O problema fundamen-
embora deva esta "manter perpetuamente aberta uma janela
para os aspectos trágicos e injustificados da realidade" {pág.
169). 207. Johannes Hessen, Existenz-Philosophie. Thomas Morus Ver-
lag, Basilea, 1948.
208. Editado por Federmann Verlag, de Munich, em 1948 e
traduzido e reeditado na versão espanhola em Buenos Aires, 1957.
209. J. M. Bochenski, Europaische Philosophie der Gegenwart,
Berna, 1947, p. 239>
210. Band III, 1949. p. 622.
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tal da filosofia da existência humana é o problema do sen- h) FILOSOFIA GERAL E EXISTENCIAL DE
tido da existência (Sin des Daseins): Tem algum sentido MARTIN HEIDEGGER
nossa existência? E em que consiste este sentido? — Eis o
Heidegger, pelo seu vasto conhecimento, e robusta inte-
problema central da filosofia existencialista. Nenhum outro
ligência, ocupa um lugar destacado entre os grandes cultores
problema é hoje mais atual. Todas as aberrações que sofre-
mos nos últimos anos; toda a perda de vidas e a destruição da Filosofia. O livro de De Waehlens211 vem somar-se à já
de valores que consigo acarretou a mais cruel de todas as volumosa bibliografia em torno ao pensamento do professor
guerras; todas as necessidades, pobreza, sofrimentos e misé- de Friburgo.
rias que nos rodeiam, suscitam fortemente o problema do Nas últimas décadas foi sem dúvida a fenomenologia de
sentido da existência" (pág. 7). Husserl o movimento filosófico *le maior extensão e influên-
cia. Esta se fez sentir em todas as escolas filosóficas e re-
Como porém este problema se prende intimamente ao presentou para os idealistas um forte reativo que levou a
das diversas concepções da vida, o autor dedica os primei- muitos de seus adeptos a se aproximarem do realismo peri-
ros capítulos da obra ao estudo das mais recentes formas de patético, embora o próprio Husserl não chegasse nunca a
filosofia da vida, para tirar desse estudo os conceitos funda- desprender-se de todo do lastro idealista; para os defensores
mentais de uma filosofia da existência humana. Enfrenta-se
do realismo forneceu o método fenomenológico abundantes
logo como o nihilismo de Nietzsche e dele faz uma refutação
recursos para firmarem-se em suas teses.
vigorosa e contundente. Ao nihilismo contrapõe os mesmos
ensinamentos de Nietzsche sobre a "existência". Como era de prever-se, dada a extensão do movimente
fenomenológico, veio logo a desinteligência e ainda a cisão
No capítulo III, "Existência trágica", ocupa-se já dos dentro da escola de Husserl. O principal dissidente foi Hei-
inquietantes problemas de filosofia existencial, detendo-se degger, que contrapôs à fenomenologia teórica de Husserl a
especialmente no exame do pensamento de Heidegger, que fenomenologia existencial. O autor das Investigações lógicas
constitui filosoficamente a forma mais notável e eficiente da dirigira sua atenção para os problemas da essência chegando
filosofia existencial. em sua obra Ideen zu einer Phanomenologie,212 a qualificar
Nos capítulos seguintes trata sucessivamente da essência a fenomenologia simplesmente como uma "ciência das essên-
do homem, do homem e os valores, o homem e a Divindade cias" (Wessenswissenschaft). Nem poderia seguir outro cami-
etc, para finalizar com o mais interessante sobre a "exis- nho quem surgia no campo filosófico em franca oposição
tência cristã", que poderia sintetizar-se nesta expressão: "Da- ao positivismo, para o qual só o individual empírico pode
sein ist Sein aus Gnade". Desta maneira, "uma filosofia ser objeto de ciência.
existencial que intenta alcançar as primitivas fontes da vida Heidegger, e com ele bom número de filósofos, optou
— o que somente será possível sob a égide da fé cristã — por dirigir as investigações em torno dos problemas do ser
acha uma fórmula profunda naquelas palavras de Santo existencial.
Agostinho: Vita nostra nihil aliud est quam Dei gratia". Entretanto, surge também aqui nova divisão. Ao passo
que para Heidegger a análise da existência concreta tem
211. A. de Waehlens, La filosofia de Martin Heidegger. — Nota
preliminar y tradueción de Ramón Cefial, Madrid, CSIC, 1945, XXIV.
212. Halle, 1913, págs. 24, 33 e 114.

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empregado por Heidegger. Com reiterada insistência faz no-
tar o autor que o intento de Heidegger é achar uma solução
autêntica ao problema do ser, fundamentar a Ontologia: "El
lector, que abra por vez primera Sein und Zeit fiado ep Ias
opiniones ya recibidas acerca de su filosofia, no dejará de
experimentar viva extraneza. Desde Ias primeras páginas, en
efecto, insiste Heidegger en su intención de reasumir ab ovo
ei estúdio de los problemas más clásicos de Ia Metafísica
tradicional: ni una palabra por ei contrario, de esas revolu-
ciones que ei término Existencialismo sugiere hoy en dia en
ei común de Ias gentes". Razão teve o autor em insistir tanto
na determinação do caráter e sentido das investigações hei-
degerianas, pois é erro comuníssimo e bem difícil de extirpar
o de incluir a Heidegger entre os filósofos existencialistas
mesmo apesar de suas declarações em contrário. O equívoco
continua e há pouco, referindo-se a ele, Bollnow, bom co-
MARTIN HEIDEGGER \
Considerado o principal doutrinador nhecedor do existencialismo, frisava também que: "Heideg-
da filosofia existencial ger recusou energicamente ser classificado entre os cultores
da filosofia existencial pois que o fim de seu filosofar diri-
como fim a ulterior elaboração duma teoria geral do ser, gia-se à fundamentação duma nova Ontologia".213
para Jaspers, e outros vários, a filosofia tem finalidade ade- Se o objeto das investigações de Heidegger não é tanto
quada na descrição e estudo das múltiplas possibilidades a questão da "existência do homem, senão a do ser em seu
concretas oferecidas à humana existência. conjunto e enquanto tal", deve-se primeiro determinar a
Esta discussão entre a filosofia de K. Jaspers, que De significação do ser. O conceito de ser é o mais geral e ao
Waehlens chama de existentiva, e a existencial de Heidegger, mesmo tempo o mais obscuro de todos os conceitos. É ine-
"pone en juego, diz o autor, Ia herencia recibida de Kier- vitável filosofar sobre o conceito de ser sem pressupor, ao
kegaard, y entraria inmediata y fatalmente una revisión de menos, a noção vaga e imprecisa do ser que possuem natu-
Ia idea misma de filosofia. Por ello se ve cuanto nos puede ralmente todos os homens: "Toda inquisición sobre ei sen-
interesar ei precisar con Ia mayor exectitud posible ei pen- tido dei ser debe, por Io tanto, necesariamente incoarse a
samiento de Heidegger y de Jaspers" (pág. 2). Ao primeiro partir de un sentido médio dado, que, a su vez, deberá ser
destes filósofos consagra o livro, sem no entanto perder de dilucidado y constituirse en objeto de un problema".
vista o pensamento de Jaspers, estabelecendo o devido con- Surge aqui uma dificuldade. O estudo do ser há de ini-
traste entre os dois vigorosos pensadores. ciar-se, como é evidente, pelo exame de tal ou tal ser. Ora,
Em quatro partes divide De Waehlens sua obra. A pri- são muitos os existentes e muitas as maneiras de ser: por qual
meira constitui uma introdução geral a todo o livro, indis-
pensável para a inteligência das outras partes. Nela procura 213. Ap. Zeitachrift für philosophische Forschung. B. II, 1948,
fixar e estabelecer os problemas e o método de filosofar p. 232.

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dos diversos existentes ou dos vários sentidos da palavra ser dativamente, sendo por conseguinte constituído pelo tempo.
devemos começar? A que realidade corresponde melhor a Termina esta parte da analítica existencial com algumas
palavra ser? A observação dos fatos nos mostrará logo o considerações sobre a historicidade do Dasein.
caminho. Como entre todos os seres vemos que um só é capaz Com aguçado espírito entra De Waehlens, na terceira
de interrogar-se a si mesmo e este existente somos nós mes- parte, na análise das pressuposições que servem de base à
mos, a opção está feita: é a existência humana (Dasein) a filosofia de Heidegger.
que primeiro deve ser submetida a uma profunda análise.
Examina as noções de transcendência, liberdade e nada,
E com qual método? Heidegger, como dissemos, foi dis- que são, diz o autor, as que dirigem o desenvolvimento e
cípulo e adepto do método fenomenológico de Husserl (não determinam a significação da análise existencial.
o foi, entretanto, do idealismo fenomenológico do mestre) e
Na quarta e última parte da obra procura De Waehlens
expressamente declara segui-lo. A famosa fórmula husserlia-
esclarecer a ascendência histórica da filosofia de Heidegger.
na: Zu den Sachen selbst, interpreta-a como o mestre, po-
Para isto examina suas relações com a filosofia existentiva
rém, em continuação, rejeita Heidegger as "reduções" que
de K. Jaspers e com o pensamento de Dilthey, Kierkegaard
iriam de encontro ao objeto principal de suas investiga-
e Nietzsche.
ções: o ser mesmo da existência. Derivado deste, outros
pontos ainda o separam notavelmente da escola de Finalmente, o autor, na conclusão da obra, ainda reco-
Husserl. nhecendo nobremente alguns serviços prestados à filosofia
pelo existencialismo, dá um balanço desconsolador. A filo-
A segunda parte da obra de De Waehlens está dedi- sofia de Heidegger é uma filosofia da aceitação, filosofia da
cada ao estudo da "Analítica existencial". Sabido é que finitude, filosofia da existência, porém, a experiência da fini-
Heidegger consagrou a maior parte do único volume pu- tude desperta um protesto desesperado como é desesperado
blicado de Sein und Zeit à analítica existencial. Este o o recurso a uma onipotente impotência da terra: "Esta pro-
motivo por quê, lida ligeiramente a obra, muitos deduzi- testa, conclui o autor, muestra con fuerza irresistible y en
ram que era apenas mais uma existencialista. verdad, admirable, que Ia contingência es Io que jamás, a
Após ligeiras aproximações, trata de determinar as ca- ningun precio podrá ser aceptado por ei hombre. La finitud
racterísticas do existente humano concreto (Dasein), e adver- és insoportable. Deve ser, de ia maneira que sea, superada".
te, desde logo, que este Dasein não é uma coisa já fixa e A obra vem precedida duma "Nota preliminar" do tra-
imóvel como uma pedra ou uma mesa. O Dasein não é dutor. Achamos errado o critério de ambos, autor e tradutor,
nunca coisa acabada. "El Dasein es un existente cuyo ser de não traduzirem do alemão muitos termos e algumas fra-
está siempre puesto en juego". ses peculiares de Heidegger, por motivo da dificuldade de
Como primeira determinação do Dasein ou primeiro expressões equivalentes. Deveriam, ao menos, valer-se de
existencial, examina Heidegger a relação ser-no-mundo e pas- perífrases para dar-nos uma aproximação do sentido. Pois
sa logo à análise da heceidade do Dasein examinando a es- se eles, especializados em tal filosofia, acham difícil a tradu-
trutura que serve de base às suas manifestações imediatas, so- ção de suas fórmulas, não será muito mais difícil entendê-las
bretudo as duas modalidades fundamentais que ele chama o leigo nesta filosofia e talvez também na língua alemã?
de vida autêntica e de vida inautêntica. O "problema da A obra é séria e muito pensada e recomendamos viva-
temporalidade" ocupa longo espaço. Consoante ficou indi- mente sua leitura a todos os que desejam seguir de perto as
cado o ser do Dasein não é dado por inteiro, mas, sim, gra- modernas formas do pensar filosófico.

166 167
Capítulo X

RECAPITULAÇÃO

Quais os resultados práticos das filosofias da hora?


Daquela Germânia maravilhosa e grande de fins do sé-
culo, que deslumbrava o mundo com o fulgor de sua ciência
e o número de suas invenções, escrevendo Rodolfo Eucken
sua obra Die Lebensanschaugen der Grossen Denker chama-
va, desde as primeiras páginas, a atenção dos pensadores para
este fenômeno singular: os últimos tempos desenvolveram
uma atividade industrial ilimitada que modificou profunda-
mente o aspecto do mundo e os modos de viver. "Todavia,
diz Eucken, a orgulhosa carreira triunfal da civilização indus-
trial não satisfez ao mesmo tempo as exigências espirituais
do homem, nem com seus êxitos mais brilhantes fez próspera
a vida total e interior do ser humano". Essa exuberância de
vida mundana tomou-lhe o tempo e as energias todas, fê-lo
sair de si e olhar só para o exterior, acontecendo, porém,
que "quanto mais (continua Eucken) pelo desuso é tolhida
nossa atividade espiritual, mais pobre e vazio se torna o
homem em meio dos êxitos materiais e mais se acerca ao
ponto de converter-se no puro instrumento duma cultura
sem alma que nos arrasta e logo nos abandona, que mar-
cha gozando dum poder satânico sobre a vida e a morte dos

