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A Importância da Medicina Legal no Curso de Direito de Direito

Resumo
É oportuno descrever a Importância do estudo da Medicina Legal no Curso de
Direito, com a finalidade de capacitar os futuros profissionais nas suas atividades no
campo jurídico. Esse trabalho é de suma importância, pois se vê que os acadêmicos
terão uma maior visão da realidade prática do que simples teorias e criará maior
segurança para os mesmos nas audiências judiciais.

Palavras-chave: Direito, Medicina Legal, Importância.

Abstract
It is opportune to describe the Importance of the study of the forensic
medicine in the Course of Right, with the purpose of qualifying the professional futures
in your activities in the juridical field. That work is of highest importance, because
he/she sees himself that the academics will have a larger vision of the practical reality
than simple theories and it will create larger safety for the same ones in the judicial
audiences.

Key Words: University, Education, Society.

MEDICINA LEGAL: Conceitos e objetivos

A Medicina Legal caracteriza-se por ser um conjunto de conhecimentos médicos e paramédicos que,
no âmbito do Direito, concorrem para a elaboração, interpretação e execução das leis existentes e ainda
permite, por meio da pesquisa científica, o seu aperfeiçoamento. É a medicina a serviço das ciências
jurídicas e sociais. 1

Ao jurista é necessário seu estudo a fim de que saiba a avaliar os laudos que recebe, suas
limitações, como e quando solicitá-los, além de estar capacitado a formular quesitos procedentes em relação
aos casos em estudo. É imprescindível que tenha noções sobre como ocorrem as lesões corporais, as
conseqüências delas decorrentes, as alterações relacionadas com a morte e os fenômenos cadavéricos,
conceitos diferenciais em embriaguez e uso de drogas, as asfixias mecânicas e suas características, os
crimes sexuais e sua análise pericial etc. 1

1 – BENFICA, Francisco Silveira; Vaz, Márcia, Medicina Legal Aplicada a Direito, São Leopoldo, RS, Unisinos,
2003, p. 11.

Divisão da Medicina Legal

O estudo da Medicina Legal divide-se em dois segmentos:


a) Parte Geral, que inclui a introdução ao seu estudo, conceitos, importância para o estudante de direito e de
medicina, sua divisão, relações com outras ciências, perícias e peritos. 1
b) Parte específica, onde estão incluídas as suas especialidades, citadas abaixo juntamente com o objeto de
estudo de cada uma delas:

Antropologia Forense: identidade e identificação;


Psiquiatria Forense: doenças mentais;
Psicologia Judiciária: psicologia dos depoimentos;
Sexologia Forense: erotologia, himenologia e obstetrícia forense;
Traumatologia Forense: lesões corporais e os agentes traumáticos;
Asfixiologia: asfixias mecânicas;
Toxicologia: envenenamentos e intoxicações;
Tanatologia: morte e suas alterações;
Jurisprudência médico-legal: estuda as decisões dos juízes relacionadas com a Medicina Legal; e
Diceologia e Deontologia: direitos e deveres do médico.
Perícia e peritos

Segundo Francisco Silveira Benfica:


As infrações penais podem deixar vestígios e são inúmeras as situações em que a justiça necessitará
de exames especializados, as perícias, com o intuito de esclarecerem hipóteses e mesmo de servirem de
prova, fundamentando uma sentença. A perícia é solicitada por autoridade competente (judiciária, policial ou
militar) com a participação de peritos oficiais. Não havendo peritos oficiais, o exame será realizado por duas
pessoas idôneas, escolhidas, de preferência, entre as que tiverem habilitação técnica. Estes últimos são
chamados de peritos leigos ou nomeados.

O perito médico-legista, médico com especialização em Medicina Legal, deve, no exercício de suas
atribuições, evitar qualquer interferência que possa constrangê-lo em seu trabalho, não admitindo em
qualquer hipótese subordinar sua apreciação a qualquer fato ou situação que possa comprometer sua
independência intelectual e/ou profissional.

As perícias podem ser feitas em pessoas vivas, cadáveres e coisas, sendo que ao perito são
solicitados pareceres quanto à determinação de identidade, diagnóstico das lesões, conjunção carnal,
gravidez, alterações mentais, determinação de data e causa mortis, diferenciação entre lesões in vivo e post
mortem etc. as aplicações médico-legais concentram-se no exame clínico médico-legal, na necropsia pós-
exumação, nas perícias diversas e nos exames laboratoriais pertinentes.

As perícias poderão ser feitas em qualquer local, a qualquer dia ou hora, dando preferência aos
Institutos de Medicina Legal ou hospitais públicos, durante o dia. A perícia pode ser requerida e realizada em
qualquer fase, policial ou judiciária, do processo.

Ao médico examinador, ou seja, ao médico-legista são formulados quesitos que serão específicos
conforme a perícia a ser feita, seja ela sobre lesões corporais, conjunção carnal, ato libidinoso diverso da
conjunção carnal, embriaguez, necropsia, exumação etc.

Laudo pericial
O laudo pericial é composto pelos seguintes itens:
Preâmbulo;
Histórico;
Descrição;
Discussão;
Conclusão; e
Respostas aos quesitos

