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Mundos do TrabalhoPublicação eletrônica semestral do GT “Mundos do Trabalho” - ANPUH

Dossiê
Trabalhadores e Poder Municipal

Organização
Cristiana Schettini
Paulo Cruz Terra

Apoio logístico Janeiro/Junho 2013 Apoio institucional


PPGHIS UFSC Volume 5 - Número 9 PPGHIS UNICAMP
Mundos do Trabalho Publicação eletrônica semestral do GT “Mundos do Trabalho” - ANPUH

GRUPO DE TRABALHO “MUNDOS DO TRABALHO”


(http://www.ifch.unicamp.br/mundosdotrabalho/)

Coordenação Nacional
Aldrin Castellucci
Coordenações Estaduais
Mato Grosso Do Sul
Vitor Wagner Neto de Oliveira
Rio Grande Do Sul
Alisson Droppa - Coordenador
Icaro Bittencourt - Vice-Coordenador
Santa Catarina
Adriano Luiz Duarte
São Paulo
Dainis Karepovs
Paraná
Antônio de Pádua Bosi

ISSN 1994-9222

http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/
mundosdotrabalho

Apoio logístico Apoio institucional


Janeiro/Junho 2013
Programa de Pós-graduação Programa de Pós-graduação
Volume 5 - Número 9 em História da UNICAMP
em História da UFSC
Equipe Editorial

EDITORES Dick Geary


Clarice Speranza Nottingham University, Grã-Bretanha
Universidade Federal de Pelotas Flavio dos Santos Gomes
Cristiana Schettini Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Universidad Nacional San Martín John D. French
Deivison Gonçalves Amaral Duke Universtiy, Estados Unidos
Universidade Estadual de Campinas José Ricardo G. P. Ramalho
David Lacerda Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Universidade Estadual de Campinas José Sérgio Leite Lopes
Fabiane Popinigis Museu Nacional - Universidade Federal do Rio
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro de Janeiro, Brasil
Isabel Aparecida Bilhão Juan Suriano
Universidade de Passo Fundo Universidad de Buenos Aires, Argentina
Henrique Espada Marcel Van Der Linden
Universidade Federa de Santa Catarina International Institute of Social History, Holanda
Larissa Correa Marcelo Badaró Mattos
Correspondente do Instituto Internacional de Universidade Federal Fluminense, Brasil
História Social de Amsterdam no Brasil Marco Aurélio Santana
Marcelo Mac Cord Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Universidade Federal Fluminense Maria Célia P. M. Paoli
Osvaldo Batista Acioly Maciel
Universidade de São Paulo, Brasil
Universidade Federal de Alagoas
Michael Mcdonald Hall
Paulo Cruz Terra
Universidade Estadual de Campinas, Brasil
Universidade Federal Fluminense
Michel Ralle
Vinícius de Rezende
Université de Paris IV (Sorbonne), Paris
Escola DIEESE de Ciências do Trabalho
Mirta Zaida Lobato
CONSELHO EDITORIAL Universidad de Buenos Aires, Argentina
Alexandre Fortes Norberto Osvaldo Ferreras
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil Universidade Federal Fluminense, Brasil
Antonio Luigi Negro Prabhu Mohapatra
Universidade Federal da Bahia, Brasil University of Delhi, Índia
Barbara Weinstein Sidney Chalhoub
New York University, Estados Unidos Universidade Estadual de Campinas, Brasil
Beatriz Ana Loner Vitor Wagner Neto de Oliveira
Universidade Federal de Pelotas, Brasil Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil
Beatriz Mamigonian
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil GERENTES
Cláudio Henrique de Moraes Batalha Henrique Espada Lima
Universidade Estadual de Campinas, Brasil Fabiane Popinigis

FICHA TÉCNICA
ORGANIZAÇÃO DO NÚMERO Cristiana Schettini e Paulo Cruz Terra
REVISÃO DE TEXTO Denize Gonzaga
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Virgínia Loureiro
COLABORARAM COM ESSE NÚMERO
Ana Carina Azevedo (Universidade Nova de Lisboa), Anderson Pires (UFJF), Antonio Luigi Negro (UFBA),
Carlos Augusto Pereira dos Santos (Universidade Estadual Vale do Acaraú), Carlos Zacarias de Sena
Júnior (UFBA), Cesar Monaco (UNGS), Claudia Baeta Leal (IPHAN), Cristina Scheibe Wolff (UFSC), Elizabete
Rodrigues da Silva (SEC-BA, UFRB), Endrica Geraldo (UFSC), Gladyson Stélio Brito Pereira (UNEAL),
Luciana Aparecida Aliaga de Oliveira (UEL), Marcelo Badaró Mattos (UFF), Márcia Cury (UNICAMP), Mar-
cos Tadeu Del Roio (UNESP/Araraquara), Maria Celma Borges (UFMS), Maurício Sardá Faria (UFPB),
Osvaldo Batista Acioly Maciel (UFAL), Raquel Cardeira Varela (Universidade Nova de Lisboa), Rinaldo
José Varussa (UNIOESTE), Victoria Basualdo (CONICET), Vinícius de Rezende (Escola DIEESE de Ciências
do Trabalho) e Wellington Castelucci Jr. (UFRB).
Apresentação do dossiê
Trabalhadores e Poder Municipal
Cristiana Schettini*
Paulo Terra**

Enquanto preparávamos este dossiê, observamos os diversos grupos de ho-


mens e mulheres que voltam a ocupar as ruas de muitas cidades do Brasil para pro-
testar. Uma vez mais parece tratar-se de uma dessas ocasiões especiais que con-
tribuem à formulação de novos desafios para a política e para a história, e também
para a renovação das perguntas que alimentam o ofício. A tarefa de entender, des-
crever e avaliar quem são esses agentes e o que os motivam volta a estar na ordem
do dia. Pelo menos para aqueles de nós que nesses momentos compartilhamos o
incômodo de Ciro Flamarion Cardoso com “uma historiografia que não se mostra
preocupada com o mundo ao qual pertence”. 1
Os historiadores sociais já tiveram incontáveis oportunidades para aprender
que as razões que levam as pessoas às ruas costumam ser diversas e mutáveis.
Ao longo do tempo, muitas dessas manifestações nos ensinaram a ampliar o que
consideramos como política e a reconhecer tradições de lutas, noções de direitos
e do justo compartilhadas, que alimentam e delineiam esses momentos cruciais
da experiência social. Dificilmente podem ser agrupadas e restringidas a pares di-
cotômicos, tentação para os apressados e boa parte da imprensa (de outros e de
tempos mais próximos aos nossos). Também não surpreenderá os historiadores
sociais a observação de que, quaisquer que sejam os motivos de tantas gentes,
eles costumam incluir questões da vida cotidiana e de acesso a determinados servi-
ços. Se hoje em dia a garantia a muitos deles se considera como parte dos direitos
universais básicos, é evidente que continuam faltando para uma parte grande dos
trabalhadores instalados nas cidades.
A imagem da capa deste dossiê nos lembra um desses momentos da história
do Rio de Janeiro. Em novembro de 1904, foi difícil para muitos contemporâneos
decifrar a fúria daquelas pessoas que viraram os bondes nas ruas das adjacências
da praça da República, assim como saber quem eram e o que queriam. De fato, até
hoje os historiadores continuam discutindo sobre o que despertou a ira daqueles
grupos: foi a vacina obrigatória, foi o avanço das reformas urbanas violentas e ex-
cludentes, foi a péssima qualidade do transporte e da moradia? Ou havia motiva-
ções golpistas de grupos políticos republicanos radicais ou monarquistas?2 Mais

* Pesquisadora do CONICET com sede no Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género – Universidad de


Buenos Aires. Professora no Instituto de Altos Estudios Sociales da Universidad Nacional de San Martín.
Contato: cschettini@hotmail.com
** Professor da Universidade Federal Fluminense, Polo Campos dos Goitacazes. Contato: p003256@yahoo.com.br
1 Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, n. 84, set. 2012.
2 Para um balanço completo do debate historiográfico sobre a revolta da vacina nas últimas duas décadas,
ver: PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. As barricadas da saúde: vacina e protesto popular no Rio de
Janeiro da Primeira República. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2002.

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CRISTIANA SCHETTINI, PAULO TERRA

provavelmente se tratava de tudo isso junto. Os acontecimentos de novembro


pareciam expressar lutas materiais e simbólicas nas quais se confrontavam tradi-
ções culturais e experiências sociais diversas. Mas se é difícil chegar a um acordo
sobre motivações, parece que sempre esteve claro, tanto para os contemporâne-
os como para os historiadores, quem foi que teve que pagar a conta das custosas
obras de reforma urbana, que embelezou ruas, alargou avenidas, modernizou a
iluminação pública, mas não melhorou as condições de transporte e de moradia da
maioria dos moradores da capital da ainda jovem República.3
E com isso nos aproximamos do que inspira este dossiê. Resguardadas as es-
pecificidades de cada período histórico, o poder público mais próximo e talvez mais
fortemente identificado com a provisão desses serviços era o municipal. Este âmbi-
to, talvez o mais cotidiano, de encontro entre o Estado e os trabalhadores, e ainda
tão pouco conhecido em suas peculiaridades, surge cada vez mais como um recorte
promissor para os historiadores do trabalho. Nesta breve introdução, queremos cha-
mar a atenção para as possibilidades analíticas que se abrem a partir do tratamento
do âmbito municipal como um prisma para iluminar certas dimensões de conflito
social que perpassavam a experiência cotidiana dos trabalhadores na cidade.
Se o poder municipal foi visto pela historiografia como um dos elementos
essenciais na análise da sociedade colonial4, o mesmo não se pode dizer para o
período pós-Independência. Nesse sentido, enfatizou-se a perda de importância
das câmaras municipais diante, por exemplo, da criação de outras esferas, como
o Governo das Províncias e a Assembleia Legislativa Provincial5, o que explica, em
parte, os poucos estudos que se dedicaram à análise das instituições camarárias
no período imperial. 6
 6
Os artigos do presente dossiê, no entanto, demonstram que, apesar das
tentativas de controle sobre as câmaras municipais, elas se mantiveram, ao longo
do Império, como espaços importantes de regulação da vida nas cidades. Assim,
somos apresentados pelos autores aqui reunidos a uma diversidade de leis e re-
gulamentos municipais que incidiam sobre o trabalho e os trabalhadores. A aná-
lise sobre essa dimensão nos auxilia a rever a imagem ainda presente na nossa
historiografia que insiste sobre a ausência do Estado na regulação das relações
de trabalho antes da aprovação das leis trabalhistas. A legislação municipal abre,
então, um amplo campo de possibilidades analíticas para repensar periodizações e
marcos explicativos para aqueles interessados na história social do trabalho.
A articulação das leis, a implementação e a sua fiscalização indicam que o
poder municipal não tinha nada de monolítico e uniforme. Pelo contrário, os con-
flitos ― e, muitas vezes, a negociação ― estavam presentes nas relações entre os

3 Vale a pena mencionar que a historiografia também indicou os antecedentes destas formas de luta forja-
das nas últimas décadas do período monárquico, como na chamada Revolta do Vintém. Ver, em especial:
GRAHAM, Sandra L. “O motim do vintém e a cultura política no Rio de Janeiro - 1880”, Revista Brasileira de
História. São Paulo, v.10, n.20, mar./ago. 1991.
4 Sobre as análises das câmaras municipais no período colonial, ver: BOXER, C. R. O império colonial portu-
guês [1415-1825]. Lisboa. Edições 70, 1981; BICALHO, Maria Fernanda. A cidade e o Império: o Rio de Janeiro
no século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003; BICALHO, Maria Fernanda. “As câmaras muni-
cipais no Império Português: o exemplo do Rio de Janeiro”. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 18,
n.36, 1998; BICALHO, Maria Fernanda; FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima S. “Uma leitura do Brasil
colonial: bases da materialidade e da governabilidade no Império”. Penélope, Lisboa, v. 23, 2000.
5 FERLINI, Vera Lúcia Amaral. “O município do Brasil colonial e a configuração do poder econômico”. In:
BICALHO, Maria Fernanda; FURTADO, Junia Ferreira; SOUZA, Laura de Mello (orgs.). O governo dos povos.
São Paulo: Alameda, 2009, p. 392.
6 Um exemplo de análise sobre as câmaras municipais no período Imperial: SOUZA, Juliana Teixeira. A auto-
ridade municipal da Corte imperial: enfrentamentos e negociações na regulação do comércio de gêneros
(1884-1889). Tese (Doutorado em História). Campinas: Unicamp/IFCH, 2007.

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APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ TRABALHADORES E PODER MUNICIPAL

trabalhadores e os fiscais, entre estes e os diferentes funcionários da municipalida-


de, e ainda entre o Executivo e o Legislativo municipal.
Por incidir diretamente na organização da vida cotidiana urbana, o poder mu-
nicipal tornou-se um importante espaço de lutas por direitos. Os trabalhadores e
trabalhadoras tinham suas próprias leituras e expectativas sobre as medidas que
buscavam controlar suas atividades, e alguns deles recorreram ao poder municipal
com o intuito de que este interviesse mais diretamente nos conflitos entre empre-
gados e patrões. A historiografia recente vem mostrando justamente como muitas
categorias profissionais e grupos sociais tiveram nas leis e regulamentos munici-
pais um importante foco para suas mobilizações e reivindicações, tais como, por
exemplo, os empregados do comércio, as quitandeiras, os carregadores, os co-
cheiros e carroceiros.7 Esses trabalhadores demonstravam seus diversos anseios
por meio de requerimentos, abaixo-assinados e greves.
Este dossiê reúne as reflexões de cinco historiadores que oferecem diversas
aproximações ao poder municipal, sua organização e conflitos internos, e as rela-
ções que estabeleciam com diferentes grupos de trabalhadores. Na escuridão da
noite ou em plena luz do dia, em Inhaúma ou no Mercado Público, nos conflitos
políticos dentro da Câmara dos Vereadores, o poder público municipal aparece,
nos vários textos aqui reunidos, como uma das chaves para a compreensão do
trabalho, da sociabilidade e de outros momentos da vida de trabalhadores do Rio
de Janeiro.

 7 Um balanço dos estudos que analisam as relações entre trabalhadores e o


poder municipal nos é apresentado no artigo de Juliana Teixeira de Souza. A au-
tora nos mostra que ainda são poucas as pesquisas nesse âmbito, mas não por
isso deixam de representar uma contribuição significativa ao conhecimento das
formas de organização e de luta no século XIX. Souza analisa, ainda, as circunstân-
cias em que os escravizados aparecem na legislação municipal da Corte imperial,
estando elas muito ligadas à regulação do mundo do trabalho.
Amy Chazkel, por sua vez, nos conta uma desconhecida história sobre o To-
que de Recolher no Rio de Janeiro do século XIX, que designava a noite como uma
jurisdição à parte. Chazkel nos mostra como o Toque de Recolher estava relaciona-
do ao controle dos trabalhadores e, em especial, da maioria não branca da cidade.
Além disso, as pessoas presas com base nessa medida legal foram utilizadas em
obras públicas. A Câmara Municipal, assim, cumpriu um papel fundamental na re-
distribuição da mão de obra na organização do espaço urbano.
Já Juliana Barreto Farias enfoca a relação da municipalidade do Rio de Janeiro
com os trabalhadores da Praça do Mercado, importante ponto de abastecimento
de gêneros de primeira necessidade no Rio de Janeiro oitocentista. A autora acom-
panha as relações cotidianas travadas entre os pequenos negociantes, nas quais o
convívio entre portugueses e africanos se mostrou bem mais amistoso do que em
outras partes da cidade. Verificam-se também as relações diferenciadas que esses
pequenos negociantes mantinham com fiscais, agentes municipais e vereadores.

7 Exemplos da produção que aborda a relação dos trabalhadores com o poder municipal: REIS, João José. A
greve negra de 1857 na Bahia. Revista USP. São Paulo: USP/Superintendência de Comunicação Social, n.18,
1993; POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca, 1850-1922. Campinas:
Editora da Unicamp. 2007; FARIAS, Juliana Barreto. Mercados minas: africanos ocidentais na Praça do Mer-
cado do Rio de Janeiro (1830-1890). Tese (Doutorado em História Social). USP, 2012; TERRA, Paulo Cruz.
Cidadania e trabalho: cocheiros e carroceiros no Rio de Janeiro (1870-1906). Tese (Doutorado em História).
Niterói: UFF/ICHF, 2012.

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CRISTIANA SCHETTINI, PAULO TERRA

O mundo ainda pouco explorado das posturas municipais, suas infrações e


os tortuosos caminhos de cobranças de multas é o foco de Cristiane Myasaka. Em
seu texto, a difundida ideia de que foi o povo que pagou a conta da reforma ur-
bana ganha contornos muito concretos e matizes importantes. Acompanhar de
quem e por que a prefeitura cobrava multas nos permite ter uma noção detalha-
da de como o poder público se capitalizava neste momento de grandes gastos.
Mas principalmente desvia a nossa atenção do centro da cidade para os subúrbios,
em pleno processo de explosão demográfica, onde se foram concentrar grandes
contingentes da classe trabalhadora naqueles primeiros anos do século XX. Na ne-
gociação entre engenheiros, agentes da prefeitura e guardas da polícia, vamos
descobrindo quanta política pode existir na construção de um puxadinho.
Finalmente, ao desenvolver uma perspectiva mais estritamente da história
política, Marcelo Magalhães nos oferece uma minuciosa radiografia da organiza-
ção interna daquilo que chamamos de “poder municipal”. Nas muitas vezes tensa
e instável relação entre o prefeito e os intendentes, os problemas relativos ao fun-
cionalismo público eram recorrentes e iam esboçando as funções do Estado como
patrão e, ao mesmo tempo, as relações de poder locais. Ao acompanhá-los ao lon-
go dos primeiros anos republicanos por meio da questão dos vetos, Magalhães
nos recorda da imperiosa necessidade de uma melhor compreensão dos acordos e
das políticas que informavam os debates portas adentro do Legislativo municipal
e na sua relação com o Poder Executivo.
Esperamos que este dossiê cumpra o objetivo de expor os principais nós pro-
blemáticos da recente e significativa produção historiográfica que privilegia a dimen-
são municipal como recorte e problema de pesquisa. Principalmente, confiamos que
 8
os artigos aqui reunidos estimulem a reflexão historiográfica e apontem possíveis
desdobramentos de uma perspectiva que se mostra tão prometedora e fundamen-
tal para a compreensão da experiência social dos trabalhadores brasileiros.

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Dossiê
Trabalhadores e Poder Municipal
As câmaras municipais e os
trabalhadores no Brasil Império

Juliana Teixeira Souza*

Resumo: Considerando o interesse crescente da História Social do Trabalho pe-


los homens e mulheres do século XIX, a proposta deste artigo é mostrar como
a documentação produzida pela administração municipal pode trazer novos ele-
mentos para as reflexões sobre as experiências de resistência e luta dos trabalha-
dores urbanos no Oitocentos. Num segundo momento, analisando a implantação
do Código de Posturas e Editais da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, propomos
discutir como as atribuições do governo municipal no que diz respeito à polícia e à
economia local repercutem na regulamentação das relações e formas de trabalho
no espaço urbano, com ações voltadas, sobretudo, para as atividades em que pre-
domina a presença dos trabalhadores africanos e seus descendentes.

Palavras-chave: governo municipal, legislação municipal, trabalhadores urbanos


no século XIX

Abstract: Considering the growing interest of the Social History of Labor for men
and woman of the 19th Century, the purpose of this article is to show how docu-
mentation produced by the municipal administration can bring new elements to
the reflections on the experiences of resistance and struggle of urban workers
in that time. Secondly, analyzing the implementation of the Code of Conduct and
Edicts of the City Council of Rio de Janeiro, we propose to discuss how the func-
tions of municipal government, concerning police and local economy, affect the
regulation of relations and ways of working in the urban space, with actions par-
ticularly for activities in which the presence of the African workers and theirs des-
cendants is predominant.

Keywords: City Government, city legislation, urban workers in the 19th Century.

Introdução
Nas últimas duas décadas, os estudos sobre a formação da classe operária
no Brasil têm recuado progressivamente sua cronologia, de modo que 1888 e a

* Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Contato: julianasouza@cchla.ufrn.br

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JULIANA TEIXEIRA SOUZA

instauração do regime republicano já não se constituem como pontos de partida


obrigatórios, colocando em xeque algumas premissas do velho debate sobre a
transição da escravidão para o trabalho livre no Brasil. Assim vem se desenhando
um movimento historiográfico que questiona as secções derivadas dessa perio-
dização, estimulando o diálogo entre os trabalhos dedicados à história da escra-
vidão, do operariado e dos trabalhadores pobres livres. Ao se debruçar sobre as
diversas formas de associação e de luta desses sujeitos entre os séculos XIX e XX,
essa produção tem discutido problemas como as formas de organização dos tra-
balhadores, a possibilidade de antagonismos de caráter classista numa sociedade
escravocrata, a formação das identidades entre os trabalhadores urbanos e as lu-
tas pelos direitos de cidadania.
Embora o Brasil Império seja comumente caracterizado como um período
marcado pelo precário exercício da cidadania e pela ausência de direitos trabalhis-
tas, esses estudos têm mostrado que trabalhadores recorrendo à mediação legal
em defesa dos seus interesses não eram casos incomuns no século XIX. Nas teses
e dissertações produzidas a partir dos anos de 1990, são coligidas evidências de
que na segunda metade do Oitocentos são operadas mudanças significativas no
comportamento político dos trabalhadores urbanos, e um dos indicadores des-
sa mudança seria o aparecimento do debate sobre o papel do poder público na
organização do mundo do trabalho. Ao investigar as lutas travadas nos espaços
institucionalizados, essas pesquisas vêm reforçando um aspecto que já havia sido
apontado pelos estudos dedicados às práticas políticas e culturais populares: a
destacada atuação das câmaras municipais no controle e na vigilância sobre os
trabalhadores, e na construção de espaços de demanda, aos quais a população  12
recorria nas suas lutas cotidianas.
Para discutir essas questões, apresentaremos algumas notas sobre o debate
historiográfico no qual essa nova produção sobre a História Social do Trabalho
está inserida e mostraremos como os estudos com base em acervos produzidos
pelas câmaras têm contribuído para o desenvolvimento de pesquisas sobre os tra-
balhadores urbanos no século XIX. Num segundo momento, discutiremos a atu-
ação do governo municipal sobre a regulação dos mercados e outras atividades
econômicas locais, de modo a definir mais claramente o papel das câmaras no que
diz respeito à polícia e à economia local, e como isso incidia sobre a rotina de ga-
nhar o sustento dos trabalhadores da cidade. Por fim, abordaremos as circunstân-
cias em que o trabalhador negro aparece na legislação municipal, tomando como
referência o Código de Posturas e Editais da Ilustríssima Câmara Municipal do Rio
de Janeiro, em vigor a partir de 1838.

Os novos paradigmas da História Social do Trabalho


Desde a década de 1980, os historiadores vêm realizando um movimento
de revisão dos modelos interpretativos formulados entre as décadas de 1950 e
1970 sobre a história da escravidão e do operariado, conferindo um novo sentido
às experiências de resistência e luta dos grupos subalternos. Nos anos de 1990,
pareceu para alguns historiadores que o processo de estabelecimento de novos
paradigmas para os estudos sobre o mundo do trabalho não estaria completo sem
a derrubada da velha periodização que supunha não haver história do operariado
durante a vigência do sistema escravista, e excluía os negros egressos da escra-
vidão da história do operariado. A proposta, então, seria unir as duas vertentes

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AS CÂMARAS MUNICIPAIS E OS TRABALHADORES NO BRASIL IMPÉRIO

historiográficas num mesmo campo, que também abarcasse os trabalhadores que


não fossem operários e os negros que não fossem escravos.
Em 1996, Antonio Luigi Negro publicou um artigo no qual destacava que os
estudos de Edward P. Thompson haviam mostrado que, mesmo não havendo uma
“história contínua”, linear e evolutiva que relacionasse a cultura da plebe (século
XVIII) e a cultura operária (1790-1832), não se pode ignorar as permanências nas
práticas culturais, valores, normas e crenças, assim como no processo de cons-
trução das identidades entre esses trabalhadores. Então, para uma melhor com-
preensão da cultura operária, seria forçoso derrubar as barreiras que tendiam a
separar de forma muito rígida as diferentes fases da história dos trabalhadores
ingleses. No fim do artigo, Negro afirmou que essa discussão poderia trazer contri-
buições à historiografia brasileira, especialmente no que se refere ao debate sobre
“a periodização da história da classe trabalhadora e a discussão do peso de sujei-
tos diferentes na sua formação”. Sua opinião foi taxativa: “já é hora de investigar-
mos outros modos, historicamente particulares, pelos quais o século 19 informou
o 20 no Brasil”.1 Nesse sentido, Negro sugeriu que os historiadores se debruçassem
sobre dois itens de pesquisa: “Um, trata da trajetória específica dos trabalhadores
negros (escravos e libertos) e das associações mutualistas dos trabalhadores li-
vres (geralmente qualificados) e outro, das relações estabelecidas entre elas”. De
acordo com ele, as perspectivas de pesquisa indicadas por E. P. Thompson, espe-
cialmente no que se refere à luta de classes sem classes, estimulavam o estudo dos
trabalhadores brasileiros no século XIX, “mesmo que não afirmassem fazer parte
 13 de uma classe operária”.2
Nos anos seguintes, outros historiadores ligados à UNICAMP se manifestariam
favoravelmente a esse encaminhamento. Em 1998, foi publicada a primeira edição de
Historiografia Brasileira em perspectiva, contando com um capítulo escrito por Clau-
dio Batalha, cuja proposta era analisar a historiografia da classe operária no Brasil e
discorrer sobre as novas tendências da pesquisa. Para os anos finais daquela década,
Batalha destacou como grande novidade o surgimento de estudos que rompiam o
tabu cronológico representado por 1888. No seu ver, esses estudos mostravam que
não seriam apenas superficiais as relações entre a formação da classe operária no
século XX e as experiências dos trabalhadores urbanos no século XIX.3
Maior repercussão teve o artigo publicado por Silvia Lara, também em 1998,
intitulado “Escravidão, cidadania e história do trabalho no Brasil”. Lara questionou
a exclusão de escravos e ex-escravos dos estudos dedicados à História Social do Tra-
balho, contestando a validade da “teoria da substituição” do escravo (negro) pelo
trabalhador livre (branco e imigrante). Ao analisar as implicações historiográficas
dessa teoria, Silvia Lara ressaltou que, embora as pesquisas sobre a classe operária
tivessem ampliado seu eixo temático e cronológico, os negros que vivenciaram a
escravidão de forma direta ou indireta continuavam desaparecidos dessa história.
Para uma nova perspectiva sobre o tema, sugeria que os interessados na História
Social do Trabalho retornassem à segunda metade do século XIX, com atenção às
manifestações reivindicatórias e aos espaços de trabalho, sociabilidade e convívio
dos trabalhadores negros, fossem livres ou cativos. Lara creditava que dessa for-
ma se compreenderia “o sentido da luta secular pela cidadania empreendida por

1 NEGRO, Antonio Luigi. Imperfeita ou refeita? O debate sobre o fazer-se da classe trabalhadora inglesa.
Revista Brasileira de História. São Paulo: Contexto, v.16, n. 31/32, 1996, p. 57-58.
2 Idem, p. 58.
3 ������������������������������������������������������������������������������������������������������������
BATALHA, Claudio. A historiografia da classe operária no Brasil: trajetórias e tendências. In: FREITAS, Mar-
cos Cézar de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. 6.ed. São Paulo: Contexto, 2010, p. 156-157.

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JULIANA TEIXEIRA SOUZA

homens e mulheres de pele escura que, mesmo cativos, lutaram para ser e foram
sujeitos de sua própria história”.4
Em meados da década seguinte, o problema retornaria à pauta de discussão.
Num balanço sobre a produção historiográfica pós-1980, Ângela de Castro Gomes
chamou atenção para as significativas mudanças operadas nos estudos sobre as
relações entre senhores, escravos, dependentes e o estado durante o Império. O
mesmo se verificava nos estudos sobre as relações entre classe trabalhadora, pa-
tronato e o estado no regime republicano, realizados sob o impacto da nova histó-
ria política e da história cultural. De acordo com ela, esses estudos têm em comum
“o fato de sustentarem que os trabalhadores ― todos eles, inclusive os escravos
― são sujeitos de sua própria história, abandonando abordagens simplistas, dico-
tômicas, teleológicas etc.” No entanto, a despeito de suas “profundas conexões
e influências mutuas”, permaneciam como “campos de análise que guardam inde-
pendência relativa entre si”.5
Mas, em 2009, numa perspectiva mais otimista quanto ao fim dessas cliva-
gens, Sidney Chalhoub e Fernando Teixeira da Silva avaliaram que os estudos so-
bre a história dos trabalhadores produzidos até aquele momento já ameaçavam
“derrubar o muro de Berlim historiográfico, decorrente do paradigma menciona-
do, que ainda emperra o diálogo necessário entre os historiadores da escravidão e
os estudiosos das práticas políticas e culturais dos trabalhadores urbanos pobres
e do movimento operário”.6 Sobre as inquietações e interesses compartilhados
pelas duas vertentes, os autores mencionaram a crítica às teorias generalizantes
da escola sociológica paulista, o princípio de que os subalternos são sujeitos de
sua história, a preocupação em conferir inteligibilidade e sentido político às expe-
 14
riências dos dominados, e o interesse pela participação dos trabalhadores numa
cultura legal. Para que esse movimento de aproximação prosseguisse, seria funda-
mental explorar as convergências entre esses campos, que permitiria a elaboração
de agendas de pesquisa e a construção de conceitos operatórios comuns, “que
consistem em novas apropriações e reelaborações contínuas do aparato teórico
clássico da história social”.7 No âmbito do Centro de Pesquisa em História Social
da Cultura - CECULT, a construção dessa agenda comum foi posta em curso com os
projetos temáticos que envolviam professores e alunos de graduação e pós-gra-
duação, tendo em comum o interesse por discutir identidade, cultura e cotidiano
no século XIX e primeiras décadas do XX, procurando “distinguir sem seccionar”
os trabalhadores escravos, pobres livres e operários, como se afirma na apresen-
tação do livro Trabalhadores na cidade, publicado em 2009.8
Na busca por acervos documentais que respondessem à nova pauta de in-
teresses dos historiadores, vários estudos foram demonstrando que nos arquivos
referentes à administração municipal havia material com dados ainda pouco explo-
rados sobre o mundo do trabalho. A historiografia dedicada às práticas políticas
e culturais dos populares no século XIX recorria a esse material há algum tempo,

4 LARA, Silvia Hunold. Escravidão, cidadania e história do trabalho no Brasil. Projeto História. São Paulo:
EDUC, n.16, fev. 1998, p. 38.
5 GOMES, Ângela de Castro. Questão social no Brasil do pós-1980: notas para um debate. Estudos Históricos.
Rio de Janeiro: FGV, n.34, jul./dez. 2004, p. 160.
6 �����������������������������������������������������������������������������������������������������
CHALHOUB, Sidney; SILVA, Fernando Teixeira da. Sujeitos no imaginário acadêmico: escravos e trabalha-
dores na historiografia brasileira desde os anos 1980. Cadernos AEL. Campinas: UNICAMP/IFCH, v.14, n.26,
2009, p. 15.
7 Ibidem, p. 45.
8 AZEVEDO, Elciene et al. Trabalhadores na cidade: cotidiano e cultura no Rio de Janeiro e em São Paulo,
séculos XIX e XX. Campinas: Editora da UNICAMP, 2009, p. 13.

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interessando-se principalmente pelos requerimentos, queixas e reclamações en-


caminhados pelos populares para as câmaras municipais, e pela correspondência
oficial que dava conta dos conflitos entre diversos agentes do poder – vereadores,
fiscais, policiais, médicos etc. ― sobre a definição das diretrizes e implantação das
políticas de controle social, abordando temas relacionados à saúde, à moradia, e
ao lazer.9 Ainda que fosse de forma dispersa e fragmentada, as iniciativas com
vistas a derrubar o tal “muro de Berlim historiográfico” têm evidenciado como a
atuação dos governos municipais incidia sobre a organização do mundo do traba-
lho e sobre a rotina de ganhar o sustento de uma parcela considerável dos traba-
lhadores das cidades. Vejamos alguns desses estudos.

As municipalidades e os trabalhadores urbanos no


século XIX
Em linhas gerais, é possível perceber que duas indagações têm mobilizado
a atenção dos estudos mais recentes sobre o mundo do trabalho: haveria uma
dimensão classista nos movimentos, manifestações e formas de associação dos
trabalhadores urbanos antes de 1880? Seria possível pensar na formação de iden-
tidades étnicas ou identidade operária entre trabalhadores do século XIX? Essas
questões entram em pauta no início dos anos de 1990, época em que João José

 15
Reis publicou um notável artigo sobre a greve dos carregadores de Salvador. Ocor-
rida em 1857, foi uma das primeiras greves da história do Brasil, com a peculiari-
dade de ter sido protagonizada por africanos escravos e libertos, a maior parte
nagôs, cuja presença era dominante entre os trabalhadores “informais” que po-
voavam as ruas da capital baiana. A paralização foi motivada pela promulgação de
uma postura municipal, que obrigava os ganhadores a se matricularem na câmara
e portarem uma licença, pela qual se cobrava o preço equivalente ao de uma arro-
ba (quinze quilos) de carne, um valor nada desprezível para aqueles tempos de ca-
restia. Além disso, os carregadores seriam obrigados a trazer uma chapa de metal
com o número de sua inscrição em lugar visível, trazendo pendurada no pescoço
a marca da sua condição social inferior. Para Reis, essa determinação estava inse-
rida num projeto mais amplo de disciplinamento do negro no espaço público. De
acordo com os relatos da época, a mobilização contra a postura municipal parou a
cidade. A greve durou vários dias, deixando desertas as ruas de Salvador e trazen-
do enormes prejuízos para os comerciantes e para os consumidores.
Conforme avaliou o historiador, “o movimento de 1857 suscita questões mais
amplas”, por combinar a mobilização defensiva, contra a intervenção do Estado
nas rotinas de trabalho tradicionalmente estabelecidas, com a greve, que “é um
método de luta típico do trabalhador urbano moderno, sobretudo do trabalhador
fabril”. No seu entender, a opção de luta daqueles trabalhadores seria justificada
pelo “fato de serem gente urbana, consciente de sua importância para o funcio-
namento da cidade, inserida num mercado de trabalho monetarizado”.10 No fim

9 É o caso dos trabalhos de CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996; ABREU, Martha. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular
no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999; SOUZA, Juliana Teixeira. A autoridade
municipal na Corte imperial: enfrentamentos e negociações na regulação do comércio de gêneros (1840-
1889). Tese (Doutorado em História). Campinas: [s. n.], 2007.
10 REIS, João José. A greve negra de 1857 na Bahia. Revista USP. São Paulo: USP/Superintendência de
Comunicação Social, n.18, 1993, p. 29.

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das contas, para os grevistas, o movimento trouxe uma vitória parcial: a câmara
municipal aboliu a taxa, mas manteve a determinação de trazerem a chapa no pes-
coço. Para os historiadores, o movimento reforça os argumentos sobre a inconsis-
tência dos velhos esquemas explicativos, por revelar a capacidade de organização
dos trabalhadores informais e a operacionalidade do conceito de identidade étnica
para a compreensão das experiências da população negra de Salvador. Ademais,
ao mostrar que os vereadores recuaram em sua decisão inicial, ao menos em parte,
a greve negra revelou que a legislação municipal não estava imune às pressões des-
ses trabalhadores, entre os quais se contavam muitos escravos.
Para se avaliar o caráter precursor da greve dos carregadores negros, vale
destacar que ela foi deflagrada um ano antes de ser registrada a primeira greve
operária do país, organizada pelos compositores tipográficos do Rio de Janeiro
em 1858. Esta paralisação foi motivada pela recusa dos proprietários das três prin-
cipais folhas diárias da Corte em aumentar o salário dos empregados, que também
sofriam com a carestia que grassava em todo país. De acordo com Artur Vitorino,
após cruzar os braços, eles recorreram à intervenção do Imperador e procuraram
angariar o apoio da opinião pública, que “era a forma dos operários conseguirem
o equilíbrio justo entre partes desiguais, pois, como não havia lei positivamente
fixada sobre o assunto pendente, o Imperador e o público detinham a necessária
potencialidade para que pudesse prevalecer a justiça”.11 Por meio desse estudo,
Vitorino pôs em xeque a periodização tradicionalmente adotada para a história do
operariado, recuando para a década de 1850 a discussão sobre a formação de uma
identidade coletiva a partir das associações de trabalhadores qualificados.
Marcelo Mac Cord estudou outro grupo de trabalhadores qualificados em
 16
sua tese de doutoramento Andaimes, casacas, tijolos e livros, sobre uma associação
de artífices pardos e negros, que congregava pedreiros, carpinteiros, marceneiros
e tanoeiros no Recife, entre 1836 e 1880, discutindo a formação de uma identida-
de étnica entre os homens de cor. O objetivo da associação era o de aperfeiçoar
o trabalho dos artífices por meio da educação profissional e promover práticas de
auxílio mútuo, defendendo o trabalho realizado com dignidade, precisão e inteli-
gência como fator de distinção social, num discurso que procurava se alinhar aos
valores defendidos pelas elites locais. Por intermédio de documentação produzida
por diversas instâncias do governo, como a câmara municipal, a presidência da
Província e a Assembleia Legislativa, Mac Cord mostrou que a estratégia dos artí-
fices foi exitosa no sentido de lhes proporcionar a proteção das autoridades pú-
blicas, pois para os homens do governo, também interessava prestar apoio a uma
organização que “poderia ser utilizada como exemplo de morigeração, disciplina
e ordem para uma crescente mão-de-obra livre e pobre que se amontoava pelos
cortiços da capital da Província”.12
Mac Cord mostra que, para evitar a desclassificação social, os artífices recor-
reram continuamente ao governo municipal. Não obtiveram o almejado controle
sobre o processo de habilitação dos artistas que atuariam como mestres de obra
na cidade, mas conseguiram com que os mestres associados fossem privilegiados
nos contratos de vistorias e obras realizadas pela câmara municipal, garantindo as

11 VITORINO, Artur José Renda. Escravismo, proletários e a greve dos compositores tipográficos de 1858 no Rio
de Janeiro. Cadernos AEL: sociedades operárias e mutualismo. Campinas: UNICAMP/IFCH, v.6, n.10/11, 1999,
p. 80.
12 MAC CORD, Marcelo. Andaimes, casacas, tijolos e livros: uma associação de artífices no Recife, 1836-1880.
Tese (Doutorado em História). Campinas: [s. n.], 2009, p. 10.

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boas relações entre as instituições.13 Na década de 1840, enquanto os Praieiros e a


oligarquia Rego Barros-Cavalcanti disputavam publicamente o apoio desses mes-
tres, os artífices convenceram os vereadores a defender com os deputados provin-
ciais a disponibilização de uma verba anual para a associação.14 Interessante notar
que apesar de enfrentarem um duplo estigma, por serem de pele escura e artistas
mecânicos, esses trabalhadores conseguiram escapar do processo de proletariza-
ção, alcançaram algum prestígio e chegaram a participar da burocracia imperial com
o apoio das elites pernambucanas. A despeito da singularidade do caso, para Mac
Cord foi importante frisar que aqueles artífices negros organizados em grupos de
socorros mútuos apresentavam um alto de grau de “coesão de classe”. Por conta
disso, ele considerou que o estudo desse grupo podia “contribuir com a historiogra-
fia que procura revelar a importância das experiências laborativas dos não brancos
na formação da(s) identidade(s) do(s) trabalhador(es) no Brasil Imperial”.15
No Rio de Janeiro oitocentista, outras categorias profissionais também lu-
tavam contra o processo de proletarização, mas sem o sucesso registrado pelos
artífices recifenses. Então, no lugar de tentar manter e alargar possíveis privilé-
gios, optaram por concentrar seus esforços em convencer as autoridades públicas,
sobretudo o governo municipal, a garantir por lei algumas medidas de proteção ao
trabalhador. Foi o que demonstrou Fabiane Popinigis em Trabalhadores e patuscos,
dissertação sobre a organização dos empregados do comércio na cidade do Rio de
Janeiro entre 1850 e 1912, que tratou do movimento protagonizado pelos caixeiros,
reivindicando o fechamento das portas dos estabelecimentos comerciais durante
 17 a noite, assim como nos domingos e dias santos, o que significava tentar transfor-
mar o descanso semanal num direito dos trabalhadores. Como ela demonstrou,
já durante o Império, conforme a categoria se proletarizava e se desvanecia a ex-
pectativa de ascensão social, os apelos particulares aos patrões cederam lugar aos
enfrentamentos públicos e às exigências de intervenção da câmara municipal nos
conflitos entre patrões e empregados. Dessa forma, as reivindicações adquiriam
um caráter classista, culminando com “a criação de associações que não incluís-
sem patrões e lutassem por uma legislação específica, em contato direto com os
poderes públicos”.16
Na tese de doutoramento, Popinigis discutiu mais detidamente o papel da câ-
mara municipal no encaminhamento às demandas dos caixeiros. Em sua opinião, a
elaboração de posturas determinando o fechamento das portas, registradas desde
a década de 1850, mas aprovadas apenas nos anos de 1870, foi um sinal da rendição
dos vereadores às reivindicações dos empregados. Nas cartas, queixas, requerimen-
tos e representações dos caixeiros, remetidos à imprensa e à câmara municipal, Po-
pinigis percebeu que, durante o regime monárquico, o movimento manteve certa
dose de ambiguidade e dissimulação, recorrendo aos argumentos religiosos para
defender a regulamentação das horas de trabalho. Os argumentos foram aceitos,
mas apenas temporariamente. Diante da grande mobilização dos proprietários con-
tra as interferências do poder público num assunto que consideravam de caráter
privado, no início da década de 1880, a câmara municipal revogou sua decisão, frus-
trando os caixeiros que ansiavam pelo reconhecimento do poder público quanto à

13 Ibidem, p. 329.
14 Ibidem, p. 60-61.
15 MAC CORD, Op. cit., p. 8.
16 POPINIGIS, Fabiane. Trabalhadores e patuscos: os caixeiros e o movimento pelo fechamento das portas no
Rio de Janeiro (1850-1912). Dissertação (Mestrado em História). Campinas: [s.n], 1998, p. 4.

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propriedade de suas demandas.17 No prolongamento da luta, durante as primeiras


décadas da República, o comportamento político dos caixeiros continuou marcado
pela opção de se manterem dentro da legalidade, buscando apoio da imprensa e
das autoridades públicas para transformar os direitos que reclamavam em lei.18
O debate travado no âmbito do governo municipal sobre a regulamentação
do trabalho dos caixeiros não foi um caso isolado. Em artigo publicado na Revista
do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Flavia Fernandes de Souza recuperou
os projetos elaborados pela câmara municipal na década de 1880 com o propósi-
to de organizar o funcionamento e estabelecer um controle mais eficaz sobre os
criados de servir. Sob o argumento de que era necessário prevenir confrontos e
conciliar os interesses entre patrões e empregados domésticos, cujo “permanen-
te antagonismo” parecia ameaçar a tranquilidade das famílias e de toda organi-
zação social, os seis projetos encontrados apresentavam alguns pontos comuns.
Além da vigilância e fiscalização sobre os trabalhadores domésticos, os projetos
previam a intervenção do poder público nas relações entre patrões e empregados,
orientando “a delimitação das obrigações e dos direitos das partes envolvidas”.19
Entre os projetos analisados por Flavia Souza, aparece com destaque o apre-
sentado em 1888 sob o impacto da Abolição, que durante meses foi intensamente
debatido pelos vereadores. Conforme explica, a partir da fala do vereador José do
Patrocínio foi possível inferir que o projeto provocou grande mobilização entre os
criados de servir, que se opuseram à proposta e procuraram angariar apoio da opi-
nião pública a seu favor. Desempenhando “o papel de ‘porta-voz’ da indignação
dos trabalhadores domésticos” na câmara municipal, José do Patrocínio denun-
ciava que a proposta protegia apenas os patrões, impondo “severa fiscalização e
 18
vigilância sobre os criados. Porém, mecanismos semelhantes de segurança e de
cumprimento de contrato de prestação de serviços não eram exigidos em relação
ao patrão para com o empregado”. Para Patrocínio, a transformação do projeto
em lei poderia provocar “uma revolta por parte dos homens livres”, ameaçando a
segurança e a paz na Corte.20
Mas os setores patronais também fizeram objeções ao projeto, como dei-
xou transparecer o relatório emitido pelo Conselho de Estado. Os conselheiros
consideraram “inadmissíveis” algumas cláusulas do projeto elaborado pelos vere-
adores, por obrigarem os patrões a “certificar na caderneta do criado o motivo da
saída deste e a maneira como se portou no serviço”, determinando que “o amo
não poderia despedir o criado, antes do término do contrato, sem pagar-lhe o salá-
rio correspondente ao tempo que faltar”, impondo multa aos patrões infratores.21
Como Souza destaca, essas cláusulas sugeriam que os patrões também tinham
deveres a ser cumpridos e que deveriam compartilhar com seus empregados a
responsabilidade pela “instabilidade do serviço doméstico” e os problemas daí
resultantes. No entanto, na perspectiva do Conselho de Estado, a origem do pro-
blema estava restrita à inaptidão e à negligência dos criados. No fim das contas,
enfrentando a oposição dos patrões e a resistência dos trabalhadores domésticos,
o projeto do governo municipal foi vetado pelo governo central.

17 POPINIGIS, Fabiane. “Operários de casaca”? Relações de trabalho e lazer no comércio carioca na virada
dos séculos XIX e XX. Tese (Doutorado em História). Campinas: [s. n.], 2003, p. 86-95.
18 Ibidem, p. 136-137.
19 SOUZA, Flavia Fernandes de. Entre nós, nunca se cogitou de uma tal necessidade: o poder municipal da
Capital e o projeto de regulamentação do serviço doméstico de 1888. Revista do Arquivo geral da Cidade
do Rio de Janeiro, n.5, 2011, p. 33.
20 Ibidem, p. 37-38.
21 SOUZA, Flavia, Op. cit., p. 40.

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A profusão de projetos de posturas e regulamentos propostos, encaminha-


dos, debatidos, aprovados, modificados e revogados nas câmaras municipais si-
nalizava que as leis não serviram em proveito dos dominantes de forma tranquila.
Os avanços e recuos nas estratégias de controle e vigilância impostas pelas au-
toridades municipais indicam que os governantes tinham dificuldades de chegar
a um consenso acerca do papel que desempenhariam na organização do mundo
do trabalho, e que na segunda metade do século XIX o debate sobre os limites
entre o poder público dos governantes e o poder privado dos proprietários não
esteve restrito ao tema da escravidão. No processo de elaboração e implantação
da legislação municipal, ocorriam intensas disputas, nas quais tomavam parte não
apenas os governantes, patrões e proprietários, como também os trabalhadores
livres e cativos das cidades, que buscavam incansavelmente melhores condições
de trabalho. Ao mostrar as municipalidades cedendo às pressões dos trabalhado-
res escravos e livres, ainda que as vitórias fossem esparsas, parciais e temporárias,
esses estudos reforçam o papel das câmaras como um espaço de demanda, ao
qual a população recorria em suas lutas cotidianas.
O quadro de profunda desigualdade e exclusão que sempre marcou a histó-
ria do Brasil não permitia que os trabalhadores do século XIX, brancos e negros,
livres e cativos, nutrissem esperanças de produzir mudanças radicais nas relações
de poder. O anseio era tornar um pouco menos incerta e degradante a exploração
de seu trabalho. Era tornar a dura rotina de ganhar o sustento um pouco menos

 19
distante de suas concepções sobre relações justas de trabalho. E o que vimos nas
pesquisas aqui abordadas foi que a satisfação dessa expectativa não poderia se dar
de qualquer forma. Parte significativa desses anseios, sendo reconhecidos como
direitos, deveriam ser assegurados por meio de medidas legais. Fazendo greve,
encaminhando cartas à imprensa, recorrendo a algum vereador para representar
seus interesses ou enviando suas queixas e reclamações para serem apreciadas
nas sessões da câmara, os trabalhadores deixavam claro que lhes interessava, so-
bremaneira, ver suas reivindicações e a definição dos limites à exploração do seu
trabalho sendo registrados nos textos legais, sobretudo as posturas municipais.

A regulação e o policiamento dos mercados pelo


governo municipal
Flávio Gomes e Antonio Luigi Negro, num estudo comparativo sobre a for-
mação da classe operária nos séculos XIX e XX, comentaram brevemente o papel
desempenhado pelas câmaras municipais em cidades como Salvador, Rio de Janei-
ro, Recife, São Luiz e São Paulo, que apresentavam grande participação da popu-
lação negra, livre e cativa nos setores de comércio, transporte, abastecimento e
serviços. Eles contestaram a ideia de que o sistema escravista seria incompatível
com os espaços marcados pela densidade urbana, e que os senhores teriam dificul-
dade de manter um controle eficaz sobre os escravos ao ganho e de aluguel. Con-
forme destacaram, as fontes indicam que esses trabalhadores foram submetidos a
diferentes estratégias de vigilância e fiscalização, como as adotadas pelas câmaras
municipais, “que davam autorização para que os escravos trabalhassem ao ganho
e cobravam impostos dos senhores”. Além disso, ressaltaram que “o maior núme-
ro de escravos nas ruas fez aumentar as formas de controle social nas cidades por

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meio de posturas municipais, multas e aparato policial”22, reforçando a importân-


cia das atribuições policiais do governo municipal.
De acordo com a lei do 1.º de Outubro de 1828, conhecida como regimento
das câmaras, a vereança teria a seu cargo tudo quanto dissesse respeito à polícia e
à economia das povoações e seus termos, pelo que tomariam decisões e elabora-
riam posturas. No código de posturas promulgado pela Câmara Municipal do Rio
de Janeiro, em 1830, revisado e ampliado em 1838, e acrescido anualmente por de-
zenas de editais, o exercício dessa competência se traduziu num conjunto amplo e
diversificado de artigos, que regulavam o trabalho ao ganho, o horário de funcio-
namento dos estabelecimentos comerciais, o transporte público, a pesca e venda
de peixes, o desembarque dos gêneros, a distribuição e circulação de mercadorias
pela cidade, o funcionamento das praças de mercado e casas comerciais varejis-
tas, a venda ambulante de alimentos, a venda de bebidas espirituosas, a constru-
ção de moradias populares, as festas, danças e cantorias etc. Pela extensão desse
rol de atribuições, para muitos trabalhadores, o governo municipal parecia ser a
instância mais adequada para o encaminhamento de suas demandas. No fim das
contas, na ausência de um código civil que regulasse as relações de trabalho, era
a legislação municipal que incidia mais diretamente sobre diferentes aspectos da
rotina de ganhar o sustento dos trabalhadores livres e cativos da cidade.
Até a década de 1840, competia apenas aos fiscais de freguesia e aos guar-
das municipais fiscalizar o cumprimento das posturas municipais. Mas a lei n.º 261,
de 3 de dezembro de 1841, que reformava o Código do Processo Criminal, deter-
minou que a Secretaria de Polícia também ficasse encarregada de providenciar o
cumprimento dos assuntos de polícia previstos no código de posturas, seção em
 20
que estavam incluídos os parágrafos dedicados à regulação dos mercados e outras
atividades econômicas locais. De acordo com essa lei, os chefes de polícia deveriam

Art.4.º, §5.º Examinar se as Câmaras Municipais têm providenciado so-


bre objetos de Polícia, que por lei se acham a seu cargo, representando-
lhes com civilidade as medidas que entenderem convenientes, para que
se convertam em Posturas, e usando do recurso do art. 73 da lei do 1.º
de Outubro de 1828, quando não forem atendidos.

De acordo com esse recurso, presente no regimento das câmaras, os cida-


dãos que se sentissem agravados pelas deliberações, acordos e posturas das câma-
ras poderiam recorrer à Assembleia Geral Legislativa e ao Ministério dos Negócios
do Império, contanto que a matéria fosse meramente econômica e administrati-
va. Nesse sentido, a reforma do código processual pretendia tornar os chefes de
polícia uma espécie de supervisores das municipalidades, observando seus erros,
abusos e omissões, para propor medidas adequadas às suas correções. De acordo
com Thomas Holloway, um dos efeitos da reforma do Código do Processo Crimi-
nal foi “estender formalmente poderes judiciais à polícia. Pela reforma de 1841, os
chefes de polícia, delegados e subdelegados tinham plena autoridade, no âmbi-
to das violações das posturas municipais e de todas as contravenções”, podendo
prender, julgar e sentenciar sem intervenção de outras instâncias do poder.23
A dificuldade de se estabelecerem limites mais precisos entre as alçadas do sis-
tema policial e da administração municipal vinha de longa data. No período joanino,

22 GOMES, Flávio; NEGRO, Antonio Luigi. Além de senzalas e fábricas: uma história social do trabalho. Tempo
Social, 2006, v.18, n.1, p. 226-227.
23 HOLLOWAY, Thomas. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX. Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997, p. 158.

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as atribuições da Intendência Geral de Polícia da Corte sobre as questões rela-


cionadas à “preservação da ordem social e do bem-viver no centro-sul do Brasil”
mantinham “fronteiras muito tênues em relação às históricas jurisdições até então
exercitadas pelo Senado da Câmara”.24 No processo de construção do estado im-
perial, aquilo que se considerava como assunto de polícia continuou incorporado
à jurisdição da administração municipal, gerando sobreposição de competências.
Como o Código Criminal do Império não apresentava disposições sobre as viola-
ções menores da ordem pública, elas continuaram sendo reguladas pelas posturas
policiais. As deliberações da administração municipal tinham caráter obrigatório,
mas a infração de postura previa apenas pena de prisão simples, multa, ou ambos.
Por conta disso, conforme explica Martha Abreu, “o não cumprimento de uma
postura caracterizava uma contravenção”, diferente das violações ao Código Cri-
minal, que se configuravam como crime ou delito. Outro aspecto destacado pela
autora, a despeito da criação da Chefatura de Polícia da Corte em 1832, o que se
verificou nessa primeira organização do sistema policial e judicial do estado impe-
rial foram as câmaras municipais e os juízes de paz assumindo a maior parte das
atribuições antes exercidas pela Intendência, especialmente no que diz respeito à
manutenção da ordem pública.25 Nesse sentido, a proposta da reforma implantada
em 1841 era a de restituir ao chefe de polícia algumas das antigas atribuições do in-
tendente, minando a autonomia municipal e reforçando a centralização do poder.
Apesar do esforço nesse sentido, os chefes de polícia da Corte não ficaram
plenamente satisfeitos com os dispositivos que lhes foram facultados pela refor-
ma do Código do Processo Criminal para o exercício de suas novas atribuições.
 21 Como o regulamento das câmaras não sofreu qualquer reformulação ao longo de
todo o regime monárquico, o código de posturas foi mantido em vigor, apesar de
vários representantes da secretaria de polícia considerarem que a câmara munici-
pal não era capaz de providenciar sobre os objetos de polícia previstos no código.
Em 1849, o chefe de polícia Antonio Simões da Silva sintetizou bem esse posicio-
namento em relatório enviado a Eusébio de Queirós Coutinho Matoso, então Mi-
nistro da Justiça, no qual afirmou: “as atuais Posturas da Câmara são uma coleção
de determinações soltas, vagas, e algumas, além de tudo isto, inconsequentes, e
inexequíveis, do que um Código Policial”.26 Em sua opinião, além do recurso que
o decreto lhe facultava ser insuficiente para assegurar o cumprimento das obriga-
ções que lhe foram atribuídas, mesmo nas ocasiões em que a vereança se mostra-
va disposta a cooperar no atendimento às suas solicitações, outras dificuldades
se impunham para o policiamento da cidade. No seu relatório, Antonio Simões da
Silva escreveu:

Por vezes, atenta as necessidades, que sobre o Município da Corte por


falta de Polícia Administrativa Municipal, tive de representar á Ilustríssi-
ma Câmara a respeito de providências sobre diversos objetos, que me
pareceram de intuitiva necessidade, mas Vossa Excelência que não ig-
nora a importância, que deve ter, atenta a organização viciosa das câ-
maras municipais, as representações dos Chefes de Polícia, pode avaliar
quanto é nula e inexequível a disposição do referido artigo 4º § 5º da Lei
de 3 de Dezembro de 1841, e o quanto é ilusório e até risível o recurso do
artigo 73 da Lei do 1º de Outubro de 1828 que se concede aos Chefes de
Polícia. Entretanto em alguns objetos, tem a Ilustríssima Câmara Muni-
cipal atendido as minhas requisições, e as vezes que o não tem feito me

24 GOUVÊA, Maria de Fátima. Poder, autoridade e o senado da câmara do Rio de Janeiro, ca.1780-1820. Tem-
po – Revista do Departamento de História da UFF. Rio de Janeiro, v.7, n.13, 2002, p. 122.
25 ABREU, Martha. O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 188-196.
26 Arquivo Nacional, Secretaria de Polícia da Corte, maço IJ6-212, 13 nov. 1849, fl. 22.

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têm declarado que é em consequência da falta de recursos pecuniários,


ou mesmo por outras quaisquer razões de dificuldade.27

A fala do chefe de polícia expressa, em parte, o ressentimento motivado pela


manutenção da ingerência das câmaras nos assuntos relacionados ao policiamento
da cidade, contrariando as críticas largamente difundidas no governo central so-
bre aquilo que consideravam “organização viciosa das câmaras municipais”. Para
Antonio Simões da Silva, as limitações impostas à atuação da polícia resultavam
em grande mal, “porque o povo que sempre olha por alto as coisas, sem se dar ao
trabalho do exame, entende, que a Autoridade é incompetente”. E a falta de vigi-
lância para o cumprimento das posturas também era prejudicial, porque habituava
“o povo a olhar com pouco respeito para essas disposições sem dúvida legais, mas
que não tendo utilidade por mal concebidas, e pior desenvolvidas, ele julga poder
infringi-las”. Como considerava que “por uma correlação mal entendida [o povo]
aplica o mesmo falso raciocínio a tudo quanto é restrição legal”, o chefe de polícia
reforçava a representação das ruas como o espaço da desordem, para o que con-
tribuiria a ação “fraca e improfícua” da câmara.28
Não obstante a fala de Simões da Silva fosse atravessada por uma intensa
disputa por poder e autoridade, e lhe interessasse chamar atenção para as limi-
tações da administração municipal como forma de legitimar as pretensões da se-
cretaria de polícia no sentido de ampliar seu próprio espaço de atuação29, isso não
significa que fosse completamente infundada sua avaliação sobre a dificuldade de
os vereadores providenciarem a vigilância e a fiscalização das posturas. Em 1849,
ano em que o chefe de polícia Antonio Simões da Silva redigiu seu relatório, o  22
recenseamento da população do Município da Corte informava que a cidade con-
tava com um contingente de 110.602 trabalhadores escravos, correspondendo a
41,5% da população total, a maior parte concentrada nas freguesias urbanas, aos
quais se unia uma massa crescente de homens pobres livres.30 Em contrapartida,
para regular o mercado e as outras atividades econômicas em que essa população
estava envolvida, a câmara dispunha de um vereador encarregado das Praças do
Mercado e Marinhas, um fiscal por freguesia e um número sempre insuficiente de
guardas municipais para prevenir as infrações que pudessem ser cometidas por
comerciantes e trabalhadores, livres e cativos. Portanto, os problemas eram crôni-
cos, fosse pela falta de recursos ou pela falta de pessoal.

A legislação municipal e os trabalhadores negros


De acordo com a Lei do 1º de Outubro de 1828, cabia aos vereadores formular
posturas que promovessem e mantivessem a tranquilidade, a segurança e a co-
modidade de seus habitantes, assegurando que nas ruas, praças, feiras e demais
lugares públicos prevalecessem a regularidade, a civilidade, o decoro e a moral,
princípios bastante caros à “boa sociedade”.31 Na compreensão dos membros do

27 Arquivo Nacional, Secretaria de Polícia da Corte, maço IJ6-212, 13 nov. 1849, fl. 11v-12.
28 Ibidem, fl. 22v-23.
29 Sobre os conflitos entre a Câmara Municipal e a Secretaria de Polícia, ver: SOUZA, Juliana Teixeira. Carne
podre, café com milho e leite com água: disputas de autoridade e fiscalização do comércio de gêneros na
Corte imperial, 1840-1889. História, Ciências, Saúde – Manguinhos.  Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz,
Casa de Oswaldo Cruz,  v.18,  n.4, out./dez. 2011.
30 VITORINO, Artur José Renda. Cercamento à brasileira: conformação do mercado de trabalho livre na Corte
das décadas de 1850 a 1880. Tese (Doutorado em História). Campinas: Campinas: [s.n], 2002, p. 95-99.
31 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: a formação do Estado imperial. Rio de Janeiro: HUCITEC, 2004.

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governo municipal e de parte da população, para cumprir com essas atribuições,


era indispensável que a câmara regulasse, fiscalizasse e mantivesse um controle
mais atento sobre as atividades dos trabalhadores urbanos, especialmente nos
setores em que predominasse a presença do trabalhador negro, fosse livre ou es-
cravo. Ainda que, nas décadas de 1820 e 1830, a interferência do estado nas re-
lações entre senhores e escravos fosse bastante limitada ― num centro urbano
como o Rio de Janeiro, que sempre contou com um contingente significativo de
escravos que em seu cotidiano mantinham-se praticamente livres da sujeição se-
nhorial ―, as medidas referentes à regulação da economia local expressavam a
preocupação das autoridades com o controle sobre esses trabalhadores.
Ao discutirem o papel atribuído ao cativo na legislação imperial, é comum
os historiadores mencionarem que a palavra “escravo” não aparece em nenhum
artigo da Constituição de 1824, de modo que sua humanidade e capacidade de
praticar atos de vontade seriam reconhecidas apenas no Código Criminal de 1831. A
esse respeito, seria muito comentada a polêmica sentença de Jacob Gorender: “o
primeiro ato humano do escravo é o crime”.32 Sidney Chalhoub contestou a valida-
de da sentença, por ela sugerir que a rebeldia aberta era “a única forma de os es-
cravos negarem sua coisificação social e afirmarem sua dignidade humana”.33 Mas
Manolo Florentino e José Roberto Góes ponderaram: o escravo “era uma proprie-
dade. O ordenamento jurídico da sociedade o constituía como tal, exceto no que
concerne à transgressão da lei. Gorender tem razão [...]. Pode-se dizer, portanto,
que o crime era o primeiro e único ato do escravo que o humanizava ― na lei”.34
 23 No entanto, o Código Criminal não era o único instrumento legal a definir
os escravos como sujeitos de delito. Os códigos de posturas não costumam ser
mencionados nesses debates, mas nas posturas municipais do Rio de Janeiro, por
exemplo, se reconhecia a humanidade dos escravos no uso de expressões como:
“nenhum homem, de qualquer cor e condição que seja”, ou “nenhuma pessoa,
de qualquer estado, condição ou sexo”.35 Ou seja, eles também assumem que os
cativos praticavam atos de vontade e por isso deveriam responder pessoalmente
por suas infrações.
No código de posturas da Câmara Municipal do Rio de Janeiro havia sanções
impostas somente aos escravos, como andar nas ruas depois das 7 horas da tarde
sem justificativa escrita e datada do mesmo dia pelo senhor.36 E havia medidas di-
recionadas às manifestações culturais dos africanos e seus descendentes, como a
proibição dos “batuques, cantorias e danças de pretos” que pudessem incomodar
a vizinhança.37 Também havia artigos que previam punições mais severas e exclusi-
vas aos cativos que cometessem alguma contravenção. Exemplo disso: as pessoas
que proferissem palavras ou praticassem gestos indecentes em locais públicos

32 GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1978, p. 65. A resposta de Gorender às críticas
que recebeu aparece em: GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática; Secretaria de Estado
da Cultura, 1990.
33 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 42.
34 ������������������������������������������������������������������������������������������������������
Na perspectiva desses autores, o fato de os escravos serem juridicamente identificados como proprieda-
de não implicava que os senhores pretendessem a sua coisificação social, por considerarem que, para a
manutenção do sistema escravista, era fundamental que os senhores reconhecessem a humanidade dos
cativos. FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico atlânti-
co, Rio de Janeiro, c.1790 – c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997, p. 31.
35 CODIGO DE POSTURAS DA ILUSTRISSIMA CAMARA MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO E EDITAES DA
MESMA CÂMARA. RIO DE JANEIRO: EDUARDO & HENRIQUE LAEMMERT, 1870, P. 19-20.
36 Sobre a vigência do Toque de Recolher no período imperial como forma de controle de poder municipal
sobre a população afrodescendentes, cf. o artigo de Amy Chazkel neste dossiê.
37 Ibidem, p. 28 e 36.

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seriam multadas e conservadas na cadeia por oito dias, mas se fosse escravo a
pena passava para vinte e cinco açoites.38 Os indivíduos flagrados jogando entrudo
no município pagariam multa ou ficariam presos, mas no caso dos escravos, as al-
ternativas eram oito dias de prisão ou cem açoites.39 Os escravos que fizessem de-
sordens seriam conduzidos ao calabouço, dando-se parte aos seus senhores para
que lhes aplicassem a pena de cem açoites, se acusados de serem os promotores
da desordem.40
Em contrapartida, nas posturas também se registra a preocupação com os
castigos impostos aos escravos por particulares. Isso mostra que, apesar de tratá-
-lo juridicamente como um bem semovente, a legislação do Império não negava
que os escravos deveriam ser tratados como uma propriedade diferenciada, por
serem pessoas.41 No âmbito de suas atribuições policiais, competia ao governo mu-
nicipal prevenir os excessos dos senhores, que não raro seviciavam seus escravos.
Mais especificamente, competia aos fiscais da municipalidade o dever de vigiar
“sobre o mau tratamento e crueldades que se costumam praticar com escravos,
indicando os meios de preveni-los, e dando de tudo parte à Câmara”.42
Outro aspecto a ser considerado, diferente do que ocorre em outros códi-
gos legais, nas posturas e editais promulgados pela Câmara Municipal do Rio de
Janeiro se verifica que a humanização do escravo se dava, sobretudo, por meio da
regulação do mundo do trabalho. No código de posturas, o título correspondente
à polícia dos mercados afirmava que era permitido “a todas as pessoas vende-
rem pelas ruas da cidade legumes, frutas, aves e peixe, bem como outro qualquer
comestível”.43 Os escravos, evidentemente, estavam entre essas “pessoas”. Por
outro lado, o código de posturas também explicitava as atividades que não pode-
 24
riam ser exercidas pelos escravos. Pelo documento: “todos os que tiverem casa
pública de negócio, não poderão ter nelas, vendendo ou administrando, pessoas
cativas”,44 enquanto que o Regulamento da Praça do Mercado, aprovado pelos ve-
readores em agosto de 1844, determinava em seu primeiro artigo que suas bancas
e casas só poderiam ser alugadas por “pessoas livres e capazes”.45 O regulamento
também proibia “andarem pretos de ganho dentro da praça, e os escravos, que ali
forem mandados por seus senhores fazer compras, não deverão se demorar além
do tempo necessário para efetuá-las”.46 Somente os escravos que estivessem a
serviço dos locatários tinham autorização para permanecer na Praça do Mercado,
e por isso cabia aos fiscais fazer dispersar os pretos que insistissem em peram-
bular e permanecer no local sem motivo que lhe parecesse justificado. O último
artigo do regulamento informava que as penas ali previstas “compreendem todas
as pessoas, de qualquer posição que seja, de um ou outro sexo, respondendo o
senhor pelo escravo em todas as disposições”.47

38 Ibidem, p. 20.
39 CODIGO DE POSTURAS, OP. CIT., P. 28.
40 Ibidem, p. 36.
41 No âmbito das discussões sobre o direito civil no Oitocentos, estudos mais recentes têm destacado que
esse tipo de regulação mostra o escravo como uma propriedade de natureza diferenciada, com condição
jurídica transitória, por ser um bem em propriedade de alguém e poder se tornar um homem livre, capaz
de adquirir direitos de cidadania. Sobre os escravos serem coisa e pessoa, e também serem coisa que po-
dia virar pessoa, ver: GRINBERG, Keila. Código civil e cidadania. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 47 e segs.
42 CODIGO DE POSTURAS, OP. CIT., P. 39.
43 Ibidem, p. 22.
44 Ibidem, p. 23.
45 Ibidem, p. 51.
46 CODIGO DE POSTURAS, OP. CIT., P. 55.
47 Ibidem, p. 56.

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A seção do código dedicada aos assuntos de polícia informava que era


“proibido a quaisquer trabalhadores” fazer vozerias e andar gritando pelas ruas,
sendo permitido, “nas horas que não forem de silêncio, o canto para facilitar o
trabalho”.48 Entre esses trabalhadores estavam incluídos os escravos, sobretudo
se considerarmos que em 1838, quando a medida foi promulgada, eles predomina-
vam como força de trabalho, correspondendo a 42,71% da população do município
da Corte.49 Para a elite senhorial, essa concessão poderia contribuir para que os
pretos aliviassem a faina diária e melhor desempenhassem sua função. Para os ne-
gros escravos e libertos, que tinham essa prática entre seus costumes, tratava-se
do reconhecimento de suas manifestações culturais e formas de organização do
trabalho, pois o canto, além de marcar o ritmo do trabalho duro que realizavam,
por meio de suas letras e melodias, poderia se tornar um canal de denúncia quanto
às condições da dominação a qual estavam submetidos.50
Entre os trabalhadores que tinham o costume de trabalhar cantando, esta-
vam os escravos ao ganho. As posturas determinavam que “ninguém poderá ter
escravos ao ganho sem tirar licença na Câmara Municipal, recebendo com a licença
uma chapa de metal numerada”, que o ganhador deveria trazer pendurada em lu-
gar visível. O ganhador que fosse pessoa livre também deveria trazer essa chapa,
e só poderia tirar a licença se apresentasse um “fiador que se responsabilize por
ele”. Se fossem encontrados sem a chapa, o cativo passaria oito dias no calabouço
e o homem livre seria recolhido por oito dias na cadeia.51 Foi essa medida que duas
décadas depois inspirou os vereadores de Salvador. Como foi apontado por João
 25 José Reis, o alvo do controle não era apenas o escravo, mas todos os trabalha-
dores daquele setor, em que a presença negra era maciça. E parece que a pouca
diferença entre as obrigações e penas impostas aos ganhadores livres e ganhado-
res escravos reforça esse argumento. Vale notar que a maior parte das infrações
previstas no código de posturas de 1838 e nas dezenas de editais publicados nas
décadas posteriores não previam multas e penas distintas para pessoas livres e
escravas. Apenas na prevenção das formas mais graves de rebeldia e controle das
manifestações festivas havia uma forte tendência ao estabelecimento de punições
específicas para os escravos.52 No caso das infrações de artigos que não incorriam
em pena de prisão, os fiscais estavam mesmo autorizados a pôr os escravos em
custódia e soltá-los assim que satisfizessem a multa, sem que fosse explicitada a
necessidade de darem parte ao senhor sobre a ocorrência.
Como as leis municipais estavam vinculadas aos costumes e ao cotidiano da
cidade, sobre esse aspecto talvez pesasse a “existência de zonas amplas de incer-
teza social sobre as fronteiras entre escravidão e liberdade”, que criavam “territó-
rios sociais ambíguos”.53 Na Corte, o mundo do trabalho era perpassado por essas
ambiguidades, por conta da dificuldade de se separar completamente os espaços
de atuação exclusivos de escravos e homens pobres livres. Se todos os pretos e
parte dos pardos pobres viviam sob suspeita de serem escravos, em contraparti-
da, uma parte dos escravos urbanos vivia se passando por livre. Eles dispunham
de alguma liberdade, ainda que precária, proporcionada pelo trabalho ao ganho e

48 Ibidem, p. 20.
49 VITORINO, 2002, Op. cit., p. 94.
50 REIS, Op. cit., p. 12.
51 CODIGO DE POSTURAS, OP. CIT., P. 27-28.
52 Sobre o controle das festas negras, ver: ABREU, Martha. O Império do Divino: festas religiosas e cultura
popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 198.
53 CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 2012, p. 233.

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de aluguel, pois o desempenho dessas atividades permitia que se mantivessem a


maior parte do tempo longe do olhar vigilante de seus senhores, “vivendo sobre
si”, mantendo rotinas de viver e ganhar o sustento muito próximas dos homens
pobres livres, inclusive no que se refere à prestação de serviço mediante remune-
ração. Prática comum, os escravos acertavam diretamente com os locadores sobre
os termos do contrato para a prestação de serviço, decidindo e assumindo respon-
sabilidade sobre o recebimento de seu pagamento.54 Como esse quadro foi se tor-
nando mais complexo na medida em que o século XIX avançava, no que se refere
à regulação das atividades econômicas, a legislação municipal se ocupou mais em
implantar estratégias de controle que pudessem alcançar todos os trabalhadores.
O reconhecimento da humanidade do escravo não comprometia, de modo
algum, que as posturas municipais cumprissem o papel tradicionalmente atribuído
às leis, nesse caso, defendendo as pretensões dos proprietários e governantes no
que se refere ao controle sobre a força de trabalho, assim contribuindo para a con-
solidação do poder da classe senhorial. No entanto, as sanções previstas nas pos-
turas não asseguravam que os escravos se comportassem nas praças e mercados
da cidade da forma pretendida pelos proprietários, sendo relativamente comuns
as reclamações quanto à incapacidade das autoridades municipais de prevenirem
os conflitos envolvendo os trabalhadores negros. Em 3 de novembro de 1858, na
seção de publicações a pedido do Correio da Tarde, um leitor sugeriu que alguns
policiais pedestres fossem destacados para dar apoio ao fiscal da municipalidade
que vigiava o Mercado da Praia do Peixe. No seu ver, somente assim se poderia
evitar que os negros continuassem proferindo “desaforos” e “insultos” contra os
cidadãos que por lá faziam suas compras. Sobre o episódio que motivou a queixa,  26
ele escreveu:

Consta que um destes dias foi ali um indivíduo e querendo comprar na


banca n. 19 um peixe a um preto lanhado de nome Tibério, este pedira
2$500, e oferecendo-lhe o indivíduo 1$000, aquele atrevido africano lhe
dissera “isso é uma asneira” e ponderando-lhe o indivíduo que ele não
sabia o que era “asneira”, retorquiu Tibério com insultos.
Já algumas vezes se tem chamado a atenção da polícia para aquela pra-
ça, porque estando a provisão pública ali nas mãos, pela máxima parte
de pretos escravos, e libertos, e sendo todos sumamente insolentes, e
confiados, veem-se os cidadãos honestos privados de fazerem pessoal-
mente suas compras para se não exporem a repugnância de tratar com
uma cáfila que desrespeita a todos porque julga que todos são tão bons
como eles. [...]
Façam os leitores ideias de como ficaria o sobredito indivíduo, cidadão
livre, e homem de posição, ao ver-se insultado por um negro da costa
da África que já foi escravo do bacalhau!! [...]
Finalmente a ousadia dos escravos e libertos do mercado da praia do
Peixe, requer pronta “correção”, e talvez ela se não fizesse tão comple-
ta como principiando-se por cessar-se-lhes as licenças para exercerem
uma profissão que em um país civilizado só deve ser permitida aos “ci-
dadãos livres”.

Na perspectiva dos dirigentes do Império, difundida entre a minoria letrada da


população que constituía o público alvo das folhas fluminenses, era fundamental que
todos os elementos constitutivos da sociedade conhecessem e se mantivessem em

54 GRINBERG, Op. cit., p. 58-59.

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seus lugares.55 Para tanto, os cativos e homens pobres, agregados e dependentes,


deveriam prestar sinais de deferência e submissão à classe senhorial, e nas ativi-
dades cotidianas isso não poderia ser diferente. No entanto, como a historiografia
da escravidão tem insistido nas últimas décadas, o comportamento dos escravos
esteve longe de corresponder às idealizações da classe senhorial. Numa cidade
como o Rio de Janeiro, em que predominavam os trabalhadores negros e pardos,
escravos e livres, não parece tão improvável a insolência atribuída ao preto Tibério.
Ainda que trouxesse no corpo lanhado as evidências de sua condição escrava, sua
confiança talvez fosse motivada pela percepção de que os brados proferidos pe-
los cidadãos de posição nem sempre fossem repercutir como desejavam. Afinal, a
maior praça de mercado do país não dava sinais de que pretendesse prescindir dos
trabalhadores de cor, a despeito de muitos cidadãos não considerarem convenien-
te que eles continuassem exercendo determinadas ocupações.
Em 18 de setembro de 1861, foi a vez do vereador encarregado da Praça do
Mercado e Marinhas reclamar do comportamento da população cativa, solicitando
a intervenção do chefe de polícia para manter a ordem e a tranquilidade no local.
Em ofício remetido ao presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ele enca-
minhou a solicitação da seguinte forma:

Sendo a Praça de Marinhas um lugar em que o negócio é feito por gran-


de parte de gente sem educação e escrava, onde constantemente são
desrespeitadas as pessoas sisudas, que a ele vão mercadejarem, por

 27
insultos, doestos e epítetos afrontosos, acrescendo que até o guarda
encarregado da polícia municipal, naquele lugar é muitas vezes ludibria-
do, e encontra resistência, quando tem que punir os infratores do Regu-
lamento da Praça do Mercado, como aconteceu há dias, que um preto
escravo, com ele lutou, sendo ferido no rosto com o chapéu de sol que
o guarda tinha na mão, resultando disso querer o senhor do escravo ins-
taurar processo ao guarda pelo ferimento. À vista das razões alegadas,
peço a Vossa Excelência para que se digne reclamar do Excelentíssimo
Chefe de Polícia, uma força policial, que ali permaneça durante o dia, a
fim de que aquela gente insolente se abstenha de proceder atrevida-
mente para com o público e o guarda encarregado da fiscalização, evi-
tando assim que eu também seja desrespeitado no exercício do cargo,
que a Ilustríssima Câmara me confiou.56

O código de posturas determinava que fossem imediatamente presas e re-


colhidas à cadeia todas “as pessoas que insultarem e menoscabarem” os fiscais e
guardas municipais que estivessem no exercício de suas funções.57 Mas a solicita-
ção feita pelo vereador, prontamente atendida pelo presidente da câmara e pelo
chefe de polícia, mostra a dificuldade enfrentada pelas autoridades municipais
no sentido de assegurar um efetivo controle sobre os trabalhadores negros, cujo
comportamento provocava grande preocupação entre as autoridades encarrega-
das de assuntos policiais e a parte sisuda da população.
Para o restante da população, as fragilidades na execução das estratégias
de controle do governo municipal poderiam ser vistas numa perspectiva diferen-
te, pois eram essas falhas, omissões e perspectivas de tolerância que ajudavam a
ampliar os espaços de manobra para os trabalhadores da cidade. Não por acaso,
em artigo que discutia a ocupação dos espaços urbanos por quitandeiras, Flávio

55 MATTOS, Op. cit., p. 122-136.


56 Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Polícia, cód. 47-3-35, 18 set. 1861.
57 CODIGO DE POSTURAS, OP. CIT., P. 39.

