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Revolução na Música-

As Vanguardas de 1200 e 2000


Relação entre Vanguarda Política e Musical

Günter Mayer
Tradução do alemão: Marcos Branda Lacerda.

Observação , funções sociais da música, nas formas de sua


O tempo disponível para a discussão e aquisição "Inter-social", historicamente no-
apresentação de idéias não corresponde à va.(2) O que se manifestou na música em for-
grande abrangência do tema deste seminário, ma de revolução foi simultaneamente reflexo e
tomando necessária a reflexão sobre profun- agente da profunda transformação social gera-
das transformações em música e sociedade da pela mudança do modo de produção agrá-
apenas em grandes dimensões, e possfvel a ria, pela crise do sistema feudal clássico, pelo
elaboração do presente trabalho apenas na florescimento 90 comércio e de formas artesa-
forma abreviada de teses. Argumentação dife- nais de produção, pela emergente força de
renciada tanto histérica como teoricamente foi uma nova classe social urbana e pela urbani-
omitida, possibilitando, no entanto, que nos zação em geral através da proliferação das ci-
concentrássemos sobre o. essencial, buscando dades.(3) Esta foi uma época caracterizada pe-
uma compreensão genérica do fenômeno ex- lo revolucionamento de todas as formas de vi-
posto. da e produção, assim como do pensamento,
que veio a converter-se em revoluções polfti-
Primeira tese: Revolução na música cas consideravelmente mais tarde, como supe-
No período histórico compreendido entre ração das ultrapassadas relações de poder do
1200 e 2000 ocorreram duas revoluções na feudalismo em favor da/força econômica de-
música: terminante representada pela burguesia, do de-
1.1 A primeira deu-se através do proces- senvolvimento do sistema capitalista de re-
so de visualização da música nos séculos 11 e lações sociais expresso através de diferentes
12, ou seja, com a introdução e consolidação formas de organização política (Estados, par-
da notação musical como novo tipo de fixação tidos). A contradição entre nobreza feudal e
artesanal e transmemorial e o decorrente burguesia começou li se manifestar na estrutu-
exercfcio da composição em função de novos ra social durante os séculos 11 e 12 e, como
recursos oferecidos por esta mesma notação hoje sabemos, veio a determinar a lógica sub-
(quantificação dos sons, nova complexidade e seqüente do desenvolvimento social.
flexibilidade das estruturas musicais em seus 1.2. A segunda revolução vem aconte-
aspectos sonoros e melódicos). A notação pos- cendo com o processo de eletrificação da mú-
sibilitou. o desenvolvimento da polifonia, fez sica no século 20: com a introdução e consoli-
surgir" a divisão funcional do trabalho de com- dação da gravação eletroacústica como novo
posição.e interpretação e provocou a mistura tipo de fixação transmemorial mediada tecni-
de duas esferas da prática musical rigorosa- camente e como meio de produção e repro-
mente separadas em uma "estilfstica inter-so- dução do som. Isto significa uma profunda
cialmente sintética" (penetração da música transformação do exercício da composição
profana no setor religioso, enriquecimento do através do aparato eletroacústico no estúdio
modelo litúrgico com elementos lingüfsticos e de gravação. O processo de eletrificação dá
musicais populares).(l) margem a uma transformação comparável
Tudo isso representou uma súbita trans- àquela que fora deflagrada pela forma escrita
formação qualitativa nas estruturas profundas de fixação e levara a uma nova forma da pro-
de pensamento e vivência musicais, na com- dução musical e composição em função dos
preensão da tradição, na expansão do poten- novos recursos notacionais. Ela poderia ser in-
cial criativo (técnico e expressivo), nas terpretada como a negação da negação. A
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quantificação das sonoridades, da mesma for- mensões globais toda a música composta, in-
ma como a complexidade e flexibilidade das terpretada e devidamente anotada desde os sé-
estruturas musicais, atinge uma qualidade no- culos 11 e 12. O mesmo acontece com tudo
va e diluidora da aparência de naturalidade, aquilo pertencente a tradição e transmissão
fora do âmbito dos parãmetros tradicionais de oral, desde que ainda acessfvel e passfvel de
melodia, harmonia e ritmo, e sem o distancia- reconstrução. Da mesma forma como, naquele
mento técnico imposto pela notação. A inter- tempo, a música profana, de origem popular e
ferência visual produtiva não é mais necessá- bastante limitada territorialmente, penetrou na
ria e é neutralizada dialeticamente com a ele- esfera sagrada, a música popular do século 20
trificação do som. O mesmo vale para a neu- vem tomando lugar mundialmente no setor
tralização da divisão funcional entre compo- quase sagrado da música "artística" (Kunst-
sição e interpretação. A produção musical musik). Em um primeiro momento, a sepa-
ocorre novamente através da audição e sub- ração entre música "séria" e "de entreteni-
seqüentes decisões (como nas formas antigas mento" toma-se aguda, mas acaba sendo neu-
de transmissão oral anteriores aos séculos 11 e tralizada através da eletrificação desta última
12, mas em um nfvel superior distinto, através em extensão a um processo iniciado na primei-
da mediação técnica). ra.(7)
A coleção e/ou a sintetização de sons e Tudo isso se constitui novamente em
ruídos, sua construção e combinação através uma súbita transformação qualitativa nas es-
de mistura, podem ocorrer concreta ou empiri- truturas profundas do pensamento e vivência
camente. Na configuração de variantes imedia- musicais, na compreensão da tradição, na ex-
tamente verificáveis, utilizáveis ou rejeitáveis, pansão do potencial criativo (técnico e expres-
que são crescentemente oferecidas pelos apa- sivo), nas funções sociais da música, nas for-
relhos, toma-se ilimitado o potencial de ge- mas de organização de sua aquisição "interso-
ração do "inusitado" e de fixação de sonori- cial " e historicamente nova. Toma-se deter-
dades dadas (música e não-música de todo ti- minante a coletivização da experiência e da
po, inclusive a "fotografia acústica" no senti- criatividade musicais sem limitá-Ias a estratos
do de autenticidade documentária e comuni- sociais e nacionais ou sistemas sociais opos-
cação direta da experimentação auditiva da tos.
