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LÓGICA INDUTIV A

E PROBABILIDADE

~- .
Reitor Roberto Leal Lobo e Silva Filho
Vice-reitor Ruy Laurentí

EorrORA DA UNIVERSlDAOE DE SAO PAULO

Presidente Joáo Alexandre Barbosa


Diretor Editorial Plinio Martins Filho
Editor-assistente Manuel da Costa Pinto

Comissdo Editorial Joáo Alexandre Barbosa (Presidente)


CelsoLafer
José E. Mindlin
Oswaldo Paulo Forattini
Djalma Mirabelli Redondo
NEWTON C. A. DA COSTA

LÓGICA INDUTIV A
E PROBABILIDADE

SEGUNDA EDI<.'ÁO

EDITORA HUCITEC
EDITORA DA UNIVERSIDADE DE sAo PAULO
Sao Paulo, 1993
Copyright © 1993 by Newton C. A. da Costa

Dados Internacionais de Catalogacao na Publicacáo (eIP)


(Cámara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Costa, Newton C. A. da, 1929-


Lógica Indutiva e Probabilidade I Newton C. A. Costa. - 2. ed. - Sao
Paulo : HUCIT~: Editora da Universidade de Sao Paulo, 1993

Bibliografía.
ISBN: 85-271-0184-X (HUCITEC)
ISBN: 85-314-0140-2 (Edusp)
L Inducáo (Lógica) 2. Probabilidade 1. Título.
93-0263 CDD-161

Índices para catálogo sistemático:


1. Inducáo : Lógica 161
2. Lógica indutiva 161

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Printed inBrasil 1993


SUMÁRIO

Prefácío . . .. . . . . .. . . . . . . . . . . .. .. . . .. .. .. . . . . . . . . 9
1. A lógica dedutiva 11
2. A lógica indutiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 21
3. O problema da inducáo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 33
4. O problema da deducáo 39
5. A natureza da razáo 45
6. Lógicas indutivas e probabilidade 55
6.1. Probabilidade pragmática 56
6.2. Os princípios básicos da probabilidade
pragmática .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 61
6.3. Pré-álgebras de Popper .... . . . . . . . . . . . . . . . .. 77
7. Observacóes finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 81
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 85
Nota bibliográfica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 89
A matemática e a lógica. historicamente [atando. Ión
sido disciplinas completamente distintas. A matemática
sempre esteve ligada a ciencia, e a lógica ao pensamento.
Porém, ambas se desenvolveram nos tempos modernos:
a lógica se tornou mais matemática, e a matemática mais
lógica. Em conseqiiéncia, agora impossivel trucar uma
é

linha divisoria entre elas; de faro, as duas sáo uma sá.


Diferem como o jovem do adulto: a lógica é a juventude
da matemática, e a matemática a virilidade da lógica.
Esta maneira de ver ofende aqueles lógicos que, havendo
gasto seu lempo 110 estudo dos textos clássicos. sao iJ1-
capares de seguir um raciocinio simbólico, e os mate­
máticos que aprenderam sua técnica sem se preocupar
com o significado da mesma ou com sua justiiicacáo.
Afortunadamente, esses dois tipos viio [icando cada vez
mais raros.

Bertrand Russell
PREFÁCIO

Um dos problemas centrais da lógica e da epistemologia


é o problema da inducáo. Desde Hume, ele tem origi­
nado controvérsias intermináveis e sao numerosas as
solucóes propostas, as quais, todavía, se mostraram in­
suficientes.
Neste ensaio esbocamos urna nova solucáo do proble­
ma da inducáo (também chamada de problema de Hume).
Para isso, é preciso, de acordo com nossa maneira de
tratar do tema, fazer duas coisas: em primeiro lugar, tem­
se que fornecer urna solucáo epistemológica para o pro­
blema; em segundo, toma-se necessário evidenciar que
existe, em sentido que ficará claro adiante. urna lógica
indutiva, lógica que se encontra íntimamente correlacio­
nada com a teoria da probabilidade. Essas duas tarefas
refletem, respectivamente, os dois aspectos básicos do
problema: o epistemológico e o técnico ou formal.
No presente trabalho o leitor apenas encontrará um
10 PREFÁCIO

escorce de nossa posicáo. Os detalhcs seráo expostos em


livro que já se encontra cm fase adiantada de redacáo.
Devemos muito a obra de Popper, embora tal afirmacáo
possa parecer surpreendente a todos aqucles familiariza­
dos com as concepcóes do pensador austríaco, posta que
defendemos a existencia de urna lógica indutiva.
Debatemos, cm parte, nossa teoría nos seminários que
há alguns últimos anos dirigimos no Centro de Lógica,
Epistemologia e História da Ciencia da Universidade
Estadual de Carnpinas, por sugestáo do Professor O. Por­
chat Percira.
Queremos deixar consignados aquí nossos agradeci­
rncntos ao Professor R. Chuaqui, pelas discussóes que
rnantcve conosco sobre o tema e pelos sucessivos convites
que nos fez para exporrnos nossas indagacóes cm semi­
nários e cm conferencias na Universidade Católica do
Chile, a qual, nos últimos tcrnpos. ternos visitado assi­
duamentc.

Süo Paulo, sctcmbro de 1990.


O Aurou
1
A LÓGICA DEDUTIV A

o conhecimento científico é um conhecimento conceitual.


Tentamos compreendcr e explicar a realidade por meio
de conceitos que relacionamos nas !eorias, nas hipóteses
e nas lcis, Toda a ciencia um vasto sistema conceitual
é

que nos permite, entre outras coisas, sistematizar o real.


Daí podermos efetuar prcvisóes e melhor nos adaptarmos
ao contorno. O próprio senso comum se articula por meio
de conceitos. Nao há razáo sem conceituacáo,
Nos diversos ramos científicos existcm conceitos que
lhcs sao peculiares e conceitos muito amplos, que se apli­
cam cm vários domínios do saber. Assirn, por exemplo,
na mecánica encontramos conceitos específicos desta
ciencia, com os de forca, velocidade e aceleracáo, e con­
ceitos de carátcr mais geral, comuns as outras ciencias,
como, por exemplo, os de objeto, propriedade e relacáo.
Os conceitos muito gerais, que pertencem a vários ou a
todos os ramos da ciencia, denominam-se categorias.
12 A LÓGICA DEDUTIVA

Para nós, pelo menos neste livro, uma lógica qualquer


é

classe de cánones de inferencia baseada num sistema de


categorias. Dito de outro modo, dado um sistema de ca­
tegorías, o qual pode servir de fundamento para certas
sistematizacóes racionais, a ele em geral acha-se asso­
ciada urna lógica, a qual determina as inferencias válidas,
correlativas ao sistema de categorias considerando. (Mais
do que isso, aos sistemas de categorias adequadamente
desenvolvidos, vía de regra, encontra-se associada nao
apenas uma lógica, mas também urna dada matemática.
Porém, nao trataremos desta questáo aqui.)
Qualquer lógica L envolve a fixacáo de família de
linguagens, sem as quais ela nao poderia expressar suas
regras, que sao, no fundo, cánones lingüísticos. Isto im­
plica que L possui, pelo menos, duas dimensóes: a sin­
tática e a semántica. Do ponto de vista matemático-formal
puro, L constitui apenas uma estrutura matemática. E uma
lógica só existe propriamente na medida em que se possa
formulé-la como estrutura abstrata e formal.
A lógica dedutiva (disciplina) é o estudo das diversas
lógicas (estruturas), como as definimos.
Dada a lógica L, as inferencias que ela estipula como
válidas denominam-se L-dedu~oes (ou L-válidas). As ou­
tras inferencias. codificáveis em L, mas que nao sao L­
válidas, chamam-se L-paralogismos.
É claro que o conceito de lógica, isto é, de órgáo de
inferencias assentado sobre um sistema de categorías.
mostra-se um tanto vago. Em todo caso, geralmente se
tem sempre algo mais ou menos definido quando se fala
da lógica de um contexto racional (em particular, cien-
A LÓGICA DEDlITIVA 13

tífico). Assim, por exemplo, a lógica subjacente as cien­


cias da natureza, hoje, é a lógica chamada clássica (salvo
em algumas discussóes de natureza muito especial, quan­
do se argumenta que, em certos casos, como nos funda­
mentos da mecánica quántica, deveríamos recorrer a ló­
gicas diferentes da clássica).
A lógica clássica trata, essencialmente, do cálculo de
predicados de primeira ordern usual, dito hoje clássico,
com ou sem igualdade, e de alguns de seus subsistemas;
trata, também, de suas extensóes a urna teoria de con­
juntos ou a urna lógica de ordem superior.
No entanto, especialmente neste século, surgiram no­
vas lógicas, como, v.g., as lógicas intuicionista, poliva­
lente e paraconsistente. Em síntcse, já possuímos sistemas
de categorias e lógicas neles fundados que diferem da
postura clássica. Tais lógicas chamam-se heterodoxas ou
náo-clássicas,
Acreditamos que o nascimento e a proliferacáo das
lógicas heterodoxas constitui urna das maiores revolucóes
de nosso tempo. Talvez ela seja semelhante a revolucáo
provocada pelo surgimento das geometrias nao-euclidia­
nas. Entre outras coisas, as novas lógicas mostraram que
logicidade e racionalidade nao se identificarn; nas siste­
matizacóes racionais, podemos utilizar lógicas distintas
da clássica ou ortodoxa, caso isso nos seja conveniente.
As concepcóes tradicionais da razáo se evidenciara m im­
potentes para dar conta do novo estado de coisas, o que
está originando, como nao poderia deixar de ser, urna
outra maneira de se encarar a inducáo. Por esta circuns­
tancia é que devemos nos ocupar dessas lógicas.
14 A LÓGICA DI~I)UTIVA

Como pode m as lógicas heterodoxas ser definidas'!


Sem almejarmos precisáo completa, o que, aliás, nao teria
sentido se exigir, parece muito apropriado procedermos
assim: desde que já definimos a lógica ortodoxa ou clás­
sica e já sabemos o que é úma lógica, as lógicas hete­
rodoxas seria m as lógicas distintas da clássica. Tudo isso
afigura-se claro, mas torna-se necessário Iazer algumas
observacóes:

1) Utilizamos a palavra 'lógica' ern pelo menos dois


sentidos: ela pode denotar urna ciencia ou urna estrutura
de natureza determinada. Assirn, existe a disciplina que
se denomina lógica clássica e há as diversas estruturas
lingüístico-formais investigadas nessa disciplina.
Como ciencia, há urna lógica clássica única; do prisma
estrutural e lingüístico-formal, cxistcm várias, corno, por
exemplo, as diversas formulacóes do cálculo proporcional
clássico, as diferentes aprescntacóes do cálculo de pre­
dicados de primcira ordem clássico, com ou scm igual­
dadc, os variados sistemas de teoria dos tipos e de teoria
dos conjuntos etc.;
2) O fato de nao nos interessarmos por obter urna
¡.
definicáo precisa e exata da lógica (ncrn da lógica intui­
cionista, da lógica paraconsistcntc etc.) nao se dcve a
alguma propriedade peculiar dcssa ciencia, mas decorrc
da circunstancia de que nao é necessario nern se pode
definir de modo completamente cxato e rigoroso qualqucr
ciencia;
3) Nao pretendernos desenvolver aqui urna tcoria pro­
funda da logicidadc, porém apenas Iixar algumas idéias
A LÓGICA DEDUTIVA 15

e chamar a atencáo do leitor para certas conquistas re­


centes que tém contribuído deveras para se reformular e
entender melhor as questóes referentes a inducáo e a sua
significacáo para as ciencias reais-.

É claro que dois sistemas de lógica clássica pode m


diferir em suas simbologias ou em suas codificacóes axio­
máticas, mas que tais diferencas nao apresentam signifi­
cado mais profundo. Assim, por exemplo, dais sistemas
de lógica clássica, LI e Lb podem diferir pelo fato de
que em LJ o símbolo da ímplicacáo material éao ~,

passo que em L2 é :); ou L¡ e L2 podem divergir pela


escolha dos símbolos primitivos: cm LI a implicacáo e
a negacáo sao tomadas como idéias primitivas, enquanto
que em L2 os conectivos proposicionais primitivos sao
a disjuncáo e a negacáo. Mas, mesmo revelando diver­
gencias como as descritas, os sistemas de lógica clássica
ainda podem apresentar variacóes; por exemplo, o.sistema
de teoria de conjuntos de Zermelo-Fraenkel difere muito
de Kelley-Morse- Tarski e a teoria dos tipos de Church
possui características bem diversas das dos sistemas comuns
de teoria simples dos tipos. Além disso, muitas vezes certos
axiomas, como o da escolha e o da extensionalidade, sao
susceptíveis de sercm ou nao incluídos etc.
Supondo-se, en tao, a lógica ortodoxa mais ou menos
definida, passamos a conceituacáo mais detalhada das

I
~
1 Sobre a naturezada lógica e sua problemáticahodiema. ver nosso
Ensaio sobre os fundamentos da lógica, ítem (11) da Bibliografia.
16 A LóGICA DEDUTIVA

heterodoxas. A melhor maneira de procedermos para fa­


zer isso a seguinte: um sistema lógico L diz-se hete­
é

rodoxo ou náo-clássico se satisfizer urna pelo menos das


condicóes:

1) Sua linguagem difere basicamente da linguagem da


lógica clássica, especialmente pela sua interpretacáo se­
mántica;
2) Alguns dos princípios ccntrais da lógica tradicional,
como, por exemplo, os do terceiro cxcluído, da nao-con­
tradicáo e da identidade, nao valem em L. É evidente
que estas duas condicóes estáo intimamente relacionadas:
urn cambio de semántica em geral acarreta mudanca de
princípios e recíprocamente.