169
indivíduos, conduzindo-os para o abismo do nada como ter-
mo onde já essa cultura tombou".214
Não foi a do pensador germânico uma voz isolada.
Outras e outras se alevantaram em diversas partes, formu-
lando a mesma preocupação e os mesmos temores, por uma
ciência que esquecia o homem e que bem mostrava afastá-lo
cada vez mais da felicidade. \
Seja-me permitido alegar mais algumas citações espar-
sas que patentearão o ambiente de que venho escrevendo.
Decorridos poucos anos, um solitário pensador brasilei-
ro, angustiado pelo mesmo fenômeno que impressionava
Eucken, exclamou: "No fim de um século que tem deslum-
brado o mundo por seu progresso, uma pergunta se impõe:
tornou-se o homem mais feliz? Cada um responda como
puder!"215 Unamuno clamava também contra a filosofia
desumanizada. Segundo ele, o homem concreto, a pessoa, ORTEGA Y GASSET
o eu de cada um: "es ei sujeto y ei supremo objeto a Ia vez Grande escritor, teórico da razão vital
de toda filosofia, quiéranlo o no ciertos sedicentes filósofos". e precursor do existencialismo heideggeriano
Este sujeito é insubstituível porque, "que otro llenaría tan
bien o mejor que yo ei papel que lleno? Que otro cumpliria nos defronta, "diretamente com o sujeito real da experiência,
mi función social? Si, pero no yo: Yo, Yo, Yo, siempre yo! da vivência, da vontade".218
dirá algun lector; y quién eres tu? Podria aqui contestarle Se o homem, escreve Nef, não consegue dominar a má-
con Oberman, con ei enorme hombre Oberman, para ei uni- quina e fazê-la servir aos fins superiores da existência hu-
verso nada, para mi todo".216 "Por toda a parte se mostra, mana . . . nossa época será o crepúsculo da civilização que
diz Heimsoeth, que a última fundamentação da filosofia ê corre ao acaso.219 "A atenção da humanidade, adverte por
constituída . . . pelos grandes problemas da vida humana e sua vez Carrel, deve volver-se da consideração da máquina
da contapção-do-mundo pelo homem".217 e da matéria inorgânica para a do corpo e da alma do ho-
mem".220 Para nós, escrevia há pouco Munford, o problema
Uma das razões da atualidade do pensamento de Dilthey
está no caráter antropocêntrico e vital de sua filosofia que da pessoa ocupa o lugar central . . . a matéria de nosso
estudo deve ser a vida humana em todas as suas históricas
manifestações".221
214. Rudolf Eucken, Die Lebensanschaugen der Grossen Den-
ker, 2." ed., Leipzig, 1897, p. I.
215. Farias Brito, Finalidade do Mundo, O mundo como ativi-
dade intelectual, Pará, 1905, p. 18. 218. Eugênio Pucciarelli, Introdución a Ia Filosofia de Dilthey,
216. Unamuno, Del sentimento trágico de Ia vida, cap. I, Ed. B. Aires, 1944, p. 15 e Heimsoeth, op. cit., p. 49.
Austral, p. 9 e 17. 219. J. U. Nef, The U. S. and Civilizalion, Chicago, 1942, p. 41.
217. Heins Heimsoeth. A filosofia no século XÍX, S. Paulo, 220. Alexis Carrel. Man, The Unknown, London, 1937, p. 14.
1938, p. 51. 221. Lewis Munford, Values for Survive, N. York, 1946, p. 213.

170 171
Anos antes Kierkegaard, "en esto de acuerdo con toda psicologia. Descartes inverte os dados do problema: parte
Ia filosofia moderna", centrava no homem o objeto de toda do sujeito pensante para atingir a realidade ultra-subjetiva.
a filosofia.222
A partir deste instante o pensar filosófico seguirá rumo in-
Não se afasta nisto do mestre o seu discípulo Heideg- verso, no caminho a percorrer, partirá de dentro para fora e o
ger, para quem a metafísica é o conhecimento que do seu conhecer científico terá sua base irremovível, posto que aprio-
próprio ser possui o homem.223 rística, inata nas idéias-princípios.
De igual modo é este o tema central da filosofia de Embora em ordem diferente o sujeito aparece aqui co-
Ortega y Gasset. Com palavras candentes fustiga o ilustre mo no luteranismo, ocupando assinaladamente o centro do
pensador "Ia ciência que no sabe nada . . . no tiene nada pensar, e o que é mais inquietador, o centro da vida moral,
preciso que decir sobre ei hombre".224 pois no futuro submeter-se-á tudo ao critério individual. Não
Enfim, numa alocução do Pontífice Pio XII, dirigida é que pretendamos estabelecer uma relação de conseqüência
aos membros da Academia de Ciências, do Vaticano, convi- entre Lutero e Descartes, não, trata-se apenas de coincidência,
da-os o Papa a contemplar "a grandeza do homem no centro se bem que, talvez, não inteiramente espontânea, senão oca-
do universo material.225 sionada em ambos pelos mesmos complexos mentais.
Todavia, direis, como explicar este universal clamor pe- Estes dois fatores estarão presentes, embora amiúde. só
lo retorno do homem a si mesmo, pela instauração duma em forma latente, em toda a filosofia posterior independente.
filosofia que tenha por objeto central o homem? Não é este, Kant e os seus discípulos incumbir-se-ão de levar às
precisamente, o pecado da filosofia moderna e novíssima? extremas conseqüências a sublimação do ego. Já não será,
Não foi, porventura, o antropocentrismo, a grande aberra- apenas na ordem cognoscitiva, onde o "eu" há de ocupar o
ção que, após Descartes, vem transformando todo o mundo centro, a realidade toda não terá mais valor que o que lhe
moderno? confira o próprio "eu", ainda mesmo na ordem moral e
Isto é certamente inegável. No século XVI Lutero teológica. Kant sente-se tão embriagado com a superioridade
e seus sequazes apregoaram o livre exame individual e um do "eu" que não achará mais lei moral para a humanidade
século mais tarde Descartes operava uma completa revolu- que a que o "eu" estabelece com o seu próprio obrar.
ção no mundo do pensamento, que será sempre e ao mesmo Os discípulos imediatos de Kant avançam resolutamen-
tempo proa e leme da humanidade em sua marcha progres- te na mesma rota. Para Fichte, Schelling e Hegel o "eu" seçá
siva através do tempo e do espaço. A filosofia clássica e a como um Deus que se cria ou toma consciência de si mesmo
escolástica haviam partido sempre da realidade ontológica como Divindade. O monismo, no qual prevalece sempre o
para chegar ao "eu", ou seja, suas deduções iam de fora para eu humano que o cria, será logo o sistema dominante em
dentro, do cume da metafísica e da teodicéia ao íntimo da toda a filosofia posterior revestindo as formas e nomes mais
diversos. Ora será o monismo materialista de Büchner e de
Tyndal ou o idealístico de Bradley, ora o dinâmico de Ferri,
222. Fr. T. Urdanóz, O.P. Boletim de Filosofia Existencialista,
em Ciência Tomista, LXX, 1946, p. 120. Tõnnies e Katzenhofer, ou o energético de Ostwald, ora o
223. A. Diez, Historia de Ia Filosofia contemporânea, Vala- lógico da escola de Marburgo ou o evolucionismo de Spencer
dolid, 1946, p. 234. e Mach.
224. Ortega y Gasset, Historia como sistema etc, Madrid, 1942,
p. 10 e 11. Nietzsche tomará também o "eu" em sua independência
225. Acta Apost. Sedis, XXX 5, 1943, p. 69-79. de toda lei moral e estimulando sua "vontade de poder"
172 173
eleva-lo-á a "super-homem" (übermensch). Destas doutrinas infinito de sua absoluta perfeição. O homem é sempre, dire-
dimanam os mais variados sistemas de moral tais como: o mos com Ortega: "Ele próprio e a sua circunstância".
utilitarismo em todas as suas formas, o pessimismo, o hedo- Mais grave se torna, ainda, este isolamento do homem
nismo e o liberalismo, que todos eles não são outra coisa quando se leva a afastá-lo, emancipá-lo, de sua destinação
senão realização plástica do racionalismo egocentrista e ego- ultraterrena. O homem, ser finito, contingente, precário, não
látrico, que diluído tenuemente em estratos superpostos foi tem em si a razão de sua existência. Procede de outra causa
absorvido pela sociedade moderna. para existir e a ela deve subordinar-se para seu aperfeiçoa-
E agora é tempo de reiterarmos a pergunta há pouco mento. Acredite ou não, quer queira, quer não, o homem
formulada. Por que esse clamor pela reinstalação do homem tem um destino, foi criado e ordenado para uma superior
no centro da sabedoria? Não se sente ele satisfeito e feliz felicidade. Não é na vida temporal que há de achar a dita.
após haver sido exaltado acima de tudo, emancipado de qual- E está nisto a tragédia do homem atual. Sente sede insa-
quer jugo e quase divinizado? ciável de ser feliz e em vez de procurar desalterar essa sede
nas fontes de água viva que manam para a vida eterna, sedu-
Não, o homem hodierno não se encontra satisfeito. Essa zido pelo próprio orgulho quer, em seu pequeno mundo, satis-
exaltação era falaz, como era fraudulenta a filosofia de onde fazer sua indigênciá.
procedia; e de um fundamento falso só mesmo pode provir Para quebrar a monótona aridez destas páginas, permi-
uma felicidade enganosa, pois não há de exceder o efeito à ti-me que, erli breve interrupção, descreva com palavras dum
causa de onde procede. poeta brasileiro, atormentado pela descrença, a desoladora
A filosofia moderna mutilou temerariamente o homem situação de sua alma cética em frente à concepção que do
pois, querendo submeter ao seu domínio absoluto, ou melhor, homem lhe dera a filosofia e a religião:
querendo fazer do "ego "o agente criador de toda realidade,
viu-se na contingência inevitável de ter que negar o teste- Rei da criação por mim mesmo aclamado,
munho da consciência individual que é e será sempre, sem Quis vencendo o Destino ser o Rei
remédio, o único acesso que possui para se aproximar da De todo esse Universo ilimitado
realidade, isolou o homem totalmente do mundo e de Deus, Das idéias que nunca alcançarei ...
deixando-o qual cacto solitário a vegetar numa planície escal- Inteligência ... esse anjo rebelado
vada e erma. Tombou sem sabido a eterna lei:
Não, o homem não é apenas o ser pensante cartesiano, Pensei demais e, agora, apenas sei
nem o pitecantropo darwiniano, nem menos o demiurgo Que tudo que eu pensei estava errado . . .
gnóstico que se dá a existência a si e ao mundo. O pensar De tudo, então ficou somente em mim
e o crescer lhe são igualmente próprios mas estas proprie- O pavor tenebroso de pensar,
dades, para subsistir, coadunam-se, necessariamente, com a Porque as idéias nunca tinham fim ...
realidade extra individual. Se na ordem ontológica nos é
dado pensar o homem totalmente isolado dos outros seres, Que mais resta da fúria malograda?
isto não passa, na ordem vital, duma pura abstração, pois Um bailado de frases a cantar ...
tal homem nem existe nem pode existir a menos que dele A vaidade das formas ... e mais nada .. . 226
façamos o ser absoluto, Deus, eternamente feliz no pélago 226. Raul de Leoni, luz Mediterrânea, 3.* ed., Rio, 1940, p. 129.

174 175
Confessemo-lo com amargura e franqueza: a alegria de- Que diremos pois? Será preciso concluir declarando a,
sapareceu do nosso mundo. O sofrimento domina soberano. falência total da filosofia? Entendamo-nos: das filosofias no
Nunca em verdade faltou a dor no mundo mas nunca como plural, de todos esses sistemas que vêm disputando acura-
hoje esteve tão ausente a ventura dos povos. damente, na mais anárquica confusão o predomínio na opi-
nião dos povos, sim, essas filosofias penso que fracassaram.
A alegria foi-se e ficaram os prazeres. Paradoxo? Sim,
será paradoxal, mas é um fato de evidência que: a mais pra- Assim como São Paulo verbera a filosofia antiga, quali-
zeres, menos alegria do viver. Expliquemo-nos. Entendemos ficando de insensatos aos filósofos gentios porque não se
comumente por prazeres as transitórias satisfações das três aproveitaram devidamente das razões para chegar ao conhe-
concupiscências de que fala o Apóstolo: "Concupiscência da cimento da Divindade, uma vez que "o que de Deus é cog-
carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida".227 Mas noscível, é conhecido deles, Deus lho manifestou . . . me-
os prazeres são incapazes de devolver-nos a felicidade perdi- diante as criaturas; de maneira que eles não têm excusa, por
da. Por sua natureza eles são precários, incertos e capricho- quanto conhecendo a Deus não O glorificaram como a Deus
sos na eleição das pessoas, idades e condições que os hão . . . e pretendendo ser sábios tornaram-se estultos".238 Por
de desfrutar e, sobretudo, são efêmeros. Impossível edificar isso, Deus entregou-os "aos desejos do seu coração e à impu-
reza" e caíram no abismo de hedionda imoralidade.
a verdadeira alegria duma felicidade mais ou menos estável
e a que podemos aspirar na vida presente, edificá-la, digo, Citamos este texto de São Paulo pelo seu valor como
na base dos prazeres temporários. Esta alegria vai sempre depoimento histórico, pois se das mesmas causas derivam os
anexa à vida familiar, e esta hoje . . . ah! .,. deixo para mesmos efeitos, não cabe dúvida que é interessante lembrar
os leitores o comentário. Digo, sim, como lei social: a mais aquela terrível pintura do paganismo traçado no cap. I da
prazeres, menos felicidade. Nunca o homem, nem no paga- Epístola aos Romanos. Com efeito, as características do
nismo, achou tanta oportunidade e tanta facilidade para en- ambiente filosófico na atualidade oferecem uma surpreen-
contrar prazeres como hoje, e nunca também foi mais infeliz. dente similitude com as assimiladas por São Paulo, de modo
que não é inexato dizer que estamos presenciando um retor-
Eis a razão porque este século, que viu crescer em pro- no ao paganismo.
porções inverossímeis as órbitas do saber, que se aprofundou
mais do que nenhum dos anteriores nos mistérios da natu- O próprio Apóstolo, sem embargo, distingue dessa filo-
reza, que viu multiplicarem-se os inventos mais assombrosos, sofia autosuficiente outra autêntica filosofia que outorga os
que centuplicou a riqueza de alguns povos, não soube, toda- direitos à razão para alcançar a Deus e a lei moral,229 por
via, dar-lhes a paz; melhor, arrebatou a que desfrutava a um conhecimento conatural, certo e expontâneo da Divin-
maior parte deles, suscitando em seu seio as mais cruentas dade.
lutas e os ódios mais atrozes, com um desequilíbrio e insta- Aludi com isto à filosofia em singular, à que- chamamos
bilidade sociais cujo desenlace final é ainda prematuro pre- perene e de que vou me ocupar agora.
dizer.

228. Rom. I, 19-22. Ver Luigi Bogliolo, El problema de Ia


Filosofia Cristiana, Barcelona, E.L.E., 1960.
227. / Jo 1. 16. 229. Rom. II 14-15.