Preâmbulo – parte do laudo onde constam a data, hora e local do exame pericial, autoridade requisitante do
exame, dados de identificação do periciando (examinado), peritos designados e os quesitos formulados.
Histórico – dados relacionados com o fato, fornecidos pela autoridade requisitante e/ou pelo periciando.
Deve ser sucinto e não envolver as circunstâncias do fato, que serão analisadas no decorrer do processo. A
utilização de expressões como “história de [ ], “periciando refere que[ ], “fomos informados pela autoridade
policial de que[ ] evitam a interpretação de que o perito médico está colaborando na confirmação de eventos
falsos ou idealizados. 1
Descrição – descrição das lesões encontradas com clareza, em linguagem adequada, situando-as, ou seja,
localizando-as com as dimensões e características, valendo-se muitas vezes do auxílio de fotografias e/ou
desenhos gráficos (croquis). É o item mais importante do laudo pericial e aquela que deve ser considerada
com maior atenção pelos interessados no caso. 1
Discussão – nem sempre presente, é a parte em que se realiza a análise minuciosa dos dados encontrados,
esclarecendo hipóteses e divergências, trajeto de instrumentos etc., muitas vezes com auxílio de citações
bibliográficas; é também a oportunidade para o esclarecimento de termos técnicos e siglas utilizadas no
laudo. 1
Conclusão – também nem sempre presente é a informação essencial que resulta dos dados descritos e
discutidos, representa o diagnóstico elaborado a partir dos exames realizados. 1
Respostas aos quesitos – específica a cada perícia devem ser dadas de forma objetiva e, quando necessitar
de algum complemento, este deve ser sucinto. Não devem ser deixados quesitos sem resposta, mesmo que
o resultado seja “indeterminado” ou “sem elementos para responder”. 1

1 – BENFICA, Francisco Silveira; Vaz, Márcia, Medicina Legal Aplicada a Direito, São Leopoldo, RS, Unisinos,
2003, p. 13.
A perícia deve ser realizada por dois peritos oficiais. Devido, no entanto, às peculiaridades de cada
exame e à falta de peritos em muitas localidades, uma percentagem das perícias acaba sendo realizada
apenas por um perito oficial. Mesmo nas localidades com dois peritos oficiais, na maioria dos casos, pelo
volume do trabalho, não é possível manter dois peritos realizando todas os exames periciais em tempo
integral. Nestes casos, muitas vezes, não é necessário que as perícias sejam realizadas “a quatro mãos”. A
melhor interpretação da norma exige somente que o exame seja realizado por dois peritos, mas não impõe
que ambos estejam no local dos vestígios concomitantemente. Poderá um profissional realizar o
procedimento, vindo, após, outro ratificá-lo. (Parecer da Subprocuradoria Geral de Justiça para os Assuntos
Institucionais do estado do Rio Grande do Sul). 2

E isto ocorre, praticamente, na maioria das perícias no estados brasileiros. “A lei não obriga que os
dois peritos trabalhem, a quatro mãos. Basta que um efetue o exame e o outro confira o resultado, para
satisfazer a formalidade legal”. 2

“É hábito ser o exame pericial realizado por um só perito e ser o laudo assinado também pelo
segundo, que, depois de examinar suas conclusões, com elas concordando, o subscreve”. 2

É muito freqüente os pacientes comparecerem para a perícia fora de época, ou seja, quando as
lesões corporais já desapareceram ou encontram-se consolidadas. O perito poderá, então, basear sua
análise em documentos idôneos, como qualquer atestado ou boletim assinado por médico no exercício legal
da profissão. O perito poderá em determinadas circunstâncias, no entanto, desconsiderar o que foi atestado
nesse caso estão incluídos os documentos ilegíveis, aqueles em que não constam o nome e o CRM do médico
e aqueles cujo diagnóstico o perito pode considerar errado ou absurdo. Caberá, em tais situações, uma
“discussão”, na qual o perito explicará o motivo pelo qual o documento apresentado foi rejeitado. 1

1 – BENFICA, Francisco Silveira; Vaz, Márcia, Medicina Legal Aplicada a Direito, São Leopoldo, RS, Unisinos,
2003, p. 13.
2 – BENFICA, Francisco Silveira; Vaz, Márcia, Medicina Legal Aplicada a Direito, São Leopoldo, RS, Unisinos,
2003, p. 14.
3 – BENFICA, Francisco Silveira; Vaz, Márcia, Medicina Legal Aplicada a Direito, São Leopoldo, RS, Unisinos,
2003, p. 14 e 15.

Genival Veloso França discorre sobre:


1. Decálogo ético do perito - 1. Evitar conclusões intuitivas e precipitadas. Conscientizar-se que a
prudência é tão necessária quanto a produção da melhor e mais inspiradora perícia. Jamais se firmar no
subjetivismo e na precipitada intuição para concluir sobre fatos que são decisivos para os interesses dos
indivíduos e da sociedade. Concluir pelo que é óbvio e consensual.
2. Falar pouco e em tom sério. Convencer-se de que a discrição é o escudo com que se deve
proteger dos impulsos irrefreáveis da vaidade, sobretudo quando a verdade que se procura provar ainda
está sub judice ou quando ainda não se apresenta nítida e isenta de contestação. Fugir das declarações
ruidosas e sensacionalistas em entrevistas espalhafatosas. Falar o imprescindível, com argumentação e na
exata oportunidade.
3. Muita modéstia e pouca vaidade. Aprender a ser humilde. Controlar o afã ao vedetismo. O
sucesso e a fama devem ser um processo lento e elaborado na convicção do aprimoramento e da boa
conduta ética e nunca pela presença ostensiva do nome ou do retrato nas colunas dos jornais. Não há
nenhum demérito no fato de as atividades periciais correrem no anonimato, delas tendo conhecimento às
partes interessadas.
4. Manter o segredo exigido. O sigilo pericial deve manter-se na sua relativa guarda e na sua
compulsória solenidade, não obstante os fatos que demandam perícias terem vez ou outra suas
repercussões sensacionalistas e dramáticas, quase ao sabor do conhecimento de todos. Nos seus transes
mais graves, deve o perito manter sua discrição, sua sobriedade, evitando que suas declarações sejam
transformadas em ruidosos pronunciamentos.
5. Ter autoridade para ser acreditado.Exige-se também uma autoridade capaz de se impor no que
afirma e conclui, fazendo calar sua palavra. Tudo fazer para que seu trabalho seja admirado pelo cunho da
fidelidade a sua arte, a sua ciência e à tradição legispericial. Decidir firmemente. A titubeação é sinal de
insegurança e afasta a confiança que se deve ditar. Se uma decisão é vacilante, a arte e a ciência tornam-se
temerárias e duvidosas.
6. Ser livre para agir com isenção. Concluir com acerto através de uma convicção, comparando os
fatos entre si, relacionando-os e chegando à conclusões claras e objetivas. Não permitir que suas crenças,
filosofias e paixões venham influenciar um resultado para o qual se exige imparcialidade e isenção.
7. Não aceitar a intromissão de ninguém. Não permitir a intromissão ou a insinuação de ninguém,
seja autoridade ou não, na tentativa de deformar sua conduta ou dirigir o resultado para um caminho
diverso das suas legítimas conclusões, para não trair o interesse da sociedade e os objetivos da justiça.
8. Ser honesto e ter vida pessoal correta. É preciso ser honesto para ser justo. Ser honesto para ser
imparcial. Honestidade para ser respeitado. Ser íntegro, probo e sensato. Ser simples e usar sempre o bom
senso. A pureza da arte pura é inimiga do artifício. Convém evitar certos hábitos, pois eles podem macular a
confiança de uma atividade em favor de quem irremediavelmente necessita dela.
9. Ter coragem para decidir. Coragem para afirmar. Coragem para dizer não. Coragem para
concluir. Coragem para confessar que não sabe. Coragem para pedir orientarão de um colega mais
experiente. Ter a altivez de assumir a dimensão da responsabilidade dos seus atos e não deixar nunca que
suas decisões tenham seu rumo torcido por interesses inconfessáveis.
10. Ter competência profissional para ser respeitado. Manter-se permanentemente atualizado,
aumentando cada dia o saber. Para isso, é preciso obstinação, devoção ao estudo continuado e dedicação
apaixonada ao seu mister, pois só assim seus laudos terão a elevada consideração pelo rigor e pela verdade
que eles encerram.