realidade). O novo meio estimula a criativida- O que aqui Se manifesta na música em
de coletiva. Formas improvisadas de execução forma de revolução é simultaneamente reflexo
musical (surgidas também no jazz e sem a me- e agente das profundas transformações sociais
diação técnica dos aparelhos) tomam-se, em desde o infcio do século 20 com as mudanças
estágio superior, novamente essenciais ao pro- da forma de produção industrial, com a crise
cesso de composição. Dissipa-se eventualmen- do sistema social capitalista clássico na era do
te a fronteira entre improvisação e compo- imperialismo, com a emergência da força so-
sição.(4) cial do proletariado como força social nova,
A aparelhagem destinada à produção e politicamente organizada, participante na de-
elaboração do som vem se tomando acentua- terminação do futuro, com a Revolução de
damente menor e mais barata - e com isso Outubro e o início da construção de um tipo
mais acessfvel individualmente - através de de sociedade de orientação socialista após a
inovações constantes, com o objetivo de cor- Primeira e a Segunda guerras mundiais, com o
responder à orientação de lucro da indústria desenvolvimento tempestuoso da revolução
musical. Desta maneira, delineia-se aqui a técnico-cientffica (que abrange inclusive a
formação de um enorme potencial de imanên- transformação recente das tecnologias de co-
cia polftica não apenas de "democratização" municação e informática), em suma: com a
dos processos de recepção, mas também de evolução dos processos de socialização capita-
produção musical, relativamente independente lista ou socialista. .
dos estúdios das grandes instituições - o que A era industrial.caracteriza-se pela eletri-
se manifesta claramente há anos no setor da ficação da transmissão e desenvolvimento da
música popular.(5) experiência auditiva da realidade e de si mes-
A "estilfstica intersocialmente sintética" ma, desde os anos 20, ainda de forma tenden-
abrange música de todas as espécies do passa- cial (por exemplo, na utopia da música ra-
do e presente: "a coexistência de fenômenos diogênica, ou na arte do ruído de Luigi Russo-
acústicos distintos, surgidos em épocas dife- 10),(8) e Da segunda metade de nosso século,
rentes, constitui a inovação musical e uma pe- de forma determinante, a partir dos grandes
culiaridade deste século".(6) Através da eletri-· estúdios da música "séria" e da indústria da
ficação e da fixação e reprodução mediadas música pop para se estender .à totalidade da
tecnicamente, toma-se disponível em' di- cultura musical mundial.(9) Isso significa para
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a música o desligamento relativamente tardio temporânea", possui validade como categoria


da produção artesanal individual, da relação historiográfica com pretensão de centrali-
direta sensual e táctil entre o homem e a fer- zação." (11)
ramenta (instrumento), através do aparato téc- Esse conceito surgiu na esfera polftica e
nico eletro-acüstico e seu modo tecnificado de militar sobretudo do século 19, alheia ao de-
existência e produção, cada vez mais domi- senvolvimento das artes. Ao ser aplicado aos
nante na vivência quotidiana. revolucionários musicais, pensou-se apenas no
O processo geral de revolucionamento que haveria de "avant" em suas atitudes, es-
social de todas as formas de produção e de vi- quecendo-se de que o conceito em sua
da, da "orientação" da realidade em direção acepção original fazia também menção à "gar-
às massas e das massas em direção à realidade, de". O "avanço" destes revolucionários e sua
é um processo de importância ilimitada, tanto evolução a despeito do sistema de valores mu-
para o pensamento quanto para a intuição.(lO) sicais convencionalizados - ocorridos parale-
Com certeza, isso aconteceu e acontece sob lamente ao progresso hist6rico e refutado com
condições de alienação exagerada, dominante veemência sob a alegação de ""destruição da
e própria à essência do capitalismo ou de sua música" pelos burocratas musicais e grande
transposição modificada às relações socialistas parte dos ouvintes a partir da ideologia musi-
estagnadas nos esforços político-revolucioná- cal preponderante da maioria dos tradicionalis-
rios extremamente demor ados e complicados tas e epígonos - não os faz de maneirane-
de superar as raízes e formas de manifestação nhuma "vanguardístas"; O que falta à sua ati-
desta alienação através de uma prática genui- vidade significante, heterogênea e criativa (in-
namente socialista. Isso aconteceu e acontece clusive àquela exercida pela segunda escola de
sob a iminência do progresso técnico-científi- Viena, da qual Eisler ainda hoje é excluídojê
co, em suas formas essencialmente determina- exatamente aquilo que caracteriza a vanguarda
das pelo capitalismo, conduzir até o limite de em sua concepção militar e polftica: organi ..
um possível extermínio da humanidade, tor- zação, disciplina e a orientação de conduzir a
nando necessária uma resposta à questão da ações vitoriosas as massas (soldados, militan-
possibilidade e sentido da vida humana nos tes, participantes da classe não organizados, o
sistemas sociais vigentes no interesse da so- povo) - mediante a construção e funcionamen-
brevivência coletiva e humanamente digna, to de organismos, instituições e aparelhos.
ainda que sob a preservação da paz. Natural- Com certeza, existiram no círculo do CIt-
mente isso tem conseqüências para a determi- bismo, dadafsmo, futurismo russo, surrealisrm
nação da relação entre vanguarda política e e construtivismo em outras artes, durante 05
musical. primeiros 30 anos deste século, tendências de
Em comparação à profundidade e ex- revolta e ruptura, assim como uma crítica radi-
tensão desta revolução na música, outras ino- cal e suspeição das relações culturais e artísti-
vações essenciais no contexto da hist6ria da cas burguesas. Tais tendências se caracteriza-
música recebidas em sua época como revolta e vam pelo "ataque à estética da autonomia ... ";
ruptura, determinando fundamentalmente o de- pela "funcionalização da arte"; pela tentativa
senvolvimento posterior, desempenham um de extrair conteúdo social e novos caracteres
papel secundário. Nesta definição se insere formais do relacionamento entre arte e técnica-
também a "revolução de material" de Schoen- de maneira geral: por um grau elevado de ino-
berg, que se localiza de certo modo ainda no vação dos meios artísticos e, finalmente, "poe
contexto da primeira revolução, marcando seu um grau elevado de capacidade de organi-
final e a emergência de novas categorias no zação, formação de grupo e intemacionali-
interior das antigas. zação", assim como uma orientação socÜII
progressiva explícita ou implícita pelos i~
Segunda tese: Vanguar-da musical resses e necessidades das massas (pensemos
O estímulo inovador que gera a revo- na ""Bauhaus").(12)
lução parte de atuações individuais extraor- Na música avançada, seja no expressio-
dinárias que neutralizam o sistema de valores nismo ou em seu oposto, na nova objetividade.