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Gomes e Carlos Eugênio Líbano afirmaram que “a primeira vitória de uma certa
‘cidadania’ na urbe carioca envolvendo a população negra, africana e crioula” fora
conquistada justamente no âmbito de atuação da municipalidade. Eles se referiam
ao manifesto de 1776, em que as quitandeiras escravas e libertas se dirigiram aos
vereadores contestando a decisão tomada pelo juiz de fora que pretendia retirá-
-las do costumeiro local de trabalho, em frente ao edifício do mesmo senado, a
despeito de elas pagarem em conjunto pelo aforamento do local. Mostrando que
“mantinham um nível de organização coletiva e ocupacional bastante sofistica-
do”, e contando com apoio do procurador da câmara, as quitandeiras consegui-
ram que a decisão arbitrária do juiz de fora fosse suspensa e recuperaram a posse
do terreno. É verdade que, para Gomes e Soares, a articulação das ganhadeiras
com a elite política local se perdeu no século XIX, como comprovaria um docu-
mento de 1831, mostrando que “elas passaram a ser hostilizadas até mesmo pelos
religiosos da igreja de Nossa Senhora do Rosário, a igreja dos pretos da cidade, em
virtude do barulho que provocavam no largo contíguo”.58
Mas é importante ressaltar que a queixa não era nova e não foi a última. Em
18 de maio de 1854, na seção de publicações a pedido do Correio Mercantil, um leitor
que assinava “O Rabeca” denunciou a permanência das quitandeiras naquele largo:

Atenda a Ilustríssima Câmara


Já que o sr. Fiscal da freguesia do Sacramento não quer mandar retirar
as quitandeiras que ficaram em frente à igreja de Nossa Senhora do Ro-

 28
sário, com o único fim de não dar corda, quando S. S. fez retirar todas
as outras que por infelizes não tiveram quem por elas se empenhasse,
rogamos ao digno Sr. Presidente e mais vereadores que mandem ao Sr.
Fiscal fazer retirar as que ficaram, visto que só nessa freguesia se faz da
frente de um templo praça de quitanda: finalmente seja observada a lei,
que deve ser igual para todos.

Nas queixas apresentadas pela população aparece de forma reiterada a re-


sistência imposta pelas quitandeiras ao cumprimento das posturas. Por vezes, no
lugar de recorrerem à vereança, os cidadãos aflitos chamavam a atenção das auto-
ridades policiais para o problema. Em carta publicada no Jornal do Commércio, em
22 de outubro de 1855, o leitor lastimava que “o procedimento que há em todas
as praças onde se juntam quitandeiras” não chegasse ao conhecimento do chefe
de polícia, pois a “audácia” delas tornara quase diária “as cenas como a que acon-
teceu ontem no Largo da Sé às duas horas da tarde, não só as infames palavras,
os gestos indecentes (próprios da classe), como chegaram ao ponto de levantar a
saia de uma em ar de desprezo”. Mas os chefes de polícia, tão ciosos em denunciar
a ação “fraca e improfícua” da câmara, não tiveram maior sucesso.
Em 8 de janeiro de 1857, ao comentar sobre a posse da nova Câmara Muni-
cipal da Corte, o redator do Correio da Tarde concluiu seu artigo com a seguinte
solicitação: “ocorre-nos pedir à nova câmara que ponha muito à peito desembara-
çar das quitandeiras os largos e praças, estabelecendo mais um ou dois mercados,
em lugares apropriados, no centro da cidade”. O empenho da vereança continuou
sendo insuficiente, dando lugar a tumultos como os que ocorriam na Praça do Ca-
pim, avaliada pelo chefe de polícia da Corte como “um dos lugares de mais trânsi-
to, já pelo grande número de casas de negócio que nela existem e já pelo concurso
de quitandeiros, que motivam sempre desordens, tornando, além disso, um dos

58 GOMES, Flávio dos Santos; SOARES, Carlos Eugênio Líbano. “Dizem as quitandeiras...”. Ocupações urbanas
e identidades étnicas em uma cidade escravista: Rio de Janeiro, século XIX. Acervo, v.15, n.2, 2002, p. 3-6.

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pontos escolhidos pelos capoeiras para suas costumadas correrias”. Por esse mo-
tivo, em 5 de Maio de 1862, ele comunicou ao Ministro da Justiça que estabeleceria
um posto de guarda naquela mediação.59
Conforme registraram os chefes de polícia, os fiscais da municipalidade e a
população, por muito tempo ainda, as negras quitandeiras e outros tantos traba-
lhadores negros, que pareciam integrados à paisagem urbana desde os tempos
coloniais, continuaram prestando seus serviços e por vezes incomodando os mo-
radores da cidade, com seus tabuleiros, cestos, caldeirões e alaridos costumeiros.
Para isso, contavam com o respaldo da câmara municipal, fosse lhes assegurando
o direito a permanecer nos largos e praças destinados às suas atividades econômi-
cas, fosse realizando seu trabalho de vigilância e prevenção de forma ineficaz, per-
mitindo, assim, que também ocupassem os espaços não autorizados, a despeito
das queixas e reclamações das autoridades policiais e dos cidadãos incomodados
com os “gestos indecentes” tão comumente atribuídos aos trabalhadores negros.

Conclusão
Para se pensar nas câmaras municipais como instâncias reguladoras do tra-
balho urbano é preciso, primeiramente, reconsiderar a ideia largamente difundida
nos estudos que dizem respeito à história política do século XIX sobre o fato de a
subordinação das municipalidades a outras instâncias do governo permitir o esva-
ziamento das suas atribuições políticas e administrativas ao ponto de nulifica-las.60
 29 Conforme os estudos no campo da História Social têm demonstrado, especialmen-
te aqueles que se ocuparam do Rio de Janeiro no Oitocentos, as prerrogativas da
municipalidade quanto à regulação da economia local, ordenamento do espaço
urbano e saúde pública conferia aos seus agentes participação significativa nas de-
cisões sobre o governo da cidade e sobre o cotidiano de sua população. Na legis-
lação municipal, a extensão dos setores que sofrem ingerência da administração
municipal é expressa no código de posturas, com seus inúmeros artigos regulando
a vida da população no espaço urbano, prescrevendo normas que deveriam ser
observadas nas ruas, no ambiente de lazer e também no trabalho.
Como temos mostrado, a jurisdição da câmara municipal sobre as ativida-
des econômicas locais se traduzia, fundamentalmente, na regulação das relações
e formas de trabalho tipicamente urbanas. Na administração do governo munici-
pal, se destaca a preocupação com a vigilância e com a fiscalização das atividades
em que predominava a presença de africanos e seus descendentes, fosse com as
posturas explicitando ocupações que não poderiam ser exercidas pela população
cativa ou por meio de medidas que procuravam assegurar ao governo municipal
algum controle sobre esses trabalhadores.
Em contrapartida, também é possível considerar que a atuação da adminis-
tração municipal contribuía para que os escravos ampliassem seu campo de ação
e adotassem formas de viver que deveriam ser restritas aos homens livres. Nesse
sentido, os casos dos ganhadores e vendedores ambulantes são exemplares. Ao mes-
mo tempo em que impunha dispositivos de controle, obrigando-os a tirar licença, a

59 Arquivo Nacional, Secretaria de Polícia da Corte, maço IJ6-516, 5 maio 1862.


60 ����������������������������������������������������������������������������������������������������
O argumento se mantém a despeito das divergências sobre ter prevalecido a centralização ou a autono-
mia das províncias no processo de construção do Estado Imperial. Ver: FAORO, Raymundo. Os donos do
poder: formação do patronato político brasileiro. v.2. São Paulo: Globo, 1993; HOLANDA, Sérgio Buarque
de. A herança colonial ― sua desagregação. In: HOLANDA, S. B. O Brasil monárquico. 1. O processo de
emancipação. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo; Rio de Janeiro: Fidel, 1976; DOLHNIKOFF,
Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil. São Paulo: Ed. Globo, 2005.

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 11-30


JULIANA TEIXEIRA SOUZA

câmara reconhecia que os escravos, assim como as pessoas livres, poderiam viver
dessas atividades. Lembramos que, de acordo com o Dicionário de Luiz Maria da
Silva Pinto (1832), ganhador é aquele “que vive do ganho do seu trabalho”, e ga-
nho significa “o mesmo que lucro”.61 No caso dos ganhadores, esse lucro era ob-
tido ao alugarem sua mão de obra pelo tempo e pelo preço que acertassem com
os contratadores dos seus serviços, muito embora, como afirma Keila Grinberg,
não houvesse previsão jurídica para a atividade realizada por esses escravos que
firmavam contrato de trabalho com pessoas livres.62 Portanto, se por um lado a
legislação municipal criava dispositivos que contribuíam para o controle da escra-
vidão urbana, por outro, oferecia amparo legal para a existência desses territórios
ambíguos no mundo do trabalho, que poderiam ser ocupados por todas as pes-
soas, a despeito de sua cor ou condição jurídica, como as posturas costumavam
frisar, tornando mais fluidas as fronteiras entre o mundo dos cativos e o mundo
dos homens pobres livres.

Recebido em 25/04/2013
Aprovado em 10/05/2013

 30

61 PINTO, Luiz Maria da Silva. Dicionário da Língua Brasileira por Luiz Maria da Silva Pinto, natural da Pro-
víncia de Goya. Na Tipografia de Silva, 1832. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/en/dicionario/3/
ganhador. Acessado em: 26 de maio de 2013.
62 GRINBERG, Op. cit., p. 60.

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O lado escuro do poder municipal:
A mão de obra forçada e o Toque
de Recolher no Rio de Janeiro
Oitocentista*
Amy Chazkel**

Resumo: Durante mais da metade do século XIX, cobrindo boa parte do período im-
perial, as noites da cidade do Rio de Janeiro estiveram, quase sem interrupção, sob
toque de recolher. Este artigo analisa a implementação dessa medida no contexto
da história social e legal da cidade no período. Seu principal foco será o Edital de
1825, que estabeleceu o chamado “Toque de Aragão”, a norma municipal batizada
em homenagem ao Intendente de Polícia do Rio de Janeiro, responsável por ordenar
a severa limitação da liberdade de circulação de pessoas durante a noite, bem como
por impedir ou dificultar a reunião de determinados grupos de moradores daquela
cidade, investigando suas causas e efeitos. A designação da noite como uma cat-
egoria jurídica e, com efeito, uma jurisdição à parte, estava relacionada ao controle
dos trabalhadores e, em particular, à evolução do panorama do trabalho forçado na
cidade mais populosa e politicamente significativa do Brasil recém-independente.

Palavras-chave: noite, toque de recolher, Rio de Janeiro

Abstract: The city of Rio de Janeiro was under curfew for a continuous period that
lasted for more than half of the nineteenth century, for nearly the entire Empire.
This article analyzes the implementation of a nighttime curfew in Rio in the con-
text of the social and legal history of the decades to follow. The principal focus is
the so-called Toque de Aragão—the edict named after its author, Fernando Teix-
eira de Aragão, the head of Rio’s police—that imposed severe limitations on the
nighttime freedom of movement and association for certain groups of persons,
especially those of African descent. The designation of the nighttime as a legal cat-
egory and, in effect, a separate jurisdiction, was related to the control of workers,
and in particular to the changing landscape of forced labor in the most populous
and politically significant city in newly independent Brazil.

Keywords: night, curfew, Rio de Janeiro

* Esta pesquisa foi realizada com o apoio financeiro da PSC-CUNY Research Foundation, do Queens College
Dean of the Social Sciences Research Fund e do National Endowment for the Humanities. A autora
agradeçe o auxílio de Mila Burns Nascimento, Henrique Espada Lima, Cristiana Schettini Pereira e Paulo
Terra. Uma versão incipiente deste texto foi apresentada no Programa de Pós-Graduação em História/
Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Universidade Estadual de Campinas e aproveitou os
comentários de Sidney Chalhoub e de os outros participantes do seminário.
** Department of History, City University of New York, Queens College and the Graduate Center. Contato:
amy.chazkel@qc.cuny.edu

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AMY CHAZKEL

Em 1936, Gilberto Freyre publicou um livro que traçava a “decadência do pa-


triarcado rural”, para citar o seu subtítulo, e o desenvolvimento do seu correlato
urbano. Com o título de Sobrados e Mucambos, foi publicado três anos depois de
Casa-Grande e Senzala e ganhou a forma de um ensaio histórico-sociológico que
analisava de maneira criativa a geografia humana do campo e da cidade no Brasil.
Utilizando-se principalmente de relatos de viagem estrangeiros, assim como evi-
dências da arquitetura vernacular e da cultura material contemporâneas, Freyre
narrava a ruptura da antiga ordem socioeconômica, quando a elite de fazendeiros
passou a prestar menos atenção na Casa-Grande e mais nas mansões da cidade,
no século XIX. De acordo com seu argumento, o crescimento das cidades havia
modernizado ― “re-europeizado” ― as classes dos lavradores, enquanto eles se
acostumavam com a vida pública. Assim, os até então separados domínios da casa
e da rua começavam a entrelaçar-se; as famílias patriarcais da elite gradualmente
permitiram que suas mulheres e crianças ultrapassassem a clausura da vida do-
méstica e passaram a conformar-se com o fim da escravidão.
O subtexto da análise, decididamente espacial, de Gilberto Freyre sobre a
formação do “homem brasileiro” contém reflexões sobre um modo de interpre-
tação histórica que ainda está por ser plenamente desenvolvido, algo que não foi
feito por Freyre nem em seu amplo corpo de trabalho: o estudo de como a vida
cotidiana foi contida por mudanças e limites não apenas espaciais, mas também
temporais. A sociabilidade dentro de casa (em oposição a que se dá na rua), no
que se refere à dinâmica do sobrado, não se configurava apenas pelo modo como
os quartos eram distribuídos, mas também se desenhava pela maneira como eram
iluminados. Freyre ainda descreve como a iluminação pública, anteriormente uma
questão estritamente privada e encontrada exclusivamente nas casas dos mais
 32
abastados, passou a ocupar, também, as ruas. Com isso, os espaços urbanos co-
muns se tornaram verdadeiramente públicos, e chegaram “os primeiros brilhos de
dignidade da rua, outrora tão subalterna que era preciso que a luz das casas parti-
culares e dos nichos dos santos a iluminasse pela mão dos negros escravos ou pela
piedade dos devotos”.1 A diferença entre o que Freyre chama de “privatismo” e o
espírito público (ou virtude pública) havia surgido por causa do fim das restrições
habituais e legais à circulação durante a noite ― e não apenas por causa da nova
presença dos moradores nas ruas das cidades brasileiras.
A ascensão da cultura urbana poderia ocorrer apenas quando as ruas da ci-
dade se tornassem um lugar hospitaleiro, um local de prestígio, segundo Freyre.
Repleta de cadáveres de animais, frutas apodrecidas e de esgoto a céu aberto, a
rua era, anteriormente, um lugar inacessível durante a noite. O “respeito” tinha,
para a rua, uma dimensão especificamente temporal: ele descreve, por exemplo,
as regras que proibiam os senhores de baterem publicamente nos escravos depois
que os sinos da igreja soassem às 9 horas da noite. Implícita na análise espacial
icônica de Freyre, em outras palavras, está a percepção de que a relação entre a
jurisdição pública e a privada, entre o poder público e o privado ― central tanto
para a história urbana quanto para o estudo das sociedades escravocratas e da for-
mação do Estado ― se desenrolou não apenas no espaço, mas também no tempo.
O que aconteceria se tornássemos o tempo urbano, em vez do espaço urbano,
o objeto de nossa análise? Histórias urbanas do Brasil têm habitado na diferença
entre casa e rua, e as histórias mais recentes e críticas têm questionado e complica-
do essas distinções gritantes. Pesquisas fascinantes sobre a efervescência cultural

1 FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: Decadência do Patriarchado Rural no Brasil. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1936, p. 18-19.

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O LADO ESCURO DO PODER MUNICIPAL: A MÃO DE OBRA FORÇADA...

nas regiões boêmias da cidade, os trabalhadores portuários radicalizados nos dis-


tritos marítimos, a vida social singular das famosas praias do Rio de Janeiro e os
espaços de resistência e rebelião em praças públicas têm proporcionado uma rica
análise da importância central de disputas pelo espaço urbano para a história social
e política do Brasil, da América Latina, do Mundo Atlântico e, de fato, do chamado
Sul Global. É claro, porém, que, assim como o espaço, o tempo também merece
atenção analítica, visto que delimita dramaticamente a ação e o comportamento de
um modo distinto das já amplamente estudadas disputas pelo território da cidade.
No Rio de Janeiro, no período tratado neste artigo, o tempo funcionava
como um recurso renovável para aqueles que buscavam o abrigo da escuridão e
do descanso de seu trabalho diário, e para as autoridades, em seus esforços para
manter o controle sobre a população crescente e diversificada da cidade. A impo-
sição de um toque de recolher durante certas horas e para determinadas pessoas
condicionou o trabalho diário e as rotinas de lazer dos moradores da cidade que
eram mais vulneráveis socioeconomicamente, lembrando-os diariamente de que
alguns eram mais iguais do que outros.
Se ninguém seguiu a tentativa de Freyre de sistematicamente se debruçar
sobre o ritmo diário da vida urbana e reconhecer a importância analítica da noite
em oposição ao dia, o mesmo não ocorreu com a narrativa de modernização que
também fundamenta amplamente o seu trabalho. Os poucos que trataram da ilu-
minação gradual da cidade, que tornou possível a vida pública durante as 24 horas
do dia, a associaram a um avanço tecnológico inevitável que formou um espaço ur-
 33 bano reconhecidamente moderno.2 A análise dos documentos administrativos ―
relativos à iluminação pública no Rio de Janeiro do século XIX ― produzidos pelas
autoridades municipais parece corroborar com essa história familiar e previsível de
modernização e progresso, de moradores que se aventuraram nas ruas, pouco a
pouco, se unindo para formar um público moderno.
Os documentos da polícia, no entanto, proporcionam uma visão diferente.
A cidade do Rio esteve sob o toque de recolher por um período ininterrupto que
durou por mais da metade do século XIX, durante quase todo o Império. Este arti-
go analisa a implementação do toque de recolher, no contexto da história social e
legal das décadas seguintes à implementação dessa medida. O principal foco é o
Edital de 1825, que estabeleceu o chamado “Toque de Aragão” ― a norma munici-
pal no Rio batizada em homenagem ao Intendente de Polícia que ordenou a severa
limitação da liberdade de circulação de pessoas durante a noite, e as reuniões de
determinados grupos de cariocas ―, investigando suas causas e efeitos.
Durante o dia, os visitantes estrangeiros no Rio, nas primeiras décadas do
Império, se valiam de referências sonoras para evocar o clamor urbano, repleto de
grupos de escravos e sua “tagarelice incessante”, que eles muitas vezes contras-
tavam com o silêncio profundo após o dobrar dos sinos das igrejas, que sinalizava
o início do toque de recolher.3 Um visitante inglês, escrevendo na década de 1830,

2 O trabalho clássico que trata da história social da iluminação urbana: SCHIVELBUSCH, Wolfgang.
Disenchanted Night: The Industrialization of Light in the Nineteenth Century. trans. Angela Davies. Berkeley,
CA: University of California Press, 1995. Outros exemplos são: BOONE, Christopher. The Rio de Janeiro
Tramway, Light, and Power Company and the “Modernization” of Rio de Janeiro during the Old Republic.
Toronto: Univ. of Toronto Press, 1995 e FERREIRA, Milton Martins. A evolução da iluminação na cidade do
Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Synergia; Light, 2009.
3 WALSH, Robert. Notices of Brazil in 1828 and 1829, reproduzido em: CONRAD, Robert E. Children of God’s
Fire: A Documentary History of Black Slavery in Brazil. Princeton: Princeton University Press, 1984, 219; EBEL,
Ernst. O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, p. 73. Ver em
geral: LEITE, Miriam Lifchitz Moreira. Livros de viagem (1803-1900). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

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AMY CHAZKEL

observou que os escravos corriam para evitar a violação do toque de recolher das
10 horas da noite, e “ai daquele que fosse flagrado” pela polícia na rua depois
dessa hora. Ele escreve: “Nada poderia ser mais surpreendente para um estranho
do norte... do que encontrar as ruas e os belos bairros da cidade praticamente de-
sabitados e silenciosos como as ruínas de Tebas ou Palmyra”. 4 Tal impressão, no
entanto, não corresponde plenamente à verdade.
Existem poucas ― se é que existem ― narrativas da vida pública cotidiana
depois do escurecer. Apesar do senso comum sobre os espaços públicos “deser-
tos” durante a noite na Corte Imperial, as ruas do Rio evidentemente não estavam
vazias no período da escuridão. A história da vida cotidiana do Rio de Janeiro do
século XIX termina no pôr do sol, mas a documentação a esse respeito, ao que
parece, não. O toque de recolher a que aquele viajante inglês se referia entrou em
vigor logo após a Independência, junto com uma série de decretos policiais e re-
gulamentos municipais que criminalizaram, para a maioria, o ato de estar em qual-
quer espaço público após o dobrar dos sinos das igrejas à noite. Na medida em que
as interdições são um indício do que as pessoas realmente fazem, podemos supor
que, no século XIX, o Rio estava vivo depois do escurecer. Os registros nos arqui-
vos das prisões que tais interdições produziam são vislumbres inestimáveis de um
pequeno e fundamental período na vida pública após o pôr do sol, em um momen-
to anterior à era da famosa vida noturna do Rio de Janeiro ― em outras palavras,
em uma época em que muitos duvidavam da sua própria existência. Além disso,
esses documentos são artefatos fascinantes do exercício diário do poder munici-
pal na sua relação com os trabalhadores da cidade.
O controle do ritmo diário da vida é um exemplo do poder local por excelên-  34
cia; é uma questão cotidiana sem qualquer efeito direto sobre as leis e a jurispru-
dência em nível nacional. Aqueles que exerciam o poder municipal designavam
jurisdições temporais e não apenas espaciais. A mudança legal que ocorria a cada
noite, com o pôr do sol, se deu no contexto de contínuas lutas pelo poder entre a
polícia, os indivíduos (especialmente os proprietários de escravos) e a Coroa. Pres-
tar atenção ao tempo cotidiano pode proporcionar uma nova forma de examinar
a questão crucial de quem ― quais instituições ou indivíduos ― deve decidir, es-
tabelecer e fazer cumprir as normas de moralidade pública e do comportamento
correto.5 As maneiras pelas quais as regras do período noturno foram impostas
têm fortes implicações para a compreensão do poder municipal, não apenas como
o equilíbrio, às vezes tenso, entre a Câmara Municipal e a polícia, mas, além disso,
como o equilíbrio entre os poderes público e privado.6 Os escravos podiam ser
açoitados e encarcerados no Depósito Geral se fossem flagrados nas ruas depois
do anoitecer; senhores de escravos, no entanto, poderiam escrever um bilhete
concedendo-lhes isenção de tal regulamento. O nexo das interdições legais e prá-
ticas de policiamento depois de escurecer criou uma jurisdição muito especial,
que desaparecia ao nascer do sol, mas se renovava todas as noites. Parece claro
que não apenas a escravidão ilegal, mas também a mudança legal ocorrida duran-
te a noite, completa o quadro da paisagem sociolegal e explica a precariedade
da liberdade para a maioria não branca da cidade.7 A designação da noite como

4 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Stanford, CA:
Stanford University Press, 1993, p. 22-23.
5 Ver: HARTOG, Hendrik. “Pigs and Positivism”. Wisconsin Law Review. Madison, WI. 901, 1985, p. 899-935.
6 ALGRANTI, Leila Mezan. O feitor ausente: estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro: 1808-1822.
Petrópolis: Vozes, 1988; SCHULTZ, Kirsten. “The Crisis of Empire and the Problem of Slavery: Portugal and
Brazil, c. 1700- c. 1820”. Common Knowledge. Durham, NC: Duke University Press, 11:2, 2005, p. 275-77.
7 CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: Ilegaldade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012.

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O LADO ESCURO DO PODER MUNICIPAL: A MÃO DE OBRA FORÇADA...

uma categoria jurídica e, com efeito, uma jurisdição à parte, estava relacionada ao
controle dos trabalhadores e, em particular, à evolução do panorama de trabalho
compulsório na cidade mais populosa e politicamente significativa do Brasil recém-
independente.
Uma regra aparentemente excêntrica e arcaica como a criminalização de es-
tar nas ruas depois do anoitecer parece fazer tanto sentido quanto a sua eventual
extinção, à medida que a cidade se modernizava e se livrava do duplo anacronismo
da escravidão e da monarquia. Por causa das tensões sociais inerentes a uma cida-
de de trabalhadores escravizados, e da violência necessária para governá-la, o po-
liciamento tirânico parece ser uma característica orgânica da paisagem urbana. A
história geralmente contada sobre o policiamento da cidade enfoca estreitamente
a questão da ordem e da desordem social urbana e o controle de escravos, e da mi-
tigação de potenciais revoltas pela instituição policial, então em desenvolvimento.
Este artigo se une a uma útil conversa iniciada pelos historiadores que começaram
a investigar o que existe para além da importante, mas já familiar, história do con-
trole social e do policiamento draconiano. Esses trabalhos recentes procuram não
apenas identificar, mas perscrutar o poder oficial para entender seu funcionamen-
to no nível municipal e obter uma visão mais concreta de como a lei age sobre a
cultura e a sociedade.8 Da mesma maneira, o que emerge dos registros arquivísti-
cos produzidos pelo Toque de Aragão é uma história de repressão, e os documen-
tos mostram claramente a presunção racista de culpabilidade de qualquer pessoa
afrodescendente. Mas essa história é mais do que apenas outro exemplo do Es-
tado autoritário esmagando o povo, e a criminalização de estar na rua depois de
 35 anoitecer vai além da questão de desigualdade social. Em vez de ser uma relíquia
do Antigo Regime, foi uma prática antiga, mas também uma novidade do século
XIX, que virou lei na esteira de uma crise de mão de obra urbana.
O toque de recolher diferenciava abertamente as classes sociais e só era
aplicado aos escravos, aos que pudessem ser confundidos com escravos, como as
pessoas livres de ascendência africana e, algumas vezes, aos estrangeiros. Os mais
abastados e de pele mais clara foram explicitamente isentos.
Todas as pessoas não escravas nascidas no Brasil, independente da sua con-
dição jurídica ao nascer (livres ou não), de acordo com a primeira Constituição do
Brasil independente (ratificada em 1824) eram cidadãos a quem a igualdade era
garantida perante a lei. É interessante notar, contudo, que, embora todos fossem
capazes de exercer muitos desses direitos políticos e civis livremente, independen-
temente da sua etnia, no tangente à liberdade de ir e vir e ao uso da cidade, houve
uma divisão racial gritante.9 O toque de recolher não apenas discriminava as pessoas
de acordo com a cor da sua pele, mas também exigia que a polícia o fizesse. Depois de
escurecer, o regime legal mudava sutil, mas significativamente; o Rio se tornou uma
cidade de não cidadãos em estado de emergência sob o domínio da polícia.10

8 SOUZA, Juliana Teixeira. “A autoridade municipal na Corte Imperial: Enfrentamentos e negociações na


regulação do comércio de gêneros (1840-1889)”. PhD diss. Universidade Estadual de Campinas, 2007;
ABREU, Martha. O Império do divino: Festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. São
Paulo: Editora Nova Fronteira, 1999, cap. 3.
9 Este é mostrado dramaticamente na historiografia atual sobre a prática da re-escravização ilegal no Brasil
dos Oitocentos. Ver principalmente: CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: Ilegaldade e costume no
Brasil oitocentista. Op. cit. A questão da liberdade de ir e vir e da associação nos espaços públicos da cidade
lembra o conceito do “direitos públicos” desenvolvido na obra da Rebecca Scott; ver: SCOTT, Rebecca.
“Public Rights, Social Equality, and the Conceptual Roots of the Plessy Challenge”, Michigan Law Review.
Ann Arbor. v. 106, p. 777-804, 2009; e SCOTT, Rebecca; HEBRARD. Jean M. Freedom Papers: An Atlantic
Odyssey in the Age of Emancipation. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2012.
10 Para uma comparação instrutiva, ver: SPIELER, Miranda Frances. Empire and Underworld: Captivity in
French Guiana. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2012, p. 8-16.

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AMY CHAZKEL

Até mesmo os homens e mulheres cuja circulação noturna na cidade era li-
mitada pelo toque de recolher, tomavam as ruas constantemente após o anoite-
cer. Durante todo esse período, temos os registros policiais de pessoas que foram
presas depois de escurecer, “fora de horas”, para usar a linguagem corriqueira
dos policiais. É bastante claro que os regulamentos e editais destinados a reduzir
a socialização pública e a circulação de pessoal depois de escurecer não conseguiu
fazê-lo, ainda que essas leis certamente tenham tido outros efeitos.11
Curiosamente, o toque de recolher não parece ter gerado muita controvérsia.
Ele foi discutido ocasionalmente e com naturalidade em jornais e, mais tarde, na
literatura folclórica. Aparece em trabalhos de ficção ambientados no início do Im-
pério, servindo para destacar o quão diferente era a vida diária no passado. Juristas
e ensaístas políticos do início e de meados do período imperial, que escreveram
abundantemente sobre uma infinidade de outros assuntos ― da punição corporal
ao habeas corpus para o direito marítimo ― não se preocuparam com o toque de
recolher noturno. Essa marginalidade teórica em si é reveladora. A escassez de es-
crita jurídica, abordando diretamente o toque de recolher também significa que,
para estudar a sua imposição e os seus efeitos, é preciso contar com os registros de
prisões, e não muito mais que isso. Há certamente outras histórias a serem conta-
das sobre a vida depois do escurecer no Rio do século XIX, mas a história social e le-
gal do toque de recolher fornece um começo promissor para a compreensão desse
mundo ainda desconhecido. Os registros policiais indicam simultaneamente alguns
dos tipos de trabalho e lazer noturnos em que cariocas do século XIX se envolviam
e revelam a criação da noite como uma categoria sociojurídica. Com isso, podemos
capturar o processo de um “sistema social e cultural se definindo”. 12  36
Este artigo deixa para futuros estudos a importante tarefa de reconstruir
a história da sociabilidade pública e talvez, além de tudo, o trabalho que se fazia
depois do pôr do sol a despeito da interdição criminal de estar na rua depois do
toque de recolher. É impossível, porém, considerar estes aspetos da vida noturna
da cidade ― os batuques, os encontros religiosos e cívicos clandestinos, o povo
que circulava indo e vindo das tavernas até de madrugada, e eventualmente (de
meados do século em adiante) as sessões noturnas do teatro e os cafés-concertos,
as regatas que saiam à meia-noite ― sem parar primeiro para considerar o fato de
que, durante todo este tempo, estar no espaço público depois de anoitecer era
oficialmente um crime.

O que a lei enxergava no escuro, 1825-1878


Formas pré-modernas de iluminação pública eram caras, fracas e dependiam
completamente da iniciativa particular. Quando a sede do vice-reino do Brasil se
mudou de Salvador para o Rio, em 1763, a iluminação pública não existia no país,
em lugar nenhum. Os únicos vislumbres de luz após o pôr do sol vinham de lanter-
nas penduradas na frente de edifícios religiosos, candelabros, lanternas a óleo de
baleia ou velas de cera. Chamas em nichos e altares nas paredes de algumas esqui-
nas ou em fachadas de edifícios deixavam que os devotos rezassem até que os vi-

11 Os exemplos são muitos; veja Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), códice 40.3.78, folha 2.
(Ofício, 18 de junho de 1836); Arquivo Nacional (AN), Polícia da Côrte, Códice 327, v.1 and 2; AN, Polícia da
Côrte, Códice 330, v.6 and 7. Incidentes de prisões por estar nas ruas após o horário também são citados
em CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: Ilegaldade e costume no Brasil oitocentista. Op. cit., p. 432.
12 MUIR, Edward; RUGGIERO, Guido. History from Crime: Selections from Quaderni Storici. trans. Corrada
Biazzo Curry, Margaret A. Galucci, Mary M. Galucci. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994, p. 226.

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O LADO ESCURO DO PODER MUNICIPAL: A MÃO DE OBRA FORÇADA...

gias noturnos fizessem suas rondas. Os moradores da cidade fechavam-se dentro


de casa. Ruas estreitas eram perigosamente escuras. Residentes que precisavam
se mobilizar pela cidade de noite usavam o luar ou sua própria lanterna.
Como parte dos melhoramentos do final do século XVIII na capital do vice-
-reino, a iluminação pública foi introduzida; as primeiras cem lâmpadas de azeite
de peixe foram colocadas nas ruas centrais às custas do Estado, e ficavam acesas
quando a lua não estava cheia. No início da década de 1850, o município firmou um
contrato com uma empresa particular para a instalação de lâmpadas iluminadas a
gás, colocadas nas áreas centrais da cidade.13 Enquanto o Rio noturno se iluminava
gradualmente, durante as primeiras décadas depois da Independência, a questão
da iluminação pública surgia repetidamente na correspondência administrativa en-
tre as forças policiais e o governo municipal como um assunto da maior gravidade
para a segurança e a “tranquilidade” públicas, para citar a linguagem que frequen-
temente aparece nos documentos.14 O número exato e a localização das lanternas,
quem financiava e assumia a responsabilidade pela sua instalação, e a rapidez e
eficiência dela eram temas debatidos, mas o desejo de iluminar as ruas da cidade
parece ter gerado pouca controvérsia. Também parece claro que a iluminação pú-
blica havia se tornado, ao menos por volta de 1840, uma questão para a polícia.15
A noite é definida nos textos jurídicos como o período entre o pôr e o nascer
do sol. O momento em que a noite oficialmente começa e exatamente o que o
escuro devia significar variava muito na tradição jurídica ocidental, mas um regi-
me diferente sempre começava depois da escuridão. As leis visigótica e ibérica
 37 medieval, fontes para a lei ibero-americana, determinavam uma diferença entre
alguns crimes que se cometiam depois do pôr do sol, para os quais os acusados
recebiam castigos mais severos do que os mesmos crimes cometidos durante o
dia, chegando até mesmo a serem avaliados de acordo com uma jurisdição separa-
da.16 Na jurisprudência inglesa, que é frequentemente citada nos escritos jurídicos
portugueses e brasileiros, a noite começa “depois do pôr do sol e cessa quando há
luz do sol suficiente para discernir o semblante de um homem”.17 As Ordenações
Filipinas, (o código português do século XVI em efeito antes do Código Criminal
de 1830) prestam muita atenção à noite; as Ordenações mandam tocar o sino de
recolher ― o que, é importante notar, refere-se não ao horário do dia, mas à ne-
cessidade de permanecer em casa ― indicando o tempo em que devem tocar e
precisamente a que horas.18
Formalmente, as forças policiais profissionalizadas não existiam, seja de dia
ou de noite, até o século XIX, mas o patrulhamento noturno tem raízes profundas
na história ibero-americana. Na Europa medieval, guardas, “notáveis armados”,
se mantinham atentos aos portões da cidade durante o dia. À noite, guardas de-
sarmados faziam patrulha, atentos a incêndios, intrusos e outros perigos. Esse foi,

13 Centro Cultural da Light, “A iluminação no Rio de Janeiro,” ms.


14 Ver: AGCRJ, códices 8.4.57, 8.4.58, e 47.3.30.
15 Ver, por exemplo: AGCRJ, códice 8.4.58, folha 49; AGCRJ, códice 8.4.58, folha 70; AGCRJ, códice 8.4.57,
folha 3; AGCRJ, códice 8.4.57, folhas 27-29.
16 VERDON, Jean. Night in the Middle Ages. Trans. George Holoch. Notre Dame, Indiana: University of Notre
Dame Press, 2002, p. 100.
17 HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1982 (1950), pp. 203-
205; SHUMAKER, Walter A.; LONGDORF, George Foster. The Cyclopedic Law Dictionary, 3. ed. Chicago:
Callaghan and Company, 1940, p. 753.
18 Ordenações e Leis do Reino de Portugal, Tomo 1, Título 65, par. 13 and 14. Ver também: BARRETO FILHO,
João Paulo de Mello; LIMA, Hermeto. História da polícia do Rio de Janeiro: Aspectos da cidade e da vida
carioca. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1939, p. 33, 36.

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por vezes, um projeto de trabalho compulsório para o qual os privilegiados po-


diam “comprar substitutos”. As Ordenações Filipinas também estipulavam as re-
gras para o recrutamento e para o controle das patrulhas noturnas, os chamados
quadrilhas e quadrilheiros. Os homens estavam sujeitos ao recrutamento forçado
para fazer parte da força de segurança pública em Lisboa e em outras grandes
cidades, cuja principal vantagem para o recruta era o fato de ser permitido a ele
estar fora de casa durante a noite, sem precisar se submeter a qualquer pergun-
ta.19 No Rio de Janeiro, o primeiro policiamento noturno, que incluiu não apenas
quadrilheiros, mas também capitães do mato, encarregados de capturar escravos
fugidos nas áreas em torno das cidades, consistiu, na verdade, de caçadores de
recompensas empregados por proprietários de escravos e pelo governo municipal
durante a era colonial.20
No Rio do início do século XIX, as restrições ao ir e vir depois de escurecer
vinham da tradição portuguesa, mas essa história é inseparável da prevalência de
escravos, cuja população foi estimada em 46% dos moradores do Rio em 1821.21 A
Constituição de 1824 estabeleceu a liberdade de associação e igualdade perante
a lei, mas também manteve os direitos de propriedade dos senhores de escravos
e não deu nem direitos, nem o status de “pessoa” legal para os escravos no terri-
tório brasileiro. A constituição tampouco providenciou regras explícitas para lidar
com escravos, e o Brasil nunca adotou um código específico para eles (um “Code
Noir” como nos domínios coloniais franceses), levando a um equilíbrio frágil entre
a jurisdição particular dos proprietários e a lei criminal para “controlar” os escra-
vos. A polícia, a Câmara Municipal e os senhores de escravos trabalhavam juntos
— embora frequentemente em desacordo — para controlar escravos nos espaços  38
públicos do Rio. O toque de recolher em si não entrou no Código Criminal de 1830,
que valeu durante todo o Império, mas a noite, sim. No Código Criminal, a noite é
uma “circunstância agravante”: entrar na casa alheia de noite levava a uma pena
de prisão duas vezes maior do que de dia.22 Porém, a antiga distinção entre o dia
e a noite apareceu no policiamento e na prática judicial pós-Independência como
um destes meios de controle. Estar na rua depois do toque de recolher foi um
dos crimes relativamente leves que preocupavam a polícia, mas não constavam
no Código Criminal de 1830; essa infração caía em uma ampla categoria de ativi-
dades (como a jogatina e a capoeira) que foram deixadas aos cuidados de uma
combinação de regulamentos locais por um lado, e uma tradição vaga que agia no
interesse de “ordem e tranquilidade pública” por outro.23
A regulação do tempo diurno no início do período imperial, e em particular
as horas de trabalho, precisa ser entendida em conexão com a relação particular
entre a polícia, o governo da cidade, representado pela Câmara Municipal, e os
indivíduos privados que exerciam sua autoridade sobre os escravizados. As primei-
ras leis referentes ao trabalho, e em particular as duas leis de contratos de “Loca-
ção de Serviços” de 1830 e 1837 não faziam referência alguma às horas de trabalho,
deixando implicitamente a questão sobre quando e por quanto tempo o trabalho
iria acontecer inteiramente nas mãos da relação privilegiada entre empregadores

19 Sobre o final do século XIX e o início do século XX, ver: BRETAS, Marcos Luiz. Guerra das ruas: Povo e polícia
na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, n.17, cap. 3, 1997, p. 59.
20 BARRETO FILHO, João Paulo de Mello; LIMA, Hermeto. História da polícia do Rio de Janeiro: Aspectos da
cidade e da vida carioca. Op. cit., p. 36.
21 KARASCH, Mary. Slave Life in Rio de Janeiro, 1808-1850. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1987, p. 60.
22 Lei de 16 de dezembro de 1830. Código Criminal do Império do Brasil. cap. III, Secção 1, artigo 16; secção VI,
artigo 211. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/lim-16-12-1830.htm
23 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 61.

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e empregados. Na lei de 13 de setembro de 1830 (“Lei de Locação de Serviços”),


que definia obrigações de serviço e punia trabalhadores que não as cumprissem,
a definição das horas de trabalho estava incluída na categoria genérica de “todas
as outras condições do contrato”, a serem definidas fora do alcance do estado.24
As autoridades administrativas do Rio ― e principalmente a Câmara Municipal ―
também não deram muita atenção ao tempo do dia, tratando desse assunto ape-
nas de modo periférico. O Código de Posturas Municipais, em 1838, não estipulava
um toque de recolher e não continha mais do que regras esparsas e pouco estritas
― além de frequentemente desrespeitadas ― sobre as horas de funcionamento
do comércio.25 Durante o mesmo período, entretanto, a Intendência de Polícia pas-
sou a responsabilizar-se por um leque amplo de responsabilidades administrativas,
incluindo a supervisão de obras públicas, o controle sobre a pequena criminalidade
e o policiamento dos escravos, entre outras tarefas do gênero. O desejo do Estado
de tornar a cidade mais ordeira e adequada ao papel de sede do império português
levou as autoridades a tentar impor um maior controle sobre a instituição que cos-
tumava manter-se sob a jurisdição privada. Isso levou os representantes do poder
público a entrar em conflito com os proprietários de escravos.26 Assim, em suma, o
tempo diário era uma frente importante na luta diária pelo controle social, mas foi
basicamente deixado de fora das Posturas Municipais e dos regulamentos sobre
o trabalho diurno. Assim, se havia algum tipo de regulação, esta era uma questão
para a polícia, bem como para o sistema paternalista de controle social operado
pelos proprietários de escravos.
 39 Numa cidade atordoada pela última década e meia de mudanças políticas e
demográficas da época da Independência, e sobretudo uma cidade onde mais ou
menos a metade dos residentes eram propriedade da outra metade, não é nem
um pouco surpreendente que o assunto de “tranquilidade pública” fosse cons-
tantemente levantado. Lendo a torrente diária de ofícios e outros documentos
que fluíam da Intendência Geral da Polícia da Corte, fica clara a ampla variedade
de temores que tal instituição policial, ainda em formação e em fluxo, enfrentava.
Naturalmente, o medo da “desordem pública” foi dominado pelos escravos (mas
não limitado a eles), que percorriam a cidade durante o trabalho cotidiano. Logo
depois de assumir sua posição como o sexto Intendente de Polícia da Corte, o fi-
dalgo lisboeta e jurista Francisco Alberto Teixeira de Aragão escreveu para os seus
colegas na Corte Imperial e nas outras cidades sobre os perigos das “sociedades
ilícitas”, dos estrangeiros que existiam em abundância, andando pelas ruas sem
documentação alguma, e das mais variadas ameaças à segurança geral.27 Aragão,
como autoridade máxima da polícia, introduziu várias medidas que estabeleceram
na Corte uma força policial centralizada e poderosa cujo funcionamento se dava
vinte e quatro horas por dia.28

24 Coleção das Leis do Império do Brazil, 1830. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1876, p. 31.
25 Código de Posturas Municipais. Seção 1—saude pública; seção 2—polícia. Ver: ABREU, Martha. O Império do
Divino, p. 193-97.
26 SCHULTZ, Kirsten. “The Crisis of Empire and the Problem of Slavery”. Op. cit., p. 276-77.
27 Ver por exemplo AN, Seção de Guarda SDE 001, códice 325, v. 4; AN, GIFI, Caixa 6J 80.
28 Em um documento comprido reorganizando a força policial carioca (Intendência Geral da Polícia) e
criando comissários e cabos para trabalharem sob o Intendente, em novembro de 1825, Aragão afirmou
o policiamento profissional contínuo da cidade ao longo dos 24 horas do dia: “Toda a pessoa, seja de que
condição for, poderá recorrer dos Comissários e Cabos da Polícia a qualquer hora do dia, ou da noite,
para requerer a manutenção da sua probidade, segurança individual ou familiar e para reprimir todos
aquelles factos que sendo legalmente prohibidos lhe podem ser prejudiciais por alguma maneira”; AN,
Fundo: Polícia da Côrte, códice 332, folhas 2-3.

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Um dos primeiros problemas que Aragão enfrentou nos seus primeiros me-
ses como Intendente da Polícia no Rio foi um debate furioso sobre o recrutamento
forçado de escravos para trabalharem nas obras públicas e a necessidade deses-
perada de mais mão de obra para acompanhar a crescente necessidade de infraes-
trutura. Parece que os escravos, que de fato eram ganhadores fazendo o trabalho
determinado por seus senhores, estavam sendo “apanhados” das praças públicas
e colocados para fazer trabalho compulsório, construindo fortificações para a ci-
dade. Senhores de escravos e, em alguns casos, oficiais da polícia, expressavam
horror em relação às supostas violências contra o direito de propriedade, enquan-
to as autoridades municipais se preocupavam em terminar os muitos projetos de
obras não completados pela cidade sem a disponibilidade da mão de obra neces-
sária. Os requerimentos e as portarias sobre esse assunto saindo do gabinete do
próprio Aragão eram cada vez mais conturbados nos meses finais de 1824.29
Imediatamente depois dessa controvérsia sobre como conseguir trabalha-
dores para as obras públicas sem ameaçar a ordem escravista, em um dos seus
primeiros atos como intendente, Aragão emitiu novos regulamentos policiais num
edital datado de janeiro de 1825. Esse edital determinava que qualquer pessoa,
fosse escravo ou livre, que fosse parada “por qualquer ronda”, teria que ser sub-
metida à interrogação. Resistir era automaticamente considerado um ato crimino-
so (“importa uma resistência”), e “será até empregada a força, ser for necessário,
àquele que se insurgir”. A provisão central no edital de 1825 estabeleceu o que
logo passaria a ser conhecido como o “toque de Aragão”: pela lei às 10 horas no
verão e às 9 horas no inverno começava a hora de se recolher dentro de casa; ron-
das tinham o direito absoluto de fazer revistas a qualquer pessoa que estivesse  40
na rua depois do famoso “Toque de Aragão”, para verificar se a pessoa carregava
qualquer instrumento que pudesse ser usado em um crime. Os sinos da igreja de
São Francisco de Paula e do convento de São Bento tocavam por meia hora para
anunciar o momento de recolha a todos e excluir a possibilidade que alguém pu-
desse alegar que não soubesse da hora.30
Ironicamente, era exatamente quando não se podia mais enxergar o rosto
de uma pessoa ― parafraseando a definição legal da noite — que os policiais ga-
nhavam poderes fortalecidos (e principalmente extralegais) para prender pesso-
as. O “Toque de Aragão” fazia parte de uma tendência de policiamento no Rio
durante o primeiro século pós-Independência, um padrão emergente que dava
cada vez mais autoridade aos policiais quando tratavam dos crimes e contraven-
ções mais comuns, como a vadiagem e o sair “fora de horas”, efetivamente dando
aos representantes da Justiça nas ruas o papel de policial, juiz e júri, de uma só vez.
A regra para a aplicação dessa nova lei exigia que não se abusassem dela, nem a
aplicassem a “pessoas notoriamente conhecidas e de probidade”; a lei era feita
explicitamente para ser aplicada seletivamente, de acordo com a classe social e as

29 AN, Polícia da Côrte, Códice 323, v. 8; AN, Polícia da Côrte, Códice 327, v.1 e 2. Os esforços constantes para
obter mão de obra forçada para as obras públicas na Corte Imperial, além da historiografia volumosa
sobre os africanos livres, são bastante documentados. Além dos outros documentos aqui citados, ver:
AGCRJ, códice 6.1.25, folha 14.
30 BARRETO FILHO, João Paulo de Mello; LIMA, Hermeto. História da polícia do Rio de Janeiro: Aspectos da
cidade e da vida carioca. Op. cit., p. 288-89. José Vieira Fazenda consta que o convento de Santa Teresa
também tocava um aviso cada noite 20 minutos antes do sino de recolher, como um gesto de “piedade” para
os escravos, que não teriam tempo de ir correndo para casa e evitar o castigo que recebiam por estarem
nas ruas “fora de horas”; citado em: Idem, Ibidem, p. 289. Ver também: HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de
Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 46-47; BRANCO, Zoraia Saint’Claire. “Estórias
da Polícia do Rio de Janeiro”. Cadernos de Segurança Pública. Rio de Janeiro. 1:0, 2009, p. 3.

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desigualdades raciais da época.31 José Vieira Fazenda, no seu conto nostálgico do


Toque de Aragão, lembra que “era o sinal de correr ou de recolher, e o negrinho
que andasse na rua desta hora em diante, sem bilhete de seu senhor, ser engalfi-
nhado no xadrez ou no calabouço e chegavam-lhe a roupa ao pelo”.32
A ordem de Aragão mostrava como a noite podia fazer ruir a diferença entre
escravo e livre. Dependendo das circunstâncias, entretanto, o novo regime jurídi-
co que começava com o pôr do sol também podia alargar essa diferença. Depois
do sino de recolher, tornava-se ilegal assobiar nas ruas ou fazer qualquer coisa
que pudesse ser encarada como um sinal. Essa proibição aplicava-se “aos negros
e gente de cor a qualquer hora depois de escuro, mesmo que fosse antes do sino
de recolher.” Um escravo nas ruas fora de horas “em qualquer loja, taverna, bote-
quim ou casa de tavolagem” podia ser mandado para o Calabouço e estar sujeito
a açoites; pessoas não escravas eram obrigadas a pagar uma multa.33 O edital tam-
bém tinha como alvo pequenos negócios nos quais as pessoas se reuniam depois
do horário de trabalho, sugerindo que o tipo de pessoa que estaria sujeito a tal
toque de recolher, de fato, era cliente de lugares como tabernas no Rio do início
do século XIX, apesar da escuridão extrema e de ruas supostamente inóspitas. De
acordo com o historiador Thomas Holloway, em sua obra clássica sobre a polícia
do Rio de Janeiro,

as instruções de Aragão, centrando-se no toque de recolher e nos locais


de entretenimento público e interação social tanto para os escravos
quanto para os não-escravos de classes mais baixas, colocavam as dis-

 41
posições de direitos civis da constituição em um contexto mais realista.
“A lei será a mesma para todos” acabou por ser uma declaração entu-
siasmada desde o princípio, tendo pouco a ver com a vida nas ruas.

Em parte, o tratamento desigual de pessoas diferentes depois de escurecer


deriva do fato de que os escravos não tinham personalidade jurídica, mas eram
propriedade de alguém, e a sua fuga foi uma das preocupações centrais da polícia
do Rio de Janeiro. Os negros livres, no entanto, encontravam o mesmo problema
que os escravos, assim como os pobres em geral. Para citar Holloway novamente:
“... as pessoas de ‘integridade’ foram poupadas das restrições do toque de reco-
lher” e da indignidade das revistas corporais”.34 O regulamento levou à suposição
patentemente falsa de que a polícia poderia reconhecer visualmente quem era es-
cravo e quem não era.
Quando o “Toque de Aragão” foi implementado, esse regulamento ostensi-
vamente deixava as atividades normais ocorrerem do jeito como sempre ocorriam;
ainda que fosse contra a lei estar nas ruas à noite, o comércio diurno andava como
era preciso nessa cidade portuária em expansão. Além de limitar os movimentos de
algumas pessoas depois de escuro, o Toque de Aragão literalmente transformava a
vida material. Como Sandra Lauderdale Graham explica, depois de anoitecer

os escravos carregavam cartas escritas pelos senhores para explicar


sua presença na rua e os cortiços trancavam os seus portões contra
escravos fugidos e desordeiros, mantendo os seus residentes no lado

31 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 46.
32 Citado em BARRETO FILHO, João Paulo de Mello; LIMA, Hermeto. História da polícia do Rio de Janeiro:
Aspectos da cidade e da vida carioca. Op. cit., p. 289.
33 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., pp. 46-
47. Sobre a dificuldade em determinar quem era escravo e as mudanças na prática jurídica de quem teve
o ônus da prova nesse respeito, ver: CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: Ilegaldade e costume no
Brasil oitocentista. Op. cit., cáp. 9.
34 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 47-48.

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de dentro. As ferramentas que um artesão carregava diariamente sem


problema nenhum, durante as horas úteis do dia, viravam armas depois
do sino vespertino da “Ave Maria” e eram proibidas.35

O fato de ela mencionar as horas úteis aqui é significativo: o Toque de Aragão


dizia respeito à imposição de restrições a certas liberdades sem prejudicar a eco-
nomia urbana. Não era somente um medo da “rua” que inspirava essas restrições,
como sugere Lauderdale Graham; foi a maneira com que os oficiais administravam
a diferença entre o dia e a noite, considerando o seu medo do caos potencial na
vida pública urbana e não perdendo de vista, também, o jogo de interesses econô-
micos. O trabalho diurno e o recolhimento noturno funcionavam juntos.

Fora de horas
Em abril de 1829, o Intendente Geral da Polícia da Corte mandou uma carta
ao Inspetor do Arsenal da Marinha. Essa carta avisava que haviam sido presos oito
homens, todos marinheiros, que “andavam fazendo desordens” e, além do mais,
estavam “fora de horas”. Em nome do interesse da “tranquilidade pública” e do
bom policiamento, foram todos mandados para o trabalho que o inspetor achava
conveniente.36 Quatro anos mais tarde, em 1833, e também na cidade do Rio, o Juiz
do Crime do Bairro de São José relatou à Inspetoria Geral da Polícia que “o preto
João Braga, que diz ser forro e espanhol”, foi preso “por ser encontrado a uma
hora da noite por um pedestre”.37
Nesses dois casos, e em outros tantos semelhantes encontrados nos arqui-  42
vos da polícia e Justiça do início do Império, os policiais do Rio nos anos de 1820,
30, e 40 varriam pessoas das ruas da Corte Imperial e as mandavam à cadeia, sujei-
tavam-nas a açoites (no caso dos escravos) e, além de tudo, as enviavam ao traba-
lho compulsório nas várias obras públicas na Corte, para a construção de estradas,
a limpeza das praças, a construção e o conserto das fortificações da cidade. O cri-
me pelo qual essas pessoas foram presas era antigo, mas estava aparecendo nas
ocorrências policiais das décadas de 1820, 30, e 40 em um contexto e uma forma
muito novos: “andar na rua fora de horas”, na linguagem da época.
O famoso Toque de Aragão iniciou um período contínuo de cinquenta e três
anos durante os quais o anoitecer ativava um estado de exceção no funcionamen-
to normal da Justiça, o que em princípio previa um estado de direito, apesar da
identificação persistente entre as funções de polícia e Justiça. Outros regulamen-
tos subsequentes alteraram ou refinaram o edital de 1825. Em 1831, o toque de
recolher foi renovado por causa do que se considerou ser uma onda de crimes. A
partir de então, ele começaria ao pôr do sol (por volta de 18h30), em vez das 9 ou
10 horas, e se aplicava somente aos escravos e marinheiros. Naquele ano, das 224
pessoas presas entre o final de maio e o início de junho, 34 o foram por estar fora
de horas (14 marinheiros e 20 escravos), 35 por vadiagem e 25 por estarem com
armas ilegais, as duas outras categorias mais comuns. Apesar do nervosismo da
polícia na década de 1830, muitos eventos noturnos nos espaços públicos do Rio
eram povoados por escravos, pessoas livres de cor, e outros que seriam sujeitos

35 LAUDERDALE GRAHAM, Sandra. “Making the Private Public: A Brazilian Perspective”. Journal of Women’s
History. Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 15:1, 2003, p. 28-42.
36 AN. Fundo: Polícia da Côrte, Códice 330, v. 6.
37 AN. Fundo: Polícia da Côrte, Códice 330, v. 7. Essa história é mais complexa ainda; ele foi encontrado com
três chapéus e algumas roupas, dizendo que pertencia ao seu senhor, mas a polícia disse descobrir que
foram roubadas. A resolução do caso não aparece nesse códice.

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ao toque de recolher. Se esses eventos atraíam um grande número de pessoas ou


se a polícia achava que os participantes estavam em desordem, ou quando ocor-
riam depois do toque de recolher, os soldados da polícia dispersavam o grupo, e
de acordo com o edital de 1825, prendiam qualquer pessoa que resistisse. Novas
regras policiais, que foram emitidas em 1858 e buscavam profissionalizar e trazer
mais eficiência à força policial, reforçaram a exigência de fechar toda taberna e
botequim às 10 horas da noite, e reafirmaram que qualquer pessoa que fosse en-
contrada na rua “fora de horas” seria presumida criminosa.38
A polícia prendia mais escravos que pessoas livres por estar fora de horas,
mas os dois grupos eram sujeitos ao regulamento, que deu muita margem à polícia
para rondar à noite e administrar a Justiça nas ruas, prendendo pessoas que viola-
vam uma lei que não existia no Código Criminal e que discriminava entre sujeitos
que tinham garantia de igualdade perante a lei. Na pesquisa minuciosa de Thomas
Holloway, usando o arquivo da polícia da Corte (a única pessoa que já estudou esse
fenômeno do toque de recolher, que ele trata em algumas páginas de seu livro
clássico sobre a polícia do Rio), ele descobriu que nenhuma pessoa considerada
portuguesa foi presa por andar “fora de hora”. Ele mostra ainda que “o toque de
recolher se aplicava rotineiramente e quase exclusivamente às pessoas negras e
pardas”.39 Holloway descobriu nos livros de matrícula do Calabouço, em 1857-58,
que 25 dos 288 escravos recolhidos lá por ordem judicial eram presos por estarem
“fora de horas”.40 Nos anos de 1862 e 1865, andar na rua depois do toque de reco-
lher foi o motivo mais comum para ser preso, seguido pela vadiagem. Em ambos
 43 os anos, os presos por estar “fora de horas” compuseram um quarto do total de
pessoas presas.41
Prisões por violações do toque de recolher e por outras infrações que se tor-
navam mais graves por acontecerem à noite aparecem espalhadas aleatoriamente
em toda a documentação da polícia durante o período em que o toque de recolher
vigorou. Embora esses casos sejam muito esparsos para permitir uma generaliza-
ção sobre as circunstâncias em que a polícia tendia a efetuar as prisões, eles forne-
cem evidências do que estava em jogo para a polícia, ao parar e deter indivíduos
encontrados nas ruas depois do anoitecer, e oferecem algumas dicas sobre a dinâ-
mica de poder que governava o mundo noturno do Rio de Janeiro.
A ordem jurídica que entrava em vigor a cada noite depois do pôr do sol
deve ser entendida no contexto da relação melindrosa entre os poderes público
e privado que caracterizava esta época. De certo modo, a maneira como a polícia
seletivamente aplicava o toque de recolher reafirmava a jurisdição privada dos se-
nhores sobre seus bens humanos, tendendo, por exemplo, a conceder exceções
para indivíduos escravizados, normalmente trancados dentro de casa depois do
anoitecer, para atravessarem as ruas com a permissão de seus donos. Donos de
escravos parecem ter frequentemente ignorado o toque de recolher, enviando
trabalhadores escravizados às ruas à noite, certas vezes, ao que parece, intencio-
nalmente em busca da proteção da escuridão. Em várias ocasiões, nos registros
municipais de 1842, por exemplo, os escravos foram detidos e os seus senhores
multados por despejo ilegal de lixo nas ruas (“deitar um pouco de sisco à praia”),

38 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 79, 161, 191.
39 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 198
40 Idem, Ibidem. “O Calabouço e o Aljube do Rio de Janeiro no século XIX”. In: MAIA, Clarissa Nunes; NETO, Flávio de
Sá; COSTA, Marcos; BRETAS, Marcos Luiz. História das prisões no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, v. 1, p. 260-61.
41 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., p. 201.

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após os sinos noturnos da igreja.42 A aplicação extraordinariamente seletiva do to-


que de recolher parece ter permitido alguma negociação; aqueles cujos escravos
foram presos por estarem fora após horas, vez por outra contestavam a multa,
não negando que haviam violado o toque de recolher, mas simplesmente implo-
rando por clemência. Nesse mesmo ano de 1842, uma mulher escrava chamada
Ermelinda foi presa por estar na rua depois do horário e, tornando a situação ain-
da pior, jogando na rua água suja que havia sido usada para lavar os pés. Dona
Maria Ignacia de Negreiros Macedo, sua proprietária, enviou uma carta à Câmara
Municipal implorando que Ermelinda fosse liberada do Depósito Público, “a ser
a Supplicante pobre... e carregada de filhos, tendo seu marido fora em Serviços
Públicos, hajão [por] bem aliviá-la da multa, que sem fundada Justiça lhe querem
fazer sofrer os dos guardas…”.43
O período noturno ressaltava o poder que os senhores tinham de regulamen-
tar o trabalho dos escravizados e de controlar os seus movimentos pela cidade
depois do anoitecer, mesmo a despeito de leis rigorosas destinadas a impedir tal
movimento. Ao mesmo tempo, porém, o toque de recolher deu ao governo muni-
cipal, em seu papel como o protetor do bem público, um poder adicional às custas
dos senhores de escravos. O período noturno como uma categoria sociolegal se
tornou uma parte crucial do desenvolvimento da relação entre o poder público e a
alocação e o tratamento de trabalhadores ― não apenas os trabalhadores escravi-
zados, mas todos os socioeconomicamente vulneráveis e, especialmente, aqueles
que pudessem ser confundidos com os escravos por causa de sua etnia aparente.
Nos anos de 1820 e 1830, a cidade do Rio passou por mudanças dramáticas
que geraram um impacto sobre a questão de como o trabalho seria distribuído e  44
em benefício de quem. Ondas de imigrantes, estrangeiros, exilados e imigrantes
europeus e, especialmente, escravos africanos inundaram a cidade. Tanto a pre-
ocupação com a segurança em meio a uma série de revoltas (nos anos de 1830
para os de 1840) quanto as reivindicações por obras públicas que elevariam o perfil
da nova capital do Império criaram uma premente necessidade por tais projetos
civis, como a construção de fortificações e estradas. A chegada da Corte portu-
guesa em 1808, a abertura dos portos e o aumento vertiginoso da população do
Rio de Janeiro criaram novas demandas de serviço e muitos dos exilados portu-
gueses recém-chegados, incluindo os membros da Corte real, “adotaram a prática
de comprar escravos com o objetivo de alugá-los como trabalhadores em obras
públicas”.44 Pessoas livres já estavam submetidas ao recrutamento militar força-
do, com poucas proteções legais contra as ações arbitrárias de recrutadores e até
mesmo de autoridades que o usavam como uma ferramenta para vinganças pes-
soais.45 É importante lembrar que os que estavam sujeitos a prisões por violações
do toque de recolher e, em seguida, eram usados em trabalhos involuntários não
eram apenas escravos, mas entre os presos e forçados a trabalhar em obras públi-
cas estavam aqueles que caíam nas outras categorias que estavam sujeitas a esse
dispositivo. Com o toque de recolher e a prática frequente de mandar as pessoas
presas no arrastão noturno ao trabalho forçado, o governo municipal utilizou o
regulamento contra o ato de estar nas ruas depois de escurecer para exercer o
poder de atribuição do trabalho, assim como para trazer escravos, que eram ante-
riormente utilizados no trabalho doméstico, para os serviços nas ruas, reparando

42 AGCRJ, códice, 6.1.45, folhas 2 e 5.


43 Ela foi solta do Depósito cinco semanas depois, a multa paga; AGCRJ, códice, 6.1.45, folha 14.
44 SCHULTZ, Kirsten. “The Crisis of Empire and the Problem of Slavery”. Op. cit., p. 274.
45 LOVEMAN, Mara. “Blinded Like a State: The Revolt against Civil Registration in Nineteenth-Century Brazil”.
Comparative Studies in Society and History, Cambridge, UK: Cambridge University Press, 49:1, 2007, p. 27.

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O LADO ESCURO DO PODER MUNICIPAL: A MÃO DE OBRA FORÇADA...

estradas e realizando obras de construção. Tais serviços funcionavam como um


sistema de cobrança compulsória de tributo, no qual o Estado no nível mais local
assumiu o papel de redistribuir a mão de obra. Restrições à liberdade de ir e vir à
noite, portanto, estavam diretamente relacionadas com a redefinição daquilo quer
era considerado público.
A transição para um novo significado do “público” no final do período colo-
nial e no decorrer do século XIX tem sido objeto de muitas pesquisas e estudos. A
imposição do toque de recolher mostra que a nova abordagem do início do Impé-
rio para a vida pública se relacionava ao trabalho urbano, não apenas como uma
mudança do paternalismo para o laissez-faire do liberalismo, como é classicamente
entendido, mas também como uma nova relação entre o Estado e os seus cida-
dãos, envolvendo o poder do Estado para extrair tributo.46
O fluxo de correspondências administrativas entre o gabinete do presidente
da Província e o Comando do Corpo Policial da Província do Rio de Janeiro mostra
a interessante ambiguidade a respeito da responsabilidade pelo toque de recolher
durante o período em que sua vigência chegava ao fim, em 1870-1871. Em agos-
to de 1870, um ofício vindo do Palácio do Governo da Província do Rio de Janei-
ro procurou “um agente de sua confiança” para “fazer o toque de recolher às
10 horas da noite… mediante uma gratificação conveniente…”. Nem os soldados
do corpo da polícia, nem o sacristão da igreja “Matriz d’esta Capital” queriam se
“prestar a esse penoso serviço”. Como sua necessidade parecia menos evidente
para as autoridades, ninguém quis assumir o dever de fiscalizar o toque dos sinos
 45 da igreja. Essa conversa burocrática mundana, mas reveladora, não mostra apenas
a importância minguante do toque de recolher, mas também deixa claras as ques-
tões interessantes sobre quem deveria assumir a responsabilidade de administrar
a diferença entre o dia e a noite.47
Nos anos de 1870, o toque de recolher parece ter se tornado menos eficaz.
Nunca fica muito claro o que uma queda no número de prisões realmente significa,
mas nesse caso parece provável que a diminuição relativa a prisões por violações
do toque de recolher indique uma falta de empenho na aplicação do bloqueio à
noite, em vez de uma diminuição da atividade noturna. O toque de recolher estrito,
ao que parece, começou a enfraquecer. Em julho de 1873, o comandante da Polícia
Militar emitiu um lembrete de que todas as empresas deveriam fechar às 10 horas.
Quando essa ordem foi defrontada com um clamor público, ela foi relaxada um
pouco: às 10 horas como horário de fechamento ainda se aplicavam a “tabernas,
casas onde bebidas alcoólicas ou cerveja eram vendidas, tascas e estabelecimen-
tos similares que podem servir como pontos de encontro de bêbados, vagabundos
e desordeiros”. Mas os novos quiosques da cidade, em estilo europeu, assim como
as confeitarias e os hotéis, foram dispensados e podiam ficar abertos até 1 hora da
madrugada. A diferença, é claro, era de classe; à medida que a vida pública tornou-
-se mais comercializada, o toque de recolher aumentou a diferença de aplicação da
lei, para ricos e pobres. Notadamente, se os estabelecimentos comerciais estavam
agora isentos do toque de recolher às 10 horas da noite, logo seus clientes também
o estavam. Durante essas três horas, das 10 horas da noite a 1 hora de madrugada,

46 GRAHAM, Richard. Feeding the City: From Street Market to Liberal Reform in Salvador, Brazil. 1780-1860.
Austin, TX: University of Texas Press, 2010; VELLASCO, Ivan de Andrade. “Clientelismo, ordem privada e
Estado no Brasil oitocentista: notas para um debate”. In: CARVALHO, José Murilo de; NEVES, Lúcia Maria
Bastos Pereira das (orgs.) Repensando o Brasil dos oitocentos: Cidadania, política, e liberdade. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 73-100.
47 AN, PP, notação 0529; AN, PP, notação 0513.

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AMY CHAZKEL

estava inteiramente a critério das patrulhas policiais prender alguém por violar o
toque de recolher tecnicamente ainda em vigor.48 Em 1878, a Câmara Municipal
aprovou uma lei deixando todos os negócios legítimos ficarem abertos até 1 hora
de madrugada. Enfim, o Toque de Aragão foi formalmente revogado alguns meses
depois, ainda em 1878.49
Vale notar que justamente quando o toque de recolher finalmente foi revo-
gado depois daquelas muitas décadas, a cidade do Rio de Janeiro começou a con-
tratar uma força policial particular para vigiar as ruas de noite. A Guarda Noturna
rondava depois do escuro e continuava a tradição do Império do policiamento ar-
bitrário. Agora sem o toque de recolher, o governo municipal controlava o comér-
cio por meio da cessão de licenças; pequenos comerciantes que não conseguiam
tirar uma licença tinham que fechar ― o que muitos faziam ― ou eram forçados a
funcionar clandestinamente (às vezes pagando à polícia), ― o que muitos outros
também faziam.50

A era da luz elétrica, a vida noturna carioca e o


estado de exceção: um epílogo
A iluminação pública se expandiu dramaticamente no final do século XIX; as
lanternas de gás alcançaram a periferia suburbana, ainda iluminada a azeite de
peixe, em 1877. Uma lei de 1879 deu início ao processo de trazer uma nova inven-
ção, a luz elétrica, ao Rio. Em 1933, as últimas lanternas de gás que sobraram nos  46
subúrbios foram substituídas por lâmpadas elétricas, assim terminando a carreira
de quase oitenta anos do acendedor de lâmpada, um tipo popular da rua às vezes
chamado de “profeta” por causa da vara que ele costumava usar para alcançar
as lanternas altas.51 A iconografia popular, assim como a propaganda da empresa
Light do início da época da luz elétrica, dava muita atenção ao desaparecimen-
to dessa figura do século passado, o acendedor, que apareceu retratado como
um escravo descalço e bagunçado, um trabalhador noturno que era o símbolo de
atraso vergonhoso. No lugar do acendedor de lâmpada escravizado, foi colocado
o técnico elétrico profissional, retratado como uma figura decididamente branca,
um homem sorridente cumprindo seu devido trabalho de manutenção durante o
horário útil do dia.52
Os cariocas já começavam a ocupar as ruas para diversão e sociabilidade à
noite até bem antes da revogação, em 1878, do regulamento que havia começado
com o edital de Aragão em 1825. O entretenimento comercial noturno tinha bro-
tado numa escala pequena nos anos de 1860 e as elites começaram a colonizar as
ruas iluminadas a gás. A existência de uma vida noturna comercializada incipiente
nos meados do século é evidenciada pelo pedido ocasional que a Câmara Munici-
pal permitisse que negócios de entretenimento ficassem abertos mais tarde, citan-
do tanto o costume quanto a demanda popular. O dono de um “Caffé Cantante”
no Campo de Santana insistiu, numa carta escrita à Câmara em 1858, que “sendo-

48 HOLLOWAY, Thomas. Policing Rio de Janeiro: Repression and Resistance in a Brazilian City. Op. cit., pp. 257-258.
49 Idem, Ibidem, p. 257-58. Logo depois do fim do toque de recolher, porém, o governo declarou um estado
de sítio e reativou durante a Revolta do Vintem em 1880.
50 AN. Gifi 8N 014; BRETAS, Marcos Luiz. Guerra das ruas: Povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro. Op. cit.,
p. 54, 59, 60, 84.
51 Centro Cultural da Light, “A iluminação no Rio de Janeiro,” unpubl. ms.
52 Light, ano 2, v.2, número XIV (março de 1929), capa.

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O LADO ESCURO DO PODER MUNICIPAL: A MÃO DE OBRA FORÇADA...

-lhe apenas permitido ter este divertimento até às 10 horas da noite, recebe inúme-
ras reclamações” da clientela que queria “gastar mais tempo, visto como é curta
a hora determinada”. Ele queria oferecer “ao respeitável público, mas exigindo os
distintos e qualificados espectadores que o frequentam, que por mais tempo deve
aquele divertimento, pelo menos até às 11 horas, visto como é curto o espaço que
esse preenche”.53 O deferimento desse tipo de requisição ficou cada vez mais co-
mum no final da década de 1850 e ao longo da década de 1860. A partir da década
de 1880, lâmpadas funcionavam extensamente na zona urbana do Rio, o toque de
recolher não existia mais e o povo podia sair mais facilmente depois de escuro.54
Contudo, vale dizer que a história do estado de exceção noturno não parece
estar vinculada, pelo menos de um jeito simples e direto, às mudanças tecnológi-
cas. Não foi a introdução gradual da luz artificial que mitigou a imposição do toque
de recolher e os estados de sítio que foram impostos mais tarde. A história mais
óbvia, que fala do progresso tecnológico, de fato também aparece aqui: vemos
a crescente capacidade de iluminar os espaços públicos da cidade ― em termos
de financiamento público e também em termos da capacidade de produzir uma
luz cada vez mais forte, barata e menos fedorenta. Mas o aparato jurídico que se
desenvolvia para definir a noite como perigosa não se sincronizava com o ritmo de
mudanças tecnológicas. Em vez disso, o governo municipal impunha essas leis nos
momentos de conflito político ou da percepção de caos social. Regulamentos in-
terditando que os cidadãos andassem na rua depois de uma dita hora passado do
pôr do sol pretendiam limitar ao máximo a liberdade de movimento sem interferir
 47 no funcionamento normal das cidades: ou seja, deixando a distribuição das mer-
cadorias para exportação das regiões agrícolas para a zona portuária da cidade
e aprovisionando os trabalhadores que faziam essas indústrias funcionarem. Um
centro comercial muito ativo como o Rio, que dependia de mão de obra cativa,
cumpria o seu propósito econômico assim: a liberdade de movimento de dia, o
recolhimento total de noite.
Embora não possamos reduzir a motivação por essa lei à necessidade de
mão de obra cativa, o Toque de Aragão também não pode ser entendido separa-
damente desse fenômeno. A medida oficial que o impôs e as leis semelhantes que
se seguiram faziam muito sentido no contexto do conflito que desabrochou nos
meses anteriores à imposição do famoso edital: o conflito sobre o recrutamen-
to de escravos (alheios) para trabalharem nas obras públicas que o governo local
desenvolveu para responder à necessidade desesperada por mão de obra gerada
por um sistema tributário. O edital de 1825 pode ser visto à luz da lei de novembro
de 1831, que criou a categoria de “africanos livres”, pessoas aprendidas do tráfico
negreiro ilícito que logo acabaram providenciando a mão de obra forçada para a ci-
dade (bem como para pessoas particulares), em resposta à preocupação constan-
te da liderança municipal: quem iria providenciar o trabalho individual necessário
pelo bem público ― não em casas particulares, mas nos espaços compartilhados
da cidade? O edital surgiu para resolver um problema específico e agudo: uma cri-
se de abastecimento de mão de obra, o que logo foi combinado com o horror a
qualquer tipo de “aglomeração” de gente avulsa e o medo da rebelião depois dos
tumultos que aconteceram nas cidades do Norte e do Nordeste do país na déca-
da de 1830. Essas regulações que restringiam o movimento noturno para algumas
classes de cariocas foram impostas por motivos específicos, mas essas restrições
se implantaram por motivos diferentes; desse modo, uma situação emergente e a

53 AGCRJ, códice 42-3-17, folhas 4-5.


54 A Vida Fluminense. ano 1, n.3 (January 18, 1868), 40; ano 1, n.26 (jun. de 27, 1868) n/p.

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AMY CHAZKEL

sua solução provisória se tornaram parte do funcionamento normal do estado no


nível municipal.
Se o Toque de Aragão fazia sentido no contexto do início do Império e nas
décadas seguintes, revogar esse regulamento também fazia todo sentido, uma
vez que a vida comercial da cidade começou a se organizar em torno do entrete-
nimento e da circulação nas ruas à noite, e uma vez que a mão de obra cativa foi
substituída pelo trabalho livre. É possível dizer que a aplicação da lei contra a va-
diagem entrou no lugar do toque de recolher como o dispositivo abrangente mais
utilizado pela polícia para prender pessoas socioeconomicamente vulneráveis,
simplesmente por estarem no espaço público da cidade, no lugar errado na hora
errada. A vadiagem é uma contravenção mais adequada para trabalhadores não
escravizados pegos no momento em que não estão trabalhando, numa cidade se
industrializando que não parava mais ― que não podia parar ― com o pôr do sol.
Em outras palavras, o Toque de Aragão não deve ser visto simplesmente
como uma antiguidade que desapareceu com o avanço tecnológico e a moderni-
dade. O sino da igreja parou de tocar, mas a normalização da suspensão de direi-
tos persistiu.55 Durante a Primeira República, quando o Toque de Aragão já tinha
virado um assunto para os folcloristas nostálgicos, em vez de uma questão da polí-
cia, o governo repetidamente invocava a razão do Estado para suspender direitos
individuais e normas jurídicas durante períodos de resistência operária.
O estudo da noite apresenta desafios fascinantes para quem está interes-
sado no estudo da sociedade urbana: como é que podemos estudar a ascensão
da famosa vida noturna moderna carioca enquanto pensamos, ao mesmo tempo,
na imposição de estados de sítio repetidas vezes no século XX que mirava a noite
 48
como cheia de possibilidades perigosas? Voltar ao início do Império e traçar a his-
tória das restrições à liberdade de movimento (como o Toque de Aragão), ao lado
das mudanças tecnológicas, pode nos livrar da observação aparentemente óbvia
de que a noite é mais perigosa que o dia, por motivos simplesmente biológicos e
psicológicos. As reações políticas e jurídicas à noite são sintomas de uma dinâmica
social e política. Até mesmo quando se tornou tecnologicamente possível para a
cidade funcionar durante todas as 24 horas do dia sem parar, a noite ainda impor-
tava como um período distinto, um período que influenciava profundamente a
relação entre o Estado no seu nível mais local e os seus cidadãos.

Recebido em 24/05/2013
Aprovado em 10/06/2013

55 O debate histórico e legal sobre os significados da lei suntuária no estado moderno é instrutivo
aqui; GOODRICH, Peter. “Signs Taken for Wonders: Community, Identity, and a History of
Sumptuary Law”. Law and Social Inquiry, Malden, MA: Wiley-Blackwell/ American Bar Foundation,
23:3, 1998, p. 707-28. CHAZKEL, Amy. Laws of Chance: Brazil’s Clandestine Lottery and the Making
of Urban Public Life. Durham, NC: Duke University Press, 2011, p. 6-7.

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A Câmara e o mercado.
Os trabalhadores da Praça do
Mercado do Rio de Janeiro e suas
relações com a municipalidade no
século XIX

Juliana Barreto Farias*

Resumo: Neste artigo, procuro discutir a relação da municipalidade do Rio de Janei-


ro com os trabalhadores ― especialmente aqueles identificados como locatários
ou arrendatários de bancas ― da Praça do Mercado do Rio de Janeiro, principal
centro de abastecimento de gêneros de primeira necessidade no período oitocen-
tista. Para tanto, examino em detalhes as disputas travadas entre dois locatários
da Praça ― Domingos José Sayão, liberto africano de “nação calabar”, e Antonio
Joaquim Franco, “cidadão brasileiro” ― pela posse de uma banca de peixe, em
1846. Nesse percurso, tanto será possível avaliar quem estava “habilitado” a ocupar
― e efetivamente ocupava ― os diferentes espaços de venda no interior do mer-
cado como também acompanhar as relações, igualmente diferenciadas, que esses
pequenos negociantes mantinham com fiscais, agentes municipais e vereadores.

Palavras-chave: Rio de Janeiro – Câmara Municipal – Praça do Mercado – peque-


nos comerciantes – africanos – “cidadãos brasileiros”

Abstract: In this article, I discuss the relationship of the municipality of Rio de Ja-
neiro with the workers - especially those identified as renters or tenants of stalls
- the Praça do Mercado (literally, Market Square) in Rio de Janeiro, the main sup-
ply center staples during the eighteenth century. Therefore, I examine in detail the
disputes waged between two tenants Square - Domingos José Sayão, freed Afri-
can “nação” calabar and Joaquim Antonio Franco, “Brazilian citizen” - for posses-
sion of a fish stall in 1846. Along the way, both will be possible to assess who was
“enabled” to occupy - and effectively occupied - the different sales areas within
the market, as well as follow the links, also differentiated these small dealers had
with tax, municipal officials and councilors.