Documentos médico-legais
Segundo Francisco Silveira Benfica:
Quando se fala em documento-legal, diz-se de uma informação escrita por um médico, relatando
assunto médico de interesse jurídico. Es documento pode ser resultado de pedido de pessoa interessada
(atestado ou parecer) ou resultado do cumprimento de uma solicitação da autoridade competente (laudo).

Na prática forense é reconhecida a existência de três tipos de


documentos escritos:

Atestado;
Relatório (auto ou laudo); e
Parecer

Francisco Silveira Benfica define: “Atestado – é a afirmação por escrito de um fato médico e suas
conseqüências, sem exigência de compromisso legal, implicando providências administrativas, judiciárias ou
oficiosas”.
E ainda, conceitua:

Relatório (auto ou laudo) – é a narração escrita e minuciosa dos atos de um perito, determinada
pela autoridade competente a um perito oficial ou compromissado, cujo objetivo é esclarecer um ou mais
fatos de ordem médico-legal. Se é ditado para um escrivão, durante o próprio exame pericial, chama-se
auto; se é redigido posteriormente pelos peritos, denomina-se laudo.

Parecer – é um documento solicitado, pela parte ou por seu representante legal, a quem tenha
competência especial no assunto, independentemente de qualquer compromisso legal, e que é aceito ou faz
fé pelo renome de que o subscreve. Em tais pareceres, o médico age como profissional liberal, podendo
combinar honorários com a parte interessada, aceitar ou negar o encargo. O parecer não tem uma forma
fixa, seguindo aproximadamente, a mesma seqüência do relatório.

Além desses, existem os esclarecimentos não-escritos de interesse dos tribunais, denominados


depoimentos orais. O juiz pode convocar os peritos a fim de esclarecerem oralmente certos pontos duvidosos
de perícias realizadas por eles ou por outrem ou mesmo qualquer assunto de interesse da justiça, o qual
será registrado por termo de depoimento.

Deontologia dos peritos


Delton Croce, discorre:
A missão dos peritos é sagrada. Subordinados a uma ética rigorosa, os peritos que faltarem com a
verdade no exercício de sua nobre função, embaraçando a Justiça, respondem penal e civilmente por dolo ou
culpa, consoante os arts. 342 do Código Penal e 147 do Código de Processo Civil. Os peritos não-oficiais
também estão sujeitos à disciplina judiciária (art. 275 do Código de Processo Penal).

Hélio Gomes sintetiza as três qualidades essenciais de um bom perito:

Ciência;
Consciência; e
Técnica.

Segundo Delton Croce, “Com esses três sintéticos, mas fundamentais, requisitos estará sempre apto a servir
à Justiça com imparcialidade e exemplar ética profissional. Com essas três armas, saberá sempre cumprir
com o seu dever”.

Da Medicina Legal
Delton Croce em sua obra, comenta:
Antes de descrevermos sobre o assunto, discorrer-se-á sobre as várias denominações desta
disciplina como: Medicina Legal Forense (A. Paré); Questões Médico-Legais (P. Zacchias); Medicina Judiciária
(Lacassagne); Medicina Judiciária ou dos Tribunais (Prunelle); Jurisprudência Médica (Alberti); Medicina
Política (Marc); Medicina Forense (Sydney Smith); Antropologia Forense (Hebenstreit); Bioscopia Forense
(Meyer); Medicina Forense Jurídica (sábios de Roma); e, ainda, Medicina Pericial; Medicina Criminal;
Medicina da Lei; Biologia Legal; Medicina Crítica; Biologia Forense; Medicina Política e Social (França).

A Medicina Legal, França no-lo afirma, é uma disciplina de amplas possibilidades e grande dimensão
pelo fato de não se ater somente ao estudo da ciência hipocrática, mas de se constituir na soma de todas as
especialidades médicas acrescidas de fragmentos de outras ciências acessórias, sobrelevando-se entre elas a
ciência do Direito.

O perito médico-legal há de possuir, portanto, amplos conhecimentos de Medicina, dos


diversos ramos do Direito e das ciências em geral. Hélio Gomes asseverava ter o perito indispensável
educação médico-legal, conhecimentos da legislação que rege a matéria, noção clara de maneira como
deverá responder aos quesitos, prática na redação dos laudos periciais, sem esses conhecimentos
puramente médico-legais, toda a sua sabedoria será improfícua e perigosa. E, mais, “o laudo pericial, muitas
vezes, é o prefácio de uma sentença”.

