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Influência dos media nas crianças e adolescentes

Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

Aconselhamento, Relação e Comunicação Humana

Autor: Nádia Costa

A influência dos Media nas Crianças e Adolescentes.


Revisão de literatura

Resumo: O presente artigo aborda as alterações no dia-a-dia das crianças e adolescentes no que
aos meios de comunicação diz respeito. A influência dos media não só nos jovens, mas também
nas suas famílias e na sociedade é um tema que vem sido debatido e tem sido presença em vários
estudos e investigações científicas, no entanto nunca é demais debruçarmo-nos sobre ele, visto
que continua a ser um tema em desenvolvimento. Todos os dias se alteram as visões do mundo
sobre o que são realmente os media, visto que a tecnologia e a comunicação global evoluem a
olhos vistos a cada novo dia que passa.

Palavras-chave: Meios de comunicação, Adolescentes, Sociedade, Influência.

Abstract: This article discusses changes in day-to-day life of children and adolescents
concerning the media. The media’s influence in young people but also in their families and
society is a topic that has been debated and has been present in several scientific studies and
researches, however it continues to be a developing theme. Every day, the world views about
what the media really are changes, as technology and global communications evolve in each
new day.

Key-words: Media, Adolescents, Society, Influences


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Influência dos media nas crianças e adolescentes

Introdução: São vários os assuntos que podemos debater relativos a este tema. Neste
artigo, infelizmente, não me foi possível escrever sobre tudo o que tinha em mente. No
entanto considero que me debrucei sobre um número considerável de assuntos, entre
eles: “Media e relações geracionais nas famílias”, “A paisagem digital nos lares
portugueses com crianças e adolescentes”, “Literacia para os media”, “Educação para os
media”, “A Relação dos Jovens com os Media”, “Factores facilitadores da influência da
violência televisiva”, Influência da publicidade nos media , Sexualidade nos media e
Efeitos pro-sociais dos media.

Metodologia: No presente artigo foi utilizada a técnica de revisão bibliográfica a partir


das palavras-chave.

Desenvolvimento:

“Media e relações geracionais nas famílias”

Segundo o investigador alemão Mannheim os anos de infância e de juventude e


dependência da transmissão geracional influenciam o ritmo e a intensidade da mudança
social (Mannheim, 1952 [1928]), por exemplo: “em sociedades onde a mudança social
se processa a um ritmo lento, os mais novos tendem a reconhecer-se nos mais velhos,
enquanto em sociedades de ritmos acelerados de mudança os mais velhos serão mais
receptivos aos mais novos” (Ponte, C., 2011). É facto que os media contribuem para
novas noções de socialização como por exemplo a auto-socialização, ou seja, aprender
sozinho e por influência dos pares, e a retrossocialização, que consiste nos filhos
ensinarem os seus pais e avós (Buckingham, 2006), no entanto é também importante ter
em atenção os seus contextos familiares, isto é, “os processos de transmissão das
tradições familiares, as microculturas da família como espaços vitais para os seus
membros, tanto no que se refere a oportunidades como a restrições”
Relativamente à forma como se constroem diferentes ambientes de regulação parental,
Valkenburg (1999) identificou três tipos de envolvimento dos pais na mediação
televisiva: 1) mediação activa em que os pais conhecem os conteúdos dos programas e
as actividades online dos filhos, e em que eles próprios são uma referência pelas suas
próprias práticas; 2) mediação restritiva em que os pais recorrem ao acesso à televisão
ou à internet como recompensa ou como castigo; e finalmente 3) mediação instrutiva
em que os pais conversam, explicam, exprimem juízos de valor, com atenção ao
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Influência dos media nas crianças e adolescentes

