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IAHR AIIH

XXVII CONGRESO LATINOAMERICANO DE HIDRÁULICA


LIMA, PERÚ, 28 AL 30 DE SETIEMBREDE 2016

LABORATÓRIO DE IMAGENS PARA JATOS CAVITANTES

José Gilberto Dalfré Filho, TaoshengHuang, Andreza Bortoloti F. de Oliveira, Ana I.B. Genovez
Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas (FEC-Unicamp), Brasil
dalfre@fec.unicamp.br, alanhuangtaosheng@gmail.com, andrezabortoloti@gmail.com, abgenovez@gmail.com

RESUMO:
Frente ao cenário atual de escassez de água em diversos países da América Latina, Ásia e
África e da má qualidade da água disponível, um grande desafio é desenvolver tecnologias de
tratamento, garantindo padrões adequados de consumo e de lançamento aos corpos hídricos. Uma
alternativa eficaz para a inativação de bactérias em água é a cavitação. A cavitação é um fenômeno
de vaporização do líquido, quando a pressão do líquido atinge o valor da pressão de vapor, a uma
temperatura. Quando a pressão do líquido aumenta, as bolhas de vapor que foram formadas
implodem. A combinação de altas pressões na implosão das bolhas e da aceleração de reações
químicas propicia a inativação de bactérias. O equipamento tipo jato cavitante foi usado para testar
a inativação da bactéria E. coli em água. Diferentes configurações de bocais e pressões do
equipamento levaram a eficiências de inativação diferentes. Uma forma de analisar o efeito da
combinação destes parâmetros no jato e, por consequência, na inativação, é a partir de imagens
capturadas em alta velocidade. O objetivo deste trabalho foi desenvolver um laboratório de imagens
para permitir a análise da eficiência dos jatos rápidos cavitantes, por imagens capturadas em alta
velocidade.

ABSTRACT:
Considering the current scenario of water shortage in several countries in Latin America,
Asia and Africa and the poor quality of available water, a major challenge is to develop treatment
technologies, ensuring adequate standards of consumption and release to water bodies. An effective
alternative to inactivate bacteria is the cavitation phenomenon. Cavitation is the vaporization of the
liquid, when the liquid pressure reaches the vapor pressure, at a given temperature. When the liquid
pressure increases, vapor bubbles implode. The combination of high pressure in the implosion of
bubbles and the acceleration of chemical reactions provide the inactivation of bacteria. The
cavitating jet apparatus was used to test the inactivation of E. coli in water. Different configurations
of nozzles and pressures led to different inactivation efficiencies. A possibility to analyze the
combined effect of these parameters on the jet formation and, hence, on the inactivation rate is from
capturing images with a high velocity camera. The objective of this study was to develop an
imaging lab to allow the efficiency analysis of rapid cavitating jets, captured by a high velocity
camera.

PALAVRAS CHAVE: cavitação; jato cavitante; inativação de bactérias; análise de imagens;