176 177
Capítulo XI

PHILOSOPHIA PERENNIS

Referindo-se Leibniz às harmoniosas relações que de-


vem haver entre a filosofia e a fé, "pois no fundo, diz, uma
verdade não poderia ir contra outra verdade, e a luz da razão
é um dom de Deus, não menos que a Revelação",230 elogia
a obra de Agostinho Steuco (+1549), De perenni philoso-
phia libri decem.
Que viu Leibniz de especial no livro De perenni philo-
sophia? Ovejero, o tradutor espanhol de Leibniz, diz em
nota que Steuco passa em revista os dogmas de quase todas
as religiões e seitas para pô-las de acordo com os pensadores
cristãos.231 E por sua vez Paul Janet anota: "il prétend re-
trouver dans íes philosophes paiens toutes les idées chré-
tiennes".232

1. A. STEUCO CRIA A DENOMINAÇÃO


"PHILOSOPHIA PERENNIS"

Foi Agostinho Steuco — apelidado Eugubino, gentílico


de sua cidade natal Gubbio —, quem, pela primeira vez,

230. Essais de Théodicée. Discours n.° 29.


231. G. M. Leibnitz, La Teodicea, trad. de E. Ovejero, Madrid,
Aguilar, s.d., p. 516.
A. STENCO 232. Oeuvres Philosophiques de Leibnitz, ed. P. Janet, Paris,
Verdadeiro criador 1866, t. II, p. 58.
da expressão "Philosophia Perennis",
posteriormente tornada universal por Leibniz 179
usou a expressão no próprio título de sua obra De perenni antigos é inteiramente falho — ganzlich verfehlt ist*.m De
philosophia libri decem?33 modo semelhante, outro filósofo moderno qualifica-o de
Nascido em 1497, Steuco faleceu em Veneza em 1548. "mais humanista que teólogo e com escasso conhecimento da
Foi Cônego lateranense, manteve correspondência e contro- Escolástica".237
vérsias com Erasmo e com outros humanistas. Paulo III, seu Em De perenni philosophia propõe-se Steuco o desen-
particular amigo e mecenas, nomeou-o bispo de Kisam e volvimento lento e uniforme, embora com certas inflexões,
bibliotecário da Vaticana. Homem de grande erudição e sa- do pensamento e da piedade humanos, desde nossos primei-
bedoria, é autor de numerosas obras sobre diversos assun- ros pais e através das diversas escolas filosóficas da anti-
tos.234 güidade, até a Escolástica.
Aquela que, sem dúvida, mais fama lhe deu é a De pe- Já na Dedicatória do livro a Paulo III declara: "Sem-
renni philosophia, escrita em latim elegante e dedicada ao pre tive como sentença filosófica certa que, sendo uma a
Papa Paulo III. O sub-título (provavelmente aposto pelo sabedoria e a piedade, derivadas das mesmas fontes e ten-
editor) reza: "Obra não só referta de imensa erudição e dentes ao mesmo fim, deverão também ser conformes às
piedade, senão que ainda contém, para assim dizer, a me- razões em que se apoiam." Por isto, observa, os grandes
dula de todos os filósofos, quer antigos, quer modernos, ra- filósofos como Platão e Aristóteles — philosophomm facile
zão pela qual é digníssima de ser lida e publicada nova- príncipes —> propõem-nos como ideal supremo do filosofar a
mente". ciência e o culto da Divindade "quod Mis sua lingua dicitur:
"238
Nela, com efeito, sistematiza "con vastíssima richezza
di erudizione 1'idea di una eterna filosofia".235 São indubi- Três são no curso da humanidade as etapas ou fases que
táveis em Steuco seus amplos conhecimentos, o perfeito do- nos apresenta a filosofia, iluminadas sempre por uma luz
mínio de vários idiomas antigos, e os dotes àb excelente perene, ínsita em todas as almas.
exegeta; porém, quanto ao aspecto propriamente filosófico, a) O saber primitivo outorgado a Adão, que assistiu
não convence a todos os leitores. Ebert, que fez da obra de à criação como primeira testemunha das origens do mundo,
Steuco objeto de estudo particular, resume sua crítica di- e que teve amplos conhecimentos com clareza e sem mescla
zendo que "a valoração a que foram submetidos os sistemas de erros. Esta ciência original, ele a transmitiu à posteridade
— per omnes aetates devoluta est ad posteros.2™
233. Augustini Steuchi Eugubini, Episcopi Kisan, De Perenni b) Em seguida, a sabedoria sofre certa obnubilação
philosophia libri X„ Basileae, anno MDXLII, 23 folhas prelimi- por causa do pecado, da dispersão das gentes e da confusão
nares e 720 páginas. É de notar que a maioria dos historiadores da
filosofia, inclusive italianos, ao mencionar esta obra apenas se de línguas; porém, ainda assim, as verdades primeiras, mes-
referem à edição de Lyon de 1540 ou às incluídas em sua Opera
omnia, muito posteriores, e não citam esta de Basiléia, de 1542, 236. Hermann Ebert, Augustinus Steuchus und seine Philoso-
utilizada aqui. phia perennis, in Philosophischer Jahrbuch, 1930, Ban. 43, p. 96.
234. Pode ver-se a lista completa de suas obras em Wetzer 237. K. Schottenloher, in Lexikon für Theologie und Kirche^,
und Welte's, Kirchenlexikorfi. Freiburg in Br. 1901, vol. XI, col. 785: t. IX.
também H. Ebert em Philosophischer Jahrbuch (da Gorresgesells- 238. De per. phil., pág. 2 preliminar. A obra inteira é um
chaft), 1929, tomo 42, pgs. 350-356, com apreciações críticas sobre aglomerado de textos gregos de quantos filósofos escreveram na
cada obra. antigüidade.
235. Eugênio Garin, Filosofia, Milano, 1947, t. II, p. 86. 239. Ibd. L. I, p. 1.

180 181
mo algo opacas, mantiveram-se, mercê da contemplação das recebida, já por suposições e deduções racionais que, em seu
coisas e das parcelas da sabedoria primitiva dispersas e con- conjunto e conveniência, veio constituir a denominada peren-
servadas em todos os povos. nis philosophia.243
cj Finalmente, novissimis saeculis, com luz esplendo- A fim de confirmar sua tese, ao longo de muitas pági-
rosa — clariore exacta luce — são iluminadas a revelação nas e com abundantes citações procura Steuco mostrar as
primitiva e as especulações filosóficas e renasce transparen- verdades dogmáticas como sobrevivendo e iluminando a vida
te a unidade originária do pensamento humano.240 da humanidade.
Garin faz notar a~ afinidade deste último conceito com "Comum foi entre os filósofos antigos o conhecimento
a idéia de uma "prisca Theologia" que, segundo Marsilio Fi- da Divindade e do poder do Pai e do Filho".244 Tomando-a
cino e Pico delia Mirândola, haveria conservado a unidade do mítico Hermes Trimegisto, assevera como doutrina de
da revelação primitiva.241 Platão, não só que o Logos é Filho de Deus senão que é
Assim pois, na primeira de ditas fases, a sabedoria ou Criador diviníssimo e Príncipe do mundo presente e do
verdade se comunica aos primeiros homens em plenitude, cla- futuro245, no que foi seguido por muitos.
reza e perfeição, como proveniente imediatamente do Ser Su- A crença em um só Deus foi pregada em todas as lín-
premo; porém no transcurso dos anos perde o vigor, torna- guas e pela maioria dos povos246, em admirável concordân-
se obscura, desfigura-se — temporum atque hominum iniu- cia com as sagradas Letras — prisci philosophi super uno
riis affectam2i2 —, chega a ser tida por muitos como uma ac singulari Deo mirabiliter cum sacris litteris consen-
fábula ou sonho, ainda que, sem embargo, a tradição subsis- serunt —.247
tisse latente sob os erros.
Com particular ênfase assinala Steuco, nos principais
A segunda das fases ou etapas tem sua origem na con- temas antropológicos, a surpreendente coincidência dos anti-
templação racional que intenta decifrar o cosmo — naturas gos filósofos com as doutrinas da filosofia cristã. De modo
causas que rerum speculantes — mas que sofre as defi- singular enche-nos de assombro a unanimidade que reina no
ciências inerentes à capacidade da mente humana e à sua tocante à imortalidade da alma humana — Magna res est,
limitação ante as árduas dificuldades que implica o desco- et nemini non admiranda, tantus omnium saecolorum, atque
brimento da verdade. hominum ex omni genere, late terras incolentium, linguis, mo-
Na terceira fase da filosofia o brilho da sabedoria dis- ribus, statibusque inter se divisorum, consensus, in eandem
sipa e afasta os precedentes erros e obscuridades, e não se rationem, ducente natura, conspirantium.2**
fechando em si, estende por todo o orbe seus raios lumino- Resumindo: Um só é o princípio de todas as coisas e
sos. Esta é a sabedoria necessária ao mundo e a única digna uma só também a sabedoria e a piedade, as quais já conhe-
de tal nome. cidas e ensinadas pela antiga filosofia são recebidas nas esco-
Destarte, a finalidade do livro é mostrar como existiu
sempre a verdadeira sabedoria alimentada, já pela tradição 243. Op. cit. p. 5-6.
244. L. I, c. III, p. 8.
245. L. 1. c. XXVII, p. 80.
240. Ibd. L. I, pp. 1-3. 246. L. III, c. I, p. 150.
241. Garin, Filosofia II, p. 87. 247. L. III, c. I, p. 50 e c. IV, p. 162.
242. Steuco, op. cit., L. I, c. 2, p. 7. 248. L. IX, c. XXIII, p. 623.

182 183
Ias cristãs, onde, expurgadas de todo erro, brilham com no- rene", torna-a muito vaga e imprecisa. Cumpre determinar-
vos resplendores. Tal é a Philosophia perennis no pensamento mos o que por ela aqui entendemos.
de Agostinho Steuco.
Estes esclarecimentos nos fazem compreender o verda- 2. QUE SE ENTENDE POR FILOSOFIA PERENE?
deiro sentido em que Leibniz usou a expressão philosophia
perennis. Escrevendo a Rémond de Montmort, lhe dizia: "La Leibniz e outros contemporâneos seus aceitam a nova
verité est plus répandue qu'on ne pense, mais elle est três denominação cunhada por Steuco, e quase não alteram o sen-
souvent aussi enveloppée, et même affaiblie, mutilée, corrom- tido teológico-filosófico que este lhe havia dado. Só de um
pue par des additions que Ia gâtent ou Ia rendent moins século a esta parte generaliza-se a expressão e é aplicada em
utile. En faisant: remarquer ces traces de Ia verité dans les vários sentidos.
anciens, ou, pour parler plus généralement, dans les ante- "Que se entende, pergunta Hans Meyer, por filosofia
rieures, on tirerait 1'or de Ia boue, le diamant de Ia mine perene? Apesar de certa coincidência fundamental, as opi-
et Ia lumière des ténèbres; et ce serait, en effet, perennis niões se dividem: alguns fazem dela um sistema mais ou
quaedam philosophia."2*9 menos definido, fundado em amplo sincretismo; pensam ou-
Como se vê pela carta acima citada, a idéia de Steuco tros na corrente do pensamento que, iniciada por Platão e
de "conciliar os antigos com o Cristianismo" impressionara Aristóteles, e continuada por Santo Agostinho e São Tomás,
vivamente a Leibniz e levou-o a conceber a filosofia perene ainda agora oferece elementos para uma tomada de posição
em função da história. "Pensava che occorreva — escreve filosófica; identificam-na muitos com a Neo-escolástica Ou
Olgiati — connettere le veritá scoperte dagli antichi con mais estreitamente com a Neo^escolástica-tomista; enfim, há
quelle che trovavano ed avrebbero trovato i moderni, per os que a equiparam simplesmente com a chamada filosofia
costituire quella ché egli chiamava perennis quaedam philo- cristã."251
sophia, Ia quale purê — perció — veniva da lui concepita Como "sistema filosófico" caracteriza E. Pita a filoso-
storicamente".250 fia perene252, e também do conceito sistemático é que parte
Temos, pois, que a denominação Philosophia perennis, Mazzantini para a partir dele fazer uma "valutazione crí-
cunhada por Steuco e com a chancela de Leibniz difundida tica" da filosofia de Heidegger.253
por todos os âmbitos, significava algo assim como a quinta Para o professor iugoslavo Usenicnik a filosofia perene
essência, o mais seguro e aproveitável de todas as filosofias é algo supra-temporal e eterno, mas se ela quer fazer com-
passadas. preender a realidade viva deve provar sempre sua verda-
A expressão fez imensa fortuna. Hoje é por todo o mun- de.254 Quanto mais sólidos forem os supostos de um sistema,
do usada e até a autoridade pontifícia lhe deu entrada num 251. Hans Meyer, Das Wesen der Philosophie und die philo-
documento tão solene como é a encíclica Humani Generis. sophischer Probleme, Bonn, 1936, p. 177; ver também Meyer, Syste-
Todavia, esse emprego freqüente da expressão "filosofia pe- matische Philosophie, Paderborn, 1955, t. I, p. 55-57.
252. Enrique B. Pita, Problemas fundamentales de Filosofia,
Bs. As., 1952, p. 141.
249. Die philosophischen Schriften von G. W. Leibniz, Hrsg. 253. Cario Mazzantini, Filosofia Perenne e Personalitá Filoso-
C. J. Gerhardt, Leipzig, 1875-1890, t. III, p. 624-25. fiche, Roma, 1942, p. 261 y 285.
250. Francesco Olgiati, II significato storico^ di Leibniz, Milão, 254. Alexius Usenicnik, Das Unbewuste bei Thomas von Aquin,
"Vita e Pensiero", 1929, p. 209. in Philosophia perennis, Festgabe J. Geyser, Ratisbona, 1930. I, p. 181.