musicais prevalecente em uma determinada ou ainda em outros movimentos, não impor-
época, e não de "vanguardas" musicais. tando quais tenham sido os seus nomes, não
"Mesmo uma apreciação superficial das reali- surgiu nada de comparável, apesar de algumas
dades musicais presentes coloca em questão características em comum com estes focos
se o conceito de vanguarda, definido habi- vanguardistas em outras artes.(13) E os atores
tualmente apenas como um conglomerado de não sinalizaram a disposição de se autodene-
revoluções de material individuais no setor da minarem ou de se deixarem chamar de revele-
chamada música "séria"; "nova" ou "con- cionários ou "vanguardistas", Esta conste-
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lação não existiu nos séculos 11 e 12. A trans- ca fluem para uma larga corrente de "amado-
formação revolucionária daquele tempo deve res" - de "diletantes geniais" - que se locali-
ser interpretada em categorias distintas daque- za sobretudo nas camadas jovens do público
las relacionadas ao conceito de vanguarda de massa e se utiliza crescentemente da técni-
histórica como meio de compreensão do de- ca "profissional", ascendendo em razão do es-
senvolvimento musical nos três primeiros treito relacionamento com sua pr6pria realida-
decênios deste século ou, ainda, em signifi- de de vida ao esquema profissional de pro-
cação mais geral, no período posterior à Se- dução musical.(l6)
gunda Guerra através de suas manifestações
serialistas, aleatórias ou de música eletrônica. 2.3 Esta revolução não pode ser igual-
As afirmações feitas na primeira tese deste ar- mente definida do ponto de vista exclusiva-
tigo sobre a segunda revolução, na qual ainda mente técnico-composicional ou em função da
nos encontramos, leva a conseqüências, a par- criação de obras musicais. Ela não vem sendo
tir das quais o conceito de "vanguarda" musi- realizada apenas por compositores, mas também
cal torna-se efetivamente problemático - a pela atividade criativa de inúmeros inovado-
despeito da crítica nostálgica da "vanguarda" res, sem a qual os novos produtos, a revolução
empreendida pela nova objetividade de das relações musicais ou da cultura musical
tendências neo-românticas, a despeito também como um todo, não pode ser interpretada.
da passagem para o chamado pós-modernismo. Mesmo a produção musical considerada isola-
As realizações revolucionárias devem ser en- damente já está mais adiantada do que o pro-
tendidas, individual e objetivamente, de forma cesso composicional tradicional. Dela fazem
mais abrangente do que se vem fazendo habi- parte ativamente intérpretes, técnicos de estú-
tualmente. dio, produtores, funcionários musicais em am-
plo sentido, assim como cientistas, inventores
2.1 Esta revolução não deve ser definida e construtores de aparelhos.
apenas a partir da cultura musical elevada,
centrando-se nos célebres estúdios de música 2.4 Esta revolução leva a uma diluição
eletrônica de Colônia, Milão, etc. ou nos mais das fronteiras entre música "séria" e "de en-
modernos e avançados com suas apresentações tretenimento" e entre gêneros musicais; ela le-
em concertos, festivais ou eventos especiais va à combinação e slfntese, à colagem, à mon-
como o auditório esférico na exposição mun- tagem e, desde os anos 80, à "bricolage" dos
dial de Osaka de Karlheinz Stockhausen.(14) músicos da mídia.(l7) Dá-se também a di-
. Esta revolução se realiza igualmente no setor luição das fronteiras entre a música e outras
da música popular (no jazz e no rock avança- artes através da criação de formas "rnulti-mí-
dos, nas produções de intérpretes ligados à dia". Em relação a tendências do "p6s-moder-
mfdia). E, ao contrário do "mainstream" dos no" ou da "transvanguarda" registradas na
padrões da atividade composicional vanguar- "recorded musíc"; nas quais a eletrificação da
dista e eletroacústica no setor sério, a música música desempenha também um papel, se po-
"popular"; com suas formas avançadas, atinge deria imaginar a inadequação da questão sobre
um número muito maior de ouvintes, sobre- atividades avançadas. Pior ainda seria tentar
tudo jovens, criando igualmente seu "rnains- responder a esta questão com base neste tipo
tream" de inovações do rock convencionaliza- especffico de produção musical. Novamente,
das e absorvidas pela indústria musical (como aqui não cabe referir-se à "avant-garde": Por
por exemplo a música de discotecas), para cu- outro lado, existem, é claro, revoltas, mas con-
jo público de massa a música eletroacústica tra o "avanço", contra o moderno, ou seja,
tornou-se uma experiência diária de diversas contra a ·"avant-garde". E a orientação atual
horas.(15) dos "revolucionários" musicais pela moderni-
dade, pela novidade no sentido do progresso
2.2 Esta revolução não se deixa definir musical e social, é questionada; suas possibili-
apenas através da atuação dos produtores pro- dades exclufdas da pauta de discussão; e a
fissionais de música que passaram por um lon- continuidade e obrigatoriedade de valores ou,
go período de formação. Considerando-se ainda mais, uma transformação significante de
a música popular, o profissionalismo deve ser valores, irooizada ou negada. Parece que te-
entendido mais extensivamente, envolvendo dos .os valores nos supermercados e hotéis de
aspectos essenciais de coletividade em con- luxo soantes são abandonados e conduzidos à
traste com a atividade dos individualistas de beira do abismo.
