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AULA 4

Modernismo 2ª Fase – Prosa


A 2ª Fase Prosa também acontece nos anos 1930/1945. O grande foco da prosa
de ficção foram os romances regionalistas e urbanos. Autores preocupados
com problemas sociais destacam a linguagem coloquial e regional, evidencian-
do a realidade das diversas partes do país.

Graciliano Ramos representa muito bem a prosa desta fase

Exposição constrói Graciliano Ramos através de sua obra maior


Exposição constrói Graciliano Ramos através de sua obra maior

“Construindo Graciliano Ramos: Vidas Secas” foi tema de uma das mostras do Instituto de Es-
tudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) que teve como objetivo resgatar o escritor
através de sua obra-prima Vidas Secas, difundindo um dos principais acervos do instituto. Montada em
função da 7ª Semana de Arte e Cultura da USP, a exposição contou com diversas edições nacionais e
estrangeiras de Vidas Secas, originais de ilustrações da obra, caricaturas do autor, manuscritos, recor-
tes de jornais, correspondências e fotos.
Considerada por estudiosos a obra maior do escritor, Vidas Secas foi traduzida para diversos idiomas,
entre os quais alemão, russo, polonês, holandês, inglês, francês, húngaro, italiano e espanhol. “Embora o
tema da seca no Nordeste seja nitidamente regional, a obra transmite um drama humano que transcende o
próprio tempo e lugar. Há também a questão da atualidade, já que infelizmente as regiões mais pobres do
Nordeste vivem em uma situação não muito diferente da retratada no livro”, afirma a curadora da exposição.
Tanto a produção de inúmeros estudos sobre o livro quanto a sua popularização são consequências de sua
concepção inovadora de romance. Além de ser um dos romances mais curtos da literatura brasileira - a “es-
crita econômica”, em consonância com a fala reduzida dos viventes do Nordeste -, a maneira independente
como ele organizou os capítulos possibilita uma leitura autônoma de cada um deles.
Graciliano Ramos é um autor privilegiado quanto à preservação de sua memória. Suas obras sempre
foram estudadas por muitos críticos e acompanhadas por uma criação artística em torno delas. Exemplos
dos frutos dessa influência são as pinturas e desenhos de Candido Portinari. Os retirantes é uma série de
quadros em que os últimos, produzidos após o contato do pintor com Vidas Secas, apresentam diferenças
em relação aos primeiros: as figuras foram retratadas mais magras e ganharam dramaticidade. Os dois
últimos quadros, que se encontram no Masp, foram reproduzidos em painéis pela exposição.
Disponível em: http://www.usp.br/aun/antigo/exibir?id=467&ed=44&f=29. Adapatada.

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Modernismo 2ª Fase – Prosa
ano, publicou seu primeiro livro - Caetés -,
Autores da prosa regionalista
visivelmente influenciado por Eça de Quei-
Na prosa da Segunda fase do Mo- roz. Nessa época, era diretor da Imprensa
dernismo, destacam-se textos que podem Oficial do Estado e da Instrução Pública de
ser classificados como romances regio- Alagoas.
nalistas. Focalizam o Nordeste brasileiro Em 1936, foi preso sob acusação de
e suas principais características: o misti- envolvimento com o Partido Comunista. Foi
cismo, o cangaço, a seca e os problemas demitido do cargo de diretor da Instrução
dela decorrentes, como a injustiça social, o Pública e deportado no porão de um navio,
drama dos retirantes, a exploração, a fome passando por vários presídios. Essa expe-
e a morte. riência foi relatada no livro Memórias do
Há também romances que focalizam a Cárcere, publicado em 1953.
cidade (prosa urbana) e seus elementos, Em 1945, filiou-se ao Partido Comu-
e ainda aqueles que buscam desvendar nista e, em 1952, viajou pela antiga União
o mundo interior de seus personagens, Soviética e parte da Europa, relatando o
analisando seus conflitos interiores. Esses fato no livro Viagem, publicado em 1954,
são chamados romances psicológicos (pro- postumamente. Quando regressou ao Bra-
sa intimista). sil, adoeceu e faleceu em 1953, no Rio de
Quanto à linguagem utilizada, predomi- Janeiro.
na o uso da linguagem coloquial. Seus textos caracterizam-se por uma
linguagem enxuta, concisa, resultado de um
Graciliano Ramos árduo trabalho. Reelaborava constante-
mente seus textos, revelando-se sempre in-
satisfeito com o resultado.

Seu tema principal é o homem de


seu meio e de seu tempo e a angústia que
acompanha todos os homens. Há também
referência a questões políticas da época.

Nos romances Caetés, já citado, São


Bernardo, de 1934, e Angústia, de 1936,
desenvolve-se a reflexão sobre o mundo in-
terior dos personagens e também é focali-
Graciliano Ramos nasceu em Que- zado um contexto sócio-político definido: o
brangulo em 1892. Fez seus estudos se- nordeste dos anos 30.
cundários em Maceió e, em 1914, mudou-
se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou Vidas secas, de 1938, é conside-
em alguns jornais como revisor. Depois re- rado uma das obras-primas de Graciliano
gressou a Alagoas e fixou-se em Palmei- Ramos e da literatura brasileira. Escrito
ra dos índios como comerciante. Em 1928, em terceira pessoa, retrata o drama so-
chegou a prefeito da cidade, renunciando cial do Nordeste, apresentando o homem
ao cargo em 1930. Em 1933, estava em vinculado ao meio natural e quase total-
Maceió e lá conheceu outros autores desse mente submetido a ele, ao mesmo tempo
período, como José Lins do Rego, Rachel em que luta para sobreviver.
de Queiroz e Jorge Amado. Também nesse
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• Vidas Secas
O romance focaliza uma família de reti- guardou-a no cinturão, acocorou-se, pe-
rantes castigada pela seca e pela caatinga: Fa- gou no pulso do menino, que se enco-
biano, Sinhá Vitória, dois meninos e a cachorra lhia, os joelhos encostados no estômago
Baleia. Encontram uma fazenda abandonada e magro, frio como um defunto. Aí a cólera
a ocupam. Mas na época da chuva, o proprie- desapareceu e Fabiano teve pena. Im-
tário volta e Fabiano tem que se submeter a ele possível abandonar o anjinho aos bichos
para continuar na fazenda, trabalhando como do mato. Entregou a espingarda a sinhá
vaqueiro. Além de ser explorado no trabalho, Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-
sente-se enganado pelo dono da fazenda e é se, agarrou os bracinhos que lhe caíam
humilhado em muitas situações por não saber sobre o peito, moles, finos como cambi-
ler, fazer contas nem falar direito. Por desconhe- tos. Sinhá Vitória aprovou esse arranjo,
cê-las, sente verdadeiro fascínio pelas palavras lançou de novo a gutural, designou os
e classifica aqueles que se expressam bem e juazeiros invisíveis.
dominam a comunicação escrita como perten- E a viagem prosseguiu, mais lenta,
centes ao mundo dos “homens sabidos”. Com mais arrastada, num silêncio grande”.
a volta da seca, a família abandona a fazenda e
Vocabulário
retoma a sua caminhada com alguma esperan-
ça, mas marcada pela falta de horizontes. Gutural: Relativo ou pertencente à garganta.
Cambito: Galho fino.
Leia um trecho em que o narrador
descreve o início da viagem dos retirantes
famintos que fugiam da seca. Leia esse outro trecho que destaca a
labuta de Fabiano.
“A caatinga estendia-se, de um
vermelho indeciso salpicado de man- “Ora, daquela vez, como das outras,
chas brancas que eram ossadas. O voo Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se,
negro dos urubus fazia círculos altos enfim deixou a transação meio apalavra-
em redor dos bichos moribundos. da e foi consultar a mulher. Sinhá Vitó-
— Anda, excomungado. ria mandou os meninos para o barreiro,
O pirralho não se mexeu, e Fabia- sentou-se na cozinha, concentrou-se,
no desejou matá-lo. Tinha o coração distribuiu no chão as sementes de várias
grosso, queria responsabilizar alguém espécies, realizou somas e diminuições.
pela sua desgraça. No dia seguinte Fabiano voltou à cida-
A seca aparecia-lhe com um fato de, mas ao fechar o negócio notou que
necessário e a obstinação da criança as operações de Sinhá Vitória, como de
irritava-o. Certamente esse obstáculo costume, diferiam das do patrão. Recla-
miúdo não era o culpado, mas dificul- mou e obteve a explicação habitual: a di-
tava a marcha, e o vaqueiro precisava ferença era proveniente de juros.
chegar, não sabia onde. Não se conformou: devia haver en-
Pelo espírito atribulado do serta- gano. Ele era bruto, sim senhor, via-se
nejo passou a ideia de abandonar o filho perfeitamente que ele era bruto, mas
naquele descampado. Pensou nos uru- a mulher tinha miolo. Com certeza ha-
bus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e via um erro no papel do branco. Não se
suja, irresoluto, examinou os arredores. descobriu o erro, e Fabiano perdeu os
Sinhá Vitória estirou o beiço indicando estribos. Passar a vida inteira assim no
vagamente uma direção e afirmou com toco, entregando o que era dele de mão
alguns sons guturais que estavam per- beijada! Estava direito aquilo?
to. Fabiano meteu a faca na bainha, Trabalhar como negro e nunca ar-
ranjar carta de alforria!

