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DICIONÁRIO DE

HISTÓRIA RELIGIOSA
DE PORTUGAL
CENTRO DE E S T U D O S DE HISTÓRIA RELIGIOSA
DA UNIVERSIDADE CATÓLICA P O R T U G U E S A
DIRECÇÃO DE
CARLOS MOREIRA AZEVEDO

C-I

COORDENAÇÃO DE:
Ana Maria Jorge
Ana Maria Rodrigues
António Camões Gouveia
António Matos Ferreira
David Sampaio Barbosa
José da Silva Lima
Luís Filipe T h o m a z
Paulo F. Oliveira Fontes
Samuel Rodrigues

SECRETARIADO:
Jacinto Salvador Guerreiro

Círculo^ Leitores
CAPA E DESIGN GRÁFICO:
Fernando Rochinha Diogo
REVISÃO TIPOGRÁFICA:
Fotocompográfica, Lda.
CARTOGRAFIA:
Fernando Fardai
COMPOSIÇÃO:
Fotocompográfica, Lda.
FOTOMECÂNICA:
Fotocompográfica, Lda.

® Círculo de Leitores SA e Centro de Estudos


de História Religiosa da Universidade Católica
Portuguesa
Primeira edição para a língua portuguesa
Impresso e encadernado em Setembro de 2000
por Printer Portuguesa, Ind. Gráfica, Lda.
Casais de Mcm Martins, Rio de Mouro
Edição n.° 4195
Depósito legal n.° 153 274/00
ISBN 972-42-2383-3
\

CONIMBRICENSES. Designação atribuída aos oito li- priano da matemática e da astronomia; Marcos da
vros ou compêndios elaborados pela Companhia de filosofia aristotélica, e Gómez de outras matérias.
Jesus e destinados ao Curso Filosófico do Colégio Corria o ano de 1561, e Pedro da Fonseca, absorvido
das Artes de Coimbra depois que, em 1542, os Jesuí- na redacção das Institutiones Dialecticarum, que de-
tas* assumiram a gestão do referido colégio. A for- sejava servissem de prolegómeno ao Curso Filosófi-
ma portuguesa, substantiva, traduz um adjectivo lati- co, atrasou o andamento dos trabalhos, dos quais
no, que, no título dos livros, se acha no genitivo: acabou por se desligar. Luís de Molina tentou que os
Commentarii Collegii Conimbrícensis Societatis le- seus escritos fossem adoptados e impressos com des-
su. Logo na época de aparecimento dos compêndios tino ao curso, mas a ideia geratriz do projecto reque-
estes começaram a ser designados pela forma sintéti-
ca, Conimbricenses, com específica referência aos
compêndios. Não obstante, o nome também se predi-
ca dos autores dos compêndios e dos professores que
regeram o Curso Filosófico na sua vigência (1542-
-1759) e na obediência ao magistério da Companhia
de Jesus, mas, com rigor, o termo é absolutamente
predicável dos livros que integram os Comentários
do colégio conimbricense da Companhia de Jesus,
que são: 1. Commentarii Collegii Conimbrícensis
S. I. in Octo Libros Physicorum (1592); 2. [...] In
Quatuor Libros de Ccelo (1593); 3. [...] In Libros
Meteororum (1593); 4. [...] In Libros Aristotelis, qui
Parva Naturalia appelantur (1593); 5. [...] In Libros
Ethicorum Aristotelis ad Nicomachum (1593); 6. [...]
In duos Libros De Generatione et Corruptione
(1593); 7. [...] In tres Libros de Anima incorporando
dois tratadinhos anexos, o De Anima Separata, de
Baltazar Álvares, e o Tractatio [...] ad quinque sen-
sus, de Cosme de Magalhães (1598); 8. [...] In Uni-
versam Dialecticam (1606). Os primeiros sete com-
pêndios foram redigidos pelo padre Manuel de Góis
(que se tornou o mais completo compendiarista filo-
sófico de que há notícia) e o oitavo teve redacção de
Sebastião do Couto. I. Origem: Na época, os estu-
dantes gastavam o tempo das aulas a escrever o dita-
do dos mestres, cerceando-se a disponibilidade para
o diálogo e para o debate oral, muito necessários à
prática da oralidade, no ensino, no foro e na discus-
são dialéctica. Segundo Pedro da Fonseca, estes pre-
juízos seriam evitados caso se elaborassem uns com-
pêndios que fossem lidos no curso de Filosofia.
O visitador, padre Jerónimo Nadal, de serviço na
província portuguesa, encarregou uma comissão,
composta pelos padres Pedro da Fonseca, Marcos
Jorge, Cipriano Suarez e Pedro Gómez, para dar an-
damento ao projecto dos compêndios. Fonseca trata-
ria da parte filosófica e respectiva bibliografia, Ci- Frontispício do Commentarii Collegii Conimbrícensis,
1594 (Lisboa, Biblioteca Nacional).

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CONIMBRICENSES

ria uma autoria não nominal e individual, mas uma cognitio rerum, ut sunt.» Filosofia é o conhecimento
autoria colegial. Os compêndios teriam redactor ou das coisas como são, por suas causas {De Physica,
redactores, mas a titularidade seria a do colégio. proémio), e divide-se em natural, moral e dialéctica,
Afastado Pedro da Fonseca, Manuel de Góis viu-se prevalecendo o critério da verdade sobre as opiniões
encarregado da redacção da obra (1582), num mo- dos filósofos. A ciência é o conhecimento certo de
mento em que ainda se não definira qual o primeiro cada uma das coisas em particular e de todas em ge-
compêndio a publicar, que deveria ser o de lógica, ral, de forma exaustiva, com certeza, determinação,
mas, estando os tratados físicos mais adiantados, e objectividade, fundamentação e discursividade ra-
para se não perder tempo, decidiu o colégio começar cional, as cinco colunas disciplinares. O medianeiro
por eles, e, com efeito, enquanto o tratado de lógica da ciência é o conhecimento, adequação do objecto à
só ficou completo em 1606, o de metafísica não che- mente, por via sensitiva e por via intelectual, mas es-
gou a ser composto. No decurso da publicação dos ta via carece da primeira - «omnis nostra cognitio a
compêndios, e ainda depois, houve constante refle- sensu oritur» - todo o conhecimento se origina nos
xão sobre modificações na seriação e mesmo sobre sentidos (Universam Dialecticam, n, 6). A lógica in-
renovação de conteúdos, mas nenhuma se efectivou cumbe o ser uma ciência da própria ciência em geral
por contingências de ordem diversa. Quanto à auto- e em particular. A física tem por objecto a própria
ria, ela pertence colegialmente ao Colégio das Artes, natureza, na ordem material e na ordem formal, sen-
embora saibamos quem foram os redactores. 2. Es- do um prolegómeno à introdução demonstrativa da
trutura: Cada compêndio, na especialidade, tenta ideia de motor imóvel. Cada coisa possui natureza,
uma visão enciclopédica dos temas e dos problemas, essência e quididade. O universo é perfeição no todo
apresentando as teses, inscritas em questões, ou em e nas partes, uma ordem universal. A alma define-se
artigos. Expostas e descritas, são confrontadas umas como um «acto primeiro substancial do corpo orgâ-
com as outras, segundo o método sic et non, de onde nico e com vida em potência» (De Anima, n, i), sim-
derivam, ou a confirmação, ou a confutação, ou a re- ples espiritual, subsistente e imortal. A ética, bem
futação da tese ou teses expostas, por forma a con- para a alma, é a ciência que visa levar a um feliz es-
cluir-se pela estabilidade de uma, ou já consensual, tado de vida. 4. Projecção: «Apogeu da elaboração
ou de novo formulada. O magistério tético afere-se metafísica portuguesa» ( C A E I R O - O pensamento,
ao aristotelismo, não só o de Aristóteles (mestre de p. 64), os Conimbricenses beneficiaram da cadeia dc
primeira instância do curso) mas também o dos pos- escolas regidas pelos Jesuítas na Europa, na América
teriores aristotelismos. No centro de cada página im- e na Ásia, em cujos colégios se leram. Ainda que
prime-se o texto de Aristóteles sobre um problema, nos meados do século XVII já se considerassem de-
e, envolvendo-o, dispõem-se os comentários, as glo- sactualizados, não quanto aos princípios, mas quanto
sas e as postilas. Dadas as explanações segundo aos modos, sobretudo nas disciplinas naturais e físi-
Aristóteles, seguem-se as questões, divididas em ar- cas, foram deveras apreciados e lidos, e até traduzi-
tigos, o último dos quais, em cada tema, deve res- dos, para a língua chinesa. As edições europeias, em
ponder irrefutavelmente aos sofismas, apresentando diversos países, contam-se por 112, sendo alguns
a resolutione, ou resolução do problema. Cada ques- compêndios mais editados que outros. Reflexos da
tione propõe uma sequência de articulus, cada arti- sua doutrina encontram-se professadamente cm
culus constitui um passo do itinerário para se atingir obras dc Leibniz, de Descartes, de Francisco Suarez
a solução, a resolutione. À colação chamam-se as te- Granatense, de João de São Tomás, e, talvez, em Es-
ses adversas sujeitas a uma refutação mediante a res- pinosa, segundo a tese de Joaquim dc Carvalho.
ponsio, por vezes seguida de uma asserção (assertio- A renovação dos compêndios ainda foi iniciada, já o
ne), encerrando-se o ciclo com uma conclusão século xvii ia alto, pelo padre António Cordeiro, au-
0conclusione). As questões são uma das partes mais tor de dois tomos intitulados Cursus Philosophicus
interessantes dos compêndios, por gozarem de clare- Conimbricensis (1714 e 1713), em que procurou res-
za, de simplicidade e de novidade, ao trazerem à es- taurar a imagem conimbricense, a qual, no entanto,
cola os factos novos, conhecidos mediante os Desco- ficou restrita à classicidade dos originais do sécu-
brimentos*, nas ordens geográfica, cosmográfica, l o x v i ( v . ESCOLÁSTICA; LIVRO RELIGIOSO).
astronómica e antropológica. O primeiro compêndio J. P I N H A R A N D A G O M E S

trata da física, o segundo, do universo e do céu, o


B I B L I O G R A F I A : A N D R A D E , António Alberto - Contributos para a história
terceiro continua o segundo na especialidade, ver-
da mentalidade pedagógica portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional,
sando a teoria dos meteoros e dos fenómenos celes- 1982. CAEIRO, Francisco da G a m a - O p e n s a m e n t o filosófico do sé-
tes e terrestres, o quarto aduz os «pequenos naturais» culo xvi ao século XVIM e m Portugal e no Brasil. Revista Portuguesa de
Filosofia. 38 (1982) 51-90. CARVALHO, J o a q u i m de - Descartes e a cul-
de Aristóteles relativos à natureza humana, o quinto tura filosófica portuguesa. Lisboa: A c a d e m i a das Ciências, 1939. GO-
expõe a ética enquanto ciência moral, o sexto, da vi- MES, J. Pinharanda - Os Conimbricenses. Lisboa: Instituto de Cultura e
da e da morte e dos elementos universais, o sétimo Língua Portuguesa, 1992, p. 177-186. C o n t e m elenco bibliográfico alar-
gado.
da psicologia e, por fim, o oitavo, da lógica, assente
em Porfírio e no Organon de Aristóteles. Os Conim-
bricenses definem-se, na essência, como um «aristo-
CONSELHO PRESBITERAL. 1. Natureza do conselho
telismo integral», um estudo geral de todas as disci-
presbítera!: O Código dc Direito Canónico dedica os
plinas, dispostas segundo a arquitectura e a doutrina
cânones 495 a 501 ao conselho presbiteral. E um or-
de Aristóteles e de um exaustivismo aristotélico, o
«Institutum Aristotelis» (Góis, De Generatione, ganismo recente na vida da Igreja Católica, de cons-
Lib. ii, initium). 3. Algumas teses: «Philosophia est tituição obrigatória e não facultativa, introduzido
pelo II Concílio do Vaticano. Os documentos do Va-

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CONSELHOS PASTORAIS

ticano II que estão na origem do conselho presbiteral regularidades contra a própria comunhão eclesial e
são o decreto Christus Dominus (n.° 27b) e, sobretu- presbiteral, sendo neste caso demitido pelo bispo
do, o decreto Presbyterorum Ordinis (n.° 7). O motu {cf. cânon 501, § 3); quando a sé episcopal vaga. So-
proprio Ecclesiae Sanctae, de 6 de Agosto de 1966, bressai, pois, a natureza do conselho presbiteral de
regulamenta mais em concreto este órgão, tornando- estar sempre em função do bispo e de ser coordenado
-o obrigatório em todas as dioceses (i, 15, 1). Outros por ele. Para que no tempo de vacância da diocese es-
documentos posteriores vieram aprofundar a sua rea- ta não seja privada da resolução de vários assuntos, as
lidade. O conselho presbiteral tem estatutos pró- competências do conselho presbiteral são desempe-
prios, aprovados pelo bispo. O cânon 495, § 1 apre- nhadas pelo colégio dos consultores {cf. cânon 501,
senta-nos a natureza e a finalidade do conselho § 2). 6. Portugal: Fez-se um grande esforço após o
presbiteral. É um grupo de presbíteros (sacerdotes) II Concílio do Vaticano para a constituição dos conse-
que representa os presbíteros da diocese, uma espé- lhos presbiterais, segundo a legislação eclesiástica. To-
cie de senado do bispo. A sua finalidade é a de aju- das as dioceses possuem esse organismo, que tem sido
dar o bispo no governo da diocese, para que o bem meio de uma maior cooperação entre os bispos e os
pastoral do povo de Deus seja realizado de forma seus presbíteros {cf. Anuário Católico Português,
eficaz. Não pode ser visto como expressão do direito 1995-1998). Um decreto de aplicação do novo Código
de associação dos clérigos e de reivindicação de in- de Direito Canónico, por parte da Conferência Episco-
teresses. O conselho presbiteral tem um fundamento pal Portuguesa*, promulga algumas normas sobre os
teológico que se baseia no sacramento da Ordem. conselhos presbiterais - cf. Lúmen. 46 (1985) 149.
O bispo e os presbíteros participam do mesmo e úni- MANUEL SATURINO GOMES

co sacerdócio de Cristo, embora cada qual no seu


BIBLIOGRAFIA: C O N G R E G A Ç Ã O DO C L E R O - Directório para o ministério e
devido grau. 2. Atribuições: O conselho presbiteral, vida dos presbíteros. 3 1 de Janeiro de 1 9 9 4 . M A R C H E S I , M . - I consigli
como o define claramente o código, não tem ordina- diocesani. In A. LONGHTIANO, dir. - Chiesa Particolare. Bologna: EDB,
riamente poder deliberativo mas sim consultivo. Isto 1 9 8 5 . p. 1 1 9 - 1 5 0 . S O A R E S , A . Leite - Relação bispo-presbitério. In Co-
DEX Iuris Canonici de 1983: 10 anos de aplicação na Igreja e em Por-
não lhe diminui a importância, mas faz dele um ins- tugal. Lisboa: C E D C , 1 9 9 5 , p. 4 9 - 8 0 .
trumento de consulta e de reflexão do bispo diocesa-
no em ordem ao bem da diocese. Actualmente, não CONSELHOS PASTORAIS. 1. Conselho pastoral dio-
está previsto nenhum caso para pedir voto deliberati- cesano: «Em cada diocese, na medida em que as cir-
vo. O bispo deve ouvir o conselho presbiteral nos cunstâncias pastorais o aconselharem, constitua-se o
casos previstos pelo direito: realização do sínodo* conselho pastoral, ao qual pertence, sob a autoridade
diocesano, erecção, supressão ou modificação de pa- do bispo, investigar e ponderar o concernente às ac-
róquias, obrigatoriedade dos conselhos paroquiais tividades pastorais da diocese e propor conclusões
pastorais, etc. 3. Membros: Participam representan- práticas» (cânon 511). O conselho pastoral diocesa-
tes do clero secular* e do clero regular*, pois todos no é um organismo nascido do II Concílio do Vatica-
fazem parte do presbitério da diocese. Os estatutos no {cf Christus Dominus, n.° 27). Documentos pos-
devem especificar quem (e quantos) são os membros teriores da Santa Sé foram delineando o seu perfil.
natos e os eleitos. Por sua vez, os presbíteros, agru- O actual Código de Direito Canónico (1983) consagra-
pados por zonas pastorais e por outros círculos (vi- -lhes os cânones 511-514. É um «conselho», formado
gararias, arciprestados...) elegem os seus represen- por fiéis, designados segundo estatutos próprios. Co-
tantes. Além destas zonas, há que considerar os mo se depreende do código, a sua constituição não é
presbíteros dos institutos de vida consagrada e aque- obrigatória, ficando pois ao critério do bispo dioce-
les que exercem o seu ministério em certos sectores sano. Nem sempre as estruturas e o grau de desen-
não territoriais (professores de Educação Moral, ca- volvimento de algumas dioceses permitem o apare-
pelães de hospitais, prisões, etc.). Nos vicariatos e cimento deste órgão. E «pastoral» no sentido que
nas prefeituras apostólicas {cf cânon 371, § 1), o deve envolver-se nos assuntos pastorais da diocese,
conselho presbiteral deve ser composto, pelo menos, aconselhando o bispo nos temas que este achar por
por três presbíteros missionários que podem emitir o bem colocar à sua consideração. Um ponto de agen-
seu parecer por carta ( c f . cânon 495, § 2). 4. Dura- da que normalmente é submetido à apreciação do
ção e funcionamento: O conselho presbiteral é um conselho pastoral diocesano é o programa pastoral
organismos permanente mas temporário quanto aos da diocese, elaborado por um período de um ou mais
seus membros, pois estes devem ser renovados num anos. O bispo preside ao conselho e serve-se dele
período que não ultrapasse os cinco anos ( c f . cânon para a orientação pastoral da diocese. É de natureza
501, § 1). Os estatutos do conselho presbiteral pode- consultiva e reúne uma ou duas vezes ao ano. Per-
rão prever uma duração de quatro ou de três anos. manece como instituição permanente, embora os
O bispo preside às reuniões do conselho presbiteral, seus membros e a sua acção sejam temporários.
podendo delegar noutros presbíteros a função de O bispo escuta os pareceres, toma decisões e manda-
conduzir os trabalhos. Será ele a aprovar a agenda, a i s executar no tempo oportuno, sem estar vinculado
convocar as reuniões, a estimular a participação dos a nenhuma maioria ou grupo de pressão. Cada con-
presbíteros, a tomar as decisões. A periodicidade das selho pastoral diocesano deve possuir os seus estatu-
sessões do conselho presbiteral depende dos estatu- tos, aprovados pelo bispo diocesano. Explicitam a
tos, podendo limitar-se a duas sessões ordinárias por sua natureza, a sua constituição, as suas funções e
ano. 5. Cessação de funções: O conselho presbiteral funcionamento, a duração do mandato. Os seus
cessa as suas funções: quando expira o mandato para membros devem ser baptizados na Igreja Católica,
o qual foi nomeado pelo bispo; quando comete ir- pessoas de fé firme, de bons costumes e notáveis pe-

7
CONSELHOS PASTORAIS

la prudência (cf. cânon 512, § 3). Estas exigências sente na santidade de vida dos missionários, de acor-
têm fundamento no sentido de que o conselho pasto- do com o lema do fundador: «Primeiro santos, de-
ral diocesano é um órgão de comunhão e de vida da pois missionários.» Estatuem as suas constituições
igreja diocesana; em nada se identifica com os con- que: «O Instituto é uma Congregação missionária,
selhos de administração ou de consultadoria das em- clerical, de direito pontifício, integrando sacerdotes
presas. Os membros são leigos, clérigos e religiosos e irmãos leigos, com votos públicos, simples, tempo-
de modo a haver uma certa representatividade pes- rários e perpétuos, na dependência da Sagrada Con-
soal e territorial (regiões, vigararias, arciprestados) gregação para a Evangelização dos povos» (Cst.
bem como das diversas condições sociais e sectores n.° 7). O instituto é uma família de consagrados para
de apostolado (cf. cânon 512, § 2). 2. Conselho pas- a evangelização ad gentes «por toda a vida, numa
toral paroquial: O único cânon do código dedicado comunhão fraterna, na profissão dos conselhos evan-
ao conselho pastoral paroquial é o 536: «Se, a j u í z o gélicos, tendo Maria por modelo e guia» (Cst. n.° 4).
do bispo diocesano, ouvido o conselho presbiteral, Em Portugal, o primeiro contacto dos Missionários
for oportuno, constitua-se em cada paróquia o conse- da Consolata com os territórios ultramarinos come-
lho pastoral, presidido pelo pároco, e no qual os çou em Moçambique* no ano de 1925, data em que
fiéis, juntamente com aqueles que por força do ofí- quatro missionários chegaram à cidade da Beira, de
cio participam no cuidado pastoral da paróquia, onde seguiram para a missão do Zambo, na Zambé-
prestem a sua ajuda na promoção da acção pastoral» zia. A falta de missionários criava enormes dificul-
(§ 1). «O conselho pastoral tem apenas voto consul- dades à evangelização daquelas terras, então sob a
tivo, e rege-se pelas normas estabelecidas pelo bispo bandeira portuguesa. A admiração nutrida por
diocesano» (§ 2). Pela legislação canónica não é D. Teodósio Clemente de Gouveia pelos Missioná-
obrigatória a constituição do conselho pastoral paro- rios da Consolata fez com que estes se instalassem
quial, a menos que o bispo, ouvido o conselho pres- nos territórios a sul do rio Save e junto da cidade de
biteral, o julgue oportuno. Existe esta liberdade, res- Lourenço Marques (Maputo). O Acordo Missioná-
peitando a fisionomia de cada paróquia: o seu rio* de 1940, ao atribuir personalidade jurídica e ga-
desenvolvimento, o nível de comunhão eclesial. Por rantir patrocínio às missões católicas por parte do
analogia com o conselho pastoral diocesano, eviden- Estado, facilita a implantação em Portugal de con-
ciam-se algumas características: o conselho pastoral gregações religiosas que pretendam enviar missioná-
paroquial é um organismo de consulta, presidido rios para as colónias. O ambiente não poderia ser
unicamente pelo pároco, constituído pelos vigários mais favorável para a fundação dos Consolatinos na
paroquiais (coadjutores), diáconos, por fiéis empe- metrópole portuguesa. O primeiro seminário abriu
nhados na comunidade cristã (leigos, consagra- em Fátima a 3 de Outubro de 1944, com o nome de
dos...). A finalidade do conselho é a de prestar a sua Seminário das Missões de Nossa Senhora de Fátima,
ajuda na «promoção da acção pastoral» da paróquia, cujo fundador, o padre João De Marchi, tinha chega-
colaborando com o pároco nos assuntos por ele pro- do a Portugal um ano antes. No Carregado, abria as
postos, promovendo iniciativas, comunicando o sen- suas portas o Seminário de São João de Brito, em
tir dos paroquianos. Os estatutos devem ser aprova- 1948, destinado à formação dos irmãos auxiliares,
dos pelo bispo. Em algumas paróquias, onde assim cujas tarefas mais específicas eram o apostolado
for conveniente, este conselho pode assumir as fun- missionário e o desenvolvimento de actividades
ções do conselho económico, previsto pelo câ- técnico-profíssionais. Entretanto, funciona em Fáti-
non 537. Depende da disponibilidade e da formação ma entre 1951 e 1956 um noviciado consolatino in-
das pessoas que são chamadas a estes órgãos, bem ternacional de língua inglesa, onde professaram jo-
como de outros factores. Em Portugal é de eviden- vens provenientes da Inglaterra, Irlanda, Escócia e
ciar que, apesar de várias resistências, o conselho Estados Unidos. Em 1952, surge uma nova casa para
pastoral paroquial tem sido introduzido em muitas a formação de irmãos na Quinta dos Castelinhos, em
paróquias, havendo, contudo, um caminho a percor- Ourém, de modo a suprir as carências da casa do
rer em determinadas comunidades (v. PASTORAL). Carregado. Com vista a procederem à dinamização
MANUEL SATURINO GOMES
missionária e para a sensibilização em relação às
missões, abrem um centro de animação missionária
BIBLIOGRAFIA: C A R T A X O , M . - Órgãos de participação na Igreja particu-
no Porto no ano de 1953, donde partem os religiosos
lar. In CODEX Iuris Canonici de 1983: 10 anos de aplicação na Igreja e para as paróquias, escolas, grupos de jovens e ado-
em Portugal. Lisboa: C E D C , 1995, p. 81-98. M A R C H E S I , M . I consigli lescentes a fim de realizarem conferências, projecta-
diocesani. In A. LONCÍHITANO, dir. - Chiesa Parlieolare. Bologna: EDB.
1985, p. 119-150. MARQUES, S. Ourives - Organismos paroquiais: con-
rem filmes, diapositivos e fazerem reuniões sobre a
selho pastoral e conselho económico. In CODEX Iuris Canonici de 1983: temática missionária. Pouco a pouco esta dinâmica
10 anos de aplicação na Igreja e em Portugal. Lisboa: C E D C , 1995, estende-se às outras casas da congregação em Portu-
p. 275-291. P I R E S , S. Benigno - Paróquia: c o m u n i d a d e ou superestrutu-
ra'' ln CODEX Iuris Canonici de 1983: 10 anos de aplicação na Igreja e
gal, assumida como um dos objectivos principais em
em Portugal. Lisboa: C E D C , 1995, p. 219-240. que os membros se deveriam empenhar, pois enten-
de-se que desta acção sairiam os novos missionários
e o apoio económico e espiritual dos católicos portu-
CONSOLATINOS. Denominados oficialmente pelo gueses para o seu projecto missionário. Em Março
nome de Instituto Missionário da Consolata, foram de 1957, partem os primeiros três irmãos missioná-
fundados a 29 de Janeiro de 1901 na diocese de Tu- rios portugueses para Moçambique. O seu apostola-
rim por José Allamano (1851-1926), então reitor do do estende-se, em 1955, pelos bairros da Liberdade e
Santuário da Consolata. Esta congregação destina-se da Serafina em Lisboa e, mais tarde, à paróquia de
na Igreja ao serviço da evangelização dos povos, as-

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CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS

Campolide, assumindo, em paralelo com a animação gras a observar na vida de uma diocese, sucedia que
missionária, o serviço paroquial. Em 1958 o cresci- uma diocese não as tendo próprias podia regular-se
mento dos Consolatinos justifica a criação da pro- pelas de outra. Assim ocorreu com a diocese de Mi-
víncia portuguesa e é nomeado superior provincial o randa* desde a data da sua fundação, em 1545, até
padre José Gallea. Nesse mesmo ano abre-se um se- 1565. Nesse período regeu-se pelas da arquidiocese
minário em Ermesinde, seguindo-se um outro em de Braga*, da qual havia sido desmembrada. Tam-
Vila Nova de Poiares para o 1.° Ciclo (1962), depois bém a diocese de Elvas*, por decisão tomada pelo
no Cacém para o Curso Filosófico-Teológico (1964) bispo D. António Mendes de Carvalho, em 1572, foi
e em Abrantes para o Curso Liceal Complementar governada pelas de Évora de 1565. De igual modo,
(1975). A expansão do instituto consolatino em Por- todas as dioceses dos territórios brasileiros (Belém
tugal em termos numéricos não só possibilitou o en- do Pará, São Luís do Maranhão, Mariana, Olinda e
vio de dezenas de missionários portugueses para di- Rio de Janeiro), a partir de 1719, se regeram pelas da
versos países - Moçambique, Quénia, Tanzânia, diocese da Bahia (v. B R A S I L ) , tal como os bispados de
Zaire, África do Sul, Brasil, Argentina e Canadá - , Cranganor e Cochim seguiam as de Goa. Por vezes,
mas também a criação de um movimento laical, cha- não se governando uma diocese pelas constituições
mado Leigos Missionários da Consolata. Este visa diocesanas integrais de uma outra, adoptava delas
não só a sensibilização laical para a tarefa da evan- pontuais disposições, num processo revelador do co-
gelização a tempo inteiro, mas ainda dá a possibili- nhecimento que os prelados iam tendo da forma co-
dade de os leigos realizarem experiências temporá- mo outros exerciam o seu múnus. Tal é flagrante nas
rias de missionação ad gentes, alargando não só a de Coimbra de 1521, que adoptaram como norma,
acção, mas também o carisma e a espiritualidade no tocante à forma como deviam ser cobrados os dí-
consolatina aos não religiosos, cuja «tarefa funda- zimos do gado, disposições que haviam sido forjadas
mental é anunciar Jesus Cristo com o testemunho da pelo arcebispo de Braga, D. Fernando Guerra. Suce-
vida e da palavra, converter a consciência pessoal e deu ainda, em número reduzido de casos, serem
colectiva dos homens, renová-los com a graça do compiladas e até aprovadas pelos bispos mas depois
baptismo, regenerar por dentro as culturas mediante nunca chegaram a entrar em vigor. Tal se passou
a força salvífica do Evangelho» ( R O N C O - O missio- com as decretadas pelo bispo da Guarda, D. Nuno de
nário, p. 22). Para divulgação da espiritualidade e Noronha, em sínodo de 1597, mas que, por sua mor-
acção dos Consolatinos, estes publicam em Portugal te, nunca chegaram a ser aplicadas. Os textos das
a revista Fátima Missionária. constituições diocesanas são uma fonte histórica de
JOSÉ EDUARDO FRANCO elevado valor, até hoje ainda não explorada exausti-
vamente. Dadas as inúmeras sintonias que ao longo
BIBLIOGRAFIA: CONSTITUIÇÕES e directório geral do Instituto Missionário dos séculos a maioria foi mantendo entre si, só uma
da Consolata. R o m a : IMC, 1982. PASQUALETTI, Gottardo - Allamano,
missionário para o mundo. Terras Novas: Instituto das Missões das
abordagem comparativa permite a obtenção de infor-
Consolata, [s.d.]. RONCO, José, adap. - O missionário da Consolata. Fá- mações com algum sentido. O estudo exclusivamen-
tima: Centro d e I n f o r m a ç ã o Missionária, [s.d.]. SANTOS, Januário dos - te centrado sobre constituições diocesanas concretas
A África no coração: vida e obra de José Alamano. [Fátima]: Missioná-
rios da Consolata, 1994.
tem um alcance limitado. Todavia, analisadas com-
parativamente, têm valor inestimável, permitindo
perceber intenções pontuais dos prelados e deixando
CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS. As constituições aflorar problemas regionais concretos. São ainda
diocesanas, igualmente designadas por estatutos ou úteis enquanto indicadores da forma como iam sen-
ordenações, eram um instrumento jurídico-pastoral do recebidas as decisões centrais da Igreja e para es-
formado pelas leis, decretos ou disposições que ser- tudar aspectos como o funcionamento da justiça
viam para regulamentar a vida de uma diocese. Se- episcopal, a realização das visitas pastorais, a doutri-
rão aqui entendidas como o conjunto de disposições na e prática dos sacramentos, as debilidades do clero
de direito, posturas disciplinares, orientações litúrgi- e as exigências a que eram solicitados, os cuidados
cas e doutrinais - fundadas no direito canónico, na que se tinham com as igrejas e as alfaias de culto, os
tradição da Igreja e em práticas consuetudinárias lo- modelos litúrgicos adoptados, os meios de preserva-
cais - e que eram impostas pelos prelados sobre ção do património e cobrança de rendas das igrejas,
eclesiásticos e leigos. Podiam ser sinodais, se resul- etc. O quadro cronológico que se elaborou permite
tavam de acordos obtidos em sínodo*, ou extra-sino- constatar a existência de 120 constituições diocesa-
dais, se nasciam de uma determinação oriunda da nas, valor que está seguramente aquém do total que
autoridade do bispo. Das perto de 120 que se conhe- realmente vigorou. Desde que, em 1215, durante o
cem quase todas foram sinodais. As únicas extra-si- IV Concílio de Latrão, se determinou que os bispos
nodais foram as de Lisboa de 1591 e as de Coimbra celebrassem anualmente um sínodo, postura que vol-
de 1929, o que pode ser um indicador de como os tou a ser reafirmada no Concilio de Trento (1545-
prelados sempre teriam procurado reunir consensos -1563), e apesar de haver indicações de que estas
em torno de tão decisivas medidas para a vida das imposições não foram cumpridas, não restam dúvi-
dioceses. Podiam ainda ser gerais ou extravagantes das de que a celebração destes sínodos aumentou de-
(particulares). Dizem-se gerais as que num dado pe- cisivamente. Ora, habitualmente durante a sua reali-
ríodo reúnem toda a legislação existente, sendo ex- zação eram promulgadas constituições diocesanas.
travagantes as que, não introduzindo mutações glo- Pese este facto, para o período anterior a 1500 prati-
bais, nem suspendendo a maioria das disposições em camente só se conhecem exemplos esporádicos de
vigor, procuram regulamentar assuntos específicos. constituições diocesanas das dioceses de Braga, Por-
Apesar das constituições diocesanas conterem as re-

9
CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS

IO
CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS

FONTE: Este quadro foi construído essencialmente a partir de intormaçoes constantes em GARCÍA r GAHCÍA, Antonio - Synodicon Hispanum, e em VASCOHCELOS, António de - Nota
chronológico-bibliográfica das Constituições diocesanas portuguesas até hoje impressas, acrescidas de outros dados entretanto coligidos.

II
CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS

to*, Coimbra*, Lisboa* e Évora*, o que deve ser in- das expressamente a necessidade de se compagina-
terpretado mais como o resultado da degradação dos rem com os decretos de Trento, surgem novas
arquivos, do que como o espelho de uma situação de constituições diocesanas nas dioceses de Miranda,
laxismo por parte dos prelados. Além disso, é seguro Lisboa e Évora. Nos anos seguintes, e na maioria
afirmar-se que muitas se perderam. No prólogo das dos casos ainda durante o século xvi, quase todas as
da Guarda de 1500 refere-se a existência de umas dioceses tiveram constituições diocesanas, que pelo
anteriores que nunca foram encontradas, o mesmo se seu rigor e nível de detalhe em muitos casos jamais
passando com a diocese do Funchal* antes de 1578. viriam a ser alteradas. Assim, depois de 1565, tive-
Do elenco conhecido, as constituições diocesanas ram novas constituições diocesanas as dioceses de
promulgadas por volta de 1240 na diocese de Lisboa Coimbra, Goa, Funchal, Porto, Portalegre* e Braga,
são as mais antigas, havendo notícia da existência de tendo sido acompanhadas nas primeiras décadas de
outras anteriores, também de Lisboa (1210-1232), Seiscentos por Leiria*, Viseu* e Guarda*. Atrasa-
mas cujo texto nunca se encontrou. Estas de 1240 ram-se neste processo a diocese de Elvas (1635) e as
são ainda importantes porque promulgam disposi- dioceses de Lamego* (decididas em 1639 mas edita-
ções importadas de França, que serviram de modelo das apenas em 1683) e Algarve* (1673). Do exposto
em muitas dioceses por toda a Europa. Os textos das resulta que, depois da inflação provocada pelo Con-
medievais foram quase sempre escritos em latim. As cílio de Trento, o movimento de publicação de cons-
primeiras em português datam de 1333, foram or- tituições diocesanas se foi reduzindo a partir do sé-
denadas pelo arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira culo xvii. Neste século já só apareceram 13 novas
e são as únicas do século xiv que saíram em verná- constituições, o século xvin viu surgir somente seis e
culo. Em 1403 apareceram as de Lisboa, também em no século xix apenas as de Goa que, contudo, já ha-
português que, pode dizer-se, abrem um novo ciclo, viam sido estabelecidas em sínodos realizados du-
pois ao longo do século xv a maioria já saiu nesta rante o século anterior. Daqui decorre que as peças
língua, idioma que dominará integralmente a partir magnas construídas depois de Trento regeram a vida
da centúria de Quinhentos. Cerca de 50 anos após o da maioria das dioceses desde os finais do sécu-
invento de Gutenberg foram impressas em Portugal lo xvi, xvii, até ao século xx, apesar dc em muitos
as primeiras constituições diocesanas, tendo cabido aspectos se terem tornado instrumentos obsoletos e
o papel pioneiro à diocese do Porto. Foram impres- inaplicáveis. Refira-se apenas como exemplo que
sas pela tipografia de Rodrigo Alvarez e do precioso muitas mandavam observar privilégios de foro cm
e raro incunábulo existe actualmente um único (?) relação aos eclesiásticos, o que, pelo decreto de 29
exemplar na Biblioteca Municipal do Porto. Depois de Julho de 1833, se tornara inviável. No século xx
desta data quase todas começaram a ser impressas, voltou a haver uma adaptação geral das constituições
sendo poucas as que vieram a lume sob a forma de diocesanas às novas realidades criadas. Em 1919 fo-
manuscrito. Estão neste caso as de Portalegre de 1589, ram promulgadas constituições em Braga e em 1923
a extravagante de Lisboa de 1591 e as de Braga de em Coimbra. Poucos anos depois, mais precisamente
1599, 1630 e 1713. A produção de constituições dio- em 1926, reuniu-se o Concílio Plenário Português*,
cesanas intensificou-se ao longo de toda a Idade Mé- cuja legislação passava a ser obrigatoriamente obser-
dia, sobretudo depois do IV Concílio de Latrão, ten- vada em todas as dioceses do país. Após este concí-
do atingido o seu apogeu durante o século xvi. Desta lio ainda surgiram algumas novas constituições dio-
centúria conhecem-se trinta diferentes que denotam cesanas, que se procuraram adaptar às decisões do
o ambiente de renovação e reforma que então se vi- concílio plenário: Coimbra (1929), Leiria (1943),
via na Igreja portuguesa e que não foi estimulado Aveiro (1944), Bragança (1946), Guarda (1949),
apenas pelo Concílio de Trento, pois já antes, mes- Luanda (1950), Goa (1953) e Lamego (1954), mas a
mo na última década do século xv, tinha havido um linha de rumo a observar havia já sido definitiva-
aumento claro da publicação de constituições dioce- mente estabelecida. Do ponto de vista dos conteúdos
sanas, cujos conteúdos apontavam para a premência e da estrutura organizativa as constituições diocesa-
de mudanças ao nível dos costumes morais dos ecle- nas foram sofrendo transformações que apontam pa-
siásticos, da sua residência nos locais onde usu- ra a existência de três grandes conjuntos: as medie-
fruíam benefícios, da intensificação do culto por par- vais, ou seja, desde as primeiras conhecidas de
te dos fiéis e da maior compostura e respeito a ter Lisboa de 1240 até às de Valença do Minho de 1472;
nos locais sagrados. A reforma de muitas ordens re- as modernas, nas quais pelo seu espírito já se inte-
ligiosas, uma escolha mais criteriosa das figuras que grariam as de Braga de 1477, bem como as do Porto
desempenhavam as funções de bispo, o maior cuida- de 1497 e todas as outras que foram promulgadas ao
do posto na realização das visitas pastorais efectua- longo dos séculos xvi-xvin; e, finalmente, as contem-
das pelos prelados, o aumento de zelo na preparação porâneas, cujo primeiro exemplar seriam as de Bra-
dos eclesiásticos - de que são um bom exemplo a ga de 1919. O sentido geral da evolução é claro: de
criação de cadeiras de Casos de Consciência (nas pontuais e concretas medidas avulsas sem qualquer
dioceses de Lisboa em 1553, Bragança em 1562 e esboço de arrumação interna, para determinações
Lamego em 1570) e de cursos de Sagradas Escritu- mais gerais, englobantes, estruturas internas mais
ras (em Braga em 1542, Lisboa em 1553, Coimbra elaboradas e complexas, avassaladoramente aumen-
em 1556 e Guarda em 1557) - são outras linhas des- tadas e consolidadas depois de Trento para não mais
se processo de renovação. Apesar de tudo o concílio sofrerem substanciais alterações. Finalmente, no sé-
estimulou profundamente o ritmo de edição de cons- culo xx, voltam a adquirir uma mais limitada área
tituições diocesanas. Logo em 1565, e referindo to- interventiva, em função das amputações que o poder

II
CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS

exemplo, impõem que de 15 em 15 dias cortassem


o cabelo e fizessem as barbas. Por fim, muitas fo-
cam o problema da residência do clero, aspecto
quase omnipresente ao longo de toda a Idade Mé-
dia, mas ainda prevendo a possibilidade de muitas
situações excepcionais - as de Braga de 1333 esti-
pulam privilégios para os eclesiásticos familiares do
rei, das rainhas ou dos infantes, e «a outros» a quem
o bispo por seu arbítrio o decretasse. A partir dos
finais do século xv vão-se notando profundas alte-
rações, despoletadas por uma tendência geral de
reforma da Igreja, reforma que as constituições
diocesanas demonstram ter sido iniciada em Portu-
gal antes do Concílio de Trento, mas que foi exacer-
bada e mais coerente e amplamente aplicada apenas
após a realização do concilio. De facto, logo um ano
após o encerramento do concílio (1565) foram pro-
mulgadas constituições diocesanas em Lisboa, Évora
e Miranda, no ano seguinte em Coimbra, dois anos
depois em Goa, e o movimento não teve freio até to-
das as dioceses terem constituições diocesanas que
se conciliassem com Trento. Mas o zelo instigado
pelo concílio não se observa apenas neste indicador,
como ainda no esmero que muitos bispos puseram
na sua elaboração. Chegaram-se a convocar canonis-
tas insignes, como sucedeu com o bispo da Guarda,
D. Afonso Furtado de Mendonça, que solicitou o sa-
ber de Francisco Suarez, célebre canonista e profes-
sor na Universidade de Coimbra. Contudo, volte a
destacar-se, muitas das linhas e tendências decididas
em Trento eram já visíveis em constituições diocesa-
nas, quer de finais do século xv, quer dos alvores dc
Quinhentos. Neste período o seu volume aumentou
imenso, chegando a encontrar-se textos com mais de
500 páginas (Porto, 1690). A sua estrutura interna
Rosto dos Decretos Sinodais do Bispado de Elvas, 1722 foi-se complexificando, deixando de ser conjuntos
(Lisboa, Biblioteca Universitária João Paulo II).
de medidas avulsas destinados a resolver problemas
pontuais, para se tornarem códigos normativos bas-
da Igreja passou a ter, não se perdendo o nível de tante abrangentes onde, sobretudo a partir das de Mi-
coerência da estrutura interna dos textos. As medie- randa de 1565, para além da codificação das regras a
vais eram muito pequenas, as maiores conhecidas observar e das penas ou condenações a infligir aos
são as de Braga de 1281, com um total de 49 artigos. infractores, há preocupações pedagógicas notórias,
A maioria das restantes deste período são disposi- principalmente no plano da difusão da doutrina.
ções pontuais (duas a três «constituições»), sem Acresce que deixaram de estar centradas sobre os
qualquer articulação interna, o que pode supor a rea- eclesiásticos e sobre os bens da Igreja para, não des-
lização frequente de sínodos e um governo episcopal curando estes tópicos e introduzindo-lhes matérias
regido de acordo com as solicitações quotidianas. Os até então pouco cuidadas ou inexistentes, passarem a
problemas mais abordados nesta fase eram o estado tentar enquadrar todos os aspectos da vida da dioce-
do corpo clerical, a questão do património e rendas se. Assim começou a ser dado relevo aos fiéis (sua
das igrejas e do pessoal eclesiástico e, finalmente, formação doutrinal, frequência dos sacramentos,
aspectos relativos aos privilégios de foro dos ecle- comportamento nos locais de culto, condutas morais -
siásticos e à imunidade das igrejas. Sublinhe-se que alargando a noção de pecado público), a todos os sa-
o centro das atenções deste período era o corpo cleri- cramentos* da Igreja (tornaram-se omnipresentes as
cal. Por um lado, a sua cultura, não só a formação referências aos modos da sua celebração, à obrigato-
religiosa nos rudimentos da doutrina cristã - insis- riedade da frequência de alguns, à preparação neces-
tindo nos artigos da fé, sacramentos da igreja, sária para os receber e administrar), ao ensino da
mandamentos de Deus, obras de misericórdia, dis- doutrina, ao funcionamento das instituições ecle-
criminação dos pecados mortais e comportamentos siais, da máquina burocrática das dioceses e do seu
a observar durante os ofícios divinos, mas também aparelho judicial, à valorização da fé e da Igreja co-
a sua preparação escolar - que soubessem latim, ler, mo meios imprescindíveis para a salvação eterna -
escrever e cantar. Por outro lado, a sua conduta e impondo um maior controlo na circulação das ideias
apresentação, destacando a necessidade de morigera- difundidas e nos comportamentos, tanto de eclesiás-
ção das suas práticas, em particular nas questões da ticos como leigos, através de uma política mais rigo-
castidade, comportamentos públicos, decência do rosa de visitas pastorais, de circulação de livros e até
traje e das suas figuras. As de Lisboa de 1403, por
II
CONSTITUIÇÕES DIOCESANAS

de imagens e pinturas que se colocavam nos templos


de culto - e, finalmente, uma tendência clara para
sacralizar cada vez mais os locais e objectos de cul-
to, estabelecendo uma distinção entre espaços e
comportamentos sagrados e profanos. Esta maior
abrangência dos assuntos tratados foi acompanhada
por uma gradual complexificação da estrutura inter-
na dos textos. A partir das de Lisboa de 1537, as
constituições diocesanas passaram a dividir-se em
«títulos», sendo cada «título» composto por uma ou
mais «constituições» ou «capítulos». Uma segunda
mudança estrutural, iniciada pelas de Viseu de 1617
e pelas da Guarda de 1621, que passaram a subdivi-
dir-se em «livros», tendo os «livros» vários «títulos»
que, por sua vez, eram formados por diferentes
«constituições». As do século xx, mantendo uma es-
trutura organizativa interna coerente, viram reduzir
as suas áreas de intervenção e deixaram de ser her-
deiras do espírito tridentino, nomeadamente ao insi-
nuarem uma maior abertura à participação dos leigos
na vida da Igreja. Tendo como modelo as decisões
do Concílio Plenário Português de 1926, tinham
duas grandes partes. A primeira dedicada às «pes-
soas», com normas relativas às funções e competên-
cias dos clérigos em geral, dos bispos, dos arcipres-
tes, dos párocos, dos religiosos, dos leigos e de
alguns movimentos novos entretanto surgidos. A se-
gunda referente às «coisas», contemplando os sacra-
mentos, os locais sagrados, os tempos sagrados, as
formas de culto, a predicação da palavra divina, os
seminários, a fé e os bens temporais da Igreja. Note-
-se que muitas das disposições do Concílio Plenário Frontispício das Constituições Sinodais do Bispado de
Português, fundadas no Código de Direito Canónico Viseu, 1617 (Lisboa, Biblioteca Nacional).
de 1917, ficaram desactualizadas a partir de 1983,
altura em que passou a fazer lei um novo Código de um terceiro tipo de textos que abre uma nova postu-
Direito Canónico. Ao longo deste vasto período hou- ra, que será aprofundada pelas do Porto de 1585 e
ve textos que constituíram autênticos «modelos», Coimbra de 1591, e que foi ainda estritamente segui-
podendo mesmo falar-se numa genealogia das cons- do pelas de Leiria de 1601, Elvas de 1635 e Braga de
tituições diocesanas. Uma abordagem exaustiva da 1697. São as primeiras a comporem-se com as deci-
filiação das várias constituições diocesanas está por sões de Trento e com a necessidade de salvaguarda
realizar, mas há algumas directrizes que se podem da ortodoxia e do fiel seguimento das imposições ro-
enunciar. Há cinco que foram pioneiras e que servi- manas, acentuando o espírito de reforma já iniciado
ram de base para outras. Em primeiro lugar as da em constituições diocesanas anteriores, mas alargan-
Guarda de 1500 que, pelo espírito pré-reformador do as suas disposições a outras áreas, nomeadamente
que contemplam, haviam já sido anunciadas pelas de tendo mais decretos dirigidos aos fiéis. A estrutura é
Braga de 1477 e pelas do Porto de 1497. Este mode- já muito diferente das de Lisboa de 1537, quer no to-
lo será observado pelas de Braga de 1512, de Coim- cante às matérias quer à sua ordem expositiva. Têm
bra de 1521, de Viseu de 1527 e de Leiria de 1545, títulos que nunca haviam surgido em outras anterio-
sendo que nas de Leiria essa herança é mesmo garan- res, como um sobre confrarias (título 24) ou outro
tida expressamente no texto do prólogo. De seguida, sobre as imagens de santos e pinturas das igrejas
as de Lisboa, de 1537, constituem do ponto de vista (um dos capítulos do título 19). São ainda pioneiras
da organização interna dos textos um marco, embora na intenção pedagógica que o texto passa a conter,
pela temática as da Guarda de 1500 já tocassem qua- aspecto muito evidente ao tratar os sacramentos.
se todos os assuntos que estas abordaram. Nestas um A partir das de Coimbra de 1591, este tom pedagógi-
grande número de artigos ainda tem por destinatário co passa ainda a ser complementado com certas do-
o pessoal eclesiástico, o que corresponde à interpre- ses de erudição, começando a surgir à margem dos
tação que se fazia de que a reforma passava pela textos notas com alusão às fontes normativas ou
própria Igreja e não tanto pela abertura aos leigos, doutrinais que suportavam as medidas apresentadas.
aqui ainda ligeiramente referenciados. Podem con- São finalmente pioneiras no aprofundamento da im-
siderar-se deste «modelo» as de Braga de 1538, as portância que passam a dar ao ensino da doutrina
de Coimbra de 1548, do Algarve de 1554, de Viseu cristã, abrindo mesmo com a recomendação de que
de 1556, de Angra de 1560 e as de Lamego de 1563. todos soubessem a doutrina, obrigando a que nas
As de Miranda de 1565, recebendo muito do que ha- igrejas paroquiais do bispado se afixasse uma «tá-
via sido legado pelas de Lisboa de 1537, constituem bua» onde estivesse toda a doutrina cristã. Por últi-
II
CONTRA-REFORMA

mo, as de Viseu de 1617 e as da Guarda de 1621 (os O porquê dessa não concretização prende-se, em pri-
sínodos que as originaram foram ambos em 1614) meiro lugar, com uma confusão entre a determinação
são o apogeu do modelo tridentino. Partem do prin- dos elementos constituintes do conceito e a sua defi-
cípio que apelava à necessidade de sintonização com nição enquanto «época», enquanto período de tempo
Trento, mas com um mais amplo desenvolvimento e com afinidades estruturais e de conjunturas determi-
espelhando grande preocupação com a defesa da nadas. Neste momento, o uso do conceito envolve
Igreja e a valorização dos seus méritos, com o culto algumas mais características. A primeira prende-se
dos santos* e relíquias, com os cuidados a ter com as com o alargamento a realidades que estão para lá da
imagens - incluindo a possibilidade de destruição oposição frontal ao mundo luterano da Reforma. Isto
das que se considerassem «indecentes», com a im- significa o admitirem-se aspectos de Reforma com
portância da fé, do acatamento da disciplina da Igre- uma permanência quinhentista, nascidos em ambien-
ja, com o valor fundamental dos sacramentos im- te de continuidade desde final do século xv, e nos
pedindo que os leigos não «disputassem» sobre quais, mercê deste alargamento do âmbito concep-
matérias de fé, com a estrita observância da ortodo- tual, podemos incluir todas as alterações antropoló-
xia. Constituem assim um texto exemplar das políti- gicas e de implicação teológica, nascidas então, e
cas de reforma católica (v. C O N T R A - R E F O R M A ) , são que participam desta Reforma. Primeira conclusão: a
modelos de erudição, inauguram uma nova estrutura Reforma é uma realidade europeia que, preludiada
dispositiva das matérias e serviram de paradigma às desde meados do século xv se afirma, dispersando-
de Lisboa de 1646, do Algarve de 1674, de Lamego -se em espaços e em ideias, com as consequentes
de 1683 e às do Porto d e i 6 9 0 . práticas distanciadoras, até bem entrado o sécu-
J O S É P E D R O PAIVA lo xvn. A configuração do conceito tem uma história
que passa, entre outros, pelos trabalhos de Leopold
BIBLIOGRAFIA: C A R D O S O , A. Brito Sínodos e constituições da diocese de von Ranke, ainda no século xix, pelos de Pastor, Hu-
Coimbra. Lúmen. (1987) 37-41, 45. COSTA, Avelino de Jesus da - Síno-
dos e constituições diocesanas. Acção Católica. 26 (1941) 596-610. bert Jedin e Ricardo Villoslada, nos anos 40 e 50 do
I D E M - Constituições diocesanas portuguesas dos séculos xiv e xv. Bra- século xx, pela aportação de Wolfgang Reinhard
cara Augusta. 31: 71-72 (1977) 5-16. G A R C I A Y G A R C I A , Antonio - Sy- que, em 1977, ao pretender fixar a teoria de uma
nodicon Hispanum. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1982.
MARQUES, José - Sínodos bracarenses e renovação pastoral. Theologica. «idade confessional» (konfessionelles Zeitalter) não
30: 2 (1995) 275-314. MEA, Elvira Cunha de A z e v e d o - As constitui- só realiza uma importante reflexão sobre todo este
ções diocesanas do Porto (1585) e Coimbra (1591) à luz do concílio
diocesano de Braga (1566). In C O N G R E S S O I N T E R N A C I O N A L DO IV C E N T E -
percurso como aclara a Contra-Reforma, deixando
N Á R I O DA M O R T E DE D . F R E I B A R T O L O M E U DOS M Á R T I R E S - Actas. Fátima: aberto o caminho, em que se vão integrar as reflexões
M o v i m e n t o Bartoleano, 1994, p. 467-488. PEREIRA, Isaías da Rosa - Sí- da nova sociologia religiosa (Durkheim, Le Bras,
n o d o s da diocese de Lisboa: Notas históricas. Lúmen. 25 (1961) 385-
-398. I D E M - Constituições sinodais de Viseu de 1699. Arquivo de Bi-
Dupront) e da história das mentalidades (Henri Bré-
bliografia Portuguesa. 15: 57-58 (1969) 1-17. I D E M - Estatutos sinodais mond, Lucien Febvre) e que toma a actual abrangên-
portugueses na Idade Média. Reportorio de História de las ciências cia depois das aportações de síntese crítica de Jean
eclesiásticas en Espana. Salamanca: Imp. Calatrava, 1971, vol. 2,
p. 215-223. I D E M - Sínodo diocesano de Évora de 1534. Anais da Aca-
Delumeau (1965). Com Delumeau fica claro que
demia Portuguesa da História. 20 (1971) 169-232. I D E M - Á v i d a do têm de se considerar diferenças entre a Reforma ca-
clero e ensino da doutrina cristã através dos sínodos medievais portu- tólica, porque a houve protestante, e a Contra-Re-
gueses. Lusitania Sacra. 10 (1978) 37-74. SOARES, Franquelim Neiva -
O sínodo de 1713 e as suas constituições sinodais. In IX C E N T E N Á R I O DA forma católica, porque também os protestantes a ti-
D E D I C A Ç Ã O DA S É DE B R A G A - Actas. Braga, 1990. vol. 2, p. 209-232. veram em sentido inverso. Mas, como o próprio
VASCONCELOS, António de - Nota chronológico-bibliográphica das cons- Delumeau o faz notar, se esta separação confluente
tituições diocesanas portuguêsas até hoje impressas. O Instituto. 58
(1958) 5-23. VIEIRA, Alberto - As constituições sinodais das dioceses deve ser observada o certo é a historiografia ter inte-
de Angra, Funchal e Las Palmas nos séculos xv a xvn. In C O N G R E S S O I N - riorizado e utilizar Reforma como forma de designar
T E R N A C I O N A L DE H I S T Ó R I A M I S S I O N A Ç Ã O P O R T U G U E S A E E N C O N T R O DE C U L -
TURAS - Actas. Braga, 1993, vol. 1, p. 445-447.
aquela, empreendida a partir de Lutero, e Contra-Re-
forma como a reforma católica, ante e pós-tridentina,
ao mesmo tempo que oposição à Reforma protestan-
CONTRA-REFORMA. Aceitando como Reforma da
te, como uma mesma totalidade, sobretudo, uma
Cristandade e da Igreja o pensar e o fazer dos segui-
época. Assim acontece na maior parte dos casos em
dores, mais ou menos próximos nas ideias ou nas
que há utilização de Contra-Reforma entre os histo-
práticas, de Martinho Lutero, Contra-Reforma foi o
riadores portugueses. Se toda a clarificação realizada
termo encontrado para designar tudo aquilo que se
por Delumeau é da maior importância, tão interes-
lhe opôs. 1. Amplitude historiográfica do conceito:
sante quanto ela foi a chamada de atenção para as
Data já dos anos 70 do século xvin, em ambiente ale-
noções de mentalidade como envolvente das realida-
mão e iluminista, o seu uso pela primeira vez. Na
des religiosas abordadas, chamada que tem uma
sua utilização posterior pretendeu chamar-se a aten-
principal afloração na constituição da noção de Re-
ção para os aspectos de oposição à Reforma de Lute-
forma. Esta é uma totalidade com diferentes aporta-
ro, a Reforma dita protestante. Colocou-se essa mes-
ções e resultados parciais, como são os de Lutero,
ma oposição no mundo católico fazendo-a coincidir
Calvino, dos participantes em Trento ou do Papa.
com aspectos conservadores e retrógrados, sempre
Mais, esta Reforma nasce de permanências diversas,
que possível coincidentes com o Sul europeu, um es-
que se estendem por vários séculos, e originará, nu-
paço mediterrânico-romano em que Itália, Espanha e
ma preparação longa, muitas vezes denominada de
Portugal assumem a linha da frente, seguidos da
«Pré-Reforma», oposições que mais não são do que
França. O caminho percorrido posteriormente visou
tentativas ou de repor o permanente ou de o divul-
clarificar o conceito utilizado retirando-lhe essa co-
gar, para o recuperar ou romper com ele. Esta menta-
notação qualitativa e valorativa, tarefa esta que não
lidade, na sua dimensão de continuidade com o pa-
foi, nalguns casos, contínua na sua concretização.