orientação burguesa ou socialista nos estúdios A quem serve tudo isso?, uma pergunta
eletrônicos "sérios". Desta forma, muitas ino- que não deve ser esquecida, evitando-se, ao
vações decorrentes da revolução eletroacústi- mesmo tempo, julgamentos generalizantes. É
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necessário que se verifique seriamente o que Vanguardas polfticas são um tipo deter-
se esconde neste múltiplo pós-moderno, no ba- minado de partidos polfticos: não os conserva-
lanço da extrema complexidade e máxima dores e liberais, e, muito menos, os fascistas.
simplicidade, no eéletismo demonstrativo e O conceito de vanguarda política de meados
na banalidade, em profundas decepções e na do século passado e, principalmente, do século
auto-ironia, em temores e premonições, possi- atual relaciona-se ao tipo de partidos comunis-
velmente também em idéias construtivas e tas e trabalhistas que se definem como uma
possibilidades de desenvolvimento.(18) Os re- "associação de luta de correligionários", co-
sultados de uma tal verificação serão mais ex- mo "partido de cúpula", cujo objetivo consis-
pressivos se ela for efetuada a partir de um in- te em conduzir as massas da classe trabalhado-
teresse determinado: trata-se da questão fun- ra e todo o povo à revolução socialista, à su-
damental do sentido e perspectiva da existên- peração da supremacia do capital e decorren-
cia humana e, ao mesmo tempo, de uma admi- tes antagonismos da alienação, à fundação de
nistração pertinente e soberana, o que signifi- uma nova sociedade, primeiramente socialista
ca também polarização e, em decorrência dis- para então, gradualmente, transformá-Ia em
so, limitação de possibilidades ilimitadas. Tra- comunista, na qual seriam extintas as classes
ta-se, portanto, da qUl1stão das funções sociais sociais e abolida qualquer política ou van-
significantes de músicas em sociedades que não guarda política. Fatores essenciais para o fun-
estão "se divertindo às baldas"(19) ou que, cionamento destas vanguardas políticas são:
"perplexas e bem-humoradas" ,(20) naufragam disciplina revolucionária através da tomada de
no barbarismo. E isso nos levará a resultados consciência, centralisrnó democrático, propa-
mais úteis, caso, neste interesse, se pergunte ganda e agitação de" massa, ação coletiva co-
diferenciadamente quais posições filosóficas ordenada, solidariedade nacional e internacio-
fundamentais - também contrariamente àque- nal, crítica e autocrítica.
las já assumidas conscientemente ou não - es- Estas vanguardas eram politicamente
tariam contidas na multiplicidade de eventos avançadas', desde que tratassem de analisar
sonoros e naquilo que é comum a eles, bem mais profundamente que outros partidos as
como de que maneira tais eventos se compor- contradições sociais dadas e elaborar progra-
tam em relação às necessidades e interesses de mas gerais em estratégia e tática e conceitos
minorias poderosas econômica e politicamente de ação que se encontrassem objetivamente no
ou da grande e oposta maioria dos" seres hu-. nível do historicamente necessário e possível.
manos deste planeta ameaçado. Isto pressupõe Estas vanguardas eram "avançadas" desde
uma análise exaustiva, um esforço na busca de que soubessem atingir as massas populares e a
conceitos e da racionalização em relação à fi- classe, desencadear e generalizar iniciativas,
losofia e às teorias da arte, sociedade e perso- realizar as alianças necessárias e, por ocasião
nalidade para se chegar às causas desta crise de ações reais contra a exploração e opressão,
de fim de época nos países capitalistas desen- fomentar o difícil processo da emancipação
volvidos, mas também às causas da crise do real da massa no sentido do acréscimo de so-
movimento comunista e sindical e do atual berania em face das condições naturais e sociais
conceito de progresso em vigência nos países de vida. Esta vanguarda agia e age com base
socialistas. Além disso, é preciso que se che- nos interesses da classe trabalhadora e, em sua
gue a conclusões plausíveis sobre a realidade essência, ao mesmo tempo, com base no inte-
atual e se proceda a elaborações das possibili- resse da humanidade. Não se trata de assegu-
dades para o futuro, que - "consciente mas rar o interesse especial de uma classe domi-
infeliz" - conduzam a ações significantes, nante privilegiada, mas sim da neutralização
competentes e cooperativas e modificações da sociedade de classe. Com isso se justifica a
reais. conseqüência em seu combate contra a guerra
imperialista, contra todas as formas de racismo
Terceira tese: Vanguarda política e fascismo, contra a escalada armamentista e a
Para a definição do conceito de vanguar- favor de uma transformação da ordem política
da polftica necessita-se recorrer à história. mundial.
Vanguardas políticas pertencem ao passado, De maneira geral, isso tem validade para
ao presente e se tomarão possíveis no futuro, suas funções polfticas de, sob a predominância
desde que venham a ser diferentes do que fo- de condições capitalistas, ou após a revolução
ram até hoje. Sem organização, sem generali- vitoriosa, assumir plena responsabilidade pelo
zação programãtica de experiências polfticas perfilamento socialista de todos os setores do
progressivas e sem ações de massas coordena- desenvolvimento social.