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O patrão zangou-se, repeliu a inso- matara-o antes de tempo e fora vendê-lo
lência, achou bom que o vaqueiro fosse na cidade. Mas o cobrador da prefeitura
procurar serviço noutra fazenda. chegara com o recibo e atrapalhara-o.
Aí Fabiano baixou a pancada e Fabiano fingira-se desentendido: não
amunhecou. Bem, bem. Não era preci- compreendia nada, era bruto. Como o
so barulho não. Se havia dito palavra à outro lhe explicasse que, para vender o
toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora porco, devia pagar imposto, tentara con-
ensinado. Atrevimento não tinha, co- vencê-lo de que ali não havia porco, ha-
nhecia o seu lugar. Ia lá puxar questão via quartos de porco, pedaços de carne.
com gente rica? Bruto, sim senhor, mas O agente se aborrecera, insultara-o, e
sabia respeitar os homens. Devia ser ig- Fabiano se encolhera. Bem, bem. Deus
norância da mulher, provavelmente de- o livrasse de história com o governo. Jul-
via ser ignorância da mulher. Até estra- gava que podia dispor dos seus troços.
nhara as contas dela. Enfim, como não Não entendia de imposto.
sabia ler (um bruto, sim senhor), acredi- - Um bruto, está percebendo?
tara na sua velha. Mas pedia desculpas Supunha que o cevado era dele. Ago-
e jurava não cair noutra. ra se a prefeitura tinha uma parte, estava
O amo abrandou, e Fabiano saiu acabado. Pois ia voltar para casa e comer a
de costas, o chapéu varrendo o tijolo. carne. Podia comer a carne? Podia ou não
Na porta, virando-se, enganchou as ro- podia? O funcionário batera o pé agastado
setas das esporas, afastou-se tropeçan- e Fabiano se desculpara, o chapéu de cou-
do, os sapatões de couro cru batendo ro na mão, o espinhaço curvo.
no chão como cascos. - Quem foi que disse que eu queria bri-
Foi até a esquina, parou, tomou gar? O melhor é a gente acabar com isso.
fôlego. Não deviam tratá-lo assim. Diri- Despedira-se, metera a carne no
giu-se ao quadro lentamente. Diante da saco e fora vendê-la noutra rua, escon-
bodega de seu Inácio virou o rosto e fez dido. Mas, atracado pelo cobrador, ge-
uma curva larga. Depois que acontece- mera no imposto e na multa. Daquele
ra aquela miséria, temia passar ali. dia em diante não criaria mais porcos.
Sentou-se numa calçada, tirou do Era perigoso criá-los.”
bolso o dinheiro, examinou-o, procuran-
do adivinhar quanto lhe tinham furtado.
Não podia dizer em voz alta que aquilo
era um furto, mas era. Tomavam-lhe o
gado quase de graça e ainda inventavam
juro. Que juro! O que havia era safadeza.
- Ladroeira. 70 anos de Vidas Secas - CE
Nem lhe permitiam queixas. Por-
que reclamara, achara a coisa uma Evento multimídia gratuito celebrou,
exorbitância, o branco se levantara fu- em novembro de 2008, os 70 anos de lan-
rioso, com quatro pedras na mão. Para çamento do romance Vidas Secas, con-
que tanto espalhafato? siderado a obra literária mais importante
-Hum! num! do escritor alagoano Graciliano Ramos.
Recordou-se do que lhe sucedera Intitulado “Vidas, para sempre secas?”,
anos atrás, antes da seca, longe. Num o evento-homenagem a Graciliano Ra-
dia de apuro recorrera ao porco magro mos acontecerá a partir deste sábado,
que não queria engordar no chiqueiro e 1º de novembro e prossegue até o dia
estava reservado às despesas do Natal: 30 de novembro com diversas atividades

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a história de sua vida numa tentativa de com-
nos Centros Culturais Banco do Nordes- preender, pelas palavras, os fatos ocorridos, as
te. Marco na literatura brasileira, por trazer pessoas com quem se relacionou, suas próprias
um relato contundente sobre a luta pela atitudes e sua visão de mundo.
sobrevivência do sertanejo nordestino, Leia o trecho final que apresenta um
além de abarcar uma crítica social às cau- balanço trágico da história.
sas da miséria e do flagelo da estiagem,
Vidas Secas já vendeu um milhão e meio “Cinquenta anos! Quantas horas inú-
de cópias e se encontra na sua centésima teis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira
sétima (107ª) edição. O livro Vidas Secas sem saber para quê! Comer e dormir como
retrata a vida de pessoas que vivem no um porco! Como um porco! Levantar-se
sertão brasileiro e o sacrifício delas para cedo todas as manhãs e sair correndo, pro-
sobreviver. Tendo como tema a luta pela curando comida! E depois guardar comida
sobrevivência diante do flagelo da estia- para os filhos, para os netos, para muitas
gem, o autor traz em seus personagens gerações. Que estupidez! Que porcaria!
muito da alma nordestina nos traços de Não é bom vir o diabo e levar tudo? A culpa
Fabiano e sua família. foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida
agreste, que me deu uma alma agreste.”
(Disponível em: http://revistaraiz.uol.com.br/portal-raiz/
portalraiz.php?cod=728&rel=5. Adaptado.
Vamos ler um fragmento dessa obra:

• São Bernardo As janelas estão fechadas. Meia-noi-


te. Nenhum rumor na casa deserta.
O romance é uma narrativa em primei- Levanto-me, procuro uma vela, que a
ra pessoa em que o fazendeiro Paulo Honório luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-
faz uma reflexão sobre seu passado, sobre a me, rolar no colchão até a madrugada, é urna
vida que levou. Tendo vivido uma infância po- tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto.
bre, passa a viver em função do dinheiro e da Amanhã não terei com que me entreter.
riqueza que conseguiu às custas de atitudes Ponho a vela no castiçal, risco um fós-
condenáveis: comprou a fazenda São Bernar- foro e acendo-a. Sinto um arrepio. A lem-
do, em que trabalhava, e fez dela uma fonte de brança de Madalena persegue-me.
riquezas. Com atitudes corruptas e desonestas, Diligencio afastá-la e caminho em re-
amedrontava as pessoas para se impor e, em dor da mesa. Aperto as mãos de tal forma
seus relacionamentos, via tudo - inclusive as que me firo com as unhas, e quando caio
próprias pessoas - como objeto, importando-se em mim estou mordendo os beiços a ponto
apenas com o lucro que lhe poderiam trazer. de tirar sangue.
Com o objetivo de ter um herdeiro para sua fa- De longe em longe sento-me fatigado
zenda, casou-se com Madalena, uma professo- e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
ra. Como ela tinha outros valores, ele não con- - Estraguei a minha vida, estraguei-a
seguiu “transformá-la em objeto” e passaram a estupidamente.
viver em constante conflito. Nem mesmo o nas- A agitação diminui.
cimento do filho do casal amenizou a situação. - Estraguei a minha vida estupidamente.
Paulo Honório ficava confuso e irritado porque Penso em Madalena com insistência.
ela defendia os empregados da fazenda. Ela vi- Se fosse possível recomeçarmos... Para
via angustiada com as pressões e conflitos que que enganar-me? Se fosse possível reco-
tinha que suportar, com o ciúme exagerado de meçarmos, aconteceria exatamente o que
Paulo Honório e acabou suicidando-se. Os em- aconteceu. Não consigo modificar-me, é o
pregados abandonaram a fazenda, os negócios que mais me aflige.
entraram em decadência e Paulo Honório viu- A molecoreba de Mestre Caetano
se arruinado e só. Então, propôs-se a escrever
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arrasta-se por aí, lambuzada, faminta. A Marciano está dormindo. Patifes!
Rosa, com a barriga quebrada de tanto E eu vou ficar aqui, às escuras, até
parir, trabalha em casa, trabalha no cam- não sei que hora, até que, morto de fadi-
po e trabalha na cama. O marido é cada ga, encoste a cabeça à mesa e descan-
vez mais molambo. E os moradores que se uns minutos”.
me restam são uns cambembes como ele.
Para ser franco, declaro que esses
infelizes não me inspiram simpatia. Las- José Lins do Rego
timo a situação em que se acham, re-
conheço ter contribuído para isso, mas
não vou além. Estamos tão separados!
A princípio estávamos juntos, mas esta
desgraçada profissão nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons
sentimentos e bons propósitos. Os senti-
mentos e os propósitos esbarraram com
a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta
e brutal. A profissão é que me deu qua-
lidades tão ruins.
E a desconfiança terrível, que me
aponta inimigos em toda a parte! José Lins do Rego Cavalcanti nasceu
A desconfiança é também conse- em 1901, no Estado da Paraíba, e morreu
quência da profissão. Foi este modo de em 1957 na cidade do Rio de Janeiro. Viveu
vida que me inutilizou. Sou um aleijado. a maior parte de sua vida em Recife, cidade
Devo ter um coração miúdo, lacunas onde se formou em Direito. A partir de 1936,
no cérebro, nervos diferentes dos nervos passou a viver na cidade do Rio de Janeiro. O
dos outros homens. E um nariz enorme, dia a dia e os costumes tanto de Pernambu-
uma boca enorme, dedos enormes. co quanto do Rio de Janeiro eram evidentes
Se Madalena me via assim, com cer- em suas obras literárias. Ele deu início ao co-
teza me achava extraordinariamente feio. nhecido Ciclo da Cana-de-Açúcar com a obra:
Fecho os olhos, agito a cabeça Menino de Engenho. Além deste livro, este
para repelir a visão que me exibe essas notável escritor escreveu outros livros, como:
deformidades monstruosas. Doidinho, Banguê, O Moleque Ricardo e Usi-
A vela está quase a extinguir-se. na. Este último possui narrativa descritiva do
Julgo que delirei e sonhei com meio de vida nos engenhos e nas plantações
atoleiros, rios cheios e uma figura de de cana-de-açúcar do Nordeste.
lobisomem. Em sua segunda fase, José Lins do
Lá fora há uma treva dos diabos, Rego escreveu romances que tinham como
um grande silêncio. Entretanto o luar en- tema a vida rural. Deste período, fazem par-
tra por uma janela fechada e o nordeste te as seguintes obras: Pureza, Pedra Boni-
furioso espalha folhas secas no chão. ta, Riacho Doce e Água Mãe.
É horrível! Se aparecesse al-
guém... Estão todos dormindo. No ano de 1943 publicou o livro
Se ao menos a criança chorasse... Fogo Morto, considerado a sua obra-pri-
Nem sequer tenho amizade a meu filho. ma; posteriormente escreveu Euridice,
Que miséria! Cangaceiros, alguns ensaios, crônicas e
Casimiro Lopes está dormindo. outras obras.

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Este notável escritor foi eleito mem-
bro da Academia Brasileira de Letras e teve nos mesmos lugares de que falavam os
suas obras traduzidas para diferentes idio- papéis. Não se sentiam, porém, rivais o
mas, entre eles, o russo. Santa Fé e o Santa Rosa. Era como se fos-
Antes de morrer, escreveu um livro de sem dois irmãos muito amigos, que tives-
memórias chamado: Meus Verdes Anos. sem recebido de Deus uma proteção de
mais ou uma proteção de menos. Coitado
• Menino de engenho do Santa Fé! Já o conheci de fogo morto. E
nada é mais triste do que um engenho de
No trecho a seguir, é apresentado o fogo morto. Uma desolação de fim de vida,
Engenho Santa Fé (que reaparecerá no ro- de ruína, que dá à paisagem rural uma me-
mance Fogo morto). lancolia de cemitério abandonado.
Na bagaceira, crescendo, o ma-
“O Santa Fé ficava encravado no ta-pasto de cobrir gente, o melão en-
engenho do meu avô. As terras do Santa trando pelas fornalhas, os moradores
Rosa andavam léguas e léguas de norte fugindo para outros engenhos, tudo
a sul. O velho José Paulino tinha este deixado para um canto, e até os bois
gosto: o de perder a vista nos seus do- de carro vendidos para dar de comer
mínios. Gostava de descansar os olhos aos seus donos. Ao lado da prosperi-
em horizontes que fossem seus. Tudo dade e da riqueza do meu avô, eu vira
o que tinha era para comprar terras e ruir, até no prestígio de sua autorida-
mais terras. Herdara o Santa Rosa pe- de, aquele simpático velhinho que era
queno, e fizera dele um reino, rompendo o Coronel Lula de Holanda, com o seu
os seus limites pela compra de proprie- Santa Fé caindo aos pedaços. Todo
dades anexas. Acompanhava o Paraíba barbado, tomo aqueles velhos dos ál-
com as várzeas extensas e entrava de buns de retratos antigos, sempre que
caatinga adentro. Ia encontrar as divi- saía de casa era de cabriole e de ca-
sas de Pernambuco nos tabuleiros de simira preta. A sua vida parecia um
Pedra de Fogo. Tinha mais de três lé- mistério. Não plantava um pé de cana
guas, de estrema a estrema. E não con- e não pedia um tostão emprestado a
tente de seu engenho possuía mais oito, ninguém.”
comprados com os lucros da cana e do
algodão. Os grandes dias de sua vida,
lhe davam as escrituras de compra, os
bilhetes de sisa que pagava, os bens
de raiz, que lhe caíam nas mãos. Tinha
para mais de quatro mil almas debai-
xo de sua proteção. Senhor feudal ele Fogo morto é considerado o ponto
foi, mas os seus párias não traziam a máximo de José Lins do Rego. Divide-se
servidão como um ultraje. O Santa Fé, em três partes: 1- O mestre José Amaro;
porém resistira a essa sua fome de la- 2 - O engenho de seu Lula; 3 - O capitão
tifúndios. Sempre que via aqueles con- Vitorino. A primeira parte é centrada na
dados na geografia, espremidos entre figura do seleiro frustrado José Amaro
grandes países, me lembrava do Santa que mora no Engenho Santa Fé com a
Fé. O Santa Rosa crescera a seu lado, mulher e a filha. O dono do engenho quer
fora ganhar outras posses contornando que ele vá embora e sua vida é bastan-
as suas encostas. Ele não aumentara te tumultuada pelas brigas com o senhor
um palmo e nem um palmo diminuíra. de engenho. Enfrenta ainda desilusões
Os seus marcos de pedra estavam ali com a profissão e problemas familiares.