Keywords: Rio de Janeiro - City Hall - Market Square - small traders - Africans - “Bra-
zilian citizens”
* Universidade Federal da Bahia

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JULIANA BARRETO FARIAS

No Rio de Janeiro, desde pelo menos meados do século XVII, negras de tabu-
leiro e vendedores de peixe reuniam-se à beira-mar, nas proximidades do terreiro
do Ó, mais tarde chamado de Largo do Paço.1 Como portas de entrada da cidade,
essas áreas litorâneas, conhecidas como praias de marinha, constituíam pontos
centrais para o pequeno comércio de pescado e outros gêneros que vinham das la-
vouras do Recôncavo da Guanabara e de locais mais distantes. Administrados pelo
Senado da Câmara, só podiam ser ocupadas por quem tivesse licenças e pagasse
foros anuais.2 Entretanto, novas bancas e quitandas iam se juntando num ritmo
acelerado e desordenado. Para contê-las, os senadores promoviam reformas, limi-
tavam os espaços para as trocas e chegavam mesmo a tentar expulsar os peque-
nos comerciantes. Especialmente perto da Alfândega, entre a rua do Mercado e
o cais das Marinhas, onde foi se formando um pequeno e ruidoso mercado ― o
“Mercado da Praia do Peixe”3.
Com o seu contínuo crescimento, o vice-rei Luiz de Vasconcellos ordenou, em
1789, que as barracas de peixe fossem reconstruídas com regularidade e simetria.
Ainda assim, a “algazarra” dos vendedores, a lama e os restos de frutas, legumes
e peixes amontoados ali não deixavam de desagradar autoridades e moradores
da capital. Alguns diziam que o “vozerio” era tal que perturbava as sessões no Se-
nado.4 Mesmo com protestos de lado a lado e as determinações para que fossem
removidos para outro local, um novo mercado só começou a ser construído na
década de 1830.5
Com projeto do arquiteto francês Grandjean de Montigny, as obras do edifí-
cio da Praça do Mercado, também chamada de Mercado da Candelária, iniciaram-
-se nos primeiros meses de 1835, mas só foram totalmente concluídas em 1841.6
 50
Ocupando todo um quarteirão da freguesia da Candelária, o local ficou interna-
mente dividido em três áreas: o centro, destinado para venda de hortaliças, legu-
mes, aves e ovos; o lado do mar, para peixe fresco, seco e salgado; e o lado da rua
(voltado para a rua do Mercado e para o Largo do Paço), para cereais, legumes,
farinha e cebolas.7 Na Praça das Marinhas, em frente à doca contígua ao mercado,

1 Inicialmente terreiro do Ó – e depois da Polé –, a área ficou conhecida como terreiro do Carmo quando ali
construíram a igreja e o convento dos carmelitas. Mais tarde, foi chamada de Largo do Paço e, depois, de
praça d. Pedro II. Com a proclamação da República, ganhou a denominação de Praça XV de Novembro,
nome que continua até hoje. Cf.: GERSON, Brasil. História das ruas do Rio. 5.ed. Rio de Janeiro: Lacerda
Ed., 2000, p. 26-32; GORBERG, Samuel; FRIDMAN, Sergio. Mercados no Rio de Janeiro. 1834-1962. Rio de
Janeiro: S. Gorberg. 2003, p. 2.
2 BICALHO, Maria Fernanda. A cidade e o Império: o Rio de Janeiro no século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2003, p. 203-204; 220.
3 COARACY, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. 3.ed. Belo Horizonte; São Paulo: Itatiaia; Edusp,
1988, p. 60. Em 1638, a Câmara do Rio estabeleceu que os pescadores venderiam suas mercadorias no
trecho que compreendia a Praia de Nossa Senhora do Carmo até a porta do Governador, ou seja, entre a
atual Praça XV e a rua da Alfândega. Cf.: FRIDMAN, Sergio; GORBERG, Samuel, Op. Cit., p. 2.
4 Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (doravante AGCRJ), Ofício da Secretaria de Estado de Negócios
para o Senado da Câmara de 21/04/1823.
5 Cf.: FRIDMAN, Sergio; GORBERG, Samuel, Op. Cit., p. 12. COARACY, Vivaldo, Op. Cit.
6 Em 1836, quando os dois corpos do prédio voltados para o Largo do Paço ficaram prontos, seus
compartimentos já começaram a ser alugados, gerando uma receita de 2:366$500 réis. Com a crônica falta
de recursos da Câmara, as obras da Praça só foram retomadas em 1839, sob o comando do engenheiro
João Vicente Gomes. Finalmente concluídas em setembro de 1841, o custo total chegou a 170:396$073 réis.
7 Desde sua construção até 1908 (quando o mercado foi demolido), essa estrutura básica da Praça do
Mercado passaria por diversas reformas e acréscimos. E os trabalhadores, fossem locatários, pequenos
lavradores, quitandeiras ou pombeiros, nem sempre concordavam com essas transformações. Em 1885,
por exemplo, quando novas barracas foram construídas no cais das Marinhas, em substituição aos antigos
chapéus de sol, os pequenos comerciantes já instalados naquela área recusaram-se a pagar a taxa exigida
pelos empresários, que arrendaram o local e paralisaram suas atividades. Durante uma semana, a “greve
das Marinhas” mobilizou vendedores de diferentes procedências, imprensa, vereadores e o próprio
governo imperial. Para uma análise mais ampla desses protestos, ver: FARIAS, Juliana Barreto. “Mercado

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 49-73


OS TRABALHADORES DA PRAÇA DO MERCADO DO RIO DE JANEIRO...

desembarcavam os gêneros da roça e o pescado que escravos e outros trabalha-


dores traziam em canoas de ganho, saveiros, faluas e barcos vindos das zonas su-
burbanas do Rio de Janeiro e das áreas rurais de Niterói. Bem próximo, lavradores,
seus consignatários, negociantes e quitandeiras vendiam, revendiam e compravam
“gêneros de primeira necessidade”, como frutas, ovos, legumes e cereais, “sem o
menor abrigo, apenas algumas pequenas barracas volantes ou algum chapéu de
sol”.8 E ainda havia os pombeiros (mercadores avulsos de peixe) que, apesar das
proibições, atuavam como intermediários entre pescadores e consumidores.
Até o final da década de 1860, todas essas áreas de comércio estiveram sob
a administração direta da Câmara Municipal do Rio.9 Em termos práticos, isso sig-
nificava que qualquer alteração em sua estrutura, regulação sobre seu funciona-
mento ou demanda de diferentes categorias deviam ter apreciação e aprovação
dos vereadores. Um deles era designado para ser o comissário do mercado e vol-
ta e meia formavam-se grupos para resolver assuntos específicos. Porém, no dia
a dia, eles pouco frequentavam o lugar. Quem diariamente exercia “a rigorosa
observância”das regras era o fiscal da freguesia da Candelária, também encarre-
gado da inspeção cotidiana do mercado.
E ainda que o Regulamento apresentado na sessão da Câmara de 17 de no-
vembro de 1843 e ratificado por portaria da Secretaria de Estado dos Negócios do
Império em 16 de agosto de 1844 fosse o principal guia para sua ocupação e “boa
administração”, muitas questões não estavam previstas ali. Para resolvê-las, fiscais
e membros da Câmara se valiam de novas posturas, avaliações ou votações, mas
também recorriam a disposições e interesses que escapavam a qualquer formali-
 51 dade. Isso era bem comum, por exemplo, no momento da concessão ou da trans-
ferência de uma vaga.
Neste artigo, vejamos mais de perto como tudo isso podia ocorrer. Para tanto,
examinarei em detalhes as disputas travadas entre dois locatários da Praça ― Do-
mingos José Sayão, liberto africano de “nação calabar”, e Antonio Joaquim Franco,
“cidadão brasileiro” ― pela posse de uma banca de peixe, em 1846. Num primei-
ro momento, buscarei avaliar quem estava “habilitado” a ocupar – e efetivamente
ocupava – os diferentes espaços de venda no interior do mercado. Nesse percurso,
também pretendo acompanhar as relações, igualmente diferenciadas, que esses
pequenos negociantes mantinham com a municipalidade. Ao final, ainda será pos-
sível observar como esses processos acabavam revelando redes, interesses e parti-
cularidades que caracterizavam homens e mulheres de procedências tão diversas.

Quem era “livre e capaz”?


Se quisermos estabelecer uma hierarquia entre os trabalhadores da Praça,
certamente os locatários das cento e doze bancas e casas internas, tais como

em greve: protestos e organização dos trabalhadores do pequeno comércio no Rio de Janeiro – Outubro,
1885”. Anais da Biblioteca Nacional, 127, 2010, p. 99-157; Idem. “Greve nas Marinhas: protestos, tradições e
identidades entre pequenos lavradores, quitandeiras e pombeiros (Rio de Janeiro, século XIX)”. ArtCultura.
Uberlândia, v.11, n.19, jul-dez. 2009, p. 35-55.
8 AGCRJ, Códice 61-2-17: Mercado da Candelária (1870-1879), p. 28.
9 Em 1869, a Praça foi arrendada, pelo prazo de nove anos, aos empresários Aureliano Dias da Costa Cabral
e Antonio José da Silva, sob a firma Aureliano Cabral & C. Abriam-se, assim, as portas para a entrada
da iniciativa privada no mercado. E daí em diante elas não mais se fechariam. Embora esses novos
administradores pudessem auferir grandes lucros com o aluguel de casas e bancas para antigos e novos
locatários, a fiscalização do local e outros assuntos cotidianos continuavam a cargo da municipalidade.
Mas isso estava longe de aplacar os conflitos ― que pouco a pouco se tornaram uma constante ― entre
Câmara e empresários, empresários e pequenos comerciantes ou entre estes e os vereadores e fiscais.
Para acompanhar os detalhes sobre esses arrendamentos, ver: FRIDMAN; GORBERG. Op. Cit., p. 23-32.

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 49-73


JULIANA BARRETO FARIAS

Sayão e Antonio Franco, ficarão em destaque.10 E não apenas porque apareciam


como os principais autores de solicitações e petições enviadas quase diariamente
à municipalidade, ou porque eram, a todo o momento, mencionados em descri-
ções, avaliações e relatórios feitos por fiscais e vereadores. Durante boa parte do
século XIX, eles desfrutaram de maior prestígio e poder na condução das vendas
cotidianas, mesmo em relação a outras categorias profissionais. E, evidentemen-
te, tudo isso era assegurado pela própria Câmara Municipal.
Mas nem todos podiam se tornar arrendatários. Embora os aluguéis não
fossem proibitivos (e pudessem variar bastante de ano a ano ou de uma banca
a outra), era necessário dispor de capital suficiente para montar ― e sobretudo
manter ― os negócios. Afinal, para armar uma quitanda de verduras, frutas e aves,
uma barraca de peixe ou um pequeno armazém de louças, precisavam de banca-
das, tabuleiros, armações, estantes, mesas ou eventualmente alguns caixeiros ou
serventes (muitas vezes escravos). E, sobretudo, fornecedores regulares. Para ter-
mos uma ideia de como os investimentos podiam ser elevados, vejamos os valo-
res empregados numa sociedade entre cinco portugueses, estabelecida em 1867,
para compra e venda de peixe salgado, cebolas, alhos e comissões em sete bancas
da Praça. O capital da sociedade era de dezesseis contos e quinhentos mil réis,
divididos entre os sócios. José Bessa Teixeira, por exemplo, entrava com quatro
contos e trezentos mil, ao passo que Antonio Gonçalves Vieira e Antonio de Bessa
Teixeira despenderam, cada um, dois contos e oitocentos mil. Com esses recursos
totais, era possível comprar pelo menos dez escravas minas, que nessa época che-
gavam a valer de um conto a um conto e quinhentos mil réis.11
Além do mais, conforme o Regulamento de 1844, somente “pessoas livres e
 52
capazes” poderiam ocupar as vagas internas. À primeira vista, poderíamos supor
que a condição de liberdade estivesse diretamente associada a indivíduos “bran-
cos”, fossem homens ou mulheres. De acordo com a historiadora Hebe Mattos,
essa correlação persistiria no Sudeste escravista até pelo menos meados do sé-
culo XIX, quando o crescimento de “negros e mestiços”, livres ou libertos, já não
permitia perceber os não brancos livres como exceções controladas.12 Na Praça do
Mercado, essa associação parece ter sido desfeita antes desse período. Ali, por
livres, entendia-se não escravos. Mesmo que isso não estivesse explícito nas re-
gras, outros registros ― de autoria dos próprios vereadores ― permitiram chegar
a essa conclusão.
No final da década de 1830, já se discutia na câmara municipal a redação das
normas que integrariam o regimento do Mercado da Candelária. Num dos rascu-
nhos, encontramos o 2.º artigo, justamente o que trata sobre as condições para
habilitação dos arrendatários, com uma pequena ― e reveladora ― rasura. No meio
do texto em que se definia que “o arrematante será pessoa livre e capaz, e que por
si, seu sócio ou caixeiro esteja à testa do negócio”, o trecho “e nunca poderá alugar

10 Na caudalosa documentação sobre o mercado depositada no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro,
esses locatários também são identificados como arrendatários, inquilinos ou banqueiros. Neste artigo,
privilegiarei essa categoria de trabalhadores da Praça, da qual fazia parte Domingos José Sayão e Antonio
Franco. Já analisei outras categorias do mercado em: FARIAS, Juliana Barreto. “Entre pequenos lavradores
e quitandeiras”. Mercados minas: africanos ocidentais na Praça do Mercado do Rio de Janeiro (1830-1890).
Tese (Doutorado em História Social). USP, 2012; Idem. “Pombeiros e o pequeno comércio no Rio de Janeiro
do século XIX”. In: SOARES, Mariza de Carvalho; BEZERRA, Nielson Rosa. Escravidão africana no Recôncavo
da Guanabara. Niterói: Editora da UFF, 2011.
11 AGCRJ, Códice 61-3-18: Comércio de peixe, pp. 6-8. Para os preços dos escravos, ver valores das alforrias
pagas nesse período.
12 MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: os significados da liberdade do Sudeste escravista – Brasil, século
XIX. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

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OS TRABALHADORES DA PRAÇA DO MERCADO DO RIO DE JANEIRO...

a banca a escravos” estava riscado.13 Por que eles não acharam necessário deixar
no texto final a proibição aos cativos? E os libertos? Também estavam sendo consi-
derados na genérica categoria de livres? De uma forma ou de outra, mesmo tentan-
do ordenar aquele espaço de trocas, afastando os cativos dali (onde estavam desde
princípios do Oitocentos, e até antes disso), eles não conseguiram alcançar seus
intentos. Ao longo do século XIX, escravos continuariam vendendo quitandas e pei-
xe nas bancas, como prepostos ou mesmo como subinquilinos dos arrendatários.
Por outro lado, as definições de uma pessoa “capaz” não eram tão eviden-
tes assim. Consultando o Dicionário da Língua Portuguesa (1813), de Antonio de
Moraes Silva, constatamos que o termo designava alguém “apto, hábil, suficiente
em talentos; esforço; probidade; decoroso; decente”.14 Luiz Maria da Silva Pinto
também confere o mesmo significado no seu Dicionário da Língua Brasileira (1832):
“suficiente em probidade; intentos, apto, decente”.15 De que forma qualidades um
tanto subjetivas poderiam ser provadas pelos interessados em uma vaga no mer-
cado? No regulamento e em outros editais publicados posteriormente, não havia
quaisquer informações nesse sentido. Para outras categorias até se exigiam regis-
tros e comprovação de habilitação em órgãos competentes. Os pescadores que
ofereciam seus produtos nas canoas ancoradas no cais das Marinhas, por exem-
plo, deviam ter licenças e aprovação da Capitania do Porto. Ainda assim, muitos
pombeiros conseguiam tirar essas autorizações sem estarem, segundo os fiscais
da Praça, “capacitados” para a atividade.
No caso dos locatários, só uma parte remetia à Câmara Municipal pedidos
 53 mais detalhados. Sem um modelo obrigatório a seguir, a maioria praticamente
apenas incluía nos requerimentos os seus nomes e o que pretendiam fazer nas
bancas. É bem provável que muitos julgassem que as relações pessoais e o “re-
conhecimento profissional” que gozavam ali, afinal alguns comerciavam naquela
área antes mesmo da construção do prédio do mercado, fossem garantias satisfa-
tórias. E de fato as seleções deviam mesmo se valer dos interesses e das disposi-
ções e idiossincrasias de fiscais e vereadores.
Quando as solicitações chegavam à municipalidade, a vereança, que raramen-
te tinha contatos mais diretos com o mercado e seus trabalhadores, encaminhava
os documentos aos fiscais da Praça, para que estes avaliassem os pedidos e lhes
fornecessem informações adicionais. De acordo com o Regulamento, esses agen-
tes eram responsáveis pela “rigorosa observância” das regras, podendo empregar
todos os meios que suas atribuições lhes conferiam, autuando quem infringisse o
regimento e outras posturas ou requisitando, se necessário, auxílio de força arma-
da. Para os arrendatários e demais comerciantes do mercado ― que diariamente
viam os fiscais fazendo rondas, inspecionando mercadorias e ouvindo reclamações
―, eles eram a expressão mais visível do poder municipal.16 Sendo assim, a aprova-
ção de um pedido de locação e o reconhecimento da capacidade de um candidato
dependiam, no final das contas, da rede de relações que ele mantinha na Praça ― e

13 AGCRJ, Códice 61-1-20: Mercados (1820-1827), p. 21.


14 SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da Língua Portugueza - recompilado dos vocabularios impressos ate
agora, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado. Lisboa: Typographia Lacerdina,
1813, v.2, p. 466. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/2/capaz. Acessado em: 19 set. 2011.
15 PINTO, Luiz Maria da Silva. Diccionario da Língua Brasileira, por Luiz Maria da Silva Pinto, natural da
Provincia de Goyaz. Typographia de Silva, 1832. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/3/
capaz Acessado em: 19 set. 2011.
16 Cf.: Regulamento da Praça do Mercado, apresentado em sessão da Câmara Municipal de 17 de novembro
de 1843 e publicado em edital no dia 20 de agosto de 1844, transcrito em: FRIDMAN; GORBERG. Op. Cit., p.
14-23. Cf.: SOUZA, Juliana Teixeira. A autoridade municipal na Corte imperial: enfrentamento e negociações
na regulação do comércio de gêneros (1840-1889). Tese (Doutorado em História). Unicamp, 2007.

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JULIANA BARRETO FARIAS

mesmo fora dela ― e da avaliação, muitas vezes subjetiva e interessada, dos fis-
cais. Entretanto, para que tudo isso também ficasse claro para os vereadores, era
preciso deixar registrado, formalmente, num papel.
Mas, se as apreciações das solicitações estavam mesmo sujeitas aos “olha-
res” dos fiscais e às relações construídas dentro e fora do ambiente de trabalho,
por que os pretos forros ― tão evidentemente mais próximos da escravidão ―
quase não se autoidentificavam em seus registros, sobretudo quando compara-
dos aos ditos “cidadãos brasileiros”? Pela Constituição de 1824, os libertos tinham
seus direitos civis assegurados. Mas isso só valia para os que nascessem no Bra-
sil. Os alforriados africanos não gozavam do mesmo status dos brasileiros e nem
possuíam as garantias de estrangeiros protegidos por seus países de origem.17 No
dia a dia, ao menos que possuíssem uma prova em contrário, eles eram constan-
temente confundidos com escravos. Daí ser tão importante ter a comprovação de
sua liberdade consignada em cartório e um atestado sempre à mão.18
No Mercado da Candelária, nenhum preto forro apresentou carta de alforria
para ratificar sua condição de liberdade. Em geral, suas solicitações para locação
das barracas ou renovação das licenças continham apenas seus nomes e o número
das vagas pretendidas. Em 15 de dezembro de 1846, por exemplo, Emília Soares do
Patrocínio, viúva de Bernardo Soares, pediu para “continuar com a banca na Praça
do Mercado n. 96, pagar o semestre que corre de janeiro e passar-se os recibos em
nome da suplicante visto que seu marido é falecido”. No verso do documento, o
fiscal Bernardino José de Souza anotou que tudo quanto Emília alegava era verda-
de e parecia ser o “caso de lhe passar em seu nome a banca no corrente semestre
futuro”. Dois dias depois, um comentário não assinado ― certamente feito por  54
algum vereador ― confirmava o parecer do agente municipal.19 Emília Soares do
Patrocínio permaneceu como locatária do mercado por quase 40 anos. E tanto ela
como seu marido Bernardo eram “pretos forros” de “nação” mina. Mas Emília pa-
rece não ter considerado necessário incluir essa informação em seu requerimento.
E o fiscal também não fez qualquer questionamento nesse sentido.20
Já Matias José dos Santos, ao se candidatar à barraca 106 , “vaga por faleci-
mento de um Francisco de tal” em janeiro de 1848, informou que era um “preto
forro com negócio de verduras na Praça do Mercado”. Em seu parecer, o fiscal An-
dré Mendes da Costa considerou que sua “pretensão não tinha lugar”, porque o
irmão ― e sócio ― do antigo arrendatário já pagara o semestre adiantado. Porém,
Mathias não desistiu da locação e as discussões sobre o caso se estenderam na
Câmara Municipal, chegando até a Secretaria dos Negócios do Império. Durante
os debates, a condição social e a procedência de Mathias só foram mencionadas
novamente em um requerimento do irmão do locatário, Francisco, que se referiu
a ele como “o preto mina Matias José dos Santos”.21
Apenas em alguns poucos casos os pretos forros se autoindentificavam des-
sa forma. Porém, quando se envolviam em disputas pela posse das bancas, muitas

17 Entre os poucos trabalhos que tratam do tema, destaco: MAMIGONIAN, Beatriz Galloti. “Razões de direito
e considerações políticas: os direitos dos africanos no Brasil oitocentista em contexto atlântico”. Texto
apresentado no 5º Encontro Escravidão e liberdade no Brasil meridional. Porto Alegre, maio 2011.
18 CUNHA, Manuela Carneiro da. Negros, estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. São Paulo:
Brasiliense, 1985, p. 76-89.
19 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 61.
20 Para mais detalhes sobre a trajetória da preta mina Emília, ver: FARIAS, Juliana Barreto. “De escrava a
Dona: a trajetória da africana mina Emília Soares do Patrocínio no Rio de Janeiro do século XIX”. Revista
Locus. UFJF, 2013.
21 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 107. Voltaremos ao caso da transferência
dessa banca no próximo capítulo.

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OS TRABALHADORES DA PRAÇA DO MERCADO DO RIO DE JANEIRO...

vezes acabavam tendo o estatuto legal, a cor ou a “nação” africana revelados por
seus oponentes. Foi o que também aconteceu com Vicente Antonio Francisco. Em
23 de outubro de 1855, o locatário Agostinho d’Almeida Figueiredo, procurador de
Bernardina de Oliveira, tentou mais uma vez recuperar o arrendamento da banca
21, que pertencera ao finado Apolinário de Campos. Segundo Agostinho, desde
novembro de 1850 apossara-se dela “o preto Vicente A. Francisco, que iludiu a
Bernardina, viúva do dito Campos, dizendo que ia fazer a arrematação em nome
dela”.22 A contenda começara em janeiro daquele ano, mas em nenhum momento
Vicente indicou sua cor ou seu status. Depois de várias negativas da Câmara Muni-
cipal, talvez Agostinho quisesse, ao chamá-lo de “preto”, colocar em dúvida sua
condição de liberdade e, em consequência, sua habilitação para ocupar uma vaga
na Praça. Seja como for, o certo mesmo é que o fiscal da Praça e os vereadores não
atentaram ― ou não deram importância ― para esse detalhe e a banca continuou
com o “preto” Vicente.
Ao mesmo tempo em que Agostinho Figueiredo tentava destacar essa infor-
mação, “silenciava” a cor e a condição social de Bernardina Oliveira e de seu fale-
cido marido nos requerimentos enviados à municipalidade em janeiro de 1855. Só
que os dados acabaram emergindo da documentação comprobatória anexada às
petições. Na procuração passada a Agostinho, em abril de 1854, o tabelião classi-
ficou Bernardina como uma “preta livre”. Já na certidão de casamento, celebrado
na matriz de Santa Rita, em 21 de fevereiro de 1835, consta que ela era “filha na-
tural de Marianna, preta de nação benguela, escrava que foi de Manuel d’Oliveira,
 55 natural e batizada nesta freguesia de Santa Rita”. No mesmo documento, Apoliná-
rio de Campos é descrito como um “preto de nação mina”, antigo escravo de Do-
mingos de Campos, batizado na freguesia do Sacramento. Por sua vez, no registro
de óbito assinado pelo escrivão da Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia,
em março de 1849, ele aparece como “preto forro de nação de mina”.23
Conforme veremos mais à frente, os pretos forros, sobretudo os africanos
ocidentais, genericamente identificados como minas, com frequência pediam para
continuar com o arrendamento das bancas que estavam em nome de cônjuges
falecidos. E quando encaminhavam solicitações desse tipo, quase sempre incluíam
assentos de óbito, batismo e casamento, testamentos e mesmo ações de divórcio.
Para além da comprovação do vínculo matrimonial mantido com o antigo inquili-
no, esses registros ainda serviam para atestar sua habilitação às vagas. Afinal, na
época, a condição civil de uma pessoa era legalmente decidida no registro paro-
quial, onde se encontravam livros de “livres” (incluindo-se aí também os libertos)
e de “escravos”.24
Embora esses novos candidatos ― alguns nem tão novos assim, já que tra-
balhavam nas bancas junto com seus falecidos parceiros ― apresentassem docu-
mentos que também certificavam sua capacidade para ocupar uma vaga na Praça,
em geral, os alforriados africanos seguiam o padrão da maior parte dos arrendatá-
rios: encaminhavam pedidos concisos, indicando basicamente seus nomes e os lu-
gares pretendidos. Como alguns vendiam suas quitandas naquela área antes mes-
mo da construção do prédio do mercado, talvez se valessem de um certo prestígio
e do reconhecimento de fiscais e vereadores. E por isso mesmo não precisavam

22 AGCRJ, Códice 61-2-9: Mercado da Candelária (1855-1859), p. 24. [grifo meu]


23 Todos esses documentos foram anexados às petições encaminhadas em janeiro de 1855 e reunidas em:
AGCRJ, Códice 61-2-9: Mercado da Candelária (1855-1859), p. 4-20.
24 Todos esses documentos foram anexados às petições encaminhadas em janeiro de 1855 e reunidas em:
AGCRJ, Códice 61-2-9: Mercado da Candelária (1855-1859), p. 4-20.

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JULIANA BARRETO FARIAS

apresentar maiores informações sobre suas vidas. Quem sabe também a fama dos
“pretos minas” como “exímios quitandeiros” fosse acionada ― e percebida ―
como uma espécie de garantia de suas aptidões. Quando Lauriana Maria da Con-
ceição mencionava que era uma “mina”, ao solicitar a aprovação de uma socieda-
de com Bernardino José Ribeiro, podia estar evidenciando com esse atributo um
resumo de sua condição. Uma africana, não escrava, com “habilidade”, “talento”
para o comércio de verduras, legumes e frutas.25 Da mesma forma que essas “qua-
lidades” talvez estivessem sendo levadas em conta no momento em que o fiscal
Bernardino José de Souza dizia saber, “por ver” ou “ter informações”, que Emília
e Bernardo Soares haviam sido casados e, enquanto “pretos minas”, tinham “ca-
pacidade” para os negócios na Praça do Mercado.
No Rio de Janeiro Oitocentista, senhores de escravos, viajantes estrangeiros,
políticos e, de resto, boa parte da população da cidade enfatizava essas “aptidões
mercantis” de cativos e forros minas, especialmente quando comparados a africa-
nos de outras “nações”.26 Na Praça, essas imagens e estereótipos também eram fre-
quentemente evocados. Em 1865, a norte-americana Elizabeth Agassiz, por exem-
plo, acompanhava seu marido, o naturalista Luiz Agassiz, até o mercado do Rio,

pelo prazer de ver os mostruários cobertos de laranjas, flores e legu-


mes, e para observar os grupos pitorescos dos negros tagarelando ou
vendendo suas mercadorias. Sabemos agora que esses negros atléti-
cos, de rosto distinto e tipo mais nobre que os dos negros dos Estados
Unidos, são os Minas, originários da Província de Mina na África oci-
dental. É uma raça possante, e as mulheres em particular têm formas
muito belas e um porte quase nobre. Sinto sempre grande prazer em
 56
contemplá-las na rua ou no mercado, onde se vêem em grande núme-
ro, pois as empregam mais como vendedoras de legumes e frutas que
como criadas.27

O senador Hollanda Cavalcanti também dizia, na década de 1850, que bas-


tava ir ao mercado de peixe, criação, frutas ou verduras da capital carioca “para
se ver que a maior parte dos vendedores são libertos ostentando ainda as marcas
tribais”.28 Embora não mencione a procedência desses forros, certamente fiscais
e outros frequentadores da Praça sabiam, somente “por ver”, de quem se trata-
va. As “nações” dos africanos no Rio de Janeiro eram reconhecidas por muitos
moradores e visitantes a partir de determinados signos, indumentárias e marcas
corporais. Como ressalta a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, cada grupo
podia dispor e manipular símbolos variados em diferentes contextos, mas, para
que construísse, efetivamente, um padrão de identificação, eles tinham de ser in-
teligíveis a todos os demais.29
De qualquer maneira, essas breves referências ajudam a reforçar a hipótese
de que o reconhecimento e os “olhares” de fiscais e outras autoridades eram de-
terminantes para a habilitação de velhos e novos locatários da Praça. “Tomando

25 AGCRJ, Códice 61-2-7: Mercado da Candelária (1850-1854), p. 89. O pedido de Lauriana é de 16 de julho de
1852. Nesse documento, ela não informa a condição de Bernardino José Ribeiro.
26 Cf.: SELA, Eneida Maria Mercadante. Modos de ser em modos de ver: ciência e estética em registros de
africanos por viajantes europeus (Rio de Janeiro, ca. 1808-1850). Tese (Doutorado em História). Unicamp,
2006.
27 AGASSIZ, Luiz; CARY, Elizabeth. Viagem ao Brasil. 1865-1866. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1975, p. 68.
28 Hudson a Palmerston, Rio de Janeiro, 27 jul. 1850, Encl. 2 in n. 85. apud CUNHA, Manuela Carneiro. Negros,
estrangeiros. Op. Cit., p. 92.
29 CUNHA, Manuela Carneiro da. Antropologia do Brasil: mito, história e etnicidade. São Paulo: Brasiliense;
Edusp, 1986, p. 94-95.

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OS TRABALHADORES DA PRAÇA DO MERCADO DO RIO DE JANEIRO...

conhecimento”, “sabendo por ver” ou por ser “público e notório”, os agentes mu-
nicipais identificavam quem estava apto ou não.30 Como tantos habitantes do Rio,
eles possivelmente também saberiam distinguir as “marcas tribais” dos vendedo-
res libertos entrevistos pelo senador Hollanda Cavalcanti na década de 1850. Caso
descobrissem – ou suspeitassem – que eram “pretos minas”, poderiam associá-los
às “habilidades mercantis” tão propaladas no próprio mercado e em outros locais
da cidade, e mesmo em outras áreas do país. O que, por si só, já poderia ser sufi-
ciente para habilitá-los às vendas na Praça do Mercado.

Nas bancas

Entre todos os requerimentos sobre a ocupação das bancas que recolhi nos
códices do Arquivo da Cidade, seja para ocupá-las pela primeira vez, seja para pedir
a renovação das locações ou a transferência para terceiros, encontrei os seguintes
termos usados para identificar os arrendatários (tanto por eles próprios como por
funcionários municipais, vereadores e outros trabalhadores): “cidadão brasileiro”
ou “brasileiro”; “preto forro”, “preto de nação” e “preta livre”; “nação calabar”,
“preto mina”, “mina” e “nação mina forra”; “natural d’Hispanha”; “português”,
“nacionalidade portuguesa” ou “súdito português”. Como se vê, as expressões ―
mencionadas por diferentes atores em momentos distintos e com objetivos diver-
sos ― indicavam nacionalidades (portuguesa, por exemplo), “nações” africanas
 57 (mina ou calabar) e ainda a combinação de condição social e nacionalidade, como
o designativo “cidadão brasileiro”.
Tomando como referência apenas esses documentos remetidos à Câmara Mu-
nicipal por candidatos às bancas, locatários ou seus procuradores, poderia se con-
cluir que esses grupos eram os principais ― ou mesmo os únicos ― que ocupavam
as áreas internas da Praça do Mercado. No entanto, essas categorias muitas vezes
obscureciam procedências, cores e condições. Assim, para dimensionar a composi-
ção étnica e social dos trabalhadores ali instalados, incorporei outras fontes à análi-
se. Não foi possível seguir a trajetória de todos os arrendatários que passaram pelo
mercado ao longo do século XIX. Ainda que os “brasileiros” tenham sido os que
mais se autoidentificaram na documentação enviada à municipalidade, foram os
que menos apareceram em outros tipos de registros. Já “portugueses” e “pretos
forros” foram localizados em vários conjuntos documentais, tais como inventários,
testamentos, ações de divórcio, registros de hipotecas ou cartas de alforria.
Para as décadas de 1830 e 1840, não dispomos de fontes regulares. O Alma-
nak Laemmert ― lançado em 1844 ― só começou a divulgar listas completas de
mercadores da Praça a partir de 1853. Entre a documentação da Câmara Municipal,
apenas vez ou outra localizamos relações de locatários com os valores despendi-
dos pelo aluguel das vagas. Em 1836, por exemplo, quando somente dois corpos
do edifício voltados para o Largo do Paço haviam sido finalizados, uma “relação
das pessoas” que “remataram as bancas do pescado” incluía os nomes de trinta e
dois arrendatários, dos quais consegui identificar a origem de apenas cinco (dois
africanos minas e três “brasileiros”31).
Confrontando essa listagem com um conjunto de licenças de 1831 e com ou-
tra lista divulgada em 1840, pude constatar que alguns pequenos comerciantes já

30 Esses termos eram constantemente usados pelos fiscais nos pareceres que enviavam à Câmara ―
31 Usarei o termo “brasileiro” conforme indicado pelos próprios locatários. Em alguns casos, acrescentarei
os locais de naturalidade, de acordo com o informado nas fontes.

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JULIANA BARRETO FARIAS

estavam instalados ali antes mesmo da construção da Praça, e continuariam se


destacando nos anos subsequentes à sua inauguração. Entre os registros de 1831,
encontramos Domingos José Sayão, identificado como “preto forro” de “nação
calabar”, compartilhando a banca 31 com Francisco do Espírito Santo, de quem
não sabemos a procedência. Sayão permaneceria na Praça até o ano de 1870 (com-
pletando 39 anos no local). Junto com eles estavam ainda dois serventes: José
Ganguela e Anacleto crioulo. Possivelmente, ambos eram escravos.
Desde as primeiras décadas do século XIX, era comum que africanos ― em
geral cativos ― auxiliassem os vendedores nas barracas montadas na Praia do Pei-
xe.32 Porém, já nessa época, a presença dos escravos incomodava alguns banquei-
ros. Em 1836, eles enviaram uma petição à Câmara Municipal, reclamando que, nas
arrematações anteriores, a posse e o uso das bancas haviam sido transferidos a
“pessoas que não são daquela profissão e comércio”, incluindo-se aí muitos “ho-
mens escravos”. O que trazia “gravíssimo prejuízo aos banqueiros de boa fé, em
especialmente aqueles que têm a propriedade de seus vasos, redes, escravos e
mais utensílios de pescaria”. Sendo assim, pediam que somente fossem aceitos
como novos arrematantes “pessoas da própria profissão e nunca negociantes e
pessoas das diferentes repartições”.33
Mas os escravos nem sempre eram obstáculos. Num abaixo-assinado de de-
zembro de 1840, 16 arrendatários no “Mercado do peixe” (entre os quais quatro
“cidadãos brasileiros” e um português) diziam que, “sendo notório quão laborio-
so é um tal tráfico”, necessitavam de serventes que se sujeitassem “ao árduo e

 58
desagradável serviço indispensável à venda do pescado, o que não pode ser fei-
to, geralmente falando, por pessoas livres, que exigirão extraordinários e one-
rosos ordenados, encarecendo deste modo o preço de um gênero de primeira
necessidade”.34
De um lado, os banqueiros queixavam-se da existência de cativos à frente
das bancas. Por outro, pediam à Câmara que os deixassem ter mais serventes e
caixeiros ― de preferência escravos, já que os livres exigiriam “onerosos ordena-
dos”. Toda essa discussão, é certo, não escapou aos vereadores. Em 1844, na hora
de redigir as normas do mercado, eles procuraram uma espécie de conciliação.
Ao mesmo tempo em que só admitiam locatários “livres e capazes”, permitiam
que os escravos pernoitassem nas bancas e casas, desde que seus senhores ficas-
sem responsáveis por eles e entregassem ao fiscal uma lista com seus nomes e de
quem mais fosse permanecer ali.35 Entretanto, durante o dia, os “pretos de ganho”
estavam proibidos de andar dentro da Praça. E os cativos que fossem mandados
por seus donos para fazer compras não deviam demorar “além do tempo neces-
sário para efetuá-las”. Quanto isso representava exatamente, eles não disseram.
De qualquer forma, essa medida decerto era uma tentativa de coibir a ação de
“pretos cativos atravessadores”, que causavam “graves inconvenientes e prejuí-
zos” aos locatários, chegando o “escândalo ao ponto de já não ser quase possível
hoje a um cidadão o poder empregar-se neste gênero de indústria comercial sem
se expor a continuados insultos e comprometimentos”.36
Só que a questão não parecia tão simples assim. Em geral, esses atravessa-
dores ― que revendiam o pescado a preços mais elevados ― atuavam como pre-

32 AGCRJ, Códice 61-3-13: Comércio de peixe (1831), pp. 39 e 43.


33 AGCRJ, Códice 61-1-21: Mercado da Candelária (1832-1839), p. 48.
34 AGCRJ, Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 2.
35 “Regulamento da Praça do Mercado...”, citado em Mercados no Rio de Janeiro, p. 20. Entre os códices sobre
o mercado, guardados no Arquivo da Cidade, não encontrei essas listas mencionadas no Regulamento.
36 AGCRJ, Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 6. As queixas estavam num abaixo-assinado en-
viado à Câmara em dezembro de 1847, por cinco arrematantes das bancas de peixe da Praça do Mercado.

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OS TRABALHADORES DA PRAÇA DO MERCADO DO RIO DE JANEIRO...

postos de seus senhores, que, muitas vezes, eram também arrendatários da Praça.
Apesar da vigilância constante de fiscais e vereadores, muitos conseguiam driblá-
los, ou mesmo contar com sua conivência. Ao longo do século XIX, os agentes mu-
nicipais que presidiam comissões fiscalizadoras constantemente apontavam essas
irregularidades, sem, contudo, eliminá-las de vez. Por isso, as listas de mercadores
divulgadas pelo Almanak a cada início de ano não correspondiam, necessariamen-
te, aos vendedores que as ocupavam de fato. Em 1865, de um total de 112, 48 (ou
seja, um terço) estavam sublocadas “sem o consentimento da Ilma. Câmara”, ou
tinham “figurando no negócio pessoas diversas”.37 Ainda assim, como esse fenô-
meno ― apesar de recorrente ― não era generalizado, podemos tomar essas re-
lações como ponto de partida para uma análise mais sistemática da composição
étnica e social dos arrendatários que, se não de forma efetiva, ao menos nominal-
mente, estavam ali instalados.38
Percorrendo o interior do mercado, especialmente entre as décadas de 1840
e 1870, constatamos que vendedores de diferentes gêneros tendiam a persistir
por longos períodos em suas bancas. Às vezes, ficavam de posse de dois ou mais
lugares em uma mesma área ou em pontos diferentes do Mercado da Candelária.
Mesmo que não tenha sido possível avaliar a proporção de todos os inquilinos con-
forme suas origens, consegui estimar que, naquele período, os portugueses esta-
vam presentes em todas as áreas. Os africanos, e especialmente os minas, concen-
travam-se nas vendas de legumes, verduras, aves e ovos. E os brasileiros ficavam
mais nos negócios com pescado. Ainda que, por vezes, os minas estivessem, de
 59 fato, nas bancas alugadas em nome de portugueses. Ou estes, nas de brasileiros.
E assim por diante.
Vejamos, por exemplo, a distribuição nas 30 bancas do centro (de números
79 a 112), destinadas ao comércio de hortaliças, legumes, aves e ovos. Em 1853,
havia 29 mercadores registrados no Almanak, dos quais reconheci a procedência
de 23 (cerca de 79%): oito portugueses; nove africanos minas; um africano Angola
e quatro brasileiros. Como podemos perceber, esse pedaço era uma espécie de re-
duto dos africanos da Praça. Na banca 96, a mina Emília Soares do Patrocínio dava
continuidade aos negócios abertos em 1840 por seu primeiro marido, o também
mina Bernardo Soares. Logo ao lado, na vaga 95, sua amiga Antonia Rosa, preta
forra da mesma “nação”, também seguia com as vendas iniciadas por seu mari-
do, o preto mina Januário Francisco de Mello. Quando Antonia deixou o local, em
1865, o mina Joaquim Manuel Pereira, segundo marido de Emília, tornou-se o novo
inquilino, e ficou ali por mais de 20 anos. Para completar, a preta mina ainda firmou
uma sociedade com Feliciana, africana da mesma “nação”. Ex-cativa do crioulo
Antonio José de Santa Rosa, Feliciana trabalhara com seu senhor na banca 98 por
pelo menos seis anos. Em 1846, com a morte de Santa Rosa, ela ganhou sua carta
de alforria. E não hesitou em solicitar a posse da quitanda, onde labutou sozinha
durante cinco anos. De 1852 a 1857, dividiu as vendas com Emília. Com o fim da so-
ciedade, esta última manteve-se na barraca até 1885.
Seguindo pelo mesmo corredor, encontramos, lado a lado, diversos “pretos
forros”. Na banca 100, Maria Alexandrina Rosa, de “nação” Angola, vendeu suas
quitandas entre os anos de 1853 e 1859. Depois de passar para Joaquim José Leite
& C. (de 1859-1862), a vaga foi ocupada pelo preto mina Amaro José de Mesquita
até 1869. Já a mina Maria Rosa da Conceição ficou por 20 anos (de 1840 a 1860) nas

37 Idem.
38 Para acompanhar uma análise mais detalhada dos locatários de todas as áreas internas da Praça do Mercado
do Rio, ver o capítulo 2 de minha tese, “Entre locatários e quitandeiras”. In: Mercados minas. Op. Cit.

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bancas 102 e 103. Mais adiante, estavam mais africanos e africanas minas: Lauriana
Maria da Conceição (104: de 1852 a 1858); Matias José dos Santos (106: de 1847 a
1858); Luiz Laville (107: 1859 a 1870) e João José Barbosa (108: 1842 a 1865).
E os portugueses também compartilhavam essa área do mercado. Nas rela-
ções do Almanak, o imigrante José Maria de Paula Ramos é citado em 1844 como
um dos “principais mercadores”. Natural de Coimbra, ele chegara ao Rio de Janei-
ro dois anos antes, com 35 anos de idade. Ao se registrar em 1842, afirmou que
tinha a ocupação de negociante e morava na Praça do Mercado, número 84. Até
1858, ele esteve à frente dessa banca. E ainda arrendou outras duas (83 e 85) para
negociar os mesmos gêneros. Depois de sua morte, em 1859, o português Anto-
nio Maria de Paula Ramos, seu filho e genro do locatário Bonifácio José da Costa,
instalou-se em seu lugar. Nas imediações, outro conterrâneo, o luso José da Costa
e Souza, contava com duas locações. Entre os anos de 1856 e 1870, manteve socie-
dade na banca 89 com a preta mina Felicidade. E na 109, com a quitandeira Josefa,
no período de 1854 a 1870. À semelhança dos africanos minas, alguns negociantes
de Portugal, como o próprio José Souza, também chegavam a somar de 10 a 20
anos de Praça.
Uma estratégia que parecia generalizada era a transferência das bancas entre
locatários de igual procedência ou de uma mesma família. Quando um imigrante
luso falecia, seu filho ou um conterrâneo o substituía. Ao saírem, os minas também
davam lugar a outros africanos da mesma “nação”. Aparentemente semelhan-
tes, essas práticas podiam guardar especificidades para cada grupo. A formação
de sociedades entre indivíduos de mesma procedência era igualmente recorrente.
Mesmo assim, não faltavam parcerias entre portugueses e brasileiros; africanos e
 60
brasileiros ou portugueses e minas. Ao contrário do que ocorria em outras partes
da cidade, estes dois últimos grupos não estavam permanentemente em conflito.39
Nas bancas internas da Praça do Mercado (e em outras de suas áreas), as
relações diárias entre eles envolviam concorrência e rixas, das corriqueiras às
mais “sérias”. Ainda assim, rivalidades e conflitos não eram o “comportamento
padrão” na Praça. Desde as primeiras décadas do Oitocentos, pretos minas mon-
tavam sociedades comerciais com imigrantes de Portugal e até mesmo realizavam
parcerias para comprar escravos. Como boa parte dos africanos não sabia ler e
escrever, negociantes portugueses assinavam, em seus nomes, abaixo-assinados
e petições. E ainda atuavam como testemunhas em seus processos de divórcio.
Não obstante, homens e mulheres da Costa da Mina preferiam labutar junto com
seus “parentes de nação”. Do mesmo modo que os arrendatários de Portugal as-
sociavam-se a irmãos, primos e compadres europeus. Como se vê, o trabalho e a
convivência diária entre eles poderiam ser bem mais complexos, incluindo tanto
aproximações como diferenças e hierarquias.

Transferências
Assim que as bancas do mercado vagavam ― seja por desistência ou faleci-
mento do locatário ―, sócios, amigos, herdeiros, cônjuges e outros parentes não

39 Cf.: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. “Proletários e escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos
no Rio de Janeiro, 1850-1872”. Novos Estudos Cebrap, n.21, jul. 1988, p. 30-56; RIBEIRO, Gladys Sabina. A
liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilustianos no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2003.

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demoravam a ocupar seus lugares. Só que essas transferências por vezes acaba-
vam rendendo muita discussão. Especialmente porque não havia, no Regulamento
de 1844, uma postura muito bem definida sobre o assunto. Como recorrentemente
acontecia ali, as decisões sobre quem seriam os novos inquilinos também depen-
diam das circunstâncias, dos interesses e das personagens envolvidas. A história
de Domingos José Sayão, preto forro de nação calabar, ilustra, de muitas manei-
ras, essas questões.
Em 17 de novembro de 1846, ele enviou um requerimento à Câmara Mu-
nicipal, pedindo para continuar na banca 23, já que seu sócio Joaquim de Souza
acabara de falecer. No verso do documento, o fiscal Bernardino José de Souza
confirmou a informação. Logo em seguida, foi a vez do vereador Tristão Ramos
da Silva aprovar a solicitação. Alguns dias antes, o “cidadão brasileiro” Antonio
Joaquim Franco também havia requerido a ocupação da vaga. Nesse caso, porém,
Bernardino indeferiu o pedido, justificando que Domingos, como antigo parceiro
de Joaquim, já estava de posse do lugar.40
Mas a seleção ainda não estava encerrada. Embora, normalmente, apenas
o vereador encarregado da Praça do Mercado confirmasse ― ou refutasse ― as
avaliações dos fiscais, a decisão sobre a ocupação dessa vaga foi levada à votação
no plenário da Câmara. Em 24 de novembro, o vereador José de Silveira Pilar dizia
concordar com o parecer de Ramos da Silva e decidira apresentar suas razões. Em
primeiro lugar, era incontestável que Sayão e Antonio haviam sido sócios. Sendo
assim, por “vigorosa justiça” e pela “boa conduta” que sempre manteve, ele devia
 61 continuar no local. No entanto, mesmo com todas as deliberações a seu favor e as
negativas ao pedido de Antonio Franco, essas informações foram desprezadas, e
isso poderia “ser qualificado na opinião pública como um patronato escandaloso”.
E prosseguia, destacando que

o referido Saião, um infeliz preto, sócio e representante de um homem


cego, qual o falecido Joaquim de Souza, não tendo por si pessoa alguma
que por ele falasse, tendo aliás muitas que se interessavam por Franco,
o que é público e notório e foi declarado na discussão pelo dito Verea-
dor Ramos da Silva, pode geralmente acreditar-se que na Câmara Muni-
cipal só se consegue as coisas por empenhos e não pelos princípios da
razão e da justiça.41

Para finalizar, fazia questão de lembrar que esta era a primeira vez que a mu-
nicipalidade agia dessa forma:

expelindo por falecimento do locatário o sócio do mesmo, que o re-


quereu e obteve as melhores informações, para dar a um indivíduo de
fora, ao qual nenhum direito assistia, e a quem se podia dar uma das
duas que se acham vagas, ou qualquer das que tem de vagar no fim de
dezembro. Por tudo isso, muitos acreditariam que a instituição servira
de instrumento de vingança, cometendo de mais uma violência, uma
iniquidade.42

Acompanhando o vai e vem de petições e pareceres nos códices municipais


conservados no Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, não localizei qualquer ofício

40 Cf.: AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 51 (requerimento de Domingos José
Sayão); Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 59-59v.
41 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 52. [grifo meu]
42 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 52.

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atestando a concessão da banca a Antonio. Ainda assim, as palavras de Silveira


Pilar não deixam dúvidas de que o concorrente de Domingos Sayão conseguira
reverter a situação. Mais especificamente na sessão do dia 24 de outubro, a muni-
cipalidade escolhera Antonio Franco como novo locatário.43 Só que isso, como se
vê, também não representou o fim das disputas. Por volta do dia 10 de dezembro,
Sayão decidiu tentar recuperar a vaga, dessa vez dirigindo-se ao governo imperial.
De acordo com o recurso do artigo 73 da lei de 1.º de outubro de 1828, incluso no
regimento das Câmaras, os “cidadãos residentes na Corte” que se sentissem agra-
vados pelas deliberações, acordos e posturas das Câmaras Municipais podiam re-
correr, na defesa de seus interesses, à Assembleia Geral Legislativa e ao Ministério
dos Negócios do Império, contanto que a matéria fosse meramente econômica e
administrativa.44
Acontece que libertos africanos como Domingos José Sayão não eram, como
vimos, considerados “cidadãos” no Império brasileiro. Nem por isso eles deixavam
de pedir proteção ao Ministério ou mesmo diretamente ao imperador. Entre os
papéis da Câmara sob a guarda do Arquivo da Cidade, não encontrei a petição de
Sayão. Contudo, em 10 de dezembro, um ofício encaminhado à instituição pelo ga-
binete ministerial mencionava o documento e solicitava mais informações sobre
o caso. Antes de os vereadores apresentarem uma resposta, o “preto forro” lhes
remeteu mais um requerimento, informando que, por se sentir “ferido em seus
mais lícitos direitos”, solicitara proteção da “Imperial Justiça e Bondade de S. M.
I. [Sua Majestade Imperial]”. E dessa feita tratava de apresentar os mesmos moti-
vos expostos naquela súplica, para que as autoridades municipais se “dignassem
a resolver a questão”. Além de indicar que fora sócio de Joaquim Souza durante 11
 62
anos, recordava o “exemplo que se praticou com Joaquim José Maria”, também
“preto forro”, de “nação” mina. Na “qualidade de sócio de um locatário falecido”,
ele havia sido “considerado na mesma banca, não obstante a apresentação de um
novo pretendente, no que deu certamente a Ilustríssima Câmara uma prova de sua
retidão e justiça”.45
Sayão não apresentava muitas informações novas, mas sua petição mais uma
vez provocou discussões entre os membros da instituição camarária. O primeiro
a se manifestar foi Joaquim Vicente Torres Homem. Antes de explicar a decisão
tomada na sessão de 24 de novembro, achava necessário expor alguns esclare-
cimentos que fundamentaram aquela resolução. Para ele, era notório ― e “infe-
lizmente sabido” ― que há muito tempo havia se fixado no mercado um “tão es-
candaloso abuso no transpasse das bancas sem o consentimento da Câmara”, que
nem todas as medidas tomadas em diferentes administrações foram suficientes
para coibi-lo. No ano anterior, sócios de uma banca tiveram que entregar “avulta-
das luvas” a certos indivíduos para se apoderarem de suas vagas. Nas vendas de
pescado, alguns arrendatários as sublocavam a três ou quatro atravessadores, que
passavam a oferecer os gêneros em grupos diferentes. A “convenção entre eles
era tal” que os consumidores, por necessidade, acabavam se sujeitando aos altos
preços estabelecidos. E certamente todas as infrações eram de conhecimento dos
fiscais ou então se valiam de sua negligência. Disso tudo, resultava o seguinte:

43 A informação consta de um documento enviado pelo Ministério dos Negócios do Império em 10 de


dezembro de 1848. Ver em: AGCRJ, Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 61
44 Brasil. Lei de 1.º de outubro de 1828, sobre o regimento das Câmaras Municipais do Império, art. 73. Citado
em: SOUZA, Juliana Teixeira. A autoridade municipal na Corte imperial. Op. Cit., p. 34.
45 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 62.

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Quando o arrendatário de qualquer banca quer se retirar do negócio,


recebe de um desses atravessadores luvas, declarando à Câmara que
ele era sócio e consequentemente a ser preferido a outro qualquer, de-
clarando esta que não sendo acompanhada de documento comproba-
tório, em nenhum caso pode ser considerada como valiosa, e que, pelo
contrário, deve ser rejeitada pelo conhecimento que tem a Câmara de
semelhantes abusos.46

Para Torres Homem, esse era justamente o caso de Domingos Sayão. Como
não apresentara qualquer registro para atestar sua sociedade com o falecido Jo-
aquim de Souza, ele não teria o “menor direito” à banca. No “estado em que as
coisas existem na Praça do Mercado”, uma informação passada por um vizinho,
que “comercia o mesmo gênero e quer especular da mesma maneira”, também só
podia ser suspeita. Sendo assim, o melhor, na opinião do vereador, seria responder
ao governo que Sayão não apresentava título algum. Pelo contrário: devia ser con-
siderado como “intruso”, em consequência de todas as irregularidades relatadas.
Por outro lado, de acordo com os dados apurados (pessoalmente?), fora possível
confirmar que Antonio Joaquim Franco era “homem capaz e com proporções de
se estabelecer naquela praça sem cometer abuso de sublocar a atravessadores
parte de sua banca, com prejuízos do público”.47
Nem todos os vereadores tinham a mesma opinião. Ao comentar o parecer
de Joaquim Torres Homem, um outro tribuno, cuja assinatura não consegui deci-
frar, considerava “pouco exato o que nele se diz em geral a respeito de passagens

 63 de bancas” e das providências tomadas pela municipalidade. Além disso, já estava
“plenamente provado que o dito Sayão era sócio de Joaquim Souza”. Sua convic-
ção baseava-se nas evidências apresentadas pelo fiscal e pelo vereador encarrega-
do da Praça, cujas conclusões haviam sido confirmadas pelas “pessoas mais acre-
ditadas” do mercado. Mas também se reportava a outras fontes. Como podiam
certificar os empregados da Tesouraria da Câmara, era “público e notório” que, no
“tempo em que vivia o cego Souza”, Sayão sempre ia pagar o aluguel da banca 23,
sozinho ou em sua companhia. E, de acordo com o vereador Filgueiras, os próprios
herdeiros de Souza reconheceram no “preto forro” a qualidade de sócio de seu fa-
lecido parente. Nenhum deles tinha qualquer intenção de assumir seus negócios,
“antes deixando a Sayão na mansa e pacífica posse e no livre direito de continuar
só nos semestres futuros”.
Dessa forma, não havia “interesse ou conveniência alguma” em expulsá-lo
dali, para colocar um “indivíduo de fora, a quem com quanto se façam elogios pré-
vios”; não se podia “pôr acima daquele que, já experimentado, tem em seu favor
as melhores informações de muitas pessoas e de autoridades em quem a Câmara
tem obrigação de acreditar”. Finalmente, lembrava mais uma “razão mui podero-
sa”: em junho de 1845, na ocasião de aumentar o aluguel das bancas, todos con-
cordaram, por unanimidade, em manter os locatários pelo prazo de quatro anos,
com o valor inicial que fora marcado. Por isso mesmo, conforme a lotação de 1845,
Sayão tinha de ser conservado no seu local, não podendo ser “expelido sem que à
Câmara falte a obrigação que contraíra”.48
Apesar de mais este voto favorável ao “preto forro”, a sentença da vereança
não sofreu qualquer modificação. Em 22 de dezembro de 1846, um ofício foi en-
viado ao Conselheiro Joaquim Marcelino de Brito, Ministro e Secretário de Estado

46 AGCRJ, Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 62.


47 AGCRJ, Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 62.
48 Idem.

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dos Negócios do Império, confirmando a decisão da sessão de 24 de novembro e


reproduzindo algumas palavras de Torres Homem. Não obstante, ainda não seria
dessa vez que Domingos Sayão ficaria de fora da Praça. Em 26 de março de 1847,
ele pediu uma nova licença para vender peixe fresco e salgado na banca 55. À
sua sucinta solicitação, o agente municipal responsável também deu uma breve
resposta: concedida.49 Nenhuma menção ao atribulado episódio de meses ante-
riores. No final das contas, contrariando as razões apontadas por Joaquim Torres
Homem, quem se revelou um verdadeiro especulador foi Antonio Joaquim Franco.
Quase um ano após a contenda com Sayão, o fiscal André Mendes da Cos-
ta encontrou, na banca alugada a Franco, um indivíduo de nome José Fortunato,
oferecendo peixe ao público pelo miúdo, sem ser consignatário de pescador ou
arrendatário do local. Quando intimado a retirar-se dali, ele respondeu que fora
convidado pelo dono, “o qual lhe assegurou que pessoa alguma seria capaz de o
fazer sair do lugar em que estava”. De imediato, Fortunato foi detido pelo fiscal,
que acabou “injuriado” por Antonio Franco, “com maneiras indecentes e grossei-
ras”. Por isso, o locatário também foi levado preso. Os autos da apreensão foram
enviados ao Chefe de Polícia e André da Costa rogou aos vereadores que não dei-
xassem “impune um escândalo tão revoltante”.50 Infelizmente, não achei outros
registros que elucidassem o final dessa história. Voltando aos embates entre Fran-
co e Sayão, talvez possamos esboçar algumas explicações.

Um “patronato escandaloso”?
 64
Logo no início das discussões na Câmara, o vereador-presidente José Silveira
Pilar afirmara que até então nenhuma transferência havia sido decidida pela muni-
cipalidade de maneira tão arbitrária. De fato, ao examinar a documentação sobre
o mercado nas décadas de 1830 e 1840, não me deparei, pelo menos até o ano de
1846, com situações que gerassem tamanho debate. O caso de Sayão foi tão em-
blemático que, em 1848, serviu como referência ― a não ser seguida ― em outra
disputa pela posse de uma banca, também envolvendo um forro africano, o mina
Matias José dos Santos.51 Entretanto, se o desenrolar do pedido aparentemente
corriqueiro de Domingos Sayão surgia como uma “novidade”, as práticas que per-
mearam boa parte das avaliações subsequentes não eram tão inéditas assim.
Mais uma vez, o discurso de Silveira Pilar nos fornece evidências nesse sen-
tido. Avaliando a conduta da vereança diante das solicitações de Sayão, ele men-
cionava um “patronato escandaloso”. Como o “preto forro” não tinha “pessoa
alguma que por ele falasse, tendo aliás muitas que se interessavam por Franco”,
a “opinião pública” poderia acreditar que, na Câmara, “só se consegue as coisas
por empenho e não pelos princípios da justiça”. Por certo, essas apreensões não
se fundamentavam apenas no caso em questão. Ainda que fiscais e vereadores

49 AGCRJ, Códice 61-3-15: Comércio de peixe (1840-1848), p. 70.


50 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 73. No documento, o fiscal também pedia que
a Câmara colocasse em execução o 1.º artigo do Regulamento da Praça, onde se determinava que, “no caso
de alguém não cumprir ou fazer pouco caso das ordens que lhe forem intimadas pelo respectivo fiscal, ou
for turbulento, o mesmo Fiscal lhe intimará incontinente o despejo da banca, lhe sendo restituída a quantia
correspondente ao tempo que faltar para o complemento do arrendamento”. Ver: Regulamento da Praça do
Mercado.., citado em: FRIDMAN; GORBERG. Op. Cit., p. 14.
51 Os requerimentos e pareceres sobre o caso do mina Matias estão em: AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da
Candelária (1844-1849), p. 92-94; 99-100, 107-111; 113. Mais adiante, voltarei a tratar de alguns pontos dessa
discussão.

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constantemente se referissem ao Regulamento da Praça do Mercado como ponto


de partida para as suas resoluções, muitas situações e possibilidades não eram
previstas ali. Nessas circunstâncias, outros critérios e interesses eram levados em
conta, como, por exemplo, a intervenção dos chamados “protetores”.
Em momentos diversos, locatários, quitandeiras, fiscais e outros agentes mu-
nicipais faziam referências ― quase sempre indeterminadas ― a redes de prote-
ção que se ramificavam por todas as áreas do mercado e chegavam, também por
vias incertas, à Câmara Municipal. Como eram interditas, revelavam-se muito mais
em situações de conflito ou por meio de “denúncias” daqueles que não contavam
com tal amparo. Em novembro de 1846, por exemplo, a ex-escrava mina Feliciana
de Santa Rosa tentava arrendar as bancas 97 e 98, que haviam pertencido a seu an-
tigo senhor, o “crioulo” Antonio José de Santa Rosa. Mas, como ela assinalava, já
existiam outros pretendentes “com muitas proteções”. De onde elas vinham exa-
tamente, quase ninguém informava. Talvez fossem representadas por vereadores,
fiscais ou os próprios arrendatários, como o português José da Costa e Souza, que
dizia ter duas escravas como suas “protegidas” nas vagas alugadas em seu nome.
Aliás, em muitas situações, os imigrantes lusos ainda podiam contar com o apoio
― efetivo e legal ― do Consulado de Portugal.
Mas muito raramente se falava sobre as maneiras pelas quais essas “prote-
ções” eram acionadas. Não obstante, nas entrelinhas de discursos, avaliações e
até de alguns requerimentos bem concisos, é possível perceber que elas se enqua-
dravam numa espécie de “economia de concessão e favores”. Em troca da “pro-
 65 teção” da vereança, alguns locatários, especialmente aqueles que tinham mais
recursos, ofertavam joias ou mesmo faziam barganhas eleitorais. Quanto maiores
fossem o “reconhecimento” do inquilino e as “vantagens oferecidas aos cofres”
da municipalidade, maior seria a “ajuda” recebida. Porém, não eram somente os
trabalhadores do mercado que agiam assim.
Segundo a historiadora Juliana Teixeira Souza, os comerciantes varejistas do
Rio de Janeiro oitocentista também estavam habituados a oferecer donativos em
troca de benefícios que só poderiam ser conferidos pelo poder constituído. Para tan-
to, recorriam a uma prática consagrada no Antigo Regime e largamente utilizada no
jogo político entre o rei e seus vassalos. Contudo, existiam diferenças fundamentais
entre as estratégias que vigoravam no século XVIII e as das primeiras décadas do Oi-
tocentos. Nestas, o objetivo essencial não era empreender qualquer modificação na
conduta social, mas sim assegurar a manutenção da margem de lucro nos negócios
e a acumulação de capital. A busca incessante por prestígio dava lugar à tentativa de
obter maiores vantagens pecuniárias. Com efeito, os diversos grupos que atuavam
nas vendas a varejo pareciam compartilhar a certeza de que mereciam maior prote-
ção da Câmara os munícipes que pagassem os tributos mais pesados.52
No Mercado da Candelária, esses artifícios e as redes oblíquas que os envol-
viam nem sempre eram explicitados. Só mesmo em ocasiões bem específicas. A
transferência de arrendatários nas bancas era uma delas. O fenômeno, no entanto,
não era novo. Ao menos desde a década de 1830, banqueiros, fiscais e vereadores
reclamavam dos seguidos repasses feitos sem o consentimento da Câmara. E por
diversas vezes foram ensaiadas tentativas ― muitas em vão ― para impedi-los.
Ceder a posse e o uso das bancas não era proibido. O que não se permitia
era passá-las a terceiros por conta própria. Ou seja, o inquilino que quisesse fazer
a transferência para outro comerciante deveria informar, por escrito, sua intenção

52 SOUZA, Juliana Teixeira. A autoridade municipal na Corte imperial. Op. Cit., p. 173.

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à Câmara Municipal, solicitando também que os recibos do aluguel fossem lan-


çados em nome do novo ocupante. Os valores cobrados permaneceriam os mes-
mos. Acontece, porém, que muitos não avisavam à municipalidade e continuavam
passando suas bancas sem serem incomodados. E ainda estipulavam valores mais
altos, para assim garantir seu lucro. De tal forma que alguns arrendatários, cons-
tantemente referidos como especuladores, formavam verdadeiros monopólios.
Tudo isso à vista – e decerto com a anuência ― dos fiscais, que diariamente de-
viam fazer rondas na Praça para assegurar o cumprimento do regulamento.
Em julho de 1865, como o problema ainda persistia, a Câmara resolveu no-
mear um vereador para investigar o assunto pessoalmente. No relatório apresen-
tado logo em seguida, o Dr. Bezerra constatou que as irregularidades encontradas
ali eram reflexos diretos da “benevolência” da municipalidade “para com vários
especuladores que dispõem da Praça como de sua propriedade, e outros da ne-
gligência dos fiscais até hoje encarregados da polícia daquele estabelecimento
pela falta de seus deveres”.53 Conforme constatou, todas as 112 bancas estavam
arrendadas, “ou antes ocupadas”. Algumas, subarrendadas sem a aprovação da
Câmara. Outras mantinham à frente do negócio pessoas com o título de gerentes
ou administradores. Após percorrer as diferentes áreas do mercado e inquirir seus
ocupantes, o encarregado municipal concluíra que

A série de abusos e defeitos de sua administração, devidos à falta de


execução de seu regulamento, assim como o prejuízo causado às rendas
da municipalidade pelo sistema de lotação das bancas até hoje seguido,
abusos que redundam todos em prejuízo do público, por isso que con-
centrado em mãos de meia dúzia de homens, por homens privilegiados
 66
[...]. Daqui resulta a indeclinável necessidade em que está a Ilustríssima
Câmara de tomar algumas medidas que reprimam tais abusos, e façam
conhecer aos especuladores e monopolistas da Praça do Mercado, que
ela não está disposta a tolerar mais tanto escândalo [...].54

Como resultado mais imediato às suas enfáticas palavras, os vereadores lan-


çaram um edital com novas posturas, a fim de melhorar a fiscalização das praças
do mercado e das marinhas. Para começar, intimavam todos os indivíduos que
estavam nas bancas, sem serem seus locatários, a apresentarem, no prazo de oito
dias, os títulos de posse e as autorizações ou procurações dos verdadeiros inquili-
nos. Quem não mostrasse “título legítimo” podia legalizar sua situação, desde que
se sujeitasse às condições exigidas e aos mesmos preços que a Câmara cobrava
naquele momento. Todos esses “novos” arrendatários ― e também os antigos
que ainda não o tivessem feito ― deviam apresentar “fiadores idôneos”. De outra
parte, aqueles que pretendiam retirar-se do Império ou do negócio deviam, igual-
mente, comunicar à municipalidade, indicando quem ocuparia o lugar a partir de
então. No caso de falecimento dos atuais inquilinos, os “favores até hoje concedi-
dos aos sucessores” só seriam feitos quando eles fossem maiores de idade. Caso
contrário, a liquidação da casa e a arrecadação (ou arrematação) dos bens seriam
reclamadas em juízo competente, e o local posto em lotação novamente.55 Ime-
diatamente após o lançamento dessas medidas, muitos trabalhadores enviaram

53 AGCRJ, Códice 61-2-11: Mercado da Candelária (1865), p. 9.


54 Idem.
55 O edital foi publicado no dia 4 de julho de 1865 e anunciava oito medidas: as seis primeiras eram relativas
à regulação da ocupação das bancas internas e as duas últimas versavam sobre o comércio de peixe
dentro e fora do mercado. Para conferir o documento completo, ver: AGCRJ, Códice 61-2-12: Mercado da
Candelária (1866-1867), p. 175.

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requerimentos e os respectivos comprovantes para a regularização perante a Câ-


mara. Entretanto, a longo prazo, tudo isso não se mostrou suficiente para debelar
o problema.
Das avaliações de Bezerra também emergiram os nomes dos principais “es-
peculadores e monopolistas da Praça”. À frente da lista estava o português José
da Costa e Souza. Com as informações apuradas in loco, o vereador concluíra que
o imigrante, também conhecido pelo apelido de José da Lenha, era, “por assim di-
zer, o verdadeiro dono da Praça do Mercado”. Como exercia bastante “influência”
e “poderio” sobre a maior parte dos banqueiros, muitos tinham certeza de que ele
podia fazer tudo quanto pretendesse. Bastava olhar para as atenções que a Câma-
ra lhe dispensava, concedendo-lhe qualquer banca que quisesse locar ou arrendar
por sua própria conta.
“Frequentemente zombando” do Edital de 20 de agosto de 1844, como en-
fatiza o vereador em seu relatório, este “homem notável nos fatos da história” do
mercado, “para o qual tem havido sempre tanta benevolência”, era locatário ― e
também tinha “debaixo de diversas pessoas” ― 13 bancas, correspondente a mais
de 1/10 do total das vagas ali existentes. Segundo os cálculos feitos pelo agente
municipal, elas estavam assim divididas: peixe (banca 13); cereais (50 e 52); gelo
(86 e 87) e verduras (88, 89 e 109). Além dessas, também dispunha, como procura-
dor, das de números 91, 102 e 103. Não satisfeito com isso, também solicitara a pos-
se de mais dois lugares e, por resolução da Câmara Municipal em 31 de dezembro
de 1864, lhe foram concedidas as bancas 24 e 77.56 O fato de possuir tantos locais e
 67 ainda manter, em dois deles, depósitos de gelo, o que era expressamente contrá-
rio às disposições do regulamento, só revelava seu “pouco caso” com as regras da
Praça e a “proteção que parece ter até hoje merecido da Câmara”.57
Só que a atuação deste “dono do mercado” ia além. Seguindo sua trajetória
ao longo dos 30 anos (de 1840 a 1870) em que ficou ali, constatei que o português
fazia e desfazia sociedades com seus conterrâneos e com comerciantes de outras
procedências (entre os quais forros africanos e até mesmo escravas), afiançava
novos locatários, figurava como inventariante e testemunha em processos diver-
sos, formava parcerias com outros arrendatários para compra de novos cativos,
emprestava dinheiro a juros e ainda assinava petições a rogo daqueles que não
sabiam ler e escrever, incluindo-se aí boa parte dos pretos minas.
Sem dúvida, José da Costa e Souza desfrutava de muitas “proteções” no
Mercado da Candelária e, sobretudo, na Câmara Municipal. Senão, como explicar
que, mesmo após as acusações divulgadas no relatório de Bezerra e a publicação
do edital de 4 de julho de 1865, ele ainda tenha sido indicado como fiador por
muitos arrendatários, sem que fiscais e vereadores esboçassem qualquer objeção?
Pelo contrário, ele era descrito nos pareceres então emitidos como um “reconhe-
cido locatário” da Praça, que gozava de probidade e “todo conceito no comércio”
do Rio de Janeiro.58

56 AGCRJ, Códice 61-2-11: Mercado da Candelária (1865),p. 11-12.


57 Como completa Bezerra, “este abuso, porém, seria tolerável se o depósito de gelo não fosse instituído
com fins especulativos e prejudiciais aos interesses econômicos e do povo, e à saúde pública, por quanto
ninguém desconhece que esse depósito é principalmente destinado para guardar o peixe que, em virtude
do alto preço que por ele exigem, não se vende em um dia, para o vender no dia seguinte ou mesmo
depois, infringindo assim, em detrimento da saúde pública, o artigo 16 do citado regulamento, que
terminantemente dispõe que o peixe não pode ser guardado de um dia para o outro senão salgado”.
AGCRJ, Códice 61-2-11: Mercado da Candelária (1865), p. 11-12.
58 No Códice 61-2-12: Mercado da Candelária (1866-1867), há diversos requerimentos enviados à municipalidade
após a divulgação do edital de 7 de julho de 1865. Em boa parte deles, José da Costa e Souza aparece como

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Caso esbocemos uma espécie de hierarquia dos trabalhadores mais influen-


tes da Praça, Costa e Souza decerto ocuparia o topo, usando e abusando de suas
bancas e contando, para isso, com o amparo de poderosos ― e supostamente in-
visíveis ― protetores. Já indivíduos como o “cidadão brasileiro” Antonio Joaquim
Franco, embora menos protegidos que o imigrante português, também tinham
muitos que se “interessavam” por eles. No outro extremo, apareciam aqueles que
não possuíam “por si pessoa alguma”, ou nenhuma tão influente, para falar em
seu nome. Nesse grupo, estaria o liberto Domingos José Sayão.

•••

Não tenho muitas informações sobre a vida de Sayão. Nos requerimentos


enviados à Câmara, ele se identificava como um “preto forro” de “nação calabar”.
A expressão fazia referência a dois portos da baía de Biafra (na atual Nigéria): Ve-
lho Calabar e Novo Calabar. Em diferentes registros oitocentistas, escravos e li-
bertos dessa “nação” constituíam uma minoria entre os africanos ocidentais que
viviam no Rio de Janeiro. E nunca eram designados conforme seus grupos étnicos.
Entretanto, sob o genérico termo, certamente estavam homens e mulheres dos
grupos ibos, mokos, efiks ou ibibios.59 A partir dos documentos disponíveis, inferi
que Sayão nascera por volta do ano de 1790 e, desde a década de 1830, já vivia no
Rio de Janeiro.60 Mas não pude precisar quando e como exatamente chegara à
capital carioca. Ou tampouco sobre o tempo em que permaneceu como escravo.
Ainda assim, é possível afirmar que ele rapidamente se inseriu na comunidade de  68
africanos minas da cidade.
Além de trabalhar lado a lado com eles na Praça do Mercado, desde 1841 per-
tencia à Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia, congregação católica cria-
da pelos minas no século XVIII, que também reunia outros locatários africanos.61
Como um dos comerciantes mais longevos do mercado, ele construiu importantes
relações de amizade e de prestígio entre “os seus”62(como indica o cargo de juiz
de Santa Efigênia que ocupou na irmandade em diferentes anos compromissais63)

fiador de muitos locatários, inclusive de forros minas. Na mesma época, o português Antonio Maria de
Paula também afiançou vários arrendatários.
59 Cf.: KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras,
2000, p. 65-66; BEZERRA, Nielson Rosa. Mosaicos da escravidão: identidades africanas e conexões
atlânticas do Recôncavo da Guanabara (1780-1840). Tese (Doutorado em História), UFF, 2010, p. 165-170.
60 Em 28 de fevereiro de 1871, o Diário do Rio de Janeiro informou em seu obituário o falecimento de Domingos
José Sayão: “africano, 80 anos, viúvo, febre perniciosa [a causa do óbito]”.
61 Arquivo da Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia (doravante AISESE). Registros de Entrada de
Irmãos (1843-1900). Documentação sem catalogação. Nesse livro, Domingos aparece registrado em 1844,
mas, ao final, foi acrescentada a informação de que o registro era de 12 de agosto de 1841 e vinha do
“livro velho de 1768”. Além dessas indicações, só mais uma foi anotada: a data de seu falecimento, 20 de
fevereiro de 1871. Outras informações sobre a participação de Domingos na irmandade também podem
ser consultadas no Livro de Atas da ISESE – 1857-1926. Documentação sem catalogação.
62 Cf.: OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. “Viver e morrer no meio dos seus. Nações e comunidades africanas na
Bahia do século XIX”. Revista USP, São Paulo, n.28, dez. 1995 e fev, 1996.
63 Nas eleições anuais para os cargos da mesa diretora da irmandade, os juízes eram, geralmente, escolhidos
entre aqueles de maior posse, reputação e importância social em sua comunidade. Afinal, eles contribuiriam
com esmolas, por vezes de valores consideráveis, e ainda teriam de preparar a festa dos oragos. Durante
essas comemorações anuais, as confrarias promoviam a confraternização e o fortalecimento dos laços
entre os irmãos e destes com seus santos. Celebrá-los solenemente era uma garantia de proteção na vida
e na morte. Quanto mais espetacular fosse a homenagem, maior seria a retribuição dada a seus devotados
fiéis. Além disso, essas ocasiões também serviam para testar o prestígio da devoção e de seus juízes.
OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Devoção negra: santos pretos e catequese no Brasil Colonial. Rio
de Janeiro: Quartet; FAPERJ, 2008, p. 264-265.