das, não poderão ser encontradas as alternati- Como se sabe, este "tipo ideal" de van-
vas necessárias do desenvolvimento social. guarda polftica se realizou no decorrer do sé-
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culo 20 em um processo nacional e internacio- gressista que requeriam para si. E elas se en-
nal muito complicado, isto é, ele não se reali- contram ainda hoje em uma posição complica-
zou de forma ideal, em razão de condições di- da e contraditória, pois o desenvolvimento do
ferenciadamente difíceis (regiões subdesen- capitalismo possui "uma estabilidade maior do
volvidas cultural e economicamente; experiên- que se supunha anteriormente!!!" "O socia-
cia polftica das massas populares pouco de- lismo ainda não forneceu nenhum exemplo
senvolvida; força e flexibilidade de uma bur- convincente para as massas nos países ociden-
guesia nacional ainda dominante ou inter- tais de uma profunda democratização da so-
ferência da burguesia internacional na dis- ciedade e de uma solução mais rápida de pro-
cussão sobre capitalismo e socialismo). blemas econômicos. Acrescente-se a isso os
Por outro lado, foram registrados êxitos processos negativos no desenvolvimento em
e períodos de grandes transformações e entu- uma série de países socialistas ... ", que condu-
siasmo, nos quais as massas puderam viven- ziram a estagnações e situações de crise. Fi-
ciar mudanças reais, como a Revolução de nalmente: .os comunistas estão "nitidamente
Outubro e os famosos anos 20 na jovem União atrasados na dimensão da cooperação interna-
Soviética (que, apesar de seu atraso econômi- cional em comparação com as atividades in-
co, era, naquele tempo, pelo menos em seus ternacionalistas de outras correntes polfticas
centros, uma "sociedade avançada" política, (social-democratas, "verdes", cristãos, con-
cultural e artisticamente); as tendências sociais servadores e liberais)". Eles se "atrasaram no
na Alemanha da República de Weirnar sob reconhecimento das novas realidades no final
inspiração do Partido Comunista Alemão do século 20", assumindo uma posição de "ar-
(KPD) e a influência dos acontecimentos na riêre-gardev.râ l) Isto foi reconhecido, o que
União Soviética (o que perdurou até a vitória vem a mostrar diversas iniciativas do Partido
da contra-revolução fascista); os anos 30 na Comunista da União Soviética que vêm se
Espanha, igualmente neutralizados pelo fas- constituindo em um novo "avanço" da política
cismo; o surgimento dos países socialistas eu- nacional e internacional. Este avanço tem co-
ropeus após a Segunda Guerra Mundial (com mo pré-requisito e conseqüência a recons-
a vitória da União Soviética contra o fascismo trução de novas "guardas" e uma abrangente
alemão e sem a realização de revoluções na- reforma da totalidade das relações políticas,
cionais próprias); e, através de revoluções vi- que precisa chegar à qualidade de uma revo-
toriosas, a transformação polftica na China, lução para o êxito de suas propostas.
Coréia, Cuba e em alguns países africanos; os Esta mudança radical revolucionária se
acontecimentos polfticos na França e na Itália revela internacionalmente em uma política da
nos anos 60 e 70, ainda que sem revoluções razão e do diálogo, voltada para a coexistên-
vitoriosas; parcialmente também os aconteci- cia, cooperação e evolução conjunta de am-
mentos em Portugal, Chile, Nicarágua, etc. bos os sistemas existentes de orientações
Registraram-se, portanto, grandes derrotas na opostas e para uma nova amplitude de alianças
luta contra o fascismo, o que tange não apenas com maior tolerância em relação a indivíduos
às vanguardas políticas, mas sim à grande de outra orientação política, manifesta nacio-
maioria do povo. nalmente em uma democratização socialista
Registraram-se também, como se sabe, conseqüente.(22) Tudo isso se constitui em
grandes derrotas dentro das vanguardas políti- processos intrincados da discussão com as for-
cas: as conseqüências devastadoras do stali- ças reacionárias ou conservadoras da burgue-
nismo na União Soviética e seus efeitos nos sia ou com .as forças conservadoras no movi-
países socialistas e no movimento comunista mento comunista e nos países socialistas.
internacional - ou seja, deformidades polfticas
que após 1956 não podiam ser superadas ime- Quarta tese: Vanguarda política - van-
diatamente, permanecendo até o início desta guarda musical?
década e que vem sendo combatidas energi- Das reflexões e da conceituação histórica
camente pela direção do partido comunista so- de vanguarda política precedentes resultam
viético. Mesmo com sua "guarda" destruída conseqüências para a consideração de suas re-
pelos fascistas, os comunistas souberam man- lações com a música moderna, nova ou avan-
ter sua posição de "avanço". Com as derrotas çada (e da revolucão musical desencadeada
em sua estrutura interna, isto é, a incapacidade pela eletrificação). O problema da relação en-
de superar conseqüentemente as deformações tre vanguardas política e musical existe apenas
não reconhecidas em profundidade, ou de im- a partir da Revolução de Outubro.
por um pensamento e um corpo de atitudes
políticas realistas, as vanguardas políticas per- 4.1 As vanguardas políticas inspiraram e
deram parcialmente a função histórica pro- fomentaram o desenvolvimento da música
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avançada nos períodos em que estavam em O PCI tinha politicamente a seu lado grande
condições de desencadear processos de ampla parte dos músicos progressistas (Nono, Man-
renovação social, e também de conduzi-lo em zoni, Gentilucci, Liberovici, Lombardi, o mo-
relação de reciprocidade com as massas popu- vimento e a revista "MusicalRealtá").
lares e de trabalhadores: na jovem União So-
viética, a vanguarda política e a música avan- 4.2 No entanto, existiram também perío-
çada estavam objetivamente em um mesmo ní- dos nos quais o stalinismo continuava exer-
vel, assim como o engajamento político dos cendo influências sobre a polftica musical com
(escassos) músicos progressistas era quase ób- suas duradouras conseqüências sobre as cultu-
vio e a polarização das partes politizadas da ras musicais. Estes períodos foram o início dos
classe trabalhadora não significava um entrave anos 30 na União Soviética, e, ainda mais
para inovações e experimentações, mas, ao acentuadamente, o período ap6s 1948 no
contrário, tornava-se uma razão para a partici- mesmo país e, nos países socialistas, o perío-
pação destas partes com o mesmo espírito ino- do que durou até a década de 60 e o início dos
vador através da ampliação de novas formas anos 70. Neles se estimulou e se impôs admi-
de recepção das artes para fora da esfera nistrativamente uma interpretação c1assista e
acadêmica.(23) As pessoas relevantes em ter- baseada em princípios de uma sociologia da
mos de política mus'ical eram relativamente to- vulgaridade de adequação à tradição e orien-
lerantes apesar de possuírem um comporta- tação pelos preceitos de uma sociedade de
mento fundamentalmente c1assista. Este pro- massas (refletida na supervalorização da he-
cesso teve conseqüências nos países capitalis- rança clássica e da música popular). Ao mes-
tas na década de 20, como, por exemplo, na mo tempo exagerou-se na limitação de in-
Alemanha. Pela primeira vez na hist6ria do fluências ideol6gicas "inimigas" da música
movimento sindical, músicos profissionais al- "burguesa" ,c/ "decadente", não compreendi-
tamente especializados - e exatamente de das em sua contraditoriedade interna. Para isso
tendências progressistas - se aproximaram dos utilizaratn-se os meios de uma ditadura pa-
fundamentos políticos vanguardistas e se en- ternalista que agia em nome do povo musical-
gajaram por seus objetivos revolucionários, mente pouco qualificado e deformado e exer-
colocando sua alta qualificação a serviço da cida por funcionários igualmente pouco quali-
prática política, cultural e musical do movi- ficados e de escassa formação musical.