processamento de emoções, à compreensão da informação e avaliação por parte dos


filhos. Tais mediações são marcadas pelos recursos que cada um tem. Nos dias de hoje
as infra-estruturas são mais diversificadas do que há uma década ou na geração dos
nossos pais. A televisão que em tempos foi um elemento importantíssimo para a reunião
da família num momento de lazer, está agora colocada nos quartos e surgiram entretanto
computadores de mesa, consolas de jogos, portáteis, tablet entre outros. O acesso à
internet é quase imediato, inclusive fora de casa, e juntamente com o restante
investimento tecnológico leva a que os jovens tomem contacto com lugares e pessoas
fora do seu “habitat natural”.
Em 2002, Livingstone afirma que existe uma relação entre rendimentos
familiares e meios disponibilizados nos ambientes ricos em média. No entanto, a
relação é menos directa entre o grau de instrução dos pais e esses ambientes
tecnologicamente de vanguarda, isto porque pais com menos instrução podem favorecer
ambientes ricos em média, enquanto que pais com mais instrução podem privilegiar
ambientes tradicionais e recusar a centralidade dos novos média.
Famílias com elevada orientação social colocam os filhos longe dos “problemas”
do exterior, em ambientes protegidos, orientando-as para os “sentimentos”, o que
contribui para que as crianças sejam mais cooperativas, dóceis e disciplinadas. Por outro
lado, as famílias com elevada orientação conceptual estimulam um ambiente de
conversação com exposição a diferentes pontos de vista, encorajando as crianças a
exprimir-se, conseguindo, com esta orientação para as “ideias” contribuem para que as
crianças sejam mais argumentativas e socialmente envolvidas (Lemish, 2007).
O uso da internet pode ser diferenciado pelo domínio que as crianças e
adolescentes têm da língua materna e de outras línguas, isto porque influência a forma
como pesquisam informação, a qualidade da comunicação e as possibilidades de
utilização da internet. A educação escolar tem um papel importantíssimo na
democratização destas áreas de saber, no entanto a diferenciação é marcada pelos lares,
pelos seus recursos e pelas suas mediações.

“A paisagem digital nos lares portugueses com crianças e adolescentes”

“O quarto do filho passou a ser o “conclave privado”, onde se realiza cada vez
mais todo um conjunto de práticas ligadas aos media (id. ibid.: 416), numa tendência
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que o tempo acentuou (Cardoso e outros, 2007). Em 2006, 43,6% das crianças e jovens
com acesso à internet respondiam que o computador mais usado estava no seu quarto
(ou de um irmão); em 2010, resultados do EU Kids Online colocam Portugal como um
dos países onde mais crianças e adolescentes acedem à internet a partir dos quartos
(66,9%, para uma média europeia de 48%). O acesso em casa de amigos/familiares
duplicou, passando de 20,3% em 2006 para 48,2% em 2010 (média europeia: 51%).
Verifica-se assim uma notória privatização do uso da internet, nos lares, que vai a par da
explosão da posse de computadores portáteis pessoais (7,9% em 2006; 65,2% em
2010).” (Ponte, C., 2011).

“Literacia para os media”

Surge em 2005 o projecto “The European Charter for Media Literacy”,


desenvolvido a partir de uma iniciativa da UK Film Council e pelo BFI com um grupo
piloto representado por instituições de um número limitado de países: Áustria, Bélgica,
França, Alemanha, Portugal, Espanha, Suécia e Reino Unido. O projecto consiste
informar e sensibilizar o público para a “literacia para os media, para a relação entre os
media e a informação, comunicação e expressão”. Neste projecto defende-se que “todos
os cidadãos europeus de todas as idades deveriam ter oportunidades, tanto na educação
formal como informal, para desenvolverem as capacidades e os conhecimentos
necessários para aumentar a sua fruição, compreensão e exploração dos meios de
comunicação”.
“O The European Charter for Media Literacy acredita que as pessoas
alfabetizadas para os media devem ser capazes de:
- Utilizar os meios de comunicação e as tecnologias de forma eficaz, sendo
capazes de aceder, armazenar, recuperar e partilhar conteúdos que satisfaçam as suas
necessidades e interesses individuais e da comunidade;
- Ter acesso e fazer escolhas informadas acerca de uma vasta gama de meios e
formas de conteúdos de diferentes fontes culturais e institucionais;
- Compreender como e através de que meios os conteúdos são produzidos;
- Analisar criticamente as técnicas, linguagem e convenções utilizadas pelos
meios de comunicação, assim como as mensagens que transmitem;
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- Utilizar os meios de comunicação para se expressar criativamente, para


transmitir ideias, informações e pareceres;
- Fazer uso eficaz dos media no exercício dos seus direitos democráticos e
responsabilidades cívicas.” (Silva, 2009).