Com efeito, informações periciais desencontradas, ainda que involuntariamente, podem constituir-se
na chave da porta das prisões para a saída de marginais ou para nelas trancafiar inocentes, pois, conforme
Ambroise Paré, in Oeuvres completes, os juízes julgam segundo o que se lhes informa.

O perito médico-legal há de ter, ainda, uma conceituação universitária dos seres humano, auxiliar,
por sua cultura, indispensável que é da Justiça, herói anônimo capaz de deslindar crimes indecifráveis
através de paciente e penoso trabalho só conhecido das autoridades policial-judiciárias. 2

A Medicina-Legal é arte estritamente científica que estuda os meandros do ser humano e sua
natureza, desde a fecundação até depois de sua morte. Exige dos seus obstinados professorados de Medicina
do direito, o de outras ciências, para emitirem pareceres minudentes, claros, concisos e racionais,
objetivando criar, na consciência de que tem por missão julgar, um quadro o mais preciso da realidade.

Relações da Medicina Legal com as demais ciências médicas e jurídicas


Segundo Hélio Gomes, existe valor desigual do estudo da Medicina Legal para o advogado e para o
médico:

Valor do estudo da Medicina Legal para o advogado - Sendo o Direito uma ciência humana, é
preciso, em primeiro lugar, que o profissional do Direito tenha bom conhecimento do que é o ser humano em
sua totalidade – uma unidade biopsicossosial. Para isto, não é necessário que possua o saber de um
profissional da área biomédica, mas tem que conhecer as bases daquela unidade. E a Medicina Legal lhe
provê os elementos necessários a esta compreensão.

Se incursionar na elaboração e discussão das leis, terá que ter rudimentos de Biologia para que não
proponha normas impossíveis de serem praticadas, por exemplo, no campo da legislação sanitária. Em se
tratando de normas penais, o desconhecimento das peculiaridades da personalidade, conforme o biótipo
individual, pode levá-lo a querer criar um padrão geral de comportamento pouco flexível e no que não
caibam as variações individuais.

Na prática forense, muitas vezes terá que se deparar com casos em que certos conhecimentos da área
médica serão indispensáveis para poder elaborar quesitos, saber quando apresentá-los e como tirar proveito
da resposta dos peritos. No campo do direito penal, são inúmeras as situações que ilustram esta
necessidade. Nos casos de aborto, por exemplo, deverá saber que há casos em que ocorre
espontaneamente, sem ação criminosa. Havendo suspeita de infanticídio, terá que saber o que é nascer com
vida; do contrário aceitará a possibilidade do crime praticado contra um natimorto. Precisará estar atento
para os desvios de conduta dos psicopatas, sabendo que não são, na realidade, doentes mentais conforme
requer o artigo 26 do Código Penal. Ao ler um laudo cadavérico, ou de lesão corporal, poderá estabelecer
associações entre as lesões e as alegações do indiciado. E assim por diante.

No direito civil, ressaltam as causas de interdição, de anulação de casamento por impotência, de


determinação de paternidade, em que far-se-á necessidade saber que tipos de exame poderá solicitar aos
peritos de modo a esclarecer os fatos. Com um mínimo conhecimento de biologia, evitará formular quesitos
impossíveis de serem respondidos. Por exemplo, a partir de que dia estaria uma pessoa incapacitada de
gerir seus bens. Nas causas de acidentes de trabalho, terá que saber que há doenças que são típicas de
certas profissões, como a silicose, que ocorre nos trabalhadores em pedreiras.
Valor do estudo da Medicina Legal para o médico – A Medicina Legal é a única disciplina do curso
médico que vale mais para o médico do que para o paciente. Ao estudar clínica, ao se preparar para ser um
cirurgião, o profissional visa basicamente promover o bem-estar do paciente. Como subproduto desta
intenção, se atingido o objetivo, resulta o bom nome do médico. No caso da Medicina Legal, o seu
conhecimento previne aborrecimentos com o cliente e questionamentos na Justiça. Por esemplo, o
ginecologista tem que saber que não deve introduzir o especulo vaginal em uma paciente virgem, sob pena
de romper-lhe a membrana himenal.

Nos hospitais de pronto-socorro, a descrição das lesões apresentadas quando da admissão de


pacientes traumatizados tem fundamental importância legal, já que poderá ser a única possibilidade de
determinar o agente causal, se a vítima permanecer internada por vários dias; tempo suficiente para a
descaracterização das feridas pelo processo cicatricial. Na eventualidade de vir a falecer, durante este
período, seu corpo terá que ser transferido para exame por meço legista, o qual não disporá de elementos
para dizer que instrumento ou meio teria causado as lesões.

Para Delton Croce:


A Medicina Legal serve mais ao Direito, visando defender os interesses dos homens e da sociedade,
do que à Medicina. A designação legal emprestada a essa ciência indica que ela se serve, no cumprimento de
sua nobre missão, também das ciências jurídicas e sociais, com as quais guarda, portanto, íntimas relações.
É a Medicina e o Direito completando-se mutuamente, em engalfinhamentos. Ao Direito Civil empresta sua
colaboração no que concerne a questões relativas a paternidade, impedimentos matrimoniais, erro essencial,
limitadores e modificadores da capacidade civil, prenhez, personalidade civil e direitos do nascituro,
comoriência etc. Ao Direito Penal, no que diz respeito a lesões corporais, sexualidade criminosa, aborto legal
e ilícito, infanticídio, homicídio, emoção e paixão, embriaguez etc. Serve ao Direito Constitucional quando
informa sobre a dissolubilidade do matrimônio, a proteção à infância e à maternidade etc.; ao Direito
Processual Civil e Penal quando cuida da psicologia da testemunha, da confissão, da acareação do acusado e
da vítima. Contribui com o Direito Penitenciário quando converge seus estudos para a psicologia do detento,
no que tange à concessão de livramento condicional e à psicossexualidade das prisões.Entrosa-se com o
Direito do trabalho quando estuda a infortunística, a insalubridade e a higiene, as doenças e a prevenção de
acidentes profissionais; com a lei das Contravenções Penais, quando trata doa anúncios de técnicas
anticoncepcionais, da embriaguez e das toxicomanias. A Medicina Legal engranza-se ainda, intimamente,
com vários ramos do Direito, a saber: Direito dos desportos, Direito Internacional Público, Direito
Internacional Privado, Direito Canônico, Direito Comercial. Ciência médico-jurídico-social indispensável em
toda deligência que necessite de elucidação médica, em progressiva e franca ascensão, relaciona-se também
com a Química, a Física, a Toxicologia, a Balística, a Dactiloscopia, a Economia e a Sociologia e com a
História Natural (Entomologia e Antropologia).
Delton Croce afirma:
A Medicina Legal nacional desfruta da admiração e respeito do mundo, conforme ficou patenteado
(1985) na perícia de determinação da identidade, por especialistas do IML de São Paulo e da Unicamp, do
carrasco nazista Joseph Mengele, conhecido pelos prisioneiros de Auschwitz como o “anjo da morte”, cuja
ossada foi encontrada sepulta em Embu, São Paulo.