mento, da nova coletividade de correligioná- As conhecidas lutas contra o "formalís-
rios das outras artes (Scherchen, o grupo de mo" e o "modernismo" na música foram em-
novembro, Eisler, "Kampfmusik", Liga dos preendidas não apenas em relação aos músicos
Escritores do Proletariado Revolucionário, da vanguarda histórica propriamente dita mas,
etc.). após 1948, atingiu também obras de Shosta-
Apenas a partir desta época pode-se falar kovich, Prokofiev, Bartok, Hindemith ou
em uma relação de reciprocidade entre van- mesmo Eisler.(24) E esta política prejudicial à
guarda política e musical. Nela existia um es- totalidade das relações musicais foi ativamente
paço relativamente grande para experimen- praticada e representada por músicos de orien-
tação, para a descoberta de novos conteúdos tação socialista e ideõlogos musicais, para
sociais e a busca de uma síntese nova e origi- quem a música nova e progressista nada tinha
nal entre qualidade artística e simplicidade, a oferecer e que em sua argumentação vulgar
para a junção da revolução musical de material foram obrigados a lançar mão direta ou indire-
com a revolução técnica e polftica representa- tamente da crítica vulgar dos ideõlogos musi-
da, por exemplo, pelo conceito eisleriano de cais do conservadorismo burguês à vanguarda,
"música aplicada". E, naturalmente, isso não aproximando-se fatalmente da ideologia musi-
ocorria' livre de contradições, embora não cal fascista. E já que para os funcionários
houvesse nenhum tipo de regulamentação. políticos valia como especialista qualquer um
Tendências semelhantes em períodos que refutasse a "vanguarda" e aceitasse sem o
comparáveis após a Segunda Guerra Mundial exercício da crítica a reação negativa do pú-
podem ser vistas, por exemplo, na Itália dos blico de massa a qualquer tipo de música m0-
anos 60 e 70. O PCI com sua força política de derna, tudo aquilo que fizessem os músicos
grande tradição, autoridade e poder de ampla progressistas em direção à renovação hist6rica
atuação desenvolveu uma política musical não teria chance de penetração e atuação s0-
aberta para o novo sem recair nas vulgaridades cial. Mesmo os músicos progressistas de con-
decorrentes das idéias de Shdanow e segundo vicção socialista não foram compreendidos
a qual nem todas as formas da criatividade naqueles anos em suas próprias áreas de
musical eram medidas segundo os critérios de atuação, encontrando grandes dificuldades em
adequação à tradição e penetração nas massas. superar conflitos.(25)
16 Revista Música, São Paulo (1):9-17, mai.1990

Esta situação fatal não pôde conter o função e significado e difícil de ser compreen-
empenho pela música progressista por parte dida. E, finalmente, a música progressista
daqueles realmente interessados. No entanto, permitida ainda que, dentro deste quadro, for-
ela teve conseqüências bastante negativas, já malmente não engajada e individualista atuou
que os "modernos" moderados de tendências em relação aos ativos e inativos politicamente,
conservadoras e epigonais puderam determinar e aos musicalmente sensíveis e insensíveis
despreocupadamente o panorama musical da como fator de perturbação; como instância de
época. Apesar disso, registraram-se grandes intranqüilidade, de vaga objeção contra a con-
atuações no sentido de preservação da herança firmação representativa do status quo, ou de
clássica. Se, por um lado, as "vanguardas" sua harmonizante continuidade no futuro re-
políticas realizaram nos tempos da recons- querida pelos músicos conservadores, modera-
trução grandes obras econômicas e sociais, por damente modernos ou epigonais.
outro lado, elas se comportaram em relação à Infelizmente, ainda não se pode dizer
música progressista de maneira conservadora e que a revolução musical do século 20, ou seja,
reacionária, ou mesmo iludente em face a seus a eletrificação da música, tenha sido abordada
objetivos populístas. na política musical dos países socialistas e nos
Desde os anos 70 não existe mais esta partidos trabalhistas e comunistas dos países
rivalidade com a vanguarda na política musi- capitalistas e do Terceiro Mundo de forma cor-
cal oficial. Os estímulos mecanicistas a uma respondente à dimensão que ela assumiu.(26)
orientação musical realista e socialista foram Esta inércia em relação ao reconhecimento ge-
relativizados, assim como foram suprimidas as ral e à consolidação fática do novo, não ape-
vulgaridades do passado e cada vez mais re- nas na música, é normal para qualquer organi-
conhecidas a potencialidade e eficiência das zação voltada para as massas, mesmo para
"vanguardas" artísticas com suas contradições uma organização politicamente progressista e
internas. A tolerância em relação à música de orientação socialista.