15
CONTRA-REFORMA

pado e Roma, recusa o evangelismo humanista por dos candidatos, incitando a uma atitude pastoral* em
este estar próximo do pensar protestante, no que ele que as visitas, as reformas dos benefícios, a prega-
comporta de antimonaquismo, de universalização do ção, a catequese* e, mais do que tudo, a criação de
sacerdócio, de repúdio da mediação dos santos e de seminários*, se impunham como os grandes objecti-
veneração das imagens e das relíquias. Mas aceita a vos. Todas estas medidas estarão por detrás das di-
espiritualização do culto, o recurso frequente à ora- mensões de Reforma católica. O Concílio de Trento*
ção interior, a melhoria do clero, o secular na forma- é, porém, tardio e de afirmação contrária perante as
ção e moralização e o regular, mais que tudo, neste propostas de reforma dos protestantes, consideradas
último aspecto de moralização dos costumes. Em e que se consideram dc ruptura, contra as quais ha-
confronto consigo própria, a Cristandade, pelos seus via que combater em nome da verdade, da ortodoxia.
teólogos, pensadores e santos, assumiu uma necessi- Compreende-se, deste modo, a assimilação de Tren-
dade de reforma, que iniciou, logo a partir dos finais to e de todos os outros esforços de mudança no inte-
do século xv, com as diferentes famílias monásticas, rior da Cristandade e Igreja, mesmo anteriores, ao
abrangendo grande número de membros do clero re- conceito de Contra-Reforma. Quando, em 1521, se
gular e que concretizou numa totalidade que foi o dá, primeiro, a condenação das ideias pela bula Ex-
concílio. O peso deste trabalho desenvolvido entre surge Domine e, depois, pela bula Decet Romanum
os regulares possibilitou a concretização tridentina. Ponti/icem, a excomunhão do monge agostinho Mar-
Realmente, só com os saberes recuperados e fixados, tinho Lutero (1483-1546), criam-se realidades novas
de maneira disciplinada, em cada uma das casas das no espaço da Christianitas. Lutero e os que o segui-
congregações já reformadas, reformas que foram ram posteriormente, monges, príncipes do Império
sempre no sentido da observância e do integrismo ou crentes cristãos de fala alemã, protestam uma for-
católico, é que o concílio pôde criar toda uma força ma diferente de leitura da Escritura, das suas impli-
impulsionadora que visava uma assunção da catoli- cações teológicas e eclesiológicas, distanciam-se,
cidade, enquanto universalidade. Daí nasce o cres- procurando romper com a tradição, e apostam numa
cendo missionário, quer nas suas dimensões inter- reforma da Igreja e, por aí, atacam ou defendem po-
nas, de que a publicação do catecismo romano, em deres constituídos. Participam, desta maneira e indi-
1566, por Pio V (1565-1572), é marco exemplar, rectamente, na gestão dos espaços europeus, nas
quer como meio de conquista de novos espaços ex- suas constelações políticas e nas suas fronteiras, que,
tra-europeus aos pagãos. A atitude de fundo da for- por essa altura, muitas vezes se sobrepõem mais do
mação corre a par da compreensão da necessidade que traçam uma linha definida e única. De uma ma-
de ensinar e aprender, quer melhorando os saberes neira geral podemos dizer que o espaço europeu nas-
do clero secular*, quer educando os fiéis dentro de ceu num tempo de afirmações de individualização de
uma vivência cristã, em que a dimensão moral cada reinos, já de há muito empreendido, e que tem o seu
vez mais se amplia. Educar por meio do catecismo grande entrave na caracterizacão individual do Impé-
referido ou com as palavras de pregação, como Jean rio, herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico.
Delumeau tão bem chamou a atenção, são aspectos Conjunto de reinos, de cidades, de estados patrimo-
da cristianização moderna e parte integrante da Re- niais, de senhorios de leigos e de eclesiásticos, tem
forma católica. A formação junta-se a defesa intran- um poder tutelar sobreposto e eleito, desde 1519,
sigente dos dogmas e dos sacramentos*. Há uma su- Carlos V (1519-1556). O Império tem fortes liga-
bida notória da direcção de consciências, por meio ções, desde sempre, ao papado, que o legitima e faz
da confissão; da defesa da transubstanciação, capaz a sua sagração, na pessoa do imperador eleito. O pa-
de impor formas de culto e de oração espirituais, pado tem esta capacidade enquanto detentor de terri-
considerando a realidade de Cristo como substância tórios, que dele fazem participante nas oposições de
inerente e definitória dos acidentes terrenos; da valo- poder. Mercê destas imbricadas sobreposições de
rização do culto da Virgem Maria e, a ele ligado, o realidades político-institucionais, em 1545, o papa
dos santos intercessores. Será ainda em razão desta Paulo III (1534-1549), ao querer reunir um concílio,
participação de um clero anteriormente reformado de incidência universal, vai escolher uma pequena e
que a própria Igreja poderá avançar para a regula- independente cidade italiana, mas de tutela imperial,
mentação do poder papal reforçado e para a configu- a cidade de Trento. Ainda suscitada por muitos des-
ração litúrgica, com caracteres quotidianos e de tes factores, em que o confronto dentro dos estados e
gestualidade muito determinados, igualizados e in- entre estados e casas reinantes foram fundamentais
tensificados. O esforço nasce envolvido na sucessiva para a sua eclosão e manutenção, devemos referir
obrigatoriedade de livros cultuais, como sejam o que existe em toda a Europa uma Contra-Reforma.
breviário (1568), o missal (1570), devocionários, Por ela se designa todo o conjunto de acções milita-
santoriais e outros (entre 1582 e 1615), em constante res levadas a cabo contra os protestantes como tenta-
fidelidade à versão consagrada e definida, como au- tiva de recuperar espaços para de novo se sujeitarem
torizada, da Vulgata (1592) (v. LIVRO R E L I G I O S O ) . De- ao dogma católico romano ou para evitar a sua pas-
pois da sua construção, onde o peso regular foi mar- sagem ao campo oposto. Esta mistura de razões de
cante, a divulgação de todos os debates e conclusões ódio ao herege com realidades políticas, as afirma-
foi tarefa reservada a cada um dos bispos na sua ções da França e do Norte europeu contra o Império
diocese. Daí a fundamental importância que lhes é e estados Habsburgo, teve concretizações nas guer-
reservada por tantos decretos conciliares que pro- ras nos territórios alemães e austríacos do Império
curavam a sua reforma, obrigando à residência, a (1546-1548), nas guerras de religião francesas
escolhas apropriadas e não nepóticas ou simoniacas (1562-1598), nas dos Países Baixos (1568-1648) e,

16
CONTRA-REFORMA

Retábulo da capela-mor da Igreja de São Roque, em Lisboa.

para finalizar, na envolvente Guerra dos Trinta Anos muito distante, houve por alguns sectores da história
(1618-1648). Foi mais longe esta mentalidade de in- da Igreja e em certos manuais de ensino um uso do
tolerância ao contribuir para as guerras entre poderes conceito como forma de afirmação de alguma oposi-
constituídos, como as diferentes Igrejas, e os homens ção aos «protestantes», outros houve que, na época
ávidos de crença, destes séculos modernos. Segunda que com ele desenham, só viam o fim de um pensa-
conclusão: existiu na Europa um momento de oposi- mento crítico e humanista que teria resultado de uma
ção frontal à Reforma, denominado Contra-Reforma, ofensiva dos mecanismos criados para se oporem
designação que deve conter as guerras e todos os aos protestantes. O mesmo não se verifica hoje. 2.
pensares e actuações que visaram impedir infiltra- O caso português: A tendência na construção da his-
ções de hereges em cada um dos campos, ainda que tória da época, traçada em Portugal como os finais
com uma tenacidade combativa mais encarniçada do reinado de D. João III (1521-1557), anos 50 do
entre os católicos. Se todos estes limites e reticências século xvi, e posteriores reinados até D. Pedro II
se põem, de uma maneira geral, também por eles é (1677-1683-1706), anos 80 já do século xvii, arrasta-
tocada a historiografia portuguesa que tem usado dos até à primeira metade do século xvin, D. João V,
Contra-Reforma dentro das grandes linhas aponta- quando não Pombal, utiliza o conceito como capaz
das. Podemos constatar que, enquanto numa fase não de cobrir por si todo o período de valorização dos re-

17
CONTRA-REFORM A

sultados tridentinos, nas suas mais diversificadas es- quando não seguidistas, defensoras ou laudatórias do
feras. A participação portuguesa em Valhadolid, lo- humanista dos Colloquia. Esta linha de continuidade
go em 1527, nas pessoas de mestre Diogo de prolonga-se naquilo que são os grupos de «oração
Gouveia, de D. Estêvão de Almeida e de Pedro Mar- excessiva», aqueles que andavam pelos caminhos da
galho, é o marco logo visível de um percurso que se mística e suas vivências, muitos ditos «beatos»,
consumaria na vivência do Concílio de Trento «beatas» ou «iluminados», pela suspeição de que as
(1545-1563). Vivência pelo rei e seus delegados, suas vivências do religioso os poderiam aproximar
além dos diferentes bispos, nas sucessivas sessões e de Deus, mas afastar do Deus ortodoxamente defini-
com participações desiguais. As legações portugue- do pelos estratos clericais, que necessários eram à
sas foram de diversa índole mas importa ressaltar a sua aferição. Ligadas ao poder estão ainda, de forma
presença, repartida pelos três períodos de reunião diversa, a instituição, em 1536, do Tribunal do Santo
(1545-1548; 1551-1552; 1562-1563), de bispos Ofício da Inquisição*, e a criação do controlo das
(Porto, Silves, Cartagena, Braga, Coimbra e Leiria) ideias pelos Index (de 1547 a 1624) e pelos novos
ou dos seus procuradores (Braga, Lamego, Viseu, estatutos da universidade (1559 e 1653) ou a sua
Silves e Ceuta), de teólogos, todos eles clérigos re- criação jesuítica, em Évora (v. U N I V E R S I D A D E DE É V O -
gulares, e de embaixadores do rei. Da participação RA), em 1559. Dentro da mentalidade de exclusão e
inicial chegou a Portugal não só o resultado da cisão de intolerância se insere a importação da Inquisição.
de Lutero, então dada como concretizada e inultra- Baseando a sua actuação na luta ao herege, aí se
passável, como, no dizer dos participantes de Trento, condensam as realidades luteranas, protestantes na
que as ideias que motivaram essa prática e heresia ti- sua generalidade, mas, sobretudo por arrastamento e
nham que ver com realidades até aí simplesmente por consentimento criado por esta nebulosa de opo-
pensadas, divulgadas e aceites sem consideração pe- sição e de limpeza, os judeus, transformados em
las suas consequências. Esta informação recolhida e cristãos-novos. O rei e o seu reino, assim como al-
vivida pelos participantes na assembleia da ortodo- guns dos seus súbditos, beneficiam do tribunal e das
xia romana embateu com o que se passava no reino suas condenações, excluindo ideias e pessoas, atin-
e, logo desde a chegada dos diferentes delegados, gindo bens e cargos, e isto por simples denúncia ou,
foi-sc criando a ideia da necessidade de mudar o até, por participação em corpos de envergadura so-
existente e de exterminar tudo aquilo que se pudesse cial dignificante como o dos familiares. A acção da
pensar que conduziria até àquela forma de reforma, Inquisição tem muitas vezes servido para simbolizar
diferente, como se queria que fosse, da de Trento. como totalidade a Contra-Reforma, o que é restritivo
É aqui que podemos entroncar toda uma sequência e dificulta a compreensão da época, como o mostram
de acções e medidas que serão tomadas sucessiva- as mais recentes investigações históricas ao chama-
mente para se conseguir a manutenção da ortodoxia rem a atenção para as relações estabelecidas nela en-
tridentina, mesmo que obrigando a actuações contra tre poderes, claro que, envolvidos numa mentalidade
a Reforma, dc cariz alemão e luterano, cada vez onde o religioso impera. Mentalidade que não se po-
mais alargada a outros espaços e línguas e a outros de compreender sem a direcção incutida à cultura
pensadores e reformadores, como Mélanchton pelo poder. São notórios os movimentos de adestra-
(1497-1560), Zuínglio (1484-1531), Bucer (1491- mento do fazer cultural, dos quais o de maior reper-
-1551) ou Calvino (1509-1564). No traçado desta cussão terá sido a transferência do Colégio Real das
oposição importa salientar a aliança de poderes co- Artes, em Coimbra, das mãos de humanistas para a
mo a sua dimensão mais forte, duradoura e profun- de jesuítas (1555), enquanto os primeiros são sub-
da. Os decretos tridentinos chegam a Portugal em 3 metidos a processos inquisitoriais (entre 1550-1552),
de Junho de 1564, acompanhados do breve Sacri por medo das suas ideias muito próximas das de
Tridentini de Pio IV (1559-1565), e tornam-se lei do Erasmo. É nesse sentido que devemos analisar o pe-
reino, com o alvará de D. Sebastião (1557-1578) de so dado no ensino* oficial universitário à correcção
12 de Setembro desse mesmo ano. Este momento dos corpos estatutários existentes ou à sua nova ela-
consuma todo um percurso multissecular de enraiza- boração. Não pensemos que a sua alteração afirmati-
mento da devoção à Virgem Maria e aos santos, de va visava somente aspectos institucionais ou de re-
respeito para com as relíquias, de aceitação do privi- novação conjuntural. Em 1559 e 1653 fixa-se não só
légio do clero, mormente dos bispos, de constatação o quotidiano universitário que se quer católico, nos
da protecção do rei à Igreja e do Papa ao rei e reino. cerimoniais e nas formas dc agir, como nas aprendi-
Ao mesmo tempo confirma todas as acções de opo- zagens, onde cuidadosamente se limita a dimensão
sição, que já se levavam a cabo, incapacitadoras dos de crítica a exercer sobre cada um dos textos de au-
avanços das ideias e dos reformados. Claro que estas tores, também eles estatutariamente fixados, que se
acções têm pressupostos anteriores na luta frontal a deverão ler em cada uma das matérias a aprender.
todo o resquício de Erasmo (1467-1536), que procu- Recuperado do mundo escolástico o comentário, afe-
rava ver na sua philosophia Christi uma afloração de rido e garantido por uma autoridade, reganha uma
ideias onde o erro germinava. Ao atacar-se Erasmo e dimensão no ensino destes saberes da verdade. Ver-
o erasmismo atacam-se muitas das realidades adqui- dade que, para ser preservada, aprendida e acredita-
ridas anteriormente pelo livre exame, quer textual da obriga ao controlo das ideias divulgadas em gran-
quer antropológico, e daí teológico, isto ainda mais de escala e, cada vez mais rapidamente, pela
reforçado em Portugal sabendo-se bem quanto, jun- imprensa. Daí os Index sucessivamente refeitos, num
tamente com Espanha, a renovação humanista assu- sentido de alargamento das obras enumeradas. De
miu aqui, com muita força, colorações próximas, 1547 conhecemos um rol manuscrito traduzido de

I8
CONVENTOS

outro idêntico da Sorbonne, de 1551 a impressão de BIBLIOGRAFIA: B O S S Y , J. A. - The Counter-Reformation and the People

um rol de liuros defesos, com base num de Lovaina, of Çatholic Europe. Past and Present. 4 7 ( 1 9 7 0 ) 5 1 - 7 0 . C H A U N U , Pierre
- Eglise, culture et société: essais sur réforme et contre-réforme
a que se seguem os de 1559 e de 1561, tendo a sua (1517-1620). 2.A ed. Paris: S E D E S , 1984. DELUMKAU, Jean - Le catholi-
confirmação no Index librorum prohibitorum, elabo- cisme entre Luther et Voltaire. 2 . ed. Paris: PUF, 1 9 7 9 . IDEM - La re-
A

forma. 3." ed. Barcelona: Labor, 1977. DIAS, José Sebastião da Silva -
rado pelo Concílio de Trento e saído dos prelos, em Correntes do sentimento religioso em Portugal (séculos xn a xv.///).
Lisboa, em 1564, tendo tido actualizações em 1581, Coimbra: Universidade de Coimbra, I 9 6 0 . IDEM - A política cultura! da
1597 e em 1624, sendo esta última versão a mais época de D. João III. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1969. 2 vol.
DUPRONT, Alphonse - R é f o r m e s et «modernité». Annales: Économies:
completa nas proibições e, por isso, a mais estreita Sociétés: Civilisations. Paris: A r m a n d Colin. 4 ( 1 9 8 4 ) 7 4 7 - 7 6 8 . G A R -
na definição do campo da ortodoxia* do pensamento CÍA-VILLOSLADA, Ricardo - La contrareforma, su n o m b r e y su concepto
escrito e impresso. Devemos a Silva Dias uma siste- historico. In SAOGI storici intorno al papato. Roma: Pontifícia Universi-
ta Gregoriana, 1 9 5 9 , p. 1 8 9 - 2 4 2 . G O N Ç A L V E S , Flávio - História da arte.
matização daquilo que foram os grandes núcleos de Iconografia e crítica. Lisboa: I N C M , 1 9 9 0 . R E I N H A R D , Wolfgang - La
pensamento e de «sentimento religioso», a expressão contre-Réforme: une f o r m e de modernisation? Prolégomènes à une
é sua, que foram excluídos pelo controlo cultural théorie du tempos des confessions. In PAPAUTÉ, confessions, modernité.
Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1 9 9 8 , p. 1 5 5 - 1 6 9 .
aludido. Teriam sido preteridas, quando não comba- S A R A I V A , Antonio José - Contra-Reforma. In DICIONÁRIO de História de
tidas, as alianças do pensamento com o neoplatonis- Portugal. Dir. Joel Serrão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1971, vol. 1,
mo, seja na sua formulação intelectual, seja nas suas p. 6 8 9 - 6 9 3 . IDEM - História da cultura em Portugal. Lisboa: Jornal do
Fôro, vol. 2, 1955: vol. 3, 1962.
ligações vivenciais a Santo Agostinho ou aos místi-
cos renanos, assim como todo o pietismo que, como
dissemos vivia entre «beatas» e «iluminados». Toda CONVENTOS. Comunidade dos religiosos membros
esta atitude de controlo tem apoio e actores nos pró- das ordens mendicantes, cuja forma de vida repre-
prios poderes eclesiásticos, dos quais os protagonis- senta uma viragem face ao modelo monástico, e se
tas são os bispos das diferentes dioceses. Em primei- inspira no ideal de pobreza pessoal e colectiva; a
ro lugar no afã legislador que são as constituições organização é centralizada e itinerante, propiciado-
diocesanas*, pelas quais se institui um quadro de ra de uma nova prática de evangelização. Por de-
práticas e vivências autorizado e configurado como creto de 28 de Maio de 1834 foram extintas todas as
desejável e ortodoxo. Não devemos esquecer, parale- comunidades masculinas das ordens religiosas, e os
lamente, os mecanismos de controlo sacramental que bens respectivos incorporados na Fazenda Nacional.
são os registos paroquiais ou de controlo do quoti- As casas femininas foram suprimidas de acordo com
diano como são as visitas pastorais (v. VISITAÇÕES). o disposto nos artigos 1 e 2.° do decreto de 9 de
Assim se percebe que as actuações de valorização do Agosto de 1833, combinado com o disposto nos de-
religioso, empreendidas com estas oposições, mais cretos de 25 de Abril de 1835 e 9 de Janeiro de
ou menos frontais, ao serem sustentadas pelo poder 1837, ou seja, quando se verificasse a morte da últi-
do rei e seus órgãos de governo e agentes sejam ma freira. Casos houve em que a extinção se deu
muitas vezes diluídas nesta tonalidade contra- quando o número de freiras era inferior ao mínimo
-reformista. Isto não significa que, ao fazer-se uso definido pelas constituições respectivas. Estão na
do conceito, se esteja a negativizar a época ou a sua Torre do Tombo os processos de extinção e posterior
definição intrínseca, desvalorizando-a como uma afectação dos edifícios pertencentes às comunidades
época de Reforma católica, que assumiu importância femininas e masculinas, bem como a relação dos
relevante na definição das várias realidades conexas bens móveis e imóveis das casas extintas. Quanto às
com esta tonalidade de pensar e de fazer, desde as casas femininas, ver Relatório do Ministro e Secre-
teorias de poder até ás práticas sacramentais ou de tário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e de Jus-
festa no quotidiano. E flagrante, neste aspecto, como tiça (...) sobre a execução dada à carta de Lei de 20
a história da arte e a da literatura têm aplicado o con- de Junho de 1857 para organização dos inventários
ceito. Seja para definir o fazer da arte e a sua divul- dos bens dos conventos de religiosas, cabidos e mi-
gação, seja para entender dominâncias e incidências tras. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858.
de temas e de traçados, o conceito de Contra-Refor- O R D E M DOS F R A D E S M E N O R E S - P R O V Í N C I A DE P O R T U -
ma é utilizado como uma designação épocal, crono- GAL - Alenquer, São Francisco, 1216-
MASCULINOS -
lógica. Dos limites artísticos e literários, impostos -1834; Alenquer, Santa Catarina dos Mártires, 1623-
pela posição contrária aos pensares não tridentinos, -1834; Asseiceira, Santa Cita (concelho de Tomar),
resultam obras esteticamente determináveis, explicá- 1423-1834; Azambuja, Nossa Senhora das Virtudes,
veis e compreensíveis, nas actuações dos seus mece- 1419-1834; Beja, São Francisco, 1272; Bragança,
nas, encomendadores ou autores e, também, nas rela- São Francisco, 1271-1834; Cartaxo, Espírito Santo,
ções de divulgação, poderíamos dizer catequização, 1525-1834; Coimbra, São Boaventura, Colégio, cha-
inerentes a quase todas. Fica, assim, traçado um per- mado dos Venturas, 1624-1834; Coimbra, São Fran-
curso possível para a compreensão da Contra- cisco da Ponte, 1218-1834; Covilhã, São Frutuoso,
-Reforma, enquanto época da história religiosa e en- 1235-1834; Estremoz, São Francisco, 1239-1834;
quanto conceito que comporta toda uma enorme Évora, São Francisco, a. 1262-1834; Ferreirim, San-
variedade de leituras. Variedade que é desde logo to António (concelho de Lamego), 1525-1834; Gole-
muito clara, se elencarmos algumas das designações gã, Santo Onofre, 1515-1834; Gouveia, Espírito
conceptuais e periodológicas que encontramos em Santo, 1433-1834; Guarda, São Francisco, 1236-
uso e que se lhe fazem corresponder: «Reforma ca- -1834; Guimarães, São Francisco, 1216-1834; La-
tólica», «período tridentino», «monarquia católica», mego, São Francisco, 1271-1834; Leiria, São Fran-
«renascimento católico» ou «idade confessional». cisco, 1234-1834; Lisboa, São Francisco da Cidade,
ANTÓNIO C A M Õ E S GOUVEIA
1217-1834; Matosinhos, Nossa Senhora da Concei-

19
CONVENTOS

ção, 1476-1834; Matosinhos, São Clemente, das Pe- 1547-1883; Caminha, Nossa Senhora das Misericór-
nhas, a. 1392-1482 (transferido para Nossa Senhora dias, 1561-1889; Castanheira, Nossa Senhora da
da Conceição, de Matosinhos); Montemor-o-Velho, Anunciada, da Subserra (concelho de Vila Franca de
São Luís, 1645-1834; Porto, São Francisco, chama- Xira), 1520 (mantelatas), 1541-1890; Coimbra, San-
do dos Venturas, 1233-1832; Santarém, São Francis- ta Clara, 1286-1886; Entre-os-Rios, Santa Clara
co, 1242-1834; Tavira, São Francisco, 1320-1834; (concelho de Penafiel), 1258-1427; transferido para
Tavarede, Santo António (concelho de Figueira da o convento do Porto; Figueiró dos Vinhos, Nossa Se-
Foz), 1526-1834; Telheiras, Nossa Senhora da Porta nhora da Consolação, 1549 (terceiras regulares),
do Céu (concelho de Lisboa), 1632-1833; Tentúgal, 1591-1835; Guarda, Santa Clara, ou Nossa Senhora
Santa Cristina da Póvoa (concelho de Montemor-o- do Loreto, 1346-1885; Guimarães, Madre de Deus,
- Velho), 1437-1834; Tomar, São Francisco, 1625- 1693-1888; Lisboa, Calvário, ou Monte Calvário,
-1834; Trancoso, Santo António, 1568-1834; Valhe- 1618-1828; Lisboa, Nossa Senhora da Piedade da Es-
Ihas, Bom Jesus (concelho da Guarda), 1548-1834; perança, ou de Nossa Senhora da Piedade, da Boa-
Varatojo, Santo António (concelho de Torres Vedras), vista, 1536-1888; Lisboa, Santa Ana, 1561-1884;
1474; em 1532 fica a pertencer à Província dos Al- Lisboa, Santa Clara, 1292-1755, arruinado pelo ter-
garves, e em 1680 passa a sede da Província dos ramoto (a comunidade vai para a o Convento de
Missionários Apostólicos; Vila do Conde, Nossa Se- Nossa Senhora da Esperança), Melo, Nossa Senhora
nhora da Encarnação, 1522-1834; Vila Nova de Cer- do Couto (concelho de Gouveia), 1539-1868; Mira-
veira, São Paio do Monte, ou dos Milagres, 1392- gaia, Madre de Deus de Monchique (concelho de
-1834. S E G U N D A O R D E M , OU F E M I N I N O S - Abrantes, Vila Nova de Gaia), 1535-1835; Porto, Santa Clara,
Nossa Senhora da Esperança, 1533 (terceiras regu- 1427-1900; Santarém, Santa Clara, 1258-1903; São
lares), 1583-1828; Alenquer, Nossa Senhora da Vicente da Beira, Nossa Senhora do Loreto, 1564-
Conceição, 1555-1811; Amarante, Nossa Senhora -1839; Sendelgas, Nossa Senhora dos Campos (con-
da Conceição, ou Santa Clara, 1333 (mantelatas), celho de Montemor-o-Velho), 1495-1891; Sernance-
c. 1449-1861; Braga, Nossa Senhora da Piedade, lhe, Nossa Senhora da Conceição da Ribeira de

20
CONVENTOS

rão, Santo António, 1604-1834; Valbom, São Fran-


cisco (concelho de Tavira), 1443-1834; Vila Verde
dos Francos, Nossa Senhora da Visitação (concelho
de Alenquer), 1540-1834; Xabregas, Santa Maria de
Jesus (concelho de Lisboa), 1455-1834. F E M I N I N O S -
Alcácer do Sal, Nossa Senhora de Ara Coeli, 1573-
-1901; Beja, Nossa Senhora da Conceição, 1459-
-1892; Beja, Santa Clara, 1345-1896; Borba, Nossa
Senhora das Servas, 1600-1885; Elvas, Nossa Se-
nhora da Conceição, 1526-1909; Estremoz, Santa
Clara, 1425-1553, suprimido, por transferência para
Santa Clara de Portalegre; Évora, Santa Clara, 1458-
-1904; Évora, Santa Helena do Calvário, 1570-1889;
Faro, Nossa Senhora da Assunção, 1520; Lisboa,
Nossa Senhora da Quietação, ou das Flamengas,
1582-1887; Monforte, Bom Jesus, 1513-1862; Mou-
ra, Santa Clara, 1520-1893; Portalegre, Santa Clara,
1377-1898; Sacavém, Nossa Senhora dos Mártires
(concelho de Loures), 1577-1877; Setúbal, Jesus, ou
Santa Clara de Jesus, 1490-1892; Vila Viçosa, Cha-
gas, 1530-1905; Vila Viçosa, Nossa Senhora da Es-
perança, 1555; Xabregas, Madre de Deus (concelho
de Lisboa), 1508-1869. P R O V Í N C I A DA A R R Á B I D A -
Com origem na Província dos Algarves, foi fundada
Convento de São Domingos, em Elvas, século xiii. em 1542, e aprovada em 1560. M A S C U L I N O S - Alco-
baça, Santa Maria Madalena, 1566-1834; Aljerrara,
Palhais (concelho de Moimenta da Beira), 1575- Nossa Senhora da Conceição (concelho de Palmela),
-1893; Tomar, Santa Iria, 1467, 1523-1835; Torres 1576-1834; Arrábida, Santa Maria (concelho de Se-
Novas, Espírito Santo, 1536-a. 1828; Trancoso, Nos- túbal), 1542-1834; Azóia, Nossa Senhora da Concei-
sa Senhora do Sepulcro, ou Santa Clara, 1540-1864; ção (concelho de Leiria), 1584-1834; Caparica, Nos-
Vale de Pereiras, São Francisco (concelho de Ponte sa Senhora da Piedade (concelho de Almada),
de Lima), 1560-1864; Vialonga, Nossa Senhora dos 1550-1834; Gaeiras, São Miguel (concelho de Óbi-
Poderes (concelho de Vila Franca de Xira), 1575- dos), 1602-1834; Leiria, Santo António, 1651-1834;
-1834; Vila do Conde, Santa Clara, 1318-1902; Vi- Lisboa, São Pedro de Alcântara, 1685-1834; Mafra,
nho, Madre de Deus (concelho de Gouveia), 1573- Nosso Senhor e Santo António, 1730-1834; Mealha-
-1862. P R O V Í N C I A DOS A L G A R V E S - Com origem na da, Espírito Santo (concelho de Loures), 1573-1834;
Província de Portugal, foi fundada pela congregação Oeiras, Nossa Senhora da Boa Viagem, 1618-1834;
geral reunida em Tolosa em 1532, e confirmada pelo Olivais, São Cornélio (concelho de Lisboa), 1675-
geral no ano seguinte. A sede era Santa Maria de Je- -1834; Palhais, Nossa Senhora dos Prazeres (conce-
sus de Xabregas, de Lisboa. M A S C U L I N O S - Alcácer lho de Barreiro), 1542-1834; Ribamar, São José
do Sal, Santo António, 1524-1834; Alcochete, Nossa (concelho de Oeiras), 1551-1834; Ribamar, Santa
Senhora do Socorro, 1572-1834; Alvito, Nossa Se- Catarina (concelho de Oeiras), 1634-1834; Salvater-
nhora dos Mártires, 1524-1834; Atouguia da Baleia, ra de Magos, Nossa Senhora da Piedade, 1543-1834;
São Bernardino (concelho de Peniche), 1451-1834; Santarém, Santo António do Pereiro, ou São João
Beja, São Francisco, 1272-1834; Campo Maior, Baptista, 1590-1834; Sintra, Santa Cruz, 1560-1834;
Santo António, 1494-1834; Cascais, Santo António, Torres Novas, Santo António, 1591-1834; Torres Ve-
1527-1834; Castelo de Vide, Nossa Senhora da Con- dras, Nossa Senhora dos Anjos, 1570-1834; Verdere-
ceição, 1585-1834; Coimbra, São Boaventura, colé- na, Madre de Deus (concelho de Barreiro), 1591-1834.
P R O V Í N C I A DE S A N T O A N T Ó N I O - Vulgo Capuchos
gio, 1530-1834; Crato, Santo António, 1603-1834;
Estômbar, Santo António (concelho de Lagoa), (v. F R A N C I S C A N O S ) . Com origem na Província de Por-
1610-1834; Estremoz, São Francisco, 1425-1834; tugal, em 1565 é criada a Custódia de Santo Antó-
Évora, São Francisco, 1224-1834; Faro, Santo An- nio, elevada a província em 1568. M A S C U L I N O S - Al-
tónio, 1516-1834; Lourinhã, Santo António, 1598- deia Galega da Merceana, Santo António (concelho
-1834; Marvão, Nossa Senhora da Estrela, 1448- de Alenquer), 1600-1834; Alenquer, Santo António,
-1834; Mértola, Nossa Senhora da Assunção, ou Santa Catarina da Carnota, 1408-1834; Anadia,
1612-1834; Messejana, Nossa Senhora da Piedade Santo António, post 1750-1834; Benfica, Santo An-
(concelho de Aljustrel), 1567-1834; Montemor- tónio da Convalescença, ou da Cruz da Pedra (con-
-o-Novo, São Francisco, 1496-1834; Moura, São celho de Lisboa), 1640-1834; Cantanhede, Santo
Francisco, 1547-1834; Odemira, Santo António, António, 1675-1834; Castanheira, Santo António
1531-1834; Peniche, Bom Jesus, 1452-1834; Porta- (concelho de Vila Franca de Xira), 1402-1834; Cer-
legre, São Francisco, 1266-1834; Santiago do Ca- nache do Bonjardim, São José (concelho de Sertã),
cém, Nossa Senhora do Loreto, 1505-1834; Serpa, 1699-1834; Chamusca, Santo António do Pinheiro,
Santo António, 1502-1834; Setúbal, São Francisco, 1519-1834; Coimbra, Santo António da Pedreira,
1410-1834; Sines, Santo António, 1504-1834; Tor- 1602-1834; Condeixa, Santo António, post 1750-

21
CONVENTOS

-1834; Lisboa, Santo António dos Capuchos, 1570- Piedade, foi confirmada por breve de Clemente IX
-1834; Lousã, Santo António, 1750-1834; Paio de em 1668, e a execução desse breve é de 1673.
Pele, Nossa Senhora do Loreto (concelho de Tan- Abrantes, Santo António, 1526-1834; Aveiro, Santo
cos), 1572-1834; Penela, Santo António, 1576-1834; António, 1524-1834; Azurara, Nossa Senhora dos
Pombal, Nossa Senhora do Cardai, 1707-1834; Ser- Anjos (concelho de Vila do Conde) 1424-1834; Bar-
tã, Santo António, 1635-1834; Sobral de Monte celos, Santo António, 1652-1834; Castelo Branco,
Agraço, Nossa Senhora dos Anjos, 1590-1834; Ver- Santo António, 1562-1834; Chaves, São Francisco,
delha, Nossa Senhora do Amparo, da Protecção, ou 1673-1834; Coimbra, Santo António dos Olivais,
Casa Nova (concelho de Vila Franca de Xira), 1553. 1539-1834; Covilhã, Santo António, 1553-1834;
P R O V Í N C I A DA C O N C E I Ç Ã O - Com origem na Província Franqueira, Bom Jesus do Monte (concelho de Bar-
de Santo António dos Capuchos, foi fundada em celos), 1497-1834; Fundão, Nossa Senhora do Sei-
1705. Arcos de Valdevez, São Bento, 1677-1834; Ca- xo, ou da Natividade, 1526-1834; Guimarães, Santo
minha, Santo António, 1618-1834; Coimbra, Santo António, 1663-1834; Idanha-a-Nova, Santo Antó-
António da Estrela, 1612-1834; Ferreira de Aves, nio, 1630-1834; Ourém, Santo António, 1600-1834;
Santo Cristo da Fraga (concelho de Sátão), 1749- Penafiel, Santo António, 1663-1834; Penamacor,
-1834; ínsua, Santa Maria (concelho de Caminha), Santo António, 1571-1834; Porto, Santo António do
1392-1834; Lamego, São Francisco, 1568-1834; Lis- Calvário, hospício, 1735-1834; Real, São Frutuoso
boa, Nossa Senhora da Conceição da Pena, hospício, (concelho de Braga), 1522-1834; Sardoal, Nossa Se-
1707; Melgaço, Nossa Senhora da Conceição, 1746- nhora da Caridade, 1571-1834; Tomar, Nossa Se-
-1834; Moncorvo, São Francisco, 1569-1834; Mos- nhora da Anunciada, 1528-1834; Vila Nova de Gaia,
teiro, Santa Maria (concelho de Valença), 1392- Santo António do Vale da Piedade, 1569-1834. OR-
-1834; Orgens, São Francisco do Monte (concelho DEM DE S A N T A C L A R A , OU C L A R I S S A S da jurisdição do
de Viseu), 1407-1834; Pinhel, Santo António, 1731- Ordinário - Barrô, Madre de Deus (concelho de Re-
-1834; Ponte de Lima, Santo António, 1480-1834; sende), 1671 (2.a ordem), 1678, unido ao convento
Porto, Santo António da Cidade, 1747-a. 1832; São das Chagas, de Lamego; Bragança, Nossa Senhora
Pedro do Sul, São José, 1751-1834; Serem, Santo da Assunção, ou Santa Clara, 1569-1870; Évora,
António (concelho de Agueda), 1635-1834; Viana Salvador, 1590-1886; Guimarães, Nossa Senhora da
do Castelo, Santo António, 1625-1834; Viana do Assunção, ou Santa Clara, 1548-1891; Lamego,
Castelo, São Francisco do Monte, 1392-1834; Vila Chagas, 1588-1834; Lisboa, Santa Apolónia, 1718-
Cova de Alva, ou Vila Cova de Sub-Avô, Santo Antó- -1833, ano em se fundiu com o de Santa Ana, pas-
nio (concelho de Arganil), 1713-1834; Vila Real, sando mais tarde para o de Santa Marta; Lisboa,
São Francisco, 1568-1834; Viseu, Santo António, Santa Marta de Jesus, 1583-1889; Lisboa, Santo
1635-1834; Vila Franca de Xira, Santo António, sé- Crucifixo, ou Santo Cristo, vulgo Francezinhas,
culo xviii-1834. P R O V Í N C I A DA P I E D A D E - O breve Ex- 1667-1890; Lisboa, Desagravo do Santíssimo Sacra-
poni nobis nuper de 7 de Julho de 1517, de Leão X, mento, 1783; Louriçal, Desagravo do Santíssimo Sa-
constituiu esta província, separada da de Castela, on- cramento, 1630 (mantelatas), 1709-1878; Montemor-
de fora erigida em 1509. Com sede cm Vila Viçosa, -o-Novo, Desagravo do Santíssimo Sacramento, a.
a província sofreu várias alterações, até que em 1668 1833; Pinhel, São Luís, 1602-1836; Torrão, Nossa
se separou em duas províncias: a da Piedade, que Senhora da Graça, 1560 (mantelatas), 1599-1882;
agrupava as casas desde o Tejo ao Algarve, e a da Vila Real, Nossa Senhora do Amparo, 1609-1855;
Soledade, a norte do Tejo. O motivo principal para Vinhais, Santa Clara, ou Madre de Deus, 1580-1897.
esta divisão foi a distância que separava os conven- O R D E M T E R C E I R A - A Ordem Terceira entrou em Por-
tos, o que representava uma real incomodidade e di- tugal antes de 1439, e sofreu alterações em 1568,
ficuldade para as mudanças dos frades de uma para 1586 e 1780. Os seus membros eram conhecidos por
outra casa, e para as visitações trianuais dos provin- Catarinos (pois a casa-mãe era a de Santa Catarina
ciais. M A S C U L I N O S - Alter do Chão, Santo António, de Santarém) e Borras. M A S C U L I N O S - Almeida, Nos-
1595-1834; Beja, Santo António, 1609-1834; Borba, sa Senhora da Barca, ou Santo Cristo, 1740-1834;
Nossa Senhora da Consolação, do Bosque, 1505- Almodôvar, Nossa Senhora da Conceição, 1680-
-1834; Elvas, São Francisco, 1518-1834; Estremoz, -1834; Arraiolos, São Francisco, 1633-1834; Bel-
Santo António, 1537-1834; Évora, Nossa Senhora monte, Nossa Senhora da Esperança, 1564-1834;
da Purificação, ou Bom Jesus de Valverde, 1544- Caria, São Francisco (concelho de Belmonte), 1444-
-1834; Évora, Santo António, 1576-1834; Faro, -1834; Coimbra, São Pedro, colégio, 1545; anexado
Santo António, 1620-1834; Fronteira, Santo Antó- à universidade em 1549; Coruche, Nossa Senhora do
nio, 1613-1834; Lagos, São Francisco, ou Nossa Se- Vale da Erra, 1582-1834; Lisboa, Nossa Senhora de
nhora do Loreto, 1518-1834; Loulé, Santo António, Jesus, 1595-1834; Marialva, Nossa Senhora dos Re-
1546-1834; Moura, Santo António, 1684-1834; Por- médios de Vilares (concelho de Mêda), 1447-1834;
talegre, Santo António, 1522-1834; Portel, São Mogadouro, São Francisco, 1617-1834; Monção,
Francisco, 1547-1834; Redondo, Santo António, Nossa Senhora da Glória, e São Bento, 1748-1834;
1603-1834; Sines, São Vicente do Cabo, 1504-1834; Monchique, Nossa Senhora do Desterro (concelho
Tavira, São Francisco, 1320-1834; Vidigueira, Nossa de Vila Nova de Gaia), 1632-1834; Santarém, Nossa
Senhora da Assunção, 1545-1834; Vila Nova de Por- Senhora de Jesus do Sítio, 1617-1834; Santarém,
timão, Nossa Senhora da Esperança, 1530-1834; Vila Santa Catarina da Ribeira, 1422-1834; São João da
Viçosa, Nossa Senhora da Piedade, 1500-1834. PRO- Pesqueira, São Francisco, 1581-1834; Sesulfe, Nos-
VÍNCIA DA S O L E D A D E - Com origem na Província da sa Senhora das Flores (concelho de Macedo de Ca-

22
CONVENTOS

valeiros), 1 6 8 6 - 1 8 3 4 ; Silves, São Francisco, 1 6 2 1 - roios; Chaves, Nossa Senhora dos Anjos, 1685-1883;
- 1 8 3 4 ; Viana do Alentejo, São Francisco, 1 5 8 0 - 1 8 3 4 ; Loulé, Nossa Senhora da Conceição, 1688-1834, as
Vimieiro, São Francisco (concelho de Arraiolos), freiras foram recolher-se ao Mosteiro de Nossa Senho-
1 5 5 4 - 1 8 3 4 . F E M I N I N O S - Braga, Nossa Senhora dos ra da Piedade de Tavira; Pontével, Porta Coeli e São
Remédios, ou da Piedade, ou da Madre de Deus, Dâmaso, recolhimento, 1632. C U S T Ó D I A DE S Ã O T I A G O
1594-1898; Gouveia, Nossa Senhora do Loreto, M E N O R , DA ILHA DA M A D E I R A - Os conventos da Ma-
1 4 4 3 - 1 8 3 4 , Monção, Jesus, ou São Francisco, 1 5 7 6 , deira pertenciam à província claustral de Portugal, e
extinto por união com o convento de Terceiras Con- depois de 1584 à província observante de Portugal, até
cepcionistas de Nossa Senhora da Conceição de Bra- ser erigida a custódia em 1683. Data de 1702 a bula de
ga em 1784; Sá, Madre de Deus (concelho de Avei- execução. M A S C U L I N O S - Calheta, São Sebastião,
ro), 1 6 4 4 - 1 8 8 5 ; Valença, Bom Jesus, 1 4 9 9 , extinto 1670-1834; Câmara de Lobos, São Bernardino, 1459-
por união com o convento de Nossa Senhora dos Re- -1834; Funchal, São Francisco, 1440-1834; Ribeira
médios, de Braga, em 1 7 8 4 . P R O V Í N C I A DE S Ã O J O Ã O Brava, São Francisco, ou Nossa Senhora da Porciún-
EVANGELISTA DOS A Ç O R E S - Inicialmente pertencentes cula, c. 1750-1834; Santa Cruz, Santa Cruz, ou Nossa
à Província de Portugal, os conventos formaram a Senhora da Piedade, 1670-1834. F E M I N I N O S - Funchal,
nova custódia em 1638, e província, erigida em Santa Clara, ou Nossa Senhora da Conceição, a. 1495-
1639. Angra do Heroísmo, Nossa Senhora da Guia, -1891; Nossa Senhora da Encarnação, 1660-1808, ano
1 4 5 2 ; Horta, Nossa Senhora do Rosário; 1 5 5 2 - 1 8 3 4 ; em que foram transferidas para o convento de Santa
Ponta Delgada, Nossa Senhora da Conceição, 1525- Clara; Nossa Senhora das Mercês, 1667.
- 1 8 3 2 ; Vila Franca do Campo, Nossa Senhora do
BIBLIOGRAFIA E F O N T E S : A L M E I D A , Fortunato de História da Igreja em
Rosário, c. 1 5 0 1 - 1 8 3 2 ; Vila da Praia, Nossa Senhora Portugal. Coimbra: Imprensa Académica, 1 9 1 0 , vol. 2 , p. 1 2 8 - 1 3 0 ;
da Conceição, 1 4 8 9 - 1 8 3 4 . C U S T Ó D I A DE N O S S A S E - vol. 3 , p. 3 5 8 - 3 5 9 . C O N C E I Ç Ã O , Apolinário da - Claustro Franciscano.
Lisboa, 1740. ESPERANÇA, Manuel da - História Seráfica da Ordem dos
NHORA DA C O N C E I Ç Ã O DE S Ã O M I G U E L E S A N T A M A R I A ,
Frades Menores de São Francisco na Província de Portugal. Lisboa,
DOS A Ç O R E S - Da Província de São João Evangelista 1 6 5 6 - 1 7 2 0 . F E L G U E I R A S , Guilherme - Monografia de Matosinhos. Mato-
dos Açores separaram-se as seguintes casas, que sinhos: C â m a r a Municipal, 1 9 5 8 . J E S U S M A R I A J O S É , Frei Pedro de -
Crónica da Província da Conceição. Lisboa, 1760. LOPES, Fernando Fé-
fundaram esta custódia independente em 1717: MAS- lix - Franciscanos. In VERBO: Enciclopédia luso-brasileira de cultura.
CULINOS - Angra do Heroísmo, São Roque, ou Santo 1 9 6 9 , vol. 8 . IDEM - Fontes históricas e bibliografia franciscana portu-
António, 1 6 4 3 - 1 8 3 2 ; Fanais, Nossa Senhora da Aju- guesa. Lisboa, 1 9 9 7 . M A R I A S A N T Í S S I M A , Manuel d c História do Real
Convento e Seminário de Varatojo. Lisboa, 1 7 9 9 - 1 8 0 0 . M A R Q U E S , José
da, 1 6 8 1 - 1 8 3 4 ; Horta, Santo António, 1 6 9 9 - 1 8 3 2 ; - A Igreja no m u n d o do infante D. Henrique. Revista da Faculdade de
Lages, Nossa Senhora da Conceição, 1 6 2 9 - 1 8 3 2 ; Letras. Porto. 1 2 ( 1 9 9 5 ) 1 8 3 - 2 3 0 . IDEM - Os franciscanos no Norte de
Lagoa, Nossa Senhora da Conceição, ou Santo An- Portugal nos finais da Idade Média. Boletim do Arquivo Distrital do Por-
to. Porto. 1 ( 1 9 8 2 ) 1 4 9 - 1 8 9 . M O N F O R T E , Manuel de - Crónica da Provín-
tónio, 1 6 4 1 - 1 8 3 2 ; Pico, São Pedro de Alcântara, c. cia da Piedade. Lisboa, 1751. MONTALVERNE, Agostinho de - Chronica
1 7 5 0 - 1 8 3 2 ; Ribeira Grande, Nossa Senhora de Gua- da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores. S A N T I A G O ,
Francisco de - Crónica da Província da Soledade. Lisboa, 1762.
dalupe, 1 6 0 7 - 1 8 3 2 ; Santa Cruz da Graciosa, Nossa
Senhora dos Anjos da Porciúncula, 1 6 0 9 - 1 8 3 2 ; San- O R D E M DOS P R E G A D O R E S - M A S C U L I N O S - Abrantes,
ta Maria, Nossa Senhora das Vitórias, ou São Fran- Nossa Senhora da Consolação, 1472-1834; Alcáço-
cisco, 1 6 0 8 - 1 8 3 2 ; Velas, Nossa Senhora da Concei- vas, Nossa Senhora da Esperança (concelho dc Via-
ção, 1 6 2 0 - 1 8 3 2 ; Vila de Nordeste, São Sebastião, na do Alentejo), 1541; Almada, São Paulo, 1569-
1 6 4 2 - 1 8 3 2 ; Vila de Santa Cruz das Flores, São Boa-
-1834; Almeirim, Nossa Senhora da Serra, 1500-
ventura, 1 6 4 2 - 1 8 3 2 ; Vila do Topo, São Diogo, 1 6 5 0 - -1834; Amarante, São Gonçalo, 1540-1834; Ancede,
- 1 8 3 2 . S E G U N D A O R D E M - Angra do Heroísmo, Nossa
Santo André (concelho de Baião), 1569-1834; Avei-
Senhora da Esperança, 1557; Horta, São João Bap- ro, Nossa Senhora da Misericórdia, 1423-1834;
tista, 1538; Ponta Delgada, Nossa Senhora da Espe- Azeitão, Nossa Senhora da Piedade (concelho de Se-
rança, 1 5 4 0 - 1 8 9 4 ; Praia, Nossa Senhora da Luz, túbal), 1435-1834; Batalha, Nossa Senhora da Vitó-
1512, 1583; Ribeira Grande, Jesus, 1543; Vila de ria, 1388-1834; Benfica, São Domingos (concelho
Água de Pau, Nossa Senhora da Conceição, de Pon- de Lisboa), 1399-1834; Coimbra, São Domingos,
ta Delgada, 1 5 2 2 - 1 5 4 1 , extinto por transferência pa- [1227-1280]-1834; Coimbra, São Tomás, colégio,
ra Nossa Senhora da Esperança de Ponta Delgada; 1539-1834; Elvas, Nossa Senhora dos Mártires,
Vila Franca do Campo, Santo André, c. 1567. Da ju- 1266-1834; Évora, São Domingos, ou Transfigura-
risdição do Ordinário: Angra, São Gonçalo, c. 1530; ção, 1286-1834; Guimarães, Nossa Senhora das Ne-
Angra, São Sebastião, 1666; Horta, Nossa Senhora ves, 1270-1834; Lisboa, Corpo Santo, 1659, não foi
da Glória, 1616; Ponta Delgada, São João Evange- extinto: actualmente nas instalações do convento de
lista, c. 1602; Ponta Delgada, Santo André, c. 1563; Nossa Senhora da Rosa, tem a missão de prestar as-
Praia, Jesus, c. 1535; Velas, Nossa Senhora da Con- sistência aos católicos de língua inglesa; Lisboa, São
ceição, c. 1 6 9 4 . O R D E M DA C O N C E I Ç Ã O DE M A R I A - Domingos, 1242-1836; Lisboa, Santa Joana, 1699-
Erigida em 1511. Arrifana de Sousa, Nossa Senhora -1904; Mancelos, São Martinho (concelho de Ama-
da Conceição, 1716; Braga, Nossa Senhora da Con- rante), 1572-1834; Montejunto, Nossa Senhora das
ceição, 1625; Braga, Nossa Senhora da Penha dc Neves (concelho de Azambuja), 1218, transferido
França, recolhimento, 1 6 5 2 , 1 7 2 7 - 1 8 7 4 ; Carnide, para São Domingos de Santarém em 1721-1834;
Nossa Senhora da Conceição (concelho de Lisboa), Montemor-o-Novo, Santo António, 1559-1834; Pedró-
1 6 9 9 - 1 8 9 0 , arruinado pelo terramoto, a partir de 1 7 6 6
gão Grande, Nossa Senhora da Luz, 1476-1834; Por-
as freiras ficaram instaladas no Colégio de Nossa Se- to, Nosso Senhor dos Fiéis de Deus, 1238-1834;
nhora da Nazaré, que fora dos Jesuítas, e passou a ser Santarém, Nossa Senhora da Oliveira, ou São Do-
designado por Nossa Senhora da Conceição dc Ar- mingos, 1218-1834; Setúbal, São Sebastião, 1562-

23
CONVENTOS

-1834; Torre, São Salvador (concelho de Viana do do novamente aos Gracianos. Em 1830 volta aos Je-
Castelo, 1546, em 1564 foi unido a Santa Cruz de suítas, até à extinção em 1834; Lisboa, Nossa Se-
Viana do Castelo; Viana do Castelo, Santa Cruz, nhora da Penha de França, 1603-1834; Loulé, Nossa
1561-1834; Vila Real, São Domingos, 1424-1834. Senhora da Graça, 1574-1834; Montemor-o-Velho,
F E M I N I N O S - Abrantes, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora dos Anjos, 1494-1834; Penafirme,
1384; Aveiro, Jesus, 1461-1874; Azeitão, Jesus Bom Nossa Senhora da Assunção (concelho de Torres Ve-
Pastor (concelho de Setúbal), século xv, anexado a dras), 1226-1834; Porto, São João Novo, ou Santo
São Sebastião de Setúbal em 1572; Braga, Nossa Agostinho, 1592-1833; Santarém, Santo Agostinho,
Senhora do Rosário, ou da Tamanca, recolhimento, 1376-1834; Tavira, Nossa Senhora da Graça, 1544-
1724-1894; Elvas, Nossa Senhora da Consolação, -1834; Torres Vedras, Nossa Senhora da Graça, ou
1528; Évora, Nossa Senhora do Paraíso, 1516-1897; Santo Agostinho, 1267-1834; Vila Viçosa, Santo
Évora, Santa Catarina de Sena, 1547-1886; Guima- Agostinho, 1270-1834. F E M I N I N O S - Coimbra, Santa
rães, Santa Rosa de Lima, 1680-1892; Leiria, Santa Ana, 1610-1885; Évora, Santa Mónica, ou Menino
Ana, 1498; Lisboa, Anunciada, 1539-1755; Lisboa, Jesus, 1380-1887; Lisboa, Santa Mónica, 1586-
Nossa Senhora do Bom Sucesso, de Belém (irlande- -1870; Vila Viçosa, Santa Cruz, 1529-1883.
sas), 1639-a. 1913; Lisboa, Nossa Senhora da Rosa, BIBLIOGRAFIA: v. MOSTEIROS, ORDEM DOS CÓNEGOS REGRANTES DE SANTO
ou do Rosário, 1519-1755, por ocasião do terramoto, AGOSTINHO.

as freiras foram transferidas para Santa Joana, mas


O R D E M DOS EREMITAS D E S C A L Ç O S DE S A N T O A G O S T I N H O
voltaram mais tarde; Lisboa, Princesa Santa Joana,
1699-1904; Lisboa, Santíssimo Sacramento, 1612- - Estabeleceu-se em Portugal em 1663. A sede foi o
-1889; Lisboa, São Salvador, 1392-1884; Montemor- Convento de Nossa Senhora do Monte Olivete, no lu-
-o-Novo, Nossa Senhora da Saudação, 1506-1876; gar do Grilo, da freguesia de São Bartolomeu do Bea-
Moura, Nossa Senhora da Assunção, 1562-1875; to dc Lisboa, e por isso os frades são chamados Gri-
Santarém, São Domingos das Donas, a. 1246-1895; los. M A S C U L I N O S - Coimbra, Jesus, Maria, 1731;
Setúbal, São João Baptista, 1529-a. 1880; Vila Nova Coimbra, Santa Rita, colégio, 1731-1834; Estremoz,
de Gaia, Corpus Christi das Donas, 1345-1894; Vi- Nossa Senhora da Consolação, 1671-1834; Évora,
seu, Nossa Senhora da Oliva, 1640-1839. Nossa Senhora das Mercês, 1669-1834; Grândola,
Nossa Senhora dos Anjos, Colégio, 1727-1834; Lis-
BIBLIOGRAFIA: ARQUIVO Histórico Dominicano. C A E I R O , Francisco da Ga-
boa, Nossa Senhora da Boa-Hora, 1674-1834; Maia,
ma - Os primórdios dos frades pregadores cm Portugal: enquadramento Nossa Senhora do Bom Despacho, 1745-1834; Mon-
histórico-cultural. Arquivo Histórico Dominicano Português. Porto. saraz, Nossa Senhora da Orada, 1679-1834; Monte-
3 : I ( 1 9 8 4 ) . C A S T R O . Júlia O Mosteiro de São Domingos das Donas
de Vila Nova de Gaia (1345-1514). Porto, 1993. COELHO, Maria Helena mor-o-Novo, Nossa Senhora da Conceição, 1671-
da Cruz; MATOS, João José da Cunha - O convento velho de São Do- -1834; Mora, São Nicolau Tolentino, 1716-1834;
mingos de Coimbra: contributo para a sua história. Arquivo Histórico Portalegre, Santa Maria do Castelo, 1683-1834; Por-
Dominicano Português. Porto. 3 : 2 ( 1 9 8 6 ) . DICIONÁRIO da História de
Lisboa. Dir. Francisco Santana e Eduardo Sucena. Lisboa, 1 9 9 4 . L O P E S , to de Mós, O Bom Jesus, 1676-1834; Santarém, Nos-
António da Costa Pequena história dum grande seminário sa Senhora da Piedade, 1675-1834; Setúbal, Nossa
(1724-1924). Braga, 1 9 5 0 . CENÁCULO. 2 1 : 1: 6 , p. 8 - 1 5 . M A R Q U E S , José -
A Igreja no m u n d o do infante D. Henrique. Revista da Faculdade de
Senhora da Boa-Hora, colégio, 1695-1834; Sobreda,
Letras. Porto. 1 2 ( 1 9 9 5 ) 1 8 3 - 2 3 0 . IDEM - Para a história dos primór- Nossa Senhora da Assunção (concelho de Almada),
dios do Mosteiro de São Domingos de Vila Real. In E N C O N T R O SOBRE 1677-1834; Xabregas, Nossa Senhora da Conceição
HISTÓRIA DOMINICANA, 1 /fcto.ç.'Porto: A l l D P , 1 9 7 9 , p. 2 9 - 3 0 . P O R T U -
GUÊS, Ernesto - Seminário de Nossa Senhora da Conceição: Braga: As-
do Monte Olivete, ao Grilo (concelho de Lisboa),
pectos histórico-pedagógicos. Braga: Oficina de São José, 1 9 9 8 . R O S Á - 1666-1829. F E M I N I N O S - Xabregas, Nossa Senhora da
RIO, António - Dominicanos em Portugal: repertório do século xvi. Conceição (concelho de Lisboa), 1663-a. 1890.
Porto: AHDP, 1991. SILVA, Maria J o ã o Violante Branco Marques da;
VILAR, Hermínia Vasconcelos - A Quinta de Ouça no património do BIBLIOGRAFIA: v. MOSTEIROS, ORDEM DOS CÓNEGOS REGRANTES DE SANTO
Mosteiro de Jesus de Aveiro no final do século xv. In C O N G R E S O I N T E R N A - AGOSTINHO.
CIONAL DEL M O N A C A T O F E M I N I N O EN E S P A N A , P O R T U G A L E A M É R I C A : 1492-
-1992, 1, León Actas. León: Secret. Public, de Universidad, 1 9 9 3 , vol. O R D E M DOS I R M Ã O S DE N O S S A S E N H O R A DO M O N T E DO
2,p. 6 8 7 - 7 0 0 . SANTA CATARINA, Lucas de, fr. - História de São Domingos.
SOUSA, Luís de, fr. - História de São Domingos. Lisboa, 1767.
CARMO - Instituída em Portugal cm 1423, foi sua se-
de o convento de Lisboa. M A S C U L I N O S - Alverca, São
A casa-
O R D E M DOS E R E M I T A S DE S A N T O A G O S T I N H O - Romão (concelho de Vila Franca de Xira), 1600-
-mãe foi o Convento de Nossa Senhora da Graça dc -1834; Beja, São Miguel Arcanjo da Tapada, 1526-
Lisboa, razão por que a ordem é chamada dos Gra- -1834; Camarate, Nossa Senhora do Socorro (conce-
cianos. M A S C U L I N O S - Arronches, Nossa Senhora da lho de Loures), 1602-1834; Coimbra, Nossa Senhora
Luz, 1570-1834; Braga, Nossa Senhora do Pópulo, da Conceição, colégio, 1540-1834; Colares, Santa
1595-1834; Castelo Branco, Nossa Senhora da Gra- Ana (concelho de Sintra), 1450-1834; Évora, Nossa
ça, 1526-1834; Cete, São Pedro (concelho de Pare- Senhora da Luz, 1531-1834; Lagoa, Nossa Senhora
des), de fundação da OSB, anexado ao Colégio de do Socorro, 1550-1834; Lisboa, Nossa Senhora do
Coimbra em 1551-1834; Coimbra, Nossa Senhora Vencimento do Monte do Carmo, 1389-1834; Mou-
da Graça, colégio, 1543-1834; Évora, Nossa Senho- ra, Nossa Senhora do Carmo, 1250-1834; Setúbal,
ra da Graça, 1512-1834; Lamego, Nossa Senhora da Nossa Senhora do Carmo, 1598-1834; Torres Novas,
Piedade, 1630-1834; Leiria, Santo Agostinho, 1576- São Gregório Magno, 1558-1834; Vidigueira, Nossa
-1834; Lisboa, Nossa Senhora da Graça, São Gens, Senhora das Relíquias, 1495-1834; Vila Nova de
ou Santo Agostinho, 1147-1834; Lisboa, Santo Gaia, Nosso Senhor de Além, 1733-1834. FEMININOS -
Agostinho, Santo Antão-o-Velho, ou Coleginho, A bula de 1452 Cum nulla, de Nicolau V, de altera-
1222-a. 1540, em 1594 é aqui fundado o primeiro ção da regra, permitiu a criação de casas femininas.
colégio da Companhia de Jesus, e mais tarde vendi- Beja, Nossa Senhora da Esperança, 1541-1897; Gui-

M
CONVERSOS

Exterior do convento das bernardas de Almoster, séculos xill-xiv.

marães, São José, 1697; Lagos, Nossa Senhora da Senhora dos Remédios, 1606-1834; Faro, Nossa Se-
Imaculada Conceição, 1558-1835; Tentúgal, Nossa nhora do Carmo, 1766-1834; Figueiró dos Vinhos,
Senhora da Natividade (concelho de Montemor- Nossa Senhora do Carmo, 1600-1834; Lisboa, Cor-
-o-Velho), 1559-1834. Em Mértola existiu também pus Cristi, 1648-1834; Lisboa, Nossa Senhora dos
uma casa, que, ou por falta de meios ou de licença Remédios, ou São Filipe, ou dos Marianos, 1581-
régia, se extinguiu, e foram devolvidos aos donos, -1834; Olhalvo, Nossa Senhora da Encarnação (con-
em 1559, as casas e quintal em que se instalara. celho de Alenquer), 1648-1834; Porto, Nossa Se-
Também em Trancoso foi autorizada a edificação de nhora do Carmo, 1619-1833; Santarém, Santa Teresa
um convento, que foi abandonado em 1565. de Jesus, 1648-1834; Setúbal, Santa Teresa de Jesus,
1661-1834; Tavira, Nossa Senhora do Carmo, 1737-
BIBLIOGRAFIA: DICIONÁRIO da História de Lisboa. Dir. Francisco Santana -1834; Viana do Castelo, Nossa Senhora do Carmo,
e Eduardo Sucena. Lisboa, 1994. VASCONCELOS, António de Os colé-
gios universitários de Coimbra. Coimbra: Coimbra Editora, 1938. WER- 1647-1834; Vila do Conde, Nossa Senhora do Car-
MERS, Manuel Maria - A Ordem Carmelita e o Carmo em Portugal. Lis- mo, 1755-1834. F E M I N I N O S - Aveiro, São João Evan-
boa: União Gráfica, 1963. gelista, 1658-1862; Braga, Santa Teresa de Jesus,
O R D E M DOS I R M Ã O S D E S C A L Ç O S DE N O S S A S E N H O R A DO 1742-1902; Carnide, Santa Teresa de Jesus (conce-
M O N T E DO C A R M O - A instituição da província data lho de Lisboa), 1642-1910; Coimbra, Santa Teresa
de 1612, separada definitivamente da província es- de Jesus, 1739-1897; Évora, São José, 1681-1886;
panhola em 1773. A sede era o Convento de Nossa Lisboa, Santo Alberto (Albertas), 1585-1890; Lis-
Senhora dos Remédios, e a província é conhecida boa, Nossa Senhora da Conceição dos Cardais de Je-
por Província de São Filipe, invocação dada ao pri- sus, 1681-1877; Lisboa, Santíssimo Coração de Jesus
meiro convento, fundado no tempo de Filipe I. Os (Basílica da Estrela), 1781-1885; Lisboa, Santíssimo
frades são também chamados marianos, em homena- Coração de Jesus, dos Olivais, 7-1889; Porto, São
gem do superior Frei Ambrósio Mariano. M A S C U L I - José e Maria, 1702-1833; Viana do Castelo, Desterro
NOS - Alter do Chão, Divino Espírito Santo, 1595- de Jesus, Maria e José, 1780-1900.
-1834; Aveiro, Nossa Senhora do Carmo, 1613-1834; BIBLIOGRAFIA: C O R A Ç Ã O DE J E S U S , David do - A reforma teresiana em
Braga, Nossa Senhora do Carmo, ou do Pópulo, Portugal. Lisboa: O C D , 1962. FERREIRA, J. A. - Fastos Episcopais de
1653-1834; Buçaco, Santa Cruz do Deserto (conce- Braga. Famalicão, 1932. 3 vol. FREITAS, B. J. d e Sena Memórias de
lho de Mealhada), 1630-1834; Carnide, São João da Braga. Braga, 1 8 9 0 . 2 vol. S A N T A A N A , Belchior dc Crónica de Car-
melitas Descalços de Portugal. Lisboa, 1657, vol. 1.
Cruz (concelho de Lisboa), 1681-1834; Cascais, MARIA J O S É MEXIA BIGOTTE C H O R Ã O
Nossa Senhora da Piedade, 1594-1834; Coimbra,
São José dos Marianos, 1603-1834; Évora, Nossa CONVERSOS, v. C L E R O REGULAR.