captura em alta velocidade; estudo experimental.
INTRODUÇÃO

Frente ao cenário atual de escassez de água em diversos países da América Latina, Ásia e
África e da má qualidade da água disponível, um grande desafio é desenvolver tecnologias de
tratamento, garantindo padrões adequados de consumo e de lançamento aos corpos hídricos. Uma
alternativa eficaz para a inativação de bactérias é a cavitação, de acordo com Kalumuck et al.
(2003), Jyoti e Pandit (2001), Balasundaram e Harrison (2006), Abdala Neto (2006), Assis et al.
(2013) e Dalfré Filho et al. (2015a).
A cavitação pode ser definida como a nucleação, crescimento e colapso repentino, violento e
repetido de bolhas em um líquido, que podem se formar quando este é submetido a grandes
diferenças de pressão. As pressões hidrodinâmicas podem alcançar níveis tão baixos que parte do
líquido, ao atingir a sua pressão de vapor, torna-se vapor através da nucleação de bolhas em seu
interior (Varela Jiménez, 2014). A jusante, com o aumento da pressão, ocorre a implosão das
cavidades ou bolhas. A implosão das bolhas gera ondas de alta pressão e micro jatos de altíssima
velocidade (acima de 100 m/s) que tem um grande poder destrutivo e, também, acelera as reações
químicas na água pelo processo de oxidação (Dalfré Filho et al., 2015b).
Assim, foram testados equipamentos ultrassônicos, em que o feixe acústico gera cavitação.
Segundo Kalumuck et al. (2003) este método tem suas limitações, pois atua somente na camada
superficial do líquido. Jyoti e Pandit (2001) compararam métodos diferentes de inativação por
cavitação e concluíram que a cavitação hidrodinâmica e o homogeneizador de alta velocidade foram
os mais eficientes dentre os testados. O equipamento tipo jato cavitante é um método que usa o
princípio da cavitação hidrodinâmica, com altas velocidades e baixas pressões instantâneas. Dalfré
Filho e Genovez (2009) desenvolveram um equipamento tipo jato cavitante. Este equipamento pode
ser adaptado e aperfeiçoado para reduzir o tempo de eliminação das células viáveis das bactérias,
com um consumo menor de energia. Isto pode ser conseguido alterando-se a geometria dos bocais e
as pressões que geram o jato rápido cavitante. Dalfré Filho et al. (2015b) identificaram que
configurações do equipamento diferentes levaram a eficiências de inativação diferentes.
Uma maneira de analisar o jato rápido cavitante e, por consequência, sua ação, é por
imagens capturadas por uma câmera de alta velocidade. As câmeras de alta velocidade têm sido
empregadas para a visualização de escoamentos de interesse na engenharia, tais como, medir
campos de velocidade, analisar turbulência bidimensional e tridimensional, entre outros, sobretudo
por se tratar de técnica óptica não invasiva. A técnica de visualização de escoamentos consiste em
se observar uma região do escoamento iluminada. Esta região, fazendo-se passar um feixe de luz
por uma lente cilíndrica, é observada pela câmera, que captura as imagens das partículas (luz
espalhada) em tempo real (Oliveira, 2008).
Neste contexto, o objetivo do trabalho foi desenvolver um laboratório de imagens para
permitir a análise da eficiência dos jatos rápidos cavitantes, capturados por uma câmera de alta
velocidade.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

A eliminação de patógenos é um importante passo no tratamento da água. Uma maneira de


eliminá-los é pela geração de ondas de pressão, micro jatos e oxidação na implosão de bolhas na
água. A vaporização do líquido que gera bolhas na água, sem aumento da temperatura, é a
cavitação. Pode-se gerar a cavitação através da formação de um jato de água submerso de alta
velocidade, como se observa na figura 1. De acordo com Tullis (1989), a velocidade na tubulação
de aproximação ao orifício é relativamente baixa e a pressão relativamente alta. Ao aproximar-se do
orifício a velocidade aumenta e a pressão diminui. Quando o jato deixa o orifício, uma intensa
região de cisalhamento ocorre entre o jato e sua vizinhança, criando redemoinhos. A pressão dentro
dos redemoinhos é significantemente menor que o entorno, devido às altas velocidades rotacionais.
Se uma bolha é capturada em um desses redemoinhos, e a pressão dentro dela atinge a pressão de
vapor, a bolha se expande. À medida que o tamanho da bolha de vapor aumenta, a resistência do
redemoinho diminui, a velocidade rotacional diminui e a pressão circundante à bolha já não é mais
a pressão de vapor. Como a pressão ambiente está acima da pressão de vapor e, internamente, a
pressão é a de vapor, a bolha torna-se instável e colapsa internamente.

Figura 1.-Formação de um jato cavitante. Fonte: Dalfré Filho e Genovez (2009).

O colapso destas bolhas gera ondas de alta pressão. Estas pressões foram estimadas como
sendo da ordem de 69,00 GP, pressão suficiente para danificar qualquer material de acordo com
Tullis (1989). Outro efeito da implosão das bolhas são os microjatos. Quando uma bolha colapsa
próxima a uma superfície, a distribuição de pressão em torno da cavidade é assimétrica devido à
presença da superfície. À medida que o núcleo colapsa, a porção dele oposta a superfície adquire
uma velocidade muito maior e a bolha colapsa internamente, formando um micro jato através do
centro da mesma, que possui altíssima velocidade.
Para avaliar a intensidade da cavitação, é empregado um parâmetro básico de similaridade, o
índice de cavitação. O índice de cavitação para um jato cavitante, como o da figura 1, baseado nas
condições de referência, pode ser obtido pela equação 1:

(𝑃𝑒 − 𝑃𝑣)
𝜎=2 [1]
𝜌𝑉𝑒²
Em que 𝑃𝑒 representa a pressão no interior do jato, 𝑃𝑣 é a pressão de vapor e 𝑉𝑒 é a
velocidade do jato.
Kodama e Tomita (2000), Hutli et al.(2007) e Soyama et al. (2009) analisaram jatos
cavitantes formados em diferentes características de testes, pressão e bocais, a partir de imagens.
Estes trabalhos buscaram determinar o poder erosivo e propor evoluções nos estudos de erosões de
superfícies por cavitação. Já, Birkin et al. (2010) empregaram uma câmara de alta velocidade para
análise da cavitação em diferentes ambientes eletroquímicos e acústicos. Nestes trabalhos, foi
empregada uma câmera de alta velocidade modelo HiSpec 5, 523 imagens por segundo com
resolução de 1696x1710 até 298x851.
Soyama et al. (2009) investigaram a agressividade de jatos cavitantes, utilizando o Método
de Jateamento Cavitante. Este método consiste na injeção de um jato de água de alta velocidade na
superfície da água, provocando cavitação. Para aumentar a agressividade, os autores injetaram,
concomitantemente, um jato de água de baixa velocidade no entorno, para reduzir o efeito de
amortecimento da cavitação. A agressividade da cavitação foi avaliada pela erosão em amostras de
alumínio. A taxa de erosão acumulativa foi até 70% maior do que a do jato cavitante, sem o jato de
água com baixa velocidade.
Hutli et al. (2007) analisaram resultados da cavitação submersa de um jato de água
visualizados por uma câmera digital NIKON COOLPIX 990. Foram investigados parâmetros tais
como velocidade do jato, pressão de injeção, diâmetro e montagem do bocal em fluxo convergente
e divergente (Figura 2) e do índice de cavitação, na influência da aparência e do desempenho do
jato. A visualização de imagens foi feita utilizando um estroboscópio para o tempo de 30 μs para
iluminar o jato cavitante. A frequência do obturador da câmera variava entre 30 e 60 Hz, enquanto a
do flash era de 50 Hz.
Figura 2.-Bocais (a) divergente e (b) convergente. Fonte: Hutli et al. (2007).

Aplicaram-se pressões variadas aos bocais e os autores verificaram o comportamento do jato


cavitante. O ângulo de dispersão, em função da penetração do jato no caso de bocal convergente, é
muito maior do que para o bocal divergente.
Os trabalhos de Ohl et al. (2012) e Borchert et al. (2012) estudaram a quantificação das
propriedades da cavitação e o tamanho e a intensidade da cavitação em jatos e ondas de choque e as
bolhas de altas velocidades geradas por um ultrassom. Nestes trabalhos, a cavitação foi estudada por
uma câmera de alta velocidade (15 mil quadros por segundo).
Nóbrega et al. (2014) estudaram o fenômeno de ressalto hidráulico em canais, que ocorre na
mudança do regime supercrítico para subcrítico. Os autores avaliaram a evolução do perfil médio da
superfície livre de ressaltos hidráulicos usando sensores ultrassônicos e uma câmera de alta
velocidade, a fim de contribuir para a compreensão da estrutura deste fenômeno. As imagens foram
obtidas com uma câmera de alta velocidade (PHANTOM v211) e gravadas numa taxa de 200
quadros por segundo, com resolução de 1024x512 pixels, gerando um vídeo com 5642 imagens em
28 s. O processamento de imagem foi dificultado devido a não uniformidade da intensidade de luz
nas imagens. As causas dessa falta de uniformidade foram os tamanhos diferentes de bolhas e as
taxas de contagem, tanto nas direções verticais como horizontais. Os problemas mencionados,
adicionados ao fato do contato da água com a parede lateral, também gera um "efeito de sombra",
afetando a intensidade de pixels na superfície da água. Para referenciar as observações para a
posição da superfície de água, foi utilizado o Processamento de Imagem Toolbox de Matlab®.
Da revisão de diversos ensaios, constata-se que há diversos métodos para capturar e analisar
o processamento de imagens em alta velocidade de um sistema de cavitação hidrodinâmica. Este
método permite compreender como os parâmetros do sistema influenciam o desenvolvimento da
cavitação e, então, adequar a sua eficiência para inativação de bactérias, dentre outras aplicações
tecnológicas da cavitação.