“Educação para os media”

A educação para os media é de extrema importância para que os jovens se


tornem espectadores activos e exploradores da comunicação, fazendo parte integrante
da mesma. É essencial para que estes compreendam “as estruturas, os mecanismos, as
estratégias e, consequentemente, as mensagens veiculadas pelos media, o papel que
desempenham na sociedade, o seu impacto social, as modalidades de percepção que
originam, de forma a tornarem-se leitores, ouvintes telespectadores, enfim,
consumidores de informação, conscientes e críticos” (Santos, M; 2003; pp.37). Nesta
sociedade cada vez mais mediatizada nunca é demais esclarecer e informar os “nossas”
crianças e adolescentes para que tenham as ferramentas necessárias para “enfrentar”
este assédio a que são sujeitos diariamente.

“A Relação dos Jovens com os Media”


O estudo que podemos encontrar na Dissertação “A Relação dos Jovens com os
Media” de Silva, S. (2009) tem como objectivo analisar de que forma os jovens no 9º
ano se relacionam com os meios de comunicação que têm ao seu dispor. Tem também
como objectivo identificar os meios de comunicação com que os jovens mais se
reconhecem e saber para que fins os utilizam.
De uma primeira amostra deste estudo fazem parte cinco ou seis alunos, de
ambos os sexos, do 9.º ano de escolaridade de cada uma das escolas escolhidas (uma de
um nível socioeconómico mais desfavorecido (A), e outra de um contexto
socioeconómico mais favorecido (B), ambas de Castelo Branco) para a realização de
uma entrevista de grupo. A segunda amostra é constituída por oito turmas do 9.º ano de
escolaridade, quatro de cada escola, totalizando 149 alunos, para a aplicação do
questionário.
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Relativamente à utilização diária dos media e ao tempo que disponibilizam a


cada um deles os resultados obtidos foram os seguinte:
-Na escola A o meio mais utilizado diariamente pelos alunos é o telemóvel
(96%), seguindo-se a televisão (87%) e a internet (71%). A leitura de jornais é deixada
para os fins-de-semana para 53% dos alunos, assim como ouvir rádio para 35% dos
alunos. Dezanove por cento dos alunos do 9.º ano desta escola nunca lê jornais e 10%
nunca ouve rádio.
-Na escola B o meio mais utilizado é também o telemóvel (88%), seguindo-se a
televisão (84%) e por fim a internet (78%). Relativamente aos jornais, 42% dos alunos
nunca lê, 23% lê apenas ao fm-de-semana e outros 23% leêm 2/3 dias por semana.

Os resultados seguintes são relativos ao media que os alunos escolhem para


procurar informação. Assim, na escola A a maioria dos alunos escolhe em primeiro
lugar a internet (67%). A televisão é procurada muitas vezes por aproximadamente 40%
dos alunos. As revistas e os jornais são considerados segunda e terceira escolhas na
procura de informação para 58% e 53% dos alunos, respectivamente. O meio que a
maioria dos alunos (49%) nunca utiliza para procurar informação é o rádio. Na escola B
a primeira escolha é também a internet (78%). De seguida é procurada a televisão, por
44% dos alunos. As revistas são procuradas algumas vezes por 48% dos alunos e os
jornais por 47% dos alunos.
Assim conclui-se que o meio mais procurado para adquirir informação é a
internet e o menos procurado é o rádio, em qualquer uma das escolas.

De seguida, apresento os resultados relativos aos assuntos de interesse para os


jovens. Dentro das opções: desporto, economia, cultura, moda, horóscopo, saúde,
música, tecnologias e política, os mais interessantes para os alunos da escola A são:
música (64%), tecnologias (52%) e desporto (46%). Os que despertam menos interesse
são a política (52%) e o horóscopo (35%). Para os alunos da escola B a música é
também o assunto de maior interesse (78%), seguindo-se mais uma vez as tecnologias
(60%) e o desporto (52%). Tal como na escola A, os assuntos de menos interesse são
também a política e o horóscopo, mas desta vez de uma forma inversa: horóscopo (
43%) e política (34%).
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Não existem portanto diferenças entre as preferências dos alunos da escola A e


os da escola B.