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e também com fiscais e mesmo com alguns vereadores. Mas, conforme acompa-
nhamos, ele decerto não tinha “defensores” tão poderosos (ou mais que os de
Antonio Franco) na Câmara Municipal.
Não à toa, decidiu buscar apoio na “Justiça e Bondade de Sua Majestade Im-
perial”. Nada mais adequado do que recorrer à principal autoridade do “mundo do
governo” para arbitrar aquela disputa. Entre as muitas “obrigações” do impera-
dor, estava o dever de zelar pela paz, pela defesa e pelo proveito de todos os seus
súditos. Segundo Ilmar de Mattos, isso lhe outorgava o “monopólio da responsa-
bilidade”, cuja contrapartida era a submissão de todos.64 Ao se valer dos rituais de
deferência ao imperador, ainda comuns em petições desse tipo, certamente Sayão
também pretendia reforçar a ideia de que, melhor do que qualquer outro agente
do governo atuando em nome da lei (e no seu caso, eles estavam agindo além da
lei), era a autoridade imperial quem detinha a faculdade de julgar conforme o di-
reito e a melhor consciência.
A popularidade de d. Pedro II era alta entre os negros ― escravos ou for-
ros ― da cidade do Rio, que viam o soberano como árbitro imparcial na justiça e
protetor maior “dos fracos e oprimidos”.65 Aliás, essa percepção já se fazia sentir
desde o século XVIII. Como mostra o historiador Russell-Wood, durante o período
colonial, africanos que viviam em Salvador, Recife e no Rio de Janeiro ― e também
em outras possessões portuguesas ― costumavam servir-se deste meio extrajudi-
cial, levando seus casos diretamente ao monarca ou aos mais altos representantes
da Coroa. Para os vassalos destituídos de meios financeiros, ou cuja condição so-
 69 cial os relegava para as ínfimas camadas da sociedade, sem relações influentes ou
acesso à máquina judiciária, esse mecanismo era fundamental, pois transcendia a
possibilidade de evitar magistrados indiferentes ou insensíveis e uma burocracia
inacessível e muitas vezes corrupta. Segundo Russell-Wood, era o único caminho
para uma forma de justiça privada que operava independentemente das leis escri-
tas, dos canais legais e da magistratura e que, no espírito popular, era função de
uma interpretação personalizada da monarquia.66
Ainda que com intenções, caminhos e resultados diferenciados, essa crença ain-
da persistiria entre os “pretos” do Rio até os últimos anos da monarquia, inclusive en-
tre os comerciantes do Mercado da Candelária. Em outubro de 1885, durante a greve
que paralisou as atividades na Praça das Marinhas, uma quitandeira negra apareceu
recorrendo a D. Obá, o descendente de africano tido como “príncipe do povo” das
ruas da cidade, para que ele, por meio de seus artigos constantemente publicados na
imprensa, escrevesse ao imperador para tentar angariar apoio a seu protesto.67

64 Cf.: MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec,
2004, p. 161-163. SOUZA, Juliana Teixeira. A autoridade municipal na Corte imperial. Op. Cit., p. 190.
65 Cf.: REIS, João José. “Quilombos e revoltas escravas no Brasil”. Revista USP. São Paulo, 1996, n.28, p. 11;
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: d. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2.ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008, p. 15-22.
66 RUSSELL-WOOD, J. R. “Vassalo e soberano: apelos extrajudiciais de africanos e indivíduos de origem
africana na América portuguesa”. In: SILVA, Maria Beatriz Nizza da (coord.). Cultura portuguesa na terra de
Santa Cruz. Lisboa: Editorial Estampa, 1995, p. 215-233.
67 Trata-se da representação ― uma espécie de charge publicada no jornal ilustrado O Mequetrefe, de 10 de
outubro de 1885, e intitulada “O que é ser príncipe” ― do encontro de uma quitandeira negra, com seu
tabuleiro de frutas, com o Príncipe D. Obá (identificado pelos seus trajes elegantes, reproduzidos em diversas
ilustrações do período). Entre eles, trava-se o seguinte diálogo: “– Abença?...Home, esse greve! Um!...tá bão...
Vossucê percisa fazê o escrevê a imperadô, desse cosa q si chama ballaquinha que tá lá na Plaça. /– Oh!...vai acabar.
Já tenho alguns artigos prontos!” Para uma análise mais detalhada dessa imagem, ver: FARIAS, Juliana Barreto.
“Mercado em greve: protestos e organização dos trabalhadores do pequeno comércio no Rio de Janeiro –
Outubro, 1885”. Op. Cit., p. 140-141. Sobre o Príncipe D. Obá, ver: SILVA, Eduardo. Dom Obá II D’África, o Príncipe
do Povo. Vida, tempo e pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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Seja como for, segundo Juliana Teixeira Souza, teoricamente, não cabia ao
governo central julgar o mérito ou a oportunidade das resoluções tomadas pela
municipalidade, mas tão somente impedir que os vereadores infringissem as leis
gerais as quais deviam se ajustar. Não obstante, as deliberações pendentes de
aprovação ou sanção das autoridades superiores à Câmara eram tantas ― e de tal
forma indefinidas ―, que o resultado final acabava comprometendo a autonomia
municipal, mesmo em temas exclusivos à administração local.68 Na disputa entre
Sayão e Franco, a decisão da vereança foi reafirmada pelo governo imperial sem
maiores discussões. Certamente influências subterrâneas, inclusive denunciadas
por alguns vereadores, foram bem determinantes. No entanto, o fato de Domin-
gos Sayão não possuir documentos escritos que comprovassem sua sociedade na
banca conferiu um caráter legal à resolução.
É certo que no regulamento de 1844, ou mesmo nas posturas que se segui-
ram, não existia qualquer determinação nesse sentido. Contudo, fiscais e agen-
tes municipais afirmavam que, “como era sabido”, “sempre que há sociedade, há
escritura pública, ou papel de trato particular”. Na falta deles, podiam até lançar
mão de depoimentos fidedignos ou de investigações in loco. Mas eles nem sempre
eram encarados como garantias. Em 1848, Francisco da Cunha, cuja procedência
não consegui identificar, disputava a posse da banca 106 com o mina Matias dos
Santos, asseverando que era parceiro do antigo locatário (seu próprio irmão) que
acabara de falecer. Como não tinha registros que atestassem a dita sociedade, ele
remeteu à Câmara um abaixo-assinado por cinco indivíduos que a confirmavam.
Porém, para o fiscal da Praça, o documento não era “suficiente para fazer valer
ser um indivíduo sócio de outro, e desgraçados dos negociantes se semelhante
argumento fosse valioso, porque esta forma assim que qualquer que falecesse se
 70
improvisam sociedades em nome dos falecidos”.69
Nesse ponto, os africanos ― especialmente os solteiros ― já partiam, de
antemão, em desvantagem. Bem diferente dos “cidadãos brasileiros” e, sobre-
tudo dos portugueses, eles não costumavam registrar suas parcerias em cartó-
rios ou mesmo estabelecer contratos sociais. Nos diferentes acervos documentais
em que pesquisei, só localizei um único acordo escrito, firmado entre um africano
mina e outro locatário, de quem não foi possível saber a origem. Em 1.º de março
de 1849, o mina Jerônimo José Rodrigues e Francisco Pereira da Rosa contrataram
uma sociedade na banca 18, pelo período de um ano, mediante algumas condi-
ções. Enquanto Jerônimo entrava com a posse e as benfeitorias do lugar, Pereira
fornecia os fundos que fossem precisos, atuando como caixa e gerente da socie-
dade. E ainda “obrigava-se” a conceder a Rodrigues a quantia de trezentos e qua-
renta mil réis de lucro durante aquele prazo, mesmo se tivessem algum prejuízo.70
Outros “pretos forros” até encaminhavam ofícios informando fiscais e ve-
readores sobre a existência ― ou o desmonte ― de suas sociedades. Mas não
costumavam registrá-las em cartório. Geralmente, os negócios de africanos e afri-
canas baseavam-se na confiança, na palavra empenhada, muito mais difíceis de
constatar. Como a maior parte não sabia ler e escrever, e por isso dependia de ou-
tros que o fizessem (quase sempre os próprios locatários da Praça, especialmente
os portugueses), os acertos orais feitos entre os parceiros de trabalho acabavam
ganhando foro de contrato equivalente àqueles escritos e assinados em cartório.71

68 SOUZA, Juliana Teixeira. A autoridade municipal na Corte imperial. Op. Cit., p. 31


69 AGCRJ, Códice 61-2-2: Mercado da Candelária (1844-1849), p. 90-91.
70 Idem, p. 153.
71 É uma situação de alguma forma semelhante ao que acontecia nas juntas de alforria que unia africanos
em Salvador, conforme analisado em: REIS, João J. Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão,
liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 210-211.

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Contudo, para a municipalidade, acordos desse tipo não eram suficientes para
certificar a existência de sociedades, sobretudo quando se tratava de transferir a
posse das bancas. Como então explicar que ― afora Domingos Sayão e Matias dos
Santos, que se envolveram em demoradas disputas ― a maior parte dos “pretos
forros” associados permanecesse por longos períodos numa mesma banca e ainda
transferisse a vaga para parentes e cônjuges de sua “nação”?
Uma eficiente rede de informações estava permanentemente em funcio-
namento no Mercado da Candelária. Não por acaso, assim que um local ficava
disponível, parceiros de trabalho, parentes, amigos e outros pretendentes mais
próximos, de posse da informação, corriam para pleitear a vaga na Câmara, antes
mesmo que um leilão público fosse aberto, oferecendo lances tidos como mais
vantajosos. Além do mais, boa parte desses africanos estava no mercado há mui-
to tempo (alguns instalados ali antes da construção do seu prédio) e gozava “de
muita reputação” e “boa estima” no lugar, o que era confirmado tanto por outros
arrendatários como por alguns fiscais e vereadores. Entretanto, tal reconhecimen-
to não valia apenas para esses libertos africanos. Novos e antigos banqueiros por-
tugueses e “brasileiros” também eram aprovados quase que imediatamente em
função do “bom conceito” que desfrutavam ali e na própria cidade do Rio de Ja-
neiro. Mas os “pretos forros” ― e, em especial, os minas ― ainda contavam com
uma particularidade a seu favor.
Enquanto os imigrantes lusos estavam habituados a estabelecer sociedades

 71
formais em suas vendas primordialmente com conterrâneos homens, com quem
tinham algum parentesco consanguíneo (filhos, primos ou irmãos), os minas não
registravam seus contratos de parcerias, mas trabalhavam lado a lado com ho-
mens e mulheres da mesma procedência (os chamados “parentes de nação”),
quase sempre seus próprios cônjuges. Em geral, apenas um deles (mais frequen-
temente, os homens) aparecia como titular da vaga e se colocava à frente das
petições e demais documentos encaminhados à municipalidade. Mas ― na labuta
cotidiana ― as atividades eram divididas entre os dois. O que, por certo, não esca-
pava aos agentes da fiscalização e a outros trabalhadores da Praça. Talvez por isso,
na hora em que o locatário inscrito deixava a sociedade ― geralmente por faleci-
mento ―, o pedido feito pelo companheiro (ou companheira) para continuar nos
negócios era aprovado de forma automática. Nessas ocasiões, eles enfim apresen-
tavam documentos comprobatórios. Não eram registros em cartórios atestando
as relações comerciais, mas certidões de casamento, óbito, batismo ou testamen-
tos. Será que, aos olhos dos avaliadores municipais, essas “provas” de suas uniões
matrimoniais também equivaliam a comprovantes de suas parcerias profissionais?
Se a argumentação delineada até aqui não nos convence de todo, ao menos
é possível afirmar com segurança que essa prática costumeira, demandada pre-
ferencialmente pelos minas, acabou virando uma regra no mercado, afixada em
edital de 30 de outubro de 1855, garantindo assim que cônjuges e filhos tivessem a
preferência no arrendamento das bancas de inquilinos falecidos. De meados da dé-
cada de 1840 até a publicação dessa nova postura, não achei, como era de se pre-
ver, portugueses ou portuguesas solicitando os lugares ocupados anteriormente
por seus companheiros. Entre os “cidadãos brasileiros”, apenas uma viúva dese-
java permanecer nos negócios iniciados pelo falecido marido. Já para os pretos
minas, localizei cinco casos desse tipo. A história do casal Luiz Laville e Felicidade
Maria da Conceição, dois forros dessa “nação”, é bem exemplar. Em novembro de
1851, Laville dirigiu uma súplica aos vereadores, onde dizia que

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sendo casado com Felicidade Maria da Conceição (hoje falecida), como


prova pelo documento junto, e tendo o suplicante arrendado em nome
da dita mulher a banca número 41 da Praça do Mercado, acontece que
sendo o suplicante falto de um braço, e tendo cinco filhos menores para
alimentá-los e não tendo outro modo de vida se não o pequeno negó-
cio de quitanda de verduras na dita banca, vem por isso o suplicante
implorar as Vossas Senhorias a graça de lhe conceder a continuação do
arrendamento da mesma banca em seu nome portanto.72

De acordo com o fiscal Antonio Joaquim de Mello, todas as informações


apresentadas eram verdadeiras, mas ― “sendo as transferências expressamente
proibidas” ― só a Câmara poderia despachar favoravelmente, “se assim o enten-
der”. O vereador encarregado da Praça compreendeu que a proibição, na qual se
fundara o fiscal, não podia ser extensiva ao caso, já que o “requerente [era] mari-
do/como prova/ da falecida locatária da banca em questão e vivendo em harmo-
nia e sendo ele de fato o dono do negócio, entendo se fará justiça, deferindo-se a
sua pretensão”.
E assim foi feito. Laville permaneceu na banca 51 até 1858. No ano seguinte,
mudou-se para a de número 107, onde ficou instalado por mais 11 anos. De suas
declarações, e também das do vereador, depreendemos que, apesar do primeiro
lugar estar em nome de Felicidade, ele era o verdadeiro “dono do negócio”. Talvez
fosse apenas mais um modo de reforçar o papel masculino, já que, à época, o ho-
mem era considerado o “cabeça do casal”. O certo mesmo é que, como apresen-
tou “provas” de sua condição (o assento de óbito de Felicidade, no qual constava
ser casada com o “preto mina”), Laville conseguiu a aprovação de seu pedido.  72
A partir de 1855, com a normatização desse mecanismo, outros pretos minas
e também portugueses e brasileiros passaram a usá-lo com regularidade, incluin-
do-se aí ― como previsto na postura ― filhos e herdeiros dos antigos locatários. É
claro que esses processos não ficaram destituídos de conflitos. Ou tiveram sempre
o mesmo desenrolar e igual continuidade. De qualquer forma, no caso dos minas,
essas práticas mais uma vez evidenciavam a importância do trabalho entre “paren-
tes de nação”. E como tudo isso também estava diretamente relacionado às suas
vivências cotidianas em outros espaços sociais.

•••

Embora se dispusesse de um regulamento específico para a Praça do Mer-


cado (ratificado em 1844), e constantemente fossem aprovados ― e colocados
em prática ― novos editais e normas, as decisões municipais sobre diferentes de-
mandas dos trabalhadores ali instalados muitas vezes dependiam de motivações e
resoluções que escapavam às formalidades legais. Como vimos, aqueles que des-
frutavam de maior proteção, fosse de fiscais da Praça, vereadores ou dos próprios
comerciantes do mercado, tinham suas reivindicações ― ou até os pedidos mais
simples ― logo satisfeitas. De outro lado, também não era difícil encontrar escra-
vos ― cujos senhores podiam trabalhar no mercado ou não ― vendendo gêne-
ros em diferentes bancas ou apenas comprando produtos, apesar das diferentes
proibições nesse sentido. Bem mais complexos do que um primeiro olhar poderia
sugerir, esses processos em geral envolviam redes de interesse, solidariedades,
contatos e proteções em geral indeterminadas.

72 AGCRJ, Códice 61-2-7: Mercado da Candelária (1850-1857), p. 78.

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Além do mais, a experiência de trabalho no local, em muitos casos, anterior


à construção do mercado, e o reconhecimento de uma certa “aptidão mercantil”
pareciam igualmente fundamentais nas avaliações, em especial quando estava em
jogo a concessão de uma vaga ou a aprovação de uma transferência. E isso conse-
guimos acompanhar a partir das trajetórias de alguns pretos minas. Não obstante
se tratasse de africanos libertos, e, portanto, mais próximos da escravidão, eles
praticamente não tiveram suas “habilidades” para o ofício ou sua condição de li-
berdade questionada por agentes municipais ou pela vereança.
Mas essas constatações não podem ofuscar, é certo, a agência dos próprios
trabalhadores da Praça. Conforme também observamos, locatários ou candidatos
a uma vaga, assim como quitandeiras e pombeiros ocupados em outras áreas do
mercado, embora muitas vezes partissem de interesses e objetivos distintos (e
por que não conflitantes), valiam-se de diferentes dispositivos e estratégias para
garantir o que consideravam “justo” ou um “direito”. Nesse caminho, podiam ir
longe e chegar ao imperador, como o fez o calabar Domingos José Sayão. Adotar
posturas coletivas, como constatamos a partir da profusão de abaixo-assinados e
petições conjuntas encaminhados à Câmara, e hoje compilados nos muitos códices
do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro. Ou, no limite, organizar uma greve, como
aconteceu em outubro de 1885. De um jeito ou de outro, ao final, podiam conse-
guir que práticas e direitos costumeiros fossem ratificados pela Câmara e incorpo-
rados aos regulamentos da Praça do Mercado.

 73 Recebido em 13/05/2013


Aprovado em 10/06/2013

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 49-73


Na mira dos funcionários municipais:
considerações acerca das infrações de
postura nos distritos suburbanos do
Rio de Janeiro no início do século XX
Cristiane Regina Miyasaka*

Resumo: O presente artigo tem como objetivo traçar um panorama da aplicação de


multas por infração de posturas no Rio de Janeiro, no início do século XX, sobretudo
nos distritos suburbanos. Tal proposta tem como intenção dialogar com a historio-
grafia que trata das reformas urbanas empreendidas na cidade nessa época, procu-
rando compreender os mecanismos adotados pelo poder público para garantir o
cumprimento da legislação municipal, bem como os conflitos oriundos dessas me-
didas. Nesse sentido, foram analisadas as diferenças entre as autuações realizadas
nos distritos urbanos e suburbanos, as multas mais recorrentes, as estratégias em-
pregadas pelos infratores para não pagá-las, entre outras questões.

Palavras-chave: Infração de posturas – Rio de Janeiro – Subúrbios

Abstract: The objective of this article is to provide an overview about the appli-
cation of fines for law infraction in Rio de Janeiro, in the early twentieth century,
especially in suburban districts. It proposes a dialogue with the historiography re-
lated to the urban reforms undertaken in city in that period, seeking to understand
the mechanisms adopted by public authorities to ensure the enforcement of local
legislation, as well as the conflicts that arose from those measures. Therefore, it
emphasizes the differences between the enforcement of fines in urban and subur-
ban districts, which fines were more frequent, what strategies were employed by
offenders to avoid the payment of them, and so forth.

Keywords: Law Infraction - Rio de Janeiro - Suburbs

Durante a década de 1870, começou a ser esboçado o primeiro projeto de


reforma urbana para a Corte. A Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de
Janeiro foi nomeada por Dom Pedro II em 1874. Pereira Passos estava entre os en-
genheiros que faziam parte dessa comissão.1 O alargamento de ruas, a construção

* Bolsista Fapesp (Processo n.º 2012/20580-9). Unicamp. Contato: crismiyasaka@gmail.com


1 Embora Pereira Passos seja lembrado em razão da polêmica administração da capital federal entre 1902 e
1906, o engenheiro ocupou cargos importantes desde o final da década de 1850. Entre 1857 e 1860, fez par-
te da legação brasileira em Paris, acompanhando parte das obras empreendidas na capital francesa durante
a gestão de Haussmann. Ao retornar ao Brasil em 1860, trabalhou na construção de ferrovias, elaborando
estudos para o prolongamento da Estrada de Ferro de Cantagalo e colaborando com o assentamento dos
trilhos da segunda seção da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Em 1870, ocupou o cargo de consultor técnico
do Ministério da Agricultura e Obras Públicas. Para informações mais detalhadas sobre sua carreira, ver:
BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann Tropical. A renovação urbana na cidade do Rio
de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de
Documentação e Informação Cultural, 1992, cap. 11.

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 75-100


CRISTIANE REGINA MIYASAKA

de avenidas, de uma grande praça de mercado e de uma estação marítima para a


Estrada de Ferro Dom Pedro II, além da reforma do porto, estavam entre as obras
projetadas.2 Tais melhoramentos não foram levados a cabo durante o final do sé-
culo XIX, porém a discussão sobre a necessidade de mudanças na infraestrutura da
cidade começou a se configurar nessa época. A recorrência de surtos epidêmicos
de febre amarela contribuiu para a intensificação desse debate, já que passaram a
ser associados às condições de salubridade do Rio de Janeiro. Eles foram especial-
mente graves em 1873 e 1876.3
Com a Abolição da Escravidão e a onda imigratória do final do século XIX, a
crise habitacional enfrentada pela capital federal se agravou. Segundo o médico
demografista Aureliano Portugal, o número de habitações coletivas na cidade qua-
se quadruplicou entre 1888 e 1890.4 Dados referentes ao recenseamento de 1890
indicam que 81% da população carioca residiam nos distritos urbanos e 18% nos
suburbanos.5 A despeito dessa diferença, ainda na década de 1890 começaram a
aparecer pessoas interessadas em ampliar a ocupação da zona suburbana, que em
diversos distritos ainda tinha um aspecto bastante rural.
Em janeiro de 1891, foi firmado um contrato entre João Luis dos Santos e o
Conselho Municipal do Rio de Janeiro, que previa a construção de cinco avenidas
(habitações coletivas) e a realização de “melhoramentos”, como ruas e praças,
nos distritos de Engenho Novo, Inhaúma e Irajá.6 Nesse mesmo ano, Prudêncio
Paschoal Telles dos Reis, Ignácio Antonio Teixeira Jr. e José Baldraco apresenta-
ram a seguinte proposta ao Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:

[...] fundar com as duas freguesias suburbanas de Irajá e Jacarepaguá,


 76
a partir do Campinho, uma espécie de cidade, onde, em terrenos quase
abandonados e de fácil aquisição, serão construídas três mil casas, não
só para a habitação de operários e classes pobres, oficinas e comércio
local [...].
Pretendem os suplicantes com estas edificações não só facilitar a todas
as classes a obtenção, por aluguel ou compra razoável, de uma casa
com as condições higiênicas e em um bairro aprazível e perto da Capi-
tal (onde atualmente se encontra com dificuldade casas para alugar, o
que significa que o número destas é insuficiente para a população da
cidade), como também povoar um bairro que, pelas vantagens que ofe-
rece, terá em breve grande desenvolvimento, superior, talvez, ao que já
se nota em outros que não oferecem iguais vantagens.7

Como é possível notar, os interessados justificaram a construção de tais casas


em razão do problema habitacional enfrentado pela cidade, especialmente grave
nos distritos centrais. Vale destacar a intenção em edificar casas com “condições
higiênicas” para os “operários e classes pobres”. Subentende-se, a partir desse
raciocínio, que aqueles que viviam nas áreas centrais da cidade não gozavam de
boas condições de moradia.

2 Cf.: BENCHIMOL, Jaime. Op. cit., cap. 8.


3 Para acompanhar os debates a respeito das epidemias de febre amarela, suas formas de transmissão e
suas relações com a imigração e a decadência da escravidão, ver: CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: corti-
ços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, cap. 2.
4 Relatório dos trabalhos da Inspetoria Geral de Higiene apud BENCHIMOL, Jaime. Op. cit., p. 181.
5 Cf.: Diretoria Geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística. Recenseamento do Rio de Janeiro (Dis-
tricto Federal): Realizado em 20 de setembro de 1906. Rio de Janeiro: Oficina de Estatística, 1907, p. 23. A
população marítima da capital federal correspondia a 1% em 1890.
6 AGCRJ, Códice 33.1.2, Logradouros Públicos – Freguesias do E. Novo, Inhaúma e Irajá. Melhoramentos.
(1891-1892).
7 AGCRJ, Códice 46.2.70, Melhoramentos em Irajá e Jacarepaguá. (1891).

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 75-100


NA MIRA DOS FUNCIONÁRIOS MUNICIPAIS: CONSIDERAÇÕES ACERCA...

No bojo das discussões sobre a necessidade de reformar a estrutura da ci-


dade, as habitações coletivas tornaram-se alvos preferenciais de perseguição por
parte da municipalidade e da polícia. Casas de cômodos, cortiços e estalagens pas-
saram a ser vistos como um dos principais focos para a proliferação de doenças,
bem como o espaço onde viviam as “classes perigosas”.8 No alvorecer do regime
republicano, durante a breve administração de Barata Ribeiro, a demolição do fa-
moso cortiço Cabeça de Porco marcou o período.
Ao longo da década de 1890, é possível notar também uma preocupação
do poder público municipal em controlar as construções e reconstruções na ci-
dade, especialmente na área urbana. Nessa época, vários decretos e posturas fo-
ram aprovados definindo restrições para a edificação ou reforma de prédios nos
distritos urbanos. Tais regulamentos dificultaram, principalmente, a execução de
melhorias em cortiços e estalagens. Para a área suburbana, todavia, os habitantes
não precisavam solicitar licença de construção, tampouco pagar emolumentos.
De acordo com a resolução de 17 de junho de 1893, a única orientação para as
obras realizadas nessa região era a de que os prédios precisavam ficar três metros
afastados do alinhamento das ruas. Ou seja, no final do século XIX, a atenção da
municipalidade estava voltada, sobretudo, para os distritos urbanos, ainda que os
subúrbios começassem a despertar o interesse de pessoas dispostas a construir
habitações coletivas e casas para operários. A própria instalação de diversas esta-
ções de trens nos subúrbios contribuiu para a sua ocupação.
Porém, o que realmente impulsionou o crescimento dessa área da cidade foi
 77 a realização das reformas urbanas durante a administração do presidente Rodri-
gues Alves e do prefeito Pereira Passos, no início do século XX. Em razão delas, o
traçado da região central e portuária do Rio de Janeiro foi alterado consideravel-
mente. Ruas foram alargadas, avenidas foram construídas, prédios foram demoli-
dos, o porto foi ampliado e revitalizado. Tamanha reforma teve grande impacto na
vida daqueles que moravam na região, habitada, em sua maioria, por trabalhado-
res — que residiam em cortiços e estalagens — e por pequenos proprietários e co-
merciantes. Estavam entre as alternativas de moradia para as pessoas que foram
obrigadas a sair da área renovada: a busca por habitações coletivas remanescen-
tes, a ocupação dos morros próximos ao centro ou a ida para os subúrbios.
Tal processo de transformação urbana foi objeto de estudo de vários auto-
res , sendo a obra Pereira Passos: um Haussmann Tropical, de Jaime Benchimol, a
9

referência clássica dentre os trabalhos produzidos ao longo da década de 1980.10


Pautado em uma vasta pesquisa empírica, o autor apresentou informações sobre
os diversos contratos assinados pela municipalidade, bem como as concessões re-
alizadas. Detalhou aspectos da infraestrutura da cidade antes e após as reformas,
assim como descreveu minuciosamente as obras empreendidas. Em termos teóri-
cos, partiu de um instrumental marxista para interpretar os motivos que levaram
à realização do projeto de renovação urbana. Do seu ponto de vista, a reestrutu-

8 A respeito da perseguição aos cortiços no final do século XIX, ver: CHALHOUB, Sidney. Op. cit., cap. 1.
9 Diversos autores investigaram o processo de reforma urbana no Rio de Janeiro. Merecem destaque as
seguintes obras: PECHMAN, Sérgio; FRITSCH, Lilian. “A reforma urbana e seu avesso: algumas considera-
ções a propósito da modernização do Distrito Federal na virada do século”. Revista Brasileira de História.
São Paulo: Marco Zero, v. 5, n. 8/9, p. 139-195, set.1984/abr.1985; CARVALHO, Lia de Aquino. Contribuição
ao estudo das habitações populares: Rio de Janeiro, 1886-1906. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de
Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1986; ROCHA, Oswaldo Porto. A
era das demolições: cidade do Rio de Janeiro, 1870-1920. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura,
Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1986; ABREU, Maurício de A. A evolução
urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO & Zahar, 1987.
10 BENCHIMOL, Jaime. Op. cit.

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CRISTIANE REGINA MIYASAKA

ração da cidade estava diretamente relacionada à transição do sistema escravista


para o capitalista. Como no início do século XX a utilização do espaço urbano não
atendia mais aos interesses dos capitalistas estrangeiros e brasileiros, nem aos do
Estado republicano, elas foram realizadas. A passagem a seguir é exemplar da tese
defendida por Benchimol:

[...] a operação de renovação urbana tinha em mira: a criação de uma es-


trutura portuária condizente com o volume, a velocidade e a qualidade
do movimento comercial de exportação e importação que constituía a
base da vida econômica do Rio de Janeiro; criação de vias de comunica-
ção compatíveis com o volume e a velocidade da circulação de cargas e
homens no âmbito da própria cidade; erradicação das frequentes epide-
mias, em particular a febre amarela, que ceifavam a vida de milhares de
pessoas, comprometendo o êxito da política de estímulo à imigração,
além de colocar em permanente risco vidas no seio das próprias classes
dominantes; a estratificação do espaço urbano carioca e a criação de
espaços destinados ao lazer e ao desfrute das classes dominantes.11

Em sua análise, o autor destaca o papel do Estado nesse processo de trans-


formação urbana, apontando diferenças em relação ao século XIX. Até então, o
poder público deixava sob responsabilidade da iniciativa privada a realização de
obras, por meio de concessões, que geralmente tinham natureza especulativa e
não resultavam em melhorias. Durante a administração de Pereira Passos e Rodri-
gues Alves, o Estado tomou para si a tarefa de empreender as obras de renovação
urbana. Tal intervenção, de amplitude inédita, representou  78
[...] a expropriação ou segregação de um conjunto socialmente dife-
renciado de ocupantes de um espaço determinado da cidade — modi-
ficado pela ação do Estado — e sua apropriação por outras frações de
classe. Essa “transferência” realizou-se por intermédio de mecanismos
de expropriação e valorização acionados diretamente pelo Estado.12

Como bem destacou Benchimol, a ação do Estado contribuiu decisivamente


para a redistribuição demográfica no âmbito da cidade, uma vez que muitos habi-
tantes dos distritos centrais e da zona portuária não puderam mais residir nessa
região da cidade. Ao compararmos os dados dos recenseamentos de 1890 e 1906,
podemos notar o processo de mobilidade espacial que se deu na capital federal.
Em 1890, 92.906 pessoas residiam nos subúrbios. Dezesseis anos depois, essa po-
pulação duplicou, atingindo 185.687 habitantes. No caso dos distritos urbanos, o
crescimento foi de aproximadamente 46%, pois sua população passou de 425.386
habitantes para 619.648. Distritos centrais, como Candelária e Sacramento, dire-
tamente atingidos pelas obras de renovação, sofreram decréscimos populacionais
de 54% e 20%, respectivamente. Entretanto, distritos mais afastados do centro,
como Engenho Velho e Engenho Novo, aumentaram 147% e 126%. Na zona subur-
bana, Inhaúma cresceu 293% e Irajá, 109%.13
A despeito da amplitude das pesquisas desenvolvidas, que enfocaram prin-
cipalmente o desenrolar das reformas e quais grupos sociais foram beneficiados
ou prejudicados, ainda é possível explorar questões pertinentes ao tema. A admi-

11 BENCHIMOL, Jaime. Op. cit., p. 317.


12 BENCHIMOL, Jaime. Op. Cit., p. 245.
13 Diretoria Geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística. Recenseamento do Rio de Janeiro (Districto
Federal): Realizado em 20 de setembro de 1906. Rio de Janeiro: Oficina de Estatística, 1907, p. 23.

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NA MIRA DOS FUNCIONÁRIOS MUNICIPAIS: CONSIDERAÇÕES ACERCA...

nistração de Pereira Passos não foi marcante apenas por ter demolido inúmeros
prédios e ter dado ares europeizados ao Rio de Janeiro. Sem dúvida, esse foi o seu
aspecto mais visível. Entretanto, durante a sua gestão, a ação fiscalizadora do po-
der público, bem como a cobrança de impostos aumentaram consideravelmente.
Sendo assim, esse artigo tem dois objetivos principais. O primeiro deles é
traçar um panorama a respeito da aplicação de multas por infração de posturas no
Distrito Federal, no início da administração de Pereira Passos, atentando para as
diferenças entre os distritos urbanos e suburbanos. Ao identificar as especificida-
des dessas duas áreas, pretendo ampliar o olhar sobre o processo de renovação
urbana, uma vez que a historiografia relacionada ao tema privilegiou as mudanças
ocorridas nos distritos centrais e portuários. Dado que uma quantidade significa-
tiva de pessoas, dentre elas muitos trabalhadores, acabaram se mudando para os
distritos mais afastados do centro e também para os subúrbios, é fundamental
deslocar o foco de análise para outras regiões da cidade. Por isso, darei ênfase à
análise da aplicação de multas nos subúrbios, identificando em quais áreas a fisca-
lização era mais intensa e quais eram as infrações mais recorrentes.
Esse artigo também tem como propósito apresentar os embates que ocor-
reram nos subúrbios — sobretudo no distrito de Inhaúma, em razão da aplicação
de multas relacionadas à construção — e as estratégias dos trabalhadores subur-
banos diante delas. Além de ter sido o distrito que mais cresceu, em termos pro-
porcionais, entre 1890 e 1906, o número de trabalhadores em Inhaúma aumen-
tou consideravelmente. Em 1890, aqueles que trabalhavam na indústria somavam

 79 apenas 815 indivíduos, porém, em 1906, eles passaram a representar 10% de toda
a categoria, atingindo a quantia de 11.240 operários. Com isso, Inhaúma tornou-se
o distrito carioca com o maior número de trabalhadores da indústria. Os emprega-
dos em serviços domésticos também compunham uma parte importante de sua
população, pois, em 1890, correspondiam a 1.343 pessoas e subiram para 8.709,
em 1906. Nesta última data, jornaleiros e trabalhadores braçais correspondiam a
9.403 indivíduos. Essas três categorias somadas correspondiam a 81% dos habitan-
tes de Inhaúma que declararam a sua ocupação no recenseamento de 1906. Ou
seja, após o período das reformas, Inhaúma tornou-se uma área de residência de
muitos trabalhadores.
Como veremos com mais detalhes adiante, durante a administração de Perei-
ra Passos, esse distrito foi incluído na cobrança de emolumentos para a construção
ou reconstrução de edifícios. Até então, em nenhum distrito suburbano era neces-
sário requerer licença para a realização de obras. Com a mudança na legislação e
a consequente autuação de indivíduos que a descumpriam, muitos trabalhadores
recorreram ao prefeito para evitar o pagamento das dívidas. A partir da análise
desses requerimentos, acompanharemos os conflitos decorrentes da fiscalização
municipal em Inhaúma.

A aplicação de multas por infração de posturas no


início da administração de Pereira Passos
As posturas eram regulamentos elaborados pela Intendência Municipal (Po-
der Legislativo) para normatizar diversos aspectos da vida urbana. Definiam, por
exemplo, regras e valores para a obtenção de vários tipos de licença, tais como a
abertura de estabelecimento comercial, a construção de prédios, o exercício do
comércio ambulante, entre outros. Também determinavam restrições em relação

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 75-100


CRISTIANE REGINA MIYASAKA

à comercialização de produtos, como a proibição da exposição de mercadorias


na porta dos estabelecimentos e a obrigatoriedade da aferição dos pesos usados
no comércio. Interferiam ainda nas relações de trabalho, uma vez que passaram
a proibir o funcionamento das casas de comércio aos domingos, após o meio-dia,
e determinaram que motorneiros deveriam realizar exames para a execução de
suas funções. Versavam também sobre os usos do espaço urbano, ao normatizar
o corte de matas, bem como definiam prescrições sanitárias, ao proibir o depósito
de lixo em via pública ou o despejo das águas servidas.
No início do regime republicano, a infração a tais posturas era punida com o
pagamento de multas e até mesmo com a prisão temporária do infrator, segundo
a Lei n.o 85, de 20 de setembro de 1892, que reorganizou a administração munici-
pal. As multas poderiam atingir até 200$000 (duzentos mil réis) e a prisão poderia
ser de até cinco dias. A observância dessa legislação, assim como a elaboração dos
autos de infração era realizada pelos agentes da Prefeitura, que tinham como seus
auxiliares os guardas do distrito.
Dez anos mais tarde, Rodrigues Alves promulgou novo regulamento a res-
peito da organização do Distrito Federal assim que assumiu a presidência do país.
Segundo a Lei n.o 939, de 29 de dezembro de 1902, as multas aplicadas poderiam
chegar a 1:000$000 (um conto de réis) e os infratores poderiam ser presos por até
quinze dias. Além disso, chama a atenção os dispositivos legais disponibilizados ao
Conselho Municipal, que poderia deliberar sobre

a cassação de licença, fechamento, interdição, destelhamento e demo-


 80
lição de prédios, obras e construções, apreensão, destruição dos bens
apreendidos e venda deles por conta e risco de seus donos, despejo,
sequestro e venda de objetos para indenização de despesas feitas.14

Tais prerrogativas denotam o respaldo presidencial à ação do Poder Legis-


lativo do Distrito Federal, especialmente no que diz respeito ao gerenciamento
do espaço urbano. Ao permitir que o Conselho Municipal pudesse legislar sobre
todas essas questões, Rodrigues Alves preparou o arcabouço jurídico necessário
para a realização das reformas urbanas. Vale notar, entretanto, que todas essas
prerrogativas só começariam a valer após a eleição dos intendentes, que deveria
ser realizada em seis meses. Até lá, a administração do Distrito Federal ficaria sob
a responsabilidade do prefeito, que gozaria de plenos poderes para administrar a
capital federal, exceto o de criar e elevar impostos. Um dia após a sanção dessa
lei, Pereira Passos foi nomeado prefeito da cidade. Durante o primeiro semestre
de seu mandato, uma série de posturas municipais foram revistas ou criadas e en-
traram em vigor.
Para termos noção da especificidade da atuação da poder público municipal
durante a administração de Pereira Passos, no que diz respeito à aplicação de mul-
tas por infração de posturas, apresento a seguir um exercício comparativo, que
tomou como base os balancetes da Prefeitura, entre 1901 e 1903.15

14 Lei n.o 939, de 29 de dezembro de 1902. Art. 7.º §1.º.


15 Antes mesmo de ser contratada pela Prefeitura do Distrito Federal para a publicação dos seus atos oficiais,
a Gazeta de Notícias já divulgava o balancete de receita e despesa do Rio de Janeiro. O contrato firmado
entre as partes foi publicado pelo próprio periódico, em 3 de maio de 1901, p. 2.

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Tabela 1 - Multas arrecadadas por infração de posturas (1901 – 1903)


1901 1902 1903
Janeiro - 90$000 9:393$500
Fevereiro - 5:565$600 12:515$200
Março 17:565$100 6:421$800 18:904$400
Abril 13:663$300 9:679$600 18:403$000
Maio 21:408$916 7:106$200 29:058$500
Junho 19:640$100 5:413$900 17:203$500
Julho 9:101$850 9:315$400 23:177$000
Agosto 8:342$420 9:113$500 16:539$100
Setembro 13:903$600 6:270$500 21:815$100
Outubro 9:787$560 6:772$900 24:039$900
Novembro 7:534$400 5:128$994 22:370$880
Dezembro 3:402$340 4:317$300 15:513$100
Total 124:349$586 75:195$694 228:933$180

Ainda que as informações referentes ao ano de 1901 estejam incompletas, é


possível chegar a algumas conclusões. No primeiro ano considerado, o valor arre-
cadado com as multas oscilou bastante. No mês de dezembro, a arrecadação foi
quase sete vezes menor do que a do mês de maio. Em 1902, o montante obtido

 81 mensalmente diminuiu significativamente, se comparado ao ano anterior. Em ne-


nhum mês a marca dos 10:000$000 (10 contos de réis) foi atingida. Mesmo sem os
valores referentes aos meses de janeiro e fevereiro, em 1901, o valor total arreca-
dado foi 65% maior do que o de 1902. Em 1903, entretanto, sob a administração de
Pereira Passos, a arrecadação mensal e anual com multas por infração de posturas
aumentou consideravelmente. Triplicou em relação a 1902 e foi 85% maior em re-
lação a 1901.
Tanto Benchimol como Sérgio Pechman e Lilian Fritsch apontaram para
a intensificação da fiscalização municipal a partir do período das reformas urba-
nas. O primeiro afirmou que essas medidas “serviram para descarregar parte do
ônus da ‘modernização’ sobre a heterogênea plebe carioca”.16 Ao apresentar os
diversos regulamentos aprovados durante a administração de Pereira Passos, o
autor privilegiou as transformações que ocorreram no âmbito da legislação. Dei-
xou de considerar, todavia, os conflitos decorrentes dessa atuação mais incisiva
da municipalidade. Partindo do pressuposto de que as reformas urbanas foram
um desdobramento inerente à transição do sistema escravista para o capitalista, a
população pobre e trabalhadora do Rio de Janeiro foi tratada como vítima desse
processo. Nessa perspectiva de análise, portanto, não havia espaço para as tenta-
tivas de negociação com o poder público municipal.
Pechman e Fritsch também abordaram as mudanças que ocorreram na le-
gislação carioca. Entretanto, eles procuraram evidenciar que a implementação de
novas formas de regulação dos hábitos e costumes levou a população a buscar
estratégias para lidar com a nova conjuntura:

O projeto de reforma do Rio proposto pela administração Rodrigues


Alves ilustra à perfeição como os setores populares, em certas ocasiões,
mesmo não conseguindo barrar a implementação, no seu conjunto, de

16 BENCHIMOL, Jaime. Op. cit., p. 277.

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CRISTIANE REGINA MIYASAKA

uma série de medidas oficiais, podem forçar as autoridades à negocia-


ção, logrando com isso, minorar os males que lhes seriam causados.17

Para os autores, o repúdio popular a essa intensificação do controle sobre


suas práticas se expressou por meio dos motins, do desrespeito às leis e da manu-
tenção de seus hábitos. Ainda que concordassem com a ideia de que a consolida-
ção do capitalismo impulsionou a realização das reformas no Rio de Janeiro, os au-
tores buscaram matizar esse processo, defendendo que a população não aceitou
passivamente tais mudanças.
Para ampliar esse debate, faz-se necessário levar em consideração outras
formas de atuação da população frente ao aumento do controle por parte da mu-
nicipalidade. Um caminho para isso tem sido delineado mediante a investigação
das estratégias de negociação com o Conselho Municipal e com o próprio prefei-
to. As queixas e os abaixo-assinados enviados aos meios de comunicação e aos
intendentes, assim como os recursos e questionamentos remetidos ao chefe do
Executivo dão indícios dos conflitos oriundos do recrudescimento da legislação
municipal e demonstram, ao mesmo tempo, o aspecto relacional desse processo.
Os habitantes não aceitaram tacitamente as reformas. Ainda que trabalhadores e
pobres em geral não estivessem em condições de barrar o projeto de renovação
urbanística, eles buscaram expressar o seu descontentamento, assim como em-
preenderam esforços para minimizar o seu impacto.
Dependendo da região da cidade onde se residia, a cobrança de impostos
podia variar. Sendo assim, apresento a seguir os dados a respeito das multas arre-
cadadas nas áreas urbanas e suburbanas do Rio de Janeiro, em 1903:  82
Tabela 2 - Multas arrecadadas por infração de posturas no Distrito Federal,
segundo distritos urbanos e suburbanos (1903)18
Distritos Urbanos Distritos Suburbanos
  Total mensal
Arrecadação mensal % Arrecadação mensal %
Janeiro 8:265$940 94% 520$500 6% 8:786$440
Fevereiro 7:413$100 86% 1:236$500 14% 8:649$600
Março 10:879$800 93% 803$500 7% 11:683$300
Abril 11:457$900 88% 1:557$520 12% 13:015$420
Maio 18:683$700 93% 1:319$600 7% 20:003$300
Junho 10:830$500 83% 2:216$000 17% 13:046$500
Julho 15:133$500 94% 1:040$500 6% 16:174$000
Agosto 11:791$100 96% 523$500 4% 12:314$600
Setembro 13:808$000 95% 663$000 5% 14:471$000
Outubro 12:234$600 92% 1:126$000 8% 13:360$600
Novembro 11:894$600 88% 1:653$000 12% 13:547$600
Dezembro 9:820$700 90% 1:054$300 10% 10:875$000
Total anual 142:213$440 91% 13:713$920 9% 155:927$360

17 PECHMAN, Sérgio; FRITSCH, Lilian. Op. cit, p. 178.


18 Em 16 de junho de 1903, foi promulgado o Decreto n.º 434, que reorganizou a divisão territorial do Distrito
Federal. Até aquela data, o Rio de Janeiro contava com 27 distritos, dos quais 10 eram considerados subur-
banos. Após o referido decreto, passou a ter 25 distritos, sendo 7 suburbanos. As equivalências necessá-
rias foram realizadas para a elaboração da tabela. Ao longo do artigo, prevaleceu a organização adotada
a partir do Decreto n.º 434.

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Antes de dar início à análise, é importante esclarecer que mensalmente a Pre-


feitura publicava nas páginas da Gazeta de Notícias tanto o balancete de receitas
e despesas como um quadro demonstrativo das multas arrecadadas por distrito,
o que permitiu a elaboração da Tabela 2. Como é possível notar, os valores totais
mensais provenientes desses quadros não correspondem aos montantes também
mensais que apareceram na Tabela 1. Nenhuma informação que justificasse essa
diferença foi encontrada na seção que publicava os atos oficiais da municipalidade.
A despeito dessas incompatibilidades, é bastante evidente a diferença entre
o valor arrecadado com as multas nas áreas urbana e suburbana. Durante o ano de
1903, o mês com o maior percentual de pagamento de multas nos distritos subur-
banos foi junho, com 17%. Alguns aspectos devem ser considerados para entender
essa discrepância. O primeiro deles está relacionado à diferença nos impostos, se-
gundo a área de residência. De acordo com o Decreto n.º 391, a cobrança de emo-
lumentos para a construção, reconstrução e reforma de prédios incidia sobre toda
a área urbana e apenas sobre alguns distritos suburbanos. Como a infração a esse
decreto foi um dos principais motivos de autuação durante a administração de Pe-
reira Passos, é fundamental levar em conta esse aspecto para entender a diferença
entre as multas pagas pelos moradores dos distritos urbanos e suburbanos.
Outro fato a ser considerado diz respeito à quantidade de pessoas que re-
sidiam em cada uma das áreas. Tomando como base os recenseamentos de 1890
e 1906, os suburbanos correspondiam a 18% da população do Distrito Federal em
1890 e atingiram 23% em 1906.19 Ou seja, havia um contingente bem maior de pes-

 83 soas nos distritos urbanos do que nos suburbanos, o que leva a crer que a possibili-
dade de autuação era maior no caso dos primeiros. Vale observar ainda que a área
dos distritos urbanos era menor, o que deve ter facilitado o trabalho de fiscaliza-
ção dos funcionários municipais responsáveis pela aplicação das multas.
Além da diferença entre os distritos urbanos e suburbanos, a aplicação de
multas era mais recorrente em alguns distritos dos subúrbios do que em outros,
como pode ser visualizado na tabela a seguir:

Tabela 3 - Multas arrecadadas por infração de posturas, segundo os distritos


suburbanos do Rio de Janeiro (1903)20
Total anual
1º tri 2º tri 3º tri 4º tri
por distrito
Valor Valor Valor Valor Valor
% % % % %
arrecadado arrecadado arrecadado arrecadado arrecadado
Inhaúma 478$000 19% 1:652$000 32% 557$000 25% 2:924$300 76% 5:611$300 41%
Irajá 760$000 30% 943$600 19% 240$500 11% 198$500 5% 2:142$600 16%
Jacarepaguá 310$000 12% 172$000 3% 77$000 3% 76$000 2% 635$000 5%
Campo
296$000 12% 1:140$000 22% 556$000 25% 268$000 7% 2:260$000 16%
Grande
Guaratiba 24$000 1% 685$000 13% 160$000 7% 12$000 0% 881$000 6%
Santa Cruz 672$500 26% 480$520 9% 454$500 20% 225$000 6% 1:832$520 13%
Ilhas 20$000 1% 20$000 0% 182$000 8% 129$500 3% 351$500 3%

19 Diretoria Geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística. Recenseamento do Rio de Janeiro (Districto
Federal): Realizado em 20 de setembro de 1906. Rio de Janeiro: Oficina de Estatística, 1907, p. 23.
20 �����������������������������������������������������������������������������������������������������
Tabela elaborada com base nos quadros demonstrativos das multas arrecadadas em cada distrito e publi-
cados quinzenalmente ao longo de 1903, exceto nos casos de janeiro e fevereiro, cujas publicações foram
mensais. Esses dados também foram utilizados para a construção da Tabela 4.

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A partir desses números, é possível notar que na zona suburbana os habi-


tantes de Inhaúma foram os que mais pagaram multas por infração de posturas
ao longo de 1903, atingindo a cifra de 41% do total enviado aos cofres municipais.
Chama a atenção, inclusive, o 4.º trimestre, onde Inhaúma foi responsável por 76%
do montante pago. Seguem com uma arrecadação intermediária os distritos de
Irajá, Campo Grande e Santa Cruz. Os distritos que tiveram um número pequeno
de autuações foram Guaratiba, Jacarepaguá e Ilhas.
Existem algumas razões para que os habitantes de Inhaúma tenham sido
mais multados. Esse foi o distrito que mais cresceu, em termos demográficos, en-
tre 1890 e 1906, pois era o mais próximo da área urbana. Sua população passou de
17.448 habitantes para 68.557 no período. Outros distritos também tiveram um au-
mento populacional considerável, tais como Irajá e Campo Grande. Aquele passou
de 13.130 habitantes para 27.410. O último, por sua vez, possuía 15.950 moradores
em 1890 e subiu para 31.248 em 1906.21 Os percentuais de crescimento dos três
distritos foram, respectivamente: 293%, 109% e 96%. Tanto em números absolutos
como em termos percentuais, esses três distritos foram os que mais destacaram
na zona suburbana. Tal aumento demográfico foi acompanhado pelo crescimento
predial. Vejamos:

Tabela 4 – Crescimento predial na zona suburbana (1890-1906)22


Número de domicílios

Inhaúma
1890
2.315
1906
9.140
Diferença em nos absolutos
6.825
 84
Irajá 1.614 4.201 2.587
Jacarepaguá 1.324 1.947 623
Campo Grande 1.868 3.905 2.037
Guaratiba 1.335 2.868 1.533
Santa Cruz 1.203 1.844 641
Ilha do Governador 563 837 274
Paquetá 285 306 21
Total 10.507 25.048 14.541

Como é possível notar, Inhaúma tem um aumento acentuado no número de


prédios, seguido por Irajá e Campo Grande. Uma característica interessante deve
ser considerada para compreender o aumento demográfico e predial especifica-
mente nesses distritos: a Estrada de Ferro Central do Brasil cruzava seus territó-
rios. Sem dúvida, essa alternativa de transporte pesava na escolha do local de mo-
radia, sobretudo quando a possibilidade de residir nos distritos centrais tornava-se
cada vez menor, em razão das reformas. Dado que nem todos os distritos subur-
banos contavam com linhas férreas, a existência delas foi um diferencial para a
ocupação da região, contribuindo para que alguns distritos fossem mais populo-

21 Diretoria Geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística. Recenseamento do Rio de Janeiro (Districto
Federal): Realizado em 20 de setembro de 1906. Rio de Janeiro: Oficina de Estatística, 1907, p. 23.
22 Cf.: Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, Diretoria Geral de Estatística. Recenseamento geral da
Republica dos Estados Unidos do Brazil em 31 de dezembro de 1890 (Districto Federal). Rio de Janeiro: Tipo-
grafia Leuzinger, 1895, p. 424-5; Diretoria Geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística. Recensea-
mento do Rio de Janeiro (Districto Federal): Realizado em 20 de setembro de 1906. Rio de Janeiro: Oficina
de Estatística, 1907, p. 36-7.

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sos do que outros. Jacarepaguá, por exemplo, era mais próximo do centro do que
Campo Grande, mas não contava com linhas férreas. Entre 1890 e 1906, teve um
crescimento predial bem menor que Campo Grande.
Além de divulgar os balancetes de receita e despesa da Prefeitura e os qua-
dros demonstrativos das multas arrecadadas por distrito, a municipalidade pas-
sou a publicar também os nomes dos infratores, seus endereços, os motivos pelos
quais foram autuados e os valores das multas.23 Ao longo do primeiro ano de man-
dato de Pereira Passos, foram 460 autuações na zona suburbana:

Tabela 5 - Multas aplicadas e recebidas nos distritos suburbanos (1903)


% do valor pago (em
Valor das multas Valor recebido
Distritos relação ao valor
aplicadas pelas multas
total)
Inhaúma 20:221$000 5:611$300 28%
Irajá 7:560$000 2:142$600 28%
Jacarepaguá 7:486$000 635$000 8%
Campo Grande 4:460$000 2:260$000 51%
Guaratiba 4:870$000 881$000 18%
Santa Cruz 940$000 1:832$520 195%
Ilhas 2:790$000 351$500 13%

 85 Total 48:327$000 13:713$920 28%

Esses dados são muito reveladores, pois mostram que o valor corresponden-
te ao total de multas aplicadas (48:527$000 — quarenta e oito contos e quinhen-
tos e vinte e sete mil réis) é quase quatro vezes o total arrecadado. Excetuando o
caso do distrito de Santa Cruz, em todos os outros o montante pago foi bem infe-
rior ao valor das autuações. Ainda que possam existir incoerências nos números
divulgados pela Prefeitura, especialmente no que diz respeito ao valor recebido
pelas multas, tudo indica que, em 1903, houve uma intensa fiscalização por parte
da municipalidade. A despeito disso, em muitos casos, os esforços dos agentes
municipais não resultaram na devida ampliação de receita nos cofres municipais,
dada a significativa diferença entre as multas aplicadas e recebidas.
Ao separarmos as autuações por distrito e segundo as principais infrações,
foi possível identificar características relevantes para compreender as especificida-
des dentro do próprio subúrbio. Observemos:

Tabela 6 – Principais multas aplicadas nos distritos suburbanos (1903)24


(Continua)
Campo Santa
Inhaúma Irajá Jacarepaguá Guaratiba Ilhas Total
Grande Cruz
Irregularidades sanitárias 9,8% - 0,6% 0,2% 0,8% - 0,2% 11,7%
Estabelecimentos comerciais
11,8% 4,8% 1,1% 6% 1,8% 1,5% 2% 28,9%
sem licença ou irregulares

23 A publicação dos nomes dos infratores foi determinada pelo art. 19 da Lei n.º 939, de 29 de dezembro de
1902, a mesma lei que reorganizou a administração municipal logo após a posse de Rodrigues Alves.
24 As porcentagens foram calculadas com base nos valores das multas aplicadas.

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Tabela 6 – Principais multas aplicadas nos distritos suburbanos (1903) (Continuação)
Campo Santa
Inhaúma Irajá Jacarepaguá Guaratiba Ilhas Total
Grande Cruz
Obras de construção sem
15,7% 5% - 0,2% - - 0,2% 21,1%
licença ou irregulares
Corte de matas sem licença - 2,1% 5,8% 1,7% 7,4% - - 17%
Veículos sem licença e/ou
- - 7,3% - - - 1% 8,4%
irregulares
Vendedores ambulantes
1% 1,3% - - - 0,4% 0,4% 3,1%
sem licença
Outros 1,1% 2,3% - 0,6% - - 0,4% 4,5%
Não identificado 2,4% 0,2% 0,7% 0,5% - - 1,5% 5,3%
Total 41,8% 15,6% 15,5% 9,2% 10,1% 1,9% 5,8% 100%

O principal motivo que levou os suburbanos a serem autuados foi o da falta


de licença para o funcionamento de estabelecimentos comerciais. Diversos pro-
prietários foram multados por terem iniciado atividade comercial sem a devida
permissão, por não terem feito a sua renovação, porque mudaram de endereço
sem aguardar autorização para tal ou porque colocaram letreiros ou mastros em
frente aos seus negócios sem solicitarem licença. Também foram autuados os pro-
prietários que não cumpriam os horários para o fechamento de portas ou cujos
estabelecimentos apresentavam irregularidades, tais como a falta de esterilizador
(no caso dos barbeiros), a exposição de alimentos às moscas, ao pó ou nas om-
breiras das portas, a ausência dos jogos de pesos ou porque eles não estavam
devidamente aferidos.
 86
Inhaúma aparece como o distrito que mais recebeu esse tipo de autuação,
seguido por Campo Grande e Irajá. Embora poucas multas desse tipo tenham sido
aplicadas nos demais distritos, todos eles tiveram autuações. Esses dados dão indí-
cios, portanto, de que o crescimento populacional vivenciado pela região foi acom-
panhado pela ampliação dos serviços existentes e, consequentemente, da oferta
de locais de trabalho no próprio subúrbio. Mais uma vez, verificamos que nas áreas
que contavam com as linhas férreas a expansão da atividade comercial foi maior.
A falta de licença para a realização de obras foi o segundo motivo pelo qual
os suburbanos foram autuados. Nesse caso, as multas foram aplicadas majorita-
riamente em Inhaúma e Irajá. Para entender por que apenas esses distritos re-
ceberam esse tipo de autuação, há que se levar em consideração, novamente, a
especificidade do Decreto n.º 391. Observemos:

Artigo 1.o Nenhuma obra de construção, reconstrução, acréscimos e


modificações de prédios poderá ser começada nas freguesias da Can-
delária, Santa Rita, Sacramento, S. José, Santo Antônio, Espírito Santo,
Santana, Glória, Lagoa, Gávea, S. Cristóvão, Engenho Velho, Engenho
Novo, Inhaúma e Irajá sem licença da Prefeitura.

A partir desse decreto, Inhaúma e Irajá foram os únicos distritos suburbanos


cujos moradores deveriam requerer licença para a realização de obras de constru-
ção ou reconstrução. É por isso que parte considerável desse tipo de multa incidiu
sobre esses distritos. A única autuação referente a Campo Grande ocorreu porque
o infrator não solicitou autorização para a construção de um coreto no largo da
capela, descumprindo o artigo 56 do Decreto n.º 843. A infração ocorrida na Ilha de
Paquetá, por sua vez, foi aplicada porque um morador não aterrou o seu terreno.

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O terceiro motivo mais recorrente para a aplicação de multas foi o do corte


de matas sem licença, proibido segundo o Decreto n.º 691, de 17 de julho de 1899.
Como é possível notar, essa infração foi aplicada em distritos menos urbanizados,
como Guaratiba e Jacarepaguá, o que indica, portanto, que parte da vegetação de-
les estava provavelmente sendo desmatada para a realização de loteamentos. Por
fim, vale observar que as irregularidades sanitárias foram multadas principalmente
em Inhaúma, o distrito suburbano que contava com o maior número de habitan-
tes. Estavam entre as infrações o depósito de lixo e água servida em via pública e
a falta de limpeza dos quintais.
A grande quantidade de multas não foi casual. A publicação de várias circu-
lares ao longo de 1903, com orientações aos agentes fiscais e guardas de distrito,
dão indícios da preocupação de Pereira Passos quanto à devida aplicação das au-
tuações. Em 12 de fevereiro, por exemplo, ele comunicou aos agentes fiscais que
a partir daquele momento deveriam observar “escrupulosamente [...] as disposi-
ções do Regulamento para o processo administrativo das infrações de posturas,
leis e regulamentos municipais”, promulgado no dia 4 do mesmo mês.25 Em 2 de ju-
lho, recomendou que os agentes observassem “com a máxima vigilância no intuito
de serem fielmente cumpridas as disposições do dec. nº 444, de 27 de junho último,
que dispõe sobre escavações nas ruas, travessas e praças”.26 Em 25 de setembro,
a seguinte circular foi publicada:

Sr. Agente da Prefeitura no Distrito de ...

 87 De ordem do Sr. Prefeito do Distrito Federal vos recomendo que é de


vosso dever lavrar imediatamente auto de qualquer infração de postura
ou lei municipal, embora sejam pagas as multas no ato da contraven-
ção, devendo cessar, por completo, a praxe que seguem alguns Agen-
tes de fazer intimações para o pagamento das mesmas multas, visto
constarem essas intimações do próprio auto que deve ser entregue à
parte interessada. Saudações. – O Diretor Geral, Dr. A. F. do Amaral.27

Essa circular fornece pistas de que o Decreto n.º 395, de 4 de fevereiro de 1903, já
não estava sendo cumprido com o rigor necessário oito meses após ter sido promulga-
do. Ele continha orientações sobre como os agentes deveriam proceder para realizar
as autuações. Para reverter tal situação, Pereira Passos publicou a circular.
No dia 1.º de outubro, o expediente dos guardas passou a ser mais longo. De
acordo com a Circular n.º 90, os agentes deveriam fazer com que eles começassem
o serviço da fiscalização desde as primeiras horas do dia e o prolongassem até a
noite, “não devendo fazê-lo, como até agora, das 10 da manhã às 4 da tarde”.28
Não bastasse toda a vigilância sobre a correta execução da legislação municipal,
o trabalho dos guardas deveria ser organizado de modo que a população fosse
fiscalizada por mais tempo.
Esses são apenas alguns exemplos das circulares publicadas no início da ad-
ministração de Pereira Passos. Se por um lado elas colocam em evidência os es-
forços do poder público municipal para garantir a observância dos decretos e das
posturas vigentes, por outro, demonstram que o controle não recaiu apenas sobre
a população, mas também sobre os próprios funcionários da Prefeitura. A reitera-
ção das circulares, bem como a insistência no fiel cumprimento da legislação em

25 Circular n.º 26, de 12 de fevereiro de 1903.


26 Circular n.º 63, de 2 de julho de 1903.
27 Circular n.º 2.072, de 25 de setembro de 1903.
28 Cf.: Circular n.º 90, de 1 de outubro de 1903.

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vigor dão pistas da complexa relação entre habitantes, funcionários municipais e


Poder Executivo. Para aprofundarmos a compreensão dessas relações, sobretudo
no que diz respeito aos trabalhadores que viviam ou passaram a residir nos subúr-
bios, trato a seguir da fiscalização das construções, reconstruções e reformas no
distrito de Inhaúma.

Tensões entre trabalhadores suburbanos e


funcionários municipais: negociações em torno
da questão da moradia29
Embora a quantidade de autuações nos subúrbios tenha sido grande, como
foi verificado, uma boa parte dos infratores não realizou o pagamento das multas.
Um dos principais motivos para esse fato está relacionado aos pedidos de perdão
das dívidas, que eram remetidos ao prefeito. Segundo Lea Iamashita, no início do
Império, a adoção de alguns princípios liberais na Constituição de 1824, e no Código
do Processo Criminal de 1832, passou a garantir aos cidadãos a possibilidade de
reclamar por escrito ao Poder Legislativo e ao Executivo.30
Podemos acompanhar o uso dessa estratégia em estudos como o de Fabia-
ne Popinigis, que investigou a luta dos caixeiros cariocas para garantir a folga aos
domingos. Dentre outras formas de reivindicação, eles recorreram à negociação
com a Câmara Municipal para a aprovação de uma legislação que lhes assegurasse
o descanso.31 Paulo Terra, por sua vez, analisou diversos requerimentos enviados à
 88
instituição camarária para questionar posturas que regulavam o trânsito na cidade
e interferiam diretamente no trabalho de cocheiros e carroceiros.32 Tais pesquisas
privilegiaram o estudo de categorias profissionais específicas e debateram como a
Câmara Municipal pode ser vista como um espaço de disputa e demanda.
No caso das autuações por infrações de posturas, pelo menos desde a dé-
cada de 1890, era comum recorrer ao chefe do Executivo para tentar evitar o pa-
gamento das multas. Na própria legislação que entrou em vigor em 1903, estava
regulamentada a possibilidade de recurso.33 Cabia ao prefeito, auxiliado pelos pa-
receres dos funcionários municipais envolvidos na autuação, avaliar se o suplican-
te merecia ter a dívida perdoada ou não.
Do panorama apresentado na primeira parte deste artigo, quase 30% das mul-
tas aplicadas nos distritos suburbanos estavam relacionadas à falta de licença dos
estabelecimentos comerciais. Como esses negociantes não configuram os sujeitos
históricos que privilegio em minha pesquisa, não me detive à análise dos recursos a
esse tipo de multa. Levando em consideração o perfil do distrito de Inhaúma, que
passou a contar com um grande contingente de trabalhadores do final do século

29 Discuto em detalhes a respeito dessa questão no capítulo 2 de minha dissertação de mestrado, que foi
publicada sob o título Viver nos subúrbios: a experiência dos trabalhadores de Inhaúma (Rio de Janeiro,
1890-1910). Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura; Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro,
2011.
30 Cf.: IAMASHITA, Lea Maria Carrer. A Câmara Municipal como instituição de controle social: o confronto em
torno das esferas pública e privada. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Secretaria Municipal de Cultura; Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, n. 3, p. 41-56, 2009.
31 Cf.: POPINIGIS, Fabiane. Operários de casaca? Relações de trabalho e lazer no comércio carioca na virada
dos séculos XIX e XX. Tese (Doutorado em História Social). Campinas: Unicamp/IFCH, 2003, cap. 2.
32 Cf.: TERRA, Paulo Cruz. Cidadania e trabalho: cocheiros e carroceiros no Rio de Janeiro (1870-1906). Tese
(Doutorado em História). Niterói: UFF/ICHF, 2012, cap. 2.
33 Cf.: Decreto n.º 395, de 4 de fevereiro de 1903, Art. 9.

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XIX para o início do XX, optei por investigar os conflitos e as estratégias de nego-
ciação que se deram em razão da infração à legislação sobre construções, pois,
a partir da administração de Pereira Passos, parte dos moradores dos subúrbios
começaram a pagar emolumentos para a realização de obras.
Antes de dar início à análise, faz-se necessário apresentar algumas informa-
ções a respeito da organização municipal. De acordo com o Decreto n.º 399, de 6
de março de 1903, as agências da Prefeitura eram compostas por agentes fiscais e
guardas municipais, e eram “repartições subordinadas imediatamente ao Prefeito,
destinadas a representá-lo nas divisões territoriais do Distrito Federal”. Entre as
atribuições dos agentes estava a de “fazer executar as posturas e deliberações
do Conselho”, bem como de “lavrar e remeter à autoridade competente os autos
de flagrante contra os infratores de posturas”.34 O prefeito possuía a prerrogativa
de designar anualmente os guardas que trabalhariam em cada distrito, podendo
removê-los de uma agência para outra, se assim julgasse necessário. Para ser no-
meado guarda era imprescindível ser cidadão brasileiro, saber ler e escrever, pos-
suir aptidão para o desempenho da função e ter bom procedimento.
Em 27 de junho de 1903, entrou em vigor o Decreto n.º 445, que dava novo
regulamento à Diretoria Geral de Obras e Viação. Fazia parte de suas atribuições
a “superintendência de todos os serviços relativos a obras municipais, carta ca-
dastral, [...] construção, reconstrução, acréscimos e reparos de prédios ou edifí-
cios”. Tal diretoria era composta por diversos funcionários, entre eles um diretor-
-geral, três subdiretores e quinze engenheiros de circunscrição. Cabia aos últimos
 89 “velar pelo cumprimento exato das posturas no que for atinente aos serviços de
obras a seu cargo, devendo promover os meios de repressão e fazer as devidas
comunicações”.35
Isso significa que a população era fiscalizada tanto por agentes e guardas
municipais como por engenheiros de circunscrição. Assim, quando um requeri-
mento era enviado ao Prefeito, com o intuito de recorrer de uma multa, ou ele era
encaminhado à Diretoria Geral de Obras e Viação, ou à agência da Prefeitura no dis-
trito em questão, para que se prestassem os esclarecimentos necessários. Como
duas esferas de poder eram responsáveis pela vigilância das posturas, foi possível
perceber que, em diversos momentos, os funcionários a elas subordinados entra-
ram em conflito, porque divergiam a respeito do modo como elas deveriam ser
aplicadas. Apresentadas essas informações sobre os possíveis caminhos percor-
ridos pelos recursos remetidos ao chefe do Executivo, comecemos a analisá-los.
Em 11 de maio de 1903, Manoel Silveira Costa Tavares foi autuado pelo agen-
te Luiz Maggessi Corimbaba, pois estava “construindo um acréscimo na casa de
sua propriedade” sem a devida licença.36 Por ter infringido o art. 1.º do Decreto
n.º 391, de 10 de fevereiro de 1903, que determinava que toda obra de “constru-
ção, reconstrução, acréscimos ou modificações” deveria ter licença da Prefeitura,
Manoel foi multado em 100$000 (cem mil réis). Em vista disso, três dias depois de
autuado, recorreu ao Prefeito:

Exmo. Sr. Dr. Prefeito do Distrito Federal


Manoel Silveira Costa Tavares, residente à rua Dr. Leal n. 66, freguesia
de Inhaúma, tendo sido intimado por um auto de infração do respectivo
Agente da Prefeitura por estar construindo um acréscimo na casa citada

34 Decreto n.º 399, de 6 de março de 1903, Art. 5.


35 Decreto n.º 445, de 27 de junho de 1903, Art. 13.
36 AGCRJ, Códice 10-1-9, Infração de posturas de Inhaúma (1903-1910).

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de sua propriedade, vem submissamente ponderar a V. Exa que não é


isso de todo o ponto exato, pois que o pequeno acréscimo que fez em
sua casa já vem de longa data, pelo que o suplicante não julga ter infrin-
gido o art. do decreto citado no referido auto de infração. Pede, pois,
respeitosamente que V. Exa, dignando-se atendê-lo, mande sindicar da
suposta falta cometida e, ao menos pela equidade que tanto tem carac-
terizado a administração de V. Exa, se digne ordenar a relevação da mul-
ta, aliás atenuado esse ato pelo seu estado de pobreza; visto que o Su-
plicante é um simples jornaleiro, sobrecarregado de numerosa família.37

Como podemos notar, Manoel usou algumas estratégias para tentar mos-
trar a Pereira Passos que não era justo que pagasse a multa imposta pelo agente.
Inicialmente, buscou demonstrar “submissamente” que a acusação feita pelo fis-
cal municipal era apenas parcialmente verdadeira. De fato, ele fazia um acréscimo
em sua propriedade, porém tal obra era de “longa data”. Ou seja, se por um lado
Manoel não negou que realizava melhorias em sua casa, por outro, procurou con-
vencer o Prefeito de que esse acréscimo teve início antes do Decreto n.º 391 e,
portanto, não o havia infringido. Mas sua argumentação não parou por aí, pois,
em seguida, pediu que fosse instaurada sindicância para verificar se houve mesmo
infração. Desse modo, tinha como intuito dar credibilidade ao seu recurso, uma
vez que colocava sua propriedade à disposição para averiguações.
Manoel solicitou também a “relevação” da multa por equidade, o que, em
suas palavras, era uma atitude característica da administração de Pereira Passos.
Realmente, diversos foram os casos em que o pedido de “relevação” de multa foi
aceito, tendo como contrapartida o pagamento dos emolumentos. Para Manoel  90
ter afirmado isso, é provável que circulasse entre a população a informação de
que o Prefeito costumava deferir recursos por “equidade”. Isso significa que era
comum recorrer das multas recebidas, assim como socializar o despacho dado.
Senão, como Manoel teria afirmado que a “relevação da multa por equidade” era
uma característica da administração de Pereira Passos? Provavelmente, a quanti-
dade de recursos por ele deferidos deve ter contribuído para essa imagem: entre
1903 e 1904, foram remetidos 40 recursos relacionados à construção no distrito de
Inhaúma e desse total, 19 foram deferidos, sendo três por equidade.
Para finalizar o recurso, Manoel argumentou que o seu estado de pobreza
servia de atenuante para a falta cometida, uma vez que era “um simples jornaleiro,
sobrecarregado de numerosa família.” Nas entrelinhas, o infrator julgava merecer
o “perdão” da multa, porque não tinha condições de arcar com ela, em vista de
sua situação econômica.
Ao chegar às mãos do agente, para que desse o seu parecer, Luiz Corimbaba
reiterou sua opinião de que Manoel havia cometido a infração. Semelhante apre-
ciação foi dada pelo engenheiro em 25 de maio de 1903. Com base nessas infor-
mações, três dias depois, Pereira Passos indeferiu o pedido do requerente. Apesar
das estratégias adotadas por Manoel para livrar-se da multa, ele não obteve êxito.
A seguir, acompanharemos um caso que teve início pelo mesmo motivo que esse,
mas o desenrolar da história foi bem diferente.
Em 15 de maio de 1903, foi a vez de Antonio Jose Marques Pereira ser mul-
tado pelo agente Luiz Corimbaba, “por estar construindo paredes na casa de sua
propriedade”.38 De acordo com o auto de infração, ele descumpriu o art. 1.º do

37 Ibidem.
38 Ibidem.

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Decreto n.º 391 e, por isso, foi multado em 100$000 (cem mil réis). O prazo para
quitação da multa era até 20 de maio. Porém, em vez de pagá-la, Antonio escreveu
ao prefeito:

Exmo Sr. Dr. Prefeito do Distrito Federal


O abaixo-assinado, morador do barracão à rua Tavares n. 6A, no Encan-
tado, freguesia de Inhaúma, há dias multado por ter feito um pequeno
puxado para uma cozinha, ignorando a proibição municipal, apela para
V. Exa.
O requerente é muito pobre, tendo numerosa família; assim, na mani-
festação mais respeitosa, pede que V. Exa o releve desta pequena fal-
ta, devida unicamente ao desconhecimento da lei, ato a que sempre se
sujeitou.
Confiado na magnitude do sentimento de V. Exa.
Pede favorável despacho.39

Com base na leitura do recurso, podemos perceber que o infrator utilizou


dois argumentos para tentar evitar o pagamento da multa: inicialmente, afirmou
que desconhecia a legislação acerca das construções e por isso cometeu a “peque-
na falta” de ter feito um “pequeno puxado para uma cozinha”. Em outras palavras,
não teria infringido a lei, se dela soubesse, inclusive, porque “sempre se sujeitou”
às imposições legais. Com essa alegação, procurou construir uma imagem positiva
a respeito de si mesmo perante o prefeito. Queria mostrar-se como um cidadão

 91
responsável, que cometera um deslize por ignorância. Ao mesmo tempo, Antonio
justificou o pedido para que a multa fosse relevada devido à sua condição social:
era pobre e tinha família numerosa, ou seja, seria difícil arcar com a despesa de
100$000 (cem mil réis). Soma-se a esse fato a caracterização apresentada por ele
acerca de sua habitação: um barraco. Como a Prefeitura poderia cobrar uma multa
com aquele valor de um cidadão pobre e que fez melhorias em seu barraco, mas
não obteve a licença por desconhecer a legislação sobre construções?
Apesar do recurso, o engenheiro da circunscrição afirmou que a multa foi
bem aplicada, pois Antonio reconheceu sua infração. Portanto, a cobrança deveria
ser mantida. O ajudante de 1.ª classe, Augusto C. Camisão de Mello40, por sua vez,
deu o seguinte parecer:

Trata-se de um pequeno melhoramento feito em triste abrigo como tal


nome merece um barracão de madeira, fechado, coberto de zinco, com
8m0 de área e a uma distância de 23m0 da rua, tendo 2m10 de altura e
que está servindo de habitação. O seu proprietário apenas aumentou-
-o de 9m0, conservando o mesmo pé direito, com paredes de tapume
e argamassa de pura terra. Tal é a infração que a Agência com a maior
solicitude procurou punir com um auto de multa quando junto dessa
miserável choupana, no n. 4, em um prédio nobre, há um acréscimo que
sem licença está sendo feito há um mês e que a despeito de ofício da
digna Diretoria a Agência nenhuma providência se dignou tomar.41

Como é possível notar, temos aqui uma polêmica envolvendo os funcioná-


rios municipais, posicionando-se o ajudante de 1.ª classe a favor do infrator e o en-

39 Ibidem.
40 Segundo informações encontradas no Almanak administrativo, mercantil e industrial, Augusto C. Camisão
de Mello consta como condutor de 1.ª classe. O cargo por ele ocupado fazia parte do quadro da Diretoria
Geral de Obras e Viação. Cf.: SAUER, Arthur (org.). Almanak administrativo, mercantil e industrial do Rio de
Janeiro para 1904. Rio de Janeiro: Companhia Tipográfica do Brasil, 1904, p. 501.
41 AGCRJ, Códice 10-1-9, Infração de posturas de Inhaúma (1903-1910).

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genheiro contra, ambos empregados da Diretoria Geral de Obras e Viação. Atente-


mos para as condições precárias de habitação em que vivia Antonio: seu barracão
era feito de madeira, possuía 8m2 de área e era coberto com “argamassa de pura
terra”. Nesse local, o pobre infrator residia com sua “numerosa” família. Embora
tivesse mais do que dobrado a área construída, Antonio ainda vivia numa situação
de penúria. Para tentar livrá-lo da multa, Camisão apontou para a injustiça cometi-
da pela agência municipal, uma vez que próximo ao barracão de Antonio havia um
“prédio nobre”, que também fazia obras de acréscimo sem licença e seu proprie-
tário não tinha sido multado.
Apesar do “contra-ataque” de Camisão, o engenheiro manteve-se firme em
seu posicionamento: a multa deveria ser mantida, pois as obras estavam em desa-
cordo com a lei. Outro parecer semelhante foi dado, mas não foi possível identifi-
car sua autoria, nem o cargo de quem o emitiu. Certo é que, em 26 de maio, Pereira
Passos deferiu por “equidade” o recurso de Antonio, que apenas ficou obrigado
a pagar os emolumentos referentes ao acréscimo, calculados em 36$000 (trinta e
seis mil réis), valor bem menor do que o da multa inicialmente imposta. A dívida foi
quitada em 13 de junho.
Esse caso é interessante pelas tensões que apresenta: a municipalidade, por
intermédio de seu agente, aplicou uma multa elevada contra um indivíduo que
vivia em condições precárias — em uma “choupana” que sequer ficava perto do
alinhamento da rua Tavares. Porém, deixou de enquadrar nos mesmos critérios
uma construção próxima e “nobre”, diga-se de passagem. Cientes da injustiça pra-
ticada, tanto Antonio como o ajudante de 1.ª classe lançaram mão dos recursos
de que dispunham para negociar tal imposição. A Prefeitura, se não conseguiu  92
receber pela multa, pelo menos fez com que Antonio cumprisse com a obrigação
de pagar pelos acréscimos.
Ainda sobre as relações estabelecidas entre os funcionários municipais e os
cidadãos que construíam nos subúrbios, vale a pena acompanhar a seguinte histó-
ria. Em 20 de maio de 1904, Coriolano Goes, engenheiro responsável pelo distrito
de Inhaúma, remeteu um memorando à Diretoria de Obras e Viação, solicitando a
remoção do guarda que trabalhava em Bonsucesso, pois ele permitia “toda sorte
de infrações” sem comunicar ao agente municipal, nem a ele, engenheiro.42 No do-
cumento, ele apresentou alguns exemplos da negligência do guarda: na rua Silva,
três casas foram edificadas em desacordo com a lei; na casa n.º 4 da rua 4 de No-
vembro foi feito “um puxado lateral ao prédio”, assim como no n.º 47 da estrada
da Penha foi construído outro “puxado” nos fundos da propriedade.
Por causa da queixa dada pelo engenheiro, o agente Frederico Augusto Xa-
vier de Brito, da agência de Inhaúma, foi instado a informar a respeito. Diante da
solicitação, o agente percorreu as ruas de Bonsucesso, acompanhado de Coriola-
no, com o intuito de averiguar as infrações apontadas. Registrou toda a “sindicân-
cia” realizada e anexou-a em sua resposta ao diretor-geral de Polícia Administrati-
va, Arquivo e Estatística.
De acordo com tais documentos, na rua Silva, s/n.º, residia Guilherme Teixei-
ra Bastos. Questionado sobre a casa de sapé que construíra, disse:

Que no dia quinze do corrente, principiou a construir dentro do terre-


no que arrendou em princípio do mês próximo passado, um rancho de
sapé, para sua habitação e guarda de ferramentas empregadas na la-
voura que tem no referido terreno.