Há dois tipos de lógicas heterodoxas:

1) As que foram propostas como complemento da clás­


sica. Por exemplo, a lógica modal comum e a lógica do
tempo;
2) As lógicas formuladas com o intuito de substituir
a lógica clássica em todos ou em determinados contextos
racionais; v.g., a lógica intuicionista e a lógica paracon­
sistente. Estas últimas, em certo sentido, sao rivais da
lógica ortodoxa. Note-se, porém, que a distincáo nao é
absoluta e que, para exemplificar, urna lógica proposta
inicialmente como rival da clássica pode, em geral, ser
encarada como sua complementar. Este o caso da lógica
é

intuicionista: ela foi edificada como rival da lógica tra­


dicional, para substituí-la na sistematizacáo do pensamen-
A LÓGICA DEDUTIV A 17

to matemático construtivo, mas é susceptível de ser apre­


sentada também como complemento da lógica ortodoxa:
quando se quer estudar o pensamento construtivo por mé­
todos construtivos, sem as hipóteses da lógica tradicional,
torna-se necessário lancar máo da lógica intuicionista (ou
de alguma de suas variantes).

Há alguns sistemas lógicos que se tornam difícil clas­


sificar entre os complementares ou entre os rivais dos
sistemas clássicos. Tal ocorre, por exemplo, com os sis­
temas lógicos de Lesniewski e com a teoria ramificada
dos tipos. Os primeiros se originam de urna análise con­
ceitual bem diversa da análise subjacente a da lógica c1ás­
sica, embora seus objetivos seja mais ou menos ortodo­
xos. Ouanto a teoria ramificada dos tipos, Russell a propós
como fundamento da matemática tradicional e como rees­
truturacáo da lógica da época, tendo a virtude de ser capaz
de superar os paradoxos que infestavam a lógica e ama""'
temática no princípio deste século. Na entanto, a teoria
ramificada, para realizar seu objetivo, deveria ser suple­
mentada pelo princípio da redutibilidade que, em deter­
minado sentido. destruía parte da intencáo motivadora
da hierarquia ramificada. Parece que esta se aplica com
mais propriedade as investigacóes de caráter construtivo
e nao se adapta bem a índole da matemática usual. Em
todo caso, a semántica da teoria ramificada dos tipos nao
foi até agora estruturada e, ao que tuda indica, terá de
se afastar bastante da semántica padráo da teoria simples
dos tipos (cálculo de predicados de ordem superior clás­
sico ).
L8 A LÓGICA DEDUTIVA

Tudo O que escrevemos evidencia que a nocáo mesma


de lógica nao é completamente precisa. Mais do que isso,
o que se entende por lógica muda no decurso da história.
A lógica é hoje o que constatamos hoje que ela é. Essas
conclusóes sao relevantes, como veremos, para nossa dis­
cussáo,
A exposicáo precedente leva-nos a aceitar as seguintes
conclus6es, que procuramos provar com mais detalhes
em nosso livro Ensaio sobre os fundamentos da lógica2:

1) As lógicas heterodoxas sao realmente lógicas. Em


outras palavras, existem lógicas distintas da clássica.
2) Há duas classes de lógicas heterodoxas: as rivais
das ortodoxas e as que lhes sao complementares. No en­
tanto, isto depende muito do modo de se encarar tais
cstruturas e nao apenas de suas naturezas.
3) A escolha da lógica subjacente a dado contexto se
faz, consciente ou inconscientemente, por meio de prin­
cípios determinados, que denominados de princípios prag­
máticos da razáo, Estes princípios mostram que a escolha
de urna lógica nao é arbitrária nem convencional, mas
se baseia ern vários parámetros, tais como os tipos de
objetos que sao considerados. Iatorcs relativos a simpli­
cidade, a cornodidade e ao poder explicativo, desenvol­
vimento das ciencias etc. Por conseguintc, a lógica nao

2 Cf. (11). Em geral, as lógicas mencionadas atrás sao debatidas


nessa obra, ou nela o leitor encontrará referencias bibliográficas onde
poderá obter os detalhes que desejar.
A LÓGICA DEDUTIVA 19

se acha determinada apriori, seja pela esséncia do espírito


humano, seja por outros motivos, como, por exemplo, a
própria configuracáo do universo.

Voltemos as inferencias legitimadas por urna lógica


L. Vimos que essas inferencias denominam-se L-válidas
ou L-deducsoes. Outros tipos de raciocínio, formalizáveis
mediante os recursos de L, sao os L-paralogismos. Assim,
as inferencias feítas pelo método de reducáo ao absurdo,
da forma

...,A - B, ...,A - ..., B,


A

sao inferencias válidas na lógica clássica, embora sejam


paralogismos na intuicionista. Na lógica intuicionista sem
ncgacáo, de Griss, nao obstante, elas nao sao codificáveis
e, portante, nao constituem nem inferencia válida nem
paralogismo.
2
A LÓGICA INDUTIV A

Muitas vezes a utilizacáo de paralogismos é da máxima


relevancia. Ou seja, fixada a lógica L, nem sempre se
pode e nem conveniente que nos restrinjamos, nos con­
é

textos ligados a L, as L-dedu<s6cs. No tocante a lógica


ortodoxa, por exemplo, isto ocorre na vida de todos os
días e na ciencia.
Na vida quotidiana, na medida em que recorremos a
alguma lógica, essa lógica parece ser a clássica. Assim,
para exemplificar, ninguém póe em dúvida o silogismo
em Bárbara e a regra da prova por casos. Mais do que
isso, depois de alguma reflexáo, os chamados princípios
fundamentais da lógica ortodoxa, as leis da indentidade,
da nao contradicáo e do terceiro excluído, sao aceitas
como válidas, em acepcáo óbvia. Porém, se urna pessoa
quisesse fazer apenas inferencias válidas cm seu dia-a-dia,
provavelmente nao sobreviveria muito tempo. Todas as
inferencias realmente importantes da vida comum cons-
22 A LÓGICA INDUTIVA

tituem paralogismos. Se alguém infere, após algumas ex­


periencias positivas, que o páo lhe faz bem ou se infere,
depois de várias constatacóes. que a bebida alcoólica Ihe
~ausa dores de cabeca, nao está raciocinando de modo
logicamente válido. O mesmo se passa quando efetua
raciocínios mais sofisticados, como os por analogia, ou
quando aposta em corridas de cavalos ou participa de
jogos semelhantes ao póquer e ao bridge.
Nas ciencias empíricas, o emprego de raciocínios que
nao sao logicamente válidos é óbvio. Fixemos idéias re­
portando-nos ao caso da física. Qualquer lei física de­
pende de inferencias que nao sao válidas: a lci da refracáo
da luz foi obtida mediante urna vasta gencralizacáo; de
casos particulares e, portanto, de um número finito de
experiencias. chega-se a formulacáo de urna lei que su­
postarnente se aplica sempre, cm qualquer lugar e cm
qualquer tempo, extrapolando-se os dados iniciais. Infe­
rencias nao válidas encontram-se ligadas a elaboracáo de
teorias, o que constitui fato absolutamente claro. Os cria­
dores das teorias físicas mais importantes. como Newton.
Maxwell e Einstein, por isso mesmo, parecern, as vezcs,
ter algo em comum com o artista - e de fato térn: com
base cm elementos (experimentos. leis, hipóteses, ...) de
ámbito mais ou menos restringido, edificam teorias cujo
escopo vai muito além do que os dados pareciam auto­
rizar, assemelhando-se mais a criadores do que a deseo­
bridores, onde o genio e a inspiracáo despontam, lem­
brando o ato criador do artista. Em síntese: Nao haveria
ciencia empírica se os cientistas procurassem empregar
unicamente formas válidas de inferencias.
A LÓGICA INDlITIVA 23

Nao há dúvida que a deducáo, o raciocínio demons­


trativo, tem grandes e importantes aplicacóes nas ciencias
empíricas. Por exemplo, quando se está interessado em
obter as conseqüéncias de urna teoria ou as implicacóes
de determinada hipótese, deve-se recorrer a deducáo. No
entanto, quando se faz realmente avancar a ciencia, quan­
do se formulam leis ou teorias, recorre-se a inferencia
mio dedutiva.
Seja L urna lógica. Os L-paralogismos classificarn-se
cm dois grupos:

1) A~ L-indu<;6es, que sao L-paralogismos de algum


modo justificáveis ou aceitáveis, gozando da propricdade
de serem corretos;
2) A" L-falácias ou L-paralogismos incorretos.

A lógica indutiva associada a L o cstudo das L-in­


é

ducóes, especialmente de suas relacócs lógico-formais.


Uma das tarefas basilares dessa lógica consiste na cla­
boracáo de um conccito aprnpriado de corrccáo, o qual
sirva para caracterizar as Lsinducócs. Muitas vezes, a
íormulacáo de critérios de corrccáo acha-se correlacio­
nada corn a possibilidadc de se conferir "pesos" as in­
ferencias, ou scja. a lógica indutiva apresenta concxócs
com a tcoria das probabilidades.
Qualquer que seja a lógica L scrnprc se pode, pelo
menos cm princípio, tentar estabelcccr urna lógica indu­
tiva associada a L.
Daqui para frente, a única lógica que consideraremos.
salvo aviso expresso cm contrário. será a lógica clássica.
24 A LÓGICA INDUTIVA

Falaremos, pois, apenas de deducáo, inducáo, paralogis­


mo. falácia e lógica indutiva, sem qualquer qualificacáo.
Observacáo terminológica: qualquer deducáo ou é vá­
lida ou nao é deducáo. No entanto, empregaremos co­
mumente expressóes como "deducáo válida" e "deducáo
inválida" eujos significados sao patentes (assim, deducáo
inválida quer dizer paralogismo, e deducáo válida, sim­
plesmente deducáo). Da mesma forma, nao existe inducáo
incorreta. Mas o emprego de expressóes semelhantes nao
causa dificuldades e cómodo; logo, nós a utilizaremos
é

(soa melhor dizermos inducáo incorreta em lugar de fa­


lácia).
Com a finalidadc de exemplificacáo e para que se faca
urna idéia da riqueza da lógica indutiva, daremos a seguir
alguns dos tipos mais utilizados de inferencias indutivas.
No momento nao trataremos da correcáo dessas inferen­
cias. o que será feito futuramente. Mas, com os exemplos
arrolados, queremos já iniciar a tarefa de mostrar que a
existencia de critérios de correcáo nao impossível nem
é

utópica.

1) Inducáo por simples enumeracáo ou inducáo simples


- Este tipo de inferencia indutiva tem a forma: Se ah
ab ...a, sao elementos da classe A e constatamos que todos
eles também pertencem a outra classe B, entáo, supon­
do-se que nao se conhece nenhum elememo de A que
nao pertenca a B, concluí-se que todo A é B. Esta maneira
de se raciocinar evidentemente nao válida; mais do que
é

isso, se nao for usada com cuidado, leva a erros crassos.


No fundo, a inducáo simples se resume no seguinte: de
A LÓGICA INDUTIVA 25

urna dada amostra, {a¡, a2, ..., an}, da populacáo A, desde


que todos os seus componentes sejam membros de B e
nao se conhecam quaisquer elementos de A que nao sejam
B, conclui-se que toda a populacáo Acornpóe-se de mem­
bros de B. Ora, para que tal inferencia seja correta, devern
ser satisfeitas certas condicóes: a amostra tem que ser
representativa e o número de seus componentes deve ser
apropriado etc., tudo dependendo da inducáo considerada.
Urna inducáo simples pode ser correta e possuir premissas
verdadeiras, embora tenha como conclusáo urna propo­
sicáo falsa.

2) A analogia - Suponharnos que os elementos xj , X2,


..., Xkotodos possuindo a propriedade P, possuam, tam­
bém, a propriedade Q; entáo, se Xk+lpossuir P, concluí­
mos que ele possui Q. Tal o raciocínio por analogía,
é

que apresenta parentesco Íntimo com a inducáo simples.


Ao primeiro, aplica-se tuda o que se disse sobre a última.
Dependendo de P (a propriedade analógica) e de condi­
cóes que variam segundo o caso particular que se estiver
tratando, a analogía constituí forma de inferencia real­
mente importante, muito usada na vida diária, na ciencia
e na tecnologia-'.

3) A inferencia estatistica - Aquí entendemos por in­


ferencia estatÍstica a estimativa de parámetros, o teste de
hipóteses e a teoria da decisáo, Esta, como a desenvolveu

3 Sobre a analogia, consultar (46).


26 A LÓGICA INDUTIVA

Wald, envolve estimacáo parámetros e o teste de hipóteses


como casos especiais. O tema é demasiado técnico e nao
entraremos em detalhes. Porém, nao se pode deixar de
observar que, na aplicacáo dos métodos da inferencia
estatística, tem sentido falar de correcáo, nao obstante as
inferencias correspondentes nao sejam logicamente váli­
das. Invalidade e correcáo, pois, nao se mostram incom­
patíveis. Por outro lado, a teoria da inferencia estatística
constitui a maior evidencia de que existe urna lógica in­
dutiva".
A estatística invadiu praticamente toda ciencia empí­
rica e a tecnologia, de modo que o raciocfnio indutivo
constitui, sem sombra de dúvida, um dos componentes
fundamentais das ciencias empíricas. tanto puras como
aplicadas.
Convém lembrar aqui urna das formas elementares de
inferencia estatística, o chamado silogismo estatístico: k%
dos A sao B; x é A; logo, x é B. As condicóes de corrccáo
do silogismo estatístico, isto é, os requisitos que devem
ser preenchidos para que seja racional utilizá-Io, nao sao
difíceis de se formular.