Entra-se agora no tema “Internet” e pretende-se saber com que frequência a


utilizam, quais as redes sociais que mais frequentam, e se se preocupam com a
segurança na internet.
Os resultados indicam que cerca de 86% dos alunos da escola A utiliza a internet
diariamente, enquanto que na escola B a percentagem é superior, 92%.
Relativamente à utilidade que a internet tem para os alunos da escola A as
escolhas distribuem-se da seguinte forma: fazer trabalhos (96%), falar com os amigos
(94%). Fazer downloads (3%) e publicar informação (1%) são as menos usadas. Na
escola B as escolhas são um pouco diferentes: 85% dos alunos utilizam a internet para
falar com os amigos, 80% para fazer trabalhos, 78% para jogar e 64% para ver filmes ou
séries. Fazer downloads (3%) e publicar informação (0%) são também as menos usadas
na escola B.
Quando o assunto é “Redes Sociais”, na escola A as mais utilizadas pelos alunos
são o Messenger (94%) e o Hi5 (81%). Frequentam também fóruns (19%) e o MySpace
(14%). Na escola B os resultados são semelhantes: Messenger (96%), Hi5 (70%) que
utilizam para comunicar e conhecer novos amigos e fóruns (22%), tal como Chats
(10%) e o MySpace (10%).
Os alunos de ambas as escolas preocupam-se com a segurança na internet, 96%
dos alunos da Escola A e 84% dos alunos da Escola B. No entanto, há alunos que
referem que a segurança na internet não é uma preocupação para si (3% dos alunos da
Escola A e 12% dos alunos da Escola B).

Para responder à questão “Qual a relação dos jovens do século XXI com os
media?” comecemos por analisar as conclusões deste estudo. Os jovens não podem
passar sem o telemóvel, é um instrumento que lhes permite conversar com os amigos,
por mensagens de texto ou por chamada de voz, permite-lhes também transferir dados
de uns para outros e alguns até permitem conversar no Messenger com os amigos. É
uma tecnologia bastante barata, é fácil de transportar para qualquer lugar e pode ser
usada durante todo o dia. É de notar que todos os jovens têm acesso a televisão
diariamente porque é de acesso universal, poucos são os lares que não a possuem.
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No caso da internet, a razão pela qual na escola A ainda há alunos que não a
utilizam diariamente pode ser pelo simples facto de não possuírem um computador com
acesso à internet em casa.
Estes jovens utilizam como principal meio de procura de informação a internet,
no entanto atribuem maior credibilidade à informação que lhes chega através da
televisão. A maioria dos alunos preocupa-se com a segurança na internet.
Os temas que estes jovens mais procuram nos media são: música, tecnologias e
desporto, independentemente da escola que frequentam.
A principal utilização da internet é a realização de trabalhos escolares e
conversas com os amigos. O Messenger e o Hi5 são as redes sociais que mais utilizam.
Relativamente às diferenças presentes nos diferentes meios socioeconómicos,
não, são tão significativas como há alguns anos atrás. A verdade é que a população
escolar se tornou bastante heterogénea, no entanto, fora da escola as diferenças são mais
significativas.
Pode dizer-se que os media vieram atenuar as diferenças que existiam entre
jovens do séc. XXI de meios socioeconómicos diferentes, fazendo agora parte das suas
vidas.

“Factores facilitadores da influência da violência televisiva”

Serão aqui apresentados alguns factores facilitadores da influência da violência


televisiva que foram objecto de estudo.

Falando do factor “Predisposição para a agressão” podemos dizer que existem


opiniões divergentes. Alguns autores consideram que a violência na televisão influencia
o comportamento agressivo apenas nos indivíduos com predisposição para a agressão. E
no sentido de apoiar esta perspectiva foram realizados alguns estudos com crianças e
adolescentes que comprovam isso mesmo (Josephson, 1987; Lynn, Hampson e Agahi,
1989; Wiegman et a l., 1992; Kiewitz, 2001; Bruggemann e Barry, 2002; Browne e
Pennell, 1998). Estes estudos mostram que a violência televisiva pode não afectar todos
os indivíduos da mesma forma. Honig (1983) afirma que “assistir a violência na
televisão pode bem acentuar as tendências agressivas da criança” (p.68).
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Influência dos media nas crianças e adolescentes

Segundo Lynn, Hampson e Agahi (1989) o papel principal na exposição à


televisão e nas suas consequências é das reacções dos sujeitos à violência televisiva, e
não tanto da quantidade de violência observada. Na perspectiva de Josephson (1987) e
de acordo com a teoria dos scripts cognitivos, os resultados explicam-se, isto porque se
espera que “rapazes com níveis mais elevados de agressividade disponha de um
repertório mais alargado de scripts de comportamento agressivo que são evocados pelos
programas televisivos”.