MATERIAIS E MÉTODOS

Para este estudo, foi usado um equipamento tipo jato cavitante construído no Laboratório de
Hidráulica e Mecânica dos Fluidos da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da
Universidade Estadual de Campinas, (FEC-Unicamp). A instalação experimental pode ser
visualizada esquematicamente na figura 3. Uma bomba de deslocamento positivo de alta pressão
(ponto de operação, 35,00 MPa) recircula a água. O reservatório foi construído em aço inox e
reserva a água que circula pelo equipamento tipo jato cavitante. A tubulação de recalque possui uma
válvula reguladora de pressão, um manômetro e uma válvula para garantir a segurança da operação
do equipamento (caso haja um aumento súbito da pressão da bomba de deslocamento direto), de
maneira a controlar as pressões desenvolvidas nos testes. Neste trabalho, variou-se a pressão do
equipamento de 10,0 MPa até 27,5 MPa, registrando-se as pressões por um transdutor de pressão
absoluta. A tubulação de recalque leva a água até um bocal que se encontra dentro do reservatório
de alumínio. Para este trabalho, foi empregado o bocal cônico de 132, com diâmetro de orifício de
1,5 mm (Dalfré Filho et al. 2015a), que teve o melhor resultado de inativação, dentre os estudados.
Figura 3.-Esquema do equipamento tipo jato cavitante
Fonte: adaptado de Dalfré Filho et al.(2015a,b).

Variando-se a pressão do equipamento entre 10,00 MPa e 27,50 MPa, significa variar a
velocidade do jato para além de 100 m/s. Assim, uma partícula deverá percorrer a distância de visão
da câmera em menos de 1 microssegundo. Além disso, a qualidade da imagem deve possuir
resolução máxima de 1280x800 pixels com 4200 imagens por segundo até resolução reduzida de
128x8 pixels com 600.000 imagens por segundo. Outra funcionalidade importante da câmera é o
EDR, Extreme Dynamic Range. O EDR permite mesmo que em situações de extrema luz,
provocados, por exemplo, pela reflexão total da luz em um ponto específico do experimento, o
mesmo poderá ser visualizado. Isto, pois, o sistema elimina eletronicamente, pixel a pixel, a sobre
exposição; e o captura, novamente, em um intervalo infinitamente menor. Essa funcionalidade é útil
para este projeto, pois se trata de um jato que apresenta alta turbulência e formação de bolhas, que
refletem a luz de maneira diferente, em um ambiente caótico. Para a visualização dos jatos
cavitantes, foi usada uma câmara de alta velocidade PHANTOMV7.3 com um fluxo de vídeo de
6.814 imagens por segundo na sua resolução máxima de 800x600 e que aumenta em até 500.000
imagens em uma resolução menor. Usaram-se duas fontes diferentes de iluminação com lâmpadas
alógenas de100 W e 300 W (Figura 4). Para o tratamento das imagens foi usado o Adobe
Photoshop é um software de processamento de imagens.

Figura 4.-Laboratório de captação de imagens. (a) arranjo da câmera, (b) e (c) alinhamento da câmera com
as fontes de luz. Fonte: Taosheng (2015).

RESULTADOS E ANÁLISE

Como se trata de uma bomba de deslocamento positivo, a vazão e a pressão são


proporcionais para um determinado diâmetro de bocal, podendo-se, assim, calcular o índice de
cavitação do equipamento pela equação 1. Também, como se trata de um equipamento que gera um
jato rápido cavitante, deve-se levar em consideração o valor do número de Mach (Equação 2). Se
Ma 0,2, o escoamento no jato pode ser considerado incompressível e as equações de análise se
simplificam.

𝑉𝑒
𝑀𝑎 = [2]
𝑐
Em que c é a celeridade de uma onda de pressão no meio.

Para a temperatura média da água depois de uma bateria de testes (35°C), a massa específica
da água (ρ) é de 993,96 kg/m³ e a pressão de vapor (Pv) de 5849,00Pa. Para a celeridade foi usado
um valor conservador de 1496,00 m/s. A pressão atmosférica local considerada nos cálculos foi de
0,095117 MPa, a 25°C. Para cada pressão de teste, obteve-se a vazão correspondente, e os
adimensionais foram calculados e apresentados na forma da tabela 1.