Na época colonial, a Medicina Legal nacional foi decisivamente influenciada pelos franceses e, em
menor escala, pelos italianos e alemães, sendo praticamente nula a participação portuguesa, estando
representada por esparsos documentos médico-legais, compilados de trabalhos referentes à Toxicologia e
por “um ou outro laudo pericial feito por leigos, mais interessantes pelo lado pitoresco do que pelo aspecto
médico propriamente dito” (Pedro Sales).
Numa fase seguinte surge Souza Lima, insigne mestre a quem reverenciamos por ter sido o
iniciador, em 1818, do ensino público da Medicina Legal no Brasil, desenvolvendo a pesquisa laboratorial,
então reduzida à Toxicologia, e por ter feito, sem ser advogado, uma tentativa de interpretação e
comentários médico-legais em relação às leis nacionais.
A verdadeira nacionalização da nossa Medicina Legal se deve à criação, por Raymundo Nina Rodrigues, de
uma autêntica Escola brasileira da especialidade na Bahia, constituída, entre outros, por Alcântara Machado,
Júlio Afrânio Peixoto, Leonídio Ribeiro, Oscar Freire e Estácio Luiz valente de Lima, que originalmente
“orientou a diferenciação da disciplina, dos seus métodos e da sua doutrina para as particularidades do meio
judiciário, das condições físicas, biológicas e psicológicas do ambiente” (Geraldo Vasconcelos). E desde então
sucederam-se sadiamente nas capitais brasileiras as escolas de Medicina Legal, interessando aos juristas,
advogados, delegados de polícia, médicos, psicólogos e psiquiatras o conhecimento dessa disciplina, tal o
grau de entrosamento que ela guarda com todos os ramos do saber.
Importância nas faculdades de Direito
Segundo Delton Croce:
Sendo a Medicina Legal a única disciplina nas Faculdades de Direito que se relaciona com a Biologia,
seu estudo se reveste de fundamental importância, pois ninguém ignora que os conhecimentos biológicos,
médicos e paramédicos ampliam aos acadêmicos de direito a consciência universalista do homem e da
gênese de suas ações. Como exemplo, o estudo das socioneuropatias, permitindo ao estudante conhecer os
intricados emaranhados da mente humana, abre-lhe maiores perspectivas de percepção sobre seu
semelhante e sobre si mesmo, já que o conceito de normalidade é sobremaneira vago: normal é o que
funciona harmoniosamente e silenciosamente em sociedade. É o “conhece-te a ti mesmo” socrático, ao qual
acrescentamos: por ti mesmo! A Medicina Legal é, portanto, verdadeiro elo de ligação entre o pensamento
jurídico e a Biologia, ciência e arte cooperadora na elaboração e na aplicação das leis. Aos juristas,
autoridades policiais e advogados importa à Medicina Legal orientar com minudência, concisão e clareza
sobre a realidade de um fato de natureza específica e caráter permanente que interessa à Justiça, e como
pedir, o que pedir e o modo de interpretar os laudos periciais, para evitar que suceda o ocorrido com
delegado da Capital, que, segundo relatou o insigne professor Hélio Gomes, sabedor por informação pericial
de que havia espermatozóides na macha da camisa de um suicida, solicitou ao Instituto Médico-Legal
determinasse ser o gameta encontrado de homem ou de mulher! “O delegado”, ironiza o mestre, “por não
conhecer Medicina Legal, não soube interpretar a resposta simples e clara que lhe fora enviada”.

Pelo mesmo mestre, foi ouvido e o mesmo ficou perplexo com a confusão estabelecida por um
representante do Ministério Público, data vênia, pouco versado em Medicina Legal, sobre coito vulvar e coito
interfemora, expressões para ele não similares. E mais recentemente, nova confusão sobre a fase obstétrica
puerperal e o conceito médico-legal de “influência do estado puerperal”, a que alude a lei, no infanticídio.

A maioria dos médicos também prescinde, infelizmente, de conhecimentos de Jurisprudência Médica.


É por isso que sentenciava Hélio Gomes: “Levando-se em conta o desconhecimento da legislação pelos
médicos, esta lhes deverá ser ensinada, de maneira clara e resumida, o suficiente para a perfeita
compreensão dos dispositivos legais referentes ao assunto da perícia”. A Medicina Legal estuda a vida, em
sua essência, e a morte. É ciência social vivaz e realista, embasada na Verdade e na Justiça, que desnuda o
indivíduo desde enquanto ovo e, depois, até o âmago do ser e seduz e apaixona, irremediavelmente, desde
o início, os seus profissionais.