Literatura 3 - Aula 4 59 Instituto Universal Brasileiro


Rachel de Queiroz nasceu em 1910 em
Na segunda parte, é apresentado o Enge- Fortaleza, no Ceará. Passou parte da infância
nho Santa Fé que fora próspero com seu nessa cidade e parte na fazenda da família
antigo dono - Tomás Cabral de Melo - mas no interior do estado, viajando algumas vezes
que estava decadente nas mãos de seu para Belém do Pará e Rio de Janeiro. Essas
genro, seu Lula - cujo nome é Luís César de mudanças foram causadas pela seca de 1915,
Holanda Chacon -, casado com Amélia. Na que atingiu a propriedade de sua família.
terceira parte, destaca-se o Capitão Vitorino, Em 1927, já havia concluído o curso se-
compadre do mestre José Amaro. O Capitão cundário e passou a colaborar em jornais es-
caracteriza-se por estar sempre lutando e bri- crevendo crónicas. Nos anos 30, participou do
gando por justiça e igualdade, defendendo PC e, em 1937, foi presa por suas ideias de
os humildes e enfrentando os poderosos. Por esquerda. A partir de 1940, passou a dedicar-
essa atitude, é frequentemente ridicularizado. se ao teatro, além da literatura.
Porém é o único que se mantém firme até o
fim. Mestre José Amaro suicida-se, por não Foi a primeira mulher a ingressar
suportar a frustração decorrente da morte da na ]Academia Brasileira de Letras, em
filha e do abandono pela mulher. Seu Lula, 1977. Seu primeiro romance, O Quinze,
atacado por doenças, não viverá muito. Des- foi publicado em 1930. Sua obra é essen-
tacam-se ainda outros personagens: o can- cialmente regionalista, apresentando, em
gaceiro António Silvino, o cego Torquato, o seus romances, o Ceará, as pessoas da
negro Passarinho e o coronel José Paulino. A região, a seca, numa narrativa dinâmica
expressão “Fogo morto” é usada para carac- com diálogos fáceis.
terizar a total decadência de um engenho, o
que acompanhamos nesse romance, do qual Em O Quinze, de 1930, e João Miguel,
destacamos alguns trechos. de 1932, convivem elementos sociais e psi-
cológicos, mas predomina o social. Caminhos
de pedra, de 1937, é seu romance mais po-
lítico e de esquerda. Porém, em decorrência
da situação política do país, começa a aban-
donar a questão social, detendo-se mais na
questão psicológica, o que podemos ver em
As três Marias, de 1939. O quinze (1930)
constitui obra inaugural na carreira literária
de Rachel de Queiroz. Já o romance Memo-
rial de Maria Moura (1992) é, entre aqueles
publicados em vida, o que encerra a produ-
ção da escritora.
Rachel de Queiroz Vamos ler dois trechos do romance O
quinze. O primeiro que enfoca a questão
da seca e o segundo, que apresenta as di-
ferenças entre Conceição e Vicente.

1º “Chegou a desolação da primei-


ra fome. Vinha seca e trágica, surgindo
no fundo sujo dos sacos vazios, na des-
carnada nudez das latas raspadas.
- Mãezinha, cadê a janta?
- Cala a boca, menino! Já vem!
-Vem lá o quê!...

Literatura 3 - Aula 4 60 Instituto Universal Brasileiro


Angustiado, Chico Bento apalpa- Levantou-se, bebeu um gole na ca-
va os bolsos... nem um triste vintém baça. A água fria, batendo no estômago
azinhavrado... limpo, deu-lhe uma pancada dolorosa.
Lembrou-se da rede nova, grande E novamente estendido de ilharga, inu-
e de listras que comprara em Quixadá tilmente procurou dormir.
por conta do vale de Vicente. A rede de Cordulina que tentava
Tinha sido para a viagem. Mas an- um balanço, para enganar o menino -
tes dormir no chão do que ver os meni- pobrezinho! o peito estava seco como
nos chorando, com a barriga roncando uma sola velha! - gemia, estalando
de fome. mais, nos rasgões.
Estavam já na estrada do Castro. E E o intestino vazio se enroscava
se arrancharam debaixo dum velho pau- como uma cobra faminta, e em roncos
-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer surdos resfolegava furioso: rum, rum
ao tempo, porque aqueles cepos aponta- rum...
dos para o céu não tinham nada de abrigo. De manhã cedo, Mocinha foi ao
O vaqueiro saiu com a rede, resoluto: Castro, ver se arranjava algum serviço,
- Vou ali naquela bodega, ver se uma lavagem de roupa, qualquer coisa
dou um jeito... que lhe desse para ganhar uns vinténs.
Voltou mais tarde, sem a rede, tra- Chico Bento também já não estava
zendo uma rapadura e um litro de farinha: no rancho. Vagueava à toa, diante das
- Tá aqui. O homem disse que a bodegadas, à frente das casas, enga-
rede estava velha, só deu isso, e ainda nando a fome e enganando a lembrança
por cima se fazendo de compadecido,.. que lhe vinha, constante e impertinen-
Faminta, a meninada avançou; e até te, da meninada chorando, do Duquinha
Mocinha, sempre mais ou menos calada e gemendo:
indiferente, estendeu a mão com avidez. To tum fome! dá tumê!1
Contudo, que representava aquilo Parou. Num quintalejo, um homem
para tanta gente? tirava o leite a uma vaquinha magra.
Horas depois, os meninos gemiam: Chico Bento estendeu o olhar fa-
- Mãe, tou com fome de novo... minto para a lata onde o leite subia,
- Vai dormir, dianho! Parace que tá branco e fofo como um capucho...
espritado! Soca um quarto de rapadura E a mão servil, acostumada à su-
no bucho e ainda fala em fome! jeição do trabalho, estendeu-se maqui-
Vai dormir! nalmente num pedido...mas a língua
E Cordulina deu o exemplo, deitan- ainda orgulhosa endureceu na boca e
do-se com o Duquinha na tipóia muito não articulou a palavra humilhante.
velha e remendada. A vergonha da atitude nova o co-
A redinha estalou, gemendo. briu todo; o gesto esboçado se retraiu,
Cordulina se ajeitou, macia, e ficou passadas nervosas o afastaram.
quieta, as pernas de fora, dando ao me- Sentiu a cara ardendo e um engas-
nino o peito rechupado. go angustioso na garganta.
Chico Bento estirou-se no chão. Mas dentro da sua turbação lhe zu-
Logo, porém, uma pedra aguda lhe ma- nia ainda aos ouvidos:
chucou as costelas. ‘Mãe, dá tumê!...
Ele ergueu-se, limpou uma cama E o homenzinho ficou, espichando
na terra, deitou-se de novo. os peitos secos de sua vaca, sem ter a
- Ah! minha rede! Ô chão duro dos menor ideia daquela miséria que passa-
diabos! E que fome! ra tão perto, e fugira, quase correndo...