No entanto outros autores defendem que a exposição à violência na televisão


contribui para um aumento do comportamento agressivo, independentemente dos níveis
de agressividade iniciais dos espectadores. Assim, dando como exemplo os estudos
longitudinais realizados por Eron e colaboradores (1972; 1984), podemos dizer que não
há apoio para a primeira hipótese aqui exposta. Estes autores afirmam que “a única
conclusão possível de de ser formulada, é a de que “para que a agressão se torne um
problema sério, é necessário que um certo número de factores esteja presente para
aumentar a agressividade de uma criança. Provavelmente, nenhum factor singular será
suficiente” (Huesmann, Lagerpetz e Eronm 1984, p. 762)”. Estes autores concluem que
se trata de um processo circular de influência e não unidireccional.

Relativamente ao factor “Activação emocional”, este tem um efeito facilitador


de manifestação de agressividade nos indivíduos expostos à violência televisiva
segundo as investigações de Zillmann e Tennenbaum na década de setenta e apoiadas
por Berkowitz (1984) e pelos resultados de outras investigações entretanto realizadas
(cf. Geen e Thomas, 1986).

Na variável “Identificação com heróis violentos” há bastante consenso entre


diversos autores. É evidente que a criança, ao se identificar com a personagem, imagina
que se trata dela própria e “vive” mais o que acontece a personagem (1993; Jo e
Berkowitz, 1994). Os factores que contribuem para que esta identificação aconteça são
as semelhanças entre o indivíduo e a personagem ou o facto de esta pertencer a uma
determinada classe social ou ter um papel que o indivíduo deseja ter também.

Abordando agora as variáveis televisivas, comecemos pela “Justificação e


consequências da violência” dizendo que “o contexto em que a agressão observada
ocorre exerce também uma grande influências nas consequências encontradas e quando
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a violência é apresentada como moralmente justificada, é maior o seu poder instigador


da agressão, tal como revelam alguns estudos realizados (e.g., Berkowitz e Rawlings,
1963; Berkowitz e Aliotom 1973)” (Matos, A., 2006).

O realismo é outro factor que facilita a influência da violência televisiva, sendo


que quanto maior for o realismo da cena, maior será o poder de instigação da agressão.

Pegando numa amostra constituída por 820 alunos do ensino básico, do 4º, 6º e
8º anos, pertencentes a quatro concelhos do distrito de Coimbra (Oliveira do Hospital,
Figueira da Foz, Miranda do Corvo e Coimbra), investigaram-se os seus hábitos
televisivos (Matos, A., 2006). Concluiu-se que a maioria afirma gostar muito ou
muitíssimo de assistir televisão e dedica um período de tempo considerável por a este
momento de lazer. Estes resultados demonstram a importância que este meio de
comunicação tem na vida quotidiana dos participantes e das duas famílias, apesar da
existência da internet e jogos de vídeo, por exemplo.

Relativamente à mediação feita pelos pais ao acesso à televisão, 48,6% dos


participantes afirma ver televisão com os pais muitas vezes ou sempre e 51,1% afirma
fazê-lo poucas vezes ou nunca. 21,6% dos participantes afirma que os pais fazem
companhia quando assistem aos seus programas preferidos e 77,8% afirma que tal
acontece algumas vezes ou nunca. Portanto, os pais permitem que os filhos estejam
presentes quando assistem televisão, mas não estão presentes quando são os filhos a
assistir aos seus programas preferidos.

No que concerne a mediação avaliativa, 47,7% dos participantes afirma terem a


ajuda dos pais para compreender a televisão, no entanto a percentagem de jovens que
não a têm é bastante significativa. Finalmente, em relação à mediação restritiva, a
maioria dos pais faz um controlo relativo ao tempo de exposição à televisão e não aos
programas em si.