4) Os métodos de eliminacáo (Bacon-Mill) - Sao muito


conhecidos os chamados métodos de eliminacáo, espe-

4 O capítulo 11 do livro de Kyburg (2U) contém urna exposicáo


elementar da inferencia estatística. Também vale a pena consultar as
obras de Pap (28) e de Braithwaite (6). Exposicóes avancadas cons­
tituem (24) e (47).
A LÓGICA INDUTIVA 27

cialmente estudados por John Stuart MilI e em nosso


tempo dcscnvolvidos por von Wright. Dados eertos re­
quisitos como satisfeitos, o método da concordancia for­
neee-nos, com todo rigor, as condicóes necessárias de
urn fenómeno; de modo semelhante, o método da dife­
ronca leva-nos as condicóes suficientes, e o método com­
binado da concordancia e da diferenca, as condicóes ne­
cessárias e suficientes. Na verdade, é preciso supor que,
por excmplo, numa aplicacáo do primeiro as condicóes
efetuadas encerram todas as possíveis condicóes neces­
sárias do fenómeno investigado. Estas hipóteses comple­
mentares sao estabeleeidas, cm geral, por outros métodos
e depcndern de consideracóes de outra índole (assim, V.g.,
podem deeorrer de nutras teorias ou de leis já estabele­
cidas). Os próprios métodos dos resíduos e das variacóes
concomitantes. dentro dc certos limites, ajudam bastante
na pesquisa de condicóes das quais depende m determi­
nado fenómeno.
Seja como for, embora a inducáo por eliminacáo tenha
suas restricóes, ela é útil e cm muitos casos afigura-se
eorreta, ou seja, é racional utiliza-la>.

5) O método hipotético-dedutivo - Ouando se tcm vários


fenómenos particulares. leis ou hipóteses que se quer ex­
plicar ou unificar, cm geral formula-se urna hipótese mais
geral ou urna teoria, da qual os primeiros decorrem (dadas

5 Para se fazer uma boa idéia dos métodos de Mill, consultar (20)
e (49).
28 A LÓGICA INDUTIVA

outras hipóteses e algumas "condicóes de contorno"). A


teoria ou hipótese assim formulada, digamos T, nao re­
sulta da aplicacáo de processos bem definidos e lógicos,
mas da inspiracáo e do genio do cientista que a formulou.
O que há de importante, no entanto, que a teoria T
é

possa ser testada. no sentido de Popper, e que seja aceita


provisoriamente, até que se tcnham motivos suficientes
para a abandonarmos e a substituirmos por outra melhor
adaptada as circunstancias. O método hipotético-dedutivo
foi estudado por diversos autores, particularmente por
Popper6.
A elaboracáo de boas hipóteses e teorias nao se reduz
a regras, como já insistimos. A teoria da rclatividade, a
teoria eletromagnética de Maxwell e a teoria dos feixes
de raios de Hamilton constituem obras oriundas da in­
tuicáo e do genio. Aqui, como se tem repetido inúmeras
vezes, ocorre algo similar ao que se passa com o artista,
ao dar luz a seus trabalhos. Pareceria, entáo, que o método
hipotético-dedutivo consiste em algo irracional. No en­
tanto, nada mais falso do que tal impressáo, A raciona­
lidade do método hipotético-dedutivo advém da atitude
crítica que se lleve assumir em face de urna tcoria: po­
demos aceité-la, mas sornente enquanto a crítica e a ex­
periencia nao evidenciarem que ela irremediavelmente
é

falsa. Confiamos cm urna teoría desconfiando... nao há


postura mais racional do que cssa, pois as teórias e hi-

6 Ver Kyburg (20), capítulo 12. Ver, ainda, as obras de Popper


(29) e (32).
A LÓGICA INDUTTV A 29

póteses sao de fundamental importáncia para dorninarmos


e entendermos o mundo, e nao dispomos de meios al­
ternativos. Nao aceitarmos o método hipotético-dedutivo
seria nao apenas destruir a ciencia, como também signi­
ficaria permanecermos perplexos na maioria das situacóes
da vida diária.
Em certo sentido óbvio, as inferencias indutívas todas
reduzcm-se ao método hipotético-dedutivo. Por exemplo,
ao fazermos urna inducáo por simples enumcracáo, isto
pode ser interpretado como aplicacáo do método em aprc­
co, Daí sua extraordinária relevancia e daí o porque da
concepcáo de Popper que nele ve () procedimento por
excelencia das várias disciplinas empíricas".

6) Inferencia probabilística - Para muitos autores, como


Reichenbach e Carnap, a inferencia indutiva constitui de­
terminada classe de inferencia probabilística estrita (to­
davia. frisemos que as inferencias probabilísticas e esta­
tísticas nao se confundem).
Nos raciocínios indutivos, as prernissas nao implicam
logicamente a conclusáo. No entamo, de acorde com di­
versos especialistas, existe urna rclacáo de probabilidadc
entre a conjuncáo das prernissas e a conclusáo: se as
prirnciras Iorem vcrdadciras, há urna determinada proba­

I bilidadc de que a conclusáo tambérn o seja. E urn argu-

7 Popper defcndc. csscncialrncntc. a racionalidadc do método hi­


potético-dedutivo cm toda sua obra de ti Insoria da ciencia. Porém,
gostaríamos de nos referir aquí. cm particular. a (.12). capítulo 'I.
30 A Lé>GICA INOUTIV A

mento indutivo seria correto se tal probabilidade for alta,


isto é: próxima da unidade. ou, pelo menos, maiar do
que, ou igual a, lí2; em caso contrário, o argumento seria
incorreto.
Sob cenos aspectos, todo o problema da lógica indutiva
resumir-se-ia no de se construir sistemas convenientes
de lógica indutiva de caráter probabilístico, ou seja, ló­
gicas probabilísticas. O fundamental nao seria mostrar
como se deve raciocinar indutivamentc, mas táo-só as­
sociar aos argumentos inválidos probabilidades (numéri­
cas); deixar-se-ia o problema da inferéncia propriamente
dita de lado, pois, dada a probabilidade de um argumento,
é urna questáo pessoal e pragmática se alguém quer ou
nao recorrer a ele.
Se houvesse um sistema de lógica probabilística uni-
versal (segundo mantém Reichenbach) Oll a priori (como
defcnde Carnap), praticarnente todos os problemas levan­
tados pela inducáo estariam resolvidos ou contornados.
Porérn, esse nao o caso. Embora a lógica probabilística
é

tcnha intercsse e grande relevancia. nas forrnulacóes de


Reichenbach, Carnap e continuadores, nao se aplica cm
todas as circunstancias e nao esgota todas as formas de
inferencia nao dcmonstrativa. Voltarcmos, adiante, ao te-
ma'',

1) o sistema de Reichnbach acha-se formulado cm (34). No tocante

ao sistema de Carnap. ver (7) e (8), onde o autor relaciona outros


trabalhos seus. Urna crítica excelente e demolidora das concepcóes
de Reichcnbach e de Carnap está comida no livro de Boudot (5).
¡\ LÓGICA INDlJTIV A 31

De tudo o que acabamos de dizer, aIgumas conclusócs


se irnpócm:

1) Há, scm sombra de dúvida, numerosas espécies de


argumentos indutivos. Se designarmos o estudo de tais
argumentos lógica indutiva. como já se fez, ve-se, imc­
diatarnentc, que existe essa disciplina e que sua impor­
tánciaé enorme para a cornprccnsao da ciencia e do co­
nhecimento vulgar;
2) Os vários tipos de inferencia indutiva arrolados aci­
ma evidcnciarn que as caracterizacóes tradicionais da in­
ducáo carcccm de fundamento. Assim, nada mais errado
do que se afirmar que a inducáo, ao contrário da dcducáo.
vai do particular ao geral ou, talvez, do menos geral ao
mais geral. Seria ridículo, por cxemplo, tentar enquadrar
a inferencia estatística nesse esyucma; aliás, como é fácil
de se constatar, nem a inducáo por simples cnumeracáo
se adapta a essa definicáo. Também esdrúxula é a defi­
nicáo de inducáo como sendo urna forma de raciocfnio
cm que a conclusáo nao se acha contida nas premissas,
cm oposicáo a .deducáo, cm que isso ocorre; ora, tais
asseveracóes mostrarn-se falsas: mesmo que nao se ponha
em xeque o significado da palavra "comido". parece ri­
dículo querer-se defender as teses de que na dcducáo
a conclusáo está contida nas prcrnissas, mas que tal
nao se passa com a inducáo. De fato, na inducáo ma­
temática ou recorréncia, que constituí um raciocinio
válido, tem sentido dizer-se que a conclusáo está con­
tida nas premissas? E que no teste de hipóteses isto
nao se verifica?
32 A LÓGICA INDUTIVA

3) Na inferencia dedutiva, a verdad e das premissas


acarreta a da conclusáo, Nas inferencias indutivas, nao.
Nestas últimas. pelo menos para algumas delas, se pode
associar certo tipo de probabilidadc, que por assim dizer
mede o grau de racionalidade que lhes conferimos.
4) O problema central da lógica indutiva resume-se
na individualizacáo das inferencias indutivas corretas.
Estas seriam as inferencia racionalmente justificáveis".

9 Relativameme a inducáo ern geral, indicamos os livros (elernen­


tares) de Kyburg (20) e de Skyrms (41), bem como o de Pap (28),
parte 5.
3
O PROBLEMA DA INDU(ÁO

Como as inferencias indutivas sao invalidas ou, () que


dá no mcsmo, nao sao logicamente vcrdadciras, das ori­
ginam um problema sério. pela prirncira vez formulado
cxplicitarncntc por Hume, no tocante a inducao por sim­
ples cnumcracáo: como se j ustificarn as inferencias in­
dutivas? (Como se sabe que () Sol sairá arnanhá? Qual
a razáo para se acreditar que todos os homcns sao mor­
tais'!)
A rcsposta de Hume é a de que nao há justificacao
para a inducáo (por simples cnumcracáo): da se bascaria
apenas no hábito e seria. pois. irracional. Tal resposta se
pode cstcndcr a todo mecanismo indutivo, como o defi­
nimos acima, mesmo o probabilístico.
Desde que urna das notas básicas das ciencias da na­
tureza e do homem (ciencias reais ou empíricas) radica
no fato de das scrcm indutivas - cmprcgam sistema ti­
camente raciocinios indutivos - daí advérn o fato de a
34 o PRom .EMA DA INDl J(Ao

ciencia parecer irracional. "Os grandes escándalos na fi­


losofía da ciencia, desde o tempo de Hume, térn sido a
causalidadc e a inducáo. Acreditamos cm amhas, mas
Hume mostrou que nossa crenca é urna fé cega a quaI
nao se pode conferir base alguma racional. Acredita o
doutor Whitchead que a sua filosofía dá urna resposta a
Hume. Tarnbém Kant acreditou que fizera () mcsmo. Eu,
pessoalrnente, nao posso aceitar nenhuma das duas res­
postas. Cornudo, de acordo com todos, tenho que crer
que haja urna rcsposta. Este estado de coisas se agrava
quanto mais tratada se ve a ciencia pela filosofia. Ternos
que esperar que se achc urna rcsposta; mas ainda nao
posso acreditar que já tcnha sido encontrada". Tal é a
si tuacao do problema, como Bertrand Russcll a delineia
em scus Ensaios cépticos, p. 3510.
Di? ainda Russcll: "É imporiantc, por conscguintc,
dcscobrir se existe alguma rcsposta a Hume dentro da
estrutura de urna Iilosofia que total ou principalmente
é

empírica. Scnáo, nao há ncnhuma difcrcnca intelectual


entre a sensatez e él loucura. O lunático que eré que é

um ovo queme será condenado únicamente pelo motivo


de que está em minoría, ou melhor, posto que nao pre­
cisamos dar por asscntada a democracia, pelo motivo que
() governo nao está de acorde com ele. Este um ponto
é

de vista desesperado e ternos que esperar que haja alguma


modo de iludi-lo"."'

10 Bcrtrand Russcll. Ensaios cepticos (36).


11 Bertrand Russctl (3K). p. W~.
o PROBLEMA DA INDUGÁO 35

Nao há dúvida de que o processo indutivo é Ialível.


Urna das coisas fundamentais que buscamos na natureza
através da inducáo é a regularidade. Somente por meio
de regularidades que conseguimos, por assim dizer, tra­
é

car um sistema de coordenadas na realidade, para com­


precndé-la e podermos fazer previsóes. Mas urna pessoa
que, após constatar que o mesmo número saiu dez vezes
numa roleta nao viciada. acredita que descobriu urna re­
gularidade e aposta tudo na saída do rnesmo número urna
vez mais, seguramente acabará se desapontando. Pois
bem, nossos métodos indutivos nao seriam, cm esséncia,
análogos a atitudc da pessoa que acabamos de descrever?
Um ponto, no entamo. deve ser salientado agora. Desde
Hume, embora houvesse muitas formas de argumemacáo
indutiva distintas da por enumeracáo simples, quase todos
os filósofos e lógicos, ao se referirem a inducáo, signi­
ficavam, sempre, inducáo por simples enurneracáo ou,
em alguns casos. também inferencia por analogía, con­
forme definimos esta última. Ao se sustentar, em geral,
que a ciencia empírica é indutiva, desejava-se asseverar
que urna forma particular de inducáo a caracterizava. Isto
nao somente se afigura falso, como, sobretudo, algo sur­
preendente. Assim, por exemplo, quando alguém nega
que a ciencia real éindutiva, normalmente quer negar
que ela use, como seu método de inferencia próprio, a
inducáo por simples enumeracáo. Portanto, mesmo os
antiindutivistas geralmente encaram a inducáo de ma­
neira limitada e restrita. Vale a pena, pois, repetir o
seguinte:
36 o PROBLEMA DA INDU(,'ÁO

1) Empregamos o termo inducáo em conexáo com as


inferencias inválidas, mas corretas, ou seja, de alguma
forma justificáveis.
2) As ciencias empíricas caracterizam-se por serem
indutivas. Embora recorram a deducáo, que se constitui
na alma, por assim dizer, das disciplinas formais (lógica
e matemática), nao podem prescindir da inducáo - a
esséncia mesma de seu método.
3) O problema central de inducáo, dentro de nossa
posicáo, consiste em se encontrar alguma forma de jus­
tificacáo de todos os tipos de inducáo correta, porquan­
to todos eles se utilizam ou podem ser utilizados em
ciencia.
4) A lógica indutiva se ocupa da inducáo, especial­
mente de seus aspectos formais e das condicóes de cor­
recáo,
5) Nossa termino logia. em conseqüéncia, diverge das
de muitos estudiosos da inducáo. Em particular, difere
da de Popper, quando ele se declara antiindutivista e cri­
tica as escolas que batizou de indutivistas, como, por
cxemplo, a de Carnap. Desde que Popper defende o mé­
todo hipotético-dedutivo (das conjeturas e refutacóes, do
ensaio e erro) como o processo básico da ciencia empírica
e nós o enquadramos entre as formas de inferencia in­
dutiva, a posicáo do pensador austríaco nao se afasta
muito da que propomos neste livro. Mas há discrepancias,
que ficaráo patentes no decurso da exposicáo.