25
COREIA

COREIA. O bispo de Pequim D. Frei Alexandre de geral da Companhia de Jesus, respondeu a uma carta
Gouveia (1782-1813) escreveu em 1798 uma carta do padre Francisco Pasio, provincial do Japão, per-
ao bispo de Calandro, em que falava da entrada mitindo aos Coreanos serem recebidos na compa-
e progresso do cristianismo na Coreia, entre 1784 e nhia, do mesmo modo que os Chineses e Japoneses,
1797. Indica o ano de 1784 como a data da introdu- depois de serem bem instruídos e aprovados no cate-
ção do cristianismo na Coreia e o nome de Pedro Li cismo. Em 1610 os coreanos de Nagasaqui inaugura-
Seung-Hun como o primeiro cristão coreano. Esta ram a primeira igreja coreana, dedicada a São Lou-
versão foi muito bem aceite pelos historiadores cató- renço. O padre italiano Francesco Carlctti comprou
licos coreanos que a consideraram desde logo fide- cinco escravos coreanos em Nagasaqui e baptizou-
digna. Mas, na realidade, o primeiro contacto dos -os. No regresso para a Itália, deixou quatro em Goa,
Coreanos com o cristianismo deu-se no fim do sécu- libertos, e trouxe um chamado António para Lisboa,
lo xvi. Segundo as três cartas que o jesuíta português levando-o depois até Florença em 1606. Este foi o
Gaspar Vilela escreveu na índia, o padre espanhol primeiro coreano a pisar o solo europeu. A Coreia
Cosme dc Torres mandou-o do Japão para a Coreia, tem, em 1613, o primeiro mártir no Japão, Joaquim
entre o fim de 1566 e o início dc 1567. Apesar desta Fachiquan, que foi convertido pelo padre francisca-
viagem não se ter realizado, terá sido, contudo, a pri- no Afonso de la Madre de Dios em Edo, em 1609.
meira tentativa de evangelização da Coreia pelos Foi degolado na corte de Edo em 16 de Agosto dc
Portugueses. De 1585 a 1586 começaram a entrar na 1613, por ter dado casa e comida ao padre francisca-
Coreia os livros de catecismo do padre Miguel Rug- no espanhol Luis Sotelo. Em 1614 o letrado coreano
geri, Cheon-Ju-Seong-Gyo-Sil-Lok, publicados em Li Su-Kwang fala, pela primeira vez na Coreia, do
Cantão, China, cm 1584. Com a guerra entre a Co- cristianismo, dando uma explicação dos livros de
reia e o Japão, 1592-1598, deram-se os primeiros Mateo Ricci no seu livro, Ji-Bong-Yu-Seol. Conhe-
contactos entre os prisioneiros coreanos e os missio- ce-se também a existência de contactos, na China,
nários portugueses no Japão. Segundo Luís Fróis, já entre os embaixadores coreanos e os missionários
antes de Outubro de 1592 os generais japoneses te- portugueses. Em 1630 chega a artilharia portuguesa
riam começado a enviar para o Japão prisioneiros chefiada por Gonçalo Teixeira a Tengchow (agora
coreanos, principalmente para Arima, Omura e Penglai) na península de Xantung, onde estava a tro-
Amacusa. Em Dezembro de 1592 estes prisioneiros pa chinesa sob o comando vigoroso do mandarim
teriam começado a converter-se ao cristianismo no cristão Sun Yuan-Hua. O missionário português
Japão, entre eles o Irmão Vicente Kaun. Este foi o João Rodrigues Tçuzu, intérprete de Hideyoshi e
primeiro jesuíta coreano, sendo recebido na Compa- Ieyasu cm melhores tempos e agora missionário na
nhia de Jesus como irmão em 1619. De 1592 a 1593 China, estava a servir de intérprete para ambas as
o rei de Bungo do Japão, Constantino Otomo Yoshi- partes nesta cidade. Cheong Tu-Won, embaixador
mune, baptiza na Coreia 200 crianças. A 27 de De- coreano aos Ming, passou por Tengchow e durante a
zembro de 1593 entra na Coreia, pela primeira vez, sua estada conheceu Rodrigues. Este terá enviado
um missionário europeu, o padre jesuíta espanhol várias prendas ao rei da Coreia, entre elas livros dc
Gregório de Céspedes. O padre português Afonso de cristianismo e de ciências ocidentais escritos em
Lucena, falando sobre o trabalho feito em ano ante- chinês, um dos mapas-mundi de Ricci e alguns arti-
rior a 1594, refere o esforço incessante dos missio- gos científicos. Rodrigues, mais tarde, recebeu da
nários na tentativa de catequizar muitos coreanos dc Coreia não só o devido reconhecimento das prendas
serviço de guerra que acompanhavam os soldados mas também uma oferta muito boa dc várias coisas.
japoneses, em licença, ao Japão. O padre Pedro Go- O intérprete Li Yeong-Jun, que na altura foi manda-
mez mandou um dojuku (servidor e companheiro do aprender com Rodrigues astronomia e o calendá-
ainda não oficialmente admitido na Companhia de rio ocidental, continuou a ter contacto com este je-
Jesus) coreano para Omura e, segundo relata Luce- suíta através de cartas recíprocas. A invasão da
na, este catequizou com a ajuda de um irmão jesuíta Coreia pelos Tártaros acabou em 1636 e no ano se-
alguns seus compatriotas, dos quais se fizeram 200 guinte o governo coreano começou a mandar embai-
cristãos. Em Nagasaqui, só no ano de 1593, foram xadas aos Manchus, senhores da China desde 1644
baptizados 300 escravos da Coreia, homens e mu- (dinastia Ch'ing). Durante 147 anos, de 1637 a 1783,
lheres. No ano de 1594 também se baptizaram mais ano em que entrou Pedro Li em Pequim, foram en-
dc dois mil coreanos, segundo relata o padre Luis de viadas 167 embaixadas coreanas com vários títulos
Guzman. A partir deste ano os missionários no Japão e razões. Os letrados coreanos visitaram as quatro
mudaram o método de catequizar e baptizar os co- igrejas - igrejas do Sul (1601), do Leste (1650), do
reanos. Escolheram alguns moços hábeis que sabiam Norte (1700) e do Oeste (1723) - e comunicaram
ler e escrever os caracteres chineses e fizeram-nos em chinês, por escrito, com os missionários. Em
traduzir para coreano. No ano dc 1598 baptizaram 1720, por exemplo, o embaixador coreano Li
mil coreanos escravos em Ximo. Em 1599, termina- I-Myyeong encontrou-se com o padre português Jo-
da a guerra, os prisioneiros coreanos começaram a sé Soares, assessor do Tribunal Astronómico, em Pe-
regressar à sua pátria, entre eles muitos cristãos. Em quim. O cristianismo ia, deste modo, criando fortes
1603, realizou-se uma campanha de instrução cate- raízes na Coreia.
quista em coreano, com a qual os beneficiados, uns
BYUNU GOO KANG
300, receberam o baptismo. O padre Fernão Guerrei-
ro fala já de muitos coreanos devotos à fé cristã a BIBLIOGRAFIA: A D U A R T E , Diego - Tomo primem de la historia de la pro-
partir de 1606. Em 1608 o padre Cláudio Aquaviva, víncia dei sancto rosário de Filipinas, Iapon y China, de la sagrada or-
den de predicadores. Zaragoça. 1693. CARTAS qve os padres e irmãos da

26
CRI STÃOS-NOVOS

Companhia de lesus escreuerão dos reynos de lapão & China aos da bretudo as mais carenciadas. «Pobres como eles e
mesma Companhia da índia, & Europa, desdo anno de 1549 ate o de utilizando recursos de pobres, realizamos a nossa ac-
1580. Évora, 1598, vol. 1. DALLET, Ch. - Histoire de l'église de Corée.
Paris, 1874. 2 vol. F R Ó I S , L U Í S - Historia de Japam. Ed. anotada por Jo-
ção nas suas próprias casas.» Outro traço caracterís-
sé Wicki. Lisboa, 1983, vol. 4. GOUVEA, Alexandre - Relação da entra- tico da congregação é a intensa vida de oração e o
da. e progresso do christianismo na península da Corea desde o anno amor pela liturgia, notando-se aí a influência da or-
de 1784 ate o de 1797. Manuscrito da A c a d e m i a das Ciências de Lis-
boa, Série Azul, Códice 567, 1798. GUZMAN, Luis de - Historia de las
dem beneditina ( V . BENEDITINOS) de quem Maria Ca-
missiones qve han heeho los religiosos de la Compahia de Iesys. para rolina fora oblata. Em 1995 eram 46 religiosas a tra-
predicar et sancto euangelio en los reynos de lapon. Alcalá, 1601, balhar em 10 comunidades.
vol. 2 . JESUÍTAS na Ásia. Manuscrito da Biblioteca do Palácio da Ajuda, MARIA D O PILAR S. A. VIEIRA
Códice 50-X1I-20. KANG, Byung G o o - A introdução do cristianismo na
Coreia e os Portugueses. Estudos Orientais: III: O Ocidente no Oriente
através dos Descobrimentos portugueses. Lisboa: Instituto Oriental. 3 BIBLIOGRAFIA: CRIADITAS dos Pobres: origens e espirito. C o i m b r a , 1986.
(1992) 79-99. Li, S u - K w a n g Ji-Bong-Yu-Seol. Seul, 1614. M E D I N A , Texto policopiado. TRINDADE, Manuel de Almeida Maria Carolina
Juan G. Ruiz de - Origenes de la iglesia católica Coreana desde 1566 Sousa Gomes e as Criaditas dos Pobres. Aveiro: Livraria Santa Joana,
hasta 1784 segun documentos inéditos de la época. R o m a : Institutum 1987. IDEM - O padre Dr. Luís Lopes de Melo: no centenário do seu
Historicum SI, 1986. TEIXEIRA, Manuel - Macau e a sua diocese: XVI: nascimento. Fátima: Lux, 1985.
A missão da Coreia. Macau, 1979.
CRISTÁOS-NOVOS. A 4 de Dezembro de 1496,
CORPO DE DEUS, Festa do. v. FESTAS. D. Manuel publicava o édito de expulsão das duas
minorias religiosas existentes no reino (v. J U D E U S ) e
CRIADITAS DOS POBRES, Congregação das. Co- impunha-lhes a saída até Outubro de 1497 ou o bap-
meçou em Coimbra em 1924 por iniciativa de Maria tismo. No entanto, só uma minoria entre os judeus
Carolina Bressane Leite Perry de Sousa Gomes, conseguiria sair, segundo a tradição. A maioria seria
apoiada pelo padre Luís Lopes de Melo, pároco da baptizada: uns receberiam o baptismo voluntaria-
Sé Velha. Maria Carolina nasceu em Braga em 1892, mente, outros, a maior parte, recebê-lo-iam forçados.
indo ainda criança para Coimbra onde seu pai, o De facto, D. Manuel tomaria todas as medidas a fim
Dr. Francisco José de Sousa Gomes, era lente de de impedir aos judeus a saída do reino. Primeiro, li-
Química da universidade. De família numerosa e mitou-lhes o embarque em navios e em portos. De-
profundamente cristã, cresceu num ambiente de pois confiscou-lhes os filhos menores, baptizou-os e
preocupações sociais, a par do contacto com a misé- deu-os a famílias cristãs. Seguiram-se-lhes os ado-
ria física e moral da «alta» coimbrã onde vivia. lescentes e jovens e, por fim, os adultos. Estes bap-
É importante ressaltar o papel do padre Melo na for- tismos forçados ocorreram em todo o reino e não só
mação e orientação vocacional de Maria Carolina e em Lisboa, embora nesta cidade pudessem estar con-
o lugar que ocuparam nessa formação as Conferên- centradas as famílias que, na altura, se preparavam
cias Vicentinas*, tratando dos pobres em suas pró- para partir. Iniciados no Domingo de Ramos de
prias casas. Em 1924 sai de casa para assumir a di- 1497, devem ter terminado em Setembro do mesmo
recção do Asilo da Infância Desvalida (hoje Asilo ano, por altura da entrada de D. Isabel, filha dos Reis
Dr. Elísio de Moura), dando início a uma vida mais Católicos, em Portugal, causando um grande impac-
consagrada, ao mesmo tempo que continuava a as- te nas consciências de humanistas como Damião de
sistir aos pobres da freguesia. Em 1927 junta-se a ela Góis ou o bispo Jerónimo Osório e na da população
Maria Clementina Pinto Basto Couceiro da Costa, judaica, provocando-lhes violentos traumas psicoló-
natural de Aveiro. Ambas, porém, consideravam o gicos a ponto de alguns, depois de matarem a famí-
asilo como lugar de passagem; uma instituição reli- íia, se suicidarem. Aos judeus baptizados após 30 de
giosa vocacionada para esse trabalho deveria assu- Maio foi-lhes dada a designação de cristãos-novos.
mir a direcção. Isso aconteceu em 1929, quando o De facto, aquela data balizaria a diferença entre
entregaram à Obra das Senhoras de Santarém (v. SER- aqueles que aceitaram voluntariamente o baptismo,
VAS DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA). Após um retiro incluindo nestes as crianças e os jovens, e aqueles
com as Irmãs de São José de Cluny*, optam por se- a quem o baptismo fora autoritariamente imposto.
guir o próprio caminho. Estava formada a primeira Aos primeiros, o rei concedia os privilégios que
comunidade das Criaditas dos Pobres, cujo número D. João II outorgara aos judeus que se convertessem,
logo aumentou. Em 1932 foram aprovadas por em 1492, assim como lhes permitia herdar, segundo
D. Manuel Luís Coelho da Silva, bispo de Coimbra, a ordenação de D. Afonso V, destinada aos judeus
as primeiras constituições; eram reconhecidas como que abjurassem o judaísmo*. Os demais estavam su-
associação de fiéis; em 1951 D. Ernesto Sena de Oli- jeitos às leis gerais do reino. No entanto, cedo a dife-
veira eleva a associação a pia união e, em 1966, as rença teórica era esquecida e a designação de cris-
Criaditas passam a congregação religiosa de direito tão-novo era aplicada à generalidade dos judeus
diocesano. Em 1977 inicia-se uma revisão às consti- baptizados e dos seus descendentes, com a excepção
tuições, aprovadas pelo bispo diocesano em 1981. daqueles que o rei nobilitara, através de uma carta de
Maria Carolina foi superiora-geral até à morte, em limpeza de nascimento, ou dos cortesãos. 1. A inte-
1969, sucedendo-lhe Maria Clementina, eleita logo gração: A primeira exteriorização da nova sociedade
depois; renunciou por razões de saúde em 1973. cristã encontrava-se patente na uniformidade da ono-
A expansão aconteceu; em 1940 chegam a Aveiro; mástica, de onde desapareceram os nomes e apelidos
1945 - Oliveira do Hospital; 1956 - Miragaia (dio- judaicos para apenas existir o nome e o apelido cris-
cese do Porto); 1965 - Portalegre; 1974 - Amadora tãos, apesar de a primeira geração conhecer o apeli-
(Lisboa); 1983 - Rabo de Peixe, na ilha de São Mi- do judaico como alcunha. Em algumas comunida-
guel. «Pobres ao serviço dos Pobres», as Criaditas des, como a de Beja, este perduraria até finais do
têm como carisma a cristianização das famílias, so- século xvi na memória colectiva das famílias. Nesta

27
CRI STÃOS-NOVOS

nova onomástica dos judeus baptizados entravam os -se-ia pela sua utilização nos trabalhos domésticos,
apelidos de origem patronímica, como Rodrigues, ou seja, por uma situação de domínio tão odiada por
Fernandes, Lopes, ou os de origem toponímica, co- esta. Se muitos permaneceram inicialmente no reino,
mo Távora, Nogueira, Pereira, Oliveira, Mascare- a entrada da Inquisição*, em 1536, levaria à emigra-
nhas, que foram buscar à própria nobreza, não exis- ção individual e familiar, clandestina ou não, para
tindo uma onomástica cristã-nova como, por erro, se outras regiões da Europa cristã, onde se fixavam, ab-
costuma afirmar. A maioria dos neófitos regressou, jurando ou não de imediato ao cristianismo, ou dc
baptizada, às suas casas e bens que a lei permitia que passagem para lugares onde pudessem assumir-se
lhes fossem devolvidos. Mas agora a antiga judiaria, como judeus, regressando à vida na judiaria e ao dis-
tornada Rua Nova ou Vila Nova, possuía moradores tintivo por que os seus correligionários eram conhe-
cristãos-velhos. Aliás, a convivência entre uns e ou- cidos, quer no mundo mediterrânico cristão quer no
tros seria promovida pelo monarca, quer permitindo muçulmano. Outros aproveitariam a expansão portu-
que os recém-baptizados habitassem outras zonas do guesa para se fixarem na índia*, nas ilhas atlânticas
concelho, quer favorecendo os casamentos mistos, ou no Brasil*, longe dos olhares dos cristãos-vclhos
de modo a que os cristãos-velhos tivessem uma ati- e do Santo Oficio. A integração pretendida por
tude vigilante sobre os neófitos, apesar de D. Ma- D. Manuel não foi conseguida, mantendo-se o cris-
nuel ter prometido não inquirir sobre os comporta- tão-novo como o «outro» dentro da sociedade portu-
mentos destes durante vinte anos, que seriam guesa, quer por rejeição da maioria cristã-velha, quer
prorrogados por mais quinze. A integração oficial por afirmação própria da minoria, em relação a um
previa a proibição de casamentos entre cristãos- passado, uma tradição, um povo e uma história que
-novos, de venda de bens, de mudança de residência passavam forçosamente por uma religião, o judaís-
ou de saída da família para o estrangeiro. As deslo- mo. Daí que uma nova forma de integração religiosa
cações, por mar ou terra, em negócios exigiam que a e social viesse a substituir a integração tolerante da-
mulher e os filhos permanecessem em Portugal, sob quele soberano. Defendida já, por certos sectores da
pena de confisco dos bens para a Coroa. No entanto, Igreja, durante o seu reinado, a catequização pelo
pontualmente, D. Manuel foi abrindo algumas ex- medo e pela força seria institucionalizada no tempo
cepções, até que, em 1506, após o levantamento con- de D. João III e dos seus sucessores, com a entrada e
tra os cristãos-novos de Lisboa, autorizou a partida a actuação do Tribunal do Santo Ofício. Este imprimi-
quantos a desejassem, desde que fossem para regiões ria na sua actuação o ferrete do medo, da opressão
cristãs, assim como revogou a ordenação restritiva psicológica e da tortura, originando a instalação no
da liberdade de mobilidade no interior do reino e de seio da sociedade global e, nomeadamente, entre os
proibição de venda de bens. Não havendo diferen- cristãos-novos da desconfiança endémica perante a de-
ciação religiosa, abria-se agora aos antigos judeus núncia de práticas definidas como heréticas. 2. A eco-
a universidade, a administração municipal e central, nomia: Tal como durante o período anterior ao bap-
a vida eclesiástica secular e regular, a entrada nas tismo, os cristãos-novos caracterizavam-se por uma
pequena e média nobrezas e na cavalaria das ordens actividade económica que se centrava na produção
militares, o direito de cidadania e de vizinhança, as- artesanal, no pequeno e grande comércio. Aliás seria
sim como o casamento com as mulheres da anterior esta uma das razões da diáspora familiar, quer no
religião maioritária. Mantinham o prestígio e poder Atlântico, ilhas e Brasil, quer nas possessões espa-
económico tal como o exercício da medicina. Parti- nholas da América, quer no Oriente, quer nas diver-
cipavam na vida municipal. No entanto, a desejada sas zonas da Europa do Norte e mediterrânica. De
integração não se efectivou, a não ser a título excep- facto, os cristãos-novos encontravam-se ligados à
cional. O baptismo forçado não foi acompanhado produção e trato do açúcar na Madeira, São Tomé e
por uma catequese eficaz, na primeira geração, pelo Brasil, que levavam para a Flandres, a França e as
que a manutenção das tradições judaicas foi uma cidades italianas donde traziam tecidos, obras de arte
constante na maioria destas famílias (v. H E T E R O D O - e livros; ao comércio negreiro de escravos das costas
XIA). Também o contacto com os judeus de sinal, ex- de Angola para o Brasil e deste para o Rio da Prata;
-correligionários que fugiram para o Norte de Africa ao povoamento, ocupação da terra e exploração dos
sem terem sido baptizados no reino, era uma atrac- engenhos, à plantação dc algodão e do tabaco, à cria-
ção para o judaísmo. A tolerância manifestada para ção de gado e ao desbravamento do sertão brasileiro;
com os recém-baptizados, durante o reinado de ao comércio das especiarias e sedas do Oriente, ten-
D. Manuel, conduziria a uma duplicidade religiosa do-se fixado em Goa e em Malaca ou indo à China e
que alguns assumiam e outros disfarçavam, cum- ao Japão. Seria este comércio triangular ou à escala
prindo os preceitos cristãos exteriormente mas vi- mundial que os faria apoiar a Espanha, na União
vendo como judeus no interior dos lares. Os cristãos- Ibérica, ou a Holanda contra esta, ou D. João IV
-velhos continuavam e continuariam, durante os contra Filipe III. Se alguns deles possuíam fortuna
séculos seguintes, a designá-los por cristãos-novos e que lhes permitia chegarem a banqueiros dos reis de
judeus, ou, a partir dos finais do século xvi, por Portugal ou da Espanha, como os Mendes-Nassi,
«gente sem nação», vendo neles cristãos heréticos Duarte Silva ou os Roiz, ou dos vice-reis da índia,
ou falsos cristãos. Os casamentos mistos eram raros, ou lançarem-se na exploração da costa atlântica do
sendo a regra o casamento entre famílias cristãs- Brasil, numa parceria cristã-nova, como aquela que
-novas, muitas vezes limitadas a um círculo restrito Fernão dc Loronha encabeçava, a maior parte, po-
de parentesco. A endogamia e o hermetismo perma- rém, era constituída por mercadores de panos de ca-
neceram. A abertura à comunidade cristã-velha far- pacidade económica média que, para além do co-

28
CRI STÃOS-NOVOS

mércio terrestre no reino e em Espanha, investiam tuíam um grupo diferenciado em relação à maioria
também nos arrendamentos de impostos municipais, cristã-velha. O facto de a maioria das famílias de as-
régios ou da nobreza. Alguns dedicavam-se ao trato cendência judaica privilegiarem uma estrutura fami-
marítimo, nas costas portuguesa e europeia, sendo liar endógena e hermética aos casamentos com cris-
exportadores de produtos agrícolas e de peixe seco e tãos-velhos definia-os quase como uma casta dentro
salgado, nomeadamente atum e sardinha, como su- da sociedade portuguesa. Esta afirmação era acom-
cedia com alguns mercadores do Porto, Viana e Al- panhada por uma outra distinção: apesar das perse-
garve. Constituíam sociedades familiares cujos guições e da Inquisição, a família caracterizava-se
membros se espalhavam pelas regiões diversas onde por um grande número de filhos que atingia a idade
tinham interesses económicos, estando delas arreda- adulta. Estes eram educados para funções diversas,
dos os cristãos-velhos, não se coibindo, em caso de consoante o estatuto socioeconómico do agregado
serem suspeitos à Inquisição por culpas ou conver- familiar. Os mais ricos endereçavam uns filhos para
são ao judaísmo no exterior, de regressarem a Portu- a universidade, cursar Direito ou Medicina, um ou
gal sob vários pseudónimos ou até como judeus de outra para a vida religiosa secular ou regular, ou para
sinal. Mas a grande maioria da população cristã- o comércio. Investiam igualmente na aquisição de
-nova dedicava-se aos ofícios e ao pequeno comér- bens imóveis urbanos e/ou rurais. Era nestas famílias
cio de tenda aberta ou ambulante, desenvolvendo mais abastadas que a necessidade de afirmar a per-
actividades como sapateiros, ferreiros, ourives, pra- tença à sociedade cristã mais se fazia sentir, arriscan-
teiros, alfaiates, confeiteiros, trapeiros, tecelões, car- do inclusive um casamento com a maioria cristã-
niceiros, etc. A agricultura e a criação de gado -velha. Algumas aspiravam até a um hábito das
atraía-os menos, embora alguns deles se tivessem ordens religiosas militares e ao acesso à nobilitação,
transformado em agricultores e até em criadores de tentando a todo o custo obter o estatuto de limpeza
porcos, num desejo de se identificarem com os cris- de sangue. Participavam na vida social e pública do
tãos-velhos. Tal como outrora quando judeus, a mi- concelho onde residiam, como as famílias cristãs-
noria cristã-nova era constituída por ricos, médios e -novas de Santarém apanhadas pela visitação inqui-
pobres, sendo estes dois grupos os de maior número. sitorial, no início do século xvii, ou as famílias dos
Para a economia do agregado familiar cristão-novo lentes de Coimbra envolvidos na acusação de judaís-
contribuía a mulher, que na ausência do marido se mo, como António Homem, na mesma época. Nas
encarregava da direcção económica da casa, toman- famílias da classe média, a promoção social fazia-se
do conta da oficina ou da tenda, ou desenvolvendo através da universidade e do comércio, menos da vi-
uma actividade complementar à daquele. 3. A socie- da eclesiástica. A sua integração manifestava-se na
dade: Podemos dizer que os cristãos-novos consti- pertença às confrarias* e até às Misericórdias*. Du-

t> mt t . mit-
Auto-de-fé na Praça do Comércio (Lisboa, Museu da Cidade).
29
CRI STÃOS-NOVOS

Auto-de-fé no interior de uma igreja de Goa, em Relation de l'Inquisition de Goa, de Charles Dellon, edição de 1688.

rante o século xvi e, com algumas restrições, durante estatuto de limpeza de sangue, tornaram-se inabilita-
o século xvii, os cristãos-novos alcançaram diversas dos para a nobilitação, para as Misericórdias, para as
estruturas de prestígio e poder social que se apresen- ordens religiosas militares. Apesar das ordenações, a
tavam intoleráveis aos cristãos-vclhos, fazendo cres- necessidade que os monarcas tinham dos dinheiros
cer a agressividade do seu antijudaísmo. Por isso, es- dos cristãos-novos abria-lhes as portas que as leis
tes procuravam colocar os cristãos-novos, de novo, lhes fechavam. O século XVII conheceria, sempre
no gueto do apartamento. Para além da infâmia que sem efeito legal, a discussão à volta da expulsão dos
caía sobre a família do preso ou do condenado pela cristãos-novos do reino, ao mesmo tempo que sur-
Inquisição, a exclusão dos seus descendentes de cer- giam vozes a seu favor e contra a actuação da Inqui-
tos cargos públicos ou do exercício de certas profis- sição, como a do padre António Vieira ou a de
sões, como a de médico e a de boticário, foi objecto D. Luís dc Meneses. A diferenciação social entre
de ordenação legal no regimento de 1552, talvez co- cristão-novo e cristão-velho terminaria com o mar-
mo resultado das exigências dos procuradores dos quês de Pombal. 4. A cultura: O papel dos cristãos-
concelhos nas Cortes de D. João III, contra o exercí- -novos na cultura portuguesa encontra-se ainda por
cio da medicina pelos cristãos-novos. Com a domi- estudar. Tal como os seus antepassados judeus foram
nação espanhola o cerco tornou-se mais feroz, quer médicos exímios que estudavam em Coimbra ou Sa-
contra os médicos, quer contra o uso de adornos e lamanca, doutoraram-se aqui ou em Lovaina. Alguns
jóias que exteriorizassem luxo ou prestígio social, nomes são por demais conhecidos: Garcia da Orta,
sobretudo se familiares de penitentes. Depois, com o autor dos Colóquios dos simples e das drogas da In-

30
CRUZADA

dia, João Rodrigues de Castelo Branco, vulgarmente formas; não coincide necessariamente com a cate-
conhecido por Amato Lusitano, Elias Montalto, tam- goria jurídica de cruzada definida na Baixa Idade
bém de Castelo Branco, que se tornou conhecido co- Média pela hierocracia papal, que era a de guerra de-
mo médico na corte de França, Abraão Zacuto ou cretada ou pelo menos abençoada pela Sé Romana,
Zacuto Lusitano. Outros, embora médicos, celebriza- mesmo que não tivesse os infiéis por objecto, como
ram-se como poetas e humanistas. Tal sucedeu com a seu tempo veremos. 1. Formação e evolução da
Diogo Pires ou Pirro de Évora, que morreu em Du- ideia de cruzada: Foi lenta e gradual a passagem do
brovnik. Pedro Nunes foi matemático e cosmógrafo, pacifismo do Evangelho e da concepção do reino
sendo indicado como o inventor do nónio, para além de Deus como «não sendo deste mundo» às ideias de
de ter sido professor de D. Sebastião. Aires Vaz era guerra santa (bellum sacrum) e de monarquia univer-
médico de D. João III e astrólogo. As suas interpre- sal do Papa, subjacentes à teoria jurídica da cruzada,
tações astrológicas obrigaram-no a exilar-se em Ro- tal como cristaliza nos Comentários às Decretais de
ma, para fugir à Inquisição. Também nesta cidade se Inocêncio IV (1243-1254). Comportou a oficializa-
refugiou o filho de Mestre Diogo Vizinho, o Coxo, ção do cristianismo como religião de Estado por
Francisco Mendes Vizinho, astrólogo. Outros foram Teodósio (382); o aparecimento da ideia de «guerra
professores em Coimbra, como mestre Jorge da Cos- santa» sob Heráclio (610-641) e seu desenvolvimen-
ta, o doutor Manuel da Costa ou o teólogo e profes- to sob os imperadores iconoclastas de Bizâncio em
sor de Cânones António Homem, ou o matemático e luta com o Islão nascente (séculos vin-ix); e a forma-
cónego André de Avelar. Cristão-novo era também ção no Ocidente bárbaro da teoria política conhecida
Samuel Usque, cujo nome cristão desconhecemos, por «augustinismo político», que reduzia o Estado a
e António José de Almeida, o Judeu. 5. O criptoju- mero auxiliar da Igreja, consumada com a reforma
daismo: Os cristãos-novos foram perseguidos sob a gregoriana (1073-1085). 1.1. A religião oficial: Ofi-
acusação de judaizarem no interior das suas casas ou cialmente reconhecido no Império Romano desde a
de comunicarem a tradição judaica, dentro da famí- paz de Constantino (312), o cristianismo passara
lia ou na comunidade. Na transmissão dessa tradi- a gozar da protecção oficial, sendo, por exemplo, os
ção, as mulheres tiveram um papel fundamental, tan- bispos doravante equiparados a altos funcionários
to mais quanto os homens se encontravam ausentes imperiais e os heréticos excluídos das isenções con-
em viagem. De facto foram elas, talvez porque essa cedidas ao clero. O poder temporal passou a intervir
função lhes cabia, que transmitiram o cumprimento activamente a favor da ortodoxia da fé, dirimindo-se
do ritual preparativo do sabbath, da preparação do por exemplo a questão ariana por um concílio ecu-
pão ázimo da Páscoa judaica, etc. Mas o criptoju- ménico reunido pelo imperador em Niceia (325).
daísmo manifestava-se pela prática dos jejuns, como O proteccionismo estatal à religião cristã veio a cul-
os thanis de segunda e quinta-feiras, ou o yom qui- minar com a proscrição do paganismo por Teodósio
pur ou o da rainha Ester que, apesar da ignorância (391). A Igreja passava a desfrutar do patrocínio do
do dia certo dos mesmos, se mantinham tendo como Império, mas este podia doravante contar com a sua
referência o calendário agrícola; pela recitação de autoridade moral e com a sua malha de dioceses e
certas orações como a Shelma Israel ou os Salmos paróquias como estrutura de enquadramento das po-
sem Glória no final; pela crença na vinda do Messias pulações. Com a dissolução do Império Romano do
ou tão-somente pela afirmação de ascendência judai- Ocidente chega-se finalmente à noção de que a
ca. O criptojudaísmo consubstanciou a manifestação Christianitas, o conjunto dos Estados cristãos, é
de alteridade dos descendentes dos antigos judeus, efectiva herdeira da Romanitas, o mundo romano de
na sua ligação a um passado, uma história e um povo antanho; é a esse título que na Idade Média a Cris-
comuns, permanecendo como tal em certas comuni- tandade ocidental se sente no direito de reconquistar
dades que sobreviveram, até hoje, em Trás-os- o Próximo Oriente e o Norte de África, «tiranica-
-Montes ou em Belmonte. mente possuídos pelos Mouros». 1.2. A guerra san-
M A R I A J O S É F E R R O TAVARES
ta: A ideia de que o imperador, protector da Igreja,
podia usar do seu poder coercitivo para reduzir à
B I B L I O G R A F I A : A Z E V E D O , José Lúcio de - História dos cristãos-novos obediência os hereges no interior do Império conti-
portugueses. 2." ed. Lisboa: Clássica Editora, 1975. BAÇAL, A b a d e de - nha já em germe a possibilidade da «guerra santa».
Os judeus no distrito de Bragança. Bragança, 1974. Memórias Arqueo-
lógico-Históricas do Distrito de Bragança. COELHO, António Borges - A defesa do Império do Oriente contra as investidas
Inquisição de Évora: dos primórdios a 1668. Lisboa: Caminho, 1987. dos bárbaros toma gradualmente esse carácter; mas é
HERCULANO, Alexandre - História da origem e estabelecimento da In-
quisição em Portugal. Lisboa: Bertrand. 1975. 3 vol. INQUISIÇÃO. Lis-
sobretudo sob Heráclio (610-641) que ele se mani-
boa: Universitária Editora, 1989. 3 vol. TAVARES, Maria José Ferro - Pa- festa, quando o Império Persa, governado ainda pe-
ra o estudo dos cristãos-novos de Trás-os-Montes, no século xvi: a los Sassânidas mazdeístas invade o romano e furta
1." geração de cristãos-novos. Revista Cultura História e Filosofia.
Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. 4
de Jerusalém o seu palladium, a Vera Cruz. A cam-
(1985). IDEM - Judaísmo e Inquisição: estudos. Lisboa: Presença, 1987. panha contra os Persas constitui uma espécie de cru-
ÍDEM - Cristãos-novos: « u m barco com dois lemes» (diáspora j u d a i c a zada ante Htteram; a recuperação da veneranda relí-
no século xvi). In ESTUDOS e ensaios: homenagem a Vitorino Magalhães
Godinho. Lisboa, 1988, p. 239-250. IDEM - Los Judios en Portugal.
quia é celebrada por todas as igrejas cristãs na festa
Madrid: M a p f r e , 1992. da Exaltação de Santa Cruz a 14 de Setembro; e uma
das mais célebres crónicas das Cruzadas, a Historia
CRISTO, Ordem de. v. ORDENS MILITARES. rerum in partibus transmarinis gestarum, de Gui-
lherme de Tiro (1142), abre exactamente com a nar-
CRUZADA. Entendemos por cruzada a ideologia de ração das campanhas de Heráclio, de onde o nome
guerra santa contra os infiéis, em particular os mao- de Livre de Heracles por que é conhecida a sua ver-
metanos, que ao longo da história assumiu diversas

3I
CRUZADA

são em francês medieval. Ainda sob Heráclio, a der- que na Idade Média ocidental foi profundamente
rota bizantina na Batalha de Yarmuk (637) abriu aos marcada pela influência da doutrina conhecida por
sarracenos as portas da Síria e do Egipto. A resistên- «augustinismo político», embora na realidade se ba-
cia aos muçulmanos iniciada pelos herdeiros de He- seie numa interpretação assaz simplista do pensa-
ráclio (641-717) foi obra sobretudo dos imperadores mento do Doutor de Hipona. O pessimismo deste le-
iconoclastas da dinastia isáurica (717-820), que além vara-o a desenvolver a ideia de São Paulo de que a
de uma notável política social destinada a assegurar natureza humana, corrompida pelo pecado original,
a fidelidade do campesinato das marcas orientais do é de per si, sem a assistência da graça divina, inca-
Império empreenderam uma militarização intensiva paz de produzir obras de justiça, pelo que não pode
das suas estruturas, que lhes permitiu, com êxito, or- aspirar à justificação perante Deus mas tão somente
ganizar a defesa. Assumindo-se como uma espécie ao seu perdão, possível graças à mediação de Cristo.
de novo povo eleito de Deus, os Bizantinos põem de Desta perspectiva o papel do Estado, que mediante a
lado as suas pretensões ao império universal e as sua legislação, tribunais, etc., pretende assegurar
tentativas de reconstituir o Império Romano de anta- uma justiça meramente humana, tende a apagar-se
nho, encarando a resistência essencialmente como perante o da Igreja, que através dos sacramentos dis-
uma guerra santa defensiva, destinada a assegurar pensa o perdão de Deus. Por outro lado Agostinho
a sobrevivência da Igreja. Data dessa época a ten- expusera no seu livro De civitate Dei a oposição en-
dência para contrapor essa guerra, aprovada por tre as duas cidades, a de Deus e a terrena: «dois
Deus, às lutas fratricidas entre cristãos, sempre con- amores construíram duas cidades: o amor de si pró-
denáveis; na expressão do imperador Constantino IV prio e até ao desprezo dc Deus a cidade terrestre; o
(659-668), «própria e nobre é a guerra que não faz amor de Deus até ao desprezo de si próprio a cidade
correr sangue de cristãos». No Ocidente a Recon- celeste» (xiv, 28); «a natureza vencida pelo pecado
quista* peninsular foi nos seus primórdios muito concebe os cidadãos da cidade terrestre; a graça, li-
mais pragmática que ideológica; mas já a Chanson bertando do pecado, concebe os cidadãos da cidade
de Roland dá como escopo às campanhas de Carlos celeste» (xv, 2). Para Agostinho as duas cidades
Magno contra os sarracenos essaucier sainte crétien- eram, contudo, entidades místicas, invisíveis, porque
té, «exaltar a santa cristandade»; e em 1064, sob in- misturadas neste século até à discriminação final: as-
fluência de Cluny, a participação de cavaleiros de sim, a Igreja visível «deve recordar que entre os seus
além-Pirenéus na reconquista de Barbastro, em Ara- inimigos se escondem os seus futuros cidadãos» e
gão, reveste um cariz de guerra santa, aprovada pela que «enquanto a cidade de Deus prossegue a sua pe-
Santa Sé. Roma estimulara entretanto expedições co- regrinação na terra terá no seu seio homens que lhe
mo as dos Pisanos contra a Sardenha sarracena estão unidos pela comunhão dos sacramentos mas
(1017) e contra Mahadiya, na Tunísia (1087), e a re- que não serão associados ao destino eterno dos san-
conquista da Sicília pelos Normandos (1063), entre- tos» (i, 35). O pensamento posterior tendeu a esque-
gando aos combatentes o «estandarte de São Pedro» cer estes aspectos e a identificar a cidade de Deus à
(vexillum Sancti Petri). No Ocidente a ideia de guer- Igreja institucional e visível, e a cidade dos homens
ra santa encontrava terreno mais favorável que no ao Estado. Este estaria, assim, condenado a desapa-
Oriente bizantino, visto coadunar-se perfeitamente recer, ou pelo menos a reduzir-se a mero auxiliar da
com a «ideologia do gládio», o belicismo da aristo- Igreja, para exercer o poder coercitivo de que esta
cracia guerreira germânica dominante desde as gran- não dispunha. É a posição que assume no século ix
des invasões, parcialmente cristianizado através do Jonas de Orleães e que está implícita na ressurreição
ideal de cavalaria. No ideário das ordens militares os do Império do Ocidente por iniciativa do papado, em
perigos da guerra e a disponibilidade para sofrer a 800, na pessoa de Carlos Magno, e de novo em 962,
morte em combate são assumidos como uma forma na de Otão; expõe-na de novo no século xn Otão de
de ascese, casando assim o ideal guerreiro à tradição Freising (I 114?-1158), neto de Henrique IV e tio
monástica; disso é espelho, entre vários outros tex- de Frederico Barbarroxa. Outros pensadores vão ain-
tos, o Elogio da Nova Milícia, em que São Bernardo da mais longe defendendo o total apagamento do Es-
de Claraval saúda o aparecimento dos Templários. tado perante a Igreja. É neste contexto que surge
Neste particular, a Igreja latina foi mais longe que a uma célebre falsificação, a Doação de Constantino,
grega, que recusou, por exemplo, canonizar os sol- forjada na segunda metade do século viu e mais tar-
dados do imperador Niçéforo Focas (963-969) mor- de incorporada na colecção das Falsas Decretais e
tos em luta com os Árabes: já o papa Leão IV no Decreto de Graciano, apenas posta em dúvida por
(847-855), num texto que passou ao Decreto de Gra- Lourenço Valia em 1440; segundo ela, Constantino,
ciano e assim ficou fazendo doutrina, prometera a ao converter-se, teria decidido retirar-se para Cons-
vida eterna aos mortos em combate pela fé; tantinopla deixando ao papa São Silvestre a sobera-
João VIII (872-882) reiterou-o e a partir do século xi nia sobre Roma, a Itália e todo o Ocidente. Esta po-
começou-se a equipará-los aos mártires. 1.3. O au- sição veio a prevalecer na prática com a reforma
gustinismo político: O Ocidente latino foi mais lon- gregoriana (c. 1075) e o desfecho a favor do papado
ge que o Oriente bizantino em alguns pontos: em ad- da Querela das Investiduras. À doutrina dos «dois
mitir como justa e legítima a guerra ofensiva, de sóis» e das «duas espadas», o Papa e o imperador
conquista, contra os infiéis e em transpor a guerra que Dante, um gibelino, retomará mais tarde na Di-
santa da responsabilidade do poder civil para a do vina Comédia (Purgatório, xvi) e desenvolverá no
eclesiástico. Essa transposição liga-se a uma diferen- De Monarchia sucedeu assim gradualmente a da
te concepção da articulação entre os dois poderes, plenitudo potestatis, a plenitude do poder pontifício,

32
CRUZADA

Guerreiros em repouso. Pormenor da arca tumular de Cristo no túmulo (oficina de João Afonso, c. 1440).

que se traduz na troca do título de «vigário de São Álvaro Pais (1275-1349), bispo de Silves. Na reali-
Pedro», que até aí usavam os papas e que apenas co- dade, já quando Bonifácio VIII em 1302 promulgou
notava poder sacerdotal, pelo de «vigário de Cristo», a bula Unam Sanctam, a teoria da monarquia univer-
já usado por Inocêncio III (1198-1216) e definitiva- sal do Papa estava minada por dentro com o desen-
mente adoptado por Inocêncio IV (1243-1254), que volvimento da escolástica. São Tomás de Aquino
ao invés conotava a universalidade do poder de Cris- (1225-1274), partindo da definição aristotélica de
to «sacerdote, profeta e rei». Esta teoria recebeu homem como «animal social», desligara da noção
confirmação canónica pela bula Unam Sanctam do de pecado original a de poder político, considerando
papa Bonifácio VIII (1302), que no ano seguinte pôs este conatural ao homem e resultante da desigualda-
como condição para o reconhecimento da eleição de de natural dc aptidões entre os indivíduos, que em
Alberto I a aceitação da doutrina de que o Império qualquer caso levaria à escolha dos mais aptos para
era um feudo do papado. Instaurava-se assim teori- promover o bem comum (Summa Theologica, I.a,
camente uma hierocracia, não sem afinidades com a q.° 96, art. 4 & 5). A noção de contrato implícita
teocracia islâmica. Desta perspectiva a responsabili- nesta concepção do poder foi desenvolvida num
dade da guerra aos inimigos da Respublica Christia- sentido pactista e democrático por João Duns Scoto
na - a comunidade dos estados cristãos encabeçada (1265-1308), que claramente formulou a doutrina do
pelo Papa - passava logicamente do Estado para a pactum subjectionis, retomada por Nicolau de Cusa
Igreja. Por outro lado, o conceito de guerra santa (1401-1464) e no século xvi pela neo-escolástica de
aproxima-se do de jihad, já que, encarando-se o po- Salamanca e Coimbra, doutrina que forneceu o fun-
der civil como emanação do eclesiástico resultavam damento jurídico à eleição de D. João I nas Cortes
ilegítimas as soberanias infiéis, que não podiam ale- de Coimbra (1385) e em 1640 à Restauração. Segun-
gar delegação da Igreja, e justa toda a guerra que se do os escolásticos, não derivando o poder político de
lhes movesse para as remover e sujeitar à Cristanda- delegação do eclesiástico, resultava legítima a sobe-
de o orbe. Estas ideias têm o seu melhor teórico na rania dos infiéis e injusto mover-lhes guerra por me-
pessoa de Henrique de Susa (1200-1270), cardeal- ra causa de sua infidelidade; a guerra aos infiéis jus-
-bispo de Óstia, por isso conhecido por Ostiensis. tificava-se contudo em numerosos casos: quando
Reflectem-se entre nós sobretudo na obra de D. Frei houvessem sido fiéis e repudiado a fé; quando hou-

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CRUZADA

vessem atacado fiéis ou ocupado territórios seus; contumácia. A maior parte das críticas que se faziam
quando fizessem obstrução à fé ou à sua pregação à cruzada visavam a forma como era conduzida, as
pacífica; etc. (vide Summa Theologica, 2.a 2.ae, q.° 10, exacções a que dava lugar ou a sua utilidade prática,
art. 8; cf. q.° 40, art. 1 ). É sobretudo com argumentos raramente a sua legitimidade moral; mesmo os que
deste tipo, de índole predominantemente jusnatura- se opunham à ideia de exterminar os infiéis aceita-
lista, que topamos no século xvi nas discussões in- vam como necessária a supressão do poder político
ternas sobre a liceidade das conquistas, indício de muçulmano, já que no seio da teocracia islâmica, on-
que se não prestava já demasiado crédito às normas de o Alcorão é lei, a apostasia é punida com a morte,
de direito positivo pontifício que, à falta de melhor, a o que torna impossível qualquer intento de evangeli-
diplomacia portuguesa continuava a brandir na Eu- zação pacífica. 1.5. Diferentes modalidades da ideo-
ropa. 1.4. A teoria da cruzada: Embora a ideia de logia de cruzada: Logo desde a primeira cruzada
guerra santa fosse já antiga, a cruzada propriamente que se esboçou uma cisão entre «cruzada política» e
dita - pregada, organizada e indulgenciada pelo Pa- «cruzada mística» que, mais tarde, havia de pesar
pa, com o Levante, mais especificamente Jerusalém, gravemente sobre os destinos das passagens de ultra-
como objectivo e, pelo menos em parte, financiada mar: enquanto que os nobres, mais circunspectos e
dos réditos eclesiásticos - data apenas do século xi. ao mesmo tempo mais desejosos de talharem para si
Em 1074 Gregório VII planeara uma expedição em feudos e domínios no Levante, se atinham em geral
socorro do Império Bizantino, invadido pelos Turcos ao objectivo estratégico primacial da expedição, a
Seldjúcidas. A expedição, que não chegou a concre- luta com os Turcos na Anatólia, as massas popula-
tizar-se, serviria ao mesmo tempo para conquistar o res, impacientes, cedo forçaram a marcha sobre Jeru-
coração dos Bizantinos e assim preparar a reconci- salém. Com o decorrer do tempo a cisão acentuou-
liação das igrejas grega e latina desavindas desde o -se, sobretudo desde que o papado descobriu na
cisma de 1054; mas não visava ainda Jerusalém. cruzada uma excelente arma a manejar contra os
A cruzada anunciada por Urbano II no concílio de seus adversários de qualquer espécie, não resistindo
Clermont ( 1096) tinha ainda por escopo a liberatio- à tentação de a pregar contra os hereges albigenses
nem orientalium ecclesiarum, mas já contava Jerusa- (1207-1208), contra o imperador alemão, tradicional
lém entre os seus objectivos, o que permitiu - e aí concorrente à chefia da Cristandade e à hegemonia
está a sua originalidade principal - planeá-la como na Itália (1239), contra os bizantinos cismáticos que
uma peregrinação armada. Daí o designarem-se du- de começo pretendia auxiliar (passim v.g. em 1252)
rante muito tempo os combatentes preferentemente e até contra o reino de Aragão (1285) em castigo de
por peregrini, e a expedição por iter hierosolymita- se ter apoderado da Sicília após a revolta antiangevi-
num, «viagem de Jerusalém»; só mais tarde prevale- na de Palermo em 1282, chamada das Vésperas Sici-
ceu a expressão passage d 'outre-mer, por vezes lati- lianas. A «cruzada política» torna-se assim «guelfa»
nizada em passagium, em português passagem, ou papista, isto é, mero instrumento da política de
termo por que na sua Crónica de D. Duarte Rui de um papado que, sobretudo em Itália, se assume co-
Pina designa ainda a expedição de 1437 a Tânger, e mo potência temporal e identifica o Reino de Deus
por fim cruzada. O desenvolvimento da teoria da no mundo com a Respublica Christiana que pretende
cruzada, que vinha conferir um fundamento ideoló- encabeçar. No século xiv o desprestígio do papado,
gico, jurídico e moral ao belicismo agressivo do Oci- acentuado pelo Grande Cisma do Ocidente*, asso-
dente medievo, parece ter contribuído para radicali- ciado ao individualismo crescente dos estados nacio-
zar na Cristandade o ódio ao muçulmano. Por 1076 nais em formação adiantada e às dificuldades resul-
ainda Gregório VII, escrevendo a Anzir «rei da tantes da Peste Negra, da crise demográfica e da
Mauritânia Sitifense», ou seja da Tunísia, ousava recessão económica, tornam a cruzada internacional
afirmar: «Deus todo-poderoso que quer salvar todo- e papista impossível. Os projectos de reconquista da
'los homens e que ninguém pereça, nada há que Terra Santa tomam cada vez mais o aspecto de uto-
mais em nós aprove do que o homem abaixo do Seu pias e as únicas expedições que se concretizam des-
amor ame o homem, e o que a si não quer que seja tinam-se a defender a Cristandade ocidental ameaça-
feito ao outro não faça; esta caridade, portanto, mais da pelo avanço dos Otomanos; em 1310 uma
entre nós que aos demais povos devemos nós e vós, expedição marítima logra reconquistar Rodes, chave
que ainda que de diverso modo, em um só Deus cre- do mar Egeu, que é entregue aos Hospitalários
mos e confessamos, a quem cada dia louvamos e ve- (v. O R D E N S M I L I T A R E S ) ; mas as expedições terrestres
neramos como criador dos séculos e governador des- enviadas aos Balcãs sofrem pesados reveses em Ni-
te mundo; pois, como diz o apóstolo, Ele é a paz que cópolis (1396) e depois em Varna (1444), o que de-
de dois faz um só.» Nos séculos imediatos já nas sencoraja novas tentativas. O cruzadismo subsiste
suas bulas de cruzada os papas exortam os príncipes sobretudo como ideologia de classe, parte integrante
cristãos e «instantemente lhes rogam com paternal dos ideais da aristocracia guerreira, desejosa de
afecto pela aspersão do sangue do gloriosíssimo Re- ilustrar a sua linhagem por feitos militares contra
dentor, que para remissão dos seus pecados se cin- os infiéis e os inimigos da Igreja em geral; daí, por
jam poderosa e virilmente, para extermínio dos erros exemplo, a afluência de nobres europeus às praças
e dos próprios infiéis...». Admitia-se, de facto, mui- portuguesas de Marrocos em busca de aventuras.
tas vezes o extermínio físico dos sarracenos, com o São sobretudo as potências secundárias, como a Bor-
subterfúgio de que havia entre eles número suficien- gonha, a Escócia e Portugal, desejosas de se afirmar
te de cristãos para, querendo, se poderem informar perante vizinhos poderosos como a França, a Ingla-
da Verdade, resultando assim indesculpável a sua terra e Castela, quem giza ainda projectos de cruza-