Influência da publicidade nos media

A publicidade está cada vez mais desenvolvida para captar a atenção do


consumidor “à primeira vista”. Desta forma é captada a atenção dos adultos, mas
principalmente das crianças e adolescentes. Existe cada vez mais marketing
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direccionado para as crianças, quer seja online, na televisão ou até mesmo a forma como
os produtos estão dispostos nas lojas e supermercados.

As crianças quase que nascem para se tornarem consumidoras. São levadas


desde tenra idade para lojas e centros comerciais e desde cedo fazem pedidos de compra
aos pais ou outros educadores. Os seus quartos são muitas vezes prova do consumismo,
isto porque neles se encontra muitas vezes todo o tipo de brinquedos, decoração relativa
a algum tipo de programa infantil ou roupa de uma marca específica. Desde cedo vêem
televisão e ficam sujeitas a todo o tipo de publicidade, indo depois com os pais às
grandes superfícies, restaurante de fast-food ou lojas de brinquedos publicitadas.

Aquando da entrada na escola as crianças vão aprendendo gradualmente a


perceber o que está por trás da publicidade, as técnicas que usa, e aí tornam-se um
pouco mais cépticas acerca do que vêem.

É portanto necessário que os pais e educadores controlem o que é controlável,


como por exemplo o tempo que as crianças ficam sujeitas à publicidade quer seja na
televisão, quer seja na internet. É importante controlar não só o tempo mas também o
conteúdo

Efeitos pro-sociais dos media

Podemos falar de efeitos pro-sociais dos media quando estes promovem o


altruísmo, a entreajuda e a aceitação da diversidade, por exemplo. Nos anos 70 e inícios
dos anos 80, análises de conteúdo revelaram que os programas preferidos das
crianças muitas vezes apresentavam retractos de altruísmo, empatia e uma exploração
de sentimentos (Palmer, 1988). No entanto, perceberam cedo que haveria mais lucro se
os programas de televisão fossem um meio para vender brinquedos (Kunkel, 1988). A
partir daqui a comercialização de todo o tipo de brinquedos relacionado com programas
televisivos para crianças aumentou de uma forma brutal.

A teoria cognitiva e social de Bandura explorou originalmente como a agressão


televisiva pode ser imitada havendo determinadas condições, mas debruçou-se também
no comportamento pro-social que pode resultar da exposição aos media. O processo é
muito sucintamente o seguinte: as crianças observam um personagem que se comporta
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de uma forma positiva. Esse comportamento tem mais probabilidade de ser imitado se o
personagem for realista, se for parecido com a criança na idade ou no género (por
exemplo), se receber reforço positivo e se realiza uma acção que é exequível pela
criança (Thomas, 2005).

O conteúdo pro-social pode contribuir também para que as crianças adquiram


competências para lidar com as suas emoções e gerir o seu humor. Para além disso, o
conteúdo pro-social oferece à criança scripts para que saiba lidar com situações
desconhecidas. A Cultivation Theory sugere que os telespectadores “cultivam” a
informação proveniente da televisão, integrando-a na sua percepção do mundo real. Ou
seja, as crianças podem ver o mundo pela mesma óptica que vêem os programas
televisivos, quer sejam positivos ou negativos.

Sexualidade nos media


Um pénis erecto nos ecrãs dos E.U.A. é mais incendiário do que mil pistolas. -
Newsweek critic David Ansen (1999, p.66).

À falta de educação sexual em casa e nas escolas, a televisão tornou-se um meio


fácil de chegar a informação relativa a este tema. Nos Estados Unidos as referências
sexuais são uma constante, desde programas de televisão até publicidade para vender,
de tudo, inclusive produtos de higiene. Todos os anos, crianças e adolescentes norte-
americanos vêem cerca de 14000 referências, insinuações, e comportamentos sexuais,
dos quais poucos (menos de 170) envolvem o uso de contraceptivos, auto-controlo,
abstinência ou responsabilidade (L. Harris Associates, 1988). Uma recente análise de
conteúdo televisivo mostrou que mais de 75% dos programas em horário nobre contêm
referências sexuais, mas apenas 14% mencionam o risco, a responsabilidade e a
importância da contracepção.