42 AGCRJ, Códice 10-1-12, Infração de posturas de Inhaúma (1904).

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Que na segunda-feira – dezesseis do corrente, das oito para as nove ho-


ras da manhã, compareceu em sua casa o guarda Municipal Hermógenes,
encarregado da secção que determinou ao depoente que parasse com
as obras, visto não ter pedido licença e que dando-se por intimado com-
pareceu na Agência do 19o. Distrito de Inhaúma, a fim de dar explicações.
Que o depoente agiu por seu motiv [ilegível] próprio e porque diversas
pessoas lhe haviam garantido, que tratando-se de construção em zona
rural, não havia necessidade de licença.
Que o guarda não sabia que o depoente pretendia fazer semelhante
construção nem dele exigiu remuneração alguma.43

A versão de Guilherme indica que ele não conhecia a legislação sobre cons-
truções, mas seus conhecidos sim, visto terem-lhe garantido que não era neces-
sária licença para construir nos subúrbios. No final do documento, percebe-se a
tentativa de isentar o guarda Hermógenes das irregularidades cometidas pelo in-
frator. Até aqui, não fica claro se essa iniciativa partiu do agente que levou a cabo
a “sindicância” ou de Guilherme, ao perceber que o guarda seria punido.
Manoel do Rego Medeiros, residente no mesmo logradouro que Guilherme,
porém na casa de n.º 1, também foi procurado pelo agente Frederico. Na ocasião, in-
formou que sua habitação foi construída entre setembro e outubro de 1902, “época
que não havia exigências de licença para construções no local que reside e é pro-
prietário”. Ao fazer tal declaração, demonstrou que tinha conhecimento do Decre-
to n.º 391, assim como justificou a edificação de sua casa sem ter requerido a licen-

 93 ça. Ainda de acordo com Manoel, nesse período, o guarda que ali trabalhava era o
Sr. Hyppolito, “o qual à vista de não haver exigências, consentiu que o depoente
construísse o prédio, não tendo portanto recebido remuneração alguma”. Nota-se,
desse modo, que Manoel procurava mostrar que não havia cometido infração.
Para concluir suas explicações, afirmou que todas as construções da rua Sil-
va eram anteriores à sua. Em outras palavras, nem ele, nem seus vizinhos tinham
cometido qualquer irregularidade, tampouco o guarda responsável pela seção.
Temos aí, portanto, mais uma tentativa de livrar o guarda Hermógenes das acusa-
ções feitas pelo engenheiro Coriolano.
Por fim, o agente Frederico procurou Alvaro Martins Teixeira para prestar
esclarecimentos sobre a “construção do puxado em que reside”. Morador à rua 4
de Novembro, “junto ao nº 4”, afirmou que o dito puxado fora feito em dezembro
de 1902, inclusive, havia dado “coleta em 18 de Dezembro de 1903”, ou seja, tinha
pagado os devidos impostos referentes àquele ano. Estranhou que “depois de de-
corrido ano e meio seja intimado para dar explicações sobre uma construção feita
em época que não havia lei que regulasse o assunto”. Observamos aqui, mais uma
vez, o mesmo argumento: Alvaro fez o seu “puxado” antes do Decreto n.º 391.
Inclusive, declarou que “Sr. Dr. Engenheiro suspeita ser nova [sua casa] apesar de
ter passado por ela diversas vezes.” Assim, procurava reforçar seu argumento e
lançar dúvidas sobre o trabalho do engenheiro.
Com base em tais declarações, em 1.º de junho de 1904, o agente Frederico
oficiou ao diretor-geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística. Em sua res-
posta, afirmou que, além de ter interrogado Guilherme, Manoel e Alvaro, colheu
“informações de pessoas da circunvizinhança” a respeito das construções da rua
Silva e 4 de Novembro. Elas disseram “que as referidas casas foram construídas
há muito tempo”. Ou seja, confirmavam o que havia sido dito pelos próprios “in-

43 Ibidem.

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fratores”, assim entendidos apenas aos olhos de Coriolano, o engenheiro. Espe-


cificamente sobre a casa de sapé, o agente declarou que foi lavrado auto contra
Guilherme, tão logo o guarda comunicou as irregularidades à agência de Inhaúma.
Em seguida, concluiu:

Assim julgo que houve equívoco por parte do Sr. Dr. Engenheiro, que,
encontrando as casas em questão, sem estarem rebocadas e emboça-
das supôs tratar-se de construções novas, entretanto na referida locali-
dade muitas outras casas estão nas mesmas condições.
[...]
O guarda em questão, tem até a presente data cumprido os seus de-
veres com escrúpulo, sendo de notar que na época em que se fizeram
essas construções não era ele o guarda dessa seção.44

Ora, como podemos observar, o agente posicionou-se a favor do guarda,


contrariando as acusações feitas pelo engenheiro da circunscrição. Além de ter
apresentado provas para demonstrar que o guarda Hermógenes cumpriu com
seus deveres, Frederico também construiu sua argumentação de maneira a com-
provar essa tese. Para tal, Manoel e Alvaro apareceram como inocentes em rela-
ção às irregularidades de suas casas.
Após o recebimento do ofício do agente, solicitou-se que o engenheiro apre-
sentasse a sua versão da história. Surpreso com o que afirmou Frederico, Coriola-
no escreveu longa resposta contrariando o que disse o agente. Para ele, a casa da
rua 4 de Novembro, “junto ao n. 4” não era antiga, pois “o madeiramento empre-
gado e exposto ao ar e luz, ainda não mudou de cor, não estava nem caiada, nem
 94
pintada, inclusive as portas e janelas”. Embora Alvaro tenha afirmado que pagara
o imposto referente a 1903, exibindo documento comprovando tal pagamento,
Coriolano afirmou que verificou na Diretoria de Rendas e “a única casa sem núme-
ro da referida rua pertence a Theophilo [ilegível] A. Barbosa e não a Alvaro Martins
Teixeira” (ênfase no original).
Em relação à casa de n.º 1 da rua Silva, Coriolano declarou que quando rea-
lizava uma “excursão às estradas do Distrito”, acompanhado pelos engenheiros
Bezerra Cavalcanti e Rossi, perguntou à proprietária a respeito da licença, que os
informou que não a possuía. Que sua habitação fora construída há uns seis meses,
ou seja, no fim de 1903. “Essa afirmação foi confirmada por todas as pessoas a
quem eu e o Sr. Agente nos disse [ilegível] pedindo informações. Entretanto, o Sr.
Agente no documento n. 2 [referente a Manoel do Rego Medeiros] transporta a
construção da dita casa para o ano de 1902!!!”.45 Não foi apenas essa declaração
do agente que deixou o engenheiro indignado. A respeito da casa de sapé, que
ele encontrou em fase de construção durante as mesmas andanças pelo distrito,
assim procedeu: “Ordenei imediatamente parar as obras e perguntei se o guarda
tinha conhecimento das mesmas o que me foi dito negativamente!”
Vale lembrar que no documento que enviou inicialmente solicitando a re-
moção do guarda Hermógenes, Coriolano citou a falta de fiscalização em relação
às casas da rua Silva, ao “puxado” da rua 4 de Novembro e a outro “puxado” na
estrada da Penha, que não foi incluído na “sindicância”. Segundo o engenheiro,
esse último “puxado” foi construído em frente à casa do guarda. Diante de tais
irregularidades,

44 Ibidem.
45 Ibidem.

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Me dirigi com o Sr. Agente à casa do guarda e as informações que ti-


vemos é que as obras foram feitas sem licença com consentimento do
guarda. Nesse ínterim, uma professora pública municipal cuja escola
fica ao lado da casa da infratora pediu ao Sr. Agente que não multasse a
proprietária e que nada fizesse ao guarda, o que de fato tem sido cum-
prido por parte daqueles.
Conclui-se portanto que o guarda, em vez de fiscalizar o que lhe com-
pete, deixa fazer obras clandestinas, todas contra a lei; que os docu-
mentos juntos não merecem fé, foram feitos ao sabor do guarda, man-
comunado com os infratores e que os mesmos documentos contêm
declarações descabidas e que muito previnem o espírito, como aqueles
que se referem à remuneração do guarda pelos infratores, outras con-
traditórias, como o que existe no final do documento n. 2 “que todas
as construções feitas na rua Silva são anteriores a do depoente (1902!),
comparada com as que são feitas no documento n. 1 e finalmente inve-
rídicas e adulteradas, apesar de ser invocado o meu testemunho, em
virtude da fiel narração que faço e que estou pronto a provar com fatos
e testemunhas de pessoas insuspeitas.46

Se as acusações de Coriolano fossem descabidas, provavelmente o agente


Frederico não teria tido a preocupação de realizar uma “sindicância” para provar
o contrário. Em nenhum dos livros de autos de infrações de posturas consultados
encontrei procedimento semelhante por parte do agente do distrito. Além disso,
do desenrolar dessa história, outras questões surgem: será que o engenheiro teria
se equivocado em tantos casos, como quis provar o agente em sua sindicância?
 95 Por que justamente a infração da estrada da Penha, onde também residia o guar-
da, não foi verificada pelo agente?
Ora, todas essas perguntas nos levam a crer que as afirmações de Coriolano
eram verídicas ou, pelo menos, factíveis. Sendo assim, tudo indica que existia um
acordo entre aqueles que estavam sob a fiscalização do guarda, o próprio guarda
e o agente de Inhaúma, para que os proprietários das construções feitas na região
de Bonsucesso não pagassem licença. Com isso, ganhariam tanto os que constru-
íam como os funcionários municipais envolvidos. Os primeiros porque não paga-
riam o valor da licença e os últimos porque, provavelmente, receberiam alguma
recompensa em dinheiro.
Há que se observar também o fato de que a maioria dos infratores não go-
zava de boas condições financeiras, pois suas habitações eram precárias: alguns
tinham construído “puxados” de madeira para residir, outro edificou uma casa de
sapé. Ou seja, se recorreram a um acordo com o guarda ou com o agente do dis-
trito, foi porque essa era uma das alternativas de que dispunham para diminuir as
suas despesas. Aliás, essa estratégia era legítima, pelo menos, aos olhos dos envol-
vidos, pois até mesmo a professora primária sabia das irregularidades e pediu para
que o engenheiro não punisse um dos infratores, nem o guarda. Se, por algum
motivo, ela discordasse de tal prática, teria pedido a apuração das irregularidades
e não o contrário. Vale destacar, inclusive, que o fato de Manoel do Rego Medeiros
ter afirmado que todas as construções da rua Silva tinham sido feitas em 1902 ou
anteriormente, também é indício da solidariedade entre aqueles habitantes, que
procuraram, de diversas maneiras, esconder o acordo que existia entre eles.
Como a resposta de Coriolano está incompleta no livro de autos de infração
consultado no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, resta acompanhar o úl-
timo trecho disponível:

46 Ibidem.

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Lamento bastante que o Sr. Agente não fosse o primeiro a punir o guar-
da quando antes me havia dito que se admirava do seu procedimento,
porquanto dera ordem ao guarda para que só viesse poucas vezes por
semana à Agência a fim de melhor fiscalizar a sua seção. Longe disso
fazer, corre a acobertá-lo com a sua proteção, empa[ilegível] as faltas
arguidas e provadas contra o mesmo e ofendendo oficialmente e facil-
mente à minha dignidade, quando entre nós ambos tem havido, até a
presente data, a mais completa harmonia de vistas na administração!
Espero entretanto que as providências necessárias hão de ser tomadas
a bem das garantias das leis e da Repartição [...]47

Provavelmente, trata-se do final do ofício. A partir de sua leitura, podemos


concluir que para Coriolano, o agente do distrito de Inhaúma não procurou livrar
o guarda Hermógenes das acusações, o que o deixou surpreso, pois até aquela
data Frederico e ele tinham convivido em harmonia, mesmo ocupando cargos dis-
tintos. Na verdade, o que indignou Coriolano foi Frederico ter demonstrado um
comportamento diante dele, mas ter apresentado relatório totalmente diferente
ao diretor-geral de Polícia Administrativa, Arquivo e Estatística, inclusive, colocan-
do em dúvida a sua palavra.
Em razão das versões contraditórias apresentadas pelos funcionários, recor-
reu-se à opinião do consultor técnico, Ernesto Silva. Segundo ele, os depoimentos
dos donos das casinhas, utilizados por Coriolano e Frederico para argumentar so-
bre a questão, eram “imprestáveis para qualquer prova, visto partirem dos inte-
ressados diretos na questão”. Diante disso, pareceu-lhe conveniente, “a bem do
serviço público e para evitar atritos”, que o guarda Hermógenes fosse removido  96
para outra seção até que os fatos fossem esclarecidos. Infelizmente, na documen-
tação encontrada não consta o desfecho da história, que foi remetida ao Prefeito,
mas cujo despacho não foi dado. De qualquer maneira, vale ressaltar que, mais
uma vez, encontrei funcionários da agência municipal (um fiscal e um guarda) que
se posicionaram ao lado da população e em contraposição ao engenheiro.
Em 26 de novembro de 1903, Joaquim Fernandes da Silva Maia foi autuado
em razão de uma irregularidade cometida por seu inquilino. Em vez de realizar o
pagamento da multa, escreveu o seguinte requerimento ao Prefeito:

Exmo. Sr. Dr. Prefeito


Joaquim Fernandes da Silva Maia tendo sido multado como infrator do
art. 12 do Decr. no. 391 de 10 de Fevereiro do corrente ano, segundo a
cópia do Auto junto, na importância de Rs200$000 por ter construído
sem licença uma cerca de tela de arame em frente ao seu terreno a Rua
Goiás no. 138, vem respeitosamente recorrer para V. Excia. da imposi-
ção da referida multa.
O suplicante não foi quem construiu, nem quem mandou construir a
referida cerca.
Segundo o doc. Junto, recibo da Agência do Distrito de Inhaúma, a licença
foi requerida em 23 de Abril do corrente ano, pelo Sr. Antonio José da
Silva, um pobre preto velho, inquilino do suplicante em aquele local.
Se não houve pagamento dos respectivos emolumentos, é porque, se-
gundo lhe disse o próprio inquilino, na Agência lhe disseram que não
era preciso pagar licença para cercar o dito terreno, por tratar-se de
uma substituição, visto como o dito terreno já era cercado com estacão
e arame farpado, em muito mal estado.

47 Ibidem.

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O suplicante nenhum intuito tinha nem tem em prejudicar os Cofres


Municipais. Por uma quantia relativamente pequena que lhe custaria a
licença, não iria sujeitar-se aos incômodos de uma multa de 200$000.
O suplicante está expondo os fatos, conforme chegaram a seu conheci-
mento. Não aumenta, nem diminui o que se passou.
Não é justo, porém, que o suplicante pague uma multa para cuja existên-
cia não concorreu.
Em última análise, se há emolumentos ou impostos a pagar a fim de
legalizar a cerca do referido terreno, o suplicante quer pagá-los, como
de direito e justiça.
Se assim for, o suplicante pede a V. Excia. que por espírito de equidade,
se digne de deferir a presente petição, pagando o suplicante os impos-
tos e emolumentos devidos.
Justiceiro, como o é, V. Excia há de fazer Justiça.48

Nota-se que o suplicante procurou justificar seu pedido de isenção da multa


dando a entender que o agente fiscal agiu de má fé, pois informou o seu inquili-
no que não era necessário pagar emolumentos para cercar o seu terreno, porém,
resolveu autuá-lo após a realização da obra. Utilizou-se ainda de duas estratégias:
tentou demonstrar que não faria sentido deixar de pagar os emolumentos para de-
pois ter que arcar com o valor de uma multa e se prontificou a quitar os impostos
em troca da “relevação” da infração.
O agente, por sua vez, apresentou outra versão dos fatos: em abril de 1903,

 97 o inquilino Antonio José da Silva solicitou a licença para a construção da cerca,
porém não quitou os emolumentos. Sendo assim, anexou ao processo uma cópia
do pedido de licença com a informação de que os emolumentos somavam 35$400
(trinta e cinco mil e quatrocentos réis). Afirmou ainda:

Embora não seja Antonio José da Silva o proprietário, me parece que


em todo o caso, não teria requerido a licença sem que fosse autorizado
pelo recorrente ou ao menos por este ouvido; tanto mais que sendo ele
pobre como alega o recorrente não se achava em condições de arcar
com as despesas.
É o que me cumpre informar no presente momento; o Sr. Dr. Prefeito
resolverá como julgar de justiça.49

Os argumentos apresentados pelo agente eram plausíveis, especialmente


por considerar o grau de pobreza do inquilino. Ao incluir uma cópia do pedido de
licença no processo, buscou deixar claro que a justificativa de Joaquim era incon-
sistente, pois o valor dos emolumentos constava no documento. Mesmo assim,
Pereira Passos optou por aceitar o pedido de Joaquim, solicitando apenas que pa-
gasse os impostos devidos em 48h. Esse é mais um caso que evidencia as tensões
entre os funcionários municipais e a população, bem como entre o prefeito e seus
subordinados, pois o suplicante elaborou uma versão para evitar o pagamento da
multa, que colocava em dúvida a atuação do agente e que foi acolhida pelo chefe
do Executivo.
Em suma, as justificativas para solicitar a “relevação” das multas eram diver-
sas. Alguns infratores afirmavam desconhecer a legislação, mas se dispunham a
pagar os emolumentos necessários, cujos valores geralmente eram bem inferiores
aos da autuação. Outros procuravam comprovar que tinham dado início à obra an-

48 AGCRJ, Códice 10-1-9, Infração de posturas de Inhaúma (1903-1910). Grifos no original.


49 Ibidem.

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CRISTIANE REGINA MIYASAKA

tes da publicação de determinada postura ou decreto, dando a entender, portan-


to, que a autuação foi equivocada e que a legislação não era retroativa. Também
havia aqueles que simplesmente alegavam ser muito pobres e que não tinham
condições de pagar a multa. Outros, por sua vez, combinavam os argumentos aci-
ma e ainda apostavam no espírito “justiceiro” de Pereira Passos, ou na “equidade
que tanto tem caracterizado a administração de V. Excia.”.
Os conflitos decorrentes da observância das posturas municipais também
transparecem nas circulares. Em 24 de agosto de 1903, por exemplo, foi publicada
a Circular n.º 80, que revela as dificuldades em colocar em prática as determina-
ções do Decreto n.º 391. Como muitos autos eram lavrados sem as devidas especi-
ficações, a municipalidade acabou por enfrentar problemas. Observemos:

Sr. Agente da Prefeitura no distrito de...


Recomendo-vos, de ordem do Sr. Prefeito do Distrito Federal, que, nos
casos de infrações de obras em que há consertos em divergência com a
licença, deveis declarar especificamente nos respectivos autos de mul-
ta no que consiste a divergência encontrada e não simplesmente, como
fazeis, — que existem reparos, ou obras excedentes da licença, sem
indicar entretanto quais sejam elas.
Como tal falta de declaração tem dado lugar a contínuas absolvições na
Junta de Contravenções com grave prejuízo da Municipalidade, sereis
doravante responsáveis por tal fato, se este resultar do não cumpri-
mento das ordens que vos transmito.
O que levo ao vosso conhecimento para os devidos fins.
Saudações. – Aureliano Portugal.50  98
Como é possível notar, a intensificação do controle sobre as construções e
o consequente aumento no número de autuações esbarrou na atuação da Junta
de Contravenções, uma esfera do Poder Judiciário.51 Diante disso, a Prefeitura lan-
çou mão de duas medidas para minimizar os prejuízos: destacou a necessidade de
preencher corretamente os autos de infração, assim como usou da coerção para
obrigar os agentes fiscais a obedecer às recomendações da circular, caso contrá-
rio, seriam responsabilizados pelas absolvições na referida junta. Um mês após a
publicação dessa circular, ela foi reiterada com os mesmos argumentos, pois ainda
eram constantes a “insuficiência e irregularidade nas declarações e outros vícios
de nulidade dos autos de infração lavrados nas agências da Prefeitura”.52 A atua-
ção do Poder Judiciário, portanto, é outro fator a ser considerado para entender a
discrepância entre as multas aplicadas e pagas.
É importante levar em consideração também que o Decreto n.º 391, colocado
em vigor no início da administração de Pereira Passos, era bastante rigoroso em
relação aos critérios que deveriam ser seguidos por aqueles que construíam ou
reformavam suas moradias, sobretudo no que diz respeito à salubridade. A legis-

50 Circular n.º 80, de 24 de agosto de 1903.


51 De acordo com o Decreto n.o 4.769, de 9 de fevereiro de 1903, sancionado pelo presidente da República,
pertencia à Junta de Contravenções o “processo e o julgamento das infrações de leis, posturas e regula-
mentos municipais”. Ela deveria ser composta pelo juiz dos feitos da Fazenda Municipal e por dois pre-
tores. Suas audiências deveriam ser realizadas duas vezes por semana. Findo o processo administrativo,
após a verificação das infrações, o infrator era citado para se ver processar e julgar. Durante a audiência,
era lido o auto de infração, o infrator era qualificado, as testemunhas de defesa e de acusação prestavam
os seus depoimentos, se presentes, o procurador ou solicitador dos feitos da Fazenda Municipal produzia
a sua acusação e o “infrator” ou o seu procurador proferia a defesa oral. Em seguida, o julgamento era
realizado e proferido.
52 Circular n.º 89, de 26 de setembro de 1903.

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NA MIRA DOS FUNCIONÁRIOS MUNICIPAIS: CONSIDERAÇÕES ACERCA...

lação que predominou durante a década de 1890 não era tão escrupulosa. É plau-
sível supor, portanto, que os próprios agentes tivessem dificuldades em garantir o
fiel cumprimento do referido decreto e cometessem equívocos no preenchimento
dos autos de infração, fato que o Prefeito tentou coibir por meio das punições
supracitadas.
Por outro lado, a preocupação com a observância de tais preceitos sanitá-
rios e higiênicos, característica marcante da administração de Pereira Passos e dos
debates travados à época em razão das reformas, também deve ser considerada
para entender a intensificação da fiscalização por parte da municipalidade. Soma-
-se a esse aspecto a necessidade de angariar fundos para financiar as obras proje-
tadas. A comparação entre os valores arrecadados com as multas por infração de
posturas entre 1901 e 1903 evidencia essa política.
Ainda que a quantidade de infrações nos distritos suburbanos tenha sido pe-
quena se comparada a da zona urbana, isso não quer dizer que a fiscalização naque-
la região tenha sido inexistente. A disparidade entre as multas aplicadas e pagas
demonstra o quão intensa foi a atuação do poder público municipal nos subúrbios.
Contudo, seus habitantes não aceitaram tacitamente esse controle. Sempre que
possível, procuraram questionar as multas aplicadas e evitar o pagamento delas.
Os argumentos utilizados para alcançar tal objetivo foram diversos. Entretanto, é
importante destacar uma característica que unificava todos eles: os requerentes
acreditavam na possibilidade de negociação com a municipalidade, caso contrário
não entrariam com recurso. Os constantes deferimentos concedidos pelo Prefeito
 99 reforçavam essa crença. Durante 1903, foram 54 autuações referentes à falta de
licença para construção ou por irregularidades em obras, em Inhaúma. Desse total,
pelo menos 12 infratores entraram com recurso para não pagá-las, o que corres-
ponde a 22% dos autuados, e apenas quatro tiveram os seus pedidos negados. Por-
tanto, embora tenha ocorrido uma intensificação do controle sobre a população
— e até mesmo sobre os funcionários municipais — para garantir a observância da
legislação municipal, tal política foi frequentemente contestada, resultando, pelo
menos nos subúrbios, na nulidade de diversas multas aplicadas.
Como bem afirmou Benchimol, o ônus das reformas recaiu sobre a popu-
lação. O aumento no número de autuações é uma evidência disso. Entretanto,
ao investigar o modo como os trabalhadores suburbanos lidaram com as multas
que lhes foram impostas, é possível perceber que muitos deles vislumbraram a
negociação com o poder público como uma alternativa possível, para não dizer
necessária em diversos casos. Para muitos desses trabalhadores, que gozavam de
condições precárias de habitação, a contestação das autuações era uma forma de
minimizar as dificuldades que enfrentavam, sobretudo em termos econômicos.
Sob influência dos estudos recentes a respeito das Câmaras Municipais como
espaços de demanda e disputa, procurei explorar um outro aspecto da experiência
dos trabalhadores no âmbito da cidade, ao investigar as relações estabelecidas
entre esses sujeitos históricos, os funcionários municipais e o chefe do Executi-
vo. Duas características importantes dessas relações podem ser apontadas. Uma
delas diz respeito aos usos políticos da legislação vigente. Vários requerentes co-
nheciam os meandros das posturas em vigor e construíam os seus argumentos
procurando brechas que pudessem livrá-los das autuações. Longe de serem víti-
mas indefesas do amplo processo de reestruturação urbana em curso na capital
federal, forjaram maneiras, no âmbito da legalidade, para diminuir o seu impacto.
A configuração de laços de solidariedade entre os indivíduos que vivencia-
ram essa intensificação da fiscalização por parte da municipalidade carioca é outra

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CRISTIANE REGINA MIYASAKA

característica a ser considerada. Curiosamente, não foram raros os casos em que


os funcionários tomaram partido daqueles que deveriam ser autuados, demons-
trando a complexidade de tais relações. Para compreender esse aspecto, é im-
portante levar em consideração as divergências na interpretação da legislação,
as disputas entre os próprios funcionários, assim como a insatisfação de muitos
deles com a pressão exercida pelo Prefeito para que cumprissem as suas funções.
A recorrência de circulares publicadas com orientações sobre como eles deveriam
proceder, sobretudo os agentes fiscais, dá indícios das tensões que permeavam
essas esferas de poder. A própria atuação de Pereira Passos tornava as relações
entre habitantes e funcionários mais problemática, pois, ao mesmo tempo que
exigia rigor no cumprimento da legislação, desautorizava agentes e engenheiros
diante dos infratores, perdoando a multa de indivíduos que claramente tinham
cometido a infração.
Por fim, vale destacar que o deslocamento do eixo de análise dos distritos di-
retamente atingidos pelas obras de renovação urbana para a zona suburbana está
relacionado à necessidade de matizar esse processo. A historiografia que abordou
o período do “bota-abaixo” durante a década de 1980 se dedicou ao estudo das
principais mudanças que ocorreram nos distritos centrais e portuários e na legis-
lação em vigor, destacando o papel do Estado nesse processo e identificando os
grupos sociais beneficiados e prejudicados. Entretanto, ao se concretizarem não
apenas pela realização de obras de grande vulto e na revitalização do porto, mas
também pela intensificação dos mecanismos de fiscalização de seus habitantes,
elas atingiram a cidade como um todo, porém com intensidades diferentes. A in-
vestigação da experiência dos trabalhadores suburbanos diante desse processo  100
é uma alternativa para complexificar o entendimento a respeito dos impactos de
tais reformas.

Recebido em 23/04/2013
Aprovado em 05/05/2013

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Tensão e conciliação na política:
o poder de veto e a questão do
funcionalismo municipal (Capital
Federal, 1892-1902)
Marcelo de Souza Magalhães*

Resumo: Neste artigo, busco refletir sobre o poder de veto do prefeito do Distrito
Federal em relação aos projetos de lei aprovados pelos membros do Poder Legisla-
tivo municipal entre 1892 e 1902. A análise minuciosa do andamento das resoluções
aprovadas pela casa legislativa, que foram ora sancionadas ou vetadas pelo pre-
feito, ora sancionadas pelo presidente da instituição, é uma forma de compreender
melhor as tensões e conciliações na política municipal da capital federal. Um tema
conflituoso na municipalidade, que colocava os poderes locais em pé de guerra, foi
o do funcionalismo público, que receberá atenção especial ao longo do artigo.

Palavras-chave: história política carioca, funcionalismo municipal, poder de veto

Abstract: This article addresses the issue of the right of veto of the Federal District
mayor concerning the bills passed in the Municipal Legislature between 1892 and
1902. A thorough analysis of the progress of the resolutions adopted by the legisla-
tive house, which were either sanctioned or vetoed by the mayor or sanctioned by
the institution’s president, allows us to better understand the tensions and recon-
ciliations proper to the municipal politics in the federal capital. The issue that will
receive special attention throughout the article is the topic of civil service; it was
such a contentious issue to the municipality that put local authorities on warpath.

Keywords: Rio de Janeiro political history, municipal civil service, right of veto

De acordo com a Lei Orgânica de 18921, ao prefeito do Distrito Federal com-


petia vetar ou sancionar as resoluções aprovadas pelo Conselho Municipal. O veto
só poderia ser oposto a uma resolução do Legislativo caso ela estivesse em de-
sacordo com as leis e com os regulamentos em vigor no distrito. Logo, consistia
numa exposição dos motivos que levaram o prefeito a não sancionar determinada
resolução do Conselho, visando convencer a instituição avaliadora do veto da per-
tinência de sua manutenção.

* Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO.


1 Lei n.o 85, 20 de setembro de 1892.

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MARCELO DE SOUZA MAGALHÃES

Inicialmente, de acordo com a Lei de 1892, ao Senado Federal coube o papel


de instituição avaliadora dos vetos, decidindo, ao menos nesse caso, os embates
entre Executivo e Legislativo municipais. No entanto, a Lei n.o 493, de 19 de setem-
bro de 1898, repartiu entre o Senado e o Conselho a atribuição de avaliar os vetos.
Aos senadores cabia analisar as resoluções vetadas que podiam ir de encontro
ao texto constitucional, às leis federais e aos direitos dos outros municípios ou
estados. Por sua vez, os intendentes, atuais vereadores, ficaram responsáveis por
avaliar as resoluções vetadas que podiam ser contrárias às leis municipais. A atu-
ação dos intendentes não durou muito: cinco meses após a sanção da Lei n.o 493,
entrou em vigor o Decreto n.o 5432, que atribuiu novamente ao Senado o papel
exclusivo de analisar os vetos opostos pelo prefeito da capital.
O veto consiste num procedimento político estratégico para compreender a
dinâmica das relações entre os poderes. Na política, existem ao menos duas possi-
bilidades de ação de um chefe do Poder Executivo: a de fazer acontecer e, o seu in-
verso, a de fazer não acontecer. A primeira possibilidade diz respeito à capacidade
de acionar, dirigir e interferir, de estar à frente de uma determinada ação. Quanto
à segunda, trata de barrar uma ação feita por outros, como, por exemplo, pelos
membros do Conselho Municipal. O poder do veto está no âmbito do fazer não
acontecer. É um poder que interfere no ritmo da política, pois, ainda que muitas
vezes não possa alterar o curso dos acontecimentos, pode modificar sua velocida-
de, adiando ou antecipando decisões.3
Se o prefeito era o único membro dos poderes municipais que podia fazer uso
da ação de se opor ao veto, no caso da sanção de uma resolução do Conselho, o jogo
político era mais delicado. O artigo 21 da Lei Orgânica de 1892 estabeleceu o prazo
 102
máximo de cinco dias para que o prefeito sancionasse ou vetasse qualquer resolu-
ção aprovada pela maioria dos intendentes. Findo o prazo, caso o prefeito não se
posicionasse, cabia ao presidente do Conselho Municipal o ato da sanção. Isso impli-
ca dizer que o Poder Legislativo municipal, na figura de seu presidente, também pos-
suía a atribuição de transformar em lei uma resolução aprovada pelos intendentes.
O objetivo deste artigo é fazer uma análise minuciosa — quantitativa e qua-
litativa — do andamento das resoluções aprovadas pela casa legislativa munici-
pal, que foram ora sancionadas ou vetadas pelo prefeito do Distrito Federal, ora
sancionadas pelo presidente da instituição. Além disso, dar atenção especial aos
debates em torno de questões relativas ao funcionalismo municipal.
Entre 1892 e 1902, foram apresentadas e discutidas 1.872 resoluções pelos
intendentes do Conselho Municipal. Resoluções que possuíam autoria individu-
al (apresentadas por um intendente) ou coletiva (apresentadas por um grupo
de intendentes ou pelas comissões permanentes da casa legislativa). Dos dois ti-
pos de autoria, as resoluções apresentadas de forma coletiva eram as que tinham

2 Decreto n.o 543, de 23 de dezembro de 1898.


3 No campo da Ciência Política, os estudos que analisam os poderes legislativos do Executivo fazem uso
de duas variáveis: poderes proativos e poderes reativos. Os primeiros são os que permitem ao chefe do
Executivo ditar a agenda política a ser discutida e votada pelos membros do Poder Legislativo. Eles são
constituídos pelo poder de decreto, de iniciativa exclusiva de matérias, de convocar referendos, e pelos
poderes excepcionais de emergência. Os segundos estão relacionados basicamente ao poder de veto.
No Brasil, existem atualmente dois tipos de poderes de veto: o total e o parcial. Este permite ao chefe do
Executivo limpar as matérias de seu interesse das modificações feitas pelo Poder Legislativo. Já aquele
é o que apresenta o menor nível de poder reativo, pois o chefe do Executivo só tem a opção de vetar
por inteiro um projeto de lei aprovado pelo Legislativo. Como exemplo de trabalhos que utilizam essas
variáveis, cf.: FIGUEIREDO, Argelina Cheibub e LIMONGI, Fernando. Executivo e Legislativo na nova ordem
constitucional. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001; SANTOS, Fabiano (org.). O Poder Legislativo nos estados:
diversidade e convergência. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001.

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TENSÃO E CONCILIAÇÃO NA POLÍTICA: O PODER DE VETO E A QUESTÃO...

maiores chances de obtenção de sucesso dentro dos trâmites legislativos. Nesse


mesmo período, foram sancionadas 971 resoluções pelos prefeitos, bem como pe-
los presidentes do Conselho. Por outro lado, os prefeitos terminaram por vetar um
total de 231 resoluções aprovadas pelos intendentes.
Logo, de um total de 1.202 projetos que tiveram suas tramitações iniciadas no
Conselho Municipal, 2/3 foram aprovados pelos intendentes e chegaram às mãos
dos prefeitos, para obterem sanção ou veto. O 1/3 restante (570 resoluções) é
constituído de projetos que apresentaram dois tipos de encaminhamentos: foram
rejeitados pelos intendentes, quando das votações em plenário, ou ficaram pen-
dentes de decisão, o que significa a suspensão da tramitação na casa legislativa.
Desse modo, nos dez primeiros anos de organização político-administrativa nos
moldes da Lei Orgânica de 1892, grande parte da produção legislativa do Conselho
obteve a sanção ou o veto do prefeito. Algumas variáveis ajudam a compreender
o poder de veto do prefeito do Distrito Federal.

1. A rotatividade de um cargo: variável tempo de


mandato dos prefeitos
Entre 1892 e 1902, existiu uma significativa diferença na distribuição dos ve-
tos e decretos entre os prefeitos do Distrito Federal, que se justifica, em grande
parte, pela considerável variação no tempo de permanência no cargo.
 103
Quadro 1
Período do mandato e meses de gestão dos prefeitos
do Distrito Federal (1892-1902)
Prefeito Mandato N.o de meses
de gestão**
Candido Barata Ribeiro 12/12/1892 a 25/05/1893 5
Antônio Dias Ferreira (interino)* 26/05/1893 a 26/06/1893 1
Henrique Valadares 27/06/1893 a 31/12/1894 18
Francisco Furquim Werneck de Almeida 01/01/1895 a 15/11/1897 34
Joaquim José da Rosa (interino)* 16/11/1897 a 24/11/1897 0
Ubaldino do Amaral Fontoura 25/11/1897 a 15/11/1898 11
Luiz Van Revén (interino) 17/11/1898 a 30/12/1898 1
José Cesário de Faria Alvim 31/12/1898 a 31/01/1900 13
Honório Gurgel (interino)* 05/05/1899 a 23/05/1899 0
Antônio Coelho Rodrigues 01/02/1900 a 06/09/1900 7
João Felipe Pereira 06/09/1900 a 10/10/1901 13
Joaquim Xavier da Silveira Junior 11/10/1901 a 27/09/1902 11
Carlos Leite Ribeiro (interino)* 27/10/1902 a 29/12/1902 2
Fonte: REIS, José de Oliveira. O Rio de Janeiro e seus prefeitos. Rio de Janeiro: Prefeitura da cidade do Rio de
Janeiro, 1977; CARVALHO, Carlos Delgado de. História da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria
Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação, 1990.
* presidente do Conselho Municipal / ** foram levados em consideração somente os meses completos

Os resultados do Quadro 1 mostram que os anos de 1892 a 1902 foram de imen-


sa instabilidade política no âmbito dos poderes municipais, com alta rotatividade de
prefeitos. Nenhum permaneceu nesse cargo por quatro anos, tempo de mandato
definido pela Lei Orgânica de 1892. Na verdade, esse prazo foi alvo de modificação

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MARCELO DE SOUZA MAGALHÃES

por parte do Congresso Nacional. Passados seis anos de vigência da Lei, o artigo
2.o do Decreto n.o 543, de 23 de dezembro de 1898, suprimiu o tempo de mandato,
definindo que o prefeito nomeado continuaria desempenhando suas funções en-
quanto bem servir. Modificação que consistiu em uma clara restrição da liberdade
de atuação da pessoa nomeada para estar à frente do cargo de prefeito.
A indefinição do tempo, condicionada à avaliação subjetiva do prefeito pelo
crivo do bem servir, provavelmente tinha a intenção de aproximar a atuação do
chefe do Executivo municipal dos interesses de quem lhe delegou o poder, o pre-
sidente da República. A partir do Decreto n.o 543, — sancionado por Campos Sales
(15/11/1898 a 15/11/1902), presidente que buscou intervir de forma muito decisiva no
jogo político carioca — ficou superado o constrangimento a que teria de passar o
chefe do Executivo federal devido ao fato de exonerar um prefeito antes do tér-
mino de seu mandato.
A supressão do tempo de mandato do prefeito ajuda a relativizar a interpre-
tação de sua atuação como um interventor federal, ao menos entre 1892 e 1902.
Tal interpretação valoriza muito fortemente o fato de o poder do prefeito ser de-
legado pelo presidente da República, pressupondo que a atuação do primeiro é
orquestrada de acordo com os interesses do segundo. Isto é, a prefeitura seria
quase um órgão do aparelho administrativo da União. Contudo, tal suposição fica
abalada quando se pensa nas razões políticas que produziram o Decreto n.o 543.
Isso porque esse decreto mostra claramente o quanto, nos anos iniciais da Prefei-
tura do Distrito Federal, era pouco provável a existência de uma grande sincronia
entre os dois executivos. Do mesmo modo, não teria sentido o investimento feito
na modificação legal do tempo de mandato, caso o prefeito não estivesse incomo-
 104
dando alguém. O bem servir é seguido certamente de uma interrogação: a quem?
No caso, ao Executivo federal, que tentava, com o controle do tempo de mandato,
obter uma efetiva aliança com o prefeito.
Assim, entre 1892 e 1902, o cargo de prefeito foi ocupado por 14 pessoas, o
que evidencia sua fantástica rotatividade. Destes, seis assumiram interinamente,
sendo cinco presidentes do Conselho — Alfredo Augusto Vieira Barcellos, Antonio
Dias Ferreira, Joaquim José da Rosa, Honório Gurgel e Carlos Leite Ribeiro — e um
nomeado pelo presidente da República — Luiz Van Erven.4
De acordo com a Lei Orgânica de 1892, em caso de vacância do cargo, ca-
bia ao presidente do Conselho assumir interinamente a chefia do Executivo local.
Isso indica que o presidente do Legislativo era detentor de um considerável poder,
uma vez que, entre outras atribuições, desempenhava o papel de substituto oficial
do prefeito.
Somente em 1902, num momento de grande restrição das atribuições do
Conselho Municipal dentro do campo político-institucional carioca, é que o seu
presidente perdeu o direito de substituir o prefeito, o que ocorre com a sanção da
Lei n.o 939, de 29 de dezembro.
Dos oito prefeitos efetivos, apenas dois permaneceram no cargo em torno
de seis meses: Candido Barata Ribeiro (cinco meses) e Antonio Coelho Rodrigues
(sete meses), sendo o primeiro o único nomeado pelo presidente da República

4 Nasceu em 1857, na então Província do Rio de Janeiro, e faleceu em 1927. Engenheiro formado, foi diretor
da Repartição de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro antes de assumir interinamente a Prefeitura do
Distrito Federal. As referências biográficas dos prefeitos do Distrito Federal foram extraídas, sobretudo,
de: PINTO, Surama Conde Sá. Elites políticas e o jogo do poder na cidade do Rio de Janeiro (1909-1922). Tese
(Doutorado em História Social). Rio de Janeiro: PPGHIS-UFRJ, 2002.

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TENSÃO E CONCILIAÇÃO NA POLÍTICA: O PODER DE VETO E A QUESTÃO...

que teve seu nome rejeitado pelos membros do Senado Federal.5


A soma do tempo de mandato dos demais prefeitos efetivos (Henrique Va-
ladares, Francisco Furquim Werneck de Almeida, Ubaldino do Amaral Fontoura,
José Cesário de Faria Alvim, João Felipe Pereira e Joaquim Xavier da Silveira Junior)
equivale a pouco mais de oito anos à frente da prefeitura. Em conjunto, portanto,
são esses seis prefeitos que governam por 80% da década estudada.
Mas esse resultado ainda pode ser matizado, caso se leve em conta a modi-
ficação na política do governo federal para a capital da República, ocorrida após o
atentado à vida do presidente Prudente de Morais, em 1897. O atentado provocou
uma tentativa de enquadrar a política na capital, reduzindo a ingerência das forças
locais nos poderes municipais, o que foi levado às últimas consequências na ges-
tão de Campos Sales.6
O marco produzido pelo atentado reflete-se claramente no tempo de perma-
nência no cargo. Antes do atentado, Henrique Valadares (18 meses) — nomeado
por Floriano Peixoto — e Francisco Furquim Werneck de Almeida (34 meses) —
nomeado por Prudente de Morais — permaneceram, em conjunto, pouco mais de
quatro anos (52 meses) à frente da prefeitura.7 Após o atentado, já na presidência
de Campos Sales, em apenas quatro anos, passaram pela prefeitura sete pessoas,
dentre as quais cinco nomeadas: Luiz Van Erven (1 mês), José Cesário de Faria Al-
vim (13 meses), Antonio Coelho Rodrigues (7 meses), João Felipe Pereira (13 me-
ses) e Joaquim Xavier da Silveira Junior (11 meses).

 105
A rotatividade no cargo foi sem dúvida mais intensa no governo Campos Sa-
les, o que aponta para tensões entre o Executivo municipal e o Conselho e entre
aquele e o Executivo federal. Tensões que possuíam, ao menos, uma explicação.
Os anos iniciais da República foram de profunda aprendizagem política. Neles, anti-
gas e novas forças políticas passaram a atuar em instituições que acabavam de ser
criadas, o que implicava, dentre outras coisas, a invenção de tradições diferentes
do fazer política: outros vocabulário, cargos, rituais, formas de se relacionar etc.8
É justamente nesse momento que, com a Lei Orgânica de 1892, se criou a
figura do prefeito, até então inédita no âmbito dos poderes que administravam
a cidade. Vale assinalar que, no período colonial, o governo da cidade era feito,
sobretudo, pelo Senado da Câmara e, no período imperial, pela Câmara Municipal.
Portanto, até 1892, a cidade do Rio de Janeiro possuía apenas instituições colegia-
das como responsáveis por sua administração.9
Criada a função de prefeito, ela ficou muito dependente das decisões toma-

5 ara acompanhar o processo de rejeição da indicação de Barata Ribeiro, cf.: BASTOS, Ana Marta Rodrigues.
O Conselho de Intendência Municipal: autonomia e instabilidade (1889-1892). Rio de Janeiro: CEH/FCRB,
1984, mimeo. WEID, Elisabeth von der. O prefeito como intermediário entre o poder federal e o poder
municipal na Capital da República. Rio de Janeiro: CEH-FCRB, 1984, mimeo.
6 Cf.: FREIRE, Américo. Uma capital para a República: poder federal e forças políticas locais no Rio de Janeiro
na virada para o século XX. Rio de Janeiro: Revan, 2000, em especial, o capítulo 3.
7 O que equivale a 40% da década estudada e/ou 52% do tempo de mandato dos seis prefeitos que mais
estiveram no cargo entre 1892 e 1902.
8 Para se ter uma noção das disputas entre projetos políticos nos primeiros anos republicanos, cf.: LESSA,
Renato. A invenção republicana: Campos Sales, as bases e a decadência da Primeira República brasileira.
São Paulo: Editora Vértice, 1988; GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. São Paulo: Editora
Vértice, Rio de Janeiro: IUPERJ, 1988, em especial, a 1.a parte. CARVALHO, José Murilo de. A formação das
almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
9 É importante ressaltar que o tipo de organização administrativa que teria o município não foi definido
na Constituição da República de 1891. Logo, alguns municípios, como o Distrito Federal, criaram o cargo
de prefeito, separando os poderes Executivo e Legislativo; outros municípios mantiveram um tipo de
organização próximo ao das Câmaras Municipais do Império, sendo o presidente da Câmara um cargo
com responsabilidades mais administrativas.

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das pelos membros do Conselho, pelo fato de a Lei Orgânica ter definido nada me-
nos do que 37 atribuições10 para a casa legislativa. Ou seja, para governar, qualquer
prefeito nomeado tinha que, minimamente, tentar conseguir o apoio de boa parte
dos intendentes, o que por vezes, pode ter implicado ir de encontro aos interesses
de quem lhe delegou o poder, o Executivo federal.

2. Os sentidos do poder de veto


Os vetos: quantos são?
O tempo de permanência no cargo de Prefeito do Distrito Federal, entre 1892
e 1902, permite compreender, em parte, a significativa diferença dos números ab-
solutos presentes na Tabela 1.

Tabela 1
Distribuição de vetos e de decretos por mandato de Prefeito
do Distrito Federal (1892-1902)
Prefeito N.o de N.o de Total % veto
vetos decretos
Candido Barata Ribeiro 15 42 57 26,3
Antônio Dias Ferreira (interino)* 0 5 5 0,0
Henrique Valadares
Francisco Furquim Werneck de Almeida
12
38
93
341
105
379
11,4
10,0
 106
Joaquim José da Rosa (interino)* 1 12 13 7,7
Ubaldino do Amaral Fontoura 44 161 205 21,5
Luiz Van Revén (interino) 13 18 31 41,9
José Cesário de Faria Alvim 55 72 127 43,3
Honório Gurgel (interino)* 0 8 8 0,0
Antônio Coelho Rodrigues 11 30 41 26,8
João Felipe Pereira 21 56 77 27,3
Joaquim Xavier da Silveira Junior 16 77 93 17,2
Carlos Leite Ribeiro (interino)* 5 56 61 8,2
TOTAL 231 971 1202
Fonte: Boletim da Intendência Municipal do Distrito Federal (1892-1902)
* presidente do Conselho Municipal

Uma das variáveis que levou o prefeito Francisco Furquim Werneck de Al-
meida a apresentar o maior número absoluto resultante da soma dos vetos com
os decretos (379) foi a de ter estado à frente da prefeitura por mais tempo, isto
é, 34 meses. O mesmo pode ser dito em relação aos prefeitos interinos, que, pelo
fato de permanecerem, em média, um mês à frente da prefeitura, apresentaram
os menores números absolutos.
Porém, o tempo de permanência no cargo de prefeito não é a única expli-
cação da diferença. Outra variável que deve ser levada em consideração é a do
volume da produção legislativa, do número de resoluções que eram aprovadas
no Conselho e que chegavam ao prefeito para sanção ou veto. Tal número variou
muito de acordo com as conjunturas políticas da década.

10 Para as atribuições, cf.: Art. 15, da Lei n.o 85, de 20 de setembro de 1892.

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TENSÃO E CONCILIAÇÃO NA POLÍTICA: O PODER DE VETO E A QUESTÃO...

Dos seis prefeitos que, juntos, permaneceram o total de oito anos à frente
do Executivo, tirando a média por mês das resoluções do Conselho vetadas e san-
cionadas, temos: Ubaldino do Amaral Fontoura (18,63 resoluções/mês), Francisco
Furquim Werneck de Almeida (11,14), José Cesário de Faria Alvim (9,76), Joaquim
Xavier da Silveira Junior (8,45), João Felipe Pereira (5,92) e, por fim, Henrique Va-
ladares (5,83).
A média ajuda a perceber o volume da produção legislativa, dissociando-o da
variável tempo de permanência no cargo de prefeito. Apenas como exemplo, ela
permite chegar ao seguinte resultado: o prefeito Ubaldino do Amaral, em 11 meses
de gestão, vetou e sancionou três vezes mais, por mês (18,63), do que o prefeito
Henrique Valadares (5,83), que permaneceu no cargo durante um ano e meio.
Feitas as ressalvas quanto à diferença existente entre os números absolutos,
vamos à análise dos resultados da Tabela 1. A hipótese é a de que o percentual de
vetos interpostos por cada prefeito seja um indício do tipo de relação construída
com os membros da casa legislativa municipal. Logo, quanto maior o percentual,
maior é a possibilidade de que a gestão do prefeito tenha sido caracterizada por
uma relação conflituosa com os intendentes; sendo o inverso também verdadeiro:
quanto menor o percentual, mais o prefeito teria uma relação amistosa ou conci-
liatória com os intendentes.
Os prefeitos Henrique Valadares e Furquim Werneck de Almeida, ao longo de
pouco mais de quatro anos de mandato, vetaram por volta de 10% das resoluções
aprovadas pelo legislativo municipal. Ambas as gestões possuíram um percentual

 107 extremamente pequeno de vetos e um significativo número de resoluções san-


cionadas, transformando-se em decretos (93 e 341, respectivamente). Para se ter
uma ideia desse volume, basta verificar que os dois prefeitos juntos sancionaram
quase 45% das resoluções apresentadas entre 1892 e 1902.
O percentual de vetos interpostos por Valadares e Almeida está, inclusive,
próximo ao dos prefeitos interinos, sempre abaixo dos 10% — Joaquim José da
Rosa (7,7%) e Carlos Leite Ribeiro (8,2%). Tal proximidade é um indício de que esses
prefeitos efetivos procuraram de alguma forma construir administrações capazes
de dialogar com os membros do Conselho, uma vez que, sem isso, seria impossível
tal resultado. Como vimos, de acordo com a Lei Orgânica de 1892, a origem dos
prefeitos interinos, excetuando Luiz Van Erven, era a própria casa legislativa. O
fato de pertencerem ao Conselho, provavelmente explica o baixo percentual de
vetos enquanto estiveram à frente da prefeitura.
Outro indício que corrobora a argumentação de terem sido as gestões de Va-
ladares e Almeida as de maior diálogo com os intendentes, no sentido de conciliar
interesses diversos, está relacionado com o número absoluto de vetos. O total de
vetos dos quatro anos de administração desses prefeitos — em número de 50 — é
próximo aos vetos interpostos em 11 meses de gestão de Ubaldino do Amaral (44
vetos) e em 13 meses de gestão de José Cesário de Faria Alvim (55 vetos). Dito de
outra forma, ao longo da década estudada, os quatro anos de Valadares e Almeida
correspondem a quase 22% dos vetos totais e os dois anos de Fontoura e Alvim
correspondem, praticamente, ao dobro: 43% dos vetos totais.
O quarto prefeito efetivo, Ubaldino do Amaral Fontoura, que substituiu Wer-
neck de Almeida, vetou, percentualmente, um pouco mais que o dobro (21,5%) dos
vetos interpostos pela gestão anterior. Como veremos adiante, esses dois prefei-
tos vivenciaram o início do processo de enquadramento político da capital, após o
atentado fracassado contra a vida de Prudente de Morais. Ambos foram nomea-
dos por esse presidente — Almeida antes e Amaral depois do referido atentado, o
que torna suas administrações bastante interessantes.

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O fato de vetar um pouco mais de 1/5 das resoluções aprovadas pelos inten-
dentes indica que a atuação de Ubaldino do Amaral à frente da prefeitura esteve
longe de ser conciliatória em relação ao Conselho, ao menos se compararmos com
as gestões anteriores de Valadares e Almeida, em que os vetos ficaram próximos
de 1/10 das resoluções aprovadas. No mínimo, pode-se dizer que, na gestão de
Ubaldino do Amaral, ocorreu um aumento de tensão na relação com o Conselho,
tornando-se o diálogo entre Executivo e Legislativo municipal mais difícil.
Com José Cesário de Faria Alvim, quinto prefeito efetivo e o primeiro no-
meado por Campos Sales, mais uma vez, o percentual total de vetos interpostos
(43,3%) foi o dobro do da gestão anterior, de Ubaldino do Amaral, que já era alto.
Em números absolutos, isso equivale dizer que Alvim vetou 55 e sancionou 72 re-
soluções aprovadas pelo Conselho.
Comparando a gestão de Alvim com as de Valadares e Almeida, a diferença
percentual de vetos passa a ser brutal, chegando a um aumento de 400%. Isto é,
o prefeito Cesário Alvim, em pouco mais de 1 ano de administração, vetou 4 vezes
mais resoluções que Valadares e Almeida em 52 meses de administração. Esse au-
mento significativo não deixa dúvidas de que, ao menos no momento de vetar, a
relação entre Cesário Alvim e os membros do Conselho foi conflituosa.
Os dados analisados até aqui possibilitam caracterizar a gestão de cada pre-
feito, no que tange à relação com a casa legislativa municipal, tomando-a como
um todo, sem nuances. Isto é, pela menor quantidade de vetos, infere-se que as
gestões de Valadares e Almeida mantiveram relações amistosas com o Conselho.
O inverso ocorreu no caso de gestões como as de Fontoura e Alvim, pelo fato de
possuírem maior quantidade de vetos.
 108
Uma forma de sofisticar essa visão das administrações dos prefeitos quanto
à relação que mantinham com o Conselho, é a de distribuir os vetos ao longo de
cada gestão. Os resultados presentes no Quadro 2 permitem perceber quais são
os momentos, no interior das gestões, em que ocorreram os vetos, o que situa,
com precisão, o aumento do conflito com a instituição legislativa.

Quadro 2
Distribuição dos vetos por mês (prefeitos efetivos do Distrito
Federal, 1892-1902) (continua)
Prefeito Mandato Período total de Meses Quantidade
gestão de gestão de vetos
Henrique Valadares 27/06/1893 18 meses 11/1893 1
a 31/12/1894 01/1894 3
02/1894 1
04/1894 1
05/1894 2
06/1894 1
10/1894 2
11/1894 1
TOTAL 18 meses 12

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Quadro 2
Distribuição dos vetos por mês (prefeitos efetivos do Distrito
Federal, 1892-1902)
(continuação)
Prefeito Mandato Período total de Meses Quantidade
gestão de gestão de vetos
Francisco Furquim 01/01/1895 a 34 meses 01/1895 1
Werneck de Almeida 15/11/1897 05/1895 1
07/1895 1
08/1895 2
09/1895 2
10/1895 4
11/1895 4
02/1896 1
04/1896 3
05/1896 3
08/1896 2
10/1896 1
11/1896 1
12/1896 1
04/1897 2
05/1897 4
09/1897 1
10/1897 2

 109 TOTAL
11/1897
34 meses
2
38
Ubaldino do Amaral 25/11/1897 a 11 meses 11/1897 2
Fontoura 15/11/1898 12/1897 4
01/1898 1
04/1898 2
05/1898 18
09/1898 1
10/1898 6
11/1898 10
TOTAL 11 meses 44
José Cesário de 31/12/1898 a 13 meses 11/1898 1
Faria Alvim 31/01/1900 01/1899 15
03/1899 2
04/1899 8
06/1899 5
09/1899 4
10/1899 12
11/1899 2
12/1899 6
TOTAL 13 meses 55
João Felipe Pereira 06/09/1900 13 meses 09/1900 3
a 10/10/1901 10/1900 8
11/1900 1
12/1900 1
04/1901 4
05/1901 2
09/1901 1
10/1901 1
TOTAL 13 meses 21

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Quadro 2
Distribuição dos vetos por mês (prefeitos efetivos do Distrito
Federal, 1892-1902) (continuação)
Prefeito Mandato Período total de Meses Quantidade
gestão de gestão de vetos
Joaquim Xavier da 11/10/1901 a 11 meses 10/1901 2
Silveira Junior 27/09/1902 11/1901 4
12/1901 2
01/1902 1
02/1902 1
03/1902 3
04/1902 1
05/1902 1
09/1902 1
TOTAL 11 meses 16
Fonte: Boletim da Intendência Municipal do Distrito Federal (1892-1902).
* foram contados apenas os meses completos

No caso das gestões de Henrique Valadares e Werneck de Almeida, a distri-


buição de vetos por mês não acrescenta grande novidade. Ela apenas corrobora a
argumentação de que foram prefeitos que buscaram construir boas relações com
o Conselho. Ambas as gestões são desprovidas de momentos de concentração no

 110
número de vetos. Inclusive, o primeiro veto de Valadares ocorreu somente no seu
quinto mês de gestão (novembro de 1893), sinalizando um início de mandato com
relações bastante tranquilas com os intendentes.
Diferente das anteriores, na gestão de Ubaldino do Amaral, os meses de maio
e novembro de 1898 foram de picos. Nesses dois meses estão concentrados 63,62%
dos vetos interpostos pelo prefeito. Em novembro, todos os vetos ocorreram na
primeira quinzena, pelo fato de o prefeito ter deixado o cargo no dia 15. A con-
centração de vetos no final da gestão permite pensar que sua saída da prefeitura
ocorreu num clima de embate com os membros da casa legislativa. Aprofundando
a análise, vi que as resoluções que beneficiavam de alguma forma o funcionalismo
municipal foram o alvo principal dos vetos de Ubaldino do Amaral. Em maio, seis
das 18 resoluções vetadas e, em novembro, cinco das dez resoluções, diziam res-
peito a tal temática (33,33% e 50%, respectivamente). Mas pode-se dizer que as re-
soluções relativas ao funcionalismo ocuparam o primeiro lugar dos vetos, ao longo
de toda a gestão de Ubaldino do Amaral: 16 das 44 resoluções vetadas, ou 36,36%.
As medidas que beneficiavam o funcionalismo municipal possuíam um largo
espectro: concessão de licença, reintegração no cargo, aposentadoria, contagem
de tempo de serviço etc. Apenas como exemplo do tipo de questão em que prefei-
to e intendentes se envolviam, em 9 de maio de 1898, Ubaldino do Amaral vetou
a resolução que concedia licença, por seis meses, à professora adjunta Obdulia
Carolina Vasconcellos de Loureiro, com todos os vencimentos.11
Para além das demandas do funcionalismo, os vetos interpostos em maio e
novembro de 1898 versavam sobre assuntos como: concessões diversas, ensino
municipal, intervenção em logradouro público, patrimônio municipal, repartições
públicas, transporte de bondes e posturas municipais. Algo, em princípio, mais
substancial para a vida da cidade do que questões que incidiam sobre o destino
dos servidores públicos.

11 Boletim da Intendência Municipal, de abril a junho de 1898, p. 36.

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Na administração do prefeito José Cesário de Faria Alvim também houve momen-


tos de concentração significativa de vetos, sinalizando um acirramento da relação com
os membros do Conselho. Acirramento que ocorre logo em seu primeiro mês à
frente da prefeitura, quando vetou 15 resoluções aprovadas pelos intendentes (ja-
neiro de 1899). Abril e outubro deste ano também foram meses de picos de vetos:
8 e 12, respectivamente. Em apenas três dos 13 meses de sua gestão, estão concen-
trados 63,62% dos vetos.
Durante o mês de janeiro, repetiu-se o padrão de concentração em um de-
terminado assunto, tal como ocorreu na gestão de Ubaldino do Amaral, sendo que
6 das 15 (40%) resoluções vetadas eram relativas a medidas que beneficiavam o
funcionalismo. O mesmo não se verifica em abril e outubro, quando os vetos inter-
postos por Cesário Alvim possuíam temas diversos. As resoluções vetadas diziam
respeito à mudança de denominação de ruas, ao calçamento e ao prolongamento
de logradouro público; à revisão no contrato assinado com empresa de bonde; à
prorrogação no pagamento de impostos; à abertura de crédito extraordinário no
orçamento; a concessões de licença, de reintegração, de indenização e de equipa-
ração de vencimentos do funcionalismo municipal etc.
O fato de os meses de alta concentração de vetos não serem dominados por
um assunto específico é indício de que a gestão de Cesário Alvim apresentava um
padrão de conflito difuso com a casa legislativa municipal, ou seja, que não havia
apenas uma única e grande questão, como no caso das resoluções voltadas para
beneficiar o funcionalismo, como ocorreu com Ubaldino do Amaral. A existência

 111 de um padrão difuso de vetos pode significar um conflito exacerbado com o Con-
selho, ao menos no que diz respeito à produção legislativa, em que qualquer reso-
lução podia ser alvo de veto do prefeito.
Entretanto, a existência e predominância de um assunto específico, como
elemento que estimula uma alta concentração de vetos, voltou à cena na gestão
de João Felipe Pereira. No segundo mês à frente do Executivo (outubro de 1900),
concentram-se 38,09% das resoluções vetadas por esse prefeito, sendo que quatro
dos oito vetos diziam respeito à questão do transporte de bonde. Em 4 de outubro
de 1900, por exemplo, ele vetou a resolução que autorizava renovar o contrato
celebrado em 1.o de julho de 1899 com a Companhia de São Cristóvão.12 Dois dias
depois, em 6 de outubro, vetou duas resoluções que concediam autorização para
construir linhas de bonde.13
Apesar da questão do transporte de bonde ter sido geradora de um aumen-
to de tensão na relação entre o prefeito e os intendentes, ao longo da gestão de
Felipe Pereira ela não se constituiu em um ponto constante de conflito. Em seus
13 meses de administração, excetuando outubro de 1900, as resoluções vetadas
eram relativas a assuntos diversos, tais como: o abastecimento de carne, as con-
cessões públicas, o funcionalismo municipal, o orçamento, as posturas municipais,
as subvenções públicas etc.
O último prefeito efetivo nomeado por Campos Sales, Joaquim Xavier da
Silveira Junior, contrariando o padrão da gestão de seus colegas anteriores, não
possuiu, ao longo de seus onze meses de mandato, nenhuma alta concentração
de vetos. Apesar de não existir um mês com pico de vetos, a administração de
Xavier da Silveira Junior, do mesmo modo que a de Ubaldino do Amaral, também
apresentou uma concentração em torno de medidas que beneficiavam o funcio-
nalismo municipal, perfazendo o total de seis das 16 resoluções vetadas, ou 37,5%.

12 Idem, de abril a junho de 1899, p. 83-86.


13 Cf.: Ibidem, p. 89-90 e p. 87-89.

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Eram resoluções que concediam a aposentadoria com todos os vencimentos, o


aproveitamento de uma pessoa num determinado cargo, a transferência de fun-
cionários, a reintegração e a contagem de tempo de serviço.
Os dados analisados até aqui reforçam o argumento de que as gestões de
Valadares e de Almeida buscaram construir relações senão amistosas, ao menos,
pouco conflituosas com o Conselho, considerando o menor uso do poder de veto.
No caso dos prefeitos posteriores, é possível perceber as nuances de cada ges-
tão. Nenhuma dessas administrações pode ser caracterizada como tendo mantido
sempre uma relação de conflito com a casa legislativa municipal. Ao longo de cada
gestão, o que ocorreu foram períodos de melhores ou piores relações com os in-
tendentes.

Os vetos: o que se veta?


Outra variável importante para compor o quadro das relações existentes
entre os prefeitos e os intendentes do Conselho é o da natureza das matérias ve-
tadas. Ao menos para os meses de alta concentração de vetos, já tivemos uma
prévia dos resultados dessa variável. Resta agora analisar a década estudada para
compreender melhor o tipo de matéria que era alvo das disputas políticas entre
Executivo e Legislativo municipal. A Tabela 2 constrói uma panorâmica das maté-
rias, a partir do exercício do veto do prefeito.
 112
Tabela 2
Natureza das matérias vetadas pelos prefeitos do Distrito Federal (1893-1902)
Matérias Total %
Funcionalismo Municipal 65 28,14
Obras Públicas 29 12,55
Posturas Municipais 27 11,69
Transporte Público 26 11,26
Ensino Municipal 14 6,06
Impostos 12 5,19
Orçamento 8 3,46
Abastecimento 6 2,60
Patrimônio Municipal 6 2,60
Administração Pública 5 2,16
Loteria 5 2,16
Comemorações e Homenagens 3 1,30
Iluminação Pública 3 1,30
Limpeza Urbana 3 1,30
Desconhecidas e Outras 19 8,23
TOTAL 231 100,00
Fonte: Boletim da Intendência Municipal do Distrito Federal (1892-1902)

Pelos resultados, concluo que as medidas que envolviam o funcionalismo mu-


nicipal ocuparam o primeiro lugar nas resoluções vetadas por todos os prefeitos
entre 1893 e 1902. Das 231 resoluções vetadas, nada menos que 65 versavam sobre
o funcionalismo, ou seja, cerca de 1/4. Para um período posterior, que vai de 1909 a
1922, Surama Conde de Sá Pinto também constatou a prevalência das medidas que

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incidiam sobre o funcionalismo público nos vetos interpostos pelos prefeitos. De


347 resoluções vetadas, 244 tratavam do tema, isto é, 60%.14 Isso equivale a dizer
que os prefeitos, de 1892 até 1922, fizeram do tema funcionalismo um dos maio-
res pontos de discórdia da administração da capital federal. O que tem significado
ainda mais expressivo se, como foi exemplificado, for observado o tipo de ques-
tão pontual que a matéria envolvia. Algo absolutamente cotidiano e distante de
ser imaginado como causa de tensões políticas graves e que só ganha significado
quando recebe tratamento quantitativo.
Sob essa classificação, estão agrupados procedimentos que se referem ao
decorrer da vida profissional de um funcionário, tais como a dispensa de concur-
so; a nomeação; a inclusão ou o aproveitamento em certo cargo; a gratificação; a
transferência; a equiparação de vencimentos; a contagem de tempo de serviço; a
licença — sem ou com vencimentos ou ordenado; a aposentadoria — com todos
os vencimentos ou com o ordenado; entre outros. Poucas dessas resoluções iam
além do caso específico de um funcionário, possuindo um caráter mais geral.
As obras públicas, as posturas municipais e o transporte público ocuparam
segundo, terceiro e quarto lugares das resoluções vetadas pelos prefeitos, respec-
tivamente. Em se tratando das obras públicas — 29 vetadas, ou 12,55% —, grande
parte das resoluções dizia respeito a algum tipo de intervenção nas ruas da cidade,
havendo as que concediam ou prorrogavam o prazo estipulado para a abertura
de ruas; as que autorizavam a aceitação de ruas abertas por particulares; as que
mandavam efetuar o calçamento de ruas; as que concediam o direito de desapro-

 113 priação por utilidade pública a particulares, para abrir ou prolongar ruas; as que
mandavam construir bueiros; e, por fim, as que autorizavam a realização da limpe-
za e do embelezamento de certos espaços públicos.
Já as resoluções sobre posturas municipais — 27 vetadas, ou 11,69% — diziam
respeito, por exemplo, à localização dos depósitos de inflamáveis e de explosivos
na cidade; à forma de enterramento nos cemitérios; à proibição de trabalho de
menores de 16 anos em lugares de divertimentos públicos; ao Código de Polícia
municipal; e, principalmente, a regras de construção e reconstrução de edifícios
na cidade. Esse último caso correspondia a nada menos que dez das 27 resoluções
vetadas, ou 37,03%. Eram resoluções que, em sua maioria, criavam exceções ao re-
gulamento geral de construção, como a que permitia construções independentes
de licença e arruação em vários distritos, vetada por Francisco Furquim Werneck
de Almeida, em 12 de setembro de 1895.15
No caso do transporte público, as medidas relacionadas à questão das linhas
de bonde da cidade foram focos constantes de tensão. Para se ter uma ideia de
sua dimensão, das 26 resoluções vetadas, apenas duas fugiam ao tema. Uma delas
autorizava a abertura de concorrência para o serviço de barcas entre a capital fe-
deral e as ilhas de Paquetá e do Governador, e foi vetada por Henrique Valadares,
em 22 de maio de 1894.16
As outras 24 resoluções vetadas praticamente se dividiam em concessões
para construção de linhas de bonde (oito resoluções) e autorizações para a revi-
são, a revogação de parte e a renovação de contratos firmados com companhias
de ferro carril (nove resoluções). Isto é, as decisões sobre concessões e contratos
firmados equivaliam a quase 71% das resoluções vetadas relacionadas ao transpor-
te de bonde. Os outros 29% diziam respeito à alteração de tráfego nas linhas, à

14 Cf.: PINTO, Surama Conde Sá. Op. cit., p. 157.


15 Boletim da Intendência Municipal, de julho a setembro de 1895, p. 19.
16 Idem, de janeiro a junho de 1894, p. 54-55.

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elevação dos preços das passagens, entre outras.


O restante das resoluções vetadas — quase 30% do total — eram relativas à
admissão de alunos, à dispensa de exames de ensino, à subvenção de escolas e à
regulamentação do ensino municipal; à dispensa, à isenção, à criação, à redução e
à prorrogação de pagamento de impostos; à abertura de créditos extraordinários
e suplementares no orçamento municipal e o estorno entre rubricas do orçamen-
to; ao abastecimento de carne verde; ao patrimônio municipal; à criação e à reor-
ganização das repartições públicas; à concessão de extração de loterias; à atribui-
ção de nome a um espaço público; e, por fim, à limpeza das casas particulares e do
espaço público.
Feito todo esse balanço, cabe perguntar. De que maneira o tipo de matérias
vetadas ajuda a compreender as relações entre os prefeitos e os intendentes do
Distrito Federal? A separação por ano das matérias vetadas possibilita olhar com
maior cuidado o período estudado.

Tabela 3
Matérias 1893 1894 1895 1896 1897 1898 1899 1900 1901 1902 T %
Funcionalismo 1 3 3 3 6 19 13 5 6 6 65 28,14
Municipal
Obras Públicas 7 2 2 2 8 6 1 1 29 12,55
Posturas 3 2 4 4 1 1 7 3 1 1 27 11,69

 114
Municipais
Transporte 1 1 4 2 4 8 5 1 26 11,26
Público
Ensino 1 1 1 4 3 1 2 1 14 6,06
Municipal
Impostos 2 2 1 1 1 2 2 1 12 5,19
Orçamentos 1 3 2 2 8 3,46
Abastecimento 1 1 2 1 1 6 2,60
Patrimônio 1 4 1 6 2,60
Municipal
Administração 1 2 1 1 5 2,16
Pública
Loteria 1 1 1 1 1 5 2,16
Comemorações 1 1 1 3 1,30
e Homenagens
Iluminação 2 1 3 1,30
Pública
Limpeza 1 2 3 1,30
Urbana
Desconhecidas 3 4 8 2 1 1 19 8,23
e Outras
TOTAL 16 11 15 12 18 52 54 24 16 13 231 100,00

Natureza das matérias vetadas pelos prefeitos do Distrito Federal (1893-1902)


Fonte: Boletim da Intendência Municipal do Distrito Federal (1892-1902)

Logo se percebe que os anos de 1898 e 1899 foram os de mais alta concen-
tração de vetos: 152 e 54 resoluções vetadas, respectivamente. O que equivale
a 46% do total de resoluções vetadas entre 1893 e 1902. Para se ter dimensão da
aceleração do ritmo de vetos interpostos, basta informar que o volume de resolu-
ções vetadas em 1898 equivale a quase três vezes o ocorrido em 1897 que, até 15

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de novembro, correspondia à gestão de Werneck de Almeida.


Os anos de 1898 e 1899 foram justamente os de intensificação do processo
de enquadramento político da capital federal, que visava, sobretudo, reduzir a atu-
ação das forças políticas locais, por meio do enfraquecimento do Conselho e do
fortalecimento do prefeito. O primeiro ano correspondeu ao final do governo de
Prudente de Morais e o segundo ao início do governo Campos Sales. Como vimos,
esse foi o período em que Ubaldino do Amaral e Cesário Alvim estavam à frente
da prefeitura. No intervalo entre os dois prefeitos, por pouco mais de um mês, a
gestão interina de Luiz Van Erven vetou 41,9% das resoluções apresentadas para
sanção, sinalizando, no que diz respeito aos vetos, uma relação bastante difícil
com o Conselho. A gestão de Van Erven pode ser interpretada como uma prévia do
que aconteceria na de Cesário Alvim.
A observação dos vetos por ano permite também perceber que somente a
partir de 1898 é que as medidas que beneficiavam o funcionalismo passaram a estar
sempre no primeiro lugar das resoluções vetadas. No caso, 49 dos 65 vetos (75,38%)
ocorreram entre 1898 e 1902. Nos anos restantes, excetuando 1894 e 1897, as pre-
valências de vetos referiam-se a medidas de intervenção em logradouro público
(1893), no transporte público (1895) e nas posturas municipais (1895 e 1896).
Retornando às resoluções vetadas sobre as demandas do funcionalismo, vê-se
que elas efetivamente se concentraram nos anos de 1898 e 1899, correspondendo a
32 dos 65 vetos, ou 49,23%. Logo, tudo leva a crer que tais demandas eram as mais ex-
plosivas em se tratando das relações entre o Conselho e os prefeitos Amaral e Alvim.
 115 Uma última variável que permite reunir mais pistas sobre as relações que
existiram entre os prefeitos e o Conselho é a da distribuição dos decretos por ins-
tituição de sanção.

Tabela 4
Divisão dos decretos de acordo com o poder municipal que
os sancionou (D.F., 1892-1902) (Continua)
Prefeito N.o de Total por Sanções do Sanções do
decretos mandato prefeito Conselho
% %
Henrique Valadares 74
Antônio Dias Ferreira* 14
João Baptista Maia de Lacerda* 2
90 82,23 17,77
Francisco Furquim Werneck de 238
Almeida
Joaquim Xavier da Silveira Junior* 44
Honório Gurgel** 13
Joaquim José da Rosa* 42
Eugenio Guilherme de Magalhães 4
Carvalho**
341 69,79 30,21
Ubaldino do Amaral Fontoura 61
Joaquim José da Rosa* 39
Tertuliano da Gama Coelho* 51
Manoel Corrêa de Mello** 10
161 37,89 62,11

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Tabela 4
Divisão dos decretos de acordo com o poder municipal que
os sancionou (D.F., 1892-1902) (Continuação)
Prefeito N.o de Total por Sanções do Sanções do
decretos mandato prefeito Conselho
% %
José Cesário de Faria Alvim 72
72 100 0
João Felipe Pereira 56
56 100 0
Joaquim Xavier da Silveira Junior 77
77 100 0
Fonte: Boletim da Intendência Municipal do Distrito Federal (1892-1902)
* presidente do Conselho Municipal / ** vice-presidente do Conselho Municipal

O artigo 21 da Lei Orgânica de 1892 estabeleceu o prazo máximo de cinco


dias para que o prefeito sancionasse ou opusesse veto por escrito a qualquer reso-
lução aprovada pela maioria dos intendentes. Findo o prazo, caso o prefeito não
se posicionasse, caberia ao presidente do Conselho o ato da sanção. Isto implica
dizer que o legislativo municipal, na figura de seu presidente, também possuía a
atribuição de transformar em lei uma resolução aprovada pelos intendentes. Po-
rém, é extremamente importante frisar que o exercício de tal atribuição pelo pre-
sidente da casa legislativa dependia sempre da ação de abstenção do prefeito.
Logo, o fato de se abster de sancionar ou de vetar uma resolução pode ser enten-
 116
dido como uma forma de delegar tal atribuição ao legislativo.
Na gestão de Werneck de Almeida, 103 das 341 resoluções foram sancionadas
pelo presidente ou pelo vice-presidente do Conselho: 30,21%. O ato de se abster da
sanção ou da oposição de veto ocorreu, sobretudo, quando as resoluções visavam
beneficiar o funcionalismo e intervir nos logradouros públicos, nas obras públicas.
Nada menos que 58 das 103 resoluções (50,31%) sancionadas pela casa legislativa
versavam sobre tais temáticas. Isso pode ajudar a corroborar duas ideias: 1) a de
que os temas do funcionalismo e da intervenção em logradouros são muito caros
para o Conselho (por meio deles, os intendentes podem satisfazer os interesses
de seus possíveis eleitores, travando uma aproximação maior com os habitantes
da cidade); e 2) representam temas passíveis de barganha ou temas conciliadores,
por meio dos quais o prefeito pode estreitar suas relações com o Conselho, permi-
tindo que este decida sobre os temas que lhe são caros.
O prefeito Ubaldino do Amaral foi o que mais se absteve de sancionar ou ve-
tar uma resolução aprovada pelo Conselho. Ao longo de sua administração, 62,11%
das resoluções foram sancionadas pela chefia do legislativo municipal, ou cem de
161, em números absolutos. Comparando com as gestões anteriores, esse prefei-
to se utilizou do recurso da abstenção quase quatro vezes mais do que Henrique
Valadares e mais que o dobro de vezes que Werneck de Almeida. Com tais dados,
é possível afirmar que, ao menos no que diz respeito à produção legislativa, o Con-
selho praticamente governou no período em que Ubaldino do Amaral esteve à
frente da prefeitura.
Similar à gestão de Werneck de Almeida, as medidas relacionadas ao funcio-
nalismo municipal e a obras públicas também ocuparam o primeiro lugar entre as
resoluções sancionadas pela casa legislativa durante a administração de Ubaldino
do Amaral, perfazendo o total de 41 entre cem resoluções.

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Pela divisão dos decretos de acordo com o poder municipal que os sancio-
nou, percebi, no período, a existência de três situações básicas: a de prefeitos que
não delegavam ao Poder Legislativo municipal a atribuição de sancionar resolu-
ções; a de prefeitos que delegavam em parte tal atribuição; e, por fim, a de um
prefeito que delegou a maior parte dessa atribuição ao Conselho.
O ato de delegar uma parcela das atribuições do Executivo para o Legislati-
vo municipal podia significar uma tentativa, por parte dos prefeitos, de manter,
minimamente, boas relações com os intendentes. Principalmente, se a abstenção
fosse uma solução/alternativa encontrada pelos prefeitos para não interferir nas
resoluções do Conselho, para vetá-las ou para sancioná-las. Com isso, dependendo
da situação, os prefeitos terminavam por evitar a criação de impasses intransponí-
veis em suas relações com a casa legislativa.
É preciso lembrar que se abster podia também significar o inverso, ou seja, o
aumento da tensão na relação entre o prefeito e o Conselho. Apenas como exem-
plo, vale o caso do prefeito Barata Ribeiro. Ele deixou passar o prazo de cinco dias
para sancionar ou vetar uma resolução, ficando a cargo do presidente do Conselho
desempenhar tal atribuição. Porém, ela possuía um prazo bastante específico para
que fosse efetivada, e que era menor que os cinco dias legais para a sanção. Logo,
ao deixar o prazo se esgotar, longe de evitar entrar em conflito com os intenden-
tes, o prefeito não só vetou a resolução, que não mais se aplicava, como abriu uma
crise com o Conselho.17

 117 3. O calcanhar de Aquiles das gestões municipais: o


funcionalismo público
O passo seguinte, visando compreender melhor as relações entre os inten-
dentes e o prefeito, é acompanhar as justificativas utilizadas por Werneck de Al-
meida, Ubaldino do Amaral e Cesário Alvim para vetar resoluções, especialmente
aquelas sobre o funcionalismo municipal que, como se demonstrou, são as que
envolvem maiores tensões políticas.
A primeira gestão é a de Francisco Furquim Werneck de Almeida.18 Republica-
no histórico, em 1891 foi eleito como um dos representantes do Distrito Federal na
Câmara dos Deputados, participando da Constituinte e da 1.a Legislatura. Em mar-
ço de 1894, foi reeleito deputado federal para a 2.a Legislatura. Como deputado,
participou da comissão responsável por elaborar um projeto acerca da organiza-
ção municipal do Distrito Federal. Essa comissão era composta por sete deputados
cariocas e possuía Tomas Delfino como relator. Ao longo de sua trajetória política,
fez parte dos quadros do Partido Republicano da Capital Federal (PRCF), ao lado de
políticos como Aristides Lobo e Tomas Delfino e, posteriormente, foi membro da
seção carioca do Partido Republicano Federalista (PRF do DF), fundado em 1893.
Foi no período de domínio político do PRF que o presidente da República
Prudente de Morais nomeou Werneck de Almeida. Aos 46 anos de idade, assumiu
a Prefeitura do Distrito Federal, permanecendo no cargo de 1.o de janeiro de 1895 a

17 Cf.: BASTOS, Ana Marta Rodrigues. Op. Cit., p. 79.


18 Nasceu em 29 de setembro de 1846, em Pati do Alferes, na então Província do Rio de Janeiro. Era filho
de Francisco de Assis e Almeida — doutor em direito, proprietário de terras em Vassouras e deputado no
Império — e Mariana Isabel de Lacerda e Almeida. Bacharelou-se em 1869 pela Faculdade de Medicina
do Rio de Janeiro e exerceu a profissão de médico na cidade. Como parte de sua atividade profissional,
tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina.

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15 de novembro de 1897. Foi exonerado justamente por estar ligado politicamente


a Francisco Glicério, liderança influente do PRF que entrou em rota de colisão con-
tra o presidente Prudente de Morais, logo após o atentado de 1897.
Werneck de Almeida foi o primeiro prefeito pertencente às forças políticas
cariocas. Seu partido — o PRF — possuía então a maioria das cadeiras do Conselho,
o que ajuda a entender o baixo percentual de vetos interpostos pelo prefeito (10%)
e a razoável abstenção do ato de sancionar resoluções (30%). Nesse aspecto, seu
mandato é caracterizado por um amplo compartilhamento da responsabilidade de
aprovar decretos entre Executivo e Legislativo municipal.
Outro indicativo das boas relações entre os poderes municipais pode ser en-
contrado nas razões dos vetos interpostos às resoluções sobre o funcionalismo.
Das 38 resoluções vetadas, apenas nove diziam respeito a esse tema (23,68%). Tais
resoluções eram referentes à concessão de aposentadoria (duas), à inclusão no
quadro de funcionários (três), ao preenchimento do lugar de professor catedrático
(uma), à contagem de tempo de serviço (uma) e à reintegração de ex-funcionários
(duas). O prefeito argumentou ter o Conselho invadido o raio de competência do
Poder Executivo municipal, no que não podia concordar. As razões listadas para
vetar nunca o colocavam numa situação de embate cerrado com os intendentes,
o que aponta para um equilíbrio nas relações entre os dois poderes, e justamente
no momento em que o regime republicano se iniciava.
Seu sucessor, Ubaldino do Amaral Fontoura nasceu na vila da Lapa, então
pertencente à Província de São Paulo, no dia 27 de agosto de 1842. Bacharelou-se
em 1867 pela Faculdade de Direito de São Paulo. Depois de formado, construiu
uma carreira profissional de sucesso. Em 1874, transferiu-se para a cidade do Rio
 118
de Janeiro — então sede da Corte imperial — a convite de Saldanha Marinho, vin-
do a trabalhar em sua banca de advogado. Entre outras atividades, foi professor
na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro e magistrado, chegando ao topo
da carreira em dezembro de 1894, quando o presidente da República, Prudente de
Morais, o nomeou Ministro do Supremo Tribunal Federal. Permaneceu no cargo
por quase um ano e meio, sendo exonerado, a pedido, em 4 de maio de 1896.
Sua atividade legislativa é extensa, tendo sido eleito, em janeiro de 1891, se-
nador pelo estado do Paraná. Durante a Constituinte, presidiu a Comissão dos 21,
responsável pela revisão do projeto da Constituição. Em 30 de dezembro de 1891,
renunciou à sua cadeira no Senado. Contudo, foi reeleito pelo mesmo estado em
15 de junho de 1892. Na Câmara Alta, exerceu os cargos de 1.o secretário e vice-
-presidente, entre maio de 1894 e maio de 1895.
Aos 55 anos de idade, e depois de ter saído do Supremo Tribunal Federal,
assumiu a Prefeitura do Distrito Federal, nomeado por Prudente de Morais. Per-
maneceu no cargo por um ano — de 25 de novembro de 1897 a 15 de novembro
de 1898 —, isto é, até o fim do mandato do presidente da República. Ubaldino do
Amaral, portanto, assumiu o cargo num momento político conturbado, para o que
o seu perfil de homem experiente e maduro muito deve ter contribuído. Ou seja,
apenas 20 dias após o atentado à vida de Prudente de Morais, que vitimou o ma-
rechal Carlos Machado Bittencourt, ministro da Guerra, e no mesmo ano em que a
República destruiu o arraial de Canudos.
Em 2 de março de 1898, na primeira mensagem proferida diante dos inten-
dentes do Distrito Federal, como parte da cerimônia anual de abertura dos traba-
lhos legislativos, Ubaldino do Amaral definiu claramente a conduta que adotaria
enquanto estivesse à frente da prefeitura:

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[...] a ação do Prefeito há de se restringir às funções de obscuríssimo


administrador, mais preocupado com o orçamento do que com a exibi-
ção de programa, tanto mais falaz mais perigoso, quanto mais brilhante.
Cumpri-lhe resistir às pretensões individuais e partidárias, ainda com o
risco de ver-se isolado, servindo de alvo a todos os ataques.19

Esse trecho sinaliza para a mudança ocorrida em relação à gestão anterior.