Literatura 3 - Aula 4 61 Instituto Universal Brasileiro


2º “Deitada na cama, com a luz Ele era bom de ouvir e de olhar,
apagada, Conceição recordava Vicente como uma bela paisagem, de quem só
e sua visita. A verdade é que ela era se exigisse beleza e cor.
sempre uma tola muito romântica para Mas nas horas de tempestade, de
lhe emprestar essa auréola de herói de abandono, ou solidão, onde iria buscar
novela! o seguro companheiro que entende e
Metido com cabras... não se dava ensina, e completa o pensamento in-
a respeito... E ainda por cima, não se completo, e discute as ideias que vêm
importava nem em negar... vindo, e compreende e retruca às in-
Mãe Nácia, porque naturalmente, venções que a mente vagabunda vai
no tempo dela, aguentou muitas des- criando?
sas, diz que não vale nada... Pensou no esquisito casal que se-
E a moça comparou Dona Inácia ria o deles, quando à noite, nos serões
àquelas senhoras de alma azul, de que da fazenda, ela sublinhasse num livro
fala o Machado de Assis... querido um pensamento feliz e quisesse
Foi então que se lembrou de que, repartir com alguém a impressão recebi-
provavelmente, Vicente nunca lera o da. Talvez Vicente levantasse a vista e
Machado... Nem nada do que ela lia. lhe murmurasse um “é” distraído por de-
Ele dizia sempre que, de livros, só trás do jornal... Mas naturalmente a que
o da nota do gado... distância e com quanta indiferença...
Num relevo mais forte, tão forte Pensou que, mesmo o encanto po-
quanto nunca sentira, foi-lhe aparecen- deroso que a sadia fortaleza dele exer-
do a diferença que havia entre ambos, cia nela, não preencheria a tremenda
de gosto, de tendências, de vida. largura que os separava.
O seu pensamento, que até há Já agora, o caso da Zefinha lhe
pouco se dirigia ao primo como a um parecia mesquinho e sem importância.
fim natural e feliz, esbarrou nessa en- Qualquer coisa maior se cavava
cruzilhada difícil e não soube ir adiante. entre os dois.
Ele lhe aparecia agora como um E cansada, foi fechando os olhos
desses recantos da mata, próximo a um e confundindo as ideias, que aumen-
riacho, num sombrio misterioso e con- taram como sombras de pesadelo, e
fortante. Passando num meio-dia quen- dormiu, num sono fatigado e triste, sob
te, ao trote penoso do cavalo, a gente uma estranha impressão de estar sozi-
para ali, olha a sombra e o verde como nha no mundo.”
se fosse para um cantinho do céu...
Mas volvendo depois, numa ma-
nhã chuvosa, encontra-se o doce re- Jorge Amado
canto enlameado, escavacado de
minhocas, os lindos troncos escorre-
gadios e lodosos, os galhos de redor
pingando tristemente.
Da primeira vez, pensa-se em
passar a vida inteira naquela frescura e
naquela paz; mas à última, sai-se com
o coração pesado, curado de bucolis-
mo por muito tempo, vendo-se na rea-
lidade como é agressiva e inconstante
a natureza...