Genival Veloso França afirma:


Além do conhecimento da Medicina e do Direito, exige-se o concurso de outras ciências afins para se
firmar com mais precisão o resultado desejado, esclarecer corretamente o raciocínio e exercer com facilidade
a dialética. O perito médico-legal, algumas vezes, é transformado em verdadeiro juiz de fato, cuja palavra é
decisiva ou ponderável em decisões judiciais. A Medicina legal não se preocupa apenas com o indivíduo
enquanto vivo. Alcança-o ainda quando ovo e pode vasculhá-lo muitos anos depois na escuridão da
sepultura. É muito mais uma ciência social do que propriamente um capítulo da Medicina, devido à sua
preocupação no estudo das mais diversas formas da convivência humana e do bem comum. Investiga os
conceitos mais gerais e comuns a todas as disciplinas médicas e expõe comparativamente, para além do
âmbito local, as diferentes conceituações da Medicina. Isto quer dizer que, ao mesmo tempo que a Medicina
Legal procura estruturar uma conceituação das atividades médicas, aplicáveis a cada sociedade – levando-se
em conta os diversos fatores que influenciam na ordem jurídica e social - , ela transpõe essas fronteiras,
procurando criar normas gerais de conduta, numa conceituação universalística do homem. O Direito
moderno não pode deixar de aceitar a contribuição cada vez mais íntima da ciência, e o operador jurídico
não deve desprezar o conhecimento dos técnicos, pois só assim é possível a aproximação da verdade que se
quer apurar, não é nenhum exagero afirmar que é inconcebível uma boa justiça sem a contribuição da
medicina Legal, cristalizando-se a idéia de que a Justiça não se limita ao conhecimento da lei, da doutrina e
da jurisprudência. A Medicina Legal requer conhecimentos especiais e trata de assuntos exclusivamente
seus, como, por exemplo, o infanticídio, a asfixia mecânica e a identificação médico-legal. Exige de quem a
exerce conhecimentos jurídicos que só podem ser assimilados com a atividade pericial ante os tribunais no
trato das questões médicas de interesse da lei. É mero engano também acreditar que a Medicina Legal seja
apenas aplicada aos casos particulares dos conhecimentos gerais que constituem os diversos capítulos da
Medicina. É necessário saber distinguir o certo do duvidoso, explicar clara e precisamente os fatos para uma
conclusão acertada, não omitindo detalhes que, para o médico geral, não tem nenhuma valor, mas que, na
Medicina Legal, assumem importância muitas vezes transcendente. Para o juiz, é indispensável o seu estudo,
as fim de que possa apreciar melhor a verdade num critério exato, analisando os informes periciais e
adquirindo uma consciência dos fatos que constituem o problema jurídico. Talvez seja essa a mais
fundamental missão da perícia médico-legal: orientar e iluminar a consciência do magistrado. Muitas vezes,
a liberdade, a honra e a vida de um indivíduo estão subordinadas ao esclarecimento de um fato médico-legal
que se oferece sob os mais diversos aspectos. Se o juiz não possui uma cultura médico-legal razoável,
poderá apreciar esses efeitos erroneamente, conduzindo a um erro judicial, um dos mais graves problemas
da administração da justiça, transformando a sentença numa tragédia. Argumenta-se que a falta de
conhecimentos médico-legais do juiz nos fatos de implicação médica será suprida pelo perito. Mas nem
sempre os informes periciais correspondem à verdade dos fatos ou procedem de pessoas incapacitadas,
traduzindo, portanto, graves contradições ou pontos de vista menos aceitáveis. Exige, desse modo, do
aplicador da Lei, o conhecimento da Medicina Legal para emitir sempre pareceres concisos e racionais.
Assim, mais do que nunca, necessitará a autoridade judiciária de elementos de convicção quando apreciar a
prova. Determina o art. 59 do Código Penal vigente não apenas que o juiz examine o criminoso, mas, ainda,
as condições que motivaram sua ação anti-social e os mecanismos utilizados na sua execução.
Em suma, não só a análise da gravidade do crime praticado, nos motivos, nas circunstâncias e na
intensidade, a existência, a qualidade e a quantidade do dano, os meios empregados, o modo de execução
e, até se possível, a idéia bem aproximada da complexa e aflitiva coreografia do autor e da vítima. Esse é o
grande desafio aos novos magistrados: além do conhecimento humanístico e jurídico, uma sensibilidade
cúmplice na apresentação quantitativa e qualitativa da prova. Diga-se mais: não deve o juiz ficar sozinho no
cumprimento e nas exigências dessa nova ordem. O advogado, na sua atividade liberal, também necessita
muito destes conhecimentos no curso das soluções dos casos de interesse dos seus representados. Deve, no
melhor sentido, ser um crítico da prova, no sentido de não aceitar a “absolutização” ou a “divinização” de
certos resultados, apenas pelo fato de constituírem avanços recentes da ciência ou da tecnologia. O
promotor público, como responsável pelo ônus da produção da prova, tem que justificá-la e explicá-la em
seus resultados e sua razões. Exige-se dele, hoje, uma contribuição mais efetiva e mais imediata.

Para Genival Veloso França:

Os médicos também carecem de conhecimentos do Direito Médico, no estudo da Jurisprudência


Médica, tão imprescindível à sua vida profissional, e, ainda, de uma consciência pericial nos casos em que
haja um interesse da Justiça na apreciação de um fato inerente à vida e á saúde do homem. Levando em
conta as sutilezas das questões médico-legais em que o perito é chamado a intervir, dizia Alcântara
Machado: “Tão freqüente e difíceis e relevantes são elas, que fizeram surgir a Medicina Legal como ramo
distinto dos outros ramos de conhecimentos, e a prática médico-legal como arte distinta da clínica”. Isto não
quer dizer que esta Ciência tenha apenas o caráter prático, informativo, pericial. Hoje, a Medicina Legal
moderna, além de contribuir nesse sentido, ainda ajusta o pensamento do doutrinador e complementa as
razões do legislador nos fatos de interpretação médica e biológica. Simplesmente “relatar em juízo”,
qualquer um faz, bastando ter experiência e bom senso. A Medicina Legal também contribui com precisão e
eficiência às necessidades gerais do Direito, transcendendo assim ao simples caráter informativo.Onde não
há uma verdadeira contribuição da Medicina Legal, fica a Polícia Judiciária à mercê da boa vontade de um
outro médico, nos hospitais, maternidades ou clínicas privadas, para a aquisição de um relatório médico-
pericial a fim de esclarecer um fato médico de interesse da Lei. Será uma Polícia Judiciária desaparelhada,
incapaz de atender a um mínimo necessário para o cumprimento de sua alta e nobre missão: a de ajudar a
Justiça quando da apuração dos mais complexos problemas que interessam ao administrador dos tribunais.
Cada vez que crescem as necessidades da Justiça, maiores são as possibilidades da ciência médico-legal,
pois dia a dia ganha mais impulso e mais perfeição, sendo hoje um instrumento indispensável em toda
investigação que exija o esclarecimento de um fato médico.
Metodologia de ensino