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CRUZADA

da. Entretanto, a «cruzada mística», popular, anar- NIACENSES) e à imposição do rito galo-romano no sí-
quizante, messiânica e escatológica, que antevia na nodo de 1080, desejo ou necessidade de ver aprova-
queda de Jerusalém o princípio do fim dos tempos, da pelo papado romano a actividade bélica dos seus
tornara-se «gibelina», adversária do poder dos papas fiéis contra a mourama. Como seria de esperar na si-
olhado como uma pactuação com o mundo e uma tuação política reinante, raros foram os peninsulares
corrupção da Igreja; sobretudo com a cruzada de que se empenharam nas cruzadas de Oriente; mas al-
Frederico II, c. 1229, tendia a organizar-se em torno guns teóricos preconizaram um plano alternativo,
do imperador, apoiado pelos «espirituais» que viam que fundiria materialmente a Reconquista e a cruza-
na supremacia imperial a única forma de reespiritua- da numa vasta estratégia antimuçulmana: deveria co-
lizar a Igreja e reconduzi-la ao seu verdadeiro mú- meçar-se por reconquistar a Península, passando em
nus. A ideologia gibelina desposara desde o sécu- seguida ao Norte de África, até atingir a Terra Santa.
lo xiii as teorias messiânicas do abade beneditino A ideia foi preconizada no século xn pelo célebre
calabrês Joaquim de Flora (c. 1135-1202), que divi- Diogo Gelmírez, primeiro arcebispo de Compostela,
dia a história em três períodos, presidido cada um apresentada depois ao Concílio de Lião (1274) e
por uma das Pessoas da Santíssima Trindade, corres- propugnada no de Viena (1311) por Jaime II de Ara-
pondendo o Antigo Testamento ao reino do Padre, o gão; renasceu em finais do século xv, no ambiente
Novo - o tempo da Igreja corrupta e prostituída ao de esperança messiânica que se desenvolveu em tor-
século - ao do Filho, e o que estava para vir, espécie no da Guerra de Granada (1481-1492); e queda apa-
de sabbath eterno, era de contemplação e de repouso rentemente subjacente à estratégia manuelina de
dominada por uma igreja de monges perfeitos e jus- campanhas simultâneas em Marrocos, no mar Ver-
tos, ao do Espírito Santo. Estas ideias foram em ge- melho e até na costa argelina (expedição a Mers el-
ral adoptadas com entusiasmo pelos Franciscanos*, -Kibir, em 1502), para não falar dos projectados ata-
ordem criada em 1209 em reacção contra o enrique- ques à Terra Santa pelo Mediterrâneo que não
cimento da Igreja, que viam na intervenção imperial chegaram a concretizar-se. 2.1. Aspectos jurídicos:
a única maneira de a arrancar às tarefas temporais No plano jurídico a fusão entre Reconquista e cruza-
em que se deixara envolver. Os imperadores (sobre- da começou a esboçar-se em 1100, com duas bulas
tudo os da casa de Hohenstaufen ou da Suábia, des- de Pascoal II que, para não enfraquecer a frente oci-
cendentes dos dois Fredericos em torno de quem dental, proibiam os cristãos peninsulares de partirem
cristalizara o messianismo imperial), dispensaram- para a Terra Santa, prometendo em contrapartida aos
-Ihes, como seria de esperar, a sua protecção, promo- que aqui lutassem as mesmas graças de que goza-
vendo ao mesmo tempo o culto do Espírito Santo, vam os cruzados da Palestina. A assimilação acen-
que marginalizava a Igreja institucional. Após a tuou-se no ambiente de pavor causado pela invasão
morte de Corandino, neto e último descendente legí- almóada, vindo o papa Celestino I l l a autorizar em
timo por varonia de Frederico II (1268), Pedro III de 1195 o prior de Santa Cruz de Coimbra a impor a
Aragão, casado com Constança, filha de Manfredo, cruz aos que se oferecessem para combater os in-
rei da Sicília (1258-1266), bastardo de Frederico II, fiéis. O mesmo pontífice concedia, dois anos volvi-
proclamou-se herdeiro dos Hohenstaufen, assumindo dos, a D. Sancho I uma bula de cruzada - a primeira
a chefia dos gibelinos e apoderando-se da Sicília. de que há notícia na história portuguesa - para com-
Foi sua filha Santa Isabel quem introduziu em Portu- bater Afonso IX de Leão (1188-1230), que se aliara
gal o culto do Espírito Santo, de inspiração joaqui- ao invasor almóada contra os demais reis cristãos.
mita, que se perpetuou até aos nossos dias nos terri- Foi para a tomada de Alcácer do Sal em 1217 que
tórios outrora dependentes da Ordem de Cristo, em Portugal se pregou pela primeira vez a cruzada
criada por seu marido D. Dinis. Os joaquimitas espe- para fazer conquistas aos mouros; os privilégios es-
ravam do imperador messiânico a instauração do rei- pirituais e materiais concedidos aos combatentes fo-
no do Espírito Santo, que comportaria a destruição ram confirmados pela bula Intellecta ex vestris litte-
tanto do Islão como da Igreja corrupta e a recupera- ris de Honório III (12 de Janeiro de 1218). Para
ção de Jerusalém, associando assim a cruzada à es- projectos de expansão ultramarina - que disso não
catologia, numa grande utopia em que se fundiam passaram por então - pregou-se pela primeira vez a
todas as grandes aspirações da Cristandade medie- cruzada em 1341, quando D. Afonso IV, eufórico
val: reforma da Igreja, supressão do islamismo* e com a vitória do Salado, impetrou do papa Ben-
império universal. 2. A ideia de cruzada em Portu- to XII a bula Gaudemus et exultamus (30 de Abril de
gal: A Reconquista peninsular, para cujo início se 1341) abençoando os seus desejos de atacar Marro-
toma tradicionalmente a Batalha de Cangas ou Co- cos ou Granada. Sempre sem efeitos práticos a bula
vadonga em 718, precede de quase quatro séculos a foi sucessivamente renovada, a favor do Bravo e do
cruzada, pelo que não pode logicamente derivar de- Formoso em 1345, 1355, 1375 e 1377. Entretanto, o
la. A teoria jurídica e a ideologia da cruzada são no mero corso em águas contíguas ao estreito de Gi-
seu corpo como que um enxerto. Os reis peninsula- braltar recebera, pela bula Apostolice Sedis (23 de
res - em particular os de Leão - consideravam-se su- Maio de 1320), concedida por João XXII a D. Dinis,
cessores dos Visigodos; e esse título afigurava-se-lhe honras de cruzada. Diga-se a talhe de fouce que isso
suficiente para os firmar no direito a retomar os ter- não impediu que nas vésperas da expedição a Ceuta
ritórios que os sarracenos lhes furtaram. Fiel à tradi- andassem navios portugueses a transportar, sob jura-
ção conciliar da igreja visigótica, a igreja da Penín- mento de segurança, peregrinos muçulmanos para
sula não parece ter experimentado, até à intrusão dos Meca, quando uma esquadra aragonesa os intercep-
cavaleiros francos e dos monges de Cluny (v. CLU- tou nas Baleares... A partir da tomada de Ceuta em

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CRUZADA

1415a concessão de bulas dc cruzada aos reis portu- Conquista...» que D. Manuel assumira, argumento
gueses torna-se uma rotina. Os reis pedem-nas regu- que é retomado no século seguinte por Frei Serafim
larmente, pois a concessão permite-lhes taxar os de Freitas no seu De Insto Império Lusitanorum
bens eclesiásticos e assim financiar as expedições, Asiático, impresso em 1625. O fraco êxito logrado
enquanto que as indulgências outorgadas por Roma por tais argumentos resulta, além do mais, do seu ar-
contribuem para o moral das tropas. As bulas de cru- caísmo evidente. 2.2. Aspectos ideológicos: Compa-
zada destinam-se apenas às campanhas no Norte de rada com as Cruzadas do Oriente a Reconquista
África; para as expedições ao Oriente não se conhe- apresenta-se como menos ideológica, mais pragmáti-
cem exemplos explícitos, ainda que o inimigo fosse ca e menos radical. O mouro, vizinho e bem conhe-
também aí muçulmano e que durante todo o reinado cido, era para ela sem dúvida um inimigo a abater,
de D. Manuel se pensasse seriamente em atacar o mas não um ser demoníaco a exterminar. O seu ideal
Império Mameluco pelo mar Roxo, destruir Meca e é, digamos assim, o de inverter as relações de supre-
recuperar Jerusalém. A razão mais plausível é que macia vigentes no dar al-islam: fazer dos cristãos
D. Manuel não quisesse sujeitar às ingerências do senhores e dos mouros e judeus tributários protegi-
papado, muito mais interessado eni conter os Turcos dos. Daí as frequentes discrepâncias entre soberanos
nos Balcãs que em retomar aos Árabes a Terra Santa, peninsulares e cruzados do Norte vindos a ajudá-los,
a sua estratégia oriental, tanto mais que graças às bu- cujos serviços acabaram bastas vezes por ser dispen-
las concedidas para prosseguir as campanhas em sados, já que a sua política de extermínio dos muçul-
Marrocos a taxação dos bens eclesiásticos estava as- manos, ameaçando arruinar o país, os tornava inde-
segurada. Embora juridicamente equiparada à cruza- sejáveis. Assim sucedeu sob Fernando Magno
da à Terra Santa, a Reconquista peninsular conserva- (1038-1065), assim voltou a suceder na tomada de
ra um cariz vincadamente nacional que a distingue Lisboa (1147), na de Silves (1189) e na de Alcácer
daquela: a iniciativa das campanhas sempre partiu do Sal (1217). Foi também no contexto da invasão
dos reis, que impetravam do Papa as bulas de cruza- almóada que a ideologia da Reconquista se radicali-
da, e não da Sé Romana; cada Estado fazia a sua zou e se aproximou da da cruzada: foi então que, pa-
própria política, e embora a colaboração de estran- ra estimular a resistência dos cristãos, alguns círcu-
geiros fosse frequente, estava-se muito longe do in- los eclesiásticos decidiram lançar mão da temática
ternacionalismo das cruzadas do Levante, coordena- cruzadistica como instrumento de propaganda. Da-
das por legados papais. A teoria da monarquia tam de então dois textos, a Crónica da fundação do
universal do Papa, pouco discutida em princípio, te- Mosteiro de S. Vicente de Fora e a História da toma-
ve aqui na prática uma aplicação limitada, já que os da de Santarém, que, distorcendo a verdade históri-
reis peninsulares, recusando tacitamente a Doação ca, atribuem ao recém-falecido D. Afonso Henriques
de Constantino, sempre preferiram delimitar por o radicalismo anti-muçulmano dos cavaleiros nórdi-
acordos bilaterais os domínios a conquistar aos in- cos que tantos problemas lhe havia na realidade cau-
fiéis: é o caso dos tratados de Tudellen (1151), Ca- sado. No relato da tomada de Santarém posto na bo-
zola (1179), Almizara (1244), Monteagudo (1291), ca do próprio Conquistador, é o rei quem exorta os
Alcalá de Henares (1308) e Ágreda-Tarazona seus homens nestes termos: «observai isto com a
(1328), entre Aragão e Castela, e dos de Alcáçovas- máxima atenção: não perdoeis nem a idade nem o
- Toledo (1479-1480), Tordesilhas (1494) e Sintra sexo, morra a criança ao peito da mãe e o velho por
(1509) entre Castela e Portugal; o de Tordesilhas ex- idoso que seja; morra a donzela e a velha já decrépi-
clui mesmo explicitamente todo o futuro recurso ao ta; tornai mais fortes vossas mãos; visto que o Se-
papado. Sem embargo, nem Portugal nem Castela nhor está connosco, cada um de vós poderá matar
deixaram de, quando necessário, recorrer à teoria da um cento deles». Na Crónica de S. Vicente, o facto
monarquia universal do Papa para legitimar a posse de alguns mouros terem sido poupados mediante
dos seus domínios ultramarinos, que sempre procu- submissão ao tributo é apresentado como uma ex-
raram confirmar por doação papal: é o caso, nomea- cepção devida à clemência do rei. A despeito dos
damente, das bulas Romanus Pontifex obtida de Ni- progressos da ideologia de cruzada na Península a
colau V por D. Afonso V (8 de Janeiro de 1455) e partir de finais do século xn, a diferença de mentali-
Inter cetera de Calisto 111 (13 de Março de 1456); e dade entre nórdicos e hispanos neste particular era
do lado castelhano o das bulas de Alexandre VI Inter ainda sensível em meados do século xv: na Crónica
cetera (provavelmente de 28 de Junho de 1493), Exi- da tomada de Ceuta (cap. xxxiv) Gomes Eanes de Zu-
mie devotionis sinceritas (provavelmente dc 3 de Ju- rara caçoa ainda da falta de tacto da rainha de Grana-
lho de 1493) e Dudum siquidem (25 de Setembro de da, que, inquieta com os preparativos bélicos que em
1493). O título de doação pontifícia foi, subsequen- Portugal se faziam para ir atacar Ceuta, temendo que
temente, bastas vezes invocado pelos reis de Portu- fossem contra seu reino, decidiu enviar a D. Filipa
gal e Espanha nas suas disputas diplomáticas com os de Lencastre de presente um enxoval completo para
demais reis da Cristandade: assim nas instruções de sua filha casadoira, esquecendo que D. Filipa «era
D. João III a João da Silveira, seu embaixador em natural dTnglaterra, cuja naçam antre as do mundo
França (1530), no Tratado de Cateau-Cambrésis en- naturalmente desamam todoTos infiees». O radica-
tre Henrique II de França e Filipe II de Espanha lismo enraizou-se, mesmo assim, melhor em Castela
(1559), nas alegações de Pereira Dantas em Inglater- que em Portugal e Aragão: na Andaluzia, rapida-
ra (1562), etc. Por 1552 João de Barros (Asia, i, vi, mente reconquistada após a vitórias das Navas de
1) invocava ainda a teoria da ilegitimidade das sobe- Tolosa contra os Almóadas (1212), os mouros foram
ranias infiéis para justificar o título de «Senhor da de imediato banidos das cidades e confinados às

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CRUZADA

áreas rurais, acabando por ser inteiramente expulsos ratura cruzadística faziam a sua aparição: um deles é
do território após a revolta dos mudéjares em 1264; 0 do martírio que ressoa ainda em Gil Vicente (Auto
em Portugal, como é sabido, só vieram a ser expul- da barca do Inferno) e em João de Barros (Asia, i, i,
sos em 1497, por exigência da noiva castelhana de 1 e ii, ii, 8); outro é o do carácter expiatório da guer-
D. Manuel. Esta progressiva radicalização das posi- ra aos infiéis, encarada como uma penitência - o que
ções nem impediu o comércio, que sempre se mante- permite que D. João I participe na «santa romaria» a
ve activo com o Norte de Africa, nem outras formas Ceuta para se lavar da mácula de ter derramado em
de intercâmbio. Os Almóadas utilizaram nas suas Aljubarrota sangue de cristãos (Crónica de Ceuta,
hostes não só renegados como uma milícia de mer- cap. xxvi); e que, um século volvido, o duque de
cenários cristãos, formada sobretudo de aragoneses e Bragança D. Jaime assuma o comando da expedição
catalães, mas em que participaram também alguns a Azamor para expiar o assassínio de sua mulher que
portugueses; os Merínidas - a dinastia que lhes suce- surpreendera no quarto com um pagem. O ideário da
deu em Marrocos - mantiveram-na até 1420. Dessa cruzada imperial e messiânica, de inspiração joaqui-
milícia fez parte nomeadamente o infante D. Pedro mita, gozou em Portugal do favor oficial na época de
de Portugal, irmão de D. Afonso II, que, privado por D. Manuel; fora a morte prematura de cinco candi-
este dos bens que lhe doara seu pai, deixou o reino datos ao trono, mais bem colocados na ordem da su-
para se pôr ao serviço dos Almóadas; foi ele quem cessão, que o guindara ao trono e essa circunstância
em 1220 recolheu as relíquias dos Santos Mártires conferiu-lhe a crença de que o escolhera Deus para a
de Marrocos, aí martirizados a 16 de Janeiro desse missão providencial de abater definitivamente o Is-
ano. Quiçá sob influência inglesa, carreada por lão. A significação do seu nome - Emanuel, «Deus
D. Filipa, a ideologia cruzadística progrediu nitida- connosco» - parecia um bom agouro; e a facilidade
mente com a dinastia de Avis, que, de origem bastar- com que à primeira tentativa os seus homens atingi-
da e guindada ao poder por uma revolta popular, viu ram a índia um sinal do céu. Desde a queda do últi-
na cruzada, ainda que na sua modalidade nacional, mo reduto franco na Terra Santa, São João de Acre,
uma forma de se prestigiar no consenso da Cristan- em 1291, com efeito, que se espalhara a convicção
dade: data dessa época a introdução de um dos temas de que a única maneira de vencer o bloco islamita
favoritos da literatura da cruzada, o milagre, que pa- era promover a aliança entre a Cristandade ocidental
tefaz a aprovação divina à empresa. Zurara tem o e as forças do Preste João das índias, para que a via-
cuidado de informar (Crónica de Ceuta, cap. xxxv) gem do Gama abria, enfim, o caminho. Em Afonso
que antes da partida para Ceuta da expedição um fra- de Albuquerque achou D. Manuel um executor entu-
de domínico do Porto viu em sonhos a Virgem Maria siasta dessa política, que suscitou vigorosa oposição
entregar a D. João I uma espada reluzente; ainda um dos círculos mais pragmáticos e menos eivados de
século mais tarde, aquando das suas expedições a messianismo joaquimita. A morte de Albuquerque e
Ormuz e ao mar Roxo, Afonso de Albuquerque não finalmente a do próprio Venturoso remeteram para as
deixa de pôr el-rei ao corrente de três ou quatro pro- calendas gregas os projectos de intervenção no mar
dígios pressagos que se lhe produziram: aparecimen- Roxo, destruição da Casa de Meca e recuperação de
to em Ormuz de cadáveres de mouros à deriva, mor- Jerusalém. Sob o seu sucessor o mesmo ideário impe-
tos à frechada quiçá pelos anjos, já que os rial e messiânico reaparece nas Trovas do Bandarra;
Portugueses vinham armados de escopeta; salvação mas então vale ao autor os cárceres da Inquisição...
milagrosa dos obreiros encarregados na costa da Apesar de arredadas desde a morte de D. Manuel
Arábia de destruírem uma mesquita, cujo tecto desa- (1521) as veleidades de reconquista de Jerusalém, a
bara ao cortarem-lhe os pilares; aparecimento de ideia de guerra santa não desapareceu, contudo: tal
uma cruz de fogo no céu na direcção da Etiópia e como sucedera entre a conquista do Algarve (1250)
de um raio que cruzou o mar Vermelho, da Etiópia e a de Ceuta (1415), transferiu-se para o corso e para
para a Arábia, como que a mostrar que com o auxílio a guerra marítima contra os muçulmanos. A circuns-
do Preste João se destruiria Meca. O fenómeno é tância de Portugal ter desenvolvido a sua expansão
mesmo retrospectivamente projectado sobre o passa- ultramarina em torno do bloco islamita, de Marrocos
do, contribuindo para acreditar aos poucos a ideia, ao mar Roxo, ao Malabar e à Insulíndia recém-isla-
que Barros levará à perfeição, de que a essência da mizada, deparando no Índico com os mouros da Me-
história portuguesa é desde o seu berço a cruzada: é ca e logo com os mouros da terra como rivais co-
um ano após a conquista de Ceuta que no De Ministé- merciais, permitiu a sobrevivência serôdia da ideia
rio Armorum ou Livro de arautos ocorre a primeira de cruzada, a despeito de ser em Portugal tardia, ad-
menção conhecida do milagre de Ourique; a história ventícia e quiçá mais cultivada pelo poder que enrai-
reaparece em 1419 na Crónica de sete reis de Portu- zada na tradição das massas. Castela, forçada a ex-
gal, devida provavelmente ao cronista oficioso da pandir-se num mundo inteiramente novo, não pôde
nova dinastia, Fernão Lopes. A política de neutrali- inserir do mesmo modo a sua aventura ultramarina
dade das questões ibéricas e europeias reveste um na tradição cruzadística herdada do Médio Evo; aí
cariz ideológico, apresentando-se como uma recusa está uma das razões por que o debate em torno da li-
em colaborar em guerras fratricidas entre cristãos ceidade da expansão foi aí bem mais aceso e tão fru-
para apenas combater os infiéis. Essa ideia, expressa tuosa e inovadora a reflexão jurídica e moral decor-
por exemplo por D. Duarte num apontamento do seu rente da «querela dos justos títulos da conquista».
Livro de conselhos, ecoa depois na Miscelânea de De qualquer modo a ideologia de cruzada veio a ter
Garcia de Resende, em João de Barros, Lusía- um canto de cisne no terceiro quartel de Quinhentos,
das (vil, 2-14), etc. Entretanto, outros temas da lite- época de intenso afrontamento entre cristãos e muçul-

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CRUZADA

manos tanto no Mediterrâneo (desembarque de uma mation des théories politiques au Moyen Age. 2' ed. Paris: J. Vrin,
1972. COHN, Norman - Na senda do milénio: milenaristas revolucioná-
esquadra turca em Minorca, 1558, cerco de Malta rios e anarquistas místicos da Idade Média. Lisboa: Presença, 1981.
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1953. GILSON, Etienne - Les métamorphoses de la Cité de Dieu. Lovai-
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manos a Malaca, 1568, 1573, 1574 e 1575, Chaul e lims. Princeton University Press, 1984. LEPELLEY, Claude - L'Empire
Goa, 1570, e Chalé, 1571, revolta de Ternate, 1570). Romain et le Christianisme. Paris: Flammarion, 1969. Questions d ' H i s -
É no contexto desse momento anti-islamita que Ca- toire. LUBAC, Henri de - La postérité spirituelle de Joachim de Flore.
Paris, 1978. 2 vol. MILHOU, Alain - Colon y su mentalidad mesiánica en
mões escreve Os Lusíadas e D. Sebastião empreende al ambiente franciscanista espahol. Valladolid: C a s a - M u s e o de Colón,
duas expedições a Marrocos (1574 e 1578). O desen- 1983. PIGANIOL, André - L'Empire Chrétien. 2 a e d . Paris: PUF, 1972.
volvimento dos estados nacionais e do maquiavelis- QUILLET, Jeannine - Les clefs du pouvoir au Moyen Age. Paris: Flamma-
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mo político, juntos ã divisão da Cristandade ociden- logie: la Croisade. Lausana: L ' A g e d ' H o m m e , 1983. THOMAZ, Luis Fi-
tal com a Reforma, haviam tornado praticamente lipe F. R. - L ' i d é e impériale manuéline. In LA DÉCOUVERTE, le Portugal
impossível a cruzada internacional, orquestrada pelo et l'Europe. Paris: FCG; Centre Cultural Portugais, 1990. VILLEY, Mi-
chel - La Croisade: essai sur la formation d'une théorie juridique. Pa-
Papa; o desastre de Alcácer Quibir pôs fim às ilusões ris: J. Vrin, 1942. WEST, Dclno C.; ZIMDARS-SWARTS, Sandra - Joachim
de cruzada nacional. Duas décadas volvidas a entra- of Fiore: a study in spiritual perception and historv. Bloomington: In-
da em cena dos Holandeses veio substituir os calvi- diana Univ. Press, 1983.

nistas aos mouros como rivais políticos e comerciais


e a ideia de cruzada perdeu a razão de ser. Não é cer- CRUZADA EUCARÍSTICA, v. EUCARISTIA.
tamente por acaso que Cervantes, que combatera em
Lepanto e assistira ao desmoronar do poderio naval CRUZADA NUNO ÁLVARES (1918-1938). A resistên-
otomano, consegue já em 1605 ridicularizar na figu- cia político-religiosa das elites nacionais ao jacobi-
ra caricatural de D. Quixote o ideal anacrónico da nismo radical, laicista e maçónico, evidenciada nos
cruzada, que Camões um quarto de século atrás as- sete primeiros anos da 1 República, adquiriu novas
sumia ainda plenamente. qualidades desde 1918, devendo inserir-se aí a origi-
LUÍS FILIPE T H O M A Z nal proposta da Cruzada Nacional D. Nuno Álvares
Pereira, para onde convergiram, politicamente, repu-
BIBLIOGRAFIA: AHRWEILER, Hélène - L'idéologie politique de l'Empire blicanos e monárquicos, e, espiritualmente, católicos
Byzantin. Paris: PUF. 1975. ALPHANDÉRY, Paul La chrétienté et l'idée e agnósticos, sob a mesma matriz de um nacionalis-
dé Croisade. In L'ÉVOLUTION de l'Humanité. Paris: Albin Michel, 1959,
2 vol. ARQUILLIÈRE, H. X. - L'augustinisme politique: essai sur la for- mo conservador (v. IGREJA E ESTADO, ÉPOCA C O N T E M P O -

Reunião de membros da Cruzada Nun 'Alvares.

38
CÚRIA DIOCESANA

R Â N E A ) . A O longo de duas décadas, marcadas por em 1921), Bernardo Cabrita (fundador dos Pajens de
uma grande aceleração da dinâmica concreta portu- Nuno Álvares em 1929) e José Damasceno Fiadeiro.
guesa, os seus tempos políticos e modos cívicos so- No campo dos movimentos cívicos contemporâneos,
freram inevitáveis ajustamentos às várias circunstân- a Cruzada adquiriu uma significativa importância,
cias. Basicamente, podem distinguir-se duas fases na interessando o seu estudo quer à história política
sua vida orgânica (1918-1926 e 1926-1938), onde, quer à história religiosa, mas padeceu da projecção
por duas vezes (em 1926, na conjuntura da revolu- dominante do mito do Estado nos costumes políti-
ção de 28 dc Maio, e em 1936, na conjuntura da cos, retirando-lhe a sua área prioritária de acção: o
Guerra Civil de Espanha), sectores da Cruzada tenta- robustecimento moral da sociedade civil (família,
ram impor um revolucionarismo milicial: aproxi- trabalho, solidariedade social, responsabilidade pú-
mou-se então mais de uma multitudinária liga nacio- blica, tolerância, patriotismo), isto é, mais Nação do
nalista do que do seu característico elitismo de liga que Estado.
patriótica. Surgida em pleno sidonismo, a organiza- ERNKSTO C A S T R O LEAL

ção invocou e difundiu a exemplaridade ético- BIBLIOGRAFIA: LEAL, Ernesto Castro - António Ferro: espaço político e
-religiosa e político-militar dc Nuno Alvares, colo- imaginário social (1918-1932). Lisboa: C o s m o s . 1994, p. 80-89, 125-
cando-o num lugar de mediação simbólica dentro do -135. IDEM - Nação e nacionalismos: a Cruzada Nacional D. Nuno Al-
vares Pereira e as origens do Estado Novo (1918-193N). Lisboa: Cos-
redentorismo patriótico - daí a insistência no ressur- mos. 1999. MEDINA, J o ã o - O sebastianismo: e x a m e crítico d u m mito
gimento nacional - , conseguindo, pelo menos entre português. In MEDINA, João, dir. - História de Portugal. Alfragide: Edi-
1918 e 1925, fazer a convergência de notabilidades clube [1993], vol. 6, p. 251-386.
que dispunham de uma moral cívico-política de fun-
do messiânico, apesar dos seus diferentes registos:
CRÚZIOS. V. C Ó N E G O S REGULARES DE SANTA C R U Z .
por um lado, surgia a tradição divina católica que in-
culcava o sentido de santo, expresso no culto e festa CÚRIA DIOCESANA. /. Concepção: O cânon 469 do
religiosa ao Beato Nuno de Santa Maria (6 de No- Código de Direito Canónico define a cúria diocesana
vembro); por outro, estava a tradição laica republica- como conjunto das «instituições e pessoas que pres-
na que promovia o sentido dc herói, político e mili- tam serviço ao bispo diocesano no governo de toda
tar, na linha da hagiografia* sociolátrica positivista a diocese, principalmente na direcção da acção pas-
ao Grande Homem, expresso no culto e festa profana toral, na administração da diocese e no exercício do
ao condestável (14 de Agosto). Na Cruzada operou-se poder judicial». Os cânones dedicados à cúria no seu
até 1925 a síntese dessas duas expressões de messia- conjunto são vários: a cúria em si (cânones 469-474),
nismo, destacando-se na sua divulgação, quanto à os vigários-gerais e episcopais (cânones 475-481),
primeira, o militante católico Álvaro Alfredo Zuzar- o chanceler, notários e arquivos (cânones 482-491),
te de Mendonça e, quanto ao segundo, o militante re- o conselho para os assuntos económicos (cânones
publicano António José de Almeida. No Manifesto 492-494). À semelhança da cúria romana que está ao
da Cruzada de 1921 pode surpreender-se essa dupla serviço do bispo de Roma, assim a cúria diocesana é
dimensão guerreiro-religiosa: «Por Nuno Alvares, um meio eficaz de auxílio ao bispo. Não pode ser
símbolo da Raça! Pela raça que a sua memória de concebida numa dimensão burocrático-administrati-
cavaleiro e santo tutela ainda, para conduzir a novos va, mas em sentido mais amplo, isto é, pastoral. Ela
destinos que a esperam»; subscreveram-no, entre ou- tem um tríplice carácter: eclesial, ministerial e vigá-
tros, as duas notabilidades atrás referidas e Anselmo rio. O decreto conciliar Christus Dominus (n.°27)
Braancamp Freire, Pedro José da Cunha, Tomás de recomenda que a cúria diocesana devia ser um ins-
Mello Breyner, José Pequito Rebelo, Eduardo Fer- trumento apto nas mãos do bispo não só para admi-
nandes de Oliveira, António Egas Moniz, Henrique nistrar a diocese, mas também para fomentar as
Trindade Coelho, José Jacinto Nunes, Celestino de obras de apostolado. Os sacerdotes e leigos que nela
Almeida, Hermano de Medeiros, almirante Vicente trabalham prestam um preciosos auxílio ao ministé-
Almeida de Eça, general Manuel Gomes da Costa, rio pastoral do bispo, agindo dentro dos limites das
coronel Alfredo Freire de Andrade, cónegos Carlos suas competências. Os bispos portugueses, em men-
Martins do Rego e José Dias de Andrade. A mani- sagem dirigida ao povo de Deus, em 13 de Maio dc
festação institucional dessa convergência dava-se 1983, referem-se à cúria diocesana e aos outros ór-
anualmente na Festa da Pátria, a 14 de Agosto, de- gãos que ajudam o bispo no desempenho do seu mú-
clarado feriado oficial da República em 1920, mas nus pastoral, realçando o esforço que tem sido feito
não confirmado em 1929, continuando no entanto para renovar as estruturas e acentuar a dimensão
até 1938 a assistir-se nesse dia a celebrações cívicas pastoral dos aspectos administrativos (n.° 47). Uma
com o apoio do Estado. Entre elas, avultam as come- cúria bem articulada, dotada de pessoal competente,
morações do V Centenário da Morte de Nuno Álva- conhecedora dos anseios pastorais do bispo, é um
res em 1931. A Cruzada, que teve no capitão e advo- óptimo instrumento para o governo da diocese. Po-
gado João Afonso de Miranda o seu fundador, deríamos aplicar à cúria diocesana as palavras de
assegurou, com a excepção de Bernardino Machado, Paulo VI na sua alocução à cúria romana, em 21 de
que a sua presidência honorária fosse assumida pelos Setembro de 1963: «A cúria romana não é um corpo
sucessivos presidentes da República, desde Sidónio anónimo, insensível aos grandes problemas espiri-
Pais, e que o director-geral de Acção Eclesiástica tuais [...]; é um órgão vivo fiel e dócil ao chefe da
fosse sempre nomeado pelo Patriarcado de Lisboa, Igreja; um órgão que compreende as graves respon-
sobressaindo nesse cargo os cónegos Carlos Martins sabilidades das suas funções [...].» 2. Instituições e
do Rego (fundador dos Pajens do Santo Condestável pessoas: As instituições e/ou organismos que estão

39
CÚRIA DIOCESANA

englobados na cúria são vários: conselho episcopal defender os direitos dos fiéis, punir os delitos, julgar
(formado pelos vigários-gerais e episcopais), tribu- todas as causas que digam respeito à Igreja. O bispo
nal, conselho para os assuntos económicos, secreta- diocesano, primeiro responsável pela justiça no seu
riados, comissões, outros conselhos. O conselho para território, age pessoalmente ou, em regra, através de
os assuntos económicos, presidido pelo bispo ou seu um sacerdote, dotado de qualidades e requisitos, de-
delegado, composto por alguns fiéis peritos em ma- nominado vigário judicial.
MANUEL SATURINO G O M E S
téria económica e notáveis na fé e na comunhão da
Igreja, tem por função aconselhar o bispo em todos BIBLIOGRAFIA: CARTAXO, M. - Órgãos de participação na Igreja particu-
os assuntos que impliquem decisões de natureza lar. In CODEX luris Canonici de 19X3: 10 anos de aplicação na Igreja e
económico-financeira ( c f . cânon 492). Em cada cúria em Portugal. Lisboa: C E D C , 1 9 9 5 , p. 8 1 - 9 8 . IDEM Cúrias diocesanas:
normas universais e da Conferência Episcopal Portuguesa. Lisboa:
deverá constituir-se um arquivo onde se conservem A PC, [s.d.]. Cadernos; 4. ANUÁRIO Católico de Portuga! 1995-1998.
os documentos e escrituras relativos aos assuntos Lisboa: Sec. Geral do Episcopado; Rei d o s Livros, 1996. Consultar a
diocesanos espirituais e temporais ( c f . cânones estrutura das cúrias diocesanas. URSO, P. - La cúria diocesana. In
A. LONGHITANO, dir. - Chiesa particolare. Bologna: E D B . 1985,
486-488). Pessoas: vigário-geral, moderador da cú- p. 7 1 - 1 1 7 .
ria, vigário episcopal, vigário judicial, chanceler, no-
tários, ecónomo diocesano, presidentes (ou directo- CURSILHOS DE CRISTANDADE. Movimento de ori-
res) de secretariados, etc. O vigário-geral, munido de gem espanhola, nascido no ambiente do pós-guerra
poder ordinário e executivo, exerce um papel de des- civil, foi oficialmente iniciado em Palma de Maior-
taque na administração, auxiliando o bispo no gover- ca, em Janeiro de 1949, por um grupo de padres e
no. O ecónomo, seguindo as orientações do bispo e jovens leigos, dirigentes da Acção Católica, com o
de outros organismos, tem por missão administrar os apoio do bispo local (D. Juan Hervás), tendo por ob-
bens da diocese {cf. cânon 494). O chanceler tem por jectivo levar os fiéis da diocese ao que considera-
múnus principal velar por que sejam redigidos os vam ser a «vivência do fundamental cristão». Par-
documentos da cúria e por que os mesmos se guar- tindo da constatação de que, em ambiente de
dem no arquivo diocesano (cf. cânon 482). Compete cristandade, havia muitos baptizados a quem faltava
unicamente ao bispo criar e suprimir as instituições, uma verdadeira iniciação na fé cristã, os Cursilhos
nomear e exonerar as pessoas dos ofícios que ocu- nasceram da preocupação de «levar aqueles que es-
pam. Estas, para o melhor cumprimento do seu tra- tão no limiar dessa mesma fé à conversão e à adesão
balho pastoral, devem preencher alguns requisitos global a Cristo, ainda antes, mas sem o dispensar, de
(cf. cânones 470-471), sendo pessoas de confiança, um conhecimento mais aprofundado e sistemático
bem preparadas, de equilibrado espírito eclesial. da Sua pessoa e da Sua mensagem» ( C U R S I L H O S ,
3. Direcção da acção pastoral: Se o bispo é o pastor p. 34). Com um carisma especial e desenvolvendo
da diocese, a cúria não pode ignorar essa qualidade. um método próprio, com o objectivo de «vertebrar a
As pessoas para ela designadas - clérigos, religiosos cristandade» (cf. LINHAS, p. 4), propagaram-se por
e leigos - não são «funcionários» como nas institui- vários países a partir dc 1953, de modo particular
ções civis. Devem desempenhar o seu múnus em es- na Europa e na América Latina, tendo sido introdu-
pírito de missão, sempre atentos ao andamento da zidos em Portugal a partir de uma equipa da cidade
diocese e à sua pastoral. Não nos vamos deter no de Vitória, em 1960. Quando se sentia já necessida-
elenco das várias instituições e organismos que estão de de renovação da Igreja, num momento em que a
encarregados dos sectores da pastoral. Eles variam problemática da descristianização ganhava peso e a
de diocese para diocese, consoante as suas realida- consciência acerca da feminização da prática religio-
des; podem ser consultados no Anuário Católico de sa se afirmava, nomeadamente como resultado do
Portugal. 4. Administração da diocese: A adminis- desenvolvimento da sociologia religiosa* - de que
tração da diocese (entendida no sentido amplo do vários textos publicados no Boletim de Informação
termo e não só na área económica) depende da cúria Pastoral são expressão («A religião cristã, religião
e, mais concretamente, das pessoas que recebem tal "feminina"?», «Em vias de descristianização as re-
encargo do bispo: vigário-geral, vigário episcopal, giões mais praticantes de Portugal?») —, também
secretário-geral, ecónomo. O código actual introduz em Portugal os Cursilhos procuraram oferecer uma
a nova figura do moderador da cúria: um sacerdote, resposta religiosa diferenciada da da Acção Católica
nomeado pelo bispo, que coordene todas as activida- Portuguesa*, que respondesse à insatisfação verifica-
des e os diversos serviços, prestando contas ao prela- da. Inicialmente destinados apenas a homens, os
do (cf. cânon 473, § 2). O moderador pode coincidir Cursilhos queriam testemunhar a possibilidade de se
com o ofício de vigário-geral. Os vigários-gerais e viver fraternalmente a doutrina do Corpo Místico de
episcopais exercem o poder executivo e administra- Cristo e anunciar um «cristianismo jubiloso e viril»,
tivo, conforme as prerrogativas que o bispo lhes con- centrado teologicamente na doutrina da Graça. O no-
ceder. O mesmo se diga em relação a outros titulares me de Cursilhos ou Cursos de Cristandade, como
de cargos na diocese. O primeiro responsável da ad- também por vezes são designados em Portugal, vem
ministração é sempre o bispo, o qual como pastor da metodologia de trabalho utilizada e que se desen-
deve velar por que a administração reverta para bem volve em três fases: pré-cursilho, fase preparatória,
do povo de Deus. 5. Exercício do poder judicial: So- que se refere à selecção dos ambientes e à escolha e
bre o exercício do poder judicial deve-se observar preparação das pessoas a atingir; o cursilho propria-
quanto está prescrito no livro vn do Código de Direi- mente dito, realizado durante três dias, durante os
to Canónico, intitulado Dos processos. Cada diocese quais se procura a vivência e se proclama a mensa-
possui o seu tribunal a fim de administrar a justiça, gem evangélica, numa linha kerigmática; e o pós-

40
C U R S I L H O S DE C R I S T A N D A D E

-cursilho, fase em que se procura apoiar a persistên- balho concertado também à escala europeia. De base
cia no ideal de vida cristã, através de um grupo fundamental e de estrutura diocesana, o Movimento
cristão de amizade e das «ultreias», reuniões regula- dos Cursilhos de Cristandade depende directamente
res de cursistas. Os cursilhos, dados por equipas de do prelado local e organiza-se em secretariados dioce-
padres e leigos, desdobram-se numa explanação teo- sanos que formam, no seu conjunto, a assembleia ple-
lógica do «conteúdo essencial da mensagem» cristã, nária, órgão máximo do movimento. Para coordenar e
de acordo com um método essencialmente «testemu- promover a ajuda mútua no plano supradiocesano,
nhal ou vivencial», num «estilo jubiloso da procla- existe um secretariado nacional, órgão executivo,
mação da Esperança» — as três notas de identidade composto de uma comissão permanente eleita (presi-
do movimento (cf. C U R S I L H O S , p. 37). O primeiro dente, vogais e director espiritual, este nomeado pela
curso realizou-se em Fátima, de 30 de Novembro a 3 Conferência Episcopal Portuguesa*) e de representan-
de Dezembro de 1960, com a participação de apenas tes de três secretariados diocesanos, correspondendo
14 leigos. No entanto, o movimento depressa se es- aos núcleos regionais em que o país se organiza. Es-
palhou pelas várias dioceses do país, sendo que o palhados por todo o mundo, existem mais de 600 se-
primeiro Anuário Católico de Portugal publicado cretariados diocesanos e 30 secretariados nacionais,
depois desta data (1968) indicava a sua presença em que se reúnem em agrupamentos geográficos ou lin-
16 das 17 dioceses da metrópole então existentes e guísticos (Europa, América Latina e de língua ingle-
em várias outras do ultramar ( c f . p. 565). A renova- sa) e ainda um Organismo Mundial dos Cursilhos de
ção conciliar e a própria dinâmica de trabalho desen- Cristandade (OMCC). Para além de várias outras pu-
volvida levou à realização de cursilhos também e es- blicações e boletins diocesanos, existe também um
pecificamente para senhoras. Ao longo dos anos boletim nacional editado pelo secretariado nacional
realizaram-se já mais de 2000 cursilhos, distribuídos do Movimento dos Cursilhos de Cristandade: O Pere-
por todas as dioceses do país, tendo neles participa- grino, de 1964 a 1972; e, desde 1992, A Caminho.
do mais de 70 000 pessoas (cf. C U R S I L H O S , p. 3). PAULO F. DE OLIVEIRA FONTES

Mas, «quem passa por um Cursilho de Cristandade


não fica por esse facto integrado juridicamente numa BIBLIOGRAFIA: A CAMINHO: Boletim do Secretariado Nacional do MCC.
associação» (LINHAS, p. 6), já que os Cursilhos se de- Lisboa: S N M C C . (1992-). C O I M B R A . Secretariado Diocesano do Movi-
mento dos Cursilhos de Cristandade - Cursos de cristandade em reno-
finem como um movimento de Igreja que integra pa- vação. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1983. ENCONTRO: Boletim espe-
dres, religiosos e leigos de ambos os sexos, na linha cial [do] 20." aniversário dos cursilhos de cristandade na diocese de
Aveiro: 1963/1983. Aveiro: C C D A , 1983. C U R S I L H O S DE C R I S T A N D A D E -
da pastoral profético-kerigmática, e não propriamen- Ideias fundamentais. Trad. de Abel Figueiral. 2.» ed. [Lisboa]: Sec.
te como uma associação de leigos ou cristãos. O seu Nac. MCCP, 1994. C U R S I L H O S de Cristandade. In S E C R E T A R I A D O N A C I O -
trabalho pastoral inscreve-se, no entanto, no proces- NAL DO A P O S T O L A D O DOS LEICÍOS - Perfil dos movimentos e obras do
apostolado dos leigos. Lisboa: Sec. Nac. do Apostolado dos Leigos,
so de valorização e diversificação do apostolado dos [s.d.], p. 33-40. LINHAS básicas do Movimento dos Cursilhos de Cristan-
leigos, de que são expressão os novos movimentos dade: Documento elaborado pelo Grupo Europeu de Trabalho. [Lis-
eclesiais* dos anos 50-60. Depois da década de 80, boa]: Sec. Nac. M. C. C . , 1993. O PEREGRINO. Lisboa: S N M C C
(1964-1972). PORTO. Secretariado Diocesano do Movimento dos Cursi-
nomeadamente por ocasião do 20.° aniversário do lhos de Cristandade - 20 anos do Movimento dos Cursilhos de Cristan-
Movimento dos Cursilhos de Cristandade nas diversas dade da diocese do Porto. Porto: Sec. Dioc. M. C. C„ [D L. 1981], SIL-
dioceses do país, verificou-se um esforço de renova- VA, Florentino de Andrade, bispo - Cursos de cristandade e apostolado
laical. Porto: [s.n], 1964. SILVA, Francisco Maria da, bispo - Apostolado
ção e redefinição das suas bases de trabalho, num tra- dos leigos e cursilhos de cristandade. Braga, 1965.

41
DANÇA.

DEÃO.
V. RELIGIOSIDADE POPULAR.

V. DIGNIDADES ECLESIÁSTICAS.
D ser profetas do amor e servidores da reconciliação.
A congregação não possui obras específicas, mas de-
dica-se a todo o apostolado, procurando transmitir o
amor de Deus, simbolizado pelo coração dc Jesus,
DEHONIANOS. A Congregação dos Sacerdotes do «como única fonte de salvação para a pessoa huma-
Coração de Jesus é comummente designada pelo no- na» (Ibidem). Os Dehonianos trabalham em vários
me de Dehonianos por ter sido fundada pelo padre países da Europa, América, África e Ásia, agrupan-
Leão João Dehon (14.3.1843-12.8.1925), natural de do, a nível internacional cerca de 2500 membros.
La Capelle (França). Tendo sentido desde muito no- Foi em Dezembro de 1946 que este instituto entrou
vo o desejo de consagrar a vida a Deus, cursou, a em Portugal. A sua chegada ao país deveu-se a um
fim de seguir o sacerdócio contra a vontade paterna, pedido dirigido à Santa Sé pelo bispo da Beira (Mo-
os estudos teológicos em Roma, depois de já ter con- çambique) no sentido de conseguir alguns missioná-
cluído em Paris a formação em Direito. Após sua or- rios religiosos para a sua grande diocese. A Secreta-
denação sacerdotal, em 1668, continua em Roma pa- ria de Estado do Vaticano comunicou esse apelo à
ra completar os estudos, onde veio a especializar-se Cúria Geral dos Sacerdotes do Coração de Jesus que,
em Direito Canónico, chegando a desempenhar as por sua vez, incumbiu a província italiana de satisfa-
funções de estenógrafo do Concílio Vaticano I. Em zer este pedido. Para melhor garantir a continuidade
1871, o bispo de Soissons destina o padre Dehon pa- da obra missionária e em conformidade com os ter-
ra trabalhar na paróquia de São Quintino da sua dio- mos do Acordo Missionário*, o envio dos primeiros
cese natal de Soissons. Aí realiza uma vasta activi- sacerdotes da província italiana para Moçambique*
dade pastoral e intelectual, em que se destaca o seu levantou a questão da abertura de uma casa de for-
apostolado social junto do operariado e do patronato, mação na metrópole. Por sugestão do cardeal
trabalhando em favor da sua promoção e formação D. Teodósio Clemente de Gouveia, natural da Ma-
espiritual e pugnando por uma maior equanimidade deira, foi essa ilha escolhida para berço da primeira
na distribuição da riqueza em vista da melhoria das casa dc formação em Portugal. Assim sendo, com o
condições de vida da classe trabalhadora. Empe- fim de abrir uma escola apostólica no Funchal, de-
nhou-se activamente na divulgação doutrinal e prag- sembarcaram na Madeira, em Janeiro de 1947, os
mática do conteúdo das encíclicas sociais da Igreja, primeiros dois sacerdotes da congregação, o padre
particularmente da Rerum Novarum de Leão XIII. Ângelo Colombo e o padre Gastão Canova. Circuns-
O sucesso e fama que obteve em termos pastorais e tâncias, consideradas por estes pioneiros como pro-
intelectuais (como autor dc várias obras sociais) não videnciais, abriram-lhes todos os caminhos, desde o
apagou o seu sonho de consagrar-se a Deus como re- bom acolhimento e apoio da população local até ao
ligioso, na demanda de uma vida interior intensa que favorecimento especial do prelado da diocese,
desejava ardentemente. Dc tal modo desejou a vida D. António Manuel Pereira Ribeiro. Em Outubro do
religiosa que até chegou a recusar uma proposta da mesmo ano puderam os padres dar início à obra, re-
Santa Sé para ser elevado à dignidade episcopal. De- cebendo o primeiro grupo de alunos. A casa, inicial-
voto da espiritualidade do Coração de Jesus, cria, em mente alugada, tornou-se bem cedo insuficiente,
Junho de 1878, o Instituto dos Oblatos do Coração obrigando à assinatura de um contrato de compra,
de Jesus, o qual, depois de atravessar diversas prova- que permitisse ampliá-la. Em 1958 inaugurou-se o
ções, se torna uma congregação de direito pontifício edifício completo sob a designação de Colégio Mis-
em 1888 sob o título de Sacerdotes do Coração de sionário, funcionando como seminário menor e centro
Jesus. O seu carisma consiste no amor e reparação de dinamização vocacional e apostólico-missionário.
ao Coração de Jesus e na dedicação ao anúncio da Seguidamente, visando a expansão da congregação,
mensagem de Cristo com um incansável zelo apostó- projecta-se a fundação de outras obras no continente.
lico para «levar os homens a Deus e Deus aos ho- Em 1952, chegam a Coimbra os primeiros dois de-
mens» (VINDE, p. 124). Assim, seguindo o exemplo honianos, o padre Mário Malagoli e o padre Ângelo
do padre Dehon, os religiosos dehonianos deverão Caminati, os quais começaram por dar colaboração à
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

diocese e a preparar a criação de um seminário mé- DEMOCRACIA CRISTÃ, v. PARTIDOS POLÍTICOS C O N F E S -


dio. Em 1959, inauguram o instituto missionário em SIONAIS; CATOLICISMO SOCIAL.
Montes Claros, na cidade de Coimbra, para esse fim.
A 15 de Outubro de 1953 foi fundada a Casa do Sa- DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA. /. Idade Média: Ao
grado Coração de Jesus em Aveiro, a qual funcionou longo dos séculos, as condições de recrutamento ou
inicialmente como escola apostólica e, depois, em de ingresso vocacional dentro da Igreja e das suas
1958, passou a ser o noviciado dos Sacerdotes do carreiras eclesiásticas caracterizaram-se pela diversi-
Coração de Jesus em Portugal. Diversas outras obras dade e pela conjuntura. É de esperar, por exemplo,
se seguiram a estas, entre as quais se destacam o Co- maiores vocações clericais em regiões afectadas por
légio Infante no Funchal (1957), o Seminário (Me- sobretaxas de masculinidade, propiciadoras de um
nor) Missionário Padre Dehon no Porto (1959), o celibato mais permanente, ou definidas por tipolo-
Seminário (Maior) de Nossa Senhora de Fátima gias familiares dominantemente nucleares e/ou mar-
(1969), em Lisboa, e o ABC (1974), (uma obra so- cadas pela valorização da primogenitura masculina
cial com vista a acolher e a formar crianças órfãs ou no processo de transmissão linhagística do patrimó-
carentes de um ambiente familiar condigno). O rápi- nio. O predomínio de modelos familiares agnáticos
do crescimento dos Dehonianos em Portugal possi- pode levar à maior predisposição das sociedades pa-
bilitou a erecção, apenas 20 anos depois da sua che- ra o recrutamento religioso dentro do sector femini-
gada a Portugal, da Província Portuguesa dos no. O grupo social do clero é um organismo muito
Sacerdotes do Coração de Jesus, a qual, além de flutuante em termos de componentes, fortemente su-
ter, desde o início, alguns missionários portugueses jeito a uma diferenciação interna hierárquica muito
a trabalhar em Moçambique, abriu um outro campo plural, abrangendo desde os simples ordenados em
de missão em Madagáscar no ano de 1981, aten- ordens de prima tonsura, a maioria, aos graus mais
dendo ao pedido do bispo de Manajary para assu- elevados do presbiterado e do colégio episcopal do-
mir a evangelização do distrito missionário de Ifa- minante, vértice minoritário mas unificador do grupo
nadiana, onde trabalham actualmente mais de uma clerical. Entre aqueles abundavam os jovens escola-
dúzia de missionários lusitanos, realizando a missio- res, os postulantes e mesmo os noviços conventuais.
nação que o fundador qualificava como uma «forma O clero, sobretudo o secular, era um grupo sujeito a
privilegiada de serviço apostólico» a que os Sacer- uma extrema mobilidade, excepção feita aos Benedi-
dotes do Coração de Jesus se deveriam entregar tinos* ou aos Cistercienses*, bem como aos Cóne-
(Cst. 31.33). Aos Dehonianos têm sido solicitados gos Regulares de Santo Agostinho*. Já os Mendi-
pela Igreja portuguesa vários serviços apostólicos cantes, posto que respeitando a ligação à casa da
desde o ministério paroquial (nas dioceses de Lis- profissão, se revelavam itinerantes. Dentro desta or-
boa*, Funchal*, Porto*, Aveiro*, Angra do Heroís- gânica eclesial, bem como dentro dos quadros políti-
mo* e Algarve*) à formação da juventude, os quais cos e institucionais de uma cristandade medieval, se
têm atendido com significativo sucesso, sendo a inserem as numerosas transferências de clérigos de
sua acção muito acarinhada pelo povo. Possuindo dioceses francas, inglesas, occitânicas, aragonesas e
uma pastoral vocacional bem organizada, a provín- castelhano-leonesas para Portugal, ou de clérigos
cia encontra-se em franca expansão, tendo aberto portugueses para outras dioceses peninsulares, seja
recentemente novas casas nos Açores e no Algarve, no contexto da Reconquista*, seja no tempo do cen-
e congregando mais de 140 membros. Têm também tralismo do pontificado de João XXII. Esta mobili-
desenvolvido um intenso movimento de espirituali- dade, que caracterizava também as ordens religioso-
dade para leigos através de uma Associação Repa- -militares, ajuda a explicar a imensa frequência com
radora que engloba diversos movimentos, entre os que clérigos estrangeiros, sobretudo hispanos, rece-
quais se destacam os Jovens Valentes, Casais Va- biam ordenações ministeriais de bispos portugueses,
lentes, Jovens Leigos Dehonianos, Grupos Missio- o mesmo se verificando em relação a portugueses
nários e o movimento de espiritualidade ECCE. que se ordenavam no estrangeiro. A par deste movi-
Apesar de não terem uma publicação periódica a mento, registado nos subsistentes livros ou cadernos
nível nacional, têm diversas publicações que estão de matrículas de ordens sacras, destacar-se-á, sobre-
a cargo de diferentes casas e movimentos: O Reino tudo nos séculos xiv e xv, o movimento da reserva
do Coração de Jesus (trimestral), a Folha dos Va- expectativa de benefícios e prebendas em dioceses e
lentes (mensal), Cooperadores Missionários Deho- mosteiros portugueses em favor de clérigos estran-
nianos (trimestral), Voz Missionária (trimestral), geiros. 1. Clero secular: Os clérigos com ordens me-
Vínculo de Gratidão (trimestral) e ECCE (mensal). nores ou sacerdotais enfileiravam nas estruturas dio-
JOSÉ EDUARDO FRANCO
cesanas, ocupando conezias da estrutura capitular e
do serviço coral ou integrando o organograma fun-
cional das mitras e das câmaras episcopais, ocupan-
BIBLIOGRAFIA: D E H O N I A N O S DA ITÁLIA - Dehon e os Dehonianos hoje: por
uma civilização do amor. Bologna: Gráfica Dehoniana, 1 9 9 0 . M A N Z O N I , do arcediagados, servindo como supranumerários ou
Giuseppe - Leon Dehon e il suo messàggio. Bologna: Edizioni Deho- detendo vigariarias e capelanias privativas, estabele-
niane, 1989. OLIVEIRA, José Fernandes de - Por causa de um certo rei- cendo-se em igrejas colegiais ou atendo-se simples-
no: história de Leão João Dehon e de sua incrível paz inquieta. São
Paulo: Paulinas. 1 9 7 8 . P R O V Í N C I A PORTUGUESA DOS SCJ - 100 anos ao mente ao serviço paroquial, abundando os raçoeiros
serviço da Igreja: 1878-1978: Sacerdotes do Coração de Jesus. Lisboa: e porcionários, os meio-prebendados, os tercenários
Casa Provincial. 1978. RIBEIRO, Fernando - Padre Leão Dehon. Porto:
Seminário Missionário Padre Dehon, 1 9 9 3 . S A C E R D O T E S DO C O R A Ç Ã O DE
e os quartanários, entre alguns outros oficiais, de que
J E S U S - Dehonianos: 50 anos: o Coração de Cristo no coração do mun- uma boa parte apresentava estudos de bacharelato ou
do. Lisboa: Casa Provincial, 1 9 9 7 . VINDE e vede: Formas de vida consa- mesmo de graus superiores. Não esqueceremos es-
grada na Igreja. Lisboa: Paulinas, 1995.