Literatura 3 - Aula 4 62 Instituto Universal Brasileiro


Jorge Amado de Faria nasceu em Ita- Em abril de 1961, foi eleito para inte-
buna, na Bahia, em 1912, mas passou a infân- grar a Academia Brasileira de Letras. O tom
cia em Ilhéus. Estudou em Salvador, no colé- coloquial e popular de suas obras cativou o
gio dos padres jesuítas, mas fugiu de lá para público que se encantou com seus livros que
a casa do avô, em Sergipe. Então seu pai ma- foram traduzidos em vários países. Muitas de
triculou-o como interno em outro colégio, em suas obras viraram novela (“Tieta”), série de
Salvador. Formou-se em Direito, no Rio de Ja- TV (“Teresa Batista”) ou filme (“Dona Flor e
neiro, mas antes de ir para o Rio já trabalhava seus dois maridos”).
como jornalista. Com apenas 19 anos, lançou
o romance O país do carnaval, em 1931. Seu
livro seguinte, Cacau, foi apreendido pela po-
lícia. Em 1932, filiou-se ao PC. Entre 1936 e
1937, esteve preso e o motivo de sua prisão
foi a oposição ao Estado Novo. Quando foi
solto, exilou-se na Argentina e depois no Uru-
guai. De volta ao Brasil, em 1945, elegeu-se
deputado federal pelo estado de São Paulo,
mas teve seu mandato caçado em 1948. En-
tão, deixou novamente o país, dessa vez: com • Terras do sem-fim
destino à Europa, retornando em 1952.
Sua obra é muito vasta. Além de ser um Neste romance é apresentada a luta
escritor bastante popular, teve algumas de pela conquista de terras para o cultivo do ca-
suas obras adaptadas para o cinema, o teatro cau em Ilhéus, no sul da Bahia. Destaca-se a
e a televisão. Alguns de seus romances, am- rivalidade entre o coronel Horácio da Silveira
bientados em Salvador, caracterizam-se pela e o chefe de uma família de plantadores de
denúncia das injustiças sociais. Entre eles, cacau, Jucá Badaró, que disputam violenta-
estão O país do carnaval (1931), Suor (1934) mente as terras não-cultivadas. Paralelamen-
e Capitães de Areia (1937). te a essa situação conflituosa, desenvolve-se
Outros, que têm como cenário as fazen- o romance de Ester, esposa de Horácio, com
das de cacau de sul da Bahia, denunciam a um amante, Virgílio, um jovem advogado.
exploração dos trabalhadores nas fazendas e
os conflitos entre o trabalhador rural e o ex- “Os homens vão recuando. Levaram
portador de cacau. Isso está presente em Ca- horas, dias e noites, para chegar até ali.
cau (1933), São Jorge de Ilhéus e Terras do Atravessaram rios, picadas quase
sem-fim. intransitáveis, fizeram caminhos, calça-
Ainda tendo a Bahia como cenário, há ram atoleiros, um foi mordido de cobra
os romances de costumes em que se destaca e ficou enterrado ao lado da estrada re-
o comportamento social das personagens. Os cém-aberta.
heróis são malandros e vagabundos compon- Uma cruz tosca, o barro mais alto,
do narrativas líricas, como Mar morto (1936) era tudo que lembrava o cearense que
e A morte e a morte de Quincas Berro d’água havia caído.
(1961). Destacam-se também como romances Não puseram o seu nome, não ha-
de costumes Gabriela cravo e canela (1958), via com que escrever. Naquele caminho
Dona flor e seus dois maridos (1966) e Tieta da terra do cacau aquela foi a primeira
do agreste (1977), entre outros. cruz das muitas que depois iriam ladear
Seu livro mais recente, Navegação de as estradas, lembrando homens caídos
cabotagem (1992), reúne escritos dotados na conquista da terra. Outro se arrastou
em que o autor relata passagens de sua vida com a febre, mordido por aquela febre
pessoal e de sua carreira literária, mas não os que matava até macacos.
apresenta ordenados cronologicamente.
Literatura 3 - Aula 4 63 Instituto Universal Brasileiro
Se arrastando chegou e agora ele uma doce sombra sobre o solo. Nem via
também recua, a febre fá-lo ver visões os homens com medo, recuando.
alucinantes. Quando os viu, só teve tempo de
Grita para os demais: correr na sua frente, se postar na entrada
- É o lobisomem... do caminho de parabélum na mão, uma
Vão recuando. A princípio devagar. decisão no olhar:
Passo a passo até alcançar o ca- - Meto baía no primeiro que der um
minho mais largo, onde são menos nu- passo...
merosos os espinhos e os atoleiros. A Os homens pararam. Ficaram um
chuva de junho cai sobre eles, enchar- instante assim, sem saber o que fazer.
cando as roupas, fazendo-os tremer. Atrás estava a floresta, na frente
Diante deles a mata, a tempestade, os Jucá Badaró disposto a atirar. Mas o que
fantasmas. Recuam. tinha febre gritou:
Agora chegam à picada, é uma cor- - É o lobisomem... - e avançou
rida só, atingirão as margens do rio onde num pulo.
uma canoa os espera. Quase respiram Jucá Badaró atirou, novo raio atra-
aliviados. O que vai com febre já não sen- vessou a noite. A mata repetiu num eco
te a febre. O medo dá-lhe uma nova força o som do tiro. Os outros homens ficaram
ao corpo alquebrado. em torno do que caíra, as cabeças bai-
Mas diante deles, parabélum na xas. Jucá Badaró se aproximou, vagaro-
mão, rosto contraído de raiva, está samente, o parabélum ainda na mão.
Jucá Badaró. Também ele estava ante António Vítor tinha se baixado, se-
a mata, também ele viu os raios e ouviu gurava a cabeça do ferido. A bala atraves-
os trovões, escutou o miado das onças sara o ombro. Jucá Badaró falou com a
e o silvo das cobras, também seu cora- voz muito calma:
ção se apertou com o grito agourento do - Não atirei para matar, só para
corujão. Também ele sabia que ali mo- mostrar que vocês têm que obedecer... -
ravam as assombrações. apontou para um: -Vá buscar água para
Mas Jucá Badaró não via na sua lavar a ferida.
frente a mata, o principio do mundo. Assistiu todo o tratamento, ele
Seus olhos estavam cheios de ou- mesmo amarrou um pedaço de pano no
tra visão. Via aquela terra negra, a melhor ombro do homem ferido e ajudou a levá-
terra do mundo para o plantio do cacau. -lo para o acampamento junto da mata.
Via na sua frente não mais a mata Os homens iam tremendo, mas iam.
iluminada pelos raios, cheia de estranhas Deitaram o ferido que delirava. Na mata
vozes, enredada de cipós, fechada nas as assombrações estavam soltas.
árvores centenárias, habitada de animais - Adiante - disse Jucá Badaró.
ferozes e assombrações. Via o campo Os homens se espiavam uns aos
cultivado de cacaueiros, as árvores dos outros. Jucá suspendeu o parabélum:
frutos de ouro regularmente plantadas, os -Adiante...
cocos maduros, amarelos. Os machucados e os facões come-
Via as roças de cacau se esten- çaram a cair num ruído monótono sobre a
dendo na terrra onde antes fora a mata. mata, perturbando seu sono.
Era belo. Jucá Badaró olhou na sua frente.
Nada mais belo no mundo que as Via novamente toda aquela terra negra
roças de cacau. Jucá Badaró, diante da plantada de cacau, roças e roças carre-
mata misteriosa, sorria. Em breve ali se- gadas de frutos amarelos. A chuva de
riam os cacaueiros, carregados de frutos, junho rolava sobre os homens, o ferido

Literatura 3 - Aula 4 64 Instituto Universal Brasileiro


pedia água numa voz entrecortada. é a terceira adaptação do mesmo livro
Jucá Badaró guardou o parabélum. para a televisão. A versão de 1975, que
transformou Sonia Braga na maior es-
Parabélum: Certa pistola automáti- trela do Brasil, tem sido considerada a
ca de procedência alemã. mais popular. Outras séries da Globo ba-
seadas em livros de Amado são “Tenda
dos Milagres” (1985), “Tereza Batista”
(1992), “Dona Flor e Seus Dois Maridos”
(1998) e “Pastores da Noite” (2002). A
obra do escritor também serviu de base
para três novelas: “Terras do Sem Fim”
(1981), “Tieta” (1989) - depois da “Ga-
briela” de 1975, a melhor adaptação de
Amado para a televisão - e “Porto dos
Milagres” (2001). A emissora ainda pro-
duziu, em 1978, o caso especial “A Mor-
te e a Morte de Quincas Berro d’Água”,
com Paulo Gracindo no papel principal.
Na Manchete, ainda houve a novela “To-
caia Grande” (1995) e, na Bandeirantes,
a minissérie “Capitães da Areia” (1989).
No cinema, o grande sucesso foi a adap-
Fundação Casa de Jorge Amado. tação de “Dona flor e seus dois maridos”.
Uma instituição cultural que ocupa o casa-
rão em frente ao Largo do Pelourinho, em
Salvador, Bahia, com várias atividades, nú-
cleo de pesquisas, documentação sobre o
próprio Jorge Amado, Zélia Gattai e a litera-
tura baiana, aberta à visitação e à realiza-
ção de cursos, seminários, oficinas, ciclos
de conferências, palestras, lançamentos de
livros e discos, exposições, com enfoque
nos temas literários, artísticos e das ciências
humanas. Atualmente, a Fundação Casa de
Jorge Amado já é considerada um ponto de
referência na geografia cultural de Salvador.
Melhores adaptações para TV:

1. “Gabriela” (1975)
Dirigida por Walter Avancini, a série
“Gabriela” tem altas doses de humor e
sensualidade. E também uma ótima tri-
Jorge Amado na TV e no cinema. lha sonora e a beleza de Sonia Braga.
No ano de seu centenário (2012), Jorge
Amado está novamente na televisão: a 2. “Tieta” (1989)
série “Gabriela”, com Juliana Paes, Hum- Uma das melhores novelas de Walter
berto Martins e Antônio Fagundes nos Avancini. Aqui, o humor dá o tom, em es-
papéis principais, exibida na Rede Globo, pecial na presença da vilã Perpétua (Joana