No lugar de desempenhar uma função “política”, Ubaldino se assumia como um
“administrador”, afastado de pretensões individuais e de programas partidários.
Percebe-se que o prefeito atribuiu à sua forma de agir características absoluta-
mente opostas às de Werneck de Almeida.
O ideal de política como boa administração é fundamental para se entender
o fato de o prefeito ter, ao mesmo tempo, vetado de forma significativa e deixado
o Conselho sancionar mais de 60% das resoluções aprovadas.
Ao se comparar a natureza das resoluções sancionadas pelo prefeito (61) e
pelo presidente do Conselho Municipal (cem), logo se percebe não existir nenhu-
ma matéria que tenha sido exclusiva de um dos poderes municipais. Isto é, am-
bos sancionaram resoluções sobre os mais diversos assuntos: orçamento, ensino
municipal, posturas, administração pública, patrimônio municipal, limpeza urbana
etc. Além disso, as resoluções que diziam respeito ao funcionalismo e à interven-
ção nos logradouros públicos — obras públicas — foram destaques nos trabalhos
dos dois poderes.

 119 O fato de o prefeito delegar ao presidente do Conselho Municipal a maior


parte da atribuição de sancionar as resoluções aprovadas pelos intendentes podia
significar, como já foi dito, uma tentativa de evitar um impasse instransponível
com a casa legislativa. Porém, também podia indicar a transferência da responsabi-
lidade sobre a sanção para o Legislativo, livrando-o do peso das críticas da opinião
pública. Se levarmos em conta o discurso de Ubaldino do Amaral, defendendo o
ideal da política como “administração”, o sentido de transferir tal responsabilida-
de parece o mais verossímil. Logo, como administrador, supostamente distante de
paixões e interesses, deixava para os intendentes não apenas a função de legislar,
mas também, a de “governar”.
No que diz respeito aos vetos, as resoluções sobre o funcionalismo muni-
cipal eram os alvos principais do prefeito Ubaldino do Amaral (17 dos 44 vetos,
ou 38,64%).20 Nas resoluções vetadas, o prefeito sempre lançou mão da mesma
justificativa, argumentando, sobretudo, que tais resoluções violavam os preceitos
estabelecidos pela Lei Orgânica de 1892. Vejamos um caso.
Em 30 de novembro de 1897, o prefeito vetou a resolução que concedia um
ano de licença, com todos os vencimentos, ao 2.o oficial do Arquivo Municipal, João
Nepomuceno Bezerra Cavalcante, para tratar de sua saúde.21 Ubaldino do Amaral
alegava que a resolução era contrária à Lei Orgânica, devido ao fato de o Conselho
invadir as atribuições exclusivas do Poder Executivo municipal, atribuindo licença a
um funcionário em particular. O argumento defendido era o de que a Lei Orgânica
delineava papéis diferenciados para os poderes municipais: o §4o, do art.15, definia
competir ao Conselho Municipal legislar, firmando regras gerais relativas ao fun-
cionalismo; já o §7o, do art.19, definia competir ao prefeito pôr em prática as regras

19 Mensagem do prefeito do Distrito Federal ao Conselho Municipal, 02/03/1898. Boletim da Intendência


Municipal, janeiro a março de 1898, p. 47.
20 Cf.: Boletim da Intendência Municipal (1897-1898).
21 Boletim da Intendência Municipal, julho a dezembro de 1897, p. 118-119.

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gerais, nomeando, suspendendo, licenciando ou demitindo funcionários. Isto é, ao


Conselho cabia desempenhar a função de legislar e ao prefeito a de administrar.
A justificativa de que o Conselho invadia as atribuições exclusivas do Executi-
vo municipal foi utilizada também no momento em que Ubaldino vetou resoluções
relativas à reintegração de ex-funcionários e à contagem de tempo de serviço.
Nessa linha de argumentação, cabia ao prefeito mandar contar o tempo de serviço
prestado pelo funcionário, por ser uma atribuição tipicamente administrativa. Ao
reclamar da invasão das atribuições do Executivo municipal, Ubaldino do Amaral
criticou o Conselho Municipal de forma indireta, lembrando-se das reclamações de
seus antecessores:

Leis de exceção, de privilégio e monopólio, contra as quais muitas vezes


reclamaram os meus antecessores, têm reduzido o Distrito Federal a
uma situação que é para gerar cuidados e apreensões. Não desconheço
o patriotismo e as retas intenções dos legisladores municipais, nem es-
tranho que no tirocínio do sistema atual de governo se dêem vacilações
e desvios.
Penso, porém, que cumpre velar incessantemente pela pureza das ins-
tituições.22

Ao analisar os motivos listados para justificar o veto interposto a cada uma


das resoluções, percebi a presença do ideal de política como administração. O pre-
feito, quase invariavelmente, argumentava que o Conselho invadia as atribuições
exclusivas do Executivo municipal. Nesse argumento, estava presente a perspec-
tiva de caber ao prefeito o papel de administrador da municipalidade e aos inten-
dentes o papel de elaboradores de leis.
 120
A gestão de Ubaldino do Amaral parece marcada por uma relação bastante
tensa com o Conselho Municipal. Os vetos das resoluções sobre o funcionalismo
mostram, a todo o momento, uma efetiva disputa entre os poderes municipais, ao
menos no que se refere à delimitação de competências e de atribuições.
Os embates com o legislativo municipal certamente se avolumaram na ges-
tão de José Cesário de Faria Alvim.23 Tanto no Império quanto na República, ocu-
pou uma série de cargos no Executivo e no Legislativo. Membro do Partido Liberal,
no Segundo Reinado foi eleito deputado provincial (1864-1866) e geral (1867-1868,
1877-1880, 1886-1889) por Minas Gerais. Republicano de última hora, participou do
Governo Provisório, sendo Ministro da Justiça e do Interior, talvez por possuir for-
tes ligações com o marechal Deodoro da Fonseca. Em seguida, foi eleito senador,
também por Minas, para participar dos trabalhos de elaboração da Constituição
republicana. Renunciou à cadeira senatorial para assumir a primeira presidência
constitucional do estado de Minas (18/06/1891-10/02/1892). Antes disso, já havia
ocupado a chefia do estado de Minas (25/11/1889-10/02/1890) e sido presidente da
Província do Rio de Janeiro (1884-1886).
Aos 59 anos de idade e com vasta experiência política, assumiu a Prefeitu-
ra do Distrito Federal, nomeado por seu colega de Governo Provisório, Campos
Sales. Permaneceu no cargo de 31 de dezembro de 1898 a 31 de janeiro de 1900
e, após 13 meses de gestão, renunciou, devido a desavenças com o ministro da
Justiça Epitácio Pessoa.

22 Ibidem, p. 119. Veto à resolução que mandava contar para todos os efeitos e pelo dobro o tempo de
serviço militar em defesa do governo legal, prestado por José Rockert, escrivão da Agência da Candelária.
23 Filho do coronel José Cesário de Faria Alvim e de Thereza Januária Carneiro, nasceu em 7 de junho de
1839, no povoado de Pinheiro, município de Piranga, na então Província de Minas Gerais. Bacharelou-se,
em 1862, pela Faculdade de Direito de São Paulo.

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Cesário Alvim chegou à prefeitura num momento em que a partilha de poder


estabelecida pela Lei Orgânica de 1892 sofria, ao menos no âmbito legal, modificação
significativa. Oito dias antes, o presidente da República Campos Sales sancionou o
Decreto n.o 543, que restringia as atribuições do Conselho Municipal e aumentava
tanto o poder do prefeito como o controle deste por parte do Executivo federal.
Em se tratando da restrição de atribuições, o decreto constituiu-se num duro
golpe para os intendentes. O art. 9.o definia competir exclusivamente ao prefeito
a “iniciativa da despesa, bem como a da criação dos empregos municipais e do
recurso a empréstimos e operações de crédito”. Essa mudança retirava dos inten-
dentes uma das principais moedas que ajudavam na manutenção de suas redes de
influência. Sem poder criar empregos e despesas, teriam que encontrar formas al-
ternativas para responder às demandas de seus representados. Além disso, o Con-
selho também perdeu a atribuição de avaliar uma parte dos vetos opostos pelo
prefeito, o que voltava a ser uma competência exclusiva do Senado Federal. Logo,
a gestão de Cesário Alvim foi a primeira a ensaiar o novo experimento político pelo
qual passavam os poderes municipais. Experimento que tentava fortalecer a figura
do prefeito em detrimento do Conselho.
Os dados quantitativos analisados até aqui mostram que a gestão de Cesário
Alvim na prefeitura foi marcada por uma relação bastante conflituosa com o Con-
selho, tendo o prefeito vetado mais de 40% das resoluções apresentadas para a
sanção. Ao longo de sua gestão, as resoluções que diziam respeito a medidas que
beneficiavam o funcionalismo municipal também foram as mais vetadas (13 dos 55
 121 vetos, ou 23,64%).24
As 13 resoluções vetadas referentes ao funcionalismo não apresentam ne-
nhuma concentração significativa sobre um determinado assunto, sendo relati-
vas à reintegração de ex-funcionário (três), a vencimentos (duas), à concessão
de licença (duas), a aproveitamento em determinado cargo (duas), ao montepio
(duas), à equiparação entre cargos (uma) e à indenização (uma). Quanto às razões
dos vetos apresentadas por Cesário Alvim, elas eram, na maioria das vezes, simila-
res às utilizadas por Ubaldino do Amaral, sendo a acusação de invasão da área de
competência do prefeito central em oito dos 13 vetos.
Como as duas resoluções sobre vencimentos geraram uma imensa disputa
de poder, envolvendo o prefeito Cesário Alvim e os membros do Conselho, só so-
lucionada depois de muitos ataques de ambos os lados, com a decisão oficial dos
senadores, é importante acompanhar o caso mais de perto, mais detidamente.
Em 6 de março de 1899, Cesário Alvim vetou a Indicação do Conselho contrá-
ria à redução de 10% nos vencimentos do funcionalismo.25 Na justificativa do veto,
dirigida aos senadores, o prefeito fez um breve histórico acerca do que o levou a
promulgar o Decreto n.o 123, de 27 de janeiro de 1899, que reduziu em 10% os ven-
cimentos do funcionalismo.
Ao ocupar a chefia da prefeitura, afirmou ter encontrado a municipalidade
numa precária situação financeira, com contas a pagar vencidas, obras paradas,
condenações judiciárias, fama de devedora e três meses de vencimentos atrasa-
dos do funcionalismo. Para reverter essa situação, elaborou um programa de seve-
ra economia, que o credenciou a conseguir um empréstimo vantajoso no Banco da
República. Programa que tinha como ponto central atacar o problema de excesso
de funcionários, diagnosticado pelo prefeito como sendo a causa do desequilíbrio

24 Boletim da Intendência Municipal do Distrito Federal (1898-1900).


25 Cf. o teor da Indicação do Conselho em: Boletim da Intendência Municipal, janeiro a março de 1899, p. 90.

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financeiro, já que o pagamento dos vencimentos consumia quase 2/3 da receita da


municipalidade. Por tudo isso, estabeleceu, como ato do Poder Executivo, a contri-
buição de 10% nos vencimentos dos funcionários, condicionando a sua suspensão
no orçamento de 1900 ao fato de conseguir folga de recursos e restabelecimento
de crédito.
Feito o histórico dos motivos para promulgar o Decreto n.o 123, o prefeito
não perdeu a oportunidade de acusar o Conselho de falta de colaboração para
reverter a precária situação financeira da municipalidade, preferindo ficar do lado
fácil da defesa dos funcionários:

E em tais circunstâncias que o Conselho profere, como a primeira pala-


vra de sua colaboração, que espero, será mais tarde fecunda em bens
para o município, a presente indicação revogatória dos atos do Prefeito
em matéria de tanta magnitude!26

Cesário Alvim defendeu que seu ato estava baseado na autorização, conce-
dida pelo próprio Conselho, de reorganizar as repartições públicas, reduzindo o
pessoal e suprimindo os lugares dispensáveis. Como o fim último dessa autoriza-
ção era o de conter as despesas municipais, sendo a reorganização um processo
moroso, de resultados a longo prazo, decidiu-se por reduzir os vencimentos dos
funcionários, já que reverter a situação financeira era algo inadiável.
Por fim, depois de levantar a questão da competência do Conselho quanto à
criação de despesa, concluiu a justificativa do veto à indicação, fazendo uma crítica
muito ácida aos intendentes, acusando-os de agir em favor de seus próprios inte-
resses, ao invés dos interesses gerais.27
 122
Os 10% de redução nos vencimentos do funcionalismo voltaram a ser discuti-
dos no Conselho em 6 de setembro de 1899, cinco dias depois de o prefeito apre-
sentar a proposta orçamentária de 1900, sem fazer menção de suspender a redu-
ção. Na sessão ordinária, o intendente Leite Ribeiro, o mesmo responsável pela
formulação da indicação vetada em março por Alvim, apresentou o projeto de lei
n.o 108, que anulava o Decreto n.o 123, de 27 de janeiro de 1899.
Antes de iniciar o trâmite legislativo o projeto já possuía o apoio da maioria
dos intendentes, tendo sido assinado por mais sete membros da casa.28 Tal grau de
apoio sinalizava o quanto essa questão era cara ao Conselho, algo que foi ressalta-
do por Leite Ribeiro em seu discurso de apresentação do projeto:

[...] o Conselho Municipal não pode ficar indiferente à questão dos 10%.
Julga preciso terminar de vez essa causa, na qual estão comprometidos
os interesses dos funcionários; já não fala do interesse dos Intendentes,
interesse moral, bem entendido, pelo desprestígio que nessa questão
tem sofrido o Conselho.29

Aceito pela Mesa do Conselho, o projeto foi encaminhado para entrar na or-
dem dos trabalhos. Aprovado sem debates em primeira e em segunda discussão,
somente na terceira, quando Leite Ribeiro fez um histórico da questão, houve um
forte embate com o prefeito.

26 Ibidem, p. 90.
27 Cf.: Ibidem, p. 91.
28 Antônio José Leite Borges, Figueiredo Rocha, Manoel Rodrigues Alves, Mattos Rodrigues, Pereira Braga,
Numa Vieira e Leôncio de Albuquerque.
29 Anais do Conselho Municipal, 2.a sessão ordinária de 01/09 a 30/10/1899, p. 54.

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TENSÃO E CONCILIAÇÃO NA POLÍTICA: O PODER DE VETO E A QUESTÃO...

Em 27 de janeiro de 1899, aproveitando-se do recesso do legislativo munici-


pal, o prefeito Cesário Alvim decretou um ato que reduzia em 10% os vencimentos
do funcionalismo. O texto do decreto trazia a ressalva de que o ato seria submeti-
do à futura deliberação do Conselho. Antes de decidir apresentar uma indicação,
Leite Ribeiro pensou em falar diretamente com o prefeito, para tentar convencê-lo
de suspender a redução dos vencimentos, porém, desistiu de tomar tal atitude.
Segundo ele mesmo:

O orador se achava disposto, nessa ocasião, a ir ao gabinete do Sr. Pre-


feito fazer-lhe ver que o Conselho não poderia, sem quebra de dignida-
de, aprovar aquele ato. Quando, porém, ouviu a leitura da Mensagem
inaugural de S. Ex., o orador se sentiu inibido de levar a efeito aquela
sua resolução diante dos termos da aludida Mensagem que parecia que-
rer dar ao Conselho lições de honestidade.30

Com isso, em 2 de março de 1899, em vez de ir ao prefeito, apresentou uma


indicação, aprovada pela maioria dos intendentes, que declarava sem efeito o ato
do Poder Executivo municipal. Em 6 de março, obviamente, a indicação foi vetada
pelo prefeito. As razões apresentadas por Cesário Alvim agravaram ainda mais a
relação com o Conselho. O Senado Federal devolveu o veto para o prefeito, ale-
gando não poder se posicionar, pelo fato de se tratar de uma indicação em vez de
uma resolução. Porém, alguns senadores deram sinais de que consideravam ilegal
o ato do prefeito. Logo, para obrigar o Senado a se posicionar, Leite Ribeiro deci-
 123 diu transformar a indicação num projeto de lei. No encerramento de seu discurso,
qualificou a ação do prefeito como ditatorial: “O que o orador não pode é deixar
passar sem um veemente protesto o ato ditatorial do Poder Executivo, ato esse
que atenta contra a dignidade do Poder Legislativo Municipal”.31 Em seguida, o
projeto foi aprovado por maioria absoluta de votos dos intendentes.
Em 15 de setembro de 1899, adicionando mais um capítulo ao impasse com
o Conselho, o prefeito Alvim vetou a resolução que anulava o Decreto n.o 123. Nas
razões do veto, argumentou que faltava competência ao Conselho para anular os
atos do Executivo municipal, expedidos no uso legal de suas atribuições: “Assim
procedendo, arvora-se em Juiz supremo do Prefeito, que não lhe é subordinado;
e, a vigorar semelhante doutrina tornar-se-ia o Conselho o único poder administra-
tivo do Distrito, convertendo-se o Prefeito em seu Delegado”.32
O prefeito argumentou que não havia, em nenhuma das leis de organização
do Distrito Federal, a autorização — conferida ao Poder Legislativo municipal —
de invalidar qualquer ato do prefeito, mesmo pressupondo ser contrário às leis em
vigor. Na dúvida sobre a legalidade de qualquer ato do prefeito, defendeu caber
ao Judiciário, em vez do Conselho, o papel de julgar a questão.
Chegando o veto ao Senado, foi encaminhado aos membros da Comissão
de Constituição, Poderes e Diplomacia para interpor parecer. Na sessão de 21 de
setembro de 1899, foi apresentado o parecer da comissão, propondo a rejeição do
veto, assinado pelos senadores Vicente Machado e Pedro Velho. A tônica presente
no parecer era a de que o Executivo municipal invadiu as atribuições do Conselho,
ao se achar competente para legislar.33

30 Ibidem, p. 70.
31 Ibidem, p. 71.
32 Boletim da Intendência Municipal, de julho a setembro de 1899, p. 21.
33 Cf.: Anais do Senado Federal, sessão em 21 de setembro de 1899, p. 191.

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MARCELO DE SOUZA MAGALHÃES

Por se tratar de um assunto já conhecido pela Casa, desde o envio da indica-


ção vetada pelo prefeito, um membro da comissão, o senador Vicente Machado, re-
quereu que o parecer fosse dado para a Ordem do Dia seguinte, sem a necessidade
de aguardar a publicação em avulso. Aprovado o requerimento, o parecer entrou
na Ordem do Dia da sessão de 22 de setembro de 1899. Após uma breve tentativa
infrutífera de adiar a discussão, feita pelo senador Domingos Vicente, começou o
debate, que foi polarizado pelos senadores Coelho e Campos e Vicente Machado.
A discussão entre os senadores circulou em torno da questão do Conselho
ter ou não competência para anular um ato do prefeito considerado ilegal, devido
ao fato de invadir atribuição exclusiva do próprio legislativo municipal. A posição
defendida pelo parecer da Comissão de Constituição, Poderes e Diplomacia foi vi-
toriosa no Senado, reconhecendo o direito do Conselho. Por 35 votos contra seis a
favor do parecer, o veto do prefeito foi rejeitado pelos senadores.
Passados sete meses de conflito entre os intendentes e o prefeito, com trocas
de acusações de ambos os lados e com atribuições de qualificativos nada amistosos,
o Conselho Municipal — que se posicionou a favor do funcionalismo — saiu vitorio-
so, conseguindo a sanção do Decreto n.o 706, de 25 de setembro de 1899, que decla-
rava nulo, para todos os efeitos, o Decreto n.o 123, de 27 de janeiro de 1899.
Ao longo do tempo, como uma das soluções para a obtenção de um equi-
líbrio financeiro do Distrito Federal, os prefeitos, numa espécie de consenso, co-
meçaram a defender as necessidades de reduzir os benefícios atribuídos aos fun-

 124
cionários públicos, de diminuir o próprio número de funcionários e, também, de
reorganizar as repartições municipais, no sentido de torná-las mais modestas e
econômicas. Dentre os que ocuparam o cargo de Prefeito, Barata Ribeiro foi uma
voz dissonante, pelo fato de propor, ao invés da redução, o aumento do número
de funcionários. Qual era o lugar de Ribeiro na municipalidade? Por que essa dife-
rença em relação aos seus sucessores?
Em 1.o de março de 1893, Cândido Barata Ribeiro proferiu sua primeira men-
sagem ao Conselho, que acabaria sendo também a última, pois deixou o cargo
em 25 de maio de 1893, logo após a rejeição de sua indicação pelos membros do
Senado. Na mensagem, argumentou que, devido à implantação da Lei Orgânica,
a administração municipal passava por um período de transição. Isto é, o Conse-
lho de Intendência, instituição provisória criada em 1889 e que perdurou até 1892,
estava sendo substituído pelos poderes Executivo e Legislativo municipais. Por
isso, a lei transferiu diversas atribuições que eram da competência da União para
a municipalidade.
O alargamento do raio de ação da municipalidade — que o prefeito diag-
nosticava como crescente desde 1889, quando se extinguiu a Câmara Municipal
do Império — foi uma das justificativas para não apresentar aos intendentes a
proposta orçamentária de 1893. Outra razão dizia respeito ao argumento de ser a
proposta orçamentária dependente tanto das receitas quanto das despesas que
estavam sendo criadas pelos membros do Conselho Municipal. Os dois argumen-
tos reforçavam a ideia de que não adiantava a prefeitura apresentar uma proposta
orçamentária, tomando como base os valores monetários gastos no ano anterior,
quando a administração municipal era desempenhada pelo Conselho de Intendên-
cia e possuía um número muito menor de atribuições.
A partir do princípio de que a municipalidade passava por um período de
transição institucional, Barata Ribeiro apresentou dois problemas a serem enfren-
tados pelo Conselho Municipal: o de organizar as repartições municipais de acordo

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TENSÃO E CONCILIAÇÃO NA POLÍTICA: O PODER DE VETO E A QUESTÃO...

com as necessidades dos novos serviços e o de suprir a municipalidade com novos


funcionários. Com relação à falta de pessoal, o prefeito citou como exemplo a si-
tuação da Diretoria de Obras, em que cada funcionário ficava responsável por dar
andamento a dezenas de processos.
A mensagem inaugural de Barata Ribeiro ajuda a colocar em perspectiva o
calcanhar de Aquiles das demais gestões municipais. Em pouco tempo de organi-
zação municipal aos moldes da Lei Orgânica de 1892, a questão do funcionalismo
sofreu uma inflexão, deixando de incomodar pela falta e passando a incomodar
pela presença, altamente detectada nas gestões de Ubaldino do Amaral Fontoura
e José Cesário de Faria Alvim. As mensagens dos prefeitos posteriores a Barata
Ribeiro atribuíam ao significativo número de funcionários parte dos males finan-
ceiros enfrentados pela municipalidade. Logo, em apenas uma década, de 1892 a
1902, os funcionários municipais passaram de solução a problema, o que colocava
em guerra o prefeito e os intendentes. A análise minuciosa dos vetos é um cami-
nho para entender as tensões e conciliações na política municipal.

Recebido em 16/05/2013
Aprovado em 10/06/2013

 125

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ARTIGOS
O Trabalho Escravo Contemporâneo
e os Usos da História©*
Rebecca J. Scott**1

Resumo: O uso da palavra “escravidão” para descrever várias formas contemporâ-


neas de exploração suscita questões de definição legal. A escravidão nas Américas
no século dezenove estava ancorada na reivindicação de propriedade sobre pes-
soas, portanto usar o termo para caracterizar abusos modernos, quando nenhum
Estado reconhece mais a propriedade sobre pessoas, pode representar um risco
de anacronismo. Em debates parlamentares recentes, tanto na França quanto no
Brasil, a acusação de anacronismo foi feita pelos opositores do reconhecimento
legal do crime de escravização. Evidências históricas demonstram, entretanto, que
o exercício dos poderes inerentes ao direito de propriedade não necessariamen-
te derivam de um prévio direito legal à propriedade. O controle sobre pessoas,
equivalente à posse, podia ocorrer fora da lei e no entanto ser reconhecido como
propriedade legal após o fato. Na justaposição de um caso de 1810, de Nova Orle-
ans, na Louisiana, com a situação que deu origem à decisão do caso Siliadin contra
França pela Corte Europeia de Direitos Humanos, esse artigo analisa os paralelos
nas circunstâncias de escravidão urbana e os mecanismos através dos quais os
“poderes inerentes ao direito de propriedade” foram exercidos, independente de
qualquer direito de fato. O argumento apoia tanto a reforma do código penal fran-
cês para tornar o crime de escravização explícito, e a emenda proposta à Constitui-
ção brasileira que elevaria as penas para o uso de trabalho escravo.

Palavras-chave: escravidão contemporânea, direitos inerentes ao direito de pro-


priedade, Fran��������������������������������������������������������������������
ça, Brasil, São�����������������������������������������������������
Domingos, Corte Europeia de Direitos Humanos, Silia-
din contra França

Abstract: The use of the word “slavery” to describe various contemporary forms of
exploitation raises questions of legal definition. Slavery in the 19th century Ameri-
cas was rooted in the claim of property in persons, so using the term to character-
ize modern abuses, when no state any longer recognizes the ownership of persons,
seems to pose a risk of anachronism. During recent parliamentary debates in both
France and Brazil, the charge of anachronism has been levied by opponents of
the explicit recognition in law of a criminal offense of enslavement. Historical evi-
dence demonstrates, however, that the exercise of the powers attaching to a right

* Copyright pela autora, 2013.


** Departamento de História e Faculdade de Direito, University of Michigan. Contato: rjscott@umich.edu
1 Agradeço a meus colegas Beatriz Mamigonian, Silvia Hunold Lara, Mariana Dias Paes e Leonardo Barbosa
por sua ajuda na preparação dessa tradução. As fontes documentais e arquivísticas para este ensaio po-
dem ser encontradas no meu artigo “Under Color of Law: Siliadin vs France and the Dynamics of Ensla-
vement in Historical Perspective”. In: Jean Allain (ed.). The Legal Understanding of Slavery: From the His-
torical to the Contemporary. Oxford: Oxford University Press, 2012. Acesso em: http://papers.ssrn.com/
abstract=2292681

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REBECCA J. SCOTT

of ownership did not, in fact, necessarily derive from a prior legal right of owner-
ship. Control over persons, tantamount to possession, could occur quite outside
the law, though it might be cognized as legal ownership after the fact. Juxtaposing
an episode from New Orleans in 1810 with the situation that gave rise to the 2005
European Court of Human Rights decision in Siliadin contra France, the paper ana-
lyzes the parallels in the circumstances of urban slavery, and the mechanisms by
which “powers attaching to a right of ownership” came to be exercised, quite in-
dependent of any actual right. The argument thus supports both the proposed 2013
reforms to the French penal code that would make the crime of enslavement ex-
plicit, and the proposed amendment to the Brazilian Constitution that would raise
the penalties for the use of slave labor.

Keywords: contemporary slavery, powers attaching to the right of ownership,


France, Brazil, Saint-Domingue, European Court of Human Rights, Siliadin v. France

No Brasil, como em outros países, as campanhas contra o trabalho escravo


são frequentemente confrontadas com questões complexas de definição. Alguns
juízes evitam usar a palavra “escravidão”, alegando que esse termo implica con-
dições de sujeição absoluta, em que uma pessoa seria propriedade de outra. É co-
mum encontrar a ideia de que a escravidão envolve grilhões e chicotes, e que a
palavra “escravo” não pode ser aplicada a uma pessoa que é juridicamente livre e

 130
formalmente capaz de sair do lugar em que trabalha.
Os que se opõem à criminalização da exploração do trabalho escravo, e à
expropriação de propriedades em que o uso de trabalho escravo for confirmado,
usam o argumento de que a definição legal de uma situação de escravidão não é
clara e que as medidas previstas pela Proposta de Emenda Constitucional atual-
mente em debate no Senado abririam a possibilidade de abusos por parte de fiscais
ou procuradores. Assim, em vez de examinar os parâmetros bem concretos usados
por procuradores e fiscais que atuam nessa área, preferem apenas sugerir que a
definição de “trabalho escravo” ainda é bastante abstrata e controvertida.
Sabemos todos que esses argumentos são frequentemente movidos pela má
fé e pelo desejo de lucro. Para fazer frente a esses problemas e questionamentos,
no entanto, é importante que juristas e outras pessoas que lidam com essa temáti-
ca levem a sério a questão da definição. Este artigo propõe uma contribuição histó-
rica para esse esforço de esclarecimento.
Como definir “escravidão” ou “trabalho escravo”? O que fazia de alguém
um escravo no século XIX, quando a escravidão era uma instituição reconhecida e
identificada com a propriedade sobre as pessoas? Como definir alguém como es-
cravo, com alguma precisão, no século XXI, quando a propriedade sobre pessoas
não é admitida pela lei? À primeira vista, pode-se imaginar que o termo “escravo”
no século XIX significava uma pessoa sobre a qual havia um verdadeiro direito de
propriedade; e seria, portanto, enganoso usar o termo no século XXI, pois não há
nenhum legítimo direito de propriedade sobre pessoas em um mundo em que a
escravidão foi abolida.
Mas, quando examinamos os textos produzidos pela Liga das Nações e pelas
Nações Unidas, e outros documentos pertinentes ao tema, vemos que a escravidão
é definida no direito internacional do seguinte modo: “o estado ou a condição de um
indivíduo sobre o qual se exercem, total ou parcialmente, alguns ou todos os atribu-
tos do direito de propriedade”. É importante observar que a formulação não fala em

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O TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO E OS USOS DA HISTÓRIA©

«propriedade», mas em «atributos do direito de propriedade». Talvez seja útil pensar


nesta definição como uma fórmula algébrica: o exercício de poderes – abre parên-
teses – inerentes ao direito de propriedade – fecha parênteses – sobre uma pessoa.
Em outras palavras, existem poderes que são inerentes à propriedade e, se
esses poderes são exercidos sobre uma pessoa – mesmo que ela não seja proprie-
dade de ninguém –, a rela����������������������������������������������������������
ção pode��������������������������������������������������
, no direito internacional, ser descrita juridica-
mente como de escravidão. Em algumas decisões recentes, vários tribunais têm
reconhecido a utilidade dessa definição (que data de 1926, feita pela Liga das Na-
ções) e considerado que se pode compreender vários abusos cometidos tanto em
tempos de guerra quanto de paz como escravidão. Mas, se separamos o exercício
desses poderes do título de propriedade, propriamente dito, por que usar a pala-
vra “escravidão”? Não seria um anacronismo, já que a palavra “escravidão”, desde
pelo menos a época do Império Romano, se refere à propriedade de pessoas?
Para demonstrar por que não é assim, é importante tratar de exemplos espe-
cíficos, deixando de lado por um momento as questões abstratas.
Podemos examinar as histórias de duas mulheres, uma chamada Adélaïde
Métayer e outra Henriette Akofa Siliadin, para esclarecer a relação entre escra-
vidão e condição social. Cada uma delas se viu em uma cidade desconhecida, em
busca de segurança e de novas oportunidades, mas foi confrontada com a pers-
pectiva ou a realidade da escravização. Cada uma delas procurou o Judiciário para
garantir uma liberdade duradoura e para obter proteção jurídica para o que elas
acreditavam ser seus direitos.
 131 Essas duas mulheres viveram separadas por 200 anos e por um oceano. Ana-
lisá-las lado a lado pode parecer uma estratégia estranha, pois nós historiadores
evitamos o anacronismo a todo custo. Mas a justaposição de eventos tão distantes
no tempo torna-se inevitável diante do uso dos termos “escravidão” e “trabalho
escravo” nos textos sobre direitos humanos, no discurso público, e, no caso do
Brasil, nos textos sobre o Direito do Trabalho e sobre a Proposta de Emenda Cons-
titucional (PEC) n. 438/01, agora denominada, no Senado, PEC n. 57A/1999.
Vejamos, então, como o direito, no século XIX, discernia se alguém era ou
não escravo, examinando o caso de Adélaïde Métayer. Ela nasceu de mãe escrava,
em 1780, na cidade de Cap Français, São Domingos, na época em que a colônia es-
tava sob o domínio do antigo regime francês. Adélaïde era muito jovem durante a
grande insurreição escrava de 1791. Seu proprietário, um alfaiate chamado Charles
Métayer, fugiu da colônia com sua mulher, provavelmente em 1793, quando Adé-
laïde tinha mais ou menos 13 anos de idade. O casal a manteve como escrava e se
fixou em Nova Iorque.
Enquanto isso, em São Domingos, a revolução colocou fim à escravidão na
colônia francesa, agora sob o poder de Toussaint Louverture, ele mesmo um ex-
-escravo que havia se tornado governador geral e comandante do exército de São
Domingos, ainda sob a bandeira francesa. Louverture ofereceu aos que haviam se
refugiado em outros países a possibilidade de voltarem e retomarem suas proprie-
dades – exceto a propriedade sobre as pessoas, que havia sido abolida. Charles
Métayer e sua mulher retornaram para Cap Français, com Adélaïde.
Parecem ter conseguido que Adélaïde continuasse a trabalhar para eles por
um tempo, talvez protegidos por uma medida que obrigava alguns ex-escravos
domésticos a ficarem empregados com seus antigos donos. Mas Adélaïde, que
agora tinha um filho pequeno, viu que as pessoas ���������������������������������
�������������������������������
sua volta estavam livres e ten-
tou sair da casa dos Métayer. Ela ofereceu dinheiro a eles, para obter um reconheci-
mento por escrito de sua liberdade. Em 1801, Charles Métayer aceitou o dinheiro e

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REBECCA J. SCOTT

deu a Adélaïde um recibo que atestava sua liberdade. Mas Charles não queria deixar
que ela levasse o filho consigo, e disse que o libertaria mais tarde, “graciosamente”.
Adélaïde trabalhou por um tempo como vendedora e viveu com um homem
empregado nos fornos de cal. Porém, quando Napoleão Bonaparte enviou uma
força expedicionária da França para tirar Toussaint Louverture do poder, a colônia
foi tomada pela guerra. A autonomia de Louverture nas relações internacionais e a
insistência em acabar com a escravidão tinham enfurecido Bonaparte, que estava
determinado a retomar o controle direto sobre a colônia e restaurar a escravidão.
As tropas napoleônicas não conseguiram restaurar nem a escravidão, nem o
controle colonial, mas produziram uma catástrofe humana, espalhando a guerra
pelo território e forçando a fuga de dezenas de milhares de pessoas, que se refu-
giaram em portos seguros mais próximos. Adélaïde estava entre esses refugiados.
Ela possuía o papel que atestava sua liberdade, tinha recuperado a custódia de seu
filho, e conseguiu lugar num navio para a Jamaica.
Por volta de 1805, ela chegou a Baracoa, em Cuba. Milhares de refugiados de
São Domingos já tinham fugido diretamente para Cuba em 1803; entre eles vários
dos vizinhos de Adélaïde. Em Cuba, alguns dos refugiados, abusando da vulnerabi-
lidade de outros, haviam conseguido impor o exercício de poderes que correspon-
dem ao direito de propriedade. E, uma vez estabelecida tal relação social, o direito
espanhol simplesmente reconheceu este fato social como prova do direito de pro-
priedade. Os “criados” se tornaram “escravos” e a reescravização foi concluída.
Porém, todas as testemunhas que depuseram no processo de Adélaïde con-
cordavam que ela tinha vivido como mulher livre em Baracoa. Ali, ela tinha dado
à luz duas filhas e, no momento do batismo de cada uma delas, havia mostrado o  132
recibo assinado por Métayer que reconhecia sua “liberdade,” e as meninas haviam
sido batizadas como livres.
Entretanto, em 1808, a guerra na Europa entre a França e a Espanha levou à
expulsão dos refugiados vindos de São Domingos da colônia de Cuba, pois eram
percebidos como “franceses”. Adélaïde juntou-se a uma outra migração força-
da, dessa vez para a Louisiana. Os navios chegaram ao porto de Nova Orleans às
dezenas, levando quase dez mil refugiados de São Domingos como passageiros.
Ainda que a abolição da escravidão em São Domingos tivesse extinguido todo o
direito de propriedade sobre pessoas, a passagem pelas águas do Caribe e do Gol-
fo tinha permitido aos mais poderosos dentre os refugiados impor sua vontade
sobre outros. Uma vez estabelecida tal relação de força, os oficiais da Louisiana
entenderam a situação como escravidão. Assim, no momento em que entraram
na Louisiana, 3.226 pessoas que haviam sido emancipadas pela revolução haitiana,
uma emancipação que fora ratificada pela Assembleia Nacional da França, foram
registradas como escravas.
Mais uma vez, Adélaïde evitou esse destino. Era uma mulher confiante, segu-
ra de si, que já em Cuba desafiava qualquer um que ousasse se referir a ela como es-
crava. Ela e suas três crianças se fixaram na comunidade de refugiados, que incluía
gente que ela conhecia desde o tempo em que vivia em Cap Français. Um deles era
um alfaiate francês chamado Louis Noret, que havia sido sócio do antigo senhor de
Adélaïde. Ela tinha confiança em Noret, tanto que deu o recibo de Charles Métayer
que provava sua liberdade para que ele o guardasse em lugar seguro. Em princí-
pio, parecia lógico: Noret parecia um homem branco honesto que poderia levar a
prova de sua liberdade para as autoridades, em caso de necessidade. Na prática,
entretanto, não foi uma boa ideia.
Em março de 1810, o alfaiate Noret ajuizou uma ação e, afirmando que a fa-
milia do antigo senhor de Adélaïde tinha uma dívida com ele, pediu permissão para

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O TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO E OS USOS DA HISTÓRIA©

apreender qualquer “propriedade” da família Métayer que pudesse ser encontra-


da em Nova Orleans. Ele conseguiu a autorização e, junto com o xerife, foi ao alo-
jamento de Adélaïde e apreendeu-a com suas três crianças.
Nas semanas seguintes, o jornal local publicou um anúncio dizendo que Adé-
laïde e seus filhos seriam leiloados nos degraus do Café da Bolsa, em 28 de maio
de 1810, para liquidação da dívida no processo de Noret contra Métayer. No último
minuto, Adélaïde conseguiu obter os serviços de um advogado e entrou com um
processo contra Noret para suspender sua apreensão.
Nesse ponto é que chegamos bem perto da questão de como o estatuto
de escravo foi julgado — ou seja, como o direito determinava se uma pessoa
era escrava ou livre. O advogado de Adélaïde não argumentou que ela era livre
como resultado da revolução haitiana e da abolição da escravidão pela Assembleia
Nacional francesa, que tinha ���������������������������������������������������
extinguido todo o direito de propriedade sobre pes-
soas. Essa abolição era bem conhecida de todos, mas na cidade de Nova Orleans,
onde a posse escrava era generalizada, seria imprudente defender a liberdade
concedida por Toussaint Louverture e seu exército revolucionário de ex-escravos.
Em vez disso, o advogado apresentou como prova de sua liberdade uma cópia do
recibo que Charles Métayer havia dado a Adélaïde quando ela pagou pelo fim dos
serviços que ele lhe exigia.
Mas o recibo era datado de 1801… e que idade tinha seu filho? Adélaïde pri-
meiro tentou argumentar que o menino tinha nove anos, tendo nascido, portanto,
quando ela já era livre, depois de obter o recibo que apresentava como um “papel
 133 de liberdade”. Depois, admitiu que a criança tinha 11 anos e tinha nascido antes da
data do papel de liberdade.
A venda de Adélaïde e de suas filhas foi adiada enquanto o juiz julgava sua
reivindicação de liberdade. O menino, no entanto, como estava previsto, foi posto
em leilão. Nascido livre depois da abolição em São Domingos, o filho de Adélaïde
foi considerado escravo em Louisiana porque sua mãe não tinha nenhum docu-
mento que mencionasse especificamente o seu nome, atestando sua liberdade.
Como a venda do garoto acabou cobrindo a dívida que Noret tinha declara-
do, o caso de Adélaïde contra Noret não foi julgado. Uma vez que a dívida foi paga,
o processo judicial ficou parado. Adélaïde e suas filhas voltaram para casa, mas seu
estatuto ficou sem definição.
Mesmo assim, quando em 1816 Adélaïde deu à luz outro menino, no registro
do batismo ela aparece de novo como uma “mulata livre.” No entanto, já que a
possibilidade de reivindicar o direito de propriedade sobre Adélaïde tinha dado
dinheiro a Noret uma vez, com a venda do filho mais velho, Noret estava decidido
a tentar novamente. Depois de localizar o herdeiro do antigo dono de Adélaïde
e conseguir dele uma procuração, Noret recomeçou sua campanha para contro-
lar Adélaïde. Ajuizou um processo em que reclamava a propriedade sobre ela, em
nome do herdeiro de Charles Métayer.
É fácil constatar como é complexa a questão do estatuto de Adélaïde. Ela vivia
como mulher livre, mas era confrontada por pessoas que atuavam como proprietá-
rios dela, sem que tivessem qualquer título de propriedade — pois toda a proprie-
dade sobre pessoas fora abolida em 1794, em São Domingos, jurisdição de onde
eles todos tinham vindo, tanto os supostos proprietários como a suposta escrava.
Adélaïde vivia no período clássico da escravidão, mas existia em algum lugar
dessa cena “um verdadeiro direito de propriedade” sobre Adélaïde? E, mais impor-
tante, havia um legítimo direito de propriedade sobre os 3.226 refugiados de São
Domingos, que eram todos livres segundo a lei francesa desde a década de 1790,

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REBECCA J. SCOTT

mas que haviam sido reescravizados na chegada a Cuba ou na chegada a Nova Orle-
ans? Esses três mil e tantos homens e mulheres foram mantidos como escravos. Os
poderes inerentes ao direito de propriedade foram exercidos sobre eles, tenha sido
esse direito de propriedade (em algum sentido) válido ou falso, reconhecido ou não.
Deixemos de lado por um momento o caso de Adélaïde Métayer, para dar-
mos uma olhada rápida no caso de Henriette Siliadin, ocorrido mais de 180 anos
depois — um caso que envolve a jurisprudência internacional de direitos humanos.
Iwa Akofa Siliadin nasceu no Togo, na África Ocidental. Tinha 15 anos em
1994, quando a irmã de uma amiga da família ofereceu-se para levá-la para Paris,
prometendo matriculá-la na escola e ajuda para a obtenção do visto de residência.
Iwa Akofa era uma adolescente e sua família tinha dificuldades; a perspectiva de ir
para Paris era interessante. Ela acompanhou a mulher e entrou na França com um
visto de turista, para uma estadia curta.
Logo ficou claro, entretanto, que a oferta de matrícula na escola tinha sido
uma artimanha. A mulher colocou Iwa Akofa, agora chamada de Henriette, para
trabalhar como babá e para limpar a casa. As coisas pioraram quando essa conhe-
cida “emprestou” Henriette para outra família, para realizar os mesmos afazeres.
A nova família a mantinha sob restrições ainda maiores e sob rígida vigilância
no apartamento em que moravam em Paris. Confiscou seu passaporte e amea-
çou-a dizendo que a polícia a prenderia se ela tentasse fugir. De acordo com os
registros dos processos judiciais feitos posteriormente, Henriette era obrigada a
trabalhar das sete e meia da manhã até dez e meia da noite, todos os dias da se-
mana, sem folga. Eles lhe davam pouca comida — ela acabou ficando anêmica — e  134
proibiam-na de falar com qualquer pessoa fora da família. Ela dormia em um col-
chão no chão, no quarto do bebê, e nunca recebeu pagamento.
No início, Henriette não tinha ideia da possibilidade de questionar as
circunstâncias em que vivia, ou como poderia fazê-lo. Ela era intimidada pelo casal
que a controlava e não conseguiu obter ajuda de um tio, a quem recorreu uma vez.
A família francesa
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lhe dizia sempre que, por não ter papéis, por não possuir docu-
mentos, a polícia podia prendê-la se ela tentasse reclamar de sua situação.
Depois de quase quatro anos vivendo nessas condições, ela aproveitou o en-
contro com uma vizinha para pedir ajuda. A vizinha não tinha certeza do que pode-
ria ser feito. Naquele ano de 1998, porém, a França celebrava 150 anos da abolição
definitiva da escravidão no império francês (ocorrida em 1848) e a vizinha viu nos
jornais a referência ao Comitê Contra a Escravidão Moderna. Ela contatou, então,
o comitê, e a polícia apareceu na porta da família para investigar. Em 1999 iniciou-
-se uma sequência de processos que duraram quase tanto quanto os de Adélaïde,
dois séculos antes. O julgamento da acusação contra o casal parisiense baseou-se
em dois artigos do Código Penal francês (225-13 e 225-14), um que tornava ilegal
extrair trabalho não remunerado ou mal remunerado de uma pessoa vulnerável
ou dependente; e outro que tornava um crime sujeitar uma pessoa a condições de
vida ou trabalho incompatíveis com a dignidade humana.
O juiz rejeitou a acusação de imposição de condições contrárias à dignidade
humana, argumentando a insuficiência dos testemunhos para provar tal ponto.
Mas condenou o casal por explorar uma pessoa vulnerável — nesse caso, menor
de idade, estrangeira, cujo passaporte havia sido confiscado. O casal parisiense,
senhor e senhora Bardet, foi condenado à prisão. Eles recorreram da sentença e
conseguiram que ela fosse reformada, pois os juízes consideraram que Henriette
não era assim tão vulnerável — eles argumentaram que, como ela falava francês,

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O TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO E OS USOS DA HISTÓRIA©

poderia ter usado um telefone público para pedir ajuda. Eles tomaram cada indício
de mobilidade como evidência contra a acusação de exploração.
Restou apenas uma ação civil por salários atrasados, por meio da qual Hen-
riette recebeu o valor equivalente em salários pelo tempo que trabalhou, com um
complemento para recompensar seu trabalho nos dias de folga. Foi nesse ponto
que o Comitê Contra a Escravidão Moderna levou o caso a julgamento na Corte
Europeia de Direitos Humanos, acusando a França de falta de cumprimento do
artigo quarto da Convenção Europeia de Direitos Humanos, que obriga as nações-
-membro a proteger as pessoas sob sua jurisdição contra a escravidão e a servidão.
É interessante observar que pareceu difícil à Corte Europeia decidir como
avaliar a situação. Eles não duvidaram dos registros de trabalho não remunerado,
das ameaças e do confisco dos documentos de Henriette. Mas os juízes rejeitaram
o argumento de que as condições em que a moça trabalhava eram equivalentes à
escravidão. Eles acharam que, para chamar isso de escravidão, teria que ter havido
“um verdadeiro direito de propriedade” sobre ela, com a redução da pessoa ao
estatuto de objeto.
Mas a servidão, tanto quanto a escravidão, é proibida sob o artigo quarto da
Convenção Europeia, e a corte julgou o caso como sendo de servidão. A decisão
final repreendeu a França por deixar de estabelecer um mecanismo, em sua legis-
lação criminal, que estabelecesse penalidades efetivas para a ação de manter uma
pessoa em servidão.
Esses dois casos mostram que, historicamente, o termo “escravo” podia
 135 referir-se tanto à condição de uma pessoa (submetida ao poder de outra pessoa)
quanto ao seu estatuto (reconhecida pelo direito como propriedade). A condi-
ção de Adélaïde Métayer em Nova Orleans era de mulher livre; Louis Noret ten-
tou mudar essa condição, argumentando que seu verdadeiro estatuto legal era
de escrava. Arregimentou testemunhas que declararam ter visto Adélaïde na casa
de Charles Métayer 16 anos antes, em São Domingos, e que achavam ser ela uma
“escrava”, nesse momento. Na república francesa em 1998, o estatuto de Henriet-
te Akofa Siliadin era de mulher livre, porque evidentemente no século XX já não
existia o estatuto de escrava. Essa mulher livre, entretanto, havia se tornado tam-
bém, por meio da ação de outros, uma imigrante ilegal, vivendo numa condição de
servidão. O senhor e a senhora Bardet exerceram sobre ela uma série de poderes
que reconhecemos: extração de trabalho não remunerado, proibição de ir e vir
com autonomia etc.
No século XIX, os advogados de Louis Noret e, em seguida, de Pierre Mé-
tayer quiseram demonstrar que havia um direito de propriedade sobre Adélaïde,
herdado pelo filho do seu antigo dono, que fazia dela uma pessoa com o estatuto
de escrava. Os advogados do casal parisiense no século XX, ao contrário, não qui-
seram e não puderam demonstrar um direito de propriedade sobre Henriette. Foi
o procurador quem quis mostrar que a moça havia sido escravizada, ou sujeita à
servidão, para poder culpar o casal de um crime.
É importante notar que, nos dois casos, a categorização legal da pessoa como
escrava derivou da sua condição. Em 1818, a ficção legal de propriedade sobre uma
pessoa foi reivindicada porque Adélaïde parece ter permanecido no poder da fa-
mília Métayer quando eles moravam todos em São Domingos. A abolição que lhe
conferiu liberdade formal foi ignorada. Em 2005, a condenação da França pela Cor-
te Europeia – mesmo que o abuso de Henriette tenha sido considerado “servidão”
em vez de “escravidão” — dependeu das condições a que ela foi submetida e não
de seu estatuto formal.

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REBECCA J. SCOTT

Então, quando confrontarmos o argumento de que a “verdadeira” definição


de escravidão é “ter propriedade sobre uma pessoa” ou, nas palavras de um ma-
gistrado, ter “total sujeição do indivíduo ao poder do agente do crime”, podemos
responder que nem mesmo na época da escravidão legal a necessidade de provar
a propriedade existiu. O exercício de um domínio senhorial é que foi considerado
como evidência de que a pessoa submetida a esse domínio era escrava. O suposto
“direito de propriedade” frequentemente vinha depois do exercício dos “pode-
res” que correspondiam a um tal direito — não o inverso.
Diante dos refugiados que desembarcaram em Nova Orleans, o prefeito da
cidade designou milhares dessas pessoas como propriedade de outras milhares de
pessoas, sem a menor prova de um “verdadeiro direito de propriedade.” A força e
a condição social foram fatos sociais, aos quais o direito logo depois deu um nome:
propriedade.
Além das conclusões teóricas que podemos tirar dessas duas histórias, elas
também têm epílogos. Em 1818, o processo contra Adélaïde Métayer voltou pela
segunda vez à Corte Suprema da Louisiana. Pierre Métayer procurava a ajuda do
Estado para que Adélaïde fosse posta em seu poder, porque ela se recusava a re-
conhecer que era sua escrava. Desta vez, de maneira surpreendente, o presiden-
te da corte, respondendo aos argumentos do advogado de Adélaïde, invocou os
textos sobre a escravidão codificados no tempo de Afonso, o Sábio, na Espanha
medieval. Antes de a Louisiana ser um território dos Estados Unidos, tinha sido
uma colônia francesa e, antes disso, uma colônia espanhola. Poder-se-ia dizer, por-
tanto, que as cláusulas que não tinham sido explicitamente revogadas pela França
ou pelos Estados Unidos ainda estavam em vigor.
 136
A Lei das Siete Partidas considerava que a escravidão estava sujeita à pres-
crição, isto é, que o direito de propriedade sobre uma pessoa prescrevia, era ex-
tinto, caso não fosse exercido. Um escravo que vivesse de boa fé como livre por
dez anos no mesmo país que seu senhor seria considerado livre; e um escravo que
vivesse de boa fé por 20 anos em um país diferente daquele onde vivia o senhor
também seria considerado livre.
O juiz na Louisiana em 1818 não reconheceu a abolição da escravidão duran-
te a Revolução Haitiana como capaz de tornar livre uma mulher em Nova Orleans
— isso teria emancipado mais de três mil pessoas e ele não poderia fazer isso.
Mas ele considerou que Adélaïde tinha vivido como livre, de boa fé, desde aquela
época. Se contarmos o tempo entre 1794, quando a França ratificou o decreto de
abolição de São Domingos, e 1818, quando o juiz deliberou sobre o caso, são 24
anos: quatro a mais do que o necessário para julgar alguém livre com base na Lei
das Sete Partidas de Afonso, o Sábio.
No final da história, a condição de Adélaïde como mulher livre — algo que
ela conseguiu defender com unhas e dentes contra o alfaiate Noret — levou a
uma sentença que afirmava seu estatuto jurídico de mulher livre. Ela e suas três
crianças mais novas seriam, dali em diante, livres. O menino mais velho, no entan-
to, tinha desaparecido e sido engolido pelo mercado de escravos de Nova Orleans
oito anos antes.
Felizmente, o caso de Henriette Akofa também tem um epílogo. Ela vive ago-
ra na França —casada e mãe de filhos —, com visto de residência, e trabalha como
cuidadora. Agora, em 2013, a Assembleia Nacional da França está considerando
uma modificação do código penal que pretende criminalizar a manutenção de uma
pessoa em condições de servidão ou escravidão.

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O TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO E OS USOS DA HISTÓRIA©

Se essas histórias mostram a complexidade da relação entre condição social


e estatuto legal, tanto no passado como no presente, também mostram a impor-
tância da consciência de direitos. Nesse sentido, somos todos herdeiros das lutas
de mulheres como Adélaïde e Henriette, que mobilizaram sua própria consciência
de um direito à dignidade para forçar a justiça a rejeitar que sobre elas se exerces-
se o que o advogado de Adélaïde chamou de “poderes ilícitos”.
A definição de escravidão adotada pelo ordenamento jurídico de cada país se
apoia, necessariamente, em tradições legais nacionais e pode ser mais abrangente
do que aquela estabelecida no direito internacional. O artigo do código criminal
francês que proíbe a imposição de condições de vida ou trabalho incompatíveis
com a dignidade humana não foi suficiente para proteger Henriette Siliadin con-
tra a escravização, em parte porque os juízes fizeram uma interpretação estreita
dele. A legislação brasileira, em contraste, é baseada na combinação da garantia
à dignidade humana presente na Constituição Federal de 1988, com medidas de
proteção aos direitos trabalhistas já consolidadas, e assim constitui uma definição
muito efetiva de trabalho escravo. A demanda por dignidade tem estado entre as
principais demandas sociais dos trabalhadores em vários territórios atlânticos e
conecta as lutas de hoje àquelas empreendidas sob a escravidão formal e nos anos
que se seguiram à abolição.

 137 Recebido em 10/07/2013


Aprovado em 20/07/2013

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Primer anarquismo español y cultura
obrera (1868-1910).
El peso de la subordinación a la
defensa de la identidad obrera.
Michel Ralle*

Resumo: As interpretações particulares dos grandes temas libertários por parte


dos antiautoritários espanhóis se apoiaram nas elaborações sociais e discursivas
dos coletivos operários. Iniciativas de organização e modelos de defesa levaram a
verdadeiras construções ideológicas que deram um caráter totalmente operário às
propostas habituais do anarquismo bakuninista. Tanto a exaltação da organização
concebida como fim em si mesmo como a reticência em propor a greve geral
foram duradouras. O objetivo essencial continuou sendo a defesa prioritária da
identidade operária e de suas formas de presença social. Até nos grandes conflitos
dos primeiros anos do século XX são visíveis as tensões entre estas interpretações
e a visão libertária de mudança social, mais ideológica e mais radical.

Palavras chave: anarquismo espanhol, cultura operária, greve geral.

Resumen: Las interpretaciones particulares de los grandes temas libertarios por los
antiautoritarios españoles se apoyaron en las elaboraciones sociales y discursivas
de los colectivos obreros. Iniciativas de organización y modelos de defensa
llevaron a unas verdaderas construcciones ideológicas que dieron una tonalidad
totalmente obrerista a las propuestas habituales del anarquismo bakuninista.
Fueron duraderas tanto la exaltación de la organización concebida como fin en sí
mismo como la reticencia a proponer la huelga general. El objetivo esencial siguió
siendo la defensa prioritaria de la identidad obrera y de sus formas de presencia
social. Hasta en los grandes conflictos de los primeros años del siglo XX son visibles
las tensiones con la visión libertaria, más ideológica y más radical, del cambio social.

Palabras clave: anarquismo español, cultura obrera, huelga general.

Atribuir un papel significativo a la cultura política obrera en la elaboración del


primer anarquismo español es bastante menos frecuente que considerarlo como
una consecuencia de la situación sociopolítica de los sectores populares. Una gran
parte de la historiografía suele explicar la excepcional presencia de la corriente
libertaria durante bastante más que la mitad de un siglo – entre 1870 y el fin, en
1939, de la guerra civil1 – por un contexto histórico en el que se combinarían el

* Professor da Université de Paris IV (Sorbonne).


1 Por supuesto, en las condiciones de la represión franquista, el anarquismo continuó a tener presencia
hasta principios de los años 1950, al menos.

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MICHEL RALLE

retraso del desarrollo industrial y el desfase de las clases populares con respecto a
los intentos de establecer un régimen representativo y una forma estatal similares
a los de los grandes paises de Europa. El cambio económico posterior a la crisis de
la monarquía absoluta de Fernando VII (1814-1833) proporciona un primer nivel de
explicaciones. En España el proceso industrializador fue tardío y su impacto desigual
en las distintas partes del territorio. Los colectivos obreros globalmente afectados
pero empleados a menudo en formas trabajo de tipo semiindustrial o artesanal, se
hubieran reconocido en la defensa de la autonomía individual y colectiva propia
de los proyectos ácratas. Pero sólo con determinantes de orden económico
difícilmente se explicaría que en Cataluña, único conjunto industrializado antes de
los años 1880, se dieran a la vez actitudes reformistas, las de una precoz federación
de los obreros del textil, las llamadas «  Tres Clases de Vapor  », y una influencia
libertaria en sectores significativos del trabajo, entre ellos los oficios. De hecho, las
interpretaciones recurren a menudo a la historia política subrayando en particular
el papel posible del tipo de republicanismo que se formó en España, con un peso
importante de la variante federal, y, a veces, el del antiestatismo de las capas
populares. Ambos serían significativos tanto de las dificultades para construir un
estado de apariencias liberales como de la poca capacidad de integración de los
componentes de orden democrático, los cuales, a pesar del desgaste de la forma
monárquica autoritaria –cae Isabel II con la « revolución » de septiembre de 1868–,
fueron perdiendo, de modo algo paradójico, parte de su poder de convicción en
la opinión popular urbana. Agotados, durante los años 1868-1872, los intentos de
establecer una forma monárquica representativa, una breve república, proclamada
en febrero de 1873, no consiguió evitar, unos meses después, el regreso, por la vía  140
de un pronunciamiento militar, de un tipo de monarquía que, igual que la de Isabel II,
eludía gran parte de los mecanismos de representación que formalmente admitía2.
No es la intención del presente estudio proponer una interpretación de las causas
generales del éxito del anarquismo en España –se aludirá desde luego a algunas–
sino subrayar que la cultura sociopolítica de los colectivos obreros contribuyó
mucho más de lo que se suele atribuirle en la elaboración de las primeras formas
del proyecto anarquista. Al contrario de lo que sostienen muchas evocaciones de
la corriente libertaria durante el « sexenio democrático » (1868-1874)3, no fueron
ni sencillas ni pasajeras.
Igual que en otros paises la primera elaboración anarquista que se conoció
en España fue la bakuninista. Se debió a los tan mencionados primeros contactos,
después de septiembre de 1868, con unos núcleos obreros activos y preocupados
por hacerse socialmente más visibles mientras rompían con los republicanismos4.
Planteando la « emancipación social » a través de un choque revolucionario la
lógica del bakuninismo, tal como se percibía, parecía prolongar los temas del
republicanismo federal entre aquellos obreros que ahora se apartaban de una vía
en la que los cambios sólo afectarían las instituciones políticas. En un contexto
en el que se exaltaba la virtud de la « asociación », una federación española de

2 El marco político definitivo lo fija en la constitución de 1876 el político conservador Antonio Cánovas.
3 La historiografía y la memoria histórica suelen usar la expresión para llamar el periodo comprendido entre
la caida de Isabel II, en septiembre de 1868, y el golpe de estado del general Pavía, en enero de 1874, el cual
señala el inicio del proceso « restaurador ».
4 El trabajo más preciso sobre los contactos con el bakuninista italiano Fanelli en la obra de M. Nettlau
editada por R. Lamberet, La Première Internationale en Espagne (1868-1886), Dordrecht, D. Reidel Publishing
Company, 1969. Importante también el libro pionero de MARTÍ, Cassimir. Orígenes del anarquismo en
España, Barcelona : editorial Teide, 1959. Se citan en el artículo el libro de memorias de LORENZO, Anselmo.
El proletariado militante, reed. por J. Álvarez Junco. Bilbao: ed. ZYX, 1974, y la síntesis de TERMES, J.
Anarquismo y sindicalismo en España. La Primera Internacional (1864-1881). Barcelona: ed. Ariel, 1972.

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

la Asociación internacional de trabajadores (AIT), la « Primera Internacional »,


vino a añadir a la función de defensa económica de las secciones que la formaron la
posibilidad de difundir la temática de la « revolución social ». Constituida en el « primer
congreso obrero », en la Barcelona de junio 1870, la « federación regional española »
(FRE) de la AIT hizo mucho mayor y definitiva la distancia entre los colectivos obreros
militantes y los objetivos políticos de las distintas variantes republicanas5.

La Federación española de la Primera internacional :


una recepción matizada del bakuninismo
Es lógica la insistencia de muchos estudios en la importancia de la temática
ideológica de la corriente republicana para explicar la recepción del bakuninismo en
España. Su variante federal había heredado parte del antiestatismo de Proudhon
–Pi y Margall, el dirigente más conocido, había sido su principal traductor6. Pero la
debilidad sociopolíotica de los republicanos dejaba insatisfechos a los colectivos
obreros que también esperaban efectos sociales de un cambio político7. Su dificultad
para dibujar unos perspectivas sociales en un momento de mayor actividad obrera
contribuyó a su desapego y a la receptividad de unos cuantos, más radicales, al
tema de la revolución social. En lo que esa vino a significar parecen haber sido
fundamentales las formas de la inserción social de la sensibilidad libertaria. En
la perspectiva bakuninista los medios obreros podían constituir una base social
 141 decisiva en su objetivo de separación con lo político. Era lógico además que los
primeros núcleos anarquizantes percibieran el interés de los modelos de presencia
propios de las prácticas de defensa de los colectivos asalariados –se habían
venido elaborando desde una década. Son muy perceptibles en las propuestas de
organización y de acción de la FRE. Éstas, además de favorecer la separación radical
con lo « político », orientaron el proyecto bakuninista en un sentido obrerista que
tendió a modificarlo. Integradas por la federación, la cual se inscribía, al menos de
manera implícita, en la perspectiva global de una revolución social, le dieron una
visibilidad sociopolítica particular.
Es notable que el congreso, además de rechazar la « participación política »,
también aprobara, después de un largo debate, unas modalidades precisas de
« defensa económica »8. No fueron sólo un intento, frustrado como lo veremos,
de aproximar la actividad de tipo sindical de la FRE a lo que creía ser el proyecto
bakuninista. En la combinación entre defensa social y objetivos políticos
revolucionarios, el elemento central del modelo de organización de la FRE fue
una huelga basada en la constitución de « cajas de resistencia », las cuales habían
de depender de una caja central cuyo papel consistiría en favorecer o en templar
las huelgas para poder dirigirlas en un momento oportuno, aunque lejano, hacia
el enfrentamiento decisivo capaz de provocar la frecuentemente invocada
« liquidación social ». Aunque el bakuninismo no parecía haber sido dejado de
lado, las iniciativas de huelgas de las seccionnes se encontraron subordinadas
a la cuestión de las reservas financieras de la federación la cual construyó un

5 Regional » para « española » o « nacional » remite a la presencia de la temática bakuninista


6 Lista de las traducciones de Pi y Margall entre 1869 y 1972 en JUNCO, José Álvarez., La ideología política del
anarquismo español (1868-1910). Madrid: ed. Siglo XXI, 1976, p. 363.
7 El pasaje del federalismo al bakuninismo en ARRANZ, Luiz; ELORZA, Antonio. trabajadores: la definición
bakuninista de la clase obrera madrileña ». En: Revista de Trabajo. Madrid, n 52, p 353-452.
8 Los debates en la edición de las actas del congreso de ABERLOA, V. M. I congreso obrero español, Madrid:
ed. ZYX, 1972, p. 134-198.

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 139-170


MICHEL RALLE

discurso justificativo para no declarar reglamentarios la mayoría de los intentos


de las secciones de llevar conflictos de trabajo. Insistía en la prioridad de proteger
la organización del riesgo de desaparecer por falta de fondos –la capacidad de
acumularlos constituía una de las señales de su legitimidad. En la medida en que
las instancias dirigentes aplicaron de modo cada vez más nítido el modelo hasta el
punto de ver con la mayor desconfianza el aumento de las movilizaciones sociales,
la línea de la FRE tendió a ser antagónica con los llamamientos bakuninistas a que
los conflictos puntuales se transformaran en decisivos.
Muchos trabajos consideran que el modelo de huelga de la FRE sólo fue
ocasional y pasajero. Mencionan poco la continuidad de los esfuerzos de la
federación para disuadir a la gran mayoría de los huelguistas concretos que le
pidieron ayuda en 1872 y 1873, años de claro auge de los conflictos9. Pero el modelo
de acción con caja de resistencia no fue efímero. Entre los sectores obreros que
se reconocían en la sensibilidad libertaria, volvió a asomar en 1881 bajo la forma de
una nueva federación, la de « trabajadores de la región española » (FTRE), la cual,
constituida en el contexto de la primera apertura de la monarquía instalada en
1875, intentó reproducír los modelos de organización y de acción de la FRE a pesar
de su incapacidad anterior para regular las huelgas de las secciones afiliadas10.
La trayectoria de la FRE no tiene, por consiguiente, la linearidad que
muchos le suelen atribuir. Incluso si las apariencias no muestran tensiones
internas. No aparecen como tales en los periódicos identificados a la federación
y que la acompañan en las más importantes ciudades del país, manifestación sin
precedente de una expresión propia de los sectores obreros. Los redactan en parte
los militantes interesados por los aspectos globales de la « revolución social ».  142
Ellos son, en general, los que han tenido una relación directa con la perspectiva de
ruptura bakuninista –es un núcleo activo pero muy numerosos. También escriben
obreros vinculados con las actividades de defensa concreta del trabajo sobre
las que informan subrayando la actividad de organización –a pesar de menos
estudiado este otro gran tema de la prensa « internacionalista » cubre más espacio.
Tampoco los documentos internos de la FRE señalan conflictos abiertos entre dos
orientaciones durante sus casi cuatro años de vida pública. El que el modelo de
huelga elaborado subordinara la acción a los supuestos intereses de la federación,
con un claro desfase con respecto al recurso a la capacidad de indignación,
exaltado por el discurso bakuninista11, muestra que se ha ido constituyendo una
dinámica dominantemente obrera. La señala el empleo, más que de otras, de la
palabra « antiautoritario » cuando los miembros y las instancias de la FRE quieren
autodefinirse12. En una federación de defensa las alusiones a la identidad anarquista
tenían que ser algo implícitas. El que el uso durara muestra que la palabra remite a
una percepción particular y propia de la vida de la FRE. Se empleará en este texto
para tomar en cuenta el papel de ese segundo componente, menos señalado por
los estudios aunque más numeroso dentro de la federación.
En todo caso, puede hasta sorprender la prudencia de aquellos militantes
que parecen más cercanos a los esquemas bakuninistas. Bastante presentes en

9 Un testimonio nítido en la abundante correspondencia conservada en la biblioteca Arús de Barcelona, de


hecho las copias de las cartas mandadas a las secciones. Edición por SERRANO, Carlos Seco; .SAS, Maria
Tereza Mártinez de. Cartas, comunicaciones y circulares del Consejo Federal y de la Comisión Federal de la
Región Española. Barcelona: ed. Universidad de Barcelona, 7 v., 1972-1987.
10 Lo demuestran las cartas a las secciones que pedían ayudas para sostener huelgas (Idem, sobre todo v. IV a VII)).
11 Cf. : JUNCO, José Álvarez. Op. cit., p. 381-388.
12 Ya se emplea la palabra en 1870 (BATTANER, M. Paz. Vocabulario político social en España. Anejos del
boletín de la Real Academia española, Anejo n. XXXVII, Madrid, 1877, p. 285)

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 139-170


PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

la realización de los periódicos13, y con unos escritos de tonalidad radical cuando


se trata de denunciar la injusticia social o de insistir en el necesario cambio de
sociedad, sólo en algunas ocasiones señalan que el modelo de huelgas de la FRE la
está llevando a desprenderse de la capacidad de la cólera trabajadora tan necesaria
para la revolución social14. Para que esta modalidad aparezca como componente
de la acción habrá que esperar al menos hasta le segunda mitad de los años 1880
–entonces ya no existía prácticamente presencia organizada bajo las siglas FTRE.
Sólo más tarde, todavía, aparecieron críticas más directas a la orientación de la
FRE. Anselmo Lorenzo, una de las más conocidas personalidades del anarquismo
español, las expuso en 1901 en el libro de « memorias » ya mencionado15. Se publicó
en un momento en el que la combatividad obrera alcanzaba un nivel inédito y
algunos sectores libertarios llamaban a realizar huelgas generales –ya se habían
convertido en tema central de los debates del sindicalismo revolucionario francés16.
Si A. Lorenzo señala que la distancia entre el modelo y la acción redujo la FRE a la
impotencia en materia de acción, lo ve como algo pasajero y casi olvidado –fue
recibido por la historiografía como una incitación a no conceder gran importancia
a las modalidades de defensa de la FRE y a su constancia17. No fueron, sin embargo,
unas iniciativas pragmáticas pronto borradas por las temáticas más claramente
anarquistas –de hecho cuando se debilitaron no las sustituyeron un modelo claro
de movilización. De hecho, el meyor interés de la corriente libertaria española
por la huelga general a partir de 1890 se debió a un estímulo externo : permitía
distinguirse de la forma de Primero de mayo introducida por los partidos obreros
de la corriente marxista. Además tardaría todavía algunos años en cuajar. Incluso
 143 cuando, a principios del nuevo siglo, pareció imponerse con la multiplicación de los
llamamientos a generalizar las huelgas, éstos no contradecían siempre una visión
más sindical de la acción – se evocará esa fase en la última parte de este estudio.
No parece posible aislar el modelo de huelga establecido, ya desde 1870,
por la FRE de lo que suponían las prácticas de la organización y los discursos que
las justificaban. Los textos la exaltan como medio de garantizar la construcción
de un espacio puramente obrero, alternativa total a lo político –y a lo que esto
lleva consigo (desde la imagen del poder hasta las modelos culturales). El modelo
organizativo no desempeñó, por consiguiente, un papel sólo funcional. Desde
el principio la forma con la que se le entendía constituyó una alternativa a las
propuestas republicanas que se habían difundido en los ámbitos urbanos. Lo fue
también después frente a aquella orientación, la marxista, que proponía que la
clase constituyera un partido político propio. En los años 1870-1880 no constituía
un rival peligroso, –el núcleo del futuro partido socialista se había formado desde
la estancia en España, en 1871-1872, de Paul Lafargue, cuando, aprovechándose del
pasaporte español que le daba su origen cubano, estaba huyendo de la represión
desencadenada después de la Commune de París. Aunque no se va a evocar aquí, el
itinerario, también particular, del socialismo español tampoco se libró de la cultura
política obrera que se quiere evocar aquí.
La defensa aferrada de un tipo de huelga llevada a partir de cajas de resistencia
de las que se esperaba que un día se convertirían en medios potentes capaces

13 La Emancipación, de Madrid, es el único que se convierte durante sus últimos meses, entre mediados de
1872 y abril de 1873, en órgano del grupo que defiende al Consejo General después de la participación de
algunos militantes en un grupo dirigido por un yerno de Marx, P. Lafargue y venido a España para huir de
la represión de la Commune.
14 “Cartas a los trabajadores del Alto y Bajo Ampurdán”. La Federación, Barcelona, verano de 1872.
15 Memorias de un internacional es el subtítulo de El proletariado militante.
16 P. Gabriel coincide en que el proceso es más interno que imitativo (Cf.: « Sindicalismo y huelga. Sindicalismo
revolucionario francés e italiano. Su introducción en España ». Ayer, n. 4, 1991, p, 34-41 y 44-45.
17 LORENZO, A., Op. cit., p. 286-303.

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de poner en dificultad, con algo de táctica, las reservas del capital, no respondía
por consiguiente a una preocupación de orden sólo funcional –en el caso que lo
« sindical » pueda limitarse a eso, para emplear una palabra que no usaba todavía
el movimiento obrero en España18. Desempeñaba un papel sociopolítico en la
perspectiva de rechazo de la participación política propia de la FRE, el cual, como se
dijo, ya estaba presente, en parte, en textos del republicanismo federal y, también,
en bastantes reacciones populares frente a las « autoridades –los « motines », por
ejemplo. La permanencia de la « organización », señal de su futuro y necesario
crecimiento, fue, para la FRE, la vía para ampliar esa perspectiva propia. Ha llamado
la atención la frecuencia del tema de la exaltación de la organización pero se ha
interpretado sobre todo como indicio de radicalización venido con la identificación
con la voluntad de revolución inmediata del bakuninismo, con sus evocaciones
de una sociedad emancipada de todo tipo de « autoridad », y no como forma de
materializar en términos sociales más que ideológicos y políticos la perspectiva de
ruptura de aquellos grupos obreros que se pueden calificar de « antitautoritarios »
y que se sintieron concernidos por los temas generales del anarquismo. El presente
trabajo quiere mostrar que la defensa prioritaria del instrumento organizativo lo
fue de una identidad que se afirma en primer lugar como social y que genera una
construcción ideológica duradera. Entrar en la llamada « política propia »19 suponía
una constante preocupación por afirmar lo obrero construyéndole un espacio a la
vez social y discursivo.
La necesidad, tantas veces repetida, de defender las organizaciones puede
considerarse, en efecto, como la prolongación de aquella cultura política obrera
que había empezado a elaborarse en los años 1860 y que cobró fuerza cuando el  144
republicanismo no consiguió convencer de su compromiso con una sociedad libre
y justa a unos colectivos obreros que dudaban de él y que pronto iban a tener a
mano los esquemas bakuninistas, tanto más convincentes cuanto que parecían
haber llevado a la constitución de un organismo nacional que se presentaba como
exclusivamente obrero. Pero la inflexión, ya señalada, del proyecto bakuninista
que los militantes libertarios más cercano a él no consiguieron imponer en su
globalidad, suponía, según el discurso de la FRE, que todo había que tener lugar
dentro del espacio obrero mientras que la lógica del primero lo llevaba a pensar
también en el conjunto de la sociedad. El proceso de conversión de la defensa
obrera en perspectiva política por la idealización que de ella se hace, tal vez pueda
interesar una revista cuyo objeto son «  os mundos do trabalho  ». Confirmaría
que éstos no fueron sólo un contexto en una fase en la que el tema de la ruptura
política estaba en la orden del día. Al fin y al cabo, la transformación, aunque
relativa en el caso español, de la situación de los asalariados y de su cultura del
trabajo tiene consecuencias de orden político. Es tanto menos secundario que por
toda la trayectoria del anarquismo español se siguió planteando la cuestión de las
relaciones entre los componentes « sindicales » y los componentes « ideológicos ».
Dar cuenta del peso que llegaron a alcanzar las elaboraciones consideradas propias
de los obreros puede sugerir preguntas para otros episodios de su historia.
Evocar la cultura política del anarquismo español supone por consiguiente
tomar en cuenta una doble presencia, ideológica y de defensa obrera. No sólo
porque a veces genera tensiones internas sino porque la inserción en la segunda
es la que dibuja durante varias décadas no sólo modelos de acción sino un discurso

18 Tal vez porque, como veremos, la función no se distingue del proyecto político hasta que la prensa de
información recorra al término usado en otras partes, en Francia en particular.
19 Cf. : La Emancipación del 10-VIII-1872. « Creemos que la Internacional tiene una política propia distinta de
todas las de los partidos ».

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ideológico apoyado en las elaboraciones que acompañaron las prácticas obrera.


Constituye una fuente imprescindible para entender la trayectoria de las iniciativas
más visibles de lo que vino a ser la corriente libertaria en España. Su lógica
configura las otras referencias y lo consigue en la medida en que las organizaciones
obreras quieren ser el lugar exclusivo de acogida de la perspectiva de cambio de la
sociedad. Para dar cuenta de su impacto parece lógico que en un primer momento
se intente mostrar la continuidad en las actitudes y en los textos tanto del papel
otorgado a la organización como del intento de imponer una forma de huelga – de
hecho no se pueden separar. Proporciona muchos de los motivos que han podido
contribuir, incluso cuando se debilitó el modelo, a que siguiera actuando entre
los colectivos obreros una defensa prioritaria de la identidad social, fundamental
en la cultura sociopolítica « antiautoritaria », la palabra más empleada, como se
dijo, para significar una proximidad con los proyectos libertarios pero también con
su inserción en términos propiamente obreros. Había identificación y diferencia
al mismo tiempo ya que para unos y para otros las posibles confusiones no
debían forzosamente ser aclaradas. El proceso de dicha idealización de la labor
de organización puede tanto menos dejarse de lado cuanto que también está
presente, al menos de forma indirecta, en los contenidos transmitidos por las
formas menores, es decir no sindicales, de solidaridad, en particular el socorro
mutuo. La presencia difusa de las huellas ideológicas de estas prácticas sociales
confirmarían el sentido de la cultura política obrera a la que el presente estudio
intenta hacer caso. Las reacciones internas y los discursos que suscitaron, tanto

 145 con los conflictos concretos como con las iniciativas de acción, han de examinarse,
aunque de modo rápido, por un periodo más largo (1890-1902). Las divergencias
suscitadas por la emergencia de « huelgas generales » a partir del cambio de siglo
pueden ser consideradas, por ejemplo, como un indicio fuerte del impacto en la
corriente libertaria, entendida en sentido amplio, de los modelos obreros que el
estudio intenta analizar.

Exaltación de la organización y resistencia


centralizada
La constitución de la FRE en el congreso fundador de Barcelona (18-26 de
junio de 1870) confirmó con términos muy severos la importancia de la necesaria
autonomía de la « clase trabajadora » con respecto al proyecto republicano y a
las formaciones política que lo constituían. Desde unos meses existía una prensa
propia que se presentaba como únicamente obrera y que precisamente dedicaba
mucho espacio a justificar la forma de la organización que reuniría las asociaciones,
al fin y al cabo de defensa «  económica  », que la formarían20. Correspondía a la
nueva federación fortalecerla a través de los medios de defensa de los colectivos
obreros, en particular los que le permitirían ganar huelgas. La organización se
constituía, desde entonces como un fin en sí mismo –« el objeto de la organización
es la organización misma »– y en primer lugar porque era un espacio alternativo a
la sociedad explotada por el capital21. La situación del asociado también afirmaba
este objeto. Entraba menos en la FRE para participar en la consecución de un

20 La Solidaridad de Madrid sale el 15-I-1870. La Federación de Barcelona empieza el 1-VIII-1869 como « organo
del Centro Federal de las Sociedades Obreras » para transformarse en órgano antiautoritario.
21 La Solidaridad, 17-IX-1870.