Numerosos autores tentararn resolver o problema de


inducáo de Hume. Nao obstante tais tentativas se referi-
o PROBLEMA DA INDU<;ÁO 37

rem sobretudo a inducáo simples, todas elas se evidenciaram


adaptáveis a inducáo em geral. Eis as mais significativas:

1) Nao há problema da inducáo: ele seria táo-somente


um pseudoproblema, decorréncia de urna interpretacáo
errónea das nocóes de inducáo, de problema e de justi­
ficacáo. Strawson e Toulmin pertencem ao grupo dos
partidários desta conccpcáol-.
2) Busca de princípios de inducáo (Mill, Keynes, Rus­
sell e Wisdom, ...). Poder-se-ia justificar a inducáo ape­
lando-se para certos princípios, como, por exemplo, a lei
da uniformidade da natureza, a leí da causalidade ou dos
postulados de Russell+',
3) Solucóes fundadas no cálculo de probabilidade (Car­
nap'", Reichenbach->, ...). Mediante a nocáo de pro­
babilidade, procura-se justificar ou tornar racional as in­
ferencias nao demonstrativas. A lógica indutiva se iden­
tificaría a urna lógica probabilística. pura e siplesmente!",
e isso resolveria todos os problemas.
4) Justificacáo indutiva da índucáo (Black17, Braithwai­
te18, ..• ). De algum modo a inducáo se autojustificaria.

12 Cf. Strawson (43) e Kyburg (20). capítulo 8: Toulmin (45).


u MilI (26), Keynes (] 7). Russcll (28) e Wisdom (48). Ver. ainda,
Kyburg (20).
14 Carnap (7) e (x).
15 Reichenbach (34).
16 Sobre a inducáo e a lógica probabilrstica. indicamos (5).
17 M. Black (2).
18 Braithwaite (6).
38 o PROBLEMA DA INDU~ÁO

5) As solucóes pragmáticas (Reichenbach!", Salmon,


...), Procura-se mostrar que se há realmente leis e regu­
laridades, as quais podem ser descobertas por algum mé­
todo, entáo a elas também se chega pela inducáo.
6) As teorias do sentido (Edwards) e da evidencia (Ky­
burgj-".
Todas as tentativas de solucáo do problema de se jus­
tificar a inferencia indutiva falharam-". Daí, afigurar-sc
natural indagar: É o problema da inducáo um problema
genuíno? E, em caso afirmativo, tem ele solucáo?
°
Por tudo que se escreveu e discutiu até agora sohre
o problema de inducáo, parece claro que a questáo cm
apreco constituí problema genuíno e bem equacionado.
Também acreditamos que o problema pode ser solu­
cionado positivamente, como procuraremos provar no que
se scgue.

19 A tentativa de Reichenbach (35) e de Salmon (39) de defenderem


él inducáo pragmaticamente se bascia na concepcáo probabilística do
prirneiro. mas pode ser utilizada por autores que assumem outras
posicóes.
20 Ver os artigos de P. Edwards e de Kyburg (21), constantes da
antología de Swinburne (44). Pap cm (2H), capítulo 13, propugna por
urna solucáo do problema da inferencia indutiva de caráter analítico.
21 Praticarnente todas as tentativas de solucáo do problema da
inferencia indutiva aparecern criticadas cm algurn dos trabalhos já
citados. em particular cm Kyburg (20). No livro de Barker (1) o autor
procura justificar o método hipotético-dcdutivo com apoio no conceito
de simplicidade e faz reparos as out ras escolas.
4
O PROBLEMA DA DEDUC;AO

Para nós há um problema da deducáo, Qual a justificacáo


para o emprego de determinado tipo de lógica? Posto
que existcm vários sistemas lógicos, a questáo Hao va­ é

zia; ao contrário, constitui problema genuíno e merece


consideracáo.
A situacáo atual da lógica, especialmente após o apa­
recimento das lógicas heterodoxas, nao compa tível com
é

o absolutismo lógico. Designamos por absolutismo lógico


a doutrina segundo a qua] há urna única lógica, que se pode
formalizar de diversas maneiras distintas, mas todas se evi­
denciam equivalentes entre si, codificando as leis lógicas,
únicas e imutáveis, que govemam a realidade.
Os aderentes do absolutismo em geral o defendem a
partir de duas posicóes básicas:

1) O psicologismo absoluto deriva as leis lógicas da


estrutura do pensamento válido e, por isso, eré na uni-
40 o PROBLEMA DA DEDU<;ÁÜ

cidade da lógica, pois só pode haver urna forma única


de pensamento válido. Kant, por exemplo, se enquadra
entre us adeptos dessa corrente;
2) O realismo absoluto que ve a lógica como conse­
qüéncia da estrutura mais geral da realidade e que, por­
tanto, deve estar univocamente determinada. Frege e os
platonistas em lógica e em matemática pertencem a esta
corrente, como, v.g., G6del22.
Ora, todo desenvolvimento da lógica corrobora a fa­
lencia do absolutismo. Da mesma forma que as geome­
trias nao-euclidianas destruíram a hegemonia da eucli­
diana como a única geometria verdadeira, as lógicas he­
terodoxas fizeram algo análogo a lógica. Hoje se sabe
que existem várias lógicas possíveis e que compete a
quem as aplica resolver qual a mais conveniente e apro­
priada em cada caso particular.
A escolha de urna lógica se faz mediante critérios prag­
máticos. Isto, no entanto, nao significa. que seja arbitrária
ou puramente convencional. Por exemplo, se quisermos
estudar construtivamente a matemática construtiva, impóe­
se que se utilize urna lógica intuicionista. Isto nao encerra
nada de arbitrário ou convencional, decorrendo da natureza
do campo que se trata de investigar e da posicáo assumida.
De maneira semelhante, se desejarmos sistematizar teorias
inconsistentes ou possivelmente inconsistentes sem o perigo
de elas serem ipso jacto triviais, torna-se imprescindível
lancarmos máo de urna lógica paraconsistente.

22 No tocante a tais questóes, consultar (11).


o PROBLEMA DA DEDU(;ÁO 41

Em síntese, escolhc-se urna lógica, cm dado contexto,


mais ou menos como se elege urna hipótese em física.
Há diferencas de detalhe, mas, no fundo, a situacáo é
idéntica-".
Assim, praticamente toda a problemática gera] da in­
ducáo translada-sc para o terreno da deducáo. Este umé

grande problema e se acha intima mente relacionado com


o da inducáo,
Normalmente, pelas suas próprias definicóes, as de­
ducóes e as inducóes se efetuam respeitando urna dada
lógica, em geral a clássica. Ou, pelo menos, as recons­
trucócs formais dessas inferencias sao feítas módulo urna
lógica. Em síntese: tanto as opcracóes dedutivas como
as indutivas pressupóem semprc urna lógica prefixada.
Suponhamos, porém, que se elabora um novo sistema
lógico. irredutível as categorías lógicas anteriores (o que
pode ser o resultado de apenas a modificacáo ou substi­
tuicáo parcial de algumas das categorías precedentes a
estruturacáo do novo sistema lógico). Isto ludo advém,
evidentemente, de determinado tipo de inferencia. Mas.
indaguemos: trata-se de urna inferencia dedutiva ou de
urna opcracao indutiva?
Parece óbvio que comumente nao há mcios de se in­
cluir essas formas de inferencia entre as dcducócs ou
entre as inducócs. Pois qual seria a lógica subjaccntc a
tais inferencias? A nova nao poderia ser. dado que nao
existia antes de ser edificada. A vclha tarnbérn nao, por-

23 cr. (11), passim.


42 o PROBLEMA DA DEDU(,'ÁO

quanto as novas categorias se supóem irredutívcis as an­


tigas. Logo, a constituicáo de novas lógicas em geral nao
se reduz a deducóes ou inducóes como as definimos. o
que acarreta a existencia de inferencias nao dedutivas e
nem indutivas em sentido estrito. Batizaremos tais infe­
rencias de quase-inducóes. EIas nao se deixarn formalizar,
com propriedadc, cm linguagens simbólicas com lógicas
subjaccntes perfeitamcnte explícitas e definidas, o que
requer um sistema de categorías já montado. Como a
linguagem comum é um tanto "Huida" e nao aspira ao
rigor, muitas vezcs cIa nos permite "dcscrcver' as qua­
se-inducóes, No entamo, pelo menos cm princípio, scm
a quase-inducáo nao há lógica e nem as categorias lin­
güísticas fundarnentais, se almejarmos precisáo,
Quando se efetuam as grandes revolucóes em lógica,
é a quasc-inducáo que está presente cm primeiro plano.
Ela por assim dizer se identifica a inspiracáo, lernbrando
a inspiracáo do poeta ou a intuicáo bergsoniana.
Surge, assim, a qucstáo: Oual a justificacáo da qua­
se-inducáo? Em certo sentido, resolvé-la significa tam­
bérn resolver os problemas da deducáo e da inducáo.
As qucstóes das justificacóes da quase-inducáo e da
inducáo constituem qucstócs legítimas e possuem solu­
cóes. Na rcalidadc tais solucócs só podcm ser solucócs
transcendcntais cm sentido kantiano: basta evidenciar que
a quasc-inducáo e a inducáo participarn da própria es­
séncia da razáo, esta nao subsistindo sem aquelas. Sem
inducao e quase-inducáo nao há razao. Neste fato con­
densa-se a justificacao transcendental das duas operacóes
cm aprcco.
o PROBLEMA DA DEDu<;ÁO 43

Observemos, por outro lado, que tentar justificar ra­


cionalmente a inducáo ou a quase-inducáo, recorren­
do-se a dcducáo, a inducáo ou a quase-inducáo, seria
querer-se justificar racionalmente a razáo, o que parece
insensato.
A justificacáo transcendental pode ser suplementada
por urna justificacáo cléntica. do tipo da que Aristóteles
procurou dar ao princípio da náo-contradicáo no livro r
da Metafísica. Nao constituem provas propriamente ditas,
mas evidenciam o absurdo da situacáo que se origina
quando nao aceitamos a inducáo e a quasc-inducáo: nao
há ciencia. nao há vida cotidiana sensata etc.24
Uma justificacáo da quase-inducáo é, ao mesmo lempo,
justificacáo da inducáo. No entanto, neste último caso.
as coisas podem ser mais detalhadas e desenvolvidas;
em particular, nada impede que se construam certas ló­
gicas indutivas. E a prova disso constitui, por exemplo,
a teoria da inferencia estatística. Além disso, como se
verá, existem lógicas indutivas que se fundamenta m em
certo conceito específico de probabilidade, as quais pos­
suem caráter geral e fornecem esclarecimcntos profundos
a respeito da inferencia indutiva.
Assentado tudo isso, pode-se encarar a lógica indutiva
sob um novo prisma e ela passa a gozar de um estatuto
análogo ao da lógica dedutiva. Ero especial, nao se deve
exigir da lógica indutiva a justificacáo da inducáo ou da
quase-inducáo, de roodo completo e auto-suficiente. Acei-

24 (11), capítulo 11.


44 o PROBLEMA DA DEDlJ<;ÁO

la a inducáo como operacáo legítima, a lógica indutiva


converte-se em disciplina similar, v.g., a lógica modal-''.
É patente que a quasc-inducáo constitui opera<saomuito
mais básica do que a inducáo. Porém, nao há lógica da
quase-inducáo.