Literatura 3 - Aula 4 65 Instituto Universal Brasileiro


cio de uma farmácia. Em 1930, transferiu-se
Fomm). Recentemente, saiu em DVD. para Porto Alegre, onde, depois de trabalhar
algum tempo como desenhista e de publicar
3. “A Morte e a Morte de Quincas alguns contos na imprensa local, empregou-
Berro d’Água” (1978) se na Editora Globo como secretário do De-
Este caso especial, exibido em partamento Editorial. Viajou duas vezes aos
1978, é marcante por trazer uma das Estados Unidos, onde ministrou cursos de li-
melhores atuações de Paulo Gracindo. teratura brasileira.
Também está disponível em DVD. Costuma-se dividir a obra de Érico Ve-
ríssimo em três grupos:
Melhores adaptações para o cinema: 1) Romance urbano: Clarissa, Cami-
nhos cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios
1. Dona Flor e Seus Dois Mari- do campo, Saga e o Resto é silêncio. As obras
dos (1976) desta fase registram a vida da pequena bur-
Segundo maior sucesso da história guesia porto-alegrense, com uma visão oti-
do cinema brasileiro, transformou Sonia mista, às vezes lírica, às vezes crítica, e com
Braga na principal estrela (e maior sím- linguagem tradicional, sem maiores inovações
bolo sexual) do cinema brasileiro. estilísticas. Desta fase destaca-se Caminhos
cruzados, considerado um marco na evolução
2. Quincas Berro d’Água (2010) do romance brasileiro. Nele, Érico Veríssimo
Ótima comédia de Sérgio Machado usa a técnica do contraponto, desenvolvida
(de “Cidade Baixa”), com Paulo José no por Aldous Huxley (de quem fora tradutor)
papel do morto que é retirado do leito e que consiste mesclar pontos de vista dife-
para uma última farra. rentes (do escritor e das personagens) com
a representação fragmentária das situações
3. Tenda dos Milagres (1977) vividas pelas personagens, sem que haja no
Um bom trabalho de Nelson Perei- texto um centro catalisador.
ra dos Santos, das obras-primas “Rio 40 2) Romance histórico: O tempo e o
Graus” e “Vidas Secas”, com altas doses vento. A trilogia de Érico Veríssimo procura
de sexualidade e sincretismo religioso. abranger duzentos anos da história do Rio
Grande do Sul, de 1745 a 1945. O primeiro
volume “O continente”, narra a conquista de
Érico Veríssimo São Pedro pelos primeiros colonos e é con-
siderado o ponto mais alto de sua obra. Os
outros dois volumes se intitulam “O retrato” e
“O arquipélago”.
3) Romance político: O senhor Embai-
xador, O prisioneiro e Incidente em Antares.
Escrito durante o período da ditadura militar,
iniciada em 1964, denunciam os males do
autoritarismo e as violações dos direitos hu-
manos. Desta série destaca-se Incidente em
Antares.

• O tempo e o vento
Érico Lopes Veríssimo nasceu em
Cruz Alta, em 1905 e faleceu em Porto Alegre, Sinopse e detalhes
em 1975. Concluiu o 1º grau (antigo ginásio)
em Porto Alegre. De volta a sua cidade natal, Rio Grande do Sul, final do século XIX.
empregou-se no comércio, foi bancário e só- As famílias Amaral e Terra-Cambará são
Literatura 3 - Aula 4 66 Instituto Universal Brasileiro
inimigas históricas na cidade de Santa Fé.
Quando o sobrado dos Terra-Cambará é cer- um ano após o casamento. Dona Hen-
cado pelos Amaral, todos os integrantes da riqueta cortara - lhe o cordão umbilical
família são obrigados a defender o local com com a mesma tesoura de podar com
as armas que têm à disposição. Esta vigília que separara Pedrinho da mãe.
dura vários dias, o que faz com que logo a E era assim que o tempo se arras-
comida escasseie. Entre eles está Bibiana, tava, o sol nascia e se sumia, a lua pas-
matriarca da família que recebe a visita de sava por todas as fases, as estações iam
seu falecido esposo, o capitão Rodrigo. Jun- e vinham, deixando sua marca nas árvo-
tos eles relembram a história não apenas de res, na terra, nas coisas e nas pessoas.
seu amor, mas de como nasceu a própria fa- E havia períodos que Ana perdia
mília Terra-Cambará. a conta dos dias. Mas entre as cenas
que nunca mais lhe saíram da memória
Leia um trecho: estava à tarde em que dona Henriqueta
Esse trecho do grande romance de Érico fora para cama com uma dor aguda no
Veríssimo faz menção ao tempo e aos lugares lado direito, ficara se retorcendo duran-
onde a trama se desenvolve, apresentando te horas, vomitando tudo que engolia,
personagens como Ana Terra, Seu Maneco, gemendo e suando frio. E quando Antô-
Antônio, Eulália.... nio terminou de encilhar o cavalo para
ir até o Rio Pardo buscar recursos, já
“Muitos anos mais tarde, Ana Ter- era tarde demais. A mãe estava morta.
ra costumava sentar-se na frente de Era inverno e ventava. (Érico Veríssi-
sua casa para pensar no passado. E mo, O Tempo e o Vento)
no seu pensamento como que ouvia
o vento de outros tempos e senti ao
tempo passar, escutava vozes, via ca-
ras e lembrava-se de coisas... O ano
de 81 trouxera um acontecimento triste
para o velho Maneco: Horácio deixara
a fazenda, a contragosto do pai, e fora
para o Rio Pardo, onde se casara com Modernismo 2ª Fase – Prosa
a filha de um tanoeiro e se estabelece-
ra com uma pequena venda. Em com- Autores da prosa regionalista
pensação, nesse mesmo ano Antônio
casou-se com Eulália Moura, filha dum A literatura quase sempre privilegia
colono açoriano dos arredores do Rio o romance quando quer retratar a reali-
Pardo, e trouxe a mulher para a estân- dade, analisando ou denunciando-a.
cia, indo ambos viver no puxado que O Brasil e o mundo viveram profun-
tinham no rancho. das crises nas décadas de 1930 e 40,
Em 85 uma nuvem de gafanho- nesse momento o romance brasileiro
tos desceu sobre a lavoura deitando a se destaca, pois se coloca a serviço da
perder toda a colheita. Em 86, quando análise crítica da realidade.
Pedrinho se aproximava dos oito anos, Na prosa, foi evidente o interesse
uma peste atacou o gado e um raio ma- por temas nacionais, uma linguagem
tou um dos escravos. mais brasileira, com um enfoque mais
Foi em 86 mesmo ou no ano se- direto dos fatos marcados pelo Realis-
guinte que nasceu Rosa, a primeira filha mo – Naturalismo do século 19. Atingiu-
de Antônio e Eulália. A verdade era que se elevado grau de tensão nas relações
a criança tinha nascido pouco mais de do “eu” com o mundo; é o encontro do

Literatura 3 - Aula 4 67 Instituto Universal Brasileiro


escritor com seu povo. Havia uma bus- • Raquel de Queiroz: O quinze e
ca do homem brasileiro nas várias re- Memorial de Maria Moura.
giões, por isso, o regionalismo ganhou
importância, com destaque às relações
da personagem com o meio natural e
social. O romance focou o regionalis-
mo, principalmente o nordestino, onde
problemas como a seca, a migração, os
problemas do trabalhador rural, a misé-
ria e a ignorância foram ressaltados.
Além do regionalismo, destaca-
ram-se também outras temáticas, surgiu
o romance urbano e psicológico, o ro-
mance poético-metafísico e a narrativa
surrealista.
Destacaram-se e ganharam grande • Jorge Amado: Terras do sem-
popularidade: fim, Gabriela e Dona Flor e seus dois
• Graciliano Ramos: Vidas Secas maridos.
e São Bernardo.