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objetivo que para « prácticar la solidaridad »22. La cita es de principios de 1870. La


« organización », es decir el proceso de asociación obrera, aparecía ya como un
espacio con la vocación de totalidad del proyecto libertario, pero en una lógica
predominantemente social.
El funcionamiento de una federación de secciones de defensa, de oficios en
la gran mayoría de los casos, constituía por consiguiente una entrada en aquella
sociedad nueva basada en la solidaridad, opuesta al egoismo de los capitalistas y
de los burgueses. Funcionaría de manera « perfecta 23» ya que

[…] una idea emitida por un individuo, en cualquier época o localidad,


y que sea superior en verdad y justicia a lo que se practique, obtenga la
sanción inmediata por parte de la sociedad [la organización] hasta que
otra idea superior venga a reemplazarla, siguiendo los mismos trámites
que la anterior24.

A la par que la organización se completaba entraba en una democracia


aparentemente total, espacio verdaderamente alternativo al de la sociedad
dominada y explotada por la burguesía: « La Internacional ofrece bien exactamente
el tipo de la sociedad del porvenir y […] sus diversas instituciones, mediante
las modificaciones que convengan formarán el orden social futuro  »25. En otras
palabras, todavía más precisas : « La sociedad futura no debe ser otra cosa que la
universalización de la organización que la Internacional se haya dado. Así, pués,
debemos tener cuidado de acercar todo lo posible esta organización a nuestro
ideal »26. Era la única vía para que no tardara en llegar aquella transformación radical
de fuerte contenido moral : « Que en cada pueblo se establezca rápidamente una  146
sección de la Internacional (sic) y la nueva sociedad aparecerá como por encanto
para hacer desaparecer la vieja y sus vicios, o sean privilegios, un soplo »27.
Son infinitas las variaciones sobre el tema de la organización que, abarcando
ya parte del futuro al aislarse de aquella sociedad que se rechaza, lleva a una
revolución social sin lagunas:

El proletariado moderno […] ha escogido un terreno de acción propio,


independiente de todos los partidos actuales y cerrado por su natura-
leza a las invasiones de la clase enemiga. Así como en la Edad Media,
el burgués se encerraba en la municipalidad y en el parlamento don-
de hallaba protección y garantías, el proletariado de estos tiempos se
atrinchera en la Asociación obrera Internacional: organización de los
trabajadores hoy, organización del trabajo mañana.28

Esta comparación la publica La Emancipación en mayo de 1872, es decir


cuando el periódico está a punto de convertirse en el órgano del grupo marxista
y de entrar en una polémica abierta con el antiautoritarismo. El grupo constituido
alrededor de Lafargue justificaba su ofensiva porque había que combatir los
intentos del bakuninismo de maniobrar a través de la sociedad secreta, « La
Alianza », que reunía a los militantes más directamente vinculados con la dirección
de la corriente. En cambio, prácticamente no criticaba las posturas de defensa y

22 Idem, 5-III-1870
23 Idem, 12-III-1870.
24 Ibidem.
25 Idem., 5-III-1870
26 La Emancipación, 24-12-1871.
27 Ibidem.
28 La Emancipación, 16-V-1872

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de organización desarrolladas en los órganos de la FRE. El riesgo más subrayado


era que la Alianza intentara alejar a la federación de sus principios fundadores o de
sus reglamentos aprobados desde el Congreso de Barcelona. Al dejarse manipular
por los partidarios de Bakunín los demás miembro exponían la federación al riesgo
de su destrucción29. No fue solamente una postura táctica ya que el grupo de los
futuros socialistas del partido obrero siguió identificándose con la exaltación de la
organización. Incluso la UGT se construyó, en 1888, según el modelo de las cajas de
resistencia de la FRE, prueba de que su modelo seguía teniendo un impacto en las
modalidades de defensa –se ha subrayado a menudo que el fundador del PSOE y
de su sindicato, Pablo Iglesias, exaltó sin descanso la necesidad de la organización.
Es legítimo interpretarlo como una señal suplementaria de la presencia amplia de
la efectividad de una cultura política, compartida más allá de la corriente libertaria
y cuyos temas bien no se discutían o bien, en el caso de los bakuninistas, se
comentaban con prudencia. Forma uno de los aspectos aparentemente paradójicos
de la recepción del bakuninismo.
Justificar la separación de la política suponía que las modalidades de defensa
sólo pudiesen ser interpretadas como totalmente obreras, pero para llegar a ello
era preciso, al fin y al cabo, intentar transformar las huelgas reales. En primer
lugar tenían que apartase de las intervenciones de orden político a las que a veces
daban lugar los conflictos. Era inconcebible que los huelguistas siguieran usando
alguna presión de ese orden ya que con ella políticos y notables penetraban en el
enfrentamiento dando otra apariencia, engañosa, al conflicto, el cual sólo podía

 147 oponer a las dos clases que en realidad existían. El rasgo, al menos como tema,
va a sobrevivir largo tiempo en los discursos anarquizantes. Para el periodo aquí
tratado, conservaba su intensidad veinte años después de la fundación de la
FRE30. Pero no siempre impedía que, incluso en las proximidades de la corriente
libertaria apareciesen tentaciones para aprovecharse de alguna disponibilidad de
las instancias locales o provinciales para obtener concesiones patronales. En las
conductas posteriores de los componentes sindicales de la corriente libertaria
pudo haber distancia con respecto al modelo y alguna vez alguna moderación
discursiva. En cambio, en la vida pública de la FRE, la exigencia se expresó de modo
drástico. Se trataba de dejar claro que las instituciones y las instancias políticas
no tenían otra razón de ser que la de defender los intereses burgueses, lo cual
sólo podía alcanzarse situándose en un campo exclusivamente social en el que
se enfrentarían sólo obreros y patronos. El modelo de huelga quería demostrar
precisamente que sólo existían dos espacios, el de los explotadores y el de los
explotados, el del trabajo frente al del capital.
Identificar la defensa económica y social concreta con la perspectiva de
una acción emancipadora, suponía una necesidad de resultados para la primera.
Resultó imposible, sin embargo, que, a no ser en unas ocasiones excepcionales,
la federación consiguiese ayudara los huelguistas que lo necesitasen. Para
constatarlo no fue necesario esperar el crecimiento de la conflictividad en los
años 1872-1873. La vía elegida sólo podía funcionar modificando casi totalmente
las prácticas. Antes de que la federación hubiese acumulado unas reservas
importantes no podía intervenir prácticamente en ningún conflicto –algo bastante
lejos, por consiguiente, de un objetivo visible. Durante un breve espacio de tiempo
(1870-1871) la imposibilidad de ayudar a los huelguistas pudo ser atenuada por
el gran cambio que anunciaba la existencia de la federación pero no cuando las

29 Es el tema de la polémica con La Federación en el verano 1872.


30 Se desarrolla en el apartado “El antiestatismo como sustituto del enfrentamiento decisivo. Mantener la ruptura”.

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secciones se encontraron frente a la obligación de tener una caja de resistencia


y de pedir cuotas para entregar una parte de ellas a la central de la federación.
Ya que la gestión de la defensa social concernía al corazón mismo de la identidad
obrera, la huelga, el poder de convicción de la FRE dependía en gran parte de la
posibilidad de ayudar a enfrentar los conflictos de trabajo que surgiesen para que,
por una parte, mostrasen una defensa sin concesiones de su dignidad y, por otra
parte, venciesen. De hecho, lo que el análisis ha solido considerar desde fuera
como de orden sindical, entendido como el espacio de cierto pragmatismo, dió
lugar a unas reglas invariables y abstractas. La necesidad de consolidar las cajas
de resistencia propias y obligatorias de las secciones de base o de las uniones, el
nivel intermedio, impedía que una sección entrara en una huelga sin tener medios
numerarios suficientes para sostenerla y ello no existía. El éxito de una iniciativa
particular sólo podía alcanzarse si las entidades patronales tenían una necesidad
absoluto que el trabajo continuara en sus establecimientos o si se encontraban en la
imposibilidad de conseguir sustitutos a los huelguisas, casos muy poco frecuentes.
La decisión de una organización local estaba, por consiguiente, subordinada a la
de la instancia superior. Una de las justificaciones de los derechos de la federación
de aprobar o no las huelgas era que ella iría adquiriendo el conocimiento, que
las secciones no estaban en condiciones de alcanzar, del estado preciso de las
variables que podían llevar a los patronos a ceder, como la demanda de trabajo en
un oficio o en un ramo, la dimensión de las ganancias patronales en un momento
dado, las posibilidades de contratar en otros lugares mano de obra especializada,
etc.. Formaba parte de una llamada « preparación científica de las huelgas »31. La
idealización del arma obrera por excelencia, la que permite precisamente hacer  148
visible la barrera que separa de modo drástico la « clase trabajadora » de las
demás, desembocaba por consiguiente en una desconfianza con respecto a las
convicciónes que podían formarse en un momento dado los colectivos obreros.
Venía a ser algo contradictorio con la atención que les otorgaba la prensa obrera y
también con la idea de la capacidad de la clase para rechazar su integración. Puesto
que los éxitos de las huelgas eran necesarios para savalguardar la existencia de
la federación obrera pero que, por otra parte, la capacidad de conseguir algunos
dependía de una potente organización, el camino no tenía muchas salidas.
Es de notar que las modalidades de la organización y de la caja central de
resistencia se fueron haciendo más precisas a medida que tuvieron lugar los
congresos o conferencias que siguieron al inaugural de Barcelona. Durante cierto
tiempo creció la convicción a su respecto. Era probablemente grande la de Anselmo
Lorenzo cuando, elegido representante de la FRE para la conferencia de Londres
de la AIT, en el verano de 1871, presentó a los demás delegados la propuesta de una
caja de resistencia universal, la cual correspondía a la última versión de los estatutos
de la FRE32. No correspondía por supuesto a la orientación de los partidarios de
Marx ni a la de otros militantes obreros. Tampoco parece haber despertado interés
entre aquellos que apoyaban el rechazo bakuninista de la participación política
sustituyéndola por la capacidad de rebeldía de los oprimidos33. La preocupación

31 La Emancipación, 11-V-1872 « […] se conseguirá preparar las huelgas científicamente y preparar su triunfo
antes de llevarlas a cabo, haciendo de este modo morder el polvo a la burguesía capitalista ». Es corriente
la convicción que la estadística puede ser un arma decisiva (Cf.: MYSERWICZ, L. « Karl Marx, la Première
Internationale et la statistique, ». Le Mouvement Social. n 69, octobre décembre déc. 1969, p.51-84).
32 Era la aprobada en la Conferencia de Valencia de 1871. Editada bajo el título Organización social de las
secciones obreras de la FRE, Valencia, 1871.
33 La única contestación bastante larga fue la de un delegado inglés en la conferencia, Motterhead. Además
de subrayar que en una caja de resistencia universal las decisiones escaparían a los afiliados añadió : « […]
tienen los obreros un derecho no enajenable, el de rebelarse y perciben y juzgan mejor que el Consejo

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de la conferencia era muy distinta : se había convocado porque en la cuestión


de la participación en la política se enfrentaban marxistas y bakuninistas. No es
imposible que A. Lorenzo percibiera la propuesta de una federación de resistencia
universal como una manera de dar una salida a la oposición entre « políticos » y
« antipolíticos » poniendo a todos los sectores obreros dentro de un espacio propio
y socialmente homógeneo. Al menos con un carácter exclusivamente obrero y un
número razonable de asociados una organización aparentemente compartida
por las dos orientaciones podría borrar bastantes desacuerdos. Correspondía al
proyecto sobre el que se había construido la FRE.
La federación española no se planteó por consiguiente la pregunta de su
distancia con la temática ideológica bakuninista. La mayoría de los militantes no lo
consideraron contradictorio con lo que creían saber de las perspectivas propiamente
libertarias tales como las reconocían implícitamente. Las críticas, veladas o abiertas,
que se hicieron a veces al modelo de huelga de la federación se dirigieron contra su
demasiada rigidez sin traducirse en alguna inflexión a pesar de que las dificultades
acarreadas por la intensificación del movimiento de huelgas en 1872-1873 suscitaron
más comentarios al respecto. Algunas de las personalidades de convicciones
bakuninistas empezaron entonces a criticar de manera directa las modalidades de
solidaridad. Fue el caso del autor de una serie publicada en el periódico antiautoritario
de Barcelona, el mas leido de la fase de la FRE, La Federación :

Siendo lo esencial [...] la organización, la quieren tan perfecta hasta en

 149
sus detalles, que más bien responden a las necesidades del porvenir que
a las del presente; más bien una organización positiva que negativa; una
compañía que recauda y distribuye, que da cuentas y pasa balances, que
suprime o añade artículos del reglamento; que un grupo revolucionario
que se agita en virtud de un nuevo principio34.

Pero durante sus dos últimos años, las direcciones de la federación, a pesar
de tener que confesar cada vez más su impotencia frente a las peticiones de ayuda
de muchos colectivos que habían entrado en conflictos, siguieron insistiendo en la
necesidad de dar prioridad a la defensa de la federación contra lo que interpretaban
como una ligereza de los colectivos que decidían ponerse en huelga35. La culpa
no se echaba al sistema de ayudas condicionales sino a la incomprensión de
unos obreros que sólo esperaban que la federación cumpliera con la solidaridad
anunciada. No estaban a la altura del gran compromiso de la FRE :

Es muy sensible que sólo con el aliciente de la huelga entren los obreros a
formar parte de Nuestra Asociación (sic) eminentemente revolucionaria,
cuyo fin es mucho más grande y no adopta ésta sino como remedio para
mejorar por lo pronto la miserable situación de sus afiliados. La práctica
nos ha mostrado que todos aquellos que son internacionales por la huel-
ga y que no ven otra cosa, dejan de serlo cuando pierden una36.

Estas líneas son características de las contestaciones de la Comisión federal


de la FRE a las secciones que pedían ayuda insistiendo en la urgencia de recibir algo.
Las escribe en una carta a la « Unión de noografos » (papeleros) Severino Albarracín,

Federal la necesidad de hacer una huelga ; el consejo sería impotente para impedírselo además de no
estar dispuesto a entrar en una lucha con los patronos para conservar su haber » (FREYMOND, J. (dir.). La
Première Internationale. Recueil de documents. Genève: Librairie Droz, 1962, tomo 2, pp. 178-179).
34 “Cartas a los trabajadores del Alto y Bajo Ampurdán”. La Federación. Carta IV (Barcelona, 14/09/1872).
35 SERRANO; SAS. Op. cit., v. V a VII.
36 Contestación del 26-V-1873. En: SERRANO; SAS. Op. cit, tomo IV, p. 287.

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uno de los responsables más habituales de la « comisión federal » cuando ésta


reside en la región de Valencia. Según M. Nettlau, el historiador anarquista que
desde más cerca miró, en los años 1920-1930, la vida de la corriente, S. Albarracín
compartía la « inclinación organizadora catalana » lo que lo distinguía en cierta
medida de los militantes más explícitamente bakuninistas37. Aunque no formó
parte de los primeros miembros españoles de la « Alianza » sus palabras oponen sin
embargo convicción revolucionaria y acción obrera. Lo más significativo no es que
existiera una divergencia sino que los dirigentes de la FRE continuaran asumiendo
el modelo de organización cuya importancia quiere subrayar el presente artículo,
al mismo tiempo que sus dirigentes siguieran admitiendo, al menos formalmente,
los grandes rasgos del bakuninismo. Se trataba de asumir la lógica de separación,
de naturaleza social, sobre la que, empezando por una organización, se quería
construir el espacio obrero emancipado y emancipador.

Aplazamiento del conflicto decisivo


No sorprende que con tal visión de la acción desapareciera de los objetivos
el conflicto decisivo, aquel que los esquemas bakuninistas imaginaban repentino
y con capacidad para conseguir el cambio de la sociedad. De hecho, los
antiautoritarios, pero también parte de los que se sentían más ideológicamente
anarquistas, estaban dejando de lado, y para bastante tiempo, un tema tan central
y emblemático de la ruptura social como la huelga general, ya esbozada en los
debates de la Primera Internacional fuera de España38. Había llegado de manera
algo velada a España un poco antes de que el Congreso de Barcelona discutiera
 150
de los medios de acción. El siguiente extracto de una de las intervenciones de
Anselmo Lorenzo en dicha reunión muestra que, a no ser el sintagma todavía poco
sistematizado, estaba la modalidad :

[...] nosotros, trabajadores, por medio de una resistencia universalmen-


te organizada, destruiremos por completo los inmensos medios de los
que disponen nuestros enemigos, obligándoles a abandonar sus injus-
tificables privilegios, por que ellos son impotentes para resolver nada
ante una abstención general de los trabajadores39.

Es significativo que la huelga que se evoca aquí, y a pesar de sus consecuencias


globales, oponga sólo a los dos únicos interlocutores fundamentales según la visión
ya señalada del conflicto decisivo. Lo es también que suponga la construcción de
una organización considerable. Sólo alguna vez se la relaciona más directamente
con la « Revolución Social » :

La huelga general es indudablemente el acto más grave, más importan-


te y más trascendental que la clase obrera viene a realizar en el trans-
curso de la humanidad ; es el objeto de nuestros trabajos, de nuestros
desvelos ; es el término de la odiosa explotación que por espacio de
tantos y tantos siglos, viene pesando sobre la que se considera la última
capa social ; es el fin de la miseria y la ignorancia ; es el juicio inexorable
que el obrero de la presente sociedad ; es el despertar de la humanidad
a la aureola de la nueva vida, un nuevo orden de cosas ; es transportarse

37 NETTLAU, M. La Première Internationale en Espagne (1868-1888). Colocar o restante da referrência, p. 124.


38 Por otra parte, la cuestión de la huelga universal entra en los debates de la Primera Internacional en el
congreso de Ginebra (septiembre de 1866) (Cf.: FREYMOND, J. Op. cit., tomo 1, p. 44).
39 ABERLOA, V.M. (ed.). I Congreso obrero español. Madrid: ZYX, 1972, p. 179.

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desde el mundo de la mentira, la explotación y el crimen al mundo de la


verdad, de la justicia y de la fraternidad humana ; es, en fin, le Revoluci-
ón Social »40.

Se publica este texto cuando está cerca de acabarse la vida publica de la FRE
y con pocas perspectivas frente a la inflexión autoritaria de la República, la cual
anuncia su fin. A partir de entonces la huelga general casi no se va a mencionar
como tal durante casi veinte años. Serán necesarios casi diez más para que sea
asumida concretamente, y con las palabras habituales, como modalidad de acción
mientras existía, al menos a nivel de discurso, en otros espacios nacionales.
Un estímulo venido de fuera del antiautoritarismo la hizo aparecer de nuevo.
Fue la « fiesta del trabajo », primera gran iniciativa de la nueva Internacional (la
« Segunda ») en su congreso fundador de París en 1889. La modalidad propuesta
era la manifestación de masas que las organizaciones obreras habían de llevar
cada primer día de mayo. Con ella se ejercerían fuertes presiones a nivel social y
político para conseguir medidas legales de protección social y, sobre todo, una
disminución de la jornada de trabajo con las « ocho horas ». Para la sensibilidad
anarquista era necesario mostrar su diferencia tanto a nivel de la perspectiva de la
acción –para la nueva Internacional el estado era un interlocutor que debía tomar
medidas legislativas– como de su forma –los socialistas proponían un movimiento
más visible por su intensidad que por su duración, excluyendo las situaciones de
todo o nada en las que la corriente libertaria veía la posibilidad de entrar en el

 151
enfrentamiento definitivo.
Si sólo entonces se llegó a incluirla en las perspectivas fue porque las reglas
de la FRE en materia de organización y de acción habían significado bastante
más que una función práctica sin muchas consecuencias ideológicas. El que la
línea inicial haya tenido grandes dificultades, manifiestas en la impotencia para
dar credibilidad al espacio obrero que habían de constituir las organizaciones no
puede hacer olvidar que el intento existió y duró más allá de la vida pública de
la FRE. Es decisivo al repecto el testimonio de la correspondencia dirigida a las
secciones ya que las contestaciones subrayan la necesidad de proteger antes que
nada la organización, espacio obrero separado que constituye un objetivo en sí
mismo. A pesar de la falta de éxitos concretos se consolidaron unos esquemas que
fueron constituyendo una cultura política obrera algo distinta, como ya se dijo, de
la propiamente bakuninista. Dejarla de lado significaría seguir prescindiendo tanto
de las relaciones entre proyectos de cambio social y modalidades de acción de los
diversos sectores obreros como de las preocupaciones por estructurar un espacio
obrero en el que los colectivos de la clase consiguieran situarse en un marco político
en el que los componentes populares querían entrar de forma autónoma –era un
objetivo bastante compartido desde que la corriente libertaria había asomado.
Intentar conseguirlo hacía emerger unas situaciones contradictorios a las que se
contestaba con los modelos y los discursos que acabamos de evocar.
Se consideraba como absolutamente prioritaria a la organización porque
se la veía como un espacio ideal y unívoco fuera de los espacios concretos de la
vida política. Convertirlo en el de los obreros suponía que el intento de controlar
las huelgas no fuera sólo verbal –ya se han dado ejemplos de que no lo fue. Si
una elaboración tan ambiciosa tuvo lugar fue porque la defensa de un espacio
estrictamente obrero, con toda la alternativa que representaba frente a las
perspectivas republicanas, llegó a ser una construcción ideológica articulada y

40 La Federación, 27-IX-1873.

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no sólo una recuperación de prácticas de defensa con su carga táctica, capaz de


apartarse de los choques sin preparación del bakuninismo, los cuales también
respondían a un estado de espíritu bastante corriente en los sectores populares
españoles. Son ocurrencias de aquella cultura obrera que el presente artículo
intenta describir.
Conseguir la inserción social del proyecto anarquista se había convertido en
una necesidad cuando unos militantes obreros lo prolongaron hacia colectivos de
trabajadores por medio de unos primeros periódicos y de una federación nacional
de sociedades de resistencia. Hasta entonces no había conseguido, sino de modo
marginal, ser un movimiento de ideas con eco en otros ámbitos sociales. Ello
tardaría algunas décadas y se revelaría difícil precisamente porque la perspectiva,
aparentemente libertaria, tomó una fuerte tonalidad obrerista desde el principio.
Pero por ser reflejo de la cultura sociopolítica obrera más que de una temática
ideológica los modelos de organización y de acción definidos por el primer
congreso introdujeron un desfase con la perspectiva de emancipación dibujada
por el bakuninismo. Cuando A. Lorenzo lleva el proyecto de « organización social »
a la conferencia de Londres de 1871, está probablemente convencido de que los
artículos que lo componen resuelven las tensiones que percibía, igual que algunos
grupos de internacionalistas, entre la referencia global y las propuestas elaboradas
por la federación. Para ambos aumentaron en los años 1880 cuando tuvo lugar,
con la FTRE, el intento de reproducir la FRE y aún con mayores dificultades para
conseguir que las secciones más combativas llevaran a la mayoría de ellas a que
adoptaran su tipo de presencia social41. Es muy significativo que a A. Lorenzo, a
pesar de su sinceridad, le costó dar cuenta de cómo la FRE había adoptado su  152
modelo inicial de huelgas. Cuando, en 1901, insiste en que fue una vía equivocada
echa la responsabilidad a unos jóvenes intelectuales

[…] relacionados con los trabajadores asociados de Barcelona, y miem-


bros activos de la Alianza de la Democracia Socialista [quienes con oca-
sión del primer congreso] forjaron una organización que era un meca-
nismo perfecto al que no llegaba la mentalidad ni las costumbres de los
trabajadores españoles en general42.

Por cierto, hubo en los primeros pasos de la FRE un grupo de estudiantes


y algunas personalidades no obreras que contribuyeron a darle una visibilidad
política43 –en Barcelona, más que en otras ciudades, las relaciones seguirían
existiendo. Pero sólo sería convincente la interpretación de Lorenzo si el
funcionamiento del Comité federal y de la Comisión federal durante los años 1872
y 1873, no hubiese estado bajo la responsabilidad de cuadros obreros. Ellos fueron
los que recordaron con una gran constancia los requisitos a observar en caso de
intención de declararse en huelga44. No es muy nítida, además, la interpretación
de Lorenzo en lo que se refiere a la aportación obrera a la FRE. Al evocar, el
primer congreso, distingue varias corrientes entre los delegados, subrayando
las calidades de la « idealista revolucionario », la cual « iba directamente a la
renovación de la sociedad », y distanciándose de la « societaria, que entusiasta y
apasionada por las sociedades (« asociaciones » M. R.) constituidas, mirando con

41 La insistencia en la proximidad de la FTRE con respecto a la FRE en los artículos del militante antiautoritario
Francesc Tomàs i Oliver (1850-1903) en su serie “Apuntes históricos. Del nacimiento de las ideas anarco-
colectivistas en España”, publicada en La Revista Social entre el 27 de diciembre de 1883 y el 15 de enero de 1885.
42 LORENZO, A. Op. cit., p. 287
43 NETTLAU. Op. cit., p. 52-91.
44 Cf.: SERRANO; SAS. Op. cit., v. IV a VII.

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

desconfianza las novedades de la organización obrera, tenía escaso entusiasmo


por los grandes ideales »45. Como ya se dijo, cuando Lorenzo publica la primera
parte de sus memorias se han agudizado las tensiones entre un concepto de
huelga general definida como primer paso hacia el conflicto decisivo –lo difunden
los periódicos libertarios La Huelga General y El Productor (segunda época de este
título)– y una visión sindical de ésta que la ve como una forma de acción más ancha,
menos temerosa de pasar de los límites que separan unos oficios de otros, pero
no como un primer paso hacia un conflicto que podría convertirse en global. No
es necesario decir que, para el libertario A. Lorenzo, la capacidad emancipadora
la tiene la primera –por ello sus memorias tal vez olvidaran su apego anterior
al papel de aquella organización considerada como « completa » por la prensa
internacionalista. Era la que, él mismo, había llevado a Londres. Aquellas palabras
de El proletariado militante contribuyeron probablemente a que quedara borrada
para bastante tiempo la lógica inicial de la construcción organizativa de la FRE.
En los intentos de dar cuenta de ella es notable que pocas interpretaciones
establecen una relación entre el modelo y los estatutos sociales que componían
el mundo obrero español. Tal vez porque es difícil sacar una percepción unívoca
de las elaboraciones de la FRE y, después de ella, de los componentes radicales
del movimiento obrero. Pero ya a primera vista, el modelo de organización tan
subrayado en el presente artículo parece bastante más cerca de los obreros de los
oficios que de las otras categorías. Podían abonar una cantidad mensual porque
sus ocupaciones eran más estables y mejor pagadas –era mucho más difícil para los

 153 asalariados más informales o precarios. Más que otros podían creer en las virtudes
de la organización puesto que la gran mayoría de las iniciativas de defensa tenían
lugar alrededor de un oficio. Incluso cuando tardaban en formalizarse a través
de una « sociedad » de defensa, los trabajadores de una especialidad solían tener
una vida de comunidad de la que se pueden citar muchos ejemplos46 –además en
los conflictos los obreros de un oficio pocas veces salían de los límites del suyo47.
Asoma, a veces, en los discursos la intención de atraer primero a los más educados,
a los que ocupan empleos que suponen un largo aprendizaje –su duración era el
argumento de los obreros de oficios para defender su nivel de sueldo. Es muy
significativo también que ello no impide que se considere como única la clase
obrera y que se evoque su versión española como si fuera prácticamente la
misma que las de los paises más avanzados. Lo necesitaba la función que cumplía
el mundo de los asalariados manuales en el proyecto radical de separación con
« la política burguesa », el cual implicaba que lo obrero constituyese un actor
exclusivo y sin matices. Las experiencias obreras seguían recordadas, sin embargo,
a nivel implícito ya que el argumento decisivo de la separación se apoyaba en la
experiencia cuotidiana de lo obrero –esto es de las formas, y del discurso, que
tomaba su defensa social.
Ese apego ambiguo a la unidad parece dar cuenta, al menos en parte, de
la relación de la sensibilidad anarquista, con la renovación de sus referencias

45 LORENZO. Op. cit., p. 107. Las otras dos corrientes son « la positiva », se refiere a las organizaciones prag-
máticas del textil catalán que practican la negociación, y la política, la cual deseaba un acercamiento con
el partido republicano federal. En la introducción de su Antología documental del anarquismo español, F.
Madrid y A. Venza (Fundación Anselmo Lorenzo, Madrid, 2001, v. 1, pp. 26-28) también consideran que si
consiguió constituirse el « entramado organizativo » de la FRE fue porque hubo dentro de ella un acuerdo
global a su respecto.
46 En F. Largo Caballero (Correspondencia secreta, Madrid, Nos, 1961) muchos ejemplos acerca de los
« estuquistas » de Madrid.
47 Cf.: RALLE, M., « Las huelgas antes y después del Primero de mayo ». Estudios de Historia Social, n. 54-55,
1991, p. 32-34.

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ideológicas en los años 1880. Las historias políticas del anarquismo español
señalan que entonces no sólo se interesó por las nuevas propuestas transmitidas
por los escritos de Malatesta, Kropotkine, Grave, etc. sino que sus publicaciones
tendieron a identificarse al anárquico-comunismo, y en particular al segundo
de los tres, alejándose del « colectivismo » con el que se definía a Bakunin, o al
menos matizándolo48. No es secundario que los anarquistas españoles imaginaran
la sociedad futura no como la que permitiría que cada productor recuperase el
« producto íntegro » del trabajo, según un esquema proudhoniano admitido por
Bakunín, sino que intentasen encontrar los medios para que, además de los obreros
que producían ganancias, la sociedad entera recibiese sus efectos49. Se enriqueció
el discurso libertario y ello contribuyó a que el movimiento estuviese un poco más
presente a nivel intelectual –lo demuestran los dos « Certámenes socialistas »,
el primero en 1885 y el segundo en 188950. El que se intentara corrresponder a
las definiciones que estaba usando el movimiento libertario a nivel internacional
proporcionaba un estatuto intelectual frente a la emergencia, tardía, en España de
una vertiente marxista que había demostrado, en otros paises, su capacidad tanto
para articular su presencia política e intelectual como para disputar el espacio
público con propuestas políticas y prácticas sociales. En España, sin embargo, los
nuevos postulados asomaban en un periodo en el que ni las tensiones políticas ni
los débiles movimientos sociales proporcionaban muchos ejemplos para renovar
los comentarios sobre la sociedad. La política estaba controlada por el sistema
instalado por el nuevo régimen. Los intentos republicanos sólo se limitaron en los
años 1880 a unos esbozos de pronunciamentos de simpatías republicanas como el
del « brigadier » Villacampa en 1886, carente de movilización popular y rapidamente  154
abortado. Ese relativo vacío puede explicar que muchos de los militantes libertarios
más activos, más bien que intentar dar más consistencia a su identificación con
las nuevas definiciones que habían emergido en el movimiento, insistieron en su
pertenencia global a una « anarquía sin adjetivos », una fórmula a menudo repetida51.
La actitud es lógica sobre todo si la relacionamos con aquella preocupación del
conjunto auntiautoritario por afirmar en primer lugar la pertenencia a lo obrero,
lo cual suponía que se subrayara la necesidad de un espacio político y discursivo
que lo fuese exclusivamente. Al fin y al cabo era también una manera de atenuar la
preocupación por los debates de orden ideológico y por mantener una definición
de orden social de lo obrero.

Algunas premisas de la idealización de la asociación.


Ya fue señalado que el proceso de idealización de la asociación también
tuvo un pasado en los imaginarios políticos y encontró algún que otro ejemplo
en prácticas sociales diversas. A partir de los años 1860 los círculos obreros y las

48 Una síntesis de las divergencias ideológicas en JUNCO, Op. cit., p. 353-368.


49 Escribe La Justicia humana de Barcelona en su número de1 18-IV-1886 : « […] ni el temperamento y las
condiciones físicas pueden ser nunca el resultado de un esfuerzo individual y que el privilegio de utilizar sus
aptitudes más o menos activas en beneficio propio es sustraerse a satisfacer a la sociedad los beneficios
que de ella misma recibiera ». Citado en JUNCO. Op. cit., p. 362.
50 Primer Certamen Socialista, Barcelona, Imprenta de Pedro Ortega, 1885, LXII-576p. y Segundo Certamen
Socialista celebrado en Barcelona el dia 10 de noviembre de 1889, Barcelona, Establecimiento Tipográfico
«La Academia», 1890, 440 p (Cf un análisis en MORALES, Manuel. « La subcultura anarquista en España:
el primer certamen socialista (1885): en Mélanges de la Casa deVelázquez. tomo 27-3, 1991. p. 47-60 y « El
segundo certamen socialista, 1889: notas para un centenario ». En: Mélanges de la Casa deVelázquez. tomo
25, 1989. p. 381-395.
51 JUNCO, J. A. Op. cit., p. 365, señala que se encuentra en el « Segundo certamen », celebrado en 1889.

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

« sociedades de defensa » habían ido adquiriendo unos esquemas y un vocabulario


tanto por sus contactos con algunas propuestas políticas como por las formas
obreras de solidaridad que les podían servir de modelos. Su impacto lo hizo mayor
el antipolitismo popular, en sentido amplio. Las imágenes más visibles de relaciones
libres e iguales y la idealización de la asociación las había proporcionado en parte
el discurso federalista mientras el socorro mútuo contribuyó a la idealización de
la segunda.
a) La contribución del republicanismo federal.
En la década de 1860 la corriente difundía unas propuestas de construcción
de una sociedad ideal a partir de la autonomía de las comunidades de base –en este
caso las locales, algo idealizadas. Constituye una prueba de la relativa presencia
de un visión antipolítica en los espacios sociales populares. Ya se dijo a propósito
de la difusión del bakuninismo y de las relaciones de personalidades de la FRE
con algunos de sus representantes, en particular la « Fédération jurassienne » de
Suiza, que la elaboración ideológica y las formas de acción no fueron el resultado
de una simple transferencia del bakuninismo. No fueron muchos, además, los
textos de Bakunin publicados en los periódicos habituales de la FRE –los folletos
sólo se traducen, algunos, en los años 188052. Distanciarse del republicanismo
federal no significaba que los modelos de relaciones sociales por los que éste se
había pronunciado cayeran en desuso al ser abandonados los objetivos políticos
del federalimo. Incluso algunas veces los antiautoritarios, se presentaron, en
particular al principio, como los más capaces de realizar su espíritu porque su

 155 condición social les daba la capacidad de establecer unas relaciones justas en su
espacio organizativo.
En 1868, los temas del republicanismo federal ya tenían una trayectoria
consistente. Los habían difundido personalidades como F. Garrido y F. Pí y Margall.
Intentaban responder a las interrogaciones que sobre lo político alimentaba un
estado débil y autoritario a la vez, el cual se preocupaba más por controlar, con
dureza, la sociedad que por construir una adhesión social a una forma política. Ello
reforzó las actitudes de rechazo popular a los instrumentos que se consideraban
propios del estado. El régimen que sustituyó a la República, una monarquía semi-
autoritaria y semi-parlamentaria, acentuó, él también, los motivos de desconfianza
hacia un estado que los había suscitado a pesar de su inflexión liberal despues de
1833. Las fuerzas políticas de intención democratizadora también se encontraban
afectadas por parecer cómplices del edificio institucional. La relación privilegiada
que los federales querían mantener con el conjunto de las variantes republicanas
hacía difícil que su construcción política consiguiera conservar todo su impacto
entre los componentes obreros que ya miraban más hacia la separación53. Sin
embargo, el que la perspectiva de los federales de construir un poder político desde
la base puede haber contribuido a que se impusiera como forma de relaciones en
muchos colectivos obreros. Proponer que el cambio político se articulase a partir de
las unidades de base consideradas como una alternativa global al sistema político
era un tema muy frecuente desde casi veinte años : F. Garrido ya había publicado
en 1855 un folleto en este sentido, La república democrática, federal, universal,
tantas veces reeditado que hay como una continuidad de su lectura54. Variante del
federalismo proudhoniano actua en sentido antipolítico a pesar de la intención de
su autor. También lo hicieron aquellas obras de Proudhon traducidas por el catalán

52 Cf.: Lista de publicaciones en JUNCO, Op. cit., p. 635-636.


53 ARRANZ, L; ELORZA, A. « El Boletín de las clases trabajadores… », p. 371-381.
54 1.a ed. en 1855, 2.a en 1856, 7a en 1868, 16a en 1873.

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F. Pi y Margall, la personalidad más conocida del federalismo. Con la construcción


de un espacio independiente de las formas habituales de poder y también, en cierta
medida, de un sistema representativo con un sufragio más formal que efectivo, el
federalismo contribuyó a que parte de las opiniones populares aceptasen las posturas
radicales de la separación a través de una federación de asociaciones autónomas.
Con la confluencia del bakuninismo y de una federación de defensa de la clase la
lógica de la pertenencia social, estableciendo un espacio que permanecería propio,
apartó la sensibilidad obrera, seducida en un primer momento..
Si ya no parecía convincente la forma de reunir las distintas instancias desde
la base hasta la cúpula de la nación, e incluso más allá, proporcionaba sin embargo
un modelo para una construcción que buscaba un funcionamiento ideal. El de
una nueva república en la que que todos, además de acceder a las libertades
individuales y políticas, podían convivir con una igualdad implícita, seguía siendo
un tema central en el federalismo. Sugería que era posible acceder por la vía de la
asociación a una sociedad futura. Lo decía un periódico federal en estos términos :

[…] lo más esencial e íntimo que hay en nuestro tiempo : la asociaci-


ón, la santa asociación ; esa unión fraternal, esa comunión libre de los
hombres, amparados por todos los pueblos civilizados, consagrada en
las leyes, mirada por los pensadores como el cimiento de una nueva
vida pacífica, fraternal, feliz, sin guerras y sin los horrores que ennegre-
cen los siglos que dejamos atrás, durante los cuales ha dominado como
dueña absoluta la Iglesia católica. / Esas sociedades de mutualidad de

 156
socorro, amparo, de confraternidad, son el santuario de la civilización,
y hay que respetarlas más que a los santos que se adoran en los altares.
Aquí hay ídolos, materia, formas, ya vanas ya impotentes. Allí hay esen-
cia, hay alma, hay espíritu55.

Estas frases constituyen une prueba de la preocupación republicana federal


por los sectores populares con una atención particular a los obreros. Muestran
que desde tiempo la sensibilidad antiautoritaria había podido encontrar motivos
para otorgar a la asociación la virtud de combinar la ayuda concreta que necesitan
quienes cobran un salario y los rituales de sociabilidad de los círculos republicanos56.
Correspondía a lo que se estuvo implantando progresivamente a pesar de las
críticas, en un primer momento, del obrerismo, es decir las sociedades de socorro.
Su impacto relativo participó del proceso de idealización de la asociación. Su
existencia y su trayectoria no son nada secundarias en la elaboración de la cultura
política obrera que va cuajando en los años de la FRE.
b) Las iniciativas de solidaridad. La capacidad infinita de la asociación
La historiografía tardó bastante en prestar atención a las iniciativas obreras
que se pueden calificar de modestas57. La cooperación se estudió un poco más :
parecía anunciar las ulteriores propuestas de separación de la clase al mismo
tiempo que constituía una vía de acceso a los espacios obreros para unas opciones
políticas, bien el reformismo social o bien el catolicismo social –aunque menos
el segundo– que la siguieron defendiendo como respuesta a la cuestión social.
La educación y las actividades de orden cultural, desde la alfabetización hasta
la práctica del teatro o de la poesía en los círculos obreros, interesaron por sus

55 Las Dominicales del Libre Pensamiento, 20-IX-1890.


56 Entre ellos el banquete llamado de « promiscuación ». Para la sociabilidad republicana una evocación de
su lógica en DUARTE I MONTESERRAT, A.. Possibilistes i Federals. Política i cultura republicanes a Reus (1874-
1899), Reus, 1992, p. 145-157.
57 El primer coloquio sobre el socorro mútuo en España tuvo lugar en 1992. Las actas en S. Castillo. Solidaridad
desde abajo. Madrid: UGT-Centro de Estudios Históricos, 1994.

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

intentos, trabajosos, de constituir una cultura obrera que se distinguiera de la


dominante. Al socorro mutuo, durante tiempo, sólo se le reconoció una función
transitoria que la emergencia de la organización obrera radical habría convertido
en obsoleta. Los militantes más conocidos, al recordar a veces las primeras
formas de su experiencia obrera, reproducían la misma jerarquización : el mérito
del socorro mutuo había sido de hacer más llano el camino hacia el ingreso en la
organización de clase cuando ésta apenas existía58. Las críticas intermitentes de
la prensa obrera radical contra el carácter ilusorio de las asociaciones de socorro
mútuo –a veces llamadas por sus nombres tradicionales de « montepíos » e,
incluso, de « hermandades »– parecían justificar la indiferencia de la investigación
a su respecto. Subrayaban que su funcionamiento era burocrático y que podían
llevar a los obreros hacia soluciones parciales que se revelarían falsas o permitirían
manipulaciones patronales.
El silencio ha durado mucho. No parece justificado si se tiene en cuenta
que paralelamente al aumento de las actividades de organización social y de la
militancia política obrera también el número de las sociedades de socorro creció,
y de manera notable, además, entre los años finales del siglo XIX y los iniciales del
XX59. El éxito se puede atribuir en parte, y no carecería de sentido, a la ausencia del
estado español en la protección social. Al contrario de lo que pasa en la Francia
del Segundo imperio (1851-1870) donde el estado no deja que el movimiento de
socorro se desarrolle lejos de su control no hay en España voluntad institucional
ni de desviar las iniciativas hacia horizontes conocidos –se confía en la Iglesia para

 157 que desempeñe este tipo de papel60– ni de preocuparse por ejercer un control, a no
ser el de orden público que obligaba a las asociaciones a que pusieran sus libros de
actas a disposición de los gobiernos civiles. Se dan casos de rechazo de eventuales
cajas patronales de enfermedad que combinaban intentos de integración en el
lugar de trabajo y modalidades de exclusión de los obreros considerados como
rebeldes –en los años 1880 parecen estar en declive61. De hecho el socorro mutuo
había llegado a ocupar cierto espacio que los socios podían considerar como
propio y prometedor.
Es significativo que la mayoría de las «  sociedades  », de socorro, y
particularmente las nuevas, tendieran a borrar de sus estatutos el paternalismo,
expulsando a los socios no obreros y a suprimir las referencias religiosas, incluso
en cierta medida las rituales –lo dicen sus nombres y la preocupación por formas
de gestión que vienen a ser las de una democracia directa62. La hacen posible
las pequeñas dimensiones de muchas, entre 100 y 300 miembros. Sería atrevido
atribuir dicha forma a una intención : es un límite para que la asociación sea
operativa. La gran mayoría permanecieron independientes a pesar de algunas
llamadas, esencialmente en Barcelona, de personalidales moderadas que insistían
en los ahorros de gestión que supondría una organización más centralizada de las
sociedades de socorro –el propósito era que una parte de ellas fuese absorbido por

58 El esquema para los tipógrafos de Madrid en MORATTO, Juan José. La cuna de un gigante. Historia de la
Asociación General del Arte de Imprimir, Madrid, 1925, p. 40.
59 Cf.: RALLE, M. « Protección mutualista e identidad obrera » En : CASTILLO, S. Solidaridad desde abajo…,
p. 429-430.
60 Para la situación francesa, Cf. : GIBAUD, B. De la mutualité à la sécurité sociale. Conflits et convergences.
Paris: Editions ouvrières, 1986, p. 44-53.
61 Las iniciativas son llamadas Caixas dels morts por obreros de fábricas catalanas ya que los dueños
intentaban atraer a los obreros incluyendo en el socorro el pago de los funerales. Hay testimonios en El
Productor, 17-VIII-1888 y 19-X-1890.
62 Incluso cuando llevan nombres de santos . « Toda idea política o religiosa queda rechazada » afirma el
articúlo primero del Montepío de San Miguel Arcangel de San Martí de Provensals (Archivo del gobierno
civil de Barcelona, legajo n.° 830)

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las redes caritativas que intentaban actuar en los medios obreros 63. En todo caso
las modalidades de las « asambleas » implicaban la igualdad de los socios incluso en
el acceso a los cargos cuya necesaria rotatividad subrayaban los estatutos. Incluso
si bastantes dificultades concretas impedían que el funcionamento fuese tan ideal
–el analfabetismo era un obstáculo frecuente– el que la iniciativa aparentemente
modesta del socorro asumiera ese tipo de modelo proporciona otro indicio de tal
exigencia en los sectores populares.
De las tres o cuatro mil sociedades de socorro mutuo que se constituyeron
entre 1880 y 1910 –antes de la primera fecha, salvo en Cataluña, eran pocas e la
primera fecha – se han conservado varios centenares de folletos de estatutos. El
que se materializaran bajo una forma impresa puede ser una primera señal de lo
que llegaron a representar para su público. Estatutos o preámbulos reproducen, en
algunas líneas, la temática ya señalada. De hecho junto con la perspectiva concreta
de la función de socorro aparentemente racionalizada y descrita en un lenguaje
funcional y laicizado64, evocan la capacidad infinita de la asociación de la que una
caja de socorro y las cuotas que la alimentan constituyen la primera prueba. Con las
funciones que se podrían añadir al socorro sería posible desembocar en la liberación
social. Esta es más que implícita ya que junto con la extensión de las fuentes posibles
de dinero (gracias a la venta de bebidas, a una asociación de diversión, a una
cooperativa de consumo, etc.) se podrían realizar otros fines : ayuda a la invalidez,
al paro, a la educación, a las diversiones, etc.. Algunos ya imaginaban que las
reservas podrían servir algún día en huelgas importantes. El carácter público de los
estatutos prohibía que figurase en ellos pero es bastante conocido que más tarde
parte de las reservas de sociedades de socorros paralelas con secciones sindicales,  158
en la UGT en particular, fueron utilizadas a veces para ayudar a los huelguistas del
oficio65. En lo que se refiere a la ampliación ideal de las funciones los ejemplos son
muy numerosos y se encuentran en los puntos más diversos del territorio español.
En 1899, es decir bastante después de la ruptura representada por la FRE, en estos
términos presenta sus objetivos una sociedad del municipio andaluz de la Villa de
Torredonjimeno (de la andaluza provincia de Jaén) :

Su objeto es el de reunir por medio de las cuotas que se establecen un


fondo con el que cooperando con las ventajas que reporten el consumo
de artículos de primera necesidad y otras especies, entre los asociados,
o por conciertos económicos entre los comerciantes e industriales de
la población, se adquieran economías y ahorros que permitan atender
los fines y propósitos de mejorar moral y materialmente a sus asocia-
dos; ofrecerles medios de instrucción y cultos recreos; socorrerles en
casos de aflicción, en enfermedades o reveses de fortuna; iniciarlos en
prácticas de vida sana y buenas costumbres; abrirles camino de Rege-
neración, despejarles horizontes de progresos, y habilitarlos a la vida de
actividad y tendencias de constante mejoramiento y perfección66.

Tal mezcla de preocupaciones prácticas y de construcciones ideales suponen


implícitamente que las actividades concretas, y las que estarían por venir, se dirijan
hacia una solución global a la que se llegaría, por medio de las prácticas obreras

63 ALBÓ, R; MARTÍ, Cassimir. Barcelona caritativa, benéfica y social. Barcelona, 1914, 2 v., t.2, p. 271
64 La ayuda monetaria cuotidiana suele corresponder a lo que supondría pérdida de una jornada de trabajo.
No está previsto que pueda durar más de un mes o dos.
65 El fenómeno es corriente en la Segunda República (Cf.: SANTOS, Juliá. Madrid, 1931-1934. De  la fiesta
popular a la lucha de clases. Madrid : Siglo XXI, 1984, p. 191-220).
66 Es muy significativo que en la misme fase se encuentren muchos estatutos ambiciosos en Extremadura,
Andalucía, y Nueva Catilla.

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

de solidaridad y de sociabilidad, de modo independiente al estado y a las iniciativas


políticos, y hasta a las justificaciones de la necesidad de la revolución social. Se
trata menos de proporcionar ejemplos de éxito que de mostrar la capacidad de
responder a los aspectos problemáticos tanto de la actividad de trabajo de un
obrero como, también, de su vida en sociedad. La perspectiva no había conocido
variaciones a pesar de las muchas novedades políticas que habían intervenido
después de la caida de Isabel II. Ya antes, en 1866, había escrito un periódico obrero
catalán, El Obrero :

[…] estaremos seguro de encontrar siempre amigos que nos recibirán


en su seno como individuos de una misme sociedad (= asociación, M. R.)
que tiene por objeto prestarnos amparos y protección en todos los mo-
mentos de la vida. / Establecida […] la sociedad puede constituirse a la
vez en caja de crédito mutuo sobre el trabajo, en banco de previsión por
las enfermedades e inutilidad, estableciendo una mutua relación entre
todas las secciones de la misma. / Los proyectos de consumo y producci-
ón formarían también en lugar preferente y serán de inmediata aplicaci-
ón una vez que son el principal elemento que ha de contribuir como in-
termediario a dar seguridad a las demás obligaciones de la colectividad67.

El Obrero no había estado en contacto con las propuestas de la Internacional.


Su sensibilidad era republicana federal –ya hemos visto un ejemplo de la relación
con las formas menores de solidaridad. La alusión al « banco » es probablemente
una reminiscencia de la « Banque du peuple » de Proudhon. Es significativo que la
 159 tonalidad sea muy parecida en una reproducción por el periódico anarquista La
Revista Social, y esto en 1881, de un llamamiento de Alcoy a asociarse para beneficiar
de una ayuda mútiple y de una perspectiva global68. La relativa permanencia del
proyecto asociativo para evocar de modo algo concreto el cambio social esperado,
en temas y términos tan parecidos es significativo de la presencia difusa de la
cultura obrera en la que el presente artículo quiere insistir. Se ha mantenido a
pesar de los grandes cambios políticos por los que ya había pasado el movimiento
obrero. Sigue otorgando un papel decisivo al espacio asociativo concebido como
una construcción fuera del estado y de la política. Si las propuestas de los militantes
anarquistas, aquellas que insisten en la necesidad de un conflicto decisivo, parecen
haber despertado un consenso de orden político en los sectores asalariados de las
ciudades y del campo éste no interrumpe la preocupación por mostrar el carácter
determinante de la afirmación de la identidad obrera. De hecho, tanto las cajas
de resistencia de la FRE como las reservas de las sociedades de socorro mútuo
no llegaron a cumplir el objetivo que anunciaban. El de las primeras apareció
rápidamente imposible. En cuanto a las iniciativas de socorro, los intentos de
protección a inválidos, el segundo de sus propósitos sólo tuvieron resultados
simbólicos –10 céntimos por día en el mejor de los casos. No hay mejor prueba
del carácter esencialmente compensatorio, muchísimo más que concreto, de las
iniciativas de organización o de solidaridad.

67 El Obrero, 18-III-1866.
68 « Asóciate, obrero alcoyano, que esa es tu salvación. Si no tienes instrucción en la sociedad la encontrarás ;
si abusan de tí, en la sociedad, si no hoy, más adelante hallarás justicia ; si te encuentras enfermo, en la
sociedad tendrás socorro ; si tienes hijos, en la sociedad aprenderán a ser hombres ; y hasta tu esposa,
quien comparte todos tus sufrimientos, debes inducirla a que se asocie con sus compañeras para que en
su día goce el libre albedrío, no sea humillada y maltratada injustamente, como lo es hoy por la corrupción
de nuestras degradantes costumbres. Sí, obrero alcoyano, hay que olvidar esas costumbres rancias y
repugnantes ; entra en el camino de la civilización, que las costumbres actuales son como un edificio viejo
y demolido que va a desplomarse al peso de sus años » (La Revista Social, 04-VII-1881).

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MICHEL RALLE

Este tipo de propuestas no representa sólo aquella aspiración a la autonomía


que asoma casi en todas partes con las primeras iniciativas de solidaridad de los
colectivos obreros. Tanto Thompson como Sewell han proporcionado ejemplos
de emergencias, en Inglaterra y en Francia, de tal voluntad obrera, la cual tiende a
borrarse cuando muchos sectores de la clase se integran en las contiendas politicas.
El segundo, en particular, cita el proyecto de « asociación de las asociaciones »
visible entre los obreros parisinos de la Monarchie de Juillet69, Alimentada por el eco
de las grandes ideologías obreras, por importantes conflictos sociales, por la falta
de interés de los estados en tomar medidas significativas en materia de protección
social y por una fase de expansión de temas ideológicos radicales, la diferenciacion
social conquista espacios y hasta impide, en ciertos momentos, la progresividad
del proceso de integración en la propuesta política democratizadora. Acontece
cuando existe la tentación de un repliegue sobre la clase. La tiene por ejemplo,
es una ocurrencia más tardía, el sindicalismo revolucionario francés. El proyecto
que, en España, arranca en 1870 constituye, al fin y al cabo, un caso de “autonomía
obrera” para usar el concepto –también título de un libro–, propuesto por Jacques
Julliard en su análisis del sindicalismo revolucionario francés. Frente a un campo
político en el que la clase conseguía difícilmente inserirse, las organizaciones
obreras oponen el « ser obrero » al « hacer », sospechoso de llevar a perder la
autonomía social70. El tema tiene la ventaja de señalar el carácter problemático
de la integración de un movimiento obrero nacional en el marco político en el
que actua. Puede ocurrir cuando la organización asume un discurso radical. El
comunismo francés, en su época de fuerte presencia sociopolítica –se llegó a
hablar a su respecto de « contrasociedad »– es uno de los ejemplos más conocidos.  160
En el caso del anarquismo español evocado aquí, ya que estarían fallando tanto
el sistema político como la capacidad de integración del estado, la exaltación de
lo obrero ha tenido un alto nivel afectando incluso a los « marxistas » del partido
obrero. Se percibe en las contestaciones poco convencidas de José Mesa, la primera
personalidad de la corriente marxista en España, a los llamamientos de Engels para
que en 1873 se fundara sin tardar un partido obrero71: «  […] la libertad y la igualdad
política no dan ni un bocado de pan ni un átomo de dignidad al obrero » (22-II-
1873). Casi veinte años más tarde, cuando, en la mayoría de los paises, el Primero
de mayo, ratificaba un tipo de conflictividad con el estado según la cual tenía que
arrancársele unos disposiciones sociales legales, incluso los socialistas del PSO, y en
particular Iglesias, consideraban que no se podía esperar nada de él ya que estaba
totalmente entregado a la burguesía72. Si marxistas y libertarios competían por
mostrar que eran los mejores defensores de lo verdaderamente obrero es porque
la cercanía con la pertenencia social constituía la mejor prueba de la radicalidad de
sus principios. La necesidad que tuvieron los socialistas españoles de mostrar su
inserción social no hacía fácil que se alejaran de esa temática, a no ser en ciertos
territorios, como en el Pais Vasco, donde la presión sobre las autoritades formaba

69 SEWELL, W. H. Work and Revolution in France., the Language of Labour from the Old Regime to 1848,
Cambridge : University Press, 1980 : « El movimiento obrero de 1848 era socialista en la medida en que
imaginaba un estado construido desde abajo hasta arriba en las instituciones del trabajo […] los gremios
eran por consiguiente las instituciones públicas a las que competía el poder de organizar el trabajo de
manera asociativa » (p. 355).
70 JULLIARD, Jacques. « Introduction », Autonomie ouvrière, Paris: Gallimard-Seuil, 1988, p. 9-40.
71 Cf.: RALLE, M.« La Emancipación y el primer grupo marxista español : rupturas y permanencias » En:
ELORZA, A.; RALLE, M. La formación del PSOE. Barcelona: ed. Crítica, 1989, p. 94-110.
72 En su encuentro con Sagasta, después de la manifestación del Primero de mayo de 1890, Iglesias le dice
« Fijándonos en la representación efectiva que tenéis –la de la clase que explota al pueblo trabajador… »,
El Socialista, 9-V-1890.

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

parte de las modalidades de lucha que sus compañeros habían contribuido a


implantar a nivel local73. La identificacón era más fácil para los anarquistas pero
también suponía asumir unos espacios, físicos y discursivos los cuales, atribuyendo
radicalidad a la pertenencia social, ocultaban a veces la lógica ácrata.

El antiestatismo como sustituto del enfrentamiento


decisivo. Mantener la ruptura
A medida que pasa la década de 1880, se expresan bastante más las
actitudes críticas con respecto a la construcción de una “resistencia universal”.
Algunas iniciativas y discursos parecen franquear los límites del modelo anterior.
La insistencia en considerar la espontaneidad como primer argumento para
la acción parece liberarse de restos de ambigüedad como en la resolución del
Congreso amplio de Sociedades de Resistencia (18-20 marzo 1888), el cual instituye
una « Federación de resistencia al capital » que proclama un « Pacto de Unión y
Solidaridad » entre las secciones que la constituyen. El texto final del congreso,
después de subrayar que la experiencia muestra que « no ha habido una huelga
reglamentaria en las diferentes federaciones obreras de resistencia » –el que se
siguiera hablando de este tema es una prueba más de que sigue teniendo todavía
una presencia difusa entre las asociacions obreras–, pone fuertemente de relieve
las virtudes de la espontaneidad obrera :
 161 Esto nos lleva al reconocimiento de la existencia de una fuerza que,
aplicada a la obra revolucionaria, puede ser muy aprovechable y tal vez
de resultados muy eficaces, si sabemos imitar al físico que, en cuanto
descubre una fuerza natural, trata de emplearla..../ Para favorecer esa
fuerza necesítase de la solidaridad, pero de una solidaridad espontánea
e impremeditada, no de aquella calculada y fría que sólo da una orden
emanada de la comisión correspondiente, como si dijésemos de una au-
toridad jerárquica74.

La radicalidad de las palabras podría también interpretarse como una


actitud de principio que sólo se dirige a una minoría de los sectores obreros.
Parece confirmarlo el bajo número de secciones y de localidades representadas
en el congreso75. La transformación de la FTRE en una « Organización Anarquista
Revolucionaria » tampoco reune un apoyo social considerable, a pesar de anunciarse
como un congreso –tiene lugar en Valencia a principios de 1889. La debilidad de la
federación había ido creciendo desde la represión del gobierno cuando éste había
usado, en 1883, el pretexto de que albergaba una sociedad secreta, la « Mano
Negra ». Lo que tuvo lugar fue más bien un intento de dar visibilidad a unos grupos
y círculos anarquistas al presentarlos como la continuación lógica de la primera
version de las organizaciones nacionales de defensa de 1870 y de 1881. Como lo
decía el anarquista que, con los argumentos habituales, describía, en el artículo
ya citado, la reunión de Valencia, desaparecía la defensa y llegaba el espíritu
revolucionario :

73 Un análisis global en FUSI, J. P. Política obrera en el País Vasco (1880-1923), Madrid: ed. Turner. Para las
huelgas de mineros de principios de los años 1890, cf.: RALLE, M. « ¿ Divergencias socialistas ? Madrid y
Bilbao ante el conflicto minero de 1891 ».En: RALLE, M.; ELORZA, A. La formación…, p. 186-240.
74 Acracia, 06/1888, p. 622. Edición facsímil, Barcelona: Leteradura, 1978.
75 Lista en El Productor del 25-V-1888. Son unas treinta secciones de oficios, prácticamente todas de Bareclona.

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MICHEL RALLE

Desapareciendo la organización por secciones de oficios, la Anarquía


habrá perdido aparentemente, en hombres, pero no así en la calidad de
ellos, pues si bien ser1an más pocos, a lo menos estos pocos serán cons-
cientes anarquistas, serán verdaderos anarquistas. ¿ Y qué mejor modo
de aunarse estos pocos pero verdaderos y conscientes anarquistas que
organizándose en grupos autónomos, libres, esto es anarquistas, rela-
cionándose entre sí, para mejor encauzar la propaganda ?

En el final de la década el resurgir de un espíritu ofensivo entre quienes se


sienten anarquistas no significa, sin embargo, un cambio en las actitudes de la
corriente antiautoritaria en la cual actúan. Es modesto, por ejemplo, el interés de
El Productor, el cual ha adquirido desde su inicio en 1887 el estatuto de órgano
principal de los sectores obreros anarquizantes –antes lo habían sido La Revista
Social (1881-1884) y Bandera Social (1885-1886). Después de dedicar algunos ecos
a la nueva organización deja prácticamente de citarla. Además no se modifica
su actitud en lo que se refiere a la acción ni emerge la perspectiva de presentar
las huelgas que llaman la atención como el primer paso de un conflicto decisivo.
Tampoco se alude más claramente a las capacidades de la huelga general. En esta
última parte sólo se van a dar unos ejemplos puntuales de ello porque siguen
mostrando la permanencia del peso de la prioridad de la identidad obrera en los
conflictos reivindicativos corrientes. En ese contexto ¿ cómo mostrar la necesaria
separación política sin acciones de defensa que proporcionen ocasiones de
recordar la perspectiva del conflicto decisivo ?
Sólo con ocasión de algunas huelgas concretas parecen la sensibilidad
anarquizante y el antiautoritarismo encontrar materia. Para El Productor son  162
vías hacia la ruptura. Siendo la mayoría de los conflictos breves, poco densos,
profesionalmente delimitados –en general por un oficio en una localidad–, y
guiados por las clásicas reivindicaciones sobre el salario, las horas de trabajo o
el « autoritarismo » de los maestros son pocos los que dan lugar a ese tipo de
interpretaciones76. Los periódicos libertarios guardaban silencio o pronunciaban
unas críticas tibias cuando los huelguistas se dirigían al gobierno civil o a alguna
otra autoridad. El gran movimiento de solidaridad provocado por el conflicto textil
de Manresa de 1890 no llevó a imaginar otro tipo de negociaciones. De hecho la
federación del textil, las Tres Clases, controló la huelga en la que intervinirieron
las autoridades y algunos políticos. El Productor la comentó poco a pesar de su
dimensión excepcional.
La huelga de los albañiles de Barcelona de diciembre de 1887 ofrece uno de
los pocos ejemplos de los intentos de introducir un tema rupturista a través de
un conflicto social. El Productor vio en ella la posibilidad de llamar a una gestión
solidaria del oficio. Habían emprendido la acción los que trabajaban en las obras
de la Exposición Universal prevista para el año siguiente. Pedían una reducción
de la jornada (nueve horas) a la que añadían, tal vez lo pidiera sólo un sector de
la profesión, que el trabajo disponible después de la rebaja de las horas fuera
repartido entre todos los del oficio, suprimiendo las situaciones de paro. No era
une reivindicación inédita. Obtenerla podía dar la posibilidad de plantear que la
sociedad del oficio fuera la que tuviera en adelante el monopolio de la colocación,
beneficiando, por supuesto, a sus afiliados –ese control ya había sido, y lo sería más
tarde, motivo de conflictos77. Demostraría la posibilidad de vincular la modalidad

76 La conocida y visible huelga de los tipógrafos de Madrid (febrero marzo de 1882), primer gran conflicto en el
que participó la sensibilidad socialista, no presentó novedad en las reivindicaciones ni en la marcha del conflicto.
77 Sobre la rivalidad en este campo de las organizaciones sindicales del Madrid de la II República, consúltese el
análisis fundamental de SANTOS, Juliá. De la fiesta popular a la lucha de clases, Madrid: Siglo XXI, 1984, p. 221-265.

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de defensa con el proyecto a largo plazo. Cualquiera que fuera el papel de esa
reivindicación en la huelga de los albañiles, El Productor consideró ejemplar que la
solidaridad sustituyera las reivindicaciones habituales:

[...] los trabajadores han adquirido la certidumbre de que, tanto si


existe el previo compromiso por medio de la organización, como si tal
compromiso no existe, la solidaridad obrera se establece rápida y efi-
cazmente, y sobre esta base pueden fundarse grandes esperanzas. /
Aquellas masas de hombres que [...] resisten a la tentación de exigir
aumento de salario [...] demuestran que los trabajadores han compren-
dido la acracia y se hallan en actitud de practicarla78.

A su huelga se le atribuía más de lo que decían los albañiles. Para El Productor


está claro que no introduce sólo una distancia con respecto a las reivindicaciones
más corrientes sino que instala, en cierta medida, en el presente las relaciones
sociales del futuro. Pero, para el periódico, lo esencial era que la intervención
de las autoridades deseosas de favorecer un entendimiento entre patronos y
obreros en un momento de gran necesidad –la fecha de la Exposición universal–
permitía recordar lo que habían de ser las relaciones de los trabajadores con sus
interlocutores :

Muéstrese la autoridad gubernativa completamente neutral, no se ocu-


pe para nada de las huelgas provocadas por los obreros como no se
ocupa por las decididas por los patronos cuando por una y otra causa

 163 cierran sus fábricas o talleres, y verá cómo aquellas siguen su curso na-
tural, sin transgresiones de la ley, a pesar de estar hecha ésta en favor
de los que poseen y de los desposeídos79.

La expresión « curso natural », además de indicar, una vez más, que el


conflicto sólo puede enfrentar a obreros y patronos, remite a una visión muy fija
del modelo de conflicto. El carácter en parte irreal de la propuesta –¿ cómo podría
existir una huelga pura dentro de la legalidad ?– es significativo de la dificultad de
la sensibilidad libertaria para proponer entonces acciones más ambiciosas como
lo sería la huelga general. En su ausencia sólo tienen sentido las que rechacen
cualquier contacto con lo que no forma parte de la experiencia propiamente
obrera. Los patronos, en cambio, forman parte de ella y son erigidos, de manera
formal, en interlocutores únicos. No se trataba tanto de ampliar las huelgas reales
como de poner entre paréntesis, al menos de modo simbólico, lo que significaba la
presencia de los aparatos estatales y políticos. Para ello el objetivo de un espacio
obrero estricto era el único posible.

Primero de mayo. Unas huelgas generales particular


Las primeras celebraciones del Primero de mayo proporcionan, por
consiguiente, a la corriente libertaria la oportunidad de llamar a la huelga
general. Aparecía indispensable constituir una perspectiva propia y visible frente
al modelo de « fiesta del trabajo » de la corriente marxista : un día de paro y de
manifestaciones dirigidas a reclamar a los poderes públicos medidas legislativas
sobre la jornada de trabajo. En 1890, la participación masiva, hasta en Barcelona,
de los colectivos obreros en la iniciativa socialista hacía necesario distinguirse

78 El Productor, (06/08/1888).
79 El Productor, (19/08/1887).

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MICHEL RALLE

tanto en el objetivo como en la forma del conflicto. La desconfianza expresada por


los mismos socialistas con respecto a las autoridades –otra señal colateral de la
fuerte presencia de actitudes antiestatistas en los colectivos obreros españoles–
llamaba a actuar de modo radical80. Sin embargo, llamar a la huelga general no
significaba siempre, al menos en la fase evocada aquí, un corte nítido con los
temas y las iniciativas con las que el antiautoritarismo señalaba la prioridad de la
afirmación de la identidad obrera. 1890. En vísperas del primer Primero de mayo, el
30 de abril, y cuando no se esperaba todavía una gran respuesta a la convocatoria
socialista, un manifiesto distribuido en Madrid y presentado como anarquista, pero
probablemente representativo del antiautoritarismo, indicaba que no se preveía
una acción inmediata :

Y habiendo sido siempre nuestro ideal la organización del proletariado


como clase social, frente a frente de las clases privilegiadas, estamos
conformes con la manifestación del 1° de Mayo, porque de ella ha de na-
cer el deseo, que se convertirá en hecho en breve plazo, de una huelga
europea que supone previamente la organización de la clase trabajado-
ra en sentido verdaderamente revolucionario81.

El espacio social que dijese la identidad revolucionaria de los « trabajadores »


seguía siendo el de la actividad de una organización que había de tener una
existencia « previa ». Ampliada a una « huelga europea », interfería otra vez la
lógica de su constitución en la perspectiva, aparentemente nueva, de un conflicto
que llegaría a ser total.
La indecisión permaneció en los primeros años de manifestaciones de  164
Primero de mayo. En Barcelona, en 1890, después de la exitosa manifestación de
los socialistas, los libertarios, habían tratado de llamar explícitamente a la huelga
general de manera repentina e informal. La paralización de los tranvías o el cierre
de bastantes fábricas se debieron más a disturbios callejeros provocados por
algunos grupo que a extensiones de unas huelgas puntuales en algunas fábricas.
El mando militar, haciéndose cargo del orden, puso fin al episodio. Sorprende
más lo que pasó en Valencia, único lugar donde hubo llamamiento a la huelga
general antes del día 1°. La preparación del movimiento se dio unas apariencias
estructuradas pero su desenlace decepcionante mostró la dificultad de llevarlo a
cabo y las contradicciones en las que se encontraron los organizadores. La hora
de una huelga general anarquizante pareció llegar con el siguiente Primero de
mayo, el de 1891. Para que el objetivo quedase claro, se intentó dar la prueba de
su representatividad convocando a las asociaciones de defensa a un congreso, el
conocido « Congreso Amplio »�, que lo ratificara —el riesgo de subordinar la acción
a las iniciativas de éstas cuando llegase el momento de actuar no se consideró
como contradictorio con el espíritu de un movimiento decisivo. No tuvo un mayor
impacto que la huelga de Valencia del año anterior. Por su ambición al menos
aparente –la de confirmar en el terreno de los movimientos sociales la huelga
general como modalidad de acción nueva y asumiendo una tonalidad anarquista–,
las dos iniciativas merecen ser evocadas de manera un poco más precisa.
Son los núcleos anarquistas de Valencia, influyentes en muchas asociaciones
de defensa de la ciudad, quienes dirigen, en la ciudad, el movimiento de 1890 cuyos
participantes lo designan claramente como « huelga general ». Acompañadas
de todo un aparato de actividades las huelgas concretas muestran el deseo de

80 RALLE, M. « Las huelgas antes y después del Primero de mayo »… , p, 73-79.


81 El Resumen, Madrid, 30/04/1890.

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añadir espectacularidad a la radicalidad del objetivo al que el papel central de


las asociaciones de oficios dan una figura aparentemente contradictoria. La
autonomía habitual de cada una en la toma de decisión, la atención prioritaria a las
condiciones de trabajo (duración de la jornada y también salarios) ya introducen
distancia entre el objetivo considerado como común y la posibilidad de que cada
especialidad defina el suyo. Existe sin embargo una gran preocupación por mostrar
una voluntad compartida, reuniéndose cada día los representantes de todas las
asociaciones implicadas para hacer un balance de una acción que dura varios días.
La favorece probablemente la convicción de que bastarían unos éxitos para que
el ejemplo fuese seguido por todo el país y –¿ quién sabe ?– más allá. Es notable
el cuidado puesto en los desfiles, pacíficos, y en la escenificación, en particular
el círculo dibujado en el ruedo de la Plaza de toros, donde tiene lugar el primer
meeting. Esta forma geométrica permite que las asociaciones que la componen,
con sus representantes y sus banderas, a veces las antiguas de los gremios,
aparezcan tan iguales entre sí como los puntos que hacen existir un círculo82.
Es fuerte la preocupación por no salir del espacio social propio –y una
confirmación de que la identidad obrera podía ser una manera de compensar las
insuficiencias del movimiento real. Es implícita en muchas palabras. Una octavilla
pide que «  […] los mismos huelguistas cuiden de que no se mezcle en ningún
grupo persona extraña al respectivo arte u oficio83 ». Emergen también unas frases
paradójicas y parecidas a las de El Productor cuando defendía el « curso natural »
de la huelga de albañiles. Se pronuncian cuando los animadores del movimiento
discuten con el gobernador civil –el aparato del gobierno Sagasta, bajo la amenaza
 165 de ser sustituido por un gabinete Cánovas, se muestra globalmente tolerante y
hasta cortés con los participantes del primer Primero de mayo. Se aprovechan de
la buena relación para pedir que no se transmita a Madrid su reivindicación de una
jornada de ocho horas:

El señor López [militante anarquista, M. R] manifestó al señor goberna-


dor que no procedía elevar su petición al gobierno, pues siendo anar-
quistas los manifestantes, nada quieren de los poderes públicos: se diri-
gen, no más, a los patronos para lograr sus pretensiones, encaminadas
a la completa emancipación de la clase trabajadora84.

De la misma manera que para la huelga de albañiles de Barcelona, en 1887,


se intenta el reconocimiento del derecho a un contacto directo entre patronos y
obreros, sin intromisión del Estado ni de las fuerzas políticas constituya una salida
del conflicto. Ello no impedía que se entregara al gobernador civil un documento
en este sentido:

Los obreros de Valencia y, en su nombre y representación, la comisión


general huelguista, compuesta de un delegado de cada una de las comi-
siones de oficios, significa a VS. su más solemne protesta de adhesión
a la paz y tranquilidad del género humano y sus más fervientes votos
para que, a fin de que cuanto antes concluya el estado actual de cosas,
se capaciten los patronos de su noble y enérgica actitud, y accediendo
a sus justas peticiones, no pretendan poner obstáculos al progreso, ya
que es inevitable su majestuosa marcha, único medio por el que puede
evitarse el perjuicio general con la resolución del problema social que en
la actualidad nos ocupa. / Viva la fraternidad universal / Vivan nuestros
hermanos de todo el mundo85.

82 El Mercantil Valenciano, Las Provincias. Valencia, 04/05/1890).


83 Ibidem.
84 Ibidem.
85 Ibidem.

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MICHEL RALLE

El objetivo era tan simbólico como modesto. Las iniciativas de Valencia


reflejan en parte una historia particular, con una fuerte experiencia asociativa —
entre los actores están, por supuesto, los « velluters » del Arte mayor de la seda,
en decadencia relativa en 1890. El socorro mutuo es el más denso después del
de Cataluña86 y constituye un terreno disputado en los enfrentamientos políticos
locales –en ellos interviene el republicano federal Blasco Ibáñez87. La huelga general
acaba en huelgas de oficios, con algunos éxitos parciales pero, también, con una
dispersión de la acción. El proyecto global se va reduciendo a la afirmación de una
identidad puramente obrera. Con pocas expectativas, a pesar de su capacidad de
movilización, los libertarios valencianos podían encontrar una compensación en
las apariencias simbólicas de ruptura. Al reivindicar que se respetase una identidad
obrera estricta, con un conflicto que se reducía a un enfrentamiento entre obreros
y patronos, no salían de la lógica de ésta tal como se había asumido desde la FRE.
La ambigüedad tampoco se interrumpió cuando en 1891, con ocasión del
segundo Primero de mayo, las sensibilidades libertarias y antiautoritarias parecían
estar de acuerdo para intentar ocupar todo el espacio español de la movilización.
No era tan fácil justificar un combate decisivo en la medida en que se luchaba por
la jornada de ocho horas, objetivo ideal pero fuera de alcance y condicionado
por un movimiento internacional que recurría a la interpelación del estado. Por
lo menos se proclamaba la voluntad de entrar en un conflicto largo. Anunciada la
huelga desde principios de 1891, se la iba calificando cada vez más de « general » a
medida que se iba acercando el primer día de mayo, en particular en El Productor.
La equivalencia « ocho horas / huelga general » podía parecer convincente a los
colectivos obreros masculinos de los oficios que habían entrado en acciones por las  166
nueve horas –no se pedían las ocho horas para las mujeres de la industria textil88.
La modalidad capaz de dar más legitimidad a la iniciativa, es decir la reunión de
un « Congreso amplio » de sociedades de defensa, reproducía la combinación de
las dos referencias de la huelga general de Valencia del año anterior. No borraba
la ambigüedad del objetivo, el cual no generó prácticamente ningún movimiento
real ya que el reconocimiento de una identidad prioritariamente social seguía
dando lugar a dos interpretaciones. Desde el principio del movimiento existían
por consiguiente dos salidas. La de aquellas organizaciones, en general de obreros
de oficios, con suficientes fuerzas para sacar algo de una negociación con los
patronos y la de un movimiento más global, el cual no llegó a constituirse. La acción
« impremeditada » soñada por los libertarios en 1888 no podía, por consiguiente,
alejarse mucho de la defensa prioritaria de una identidad obrera, de la que la de
los sectores de oficios no estaba lejos, en la medida en que su imagen política
la conseguían también manifestándose, igual que la FRE, como una expresión
casi pura de la clase. En aquellos años es variable el uso de « huelga general ».
Es a veces el caso de los participantes de conflictos duro para subrayar su fuerte
voluntad de seguir89. Pasa en la huelga de Manresa de abril 1890. Significaba una
presión suplementaria y no un cambio del modelo de acción. Ocurre más o menos

86 En Valencia el pensamiento liberal se había mostrado activo en la defensa de formas –las clásicas– de
asociación. Es conocida la defensa de las hermandades por PUJOL, Eduardo Pérez. La cuestión social en
Valencia, Valencia: Imprenta José Doménech, 1872.
87 En lo que se refiere a la preocupación de Blasco Ibañez por controlar ciertas sociedades obreras de Valencia,
véase REIG, Ramir. Obrers i ciutadans. Blasquisme i moviment obrer. València: I. Alfons el Magnànim, 1982,
p.249-254.
88 A propósito de los excepcionales meetings de mujeres de abril de 1891, El Productor subraya que las
oradoras apoyaban las ocho horas para sus maridos (30/04/1891).
89 «Huelga general» según Sagués de las Tres Clases (El Diluvio, La Publicidad, de Barcelona, 30-03-1890);
«paro general» en El Obrero (Barcelona), semanario de las Tres Clases, 04-04-1890

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

lo mismo en Vizcaya donde los mineros, conducidos por militantes socialistas90,


trataban de conseguir, frente a patronos que no querían negociar directamente
con los representantes de los huelguistas, una intervención de las autoridades, en
particulares las militares llamadas para impedir que los desórdenes se extendiesen.
La presencia de tropas significaba, además de un reconocimiento de hecho de
la representatividad de los delegados, una presión sobre la patronal para que
satisficiese una parte de las reivindicaciones de los huelguistas91.