tomou-se maior. A orientação socialista e rea- Considerando-se o necessário revolucio-
lista é vista hoje implicitamente como carac- namento geral em todos os setores da vida nos
terística específica e programática de uma mú- dois sistemas sociais predominantes, obrigados
sica progressista. Mesmo alguns anos antes da à coexistência e à evolução conjunta para so-
introdução de reformas na política exterior, in- breviverem, as relações entre vanguardas polí-
terior e cultural por parte de Gorbatchev exis- ticas e progressividade musical podem ser sin-
tia na União Soviética um espaço relativamen- tetizadas da seguinte maneira:
te grande para a música progressista nacional As vanguardas políticas necessitam ser
e internacional, ainda que em poucos centros e pensadas mais amplamente, fora dos limites da
através de formas extraordinárias de apresen- centralização socialista tradicional e revolu-
tação e apesar da predominância da maneira cionária, para que possa entrar em atividade
antiga de pensar. O mesmo se aplica aos ou- uma grande "frente unitária" de seres com
tros países socialistas. idéias conflitantes com o fim de enfrentar as
Mas isto não significa de maneira ne- questões fundamentais da preservação da vida
nhuma que os músicos progressistas tenham se e da paz, assumindo todas as conseqüências
orientado, ou se orientem conscientemente pe- decorrentes de uma nova prática de tolerância
las respectivas políticas da atualidade ou pelo na discussão espiritual e filosófica. Por sua
engajamento no sentido socialista. No entanto, vez, a progressividade musical, extrapolando a
existiram e existem ainda músicos progressis- concepção de uma lógica de desenvolvimento
tas que não abandonaram os ideais socialistas musical relativamente autônomo, deveria ser
ou os conceitos progressistas também em um avaliada em primeira "linha segundo um con-
sentido político. A maioria, no entanto, teve texto musical idealizado integral, de configu-
um comportamento cético em relação às van- rações sonoras e conteúdos relacionados a es-
guardas políticas, ou mesmo um desinteresse forços diferenciados para a construção de um
implícito por polftica em face às experiências futuro da humanidade no sentido da emanci-
históricas e verdadeiras no período da estag- pação real e potencial das massas: no sentido
nação, mesmo porque este período coincide da libertação das conseqüências incontroláveis
com a crise geral de valor de uma situação no- dos processos de socialização.
va na qual se encontra a humanidade.
Uma política do "Iaissez faire" não ga- É óbvio que músicos deste século, enga-
rante uma relação de reciprocidade produtiva jados neste sentido nos países capitalistas, so-
entre vanguarda política e progressividade cialistas e do Terceiro Mundo, têm a prestar co-
musical, que, por sua vez, não pode ser defi- laborações decisivas a partir de suas tradições
nida globalmente como apolftica, destituída de e experiências (incluindo-se as experiências
Revista Música, São Paulo (1):9-17. mai.1990 17

amargas). E igualmente 6bvia a necessidade tamente necessário. Quanto mais seres huma-
de ainda maior paciência e resistência que na nos permanecerem indiferentes ou contrários à
vida polftica para que possa surgir uma coa- necessidade de um comportamento geral pro-
lizão da razão entre músicos progressistas de gressista tanto politicamente quanto musical-
tendências distintas (engajados politicamente mente - em face às dificuldades de sua for-
ou "apolíticos") e todos os outros músicos. mação - tanto mais prováveis e certos se tor-
Isto pode parecer ut6pico, mas é absolu- nam a decadência e o barbarismo.(27)

Notas e referências Rockmusik - - zÜr Asthetik UM Sotiologie eínes Massenme-


diums. Leipzig.
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1978. Das Weltbüd des mittelalteríichen Menschen, Dresden. Hom (eds.) Popular MUSlC 1, Fo/k. or popular? Dtsttnctions,
(4) Estas idéias foram formuladas por Chris Cuttler em uma Influcnces, Coruinuities, (Cambridge Universiry Press).
comunicação sobre otema "What ISpopular music?"; publi- p.159-l68
cada ín Popular music perspectives 2, papers frorn lhe second (17) V. Peter Kemper, 1988. "Flucht nach vom oder Sieg des
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ca v. também Frank Schncider, 1988.•• Postmoderne, neueste
1~8v.p~,I,~m In 'Aslhetik der Kunst, Berlim 1987, Seção Musik und wir? Zehn Stich--Punkte in ein buntes Gewebe".
1.3.1 In Musik und Gesellschaft 8. p.384-400; e Eberhardt Klemm,
"Von Musik in den Medien zu Musik für die Medien. Ge- "Níchts Neues unter der Sonne." id., p.400-403.
danken zu einer Asthetik "radiogener" Musik," p.82-101. (18) Wolfganll wetsch prestou 'uma excelente colaboração
O potencial aqui mencionado foi avaliado politicamente por para a superaçao de julgamentOs superficiais em" "Postmo-
Chris Cuttler. Em seu livro File under popular. Theoretical derne" - Genealogiê und B.eâeutung eines umstrittenen Be-
and critical writings on muslc, Londres. 1985, ele escreve o griffs." In " "Postinoderne" oder der Kampf um die Zukun-
segutnte: Já se pode prever que a luta pelo futuro da música se fI." V.nota(l7),p_9--36 ..
realizará através dos meios de gravação. As qualidades deste (19) V. Neil Postrnanc 1985. Wir amiisieren uns zu Tode, Ur-
meio, que são úteis à burguesia, já chegaram ti. um ótimo ní- leilsbild'!'!g ;111. Zeítaíter der Unterhultungsindustrie . Frankfurt
veI de desenvolvimento. Elas se transformaram na realidade a.M.. '
predominante da "cultura de massa", veiculada em forma de (ZO) Esta formulação tomei de empréstimo a Bernd Guggen-
mercadoria. O fator decisivo é que para a burguesia a !!lerca- berger, citado por Peter Kernper, v. nota (17), p.325. Origi-
doria não é avaliada segundo critérios culturais, mas SIm co- nalmente escreveu o autor: .• E melhor estar perplexo mas de
merciais. Por este motivo, as eo<?rmes possibi lidades de de- bom humor, do que consciente mas infeliz."
senvolvimento de valores culturais e estéticos oferecidas pe- (21) V. Anatoli Dobrynin, "Zur Verteidigung des Leninis-
tos meios de gravação e reprodução pernl.aD.ecem estagnadas. rnus." In Ncues Deutschland, 15.04.1988, p.Z.