• Érico Veríssimo: O tempo e o


vento e Incidente em Antares.
• José Lins do Rego: Menino do
engenho e Fogo Morto.

Literatura 3 - Aula 4 68 Instituto Universal Brasileiro


a) ( ) O trecho acima é do romance Vi-
das Secas, de Graciliano Ramos; o narrador é
Fabiano, um retirante que, junto com a família,
procura sua sobrevivência.
b) ( ) Trata-se de um trecho do romance
1. Leia: Menino de Engenho, de José Lins do Rego,
em que o narrador relembra sua infância vivi-
“Os óculos de aros grossos, pretos, faziam da no engenho do avô.
estranho conjunto com os olhos duros, quase
c) ( ) O autor desse trecho é Erico Ve-
vazios, daquele homem magro, que apesar do
1m75 de altura e uma certa curvatura da colu-
ríssimo, que narra, em Solo de Clarineta, suas
na, parecia ser mais alto. Os ternos, poucos e memórias de menino, junto à família.
sempre muito usados, denunciavam a nenhuma d) ( ) O trecho acima pertence ao ro-
preocupação com a apresentação. Aliás, Graci- mance O Quinze, de Raquel de Queiroz, no
liano Ramos não tinha muito a apresentar de si qual o narrador descreve o conflito vivido pela
mesmo além de sua obra, densa, pesada, ape- personagem Conceição.
sar de todo o vazio da paisagem do sertão das
Alagoas, de calor inclemente, galhos secos e 3. Qual o primeiro romance essencial-
vida pouca. .... A secura do sertão fizera marcas mente regionalista de Raquel de Queiroz?
profundas na sua alma. E as cicatrizes geral-
mente têm história, mas não tem beleza” ...
a) ( ) O quinze
(Fábio Grecchi – Jornal Rio – 20/03/2003) b) ( ) Caminhos de pedra
c) ( ) As três Marias
O texto fala de Graciliano Ramos, alma so- d) ( ) Memorial de Maria Moura
frida, marcada com cicatrizes profundas, olhar
duro, frio, insensível, coluna curvada, não apre- 4. Leia sobre “Jorge Amado” e assina-
sentou quase nada de si mesmo. Retratou em le a alternativa correta.
seus livros problemas do sertão das Alagoas. As-
sinale a alternativa que cita a obra do autor que “A Semana de Arte Moderna, realiza-
conta a história de uma família de retirante, fugin- da em São Paulo, em fevereiro de 1922 deu
do da seca, do calor, da miséria... origem ao Modernismo. A primeira obra
publicada pelo modernista Jorge Amado
a) ( ) Vidas secas foi o romance O país do Carnaval (1931).
b) ( ) Macunaíma Escreveu Capitães da Areia (1937), Terras
do sem-fim (1942) entre outras. Nas suas
c) ( ) Os sertões
primeiras obras, os temas abordados ca-
d) ( ) Perto do coração selvagem racterizam-se pela denúncia das injustiças
sociais, explorações, conflitos num mundo
2. Assinale a alternativa correta corres- de marginais, operários, prostitutas, meni-
pondente ao texto abaixo. nos abandonados etc. Com a publicação
de Gabriela, cravo e canela os elementos
“As terras de Santa Rosa andavam lé- folclóricos e populares também passam a
guas e léguas de norte a sul. O velho José fazer parte de suas obras”.
Paulino tinha este gosto: o de perder a vista
nos seus domínios. Gostava do descansar a) ( ) Na “Semana de 22”, Jorge Ama-
os olhos em horizontes que fossem seus.
do fez sua primeira publicação.
Tudo o que tinha era para comprar terras e
mais terras. Herdara o Santa Rosa pequeno,
b) ( ) Jorge Amado construiu suas pri-
e fizera dele um reino, rompendo os seus meiras obras com elementos folclóricos.
limites pela compra de propriedades ane- c) ( ) Jorge Amado pertenceu à Se-
xas. Acompanhava o Paraíba com várzeas gunda fase do Modernismo.
extensas e entrava caatinga adentro.” d) ( ) Capitães da Areia foi escrito an-
tes do romance O país do Carnaval.
Literatura 3 - Aula 4 69 Instituto Universal Brasileiro
Comentário. Raquel de Queiroz pu-
blicou seu primeiro romance, O Quinze,
em 1930. Toda sua obra é essencialmente
regionalista. Em seus romances, é apre-
sentado o Ceará, as pessoas da região, a
1. a) ( x ) Vidas secas seca, numa narrativa dinâmica com diálo-
gos fáceis. O quinze é uma obra dividida
Comentário. Vidas Secas é conside- em dois planos: no primeiro, se destaca o
rado um dos romances mais importantes de amor impossível entre Conceição e Vicen-
Graciliano Ramos, autor da segunda fase te, completamente diferentes um do outro,
modernista. A busca por uma literatura na- tanto em nível social como intelectual; no
cional levou os autores a procurar em suas segundo, destaca-se o sofrimento da famí-
regiões matéria-prima para suas obras, no lia de Chico Bento que, forçada pela seca,
caso de Graciliano Ramos a fonte foi o ser- é obrigada a migrar para a capital Fortale-
tão nordestino. O livro é cheio de termos za em busca de sobrevivência. Na mesma
regionais e a escrita se aproxima mais da década, foram escritos Caminhos de pedra
fala, o que caracteriza a linguagem colo- (1937) e As três Marias (1939). Memorial
quial. Os temas sociais marcam presença de Maria Moura (1992) é considerado seu
na literatura que agora também tem o pa- último romance.
pel de denunciar a miséria e a exploração.
Os retirantes, como o próprio nome indica, 4. c) ( x ) Jorge Amado pertenceu à
por causa da seca, não podem continuar a Segunda fase do Modernismo.
viver no espaço que ocupavam. São, por-
tanto, obrigados a retirar-se para buscar Comentário. A Semana de 22 dá iní-
outros lugares. cio à primeira fase do Modernismo. Jorge
Amado foi um dos grandes escritores bra-
2. b) ( x ) Trata-se de um trecho do ro- sileiros da segunda fase, também chamada
mance Menino de Engenho, de José Lins do Geração de 30. Sua primeira publicação foi
Rego, em que o narrador relembra sua infân- O país do Carnaval em 1931. Capitães de
cia vivida no engenho do avô. Areia também se caracteriza pela denúncia
das injustiças sociais, explorações e con-
Comentário. O trecho é do romance flitos, mas foi publicado depois (1937). So-
Menino de Engenho, de José Lins do Rego. mente com a publicação de Gabriela, cravo
O autor teria escrito este romance com o e canela os elementos folclóricos e popula-
objetivo de relatar a vida de seu avô, José res passam a fazer parte de suas obras.
Paulino, que era uma das figuras mais repre-
sentativas de um senhor de engenho, além
de recordar suas experiências de infância,
vividas no Nordeste do Brasil. O autor con-
sagrou-se como um romancista regionalis-
ta, juntamente com Graciliano Ramos, Érico
Veríssimo, Jorge Amado e Raquel de Quei-
roz. A temática nordestina foi uma tendência
que marcou a segunda fase do movimento
modernista. Os indicadores mais fortes no
texto são: a citação do velho José Paulino e
a referência às terras de Santa Rosa, onde
ficava o Engenho Santa Fé.

3. a) ( x ) O quinze
Literatura 3 - Aula 4 70 Instituto Universal Brasileiro

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