Principios del siglo XX. El tema de la huelga general


En los dos momentos distintos que se acaban de evocar, las iniciativas
basadas en la movilización de las organizaciones obreras se expresaron en
términos parecidos. Son también significativos de la interferencia de la temática
de la defensa de la identad obrera en los proyectos de cambio revolucionario.
Continuaba la reticencia ya señalada con respecto a la ambición más global de
las temáticas estrictamente libertarias –es significativo que éstas estuvieran más
presentes en los paises donde el anarquismo tenía poco impacto entre los sectores
obreros. Incluso cuando, después del cambio de siglo, la vertiente ideológico del
anarquismo español empieza a ser más aparente se mantiene de hecho la prioridad
otorgada a lo sindical. No es el lugar aquí de preguntarse sobre el impacto de esas
elaboraciones iniciales en las bien conocidas divergencias ulteriores de la corriente
libertaria dentro de la CNT (Confederación nacional del trabajo constituida en
 167 191192). Fueron muy visibles tanto en los años anteriores al golpe de estado de
Primo de Rivera (1920-1923) como cuando tuvo lugar al enfrentamiento entre FAI
(Federación anarquista ibérica) y « treintismo » en los años de la República. Pero la
intención de estas últimas y breves páginas es dar una muestra de la efectividad de
la tensión durante lo que suele considerarse como un nuevo momento, a principios
del siglo XX, del anarquismo español y también de la conflictividad social.
El primer elemento de cambio es sin duda la densidad de los conflictos. El
aumento alcanza a la vez el número de las huelgas y la diversidad de los huelguistas
–entre los que se encuentran en 1902 y 1903, con números inéditos, los obreros
agrícolas del sur93. Algunas se presentan como « generales ». La más visible es
la « huelga general » de Barcelona de enero y febrero de 1902 –ya a principios
1901, en Gijón, otra « huelga general » había reunido durante largas semanas a
muchos oficios y a trabajadores del puerto. También en La Coruña había tenido
lugar un extenso conflicto. El de Barcelona empieza con un paro de obreros
« metalúrgicos », particularmente los cerrajeros, que piden la jornada de nueve
horas. La reivindicación y la solidaridad con los huelguistas se extienden más allá
de las fronteras, habitualmente bien establecidas, de los oficios. Unas actitudes de

90 Ya, en 1892, la prensa local oye entre otros gritos (« ¡ Mueran los burgueses ! », « ¡ Viva la revolución
social ! ») alusiones a la huelga general (El Noticiero Bilbaino, 30-I-1892).
91 En el caso del gran conflicto que los socialistas quisieron en vano hacer ejemplar –la huelga des las fábricas
Larios en Málaga (abril de 1894) –, no se evocó la posibilidad de llamar a una huelga general.
92 Era la continuación de la organización catalana Solidaritad obrera cuyo manifiesto inaugural salió, el 25-VII-
1907.
93 En una sesión del parlamento en la que se debate de la huelga de Barecelona, el presidente del consejo,
Sagasta admite para los once primeros meses de su ministerio (hasta principios de febrero de 1902) un
número de 600 huelgas. El movimiento se acentua en lo que queda de año (Diario de Sesiones de Cortes,
sesión del 18-II-1902). Como término de comparación, en el año 1890, excepcional con respecto a los
anteriores y a los pôsteriores, el número de huelgas hubiera sido de 267 (Cf.: RALLE, M. « Las huelgas
antes y después del Primero de Mayo (Los conflictos españoles entre 1886 y 1864 : la irrupción del Primero
de Mayo », Estudios de Historia Social. Madrid. n. 54-55, año 1991, p. 68)

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MICHEL RALLE

apariencia violenta llevan a las autoridades a declarar el estado de sitio. El motivo


de su iniciativa era también político : la huelga ponía en duda la capacidad del
régimen para asegurar el orden público tal como la proclamaba desde su proceso
de establecimiento a partir el golpe de estado contra la República del general Pavía
en enero de 1874. Recurrir más frecuentemente a medidas de suspensión de las
garantías constitucionales era una manera de afirmar que el régimen ni se dejaba
intimidar ni cambiaba94. Podían ser drásticas : la prensa de Barcelona se quedó más
de una semana sin poder salir.
La mayor movilización social de principios de siglo se suele explicar por los
cambios económicos, los de la « segunda » revolución industrial, y las iniciativas
fiscales de un estado que tenía que racionalizar sus gastos después de la reciénte
guerra de Cuba. Pero también bastantes variantes de orden político prolongaban la
dinámica de crisis acentuada por la derrota y susceptible de alimentar los discursos
anarquistas, los cuales también encontraban justificaciones en las iniciativas de la
corriente en otros paises –ya se mencionó el impacto del sindicalismo revolucionario
francés. una serie de situaciones políticas que suscitaron reacciones propiamente.
Tenía varias fuentes políticas el deseo de presencia de los núcleos anarquistas.
La tensión ya la alimentaban las actitudes de la referencia conservadora cuya
visión patrimonializada del estado seguía intacta. Venía evocando incluso la vía de
un mayor autoritarismo cuyos temas se precisan entre el Gobierno Silvela de 1899
y la propuesta de « Revolución desde arriba » de Antonio Maura después de su
primer gobierno (1903-1904). Esa perspectiva autoritaria suscitaba, por supuesto,
reacciones de los núcleos anarquistas los cuales también la podían ver en las
propuestas nuevas y a veces contradictorias del « regeneracionismo » –Joaquín  168
Costa llegó a desear la venida de un « cirujano de hierro ». Las nuevas formas de
movilización política republicana incitaban, ellas también, a constituir una respuesta
de tono revolucionario. Con las iniciativas de Lerroux en Barcelona se difundía un
tipo de presencia popular – también se manifestaba en otras ciudades como en
Valencia Blasco Ibañez95. Con un lenguaje ambiguo, pero radical, justificaba que
se intentara integrar si no parte de los medio populares al menos sectores de las
clases medias que se contentarían con excesos verbales. Aunque no consigue un
éxito electoral el intento de Costa de entrar en el campo político con la « Unión
de productores » y las llamadas « clases neutras » también refuerza los enfoques
radicales por su insistencia en denunciar las estructuras de poder tradicional –hace
del « caciquismo » un tema político central96. Los enfrentamientos sobre lo que
se veía como « autoridades » eran un motivo de intervención para la militancia
anarquista ya que podía usar contra ellos las temáticas de descalificación de
las querencias autoritaristas. Hasta entonces el componente anarquista más
ideológico había encontrado las dificultades ya evocadas para hacerse más visible.
Pero ahora podía creer en la posibilidad de llevar a la base social obrera a asumir
el enfrentamiento decisivo y global que las distintas variantes del anarquismo
consideraban como central. Son significativas de una nueva capacidad de
movilización las publicaciones que desarrollan el tema de la huelga general, El
Productor (su segunda época ») y La Huelga General97. Como es sabido, Francisco

94 CALLEJA, Eduardo González. La razón de la fuerza, Madrid: CSIC, 1998 , p. 19-73.


95 Cf.: CULLA I CLARÀ, J. B. El republicanisme lerrouxista a Catalunya (1901-1923). Barcelona: Curial, 1986 y
JUNCO, J. Álvarez. El emperador del Paralelo. Madrid: Alianza, 1990. Para la actividad de Blasco Ibánez, cf.:
REIG, R. Blasquistas y clericales. Valencia: Institució Alfons el Magnamim, 1986.
96 Un análisis articulado del pensamiento de J. Costa en MAURICE, Jacques; SERRANO, Carlos. Joaquín Costa:
crisis de la Restauración y populismo. Madrid: Siglo XXI, 1977.
97 El primer número de la segunda época de El Productor sale en Barcelona el 6-VII-1901, el de La Huelga

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PRIMER ANARQUISMO ESPAÑOL Y CULTURA OBRERA (1868-1910)

Ferrer apoya y, en gran medida, orienta el segundo periódico, haciéndose eco del
debate que tiene lugar a nivel internacional precisamente sobre la huelga general y
reproduciendo bastante de lo que escriben los órganos del llamado « sindicalismo
revolucionario » francés98.
Detrás de la nueva visibilidad que, con ocasión de la huelga general, adquiría
en Barcelona el conjunto al que pertenecía un sindicalismo con recuerdos
antiautoritarios y los círculos libertario más ideológicos99, subsistían sin embargo
las tensiones. Indudablemente hay más energía en la lucha de los huelguistas y
asumen objetivos más ambiciosos, pero éstos se siguen expresando en términos
reivindicativos incluso si insisten más en el papel de una amplia solidaridad que
deja de obedecer a las pautas formales de antes. Así lo dice un manifiesto de los
« metalúrgicos » en huelga :

Compañeros, [...] seguid en la lucha emprendida hasta conseguir que


los patronos metalúrgicos abran los talleres a sus obreros con la jornada
de 9 horas; seguid prestando vuestro simpático apoyo a una causa tan
justa y haréis que la dignidad obrera quede respetada y apreciada de
todo el universo. Un esfuerzo más y la victoria es nuestra. …. Adelante,
pues, que al lado de nuestra causa que es la de ellos, están nuestros
hermanos de Sabadell, Tarrasa, Manresa y otros que no tardarán en se-
cundarnos en la lucha por la razón y la justicia. / ¡Trabajadores todos:
unión y solidaridad! ¡Viva la huelga general100!

En este texto la « dignidad obrera », a pesar de mostrar su capacidad para


 169 dar un alcance «  universal  » al conflicto, tiene el mismo carácter central que la
defensa prioritaria de la identidad obrera de los años 1870 y 1880. En cambio no
aceptan ni un objetivo que consideran como reducido –el de la jornada de trabajo–
ni el recurso al sintagma « huelga general » quienes, más claramente anarquistas,
interpretan, en órganos militantes relativamente leidos, la huelga de los obreros
metalúrgicos como el inicio de aquel enfrentamiento decisivo que llevaría más
lejos. El que los huelguistas llamaran «  general  » su conflicto porque implicaba
todos los oficios del ramo y porque había suscitado la solidaridad de otros oficios
frente a la reacción severa de las autoridades no significaba que habían salido de
una huelga esencialmente económica –no llegaban a decir de objetivo únicamente
obrero101. Era preciso darle otro contenido y hasta usar otras palabras ya que
según La Huelga General en pleno conflicto de los metalúrgicos de Barcelona : « [...]
muchos huelguistas van a la huelga como los republicanos a los banquetes del 11 de
febrero. [...] No podrán, recurriendo a ella pacíficamente, emanciparse del salario,
su mayor yugo opresor102 ». Los enfrentamientos de 1902, con suspensión de las
garantías constitucionales, ayudaban, de momento, a proponer que en adelante
las huelgas violentas se considerasen como las únicas que pudieran beneficiar a
los obreros. Reducir a resultados de orden reivindicativo las modalidades de una
lucha de dimensión poco corriente es significativo tanto de la distancia que se

General, el 15-XI-1901.
98 No es el caso de PERE, Gabriel. « Sindicalismo y huelga ». En : BONAMUSA, Francesc (ed.). La Huelga
general, Ayer, n. 4, 1991, Madrid: Marcial Pons, 1991, pp,33-34.
99 Cf.: CALLEJA, G. Op. cit., p. 304 y ss.
100 Citado por RIQUER, Borja de. Lliga regionalista: la burguesía catalana i el nacionalismo (1893-1904).
Barcelona: Edicions 62, 1977, p. 344.
101 El uso de « huelga general » para conflictos que antes no se definían como tales se confirma en
el recurso más frecuente a la fórmula. En, 1903, en las minas de Bilbao, la huelga de los mineros se
define de entrada como « huelga general » (cf.: Instituto de Reformas Sociales. Informe referente a
las minas de Vizcaya, Madrid, 1904). Un relato del enfrentamiento en FUSI, J. P. Op. cit., p. 230-243.
102 La Huelga General. Barcelona, 25/01/1902.

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MICHEL RALLE

quería introducir con las conductas consideradas sólo sociales como con la relativa
permanencia de éstas. Un manifiesto anarquista distribuido en los días clave del
conflicto barcelonés ya le daba como objetivo la « revolución social » :

De los que trabajan que nadie se mueva, que todos sepan matar el ego-
ísmo de los vampiros acaudalados, soportando el carecer en silencio,
el hambre para todos. [...] Por consecuencia, alto; que todos efectúen
el paro del trabajo desde mañana mismo, y demostraremos a la clase
directiva y capitalista que sin los obreros, a quienes desprecian, no es
posible la vida social. ¡Viva la revolución social!103!

En el congreso de 1870, A. Lorenzo evocaba, en la frase ya citada, el paso de


la interrupción del trabajo a la situación de impotencia de los burgueses. La visión
repetida en 1902 no había perdido su carácter relativamente paradójico. Reconocía
por una parte que la revolución social había de salir forzosamente, y con algo de
violencia, de las iniciativas de los sectores que componen el trabajo asalariado. Se
mantenía sin embargo la ambigüedad de la inserción del cambio revolucionario
en un espacio social del que también se desconfiaba –el que La Huelga General del
25 de enero, atribuyera a la mayoría de los obreros la incapacidad a salir de sus
costumbres es, al fin y al cabo, muy significativo. En aquel principio de un nuevo
siglo la relación con lo que muchos anarquistas veían como una especificidad
obrera positiva seguía siendo fuente de dificultades para definir una vía de acción.
Tal vez sorprenda que la tensión habitual entre las dos expresiones obreras que
componen los movimientos obreros nacionales, la sindical y la política, afecte también
una situación atípica en la que la sindical quiere rechazar las formas de la negociación  170
en las que se inscribían casi todas sus versiones europeas. La inserción social en unos
colectivos obreros solicitados para hacer evidente la ruptura que suponía introdujo
una segunda referencia con una lógica propia. Al fin y al cabo empezó como algo
problemático el encuentro que la corriente libertaria juzgaba indispensable.

Recebido em 01/05/2013
Aprovado em 05/06/2013

103 Citado por El Liberal.Madrid, 18/02/1902.

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Caboclos, extrativistas e operários:
a formação da mão de obra industrial
na Amazônia nos anos de 1940*
Adalberto Paz**

Resumo: Este artigo pretende analisar o contexto de formação de uma classe ope-
rária industrial na década de 1940 no extremo norte amazônico, atual estado do
Amapá, a partir das noções de trabalho, cidadania e sociedade estabelecidas du-
rante o Estado Novo. Partindo dessa realidade específica, pretende-se demonstrar
como uma população ainda fora dos ditames de produtividade e regularidade ca-
pitalistas foi integrada a tais exigências, associadas aos objetivos de desenvolvi-
mento propostos como alternativa ao que era considerada uma região atrasada,
econômica e culturalmente, em relação aos grandes centros do país.

Palavras-chave: Classe operária, mineração industrial, Amazônia, Amapá.

Abstract: This article aims to analyze the context of forming an industrial working
class in the 1940 sin the far northern Amazon, the current state of Amapá, from the
notions of work, citizenship and society established during the Estado Novo. Ba-
sed on this specific situation, it is intended to demonstrate how a population still
outside the dictates of capitalist productivity and regularity was integrated to such
requirements, associated with development objectives proposed as an alternative
to what was considered a backward region, economically and culturally, in relation
to major centers of the country.

Keywords: working class, industrial mining, Amazon, Amapá.

Amazônia: auge e decadência


No começo do século XX, as duas maiores cidades amazônicas, Belém e Ma-
naus, viviam toda a opulência proporcionada pela economia da borracha, a partir do
apogeu de exploração e de comercialização iniciado há algumas décadas. Um surto
impressionante, talvez comparável apenas ao seu desmoronamento igualmente

* Algumas das reflexões neste artigo são resultado da pesquisa apresentada na dissertação intitulada “Os
mineiros da floresta: sociedade e trabalho em uma fronteira de mineração industrial amazônica (1943-1964)”,
defendida no Programa de Pós-Gradua­ção em História Social, da Unicamp, no dia 14 de março de 2011, sob
a orientação do Prof. Dr. Fernando Teixeira da Silva. Parte da pesquisa foi financiada por uma bolsa de
Mestrado do CNPq. Agradeço as considerações feitas ao trabalho acima citado pelos professores Alexan-
dre Fortes, Claudio Batalha, Michael Hall e Paulo Fontes.
** Universidade Federal do Amapá. Doutorando na Universidade Estadual de Campinas

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ADALBERTO PAZ

vertiginoso. Contudo, bem antes que os interesses da crescente industrialização


mundial levassem ao cultivo da hevea brasiliensis no Sudeste Asiático e precipitas-
sem a falência dessa sociedade, os limites do extrativismo gomífero já eram discuti-
dos pelas autoridades nortistas brasileiras. Um dos principais incômodos era repre-
sentado pelo receio de apoiar suas economias sobre um produto “selvagem” — em
vez de agrícola ―, obtido de maneira irregular, dada a sua localização dispersa e
sua produtividade sazonal.1 Não por acaso, aliás, foram justamente essas caracte-
rísticas que impediram a Amazônia de concorrer com a borracha asiática, cujas téc-
nicas de cultivo e cujo volume de produção foram concebidos especialmente para
atender as demandas das fábricas europeias, em particular, a automobilística.
Duas questões chamam a atenção quando observamos mais de perto as
especificidades do auge da borracha na Amazônia e suas consequências para os
anos posteriores ao seu declínio. A primeira, conforme destacado por Barbara
Weinstein, foi o fato de que essa economia quase não modificou as relações e os
“modos tradicionais de produção e troca” estabelecidos desde a era colonial para
a exploração de outros produtos como o cacau, óleos e madeiras, com a diferença
de que as redes de relações comerciais no século XIX se tornaram bem mais com-
plexas e sofisticadas.2 Em outras palavras, a forma como se obtinha o produto
ainda era essencialmente um tipo de coleta: o seringueiro tinha que percorrer as
“estradas” (como eram chamados os locais por onde se distribuíam naturalmente
as árvores de seringa), realizando sucessivos cortes e a instalação dos recipientes
para o recolhimento do látex, árvore por árvore, durante dias, realizando também
― por meio de métodos indígenas ― a coagulação artesanal do produto para o
transporte. Tudo geralmente sozinho.3
Outro importante aspecto dessa economia foi a excessiva concentração das
 172
riquezas em torno das elites residentes nas duas capitais amazônicas. Embora
muitos estudos tenham demonstrado as significativas transformações urbanas e
culturais características da Belle Époque, o fato é que muito pouco dessa moderni-
dade e dessa prosperidade ultrapassou os limites dos centros comerciais e finan-
ceiros de Belém e Manaus.4 Como demonstrou Cristina Cancela, analisando o caso
do Pará, as estratégias para a manutenção, para a restrição e para o domínio sobre
os ganhos obtidos com a produção gomífera passavam, inclusive, pelo estabele-
cimento de sucessivas alianças matrimoniais entre a antiga elite paraense deten-
tora de terras e fazendas de gado e importantes comerciantes e proprietários de
estradas de seringa e casas aviadoras5 — a maioria dos quais eram portugueses
― como forma de manter e ampliar sua condição de classe dominante, diante das
mudanças que vinham ocorrendo ao longo do século XIX.6

1 Não era raro ver os presidentes da Província do Pará justificando a incipiente agricultura local devido
às “facilidades” do extrativismo de subsistência e o envolvimento de grande parte da população com
a extração da borracha. Cf.: Pará. Relatório apresentado ao exm. senr. Dr. Francisco Maria Corrêa de Sá
e Benevides pelo exm. senr Dr. Pedro Vicente de Azevedo por ocasião de passar-lhe a Administração da
Província do Pará, no dia 17 de janeiro de 1875. Belém: Typ. de F. C. Rhossard, 1875, p. 60. Sobre o assunto
ver: QUEIROZ, Jonas Marçal de. Artífices do próspero mundo novo: colonos, migrantes e imigrantes em
São Paulo e no Pará (1868-1889). Tese (Doutorado em História Social), USP, São Paulo, 2005, p. 39-55.
2 WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo: HUCITEC-
EDUSP, 1993, p. 30-31.
3 O que não significa que o seringueiro não pudesse, em alguns casos, ter ou constituir família nos seringais.
Essa família poderia até mesmo ajudá-lo em outras atividades produtivas ou de subsistência. Cf.: OLIVEIRA
FILHO, João Pacheco de. O caboclo e o brabo. Notas sobre duas modalidades de força de trabalho na
expansão da fronteira amazônica no século XIX. Encontros com a civilização brasileira. v. 11, 1979.
4 Cf.: SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a Belle Époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2002.
5 Estabelecimentos que forneciam principalmente alimentação e ferramentas aos seringueiros, por meio de
um sistema de crédito, mas com valores hiperinflacionados em relação ao preço comum nas cidades.
6 CANCELA, Cristina Donza. Casamento e relações familiares na economia da borracha (Belém 1870-1920). Tese
(Doutorado em História), USP, São Paulo, 2006.

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CABOCLOS, EXTRATIVISTAS E OPERÁRIOS...

Assim, como resultado da pouca diversificação econômica regional, de téc-


nicas de produção rudimentares, de experiências agrícolas frustradas e da restrita
circulação das riquezas para além das capitais, a maior parte da Amazônia man-
teria, ainda, por muito tempo o mesmo padrão de sustentabilidade conhecido há
séculos, baseado no extrativismo (comercial ou de subsistência) como principal
atividade com a qual se ocupava a maior parte da sua população, por todo o seu
extenso território.
A partir da década de 1920, a região que compreende o atual estado do Amapá
se tornaria palco de algumas tentativas colonizadoras oficiais. Nesse momento, o
governo brasileiro enviou uma comissão às proximidades da fronteira com a Guiana
Francesa, no intuito de estabelecer as bases para uma experiência agrícola que
possibilitasse uma ocupação mais efetiva daquele território. Desse modo, nos pri-
meiros meses de 1921, chegavam “os materiais necessários à construção de um
hospital, da casa de administração e de uma escola, além de grande cópia de ferra-
gem, instrumentos de lavoura e de uma pequena serraria a vapor, para facilitar a
construção das casas dos colonos”7 — a maioria dos quais eram cearenses atingi-
dos pela grande seca de 1915-19198 ― que ocupariam o Núcleo Colonial Cleveland.
Em pouco tempo, porém, Cleveland integrou a longa lista de fracassos em
colônias agrícolas no Pará.9 Todavia, o governo federal não demorou a dar outro
destino à infraestrutura já existente naquele local. Transformada em colônia penal,
Clevelândia do Norte passou a ser o destino de muitos dissidentes, anarquistas,
comunistas e demais “indesejáveis” ao poder público em regime de exceção, a
 173 partir da chamada Revolução de 1924. Muitos jamais retornaram aos seus estados
de origem, pois, segundo Paulo Sérgio Pinheiro, um relatório encaminhado ao Mi-
nistro da Agricultura de Artur Bernardes informava “que, em 1926, dos 946 prisio-
neiros desterrados para Clevelândia, 444 haviam morrido”.10 Após 1927, com o fim
do estado de sítio, foi feita uma nova tentativa de retomar as pretensões agrícolas
em Clevelândia, tornando-a ainda um posto avançado do Exército Brasileiro. Mas,
com o regresso dos últimos prisioneiros ao Centro-Sul do país, o destacamento foi
sendo paulatinamente transferido até que, “em 1930, já não havia mais militares
em Clevelândia”.11

7 “A Noite, 7 abr. 1921”, apud ALICINO, Padre Rogério. Clevelândia do Norte. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 1971, p. 86.
8 ROMANI, Carlo. Clevelândia, Oiapoque ― aqui começa o Brasil: trânsitos e confinamentos na fronteira com
a Guiana Francesa (1900-1927). Tese (Doutorado em História), Campinas: IFCH - Unicamp, 2003, p. 108-120.
Sobre o impacto da seca de 1915─1919 no Ceará, e seus personagens sociais e políticos durante a criação
das frentes de serviço do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS, ver: CASTRO, Lara
de. “Avalanches de flagelados” no sertão cearense: retirantes-operários e engenheiros na lida das obras
contra as secas. Fortaleza: DNOCS/BNB-ETENE, 2010.
9 O nome “Cleveland” teria sido uma homenagem ao presidente estadunidense Grover Cleveland, em vir-
tude do alinhamento da diplomacia brasileira com aquele país, objetivando apoio nas questões de limites
internacionais com potências europeias, entre o final do século XIX e início do século XX. A existência de
uma cidade intitulada Clevelândia, no Paraná, teria motivado a mudança do nome da colônia instalada no
Oiapoque para “Clevelândia do Norte”. Cf.: SAMIS, Alexandre. Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e
repressão política no Brasil. São Paulo: Imaginário, 2002, p. 158-160.
10 PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil. 1922-1935. São Paulo:
Companhia das Letras, 1991, p. 95. Sobre Clevelândia, ver também: BRITO, Edson Machado de. Do sentido
aos significados do presídio de Clevelândia do Norte: repressão, resistência e a disputa política no debate da
imprensa. Dissertação (Mestrado em História), PUC/SP, 2008. Para uma análise sobre “a vida nas prisões” a
partir da repressão do Estado aos diversos tipos de movimentos sociais, operários, militantes e segmentos
populares de forma geral, na primeira metade do século XX, ver: FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil:
o imaginário popular. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1997, p. 99-122.
11 ROMANI, Carlo. Clevelândia, Oiapoque — aqui começa o Brasil. Op. cit., p. 383.

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ADALBERTO PAZ

A Amazônia nos anos de 1940: o caso do Amapá


Na década de 1940, a política federal para a Amazônia ambicionava a sua inte-
gração ao restante do país por meio da chamada “Marcha para o Oeste”. Apoian-
do-se em um discurso que preconizava a existência de “vazios demográficos” no
interior brasileiro, o governo Vargas pretendia incentivar fluxos migratórios para
esses espaços, o que incluía o Norte do país. Pode-se considerar, contudo, que
uma das medidas de maior impacto para a Amazônia durante o Estado Novo não
foi concebida exclusivamente para aquela região. Trata-se da criação de cinco ter-
ritórios federais: Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta Porã e Iguaçu ― desmem-
brados dos estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina ―,
a serem administrados diretamente pelo governo federal, por meio de intervento-
res nomeados pelo presidente.12 Um dos objetivos era justamente criar condições
necessárias para o desenvolvimento de regiões periféricas, mas estrategicamente
importantes, entre outras coisas, por abrigarem fronteiras internacionais.
De fato, a decisão em tornar o Amapá um território federal não encontrou
resistência entre as autoridades paraenses; muito pelo contrário, parecia ser uma
resposta às sucessivas dificuldades econômicas locais, não muito diferentes das
encontradas no restante da Amazônia, com o agravante de que o Amapá não vi-
veu as transformações e o fluxo financeiro que se restringiram às capitais, embora
sempre tenha se mantido diretamente sob influência econômica e administrativa
de Belém, desde a fundação das vilas de Macapá e Mazagão, no século XVIII.
Sob esse aspecto, o primeiro governador do Amapá, Janary Gentil Nunes13,  174
tinha como principal desafio alcançar os objetivos intrínsecos à própria criação do
território federal, a partir de uma realidade caracterizada pela ausência de ativi-
dades produtivas que possibilitassem uma escalada de desenvolvimento satisfa-
tória, dentro dos padrões da moderna sociedade capitalista. Em qualquer um dos
segmentos que compunham a produção econômica local (borracha, castanha-do-
pará e outras sementes oleaginosas, madeiras, peixe salgado e o grude de peixe,
ouro, couro de boi, gado e peles de animais silvestres), a natureza era quem dire-
cionava os trabalhos, determinando fatores que controlavam invariavelmente a
quantidade e, portanto, a oferta dos produtos. Era preciso levar em conta a época
do ano, o regime de marés fluviais e oceânicas, a ocorrência de determinadas es-
pécies nativas neste ou naquele lugar, a descoberta de algum novo veio aurífero e
infinitos outros detalhes que apenas os próprios amazônidas conheciam ou sabiam
reconhecer.
Nos anos de 1940, especificamente, havia dois grandes segmentos econômi-
cos extrativistas sendo praticados, respectivamente, nas regiões Sul e Central do
território amapaense: o vegetal, com a coleta da castanha-do-pará e da borracha;
e o mineral, com a garimpagem do ouro. Embora cada atividade exigisse um tipo
de conhecimento específico, muitos trabalhadores desenvolviam mais de uma ati-
vidade durante o ano, de acordo com a região em que viviam e com o que pudesse
ser mais vantajoso em determinado momento.

12 Decreto-Lei n.º 5812, de 13 de setembro de 1943.


13 Janary Nunes era natural de Alenquer (no estado do Pará) e, após sair da Escola Militar do realengo, no Rio
de Janeiro, serviu como Oficial do Exército em cidades como Petrópolis, Curitiba e Florianópolis. Também
esteve no Pelotão Independente do Oiapoque e estava comandando a 1.ª Companhia Independente de
Metralhadoras Antiaéreas em Belém, quando foi nomeado por Getúlio Vargas para governar o Amapá, em
27 de dezembro de 1943, aos 31 anos de idade. Cf.: BENEVIDES, Marijeso de Alencar. Os novos territórios
federais. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946, p. 75.

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A colheita da castanha-do-pará era uma atividade de grande destaque entre


os rios Jari, Cajari e Vila Nova, no Sul do Amapá. Um artigo na Revista Brasileira de
Geografia, de 1943, descreve assim a atividade:

A colheita se inicia quando todos os frutos começam a cair das árvores,


o que se dá em fins de janeiro. [...] Em vista da altura da copa a colheita
se realiza no chão. Na própria mata, os colhedores partem os frutos
para retirarem as amêndoas [castanhas], comumente em número de
12 a 22 em cada ouriço [invólucro que contém as castanhas]. O traba-
lho obedece à disciplina sazonária. [...] Armada uma barraca singela
sob a floresta, com uma cobertura fortemente inclinada para o chão,
a fim de evitar o perigo da queda imprevista dos volumosos e pesados
frutos, dentro dela espera o trabalhador dos castanhais (apanhadores,
carregadores, etc.) o momento que, agitados pelos ventos, os galhos
passam a desprender todos os ouriços maduros. Cautelosamente dei-
xa, então, o abrigo e passa a encher o paneiro, (às vezes uma cangalha)
de frutos encontrados pelo chão. Realizada a primeira colheita, nova-
mente se recolhe à barraca-esconderijo a fim de aguardar a nova queda
dos frutos.14

Como se pode notar, havia um perigo iminente na coleta aparentemente fácil


da castanha. Devido à altura de quase trinta metros da Bertholletia excelsa (árvore
de castanheira) e ao peso de cerca de um quilo dos ouriços que caem a cada sopro
dos ventos, ser atingido na cabeça por um desses invólucros poderia ser fatal. Por
conta disso, não foram poucos os castanheiros que morreram tragicamente no
 175 exercício das suas funções.
A extração do látex da seringueira para a obtenção da borracha também
possuía dinamismo próprio, sendo encontrada em abundância nos municípios de
Macapá e Mazagão. Um relato de 1942 afirmava ser o seringalista (chefe, patrão
ou dono do seringal) “a réplica amazônica do fazendeiro de gado, ou de café, das
outras regiões do país”, e explicava as principais características do serviço, distin-
guindo os trabalhadores de acordo com sua origem e área de atuação:

Os seringueiros, filhos da região, trabalham nos seringais envelhecidos


da área restrita às ilhas e terras planas do baixo amazonas. [...] imigran-
tes do Ceará exercem a profissão nas cabeceiras dos rios. [...] o primeiro
é o seringueiro das ilhas, sendo o segundo o seringueiro das cabeceiras,
ou dos afluentes remotos. [...] seja qual for o seu domínio, o equipa-
mento do seringueiro se reduz à faca, balde, tigelinhas, bacia, buião,
fôrma ou tariboca. [...] O das ilhas embarcado na montaria [canoa], só
depois de nascido o sol, parte para o trabalho, na vazante da maré, ves-
tindo calças de algodão, blusa, gorro de pano à cabeça, levando balde,
terçado, e espingarda. [...] o seringueiro das cabeceiras é um madruga-
dor que, às três horas, se encontra, sem demora, preparado para a luta,
trajando calça e blusa, borzeguins de borracha, de fabricação própria,
ostentando terçado na cinta e rifle a tira-colo. Na cabeça, exibe o capa-
cete de latão, sobre o qual assenta a lamparina de querosene, auxílio
para o serviço de corte “à noite”.15

Segundo Antônio Teixeira Guerra ― um geógrafo que visitou o Amapá nos


anos de 1940 —, no Sul do Amapá era comum que muitos seringueiros também
fossem castanheiros. Isso era possível porque os trabalhadores desempenhavam

14 IBGE. Tipos e aspectos do Brasil: castanhais. Revista Brasileira de Geografia, jul.-set. 1943, p. 487-489.
15 IBGE. Tipos e aspectos do Brasil: seringueiros. Revista Brasileira de Geografia, abr.-jun. 1942, p. 127.

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suas atividades de acordo com o nível dos rios e com o índice pluviométrico de
cada região em determinadas épocas do ano. Assim, durante o período das chuvas
― entre os meses de janeiro e abril — os trabalhadores apanhavam as castanhas
nos médios e altos cursos dos rios; e na estiagem ― entre os meses de setembro
e dezembro – dedicavam-se à extração do látex das seringueiras, nos baixos cur-
sos. Nos meses intercalados ― maio a agosto — coletavam sementes oleaginosas
como murumuru, ucuuba, andiroba, patoá, copaíba etc.16
Após a coleta dos produtos, os trabalhadores os negociavam com o serin-
galista (no caso da borracha) ou com o barracão (casa de comércio situada estra-
tegicamente nos pontos de parada obrigatória das cachoeiras ou bocas dos rios),
no caso das castanhas. Porém, na prática, os barracões negociavam diversos pro-
dutos trazidos pelos caboclos, como por exemplo, peles, farinha e látex também.
Tanto os barracões quanto os seringalistas negociavam com os produtores
diretos por meio do sistema de aviamento. Esse sistema consistia no repasse an-
tecipado de mercadorias ou ferramentas, em forma de crédito, aos produtores.
Estes, por sua vez, tinham o valor do seu débito compulsoriamente abatido de
acordo com a quantidade de produto entregue aos barracões ou para o seringa-
lista. Porém, como o valor das mercadorias e das ferramentas era sempre muito
superior ao valor pago pela castanha ou látex, os coletores acabavam contraindo
uma dívida impagável com seus credores ou patrões.
Entre os anos de 1899 e 1948, o maior latifundiário, seringalista e dono de
barracões em atividade no Amapá foi José Júlio de Andrade. Os domínios do “Co-
ronel José Júlio”, como era popularmente conhecido, estendiam-se desde a cidade
de Almeirim e Porto de Móz, no estado do Pará, até a porção Sul do Território Fe-
 176
deral do Amapá, num total de aproximadamente três milhões de hectares. Muitos
castanheiros e seringueiros viviam sob a autoridade de José Júlio e continuaram
vivendo condição semelhante após ele decidir vender suas propriedades a um grupo
empresarial português que criou três grandes empresas para a comercialização
da borracha e da castanha: a Jarí Indústria e Comércio, a Companhia Industrial do
Amapá e a Companhia de Navegação Jarí S.A.17
Apesar do nomadismo que caracterizava as tradicionais atividades de serin-
gueiros e castanheiros, Lúcio de Castro Soares destaca que a maior vantagem dos
povoamentos baseados neste tipo de exploração vegetal era a formação do que
ele chamou de “centros de convergência humana”, que funcionavam como verda-
deiras “bases de penetração, pontos de partida ou focos de irradiação das entradas
na floresta”, servindo ao mesmo tempo como entrepostos distribuidores dos pro-
dutos florestais e centros do comércio regional. Esse tinha sido o caso do Amapá,
afirma Soares, até que os preços da borracha sofressem uma forte queda no início
do século XX, causando um drástico refluxo populacional.18 Mesmo assim, a explo-
ração da seringueira fora a que mais conseguira criar núcleos de povoamento entre
as regiões dos rios Jari, Cajari, Maracá, Ajuruxi, Vila Nova, Matapi e Amapari.
Se o povoamento baseado no extrativismo vegetal era instável, maior preca-
riedade havia naqueles surgidos ao redor dos garimpos. Embora possuíssem grande

16 GUERRA, Antônio Teixeira. Estudo Geográfico do Território do Amapá. Rio de Janeiro: IBGE, 1954, p. 190-191;
226-294.
17 Em 20 de março de 1967, o grupo português revendeu o espólio de José Júlio e seus empreendimentos
para um empresário estadunidense, Daniel Keith Ludwig. Este foi o início de outro grande e polêmico pro-
jeto econômico no Amapá: o Projeto Jarí. Cf.: LINS, Cristóvão. Jarí: setenta anos de história. Rio de Janeiro:
Dataforma, 1991.
18 SOARES, Lúcio de Castro. Contribuição ao estudo da ocupação humana do Território do Amapá. Boletim
da Secção Regional do Rio de Janeiro da Associação dos Geógrafos Brasileiros, ano II, n.2 e 3, p. 23-25.

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capacidade de atração populacional em curto espaço de tempo, o fim do “rush”


geralmente implicava dispersão e esvaziamento humano da área. No início da dé-
cada de 1940, a maioria dos garimpos localizados nos rios Oiapoque, Cassiporé, Cal-
çoene, Araguari e Vila Nova estava em franca decadência e praticamente extintos.

A intenção e o gesto: relações de força em um


“espaço vazio”
Não obstante as constantes intervenções dos órgãos oficiais de imprensa e
propaganda do governo de Janary Nunes, como o jornal Amapá e a rádio Difusora
― para que o homem comum amapaense adotasse um estilo de vida sedentário,
constituísse uma família estável e cultivasse hábitos saudáveis de higiene e mora-
dia ― a própria iniciativa governamental incentivava um intenso deslocamento de
trabalhadores e sua dispersão pelo interior do Território, recompensando aqueles
que descobrissem determinados tipos de minerais economicamente aproveitáveis:

Já se vem observando estes últimos dias, certo movimento de traba-


lhadores que rumam para as ricas regiões estanhíferas do rio Amapari.
É o começo, estamos certos, de uma nova era para a vida econômica
do Amapá, que sempre guardou adormecido em seu solo e entranhado
em seu sub-solo (sic) tão grande tesouro. A iniciativa oficial foi o toque

 177 de reunir. [...] Não será de admirar, portanto, vermos em breve enorme
fluxo beneficiador de braços.19

Segundo Alfredo Gama, outro pesquisador que esteve no Amapá no início da


década de 1940, a habitação típica não só dos mineradores de ouro, mas também
da maioria dos caboclos com quem teve contato, era construída com materiais da
própria floresta, de modo que “num abrir e fechar de olhos está instalado otima-
mente, tendo no momento que necessitar toda a matéria-prima ao alcance de sua
mão”. De aspecto frágil e provisório, era prontamente abandonada logo após o
esgotamento dos depósitos auríferos. Tal habitação era chamada pelos próprios
moradores de carbet ou carbé. Gama nos oferece uma descrição bastante detalhada
da sua estrutura, a partir de suas observações no vale do rio Oiapoque:

a não ser por um cipó muito resistente, é construído exclusivamente


com o assaizeiro (sic). Os troncos mais grossos servem de esteio e os
mais finos, que rachados ao meio recebem o nome de juçara, servem
para construir as paredes e o assoalho; o teto é inteiramente coberto
com folhas, que sendo bem trançadas por um perito, abrigam tão bem
quanto as melhores telhas. Toda a construção é amarrada com fortíssi-
mos cipós que existem em grande abundância em toda a região. Esco-
lhem dois dos maiores troncos e depositam paralelamente da porta do
carbé até dentro do rio, e está feito o porto.20

Na região de Santa Maria, no rio Vila Nova, o relatório do diretor do Depar-


tamento de Produção do governo territorial, Arthur de Miranda Bastos, descreve
de forma desoladora a atividade aurífera naquela região, segundo ele, explorada
de forma desordenada por “garimpeiros ignorantes”. Nesse cenário caótico, “não se
atravessa o lugarejo ― uns trinta casebres ou três casas cobertas de palha, dispostos

19 Amapá, 14 jul. 1945, p. 2.


20 GAMA, Alfredo. Um rio a serviço de dois povos. Belém, 1947, p. 57.

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de qualquer maneira ― sem se embaraçar com uma quantidade de valas, covões


e montes de terra, destroços daquelas explorações”. Terminava afirmando “a
perfeita possibilidade de transformação da atual garimpagem, incerta e precária,
numa indústria de mais alto rendimento”, utilizando o trabalho de especialistas na
descoberta e no aproveitamento de novas jazidas.21
Em livro publicado em 1947, Arthur Bastos reafirmou as suas críticas em rela-
ção à forma tradicional de extrair o ouro nos garimpos de Santa Maria. Analisando
a descrição que ele próprio fez das suas viagens, é razoável supor que Bastos ten-
tou de alguma maneira interagir com os garimpeiros e faiscadores, com o intuito
de lhes “orientar” os serviços, por meio de “conselhos”, no que deve ter sido re-
chaçado, pois, além de ignorantes, os trabalhadores lhe pareceram bastante arro-
gantes também. A reação deles lhe soou como absurda, pois

se os faiscadores fossem todos perfeitos entendidos na profissão, seu


esforço teria melhor recompensa. Muitos, entretanto, mal aprendem
a identificar o cascalho [pedaço de terra onde se localiza o ouro], con-
sideram-se mestres e não aceitam mais conselhos. O resultado é que,
com seu trabalho desordenado, não conseguem aproveitar mais do
que uma parte do ouro existente no terreno. Lavam aqui e ali, arbitra-
riamente, quando deviam abrir as catas (buracos), umas seguidas às
outras, sem desprezar nenhuma extensão de cascalho.22

A presença de uma autoridade pública dizendo como deveriam fazer algo


que muitos faziam há anos ― talvez décadas ― além de ser algo novo, certamen-
te não foi muito bem visto pelos garimpeiros naquela ocasião. Para trabalhadores
acostumados a ir de um lugar a outro, sempre por conta própria, desempenhando  178
suas atividades de maneira independente e sem nenhuma supervisão, a interfe-
rência de um estranho em seu modus operandi provavelmente lhes pareceu igual-
mente arrogante e impertinente.
Outra característica marcante nas áreas de garimpo era o elevado custo de
vida. Em geral, trocavam-se gêneros de consumo por ouro em pó, a um “câmbio”
de vinte cruzeiros por grama (em outros lugares esse valor poderia ser acrescido).
Com base nisso, mas sem divulgar os valores correspondentes aos alimentos nes-
sas regiões, Arthur Bastos calculava que um garimpeiro precisaria obter, no míni-
mo, dois gramas de ouro, por dia, para poder se sustentar na região do Vila Nova.23
Desse modo, de acordo com o primeiro Relatório das atividades do Governo
territorial, de 1946, a maior parte da população do Amapá vivia no interior do Ter-
ritório, esparsamente distribuída, “isolada em casas miseráveis, na zona de influ-
ência dos barracões ou casas de comércio que transacionam as matérias-primas”
que eram obtidas na natureza.24
Entretanto, mesmo em Macapá, capital do Território, muitas das constru-
ções também eram bastante rudimentares. Em 1946, durante as homenagens a

21 BASTOS, A. de Miranda apud. NUNES, Janary. Relatório das atividades do Governo do Território Federal do
Amapá em 1944. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946, p. 29.
22 BASTOS, A. de Miranda. Uma excursão ao Amapá. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947, p. 42.
23 Em junho de 1948, o jornal Amapá divulgou uma tabela de preços, de acordo com pesquisa realizada
nos meses de janeiro a maio nas cidades de Macapá, Amapá, Mazagão e Oiapoque. Tomando-se como
referência a média geral dos valores praticados naquele ano, a quantia de Cr$20,00 era capaz de comprar
aproximadamente: 1 kg de Arroz (Cr$4,59), 1 Kg de feijão (Cr$6,96), 1 kg de açúcar (Cr$5,52) e 1 kg de
farinha de mandioca (Cr$2,04). Esses valores servem apenas como base comparativa, já que o difícil acesso
às áreas de garimpo, a distância em relação à sede dos municípios e a especulação tendiam a encarecer
bem mais os produtos que chegavam ao interior do Território. Cf.: Custo da vida: médias mensais. Amapá,
12 jun. 1948, p. 3.
24 NUNES, Janary. Relatório das atividades do Governo do Território Federal do Amapá em 1944. Op. cit., p. 7.

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Veiga Cabral ― considerado o “herói da libertação do Amapá” na questão do Con-


testado entre Brasil e França ―, Janary Nunes discursou criticando “as palhoças,
sem higiene nem conforto, como se faz comumente nos bairros mais afastados”.
Aproveitou ainda para anunciar o aumento dos salários do funcionalismo público
e reclamou “da maneira pela qual a população, principalmente os proletários, vem
tratando sua alimentação”, desprezando, por exemplo, a ingestão de legumes,
mesmo sendo distribuídos gratuitamente pelo governo.25
As reclamações envolvendo alimentação e produção de alimentos eram
igualmente recorrentes entre as autoridades no Amapá. Em seu primeiro relatório
trimestral, Roque de Souza Penafort, prefeito do Oiapoque, expressava angústia
em relação aos fracassos da sua administração, e de outras anteriores, na tentativa
de realizar uma produção agrícola que pudesse abastecer a cidade e as localidades
próximas. Segundo ele, as culturas davam resultado praticamente nulo; “milho,
feijão e arroz é como se não se cultivasse”. E sentenciava: “se não descobrirmos
um novo método, se não houver uma modificação, continuaremos produzindo
apenas farinha, em quantidade tão reduzida que pouco sobra do consumo dos
próprios agricultores”.26
Alguns pesquisadores acreditavam que a falta de experiência, ou mesmo de
hábito, e o emprego de métodos inadequados no trato com o solo inevitavelmente
levavam os caboclos amazônidas a experiências agrícolas malsucedidas, criando
“aversão e impotência” entre populações acostumadas a obter seu sustento por
meio do extrativismo. Para Sócrates Bonfim, diante de tantas incertezas, não havia
segurança ou garantia alguma que incentivasse o abandono das “safras extrati-
 179 vas” em favor das “safras agrícolas”, principalmente porque o que estava em jogo
era a sobrevivência imediata dessas populações.27 Haveria, portanto, um misto de
desconfiança e tradicionalismo que fazia com que o homem comum não corres-
pondesse às expectativas econômicas governamentais na medida em que eles
gostariam. Se para o governo tratava-se apenas de aumentar a produção agrícola
para dinamizar o mercado interno, para o caboclo a questão principal era se ele
teria o que comer com a sua família.28
À época em que Gama, Soares e Guerra desenvolviam seus estudos, portanto,
a população amapaense já estava sob a vigência de um projeto político que visava
à profunda modificação dos seus padrões culturais e formas de reprodução social,
pois, a partir das diversas “vozes” que se sobressaem nos documentos oficiais,
percebe-se que as constantes críticas não se voltavam contra os tipos de produtos
que alicerçavam a economia regional, e sim à maneira como essa produção estava
sendo realizada. Aqui, mais uma vez, recorremos às impressões registradas por
Alfredo Gama, após conviver várias semanas entre as populações do Norte do Ter-
ritório Federal do Amapá. Segundo ele:

25 As homenagens prestadas à memória de Veiga Cabral. Amapá, 18 maio 1946.


26 “Relatório das Atividades da Prefeitura Municipal do Oiapoque Referente ao 1.º Trimestre de 1950” apud.
GUERRA, Antônio Teixeira. Estudo Geográfico do Território do Amapá. Op. cit., p. 243.
27 BONFIM, Sócrates. Reflexões em torno da valorização da Amazônia. Mimeo. 1951. Sobre as expectativas
em torno das vantagens não só econômicas, mas civilizatórias, advindas de uma “Amazônia agrícola”, e a
crítica ao extrativismo segundo diversos pensadores, ver: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. “O caboclo
e o brabo. Notas sobre duas modalidades de força de trabalho na expansão da fronteira amazônica no
século XIX”. Op. cit.,p. 101-147.
28 James Scott pesquisou tema muito semelhante a este no Sudeste Asiático, onde, devido a diversas contra-
riedades de ordem natural e econômica, os camponeses também tinham que se defrontar com a escolha
entre manter formas tradicionais de cultivo, mas que garantiam sua sobrevivência ou arriscar o empre-
go de técnicas mais sofisticadas, mas com possível comprometimento da sua segurança alimentar. Ver:
SCOTT, James C. The moral economy of peasant: rebellion and subsistence in Southeast Asia. New Haven.
Yale University Press, 1976, p. 35-55.

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O caboclo do Oiapoque é demasiado moderado e de uma calma imper-


turbável: apesar de ser bom atirador, e mesmo que a munição custe
muito caro como alegam, a carne, a pele da caça adquirida, [se quises-
sem] daria um bom negócio. Mas ele é teimoso e não sai desse princí-
pio: uma vez morta meia dúzia de caças, ele pára; põe a espingarda ao
ombro e fuma tranquilamente seu cigarro e calmamente começa a volta
rumo à margem [do rio], onde fica sentado, esperando o companheiro
que às vezes é ainda mais calmo; quando o companheiro chega, o ca-
boclo pergunta: “matou alguma coisa”? E o companheiro responde:
“Hum, Hum!”, que é de significado afirmativo [...] chegando no carbé,
desembarca toda a carga e entrega para a mulher, e fica de cócoras na
porta, até a hora do chibé [mistura de farinha de mandioca com água].
[...] Assim trabalha o caboclo do Oiapoque para garantir o sustento da
família que, na maioria, é composta dele, a mulher e uma dúzia ou mais
de filhos.29

Essa forma específica de administrar o tempo e os recursos disponíveis não


poderia mais ser tolerada. Embora o jornal Amapá buscasse utilizar uma lingua-
gem muito mais polida, cuidadosa e até laudatória, ao se referir aos trabalhadores,
o primeiro Relatório das atividades do Governo do Território não precisava medir
tanto as palavras. Sendo um documento de circulação restrita, direcionado exclu-
sivamente ao presidente da República, Arthur Bastos, por exemplo, podia utilizá-lo
para afirmar abertamente que a atividade mineradora no Amapá estava entregue
às mãos de trabalhadores estúpidos e incapazes, que cavavam a terra de maneira
bruta e primitiva, desperdiçando a riqueza que, certamente, técnicos treinados e
habilitados dariam melhor aproveitamento.
Por outro lado, um artigo publicado em janeiro de 1947 criticava o nomadis-  180
mo e a inconstância típicos das áreas de garimpo (mas também de seringueiros
e castanheiros), porém, como em outros casos, ressaltava a atuação do governo
territorial para com essas populações, destacando principalmente sua ação civili-
zatória por meio da criação de escolas, postos de saúde e, mais uma vez, a garantia
dos direitos dos trabalhadores. Segundo o articulista,

antes de o Amapá ser integrado, em definitivo, no seio da nacionali-


dade, pululavam nas zonas mineiras dezenas de aventureiros, raças,
idiomas e costumes. Corroídos pela ambição e obcecados pelo desejo
de auferir uma fortuna fácil, embrenhavam-se pelas mais ínvias regiões
[...]. Mesmo quando o ex-contestado [região disputada entre o Brasil
e a França] passou ao domínio da União, continuaram a proliferar na
região limítrofe com a Guiana, audazes contrabandistas [...]. A alimen-
tação precária causava o desgaste daqueles infelizes e heroicos desco-
bridores de riquezas, que eram presa fácil das mais terríveis moléstias
tropicais, morrendo à míngua, dessorados e esquecidos. [...] Muitos
benefícios têm sido disseminados pelo atual governo pelas regiões em
que trabucam (sic) os atuais garimpeiros, e dentre estes avultam esco-
las, postos médicos, postos fiscais e repartições policiais, fomentando
a instrução, cuidando da saúde pública, zelando pela manutenção da
ordem nesses lugares. Os trabalhadores das minas não vivem, agora, à
mercê das contingências, porque a plena consciência dos seus direitos
e a convicção no rigor da justiça são as melhores armas de que dispõem
para prosseguir no seu labor honesto.30

Afirmavam-se, assim, muitos dos elementos discursivos públicos (em contra-


posição aos relatórios “internos”) frequentemente dispensados aos trabalhado-
res. Em primeiro lugar, os garimpeiros não mais eram os protagonistas ignorantes

29 GAMA, Alfredo. Um rio a serviço de dois povos. Op. cit., p. 47-48. (itálico no original).
30 A vida dos garimpeiros. Amapá, 11 jan. 1947. (grifos nossos).

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observados por Bastos, e sim vítimas de uma realidade anterior a eles e que os
oprimia, mas que a iniciativa governamental vinha salvar. Segundo, apesar de te-
rem sido relegados ao esquecimento por governos passados, esses trabalhado-
res resistiram a toda precariedade, como verdadeiros “heróis desbravadores” e
seriam agora reconhecidos por isso. E, finalmente, a valorização do elemento e
das riquezas nacionais questionava a presença dos indesejáveis forasteiros, con-
trabandistas que “burlavam a escassa vigilância” e “escamoteavam grandes quan-
tidades de ouro para o estrangeiro”.
De fato, por muitos séculos sempre houve uma contínua e intensa circula-
ção ― tanto de pessoas quanto de mercadorias ― por meio das fluidas fronteiras
entre o Amapá e as possessões inglesas e francesas. Apesar de ser uma atividade
bem menos ativa na década de 1940 do que fora no início do século, a mineração
foi responsável pelo estabelecimento de diversos “crioulos” ― como eram cha-
mados os negros das Guianas inglesa e francesa ― no Amapá.

O início da mineração industrial na Amazônia e a


formação dos caboclos-operários
As incongruências entre as intenções do governo territorial, de um lado, e a
realidade encontrada no Amapá, de outro ― levando-se em conta que esta última

 181 não era tão “dinâmica” e nem facilmente domesticável quanto teriam desejado os
agentes públicos ―, aumentavam as dificuldades em ter que promover um impulso
de desenvolvimento e progresso, conforme as diretrizes estadonovistas preconi-
zadas para os territórios federais, mas também não impediram as ambições do
direcionamento político em vigor.
Janary Nunes era paraense e, inclusive, já conhecia a região do Oiapoque
antes mesmo de assumir o governo territorial, em janeiro de 1944. Pouco sabemos
a respeito do período em que Nunes viveu naquela região fronteiriça, servindo
ao Exército brasileiro. Ainda assim podemos supor que, de alguma forma, a ex-
periência de convívio com personagens típicos locais (seringueiros, garimpeiros,
crioulos, estrangeiros etc.) e a influência exercida por reminiscências de heroísmo
e riquezas minerais no antigo Contestado com a Guiana Francesa devem ter mar-
cado a trajetória de vida e pensamento do jovem militar.
Em decorrência desse mesmo contato, é possível que Janary tenha sido insti-
gado por estórias disseminadas por um imaginário popular muito comum em regi-
ões de garimpo, especulando sobre o que ainda poderia ser encontrado no subso-
lo amapaense. O próprio artigo publicado no jornal Amapá, citado acima, fala das
expectativas de “fortuna fácil” e lamenta a ausência de controle e aproveitamento
atribuídos a um estado fraco ― especificamente os governos da Primeira República
― que tantos prejuízos causaram à nacionalidade.
Partindo dessa hipótese, não é de se admirar que uma das primeiras medidas
do governo territorial, já em 1945, tenha sido a de concentrar esforços para que
fossem exploradas as jazidas de ferro do rio Vila Nova,31 mesmo sob o ataque de
ferrenhas críticas nacionalistas, vindas principalmente da capital federal, por Janary
Nunes ter cedido os direitos de exploração a uma empresa estrangeira: a Hanna

31 Segundo o jornal Amapá, as jazidas de ferro do rio Vila Nova foram descobertas em 1939 pelo geólogo
Fritz Ackerman, no lugar conhecido como “Santa Maria”, entre os municípios de Macapá e Mazagão. Cf.:
Amapá, 19 maio 1951, p. 3.

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ADALBERTO PAZ

Exploration Company. Durante vários meses entre os anos de 1946 e 1947, o jornal
Amapá publicou extensas reportagens acerca das potencialidades das jazidas de
ferro do rio Vila Nova. Contudo, a Hanna Exploration desistiu das jazidas, por consi-
derar que a quantidade de minério existente era insuficiente para cobrir os custos
e garantir os lucros da sua exploração.
Confiando na possibilidade de que fossem localizados outros depósitos de
ferro, Nunes ofereceu um prêmio a quem lhe trouxesse provas da existência desse
minério em qualquer lugar do Amapá.32 Ao ficar sabendo de tal prêmio, um “mas-
cate fluvial” chamado Mário Cruz levou amostras de algumas pedras escuras que
ele havia utilizado como lastro da sua embarcação, cinco anos antes, enquanto
vendia mercadorias pelos garimpos no interior do território, tal como faziam mui-
tos regatões nesse período.33 Após uma análise preliminar, o governador decidiu
enviar as amostras ao Departamento Nacional de Produção Mineral ― DNPM, no
Rio de Janeiro. A resposta revelar-se-ia surpreendente: tratava-se de manganês de
excepcional valor comercial e de teor superior a muitas das jazidas conhecidas no
mundo àquela época.34
A novidade surgiu em um momento delicado para a indústria mundial, pois,
em tempos de Guerra Fria, a Rússia havia suspendido as suas exportações de man-
ganês. A medida visava prejudicar diretamente os Estados Unidos e seus aliados
que dependiam do minério ― usado fundamentalmente na fabricação do aço ―
mas nada podiam fazer a respeito, pois o controle dos maiores depósitos mundiais
e o seu fornecimento estavam nas mãos de Stálin. Dessa forma, a ameaça de insu-
ficiência de manganês fez com que o Amapá passasse a ocupar lugar de destaque
nos debates internacionais que envolviam o abastecimento de reservas minerais
 182
estratégicas para a economia global.35
A divulgação sobre a descoberta e sobre a importância das jazidas de man-
ganês ocorreu durante as celebrações do 1.° de maio de 1946, em Macapá, em so-
lenidade no Cine–Teatro Territorial, com a presença de várias autoridades, “pondo
em evidência o papel do operário no mundo moderno; a perfeita legislação que
o ampara, livrando-o do problema das reivindicações, graças à ação do governo
de Getúlio Vargas”. E, apesar da maioria da população amapaense desempenhar
atividades rurais e extrativistas, a terminologia industrial já estava presente nas fa-
las oficiais, destacando, por exemplo, “a situação especial de proteção em que se
acha o operariado amapaense pelo descortino e pelo patriotismo do governador
do Território, que se revelou um amigo das classes trabalhadoras”.36 Encerrando
os discursos, Janary Nunes tomou a palavra e anunciou

32 Outros prêmios foram oferecidos no mesmo período: “Várias pessoas vêm informando e assegurando ao
governo a existência de Carvão de pedra no Território. A Divisão de Produção, devidamente autorizada
pelo governador, senhor capitão Janary Gentil Nunes, avisa à população, em especial aos garimpeiros e
faiscadores do Amapá, que o governo oferece um prêmio de Cr$20.000,00 àquele que trouxer ao seu
Diretor amostras e indicações que comprovem a existência e a localização real desse minério”. Prêmio de
vinte mil cruzeiros – Carvão de pedra. Amapá, 25 maio 1946.
33 A respeito dos regatões no Amapá no mesmo período, ver: CAMBRAIA, Paulo Marcelo da Costa. Na ilhar-
ga da fortaleza, logo ali na beira, lá tem o regatão: os significados dos regatões na vida do Amapá (1945-
1970). Belém: Açaí, 2008.
34 O encontro entre Mário Cruz e Janary Nunes, relacionado à descoberta do manganês, acabou sendo
utilizado pelo próprio governo como uma espécie de mito fundador de um novo momento para o Amapá,
após a criação do território federal. Cf.: PAZ, Adalberto Júnior Ferreira. Os mineiros da floresta: sociedade
e trabalho em uma fronteira de mineração industrial amazônica (1943-1964). Dissertação (Mestrado em
História Social), Campinas: IFCH – Unicamp, 2011, p. 24-28.
35 Gigantescos depósitos de manganês no Brasil: investigações de geólogos norte-americanos no Território
do Amapá. Amapá, 13 ago. 1949.
36 Os festejos em comemoração ao dia do trabalho. Amapá, 4 maio 1946.

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CABOCLOS, EXTRATIVISTAS E OPERÁRIOS...

a descoberta de um grande depósito de manganês no rio Amapary (sic),


de valor econômico considerável e que, associado à exploração do mi-
nério de ferro, vem desvendar um futuro de imprevisível riqueza para
o Território [...]. [afirmou ainda] que graças ao trabalho conjugado do
governo e do povo, tínhamos diante dos olhos os bons resultados dos
esforços despendidos na transformação significativa que se vinha ope-
rando no Território.37

O edital para aquisição dos direitos de exploração das jazidas de manganês


foi lançado no dia 26 de setembro do mesmo ano. Após uma concorrência acirra-
da, o Conselho Nacional de Minas e Metalurgia declarou vencedora a Sociedade
Brasileira de Indústria e Comércio de Minério de Ferro e Manganês (ICOMI), uma
das empresas que fornecia minérios para a Usina de Volta Redonda, no Rio de
Janeiro.38 Além desta, participaram do pleito duas outras empresas: a Hanna Coal &
Ore Corporation (associada à empresa que estava pesquisando o minério de ferro
do rio Vila Nova) e a Companhia Meridional de Mineração, subsidiária de um gigante
da mineração mundial: a United States Steel.
À parte os detalhes sobre valores e dificuldades na montagem desse com-
plexo de mineração industrial,39 é interessante notar as profundas transformações
provocadas por um projeto econômico desse porte em uma realidade como a que
existia no Amapá. Mesmo considerando-se que a área onde foram encontrados os
depósitos de manganês, chamada Serra do Navio, era extremamente isolada e o
acesso muito difícil devido à existência de inúmeras corredeiras no curso dos rios ―
o que por si só colocava importantes dificuldades de transporte e escoamento ―, a
 183 proporção do investimento, volume de trabalho e infraestrutura era impressionan-
te, inédito em grande parte da Amazônia, e não se restringia ao entorno da mina.
Podemos destacar quatro grandes instalações construídas em diferentes fa-
ses do empreendimento, entre as décadas de 1940 e 1960: um porto exclusivo
da empresa às margens do rio Amazonas, uma ferrovia com 200 km de extensão
ligando o porto à Serra do Navio, e duas cidades operárias projetadas especial-
mente para abrigar todos os funcionários empregados pela ICOMI no Amapá, jun-
tamente com suas famílias, dotadas de alojamentos e clubes recreativos diferen-
ciados por categorias funcionais e condição civil (solteiros ou casados, operários,
engenheiros etc.), escolas, hospitais, centro comercial, cinemas, restaurantes e
várias outras especificidades que as caracterizam como um exemplo clássico de
company towns, embora a própria ICOMI as chamasse de vilas operárias.40
Além de um constante aumento do fluxo migratório de outros estados do
Norte e do Nordeste para o Amapá a partir de 1944, houve uma importante modi-
ficação nas estruturas sociais e econômicas locais, provocando rearranjos e deslo-
camentos internos. Muitos trabalhadores viram na instalação de um grande pro-
jeto de mineração a oportunidade de se desvencilharem de suas antigas atividades
extrativistas e dos constrangimentos impostos pelos barracões e seringalistas, e
não hesitaram em se dirigir rumo à área manganífera no rio Amapari, em busca de
alguma colocação no empreendimento, tal como registrou Antônio Guerra:

37 Idem.
38 Após ser criada em 8 de maio de 1942, essa empresa passou por algumas mudanças de capital, status jurí-
dico e razão social, até estabelecer-se em definitivo com o nome de Indústria e Comércio de Minérios S.A
ou, simplesmente, ICOMI.
39 Sobre valores de empréstimos, capitais, receitas etc. Ver: DRUMMOND, José Augusto; PEREIRA,
Mariângela de Araújo Povoas. O Amapá nos tempos do Manganês: um estudo sobre o desenvolvimento de
um estado amazônico 1943-2000. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.
40 Sobre as diferenças entre company towns e vilas operárias ver: PAZ, Adalberto Júnior Ferreira. “Capital,
trabalho e moradia em complexos habitacionais de empresa: Serra do Navio e o Amapá na década de 1950”.
In: AMARAL, Alexandre, et. al. Do lado de cá, fragmentos de História do Amapá. Belém: Açaí, 2011, p. 461-468.

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ADALBERTO PAZ

O recrutamento de mão-de-obra está ocasionando a existência de uma


corrente de população que deixa o baixo curso da região dos lagos e
do [rio] Araguari para subir em direção a Serra do Navio. Os barracões
do curso inferior do Araguari e também as sedes das fazendas da re-
gião dos lagos estão sendo atingidos mais diretamente com a saída dos
caboclos para a zona das minas. Esse êxodo ocasiona o abandono da
coleta das sementes oleaginosas, da extração do látex e também das
fazendas de gado das áreas referidas.41

Não há relatos do uso de agenciadores por parte da mineradora ou do gover-


no territorial para a contratação de trabalhadores sem especialização, chamados
genericamente de “braçais”. Embora a ICOMI tenha publicado alguns anúncios
em jornais de Macapá e Belém, o mais provável é que as amplas redes de sociabi-
lidades tenham sido o principal meio de divulgação sobre as frentes de trabalho
no Amapá. Já em relação às funções que exigiam algum conhecimento especiali-
zado, foi necessário um esforço bem maior para conseguir atrair um conjunto de
profissionais variados, desde operadores de máquinas pesadas até engenheiros,
médicos e professores.
A significativa oferta de mão de obra não especializada mantinha um nível re-
gular de trabalhadores à disposição da mineradora para substituir aqueles que não
se adequassem àquilo que para a maioria era novidade: uma rígida disciplina de
trabalho caracterizada pelo cumprimento de horários e pela realização de tarefas.
Após a conclusão das duas primeiras fases do empreendimento, correspondentes
à pesquisa sobre a viabilidade econômica da exploração e sobre a construção da
infraestrutura básica, a ICOMI passou a fazer exigências de conduta social e moral  184
especialmente direcionadas aos seus operários, associando a normatização do tra-
balho à instituição de um padrão de família, definindo valores e papéis baseados
em noções de gênero, competências e atitudes ideais.
Nesse sentido, a ideia de construir duas company towns no interior da flo-
resta amazônica cumpria um papel fundamental que ultrapassava a simples dis-
ponibilização de moradia aos funcionários. Além da fixação propriamente dita, tal
como demonstrou José Leite Lopes em suas pesquisas sobre vilas operárias no
Nordeste,42 a ICOMI almejava alcançar dois objetivos básicos: proporcionar atra-
tivos aos empregados graduados como forma de incentivo para que eles aceitas-
sem ir morar em uma região absolutamente isolada, e adequar os trabalhadores
braçais a uma rotina de vida e trabalho operário-industrial. Para isso, cada detalhe
das cidades da empresa (incluindo móveis, instalações sanitárias, localização das
casas) foi pensado de maneira a causar nos trabalhadores braçais a impressão de
que eles estavam “evoluindo” a uma condição social muito superior ao que esta-
vam acostumados nas margens dos rios e igarapés.
Havia um “modelo ideal” de família operária. Antes de tudo, somente poderia
ocupar uma das residências da mineradora os casais que fossem oficialmente casa-
dos, comprovando sua condição por meio do registro em cartório. Os solteiros ocu-
pavam alojamentos específicos ― devidamente vigiados e inspecionados ―, cujo
acesso às áreas comuns, como clube e campos de futebol, ocorria por vias projeta-
das deliberadamente para que casados e solteiros (especificamente os homens e as

41 GUERRA, Antônio Teixeira. Estudo Geográfico do Território do Amapá. Op. cit., p. 297.
42 Cf.: LOPES, José Sérgio Leite. Fábrica e Vila operária: considerações sobre uma forma de servidão
burguesa. In: LOPES, José Sérgio Leite, et. al. Mudança Social no Nordeste: a reprodução da subordinação,
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. Ver também: LOPES, José Sérgio Leite. A tecelagem dos conflitos de
classes na cidade das chaminés. São Paulo: UNB/Marco Zero, 1988.

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mulheres) não se cruzassem, ou tivessem o mínimo de contato possível. É claro,


porém, que havia os momentos de transgressão dessa ordem, como os encontros
proibidos entre funcionários e empregadas domésticas nas matas que circunda-
vam Serra do Navio ou nos próprios alojamentos, mesmo que a punição aos aman-
tes fosse a demissão.43
Zenira Vieira da Silva lembra que, ao chegarem a Serra do Navio, sua mãe
e seu pai receberam uma cartilha na qual constavam as regras e as condições de
convívio elaboradas pela ICOMI, especificamente direcionadas às famílias de ope-
rários.44 Segundo tais normas, cabia, sobretudo à sua mãe, Sebastiana Vieira da Silva,
a manutenção e a limpeza da residência, além das demais funções corriqueiras
atribuídas a uma dona de casa, de maneira que seu pai, Ambrósio Lúcio da Costa,
deveria ocupar-se tão somente em cumprir suas obrigações com o trabalho e, as-
sim, prover o sustento da família.
Alguns itens da cartilha não eram apenas “orientações”. Para a esposa, a res-
ponsabilidade pela higiene e pela conservação da casa, por exemplo, estava muito
além da intenção de agradar o marido e proporcionar um ambiente saudável a
todos, pois a ICOMI realizava inspeções, sem aviso prévio, em qualquer uma das
casas das vilas primária e intermediária, a fim de verificar a maneira como a família
estava vivendo. Essas visitas eram feitas periodicamente pela equipe de inspeção
sanitária da empresa, mas eventualmente ocorriam sempre que a company town
recebia autoridades políticas ou grupos de estudantes, especialmente da área de

 185 saúde, vindos de diferentes regiões do país. Em caso de uma avaliação negativa
da residência, a mulher era chamada em particular e repreendida sobre as falhas
encontradas. Se o problema persistisse, então, o homem seria advertido pelo seu
supervisor direto sobre as possíveis medidas a serem tomadas. Finalmente, nas si-
tuações em que nenhum aviso produzisse o efeito esperado, a companhia poderia
demitir o funcionário e despejá-lo com toda a sua família.
Segundo a lógica da empresa, cada um dos aspectos relacionados ao cotidia-
no de trabalho e ao lazer dos operários solteiros e das famílias operárias ― que se
formaram ou que passaram a viver em Serra do Navio ― deveria ser conduzido de
maneira a garantir o cumprimento fiel de suas rotinas, atribuindo funções sociais e
responsabilidades econômicas, tornando a todos, enfim, elementos úteis e produ-
tivos aos desígnios da mineradora.45
O dia a dia de uma típica família serrana era baseado em uma clara distri-
buição de tarefas entre pai, mãe e filhos. As crianças deveriam estar na escola às
seis e meia da manhã, e lá permaneciam até o final da tarde. Os mineiros saíam
das suas casas e se dirigiam até as esquinas onde eram apanhados por caminhões
por volta das seis horas e quarenta e cinco minutos, para que pudessem iniciar os
trabalhos pontualmente às sete horas, quando soava um estridente apito na área
de mineração. Não havia tempo adicional de espera, nem condução reserva para
os retardatários. A jornada de trabalho era dividida em turnos de oito horas cada:
aqueles que iniciavam o serviço pela manhã, eram deixados em casa às onze horas,
para o almoço. Nesse momento, a comida já deveria estar pronta e posta sobre a

43 PAZ, Adalberto Júnior Ferreira. Os mineiros da floresta: sociedade e trabalho em uma fronteira de minera-
ção industrial amazônica (1943-1964). Op. cit., p. 145
44 Entrevista de Zenira Vieira da Silva, cedida ao autor em 2 de março de 2010.
45 Segundo Foucault, “o corpo só se torna útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso”. Cf.:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. 34. ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 26.

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ADALBERTO PAZ

mesa pela esposa, pois ao meio-dia o operário retornaria para a mina, até o final do
turno, às dezesseis horas, ou mais, se houvesse hora extra.46
À noite, o limite estipulado para a circulação de pessoas no interior de Serra
do Navio era até as vinte e duas horas, havendo certa tolerância para aqueles que
estavam assistindo a algum filme no cinema da companhia, de acordo com o tér-
mino da sessão. A partir daí, a vigilância começava as rondas para inibir aqueles
que porventura tentassem ultrapassar a imposição do horário, especialmente os
casais de namorados, sobre os quais existia uma atenção especial.
Dessa forma, toda a lógica de funcionamento de Serra do Navio preconi-
zava o abandono das antigas formas de sociabilidade, ritmo de vida e trabalho
que compunham o cotidiano dos caboclos amazônidas há séculos. A ideia de uma
sociedade devotada aos padrões de moralidade burguesa como a acumulação,
a produtividade rítmica e constante, o desprezo ao ócio e ao desperdício do po-
tencial de trabalho era uma perspectiva central no primeiro governo do Território
Federal do Amapá, o que explica o entusiasmo pessoal de Janary Nunes na con-
cretização do primeiro grande projeto de exploração mineral da Amazônia. E, não
obstante tenha sido um empreendimento privado, a mineração em Serra do Na-
vio se tornou pedra angular no processo de transformação econômica e cultural
da sociedade amapaense, conforme os anseios dos agentes públicos, a partir dos
anos de 1940.47

Considerações finais  186


A criação dos territórios federais no final do Estado Novo representou uma
iniciativa no sentido de impulsionar o desenvolvimento de áreas consideradas es-
tratégicas, mas bastante atrasadas economicamente. No extremo Norte do Brasil,
a realização de tais objetivos passou por uma série de reformas visando à transfor-
mação dos hábitos locais, abarcando aspectos não apenas relacionados ao traba-
lho, mas também socioculturais e familiares.
Logo após a instalação do primeiro governo territorial, a possibilidade de
exploração de grandes reservas minerais, como o ferro do rio Vila Nova e o manga-
nês do rio Amapari, parecia ser a melhor forma de viabilizar o alicerce econômico
necessário para realizar esse ambicioso conjunto de metas. A concretização dessa
escolha criou um ponto de inflexão tanto na história quanto na memória coleti-
va amapaense, tendo Janary Nunes como um personagem central, cuja complexa
relação entre o significado e a importância de suas ações políticas e as diversas
apropriações que ainda se faz delas, só muito recentemente começou a ser objeto
de investigação.
O fato é que a mineração industrial em Serra do Navio acabou se tornando
a principal atividade econômica do Amapá até o final do século XX, e o debate em

46 Sobre a importância dos papéis atribuídos aos gêneros na formação da classe trabalhadora envolvendo
uma company town ligada à mineração na América do Sul, ver: KLUBOCK, Thomas Miller. Contested
communities: class, gender, and politics. In: Chile’s El Teniente copper mine, 1904-1951. Durham and London:
Duke University Press, 1998. Do mesmo autor: “Morality and good habits: the construction of gender and
class in Chilean copper miner, 1904-1951”. In: FRENCH, John D. and JAMES. Daniel. The gendered worlds of
Latin American women workers: from household and factory to the union hall and ballot box. Durham and
London: Duke University Press, 1997, p. 232-263.
47 Outra importante base para a realização desse plano de governo foi o sistema público educacional. Cf.:
LOBATO, Sidney da Silva. Educação na fronteira da modernização: a política educacional no Amapá (1944-
1956). Belém: Paka-Tatu, 2009.

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CABOCLOS, EXTRATIVISTAS E OPERÁRIOS...

torno dos seus benefícios ou malefícios ainda se mantém como um tema central
nas discussões sobre o passado, presente e futuro no extremo Norte do país. Mais
recentemente, a ênfase das críticas recaiu sobre os prejuízos ambientais causados
pelas décadas de extração do manganês, sendo que, em 1999, uma Comissão Par-
lamentar de Inquérito, instalada na Assembleia Legislativa do Amapá, constatou
que a ICOMI seria responsável pelos elevados níveis de contaminação por arsênio
e bário nos “mananciais superficiais que abastecem o sistema público de água da
capital e do município de Santana”,48 como resultado do seu processo de minera-
ção industrial.
Quanto aos caboclos-mineiros, suas reminiscências tendem a enfatizar o su-
cesso em conseguir “melhorar de vida”, superando as limitações impostas pelas
regras da companhia no interior das company towns, e o legado que cada um dei-
xou à família, muitas das quais constituídas durante os anos de vida e trabalho
como operários no interior da floresta.
Nesse sentido, entender as relações entre os direcionamentos políticos e
o impacto das suas decisões em uma sociedade como a existente no Amapá na
década de 1940 significa perscrutar o campo de possibilidades entre diferentes
tipos de desenvolvimento e a maneira como as pessoas percebem, incorporam e
atribuem sentido a essas transformações em suas vidas. Por outro lado, as dispu-
tas em torno do tema da valorização econômica da Amazônia, mais recentemente
polarizados entre a perspectiva de um aproveitamento “sustentável” dos recur-
sos naturais, em contraposição àqueles de reconhecida e histórica degradação
 187 ambiental, recolocam a problemática de uma estranha modernidade ― continu-
amente anunciada para a região ― na maioria das vezes exógena e indiferente às
especificidades locais.

Recebido em 30/10/2013
Aprovado em 15/05/2013

48 MONTEIRO, Clélio Roberto. “Recomendações de ordem técnica da comissão parlamentar de inquérito


que apura o processo de desmonte da ICOMI”. In: Assembleia Legislativa do Estado do Amapá. Relatório
final da CPI da ICOMI. Macapá: ALEA, 1999, p. 4.

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 171-187


De escravo a doutor: Euzébio de
Queiroz Coutinho Barcellos
Beatriz Ana Loner*
Miguel Angelo Vieira da Cunha Filho**
Ubirajara Soares Monteiro***

Resumo: Este artigo apresenta resultados de pesquisa sobre trajetórias de ex-es-


cravos  do extremo Sul do Brasil ― parte de um detalhado esquadrinhar da so-
ciedade pelotense e da comunidade negra urbana de Pelotas durante as décadas
finais da escravidão e da Primeira República. O enfoque recai sobre os trabalha-
dores urbanos, livres, cativos ou libertos, suas lutas, organização e atividades du-
rante a campanha da abolição e o primeiro período republicano. Acompanhando
as trajetórias desse grupo, responsável pela formação de uma desenvolvida rede
organizativa negra na cidade, foram encontrados elementos suficientes para tra-
çar a biografia de alguns deles, dentre os quais se apresenta aqui a trajetória de Eu-
zébio, escravo que trabalhou em uma charqueada e que, ao conseguir se libertar,
em meados da década de 1880, buscou novos rumos para sua vida, alcançando o
posto de médico licenciado e reconhecimento pela sociedade.

Palavras-chave: pós-abolição; libertos; escravidão; curandeirismo, charqueadas.

From slave to doctor: Euzébio de Queiroz Coutinho


Barcellos
Abstract: This article presents the results of a research on the trajectories of for-
mer slaves in the Brazilian south, part of a detailed picture of Pelotas black urban
community during the last decades of slavery and in the First Republic. The fo-
cus is on the urban workers, free, enslaved or freed, their struggles, organizations
and activities during the abolitionist campaign and the first republican period. Ac-
companying the trajectories of said group, responsible for forming a well devel-
oped  black network in the city, were found enough elements to follow a biog-
raphy on some of them, among which we present here a trajectory of Euzébio, a
slave that worked in a charqueada and that, once he managed to free himself, in
the mid 1880s, search for a new path in life, reaching the stance of licensed doctor
and recognized by society.

Keywords: post-abolition, slavery, freedmen.

* Professora visitante da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


** Licenciado em História pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e professor da Escola La Salle Hipólito Leite.
*** Graduando em História pela UFPel; Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET).

Revista Mundos do Trabalho | vol. 5 | n. 9 | janeiro-junho de 2013| p. 189-213


BEATRIZ ANA LONER, MIGUEL A. V. C. FILHO, UBIRAJARA SOARES MONTEIRO

Faleceu, ontem, o benquisto cidadão, nosso amigo Sr. Euzébio de Quei-


roz Coutinho Barcelos, médico licenciado, contando a avançada idade
de 80 anos, viúvo e natural desse estado.
O corpo foi colocado em fina urna de madeira de lei, estilo francês, e
ricamente guarnecido com emblema prateado e acolchoado com veludo
roxo, e conduzido em carro de primeira classe, ao cemitério, onde ficou
depositado na catacumba da Irmandade da Nossa Senhora do Rosário
n. 49.
As cerimônias fúnebres tiveram lugar, com crescido acompanhamento,
a cargo da casa Constantino Ribeiro.
O extinto gozava de geral apreço, sendo sua morte muito sentida.
A exma. família enlutada apresentamos sentidos pêsames.1

Esta simples notícia, publicada num dos maiores jornais pelotenses ao final
da República Velha, pouco informa da extraordinária vida do falecido, o Dr. Euzé-
bio Barcellos. O fato de ter posses lhe propiciou um rico enterro, mas a extensão
do cortejo ficou por conta de seus relacionamentos, das sociedades de que partici-
pou durante sua vida e do respeito que mereceu na região. O resumido necrológio
passou por cima de questões vitais para a reputação do doutor Euzébio, pois, por
exemplo, não falou que ele fora membro do partido republicano na cidade, nem
que era muito ligado à Igreja Católica. Claro que essas informações poderiam, em
parte, ser deduzidas a partir da matéria jornalística. Afinal, o Diário Popular per-
tencia ao Partido Republicano Rio-Grandense, que governava o estado gaúcho há
décadas. Quanto à Igreja Católica, a proximidade poderia ser facilmente deduzida  190
da referência à irmandade, que consta no texto. E, sendo Irmandade do Rosário,
nos leva a suposições sobre as tonalidades mais escuras da pele do doutor Euzé-
bio, que o necrológio também houve por bem silenciar.
Mas a não informação sobre sua cor deve ser debitada na conta das práticas
jornalísticas seguidas durante a Primeira República, com o sentido de não mencio-
nar a cor de qualquer cidadão fora das páginas policiais, o que, aliás, só era feito se
a pessoa não fosse branca. Numa sociedade racialmente misturada,