184 185
afirma Kühle, tanto mais se acercará ele de uma filosofia 3. AS FORMAS HISTÓRICAS DA
perene.255 Por esse modo, faz notar Marion, é que a filosofia FILOSOFIA PERENE.
aristotélica, triunfante no século XVII nas universidades ger-
mânicas, com certas ampliações, achava-se próxima da filo- São, sem embargo, maioria os que vêem a filosofia pe-
sofia perene ideal.256 Mais radical em sua exigência de sis- rene não como um sistema filosófico entre outros, mas, sim,
tema, Vigano contrapõe à inestabilidade da física moderna como aquele movimento filosófico que em constante evolu-
"Ia stática immobilitá delia filosofia perenne".257 ção e progresso, a partir de Pitágoras, Platão e Aristóteles,
A atitude destes pensadores, que fazem da filosofia pe- continua nos Santos Padres e na Escolástica até desembocar
rene um sistema definido e ponto de referência e contraste na recente Neo-escolástica.
com outras filosofias, é semelhante à de Grócio, Pufendorf, A continuidade do pensamento humano, e a consciên-
Thomasius e outros, erroneamente chamada "Escola de Di- cia dessa continuidade nos grandes filósofos é indubitável.
reito Natural", pois sendo este, simplesmente, "um conheci- Declara-o Aristóteles formalmente no livro I da Metafí-
mento inato ao homem pelo qual dirige conscientemente seus sica: "Já estudamos suficientemente as causas, nos livros
atos para agir"258, fazem dele um Jus naturále perenne, um de Física; agora porém chamamos também em nosso auxí-
sistema acabado de direito, algo assim como um Código que lio os que nos precederam na investigação do ser e que dis-
encerrasse, de modo axiomático, todas as leis, toda a moral correram acerca da verdade, pois é óbvio que suas lucubra-
e todo o direito.259 Esta concepção apriorística, tanto em filo- ções podem nos ser proveitosas por que nelas encontramos
sofia como em moral ou em direito, é mais imaginária que algum novo gênero de causalidade, ou depois de nosso exa-
real, pois não corresponde a nada objetivo. me nos convencemos da exatidão do que mantínhamos".261
Mais bem avisado se mostra O. N. Derisi, para quem Por sua vez Plotino, que começa as Enéadas manifes-
a filosofia perene não é nenhum sistema definido, acabado, tando que seu objeto é explicar o pensamento de Platão,
senão uma filosofia que pode e deve crescer incessan- aduz constantemente as doutrinas dos antigos gregos, até o
temente?™ ponto de, no livro V da obra, sua explicação das Hipóstases
não passar de um mostruário de todas as opiniões anteriores
.— eine doxographische Darstellung — como diz Marion.226
Clemente de Alexandria tem umas palavras que convém
255. Henrich Kühle, Die Lehre Alberts Grossen von den Trans- exatamente com o conceito de filosofia perene que vimos
zendentalien, ap. Phil. per., I, p 131.
256. Xakob Marion, Geschichtliche Formen einer philosophia expondo: "Por filosofia entendo, não a estóica oü a platôni-
perennis. ap. Divus Thomas, Friburgo de Br. XIII, 1935, p. 311. ca, nem a epicuréia ou a aristotélica, senão tudo aquilo que
257. Mario Vigano, Filosofia perenne e Física Moderna, ap. foi retamente ensinado por cada uma destas escolas. A esta
Studi Filosofici in torno all'Esistenza, Analecta Gregoriana, Roma,
1954, p. 203-4. seleção de todas as escolas é o que chamo filosofia".263
258. José Corts Grau, Curso de Derecho Natural, Madrid,
1953, p. 196-2.
259. Cfr. E. Luna Pena, Derecho Natural, Barcelona, 1950,
pp. 22, 29. Henrich Rommen, Die ewige Wiederker des Naturecht, 261. Metafísica, L. I, c. 3, 9883b, 1-5.
Munich, 1947, p. 76. 262. Jakob Marion, Geschichtliche Formen einer philosophia
260. Otávio N. Derisi, Sto. Tomás de Aquino y Ia filosofia perennis in Divus Thomas, de Friburgo de Br. XIII, 1935, p. 306.
actual, Bs. As., 1975, p. 35. 263. Clemente Alejandrino, Strómata, L. I, c. VII, 37.6.

186 187
A dezoito séculos de distância, embora com diferentes
formulações, é essa a característica da filosofia perene em
muitos autores modernos, como, v.gr. Salcedo,264 Dávila, 265
Donat, que a denomina "attico-patrístico-escolástica".266 Sa-
wicki, segundo o qual a filosofia perene recapitula tudo o
que de essencial se encerra em cada sistema.267
Em tais condições tem razão Truyol Serra quando afirma
que a filosofia perene não pode conceber-se desligada da his-
tória da filosofia, "antes é a quinta-essência dessa histó-
ria". 268 Ocorre, porém, que isso complica sobremaneira o
problema de filosofia perene, pela simples razão de que o
conceito de filosofia dista muito de ser unívoco, seu nome
atribui-se a fatos da mais diversa índole. 269
Xavier Zubiri fez um estudo de cinco filósofos represen-
tativos na história do pensamento, e como conclusão de seu
ensaio se pergunta: "será possível que a coisas tão distintas
se chame assim, sem mais, filosofia?"270
Com efeito, a história da filosofia nos oferece o mosaico
mais colorido de doutrinas opostas. A antigüidade helênica
viu pulularem em seu seio as mais diversas doutrinas. Nos
começos prevalece a filosofia natural e cosmológica; a ela
sucede uma filosofia cultural com os sofistas e uma orienta-
ção mais humana e ética com Sócrates, a qual é amplamente
sobrepujada pelos dois luminares do mundo filosófico: Pla-
tão e Aristóteles, cujo prestígio é por sua vez deslocado pelo
epicurismo e, sobretudo, pelo estoicismo greco-romano e, mais
tarde, pelo neo-platonismo alexandrino.

264. Leovigildo Salcedo, Phil. Scholasticae Summa, BAC, Ma-


drid, 1964, I, p. 25-26.
265. Júlio Dávila, Introd. ad Phil. et Lógica, Méjico, 1945,
p. 113.
266. Jos. Donat, Lógica, Insbruck, 1931, p. 24.
267. Franz Sawicki. Die Geschichts philosophie ais. Ph. per., ap.
JOSEF GEYSER Festgabe Jos. Geyser, I, p. 513.
Que, pela sua notável contribuição 268. Antônio Truyol Serra, La situación filosófica actual y Ia
à renovação filosófica na Alemanha, idea de Ia Filosofia perenne, Murcia, 1948, p. 22.
foi homenageado, pelo seu 60.° aniversário, 269. G. Dilthey, La esencia de Ia Filosofia, Bs. As., 1944, p. 120.
por seus discípulos,
com a notável coletânea intitulada Philosophia perennis 270. Xavier Zubiri. Cinco lecciones de Filosofia, Madrid, 1963,
p. 9.
188
189
Os Santos Padres — se excetuarmos Santo Agostinho
— não criaram uma filosofia cristã, tão somente acrescen-
taram-lhe materiais, servindo-se especialmente do neo-plato-
nismo. A filosofia árabe e a judia renovam as escolas helê-
nicas com suas perpétuas divisões. A Idade Média cristã
vê multiplicar em suas escolas um sem número de teorias
filosóficas, nem sempre ortodoxas na fé cristã.
Nos tempos modernos a anarquia filosófica é a tônica
dominante. Vale mencionar a multidão de sistemas e escolas.
Se, dos antigos filósofos dizia Leão XIII, na Aeterni Pa-
íris,2,71 que "mesmo os mais sábios erraram gravemente em
muitas coisas", os modernos aumentaram em incríveis pro-
porções os erros dos antigos.
Ora, sob tão diversas e opostas roupagens, como reco-
nhecer os princípios essenciais de uma filosofia em evolução
ou de uma filosofia perene? "Se a verdade é una e o erro
múltiplo, parece incompatível a verdade com a multiplici-
dade das filosofias".272
Muitos autores usam indiferentemente: filosofia cristã,
filosofia escolástica, filosofia tomista, filosofia platônico-aris-
totélica, filosofia clássica, como equivalente à filosofia pere-
ne. Outros ainda restringem, ou pelo contrário, usam de um
modo ainda mais indeterminado essa denominação: "Nas tra-
dições peripatéticas se reconhece o núcleo de cristalização de
uma philosophia perennis, abrangendo em sua continuidade
unificadora os mais afastados períodos da história".273 Para
Urban "the magnificent metaphisical and theological struc-
ture, the philosophia perennis which constitutes European
phüosophy".2™

271. ASS 12 (1879), 104, Col. completa de Encíclicas Ponti-


fícias, Buenos Aires, 1963, I, 236, n.° 8.
272. Manuel Mindán, Filosofia y Verdad, ap. Actas do 1° congr.
Nac. de Fil., Braga, 1955, p. 60.
273. J. A. Endres, Einleitung, etc. p. 37. XAVIER ZUBIRI
274. Wilbur M. Urban, Axiology, Twentieth Century Philoso- Depois de Amor Ruibal,
phy, N. York, Philosophical Library, 1943, p. 71. o mais original filosofo da Espanha contemporânea

190 191
Outros muitos identificam a filosofia escolástica, "the tores modernos renunciam à universalidade no tempo e aco-
best synthesis that man has been able to achieve", com a filo- lhem a "filosofia cristã" como única que corresponderia às
sofia perene em sua forma mais amadurecida.275 Isto mesmo exigências de tal filosofia perene.
defendia com ardor, em polêmica com Menéndez Pelayo, Ale- Ocorre sem embargo que, enquanto para alguns, ne-
xandre Pidal y Mon, para quem "Ia philosophia perennis, Ia nhuma filosofia "pourra jamais se qualifier de chrétienne",280
única verdadera e única completa" seria a escolástica, espe- ou para outros como Mercier, Sentroul, Van Steenbergher,
cialmente em sua versão da escola espanhola renascentista Mandonnet, etc, fica reduzida essa qualidade a uma pura
iniciada por Francisco de Vitória.276 Menéndez Pelayo retru- denominação extrínseca e negativa, há, pelo contrário, aque-
ca-lhe, negando que para Leibniz a filosofia perene fosse les que, como Blondel, estabelecem tal afinidade e parentes-
a escolástica e na ocasião esboça uma noção daquela: "Para co entre filosofia e cristianismo que este vem a ser a "chave
Leibniz Ia filosofia perene era tan solo ei conjunto de aquel- de abóbada" de toda a filosofia autêntica, coisa a qualquer
los princípios fundamentales e inmutables, leyes comunes a luz destinada, pois se fosse assim, não haveria filosofia fora
toda inteligência y que más o menos, yacen en ei fondo de dó cristianismo.281 Schwartz fala-nos também da estreita liga-
todo sistema no panteista".277 ção do cristianismo com a filosofia perene pois esta se acha
Mazzantini alarga o conceito de filosofia perene de modo "mit dem Christentum in organische Verbindung".282
a não ver nela sistema algum determinado senão quaisquer Não muito distante de Blondel situa-se o pensamento de
"motivos eternos de verdade" que em toda filosofia, a mo- Maritain,283 para quem a filosofia perene, já antes de Aris-
derna inclusive, se encontram.278
tóteles e de São Tomás, existia em sua raiz, "em estado pré-
filosófico, como instinto da inteligência e como conhecimen-
4. EQUIVALÊNCIA DE FILOSOFIA PERENE
to natural". Será que a isto se pode chamar filosofia?
E FILOSOFIA CRISTÃ?
Mas, sem chegar a esses extremos, são muitos hoje os
Hoje o mais freqüente é identificar filosofia perene e filo- que postulam essa filosofia cristã, que, v.gr. para Willmann,
sofia cristã. Talvez, por isso, afora os filósofos cristãos, sejam é a chave que nos faz compreender a continuidade da filo-
poucos, muitos poucos, segundo frisa Hirschberger, os que se sofia perene.284. Suarez parece haver sido o primeiro a apli-
professam hoje declarados seguidores da filosofia perene.279 car aquele apelativo quando, no Prefácio da Metafísica, de-
clara jamais perder de vista que a filosofia tem que ser cristã
Fugindo da antinomia que para a filosofia perene re- — nostram philosophiam debere christianam esse.285
presenta -essa multiplicidade secular de filosofias, muitos au-
280. Roger Mehl, La Condition du Philosophe Chrétien, Paris,
275. Paul T. Glenn, An Introduction to Philosophy, St, Louis, 1947, p. 162.
Herder, 1945, p. 93. 281. Maurice Blondel, La Philosophie et VEsprit Chrétien, Paris,
276. Dois artigos de A. Pidal, em M. Menéndez Pelayo, La 1950, II, p. 258.
ciência espanola, Edic. Nacional de Obras completas, Madrid C.S.I. 282. B. Schwartz, Ewige Philosophie, Leipzig, 1937, p. 97.
1953, t. I, p. 294. 283. J. Maritain, Introd. general a Ia FiL, Buenos Aires, 1944,
277. Cienci. esp., t. I, p. 307-8. e De Ia Phil. Chrétienne, Paris, 1933.
278. Cario Mazzantini, Filosofia perenne e personalitá filoso- 284. Otto Willmann, Aus der Werkstatt der Phil. per., Friburgo,
fiche, Padua, Cedam, 1942, p. V. 1912, p. 50.
279. Johannes Hirschberger, Historia de Ia Filosofia, trad. esp., 285. Fr. Suarez, Disput. Metafisicae, ed. bilingüe, Madrid, Gre-
Barcelona, Herder, 1956, t. II, p. 334.
dos, I, p. 17.