43
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

soutro paraclero constituído por numerosos ermitas e sus de 40 prebendados. Mas em 1411 Coimbra veria
servitas, quer isolados, quer integrados em estruturas o seu número de canónicas reduzido para 30, des-
de serviço dos santuários e dos templos de peregri- cendo, em 1453, para 27 e estabelecendo-se, mais
nação sazonal, quer rurais, quer urbanos. Segundo tarde, em 25. Estas reduções tiveram contrapartida
Oliveira Marques, em 1320 o clero secular portu- no aumento de supranumerários e de numerosos ou-
guês distribuir-se-ia por cerca de 2424 templos, con- tros clérigos auxiliares, entre os quais se destacavam
centrando-se maioritariamente no Norte, nas dioce- os bacharéis da sé. Noutros pontos, como no prio-
ses de Braga* (38,6%), Porto (11,8%) e na parte rado crúzio de Leiria, concordou-se na redução do
portuguesa de Tui (7,4 %). As dioceses do Centro ti- número de clérigos, em 1409-1414, de 40 para 25
nham uma rede paroquial mais rarefeita posto que ( G O M E S - Organização, p. 298-304). Nas restantes
com territórios mais extensos que as do país seten- dioceses, com relevo para a de Lisboa, a situação
trional. Enunciam-se os casos de Coimbra (9 %), não era muito diversa. No século xv, Portugal conta-
Guarda (8,7 %), Viseu (6,6 %), Lisboa (5,6 %), La- va dois arcebispados metropolitanos (Braga e Lis-
mego (5 %) e a parte portuguesa de Cidade Rodrigo boa, este criado em 1393). Viviam também no país
(2,4 %). O Sul era o espaço que menos Índices pa- diversos bispos in partibus (cinco em meados da
roquiais apresentava, fícando-se Évora por 3,8 %, centúria), a que se somavam os bispos titulares das
Silves por 0,4 %, e os territórios sob o domínio do neodioceses norte-africanas de Ceuta, Tânger, Safim
bispo de Badajoz com 0,16%. Predominava, pois, e Fez. Todos estes prelados desempenhavam um pa-
o Entre Douro e Minho com quase 60 % das paró- pel auxiliar da maior importância nas pastorais dio-
quias do território. Existiriam, na época, umas 165 cesanas, vicariando prelados ausentes em visitas ad
colegiadas, maioritariamente disseminadas junto limina ou noutras funções de representação fora do
dos centros urbanos e no país meridional, muitas país, mantendo activos os ritmos de ordenação de
com quatro a seis clérigos, mas outras, as maiores, novos clérigos ou administrando regularmente os sa-
com números rondando as quatro dezenas. No todo, cramentos reservados aos bispos, como o Crisma ou
calcula-se um mínimo de 1200 clérigos colegiais por a dedicação de altares e de novas igrejas. Os bispos
1320. Nas grandes cidades, as colegiadas eram nu- eram nomeados para as dioceses normalmente a títu-
merosas, como Lisboa, com 19 corporações, Santa- lo vitalício, mas as transferências de umas mitras pa-
rém com 15 ou Coimbra com sete. Leiria possuía ra outras eram frequentes. Na arquidiocese de Braga,
cinco, Torres Vedras quatro, Alenquer quatro, Évora com 24 bispos de 1070 a 1500, a média rondou os
três, Abrantes duas. A Peste Negra de 1348 rarefez a 15 anos por prelatura. Seguiam-se-lhes os bispados
geografia humana clerical do país, obrigando a uma de Lamego* e de Viseu* ambos com 12,6 anos em
recomposição. No todo, e segundo Oliveira Mar- média por episcopado. Muito próximo destes núme-
ques, o clero integrado nas estruturas capitulares ros estavam as mitras do Porto (12,1 anos), de Évora
com os prelados, na Baixa Idade Média, rondaria as (11,9 anos), da Guarda (11,8 anos), de Coimbra
500 pessoas, integrando bispos in partibus. Já o cle- (11,6 anos) e de Lisboa (11,3 anos). No bispado do
ro paroquial e colegial, nas vésperas de 1348, atingi- Algarve*, a média por episcopado baixava para os
ria os 4200 indivíduos. Ao longo de Quatrocentos, o 8,8 anos. Os cadernos de matrículas, para o sécu-
clero secular cresceu paulatinamente, calculando-se, lo xv, revelam que, maioritariamente, os ordenandos
para cerca de 1450, que fosse 12 % superior ao dos eram originários das freguesias da diocese onde re-
índices de 1320. A retoma é evidente, aumentando, cebiam as ordens sacras. Mas uma parte muito signi-
por exemplo, o número das igrejas-colegiadas. As da ficativa era oriunda dos bispados vizinhos. Em Bra-
arquidiocese de Braga passam de I 1 para 21, as de ga, entre 1430 e 1468, 14,8% dos ordenados eram
Lamego de oito sobem para 14, aumentando também da diocese do Porto*, 7,5 % da de Lamego, 7,3 % da
o seu número nos bispados de Coimbra* e de Lis- de Coimbra e 5,8 % de Viseu. Os diocesanos de Lis-
boa*, onde se sedeavam sobretudo nas prósperas vi- boa, Évora, Guarda e Silves acorriam bastante me-
las dos territórios ruralizados, segundo cálculos pre- nos a Braga para ascenderem nas ordens ministeriais
cisos que aguardam estudo. No todo, o clero secular, ( M A R Q U E S - A arquidiocese, p. 967). Na diocese de
em 1475, rondaria os 5000 indivíduos, a que se so- Coimbra, entre 1400 e 1472, num total de 1341 or-
mariam uns 2000 regulares, mantendo-se, segundo denações registadas, 76,5 % foram-no a diocesanos
Oliveira Marques (1987, 220-226), numa percenta- mondeguinos, vindo depois os candidatos oriundos
gem de cerca de 1 % da população global. As mesas de Lisboa (5,74%), Viseu (3,5%), Porto (3,21 %),
capitulares variaram de diocese para diocese e con- Guarda (3,2 %), Braga (2,98 %), Lamego (2,23 %) e
soante as conjunturas reformistas determinadas por Évora (1,41 %). Clérigos oriundos de dioceses caste-
Roma ou pelo prelado local. O cabido* do Porto, em lhano-leonesas, galegas e andaluzas foram mais ra-
1236, contava 24 cónegos e seis porcionários. No sé- ros (2,5 %) ( G O M E S - Diocesanos, p. 572). Os estu-
culo xv, o cabido de Braga era constituído por 40 có- dos realizados para Braga e Coimbra permitem
negos, reduzido conjunturalmente a 30 elementos, concluir também que cerca de dois terços das orde-
mas recuperando para aquele número após 1470, nações respeitavam a ordens ditas menores, sendo o
sem olvidar que o serviço diocesano capitular conta- restante terço reservado às maiores e, dentro destas,
va com um bem maior número de clérigos substitu- apenas uns 10 % ao presbiterado. Para Braga, verifi-
tos e auxiliares ( M A R Q U E S - A arquidiocese - cou-se que os presbíteros saem maioritariamente das
p. 321-378; 1989: 11-30). A diocese de Coimbra co- paróquias rurais, enquanto todo um exército de mi-
meçou por contar 30 cónegos. Com D. Martim Gon- noristas se declara natural de paróquias urbanas (v.
çalves (1183-1191), estabeleceu-se o numerus clau- Quadros I e II). 2. Clero regular: Atesta-se desde ce-

44
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

ra. Os Dominicanos* ergueram casas em Santarém,


Coimbra, Porto, Lisboa, Elvas, Guimarães e Évora.
Os Cónegos de Santo Antão* contavam cinco casas,
o mesmo acontecendo com os Eremitas de Santo
Agostinho ou Gracianos (v. E R E M I T I S M O ) . O S Trinitá-
rios* possuíam casas em Santarém e em Lisboa. Os
Carmelitas* Calçados encontravam-se em Moura.
Em 1320-1321 ( M A R Q U E S - Portugal, p. 222-223),
dos 161 mosteiros existentes, 129 eram de homens
(80,2%) e 32 de mulheres (19,8%). Mesmo que
lhes juntemos mais duas unidades correspondentes
aos cenóbios premonstratenses* de Ermida de Paiva
e de Vandoma, ou alguns outros menos conhecidos,
em pouco se alterará a proporção de três quartos de
mosteiros masculinos para um quarto de casas femi-
ninas no país de inícios do século xiv. No todo, cal-
cula-se que o número total de clérigos regulares no
Portugal da primeira metade do século xiv rondaria
as 4000 pessoas. Freires das ordens de Avis, Cristo,
Hospital e Santiago (v. ORDENS MILITARES), alcança-
riam as 300 almas. Números que somados aos do
clero secular dariam uns 8500 a 10 000 clérigos.
Após 1320 e até cerca de 1450, o clero regular veria
os seus mosteiros aumentarem para 223 (177 de ho-
mens e 46 de mulheres), traduzindo um crescimento
de 38,5 %, mas mantendo a proporção de três quar-
tos de conventos masculinos para um quarto de fe-
mininos (Ibidem, p. 224). Os Franciscanos funda-
riam mais 11 mosteiros no continente e três nas ilhas
dos Açores e Madeira. Quase a par destes, os Domi-
nicanos abririam 11 novos conventos entre 1345 e
1498. Por seu turno, os Carmelitas Calçados insti-
tuem casas em Lisboa, em Colares e na Vidigueira.
Como ordens novas, desenvolvem-se em Portugal,
desde finais de Trezentos, os Jerónimos* (quatro ca-
sas), os Lóios* (duas casas) e os Eremitas da Serra
de Ossa (15 cenóbios) ( A L M E I D A - História, vol. 1).
Beneditinos, Cistercienses e Cónegos Regrantes re-
velam uma má adaptação aos novos tempos. No
do a existência de comunidades cenobíticas em terri- Norte de Portugal, entre 1400 e 1450 extinguir-se-
tório português. Segundo Alegria Marques (Evolu- -iam 17 núcleos beneditinos e sete de cónegos re-
ção, p. 109) existiam 24 unidades monásticas entre grantes. Mosteiros como São Pedro de Rates passam
os rios Minho e Mondego no século x, somando-se de 15 monges, em 1314, para um em 1429. Noutros,
16 novas unidades no século xi. Muitas delas não so- como em São João Baptista de Arnóia, os professos
breviveriam, mantendo-se aquelas que se souberam
integrar nos modelos beneditinos, abandonando as
regras peninsulares e moçárabes*. Em pleno sécu-
lo xii, os Beneditinos* aparecem instalados em 15
(ou 16, se contarmos São Jorge de Coimbra) mos-
teiros masculinos e oito femininos. No final de Du-
zentos, constituíam 51 mosteiros (36 masculinos e
15 femininos). Os Cónegos Regrantes de Santo
Agostinho* contavam, pela mesma época, 36 casas
masculinas e umas oito ou nove casas femininas.
Foram oito os mosteiros cistercienses* do Portugal
undecentista (Tomarães só em 1217 se afiliaria em
Alcobaça). Por 1320, o seu número atingiria 23 uni-
dades (15 masculinas e oito femininas). Mas seriam
os Mendicantes aqueles que mais capacidade de
crescimento revelariam na Baixa Idade Média, esta-
bilizando ou diminuindo drasticamente o número de
casas das ordens mais tradicionais. Os Franciscanos*
instalaram-se em Bragança, Alenquer, Lisboa, Gui-
marães, Coimbra, Leiria, Porto, Covilhã, Guarda,
Santarém, Évora, Estremoz, Portalegre, Beja e Tavi-

45
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

atingiam os oito residentes em 1380 e um em 1429; do couto alcobacense, que Alcobaça retirava três
em São Miguel de Refojos de Basto viviam 10 cléri- quartos dos seus homens. Os estrangeiros represen-
gos em 1382. Nos mosteiros de Santa Maria de tavam um número muito baixo, à volta dos 2,6 %
Adaúfe em 1452, São Pedro de Lomar em 1431, ( G O N Ç A L V E S - O Mosteiro, p. 241-245). índices não
Santa Maria de Cerzedelo em 1471, São Salvador de muito diferentes são apresentados para os frades hie-
Lufrei em 1455, São Salvador do Souto em 1454, ronimitas, cujo recrutamento geográfico foi estudado
São Cristóvão de Rio Mau em 1441 e São Salvador para os séculos xv e xvi ( S A N T O S - Os Jerónimos).
do Banho em 1441, apenas residia, em cada, um úni- 3. Demografia eclesiástica feminina: No século xn
co clérigo. Os conventos mendicantes revelavam-se tornaram-se longínquos os tempos de um monaquis-
mais povoados. Os seguidores de São Domingos, mo de regra frutuosiana em que se reconheciam vir-
por exemplo, deveriam cumprir a regra que impunha tudes na existência de casas dúplices, e mesmo estas,
comunidades mínimas de 12 frades. Conhece-se a recorde-se, bem mais marcadas pela dimensão de
existência de sete frades em Guimarães (1426) e 13 um recrutamento familiar, mais ou menos extenso,
em Vila Real (1443-1463). Em Nossa Senhora da do que pela predominância dc células femininas de-
Misericórdia de Aveiro residiam, em 1482, pelo me- terminantes. Foram poucos, entre nós, os mosteiros
nos 23 frades. Já em Santa Maria da Vitória se atesta beneditinos femininos dc fundação medieval. Entre
um numerus clausus de 30 frades, 20 professos e 10 1150 e 1200 registar-se-ão oito casas (São Jorge de
entre noviços e conversos (1426). Mais prolíficos Recião, São Pedro de Arouca, Vila Cova de San-
eram os Franciscanos. Em Guimarães, a comunidade dim, Ferreira de Aves, São Martinho de Espiunca
atingia os 27 professos em 1445-1470, enquanto que (c. Arouca), Semide, Tarouquela e Santa Marinha),
em Leiria, em 1474, os Observantes atingiam os 35 número que se manteria até ao século xv. Um papel
elementos ( G O M E S - O Convento, p. 416), o que se algo diferenciador parece ter sido desempenhado
pode considerar exemplos de grandes conventos. Os pelos cónegos regrantes, cujos conventos tinham
frades carmelitas de Lisboa rondariam os 16 ou 17 agregados núcleos femininos de importância. São re-
em 1445-1470, época em que a prestigiada comuni- conhecidamente dc fundação medieval os mosteiros
dade de cónegos de São Vicente de Fora teria 10 a de cónegas de São João das Donas e de Santa Ana
15 homens. ( M A R Q U E S - Portugal, p. 224-225). Ana- de Além da Ponte, de São Miguel junto a São Vicen-
lisados individualmente, no entanto, os mosteiros te de Fora e, até cerca de 1228-1229, o de São Félix
apresentam-se como organismos com altos e baixos de Cheias, bem como as clausuras femininas de Gri-
nos seus efectivos residentes, tornando difícil conhe- jó, de Vila Boa do Bispo, de Landim, de Vila Cova e
cer estruturalmente a sua demografia interna. Santa do Banho, no Entre Douro e Minho. Seria no meio
Maria de Alcobaça viu estabelecido o seu limite de de dificuldades que os Cistercienses decidiriam acei-
recrutamento, em 1484-1487, a 50 monges profes- tar a inclusão de núcleos femininos dentro da sua or-
sos, 10 noviços e 10 conversos. Mas, por 1500, em dem. Em Portugal, aliás, as primeiras casas cister-
tempos de crise, atingiria apenas uns 33 monges, de- cienses de mulheres são marcadas por uma certa
sejando o rei duplicá-los ( G O N Ç A L V E S - O Mosteiro, desvalorização. Seria preciso a imposição e a persis-
p. 241). A população dominicana da Batalha, entre tente atenção da realeza portuguesa, aliás, para que
1390 e 1519, mostrou-se maior nas décadas de 1420- outras casas femininas emergissem, sobretudo no úl-
-1429 (15,19 %) e 1510-1520 (19,78 %), registando- timo quartel do século xni, como aconteceria em Ce-
-se uma acentuada crise por escassez de presenças las (Coimbra), em Almoster (Santarém), em São
de frades na década de 1480-1489 (3,8 %). Também Bento de Cástris (Évora) e em Odivelas (Loures).
os momentos iniciais do mosteiro parecem caracteri- Santa Maria de Cós afírmar-se-ia no meio de uma
zar-se por uma comunidade conventual pequena enorme marginalização por parte da abadia de Alco-
(2,82% em 1400-1409 e 2,47 % em 1410-1419) que baça, esperando os tempos modernos para alcançar o
só depois se institucionaliza, crescendo nela os qua- pleno reconhecimento. Outras houve que se extin-
dros especializados e abrindo-se a um maior recruta- guiram pouco depois da instituição, como sucedeu
mento de frades. Este, aliás, efectuava-se na Batalha, com a comunidade de Alenquer, talvez transferida
em cerca de um terço dos frades, na proximidade para Celas de Coimbra, ou com a de São Salvador de
geográfica do mosteiro, recrutando-se os restantes Bouças (Porto). Em 1492 seria fundado em Lisboa o
dois terços em áreas superiores a 50 quilómetros de Convento de São Bento de Xabregas, que marca um
distância. De Leiria sairiam 10,67% dos frades. De período de reanimação da ordem. Entre os mendi-
centros urbanos do Sul viriam 43,68 % ( G O M E S - cantes, após 1250, as casas religiosas da segunda
O Mosteiro, p. 276-280). Para Alcobaça, Iria Gon- ordem, que parecem nascer de grupos de enceladas
çalves detectou uma predominância de recrutamento ou beguinas, cedo se tornam alvo do protagonismo
na Estremadura, em percentagens sempre acima dos proteccionista da realeza (integrando-se rainhas e in-
30 %, atingindo na primeira metade do século xiv os fantas nos seus séquitos de terceiras de clausura) ou
46,5 %. Do Entre Douro e Minho, Alcobaça* recru- da alta nobreza cortesã. Os fenómenos eremíticos fe-
tou um considerável contingente de monges até ao mininos não parecem ter tido especial significado
princípio do século xv. Em Quatrocentos, cerca de em Portugal. A sociedade parece ter limitado esse
29 % dos seus monges eram oriundos de pratica- fenómeno espiritualista ao mundo masculino, reser-
mente todo o Portugal, ainda que fosse da região vando às mulheres uma atenção mais integradora,
mais próxima ao mosteiro, particularmente do triân- proliferando junto das cidades comunidades de ence-
gulo constituído pelas cidades de Leiria, Santarém e ladas ou tugúrios de emparedadas. Foram as ordens
Lisboa, com um lugar significativo para os povoados mendicantes que mais promoveram a integração em

4 6
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

círculos paraeclesiais de comunidades femininas rus clausus, os ingressos de monjas, de noviças e de


constituídas quer por mulheres de origens sociais de conversas, de recolhidas e de pupilas. Não será es-
baixa condição, quer por mulheres originárias dos tranho a este fenómeno uma política de prestígio dos
grupos privilegiados, abrindo as suas portas à fami- cenóbios de acolhimento dc noviças e de terceiras
liatura dos terceiros (irmãs e irmãos leigos recruta- através da entrada neles de membros da realeza e das
dos predominantemente nos círculos das oligarquias alta e média nobrezas (Jesus de Aveiro, Madre de
populares medievais). À acção dos mendicantes se Deus, em Lisboa). Esse foi também o tempo da apli-
deve atribuir o aparecimento das mercearias, a pro- cação de políticas de reforma espiritual (observân-
moção do recrutamento para as confrarias de base cias, capuchas e coletinas), da facilidade em obter
popular de elementos femininos familiares (tidas por novas fundações por parte de individualidades inte-
meias-confradas) e o desenvolvimento de novos mo- ressadas em estratégias de realização socioespiritual
delos de espiritualidade feminina de tipo individual e assistencial de impacte público. Mas cedo se senti-
ou comunitário. Conhecemos as casas de clarissas* riam dificuldades de manutenção e sustento das ele-
fundadas em Lamego, em 1258, depois transferida vadas populações conventuais femininas, abrindo-se
para Santarém (1260), em Coimbra (1283-1317), em caminho à prática da imposição obrigatória do dote
Vila do Conde (1318) e, antes de 1333, em Santa de profissão (normalmente retirado do património fa-
Clara de Amarante. Por seu turno surgem dominica- miliar da noviça), à dependência das mercês e graças
nas em Cheias (Lisboa - 1228-1229) e Santarém reais (cada vez mais sustentadas pelos proventos do
(1240). Só no século xiv se fundariam novas clausu- nascente império), à fixação de um numerus clausus
ras desta ordem em Vila Nova de Gaia (Corpus de professas por casa. Entrado o limiar de Quinhen-
Christi - 1345) e em Lisboa (São Salvador - 1392). tos, abrir-se-ia uma nova época na história do recruta-
As populações monásticas femininas apresentam-se- mento monástico feminino. Para muitos mosteiros co-
-nos, de facto, como comunidades muito atomizadas. meçou então uma fase verdadeiramente áurea.
Para Santa Maria de Celas, de Coimbra, propõe-se SAUL A N T Ó N I O G O M E S

uma média de monjas residentes, em meados de Du-


BIBLIOGRAFIA: A L M E I D A , Fortunato de - História da Igreja em Portugal.
zentos, próxima das três dezenas ( M O R U J À O - Um N o v a ed. preparada por Damião Peres. Porto: Portucalense, 1967,
mosteiro, p. 33, 35). Para Cós, os documentos ates- vol. 1, 4. BRAGA, Paulo D.; BRAGA, Isabel M. D. Protecção régia ao
tam nove monjas em 1307 e 13 em 1337 (BNL. Cód. Convento de Santa Ana de Leiria (séculos xv-xvi). Leiria-Fátima: Ór-
gão Oficial da Diocese. 8 ( 1 9 9 5 ) 3 7 9 - 3 8 7 . B R A N C O , Maria João - Avei-
1494, 263v.°; ANTT. Cós, M.° 1, n.° 19). Em Santa ro medieval. Aveiro, 1991. CASTRO, Júlia C. de - O Mosteiro de S. Do-
Clara de Coimbra, em 1317, ter-se-ão instalado entre mingos de Donas de Vila Nova de Gaia (1345-1513). Porto: FLUP,
quatro e 11 freiras, sabendo-se que uma boa parte 1993. GOMES, Saul - Organização paroquial e jurisdição eclesiástica no
priorado d e Leiria nos séculos xn a xv. Lusitana Sacra. 4 (1992) 163-
delas era oriunda do convento de Zamora. Sabe-se -310. IDEM - O Mosteiro de Santa Maria da Vitória no século xv. C o i m -
que São Domingos das Donas de Santarém teria cer- bra: F L U C , 1 9 9 0 . IDEM - Diocesanos bracarenses de Quatrocentos nas
ca de 20 monjas em 1240-1260. Entre 1368 e 1448, matrículas de ordens sacras da Sé de Coimbra. In C O N G R E S S O I N T E R N A -
CIONAL IX C E N T E N Á R I O DA D E D I C A Ç Á O DA S É DE B R A G A - Actas. Braga:
seria de oito o número máximo de monjas presentes UCP, 1 9 9 0 , p. 5 5 7 - 5 8 7 . IDEM • O Convento de S. Francisco d e Leiria na
no capítulo de São Domingos das Donas de Vila No- Idade Média. Itinerarium. 40 (1994) 399-502. G O N C A L V E S , Iria -
O Mosteiro de Alcobaça e o recrutamento geográfico dos seus monges.
va de Gaia ( C A S T R O - O Mosteiro, p. 31-32). São In C O N G R E S S O IX C E N T E N Á R I O DO N A S C I M E N T O DE S . B E R N A R D O - Actas.
Salvador de Lisboa contava 21 professas em 1392. Braga: UCP, 1 9 9 1 , p. 2 3 3 - 2 5 6 . M A R Q U E S , A. H. de Oliveira - Portugal
No primeiro capítulo das monjas dominicanas de na crise dos séculos xiv e xv. In NOVA História de Portugal. Lisboa:
Presença, 1986. MARQUES, José - A arquidiocese de Braga no século xv.
Aveiro (1456-1461) participariam nove recolectas. Lisboa: I N C M , 1988. MARQUES, Maria Alegria - Evolução do mona-
Esta comunidade aumentaria consideravelmente nos q u i s m o f e m i n i n o até ao século XIII. In A MULHER na sociedade portu-
anos seguintes. Em 1494, cinco religiosas dominica- guesa. Coimbra: F L U C , 1 9 8 6 , vol. 2 , p. 8 9 - 1 1 4 . M O R U J Ã O , Maria do
Rosário - Um mosteiro cisterciense feminino: Santa Maria de Celas
nas, oriundas deste convento, constituiriam o núcleo (séculos xm a xv). Porto: FLUP, 1991. SANTOS, C â n d i d o d o s Os Jeró-
fundacional de Santa Ana de Leiria. Quatro anos de- nimos em Portugal: Das origens aos fins do século xVIII. Porto: INIC,
pois estipular-se-ia que o numerus clausus deste 1980. SOUSA, João de - O Convento de Santa Clara do Funchal. Fun-
chal, 1991. SOUSA, Fr. Luís de - História de S. Domingos. Ed. de
convento não poderia ultrapassar as 30 sorores. No M. Lopes de Almada. Porto: Lello & Irmão, 1977. VASCONCELOS, Antó-
Convento da Conceição de Beja residiam 45 freiras nio de - Dona Isabel de Aragão (a Rainha Santa). Coimbra: Arquivo
observantes franciscanas em 1489, o que causava da Universidade, 1993. 2 vol.

fortes problemas de sustento da comunidade, larga-


mente excedentária. Desta comunidade sairiam para II. Do século xvi aos inícios do século xx: Na apre-
Santa Clara do Funchal, em 1496, cinco monjas ob- sentação de dados e informações que permitam es-
servantes. No Convento de Jesus de Setúbal, de cla- clarecer a questão do peso relativo dos eclesiásticos
rissas coletinas, fixavam-se, em 1496, sete professas no conjunto da população portuguesa, cingir-nos-
(oriundas de Gandía, em Valência) e sete noviças. -emos apenas ao espaço continental. Respeitaremos
Noutros mosteiros de fundação recuada, como os de a divisão tradicional em clero secular* e clero regu-
cónegas de Santo Agostinho, as comunidades resi- lar* (nos seus dois ramos, masculino e feminino),
dentes em pleno século xv eram mais reduzidas. Em deixando de lado determinados grupos (ordens ter-
1431, por exemplo, São João das Donas, em Coim- ceiras, membros da comunidade universitária, sim-
bra, regista apenas nove cónegas presentes em capí- ples tonsurados vivendo como leigos...) que «para
tulo (IANTT. Santa Cruz Coimbra, L. 45, n.° 59). certos efeitos se consideravam também parte do clero»
Mas em finais do século xv o recrutamento feminino ( M A T T O S O - Clero). 1. Clero regular: Definida assim a
monástico atravessará uma fase de bom crescimento, finalidade e delimitado o âmbito desta exposição, po-
ampliando-se os coros ou multiplicando-se, sem deremos afirmar que um primeiro panorama geral da
grande preocupação dc determinação de um nume- implantação do clero regular foi captado, a partir de

47
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

diversas fontes, por José Marques (cf. A Igreja).


O «cenário monástico-conventual português» assim
obtido resulta de uma observação das comunidades
masculinas e femininas, de modo a apurar, para um
período que corresponderia a uma situação de crise
religiosa só ultrapassada após o Concílio de Trento*,
«quantas sobreviveram ao século xv, quantas foram
extintas e quantas foram criadas». O terminas ad
quem desta observação é o ano de 1506: o processo
dinâmico de fundações e extinções continua poste-
riormente, o que não impede que nos fixemos breve-
mente nas linhas fundamentais do quadro traçado.
Dos 203 mosteiros* e conventos* mencionados (e
cartografados) um é de fundação posterior, e de ou-
tros 29, pertencentes às ordens antigas (Benediti-
nos*, Cistercienses* e Agostinhos*), refere-se que
terão sido extintos antes daquele limite final, o que
faz baixar o seu número para 173 (destes, há três que
se situam no Norte de Africa - Ceuta e Tânger - e
outros tantos na Madeira). A sua distribuição pelas
várias famílias religiosas, nos seus ramos masculino
e feminino, consta do Quadro I. Assinalemos ainda
as coordenadas geográficas desta implantação: os
Beneditinos instalaram-se essencialmente nas dioce-
ses de Braga*, Porto* e Coimbra*, mas sobretudo a
norte do Douro; os Cistercienses têm nesta área ape-
nas quatro mosteiros, preferindo claramente a que se
situa entre Douro e Tejo; os Agostinhos (incluindo
os Crúzios e os Eremitas de Santo Agostinho) irra-
diaram de Coimbra, para o Norte até Paderne e para
o Sul até Lisboa, marcando os primeiros forte pre-
sença na arquidiocese de Braga e na diocese do Por-
to, fixando-se os segundos na zona centro-sul do rei-
no. De assinalar ainda a preferência urbana das Frontispício do Livro das grandezas de Lisboa, de Frei
comunidades mendicantes conventuais franciscanas Nicolau de Oliveira, de 1620 (Lisboa, Biblioteca
e dominicanas (atenuada, no caso dos observantes Nacional).
franciscanos, cujos inícios são marcados por uma
tendência acentuadamente eremítica), contrastando plantação destas instituições regulares é desigual,
com a predominância da dispersão rural das ordens muito acentuada numa faixa litoral a norte do Douro
antigas, detentoras de coutos que lhes haviam sido e com focos de concentração à volta de Coimbra,
outorgados durante o século xii. A densidade de im- Santarém e Lisboa. Este primeiro panorama fornece-
rá assim as linhas gerais que sirvam de enquadra-
mento para referências posteriores. Uma delas, tam-
bém de carácter geral, é-nos fornecida pelo Mappa
de Portugal antigo e moderno elaborado pelo padre
João Baptista de Castro, com informações que ante-
cedem e abrangem todo o período que nos interessa,
até aos meados do século xvni. A síntese dessas in-
formações pode observar-se no Quadro II: dele fo-
ram excluídas as casas para as quais o autor não
menciona a data de fundação (entre as quais 17 resi-
dências de jesuítas* e sete conventos franciscanos*,
assim como cinco mosteiros femininos) e as que
vêm designadas como sendo hospícios ou hospitais
(que são, ao todo, 41, para alguns dos quais - todos
dos Hospitaleiros de São João de Deus* - também
não nos fornece a data de fundação); considerámos,
porém, como parte deste conjunto, os colégios.
A subdivisão em períodos permite-nos observar o
ritmo fundacional de conventos e mosteiros (desi-
gnações que o autor, de modo invariável, aplica às
comunidades religiosas masculinas e femininas, res-
pectivamente, e que aqui assumimos num sentido
Fome: MAWUES. José. A Igreja no mundo do infante D. Henrique.
amplo, englobando a generalidade das casas religio-

48
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

sas): dos existentes nos meados do século xvin, só acentuada, no que diz respeito aos religiosos, é ainda
31,5 % seriam de fundação anterior a 1500 (33,7 % a dominância de Coimbra, no contexto da Beira
dos masculinos e 24,2 % dos femininos); os restan- (47,1 %), por força da atracção da universidade que
tes terão sido fundados a um ritmo que, sendo já sig- à sua volta vê formar-se, após a sua instalação defi-
nificativo na primeira metade do século xvi (83 fun- nitiva na cidade do Mondego, uma coroa de colégios
dações), atinge o seu máximo no período seguinte cuja finalidade é, na sua esmagadora maioria, a de
(111 entre 1550 e 1599), para iniciar depois um mo- proporcionar aos membros de diversas ordens reli-
vimento uniformemente descendente até ao limite giosas uma graduação universitária ou a de facilitar
cronológico considerado (o Mappa de Portugal foi a sua dedicação em tempo inteiro à respectiva carrei-
impresso - em segunda edição - em 1763, embora as ra docente. Fenómeno semelhante se passa com
últimas fundações nele referidas sejam de 1745). Évora, embora aí seja menos visível a influência da
Factores deste surto fundacional são, por um lado, a universidade. O contraste é vincado com a rarefac-
introdução de novas ordens ou observâncias, mas so- ção que se nota em Trás-os-Montes e no Algarve.
bretudo o renovado impulso que percorre as ordens O Padrão veicula ainda informações acerca de um
antigas. Das primeiras importa salientar a implanta- aspecto crucial para a compreensão do fenómeno da
ção rápida dos Jesuítas, a partir de 1542, com 11 no- implantação da vida religiosa no país, como é o de
vas fundações na segunda metade da centúria de saber qual o número de religiosos e religiosas que
Quinhentos; e, na segunda metade do século seguin- efectivamente ocupavam estas casas. Os números
te, o contributo de Agostinhos Descalços* e Orato- que avança pecam, na opinião do autor que os publi-
rianos*, também eles proliferando com celeridade, ca, por claro excesso. Podem servir, contudo, como
precedidos, no período anterior, pelos Carmelitas ponto de partida para um exercício de comparação
Descalços* (que entre 1600 e 1649 fundam 10 novas retrospectiva com outros dados, no sentido de tentar
casas do seu ramo masculino). E necessário, contu- apurar qual seria efectivamente a população na vida
do, pôr em destaque que são algumas das ordens an- religiosa. A média global de religiosos é de 86 por
tigas as maiores responsáveis pelas novas fundações: cada convento; a das religiosas, de 96. Estes resulta-
Agostinhos Calçados, Dominicanos* e, sobretudo, dos serão um pouco inferiores se o cálculo for feito a
as diversas observâncias e províncias franciscanas, partir dos valores médios por comarca, ficando então
em ambos os ramos, incluindo as Clarissas*. A visão em 80 e 87, respectivamente. Esta observação mais
global que os dados do Mappa de Portugal nos pro- pormenorizada permite observar oscilações muito
porcionam pode ser confrontada com o Padrão de amplas que vão, para os religiosos, de 25 (média da
1765, elaborado por Manuel José Perinlongue, por comarca de Lagos) a 158 (Guimarães), com um coe-
mandado do marquês de Pombal (cf. F E R R O - A po- ficiente de variação que, apesar de não ser exorbitan-
pulação, p. 93-105). Ambas as contagens, no que te, é elevado (35 %); com médias superiores a 100
respeita ao número de conventos, se aproximam, religiosos por convento aparecem-nos as comarcas
sendo os números do Padrão um pouco inferiores: de Viana (146), Porto (144) e Torres Vedras (107),
371 para os conventos masculinos, incluindo os co- para além da de Guimarães, já referida. Para as reli-
légios de Coimbra (também contabilizados no Map- giosas as médias oscilam entre 47 (também em La-
pa de Portugal), valor compreensível se tivermos gos) e 190 (no Porto), com um coeficiente de varia-
em conta a supressão dos Jesuítas, em 1759; e 121 ção de 39 % e com um maior número de comarcas,
mosteiros de freiras. Na distribuição regional desta para além desta última, que apresentam médias por
contagem (que tem como unidade mínima a comar- mosteiro superiores a 100: Lamego (153), Beja
ca), observam-se assimetrias e pólos de concentra- (150), Tomar (149), Braga (148), Viseu (1 15), Coim-
ção que é conveniente assinalar: a distribuição por bra (108) e Guimarães (105). Se estamos perante va-
províncias consta do Quadro III. É visível a prepon- lores propositadamente exagerados - com a finalida-
derância da Estremadura, tendo como pólo funda- de de justificar medidas restritivas quanto à
mental Lisboa, só por si, com o termo, responsável aceitação de novos pretendentes à vida conventual -
por 42,7 % do número de conventos masculinos e de não se descortina um claro padrão segundo o qual
71 % dos mosteiros femininos da província. Mais essa operação tenha sido feita, tanto mais que o nú-

50
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

oito a 130, numa progressão sem grandes hiatos, e


numa distribuição regular cujo valor modal se situa-
ria nos 50. A média, para as religiosas, terá de pres-
cindir de dois casos em que não se destrinçam das
serviçais: é, sem elas, de 55, com quantitativos que
se distribuem de 20 a 140. Mas se o Mosteiro de
Nossa Senhora da Rosa, com 130 religiosas e cria-
das, cai ainda dentro de valores esperados, já é clara-
mente errático o que se atribui a Odivelas, «onde ha
quasi seiscentas molheres entre freiras e servidoras»
(fl. 71 do fac-símile). A extrema variedade, no que
ao número de ocupantes dos conventos diz respeito,
não permite que se extrapole a partir do quantitativo
destes para os efectivos globais de religiosos. Para o
Porto, informações recolhidas nas visitas ad limina
(cf. A Z E V E D O - A cidade, p. 201-202) permitem-nos
comparar o número de religiosos em cada convento,
em três momentos diferentes (dois deles, muito pró-
ximos - 1623 e 1629 - o outro já quase na década fi-
nal do século - 1688). Os nove conventos masculi-
nos apresentam uma média de 28, em 1623, com
uma amplitude de variação que vai de 6 a 60; em
1629, a média é ligeiramente superior (30, por via de
pequenos aumentos em algumas comunidades, sem
que nenhuma diminuísse) mantendo-se quase esta-
cionária em 1688 (29). Registara-se, neste intervalo,
apenas uma nova fundação (a dos Oratorianos, em
1679). O panorama é muito diferente para os quatro
mosteiros femininos: oscilando a sua ocupação entre
mais de 40 e mais de 90 (entre freiras e conversas)
em 1629, todos eles apresentam valores mais eleva-
dos em 1688, e em três deles regista-se a admissão
de educandas; com estas, a sua população vai de 75
a 128 (média de 106); sem elas a média baixa para
Frontispício do Mappa de Portugal antigo e moderno de
João Bautista de Castro, 2." ed.. 1762 (Lisboa. Biblioteca
101 (contra cerca de 70 em 1629). Assim se justifi-
Nacional). caria a preocupação do bispo ao referir que essas ca-
sas se encontravam empobrecidas também «pela
contínua admissão de religiosas supranumerárias pa-
mero de casas é mesmo ligeiramente inferior ao da ra com os dotes vencer as despesas que afinal sem-
outra fonte coeva. Mas terá o autor do Padrão, tam- pre aumentam» (cf. Ibidem, p. 203). Estas duas ob-
bém aqui, errado na recolha das suas informações, servações, referentes a meios urbanos (que, mesmo
tal como lhe aconteceu, para a contagem da popula- assim, parecem não confirmar a imagem de pletora
ção em geral, relativamento ao número de fogos e veiculada pelo Padrão de 1765) contrastam singular-
almas (cf. Ibidem, p. 32 e 94). Pondo de lado, de mo- mente com a que nos provém de uma «relação secre-
mento, a comparação com valores apurados para da- ta e particular» enviada pelo reformador dos Benedi-
tas posteriores - por motivos que se prendem com os tinos, Frei Álvaro de Salazar, ao cardeal Alberto
efeitos que provocaram as medidas legislativas ten- ( Z A R A G O Z A P A S C U A L - Reforma). Por ela temos notí-
dentes a coarctar a admissão à vida religiosa, pro- cia que, nas 17 casas visitadas, nos anos de 1588 e
mulgadas nesta segunda metade do século xvin - fa- 1589, o número de ocupantes (contando monges, no-
çamos o cotejo com algumas informações anteriores. viços e donatos) oscilava entre dois (ermida dos
No seu Livro das grandezas de Lisboa, Frei Nicolau Apóstolos, em Santarém) e 32 (Colégio Universitá-
de Oliveira dá-nos conta do número dc pessoas em rio de Coimbra), com uma média que rondava os 11
religião que, pela altura em que foi publicado indivíduos por convento, perfazendo o total de 188
(1620), viviam nos «muy grandes mosteiros, assi de (mais alguns «monges leigos de cogulla e sem co-
Religiosos (que são em numero vinte) como de Reli- roa» do Mosteiro de São Bento, de Lisboa - onde re-
giosas (que são em numero dezoito, com dous de sidiam outras 25 pessoas, entre monges professos de
Comendadeiras, e o de Odivellas» (fl. 66v do fac- coro, noviços e donatos - cujo número não vem in-
-simile). São valores arredondados, provavelmente dicado). O panorama (no que diz respeito ao número
revelando ordens de grandeza aproximada, ou então de monges e à observância) era muito menos lison-
a capacidade máxima estabelecida para as casas jeiro nas visitas de 1564 (o colégio de Coimbra, por
mencionadas (como expressamente refere acerca de exemplo, tinha apenas «ocho religiosos todos moços
algumas delas), mas podem servir de indicador. Um e de muy vaxa suerte») e de 1528, esta referente aos
valor médio de 57 religiosas por convento masculino mosteiros de Entre Douro e Lima, incluindo Benedi-
(Frei Nicolau de Oliveira, ao contrário do que indi- tinos e Cónegos Regrantes (cf. Ibidem-, S O A R E S - Os
ca, menciona 23) obtém-se com números que vão de

5i
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

mosteiros, p. 1 10). Se passarmos para os Cistercien- 1 7 6 1 - 1 7 7 0 (quatro profissões). Não se pode saber se
ees* (cuja situação, em 1 5 3 2 - 1 5 3 3 é descrita com a subida do decénio seguinte (oito profissões) inicia
cores sombrias pelo secretário do visitador Dom Ed- ou não nova recuperação. O Mosteiro de Belém
me de Saulieu (cf. S A N T O S - Os Jerónimos, apresenta algum paralelismo com este (sobretudo no
p. 2 2 5 - 2 2 6 ) , vemos que em 1 5 7 3 , no capítulo reuni- movimento ascendente que se verifica entre 1570 e
do em Alcobaça, o cardeal D. Henrique estipula o 1610) embora a outro nível (mínimo de 12 e máximo
número de monges que, de acordo com as rendas de 31 profissões, valores colhidos da representação
disponíveis, deveriam habitar alguns dos conventos: gráfica). Um exemplo colhido numa instituição fe-
foi atribuído um máximo de 34 monges ao de São minina - o Convento da Conceição, em Beja - dá-
João de Tarouca; Sarzedas teria 30 e Bouro 20; Ma- -nos conta de um ritmo que provavelmente podería-
ceiradão e Odivelas ficariam com 10 e o colégio de mos considerar paradigmático: um forte crescimento
Coimbra com 14 estudantes. A dotação por cada desde finais do século xv, culminando em meados
monge situava-se entre 42 500 réis (no Convento de do xvii (14 professas em 1473, 98 em 1550, 250 em
Bouro) a 22 500 réis (no de São Pedro das Águias) 1 6 5 0 ) ; uma inexorável regressão, depois, apenas ate-
(cf. A L M E I D A - História, vol. 2 , p. 1 3 6 ) . Estes dados nuada num curto período central do século xvin (137
têm a vantagem de nos alertar para o facto de que, professas em 1690, 95 em 1744, entre 117 e 136 nos
embora possa haver alguma flexibilidade nas admis- anos que vão de 1756 a 1767, 31 em 1834 como re-
sões às casas religiosas, elas serão sempre condicio- sultado de uma gradual e contínua descida iniciada
nadas pelos rendimentos de que dispõem para a sus- naquela última data) ( S A R A M A G O - Convento, p. 8 9 ) .
tentação dos membros das suas comunidades: um Não é possível especular a partir de dados tão escas-
crescimento indefinido - mesmo que eventualmente sos. Fica contudo a impressão de que não se pode
possibilitado pela disponibilidade de espaço - en- considerar o meado do século xvin - e referimo-nos
contra nesta circunstância uma forte limitação. aqui, mais uma vez ao Padrão de 1765 - como o
O vasto e rico Convento de Santa Cruz determinou ponto alto de uma evolução dos quantitativos de reli-
D. Manuel que não tivesse mais de 72 cónegos, em- giosos existentes nos conventos, quando já o ritmo
bora ele acolhesse, por vezes, 120 e 130 (Ibidem, fundacional esmorecera. O anticongreganismo que,
p. 139). O Convento de São Domingos do Porto aco- nessa altura, ganha raízes, embora tomando como ar-
lheu sucessivamente, nos cerca de 80 anos que vão gumento central o número excessivo de frades, cau-
de 1472 a 1555, 94 frades (nos relatórios das visitas sador de relaxação e desregramento (ou talvez por
ad limina de 1623, 1629 e 1688, invariavelmente, isso mesmo), tenderia a considerar aceitáveis valores
ele aparece com 26 religiosos). As informações es- que claramente parecem pecar por excesso. Na reali-
parsas que até aqui foram apresentadas são susceptí- dade, já antes do meado do século se haviam escrito
veis de delinear uma imagem - que se desejaria mui- críticas contundentes contra a proliferação dos regu-
to mais precisa - cujo traço principal é a extrema lares: D. Luís da Cunha considera o número excessi-
variedade de situações, entre uma e outra das famí- vo de religiosos como uma das sangrias que impede
lias religiosas e mesmo no seio destas, no que diz um desejável crescimento populacional e Alexandre
respeito ao dimensionamento humano das diversas de Gusmão declara ser prejudicial à Igreja e ao Esta-
casas que as integravam. É certo que o ritmo funda- do a multiplicidade dos conventos. Posteriormente,
cional, ponto de partida destas observações, é um in- outros autores polemizaram sobre a utilidade ou no-
dicador do dinamismo e da expansão das ordens e cividade da vida religiosa. E porque não eram muitas
congregações religiosas: albergando comunidades vezes os motivos de natureza espiritual que determi-
mais ou menos numerosas, os conventos marcam navam o ingresso nos conventos, mas sim considera-
sempre uma presença visível nos aglomerados popu- ções de ordem utilitária originadas pelo sistema de
lacionais onde se implantam. O movimento inverso transmissão do património familiar, as consequên-
é menos detectável, uma vez que o espaço físico per- cias observavam-se a nível da relaxação da obser-
manece inalterado mesmo quando interiormente se vância religiosa e do desregramento dos costumes.
desertifica. Faltam-nos dados sobre a dinâmica das A aceitação de religiosos e, sobretudo, de religiosas,
admissões ou dos abandonos. Dos que Cândido dos para além das possibilidades da sua sustentação ma-
Santos nos fornece para três das casas de São Jeróni- terial agravava a situação. O panorama foi já traçado
mo (cf. S A N T O S - Os Jerónimos, mapa extratexto en- com suficiente vivacidade (cf. C O R R E I A - Liberalis-
tre as páginas 3 8 - 3 9 e 4 0 - 4 1 ) , o que se refere ao mo, P. ii, cap. ii). As consequências ultrapassaram a
Convento do Espinheiro apresenta a série mais lon- expressão literária e deram origem a medidas legis-
ga, na qual são perceptíveis fases muito nítidas: o sé- lativas, tendentes a restringir a admissão de novos
culo xvi abre ainda em alta (28 profissões no decénio membros, as quais, começando já com Pombal, têm
de 1501-1510) para descrever a seguir uma rápida a sua expressão mais visível na criação da Junta do
curva descendente que toca o ponto mínimo na fase Exame do Estado Actual e Melhoramento Temporal
de 1 5 5 1 - 1 5 6 0 (sete profissões); o movimento ascen- das Ordens Regulares, em 1789. Do inquérito a que,
dente que aí se inicia, culminando em 1 6 0 1 - 1 6 1 0 previamente a essa criação, se procedeu por ordem
com 13 profissões, quebra depois subitamente (cinco governamental, parece «poder concluir-se que a
profissões em 1 6 2 1 - 1 6 3 0 ) ; mas logo na década se- maioria das casas não tinha vida comum, justifican-
guinte se registam 12 e a subida continua sustentada, do-se muitos dos inquiridos com a falta de religiosos
embora com flutuações, até 1 7 2 1 - 1 7 3 0 ( 1 5 profis- e carência de meios de subsistência» (cf C O R R E I A -
sões, quantitativo que já fora atingido dois decénios Liberalismo, p. 102). É o decreto instituidor da Junta
antes); depois é a quebra, gradual mas profunda, até que expressamente afirma que o referido inquérito

52
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

fora motivado porque à «real presença» tinha chega- casas de religiosos e 133 de religiosas, num total de
do notícia de que «muitos dos mosteiros, e conven- 535, inclui conventos, colégios e hospícios. Um di-
tos, de que se compõem as diferentes congregações e ferente critério de contagem (excluindo os hospí-
províncias das ordens monásticas [...] não se acha- cios) dá-nos, em 1828, 382 para as casas religiosas
vão dotados com rendas sufficientes para a subsis- masculinas, permanecendo quase invariável o das fe-
tência dos religiosos ou religiosas que nelles resi- mininas - 1 3 0 ( S O U S A - O rendimento, p. 1 ) . Balbi
dem» (cf. COLLECÇÃO, p. 3). Por isso, uma das apresenta números diferentes: 418 e 108, atribuídos
incumbências fundamentais que lhe foi cometida foi a Ebeling; 392 e 106, do Mappa cronologico do rei-
a de examinar todo e qualquer «breve, rescripto, ou no de Portugal, de 1815; 383 e 105 do Mappa do
graça da Santa Sede Apostolica, ou de seus delega- reino de Portugal, 417 e 107, segundo uma descri-
dos, ou dos gerais», que dissessem respeito às or- ção pormenorizada que lhe fora fornecida «par une
dens regulares, antes de se lhes dar execução, assim des personnes les plus instruites du Portugal». Estas
como a de ponderar os pedidos de admissão de novi- oscilações (no que respeita aos conventos masculi-
ços, proibida pela soberana, a requerimento («com nos) poderão ser atribuíveis a diferentes critérios de
mui solidas razões») da mesma Junta (Ibidem, decre- contagem; e, para além dos cálculos através dos
to de 29 de Novembro de 1791, p. 6-7). Já em 1756 quais estima um máximo de 6 2 9 2 religiosos e 4 4 3 0
um breve pontifício impetrado por D. José e dirigido religiosas, apresenta os quadros com o número total
ao patriarca de Lisboa dava poderes a este último, de conventos e de religiosos, resultantes do inquérito
«precedendo o conselho, e assenso do mesmo rei ordenados pelas Cortes, cujos valores constam do
Dom José», para «unir e incorporar quaesquer mos- Quadro I V ( B A L B I - Essai, vol. 2 , p. 9 - 1 5 ) . A supres-
teiros de freiras» da cidade e do reino, «que se achão são das ordens religiosas masculinas (pelo decreto
gravados com dívidas, ou não tem rendas annuaes de 30 dc Maio de 1834) veio modificar drasticamen-
sufficientes para manterem o número de freiras de- te este panorama: segundo um mapa oficial de 1840,
terminado nas suas fundações, ou não sendo as frei- ela atingiu 356 conventos de religiosos e ainda 12 de
ras delles recommendaveis pela observancia da anti- religiosas ( S I L V A - Desamortização, p. 4 3 , que cita
ga disciplina regular, a outros mosteiros que forem Jasmins Pereira para o número de religiosos em
mais commodos, e providos de sufficientes rendas 1 8 2 2 - 5 6 5 2 , entre religiosos professos e irmãos lei-
annuaes». A faculdade de «prescrever numero certo gos, praticamente coincidente com o de Balbi). Terá
das [freiras] que de novo se hão de receber» e de sido esta, com certeza, a medida mais visível de um
«mandar às priorezas [...] e a outras quaisquer pes- processo de «desestruturação da Igreja de Antigo
soas a quem de presente pertence, ou ao diante per- Regime» ( N E T O - O Estado, p. 4 4 ss.) levado a cabo
tencer a recepção e admissão das noviças, que [...] pelo liberalismo triunfante e do qual fizeram parte
não admitão noviças algumas fora e além do numero também a extinção dos conventos abandonados
que por vós lhes for prescrito e fora daquellas que os ( 1 8 3 3 ) , e a proibição de admissão a ordens sacras e
mesmos mosteiros podem commoda e facilmente a noviciados monásticos, mandando «que todos os
sustentar com as rendas annuas que rercebião antes indivíduos que se achassem nos noviciados [...]
de feita a união» complementava a competência mo- voltassem à classe da sociedade a que pertenciam»
rigeradora do poder régio exercida através do pa- (COELHO - Manual, p. 2 7 8 ) . A tendência para a
triarca (Ibidem, p. 27). O quadro com que nos depa- «governamentalização da instituição eclesiástica»
ramos nos anos que antecedem e pelos quais se desenvolveu-se num clima de clara conflitualidade,
prolonga a revolução liberal (antes da lei da extinção resultante da polarização das opções políticas cau-
de 1834) terá de ser compreendido como o resultado sadoras de divisões sociais e religiosas insanáveis
de um processo onde ao natural jogo de interesses e ( N E T O - O Estado, p. 5 3 ) . É pela persistência desta
motivações que conduziam ao ingresso na vida reli- bipolarização que se compreende a tentativa de
giosa se deve acrescentar o efeito destas determina- reimplantação das ordens religiosas e, ao mesmo
ções restritivas. Em 1822, o número global de 402 tempo, a oposição de que foi alvo. O processo ga-

53
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

nhou vulto a partir de 1860 (com o regresso de al-


gumas ordens antigas, nomeadamente jesuítas e
franciscanos, e a introdução de congregações no-
vas, algumas recentemente fundadas) coincidindo
com «as primeiras tentativas feitas no sentido do res-
tabelecimento do ensino eclesiástico e do desenvol-
vimento das suas actividades ao nível da assistência
pública» (Ibidem, p. 309). «Uma lei de 1901 (Hintze
Ribeiro), respondendo em teoria às críticas da opi-
nião pública anticlerical mas, na realidade, satisfa-
zendo os desejos dos partidários da existência das
ordens, legalizara na prática o regresso de frades e
freiras, desde que se dedicassem a actividades edu-
cacionais e caritativas» ( M A R Q U E S - Nova, p. 4 8 4 ) .
O quadro existente nas vésperas da implantação da
República dá-nos conta da existência de 154 casas
religiosas no continente, na sua grande maioria dedi-
cadas ao ensino ou de natureza assistencial, com
uma maior densidade de implantação no Porto e dis-
tritos do Norte (55,8 % do total); Lisboa contava
com 38,3 % e os restantes distritos do Sul com 5,8 %
(Ibidem, p. 485). 2. Clero secular: A circunstância
de as informações de que dispomos sobre os clérigos
seculares se encontrarem geralmente insertas em
contagens populacionais permite uma observação
mais pormenorizada e o confronto com os efectivos
da população em geral. Para a primeira metade do
século xvi, analisaram-se as contagens referentes a
Trás-os-Montes ( F R E I R E - Povoação de Trás-os-
-Montes), à Estremadura ( F R E I R E - Povoação da Es-
tremadura), a Entre Tejo e Guadiana ( D I A S - Gen-
tes), todas do numeramento de 1 5 2 7 - 1 5 3 2 , assim Frontispício do Mappa Geral de differentes objectos e
como as das comarcas de Leiria e Santarém, de 1537 noticias do Reyno, 1788 (Lisboa, Biblioteca Nacional).
( O L I V E I R A - A população). Trata-se de espaços geo-
gráfica e populacionalmente distintos, o que, sem so de Lisboa - entre um clérigo por 302 habitantes e
autorizar generalizações, permite observar seme- um por 181, se adoptarmos como índice de conver-
lhanças e contrastes. Assumimos, nesta análise, que são o valor 4) poderão parcialmente dever-se a omis-
a designação de clérigos se referia (como diversas sões de registo na fonte utilizada (acerca de Monte-
vezes é explicitamente declarado) a «clérigos de mor-o-Velho, vila incluída na Estremadura, assinala
missa», inferindo daí que a relação clérigos/número que «neste termo atrás disserão os sobreditos almo-
de fogos seria um indicador do enquadramento ecle- xarife e tabeliam que averia outros tantos clérigos
siástico - e, em certa medida, pastoral - das popula- como na villa e mais», mas não refere qualquer clé-
ções, mesmo tendo em conta que, em alguns espa- rigo para o corpo da vila, que tem 496 fogos, sendo
ços, este último estaria assegurado por comunidades os do termo 1843; em Trás-os-Montes, as omissões
de regulares. Um primeiro confronto pode fazer-se a relativas a Chaves - com 3 3 8 9 fogos - e Bem Viver -
nível dos quantitativos globais: 898 clérigos para com 808 fogos - podem ser colmatadas pelo cômpu-
4 2 3 7 1 fogos ( 1 / 4 7 , 2 ) - valores onde não se incluem to global que excede em 101 unidades o número de
as terras do duque de Bragança, para as quais é ape- clérigos expressamente declarado); a mesma impres-
nas dado o número global de fogos sem qualquer ou- são é colhida por António de Oliveira (A população,
tra especificação - em Entre Tejo e Guadiana; 614 p. 241) que afirma que «o clero recenseado, inferior
para 3 5 5 8 7 ( 1 / 5 8 ) em Trás-os-Montes; 6 4 0 para à realidade, representa apenas 2 % de todos os mora-
4 8 3 7 0 ( 1 / 7 5 , 6 ) na Estremadura (sem Lisboa, para a dores», menos ainda do que a nobreza (3,83 %).
qual a síntese que aparece no início do numeramento E assinala «uma outra especificidade», que se tradu-
desta comarca não menciona o número de clérigos); zia na preferência do clero (juntamente com a nobre-
no início do século seguinte, a estimativa de Frei Ni- za) pela área urbana. «O clero, com efeito, pouco re-
colau de Oliveira atribui às quarenta freguesias da sidia nas paróquias rurais. Na comarca de Leiria, os
cidade 300 clérigos, numa população que soma eclesiásticos recenseados nas "vilas" traduzem
28 929 vizinhos, correspondendo a 119 812 pessoas - 4,68 % dos fogos urbanos, e os que moravam nos
um clérigo para 96,4 vizinhos ou um para 399 pes- termos representam apenas 0,66 % do conjunto ru-
soas); relações de 1 / 4 2 , 5 e 1 / 4 9 , nas comarcas de ral. Por outros termos, 7 8 , 8 5 % dos clérigos recen-
Santarém e Leiria ( 8 5 8 2 fogos e 2 0 2 clérigos, na pri- seados na comarca leiriense morava nas sedes das
meira; 7 6 3 7 fogos e 1 5 6 clérigos, na segunda). As vilas, nomeadamente em Leiria ( 2 4 , 3 6 % ) , Óbidos
diferenças que se notam entre estes diversos espaços ( 1 2 , 8 2 % ) e Porto de Mós ( 9 , 2 6 % ) . Na vila de San-
(numa proporção que varia - deixando de lado o ca- tarém, por sua vez, residiam 7 0 , 0 9 % dos clérigos do

54
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

seu concelho» (Ibidem, p. 242), proporção inversa lámos. Um outro momento para o qual é possível
ao do número de fogos (2300 na vila e Ribeira - congregar um conjunto razoável de informações é o
44,2 % - e 2900 no termo - 55,8 %). Esta mesma lapso cronológico que abrange o último quartel do
verificação se pode fazer para os espaços em que o século xviii e o primeiro do século xix. Fernando de
numeramento separa as contagens relativas às sedes Sousa sintetizou, para o espaço a norte do Douro, os
das unidades administrativas (cidades e vilas) e aos dados fornecidos pelo Mappa do estado actual da
respectivos termos: assim, a distribuição dos fogos é, província de Tras os Montes, de Columbano Pinto
para Entre Tejo e Guadiana, de 66,3 % (sedes) para Ribeiro de Castro (publicados depois integralmente
33,7 % (termos), ao passo que a proporção de cléri- por José Maria Amado Mendes) e os de Custódio Jo-
gos residentes nas sedes sobe para 95,4 % (deixando
apenas 4,6 % para o restante espaço); por sua vez, na
Estremadura, a desproporção é ainda maior, uma vez
que o número dc fogos dos termos representa 67,2 %
do total: as sedes ficam com apenas 32,8 % dos mo-
radores, mas nelas residem 95,2 % dos clérigos. Sem
que possamos dirimir aqui o problema da fronteira
entre o rural e o urbano (bastantes destas vilas têm
um reduzido número de fogos), é inegável esta con-
centração do clero secular nas sedes administrativas.
E dentro de um contexto geral de estreita correlação
entre a dimensão humana dos agregados e o número
de clérigos neles residentes (os coeficientes calcula-
dos para Trás-os-Montes e para Entre Tejo e Guadia-
na são, respectivamente de 0,96 e de 0,85) podemos
observar, ao confrontar para cada um deles os quan-
titativos populacionais e clericais, desproporções no-
táveis (exceptuámos, naturalmente, os agregados on-
de não há clérigos, por impossibilidade de cálculo).
Os coeficientes de variação referentes à relação nú-
mero de fogos/número de clérigos são: para Trás-os-
-Montes, 51,1 %; para a Estremadura, 94,8 %; e para
Entre Tejo e Guadiana, 127,4%. Alguns exemplos
poderão ilustrar o carácter abstracto destes números.
Não será de estranhar que cidades com cabido e com
igrejas colegiadas apresentem concentrações extraor-
dinárias de clérigos: assim acontece em Évora (com
116 «conigos e creligos de missa» num total de 2813
fogos no corpo da cidade) e com Coimbra (com 120
«conegos da Sé e clérigos beneficiados» para uma
população de 1329 vizinhos distribuídos entre a al-
medina e o arrabalde). Mas podemos juntar-lhes um
outro conjunto de localidades, cujos valores são
mais facilmente perceptíveis se ordenados em qua-
dro (Quadro V). Em contrapartida, vamos encontrar
uma ou outra sede administrativa de alguma impor-
tância onde, aparentemente, não reside nenhum clé-
rigo secular (Torres Vedras, com 257 fogos na vila e
1686 no termo; Torres Novas, com 351 fogos na vi-
la, havendo apenas um clérigo no termo que tem
1097 vizinhos; Sardoal, com 500 fogos e nenhum
clérigo...) e, sobretudo, grupos de povoações meno-
res ou de «casais apartados» em torno das local ida-
des-sede, que agregadamente perfazem conjuntos
numerosos de fogos, onde não residem clérigos: o
termo de Santarém conta com 3387 vizinhos; o de
Coimbra com 3241; o de Vila da Feira, onde exis-
tem, para além de outras pequenas localidades, 36
aldeias com a «sua freguesia», tem 2624; o de To-
mar, 1516; o de Abrantes (sem Punhete e Sardoal),
1061; o de Alenquer, 911. No Sul, os termos de Évo-
ra, Beja e Montemor-o-Novo contam respectivamen-
te com 788, 722 e 705 fogos. Em escala menor, este
panorama repete-se para outros agregados, reforçan-
do assim a impressão de assimetria que atrás assina- * 12 cónegos e 4 clérigos.
* * E ainda 38 freiras.