25 Em (5) se insiste na contraparte epistimológica da problemática


da inducáo,
5
A NATUREZA DA RAZÁO

A razáo, como se costuma dizer, a faculdade de con­


é

ceituar, julgar e raciocinar. Por conseguinte, o conheci­


mento racional constituí conhceimento conceitual: pro­
curamos compreender a realidade, o mundo, através de
conecitos, tracando como que um sistema de coordenadas
para nos situarmos mclhor. Entendemos o mundo nele
lancando urna rede conceitual, talvez em parte sugerida
pela sua própria textura.
Isso pode ser constatado eom muita clareza se anali­
sarmos críticamente o conhecimento científico. Na sua
base topamos eom conceitos muito gerais, que serve m
I de apoio para toda a ciencia. E as várias ciencias semprc
¡,. -
se caracterizam pela introducáo apropriada de novas con­
eeitos. Os primeiros denominam -se categorías lógicas da
I ciencia empírica. Os segundos, específicos das diversas
disciplinas particulares, sao as categorías próprias dessas
disciplinas. Assim, na física, as nocóes de objeto, de espa-
46 A NATUREZA DA RAZÁO

~o, de tempo e de energia incIuem-se entre suas categorías


fundamentais. Nao há, propriamente, física, sem tais ca­
tegorias, Por nutro lado. cada ramo da física se indivi­
dualiza por meio de conceitos mais específicos, como.
por exemplo, a eletrologia cujas categorias centrais, entre
outras, sao as seguintes: carga elétrica, potencial, campo
eletromagnético etc.
A lógica, como já se insistiu, nao passa, em grande
parte, do estudo das leis e regras que servem de base
para as inferencias. relacionadas com um sistema geral
de categorías. Na matemática, por seu turno. desenvol­
vemos a invcstigacáo abstrata de tais sistemas conceituais.
Daí a relevancia das ciencias formais - lógica e mate­
mática - para as ciencias empíricas ou reais.
Ora. como a razao tenta explicar a realidade e siste­
matizar nossas experiencias por meio de sistemas con­
ceituais, percebe-se imediatamente que sua esséncia ra­
dica nela se valer das operacóes de quase-inducáo, de
inducáo e de deducáo. Justificar, entáo, qualquer urna
delas consiste em se justificar parte da razáo, Em certo
sentido, justificar a quasc-inducáo implica justificar-se a
deducáo. Conseqücntcmcnte, justificar a quase-inducáo
e a inducáo significa legitimar a própria razáo. Existe,
pois, urna justificacáo transcendental dessas operacóes:
sem clas destrói-se a razáo.
Voltemos a um tópico já ventilado na secáo precedente.
A justificacáo transcendental das operacóes de quase-in­
ducáo e de inducáo, que consiste em se mostrar que sem
das nao há atividade racional completa, pode ser suple­
mentada pelo que chamamos de justificacáo eléntica ou
A NATUREZA DA RAZÁO 47

pragmática. Esta, como já vimos, enquadra-sc no tipo de


justificacáo que alguns autores acreditam ser a maneira
pela qual Aristóteles tentou defender o princípio da nao­
contradicáo. O Estagirita. em síntese, observou que sem
o princípio cm apreco nao haveria possibilidade de pen­
samcnto propriamente dito e. além disso, que a comuni­
cacao se tornava impossível. Estas circunstancias, acres­
centava Aristóteles, tinham conseqüéncias absurdas para
a vida diária e mutilavam a ciencia. (A argumentacáo
aristotélica, cmbora correta no tocante a certas áreas do
conhecimcnto e a determinados aspectos da vida quoti­
diana, nao possui valor universal, pois, hoje, sabe-se que
se podem construir teorias paraconsistentes, as quais der­
rogam, em parte, a lei da contradicáo. No entanto, isso
nao apresenta muito interesse para nós no momento, ape­
nas sublinhamos que o raciocínio eléntico tem suas li­
mitacóes.)
Toda a explanacáo aristotélica mostra-se susceptível
de transposicáo para os casos das operacóes de quase­
inducáo e de inducáo. Sem elas nao existiria ciencia em­
pírica, nem nos poderíamos orientar na vida diária. Ergo,
sem essas operacóes nao haveria razáo, nem ciencia e
nem sensatez na vida comum.
Os argumentos formulados para defender as operacóes
racionais talvez apare<;am algo fracos aos olhos de muita
gente. Em parte, indubitavelmente isto se deve ao fato
de que se desejaria que a inducáo e a quase-inducáo pos­
suíssem justificacóes mais convenientes, análogas as que
se acredita tenha a deducáo. Quando nao se faz urna
idéia nítida dos fundamentos da deducáo, crendo-se que
48 A NATUREZA DA RAZÁO

da tem justificativa quase absoluta, em particular porque


se assume urna posicáo absolutista no tocante a lógica,
os argumentos elénticos e transcendentais a favor da in­
ferencia nao demonstrativa nao parecem conclusivos. Po­
rém, quando se percebe a situacáo atual das alicerces da
lógica, causada, cm especial, pelo nascimento das lógicas
heterodoxas, como foi descrito na secáo inicial deste tra­
balho, facilmente se verifica serem os preconceitos usuais
contra os argumentos em tela total e inteiramente infun­
dados e deslocados.
É patente, como já se observou, que todos os argu­
mentos indutivos reduzem-se ao método hipotético-de­
dutivo. Por exemplo, quando fazemos urna inducáo por
simples enumeracáo, passando-se das prernissas a J, a2,
..., a, possuem A e al> a2, ..., an também possuem B,
a conclusáo de que todo A B, pode-se propor a con­
é

clusáo "Todo A B" apenas como hipótese e considerar


é

as premissas como fatores de corroboracáo desta últi­


ma. Assim, o método hipotético-dedutivo constitui a
forma basilar de inferencia indutiva. Esta observacáo
tem importancia, pois contribui ainda mais para evi­
denciar o caráter de racionalidade das operacóes indu­
tivas.
Como insiste Popper, a construcáo de teorias e de hi­
póteses, ou seja, o emprego do método hipotético-dedu­
tivo, buscando-se após testá-Ias, aceitando-as sempre pro­
visoriamente, portanto nao como dogmas, constitui traco
mareante da atividade científica. Seria difícil imaginar-se
algo mais racional do que o uso crítico do método em
apreco. Toda a obra popperiana, referente a filosofia da
A NA TIJREZA DA RAZÁO 49

ciencia. confirma a racionalidade da inducáo e, indireta­


mente, da quase-inducáo-".
De tudo o que se escreveu, decorrc que a razáo se
assenta na quasc-inducáo, na inducáo e na deducáo, mas
que dela nao se pode excluir o exercício da atividade
crítica. A razáo simultancamentc urna faculdade e urna
é

postura crítica. Toda a história da ciencia nos patenteia


isso. Daí, mutilarmos a razáo caso queiramos eliminar
qualquer de seus aspectos quase-indutivo, indutivo, de­
dutivo e crítico. Repetindo: é racional utilizarmos as ope­
racóes quase-indutivas e as indutivas, pois das se enqua­
drarn entre os elementos constitutivos da racionalidade-".
Todavía, a razáo histórica. Ela vai se constituindo
é

no decurso da história, como procuramos deixar claro


cm nosso Ensaio sobre os fundamentos da lógica.
Se chamarmos de racionalismo a posicáo que defendc
ser a razáo o fundamento último de nosso conhecimcnto.,:
ou melhor, do vcrdadeiro conhccirncnto. podemos asse­
verar que mantcrnos um racionalismo historicista-". Di-

26 Popper. obras referidas, Pelo llLle já foi exposto, concluí-se que


as discrepancias existentes entre a rnancira de Popper tratar a inducáo
e a nossa. resumcm-sc, cm grande parte, cm divergencias terminoló­
gicas. Mas acreditamos que nossa posicáo se adapta rnclhor ü dirctriz
da inferencia indutiva, como se proccssa cm ciencia e na vida quo­
tidiana: alérn disso, torna scu cnquadramento probabilfstico razoávcl.
27 Popper sempre insistiu na crítica. encarada como urn dos pilares
da racionalidade. Convérn notar que o racionalismo poppcriano lembra
deveras o de F. Enriques: ver (12) e (1 J).
2S Como é claro, nossa tcrminologia aquí difcrc radicalmente da
de Popper (30) e (31).
50 A NATUREZA DA RAZÁO

zemos que se trata de racionalismo historicista, por sus­


tentarmos nao ser possível codificar a razáo de urna vez
para sempre, de nao dispormos de meios positivos para
prcdizer sua evolucáo no transcurso da história. A razáo
nao é, mas se faz no evolver da história. Sermos racionais
equivale a sermos racionais cm um momento histórico
dado. O racionalismo implica. entre outras coisas, o sen­
timento de que a razáo constituí o mclhor guia na vida
e no mundo. Conclui-se, surpreendentemente, que nao
há justificacáo racional estrita do racionalismo, porquanto
nao se pode justificar racionalmente a razáo-", Aqui, co­
mo no caso das operacóes nao dernonstrativas, tem-se
chance de apelar para argumentos elénticos, embora nao
para os transcendentais, como parece óbvio.
No entanto, há como que certa componente histórica
na aceitacáo do racionalismo: a história evidencia os triun­
fos da razáo e a derrota de outras posturas que nela nao
se ancoram. Entre limites, a história legitima pragmati­
camente a razáo e o racionalismo.
Mas meridiana mente claro que a vida nao se reduz
é

só a razáo. O vcrdadeiro racionalismo reconhecc esse


fato.
Por outro lado, a consciencia de seu caráter histórico
é a maior conquista do racionalismo de nosso tempo,
o qual difcrc profundamente do racionalismo tradicio­
napo.

29 Cf. (30), capítulo 24.


30 Enriques (12).
A NATUREZA DA RAZÁO 51

Corno a experiencia afigura -se fundamental para o no­


vo racionalismo, como se deduz das afirrnacóes anterio­
res, ele pode-se denominar. como sugeriu Enriques, de
racionalismo experimental. Nele existe verdadeira har­
monía entre razáo e experiencia. E também há harmonia
entre o a priori e o a posteriori, entre o relativo e o
absoluto.
O racionalismo de que falamos, que se identifica com
o da ciencia hodierna, é o positivo, exato ou científico.
O racionalismo especulativo coincide com o racionalismo
clássico e desconhece a historicidade da razáo, olvidando
que esta jamais nos conduz ao absoluto.
Volvamos, agora, a alguns pontos já analisados, mas
os discutamos sob outro ángulo.
Buscamos leis que governam o mundo e nos interes­
samos pelas regularidades. Tal é o objetivo das ciencias
empíricas. Mas como descobrir tais leis e regularidades
sem abstrairmos, compararmos e extrapolarmos? Isto só
se faz por meio de conceitos e tendo a quase-inducáo
como base propulsora subjacente. Mais ainda, só se con­
segué encontrar a constancia na variedade, como queria
Comte, ,recorrendo-se a inducáo, Aliás, nossa acepcáo do
termo inducáo envolve, como já se sublinhou, o método
hipotético-dedutivo, no qual Popper ve a esséncia mesma
das disciplinas científicas empíricas. Distanciamo-nos do
filósofo austríaco principalmente por darmos énfase as
várias formas de inducáo e por nao conferirmos ~ lógica
(e a matemática) status previlegiado. Nao existe apenas
urna única lógica, segundo pensa Popper, mas várias: e
a escolha de urna delas para sistematizar os contextos
)2 t\ NA rlJR! 1.:\ DA RAZAO

racionais de determinado tipo se cfctua mais ou menos


como xc cscolhc urna teoria científica qualquer. Há di­
fcrcncas nos proccssos de elcicáo de urna lógica e de
lima teoria científica, pelo fato de a primeira ser muito
geral e porque, normalmente, do prisma pragmático. é

rnais cómodo mantcr a lógica do que muda-la, ao con­


trário do que se passa com as teorias científicas usuais,
especialmente as de escopo restrito.
A experiencia, como salientou Popper muito bern, é
scmpre algo teorizada. Na realidade, razáo e experiencia
se completam e se interferem profundamente. Nao há
razáo sem experiencia e nao há experiencia sem razáo.
Das pondcracóes feitas, conclui-se que urna solucáo
do problema da inducáo (e de quase-inducáo) só pode
ser urna teoria da razáo, complementada pelos argumentos
clénticos e transccndentais. Nao existe solucáo simples,
puramente técnica, de índole das solucóes de problemas
algébricos. Isso nos parece patente e surpreendente que
é

muitos dos que se dedicaram ao tema nao o tenham per­


cebido. Em particular, nao existe nenhum sistema de ló­
gica indutiva, probabilístico ou nao, que por si só resol va
o referido problema. Somente éexeqüível a construcáo
de sistemas de lógica indutiva após se ter garantido e
justificado o operar indutivo da razáo.
Dcvcmos esclarecer bcm um aspecto de toda a questáo:
as justificativas transcendental e eléntica da inducáo (e
da quasc-inducáo) nao acarretam que terminaremos al­
caneando as leis básicas do universo, nem que existam
cssas lcis, O que se mostrou, ao contrário, resume-se no
seguinte: a razáo, pela sua própria natureza, tem dimen-
A NATUREZA DA RAZÁO 53

sóes indutiva e quase-indutiva, Nao sabemos como pro­


ceder racionalmente sem as operacóes indutivas e qua­
se-indutivas e, atualmente, se mio as aceitarmos destrui­
remos a razáo. Logo elas sao racionais. Mas esse fato
nao implica, de nenhum modo, que as operacóes nao
demonstrativas da razáo tenham sucesso no final. Pode
muito bem ocorrer que jamais consigamos formular as
leis do universo, mesmo porque elas podem nao existir..
Porém, nao há dúvida de que sem inducáo e quase-in­
ducáo seguramente nao as atingiríamos caso existam. A
própria suposicáo de que há leis ou regularidades regu­
lando o universojá é o fruto de inferencias nao dedutivas.
Outro fato relevante: o cientista procura verdades; to­
davia, mesmo estando a inducáo e a quase-inducáo ra­
cionalmente justificadas, da única maneira que nos é ca­
bível. nao decorre disso que a ciencia acabe por estabe­
lecer verdades inquestionáveis. Os resultados científicos
sao sempre aproximados e suscetíveis de aprimoramento
e de reformulacáo. O máximo que se pode exigir da cien­
cia é que ela nao se afaste do horizonte da verdade, me­
diante sua postura racional. A verdade, em ciencia, afi­
gura-se sempre parcial e provisória.
Embora as justificacóes transcendental e eléntica da
inferencia nao dedutiva tenham limitacóes, nao se acha
aberto qualquer outro caminho para se obter essa justi­
ficacáo. Toda discussáo anterior deixa entrever isso, o
que se rebustece quando se nota que as mais variadas e
numerosas tentativas de justificacáo falharam.
O prolongamento natural da razáo constitui a ciencia,
tanto formal quanto empírica. A ciencia como que reflete
54 A NATUREZA DA RAZÁO

a razáo, em cada fase do desenvolvimentn científico. Nao


obstante, a razáo nao se prolonga apenas na ciencia; pres­
cindindo-se cm parte da atitude crítica e do anseio de
testabilidade, ela tarnbérn origina a filosofia especulativa
e outras disciplinas. Todavia, sua manifestacáo mais ca­
racterísticaé a ciencia.
6
LÓGICAS INDUTIV AS
E PROBABILIDADE

Admitida a legitimidade da inducáo, torna-se exeqüível


um tratamento positivo das lógicas indutivas. A finalidade
destas nao será, como querem muitos autores, a de fundar
de modo definitivo a inferencia indutiva, porém a de sis­
tematizar e de elucidar os variados tipos de inducáo im­
portantes para determinados contextos racionais. O ob­
jetivo da lógica indutiva deixa de ser o de estabelecer a
inducáo, justificando-a, passando a se converter cm as­
sunto bem mais terra-a-terra. Como a lógica dedutiva
nao precisa legitimar a dcducáo para entáo estudá-Ia, o
mesmo acorrerá com a lógica indutiva e a operacáo de
inducáo. O leitor facilmente derivará fortes argumentos
a favor dcssa tese de toda a explanacáo precedente.
Como há várias lógicas dedutivas, há diversas lógicas
indutivas, Aquí, segundo já notamos, existe grande ana­
logia com o que acontece com a lógica modal.
As diferencas, no tocante as aplicacóes, entre lógica
56 LÓGICAS [NDUTIVAS E PROBABILIDADE

dedutiva e a indutiva, nao sao nem radicais e nem es­


senciais. As discrepancias apenas residem no fato de que
a deducáo mostra-se mais simples e menos difícil de co­
dificar e de aplicar do que a inducáo.
Já afirmamos que determinadas inferencias indutivas
estáo relacionadas com o conceito de probabilidade. A
tese que defenderemos nesta secáo é a de que, se o termo
"probabilidade" Ior usado em certo sentido amplo, entáo
toda a lógica indutiva enquadra-se numa lógica proba­
bilística.