192 193
As controvérsias a que deu lugar e a diversidade de opi- Como, porém, a perfeita delimitação de umas e outras
niões mostram-nos "quão equívoco é o conceito de "filoso- seja coisa sumamente árdua e por outra parte o filósofo cris-
fia cristã".286 Nossa conclusão é que, sendo a filosofia uma tão ou não, deva de todas se ocupar, aparece logo a grave
ciência racional, cujos elementos lhe são subministrados pelo dificuldade em definir, com precisão, quais as filosofias que
exercício das faculdades humanas naturais, e não pela intro- podem com verdade designar-se cristãs. Daí as discussões há
dução de dados novos de base gnoseológica transcendente, vários anos suscitadas sobre o conceito de filosofia cristã.
derivados da Revelação; e como, por outra parte, a filosofia
existiu antes de Cristo e coexiste com o cristianismo nos Na Introdução de sua obra filosófica monumental, define
povos não cristianizados, em rigor e formalmente, não pode Urráburu o que ele entendia por philosophia christiana: "é
denominar-se "cristã"; tão só é lícito atribuir-lhe esse ape- aquela que tendo presentes as verdades reveladas, nada de-
lativo como denominação extrínseca e adjetiva,287 não pura- fende que seja a elas oposto, e que, prescindindo das que
mente negativa. são superiores às luzes da razão, trata de todas as outras sob
as luzes da reta razão".288 Anos depois, publicava Del Prado
A noção de filosofia cristã, tomada em sua generalidade, uma obra que causou profunda impressão nos meios escolas-
é de grande amplidão e, embora seja clara em si mesma, ticos e em cujo título já incluía a denominação de cristã:
não é fácil precisar-lhe os contornos, pois abarca grande nú- De veritate fundamentali philosophiae christianae. Nesta
mero de sistemas e correntes doutrinárias as mais diversas. obra, Del Prado dá com audácia um passo mais para a fren-
Num sentido muito restrito, enquanto significasse a coin- te: a filosofia de São Tomás é denominada com justiça filo-
cidência do pensamento especulativo com o cristão naquelas sofia cristã e ela "est vere philosophia perennis".289 Nas con-
questões que se relacionam com o dogma, a identificação com trovérsias de anos posteriores, suscitadas na França sobre a
a filosofia perene viria a ser para um cristão uma tautolo- possibilidade e conceito de filosofia cristã, Gilson, que no
gia, pois para ele é evidente que, o que está em concordância começo a definia, apenas, como norma negativa: "Ia philo-
com a fé, goza da mesma perenidade que esta. sophie qui accepte Paction régulatrice du dogme chrétien",290
acabou esposando o pensamento de Del Prado. O seu recente
Acontece, sem embargo, que em filosofia, por muito im- libreto Introduction a Ia philosophie chrétienne é, apenas e
portantes que elas sejam, é muito reduzido o número das exclusivamente, uma exposição dos pontos capitais da filo-
que guardam intrínseca relação com os dogmas. No vasto sofia tomística.
campo filosófico há inúmeros problemas e explicações siste-
máticas puramente racionais de livre discussão humana. Uma tal limitação do horizonte da filosofia cristã é, evi-
dentemente, inaceitável e fora da ordem dominicana são pou-

286. Cf. Truyol Serra, op. cit., p. 13.


287. Com rigor e precisão expressa-se sobre isto Ramirez: "Cum 288. J. J. Urráburu, Institutiones Philosophicae, Valladolid,
ergo appellativum, christiana, non sit formale neque essentiale, ne- 1890, vol. I, n.° 51.
cessário debet esse accidentale in sensu stricto, id est quintum prae- 289. N. Del Prado, De veritate fundamentali . . . , Friburgo de
dicabile, quod potest adesse vel abesse salva rei essentia." Jacobús Suiça, 1911, p. XIX.
M. Ramirez, De ipsa philosophia in seipsa. Opera omnia, Madrid, 290. Em La Philosophie Chrétienne, da Société Thomiste, Le
C. S. I. C, 1979, t. I, p. 832. Também Roig Gironella observa que Saulchoir, 1933, p. 64. Ver sobre essas controvérsias: L. Balliolo, El
o fator "extrínseco" cristão não afeta a essência da filosofia como problema de Ia filosofia cristiana (Barcelona, 1961) e J. Iriarte, La
tal. J. Roig Gironella, Curso de cuestiones filosóficas, Barcelona, controvérsia sobre Ia noción de filosofia cristiana, em Pensamiento I,
1963, p. VIII.
1945, p. 7-29.

194 195
cos os que mantêm rigidamente essa orientação. Com toda
expressão, o tomismo, à filosofia perene. Valha como exem-
verdade já afirmava Menéndez Pelayo que "Ia verdad total,
plo disso, entre muitos outros, o de E. Pita, segundo o qual
no Ia ha alcanzado ei tomismo, ni ninguna filosofia, como tal
a filosofia de São Tomás não em vão se chama filosofia
filosofia".291
perene e por conseguinte poderia ser designada absolutamen-
Se desse modo restringirmos a filosofia cristã, onde fica- te com o nome de "filosofia". Esta redução da filosofia pe-
rão tantos autores e filosofias de alma profundamente cristã rene a um só e único sistema multiplica as dificuldades que
e que, sem embargo, não pertenceram nunca à escola tomista, já de si encerra seu conceito.294
nem mesmo ao escolasticismo? Neste caso se acha a patrís- Com efeito, mesmo supostas como inegáveis muitas coin-
tica e particularmente Santo Agostinho; a escola franciscana cidências da que se convencionou em chamar de filosofia
que tão variadas formas reveste em seus grandes pensado- perene com o escolasticismo e com sua máxima expressão,
res: A. de Hales, São Boaventura, R. Bacon, Escoto, Raimun- o tomismo, não é admissível identificá-la com toda a cons-
do Lúlio, Ockam; a escola carmelitana e a moderna agosti- trução sistemática de uma filosofia determinada. Faz-se ne-
niana; pensadores independentes como Santo Anselmo, Ar- cessário distinguir a doutrina em si, considerada objetivamen-
naldo de Villanova, Luiz Vivas, Nicolás de Cusa, Balmes e, te, do esquema ou estrutura sistemática em que se pretende
em nossos dias, Zaragüeta, Hessen, etc e o grande, incomen- encaixar a filosofia perene e que, evidentemente, destruiria
surável, Amor Ruibal.292 seu próprio conceito ao integrá-la numa sistematização com
É em vão que homem tão inteligente como Ramirez, elementos sem dúvida contingentes e muitos deles sempre
exorbitando o alcance das normas disciplinares da Igreja sobre submetidos à discussão.
o ensino da filosofia úd mentem Angelici dòctoris, empregue O egrégio filósofo e nos tempos modernos, facile prin-
as páginas todas de um livro para tentar levar-nos à convic- ceps thomistarum, Santiago Ramirez é, nesta matéria, muito
ção de que no tomismo se encerra a verdade integral da filo- mais circunspecto: "Nunca tive Tomás, diz, por infalível
sofia cristã e deve ser por todos integralmente aceita, assim na nem insuperável, nem muito menos que a revelação filosófica
doutrina como no método e sistematização.293 Não, a Igreja tenha sido definitivamente dose à Ia mort de Saint Thomas"
não canonizou nem canonizará jamais as doutrinas filosóficas (Ver Steenberghen).295 Essa restrição não diminui em nada
de nenhum doutor particular. a grandeza de São Tomás nem obsta de maneira alguma à
Por isso não podemos, sem mais, admitir como certo sua qualidade de "Príncipe e Mestre de todos os doutores
que filosofia cristã, filosofia tomista e filosofia perene se escolásticos, cujos ensinamentos ele "in unum collegit et
eqüivalem. coagmentavit, miro ordine disgessit et magnis incremen-
tis adauxit".206
Com a brilhante renovação da filosofia medieval, que
se seguiu às incitações de Leão XIII, não faltaram os que De todo o exposto podemos inferir logicamente que o
intentam equiparar a neoescolástica, ou sua mais perfeita núcleo de verdades, patrimônio comum do gênero humano e

29L Cienc. esp. I, p. 307. 294. Enrique B. Pita, Problemas fundamentales de Filosofia,
292. Ver Pelayo Zamayon, La filosofia franciscana, in Estúdios
Franciscanos, 49, 1948, p. 177-178. Buenos Aires, 1952.
293. S. Ramirez, De auctoritate doctrinali S. Thomas Aquinaüs, 295. Ramirez, Op. cit., p. 852.
Salmanticae, 1952. 296. Leão XIII, Aet. Patris, AAS XII, 1879, p. 108, (na «dição
de Eneíclicas argentinas, cit. I, p. 238).

196 197
que denominamos filosofia perene não se acha condicionado conta que nada nem ninguém mais existe no mundo para
a particulares e limitadíssimas estruturas sistemáticas posto compartilhar sua angústia metafísica. Busca, então, com ânsia,
que, como diz Menéndez Pelayo: "a verdade total nem a al- em si mesmo, o fato, a idéia transcendental que intui como
cançou o tomismo nem filosofia alguma como tal filosofia".287 mágico descobrimento e dela, constituída eixo central de to-
Por isso a nosso parecer esta é a melhor maneira de do seu pensamento, vai formando e estruturando um sistema
entender o verdadeiro sentido da expressão filosofia perene mais ou menos original, em que intenta dar-nos a explicação
e sua íntima e evidente relação que se estabelece com a filo- total do real.
sofia cristã; pois se o cristianismo é autônomo e indepen- Os grandes pensadores da antigüidade e da Idade Média
dente de toda organização filosófica sistemática; se por con- não construíram sistemas nesse sentido totalitário. Cencillo,
seguinte a chamada filosofia cristã não encontra seu equi- num belo estudo recente, salienta o fato de que o próprio
valente adequado ao agostinismo nem no tomismo nem em sistema aristotélico não foi obra do Estagirita e, sim, dos seus
nenhuma outra forma de escolasticismo, dela ficaremos tão imediatos compiladores.298
só com os grandes e vitais pensamentos e orientações, sem
a ganga de qualquer sistema, sempre discutível. São Tomás não elaborou nenhum sistema filosófico. O
tomismo como sistema teológico é obra dos tomistas espa-
Cabe, agora, perguntar: se pois a filosofia perene não nhóis do século XVI; bem como sua construção arquitetô-
é um sistema de filosofia nem tampouco é identificável com nica filosófica, na atualidade, à base da distinção da essên-
nenhum outro existente, que pensar dela? Em que categoria cia e existência nas criaturas como "verdade fundamental"
do ser situá-la? É, por ventura, um ente de razão? Sim e não. de todo o edifício, partiu de uma idéia do Card. Zeferino
Se por filosofia perene entendemos uma pura ficção com González, desenvolvida por Del Prado na obra citada.299
remoto fundamento na realidade respondemos; não, isso não
corresponde ao que se chama filosofia perene. Mas, se por Nicolás Hartmann estabelece uma divisão dicotômica na
tal entendemos um ente ideal com próximo e imediato funda- história da filosofias história dos sistemas e história dos pro-
mento na realidade, como se dá em qualquer gênero de ente blemas. Se da história passamos à ordem doutrinária pode-
abstrato, então, sim, é possível tal atribuição, pois de fato a mos, de modo análogo, considerar o orbe especulativo situa-
filosofia perene pretende ser a quinta-essência da grande do em dois planos: o dos problemas e o das soluções. Os
tradição filosófica do Ocidente, algo assim como os pronun- problemas ou enunciados primários e simples das grandes
ciata maiora da filosofia, em coincidência harmoniosa com questões humanas que a experiência natural sensível e a
as verdades cristãs. inteligência de cada homem manifestam com certeza,- sem
ulterior reflexão,300 e as soluções que ao especular sobre
A filosofia perene não corresponde, não tem equivalen- ditos problemas ou verdades formula o pensador na inten-
te adequado, a nenhum sistema isolado. Os sistemas filosó-
ficos considerados como explicações totais da universalidade
do ser, sem lacunas nem resíduos, são o apanágio da filosofia 298. Luiz Cencillo, Experiência profunda dei ser, Biblioteca
Hispânica de Filosofia, Madrid. Gredos, 1959. p. 32.
moderna; eles surgem e proliferam nas correntes da filoso- 299. Del Prado, op. cit., p. 196.
fia imanentista e subjetivista. O pensador isola-se, faz de 300. Surpreende a irreflexiva afirmação de Ortega y Gasset,
em sua juventude, "a verdade só pode existir sob a figura de um
sistema", Obras completas, Madrid, 1950, t. I, p. 430-440 e p. 114,
afirmação que Maeztu então refutou (cfr. Eugênio Vegas Latapie,
297. Ciência espanola, Edic. Nacional, 1963, I, p. 307. Semblanza de Ramiro de Maeztu, ap. Verbo 173, 1979, p. 308-9).

Í98 199
ção de explicá-los e que originam o pluralismo filosófico com
suas seqüelas de antinomias, paralogismos e contradições;
essa distinção de planos faz possível, como quer Mindãn,
manter "o valor absoluto das verdades, mesmo admitindo
a diversidade das filosofias".301
•Parece-me, pois, ser perfeitamente aceitável falar de
perenidade do tomismo, do platonismo, etc, como faz Mons.
Derisi.302 Porém não é igualmente aceitável dizer filosofia
PERENE, pois esta denominação é tão só algo convencional
e cômodo para designá-la quando com ela queremos, unica-
mente, significar "aqueles grandes temas da filosofia cris-
tã",303 comuns a todos os sistemas mais importantes, mesmo
sabendo-se que entre eles reinam oposições totalmente incon-
ciliáveis.
Os escolásticos medievais estudaram as questões filosófi-
cas, ora em forma de comentários a obras antigas, ora em fun-
ção da exposição de matérias teológicas, sem que nunca lhes
ocorresse escrever um tratado sistemático de âmbito completo
da filosofia. Assim, eles aproveitaram quantos elementos acha-
vam aceitáveis ao seu fim, "rara vez o ninguna, frisa Cen-
cillo,304 se encuentra en estos autores excluída por razones
sistemáticas alguna orientación o sugerencia valiosa em si!
Es Ia suya una filosofia internacional e intemporal, en Ia
que se vive y se respira Ia historia con una flexibilidad y un
espíritu acogedor que nunca se ha vuelto a repetir".
Suárez inaugura, com sua grande Metafísica, os tratados
filosóficos em que se intenta já dar uma contextura sistemá-
tica a toda a filosofia, por isso, seu labor, em vez de se
concentrar na adaptação e acomodação de elementos, vindos
das mais diversas fontes doutrinárias, consistirá no exame