55
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

sé Villas Boas, para o Minho (publicados por Antó- sentam 11,2 % do total da população, contam apenas
nio Cruz). Observa, ao contrário do que parece acon- com 13,9% do clero secular da região cm causa»
tecer no século xvi nos espaços analisados, uma (Ibidem, p. 11). Assinalemos ainda que, «na sua
«notável regularidade da taxa de enquadramento da maioria esmagadora, o clero secular do Minho e
população por parte do clero secular. Enquadramen- Trás-os-Montes, à semelhança do que se passava,
to uniforme, cobrindo todo o território de um modo tanto quanto sabemos, nas outras províncias do Rei-
sistemático e vigoroso, desde o leste trasmontano ao no, é de recrutamento regional, mais concretamente,
litoral minhoto, efectivado por um clero secular rural de proveniência local» (Ibidem, p. 13); clero que,
a acompanhar o tipo de povoamento disperso de também maioritariamente, com excepção das «voca-
Portugal setentrional» ( S O U S A - O clero a norte, ções urbanas de cidades como Porto e Braga», era
p. 10-11). Com efeito, a um valor médio de 99 habi- proveniente de «famílias rurais que trabalhavam a
tantes por sacerdote («100 no Minho e 97 cm Trás- terra», de uma «pequena e média burguesia rural»
-os-Montes»), calculado na base dos totais (6337 sa- [Ibidem, p. 12-16). Para o extremo sul do país, o
cerdotes para 636 557 almas, no Minho; c 2595 «Mappa de todas as différentes dignidades c occupa-
sacerdotes para 251 521 almas, em Trás-os-Montes) ções e ofícios que ha em cada uma das terras do
corresponde uma média ponderada muito semelhan- Reyno do Algarve» (incluído no Mappa geral de dif-
te (ponderou-se a relação almas/sacerdotes de cada férentes objectos e noticias do reyno do Algarve, de
comarca pelo respectivo número de freguesias e ob- 1788) refere o número de eclesiásticos, que distingue
tiveram-se os valores médios de 99,88 para o Minho dos frades, contabilizados à parte (cf. C A V A C O - A di-
e 100,54 para Trás-os-Montes). O mais significativo nâmica, vol. 2, p. 151-152). A síntese dos valores
é que a dispersão à volta destes valores é diminuta que se apuraram está patente no Quadro VI. É evi-
(coeficientes de variação de, respectivamente, dente, através da sua observação, o flagrante con-
18,82 % e 17,91 %) o que vem confirmar a ideia de traste com a situação a norte do Douro, traduzido
distribuição regular do clero, avançada por Fernando numa muito menor taxa de enquadramento eclesiás-
de Sousa. Ela é ainda corroborada pela observação tico das populações (1/392 habitantes, se tivermos
do mesmo autor, que faz notar que «nalgumas das 13 em conta os totais). Contraste que se mantém, apesar
cidades e vilas com mais de 2000 habitantes, exis- de menos vivo, na diocese de Beja*, na qual, para
tentes a norte do Douro» (Barcelos, Braga, Guima- cerca de 100 000 habitantes, há, em 1776, 340 sacer-
rães, Miranda, Ponte de Lima, Porto), embora a per- dotes (1/294) e, em 1796, 380 para cerca de 110 000
centagem de sacerdotes seja superior à que se ( 1/289), ainda assim com uma distribuição geográfi-
veritica para o conjunto de todos os agregados, esse ca irregular entre o Norte e o Sul da diocese: o Sul,
facto não justificaria que se caracterizasse o clero se- com 3/5 da superfície tem apenas 1/3 de todo o efec-
cular a norte do Douro como «urbano». Na verdade, tivo clerical; 2/3 dos clérigos estão no Norte - 2/5 da
os 8932 eclesiásticos perfazem 1 % da população to- superfície - «e 1/6 do efectivo total [de clérigos] está
tal; nas localidades referidas, oscilam de 1,8% a na cidade de Beja» ( M A R C A D É - Frei Manuel',
2,4%. Contudo, «esses 13 aglomerados, que repre- p. 154-155). Na comarca da Feira vamos encontrar

56
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

uma situação intermédia (um eclesiástico secular pa- categorias próprias, como a de benefício curado e
ra 275 habitantes), mas com algumas discrepâncias benefício simples, mas à qual se poderiam adaptar as
assinaláveis face a um núcleo central próximo da- mais gerais de proprietário e serventuário - estes,
quele valor médio (Ovar, Cucujães - onde se assina- nalguns casos, designados como ecónomos, mas on-
la a presença de 13 regulares - e Crestuma, no senti- de seria possível incluir vigários e curas) e a ela ape-
do da rarefacção; Castanheira e Cortegaça, onde há nas se alude com a finalidade de chamar a atenção
maiores concentrações, embora tratando-se de aglo- para a heterogeneidade da condição destes clérigos
merados relativamente pequenos - Quadro VII). Mas em termos jurisdicionais e económicos (cf. SOUSA -
é constante a presença de eclesiásticos seculares - O clero a norte, p. 18 ss., onde assinala que, neste
sempre com assimetrias - nas freguesias em que se espaço, dos 8932 sacerdotes só 1892 - 2 1 , 2 % - são
subdividem aquelas vilas e coutos (cf. AMORIM - párocos, 713 em Trás-os-Montes e 1179 no Minho;
Descrição, p. 266 ss.) Uma observação mais porme- SOUSA - O clero da diocese, p. 253-254; SOUSA -
norizada é-nos facultada para a recém-criada diocese Subsídios, quadro n.° 10, onde contabiliza, para a co-
de Aveiro* pelo inquérito ordenado pelo seu primei- marca de Vila Real, em 40 freguesias com 7211 fo-
ro bispo, em 1 7 7 5 (cf GASPAR - A diocese). Nas suas gos, 23 784 pessoas de sacramento e 2269 menores
72 freguesias há 314 presbíteros, sete diáconos, oito de confissão, 278 sacerdotes, 116 ordinandos e 55
subdiáconos e 68 clérigos de ordens menores. A pre- pretendentes). As assimetrias detectadas, entre e
sença de sacerdotes verifica-se em todas as fregue- dentro destes diferentes espaços, não autorizam uma
sias, revelando uma certa regularidade de enqua- extrapolação generalizada de modo a calcular valo-
dramento eclesiástico, embora com disparidades res globais para a totalidade do país, quer de ecle-
notórias que fazem oscilar muito a relação entre sa- siásticos seculares quer da sua relação com a popula-
cerdotes e população: o valor máximo é de um por ção. Balbi (Essai, vol. 2, p. 10), contudo, fê-lo
15 fogos, o mínimo de um por 424, com outros valo- (exactamente a partir dos resultados obtidos para o
res que se aproximam deste. Em termos globais Minho por Custódio José de Vilas Boas que, sabe-
(contando apenas com 69 freguesias, por falta do nú- mos, terão fornecido uma estimativa por excesso): e
mero de fogos em três delas), obtém-se a cifra de um avançou com um total de 18 000 eclesiásticos secu-
sacerdote por 83,7 fogos (sensivelmente 1/335 habi- lares (para uma população que calcula, também, em
tantes), confirmando o coeficiente de variação 3 milhões e 173 000 indivíduos - o que dá uma rela-
(83,6 %) a já referida impressão de desequilíbrio. ção de 1/388). Pode aceitar-se a verosimilhança des-
Mas a referência às diversas situações dos clérigos - tes valores enquadrando-os num provável processo
em diversos momentos da sua possível progressão de diminuição dos efectivos do clero secular, como o
para o presbiterado, sendo os minoristas ainda uma que é assinalado por Fernando de Sousa para a cida-
proporção considerável (20,5 % dos de ordens maio- de do Porto, entre 1794 e 1822 (SOUSA - O clero da
res) - chama a atenção para os diferentes papéis por diocese, p. 256-257). Processo que se terá agravado
eles desempenhados no seio das comunidades em com a instauração do liberalismo, colocando o clero
que se inserem: a hierarquização das funções releva paroquial na dependência do Estado «que lhe impu-
da complexa organização eclesiástica (onde existem nha as regras e definia as normas da sua própria re-
57
DEMOGRAFIA ECLESIÁSTICA

novação social» ( N E T O - O Estado, p. 1 1 7 ) , ao mes-


mo tempo que lhe cerceava a sua mais importante
fonte de rendimentos. Em 1 8 3 9 - 1 8 4 0 haveria no
continente 3 7 6 9 párocos e 2 9 4 coadjutores, perfa-
zendo 4 0 6 3 sacerdotes directamente incumbidos do
ministério paroquial; em 1 8 6 4 - 1 8 6 5 são 3 8 0 3 páro-
cos e 3 0 5 coadjutores (num total dc 4 1 0 8 ) ; em 1 8 8 5 ,
com excepção das dioceses de Beja, Braga*, Évora*
e Guarda*, somam 4 3 9 3 sacerdotes (o que, se o cri-
tério de contagem tiver permanecido idêntico aponta
para uma certa recuperação dos efectivos do clero
secular). Cremos que, para além destes párocos e
coadjutores haveria outros clérigos, nomeadamente
sacerdotes: assim acontecia na diocese de Coimbra*,
no início de 1889, em cujos 25 arciprestados havia
669 clérigos - 315 párocos e 354 não párocos, incluin-
do nestes os «lentes da Universidade, mas não os
alumnos que não são do bispado». Uma nota marginal
a estes dados contém um erro de cálculo, ao afirmar
que eles correspondiam a um clérigo por 6 4 9 9 al-
mas, quando na realidade a relação era dc 1 / 9 1 1 .
Mas o seu interesse reside na reflexão que a seguir
faz de que, se se deduzissem os «adoentados» (eram
212) e «os que não se empregam na cura de almas»,
se veria a grande falta de clero e a necessidade de
promover novas ordenações: de facto, estas tinham
vindo tendencialmente a decrescer entre 1860 e 1888
(a média anual para todo o período foi de 13,4, mas
fora de 15,1 na primeira metade e baixara para 11,7
na segunda). Mesmo assim, encarava-se a situação
da diocese de Coimbra como mais favorável do que txtraiao ae: MARQUES, A. H. ae uiiveita, coora., Nova Historia de Portugal, vol. il. p. tau.
a de «muitos Bispados do paiz», nas quais os sacer-
Gravier, 1822, vol. 2. CASTRO, João Bautista de - Mappa de Portugal an-
dotes se viam na necessidade de «binarem as mis- tigo e moderno. Lisboa: N a Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ame-
sas». O ritmo das ordenações, em muitas delas, era no, 1763, vol. 2. CAVACO, Hugo Reinaldo Salvador - A dinâmica portuá-
francamente inferior ao de Coimbra (cf R A M O S - ria e aduaneira do Levante algaivio na 2." metade do século xvm.
Dissertação de mestrado apresentada à F L U L em 1996. Texto policopia-
O bispo, p. 187, nota 6); e entre 1875 e 1885 haviam do. COELHO, José Francisco Trindade - Manual político do cidadão por-
falecido, em todo o país, 2192 sacerdotes, tendo-se tuguês. 2.A ed. Porto: Emprêsa Litteraria e Typographica, 1908. COLLEC-
ordenado apenas 1088, menos de metade dos faleci- ÇÃO dos decretos e ordens de S. Magestade e dos breves pontifícios
pertencentes à Junta do Exame do Estado Actual e Melhoramento Tem-
dos. Contudo, entre 1 8 9 2 - 1 8 9 3 e 1 8 9 9 - 1 9 0 0 , os 1 9 poral das Ordens Regulares. Lisboa: Na Régia Officina Typographica,
estabelecimentos de ensino eclesiástico (que in- 1794. CORREIA, José Eduardo Horta - Liberalismo e catolicismo: o pro-
cluíam a Faculdade de Teologia*, o Colégio das blema congreganista. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1974. C R U Z ,
António — Geografia e economia da província do Minho nos fins do sé-
Missões, 14 seminários de ciências eclesiásticas - culo xvm: Plano de descrição e subsídios de Custódio José Gomes Vilas-
incluindo os de Angra e do Funchal - e três seminá- -Boas, recolhidos e anotados por [...]. Porto: Centro de Estudos Huma-
rios preparatórios) viram crescer quase ininterrupta- nísticos, 1970. DIAS, João José Alves - Gentes e espaços: em torno da
população portuguesa na primeira metade do século xvi. 3 vol. Disserta-
mente os seus educandos (de um mínimo dc 1979, ção de doutoramento policopiada, 1992. FERRO, João Pedro - A popula-
naquele primeiro ano, a um máximo de 2 7 3 8 , em ção portuguesa no final do Antigo Regime (1750-1815). Lisboa: Presen-
ça, 1995. FREIRE, Braamcamp - Povoação dc Trás-os-Montes no
1 8 9 8 - 1 8 9 9 , ou seja, mais 3 8 , 3 % ) , aumentando ainda
xvi século. Archivo Historico Português. 7: 7, 2 4 1 - 2 9 0 . IDEM - Povoação
mais o ritmo de aprovações nos exames (44,2 %, de da Estremadura no xvi século. Archivo Historico Portuguez. 6 : 7 , 241 -
5 8 4 a 8 4 2 , com um máximo de 8 4 6 , em 1 8 9 8 - 1 8 9 9 ) . -284. GASPAR, João Gonçalves - A diocese de Aveiro no século xvm: um
inquérito d e 22 de Setembro de 1775. Correio do Vouga. Aveiro. (1974).
Mesmo assim, em Junho de 1911, concedendo em- Separata. M A P P A estatístico do clero do bispado de Coimbra no I" de ja-
bora que a convulsão republicana tivera já alguns neiro dc 1889. Instituições Christãs. 7: 3 (1889). MARCADÉ, Jacqucs
efeitos, a relação média entre número de sacerdotes Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas. évéque de Beja, archevèque d 'E-
vora (1770-1814). Paris: Centro Cultural Português, 1978. M A R Q U E S ,
e o de habitantes baixara substancialmente, cifrando- A. H. de Oliveira, coord. - Nova história de Portugal: Da monarquia
-se em 1 / 1 0 0 2 , 3 (Quadro V I I I ) ; e haviam-se agrava- para a república. Lisboa: Presença, 1991. MARQUES, José - A Igreja no
do os contrastes entre diferentes espaços do conti- m u n d o do infante D. Henrique. Revista da Faculdade de Letras. 2: 12
(1995) 183-230. MATTOSO, José - Clero. In DICIONÁRIO de história de
nente, já observados em períodos anteriores. Portugal. Dir. Joel Serrão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1961-1971.
4 vol. MENDES, José Maria A m a d o Trás-os-Montes nos fins do sécu-
F E R N A N D O TAVEIRA DA EONSECA
lo xvm segundo um manuscrito de 1796. Coimbra: INIC, 1981. NETO, Ví-
tor Manuel Parreira - O Estado, a Igreja e a sociedade em Portugal
BIBLIOGRAFIA: A L M E I D A , Fortunato de - História da Igreja em Portugal. (1832-1911). Dissertação de doutoramento apresentada à F L U C em
Porto; Lisboa: Livraria Civilização, 1968, 1970. 2 vol. AMORIM, Inês - 1996. Texto policopiado. OLIVEIRA, António de - A população das co-
Descrição da comarca da Feira (1801) feita pelo desembargador correge- marcas de Leiria e Santarém em 1537. Revista Portuguesa de História.
dor Columbano Pinto Ribeiro de Castro: introdução e estudo crítico de 15 (1975) 235-299. OLIVEIRA, Nicolau de. fr. - Livro das grandezas de
[...]. Revista da Faculdade de Letras: História. Porto. 2: 11 (1994) 229- Lisboa. Lisboa: Vega, 1991. C o m fac-símile da edição original de 1620.
-285. AZEVEDO, Carlos A cidade do Porto nos relatórios das visitas «ad RAMOS, A. Jesus - O bispo de Coimbra D. Manuel Correia de Bastos Pi-
limina» do arquivo do Vaticano. Revista de História. 2 (1979) 175-204. na. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1995. ROSÁRIO, António do - Frades
B A L B I , A . - Essai statistique sur le royaume de Portugal. Paris: Rey et do convento de S. Domingos do Porto ao dealbar da Época Moderna.

58
DESAMORTIZAÇÃO

Revista de História. 2 (1979) 91-103. SANTOS, Cândido dos - Os Jeróni- bens por esse meio perdê-los-iam para o monarca
mos em Portugal: das origens ao século xvn. Porto: INIC, 1980. S A R A - ( A L B U Q U E R Q U E ; N U N E S - Ordenações, p. 173). Mas,
MAGO, Alfredo - Convento de soror Mariana Alcoforado: Real Mosteiro
de Nossa Senhora da Conceição. Sintra: Colares Editora, [s. d.]. S E R R Ã O ,
como alguns membros do clero regular passaram a
Joel [et ai.) População activa e população na vida religiosa em Trás-os- servir-se de terceiros para enganosamente continua-
-Montes nos finais do século xvin. Análise Social. 1 2 : 4 7 (1976) 748- rem a efectuar tais compras, em 1292 D. Dinis proi-
-762. SILVA, António Martins da - Desamortização e venda dos bens na-
cionais em Portugal na primeira metade do século xtx. Dissertação de
biu igualmente os tabeliães de lavrarem escrituras de
doutoramento apresentada À F L U C em 1989. Texto policopiado. S O A R E S , venda a frades e freiras, obrigando aqueles a fazerem
Franquelim Neiva - Os mosteiros da comarca de Entre Douro e Lima em jurar aos vendedores que não tinham conhecimento
1528. Bracara Augusta. 41: 91-92 (1988-1989) 101-138. SOUSA, Fernan-
do de - O rendimento das ordens religiosas nos finais do Antigo Regime. de que o acto fosse efectuado em benefício de tercei-
Revista de História Económica e Social. 7 (1981) 1 -27. IDEM - O clero a ros. Contudo, em aparente contradição com a ante-
norte do Douro em finais de Setecentos. Porto, 1979. Texto policopiado. rior, esta lei continuou a permitir expressamente aos
IDEM - Subsídios para a história social do arcebispado de Braga: A co-
marca de Vila Real nos fins do século xvin. Bracara Augusta. 30: 82 clérigos seculares adquirir propriedades para si (SIL-
(1976) 399-586. IDEM - O clero da diocese do Porto ao tempo das Cortes VA; R O D R I G U E S - Livro, p. 128-129; ORDENAÇOENS,
Constituintes. Revista de História. 2 (1979) 245-263. Z A R A G O Z A P A S -
CUAL, Ernesto - Reforma de los benedictinos portugueses (1588-1589).
liv. ii, tit. IH, p. 45-46), mercê que, ao que tudo indi-
Theologica. 17 (1982) 143-218. IDEM - Reforma de los benedictinos por- ca, veio a ser posteriormente revogada, pois em
tugueses (1564-1565). Bracara Augusta. 30: 79-80 (1981) 275-290. 1305, aquando do reforço destas medidas controla-
doras, aqueles estão de novo interditados de comprar
(SILVA; R O D R I G U E S - Livro, p. 205; A L B U Q U E R Q U E ; N U -
DESAMORTIZAÇÃO. I. Leis medievais: Os reis por-
tugueses foram, de entre os monarcas europeus, NES - Ordenações, p. 204-205). Entretanto, em 1291,
aqueles que mais precocemente e de forma mais no seguimento de queixumes expressos pela nobreza
continuada se preocuparam com os prejuízos que a do país sobre o seu progressivo empobrecimento de-
exagerada concentração de propriedades nas mãos vido ao facto de as heranças dos seus membros que
da Igreja podia causar ao seu poder e às suas finan- ingressavam nos mosteiros e conventos reverterem
ças. Com efeito, segundo o direito canónico, os bens para estes, o soberano já havia igualmente proibido
adquiridos pelas instituições eclesiásticas não po- que as ordens religiosas herdassem os bens dos seus
diam ser vendidos nem por qualquer outra forma professos, podendo apenas beneficiar do produto da
alienados; em consequência, tudo o que entrava na venda do terço do património deles a título de bem
posse de mosteiros, conventos e igrejas não mais de alma ( S I L V A ; R O D R I G U E S - Livro, p. 72-74; A L B U -
Q U E R Q U E ; N U N E S - Ordenações, p. 179-180; ORDENA-
voltava a escapar-lhes, perdendo-se os respectivos
ÇOENS, liv. ii, tit. xv, p. 176-179); perante as inúmeras
impostos e serviços para os concelhos e para o rei,
devido aos privilégios de que gozavam estas institui- dúvidas surgidas sobre este diploma, dezoito anos
ções e os seus foreiros. Assim, logo em 1211 foram mais tarde o soberano tornou mais precisas as suas
formuladas queixas a este respeito nas Cortes de intenções, explicando que monjas e monges podiam
Coimbra, surgindo a primeira lei de desamortização, possuir e explorar os bens herdados durante as suas
que proibia a compra de bens por parte das ordens vidas, devendo a casa de religião que os albergava
religiosas, a não ser para a realização de aniversários vendê-los no prazo de um ano após as suas mortes,
por alma do monarca e de seu pai ( H E R C U L A N O - sob pena de reverterem para as respectivas famílias
Portugaliae, vol. 1, 169; SILVA; R O D R I G U E S - Livro, sem qualquer compensação ( S I L V A ; R O D R I G U E S - Li-
p. 13-14; A L B U Q U E R Q U E ; N U N E S - Ordenações, p. 47). vro, p. 74-76; A L B U Q U E R Q U E ; N U N E S - Ordenações,
Dentro do mesmo espírito de combate à perda dos p. 182; ORDENAÇOENS, liv. n, tit. xv, p. 180-183). Foi
direitos e rendimentos régios, D. Afonso II ainda es- ainda D. Dinis quem, em 1311, renovou uma ante-
tipulou, noutro diploma, que as herdades foreiras ao rior lei de seu pai proibindo as compras de proprie-
rei cedidas à Igreja por legado ou doação não deixas- dades nos reguengos aos membros do clero e da no-
sem de pagar o referido foro nem fossem dotadas de breza, dando o prazo de um ano aos que daí em
sinais e cruzes por que se pudesse duvidar do seu diante ganhassem tais bens por meios legítimos (ca-
verdadeiro senhor (Ibidem, p. 48). No reinado se- samento, herança, etc.) para que os vendessem a pes-
guinte, a proibição contida na lei de 1211 parece ter soas sujeitas à jurisdição real ( S I L V A ; R O D R I G U E S - Li-
sido estendida a doações, legados, e ainda às com- vro, p. 87-89, 381-382; A L B U Q U E R Q U E ; N U N E S -
pras feitas por clérigos seculares, pois a bula Si illus- Ordenações, p. 204-205; ORDENAÇOENS, liv. u, tit. xin,
tris do papa Gregório IX acusa D. Sancho II de ter p. 170-174); mas reservou-se a possibilidade de con-
incorrido na ira divina por esse facto ( H E R C U L A N O - ceder dispensas, em qual caso os clérigos abrangidos
Portugaliae, p. 182). Foi contudo D. Dinis quem ficariam submetidos à sua jurisdição ( S I L V A ; R O D R I -
elaborou o corpo mais completo e coerente de medi- GUES - Livro, p. 380; ORDENAÇOENS, liv. in, tit. xv,
das desamortizadoras, fazendo-o acompanhar de in- p. 49, 50). Os monarcas seguintes - nomeadamente
terpretações «oficiais» sempre que aquelas suscita- D. Pedro e D. Fernando - limitaram-se a ordenar o
vam dúvidas. Em 1286, renovou a antiga interdição cumprimento destas medidas ou a determinar melhor
de comprar que impendia tanto sobre as ordens co- o seu alcance, sem lhes acrescentarem outras novas
mo sobre os clérigos, acrescentando que os bens (ORDENAÇOENS^ liv. li, tit. v, p. 77; liv. iv, tit. xxxxvin,
comprados por eles desde o início do seu reinado de- p. 177-179). E preciso esperar por D. João I para se-
veriam ser vendidos no prazo de um ano, sob pena rem promulgadas mais leis desamortizadoras, desta
de confisco ( S I L V A - Livro, p. 162-163; A L B U Q U E R - vez em relação às únicas formas de aquisição de bens
QUE; N U N E S - Ordenações, p. 173; ORDENAÇOENS,
pelos eclesiásticos que ainda não tinham sofrido limi-
liv. ii, tit. xiii, p. 174-175); aqueles que, depois da da- tações: as doações e legados a eles feitos por leigos
ta desta primeira ordenação, insistissem em adquirir em troca de orações por suas almas. Com efeito, em

59
DESAMORTIZAÇÃO

1427, o soberano, além de mandar cumprir as ordena- mia, ela constitui um aspecto importante da constru-
ções anteriores, nomeadamente as que proibiam os ção da sociedade liberal. 2. Etapas: E possível deli-
clérigos de comprar e legar propriedades sem licença mitar três etapas no processo de desamortização cni
e de possuir bens nos reguengos, determina que, para Portugal. Durante a primeira, que decorre entre 1798
aniversários ou capelas, estes e os leigos «possam lei- e 1833, englobando, portanto, épocas politicamente
xar a alguu Leigo, per que possa mandar cantar em tal distintas, venderam-se essencialmente bens da Co-
guisa, que os bees fiquem sempre profanos, e da Jur- roa. Os dados numéricos relativos ao período de
diçom d'El Rey, e obrigados aos encarregos, e tribu- 1810-1820 ( c f . SILVEIRA - Revolução, p. 94; TEN-
tos nossos, e do Concelho, assy como eram ante que GARRINHA - Venda, p. 6 0 9 - 6 1 1 ) , mostram que, por
leixados fossem» ( O R D E N A Ç O E N S , liv. n, tit. vn, p. 150). um lado, nestes anos a desamortização abrangeu as
Não se, pense, porém, que apesar deste imenso esfor- várias regiões do país e que, por outro, teve uma in-
ço legislativo, os soberanos portugueses se mostraram tensidade menor do que depois de 1834. Desconhe-
inflexíveis no cumprimento dos preceitos normativos, cem-se os efeitos reais das principais medidas toma-
pois todos eles - incluindo D. Dinis, o mais prolixo das no triénio vintista: o decreto de 5 dc Maio de
em leis - usaram com largueza da sua capacidade de 1821, que transforma os bens da Coroa em bens na-
abrir excepções e efectuar mercês. Assim, temos cionais e permite a sua venda, bem como a dos bens
exemplos de autorizações concedidas pelos monarcas das ordens militares*, por morte dos respectivos do-
a mosteiros para adquirirem bens e herdarem-nos dos natários, e o decreto de 26 de Outubro de 1822, que
seus professos, e ainda a clérigos seculares para com- autoriza a alienação do património dos conventos*
prarem propriedades até um certo valor para comple- extintos no âmbito da reforma do clero regular*.
mentarem as suas magras prebendas ou para as vincu- Com a contra-revolução regressa-se à antiga desi-
larem a capelas por suas almas; até encontramos gnação de bens da Coroa, cuja venda prossegue de
doações régias a clérigos de bens situados em reguen- acordo com vária legislação publicada inclusive no
gos (GONÇALVES - O património, p. 2 8 ; COELHO - próprio reinado de D. Miguel. Este é um traço que
O arcebispo, p. 405-406; V E N T U R A - Igreja, p. 1 3 3 - distingue a desamortização portuguesa da espanhola:
-142, 149-151, 156-162, 341-342; R O D R I G U E S - Tor- se ali o processo é interrompido aquando do regresso
res, p. 372-374). E muitas aquisições não autorizadas ao absolutismo, entre nós tal não se verifica, ainda
foram legalizadas em 1422, quando o infante D. Pe- que a venda dos bens da Coroa esteja em contradi-
dro decidiu deixar livremente à Igreja a posse das pro- ção com a lógica de funcionamento do antigo siste-
priedades de que esta havia pacificamente gozado até ma político. A vitória dos liberais na guerra civil de
ã morte de D. João I, ainda que em detrimento das or- 1 8 3 2 - 1 8 3 4 vai dar um novo impulso ao processo de-
denações ( V E N T U R A - Igreja, p. 130). Contudo, datam samortizador e iniciar a sua segunda fase, a venda de
igualmente dos reinados de D. João I, D. Duarte e da bens e foros nacionais. Precedendo a realização das
regência de D. Pedro numerosas impugnações segui- primeiras hastas públicas, verifica-se um movimento
das de restituição de bens fraudulosamente adquiridos de nacionalizações, entre 1833 e 1835, abrangendo
por clérigos e ordens ( I b i d e m , p. 123-132, 146-149). os bens das duas casas possuídas pela família real
Estas leis surtiram, pois, algum efeito, tendo conse- (Casa das Rainhas e do Infantado), uma parte do pa-
guido diminuir, mas de modo algum estancar comple- trimónio da Igreja (Igreja Patriarcal de Lisboa, Sé de
tamente, o afluxo de bens às casas religiosas e às igre- Lisboa, corporações de religiosos regulares e ordens
jas seculares a partir de finais do século XIII. militares) e os bens da Universidade de Coimbra*.
ANA MARIA S. A. RODRIGUES De todas estas medidas a mais importante foi a que
atingiu as ordens religiosas masculinas, em conse-
BIBLIOGRAFIA: ALBUQUERQUE, Martim de; NUNES. Eduardo Borges, ed. - quência da qual foram encerradas as 382 casas exis-
Ordenações det-rei D. Duarte. Lisboa, 1 9 8 8 . B A R R O S , Henrique da Gama
- História da administração pública em Portuga! nos séculos XIII a xv.
tentes. Ao conjunto daquilo que foi nacionalizado
2." ed. Lisboa, 1 9 4 5 , vol. 2 . C O E L H O , Maria Helena da Cruz O arcebispo vieram juntar-se ainda os antigos bens da Coroa nos
D. Gonçalo Pereira, um querer, um agir. In C O N G R E S S O INTERNACIONAL termos da portaria de 4 de Setembro de 1835. Entre-
I X C E N T E N Á R I O DA D E D I C A Ç Ã O DA ST: DE B R A G A - Actas. Braga, 1 9 9 0 .
vol. 2 / 1 . p. 3 8 9 - 4 6 2 . G O N Ç A L V E S , Iria - O património do Mosteiro de Al- tanto, as vendas haviam começado no início de
cobaça nos séculos xiv e xv. Lisboa, 1 9 8 9 . H E R C U L A N O , Alexandre, ed. 1834. Desde logo o Estado pretendeu alienar os fo-
Portugaliae Monumento Histórica: Leges et Consuetudines. Lisboa, 1 8 6 8 . ros que possuía e alguns foram, de facto, vendidos
M A R Q U E S , A . H . de Oliveira - Desamortização. In DICIONÁRIO de história
de Portugal. Dir. Joel Serrão. Porto: Figueirinhas, 1 9 7 5 . vol. 1, de permeio com os restantes bens. Contudo, as con-
p. 2 8 7 - 2 8 8 . ORDENAÇOENS do Senhor Rey D. Afonso V. Lisboa, 1 9 8 4 , liv. N, fusões geradas em torno da abolição do regime se-
MI e iv. R O D R I G U E S , Ana Maria S . A. - Torres Vedras: a vila e o termo nos
finais da Idade Média. Lisboa, 1 9 9 5 . SILVA, Nuno Espinosa Gomes da;
nhorial, que vieram a ser definitivamente resolvidas
R O D R I G U E S , Maria Teresa Campos, ed. - Livro das leis e posturas. Lisboa, pela lei de 22 de Junho de 1846, fizeram com que só
1 9 7 1 . V E N T U R A , Margarida Garces - Igreja e poder no séc. xv: dinastia de depois deste ano aquela alienação se iniciasse verda-
Avis e liberdades eclesiásticas (1383-1450). Lisboa, 1 9 9 7 .
deiramente. A venda dos foros constitui um processo
administrativamente autónomo e distinto, pela sua
II. Século xix: 1. Definição: A desamortização pode natureza, da venda dos bens nacionais: no primeiro
ser definida como o processo pelo qual o Estado, por caso, o que o Estado vendia era o direito de receber
meio de hasta pública, transfere para a posse de parti- um foro, oferecendo em alternativa a possibilidade
culares bens que lhe pertenciam ou que eram proprie- da sua remissão; na segunda hipótese, transferia
dade de outras entidades. Ela integra-se num amplo bens em propriedade plena. O estudo da venda dos
fenómeno de supressão das formas de propriedade foros é fundamental para o conhecimento das moda-
características do Antigo Regime, do qual resulta a lidades dc extinção do regime senhorial e da evolu-
consagração da propriedade privada. Por isto e pelas ção da enfiteuse. Apesar de tudo, ela tem sido igno-
suas repercussões sobre a estrutura social e a econo-

6o
DESAMORTIZAÇÃO

rém, seguidos de Évora e Portalegre. Finalmente,


cerca de metade da receita obtida pelo Estado até
1843 consistia em títulos de dívida pública. A última
fase da desamortização teve início na década de
1860 e abrangeu uma massa considerável de foros e
bens em propriedade plena das corporações de mão-
-morta: conventos femininos, mitras, cabidos*, cole-
giadas* e seminários* (lei de 4 de Abril de 1861);
distritos, municípios, paróquias, Misericórdias*,
hospitais, irmandades, confrarias*, recolhimentos e
estabelecimentos de piedade ou beneficência (22 de
Junho de 1866) e, finalmente, passais, bens dos esta-
belecimentos de instrução pública e baldios munici-
pais e paroquiais, com excepção, neste último caso,
dos terrenos necessários ao logradouro comum dos
povos, municípios e paróquias (28 de Agosto de
1869). Ao contrário do que havia feito, por exemplo,
a respeito dos conventos masculinos, o Estado não
se apropriou do património das entidades antes refe-
ridas. De facto, o que vai acontecer a partir de agora
é a troca dos respectivos bens por títulos de dívida
pública de rendimento igual ou superior, nos termos
da lei, ao dos bens alienados. Os dados numéricos
relativos ao periodo de 1861-1891 sublinham a im-
portância desta fase da desamortização. No que res-
peita aos antigos proprietários, considerando o valor
total de bens desamortizados, destaca-se muito clara-
mente um primeiro grupo constituído pelas Miseri-
córdias, igrejas e conventos (femininos) que, só por
si, concentram 64,2 % do montante de arrematação
obtido. É interessante, ainda, destacar a posição das
câmaras municipais e juntas de paróquia a que, em
conjunto, corresponderiam 11,9% daquele valor.
Quanto à distribuição regional do valor total de arre-
matação, parece ser de sublinhar a dispersão das re-
giões de maior incidência pelo Sul (Lisboa e Évora)
e pelo Norte (Porto e Braga). 3. Explicação: O estu-
Joaquim António de Aguiar, estátua no Largo da do da desamortização põe em evidência o papel do
Portagem, Coimbra. Estado na transição do Antigo Regime para a socie-
dade liberal. De facto, as dificuldades das finanças
públicas constituíram um importante estímulo para
rada pelos historiadores, não tendo até agora todo o processo. Deste ponto de vista, a desamorti-
motivado qualquer investigação, em contraste com a zação constituiu uma forma de amortizar a dívida e
venda dos bens nacionais. Esta é desencadeada pelos de manter o crédito do Estado. Ela resultou também
decretos de 24 de Janeiro e 7 de Abril de 1834, a que da pressão dos vários grupos sociais, aristocracia e
uma numerosa legislação dá seguimento. Pela im- classes médias, como os debates parlamentares de
portância que teve, vale a pena referir a carta de lei 1834-1835 mostram. A desamortização está ainda
de 15 de Abril de 1835, longamente discutida no associada a objectivos de desenvolvimento económi-
Parlamento, que determinou a alienação de todos os co, em especial agrícola, o que só era possível, pen-
bens de raiz nacionais, e a lei de 16 de Março de sava-se, mediante a difusão da propriedade privada.
1836, que autorizou a venda das lezírias do Tejo e Por último, a etapa de venda dos bens nacionais tem
Sado, uma enorme propriedade situada na zona das motivações políticas claras: o combate contra o regi-
melhores terras do reino. A venda dos bens nacio- me absoluto, através da destruição de um dos seus
nais decorreu basicamente durante a primeira metade grandes suportes, o clero regular, e a consolidação
do século passado, tendo atingido a sua maior inten- do novo regime, por meio da criação de uma massa
sidade logo nos primeiros tempos, entre 1835 e de novos proprietários. O cumprimento destes dois
1843. Dos elementos até agora recolhidos, referentes objectivos, de desenvolvimento agrícola e de carác-
a estes anos e ao continente, conclui-se que o Estado ter político, implicava, na óptica da época, a divisão
transferiu para a posse dos particulares, essencial- da terra. 4. Consequências: Esta parte refere-se em
mente, explorações agrícolas, tendo os prédios urba- exclusivo à etapa de venda dos bens nacionais, a
nos um peso muito menor. As ordens religiosas e única sobre a qual existem estudos que permitem fa-
militares, a Coroa e a Casa do Infantado eram os an- zer afirmações fundamentadas. Esta fase teve uma
tigos proprietários mais importantes. De um ponto inegável importância política. No entanto, embora os
de vista geográfico, as vendas, em valor, concentra- indicadores disponíveis sejam de fraca qualidade,
ram-se fortemente nos distritos de Lisboa e Santa-

6i
DESAMORTIZAÇÃO

eles apontam no sentido de que a propriedade colo- que as intenções de «acrescentar a Cristandade» cons-
cada à venda representava uma pequena fracção dos tantemente alardeadas pelos príncipes de Avis desde a
prédios rústicos e urbanos existentes em Portugal conquista de Ceuta em 1415 sejam mero acto de pro-
continental. Não se esqueça que esta etapa da desa- paganda ou simples estratagema para obter da sé ro-
mortização só envolveu bens em propriedade plena. mana bulas e privilégios a precatar as suas posições
Ora, uma parte substancial do que o Estado expro- políticas. Tanto quanto o podemos julgar, o desejo era
priou era constituída por foros. As repercussões da sincero; só que viam ainda, à maneira medieval, a
venda dos bens nacionais, por consequência, terão Cristandade como entidade política, uma espécie dc
sido menores do que se poderia esperar. A estrutura comunidade de estados encabeçada pelo Papa e dota-
da propriedade rústica nas várias regiões do país não da de um território definido, que, como qualquer ou-
foi substancialmente alterada por este processo. No tro, se podia dilatar pela guerra (v. C R U Z A D A S ) . A S con-
Sul, no distrito de Évora, registou-se uma tentativa dições políticas que então prevaleciam tornavam, para
de dividir a terra, rapidamente frustrada, pois as herda- mais, quase necessário que assim fosse. A Cristanda-
des que haviam sido fragmentadas foram rapidamente de achava-se desde o século vn praticamente encurra-
reconstituídas pelos compradores. Não se registou um lada pelo Islão, uma comunidade religiosa que se
significativo alargamento da camada de proprietários, apossara do poder político e onde o Alcorão era lei;
pois entre 1835 e 1843, o número de compradores é ora este pune com a morte a apostasia, pelo que seria
muito pequeno (1876). Estes pertenciam a vários gru- baldada toda a tentativa de recrutar cristãos no seu
pos sociais: a família real e a nobreza titular, o clcro e, seio e previamente votado ao fracasso qualquer inten-
residualmente, as próprias classes populares. No en- to de evangelização pacífica. Para além dos interesses
tanto, a maioria dos arrematantes eram membros das meramente comerciais - que aliás só se tornaram pon-
classes médias e foram estes os responsáveis pela derosos por 1442-1443, vinte anos após as primeiras
maior parte das aquisições efectuadas. A nobreza titu- tentativas de ultrapassar o Bojador - o móbil dos Des-
lar do Antigo Regime, seriamente atingida pela revo- cobrimentos Marítimos parece ter sido muito menos
lução liberal, teve uma intervenção muito limitada um intento missionário que uma manobra estratégica
neste processo: a maioria dos titulares que adquiriram inspirada pela ideia de cruzada. D. Henrique estava
bens pertencia ao reduzido número dos que haviam assaz empenhado na cruzada e colaborou activamente
aderido ao liberalismo* e que tinham assento na Câ- com seu cunhado Filipe, o Bom, duque da Borgonha,
mara dos Pares depois da guerra civil de 1832-1834. na organização das suas expedições mediterrânicas e
Alguns titulares, no entanto, surgem ao lado dos nego- na colheita de informações no Próximo Oriente; e pa-
ciantes entre os grandes compradores de bens nacio- ra além desses projectos levantinos estava, desde a to-
nais. Refira-se a terminar que ministros e deputados mada de Ceuta em 1415, empenhado em prosseguir a
souberam tirar partido desta oportunidade. conquista integral de Marrocos* - ideia que jamais
LUÍS N U N O ESPINHA DA SILVEIRA pôde concretizar mas que parece tê-lo acompanhado
até à morte. As primeiras expedições que tentaram de-
BIBLIOGRAFIA: C A S T R O , A r m a n d o dc - Bens nacionais. In DICIONÁRIO de
história de Portugal. Dir. Joel Serrão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, vassar o Atlântico Meridional parecem ter constituído
[s. d.], vol. 1, p. 3 3 2 - 3 3 4 . L E I T E , J. Costa - A portuguese contrast: agra- ainda mera manobra acessória da conquista de Marro-
Tibeterian system and c o m m o n lands in two freguesias. Economia. I cos, numa tentativa de o envolver pelo sul. Apostava-
( 1 9 8 3 ) 1 - 5 0 . N E T O , Maria Margarida Sobral A população de Mira e a
desamortização dos baldios na segunda metade do século xix. Revista -se, para isso, na aliança com o semimítico Preste
Portuguesa de História. 1 9 ( 1 9 8 1 ) 1 5 - 5 8 . P E R E I R A , Fernando Jasmins João das índias, à época já identificado com o negus
A l g u m a s questões e m redor da venda de b e n s nacionais. História e Crí-
tica. 1 0 ( 1 9 8 3 ) 4 9 - 5 6 . IDEM - Destruição dos patrimónios eclesiais: o
ou imperador cristão da Etiópia, cujos domínios - co-
caso das ordens religiosas. In DICIONÁRIO de história da Igreja em Por- mo o demonstra à saciedade a cartografia medieval -
tugal. Dir. A. A. Banha d e Andrade. Lisboa: Resistência, 1 9 8 3 . R O D R I - eram imensamente exagerados, supondo-se atingirem
GUES, Diamantino Q u a d r a d o - Instituições locais e desamortização na
sociedade liberal da segunda metade do século xix: a partir do caso do
o Atlântico na zona do Senegal, o que fazia dele um
concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Lisboa, 1999. Texto polico- aliado desejável quer para o ataque ao Egipto e à Ter-
piado. SILVA, António Martins da - A venda dos bens nacionais em Por- ra Santa quer para a conquista dos reinos de Fez e de
tugal: objectivos e resultados. Estúdios de Historia Social. 3 6 - 3 7 ( 1 9 8 6 )
1 3 3 - 1 3 9 . IDEM A desamortização. In M A T T O S O , José, dir. História de
Marrocos. A figura mitificada do Preste João não es-
Portugal. Vol. 5: O Liberalismo (1807-1890). Coord. Luís Reis Torgal; tava de início ligada à Etiópia*, antes se gerou a partir
João Lourenço Roque. Lisboa: Círculo d e Leitores, p. 3 3 9 - 3 5 3 . IDEM de um vago conhecimento da existência de núcleos
Nacionalização e privatização em Portugal: a desarmotização oitocentis-
ta. Coimbra: Minerva, 1 9 9 7 . SILVEIRA, L U Í S Espinha da - A venda dos de cristãos no interior da Ásia, fruto da actividade
bens nacionais (1834-1843): uma primeira abordagem: O século xix em missionária da Igreja do Império Persa, de rito cal-
Portugal. Análise Social. 6 1 - 6 2 ( 1 9 8 0 ) 8 7 - 1 1 0 . IDEM Revolução libe- deu, com o siríaco por língua litúrgica, conhecida
ral e propriedade: a venda dos bens nacionais no distrito de Évora
(1834-1852). Dissertação de doutoramento apresentada e m Lisboa em por «nestoriana». De facto, em parte instigada pelas
1 9 8 8 . Texto policopiado. IDEM - Venda de bens nacionais, estrutura da suas autoridades civis, ansiosas por a verem inde-
propriedade e estrutura social na região d c Évora na primeira metade do pendente da hierarquia religiosa do Império Roma-
século XIX. Análise Social. 1 1 2 - 1 1 3 ( 1 9 9 1 ) 5 8 5 - 6 1 2 . I D E M - La desa-
mortización en Portugal. Ayer. 9 ( 1 9 9 3 ) 2 9 - 6 0 . T E N G A R R I N H A , José no, recusara logo nos concílios que celebrou no sé-
Venda dos bens da Coroa em 1 8 1 0 - 1 8 2 0 : os reflexos de uma crise na- culo v anatematizar Nestório, condenado pelo
cional. Análise Social. 1 2 2 ( 1 9 9 3 ) 6 0 7 - 6 1 9 .
concílio ecuménico de Éfeso (431 d. C.). A sua ex-
pansão para a Ásia Central (v. TIBBTE E ÁSIA C E N T R A L )
DESCOBRIMENTOS. É costume apontar-se o desejo de teve lugar na Alta Idade Média: se já havia um bispo
difundir a fé como um móbil prévio das conquistas e em Merv, no actual Turquemenistão, em 424, a pe-
navegações dos Portugueses, mas a verdade é que a netração de missionários na Mongólia e na China*
grande explosão missionária da Era Moderna é, ao data do pontificado dc Jesuyab II de Gadal, 33.° Kat-
fim e ao cabo, muito mais uma consequência dos hólikos (patriarca) do Oriente (628-645). Algumas
Descobrimentos do que sua causa. Isso não significa

62
DESCOBRIMENTOS

tribos turco-mongóis, como os Kerait, os Naiman e mongol de 1241, que atingiu a Silésia e a Hungria,
os Ongiit, tornaram-se assim cristãs. Pelo contrário, que o Ocidente latino, empenhado nas Cruzadas, de-
os Khitai - que no século x fundaram na Manchúria cidiu entrar em contacto com o Império Mongol e
a dinastia Liao, que dominou a Mongólia e a China aliar-se com ele contra os muçulmanos. O primeiro
Setentrional de 907 a 1124, sobrevivendo no Tur- enviado foi um franciscano português, Frei Louren-
questão até 1201 ou 1211, de quem provém o nome ço de Portugal, que foi mais tarde feito bispo de
de Cataio — eram oficialmente budistas. No entanto, Ceuta, mas de cuja viagem quase nada se sabe. Os
devido a certos traços comuns (monaquismo, canto viajantes que se lhe seguiram (Frei João de Piano
das horas canónicas, uso de sinos e de incenso nas dei Carpine, em 1246-1247, Frei Guilherme de Ru-
cerimónias, etc.), a confusão entre cristãos e budistas bruck, em 1253-1255, Frei João de Montecorvino,
é frequente. Para a ideia de que o Cataio era cristão em 1291-1292, Marco Polo, em 1270-1295, o Beato
devem ter contribuído outros factos, como o de Odorico de Pordenone, c. 1290-1322) identificam o
Chingiz-Khân ou Gengiscão ter começado por ser Preste João com um ou outro dos chefes mongóis
vassalo do Ung Khân dos Kerait, que era cristão; o cristãos com que contactaram ou de que tiveram no-
de seu segundo filho, Chaghatai, se ter, segundo tícia, não sem notarem por vezes que no seu reino
Marco Polo (cap. LI), convertido ao cristianismo, en- não existe nem um décimo das maravilhas que se di-
quanto que o terceiro, Õgõdãi, tinha por chanceler zia (Guilherme de Rubruck - Itinerário, xvii, 2).
um cristão uigur; o de seu bisneto Abaqa, ilkhân da A identificação com Toghril, ung khân dos Kerait,
Pérsia (1265-1282), ter desposado Maria Paleóloga, suserano e sogro de Gengiscão, é a mais corrente:
filha do imperador bizantino Miguel VIII, e cunhado adopta-a implicitamente Joinville (Histoire de Saint
moeda com uma cruz no reverso e a legenda «Em Louis, cap. xcni-xcv) e explicitamente Bar-He-
nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, um só braeus, que na sua Historia Dynastiarum escreve:
Deus», prática que seu filho Arghun, ilkhân de 1284 «nesse tempo (isto é, cerca de 1202 d. C.) imperou
a 1291, em parte continuou; etc. É à vaga ideia de sobre as tribos dos turcos orientais Ung Chan, que
um Cataio cristão que remonta a lenda do Preste foi chamado o Rei João, da tribo que se chama Ke-
João, soberano temporal revestido do sacerdócio - rit»; segue-a igualmente Marco Polo no seu cap.
de onde o seu título de «preste» (do latim presbyter, LXIII: «paioient rente et treuage à un grant sire qu'il
por sua vez derivado do grego). Esse carácter é-lhe nommoient en leur langage Une can, qui vaut à dire
atribuído logo pelo primeiro texto que o menciona, o en françois "Prestre Jehan"; et ce fu le Prestre Jehan
Chronicon sive rerum ab orbe condito ad sua usque de qui touz li monde parole de sa grant seigneurie».
têmpora gestarum libri octo, de Otão, bispo de Frei- Alguns autores modernos pretendem que a figura do
sing, na Baviera, tio de Frederico Barba-Roxa, que Preste João se tivesse originado, pelo menos em par-
narra (liv. vu, cap. xxxin) como em 1145 o bispo Hu- te, a partir da do negus abexim; mas, além de falta-
go de Gabala, na Síria, noticiou à corte papal em Vi- rem as provas documentais, sucede que o Império
terbo que «não há muitos anos um certo João, que Etíope, isolado do resto do mundo cristão pelo Islão
habita no Extremo Oriente para lá da Pérsia e da Ar- e refugiado nas montanhas do Centro do país, atra-
ménia, rei e sacerdote, cristão com sua gente, mas vessava nessa época uma fase de grande apagamento
nestoriano», derrotou «os reis irmãos dos Medos e político, o que explica que se não conheça nenhuma
dos Persas, chamados Samiardos» e se preparava pa- referência aos reinos cristãos da Núbia e da Etiópia
ra em seguida marchar sobre Jerusalém, o que não nas literaturas ocidentais da Idade Média antes da
pôde fazer por não ter conseguido atravessar o Tigre. Chronica Slavorum de Arnoldo de Lubeque, redigi-
De facto, o sultão seljúcida Sanjar e seu irmão Mah- da entre 1209 e 1211.0 negus era, contudo, um bom
mud haviam sido batidos em Setembro de 1141 jun- candidato à reencarnação do Preste, quando a inten-
to a Samarcanda pelo chefe dos Qarâ-Khitâi («Khitai sificação dos contactos do Ocidente com a Ásia
negros», nome por que as fontes muçulmanas desig- Central mostrou que não havia aí nenhuma figura
nam o ramo dos Khitai que no século xn se estabele- cujo perfil se adequasse à lenda. A Etiópia adquirira,
ceu no Turquestão), que, como vimos, eram budistas com efeito, um prestígio mítico entre os cristãos do
e não cristãos. De qualquer forma, a figura do Preste Oriente, quando no século vi o seu imperador Kaleb
João tornou-se imensamente popular na Europa Oci- ou 'Ella-'Açbeha - venerado como santo pela Igreja
dental quando por volta de 1165 começou a circular grega e pela romana, sob o nome de Ellesbaas ou
a pretensa carta que o Preste teria escrito ao impera- Helesteu - interveio no Sul da Arábia para vingar o
dor bizantino Manuel Comneno (r. 1143-1180), pin- massacre da comunidade cristã de Nagran pelos ju-
tando de cores paradisíacas o seu reino recheado de deus. Daí talvez a profecia, corrente entre os cristãos
maravilhas. Dessa carta, que satisfazia plenamente o orientais, de que o Islão seria ao cabo esmagado por
gosto da Idade Média pelo maravilhoso, recenseou dois imperadores, vindo um da Etiópia, outro do Ex-
Zarncke em finais do século passado 93 versões ma- tremo Ocidente; consignada nas apócrifas Revela-
nuscritas; além da versão latina, que parece ser a ori- ções do apóstolo Pedro a seu discípulo Clemente,
ginal (de que existe uma cópia no Códice Alcoba- circulava em versão árabe no Egipto, de onde passou
cense n.° 380 da BNL), há-as em numerosas línguas ao Ocidente latino através de um exemplar achado
da Europa e até em hebraico; aparece ainda, em ver- pelos cruzados em 1218 na tomada de Damieta e lo-
são abreviada, no Libro dei Infante Don Pedro de go vertido em latim. Passou também à própria Abis-
Portugal, de Goméz de Santisteban, de que se co- sínia, e a imperatriz Helena reprodu-la na carta que
nhecem 123 edições diferentes em castelhano e em por volta de 1512 mandou a D. Manuel. Por seu lado
português entre 1515 e 1918. Foi após a invasão os muçulmanos receavam particularmente a Etiópia

63
DESCOBRIMENTOS

cristã, devido a um hadith, atribuído ao próprio Pro- ao Livro de Marco Paulo, chega, correctamente, a
feta, que afirmava que os abexins tinham nove déci- pôr em questão a identificação do Preste João da len-
mos da valentia da humanidade, e o resto do mundo da com o negus abexim, pois que este «traz seu co-
um décimo; e, sobretudo, devido a um outro, atribuí- meço dei rey Salomon e da raynha dos regnos dc
do a um dos companheiros do Profeta, que vaticina- Sabba e da Ethiopia (...). E este hc aquelle rey que
va que um dia haviam de destruir a Caaba. No Egip- nos outros teemos por Preste Joaham e nom no he.
to era ainda crença corrente que tinham o poder de Ca ho Preste Joham he la em a terra de Cathayo.
reter as águas do Nilo e matar assim à seca o país. E este he christão nestorino e de Sam Thome. E este
Devem ter sido as campanhas lançadas contra os outro he christão jacobita [i.e., monofisita], nom In-
muçulmanos dos seus confins pelos imperadores da diano mas Ethiopiano, nom Preste Joham, mas seu
dinastia Salomónida, «restaurada» em 1270 por Ye- titulo he Rey de Ethiopia». Embora o mito do rei po-
kuno Amlak, que acreditaram a ideia de que estaria derosíssimo se comece a desagregar com a publica-
iminente a realização das profecias. Seja como for, o ção, em 1541, da Verdadeira informação das terras
projecto dc aliança contra o bloco islamita entre a do Preste João, do padre Franciso Álvares, a identi-
cristandade ocidental (que em 1291 perdera o seu ficação do Preste João ao negus mantém-se na lin-
derradeiro bastião na Terra Santa, São João de Acre, guagem corrente; e a cartografia portuguesa continua
e procurava, por conseguinte, reformular a sua estra- até finais do século XVII a designar a Etiópia por
tégia) e a Etiópia tomou corpo nos primeiros anos do «Terra do Preste João». No século xv D. Henrique
século xiv: aventada em 1307 por Hethum, o Armé- não foi o único nem o primeiro a pensar contactar o
nio, na sua obra La Flor des Estoires des parties de negus abexim e aliar-se a ele contra o Islão: tentara-
l'Orient, repete-se em 1309 no Liber Secretorum Fi- -o em 1400 seu tio Henrique IV de Inglaterra (irmão
delium Cruéis de Marino Sanudo, o Antigo, para se de D. Filipa de Lencastre), e tanto o duque de Berry
desenvolver no De modo Sarracenos extirpandi do como Afonso V de Aragão (r. 1416-1458), irmão dc
dominicano inglês Guilherme Adam (1319) e se ge- D. Leonor esposa del-rei D. Duarte, chegaram a tro-
neralizar praticamente em seguida. Conta-se, por ve- car embaixadas com o negus Isaac (r. 1414-1429);
zes, também com os reinos cristãos que subsistiam Afonso V de Aragão tentou persuadi-lo a desviar o
ainda na Nübia, mas é sempre a Etiópia que repre- Nilo, para render o Egipto pela sede - ideia que seria
senta o papel central. Foi ligeiramente mais tarde retomada na época de D. Manuel e entusiasmaria
que se começou a identificar o negus abexim à figu- Afonso de Albuquerque. A aliança com a Etiópia foi
ra mítica do Preste João, até aí localizada na Ásia uma pedra angular da politica de D. João II, que ten-
Central. A translação deve-se provavelmente à em- tou atingi-la mandando subir o Senegal, o Níger e o
baixada etíope que em 1310 visitou a corte papal de Zaire, e a partir da Mina, para além de lhe enviar
Avinhão. Não chegou até nós a relação original des- mensagens por Lucas Marcos, um monge etíope de
sa embaixada, mas apenas um resumo, preservado visita a Portugal. Essa política foi prosseguida por
no Supplementum Chronicorum Orbis do agostinho D. Manuel, empenhado a fundo num projecto de
Filipe de Bérgamo ou Foresti, impresso em 1483; cruzada que compreenderia o ataque ao Egipto pelo
nesse, embora se atribua a paternidade da cristanda- mar Roxo, a recuperação de Jerusalém e a destruição
de etíope ao apóstolo São Mateus e não a São Tomé, de Meca. O encetamento de relações com a Etiópia
o negus abexim é apresentado sob traços que coinci- fazia certamente já parte das instruções dadas a Vas-
dem com os do Preste João da lenda (rei e sacerdote, co da Gama, como se deduz de vários passos do ro-
cercado de 27 arcebispos, 74 reis vassalos, etc.) e teiro da sua primeira viagem. Na célebre expressão
explicitamente identificado com ele. Tal identifica- do degredado que em Calecute foi o primeiro a des-
ção é já tranquilamente aceite por Jordão de Séverac, cer a terra, a expedição tinha por fito a busca de
missionário dominicano nomeado em 1328 bispo de «cristãos e especiarias»; se estas representam o ob-
Coulão pelo papa João XXII, que nos seus Mirabilia jectivo comercial da empresa (não totalmente inde-
Descripta, redigidos entre 1329 e 1338, afirma que pendente da cruzada, visto D. Manuel contar com os
se extraem carbúnculos dos ossos dos dragões mor- seus lucros para a financiar), aqueles representam o
tos, os quais «portant ad imperatorem ^thiopum objectivo estratégico, o aliado a procurar (o que, ao
quem vos vocatis Prestrc Johan». A identificação re- contrário do que se tem escrito, não envolve ainda
pete-se na relação da embaixada de Frei João de Ma- qualquer ideia missionária, visto supor-se a índia po-
rignolli, a última que os papas enviaram ao Grão Cã voada de cristãos). A demanda do Preste João reapa-
(1339-1352), no Libro dei Conosçimiento de todos rece como objectivo nas instruções dadas em 1505 a
los reinos, redigido por um franciscano espanhol en- D. Francisco de Almeida; devido, contudo, à resis-
tre 1350 e 1360, e generaliza-se, praticamente, em tência passiva do vice-rei, que representava uma fac-
seguida; apenas permanecem fiéis ao Preste João ção cortesã favorável ao comércio mas avessa à cru-
asiático obras de cunho vincadamente mítico, como zada e à conquista, os projectos de aliança militar
o Livro das viagens de Sir John Mandeville ou o das com a Etiópia (e com o império hindu de Vijayana-
do infante D. Pedro. Graças à vinda de legações abe- gar ou Bisnaga) só começaram a concretizar-se sob
xins e à penetração esporádica de latinos na Etiópia, o governo de Afonso de Albuquerque (1509-1515).
o conhecimento desta precisa-se gradualmente; são Abandonados de novo por seu sucessor, Lopo Soares
especialmente ricas as informações do Libro dei Co- de Albergaria (1515-1518), foram retomados por
nosçimiento e as do mapa-múndi de Fra Mauro. Um Diogo Lopes de Sequeira (1518-1521), que logrou,
texto latino inidentificado, parcialmente vertido eni enfim, despachar para a Etiópia uma embaixada;
português por Valentim Fernandes na sua introdução mas foram definitivamente abandonados à morte de

