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FACULDADE DE DIREITO

UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Direito Constitucional I
(Turma Única)
Exame da Época de Recurso
5 de Fevereiro de 2015

Duração: 2 horas

Tópicos de correção

I - (12 valores)

Atente nas seguintes afirmações, escolhendo, em cada grupo, apenas a afirmação


verdadeira, transcrevendo-a para a sua folha de teste com a indicação da respetiva alínea.
Relativamente aos grupos 2 e 4, a sua escolha tem de ser devidamente fundamentada,
comentando e justificando apenas as afirmações selecionadas.

1. (1,5 valores)

a) Em Portugal, não se encontra consagrado o mecanismo da judicial review.


b) Contrariamente ao constitucionalismo norte-americano, o constitucionalismo francês é
marcado pela descontinuidade formal.
c) A ideia de Constituição como supreme law constitui um contributo do constitucionalismo
francês.

2. (1,5 valores + 3 valores)

a) Entre nós, o poder constituinte originário foi exercido sete vezes.


b) Nem todos os Autores consideram que o procedimento constituinte que esteve na base da
feitura da Constituição de 1933 possa ser designado de procedimento constituinte direto.
c) A Constituição portuguesa é marcada por uma rigidez relativa.

Tópicos de correção: Constituição rígida e constituição flexível (conceito); o poder constituinte


derivado e através deste a abertura à realidade (“rigidez relativa”); os limites ao poder de
revisão (os limites formais e os limites materiais) – artigo 284.º e ss CRP.

3. (1,5 valores)

a) Nos termos da Constituição, o Governo não pode propor a realização de um referendo


sobre direitos, liberdades e garantias.
b) Os partidos políticos são associações públicas com funções constitucionais.
c) Nos termos da Constituição, a decisão sobre a convocação de um referendo cabe à
Assembleia da República.
4. (1,5 valores+ 3 valores)

a) Na opinião do Curso, nem todos os direitos formalmente constitucionais são materialmente


fundamentais.
b) Qualquer tratamento diferenciado que tenha na sua base uma das categorias previstas no n.º
2 do artigo 13.º da Constituição viola o princípio da igualdade.
c) Por força da Constituição, os estrangeiros não gozam dos mesmos direitos que os
cidadãos portugueses.  
 
Tópicos de correção: o princípio da universalidade (regime geral dos direitos fundamentais); o
princípio da universalidade em sentido restrito (artigo 12.º/1) e a sua articulação com a regra da
equiparação entre nacionais e estrangeiros (artigo 15.º/1); as exceções à regra: os direitos
reservados aos cidadãos portugueses (15.º, n.ºs 2 e 3); as exceções às exceções: os direitos de
que podem ser titulares os estrangeiros (artigo 15.º/3/4/5).

II – 8 valores

Tendo como fim garantir a segurança nacional e colaborar com a comunidade


internacional na procura de membros e desmantelamento de células terroristas, é aprovado pelo
Governo um decreto-lei nos termos do qual as Forças de Segurança Pública passam a dispor do
poder de infiltrar-se em qualquer sistema informático, acedendo, por exemplo, a documentos, e-
mails e páginas de Internet consultadas.

a) Aprecie a medida em causa tendo em conta o regime específico dos direitos,


liberdades e garantias. (5,5 valores)

Tópicos de correção: restrição aos direitos liberdades e garantias (conceito); referência ao


regime específico dos direitos, liberdades e garantias e respectivo âmbito de aplicação (artigo
17.º); artigo 18.º/2/3; identificação de um dos direitos restringidos: direito à reserva da
intimidade da vida privada (artigo 26.º); identificação do tipo de restrição em causa: restrição
implícita; limites dos limites (conceito e enumeração); identificação dos limites dos limites
violados no caso concreto e referência aos artigos em que se encontram plasmados: requisito de
lei formal; princípio da proporcionalidade em sentido amplo; princípio da salvaguarda do
núcleo essencial.

b) Por motivos de urgência, o referido decreto-lei começou a produzir efeitos a partir do


dia 12 de Janeiro deste ano, data da sua aprovação em Conselho de Ministros. Publicado em
Diário da República no dia 20 de Janeiro de 2015, é de salientar, ainda, que o mesmo não refere
se este sistema de vigilância é apenas aplicável a indivíduos suspeitos de ligação a células
terroristas e em que termos o mesmo operará.
Tendo em conta estes novos elementos, pronuncie-se, novamente, sobre este diploma,
agora à luz do princípio da segurança jurídica e da proteção da confiança dos cidadãos.
(2,5 valores)

Tópicos de correção: o princípio da segurança jurídica e da proteção da confiança dos


cidadãos como um dos subprincípios concretizadores do princípio do Estado de Direito; o
princípio geral da segurança jurídica relativamente a atos normativos: o princípio da
determinabilidade das normas jurídicas; a proibição de pré-efeitos de atos normativos; e a
questão da retroatividade; identificação e concretização dos princípios violados no caso
concreto.

Legislação: Constituição da República Portuguesa, sem anotações ou comentários.

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