301. Manuel Mindán, Filosofia y Verdad, ap. Actas do 1 Congr.


Nac. de Fil., Braga, 1955, p. 63.
302. Octavio N. Derisi. Sto. Tomás y Ia Filosofia actual, Buenos
FRANCISCO SUAREZ Aires, 1975, p. 19 y s.
O maior sistematisador da 303. Alois Dempf, Chriatiiche Philosophie, Bonn, 1938, p. 14.
metafísica da filosofia perene 304. Op. cit., p. 33.
200 201
crítico e no expurgo ou exclusão de muitos materiais que a doutrina em si, considerada objetivamente, e o esquema
verificava incompatíveis com sua construção sistemática. ou estrutura sistemática em que se trata de encaixá-la, ou
Este expurgo, ou diríamos, limpeza de elementos estra- com que se intenta explicá-la.
nhos, com freqüência incompatíveis com as linhas mestras Exemplifiquemos: sem dúvida, pertence ao patrimônio
de uma philosophia perennis será levado ao máximo rigor e de toda filosofia humana, digna deste nome, a admissão da
com incomparável e jamais igualada competência e força existência do indivíduo subsistente e incomunicável e, entre-
lógica por Amor Ruibal.305 tanto, ninguém se atreveria a afirmar que a explicação do
modo como se constituiu a individualidade, o chamado prin-
Claro está que a sistematização escolástica pouco tem
cípio de individualização aristotélico-tomista, seja uma verda-
a ver com o construtivismo e espírito sistemático dos mo-
de indiscutível do espírito humano.
dernos, tão eficazmente fustigado por N. Hartmann.306 A
elaboração suareziana é aberta. Ela veio desenvolvendo-se Uma coisa é admitir, contra o dualismo ontológico pan-
durante toda a Idade Média e continuou nos pósteros, per- teísta de Aristóteles, o dualismo criacionista cristão; e, outra
filando e ampliando sempre mais suas linhas. bem diferente, é sustentar que, para explicar a participação
criada e manter a essencial, radical e irredutível distância do
Deixando, pois, de lado a impossível equiparação de
Criador à criatura, seja preciso admitir com o tomismo a
nenhum sistema imenentista dos modernos com a filosofia
composição real de ato e potência ou de essência e existência
perene, repito que, nem tampouco corresponde ela integral-
nas criaturas em vez de sustentar com Suárez, que todo ato
mente a nenhuma das correntes do escolasticismo medieval,
existente, fora do Ser Divino, é limitado e finito, intrinseca-
nem eqüivale à filosofia tomista como pretendem alguns
mente, pela sua própria natureza, como participada que é
neo-escolásticos.
do Ser por essência. Como tampouco é necessário recorrer ao
Não é que neguemos as muitas coincidências do esco- hilemorfismo para explicar a composição e multiplicação nu-
lasticismo com o que entendemos comumente por filosofia mérica dos seres corpóreos.
perene. Não, essas coincidências entre o escolasticismo ou
É doutrina comumente aceita por todas as escolas rea-
sua mais perfeita expressão, o tomismo, e a filosofia perene
listas e que, por conseguinte, podemos incluir no acervo da
são evidentes e inegáveis.
filosofia perene a objetividade ou seja a correspondência do
O que sim, negamos, é que possa tomar-se como expres- objeto com o sujeito cognoscitivo; entretanto, que essa rela-
são exata da doutrina de uma escola ou pensador, v.g., do ção de correspondência se origine com a interposição do
tomismo, toda a construção sistemática arquitetada para ex- chamado, pela Escola, entendimento agente e as espécies
plicar as doutrinas. Torna-se indispensável distinguir entre impressas, é discutível e dista muito de ser uma verdade
básica da filosofia.
305. Em suas obras principais: Problemas fundamentales de Queremos com estes esclarecimentos pôr de manifesto
Ia Filologia comparada, 2 vis. e Problemas fundamentales de Ia-Filo- que o núcleo de verdades, patrimônio comum do gênero hu-
sofia y dei Dogma, 6 vis. publicados pelo autor e outros 4 póstumos. mano, que denominamos filosofia perene, não está condicio-
Os seis primeiros estão consagrados ao exame crítico-histórico de
quase toda a problemática da filosofia perene; nos quatro póstumos nado a particulares e limitadíssimas estruturas sistemáticas.
vêm expostas as teorias do autor.
306. Vide: Francisco Romero, Filosofia contemporânea,, 3. a ed.,
Eis, pois, a nosso ver, a melhor maneira de atender o
Buenos Aires, 1953, p. 9-24. verdadeiro sentido da expressão filosofia perene, e sua ínti-

202 203
ma e evidente relação com a filosofia cristã; pois se o cris- Podemos concluir, pois, que, no sentido histórico indi-
tianismo é autônomo e independente de toda organização cado a filosofia perene contém mesmo um núcleo importan-
filosófica sistemática; se, por conseguinte, a chamada filosofia tíssimo de verdades racionais, que são também por sua vez,
cristã, não acha seu equivalente adequado no agostinismo, verdades cristãs.
nem no tomismo, nem em nenhuma outra forma de escolas-
ticismo; dessa filosofia cristã, ficaremos, apenas, com seus 5. PRINCÍPIOS PRIMÁRIOS DO CONHECIMENTO
grandes e vitais pensamentos e orientações, sem a ganga de EM ARISTÓTELES E EM SÃO TOMÁS.
sistema nenhum, sempre discutível.
Breve mirada retrospectiva esclarecerá o ponto aonde
É, assim, que poderemos captar a maravilhosa coinci- queremos chegar.
dência e harmonia que reina entre as pronunciata maiora
da filosofia perene e as verdades cristãs que mais particular- Aristóteles estabelece que todo o saber por demonstra-
mente se referem e afetam as condições da vida humana. ção deve partir de "princípios verdadeiros, primários, ime-
diatos, mais notórios que a conclusão e que em relação a
Acho que nas discussões sobre a legitimidade e signifi- esta sejam como a causa para o efeito";307 tais princípios são
cação da filosofia cristã, entra certa dose de bizantinismo ou simples e de imediata evidência. Para o Estagirita é axiomáti-
de equívoco por não se delimitar precisamente, com exação, co que todos os conhecimentos adquiridos racionalmente deri-
o sentido das palavras. É claro que se a palavra filosofia for vam de outros conhecimentos anteriores —
tomada no sentido formal, isto é, como ciência ou especula- .308 Com as palavras citadas começa sua
ção puramente racional sobre as realidades todas do universo, obra Analíticos posteriores e prosseguindo em seu pensa-
não pode existir a filosofia cristã, como analogamente não mento afirma mais adiante,309 como coisa indubitável, que
pode existir filosofia alemã, francesa ou brasileira. em nossa função cognoscitiva, ao lado do saber científico,
Se, porém, nos trasladarmos aos domínios da história e existe sua fonte originária, constituída por essas verdades
considerarmos os elementos que entram na filosofia, os moti- primárias.
vos e causas que influíram no seu desenvolvimento, a assi- Este conceito dos primeiros princípios simples e inde-
milação de problemas e soluções que provocados, suscitados monstráveis, ponto de partida do conhecimento racional, fá-
ou vindos de qualquer procedência, a razão humana tomou -lo seu São Tomás e transmite-o ao escolasticismo: "Existem,
como objeto de sua especulação, os converteu em substância diz, naturalmente em nosso entendimento certos princípios
própria e com eles dilatou, perfilou e firmou mais solida- simples, evidentes para todos — omnibus noti.510 Esses prin-
mente sua segurança nas matérias que lhe são próprias; neste cípios são primae concepciones intellectus511 e seguindo ao
caso, é absolutamente inegável a existência de uma filosofia Estagirita declara que os termos com que esses conceitos se
profundamente influenciada pelo cristianismo, ou melhor, expressam são a todos per se noti.512
pode-se afirmar que depois de Cristo a filosofia toda sofreu
em suas orientações e soluções uma transformação tão pro- 307. Post. Anal. 71b, 21-24.
funda, que a própria filosofia moderna, tão divorciada que 308. Ibid. 71a.
se acha da medieval, no que de mais positivo encerra é de- 309. Ibid., 72b, 24.
310. S. Thomas, Quodlibeto VHI, 92a., 2.
rivação dalgumas instituições cristãs desgalhadas do seu com- 311. De veritate, 9, 11 a. 1.
plexo orgânico. 312. In Post. Anca. L. I, lectio V. 7; (na edição Leonina, I. p.
158).
204
205
Mas ao lado desses primeiros conceitos simples, todos somente simples noções.316 Elas "constituem a base de todo
eles analíticos, dão-se outros primeiros princípios complexos humano discurso",317 e o filósofo há de reflexionar e ela-
judicativos, não tão evidentes, que constituem o princípio e borar suas concepções assimilando essas noções de natureza
o fundamento de toda atuação racional e científica.313 e convertendo-as em noções da pessoa humana. As verdades
O exposto é doutrina comum aristotético-escolástica, que primeiras "por seu caráter de necessidade, universalidade e
sintetizamos no seguinte enunciado: Há em nós, naturalmen- evidência em relação às demais, nós as denominamos prin-
te, numa fase pré-filosófica, conceitos primários, simples, cípios em cuja constituição entram as noções"?18
evidentes, sobre os quais atua o dinamismo próprio da inte- Munoz Delgado, no mais agudo e penetrante trabalho
ligência, para toda ulterior construção científica.
de quantos se hão escrito sobre o genial filósofo composte-
Isto nos leva como pela mão a fazer referência aos prin- lano, dá-nos, à maneira de princípios, algumas conclusões
cípios e verdades primárias que Amor Ruibal, embora em da doutrina do Mestre que se coadunam perfeitamente com
contexto totalmente diferente, expõe como preliminar de sua nosso próprio pensamento sobre o assunto. "Na história da
construção filosófica. filosofia temos de distinguir cuidadosamente o conhecer de
natureza, comum a toda a humanidade e o conhecer pessoal
6. CONHECIMENTO DE NATUREZA E de elaboração, que deve apoiar-se sempre sobre o de natu-
CONHECIMENTO DE PESSOA EM AMOR RUIBAL. reza sem jamais negá-la ou deformá-la". E adverte em outra
conclusão: "Todo sistema deve tomar como ponto de par-
Duas são as fontes gerais e originárias de todo o conhe- tida a zona nocional e nunca deverá confundi-la com as ela-
cer humano: o conhecimento de natureza e o conhecimento borações construídas sobre essa fase, nem muito menos con-
de indivíduo. tradizê-la, negá-la ou deformá-la".319
"O modo de conhecer por natureza, ou seja por relati- Pois bem, no conhecimento pessoal que sobre a base
vidade primária do sujeito e do objeto, é absoluto e comum nocional se elabora, está incluída a variedade infinita de
a todos os seres cognoscentes de igual categoria".314 Este escolas e sistemas que divergem totó coelo em suas ideolo-
modo de conhecer subministra o material e precede sempre gias, e que de modo algum podem constituir a filosofia
ao conhecer individual. "Como indivíduo entra o homem perene.
no exercício da atividade própria, sobre a base da natu-
316. Op. cit. VIII, n.° 333, p. 228. A noção em Amor Ruibal
reza".315 é elemento básico de toda construção filosófica. Importa uma nova
concepção da estrutura do universo e do cognoscente e uma nova
O conhecimento de natureza "nos dá os fatores primá- atitute filosófica: "talvez, diz Ferro Couselo, das mais radicais desde
rios do sujeito, do objeto e da distinção entre objeto e su- os grandes sistemas filosóficos gregos". Noción y idea según Amor
jeito". Porém, esses fundamentos não são idéias, são tão Ruibal, ap. A. Amor Ruibal en Ia actualidad (X sem. Esp. de Fil.),
Madrid, C. S. J. C, 1973, p. 99. Ver também ampla explanação em
J. L. Rojo Seijas, Diephilosophischen Notionem bei dem spanischen
Philosophen Angel Amor Ruibal (1869-1930), Münster, 1972, prin-
cipalmente as páginas 11-12, 85-94.
313. De vert. q. 11, a, 1, Cfr. Ricardo Marimon, El concepto
dei ser . . . ap. Estúdios Filosóficos, XXVII, 1978, p. 127-135. 317. Op. cit., IX, n." 3, p. 5.
314. Angel Amor Ruibal, Problemas fundamentales de Ia Filo- 318. Ibid., IX, n.° 4-5, p. 6.
sofia y dei Dogma, Santiago, 1934, VIII, n.° 332, p. 227. 319. Vicente Munoz Delgado, Interpretación amor-ruibalista de
315. Op. cit. VIII, n.° 327, p, 225. Ia historia de Ia filosofia, ap. Estúdios, Madrid, XXV, 1969, p. 44
y 49.
206
207
7. ASPECTOS NEGATIVOS DAS FILOSOFIAS dos povos. O reativo vermelho, ao contato com a situação
DA HORA. caótica reinante provoca e "presta dimensiones apocalípti-
cas, por nuestro atroz desvalimiento moral, ai atentado co-
A confusão ora reinante, assim no mundo do pensa- munista".320
mento como também na esfera política e social, prende-se,
Ortega y Gasset reconhecia paladinamente, em 1949,
substancialmente, ao abandono pela filosofia moderna do
que na Europa — diga-se, no Ocidente — "faltam princípios
complexo doutrinário representado pela filosofia perene.
de convivência que sean vigentes y a que quepa recurrir".321
Com efeito, as filosofias da hora rejeitaram, geralmente, São os próprios adeptos das filosofias da hora os que se
suas relações de fraternidade com a filosofia cristã e se ne- sentem cada vez mais descrentes da razão humana e que, pe-
garam a aceitá-la mesmo como norma negativa. Com que rante a insegurança e diversidade de opiniões contraditórias,
resultados? fazem surgir no seio dos povos angustiosas indagações: "para
O mundo atravessa, hoje, uma crise profunda e univer- onde nos conduz a filosofia?" 322
1
sal. Leva em seu seio elementos heterogêneos e opostos, que De tal modo a confusão reina e os costumes se corrom-
determinam em suas entranhas grandes movimentos de fer- pem, que o Cristianismo enfrenta, hoje, um mundo que, ainda
mentação, movimentos que se revelam ao exterior por amea- com a melhor boa vontade, dificilmente, diz um historiador
çadores sintomas e convulsões terríveis. Ao lado do princípio contemporâneo, "se pode mais denominar cristão".323
cristão e dos elementos evangélicos que lhe dão força e vida,
Não temos por que nos surpreender perante estas con-
mas que são agora quase esquecidos, descobrem-se nele idéias
seqüências pois elas se contêm na mesma lógica interna das
materialistas, organizações formidáveis propulsoras do ateís-
filosofias da hora em seu conjunto. Todas elas seguem, mais
mo, rebelião completa da ciência e dos homens contra Deus,
ou menos de perto, o subjetivismo e relativismo kantiano
ao qual pretende-se jogar fora do mundo e da sociedade.
que constitui o viveiro quase único do pensamento indepen-
No espaço de uma só geração duas grandes conflagra- dente. Se, pois, o kantismo cai, ruem com ele pela base as
ções assolaram nosso mundo e agora o espectro do materia- filosofias da hora. E de fato a filosofia de Kant é falsa e
lismo ateu, negador de todos os valores da civilização oci- contraditória. Com efeito, o kantismo — como aliás, todas
dental, ameaça mergulhar o mundo em sangue humano e as doutrinas subjetivistas, adoece de flagrante contradição
reduzir a humanidade a formas de escravidão tão cruéis inicial que de tudo o invalida. Por que, se para Kant o pro-
como ainda não conheceu a história. blema do saber é o de achar verdades de valor universal e
Não se pense, sem embargo, que é o comunismo o necessário, como poderemos achá-las nas formas a priori que
causante das grandes perturbações e da situação caótica do necessariamente hão de ser subjetivas e, portanto, contingen-
mundo; antes ele é sintoma, ou se se quiser, revulsivo, de
uma sociedade que perdeu toda convicção e toda fé nos gran- 320. J. Corts Grau, Estúdios filosóficos y literários, Biblioteca
des valores humanos; que conduzida pelo magistério das dei Pensamiento actual, Madrid, Rialp, 1945, p. 22.
filosofias dominantes levou ao extremo o relativismo sola- 321. Meditación de Europa, p. 100.
322. Whither philosophy is now leading us? Albert E. Avey,
pando, deste modo, os fundamentos do estado, da família, da Whiter Philosophy?, Perspectives in Philosophy, ed. by The Ohio S.
religião e de toda sociedade. As guerras e o comunismo não University, 1953, p. 20.
foram causa, senão efeito da prévia ruína- moral e religiosa 323. Wilhelm Schubart, Christentum und Abendland, Munique,
1947, p. 395.