Genival Veloso França discorre:


Mesmo que a Medicina Legal seja uma só, no seu conhecimento e na sua concepção prática,
entendemos existirem metodologias de ensinos diversas quanto a sua abordagem nos cursos de medicina ou
de Direito. No curso médico, deve-se enfatizar a Medicina Legal Pericial, tendo em vista um projeto de
formação de um profissional capaz de atender à Justiça como perito oficial ou nomeado, levando-se em
conta as diversas formas de contribuição técnica no dia a dia da administração dos tribunais, ao mesmo
tempo, quando vinculado à Deontologia Médica, a análise e a discussão de temas que interessam na
formação ética de cada médico.

A distribuição programática da matéria nos cursos de Medicina deve ser feita de acordo com a
seqüência dos capítulos ou unidades encontrados nos diversos tratados da especialidade, os quais têm uma
progressão de assuntos ditada pela evolução do seu aprendizado. No curso jurídico, recomenda-se a ênfase
à Medicina Legal Doutrinária, como forma de subsidiar e complementar as diversas formas de direito positivo
ou de propiciar meios para se assimilarem as informações técnicas e científicas constantes dos relatórios
legispericiais. Não quer dizer que se deixe de ensinar a Medicina Legal Pericial, pois ela é também necessária
na prática diuturna dos operadores jurídicos.

A seleção do conteúdo programático nos cursos de Direito pode ser distribuída especificamente de
acordo com os interesses de cada ramo do direito positivo, em medicina Legal Penal (conceito; importância e
contribuição da medicina legal nas questões criminais; peritos e perícias e de natureza penal; identidade e
identificação criminal; energias causadoras do dano; lesões corporais sob o ponto de vista jurídico-penal;
periclitação da vida e da saúde; distúrbios da preferência sexual; aborto legal e aborto criminoso; sedução,
posse sexual mediante fraude, estupro e atentado violento ao pudor; infanticídio, toxicofilias, embriaguez
alcoólica; tanatologia médico-legal; imputabilidade penal; limites e modificadores), Medicina Legal Civil
(conceito; importância e contribuição da Medicina Legal às questões de direito privado; identidade e
identificação civil; peritos e perícias de interesse civil; perícia do nascituro e provas do início da
personalidade civil; avaliação do dano corpóreo de natureza jurídico-civil; casamento, separação e divórcio;
política demográfica; capacidade civil: limites e modificadores; Psicologia Judiciária Civil; estudo do
testemunho e da confissão; morte real e morte presumida), Medicina Legal Trabalhista (conceito; relação e
contribuição às questões trabalhistas; peritos e perícias das doenças do trabalho, das doenças profissionais e
acidentes do trabalho; avaliação do dano corpóreo de natureza trabalhista; deficiência e incapacidade;
acidente do trabalho; simulação. Dissimulação e metassimulação em Infortunística do Trabalho; Psicologia
do Trabalho; Fisiologia do Trabalho; noções do rendimento muscular; poluição ambiental; contaminação,
ruídos e irradiações; necropsias de interesse trabalhista) e Medicina Legal Administrativa (conceito;
importância e contribuição da Medicina Legal às questões da administração pública; peritos e perícias em
servidores públicos; perícia previdenciária; juntas médicas oficiais; avaliação da capacidade laborativa do
servidor público; formalidades no exame biométrico; auditorias: tipos, fundamentos e normas; critérios para
readaptação de função pública; avaliação do dano corpóreo de natureza administrativa; atividades penosas e
periculosidade na função pública; necropsias de interesse administrativo).

Situação atual e prospectiva

Ainda, comenta França:

A Medicina Legal, no Brasil, mesmo ciente da incorporação de novas técnicas, do avanço da ciência
e da contribuição multiprofissional, dispõe no campo pericial de um pequeno progresso, mediante a atuação
de alguns setores públicos na criação, recuperação e aparelhamento dos laboratórios, nas instituições
especializadas, e na reciclagem do pessoal técnico. Acredita-se que só com a total incorporação de tais
recursos a sociedade resistirá ao resultado perverso de uma violência medonha que cresce e atormenta.
Nada mais justo do que investir mais e mais na contribuição técnica e científica, dotando a administração
judiciária de elementos probantes de transcendente valor no curso da apreciação processual, porque uma
das funções do magistrado, entre tantas, é buscar a verdade dos fatos. No futuro, com certeza, irão ser
usados todos esses formidáveis recursos científicos e tecnológicos disponíveis em favor da prova; como, por
exemplo, a análise biomolecular, a bioquímica da detecção de drogas e até mesmo a energia nuclear, além
dos modernos computadores, cintilógrafos e tomógrafos de ressonância magnética, como contribuição
indispensável aos interesses de ordem pública e social. A Medicina Legal no campo experimental no Brasil
ainda se mostra incipiente e tímida, mas começa a se desenvolver alguns focos de pesquisa nos centros
acadêmicos de pós-graduação. No terreno doutrinário, em que a Medicina Legal contribui de forma mais
eloqüente no ajuste dos institutos do direito positivo, tudo ocorrerá a partir das solicitações mais concretas
que essas formas de direito venham a fazer e da evolução do próprio pensamento médico-legal; assim, cada
vez mais serão enfatizadas as questões ligadas à Engenharia Genética, como as dos animais transgênicos,
clones humanos e terapia gênica ou, nos casos mais delicados da reprodução humana, em que se focalizam
principalmente algumas indagações sobre a natureza jurídica e o destino dos embriões congelados. No
aspecto pedagógico, a Medicina Legal brasileira já viveu dias mais iluminados, quando as cátedras eram
regidas pelos grandes mestres, os quais criaram em torno de si eminentes discípulos e respeitáveis escolas.
Hoje, com honrosas exceções, diante da desordenada e irresponsável criação de cursos médicos e jurídicos,
recrutam-se profissionais sem nenhuma qualificação e intimidade com a matéria. Assim, essas cátedras
estão muito a dever à nossa tradição e, certamente, se não houver um trabalho bem articulado na tentativa
de recuperar tal prestígio, no futuro teremos a Medicina Legal ensinada num padrão muito distante de suas
insupríveis necessidades. O exemplo disso é que muitas das Faculdades de Direito já têm esta disciplina
como matéria optativa e, noutras, ainda pior: a disciplina não existe. Vai sendo ocupada por outras
disciplinas de existência e utilidade duvidosas. Resta, disso tudo, a dúvida sobre a qualidade desses futuros
profissionais que estão sendo formados.
No que se refere ao ensino, é preciso valorizar a atividade docente e dotar o aparelho formador de
condições para o ensino da Medicina Legal em caráter obrigatório, tanto em Direito como em Medicina,
tendo sempre à frente dessas disciplinas profissionais qualificados e compromissados com esse projeto.
Fazem-se também necessárias a criação e a ampliação dos cursos de especialização, de mestrado e de
doutorado em Medicina Legal, não só como forma de qualificar o pessoal docente, mas também de recrutar
outras vocações.