E indiscutível que ao processo de "jccording" c de eletrifi- .(22) V. Michail Gorbatschow, 1988. Umgestaltung und nelles
cação são imanentes potenciais revolucionários que ... apenas Denkenjür WLSer La.nd und für die ganze 1Ve/t. Befhm.
em uma sociedade igualitária c destituída de classes sociais (23) V., entre outros, Sigrid Neef, 1986. "Alexander Mosso-
poderiam progredir. low, zwischen Phantastik und Realitiitsbezug." In Musik und
Estas contradições já estão sendo reconhecidas e passaram a Gesellschaft 10. p. 532-534.
exercer pressão sobre todo o setor musical. p.142. V. a esse (24) V. os documentos da reunião com representantes da rnü-
respeito também Günter Mayer, 1987. "Meôíen - Massen- sica soviética DO Comitê Central do Partido Comunista So-
Kúnste, Rückgriff auf Ausspcüehe und Anspcüche.auf Vor- viético de janeiro de 1948 e sua avaliação na Associação de
griffe." In Brecht 88, Anregungen zum Dialog über Yemunft Compositores Soviéticos de fevereiro de 1948 in A. Shda-
am Jahrtausende, Berlim. p.27o--Z85. . now, 1951. "Uber Kunst und Wissenschaft." Berlim.
(6) V. Frank Schneider, 1984. "Vorwãrts und {nicht) VCl:ges- p.46ff.; e a crítica a Eisler ín "Sowjetskaya Musyka",
sen. Einige vor-Iãufige Anregungen, über musikalische 5/1948, ou in Hanns Eisler, 1982, Musik und Poluík, Schriften
Avantgardcn heutc wieder nacfi-zúdenkcn." In Musik und 194R - 1062. edição critica de Günter Mayer, Leipaig, co-
Geseuschatt 8, p.398-403; "Aooiihrungsvcrsuchc". id., mentário p.22-24.
p.404-411;c id., 1979. Künstlerischs Avantgarde - Annã- (25) V. a crítica a ópera de Paul Dessau •'O interrogatório de
hru~gen an ein unabgeschlossenes Kapitel. Berlím. Lukullu", baseada em texto de Bertolt Brecht, que foi inte-
(7) V. GUSI de Meyer, "Minima! and rcpetitive aspects in Po- grada às decisões do 5" plenário do Comitê Central do Parti-
pular music" e Paolo Prato, "Close encounters between pops do Socialista Unificado da Alemanha (SED).
and classics". ln Popular music perspectives 2, v. nota 2. (26) Isto se expressa também nitidamente em um documento
p.387-396,375--386. colocado à discussão pública conjuntamente pelo Ministério
(8) V. Stefan Amzoll 1987/1988. Musik im Rundpnk der da Cultura da RDA e a Associação de Compositores e Mu-
Weimarer Repub/ik - Studien 'DJF Entstehungsgeschichte me- sícõlogos deste país. sob o título "Positionen und Uberlegun-
dienspezifischer Kunstproduktion und =vermiitiung, Disser- gcn zur weiteren Entwicklung der sozialistischen Musikkul-
tação Humboldt Universitât. tur in der DOR," publicado in Musik und Gesellschaft
(9) V. Krister MalmlRoger Wallis, 1984. Big sounds trom 6 (1987). Isto é compreensível, já que estas relações não fa-
smallpeqples. The music industry in S111J2llcountries. Londres.· zem parte também das reflexões musicol6gicas sobre as con-
(10) V. Waller Benjamin, 1970. "Das Kunstwerk im Zeital- tradições atuais e essenciais do desenvolvimento das culturas
ter seiner technisctien Reproduzierbarkeit'". In Lesezeíchen, musicais. V. "Traditionen in den Musikkulturen - Heute und
Leifzig. p.381. Morgen." Conferencia científica do Conselho Internacional
(11 Frank Sehneider, op.cit., p. 399. .. . de Música, Berlim, RDA, 1985, publicado em Leipz.ig 1987,
(12 V. FranJI. Schneider, Op.CIt., p.204--243; Karin Hirdina, ou as colaborações ao 89 Seminário de musicólogos marxistas
1981. Pathos de Sachlichkeii, Berlim. de países socialistas sobre o tema "a cultura musical socialista
(13) Isso também acontece porque a "revolução de material" da atualidade" , in Beitrâge zur Musikwissenschaft, 2( 1987).
I~
se realizou no âmbito da instituição tradicional do concerto e (27) Já em 1951, Hanns Eisler apontava para esta situação
da ópera sem a preocupação de questioná-Ia. Os artistas pro- historicamente nova. No texto "An meine Kollegen in West-
gressistas das outras artes foram mais radicais, assumindo não deutschland (A meus colegas na Alemanha Ocidental) Eislcr
apenas formas alternativas de trabalho mas também de vida.
V. Friedbert Strcljer, 1988. Revolte und Aufbruch, Musikhis- ~~eM~JfE~in~e~t~~ .7Muj~~;d~~6~~ea~~~~
torische Studien zum Expressionismus ín Deutschland, Disser- Eles passaram por um mar de sangue e Iãgrimas e quase que
taçâo, Martin Luther Universitãt. Halle, para uma exposição não sujaram seus sapatos. Assim eles esperam ter sorte mais
sobre as atividades musicais progressistas nos três primeiros uma Ve-L~quando vierem as pr6ximas catástrofes. Mas a arte
decênios deste século e suas categorias históricas e gerais. da bomba atômica torna isso impossível. Nenhum de nós de-
(14) V. Karlheinz Stockhausen, 197\. "Osaka-Pfojekt." In verã ter sorte desta vez. Este é um dos motivos. e. segura-
Texte zur Musík 1963-1970. Vol.3. Colônia. p.153--158; mente não o mais nobre, porque nenhum de n6s não pode se
Georg Katzer, 1983. "Entwicklungen und Perspektiven dar ao luxo de ficar alheio ao movimento pacifista ou sim-
elektfcakustischer Musik.' ln Musík und Gesellschaft 6. plesmente ignorâ-Io por fraqueza, arrogância ou negligên-
(15) V. Peter Wicke 1987, "Alltâglicher Lebensprozess und cia", in Hanns Eisler, "Musik und Politik, Schriften
Musikanaignung." ..ln Musik und Gesellsclwft 9; e id., 1987 194<1-1962, v. nom(24), p.I46.