208 209
tes e mutáveis? Ou essas formas têm um valor puramente
subjetivo, sem que jamais se possa delas pedir que funda- nos fala nos começos da Crítica da razão pura, maior é sem
mentem uma ciência que transcenda também o sujeito que dúvida o que hoje sente a maioria dos pensadores à vista
as concebe, tornando-se assim ineficazes para estabelecer as da anarquia total que reina entre as filosofias da hora.
bases de uma construção científica com valor universal; ou É um fato que as atitudes dos indivíduos e dos povos
essas formas se pretende que sejam comuns a toda a huma- são dirigidas pelas idéias que os dominam, ou, como diz
nidade e nesse caso fica negada e aniquilada a mesma base Ortega, pelas idéias em vigência; e por isso "o mundo sofre,
crítica do kantismo por que havendo afirmado que das coi- dizia Renouvier, por falta de fé numa verdade transcendente".
sas em si nada pode dizer-nos o entendimento, pois a ativi- Porque as outras verdades, as relativas, as que as filosofias
dade deste só tem valor na ordem fenomênica; vem logo a na moda apresentam, são de uma "insuficiência radical"
admitir a existência do nóumeno, alma humana e da humani- para resolver os problemas do mundo desquiciado em que
dade composta de outros muitos espíritos idênticos, e tudo vivemos.324
isto pressupõe também o conhecimento da natureza desses
A recuperação moral do mundo, o retorno à ordem
espíritos, cujo conteúdo cognoscitivo manifesta possuir.
espiritual tornaram-se, hoje, condições essenciais da sobre-
Mais ainda; a afirmação dessas formas no espírito hu- vivência humana, porém, como observa Dawson, somente
mano só se concebe introduzindo sub-repticiamente, e admi- poderão levar-se a cabo "com uma profunda mudança no
tindo a perfeita validade objetiva do princípio de causalidade, espírito da civilização moderna".325
que depois negará, ou melhor, reduzirá a simples forma do
Jaspers não acha que nem com a guerra tenha mudado
entendimento. Esta admissão implícita do princípio de con-
tradição é evidente por que senão, de que modo sabe Kant o espírito da civilização moderna. A conflagração passou,
que também nos seus semelhantes há as mesmas formas a os aliados, após tremendos sacrifícios, venceram aos ditado-
priori, se não é pela inferência de que neles se dão os mes- res. E depois? "Aquilo nos parece só um episódio e a si-
mos fenômenos psíquico-gnoseológicos? A identidade dos tuação do mundo, em conjunto, parece hoje pior do que
•efeitos postula a identidade da causa; ontem".326 Exato.
Por sua parte, Spranger não se sente menos pessimista
Por onde aparece que o criticismp kantiano que ab ovo
contemplando a triste situação de uma cultura como a atual
queria examinar o conhecimento, começa por um manifesto,
inelutável e gratuito dogmatismo. em que a ética foi praticamente eliminada: "Uma cultura sem
ética não tem sentido e é incapaz de trazer a felicidade . . .
Isto mesmo já acontecera com o cartesianismo que, tam- O atual progresso ilimitado é, no fundo, um progresso sem
bém, começou por uma completa assepsia de supostos e deu rumo".327
entrada logo sub-repticiamente a tantos elementos que fazem
dele o protótipo dos sistemas dogmáticos.
Como é lógico, a falsidade não pode satisfazer e con- 324. A. González Álvarez, Hist. de Ia fil., cit., p. 121.
325. Christopher Dawson, Religion and Culture, Londres, Sheed
tentar o entendimento, daí o perpétuo desassossego das filo- and Ward, 1948, p. 218.
sofias post-kantianas- Se Kant, em presença da confusão e 326. Karl Jaspers, Wo stehen wir heutet Hrsg. H. Walter Bahr,
ruínas ocasionadas no mundo do pensamento pelo demolidor Gütersloh, 1960, p. 35.
327. Eduard Spranger, Leben wir in einer Kulturkrisis, na pu-
relativismo de Hume, sentiu aquele "tédio de pensar" de que blicação coletiva antes citada: Wo stehen wir heutel, Gütersloh,
1960, p. 17.
210
211
Muito embora Jaspers e Spranger tenham os olhos vol- em determinados tempos ou lugares lograram refletir o espí-
tados para a situação alemã, o fenômeno não é puramente rito da época em novas formas e nova problemática, sem-
germânico; de todos os quadrantes do globo se fazem ouvir pre dentro, porém, dos grandes princípios racionais. A ex-
vozes e clamores semelhantes. pressão filosofia perene é aceitável "sempre que — observa
O mundo não se concertou e enquanto os filósofos con- atinadamente Zaragüeta — se reconheça a esta perenidade
tinuam acrescentando negação a negação, sem a menor con- a condição histórica de achar-se em cada época como sus-
sideração pelos valores mais sagrados, os povos, ainda cres- pensa de um núcleo de preocupações específicas que cons-
cendo em riquezas e instrumentos de bem-estar, vivem cada tituem seu centro de gravidade".330
vez mais infelizes, mais desassossegados, mais desesperados, Sem esquecer, pois, essa restrição, podemos admitir co-
pois de seus corações foi banida toda esperança. "Nada que- mo certo que a Idade Média ou, digamos, a grande escolás-
da por negar", dizia D. Esteban Bilbao, aos assistentes ao tica do século XIII, refletiu perfeitamente aquele núcleo de
Congresso Internacional de Filosofia de Barcelona. Por isso, verdades que constituíram a parte mais viva e permanente
talvez, não coube nunca aos filósofos missão mais elevada da filosofia platônico-aristotélica, informadas ainda pela
da que,, hoje, se se consagrarem a restaurar os ditames mensagem cristã. Só assim entendida a filosofia medieval se
da perene filosofia.328 Esta, vivificada pela luz da filosofia justifica a alternativa de Olgiati: "O scolastica dei secolo
do Cristianismo, poderá, sem dúvida, dar muitos dias de paz XIII, o filosofia dei secolo XX".331
e progresso para o bem da humanidade.
É na filosofia perene que, informada pelo Cristianismo,
Entretanto, convençamo-nos de uma vez por todas, que deu estabilidade e paz a passadas centúrias, onde nós acha-
nem o apriorismo kantiano; nem a vontade cega de Scho- remos, também, os fundamentos para restauração duma ordem
penhauer, ou o super-homem de Nietzsche; nem a libido de mais tranqüila e mais humana que a que nos tocou viver.
Freud ou o elan vital de Bergson, serão eficazes para resti-
tuir ao homem moderno a paz e satisfação por que anseia. A filosofia é, essencialmente, uma resposta ao problema
Isto explica que até nos Estados Unidos, atualmente o país da vida. O homem ocupa o lugar central na órbita da cria-
da prosperidade, se sinta insatisfação e "desiludidos^ do ção. Ele, porém, depende intrinsecamente em seu ser de
mundo atual, os homens voltem seus olhares para a Idade Deus criador, e d'Ele também depende como ser moral.
Média".329 Não é o homem, apenas, um ser físico; o elemento físico
Que outra coisa é este olhar para a Idade Média, senão é nele a envoltura corporal de uma alma com destino eterno.
procurar os valores contidos na filosofia perene, que, então, Neste destino não está só; sendo criatura e filho de Deus
tiveram plena vigência? Em páginas anteriores fizemos no- com os demais homens, tem com eles uma comunidade de
tar que a noção de filosofia perene não podíamos enclau- destino.
surá-la, apenas, na filosofia medieval. A filosofia perene há A noção de destino é algo essencial para a ordenação
de abarcar, sem dúvida, quaisquer outros pensamentos que da vida humana; privado do seu destino, o homem desinte-
gra-se, dissolve-se numa pluralidade de atos, fica apenas co-
328. Actas dei Congresso Internacional de Filosofia, de Barce- 330. J. Zaragüeta, Perspectiva actual para una filosofia crítica,
lona, Octubre de 1948, Madrid, C. S. I. C, 1949, vol. III, p. 363, Madrid, 1934, p. 2.
329. F. S. C. Northrop, The meeting of East and West, New 331. Apud M. F. Sciacca, 11 secolo XX, Milão, Fr. Bocca,
York, Macmillan, 1949, p. 255.
1947, vol. II, p. 557.

212 213
mo "ser para a morte", na angustiada expressão do existen-
cialismo heideggeriano.
O destino, a consciência de sentir-se espiritual e imor-
tal, ordenado a outra existência mais valiosa, reduz à unidade
todos os atos humanos integrando-os numa síntese superior.
É esta idéia que penetra e sustenta ao homem cristão, e é
graças a esta consciência do destino que tinge de sentido
humano e valoriza até os atos mais humildes; e deles faz
atos humanos e meritórios de altíssimo valor. Pelo contrá-
rio, quando o homem não ajusta sua vida à moral, afasta-se
de seu destino eterno e desaparece aquela ordenação dos
seus atos que orientam sua vida.
Perdida a unidade de referência, que só o destino dá,
e que unifica os atos do homem, este se desumaniza, se
desmoraliza, e esta situação repercute gravemente em suas
atitudes para com seus semelhantes.
Mas a imortalidade e o destino do homem só são com-
preensíveis dentro da doutrina que, acerca de Deus, trouxe
a mensagem cristã.
Os antigos filósofos não lograram um conceito claro de
um Deus pessoal, transcendente e criador. Isto é legado do
Cristianismo que à idéia de Deus criador acresce a da Pro-
vidência — em sentido mui diferente dos estóicos — e ainda
ensina que Ele se identifica com o amor. Idéias luminosas
que esclarecem toda a vida humana.
Ao patrimônio da filosofia perene pertencem — além
das verdades de tão profundo conteúdo religioso, como as
antes indicadas — outras várias comumente admitidas: o
valor objetivo do conhecimento humano; os princípios me-
tafísicos, como o de razão suficiente, causalidade e finali-
dade; que podemos alcançar verdades certas e imutáveis;
dependência radical do ser humano respeito ao Ser de Deus;
espiritualidade e imortalidade da alma humana. Sobretudo
são verdades na tradição filosófica perene as que seguem, de
SANTO TOMAS DE AQUINO
Teólogo, filósofo genial, altíssimo valor na direção da vida humana: a origem natu-
sistematisador incomparável da filosofia perene ral e, por conseguinte, divina, da ética, do direito e do poder

214 215
do estado, que se acham dependentes de princípios imutá- necessário que sejam verdadeiras por si mesmas, senão que,
veis e eternos e a salvo, por conseguinte, do relativismo, também, nos demos conta de que necessariamente são ver-
aniquilador de valores. dadeiras",333 e que, portanto, ninguém pode negá-las. Donat
e outros, em vista de que estas verdades e princípios são
8. CONCLUSÕES. naturais e evidentes, optam por chamá-los "filosofia das
verdades naturais",334 sem referi-la a nenhum sistema deter-
Em face de todo o exposto nestas páginas, gostaríamos minado.
de formular as seguintes conclusões:
e) Enfim, posto que a expressão filosofia perene acha-
a) Parece-nos exageradamente radical e, portanto, ina- se muito generalizada e que seu uso é tão cômodo para de-
ceitável, a opinião de Croce que, à pergunta "Ç'è una filo- signar aquele núcleo de verdades primárias, patrimônio do
sofia perenne?, responde: "non c'è perché Ia filosofia è Ia gênero humano em sua fase prefilosófica — verdades que
storia delia filosofia",332 pois, se ocorresse tal identificação, uma ulterior especulação desenvolve em várias e contraditó-
a filosofia perene tomaria o lugar de toda filosofia passada rias direções, distantes portanto, de toda perenidade — pa-
e futura, invalidando-as todas. rece convincente manter-lhe o uso: mas, ao designá-la como
b) Não é menos inexato atribuir essa denominação a filosofia, não se há de fazê-lo acentuando, nessa acepção,
uma filosofia determinada, qualquer que seja, pois ainda não a conotação especulativo-sistemática que a palavra filosofia
se excogitou um sistema que contenha a verdade integral de inclui. Ou seja, chamaremos filosofia perene ao conjunto
todo o pensar filosófico, sem apresentar graves objeções e de verdades de natureza, prévias ao discurso filosófico, que
mesmo contradições em seu desenvolvimento. constituem o princípio germinal e o núcleo sobre o qual se
desenrola todo o filosofar.
c) Tampouco é aceitável designar como filosofia pe-
rene qualquer forma de velado sincretismo que, tomando Não é nosso objeto expor com amplidão um esquema
elementos dos sistemas mais significativos na história, pre- da filosofia perene, e por isso damos fim a este resumo
tende oferecer-nos a ficção de uma filosofia coerente, de va- expositivo.
lidade universal e perene. Vãos foram, como é notório, os O fim a que nos propusemos foi demonstrar a radical
esforços de alguns renascentistas italianos e de Fox Morcillo insuficiência das filosofias da hora, para ordenarem a vida
para fazer concordar Platão com Aristóteles. Amor Ruibal humana, ei a eficácia da philosophia perennis, para a re-
mostra até à evidência a absoluta incompatibilidade de mui- construção do mundo sobre bases sólidas.
tos elementos justapostos nas grandes construções cristãs de
filosofia, com repercussões também na esfera teológica.
d) A rigor, a função da Filosofia perene há de limi-
tar-se a selecionar algumas verdades e doutrinas das mais
básicas da humanidade. Aquelas que todo homem descobre
com a luz natural do entendimento e que "não somente é