Tabela 1.-Parâmetros de referência para o equipamento tipo jato cavitante. Fonte: adaptado de Assis (2014).
Diâmetro Pressão Vazão Velocidade Mach (Ma) Índice de
cavitação (σ)

[mm] [MPa] [(x10-4) m³/s] [m/s] - -

1,50 15,00 3,06 173,06 0,116 1,01

Os resultados da tabela 1 indicam que o líquido pode considerado incompressível. No que


diz respeito ao valor do índice de cavitação, o valor calculado de  = 1,01 designa o equipamento
tipo jato cavitante construído. Este valor pode ser comparado com equipamentos de funcionamento
análogo, indicando a suscetibilidade à cavitação.
Empregado o bocal cônico de 132, com diâmetro de orifício de 1,5 mm, foram capturadas
imagens do jato cavitante, com a válvula de controle calibrada para as pressões: 10,00 MPa, 15,00
MPa, 20,00 MPa, 25,00 MPa e 27,50MPa. Foi usado um refletor com lâmpadas alógenas de 100W
e de 300 W para iluminação. As imagens obtidas estão apresentadas nas figuras5 e 6. Na Figura 5
usou-se iluminação com lâmpada alógena de 100 W, na resolução de 128x128 pixels.

Figura 5.-Imagens dos jatos rápidos cavitantes, iluminados por lâmpada de 100 W, resolução 128x128
pixels: (a) 10.0 MPa, (b) 15.0 MPa, (c) 20.0 MPa, (d) 25.0 MPa,(e) 27.5 MPa
Nota-se das imagens da figura 5 (a) até (e) que se pode melhorar a qualidade das mesmas
aumentando a resolução com a diminuição da quantidade de imagens capturadas. Variou-se então a
resolução, aumentando-a para 256x256pixels. O resultado está expresso nas imagens da figura 6.
Na Figura 6 usou-se iluminação com lâmpada halógena de 300 W, resolução de 256x256 pixels.

Figura 6.-Imagens dos jatos rápidos cavitantes, iluminados por lâmpada de 300 W, resolução 256x256
pixels: (a) 10.0 MPa, (b) 15.0 MPa, (c) 20.0 MPa, (d) 25.0 MPa,(e) 27.5 MPa
Comparando-se as imagens das figuras 5e 6, nota-se a melhor nitidez da última. Consegue-
se visualizar o jato com a região de turbulência entre ele e a água do reservatório (com velocidade
quase nula) e o entorno de bolhas ao jato. Assim, a próxima etapa consistiu de usar esta iluminação
e aumentar a resolução da câmera. Nestas condições, notou-se que à medida que se aumentou a
resolução, a qualidade das imagens piorou. Isto pode ser explicado devido à superfície interna opaca
do reservatório que interfere na passagem da luz até as bolhas. De acordo com as imagens obtidas,
percebe-se que a qualidade de visualização é melhor quando a câmera é operada com resolução
menor e com velocidade de captura maior. É possível notar que nas imagens cujas pressões são
mais elevadas, há uma ocorrência maior de bolhas.
Para o jato cavitante em que se observou maior excitação de bolhas em torno do jato (Figura
6e), pode-se calcular os parâmetros principais do perfil de velocidade do jato. O jato inicial se
instabiliza gerando movimentos turbulentos que diminuem em intensidade à medida que o
escoamento se afasta do orifício (adaptado de Schulz, 2003). Em contrapartida, a escala desses
movimentos aumenta ao longo do escoamento. Considerando-se uma configuração instantânea do
jato, ele terá uma aparência da figura 7, corroborada pelas imagens capturadas das figuras 5 e 6.

Figura 7.- Aparência instatânea de um jato turbulento. Fonte: Schulz (2003).

Para a situação em estudo, é interessante obter uma avaliação do escoamento médio, a partir
de aproximações convenientes. A figura 8 mostra um esquema das caracteristicas gerais médias de
um jato circular.

Figura 8.- Características gerais de um jato circular. Fonte: Schulz (2003).

No caso do jato em estudo, é usual determinar uma largura característica indicada


por b, igual ao coeficiente característico de espalhamento do jato circular (figura 8) e
delimitada de acordo com uma porcentagem da velocidade máxima no centro do jato. Para a
região na qual o perfil de velocidades gaussiano pode ser utilizado, geralmente tem-se
s/b>>1, sendo s a posição da seção. A partir dos perfis, podem ser calculadas diferentes
quantidades como a vazão (Q0), a vazão em massa (QM), a velocidade central do jato ( Vc ) e
sua diluição (Sc), representados, respectivamente, pelas equações 3, 4, 5 e 6.
𝑄0 = 𝑉𝑒. 𝐴 [3]

Em que A é a área do orifício do bocal de 132.

Q M  .Q0 [4]

E a velocidade central é:

QM 1 / 2 I 1
Vc  ( ) . [5]
2I 2  js
Em que I1 e I2 são constantes que resultam da integração e são iguais a ½ e ¼,
respectivamente., e αj representa o valor do coeficiente de intrusão igual a 0,055, de acordo com
Schulz (2003). E s é a posição da seção (ver figura 8).