64
DESCOBRIMENTOS

alusões à existência de cristãos algures «nas índias»


(nome que tradicionalmente designa todos os países
ribeirinhos do oceano Índico e mares adjacentes, do
Egipto para leste): a História eclesiástica de Eusébio
de Cesareia refere que Panteno, director da escola
teológica de Alexandria de 180 a 200, encontrou «na
terra dos índios», onde se dirigira para pregar, uma
comunidade de características aparentemente judeo-
-cristãs (formada quiçá de judeus convertidos ao
cristianismo refugiados nas margens do Índico após
a destruição do Templo em 70 d. C.). Não é impossí-
vel que essa comunidade seja o primeiro antepassa-
do da actual cristandade malabar, possivelmente as-
sociada, nas suas origens, à comunidade judaica que
subsistiu até aos nossos dias em Cochim. A tradição
local (recolhida nos séculos X I I I e xiv por viajantes
como Marco Polo e João de Marignolli e depois pe-
los nossos escritores quinhentistas, como Duarte
Barbosa, João de Barros, Gaspar Correia, Damião de
Góis e sobretudo Diogo do Couto) - embora não
coincidente com a dos apócrifos Actos de Tomé, re-
digidos em siríaco no século in, que situam o aposto-
lado do Dídimo no Noroeste da índia - atribui a São
Tomé a evangelização da região, com fundação de
sete igrejas, diversos milagres e uma morte fabulosa
em Meliapor. Não é, contudo, impossível que tenha
havido uma migração de tradições e que as referen-
tes a São Tomé tenham, por exemplo, sido trazidas
do Norte da índia por cristãos que, fugindo a uma
perseguição a que a tradição oral alude, se tenham
refugiado no Sul, fundindo-se aí com uma comuni-
dade judeo-cristã preexistente. De qualquer maneira,
a cristandade malabar, embora não pareça fruto da
Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira,
1505-1507 (cópia do século xvn). Biblioteca Pública e intensa missionação desenvolvida a partir do século
Arquivo Distrital de Évora. v pela Igreja do Império Persa, mas ter sido absorvi-
da por ela a posteriori, acabou por ficar sujeita à hie-
rarquia eclesiástica da Mesopotâmia, centralizada
D. Manuel (Dezembro de 1521). Só em finais do sé-
desde o século iv sob a autoridade do «Kathólikos do
culo, Filipe II, que como rei que era também de Ara-
Oriente», vulgarmente conhecido por «Patriarca de
gão tinha sólidos interesses no Mediterrâneo e pro-
Babilónia», inicialmente residente em Selêucia-
curava conter aí o avanço dos Otomanos, voltou a
-Ctésiphon, capital do Império Persa, depois, sob os
interessar-se por esses planos, e aí está uma das ra-
Abácidas, em Bagdade; ora, a Igreja caldaica atri-
zões por que se empenhou tanto no envio de Jesuí-
buía também a São Tomé a sua origem, e as cronolo-
tas* para a Etiópia. D. Manuel pensava também se-
gias dos seus patriarcas (como por exemplo a compi-
riamente em aliar-se aos cristãos do Malabar, que
lada por Gregório Abul-Faraj, dito Bar-Hebraeus,
supunha deterem poder político e militar, contra os
1226-1286, no seu Chronicon Eclesiasticum, parte II)
muçulmanos do Próximo Oriente. Esta ideia, resul-
contam frequentemente o apóstolo como cabeça da
tado de um erro crasso, fruto talvez do optimismo
lista. Seja como for, os cristãos do Malabar nunca
messiânico de alguns dos conselheiros do Venturoso,
passaram de uma minoria (30 000 famílias ao todo
como Duarte Galvão, era, de certo modo, mais origi-
em 1504, segundo a estimativa dos bispos então en-
nal. De facto, embora se conhecesse na Europa a
viados da Mesopotâmia); a despeito de terem recebi-
existência de cristandades no sul da índia* e alguns
do dos reis locais privilégios especiais, sobretudo no
planos estratégicos, como o do De modo Sarracenos
que toca ao comércio da pimenta, jamais dispuseram
extirpandi do dominicano inglês Guilherme Adam
de poder político. D. Manuel estava nesse particular
(1319), previssem j á o bloqueio comercial ao mar
mal informado; e Vasco da Gama, aparentemente
Roxo, com a colocação de uma armada no Índico, o
iludido pelo piloto mouro que lhe forneceu o rei de
estabelecimento de uma base naval em Socotorá e a
Melinde e por Gaspar da índia (um judeu enviado a
criação de estaleiros no Malabar ou nas Maldivas,
espiar os Portugueses que preferiu pôr-se ao seu ser-
jamais se formara um projecto de aliança com os
viço), regressou convencido ainda de que era cristã a
cristãos da índia, mas tão-somente com os da Ásia
esmagadora maioria dos reis do Oriente. O engano
Central e da Etiópia. Embora só na Topografia cristã
só se desfez com Pedro Álvares Cabral, que trouxe
de Cosme Indicopleustes (c. 545) apareça uma refe-
para Portugal um sacerdote malabar, o padre José de
rência clara à comunidade cristã do Quêrala ou Ma-
Cranganor, que revelou finalmente à corte portugue-
labar, já então dependente da hierarquia eclesiástica
sa a verdadeira geografia religiosa das índias. O pro-
do Império Persa, acham-se desde muito mais cedo

65
DESCOBRIMENTOS

jecto de aliança com os supostos reis cristãos da ín- própria e modo permanente para alguns. Com o
dia - como o samorim de Calecute a quem Concílio Vaticano II, o diaconado é restabelecido co-
D. Manuel por Pedro Álvares Cabral mandara uma mo vocação específica, como parte integrante da es-
extensa carta com exortações à cruzada - teve assim trutura hierárquica da Igreja, ao serviço do povo de
vida ainda mais curta que o de coligação com a Etió- Deus. Deve ajudar o bispo e o presbitério nas cele-
pia. D. Manuel acalentou, contudo, até à morte o so- brações litúrgicas (lendo, por ex. o Evangelho na
nho de um império cristão universal, para que se jul- Eucaristia e nos restantes sacramentos, podendo pre-
gava predestinado. Em 1508, ao enviar Diogo Lopes sidir aos sacramentos do Baptismo e Matrimónio,
de Sequeira a descobrir Malaca* e a Ásia do Sueste, dar a benção do Santíssimo, presidir a celebrações
continuava a recomendar-lhe: «em todas as terras em exequiais sem missa), empenhar-se no anúncio da
que chegardes preguntarees por cristãos, ou se há i Palavra de Deus (sendo responsável pela catequese
novas deles, e assi por todas as cousas do trato; e desde a infância aos adultos, pronunciando a homilia
achando cristãos os agasalharees e farees toda honra e promovendo acções de pastoral familiar) e colabo-
c boom trauto, e esforçarees na fee, dando-lhe espe- rar na acção social e comunitária (administração dos
rança que mui cedo Nosso Senhor ordenará de serem bens da Igreja, de centros sociais, na animação de
postos em liberdade e o servirem com inteiro conhe- actividades de convívio). O facto de o diácono estar
cimento e obras de verdadeiros e fiees cristãos e com mais próximo do laicado, pela vida matrimonial e
mais beens espirituaes e temporaes, dizendo-lhes de pela integração no mundo do trabalho e nos proble-
nossos descobrimentos e nosso grande cuidado de- mas concretos, permite-lhe especial disposição para
les, com zelo e tenção de maior enxalçamento e tarefas de ordem social. Em Portugal, a instituição
acrecentamcnto de nossa santa fee católica...». Re- foi formalmente pedida à Santa Sé em 17 de Março
sulta, portanto, evidente que a crença na existência de 1978. As normas para admissão e formação dos
de comunidades cristãs disseminadas pela Ásia e candidatos foram submetidas à aprovação em 25 de
África* actuou como poderoso estímulo para o de- Janeiro de 1979. Passado um ano anunciava-se a ins-
vassamento dos mares nunca dantes navegados. Em- tituição do diaconado permanente em Portugal, em
bora a crença nas potencialidades estratégicas dessas nota do Conselho Permanente do Episcopado, de 15
cristandades fosse em boa parte ilusória, veio a per- de Janeiro dc 1980. Cada bispo, consultado o conse-
mitir que os conhecimentos entretanto adquiridos lho presbiteral, poderia introduzi-lo na sua diocese.
fossem aproveitados para outros fins, incluindo tanto Os primeiros diáconos portugueses foram ordenados
o comércio como a evangelização pacífica, que só em 1984, na diocese de Lisboa e Setúbal. Em 1998
gradualmente foi tomando corpo, como veremos no existem 95, em 12 dioceses (Angra 1; Aveiro 17; Be-
artigo dedicado às missões*. ja 4; Braga 8; Bragança 4; Évora 10; Funchal 2; Lis-
LUÍS FILIPE T H O M A Z boa 20; Portalegre 7; Porto 17; Setúbal 4; Vila Real
1). Destes, só 5 são celibatários. Os números portu-
BIBLIOGRAFIA: B E C K I N G H A M , Charles F.; H A M I L T O N , Bernard Prester gueses estão muito longe dos 12 000 dos Estados
John, lhe Mongols and the Ten Lost Tribes. London: Variorum Reprints,
1966. CUOQ, Joseph - L 'Islam en Ethiopie, des origines au xyf siècle.
Unidos, 2000 da Alemanha ou 1000 em França. Re-
Paris: Nouvelles Editions Latines, 1981. DORESSE, Jean - L'Empire du velam a mentalidade clericalista e a pouca previsão
Prêtre Jean. Paris; Pion, 1957. 2 vol. MAURICIO, D o m i n g o s - A carta do de futuro do ministério ordenado na Igreja portugue-
Preste João das índias e seu reflexo nos descobrimentos do infante
D. Henrique. Brotéria. 7 1 ( 1 9 7 0 ) . IDEM - Ainda a carta do Preste João sa. A restauração do diaconado permanente é um de-
das índias. Brotéria. 7 2 ( 1 9 7 1 ) . M O T A , A . T e i x e i r a da A viagem de safio renovador à vivência da animação das comuni-
Bartolomeu Dias e as concepções geopolíticas de D. J o ã o II. Boletim da dades eclesiais e à inserção na comunidade da
Sociedade de Geografia de Lisboa. ( 1 9 5 8 ) . T I I O M A Z , L U Í S Filipe F. R .
De Ceuta a Timor. Carnaxide: Difel, 1 9 9 4 . IDEM - L ' i d c e impériale ma- dimensão do serviço generoso. A acuidade da exis-
nuéline. In C O L L O Q U E « L A D É C O U V E R T E , LE P O R T U G A L ET L ' E U R O P E » - tência de diáconos motivada pela escassez dos
Actas. Ed. Jean Aubin. Paris: FCG/CCP, 1 9 9 0 . IDEM - A lenda de São padres não diminui a verdadeira projecção do diaco-
Tomé Apóstolo e a expansão portuguesa. Lusitania Sacra. Lisboa:
U C P / C e n t r o de Estudos de História Religiosa. 3 ( 1 9 9 1 ) . Também publi- nado, independentemente das circunstâncias do res-
cado na série Separatas do Centro de Estudos de História e Cartografia tabelecimento. A presença da Igreja Católica na so-
Antiga, n." 233, Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical.
1 9 9 2 . IDEM - A Carta que m a n d a r a m os Padres da índia, da China e d a
ciedade, na família, na escola e na profissão é
Magna China, um relato siríaco da c h e g a d a dos Portugueses ao Malabar valorizada. Corrigir critérios de admissão, atender
e seu primeiro contacto com a hierarquia cristã local. Revista da Uni- cuidadosamente à formação, promover o bom aco-
versidade de Coimbra. 3 6 ( 1 9 9 1 ) . T a m b é m publicado na série Separa-
tas do Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga, n.° 224, Lis-
lhimento no presbitério e nas comunidades, velar pe-
boa: Instituto de Investigação Científica Tropical, 1992. la preparação de toda a família do diácono na nova
condição de um dos seus membros são lições da bre-
ve história do diaconado em Portugal. Para seleccio-
DIACONADO. O diaconado é o primeiro grau do sa- nar os candidatos e cuidar da sua formação há em
cramento da Ordem, próprio da hierarquia da Igreja cada diocese um delegado episcopal, nomeado pelo
Católica, antes do presbiterado e episcopado. O grau bispo diocesano. O diaconado permanente está sobre
existiu em Portugal desde que a Igreja se começou a a alçada da Comissão Episcopal do Clero, Seminário
organizar no território, mas desapareceu na Idade e Vocações, que promove o seu restabelecimento em
Média como estado permanente, restando apenas co- Portugal, sob a presidência de D. Augusto César
mo breve etapa de passagem dos que seriam ordena- Ferreira da Silva. A acção do padre bracarense Ma-
dos presbíteros, o que se mantém até aos nossos nuel Ferreira de Araújo, secretário da comissão e au-
dias. Nos meados do século xx (Congresso de Assis, tor do livro O ministério do diácono permamente
1956, e Congresso do Apostolado dos Leigos, em (Porto, 1990) foi marcante.
Roma no ano de 1957) começou a ser pedida a res-
tauração do diaconado como grau, com identidade C A R L O S A. MOREIRA A Z E V E D O

66
DIGNIDADES ECLESIÁSTICAS

BIBLIOGRAFIA: A R A Ú J O , Manuel Ferreira de - O ministério do diaconado afastado da catedral, esse papel veio a ser preenchi-
permanente. Porto: C o m i s s ã o Episcopal do Clero, Seminários e Voca- do por outros clérigos, intitulados de abades, priores
ções, 1990. BRUNETTI, Aury Azelio - Diaconado permanente: visão his-
tórica e situação actuai São Paulo: Paulinas, 1 9 8 6 . D I A C O N A D O perma- ou deões. Em Portugal, o título de prior (primus
nente, d o m a descobrir. In J O R N A D A S N A C I O N A I S DO D I A C O N A D O presbiterorum, primiclerus, primicerio, prepositus)
P E R M A N E N T E , 1 - Actas. [S.l.]: C o m i s s ã o Episcopal do Clero, Seminá-
rios e Vocações, 1 9 9 9 . D I A C O N A D O permanente e m Portugal: dossier.
foi sobretudo utilizado para os presidentes das igre-
Lúmen. 5 9 : 2 ( 1 9 9 8 ) 3 0 - 3 7 . jas colegiadas; estas puderam, mais raramente, ser
encabeçadas por um abade, quando resultavam de
mosteiros reduzidos a igrejas seculares. Quanto ao
DIGNIDADES ECLESIÁSTICAS. Em sentido amplo, título de deão (decanus, cuja origem se pensa estar
dignidades eclesiásticas são todas as pessoas que na regra beneditina (v. B E N E D I T I N O S ) , designando a
têm ofícios ligados ao exercício do culto e ao gover- chefia de um grupo de dez monges), era preferen-
no da Igreja. Daí poder falar-se de dignidade sacer- cialmente atribuído à primeira figura dos capítulos
dotal, episcopal, cardinalícia e papal. Num sentido catedrais. Este dignitário presidia ao cabido em no-
mais restrito, contudo, que é aquele que vamos con- me do bispo nas ausências deste, e em alguns mo-
siderar aqui, qui perpetuam habet administrationem mentos e lugares chegou a governar a diocese por in-
rerum ecclesiasticarum cum jurisdictionem is vere et capacidade do prelado ou vacância da sé; tal,
proprie dicitur habere dignitatem ecclesiasticam contudo, nunca se generalizou, tendo sido mais fre-
( T O R Q U E B I A U - Chapitre, p. 547). Ao longo dos quente a governação colectiva através de vigários.
tempos, o título de dignidade pertenceu assim, na- O deão estava ainda presente e tinha papel activo em
turalmente, aos arcediagos e arciprestes, que exer- todos os negócios importantes para a canónica, e re-
ciam jurisdição perpétua e ordinária sobre os seus presentava-a no exterior. Em segunda posição vinha
respectivos territórios. Contudo, veio também a ser o chantre (princeps cantorum, caput chori, cabiscol,
atribuído, por costume ou pelas cartas dc fundação, a precentor, cantor), principal responsável pela mag-
outros clérigos que dela estavam destituídos mas de- nificência do culto. Estava incumbido de dirigir os
sempenhavam importantes funções de tipo espiritual ofícios litúrgicos e ordenava as procissões. Tam-
e/ou temporal no seio dos cabidos das catedrais e co- bém lhe competia seleccionar os meninos do coro e
legiadas. 1. As dignidades e suas funções: Os títulos instruí-los no canto - assim como aos mais velhos,
e funções das diferentes dignidades, assim como a se necessário - , para que o serviço divino fosse con-
sua ordem hierárquica, variaram no decurso do tem- venientemente assegurado. Com frequência, era se-
po e de igreja para igreja, como testemunham os res- cundado, quando não substituído, por um subchan-
pectivos estatutos. Uma das dignidades mais antigas tre. Contudo, a complexificação das tarefas ligadas
nas catedrais era a de arcediago (archidiaconus, pri- à criação e transmissão dos saberes musicais levou a
micerius diaconorum); sendo, de início, uma só per- que muitas catedrais se dotassem de capelas pró-
sonagem, o primeiro - e, em geral, o mais velho - prias com os seus mestres, cantores e organistas,
entre os diáconos, veio a desdobrar-se por volta do que se juntavam aos cónegos, coreiros e meninos
século viu em archidiaconus magnus, afecto à sé, e para abrilhantar o serviço coral. A terceira posição
diversos arcediagos rurais, dotados de circunscrições na hierarquia capitular era disputada pelo tesoureiro
próprias, os arcediagados. Nesse âmbito, como auxi- e pelo mestre-escola. O primeiro, como o nome indi-
liares do bispo, incumbia-lhes a preparação e exame ca, estava encarregado de velar pelo tesouro, ou seja,
dos candidatos a ordens sacras, a visita das igrejas e pelas alfaias litúrgicas e pelas relíquias, disponibili-
a correcção dos desmandos encontrados. Todavia, os zando-as para as cerimónias mas recolhendo-as de-
abusos cometidos no exercício dessas funções con- pois e mantendo-as bem guardadas e inventariadas.
duziram os bispos a limitar-lhes os poderes, no- Tinha sob as suas ordens um corpo de porteiros, sa-
meando vigários-gerais para os quais se podia apelar cristãos e sineiros, encarregues da abertura e encer-
da justiça dos arcediagos. O Concílio* de Trento ramento das portas, da limpeza e decoração das igre-
confirmou essas restrições e devolveu aos prelados jas, do fornecimento de hóstias, luminária e incenso,
algumas competências anteriormente delegadas na- do corregimento e toque dos sinos, etc. Todavia, em
queles dignitários. Aos arcediagos cabia escolher, certas igrejas, o tesoureiro não era uma dignidade e
conjuntamente com os bispos, os arciprestes, seus podia nem sequer ser um clérigo. Quanto ao mestre-
subordinados. Estes, cujo nome vem de achipresbv- -escola (magister scholae, preceptor, scholasticus,
ter (o primeiro entre os presbíteros, originariamente didascalus, caput scholaris) era o responsável pela
também um dos esteios do prelado nas suas funções escola catedralícia, tornada obrigatória nas sés pelo
pontificiais), exerciam poderes delegados em cir- III Concílio de Latrão (1179) e estendida às colegia-
cunscrições mais reduzidas, os arciprestados rurais; das, em 1215, pelo IV Concílio. Além de ministrar,
pertencia-lhes visitar as igrejas, reunir o clero em pa- por si ou por interposta pessoa, o ensino das letras,
lestras mensais (os calendários) e cobrar os direitos do cômputo e do canto (quando este não era realiza-
eclesiásticos. Com o apagamento - ou mesmo, em do pelo chantre), competia-lhe também a correcção
alguns lugares, desaparecimento - dos arcediagos, dos livros litúrgicos e, por vezes, a redacção e con-
os arciprestes acabaram por substituí-los como auxi- servação das escrituras. Todavia, era mais frequente
liares dos prelados no governo das dioceses. Quanto estas últimas funções estarem a cargo do chanceler
às outras dignidades, a sua origem é mais tardia. No (cancellarius, protonotarius, scriniarius), que tinha
século viu, a Regra de São Crodegango tinha atribuí- sob sua responsabilidade a chancelaria episcopal,
do ao arcediago magno a chefia do cabido*; mas co- fazendo redigir os documentos por escribas ou notá-
mo as suas funções o mantinham com frequência rios, e conservando as respectivas cópias nos arqui-

67
DIGNIDADES ECLESIÁSTICAS

vos. Em suma, as dignidades capitulares colabora-


vam com o prelado nos mais diversos aspectos do
governo da diocese e substituíam-no em certas cele-
brações litúrgicas. Também lhes incumbia adminis-
trar os últimos sacramentos ao bispo moribundo e
presidir às suas exéquias. Como membros da canóni-
ca, eram ainda parte activa em todos os negócios
temporais e espirituais que diziam respeito a esta:
oração em comum, cura das almas, ensino, assistên-
cia, administração dos bens, etc. Nas colegiadas, onde
o seu número e variedade eram mais reduzidos - ape-
nas as maiores, como a de Guimarães, tinham o elen-
co completo; as menores contentavam-se com um
prior e, quando muito, um tesoureiro ou sacristão
as suas funções eram idênticas, cabendo-lhcs assegu-
rar o esplendor do culto e a gestão dos bens patrimo-
niais; faltavam-lhes, contudo, as atribuições admi-
nistrativas, que só desempenhavam quando eram
escolhidos pelos bispos para seus vigários. 2. Desig-
nação e provimento dos dignitários: As dignidades
eram, de início, exclusivamente da escolha do bispo
(os arcediagos), do cabido (os deães), ou de ambos
em conjunto (os restantes); a partir de finais do sécu-
lo xiii, começa a sentir-se uma crescente intervenção
papal, ao mesmo tempo que surgem, igualmente, as
pressões régias. Assim, tornam-se dignitários, não
apenas os mais sábios e experientes entre os cónegos
de cada cabido mas também «forasteiros», parentes
e capelães de bispos recém-chegados, físicos do rei,
protegidos do papa. O que não quer dizer que não se
encontrem vestígios de uma espécie de cursus hono-
rum: para se atingir o deado era condição preferen-
cial ter-se sido antes chantre ou arcediago, e há ain-
da exemplos de circulação de sentido variável entre
outras dignidades. No nível imediatamente superior,
os bispos eram frequentemente eleitos pelos cónegos
entre os dignitários do seu próprio cabido ou dos das
dioceses próximas, mas este modo de recrutamento Cónego António Gonçalves Pires, da arquidiocese de
foi também alterado pelas intervenções da Santa Sé* Braga, com respectivas vestes canonicais. In Acção
e da Coroa, passando a conceder-se com mais fre- Católica. 1 (1935) 9.
quência o episcopado aos familiares dos papas e car-
deais, e aos clérigos do rei. Quando eram os cónegos simples oficiais; o texto normativo prevê expressa-
a eleger um dignitário, deviam enviar uma notifica- mente a existência de um «presidente» e de um peni-
ção ao prelado e solicitar a confirmação deste, antes tenciário, permitindo a constituição de outros ofícios
de poderem dar-lhe posse da prebenda. Do mesmo de acordo com as tradições locais.
modo, uma apresentação feita pelo bispo só levava à A N A M A R I A S. A. R O D R I G U E S

posse do cadeiral no coro depois da aceitação do no-


meado pelo cabido. As nomeações papais, em con- BIBLIOGRAFIA: A L V A R E Z , P. - Dignidades eclesiásticas. In DICCIONARIO de
trapartida, deviam ser seguidas de posse sem mais História Eclesiástico de Espana. Madrid, 1 9 7 2 , p. 7 5 8 - 7 5 9 . CÓDIGO de
direito canónico. Ed. anotada a cargo d e P. Lombardia e J. I. Arrieta.
delongas, mas há notícia de conflitos que se arrasta- COSTA, Avelino de Jesus da - O bispo D. Pedro e a restauração da dio-
ram durante anos, por oposição dos cónegos a esco- cese de Braga. Coimbra, 1 9 5 9 . 2 vol. I D E M - Arcediago. In DICIONÁRIO
de história de Portugal. Dir. Joel Serrão. Porto: Figucirinhas, 1975,
lhas feitas à sua revelia. 3. A situação actual: O Có- vol. 1 , p. 1 7 6 - 1 7 7 . I D E M Arcipreste. In DICIONÁRIO de história de Por-
digo de Direito Canónico promulgado em 1983 tugal. Dir. Joel Serrão. Porto: Figucirinhas, 1 9 7 5 , vol. 1 , p. 1 7 8 . I D E M -
permite ao prelado constituir, para o auxiliar, um vi- Chantre. In DICIONÁRIO de história de Portugal. Dir. Joel Serrão. Porto:
Figucirinhas. 1 9 7 5 , vol. 1 , p. 5 1 . I D E M - Deão. In DICIONÁRIO de história
gário-geral e um ou mais vigários episcopais, autori- de Portugal. Dir. Joel Serrão. Porto: Figueirinhas, 1975, vol. 2,
zados a executar todos os actos administrativos da p. 2 6 9 - 2 7 0 . F E R R E I R A , José de A z e v e d o - Alphonse X: Prymeira Parti-
competência do bispo; eles retomam, portanto, as da: édition et etude. Braga, 1 9 8 0 . H E F E L E - Archidiacre. In DICTIONNAIRF.
Encyclopédique de la Théologie Catholique. Paris, 1869, vol. I,
funções dos antigos arcediagos. Como sucessor do p. 5 0 3 - 5 0 5 . I D E M - Archiprêtre. In DICTIONNAIRE Encyclopédique de la
arcipreste, existe o vigário forâneo ou da vara, cujo Théologie Catholique. Paris, 1 8 6 9 , vol. 1 , p. 5 0 5 - 5 0 7 . L E C L E R C Q , H. -
papel é promover e coordenar a actividade pastoral. Archidiacre. In DICTIONAIRE d'Archéologie Chrétienne et de Liturgie.
Paris, 1 9 2 4 , 1.» e 2 . " P.. p. 2 7 3 3 - 2 7 3 6 . M A R Q U E S , J. - A arquidiocese de
Para o aconselhar no governo da diocese o bispo po- Braga no século xv. Lisboa, 1988. RODRIGUES, A n a Maria S. A. - As co-
de ainda constituir um conselho presbiteral ou recor- legiadas d e Torres Vedras nos séculos xiv e xv. In ESPAÇOS, gente e so-
rer ao cabido catedralício nos lugares onde ele exis- ciedade no Oeste: Estudos sobre Torres Vedras Medieval. Cascais: Pa-
trimonia, 1 9 9 6 . p. 1 9 5 - 2 7 4 . T O R Q U E B I A U , P. - Chapitre de chanoines. In
te. Este último, contudo, já não tem dignidades mas DICTIONNAIRE de Droit Canonique. Paris, 1 9 4 2 , vol. 3 , p. 5 3 0 - 5 9 5 .

68
DIOCESE

DIOCESE. 1. Etimologia e raízes: o termo grego verdadeiro chefe da Igreja africana - no quadro de
dioíchesis significa administração, governo, direc- uma preeminência moral, de fraternidade de Igrejas,
ção. Os latinos, por dioecesis, designam, inicialmen- uma fraternidade que se afirma no intercâmbio de
te, a cidade ou parte de província que está sob juris- correspondência (as litterae formatae) e se espelha
dição de um magistrado. Depois, ao tempo de nos primitivos concílios, manifestações externas de
Diocleciano, designam por diocesis as doze novas uma unidade preexistente e de uma vontade de solu-
grandes divisões do Império, compreendendo cada cionar problemas comuns. Tais concílios, que se espa-
uma dessas grandes divisões diversas províncias. lham na segunda metade do século n, tornam-se fre-
Assim, a diocesis das Gálias, por exemplo, com- quentes no século posterior. E assumirão o carácter de
preendia as províncias da Lusitânia (com capital em gerais ou ecuménicos no século iv, quando a Igreja
Mérida), da Galécia (com capital em Braga), da Bé- respira um clima de paz. Incipiente até ao iv século,
tica (com capital em Sevilha), Cartaginense (com ca- a organização provincial irá desenvolver-se a partir
pital primeiro em Cartagena, depois - tempo das in- daí, dando-lhe forte incremento o Concílio de Ni-
vasões «bárbaras» - , em Toledo) e Tarraconense ceia, em 325. De facto, este concílio determina que a
(com capital em Tarragona). Do hodierno Portugal, consagração de um bispo seja feita, quanto possível,
pertencia na altura à Lusitânia o território situado pelos bispos da província, cabendo ao metropolita
entre o Douro e o Guadiana; o Norte era da Galécia; (ou seja, ao bispo que preside à província) a confir-
a parcela a nascente do Guadiana era da Bética. mação da eleição. Os sínodos dos séculos iv e v de-
2. Na organização eclesiástica: A Igreja Oriental se- terminarão as faculdades do metropolita: convocar e
gue o modelo de Diocleciano, dando o nome de presidir ao sínodo provincial que há-de reunir-se
«diocese» a grandes circunscrições territoriais, for- duas vezes por ano para deliberar sobre questões
madas por diversas províncias, confiadas a patriarcas com pertinência supralocal; controlar a vida religio-
ou exarcas. Tal significação aparece clara quer no sa dentro da província e o exercício de funções por
Concílio de Constantinopla de 381 (c. 2), quer no de parte dos outros bispos, os quais lhe deverão pedir
Calcedónia de 451 (c. 9). Além da figura do patriarca expressa licença em caso de ausência prolongada.
ou do exarca, aparece também no Oriente a figura do A escolha do metropolita não tem critério uniforme:
bispo: cabe-lhe o governo da paroecia, termo usado nuns casos escolhe-se quem ocupa uma sede metro-
para se designarem as grandes cidades e respectivos polita (não raro coincidente com a capital da provín-
termos. O progressivo aumento de fiéis nas cidades -
mesmo nas mais pequenas - e o êxito da missão en-
tre as populações rurais faz ainda aparecer a figura
do corepíscopos, uma figura que não vinga por mui-
to tempo: vários sínodos do século iv acabam por fa-
zê-la desaparecer (Laodiceia, 343-381; Sardónica,
347), sob pretexto de ser desprestigiante para a auto-
ridade episcopal. No Ocidente, a Igreja não adopta o
sistema das grandes dioceses civis. Normalmente os
limites dos bispados coincidem com os da adminis-
tração civil das cidades, ainda que esta orientação (e
não lei obrigatória!) conheça numerosas excepções
(bispados com duas ou mais cidades, comunidades
episcopais em colónias sem direito de cidadania...).
Esta falta de rigor esclarece, aliás, muitas das dispu-
tas de competência entre bispos vizinhos, assim co-
mo realça a necessidade de delimitação de jurisdi-
ções. Também na terminologia não encontramos
uniformidade: a Igreja local tanto pode designar-se
paroecia ou parochia (termos privilegiados nos con-
cílios I de Braga, 561, e III de Toledo, 589), como
ecclesia, territorium, fines episcopatus, dioecesis.
Quanto aos corepíscopos ou bispos rurais existentes
no Oriente, não se fala deles no Ocidente. As comu-
nidades cristãs distantes da cidade episcopal deverão
ter sido regidas por presbíteros ou diáconos. Quanto
às articulações territoriais, situando-nos nos primór-
dios da cristandade e sempre nos limites da Igreja
Ocidental, é de presumir que os bispos de pequenas
localidades tenham mantido ligação com o bispo do
centro urbano mais importante, assim como os bis-
pos de igrejas derivadas o terão mantido com a igre-
ja-mãe. Esse fenómeno, porém, não é réplica do que
se vê noy Oriente, cedo dotado de grandes circuns-
crições. É antes inteligível - salvo raras excepções:
caso do bispo de Cartago que se apresenta como Mapa das dioceses da época visigótica, cf. História
Religiosa de Portugal, vol. 1, p. 141.

69
DIOCESE

cia civil); noutros, é escolhido o bispo que pelos aparece já clara numa carta de São Pedro Damião,
anos de consagração tem mais tempo de serviço. escrita em 1059 e reproduzida no Sínodo de Milão
Com o passar dos anos, o primeiro critério haverá do mesmo ano. Nela se lê: todos os patriarcas, todas
de sobrepor-se e praticamente anular o segundo. as sedes metropolitas, todos os bispados e quaisquer
3. O nascimento de uma diocese: A criação de novas dignidades são constituídas pela Igreja romana (Grta.,
dioceses é influenciada sobretudo pela existência de dist. XXII, c. 1). Pouco depois, os Dictatus Papae de
um elevado número de fiéis. Daí que regiões com Gregório VII (1075) afirmam que só o Papa pode di-
numerosas cidades possuam elevado número de bis- vidir uma diocese rica e unir dioceses pobres (anulan-
pados (mesmo que com escassa extensão territorial), do-se deste modo práticas inversas de metropolitas e
enquanto que regiões com poucas cidades (ainda que abades poderosos). Em 1092, Urbano II, escrevendo
territorialmente extensas) possuam poucas dioceses. ao abade de Reims, Renaud, afirma em jeito norma-
O primeiro padrão encontra-se sobretudo na África tivo: pertence exclusivamente à Sé Apostólica unir
Setentrional e na Itália Central e Meridional; o se- episcopados, separá-los, ou criá-los. Com a mesma
gundo na Itália Setentrional, nas grandes extensões mentalidade se apresenta Inocêncio III, nos anos
da Gália, da Hispânia e nas províncias do Danúbio 1198 e 1200 (Decr., i, tit. vn, c. I; tit. xxx, c. 4).
e Balcãs. Após o desaparecimento dos apóstolos e E ainda João XXII, a quem se deve uma decretai,
seus imediatos seguidores, responsabilizam-se pelo considerada pelos antigos canonistas como norma et
nascimento dc novas dioceses - no Oriente e/ou no magistra nesta matéria, pela qual efectua, ano 1317,
Ocidente - os sínodos provinciais, os patriarcas, os uma divisão de diocese e a criação de cinco novas,
exarcas, os metropolitas ou até os próprios bispos. procedendo assim - palavras do papa - ex certa nos-
Em muitos casos, faz-se sentir a influência do poder tra scientia [...] et apostolicae plenitudine potestatis
civil, quer tomando a iniciativa, quer impondo-se so- (Extravag. communes, 1, íu, tit. n, c. 5). Este proces-
bre, quer simplesmente ratificando as determinações so dc centralização pontifícia colhe também o modo
eclesiásticas (para não falarmos de Constantino, re- normal de escolha de novos bispos. Dc facto, nos
cordemos o rei suevo Teodomiro, que no Concilio de primórdios da cristandade, clero e povo participam
Lugo, em 569, propõe a reorganização eclesiástica na indigitação de um novo prelado, cabendo aos bis-
da província da Galécia...). Exceptuada a Itália, onde pos limítrofes a confirmação e sagração. Cristianiza-
o pontífice romano faz valer a sua autoridade, no ge- do o Império, o imperador confirma ou influencia a
ral o Papa não intervém na criação de novas dioce- escolha. Ao tempo do feudalismo, é forte a ingerên-
ses, vigiando apenas a observância das disposições cia dos senhores feudais. Chegados à reforma grego-
sinodais. O que não significa menosprezo pelo pró- riana (Gregório VII) os leigos são excluídos da elei-
prio poder ou inibição de intervir em circunstâncias ção, os capítulos catedrais participam activamente
especiais. Neste último contexto se percebem a carta nela, mas é já o Papa quem confirma ou até em mui-
que Leão Magno endereça aos bispos de África*, or- tos casos nomeia. No pós-reforma gregoriana, o Papa
denando-lhes que escolham para sedes de dioceses assume definitivamente o papel de nomear, de eleger,
somente as cidades mais importantes e particular- cabendo a clero e povo a simples aclamação e aos
mente populosas (Grat., dis. LXXX, C. 4); e as cartas soberanos pronunciamento favorável ou exercício do
do mesmo São Leão, escritas em 445 e 450, depondo direito de veto. Para além da centralização pontifícia,
o arcebispo de Aries, Hilário, e impondo com a sua a Idade Média consolida o significado administrativo
autoridade uma nova distribuição das dioceses da e territorial do termo «diocese»: circunscrição territo-
província de Vienne... Numa palavra, o romano pon- rial confiada a um bispo. Este conceito vinga por sé-
tífice cinge-se, no geral, à aprovação implícita, não culos, a partir do XIII, a partir de Gregório IX (De-
se coibindo de intervir explicitamente quando as cir- cret., i, tit. 1, 34-35). No que concerne a Portugal e
cunstâncias a isso o instigam. Forte é também a inter- ao longo da medieval idade, os passos mais signifi-
venção papal nos territórios de evangelização mais cativos em termos de dioceses são os seguintes: até
tardia. Assim, agem como seus legados Santo Agos- finais do século xiv, entre dioceses restauradas (pro-
tinho, na Grã-Bretanha; São Bonifácio e São Vilibror- cesso da Reconquista) e novas criações, contam-se
do, na Germânia... Colocado à frente da diocese - e nove dioceses: Braga*, Porto*, Coimbra* e Viseu*,
retornando aí - o bispo tem obrigação de residência, todas sob a metropolítica Braga; Lisboa*, Évora*,
podendo apenas ausentar-se por motivos graves e, Lamego* e Guarda*, sufragâneas de Compostela;
regra geral, por não mais de três semanas. Ao bispo - Silves, ligada a Sevilha. A finais desse século xiv -
no início da cristandade - é ainda interdita a transfe- tempo de D. João I - a Sé de Lisboa será elevada à
rência para outra diocese: as místicas núpcias que dignidade de metropolita (bula ln eminentissime dig-
entre o bispo e a diocese se estabelecem só com a nitatis, 10 de Novembro de 1393, papa Bonifá-
morte do primeiro se dissolvem. Esta última proibi- cio IX), contando por sufragâneas as sés de Évora,
ção mitigar-se-á no decurso do século v, reconhe- Lamego, Guarda e Silves. 5. Na Idade Moderna:
cendo-se motivos de excepção: repúdio de um novo A disciplina universal da Igreja não sofre signifi-
bispo por parte da comunidade, impossibilidade de cativas alterações. Registam-se, no entanto, três no-
assumir funções devido a violências externas, neces- vidades, a primeira atinente ao quadro das dioceses
sidades pastorais... 4. Ao longo da Idade Média: no território nacional, a segunda respeitante às dio-
A partir do século xi, a disciplina eclesiástica, pelo ceses emergentes cm territórios de missão, a terceira
menos no Ocidente, vai reforçando o poder dos pa- referente ao aparecimento da Propaganda Fide. No
pas no que diz respeito à erecção, divisão, modifica- território nacional, o século xvi regista a elevação dc
ção e supressão dc dioceses. Esta nova mentalidade Évora à dignidade de metropolita (em 1540), o apa-

7 O
DIOCESE

recimento das dioceses de Leiria e de Miranda (em Quando a criação ou modificação de dioceses exige
1545), de Portalegre (em 1549), de Elvas (em 1570) contactos com o poder civil, então será chamada a
e ainda a transferência da catedral algarvia de Silves intervir a Sagrada Congregação dos Negócios Ex-
para Faro (em 1577). A inícios do século xviu, no traordinários (c. 255). 7. O novo Código de 1983:
reinado de D. João V, a sede lisboeta é elevada a pa- Apresenta duas importantes novidades face ao ante-
triarcado. A finais desse mesmo século surgem as rior: sem excluir a territorialidade, fala preferencial-
dioceses de Beja*, Pinhel* e Penafiel* (em 1770), e mente em «povo de Deus»; em vez dc partir da Igre-
a de Castelo Branco* (em 1771). O papa Clemen- ja Universal para chegar à local, foca primeiro esta,
te XIV, no ano de 1770, dividira a diocese dc Miran- analisando-a a partir de «dentro», e não do «alto».
da, criando a de Bragança. Tal divisão, porém, não Os cânones mais pertinentes são os 368-374. Co-
perduraria por mais de uma década: Pio VI voltaria a lhendo os ensinamentos da constituição Gaudium et
uni-las, ficando a sé em Bragança e o prelado com o Spes, um dos grandes documentos do Concílio* Va-
título de bispo de Bragança e Miranda*. Ao mencio- ticano II, o cânone 368 diz-nos o que se entende por
nado papa Clemente XIV deve-se ainda a criação, Igreja particular e que relação mantém esta com a
pelo breve Militantis Ecclesiae gubernacula, de universal. As palavras são as seguintes: «As Igrejas
12.4.1774, da diocese de Aveiro*. Em terras ultra- particulares, nas quais e das quais existe a una e úni-
marinas surgem, no século xv e com existência efé- ca Igreja Católica, são primeiramente as dioceses, às
mera, as dioceses de Ceuta, Tânger e Safim; no sécu- quais, se outra coisa não constar, são equiparadas a
lo xvi, as do Funchal*, Açores, Cabo Verde*, São prelatura territorial, a abadia territorial, o vicariato
Tomé e Goa*, Bahia e São Salvador do Congo, Ma- apostólico e a prefeitura apostólica e ainda a admi-
laca* e Cochim, Macau* e Funai (no Japão); no sé- nistração apostólica estavelmente erecta.» Como se
culo xvii aparecem as dioceses de Meliapor e Cran- vê, em vez de «abadia» e «prelatura nullius», o re-
ganor. Criada a Propaganda Fide, vão sendo cente código prefere falar de «abadia» e «prefeitura
cobertos, paulatinamente, pela sua solicitude, os ter- territorial». No cânone sucessivo, o 369 (que tem
ritórios de missão, valendo como reverso da meda- por base o decreto Christus Dominus no seu n." 11),
lha o progressivo esvaziamento dos padroados (por- definem-se os elementos que constituem a Igreja
tuguês, espanhol...). 6. O Código de 1917: Não particular: «A diocese é a porção do povo dc Deus
apresenta uma definição de diocese, sendo esta no que é confiada ao Bispo para ser apascentada com a
entanto concebida na perspectiva da territorialidade. cooperação do presbitério [...].» Servem depois os
O primeiro cânone que nos interessa é o 215, onde cânones 370 e 371 § 1 para recordar o que se enten-
se diz: no § 1, que só à suprema autoridade da Igreja de por prelatura territorial e abadia territorial e ainda
compete erigir províncias eclesiásticas, dioceses, o que se entende por vicariato apostólico. No § 2 do
abadias e prelazias nullius, vicariatos e prefeituras cânone 371 aparece a definição de administração
apostólicas, e bem assim delimitá-las, dividi-las, apostólica (uma realidade já focada - ainda que nou-
uni-las e suprimi-las; no § 2, que em direito o nome tros moldes - no Código de 1917, cânone 312):
de diocese compreende também a abadia e prelazia «A Administração apostólica é uma porção do povo
nullius, e o de bispo compreende o abade e prelado de Deus, que, em virtude de razões especiais e muito
nullius, se da natureza do assunto ou do contexto graves, não está erecta em diocese, e cujo cuidado
não constar outra coisa. As abadias e prelazias nul- pastoral se confia a um Administrador Apostólico
lius são uma parte do território da diocese com clero que a governa em nome do Sumo Pontífice.» Quais
e povo próprio, tendo à frente um clérigo que, não serão as razões especialmente graves?! Pelo que se
sendo normalmente bispo, goza, contudo, de uma ju- pode ver no Anuário pontifício (que menciona três
risdição quase episcopal. Na origem das primeiras administrações apostólicas), há duas razões graves:
(das abadias) estão os grandes mosteiros que foram mudança nos confins de um território e especiais si-
estendendo a sua acção não só sobre os monges mas tuações políticas. Quanto à criação dc novas dioce-
também sobre as igrejas a eles confiadas; na origem ses, é clara a formulação do cânone 373: «Compete
das segundas (das prelazias) estão os capítulos de exclusivamente à suprema autoridade erigir Igrejas
cónegos, normalmente dotados de isenção canónica particulares [...].» Nesta tarefa o Papa é actualmente
(ou seja, directamente dependentes da Santa Sé) e ajudado pela Congregação dos Bispos, ou pela Con-
presididos pelo referido prelado nullius. Quanto aos gregação para a Evangelização dos Povos (tratando-
vicariatos e prefeituras apostólicas, são partes das -se de territórios de missão), ou ainda (sempre que o
missões que têm à sua frente prelados que as gover- aconselhem peculiares circunstâncias) pela Secção II
nam em nome da Santa Sé. Os vicariatos apresentam da Secretaria de Estado. 8. Diferentes espécies de
uma estrutura estável e são normalmente presididos dioceses: Aludimos já às arquidioceses e aos patriar-
por alguém revestido do carácter episcopal; as pre- cados, sob governo dc um arcebispo e de um patriar-
feituras apresentam normalmente um carácter mais ca, respectivamente, os quais, no geral, são também
incipiente, e por via de regra não são bispos os que metropolitas. Acrescentem-se agora as dioceses su-
as presidem. Para esta temática das dioceses é ainda fragâneas: são as que pertencem a uma província
importante o cânone 248, que define as competên- eclesiástica, dependendo os seus prelados do metro-
cias de algumas das congregações da Santa Sé. As- polita. Existem também as dioceses isentas: são as
sim, diz-se que compete à Sagrada Congregação que dependem directamente da Santa Sé. São dioce-
Consistorial instituir as novas dioceses, dividi-las ou ses residenciais aquelas que têm um titular no efecti-
modificá-las, excepto nas regiões sob tutela da Sa- vo exercício da sua administração. São dioceses titu-
grada Congregação da Propagação da Fé (c. 252). lares aquelas que deixaram de existir mas que, como

7I
DIOCESE

rém* (criação de Paulo VI, a 16.7.1975, pela bula


Apostolicae Sedis Consuetudinem) e a de Setúbal*
(criada também por Paulo VI, bula Studentes Nos, de
16.7.1975). Finalmente, sob a metrópole de Évora
(que absorveu a diocese de Elvas, outrora existente),
encontram-se as dioceses de Algarve e Beja. No to-
tal, as dioceses em Portugal continental e nos arqui-
pélagos da Madeira e Açores são vinte, às quais (pe-
lo menos por agora) se acrescenta a de Macau. Com
equiparação a diocese Portugal tem ainda: o Ordina-
riato Castrense* (cujos estatutos foram aprovados
pela Congregação dos Bispos em 3.12.1988 e mili-
tarmente pelo Decreto-Lei n.° 93/91 de 26 de Feve-
reiro); a Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei (erigida
em prelatura pessoal pelo papa João Paulo II, a
28.11.1982).
J O S É PAULO LEITE DE A B R E U

BILIOGRAFIA: ALMEIDA, A. Roque de Para 1er a história da Igreja em


Portugal. Porto: Editorial Perpétuo Socorro, 1 9 9 6 . ANUÁRIO Católico de
Portugal 1995-1998. Viseu: Editorial Rei dos Livros, 1 9 9 6 . CÓDIGO de
Direito Canónico anotado. 2 . " ed. Braga: Theologica, 1 9 9 7 . D I O C ESE. In
SERRÃO, Joel - Dicionário de história de Portugal. Porto: Livraria Fi-
gueirinhas, 1 9 8 9 , vol. 2 , p. 3 0 2 - 3 0 9 . D I O C E S E . In N A Z , R. - Dictionnaire
de droit canonique. Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1949, vol. 4.
p. 1 2 7 5 - 1 2 6 7 . G I O A N T E , José Antônio Martins - Instituições de direito
canónico: /: Das normas gerais e das pessoas. 3.A ed. Braga: Oficina de
S. José, 1955. JEDIN, Hubert Manual de historia de la Iglesia. Barce-
lona: Ed. Herder, 1 9 8 0 , vol. 2 , p. 3 1 9 - 3 3 8 . L E B R E T O N , J . ; Z E I L L E R , Jac-
ques - Historia de la Iglesia: La iglesia en la penumbra. Valencia: Edi-
cep, 1 9 7 6 , p. 5 1 5 - 5 2 7 . O L I V E I R A , Miguel de História eclesiástica de
Portugal. Ed. revista e actualizada. Mcm Martins: Publicações Europa-
-América, 1994.