333. S. Thomas, In I post. Anal. lectio 49, ed. Leonina, I,


. 332. Benedetto Croce, Discorsi di varia filosofia, Bari, 1945, p. 213.
II, p. 257. 334. I. Donat, Lógica, Insbrück, 1931, p. 25.
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Alexandria, Clemente de, 37, 187 Blondel, M., 193
Alonso, J. Ma., 152 Boas, G. 90
Alonso-Fueyo, Sabino, 139-144 Boaventura, São, 196
Amerio, Franco, 60,97 Bochenski, LM., 126,138,156,161
Amor Ruibal, A., 9,10-13,33,34, Bogliolo, L., 177
37,42,58, Relatividade do co- Bollnow, 165
nhecimento, 65 e 84; 97,98, Bolzano, 67
Crítica do Pragmatismo, 100- Bosanquet, Bernard, 55
101; 196,202,206,207,216 Bradley, Francis H., 55,57,173
Anselmo, São, 36,37,196 Brentano, F., 28
Anders, Günther, 127 Breton, E., 46
Aristóteles, 26,27,36,131,140,181, Brigtmann, Edgard S., 22
184,185,187,189,203,205,216 Brito, R. Farias, 27,28,122,123,
Arnáiz M. y B. Alcalde, 67, 127 170
Arnaldich, Luis, 76 Büchner, 28,173
Aster, Èrnst von, 52 Burckardt, L, 80
Avenarius, 28
Avey, A.E., 209 Caird, Hohn, 55
Carpio, A.P., 39
Bacon, Francisco, 27 Carr, E.H., 23
Bacon, Rogério, 196 Carrel, A., 171
Belloc, Hilário, 121 Carreras Artau, J., 54
Balliolo, L. 195 Cassirer, E., 52
Balmes, 30,31,37,64,135,196 Cathrein, Victor, 113
Baumann, Julius, 46 Cencillo, L., 199

224
Cenal, Ramón, 163 ESCOLA DE GALLARATE, 40 Hemholtz, 52 Leão XIII, 190,196
CETICISMO, 87 Escoto, D., 196 Hessen, Johannes, 46,53,123,131, Le Bon, Gustavo, 24
Cicala, Bernardino, 109 ESTADOS UNIDOS DA AMÉ- 161-162,196 Le Dantec, 28
Cícero, 26,27 RICA DO NORTE, 54-57 Hirschberger, J., 192 Lefèbre, Luc J., 154-157
Cohen, Hermann, 52,53 ESTÚDIOS, 43,52,117 Hõffding, Harold, 41 Legaz y Lacambra, 142
Comte, A., 73,88 Ettlinger, Max, 45 HUMANI GENERIS, ene, 76, Leibniz, 11,37,72,179,184,192
Conde, Herminio, 118 Eucken, Rodolfo, 16,169 77,107,116-117, 125, 184 Leoni, Raul de, 175
CORRELATIVISMO, 52,65 Euclides, 88 Hugo, Gustavo, 110 Lessa, Pedro, 109
Corts y Grau, J., 186,209 Evans, D. Luther, 57 Hume, D., 66,69,70,90,210 Lessing, Th., 78
Cousin, Victor, 43 EVOLUÇÃO ANTROPOLÓGI- Husserl, Edmundo, 28,67,68,140, Leuba, J.H., 94
Creigton, James, E., 55,56 CA, 74 154,163,166 Liebmann, Otto, 52
Croce, B., 29,140,216 EVOLUCIONISMO, 76 Huxley, J., 28,158 Lipps, Teodoro, 67
CULTURA, 139 Locke, John, 90
Cunningham, G. Wats, 55 Fabro, Cornelio, 119,147,148 IDEALISMO ANGLO-AMERI- LOGICISMO, 69
Cusa, N. de, 196 Fauve, L, 91 CANO, 54-57 Lovejoy, A.O., 90
Fechner, G.T., 45 INGLATERRA, 54-57 Lúlio, Raimundo, 196
Darwin, 73,93 Ferrater Mora, L, 39,40,42,43, Iriarte, Joaquin, 195 Luno Pena, E., 110,111,112,186
Dassance, D.T., 158 108 Iturrioz, José, 107 Lutero, Martin, 172,173
Dávila, L, 189 Ferri, 173
Dawson, Chr., 211 Ferro Couselo, 207 Jacoby, G., 82 Llovera, José Ma., 74
Delgado Varela, J. Ma., 51,52,54 Fichte, 41,51,86,173 James, Henry, 93-94
Dempf, Alois, 42,201 Ficino, Marcilio, 182 James, William, 23,82,89-103 Mach, E., 28,173
Del Prado, Norberto, 195,199 Flournoy, T., 99 Janet, Paul, 179 Maeterling, M., 121
Denzinger, 126 Forest, A., 158 Jaspers, Karl, 119,125,138,140, MaeztU, Ramiro de, 199
Deploige, Simon, 111 Fox Morcillo, 216 148,164,167,211,212 Magnussen, 145
Derisi, Octavio N., 186,201 Freud, 212 Jerônimo, São, 24 Mandonnet, 193
Descartes, 37,140,156,172,173 Frischeisen-Kõhler, 46 Jerusalém, W., 82 Mareei, G., 119,125,138,140,152,
Deussen, Paul, 29 JÓ, 24 158,159,160
Galindo, Pascual, 77 João Evangelista, São, 176 Marcos, Benjamin, 26
De Wahelens, 163 Garin, Eugênio, 180,182
Dewey, 82,100 JOURNAL OF SPECULATIVE Marías, Julián, 29,43
Gentile, G., 30 PHILOSOPHY, THE, 55 Marimón, Ricardo, 206
Diez Blanco, Alejandro, 29,30, Gerhardt, C.J., 184
172 Jovellanos, Gaspar M. de, 110 Mariún, J., 186,187
Gex, Maurice, 75,102,103 Maritain, Jacobo, 149-154,160,193
DIVUS THOMAS, 187 Glenn, P.J., 192
DIE NEUE RUNDSCHAU, 127 Kant, 33,49-55,69,70,88,132,136, Marx, Karl, 106
Gilson, É., 150,151,195 156, Fenômenos y nóumenos; Mauriac, Fr., 158
Dilthey, G., 167,189 Gonzáíez Álvarez, A., 46,53,211
DOGMATISMUS, 87 173, 209, 210 Mazzantini, C. 185,192
González, Zeferino, 199 Katzenhofer, 173 Medeiros, Maurício de, 118
Donat, Josef, 16,188,217 Gómez Izquierdo, A., 46
Dorea, Gumercindo R., 13 Kierkegaard, Sõren, 119,120,127, Menéndez Pelayo, 0,48,49,192,
Gómez Ledo, A., 42 129,138,140,144,147,148,152,156, 196,198
Dostoiewski, 125 Gómez Moreno, M., 76 160,164,172 Mercier, Card., 193
Green, Thomas, 55 Klimke, Federico, 75 Meyer, Hans, 185
Ebert, H., 180,181 Mindán, M., 190,191
ECCLESIA, 116,117,124,136,137 Haeckel, 71 Külpe, Oswald, 28,67
Kurtz, Paul, 91,102 Mirandola, Pico delia, 182
Eisler, Rudolf, 41,66,106 Heacker, Theodoro, 144-147 Montmort, R., 184
EMPIRISMO RADICAL, 98 Hales, Alexandre de, 196 Kühle, H., 186
Müller, Gustav E., 26,91
ENCICLOPÉDIA ESPASA, 54 Harris, William, T., 55 . Muller, Aloys, 82
Endres, J.A., 190 Hartmann, N., 52,202 Ladusafís, Stanislavs, 10
Lahr, Charles, 72 Munford, L., 171
Erasmo, 180 Hegel, 26,29,51,55,106,129,148,173 Munoz Delgado, Vicente, 207
Erdmann, 67,68,83 Heidegger, M., 29,123,125,126, Lalande, A., 108
Lamarck, 73 Muirheard, J.H., 56,57
ESCOLA HISTÓRICA, 110 127,133,138,156,160,162,163-168,
ESCOLA DE MARBURGO, 40, 172,185 Lange, Fr. A., 51,52
Larivière, 22 Natorp, P., 52,53
52,53,54,173 Heimsoeth, H., 170 Nazianzenos, 37
ESCOLA DE BADEN, 40,52,54 Heinemann, Fritz, 95 Lask, Emilio, 54
Nef, John U., 22,171 Roig Gironella, J., 194 Thibaut, 110 Vernaux, Roger, 196
Nietzsche, 81,107,120,162,212 Rojo Seijas, J.L., 207 Tomás de Aquino, São, 26,37, Viana, F. de, 156
Northrop, F.S.C., 212 Roldán, Alejandro, 61 142,150,152,159,185,193,195, Viço, J. B., 109,110
Romero, Francisco, 202 197,199,205,217 Vigano, M., 186
Rommen, H., 186 Tõnnies, 173 Villanova, Arnaldo de, 196
Ockam, Guilherme de, 196
Rousseau, 121 Toynbee, Amoldo, 78 Vitória, Francisco de, 192
Olgiati, Fr., 184,213
Royce, Josiah, 55,82,91,100 Trismegisto, Hermes, 183 Vives, Luis, 196
Orígenes, 37
Ruggiero, Guido de, 57 Truyol Serra, A., 189,194 Volkelt, 67
d'Ors, Eugênio, 118
Runnes, Dagobert D., 93,106 Tschierpe, R., 79 Vorlander, C. 52
Ortega y Gasset, 29,30,39,100,
141,172,175,199,209,211 Rusinol, 136,137 Tusquets, J., 136
Russel, Bertrand, 55,102 Tyndal, 28,173 Wetzer und Welte, 180
Ortúzar, Martin, 43,117 Willmann, O., 193
Oseas, Profeta, 23 Windelband, Wilhelm, 28,54,60
Ostwald, 173 Sabuco, Miguel, 26 Überweg-Heinze, 46
Salcedo, L., 189 Unamuno, 22,107,121,122,125, Wust, Peter, 161
Ovejero, E., 179
Sánchez Villasenor, J., 105 129,131,132,140,141,170
Sangnier, Marc, 149 Urban, W.M., 190 Xenofonte, 27
Pascal, 159 Sarlo, Francesco de, 26,30 Urdánoz, Teófilo, 172
Paulo Apóstolo, São, 177 Sartre, J. - Paul, 119,125,138,140, Urráburu, J.J., 195 Zamayon, Pelayo, 196
Paulo III, 180,181 148,154-156,159 Usenicnik, A., 185 Zaragüeta, Juan, 13,29,61,80,133,
Paulsen, Friederich, 15,16,52,88 Savigny, 106,110 141,196,213
Pérez Alcocer, A., 102 Sawicki, Franz, 79,189 Vasconcelos, José, 67,68 ZEITSCHRIFT F Ü R PHILOSO-
Perry, R. Barton, 89,99,100 Scheler, Max, 28 Vassalo, Angel, 29 P H I S C H E F O R S C H U N G , 156,
Pfander, A., 68 Schelling, 51,173 Vázquez, Pe. Guilherme, 19 161,165
Pfeil, Hans. 46 Schiller, F.C.S., 82,90,100 Vegas Latapié, Eugênio, 199 Zubiri, Xavier, 117,141,189
PHILOSOPHISCHER JAHRBU- Schopenhauer, A., 25,120
CH, 180,181 Schottenloher, K., 181
Pidal y Mon, Alejandro, 192 Sciacca, Michele, 124,213
Pierce. Charles S., 82, 89-91, 94 Schubart, W., 209
Pio XII, 76,116,124,125,172 Schwartz, b., 193
Pita, E.B., 185,197 Sêneca, 24,27
Pitágoras, 88,133,187 Sentroul, 193
Platão, 140,181,183,185,187,189, Sexto Empírico, 81,82
216 Sócrates, 27, 133,189
Plotino, 187 SOFISTAS, 25
PRAGMATISMO, 82 Soldevilla, F., 110
Protágoras, 66, 82 Spencer, Herbert, 28,71, Evolução
Pucciarelli, E., 71 em S., 73-74; 88,93,173
Puchta, Jorge R., 110 Spengler, Oswaldo, 78-80
Spranger, E., 211,212
Ramírez, Santiago, 194,196,197 Stahl, F.J., 111
Recasens Siches, L., 112 Stammler, Rudolfo, 52
Reinhardt, K.F., 100,132 Steenbergen, 193,197
Renan, Ernesto, 28 Steuco, Agostinho, 11, 179-185
Rénouvier, 211 Stirling, James H., 55
Rensi, G., 61 Strauss, 28
REVISTA DE OCCIDENTE, 43 Stuart Mill, 67,70,71,88 .
Rickert, E., 54 Stumpf, 94
Riefstahl, 156 Suárez, Francisco, 37,85,142,193
Riehl, Alois, 28,46
Riley, W., 55 Tales de Mileto, 86
Rilke, 125 T E M O I G N A G E , 157-161
Risco, Vicente, 80 T H E S U N D A Y TIMES, 119