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PUREZA DE CORAÇÃO

– O Natal chama-nos a uma maior pureza interior. Frutos da pureza de coração. Os atos
internos.

– A guarda do coração.

– Os limpos de coração verão a Deus já nesta vida, e em plenitude na vida eterna.

I. QUE OS CÉUS mandem o seu orvalho, que as nuvens chovam a justiça.


Que a terra se entreabra e faça brotar a salvação1.

O Natal é uma luz na noite, e uma luz que nunca se extinguirá. Todo aquele
que olhar para Belém poderá contemplar Jesus Menino, acompanhado por
Maria e José. Poderá contemplá-lo se tiver um coração puro, porque Deus só
se manifesta aos puros de coração2.

O Natal é, pois, uma chamada à pureza interior. E é por isso que, quando
chegar a festa, haverá homens que talvez não consigam ver nada no presépio:
estarão cegos para o essencial por terem o coração cheio de coisas materiais
ou de sujeira e miséria. E a impureza do coração provoca insensibilidade para
as coisas de Deus.

Certa vez, uns escribas e fariseus perguntaram a Jesus: Por que os teus
discípulos não cumprem a tradição dos antigos, pois não lavam as mãos
quando comem? O Senhor aproveitou o ensejo para fazê-los ver que eles
descuidavam preceitos importantíssimos. E disse-lhes: Hipócritas! Bem
profetizou de vós Isaías, quando disse: Este povo honra-me com os lábios,
mas tem o coração longe de mim3.

Convocou então o povo, pois não ia interpretar mais um preceito da Lei, mas
tocar um ponto essencial: ia indicar o que é que torna uma pessoa
verdadeiramente pura ou impura diante de Deus.

E chamando a si a multidão, disse-lhes: Ouvi e entendei: Não é o que entra


pela boca que torna impuro o homem; mas o que sai da boca, isso é o que
torna o homem impuro4. E um pouco mais tarde explicaria à parte aos seus
discípulos: O que sai da boca vem do coração e isso é o que torna impuro o
homem. Porque é do coração que procedem os maus pensamentos, os
homicídios, os adultérios, as fornicações, os roubos, os falsos testemunhos, as
blasfémias. É isto o que torna impuro o homem; mas comer sem lavar as mãos
não torna impuro o homem5.

O que sai da boca vem do coração. O homem inteiro fica manchado pelo
que se passa no seu coração: maus desejos, despropósitos, invejas,
rancores... Os próprios pecados externos citados pelo Senhor foram já
cometidos no interior do homem antes de terem sido cometidos externamente.
É aí dentro que se ama ou se ofende a Deus.

Há casos em que a acção externa aumenta a bondade ou a malícia do ato


interno, pela maior intensidade na voluntariedade, pela exemplaridade ou
escândalo que resulta da acção praticada, pelos benefícios ou prejuízos
causados ao próximo, etc. Mas é o interior do homem que é preciso conservar
limpo e são, e todo o resto será puro e agradável a Deus.

II. GUARDA O TEU CORAÇÃO, porque dele procede a vida6, diz o livro
dos Provérbios; e também procedem dele a alegria, a paz, a capacidade de
amar e de empenhar-se na acção apostólica... Com que cuidado temos que
guardar o coração! Porque, por outro lado, o coração tende a apegar-se
desordenadamente a pessoas e coisas.

Dentre todos os fins da nossa vida, apenas um é verdadeiramente


necessário: chegar à meta que Deus nos propôs; alcançar o Céu tendo
realizado a nossa vocação. Para isso, devemos estar dispostos a perder seja o
que for, a afastar tudo o que se interponha no nosso caminho para Deus. Tudo
deve ser meio para alcançar o Senhor; e se, ao invés de meio, é um obstáculo,
teremos que rectificá-lo ou removê-lo. As palavras de Cristo são claras: Se o
teu olho direito te escandaliza, arranca-o e joga-o para longe... E se a tua mão
direita te escandaliza, corta-a e atira-a para longe, porque melhor é para ti que
pereça um dos teus membros, do que todo o teu corpo ser lançado ao inferno 7.
Com a expressão olho direito e mão direita, o Senhor expressa o que num
dado momento pode apresentar-se como coisa de muito valor. Mas a
santidade, a salvação – a própria e a alheia – está em primeiro lugar.