A televisão tem a capacidade de transmitir informação, mas também de modelar


atitudes, isto porque influencia a forma como os espectadores vêm o comportamento e a
realidade social (Bandura, 1977; Shrum, 2002). A televisão pode oferecer aos
adolescentes scripts para comportamentos sexuais que poderiam não encontrar em
nenhum outro lugar (Gagnon & Simon, 1987; Kim et al., 2007; Kunkel et al., 1999).
Estudos mostram que adolescentes que foram expostos a programação contendo muitas
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Influência dos media nas crianças e adolescentes

referências sexuais, consideram o sexo ocasional menos negativamente que os


adolescentes que não viram essa programação (Bryant & Rockwell, 1994).

Esta exposição a conteúdos sexuais, onde na maioria das vezes as cenas não são
realísticas, e os actores são demasiado estereotipados para que a imagem transmitida
seja de corpos “perfeitos” e relações interpessoais muito diferentes das nossas relações
na vida real, pode levar a que os adolescentes, desde cedo, não se identifiquem com o
que vêem, tentando alterar a sua forma de agir ou até mesmo a sua aparência para que se
assemelhem mais aos modelos que chegam a si através da televisão. Tal traz efeitos
negativos, como por exemplo a distorção da imagem que têm de si mesmos, levando
por vezes a que tentem perder peso, ou alterar o seu estilo pessoal, prejudicando desta
forma a sua saúde e as suas relações próximas.

Apesar de em Portugal existir uma Entidade Reguladora para a Comunicação


Social, os adolescentes portugueses estão sujeitos a referências sexuais e a modelos que
lhes transmitem ideias estereotipadas relativas, por exemplo, à aparência e peso que
devem ter. A série televisiva “Morangos com Açúcar” é exemplo disso, tendo começado
em 2003, ao longo dos anos tem vindo a aumentar a quantidade de referências sexuais
nas suas cenas. A moda é um tema frequente que transmite às crianças e adolescentes o
que é “estar na moda” e como devem fazer para não serem excluídos do grupo de pares.
Tudo isto traz consequências negativas aos “nossos” jovens.

Conclusão: Na revisão realizada pode-se afirmar que os a exposição aos media pode
trazer consequências negativas, mas pode também ter um lado positivo. A verdade é que
a maioria das “nossas” crianças e adolescente tem acesso a televisão e internet
diariamente, mesmo que uma pequena percentagem delas não tenha acesso à internet
em casa. A publicidade presente nos meios de comunicação levam a um maior
consumismo que é fácil de transmitir às crianças através de publicidade atractivas que
transmitem mensagens como “todos têm um brinquedo destes”, fazendo com que quem
vê sinta necessidade de adquirir o produto.

Outra realidade é a de que muitos estereótipos são transmitidos pelos media


distorcendo a imagem que os adolescentes têm do que é ser bonito, por exemplo. É
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Influência dos media nas crianças e adolescentes

importante que haja algum controlo parental, quer no tempo passado em frente à
televisão, quer no tipo de programas que os filhos vêem.

Nem tudo é negativo. Através dos media as crianças e adolescentes aprendem a


lidar com situações que ainda não conhecem, dando-lhe ferramentas para o futuro.
Alguns programas transmitem ideias pro-sociais ensinando o que é ser altruísta, amigo,
o que é ajudar o próximo e a cultivar relações interpessoais que nos ajudam a crescer
enquanto seres humanos e cidadãos. São muitas as coisas positivas que se podem
aprender através dos meios de comunicação social, basta para isso que os conteúdos
transmitidos sejam seleccionados e pensados antes de serem expostos.

É importante que se tenha em conta que alguns dos dados mencionados neste
artigo são relativos a anos anteriores, pelo que é provável que não correspondam
exactamente à realidade actual.

Muito mais se poderia ter escrito, no entanto alguns factores não o permitiram.
Talvez numa próxima oportunidade.

Bibliografia:

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“Morangos com Açúcar”: um estudo com alunas e alunos do 9ºano de escolaridade.
Dissertação de Mestrado em Supervisão Pedagógica e Formação de Formadores.
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Coimbra.
140pp.