Pode-se, então, calcular a diluição do jato (Sc)

I3
Sc  s [6]
I1

Em que I3 é calculado pela equação 7.

I3 = ½.𝜆2/1+𝜆2 [7]

E 𝜆 é obtido comparando-se a taxa de aumento da largura do campo de velocidade com a


taxa da largura do campo de concentração, equivalente a 1,20 neste caso. A partir das equações 3, 4,
5, 6 e 7 pode-se calcular os principais parâmetros que descrevem o perfil de velocidades do jato,
visualizado na imagem 6e. A largura do jato b foi determinada de acordo com Schulz (2003). Os
valores estão sintetizados na tabela 2.

Tabela 2.- Características gerais do jato circular em estudo.


Vazão Vazão em massa Largura/coeficiente 𝐕𝐞𝐥𝐨𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐜𝐞𝐧𝐭𝐫𝐚𝐥 Diluição da linha
de espalhamento cental

Q0 QM b=З Vc Sc
[ m3/s] [kg/s] [m] [ m/s]

0,00046 0,46 0,110 0,133 2,88

Fazendo-se uma correlação entre a figura 8 e a figura 6e, podem-se observar os parâmetros
principais do jato circular formado durante os ensaios. A figura 9 foi construída, evidenciando o
comportamento deste jato, com a região de estabelecimento do escoamento, a velocidade na linha
central e um perfil genérico da velocidade do jato.
Partindo-se do estudo das imagens e da aplicação do equacionamento básico, para diferentes
condições, poder-se-á classificar e selecionar soluções padrão adequadas às diferentes aplicações do
jato tipo cavitante. Por exemplo, Assis (2014) determinou que um jato circular com pressão de
entrada de 15,00 MPa e  = 1,01 seria suficiente para inativar a E. coli, com o menor consumo de
energia relativo à taxa de inativação.
Figura 9.- Parâmetros médios para um jato circular, pressão de entrada de 27,50 MPa.

Assim, estudos complementares estão em desenvolvimento. Os diferentes jatos obtidos com


diferentes pressões, capturados pela câmera de alta velocidade, sobrepostos aos perfis de velocidade
calculados com os parâmetros básicos de um jato circular, associados às taxas de inativação de E.
coli, relativizados ao consumo de energia, em um determinado tempo, devem ser analisados para
predizer o ponto de eficiência máxima do equipamento tipo jato cavitante para a inativação de
patógenos.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)


pelo Auxílio à Pesquisa n. 2012/09843-8 e ao Pibic/CNPq, pela Bolsa de Iniciação Cientifica-quota
2014/2015.

CONCLUSÕES

As câmeras de alta velocidade são equipamentos de alta complexidade. Esses equipamentos


conseguem registrar, a partir de seus sensores, uma enorme quantidade de informações em
intervalos menores do que microssegundos. Para tanto, seus componentes principais, memória e
sensor, devem acompanhar o estado da arte da tecnologia. Para a aplicação aqui apresentada, é
necessário, além da alta velocidade de captura e da alta resolução, construir um laboratório de
imagens que permita visualizar um jato de alta velocidade, em um ambiente fechado, com pouca
entrada de luz, pequena janela de captura (visualização) e montagem do aparato de captura
compatíveis. O aparato de captura é constituído por câmera de alta velocidade e iluminação em um
alinhamento adequado com o jato rápido cavitante.
De acordo com as imagens obtidas, percebe-se que a qualidade de visualização é melhor
quando a câmera foi operada com resolução menor e com velocidade de captura maior. É possível
notar que nas imagens cujas pressões são mais elevadas, há uma ocorrência maior de bolhas. Os
testes realizados indicaram que quanto maior a pressão, maior a quantidade de bolhas em torno do
jato, como podem ser observados nos ensaios com pressões de 25,00 MPa e 27,50 MPa.
Foi possível perceber, quando o jato deixa o orifício, à medida que o diâmetro do jato se
expande, mais bolhas acompanham o fluxo que se propaga pelo recipiente de testes. A concentração
maior de bolhas ocorre na parte do jato onde o diâmetro é menor e também é possível visualizar a
fusão de bolhas em áreas próximas. Uma conclusão possível é a de se criar um ambiente de
múltiplos jatos, otimizando a distância entre eles, para maior eficiência da ação da cavitação dentro
de um recipiente de inativação.
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