“«Se o teu olho direito te escandaliza..., arranca-o e joga-o para longe!» –


Pobre coração, que é ele que te escandaliza! Aperta-o, amarfanha-o entre as
mãos; não lhe dês consolações. – E, cheio de uma nobre compaixão, quando
as pedir, segreda-lhe devagar, como em confidência: – «Coração: coração na
Cruz, coração na Cruz!»”8

As coisas que talvez tenhamos de tirar ou cortar na nossa vida podem ser de
tipos muito diversos. Umas vezes, serão coisas boas em si mesmas, mas que
se tornam negativas pelo nosso egoísmo ou porque as pomos a serviço de
uma intenção errada. Outras, serão coisas sem maior importância – como
pequenos caprichos, faltas habituais de temperança, pequenas manifestações
de mau gênio, excessiva preocupação pelas coisas materiais, etc. –, mas que é
preciso cortar e arrancar porque, quase sempre, são esses detalhes
aparentemente pequenos os que deixam a alma atolada na mediocridade.

“Olhai – diz Santo Agostinho – como a água do mar se infiltra pelas frestas
do casco e pouco a pouco enche os porões do barco e, se não a esvaziam,
submerge a nave... Imitai os navegantes: as suas mãos não descansam
enquanto não secam o fundo do barco; não cessem as vossas de fazer o bem.
No entanto, apesar de tudo, voltará a encher-se outra vez o fundo da nau,
porque persistem as frestas da fraqueza humana; e novamente será
necessário retirar a água”9. Esses obstáculos e tendências que não se podem
arrancar de uma só vez, mas exigem uma disposição permanente de luta
alegre, ajudam-nos em grande medida a ser mais humildes.

O amor à confissão frequente e o exame diário de consciência auxiliam-nos


a manter a alma mais limpa e bem disposta para contemplar Jesus na gruta de
Belém, apesar das nossas patentes fraquezas diárias.

III. OS PUROS DE CORAÇÃO verão a Deus. “Com toda a razão se promete


aos limpos de coração a bem-aventurança da visão divina. Nunca uma vida
manchada poderá contemplar o esplendor da luz verdadeira, pois as mesmas
coisas que constituirão o gozo das almas limpas serão o castigo das que
estiverem manchadas”10.

Quando falta pureza interior, os sinais mais claros da presença de Deus não
nos dizem nada e acabamos por distorcê-los, como fizeram os fariseus;
poderiam até escandalizar-nos. Mas se o coração estiver limpo, saberemos
reconhecer Cristo na intimidade da oração, no meio do trabalho, nos incidentes
da nossa vida diária. Ele vive e continua agindo em nós. Um cristão que busca
a Deus com sinceridade e pureza interior encontra-o; porque é o próprio Deus
que sai ao seu encontro.

A pureza interior, meio necessário para contemplarmos a Deus nesta vida,


incita-nos a viver gozosamente para dentro, a guardar os sentidos, a não omitir
os pequenos sacrifícios que oferecemos todos os dias ao Senhor. Este
recolhimento interior é compatível com o trabalho intenso e com as relações
sociais de uma pessoa que vive no meio do mundo. Não deve temer que o seu
coração se disperse.

“Como vai esse coração? – Não te inquietes; os santos – que eram seres
bem constituídos e normais, como tu e como eu – sentiam também essas
«naturais» inclinações. E se não as tivessem sentido, a sua reacção
«sobrenatural» de guardar o coração – alma e corpo – para Deus, em vez de
entregá-lo a uma criatura, pouco mérito teria tido. – Por isso, uma vez visto o
caminho, creio que a fraqueza do coração não deve ser obstáculo para uma
alma decidida e «bem enamorada»”11.

A vida contemplativa está ao alcance de qualquer cristão, mas é necessária


uma decisão firme e séria de buscar a Deus em todas as coisas, de purificar-se
e de reparar pelas faltas e pecados cometidos. É sempre uma graça, que Deus
não nega a quem a pede com humildade. É um dom que devemos pedir
especialmente durante o Advento.

Depois, se tivermos sido fiéis, virá o conhecimento perfeito de Deus,


imediato, claro e total, sempre dentro das possibilidades da natureza criada e
finita do homem. Veremos a Deus quando chegar o fim, mais cedo ou mais
tarde. Conheceremos a Deus como Ele nos conhece, directamente e face a
face: Sabemos que, quando aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque o
veremos tal como é12. O homem poderá então olhar para Deus sem ficar cego
e sem morrer. Poderemos contemplar esse Deus a quem teremos procurado
servir ao longo de toda a nossa vida. Contemplaremos Deus Pai, Deus Filho e
Deus Espírito Santo.

E, muito perto da Santíssima Trindade, estará Santa Maria, Filha de Deus


Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo.

(1) Is 45, 8; (2) cfr. Mt 5, 8; (3) Mt 15, 7-8; (4) Mt 15, 10; (5) Mt 15, 18-20; (6) Prov 4, 23; (7) Mt
5, 29-30; (8) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 163; (9) Santo Agostinho, Sermão 16, 7; (10)
São Leão Magno, Sermão 95, sobre as bem-aventuranças; (11) São Josemaría
Escrivá, Caminho, n. 164; (12) 1 Jo 3, 3.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)