6.1. PROBABILIDADE PRAGMÁTICA

Como se sabe, há vanas teorias a respeito da pro­


babilidade--. O cálculo de probabilidades é um sé, mas
existem diversas teorias que procuram dar urna interpretacáo
para o conceito de probabilidade, de modo que os axiomas
do cálculo sejam satisfeitos. Do ponto vista puramente ma­
temático. o cálculo de probabilidades nao oferece nenhum
problema de fundamentacáo: foram obtidas axiomáticas
convenientes, como, por exemplo, a de Kolmogorov= e o
desenvoIvimento formal do cáculo se faz normalmente, a
partir da axiomática adotada. Porém, no tocante as apli­
cacóes, surgem dificuldades de natureza epistemológica.

31 Ver, por exemplo, Kyburg (20).


32 Kolmogorov (18).
LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDADE 57

É preciso que se dé urna interpretacáo intuitivamente


plausível para o conceito de probabilidade (naturalmente,
a interpretacáo tem que tornar os axiomas verdadeiros).
Para nós, as teorías da probabílídade, isto é, as interpre­
tacóes propostas, que térn maíor importancia sao tres: a
teoria subjetivista (Ramsey, de Finetti, Savagc+', ...), a
teoria da relacáo lógica (Keynes, Carnap, ...) e a teoría
freqüencial (von Mises, Reichenbach, a maioria dos
estatísticos'", ...). Nao é possível entrarmos em detalhes
sobre essas teorías; porém, diremos algumas palavras a
respeito delas, pois isto essencial para nosso desidera­
é

tumo
Na teoria subjetiva, as probabilidades se medem pelos
pesos das apostas que urna pessoa está disposta a efetuar.
. Eles por assim dizer evidenciam o grau de crenca que
se confere a urna determinada proposicáo. Nao se trata
de graus de crcnca quaisquer: ao contrário, sao graus de
cren~a racional, que em princípio urna pessoa está dis­
posta a conferir a determinadas proposicóes e nao os graus
de crenca reais, que alguém, em certa ocasiáo, confere .
as suas crencas referentes a urna questáo dada. Aliás,
para que as crencas de urna pessoa sejam racionais, é

imprescindível que as probabilidades correspondentes sa­


tisfacarn os axiomas do cálculo de probabilidades, como
Ramsey e de Finctti provararn. A teoría subjetivista tem

33 Rarnsey (3), de Finetti (15) e Savage (40). Urna excelente an­


tologia sobre a teoria subjetiva a de Kyburg e Srnokler (22).
é

34 R. von Mises (27), Reichenbach (34) e Feller (14).


58 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDADE

relevancia, mas está sujeita a reparos sérios e. por isso,


nao pode servir de base para urna verdadeira lógica in­
dutiva probabilística.
Por outro lado, a teoria da relacáo lógica, bem apa­
rentada com a subjetivista, entre outras razóes por serem
ambas em certo sentido independentes da experiencia,
nasceu para dar conta do mecanismo indutivo. Hoje, sao
clássicos ou trabalhos de autores como Keynes=' e Car­
nap36 a respeito da probabilidade como expressando de­
terminada relacáo entre proposicóes. Mas, nao obstante
os seus esforcos, os adeptos da teoria da relacáo lógica
nao a puderam estabclecer e justificar como queriam.
Nao existe urna relacáo probabilística. única e universal,
entre proposicóes (mesmo de urna linguagem bem deli­
mitada), que seja suscctível de servir de alicerce para
urna lógica indutiva de índole probabilística. Tendo-se
cm mente ludo o que se afirmou sobre a natureza da
lógica e sobre a inducáo, tal circunstancia nao nos pode
surpreender,
A teoria freqüencial, bem como outras teorias objeti­
vistas, como a propensional de Popper-", por seu turno.
nao versam sobre proposicóes ou relacóes entre pro po­
sicóes, mas se referern a tipos precisos de eventos. Nao
se aplicam, e nem querem se aplicar. ao tema da inducáo,

35 Keynes (17).
36 Carnap (7) e (8).
37 Popper (29), onde feita referencia aos trabalhos do autor sobre
é

este tópico.
LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABILIDADJ 59

Na realidade, chega-se imediatamente a conclusáo de


que nao existe urna teoria (interpretacáo) da probabilidade
que possa servir de base a lógica indutiva.
Por isso que vamos esbocar aqui urna nova teoria,
é

que batizaremos de teoria pragmática da probabilidade.


A teoria pragmática constitui. sob certos aspectos, urna
combinacáo das teorías subjetivistas e da relacáo lógica.
Falando sem rigor, para a teoria pragmática a pro­
babilidade de urna proposicáo ou de um raciocínio (im­
plicacáo) mede o grau de assentimento pragmático que
se é levado a dar a essa proposicáo ou raciocínio. Essa
probabilidade algo subjetiva, pois engloba muitos fa­
é

tores, tais como os seguintes: simplicidade, poder expli­


cativo, relacóes com o conhecimento como um todo, con­
veniencia, plausibilidade intuitiva etc. Apresenta, no en­
tanto, urna dimensáo objetiva. pois cm geral pode ser
imaginada como provindo de funcóes de credenciacáo
(credence functionsy" definidas cm linguagens bem de­
terminadas OH, pelo menos, em amplas partes de tais lin­
guagens. Essas funcóes se aceitam e testa m como se acei­
tam e testam as hipóteses científicas usuais. A proba­
bilidade resultante, portanto, nao arbitraria e puramente
é

subjetiva, dado que decorre de fatores objetivos e de re­


gras sensatas: encontra-se amarrada, por exemplo, a pro­
babilidade freqüencial-? mais OH menos como o que pen-

38 Mais ou menos no sentido de Carnap, por exernplo, em (7).


39 Ou se acha correlacionada com alguma forma de probabilidade
objetiva, que englobe a freqüencial. Aparentemente. a probabilidade
estatística constitui espécie de probabilidade semántica, de acordo
60 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDAD[

saya Carnap da probabilidade lógica (isto é, interpretada


como relacáo lógica). Para a teoria pragmática, a pro­
babilidade que nos interessa merece o nome de proba­
bilidade indutiva: a ela se chega de maneira análoga a
que se elaboram as leis e hipóteses científicas. Tadavia,
convém insistir que ao defendermos a probabilidade prag­
mática ou indutiva, como se conceituou acima, nao de­
sejamos. negar a existencia e a importancia de outros con­
ceitos de probabilidade, particularmente dos conceitos ob­
jetivos de probabilidade.
A probabilidade pragmática de urna proposicáo ex­
pressa o grau cm que cla merece ser aceita como hipótese,
para ser testada e considerada criticamente. Forcando um
pouco a situacáo diremos que a probabilidade pragmática
advém da probabilizacáo do método hipotético-dedutivo,
ao qual se reduzem todas as formas de inferencia indutiva.
Quando se exprime urna inferencia indutiva na forma "se
p, lugo provavelmcnte q", este enunciado torna-se enun­
ciado quase analiticamente verdadeiro, caso seja carreta.
Grande parte da lógica indutiva resume-se no desen­
volvimento de sistemas de probabilidade pragmática. E
desde já adiantaremos que há tres conceitos de proba­
bilidade pragmática: o nao-métrico ou topológico, o com­
parativo e o métrico ou probabilístico propriamente dito.

com a definicáo de Chuaqui (9) e (10). Se esta última realmente se


impuser nas investigacócs estatísticas, em particular nas suas aplica­
a
cóes física, poderíamos veicular a probabilidade pragmática mm a
semántica, a título de condicáo de adequacáo da prirneira.
LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABILIDADE 61

Em síntesc:

L) A obra de Carnap e continuadores provou, embora


contrariamente a seus objetivos, que nao possível urna
é

probabilidade lógica univocamente definida e de caráter


universal. Por outro lado, as obras dos subjetivistas evi­
denciaram, tarnbém contra suas intencóes, que o conceito
puramente subjetivo tem desvantagcns que tornam a teo­
ria subjetivista de difícil aplicacáo no estudo da inducáo,
sem urna componente objetiva, pragmática. A teoria prag­
mática originou-se de tudos esscs fatores: consiste cm se
"subjctivar" a concepcáo lógica e em se "logicizar' a
teoría subjetiva. Pode-se dizer que a probabilidade prag­
mática é um guia na vida; no en tanto, devc-sc acrescentar
que a vida também nos guia na escolha da probabilidade.
2) A probabilidade pragmática nao está ligada direta­
mente a verdade, mas exprime o grau de confianca uu
de asscntimcnto numa proposicáo, encarada corno can­
didata para ser aceita provisoriamentc e testada. Noutros
termos, cxpressa nosso grau de confianca na conveniencia
e oportunidade de se admitir urna proposicáo como hi­
pótesc, corn a finalidade de ser testada e criticada.

6.2. OS PRINCIPIOS BÁSICOS


DA PROBABIUDADE PRAGMATICA

Vamos agora estabelecer as nomas básicas, reguladoras


da probabilidade pragmática.
62 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDADE

Inicialmente,é preciso deixar claro a imprescindibili­


dade e a importancia dos juízos probabilísticos (daqui
para frente, quando falarmos de probabilidade, sem qua­
lificacáo, trata-se da pragmática). Na vida diária, formu­
lamos constantemente juízos de probabilidade; por exern­
plo, quando afirmamos que provavelmente iremos ao tea­
tro ou que provavelrnente vai chover. Em geral, esses
juízos nao sao quantitativos, exprimindo apenas que a
proposicáo envolvida merece consideracáo séria como
constituindo hipótesc plausível. Ainda na vida diáriamas
especialmente no domínio da ciencia, emprcgamos um
conceito de probabilidade comparativo: a teoria de Ein­
stein é mais provável do que a de Newton. A rclacáo
"rnais provável do que" nao goza da propriedade linear,
como dizcm os matemáticos, ou seja, nao se tem que:
dadas duas proposicóes p e q, ou elas sao igualmente
prováveis ou urna dclas mais provável do que a outra.
é

O mcsrno se passa com a relacáo "menos provável do


que". Parece óbvio que há proposicóes incomparáveis no
tocante a probabilidade, como, por exernplo, as seguintes:
"A mecánica quántica é, cm linhas gerais, verdadeira" e
"0 sol sairá arnanhá". Mas. além dos conccitos qualita­
tivos anteriores, há outro quantitativo: cm multas inda­
gacocs pode-se atribuir pesos as lcis, hipótcses e teorias
científicas, com o objetivo de ordena-las e de termos boa
perspectiva na claboracáo de nossas inducóes, Os méto­
dos dos subjetivistas e dos adeptos da teoria lógica nos
fornecem inúmeros proccdimentos para tanto. Se enea­
rarmos tais atribuicóes de probabilidade, por sua vez, co­
mo hipóteses que deveráo ser testadas e sistematicamente
LÓGICAS INDOTIV AS f_., PROBABILIDADE 63

melhoradas, percebe-se sua relevancia e sua supe­


rioridade sobre as atribuicóes puramente subjetivas ou
lógicas.
A probabilidadc (pragmática) métrica refere-se a enun­
ciados e fica definida por urna funcáo P que associa a
certos enunciados de urna linguagem valores pertencentes
ao corpo dos números reais.
As funcóes P devem satisfazer algumas condicóes bá­
sicas:

1) A definicáo de P. para empregar a sugestiva ter­


minologia de Tarski, deve ser formalmente correta. Nou­
tras palavras, a linguagern L, a que pertencem os enun­
ciados ou scntcncas que seráo os argumentos de P. tem
de ser bem definida, cm particular urna linguagcm for­
malizada. Alérn disso, a definicáo de P se fará cm me­
talinguagem suficientemente forte, tendo L como sub­
linguagem. Os motivos de todas essas restricóes sao
os mesmos do caso da conceituacáo de verdade de Tar­
ski.
2) Na cstatística, com auxílio do cálculo de pro­
babilidades, prova-se que certas proposicóes possuem
probabilidades cstatísticas. ISla decorre de inferencias pu­
ramente matemáticas ou de princípios matemáticos mais
elementos empíricos. Por excrnplo, a partir de determi­
nada amostra de urna populacáo A, pode-se calcular a
probabilidade p de que k% dos membros de A pertencem
a classe B. Logo, o enunciado "k% dos A sao B" tcm
probabilidade estatística p. Ora, parece óbvio que, cm
casos como esse, a probabilidade pragmática também seja
64 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDADE

p, independentemente da interpretacáo da probabilidade


estatística (ou seja, do conceito de probabilidade empre­
gado pelo estatístico). Isto se formula de modo mais pre­
ciso assim: se a sentenca a da metalinguagem tem proba­
bilidade estatística p e f3 é urna sentenca da linguagem
objeto L logicamente equivalente a a, entáo P(f3) = p.
Tomando ainda emprestada a termino logia de Tarski, ba­
tizaremos tal requisito de condicáo de adequacáo material
da definicáo de P. O leitor sem dúvida já notou que esta
condicáo restringe bastante a funcáo P e nao há dificul­
dade em se demonstrar que ela acarreta que a teoria prag­
mática da probabilidade e a lógica indutiva englobam
toda a inferencia estatística+".
3) P também precisa satisfazer o princípio da equi­
valencia: se a e B forem sentencas logicamente equiva­
lentes da metalinguagem (a qual envolve L, como se
viu acima) e Pea) = p. entáo P está definida para f3 e
se tem que P(f3) = p.
4) Finalmente, pelos mais variados motivos, por exem-

40 Comparar com o que se asseverou na nota precedente. Por


outro lado, a condicáo de adequacáo material e o princípio da equi­
valencia, adiante formulado, fazem com que a teoria pragmática se
aproxime bastante da teoría epistemológica de Kyburg (19) e (20).
Em particular, muitas de suas atribuicócs de probabilidades (via in­
tervalos) se transladam para o nosso caso, patenteando a forca de
nossa teoría. Isto ocorre, por exernplo, com tudo o que se refere ao
conceito de elemento aleatório (random element), táo relevante na
teoria de Kyburg. Son certos aspectos, nossa teoria urna simplificacáo
é

da de Kyburg e, sob outros, urna extensáo.


LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABlLIDADE 65

°
plo, teorema de Ramsey-de Finetti, P deve satisfazer
os axiomas do cálculo de probabilidades.
Note-se que P nao necessita estar definida sobre o
conjunto de todas sentencas de L, embora no que se
segue suponhamos isto, com o intuito de simplificar a
exposicáo.
Com tudo o que foi dito em mente, podemos afirmar
que o objetivo da lógica indutiva, probabilística e mé­
trica. consiste na investigacáo das funcóes P descritas
acima.
Observacóes semelhantes as relativas a proba­
bilidade de métrica valem para os outros dais tipos de
probabilidade pragmática.
Convém insistir num ponto: a lógica indutiva nao cons­
titui urna arte de raciocinar. Ela táo-somente procura tor­
nar explícitos critérios probabilísticos de plausibilidade
referentes a proposicóes e hipóteses, que podem auxiliar
o cientista e o homem comum na estruturacáo de suas
crencas e na tomada de decis6es.
Passemos, agora, a formulacáo dos princípios formais
dos trés conceitos precedentes de probabilidade pragmá­
tica. O ponto de partida será urna linguagem L, cujo con­
junto de scntencas (as quais expressam proposicóes) de­
signaremos por S. Suponhamos S fechado pelos conec­
tivos -+ (implicacáo [material]), A (conjuncáo), v (dis­
jull<;ao),.... (negacáo) e ~ (equivalencia [rnaterialj). De­
notaremos os elementos de S pelas letras gregas minús­
culas. Admitimos, também, que em L esteja definido o
símbolo 1-, da maneira usual. Ao escrever-se I-a, isto
significa que a é teorema ou tese deL. Além dos axiomas
66 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILlDADE

lógicos comuns, L possui axiomas nao lógicos que lhe


sao caracterfsticos+'.
o conceito qualitativo e nao comparativo de proba­
bilidade é fundamental. Um raciocíno indutivo "Se p,
lago q" significa, para nós, de modo mais exato, que "Se
p, logo provavelmente q", E o primeiro diz-se correto
se, e somente se. a segunda formulacáo for verdadeira.
Como já ficou claro, "Se p, logo provavelmente q" tem
a seguinte interpretacáo pragmática: p senda proposicáo
já aceita, vale a pena aceitar também q, como hipó tese
para ser testada e debatida. Nisso, que algo objetivo,
é

se resume a correcáo das inferencias indutivas. Note-se,


no entanto, que a correcáo nao se estabelece a priori,
dependendo de numerosos fatores de índole pragmática,
os quais transparecem em cada grupo de casos particu­
lares. Outra coisa: os conceitos comparativo e quantitativo
nao constituem mais do que refinamentos do qualitativo
e nao comparativo.
Do ponto de vista matemático-formal. a probabilidade
que estamos inicialmente considerando se identifica com
urna funcáo v que associa a pares de sentencas de L, a
I,
segunda das quais, digamos a, senda tal que nao se tem
" 1-- ..., a, um dos valores p (provável) ou n (nao provável).

41 Os enunciados a de L, preenchendo a condicáo de que 1-- a,


constituem os enunciados verdadeiros (ou aceitas como verdadeiros)
de L. As sentencas (3, tais que 1--. (3, sáo os enunciados falsos (ou
tidos como falsos). Entáo, em certo sentido, a probabilidade pragmá­
tica, por assim dizer, aeha-se entre a verdade e a falsidade, como
querem Lucas (25) e Chuaqui (9).
LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABIUDADE 67

Se escrevermos: V(f1,<t)= p, isto quer dizer "se a, entáo


provavelrnente ff'; se tivcrrnos v(f1,a) = n, isto sig­
nifica que nao éo caso que se a, entáo provavel­
mente r-\. As condicócs a que deve satisfazer sao as
seguintes:

1) 1- f~ ~ v(f.1,a) = p
2) 1- -. f3 ~ v(f3.a) = Il
3) Se u¡, ab ...am/f3 for instancia de urna regra válida
de L e se v(f1ha) = p, i = 1,2,...,m, entáo v(f3,a) = p.
4) (v(f3}.a) = p ou v(f32,a) = p) ~ V(f3I vf32,a) = p.
5) (I-al ~ a2 e 1- f3I ~ f32)~ v(f3l.aI) = v(f32,a2)·

TEOREMA 1 - A funcáo v de probabilidade qualitativa


e nao comparativa goza das propriedades:

1.1) Se v(f3 -+ y,a) = p e v(f3,a) = p, entáo v(y,a) = p.


1.2) Sobre qualquer L existem sempre funcóes v pos­
suindo as propriedades 1 - 5.

É patente que as funcóes como v nao exprimern as­


sercóes de probabilidade reais, mas expressam atribuicóes
ideais de probabilidade. Aqui se passa algo semelhante
com os graus de crenca medidos pelas probabilidades
dos subjetivistas.
Muitas vezes tern-se interesse em asseverar que dada
proposicáo é provável, sem qualificacóes de comparacáo
e, a [ortiori: de quantidade. Simbolizaremos a afirmacáo
"a é provável" assim: IP(a). Parece natural, entáo, defi­
nir-se IP(a) pela cláusula:
68 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABIUDADE

IP(a) = v(a,~), onde ~ é tal que se tenha 1- ~.

A funcáo IP : S ~ {p,n} depende de v e, por conse­


guinte, cada v dá origem a urna funcáo Ip.

TEOREMA 2 - A funcáo IP satisfaz as seguintes con­


dicóes:
2.1) Se a for axioma, entáo IP(a) = p.
2.2) Se a¡, ab ...,am/~ for instancia de urna regra válida
de L e IP (a¡) = p. i = 1.2, ....m. entáo IP(~) = p.
2.3) 1- -, a ~ IP(a) = IZ.
2.4) IP (a) = p ou IP(~) = p => IP(av(3) = p.
2.5) IP (a) = p e IP (a ~ B) = P ~ IP «(3) = p.
2.6) I-a ~ (3 => IP(a) = IP(~)·
2.7) Sobre qualquer L existem funcóes IPsatisfazendo
2.1 - 2.6.

o conceito comparativo de probabilidade pragmática,


do prisma formal, introduz-se como se segue:
Entre os elementos de S, ou seja, entre as sentcncas
de L, suporemos definida urna relacáo binária, :5, que se
lé: "menos provável do que ou igualmente provável a".
Esta relacáo, pela sua própria na tureza , pertence a me­
talinguagem de L. A relacáo 2! define-se como é óbvio
e Ié-se de modo patente. Os postulados de ~ sao os abaixo
arrolados:

1) a ~ a
2) (a ~ ~ e (3 ~ y) ~ a s y
3) (I-al ~ a2,1- f3I ~ ~2 e al ~ ~¡) => (32 ~ ~2
LÓGICAS INDUTIV AS r- PROBABILIDAm, 69

4) ex ~ B ~ ex
5) 1- .... ex ~ ex -s B
6) 1- ex -- B ~ U -s B
7) ex ~ ex v B
8) ex A B ~ ex
9) ex ~ p ~ ...,B ~ ..., ex

DEFINI<;ÁO 1 - ex == B =r». ex -s f3 e B -s a (relacáo


eqüiprobabilidade ).

TEOREMA 3 - == é urna relacáo de eqüivaléncia.

A relacáo s; ligando proposicóes, podcria fácilmente


ser modificada. de modo a conectar pares de proposicóes.
Entáo, em vez de cornpararmos proposicóes no tocante
as suas probabilidades qualitativas, seria também possível
comparamos as inferencias quanto as suas probabilidades.
De qualquer forma, os conceitos discutidos de proba­
bilidade mostram-se fracos demais. Por isso, torna-se
conveniente definirmos um conceito métrico de proba­
bilidade. A primeira vista talvez pareca difícil, senáo im­
praticável. a atribuicáo de valores numéricos as proba­
bilidades de certas proposicóes ou de determinadas infe­
rencias. Todavia, o fato é que tal atribuicáo é exeqüível
para muitas linguagens: com efeito, numerosas vezes a
probabilidade pragmática acha-se correlacionada com a
probabilidadc freqüencial, como, por exemplo, quando
consideramos probabilidades relacionadas com estatísti­
caso Além do mais, para diversas linguagens há funcóes
de probabilidade de caráter lógico, apresentadas com base
70 1Ú(,ICAS INDUTIVAS L PROBABILIJ)AJ)I~

cm discussóes sintáticas e semánticas, como as propostas


por Carnap, que podem ser admitidas como ponto de
partida para invcstigacócs futuras, as quais, scm dúvida,
quicá evidenciem que as Iuncócs iniciais nccessitam de
mudancas, Seja como for, as probabilidades pragmáticas
métricas tém importancia e sao utilizadas na ciencia e
na vida comum (na ciencia, por exemplo, ao procurarmos
confirmar hipóteses, e na vida comurn, ao Iazcrmos apos­
tas como costume na Inglaterra, onde cIas sao "medidas"
é

por coeficientes que equivalem a probabilidades).


Principiaremos formulando os postulados que govcr­
nam as propriedades do operador P que associa, a cada
sentenca de L, sua probabilidade. Evidentemente, há vá­
rías funcóes possíveis que conferem a cada sentenca sua
probabílidade: a escolha de urna delas depende da situa­
cáo particular que se es tuda (em qualquer caso, tern que
preencher as condícóes 1 - 4 da subsecáo precedente).
A funcáo P tem por domínio S e assume valores cm
IR (conjunto dos reais). Seus axiomas, todos eles eviden­
tes. nao sendo preciso aqui tentar justifica-los. sao os
que se seguem:

Al) pea) ;":! O


A2) P(av -,a) = 1
A3) I-a ~ B ~ Pea) = P(B)42
At) 1- -'(aAB) ~ P(avB) = Pea) + P(B).

42 O símbolo :::=:;> é a abreviacáo metalingüística da implicacáo,


como já deve estar claro.
LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABILIDADE 71

TEOREMA 3 - P(..., a) = 1 - pea).

TEOREMA 4 - Pea A ..., a) = O.

TEOREMA 5 - ~a ~ pea) = 1; ~..., a ~ pea) = o.


TEOREMA 6 - P(av~) = pea) + P(~) - P(aA~).

DEMONSTRAC;Ao -

P(av~) = P(av(~A"" (aA~») = pea) + pmA"" (aA~»;

mas,

logo,

P(av~) = pea) + P(~) - P(aA ~).

TEOREMA 7 - P(av~) ~ P(~); P(av~) ~ pea).

TEOREMA 8 - P(aA(3) -s pea); P(aAb) :s; P«(3).

- P(aA ~)
DEF1NIC;AO 2 - P(a,(3) = P(~) , desde que P(~) ~ o.

P(a,(3) é a probabilidade condicional de a, dado (3. O


emprego do mesmo símbolo P para designar a proba­
bilidade de urna proposicáo e, ao mesmo ternpo, a pro-
72 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILlDADE

babilidade condicional de urna sentenca, dada urna outra,


nao oferece margem para erros ou dúvidas.

TEOREMA 9 - O s P(a,p) s 1.

TEOREMA 10 - 1- (3 ~ a =:;> P(a,p) = 1


1- P ~ -, a ~ P(a,(3) = O
I-al ~ a2 e 1- Pi ~ (32=:;> P(a¡,(31) = P(a2,(32)
pea AP, y) = P(a,y) . P(P , a« y) = P(B,Y) . P(a,j3AY)

TEOREMA ll-P(avj3,y) = P(a,y) + P«(3,y)- P(aAj3,y).

TEOREMA 12 - pea ~ B) = 1 ==:> ,pea) s P(j3);


(P(a ~ j3) ~ a e pea) ~ b) =:;> P(j3) ~ a + b - 1;
(P(p,a) ~ a e pea) ~ b) =:;> P(P) ~ ab;
(I-a ~ j3 e P( a) ~ a) =:;> P(j3) ~ a.

Urna sentenca de L que sempre assume o valor 1 para


qualquer funcáo de probabilidade, quando se leva em
conta apenas sua estrutura proposicional. chama-se urna
tautologia probabilística.

TEOREMA 13 - As tautologias probabilísticas sao exa­


tamente as tautologias clássicas.

TEOREMA 14 - Sobre toda linguagem (enumerável)


existe urna funcáo de probabilidade (em geral há infini­
tas).

DEFINIC;ÁO 3 - a*f3 =ner P(a,j3) = Pea).


LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABILIDADE 73

TEOREMA L5 - a*p ==> p*a.

TEOREMA 16 - P( a,p) = P(a) ~ P(p,a) = P(P).

TEOREMA 17 - a*p ==> P(aAp) = P(a) . P(P).

a*p significa que a e p sao estocasticamente inde­


pendentes.

TEOREMA 18 - P(alA a2A... I\Clu) = P(a¡) P(a2,al)


P(a3,aIAa2)···P(an, alAa2'" AClu-l)' (Teorema geraI da
probabilidade composta ou de multiplicacáo.)

TEOREMA 19 - P(P) = P(al)P(p,al)+P(a2)P(f3,a2)


+...+P(an)P(f3,an), onde 1-- -'(a¡l\aj), i,j = 1,2, ...,n, i ~
j e P(al va2v ... van) = 1. (Teorema da probabilidade to­
tal. )

TEOREMA 20 - P(-, all\ -,a2 1\ ..• 1\-' an) = P[(1--al)


( l--(2)" .(1--an) ], onde, no segundo membro da igualdade,
as operacóes sao feítas como na álgebra comum e, após
eliminacáo dos paren teses. interpreta-se o produto como
conjuncáo fazendo-se

P(l±kl±k2± ...±kt) = l± P(kl)±P(k2)± ...±P(kt).


(Teorema de Poincaré.)

TEOREMA 21 - Se aII\CX21\...I\Un e 1---, (u¡I\CXj).i, j


= 1,2...,n i ~ j, en tao
74 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABIUDADE

P(a.,,(3) = P((3,a¡) P(a¡) (Teorema de Bayes).


:LP ((3,a¡) P(ai)

Se quiséssemos, poderíamos introduzir diretamente a


nocáo de probabilidade condicional como primitiva. Com
efeito, seja .P urna funcáo de SxS' em R, onde S' é o
conjunto das sentencas a tais que nao se tem P(a, a v
...,a) = O. P diz-se uma funcáo de probabilidade condi­
cional para L se:

Al) P(a,(3) ~ O; P((3,(3)= 1


A2) I-al ~ a2 e 1-(31~ (32 =:> peal, (31) = P(a2,(32)
A3) 1- (3-- ...,(aAa') =:> P(ava',(3) = P(a,(3) + P(a',(3)
Al) P(aAa', (3) = P(a,(3) P(a',a A (3).

A partir de Al - Al prava-se que 1-(3 1--- a acarreta,


que P(a,(3) = 1.

Os axiomas Al - Al sao verdadeiras na primeira axio­


mática dada anteriormente para a prababilidade de pro­
posicóes, quando a probabilidade condicional é dada pela
Definicáo 2. Por outro lado, na segunda axiomática, de
probabilidade condicional. pode-se fazer: P(a) =Def
P(a,(3), ande 1- (3; entáo, o novo operador pea) goza das
propriedades Al - A.t, como é imediato. Conseqüente­
mente, tem-se:

TEOREMA 22 - As axiomáticas Al - At e Al - Ai
sao equivalentes.
LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDADE 75

o operador de probabilidade condicional nao se acha


definido quando o segundo argumento (3 for tal que P«(3,
(3 v -. (3) = o. [sto pode ser superado, pondo-se, por
extensáo, P(a,(3) = 1 quando se tiver que 1- -. (3. O
operador P assim ampliado satifaz as condicóes:

Al) P(a,(3) O; P(a,a) = 1


Ai) P(a,av-. a) = O ~ P«(3,a) = 1
A3) (I-al ++ a2 e 1- (31++ (32)==> peal, (31)= P(a¡,(32)
A4) Se nao se tiver P«(3,(3v....(3) = O, entáo P(....a,(3)
= l-P(a,(3)
As) P(aA(3,y) = P«(3,y)P(a.(3Ay).

TEOREMA 23 - Se introduzirmos o operador de proba­


bilidade (estendido) pelos axiomas Al - As, esta axio­
mática é equivalente a axiomática Al - At.

DEFINI<;ÁO 3 - Denomina-se pré-álgebra de Keynes


qualquer estrutura de forma <.L,P>, onde L é urna lin­
guagem e P um operador do conjunto das sentencas de
L em IR, satisfazendo os axiomas Al - At. De modo
semelhante, define-se o canee ita de pré-álgebra de Key­
nes condicional,

DEFINI<;ÁO 4-aeq~ =o-r I-a ++ (3.(eq, é urna relacáo


de equivalencia sobre S).

DEFINI<;ÁO 5 - Dada a pré-álgebra de Keynes <.L,P>,


passando-se ao quociente pela relacáo eq, obtém-se nova
estrutura, <A,P>, que chamaremos de álgebra de Keynes
76 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABILIDADE

(A é urna álgebra de Boole). Similarmente, define-se ál­


gebra de Keynes condicional. A nocáo de álgebra de Key­
nes "abstrata", <A,P>, condicional ou nao, onde A é urna
álgebra de Boole qualquer, define-se de modo óbvio.
O cálculo de probabilidades pragmáticas e, indireta­
mente, a lógica indutiva, consiste, sobretudo, no estado
das álgebras de Keynes.

DEFINI<_;ÁO 6 - Seja <A,P> urna álgebra de Keynes


e suponhamos que sejam satisfeitas as condicóes:

1) A é o-aditiva (o supremo de urna família enumerável


de elementos de A existe);
2) Se (A¡) iEw for urna família enumerável de elementos
de A dois a dois "disjuntos" (isto é, Á¡ n ~ = O....se i ~
j), tem-se: P(UA¡) = LP(A¡).

Se isto ocorrer, <A,P> diz-se normal. Analogamente


se conceitua álgebra de Keynes condicional normal.
Se lembrarmos que toda álgebra de Boole é isomorfa
a urna álgebra de conjuntos (teorema de Stone) e recor­
darmos a definicáo de Kolmogorov de espaco de pro­
babilidades (ou de álgebra de Kolmogorov, como se po­
deria denominar esses espacos), ve-se que a teoria das
álgebras de Keynes e a teoria dos espacos de proba­
bilidades coincidem formalmente. Tudo o que se faz re­
lativamente as álgebra de Kolmogorov possui contraparte
na teoria das álgebra de Keynes. Lago, todo o cálculo
de probabilidades usual está contido na teoria das álgebras
de Keynes, ou seja, na lógica indutiva. Isto evidencia
LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABILIDADE 77

que existe urna lógica indutiva matematicamente "forte"


e que ela é de grande relevancia.
Na lógica indutiva, pois, podem-se demonstrar teore­
mas importantes, como, por exemplo, a lei dos grandes
números de Bemoulli, que tem muitas aplicacóes. Toda­
vía, todos esses teoremas do cálculo de probabilidades
devem ser investigados criticamente do prisma da pro­
babilidade pragmática, o que, porém, nao se fará neste
artigo.

6.3. PRÉ-ÁLGEBRAS DE POPPER

Antes de definirmos pré-álgebra de Popper, teceremos


alguns comentários sobre as pré-álgebras de Keynes.
Dada urna pré-álgebra de Keynes, nela podemos de­
finir, de modo óbvio, o operador v de probabilidade qua­
litativa e nao comparativa. de urna proposicáo relativa­
mente a outra, bern como o operador IP' Por exemplo,
fazendo-se IP(a) = p se, e só se, P(a) ;::= 1/2, e IP(a) = Jl
se, e somente se, pea) < 1/2. De maneira análoga, defi­
ne-se a relacáo -s em termos de P. Entáo, a probabilidade
métrica afigura-se como um refinamento da probabilidade
qualitativa e da puramente comparativa. No entamo, como
já frisamos, nem sempre se dispóe de meios para a fixacáo
de probabilidades métricas: nestes casos. ternos de nos
contentar com afericóes menos sofisticadas.
Popper, há muito tempo, propós urna axiomatizacáo
da nocáo de probabilidade que prescinde do símbolo f-.
78 LÓGICAS INDUTIVAS E PROBABIUDADE

Do nosso ponto de vista, prescinde da estrutura dedutiva


da linguagem L. Os axiomas de Popper sao os seguintes+'.

PI) P(a,p) ~ o
P2) P(a,a) = o
P3) Se P(P,y) = P(O, y) para todo yES, entáo P(a,p) =
P(a, (3)
P4) Se P(y,(3) ;i! 1 para algum yES, entáo P(-.a,(3) =
l-P(a,p)
Ps) pea A p,y) = Pea, (3 A y)P«(3,y)
P6) pea A (3,y) = P«(3Aa,y)

Estruturas do tipo,.<L,P>, P satisfazendo Pl - P6, po­


demos chamar de pré-álgebras de Popper (a partir das
pré-álgebras de Popper, por passagem ao quociente, ob­
tém-se as álgebras de Popper). Pois bem: nas pré-álgebras
de Popper facilmente se consegue definir o símbolo ~
e derivar todos os resultados comuns da sintaxe e da
semántica da lógica usual. Por exemplo, define-se ~ as­
sim: ~ a=Def' Para qualquer (3,P(a,(3) = 1. Prava-se, en­
tao, que as estruturas de pré-álgebra de Popper (álgebra
de Popper) e de pré-álgebra de Keynes (álgebra de Key­
nes) sao equivalentes, em certo sentido preciso.
Além disso. nao há dificuldade em se ampliar a nocáo
de pré-álgebra de Popper para abranger linguagens con­
tendo explicitamente quantificadores, edificando-se urna

43 Dos axiomas de Popper, Pl- P6, deduzem-se todas as proprie­


dades dos conectivos e do símbolo 1--- •
LÓGICAS INDUTIV AS E PROBABILIDADE 79

versáo probabilística da lógica de pimeira ordem e da


teoria dos modelos corresponden te.
Tais fatos patenteiam a releváncia das pré-álgebras de
Popper, as quais se acham vinculadas nao apenas com a
lógica dedutiva, como, também, com a indutiva+'.

44 Cf. Popper (29), apéndices *11.*IV e ·'V.


7
OBSERV A<;OES FINAIS

A lógica indutiva só subsistirá, como disciplina digna de


ser cultivada, na medida em que for útil e suscitar pro­
blemas.
Ouanto a sua utilidade: há vanos motivos para sus­
tentarmos que a lógica indutiva afigura-se útil. Referir­
nos-ernos apenas a dais. Em primeiro lugar, mio há dúvida
de que o estudo de temas como os métodos de MilI, sua
natureza e Iimitacóes, tém importancia e ajudam o inves­
tigador, pelo menos indiretamente; e isso se torna ainda
mais patente se procurarmos conferir probabilidades prag­
máticas aos resultados da utilizacáo deles, quando se co­
nhecem certas probabilidades iniciais (especialmente as
referentes a circunstancia de que as condicóes relevantes
se encontram entre as condicóes inicialmente considera­
das). Em segundo lugar, com base na probabilidade prag­
mática, ou seja. indutiva, torna-se possível erigir-se urna
lógica da acáo ou, melhor, urna teoria da decisáo, paralela
82 OBSERVA~'ÓES FINAIS

e complementar a da decisáo estatística, como ensaiou


R. Jeffrey em contexto diferente, mas cujas idéias facil­
mente se ada ptam a nossa pcsicáo+>.
Quanto a novos problemas: a lógica indutiva dá nas­
cimento a muitas questóes importantes, tais como, por
exemplo, as seguintes:

L) Problemas sobre a definicáo de probabilidade prag­


mática em linguagens clássicas e suas relacóes com ou­
tras probabilidades, como a semántica;
2) Problemas relativos as linguagens das lógicas nao
clássicas, campo cm que tuda está por se fazer;
3) Qucstóes sobre semántica probabilística e sua ex­
tensáo as linguagens de ordem superior.

Esses e outros problemas assegurarn-nos que. se de­


pender de problemas intercssantes, a lógica indutiva se
depara com um grande futuro.
Finalizando, apresentamos algumas conclusócs:

1) Na ciencia e na vida quotidiana torna-se irnprcscin­


dívcl cfctuarmos inferencias indutivas, cujo estudo se faz
na lógica indutiva:
2) Existe, portante, um problema genuíno da inducáo
e ele tem solucao positiva, de carátcr transcendental e
pragmático (eléntico):
3) A lógica indutiva está estrcitamente ligada a pro-

45 R. Jeffrey (46). Ver, ainda, Stcgmüller (42).


OBSERVA<:'ÓES FINAIS 83

babilidade pragmática. que urna probabilidade entre am­


é

plos limites objetiva, ou, pelo menos, cuja objetividade


iguala a das teorias e leis científicas;
4) No entanto, a probabilidade pragmática nao se iden­
tifica com outras probabilidades objetivas, como, por
exemplo. a freqüencial. embora ambas estejam vinculadas
entre si;
5) A lógica indutiva, que podemos enquadrar entre as
lógicas nao clássicas, constitui disciplina estabelecida e
independente, fontc de numerosos problemas abertos dig­
nos de meditacáo: tais problemas balizaráo o seu futuro
desenvolvimento.
6) Admitida a lógica formal clássica, pode-se asseverar
que o método hipotético-dedutivo é a operacao indutiva
nuclear e que, cm princípio, ele é independente da pro­
babilidade. Porém. a lógica indutiva, fundamentalmente
probabilística, introduz ordem e racionaliza a inferencia
indutiva, tornando a decisáo a respeito de hipótcses e o
balance das teorias mais sistemá tico e orgánico,
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NOTA BIBLIOGRÁFICA

AIgumas das idéias oeste livro foram desenvolvidas


no seguintes trabalhos:

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R. Pragmatíc truth and approximatíon to truth, The Journal
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(2) COSTA N. C. A. DA. Pragrnatic probabüity, Erkenntnis,
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(3) COSTA, N. C. A DA Outlincs oí" a systern of inductive
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(4) COSTA, N. C. A. DA & CHUAQUI. R. Tlle /ogic of
pragtnatic truth. A aparecer.
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