O problema da pesquisa e da investigação de interesse médico-legal é ainda mais complexo, no qual


devem ser focalizadas as disponibilidades para o setor. O interessante neste aspecto é sensibilizar as
Universidades públicas e privadas em relação à contratação de pesquisadores, cuja tarefa seria a de
possibilitar a produção científica de qualidade nesta área de concentração.

CONCLUSÃO
A Medicina legal é freqüentemente usada na prática forense, pois com as perícias realizadas pelos
médicos legistas têm um valor probante indiscutível no auxílio do direito processual pela busca da sentença
justa, que tenha como fundamento a verdade dos fatos e suas circunstâncias.

Assim, a verificação de lesões ou a necropsia; análise do estado mental do acusado ou a cessação


da periculosidade, a conveniência de interdição dos toxicômanos ou a desinterdição dos doentes mentais
recuperados, a incapacidade de alguém testar ou ser admitido como testemunha, constituem casos comuns.
Portanto, a inclusão da disciplina Medicina Legal no curso de Direito é de extrema importância onde
os acadêmicos são preparados para um futuro de audiências, sejam elas penais ou civis, onde possam
demonstrar o seu aprendizado como advogados, promotores, delegados, juízes e outras atividades jurídicas,
nas interpretações de documentos médico-legais, destacando-se os laudos periciais, pareceres e relatórios
que terão que ser interpretados no dia-a-dia destes profissionais, resultando na veracidade ou não de um
fato ilícito, condenando ou absolvendo agentes acusados ou indiciados.

O Poder Judiciário, desde a fase de inquérito, indo para o setor processual e até no julgamento,
necessita de provas estas realizar-se-ão com a colaboração dos peritos médicos legistas como auxiliadores
da justiça.

Bem utilizados tempestivamente anexados aos processos, os documentos médico-legais esclarecem


e auxiliam eficazmente a distribuição da Justiça. Não podemos concordar em opção quando falamos da
disciplina Medicina Legal no curso de Direito, pois isto é o maior absurdo, é um equívoco. O que será dos
acadêmicos de Direito em seu futuro, nas audiências quando se defrontarem com laudos e mais laudos
periciais sem saber interpretá-los; sem noções do que sejam lesões corporais e instrumentos causadores das
mesmas; como elaborar os quesitos e interpretá-los quando forem delineados pelos médicos legistas; como
ir para um Tribunal de Júri sem a mínima condição de defender ou acusar alguém de um delito sem o auxílio
da disciplina Medicina Forense que tanto ajuda os elementos que fazem parte do Poder Judiciário que traz a
tona às verdades dos fatos. A sua importância já referida por vários mestres na matéria faz-nos pensar o
contrário na retirada da disciplina Medicina Legal das Universidades de Direito no nosso País.

Pensam Antonio Francisco Bastos e Fortunato Antonio Badan Palhares, médicos legistas da
Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo:

Não se estimula a arte de pensar. O paciente ou cliente é um número e o computador dá o


diagnóstico ou a sentença. Esquece-se de que Medicina e Direito não são só ciências, mas são também arte,
amor, calor humano, poesia. E quando a morte vence a vida, a ciência e a técnica, devem, o calor humano,
o respeito ao próximo e, sobretudo, o amor aquecerem a lousa fria da sala de autópsia ou a penumbra do
salão do júri. Se assim o estudante de Medicina e Direito forem doutrinados, com certeza, mesmo na morte,
Direito e Medicina serão vida, e é por essa vida que lutamos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORAES, José Mauro de. Manual de Medicina Legal. Belo Horizonte/MG: Cultura, 1998.

FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina Legal. 7. ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2004.

SANTOS, J. W. Seixas. Medicina Legal Aplicada à Defesa Penal. São Paulo/SP: Pró-
Livro, 1979.

GOMES, Hélio. Medicina Legal. 33. ed., Rio de Janeiro/RJ: Freitas Bastos, 2003.

FRANCO, Paulo Alves. Medicina Legal Aplicada. 2. ed., Leme/SP: Do Direito, 1997.

MARANHÃO, Odon Ramos. Curso Básico de Medicina Legal. 8. ed., São Paulo/SP:
Malheiros Editores, 2000.

VASCONCELOS, Gerardo. Lições de Medicina Legal. Rio de Janeiro/RJ:

Fonte: http://www.revistadedireitomedico.com.br (em Artigos)


Capturado em 04/10/2005