DIPLOMÁTICA, História da. Étimo oriundo do gre-


go através do latim diploma, atis, significando «coi-
sa dupla», «dobrada em duas». A diplomática é uma
Mapa actual das dioceses portuguesas. As dezoito ciência histórica cujo objectivo é, a partir de meto-
dioceses acima apresentadas acrescem as de Angra do dologias e questões específicas, proceder ao estudo
Heroísmo e do Funchal, nos arquipélagos dos Açores e científico do documento escrito na sua forma e con-
Madeira. Cf. Anuário Católico de Portugal, 1995-1998. teúdo, definindo a sua autenticidade e valor probató-
rio enquanto testemunho de dados e factos históri-
recordação da importância que tiveram, conservam cos. Neste sentido, a diplomática pressupõe um
ainda e apenas o nome. Categoria especial consti- discurso científico plural. A diplomática nasce den-
tuem as dioceses suburbicárias: trata-se de um con- tro das estruturas intelectuais da Igreja Católica seis-
junto de seis dioceses, situadas nas imediações de centista, devendo-se a D. Jean Mabiílon, beneditino,
Roma, à frente das quais está um cardeal revestido o seu baptismo com a publicação dos De Re Diplo-
do carácter episcopal. Estes cardeais têm obrigação mática Lihri Sex (1681). Em Espanha, em 1688,
de residência em Roma e de participar na adminis- D. Joseph Perez publicaria as Dissertaciones eccle-
tração da cúria romana. 9. A actual situação portu- siasticas de re Diplomático. De 1750 a 1756 foram
guesa: Portugal conta actualmente com um patriar- publicados seis volumes intitulados Nouveau Traité
cado, sedeado em Lisboa, e com três sedes de Diplomatique, da autoria dos beneditinos*
metropolitas: Braga, Lisboa e Évora. Sob a metrópo- D. Toustain e D. Tassin. Ao Estado absoluto moder-
le de Braga estão as dioceses de Aveiro, Bragança- no interessava o conhecimento das origens medie-
-Miranda, Coimbra, Lamego, Porto (que absorveu a vais das próprias nações, incentivando-se o estudo
diocese de Penafiel, outrora existente), Viana do da documentação manuscrita ancestral junto de aca-
Castelo (a mais recente das dioceses portuguesas; demias e universidades. Em Portugal, a diplomática
dá-lhe vida o papa Paulo VI, a 3.11.1977, com a bu- aplica-se desde cedo de forma empírica. A selecção
la Ad aptiorem populi Dei), Vila Real (criada por de documentos mereceu, nos alvores de Quinhen-
Pio XI, a 20.4.1922, com a bula Apostolica Nostra- tos, o aparecimento da chamada reforma da Leitura
rum sollicitudo) e Viseu. Sob a metrópole de Lisboa Nova, não só na corte, como também nos mosteiros
encontram-se as dioceses de Angra do Heroísmo*, a de Alcobaça* (Livros Dourados) e de Santa Cruz de
do Funchal, a da Guarda (que absorveu a outrora Coimbra (Livros Autênticos). São numerosos os ín-
existente diocese de Pinhel), a de Leiria-Fátima* (no- dices de cópias de documentos elaborados nos cartó-
me que em 13.5.1984 o papa João Paulo II lhe atri- rios eclesiais. Lembre-se aqui a publicação por Tei-
bui, pela bula Qua pietate), a de Portalegre e Castelo xeira de Carvalho, em 1921, do Index da Fazenda do
Branco (fusão que se deu em 30.9.1881, pela bula mosteiro de Celas de Coimbra, manuscrito de cerca
Gratissimum Christi, do papa Leão XIII), a de Santa- de 1650. De citar, também, de Manuel Estevens, o

72
DIPLOMÁTICA

Index dos títulos do Cartorio do Mosteiro de S. Mar- Azevedo (Lisboa, 1940), autor que organizou a edi-
cos de 1766 (Coimbra, 1950). Da acção efémera da ção diplomática e crítica, com extrema importância
Academia Real da História Portuguesa (1720), resul- para a diplomática eclesial, dos Documentos dos
tarão os volumes da Colecção dos documentos, esta- condes portugalenses e de D. Afonso Henriques,
tutos e mais memorias, compendiando documenta- A. D. 1095-1185 (Lisboa, 1958), continuados pela
ção eclesial. Importa referenciar também os Rerum publicação dos Documentos de D. Sancho I (1174-
Lusitanicarum, hoje depositados na Biblioteca da -1211) (Coimbra, 1979). Mais recentemente, a Uni-
Ajuda, conjunto de 220 volumes, cinco de índices e versidade Nova de Lisboa, sob a direcção de
um suplemento de transcrições de documentação A. H. de Oliveira Marques e outros colaboradores,
eclesiástica. A obra de Mabillon era conhecida por publicaria as chancelarias de D. Pedro I (1 vol.),
alguns académicos como Pina e Proença, bibliotecá- D. Afonso IV (3 vol.) e D. Duarte (3 vol.), bem co-
rio de D. João V, o conde da Ericeira ( | 1743) e Sil- mo as Cortes portuguesas de 1325 a 1383. Sobres-
va Leal (t 1733). Entre as obras publicadas deve saem nos estudos de diplomática eclesial autores co-
mencionar-se a História Genealógica da Casa Real mo José Saraiva (cronologia medieval), Carl
(1735...), as Provas de História Genealógica da Erdmann (bulário do século xii), Pierre David (docu-
Casa Real Portuguesa, editadas por D. António mentos falsos, Livro das Calendas e produção docu-
Caetano de Sousa ( F 1759) ( A Z E V E D O - Linhas, mental da Sé de Coimbra), Carlos Silva Tarouca
p. 232-233). No último quartel do século institucio- (Nuovi Studi sulle Antiche Lettere dei Papi, Roma,
nalizou-se, debaixo da influência de Frei Manuel 1932; Epistolae et Instrumenta Saeculi XIII, com
do Cenáculo, o cargo de professor de Paleografia Bruno Katterbach, Roma, 1930), Abiah Reuter
(1772) e, em 1775, da cadeira de Ortografia Diplo- (Chancelarias medievais portuguesas: 1: Documen-
mática, na qual foi provido José Pereira da Silva. Foi tos da chancelaria de D. Afonso Henriques, Coim-
também aquele arcebispo que fez publicar, em 1773, bra, 1938), Rui de Azevedo (Documentos falsos de
a oitava parte da obra Méthode de Diplomatique, de Santa Cruz...), Avelino de Jesus da Costa (chancela-
Tassin e Toustain, juntando-lhe um Indiculus artis rias reais portuguesas e numerosos estudos sobre o
diplomaticae. Dentro deste contexto vemos a Aca- tema dispersos por revistas, dicionários e enciclopé-
demia Real das Ciências de Lisboa incentivar um dias), Isaías da Rosa Pereira (Synodicon Hispanum:
processo de recolha documental junto dos arquivos 2: Portugal, Madrid, 1982), A.H. de Oliveira Mar-
portugueses, particularmente os religiosos, desta- ques (com uma síntese paradigmática sobre a diplo-
cando-se os nomes de Frei Joaquim de Santo Agosti- mática em Portugal), António Domingues de Sousa
nho, Santa Rosa de Viterbo e de João Pedro Ribeiro. Costa (súplicas pontificas, numerosas biografias de
Este último obteve a regência da cadeira de Diplo- figuras da Igreja medieval), José Mattoso (que se de-
mática, criada na Universidade de Coimbra* em 5 de bruçou sobre os cartórios beneditinos e, de modo es-
Janeiro de 1796, passando para a Torre do Tombo pecial, sobre a sanctio e as arengas na documenta-
em 1801. João Pedro Ribeiro ( | 1839) publicaria ção alto-medieval) e, mais recentemente, G. Pradalié
duas obras cimeiras, as Observações históricas e cri- (com um estudo dedicado aos falsos da Sé de Coim-
ticas para servirem de memorias ao systema da Di- bra), José Marques (com numerosas publicações so-
plomática Portugueza (1798) e as Dissertações bre instituições eclesiais, chancelaria do arcebispado
Chronologicas e Criticas sobre a Historia e Juris- de Braga, itinerários arquiepiscopais e cartórios),
prudência Ecclesiastica e Civil de Portugal, em cin- Maria Helena Coelho (que edita o cartulário de
co volumes (1810 a 1836). Seu contemporâneo foi D. Mor Martins, de Arouca, entre outro estudos),
Frei Manuel da Conceição (t 1796), autor de um Maria José Azevedo Santos (historiando a escrita
glossário de diplomática. Em 1792, Frei José Pedro nos centros eclesiásticos dos séculos ix a xin, a aren-
da Transfiguração editaria, no Porto, o Breve Trata- ga nos diplomas medievais e a documentação de São
do sobre algumas regras mais necessarias de Her- Paulo de Almaziva), Maria Alegria Marques (que
meneutica e Diplomatica, e em 1797 José Anastácio desenvolve estudos sobre as instituições cistercien-
da Costa e Sá ( | 1825) publicaria os Elementos de ses), Ribeiro Guerra (autor de Os escribas dos docu-
Diplomatica. Um dos primeiros manuais de diplo- mentos particulares do Mosteiro de Santa Maria de
mática portugueses, intitulado Elementos de Diplo- Alcobaça, 1155-1200, Lisboa, 1988), Bernardo Sá
mática Portugueza, do padre João Filipe da Cruz, Nogueira (com estudos sobre notários medievais) e
nunca chegaria a ser publicado, conservando-se hoje Maria Cristina Cunha (com estudos sobre a chance-
a versão manuscrita datada de 1805 (IANTT. Ma- laria arquiepiscopal de Braga e o tabelionado portu-
nuscritos da Livraria, n.°2193-A). Em 1836 passou guês). A diplomática eclesiástica interessarão tam-
a reger o curso de Diplomática, no Real Arquivo, Jo- bém edições de cartulários e censuais como o
sé Basto (t 1866), sucedendo-lhe na regência suces- monumental Chartularium Universitatis Portugalen-
sivamente os seus dois filhos João Basto (f 1898) e sis (11 vol.), Lisboa, 1966-1995, ou o Líber Fidei
José Basto (t 1913) ( A Z E V E D O - Linhas, 1928, Sanctae Bracarensis Ecclesiae, Braga, 1965-1990.
p. 43-67). Em termos de publicação de fontes, os Importaria referenciar os censuais (de que se encon-
Portugaliae Monumenta Histórica (Lisboa, Acade- tram publicados entre nós dois relativos à diocese do
mia das Ciências, 1856-1888), dirigidos por Alexan- Porto e o pequeno Censual para o arcediagado da
dre Herculano, constituem um marco sem correspon- terra da Vinha, 1321 (Braga, 1980) ou os livros de
dência em todo o século xx. Publicaram-se os aniversários (sucessores dos rotuli mortuorum) co-
Documentos medievais portugueses: 3: Documentos mo o Líber Anniversariorum Ecclesie Cathedralis
particulares: 1101-1115, sob a direcção de Rui de Colimbriensis (Livro das Kalendas) (Coimbra,

73
DIPLOMÁTICA

1947-1948). A documentação pontifícia relativa a ridades civis. Tem-se-lhe chamado também direito
Portugal encontra-se recenseada em importantes sagrado, direito religioso, direito pontifício (o Papa é
obras como as elaboradas por Joaquim Abranches, o seu principal órgão produtor), direito comum (em
Fontes do direito ecclesiastico portuguez: I: Summa contraposição ao particular, de índole territorial ou
do bullario portuguez (Coimbra, 1895) e Levi Maria pessoal), direito eclesiástico (mas a partir do sécu-
Jordão, Bullarium Patronatus Portugaliae Regnum lo xvi, por influência dos juristas protestantes, esta
in ecclesis Africae, Asiae Atque Oceaniae: I (1171- expressão designa o direito do Estado em matérias
-1260) (Lisboa, 1868). Deverão ver-se, ainda, os bu- religiosas), ius decretalium (cartas decretais eram a
lários organizados por Demetrio Mansilla (documen- forma das decisões pontifícias mais importantes), e
tos papais de 965 a 1227), Quintana Prieto (os de Paulo VI, em 17 de Setembro de 1973, chamou-lhc
1243-1254), Ildefonso Rodriguez de Lama (os de ius caritatis. Quanto à sua origem é constituido pelo
1254 a 1264), bem como Avelino de Jesus da Costa direito divino natural (o que é dedutível da própria
com Maria Alegria Marques (Bulário português: dignidade do homem) e positivo (o que deriva da
Inocêncio III (1198-1216) (Coimbra, 1989). Acres- Revelação), que a Igreja apenas propõe e declara,' e
centemos os Registres Pontificaux publicados siste- pelo direito humano, sobretudo leis e decretos da au-
maticamente para os pontificados do século xui até toridade suprema (Papa, concílios ecuménicos), mas
ao século xiv. Importará sempre a consulta do Qua- também de outras autoridades (bispo, concílio parti-
dro elementar das relações políticas e diplomáticas cular, sínodo diocesano, capítulos gerais de institutos
de Portugal com as diversas potências do mundo, religiosos), concordatas, leis civis «canonizadas», is-
em nove volumes (Paris, 1864), organizado pelo to é, que a Igreja faz suas (cânon 22). 2. História das
2.° visconde de Santarém, bem como os 14 volumes fontes: O conhecimento da organização da Igreja
do Corpo diplomático portuguez... (Lisboa, 1862- (mutável, como facto histórico que também é) e das
-1910). Grande parte da legislação régia portuguesa suas instituições, que sobretudo os textos legais e
moderna sobre a Igreja encontra-se nos 12 volumes compilados proporcionam, é importante não só para
da Collecção chronologica da legislação portugue- apreender a sua vida interna, mas também para en-
sa, dirigida por José de Andrade e Silva (Lisboa, tender muitos dos principais acontecimentos da his-
1856). tória social e política da Europa e fora desta. 2.1.
SAUL A N T Ó N I O G O M E S A Escritura como «fonte» de direito canónico: Não
se pode prescindir da Bíblia para entender normas e
BIBLIOGRAFIA: AZEVEDO, Pedro de - Linhas gerais da história da diplo- instituições da Igreja. Os ordenamentos de Israel,
mática c m Portugal. O Instituto. 7 4 ( 1 9 2 7 ) 2 2 6 - 2 4 2 ; 7 5 ( 1 9 2 8 ) 4 3 - 6 7 .
AZEVEDO, Rui de - Documentos falsos de Santa Cruz de Coimbra (sécu-
nomeadamente o Pentateuco, reclamam-se, na sua
los XII e xni). Lisboa, 1932. COELHO, Maria Helena da C r u z - A diplo- origem, da Aliança com Abraão, renovada com Moi-
mática e m Portugal: Balanço e estado actual. Revista Portuguesa de sés, repetidamente relembrada pelos profetas. Jesus
História. 2 6 ( 1 9 9 1 ) 1 2 5 - 1 5 5 . C O S T A , António de Sousa Monumento
Portugaliae Vaticana. 1 9 6 8 - 1 9 7 0 , vol. 1 - 4 . C O S T A , Avelino de Jesus da
institui a Igreja, envia a fazer discípulos, baptizar e
Bula; Breve; Calendário cristão; Dias do mês; Dias da Semana; Di- catequizar, distingue funções (de entre os discípulos
plomática. In VERBO: Enciclopédia luso-brasileira de cultura. Lisboa, escolhe os Doze, tendo Pedro como cabeça), esclare-
I 9 6 0 . I D E M - Estudos de cronologia, diplomática, paleografia e históri-
co-linguisticos. Porto. 1992. CUNHA, Cristina - Tabeliães bracarenses no
ce o valor moral da lei, restabelece a indissolubilida-
século xni. In IX C E N T E N Á R I O DA D E D I C A Ç Ã O DA S É DE B R A G A Actas. de do matrimónio. Os apóstolos continuam a liturgia
1 9 9 0 , p. 2 4 9 - 2 6 5 . IDEM La Chancellerie Archiépiscopale de Braga da sinagoga com leituras e salmos, reúnem-se para a
( 1 0 7 1 - 1 2 4 5 ) : Quelques Aspects. In Du: DIPLOMATIK Der Bischofsurkun-
de vor 1250. Innsbruck, 1 9 9 6 . p. 5 0 3 - 5 0 9 . IDEM - A chancelaria arqui- fracção do pão, impõem as mãos, ungem os enfer-
episcopal de Braga. Porto, 1999. DAVID, Pierre - Études
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Historiques mos, aplicam uma disciplina penitencial aos trans-
sur la Galice et le Portugal du Vf au XII siècle. Lisboa: Liv. Portugal, gressores, resolvem problemas com autoridade, or-
1947. ERDMANN, Cari - Papstuskunden in Portugal. Berlim: Weid-
m a n n s c h e Buchandlung, 1927. MARQUES, A. H. de Oliveira Diplomá- ganizam as comunidades, escolhem colaboradores,
tica. In DICIONÁRIO de história de Portugal. Dir. Joel Serrão. Lisboa: Ini- decidem as relações com o judaísmo*, cultivam os
ciativas Editoriais, 1 9 6 1 - 1 9 7 1 , vol. 2 . M A R Q U E S , José A arquidiocese
de Braga no século xv. Lisboa: I N C M , 1 9 8 8 . IDEM - O regimento da
contactos entre as Igrejas. O Evangelho é a lei fun-
chancelaria arquiepiscopal de Braga no século xv: tipologia documental damental da Igreja, embora não em sentido técnico-
e taxas. Revista da Faculdade de Letras. Porto. 2 : I ( 1 9 9 2 ) 8 7 - 1 0 6 . -jurídico. As disposições emanadas dc Jesus valem
PRADALIF., G. - Les Faux d e la cathédrale et la crise à C o i m b r e au début
c
du xu siècle. Mélanges de la Casa Velazquez. Paris. 1 0 ( 1 9 7 4 ) . S A N T O S ,
para sempre; sendo necessariamente insuficientes,
Maria José Azevedo - O cartulário de S. Paulo de Almaziva. Coimbra, todos os desenvolvimentos ulteriores deverão ser
1 9 8 1 . Edição crítica. IDEM - Da visigótica à carolina: a escrita em Por- avaliados, adoptando como critério dc discernimento
tugal de 882 a 1172 (aspectos técnicos e culturais). Lisboa, 1 9 9 4 . IDEM
- O « o r n a m e n t o literário» em d o c u m e n t o s medievais: o preâmbulo ou
a sua fidelidade ao Evangelho. 2.2. As tradições
arenga ( 7 7 3 7 - 1 1 2 3 ) . Biblos. Coimbra. 6 8 ( 1 9 9 2 ) 3 0 7 - 3 3 3 . apostólicas (séculos i- in): Neste período a Igreja vai-
-se organizando em plano local e nas relações de co-
munhão: aos órgãos da idade apostólica sucederam
DIREITO CANÓNICO. I. Noção: É o ordenamento ju- outros, os bispos exercem agora as funções do go-
rídico que regula a actividade especifica da Igreja*, verno pastoral. Não há ainda fontes formalmente ju-
dos seus membros enquanto tal; é um conjunto de rídicas, mas encontram-se diversos elementos na Di-
disposições de origem e natureza diversa que hoje, dakê (presença de bispos e diáconos, sacramentos),
no essencial, estão codificadas no Código dc Direito Cartas de Santo Inácio (hierarquia: bispos, presbíte-
Canónico, promulgado em 25 de Janeiro de 1983, e ros, diáconos), Carta de São Clemente (poderes do
no Código dos Cânones das Igrejas Orientais, pro- bispo de Roma, regra da sucessão apostólica), Pas-
mulgado em 18 de Outubro de 1990. As normas es- tor de Hermas (penitência), entre os Apologistas,
tabelecidas pelas autoridades da Igreja em matéria São Justino informa sobre o baptismo e a eucaristia,
da sua competência cedo receberam a designação de a História eclesiástica de Eusébio narra factos deste
cânones, em contraposição a nomoi, as leis das auto-

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DIREITO CANÓNICO

período. E se permanecem questões em aberto (epis- No âmbito das fontes, as antigas colecções canóni-
copado monárquico, relações bispo-presbíteros nas cas são retomadas e actualizadas; as várias igrejas da
Igrejas locais) vai-se delineando uma estrutura: posi- Europa encontram-se em isolamento recíproco; na
ção do bispo na Igreja local, critério da sucessão Hispânia e na Inglaterra-Irlanda, até à reforma gre-
apostólica, vínculos de comunhão intereclesial e po- goriana, desenvolve-se uma disciplina autónoma; o
sição de Roma. As recolhas jurídicas, cujos elemen- Papa acentua a sua influência: legados, missionação
tos mais antigos se reportam a este período, são de dos povos bárbaros, luta das investiduras, reforma.
época posterior, na versão em que chegaram até nós. 2.4.1. Colecções mais antigas: Epitome hispana, que
São as chamadas Colecções Pseudo-Apostólicas adopta a forma sistemática; Collectio Dionysio-
que, como o nome indica, se pretendem fazer re- -Hadriana, actualizada em Roma e enviada, em 774,
montar aos apóstolos: Traditio Apostolica (ritos e a Carlos Magno pelo papa Adriano, para orientar a
preces litúrgicas, normas sobre ordens e ministérios, reforma da Igreja franca; Dacheriana (800). Desta
catecumenato, reuniões da comunidade, jejum, ora- época são ainda característicos os Capitularia, leis
ção); Didaskalia (deveres do bispo, presbíteros, diá- com valor canónico e civil, e os Libri Poenitentiales,
conos, diaconisas, liturgia, penitência, matrimónio, de origem insular, manuais práticos para clero pouco
assistência aos pobres); Constitutiones Apostolicae preparado, resumo do direito penal e processual,
(oração, ordenações, adaptação de normas e fórmu- atribuídos a pastores ilustres, mas sem valor oficial
las aos ambientes a que eram destinadas); Cânones que, com a peregrinado monachum, tiveram grande
Apostolici (contêm diversas tradições locais e reela- difusão no Centro da Europa. 2.4.2. Renascença
boram decisões de concílios). Não é fácil identificar franca e «falsas decretais»: em meados do século ix
a pátria destas colecções, que foram sucessiva e a Igreja franca viveu uma grave situação, vítima da
constantemente readaptadas com grande liberdade cobiça da aristocracia feudal que instrumentalizava a
e, simultaneamente, veneração, pela alegada origem Igreja e depunha bispos para os substituir por cléri-
apostólica. Com o cuidado indispensável para re- gos dóceis. Sentindo a necessidade de alterar a situa-
construir o que é antigo em documentos posteriores, ção e havendo um clero tão decadente, pensaram al-
as Colecções Pseudo-Apostólicas são importantes guns em apresentar a indispensável reforma como já
para conhecer a situação das Igrejas orientais pré- programada anteriormente: para isso alteraram tex-
-nicenas, mostram-nos como se praticava a fidelida- tos, forjaram apócrifos, misturaram textos genuínos
de à tradição e revelam-nos que o espírito jurídico e falsos. É o fenómeno das «falsas decretais», que
do direito canónico não vem de Roma: o surgir de obtiveram grande acolhimento na Europa e revelam
normas e cânones explica-se pelas necessidades unidade de origem, estilo e materiais usados; época
concretas do desenvolvimento das igrejas locais. de compilação: 847-852. Os autores deviam ser pes-
2.3. A Idade dos Padres (séculos IV-VI): Período em soas de grande cultura e hoje pensa-se que a pátria
que, entre conflitos religiosos e civis, se precisam foi a Gália Central, o eixo Le Mans-Reims. Surgiram
matérias teológicas, litúrgicas e canónicas para lar- assim a Hispana de Autun, Capitula Angilramni
gos séculos. A situação é complexa e não se compa- (acentua isenções dos clérigos), Capitularia Bene-
dece com esquematismos nem preconceitos: foi con- dicti Levitae (contra abusos dos leigos) e, sobretudo,
cedida a liberdade à Igreja (313), mas antes não é só as Decretales Pseudo-Isidorianne, colecção em três
perseguição e depois não é só cristianismo como re- partes, que mistura documentos autênticos com car-
ligião oficial; tanto no Oriente como no Ocidente há tas atribuídas a papas dos primeiros séculos (aí apa-
lutas de bispos pela liberdade pastoral, em confronto rece a famosa Donatio Constantin!). 2.4.3. Colec-
com os poderes civis, mas no Ocidente surge mais ções da reforma gregoriana: nos séculos x-xi dão-se
cedo a distinção entre ambas as esferas (Gelásio, reformas (p. ex. Cluny, a afirmar o poder supremo
carta de 494); a distinção entre organismos da Igreja do Papa e a cultivar o renascer da vida espiritual) e a
e do Império ainda não é nítida. Autores de normas difusão de ordens monásticas e cónegos regulares.
novas são os concílios, ecuménicos e particulares, o Preparando a reforma gregoriana aparece o Decre-
papa, os bispos para as suas cidades e o imperador tum de Burcardo, bispo de Worms (1000-1025). Co-
(nomocanones). Colecções canónicas: a) Oriente: lecções romanas da reforma são a Colecção dos 74
houve-as cronológicas (Sintagma Canonum, 380 e títulos, a do cardeal Deusdedit e ainda o Dictatus
Collectio Trullana, 691) e sistemáticas (Synagogê, Papae: apoiam a luta contra a ingerência civil e a si-
550); nos vários patriarcados vai-se desenvolvendo monia e a abolição das investiduras laicas. Vencida a
um direito canónico autónomo; b) Ocidente: além da batalha das investiduras, nota-se menos rigor na tri-
recepção de cânones orientais, celebram-se vários logia de Ivo de Chartres (1091-116): Decretum, Tri-
concílios (na Itália, África, Gália, Hispânia) que ela- partita e Panormia. 2.5. A síntese medieval (sécu-
boram cânones novos ou reelaboram os anteriores: los xn-xiv: «Corpus luris Canonini»: E a idade
Codex Canonum Ecclesiae Africanae, Collectio clássica do direito canónico, momento de apogeu da
Avellana (553), Collectio Dionysiana, versio Hispa- Cristandade medieval mas também de tensões políti-
na, versio Prisca (ítala). 2.4. A época dos reinos cas (guelfos, movimento comunal); é a época das
bárbaros (séculos vn-xi): Dá-se o redimensionamen- Cruzadas*, da pressão do Islão, da Inquisição*, das
to geográfico da Igreja (invasões árabes), Carlos ordens mendicantes, do florescer das universidades,
Magno reconstrói a unidade europeia, a Igreja assi- da escolástica, do gótico, da literatura, da música, do
mila povos germânicos e eslavos, o feudalismo pro- comércio. A síntese canónica corporiza-se em colec-
voca uma crise grave. No direito canónico amadure- tâneas a cujo conjunto se chamou mais tarde Corpus
cerá uma nova mentalidade sistemática e científica. luris Canonici. 2.5.1. «Decretum»: O Decreto de

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DIREITO CANÓNICO

Graciano é o ponto de chegada de onze séculos e o tadores do Decretum chamaram-se decretistas, entre
ponto de partida para a renovação da ciência canóni- eles Huguccio de Pisa, Rufino (em Paris), Rolando
ca. Seu autor é João Graciano, monge camaldulense, Bandinelli (Alexandre III), Lotário (Inocêncio III),
professor em Bolonha na primeira metade do sécu- João Teutónico, autor da Glossa ordinaria. A ciência
lo xii. Intitulou a sua obra Concordia discordantium do direito canónico progride no método, com o re-
canonum (1140). Dividida em três partes (101 dis- curso à dialéctica, no confronto com o direito roma-
tinções, 36 causas, 5 distinções), recolhe textos da no do Digestum há pouco descoberto (jus commune)
Escritura, cânones de concílios, decretais de papas, e surge o utrumque ius. Desde as Decretales os co-
textos patrísticos, fragmentos de legislação imperial mentadores chamam-se decretalistas: Sinibaldo de
e procura conciliá-los (dieta Gratiani). Colectânea Fieschi (Inocêncio IV), Guido de Baysio, Guilherme
nascida para uso escolar e prático, não tem autorida- Durando (autor do Speculum iudiciale), Henrique de
de legal (não é autêntica), mas tem grande valor Susa, autor da Summa aurea (1253) e João André
doutrinal e histórico. 2.5.2. Decretais: Eram cartas e (t 1348), o último dos grandes decretalistas. Os me-
constituições dos papas com alcance geral para toda lhores canonistas floresceram no século XIII. Poste-
a Igreja ou para uma parte dela, uma diocese ou pro- riormente devem ainda citar-se João de Torquemada
víncia eclesiástica. Com a obra de Gregório IX e Nicolau de Tudeschis. A designação Corpus Iuris
(1234) o nome indica uma colectânea oficial. A par- Canonici, que engloba as compilações atrás referi-
tir do Magister Gratianus renovou-se o estudo dos das, cuja unidade é dada pela doutrina e pela tradi-
cânones. Houve vários papas canonistas, cujas de- ção, foi atribuída a este conjunto pela editio romana
cretais tiveram alcance maior, universal, elevando-se de 1580. (Em 1583 Dionísio Godofredo chamou
acima do caso particular para que se pedia solução. Corpus Iuris Civilis à edição, que promoveu, das
Ao Decreto de Graciano foram-se juntando outras compilações de Justiniano, século vi.) Posteriormen-
colecções e cinco delas, Quinque Compilationes An- te apareceram várias edições críticas: dos irmãos Pi-
tiquae, tiveram maior fortuna, usadas que foram por thou, Boehmer, Richter e Friedberg, actualmente
São Raimundo de Penhaforte. À primeira (1191) vulgarizada. 2.6. Crise e Reforma (séculos XIV-XVI):
Bernardo de Pavia, seu autor, chamou-lhe Brevia- Os papas continuaram a fazer decretais de que, des-
rium Extravagantium e é importante pela ordem de de 1198, ficava cópia nos Registos da chancelaria;
distribuição da matéria que, a partir daí, se fixou cm há também concordatas* com os príncipes, a diplo-
livros, títulos e capítulos. Os livros eram cinco e a macia assume novas formas e surgem as nunciaturas
glosa denominou-os iudex, iudicium, clerus, connu- permanentes (v. EMBAIXADORES DE PORTUGAL JUNTO DA
bia, crimen. Decretais de Gregório IX: eleito aos 80 SANTA SÉ; NUNCIATURA DE L I S B O A ) . A actividade legis-
anos, Gregório IX encarregou o seu capelão, Rai- lativa continua com os concílios* (ecuménicos, par-
mundo de Penhaforte, de elaborar uma nova compi- ticulares) e sínodos*; fruto dos sínodos diocesanos
lação. A partir, sobretudo, do material posterior a são as numerosas constituições sinodais (v. C O N S T I -
Graciano, omitindo o supérfluo, mantendo a disposi- TUIÇÕES D I O C E S A N A S ) . Trento (1545-1563, em três
tio, corrigindo decretais ou pedindo algumas novas períodos e 25 sessões) foi um concílio com três ob-
ao papa, terminou em quatro anos o seu trabalho, jectivos: definir a doutrina católica perante os refor-
que o papa promulgou em 5 de Novembro de 1234 madores, promover a reforma geral da Igreja e fazer
(bula Rex Pacijicus). A obra não tem título: chama- a paz entre os príncipes cristãos. A palavra de ordem
ram-lhe Liber Extra ou Decretais de Gregório IX. foi salus animarum suprema lex esto e as grandes li-
A colectânea é autêntica (as decretais têm valor de nhas concretizaram-se no campo da fé (clarificação
lei por estarem aqui inseridas), universal (as leis vi- dogmática, retorno à Escritura, catecismo simples,
goram para todos), una (as leis «nasceram» no mes- educação cristã, missões), da liturgia (eucaristia, cul-
mo dia), exclusiva (revoga as leis contrárias). 2.5.3. to dos santos, reforma dos ritos, eliminando os que
«Liber sextus»: Bonifácio VIII mandou publicar em tinham menos de 200 anos; a reforma dos textos li-
1298 nova compilação para actualizar e completar a túrgicos foi confiada ao Papa), da disciplina (nomea-
obra de Gregório IX. Chamou-lhe Livro VI, porque ção e residência dos bispos, religiosos, clero, semi-
se acrescentava aos cinco anteriores de Gregório IX, nários, benefícios). 2.7. De Trento ao Código de
mas é composto também por cinco livros, títulos e 1917 (séculos xvn-xx): Este período distingue-se pelo
capítulos, a que se juntam 88 Regulae Iuris. 2.5.4. progresso doutrinal da ciência canónica e não pela
«Clementinae»: Clemente V fez reunir as suas de- produção de novas colecções. Entre estas podem re-
cretais e as decisões do Concílio de Vienne nesta no- ferir-se edições de actas de concílios (preparadas por
va colecção, aparecida (1317) já depois da sua mor- Mansi, Harduin, Collectio Lacensis), actas dos pa-
te. 2.5.5. «Extravagantes»: os papas posteriores pas, os diversos Bullaria particulares, Magnum Bul-
continuaram a emitir decretais, que não foram reco- larium Romanum, Acta Sanctae Sedis (1865-1908),
lhidas em colecções autênticas, mas justapostas cro- Acta Apostolicae Sedis (desde 1909) e actas da cúria
nologicamente. São as Extravagantes Johannis XXII romana. Pelo que se refere à ciência canónica, reme-
e as Extravagantes communes. 2.5.6. Decretistas e te-se para as 82 páginas de autores e obras nos Pro-
decretalistas: os mestres universitários expunham legomena de Van Hove. O que se ia tornando cada
com método exegético e escolástico o Decreto de vez mais claro era a necessidade de elaboração de
Graciano: foram eles os primeiros intérpretes. As li- um código: já no século xvin se falava nisso, mas
ções deram origem a comentários: Distinctiones, por ocasião do Vaticano I tal necessidade formulou-
Quaestiones, Casus, Notabilia. Breviaria, Excerpta -se como premente. 2.8 Código de Direito Canónico
e sobretudo às Glossae e às Summae. Esses comen- de 1917: Eleito Pio X logo em 1904 instituiu uma

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DIREITO CANÓNICO

comissão que, conduzida por Pedro Gasparri, em do- instituído o Conselho Pontifício para a Interpretação
ze anos preparou o que veio a ser o primeiro Código dos Textos Legislativos (designação atribuída pela
de Direito Canónico na história da Igreja. Foi publi- Constituição Apostólica Pastor Bónus, de 28 de Ju-
cado no Pentecostes de 1917 e entrou em vigor no nho de 1988). 3. Em Portugal 3.1. Fontes: Serão os
Pentecostes de 1918. Dividido em cinco livros (2414 Capitula Martini a primeira compilação canónica
cânones), foi acolhido com grande favor e foi uma originária do espaço que é hoje Portugal. Trata-se de
obra de indubitável valor científico e jurídico. Tinha uma colecção de 84 cânones de vários concílios,
vários defeitos a começar pela sistematização adop- compilada por São Martinho de Dume e adoptada no
tada (em pessoas, coisas e acções, que remontava às I Sínodo de Braga (563), que tratam sobretudo dos
lnstitutiones de Gaius, mas nenhum código civil deveres dos clérigos e leigos. Cite-se ainda, do mes-
adoptara), com lacunas e incertezas, incongruências mo período, a Collectio Hispana ou Isidoriana,
nas fórmulas exortatórias e na terminologia, cânones compilada após o IV Concílio de Toledo (633), vi-
minuciosos em matéria secundária, demasiado técnico gente na Hispânia visigótica de então. Já depois da
e pouco pastoral, reflectindo uma estrutura centraliza- fundação da nacionalidade merecem referência duas
da e uma excessiva uniformidade. Veio provocar a colecções canónicas do século xin, que nos chega-
curto prazo a celebração de concílios particulares e sí- ram através dos manuscritos de Alcobaça* (Collec-
nodos diocesanos, a reforma dos estudos e o apareci- tio Alcobacensis), hoje na Biblioteca Nacional. A Al-
mento ou o revigorar de revistas da especialidade. cobacense 1 é formada por 39 fólios do manuscrito
Devia ser revisto, segundo o cardeal Gaspari, a 10 alcobacense 144 (314) e contém decretais de Ale-
anos da sua publicação, mas quem tomou a iniciativa xandre III; a Alcobacense II está inserida no manus-
da revisão foi apenas João XXIII, em 25 de Janeiro crito alcobacense 173 (304) e contém decretais de
de 1959. 2.9. Código de Direito Canónico de 1983: vários papas, além das constituições do IV Concílio
Na Basílica de São Paulo extra muros, em 25 de Ja- de Latrão e a / Compilado Antiqua. Além das fontes
neiro de 1959, João XXIII anunciou a convocação comuns do direito canónico interessa especialmente
de um concílio ecuménico e a revisão do Código de mencionar as fontes particulares, que podemos agru-
Direito Canónico. O Vaticano II provocou uma pro- par em concílios plenários e provinciais, sínodos
funda reflexão eclesiológica, que deu os seus frutos diocesanos, estes a darem origem às constituições si-
também na revisão do código, programaticamente nodais, as concórdias e concordatas entre os dois su-
querida para o pós-concílio. Daí resultaram, para o premos poderes. Bispos do território que é hoje Por-
código, não as simples modificações e retoques ini- tugal tomaram parte em concílios, mais tarde
cialmente previstos, mas uma reforma estrutural. Os chamados plenários, durante a monarquia visigótica
trabalhos começaram ainda em 1965; no primeiro sí- (Toledo) e já antes no de Elvira (cerca de 300). Após
nodo dos bispos, em 1967, foram aprovados 10 prin- a fundação da nacionalidade houve os de Braga
cípios gerais (que constam do prefácio do código), e (1262, por causa do casamento de D. Afonso III) e
os esquemas dos vários grupos de trabalho tiveram Santarém (1381, ao tempo do Cisma do Ocidente*,
duas e três versões, ao longo de 16 anos. O esquema para decidir a qual dos papas se devia prestar obe-
último, com numeração progressiva de todos os câ- diência, tendo-se decidido pelo papa de Roma).
nones, foi editado em 1980; em Outubro de 1981 foi O I Concilio Plenário Português decorreu entre 24
ainda examinado pela comissão plenária alargada, de Novembro e 3 Dezembro de 1926: teve seis ses-
que o entregou ao papa em Abril de 1982, e foi pro- sões, pretendeu aplicar o Código de Direito Canóni-
mulgado em 25 de Janeiro de 1983, no 24.° aniversá- co de 1917, tendo em conta as circunstâncias criadas
rio do anúncio da sua revisão. O relato das sessões pela Lei da Separação de 1911, e votou 503 artigos.
dos grupos de trabalho da comissão revisora conti- Quanto a concílios provinciais celebraram-se três em
nua a aparecer nas Communicationes, revista oficial Braga antes da fundação da nacionalidade, em 561,
desde 1969. Simultaneamente foi sendo codificada, 572 e 675 (o de 411, referido por Frei Bernardo de
pela primeira vez e por uma comissão pontifícia aná- Brito, é apócrifo). Houve, além disso, vários bispos
loga, a legislação das Igrejas Orientais, publicada em de dioceses hoje portuguesas a participar em concí-
18 de Outubro de 1990, com o título de Codex Ca- lios provinciais em território da actual Espanha, por
nonum Ecclesiarum Orientalium. Preparada foi tam- serem sufragâneos de metrópoles aí sedeadas. De-
bém uma Lex Ecclesiae Fundamentalis, mas Pau- pois da fundação de Portugal houve concílios pro-
lo VI considerou oportuno não a promulgar. O novo vinciais em Braga (1147, 1426) e, após o concílio
código, apresentado à Igreja em 3 de Fevereiro de ecuménico de Trento e para aplicação dos seus de-
1983, contém as novidades do concílio (é «o último cretos, em Braga e Lisboa (1566) e Évora (1567).
documento do concílio», disse João Paulo II) em A notícia mais antiga que se conhece de um sínodo
continuidade com a tradição legislativa da Igreja; o diocesano em Portugal, dada na Crónica dos Cóne-
serviço mais importante que presta é o da certeza ju- gos Regrantes do Patriarca S. Agostinho (v. C Ó N E G O S
rídica, tão importante em qualquer grupo social. Mas REGRANTES DE SANTO A G O S T I N H O ) , é a do celebrado em
não contém todas e cada uma das normas do corpo Lisboa em I de Maio de 1191; mas o texto das mais
eclesial: estão noutras sedes as normas litúrgicas, antigas constituições sinodais que se conhece é o de
concordatárias, da cúria romana, dos tribunais da Sé 1240, de Lisboa. Realizaram-se vários, em várias
Apostólica e das Causas dos Santos, além de haver dioceses, a partir do século XIII, como se pode ver no
remissões para a lei civil e de haver comunidades ca- Synodicon Hispanicum: II: Portugal, retomando-se
pazes de dar-se normas próprias. Para ajudar no tra- a sua celebração nos nossos dias, a partir do Concí-
balho de entendimento e aplicação das normas foi lio Vaticano II. As concórdias e concordatas têm si-

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DIREITO CANÓNICO

do diversas vezes publicadas, a última das quais por ses a ensinar em Espanha, como o merccdário Sera-
Eduardo Brasão, em 1941. Os estatutos pombalinos fim de Freitas, autor de De justo império lusitano-
da Universidade de Coimbra*, de 1772, referem no rum asiatico (1625), em Valhadolid. Canonistas a
liv. li, tít. 4, cap. 2, n. 10, as «Liberdades da Igreja merecer referência são, entre outros, António Cardo-
portuguesa», dizendo que consistem na «retenção de so do Amaral, 1652, Summa seu praxis mdicum; An-
alguns usos, costumes e observâncias canónicas [...] tónio Vasques de Chaves, Biformis tractatus de usu-
na observância dos cânones antigos [...] e em alguns capione\ Bento Pereira, t 1681, Promptuariam
breves e bulas», mas sem dar maior concretização, juridicum, Compendium tractatus de matrimonio;
aliás, nunca ninguém deu, apesar da referência ob- Diogo de Brito de Carvalho, t 1635, Compendium
sessiva que lhes é feita por parte dos autores regalis- diversorum titulorum Júris Pontificii; Feliciano de
tas. 3.2. Canonistas: A ciência canonística propria- Oliveira e Sousa, Tractatus de foro Ecclesiae
mente dita teve o seu ponto de partida no Decreto de (1645); João de Carvalho, | 1630, De dolo et contu-
Graciano (1140), o mestre de Bolonha que compilou mácia e um tratado sobre a Lex Falcidia; Luís Caeta-
os materiais normativos de 1 1 séculos da vida da no de Lima, f 1757, Jus canonicum justa ordinem
Igreja. Em Bolonha estudaram, e vários ensinaram, Decretaliunr, Luís Correia da Silva, Relectio ad ca-
muitos dos canonistas medievais portugueses a se- put inter alia de immunitate Ecclesiarum; Manuel
guir indicados. De alguns não consta com segurança Alvares Pegas, t 1696, Tractatus de competentiis in-
se eram portugueses ou espanhóis, especialmente ter Archiepiscopos, Episcopos et Nuntium Apostoli-
por causa do sobrenome Hispanus; os dois últimos cum cum potestate Legati a latere; Manuel Temudo
medievais indicados são castelhanos, mas têm muito da Fonseca, f 1652, Decisiones senatus Archiepisco-
interesse para Portugal: 1) Petrus Hispanus Portuga- palis Ulysiponensis em quatro partes; Manuel do Va-
lensis, activo em Bolonha desde os finais do sécu- le de Moura, t 1650, De filiatone dúbia, De irregu-
lo xii, autor de dois pequenos tratados sobre proces- laritate ex abortu contracta, De parocho residere
sos; 2) Silvestre Godinho, professor em Bolonha, omittenti, De clerico villico\ D. Rodrigo da Cunha,
advogado na causa de D. Afonso II e suas irmãs, de- t 1643, De confessariis solicitantibus, Super secun-
pois arcebispo de Braga*, | 1244; 3) Vicente Hispa- dam partem Decreti Gratiani; Sebastião César de
no, professor em Bolonha, deão de Lisboa, chanceler Menezes, + 1672, Relectio de hierarchia Ecclesiasti-
de D. Sancho II e bispo da Guarda*, t 1248; 4) João ca. A precisar dc investigação por parte de estudio-
de Deus, de Silves, largos anos professor em Bolo- sos, estão no Arquivo da Universidade de Coimbra
nha e autor de numerosas obras de carácter didáctico diversos materiais do período áureo da Faculdade de
sobre temas variados, t 1267; 5) João Egitaniense, Cânones. O mais citado de todos os canonistas por-
professor utriusque iuris e cónego da Guarda; 6) Do- tugueses é, sem dúvida, Agostinho Barbosa. Nascido
mingos Domingues, de Viseu, autor de uma obra de em Guimarães em 1590, estudou em Coimbra
praxe notarial; 7) Martinus Martini, autor de um co- (1608-1618) e doutorou-se in utroque iure em 1621
mentário das Decretais de Gregório IX; 8) Egas de na «Sapientia» de Roma. Nesta cidade permaneceu
Viseu, interveio em contendas entre a Igreja e a Co- até 1632, desempenhando diversos cargos na cúria e
roa e foi bispo de Viseu*, t 1313; 9) Martini Peres, rejeitando convites para trabalhar em Veneza, França
autor de um muito difundido Livro das confissões; e Alemanha. De 1633 a 1639 viveu em Madrid, en-
10) Alvaro Pais, galego, fez-se franciscano após os tregue a actividades curiais. Esteve em diversas ci-
estudos em Bolonha, penitenciário pontifício, em dades da Europa e em 1649 foi nomeado bispo de
1333 bispo de Silves, autor de De statu et planeta Uguento, província de Otranto, no Sul da Itália, onde
Ecclesiae, Collyrium fidei contra haereses, Specu- faleceu em 19 de Novembro do mesmo ano. Escre-
lum regam... f 1350; 11) André Dias de Escobar veu 21 obras, algumas reeditadas várias vezes, mes-
(1348-1450), foi dominicano, cónego regrante e be- mo durante a sua vida. Entre as mais importantes es-
neditino, penitenciário de quatro papas, bispo de tão: Remissiones doctorum (1618), De officio et
Ajaccio e Cidade Rodrigo, autor de várias obras, al- potestate Episcopi (1623), Collectanea doctorum in
gumas a resvalar para o conciliarismo; 12) Bonifácio Ius Pontificium universum (1626), De officio et po-
Garcia, de Lisboa, auditor de D. Joana, a mãe da testate Parochi (1632), Ius Ecclesiasticum univer-
Beltraneja\ 13 e 14) Juan González (t 1440) e Juan sum (1634), Collectanea doctorum in Ius Civile uni-
Alfonso de Mella (f 1467), intervieram na questão versum (1637). Barbosa Machado, na sua Biblioteca
entre D. João I e os prelados portugueses, resolvida lusitana (o índice «Jurisprudência canónica» vem
pela concórdia assinada em Santarém em 1427. (Os nas páginas 568-572 do tomo iv), dá notícia de vá-
dois autores, felizmente vivos, indispensáveis para o rios outros canonistas, entre os quais Rodrigo do
estudo destes canonistas, são os professores francis- Porto, tido como autor da versão originária, em por-
canos António Domingues de Sousa Costa e Antonio tuguês (1549), do Manuale confessariorum, poste-
Garcia y Garcia. Refira-se ainda o autor da Corte riormente refundido e aumentado por Martin dc Az-
imperial (séculos xiv-xv). Após a instalação da uni- pilcueta e conhecido como da autoria deste. Depois
versidade em Coimbra por obra de D. João III da extinção de Faculdade de Cânones em 1834 con-
(1537), a sua Faculdade de Cânones prosperou e flo- tinuou ainda, até 1910, a ensinar-se algum direito ca-
resceu. Houve intercâmbio fecundo, sobretudo com nónico na Faculdade de Direito, docência eivada de
a Universidade de Salamanca: vários espanhóis esti- regalismo, como vinha sendo tónica dominante des-
veram em Coimbra como professores, entre outros o de os tempos do marquês de Pombal, que pretendeu
Doutor Navarro, Martin de Azpilcueta, e Juan de formar um «direito canónico próprio e especial da
Mongrovejo, e houve também canonistas portugue- nação portuguesa». Exemplo de tal ensino são os

78
DIVÓRCIO

ção das penas, no campo da chamada ajuda do braço


secular, condicionando a efectivação dela à revisão
das sentenças e estabelecendo em certos casos o re-
curso à Coroa das decisões daqueles tribunais; até
1834 existiu em Portugal um tribunal eclesiástico de
última instância, o Tribunal da Legacia. Os decretos
do Concílio de Trento foram recebidos em 7 de Se-
tembro de 1564 em cerimónia solene na Sé de Lis-
boa e tiveram acolhimento no livro n das Ordena-
ções Filipinas. Em virtude do direito de padroado os
reis escolhiam os bispos para instituição canónica
pela Santa Sé*, bem como outros titulares de ofícios
eclesiásticos, como cónegos e párocos, direito de
apresentação que subsistiu enquanto durou o regime
monárquico. Com a Lei de Separação, de 20 de Abril
de 1911, foi negada à Igreja até a personalidade jurí-
dica e profundamente afectada a vida dos católicos,
situação a que se pôs termo com a Concordata* de 1
de Maio de 1940.
SAMUEL RODRIGUES

BIBLIOGRAFIA: C O S T A , António D o m i n g u e s de Sousa - Um mestre portu-


guês em Bolonha no século xm: João de Deus. Braga, 1 9 5 7 . I D E M
Mestre Silvestre e mestre Vicente. Braga, 1 9 6 3 . I D E M Estudos sobre
Álvaro Pais. Lisboa, 1 9 6 6 . I D E M - Mestre André Dias de Escobar. Ro-
ma; Porto, 1 9 6 7 . G A R C Í A Y G A R C Í A , Antonio Estúdios sobre la cano-
nistica portuguesa medieval. Madrid, 1 9 7 6 . I D E M Synodicon Hispani-
cum: II: Portugal. Madrid: B A C , 1982. OLIVEIRA, A m é r i c o do C o u t o
Agostinho Barbosa, canonista português. Miinstcr; Westfalen. 1961.
PEREIRA, Isaías da Rosa - Manuscritos de direito canónico existentes c m
Portugal. Arquivo Histórico da Madeira. 1 1 ( 1 9 5 9 ) 1 9 6 - 2 4 2 ; 1 3 ( 1 9 6 2 -
- 1 9 6 3 ) 2 8 - 4 1 . I D E M - Livros de direito na Idade Média. Lusitania Sa-
cra. 7 ( 1 9 6 5 ) 7 - 6 0 ; 8 ( 1 9 6 7 - 1 9 6 8 ) 8 1 - 9 6 . V A N H O V E Protegomena ad
Codicem Iuris Canonici. Malines; Roma, 1945.

DIVÓRCIO. A Igreja Católica sempre defendeu a


indissolubilidade do matrimónio. Em conformidade
com esta doutrina, o divórcio vincular, isto é, a dis-
solução do matrimónio rato e consumado no passa-
do, nunca foi permitido nas nações ocidentais de
tradição católica. Pelo contrário, nas regiões protes-
Frontispício das Acta et Decreta do Concílio Plenário tantes, a partir do século xvi, o divórcio vincular foi
Português, 1926. em geral admitido em grau mais ou menos extenso.
Em França, a seguir à revolução de 1789, foi decreta-
Elementos de direito eclesiástico português, de Ber- do o divórcio (ainda que em termos bastante limita-
nardino Joaquim da Silva Carneiro, incluídos no ín- dos), por lei de 20 de Setembro de 1792. Mas depois
dice de livros proibidos* em 1866 e várias vezes da queda de Napoleão, por pressão da consciência
reeditados por Paiva Pita. Da mesma época é o Ma- católica, veio a ser suprimido por lei de 8 de Maio
nual de direito administrativo paroquial de António de 1816. E só viria a ser restabelecido, agora defini-
Xavier de Sousa Monteiro. Posteriormente à publi- tivamente, a 19 de Julho de 1884. Apesar do grande
cação do Código de Direito Canónico de 1917 é de influxo que as leis e as instituições francesas exer-
referir José António Martins Gigante, autor de umas ciam em Portugal até ao fim da Monarquia, pode di-
Instituições de direito canónico, em três volumes. zer-se que entre nós nunca existiu verdadeiro movi-
3.3. Aplicação: Desde que existe Portugal, o direito mento generalizado em favor do divórcio. Até então
canónico aplicava-se normalmente ao clero e aos havia apenas a separação judicial de pessoas (a que
fiéis, bem como aos assuntos da Igreja. Ao menos por vezes se dava também o nome de divórcio), da
desde o direito das Decretais cada bispo tinha o seu competência dos tribunais eclesiásticos, mas que, a
tribunal, onde os conflitos eram resolvidos segundo partir da reforma judicial de 1832 e sobretudo do
os cânones. Ao tempo de D. Dinis há um período de Código Civil de 1866, passou a ser decretada pelos
grande conflitualidade entre a Coroa e a Igreja, de que tribunais civis. Mas por estas sentenças não se dis-
são testemunho as concórdias desse reinado. Os mo- solvia o vínculo conjugal, nem consequentemente
narcas e seus funcionários arrogaram-se progressiva- era permitido novo casamento, mesmo que só civil,
mente o direito de censurar os documentos da Igreja, às pessoas assim separadas. Por alturas da publica-
com o beneplácito régio*; foram coarctando a liber- ção do Código Civil de 1866, durante a grande polé-
dade na aquisição de bens imóveis, legislando sobre mica que se travou acerca do casamento civil, aflo-
amortização; pretenderam interferir em matérias da rou, mesmo para os católicos, mas muito ao de leve,
competência dos tribunais eclesiásticos e na aplica- a ideia do divórcio. Posteriormente, sobretudo de-

79
DIVÓRCIO

pois da admissão do divórcio em França, um ou ou- uma das leis basilares e intocáveis do novo regime
tro autor defendeu a admissão do divórcio, ao menos republicano, julgava a abolição do divórcio inopor-
como um mal necessário. Mas a propaganda em fa- tuna, ao menos antes de se proceder a um trabalho
vor do divórcio pode dizer-se que principiou apenas preparatório de educação moral. Por tal motivo, o
com um projecto de lei apresentado às Cortes na ses- projecto não teve seguimento. Igual sorte teve um
são legislativa de 1900 pelo deputado Duarte Gusta- novo projecto de lei apresentado na legislatura se-
vo Reboredo Sampaio e Melo. Este projecto não guinte, da autoria dos deputados Cunha Gonçalves
chegou sequer a ser discutido na Câmara dos Depu- e Ulisses Cortez, que restringia muito a concessão
tados, mas provocou diversos escritos em favor e do divórcio, que não poderia ser decretado por mú-
contra o divórcio. Entre os seus defensores distin- tuo consentimento, mas só litigiosamente, e por mui-
guiu-se Alberto Bramão, que propugnou o divórcio to menos causas que anteriormente. A Câmara Cor-
em vários artigos, depois reunidos em volume com o porativa emitiu novo parecer de que foi relator o
título Casamento e divórcio (1908). Para ele o divór- Prof. José Gabriel Pinto Coelho. Mostrava-se bas-
cio era não um mal necessário, mas um bem que li- tante favorável ao projecto referido, e sugeria mes-
berta o homem «da tirania do enfeudamento perpé- mo que fossem reconhecidos efeitos civis aos casa-
tuo da liberdade individual» e que contribui «para o mentos católicos, aos quais depois não poderia ser
aumento da população e para a prosperidade dos es- concedido o divórcio, por se tratar de casamentos ce-
tados». A introdução do divórcio passou a ser defen- lebrados indissoluvelmente. Mas este projecto de lei
dida também pela Associação do Registo Civil e do também não chegou a ser discutido na Assembleia
Livre Pensamento, em que pontificava Heliodoro Nacional. Muito provavelmente porque já então es-
Salgado, e por outros anticlericais e mesmo anticató- tavam em curso as negociações para a concordata de
licos, membros da Maçonaria* e do Partido Republi- 1940, em que se havia de adoptar o sistema preconi-
cano. No ano de 1910, pouco antes da proclamação zado nesta sugestão da Câmara Corporativa. De fac-
da República, Luís dc Mesquita apresentou um novo to, o artigo xxii da Concordata* reconhecia efeitos
projecto de lei de divórcio que não teve seguimento. civis aos casamentos católicos, e no artigo xxiv
Menos de um mês depois de proclamada a Repúbli- prescrevia-se: «Em harmonia com as propriedades
ca, a 3 de Novembro de 1910, foi publicado o decre- essenciais do casamento católico, os cônjuges re-
to do governo provisório, decalcado do projecto de nunciarão à faculdade civil de requerer o divórcio,
Luís de Mesquita. Nele pode ler-se: «O casamento que por isso não poderá ser aplicado pelos tribunais
dissolve-se 1) pela morte de um dos cônjuges; 2) por civis aos casamentos católicos.» Como explicou o
divórcio» (artigo 1.°). «O divórcio, autorizado por sen- Prof. Mário de Figueiredo, um dos negociadores da
tença passada em julgado, tem juridicamente os mes- Concordata, no debate na Assembleia Nacional,
mos efeitos da dissolução por morte, quer pelo que adoptou-se esta formulação de renúncia ao divórcio
respeita às pessoas e aos bens dos cônjuges, quer pe- por motivos dc estratégia política, para não promo-
lo que respeita a faculdade de contraírem novo e le- ver fortes reacções se se alterasse a lei do divórcio.
gítimo casamento» (artigo 2.°). O divórcio podia ser Mas o sentido verdadeiro era de que o divórcio não
decretado por livre consentimento dos esposos, ou podia ser decretado pelos tribunais civis àquelas pes-
de forma litigiosa. Enumeram-se as causas para o di- soas que tivessem casado catolicamente após o dia 1
vórcio litigioso, que eram muito mais extensas que de Agosto de 1940, data da entrada em vigor desta
na França, em cuja lei a nossa se inspirara. O divór- parte da Concordata. O Código Civil de 1967 mante-
cio podia aplicar-se mesmo aos casamentos católi- ve a proibição do divórcio para os casados catolica-
cos, que eram a quase totalidade dos existentes em mente (artigo 1790.°), suprimiu o divórcio por mútuo
Portugal, já que o número de casamentos meramente consentimento e reduziu bastante as causas para se
civis era muitíssimo diminuto. Como era de esperar, obter o divórcio (artigos 1792.°, 1778.°). Este arti-
os bispos portugueses, na pastoral colectiva de 24 de go xxiv da Concordata foi, logo de início, bastante
Dezembro de 1910 sobre as medidas laicizantes e impugnado. As contestações e reclamações subiram
anticatólicas do governo provisório da República, de tom após a revolução de 25 de Abril de 1974, e
não deixaram de protestar contra a instituição do di- levaram o governo português, em fins de 1974, a de-
vórcio no nosso país, contrária à doutrina da Igreja clarar à Santa Sé* que não podia por mais tempo
sobre a indissolubilidade do matrimónio. Contudo, manter o artigo xxiv da Concordata, pelo que pedia a
dadas as tradições católicas da grande maioria da po- sua revogação. A Santa Sé, muito a contragosto, teve
pulação, o número de divórcios nos anos seguintes de aceder a este pedido, ou melhor, exigência, e após
foi sempre bastante diminuto, mas foi aumentando várias negociações foi assinado em Roma a 15 de
constantemente. A 6 de Fevereiro de 1935 o deputa- Fevereiro de 1975 um protocolo em que se suprimia
do José Maria Braga da Cruz apresentou à Assem- de facto a proibição de os casados catolicamente re-
bleia Nacional um projecto de lei que, no espírito quererem o divórcio, que passou a lhes poder ser
do artigo 11.° da Constituição Política de 1933, em concedido no foro civil. Pelo Decreto-Lei 261/75 de
que se preconizava a defesa e promoção da institui- 27 de Maio foi reformulada toda esta parte do Código
ção familiar, declarava o casamento indissolúvel e, Civil de 1966, passando a ser permitido o divórcio
portanto, abolia o divórcio. A Câmara Corporativa, mesmo aos casados catolicamente. Restabeleceu-se
em parecer datado de 22 de Março de 1935, decla- o divórcio por mútuo consentimento e substituíram-
rou-se em princípio favorável à indissolubilidade do -se as causas taxativas para se pedir e obter o divór-
casamento, mas dadas as reacções que tal medida cio litigioso por uma formulação muito genérica que
iria provocar, tanto mais que a lei era considerada facilita a sua concessão. Consequentemente, o nú-

8o
DOMINICANAS

mero de divórcios litigiosos ou não, mesmo de pes- iniciada na Alemanha, alcançou Portugal através de
soas casadas catolicamente, tem aumentado muito Frei Vicente de Lisboa, confessor de D. João I. Em
todos os anos, revelando-se deste modo a instabili- 1390 conseguiu que as freiras do Convento do Sal-
dade da família portuguesa. vador, recém-fundado em Lisboa, aceitassem e exe-
A. LEITE cutassem sem nenhuma dispensa a Regra de São Do-
mingos. Nos mesmos moldes foi fundado em 1399 o
BIBLIOGRAFIA: B R A M Ã O , Alberto - Casamento e divórcio. Lisboa, 1 9 0 8 . F I - convento masculino de São Domingos de Benfica,
GUEIREDO, Mário de - A Concordata e o casamento. Lisboa, 1 9 4 0 . L E I T E ,
António - Concordata, sim ou não? Coimbra, 1971. IDEM - A Concorda-
crescendo posteriormente o número dos conventos
ta e o casamento. In A CONCORDATA de 1940. Portugal-Santa Sé. Lisboa, reformados. Entre o século xv e o século xvn funda-
1 9 9 3 . L O P E S , Virgílio - O divórcio em Portugal. Lisboa, 1 9 7 8 . M E L O , ram-se 14 novos conventos dominicanos femininos:
Duarte S. Roboredo S a m p a i o e - Família e divórcio. Lisboa, 1906. SIL-
VA, M. D. G o m e s da - Divórcio. In VERBO: Enciclopédia luso-brasileira Mosteiro de Santa Catarina de Sena - Évora (1490);
de cultura. Vol. 6 , col. 1 5 8 1 - 1 5 9 5 . Mosteiro de Sant'Ana - Leiria (1498); Nossa Senho-
ra da Saudação - Montemor-o-Novo (1506); Nossa
DOMINICANAS, Monjas. A Ordem dos Frades Pre- Senhora do Paraíso - Évora (1516); Convento da
gadores, fundada por São Domingos, foi estabeleci- Anunciação de Nossa Senhora - Aveiro (1519);
da em Portugal pelo ano de 1220; o seu primeiro Nossa Senhora da Rosa - Lisboa (1521); Convento
mosteiro foi em Alenquer. Pela mesma ocasião (en- de São João Baptista - Setúbal (1529); Nossa Se-
tre 1219 e 1229) fundou-se em Cheias, junto a Lis- nhora da Consolação - Elvas (1540); Nossa Senhora
boa, o primeiro convento dominicano feminino em da Graça - Abrantes (1541); Nossa Senhora da As-
Portugal, que se instalou numa casa anteriormente sunção - Moura (1566); São Sebastião - Setúbal
pertencente aos Hospitalários*. A ordem expandiu- (1566); Santíssimo Sacramento - Braga (1607);
-se rapidamente no reino, tendo sido uma das ordens Nossa Senhora da Oliva - Viseu (1640); Convento
mais populares e de maior prestígio entre os reis. Em de Santa Rosa - Guimarães (1680) (da 3.a ordem).
1416 tornou-se província dominicana independente Além destes, deve mencionar-se o convento das Do-
da de Castela, embora alguns anos antes já tivessem minicanas Irlandesas do Bom Sucesso que, em 1639,
tido governos separados devido à situação dc guerra se refugiaram em Portugal, por ocasião das persegui-
entre os dois países. No século xiv a dispensa dos ri- ções aos católicos irlandeses. Aquando da vitória li-
gores primitivos da regra atingira os frades pregado- beral, este convento, por ser estrangeiro, não foi
res, assim como outras ordens. Esta situação dc la- atingido pela legislação anticongreganista; em 1955
xismo provocou uma reacção no final do século xiv; as religiosas integraram-se na Congregação das Ir-
mãs Dominicanas de Nossa Senhora do Rosário e de
Santa Catarina de Sena de Dublin. Em 1763 os con-
ventos dominicanos femininos eram 18. Como já foi
dito, no início do século xix as ideias liberais vão in-
vestir contra as ordens e congregações religiosas: o
decreto de 18 de Outubro de 1822 reduziu a 10 os
conventos dominicanos e a lei de 1834 condenou ao
desaparecimento lento todos os conventos femininos
ao proibir os noviciados. Em 1868, ao fundar em
Lisboa a Congregação das Irmãs Dominicanas de
Santa Catarina de Sena*, instituto da Ordem Tercei-
ra, Teresa de Saldanha tentou sempre que possível
ocupar com as suas obras antigos conventos femini-
nos devolutos, de preferência dominicanos, como foi
o caso do Convento de Jesus em Aveiro, o Mosteiro
de Santa Joana, o Convento do Salvador e o Con-
vento do Sacramento em Lisboa, assim como o de
Santarém. Foi a partir desta congregação que se deu
a restauração das monjas dominicanas* de clausura
em Portugal. Quatro religiosas deste instituto, sen-
tindo o apelo a uma vida de clausura, obtiveram li-
cença e partiram para a França, mosteiro de Prouille
(fundado por São Domingos). Aí iniciaram o novi-
ciado a 20 de Janeiro de 1930, tendo regressado a
Portugal em 30 de Abril de 1932 para iniciarem vida
religiosa contemplativa. Abriram o Mosteiro da Di-
vina Eucaristia na Casa de Sant'Ana em Azurara -
Vila do Conde. Este mosteiro foi transferido em 24
de Dezembro de 1952 para a Quinta dos Cisnes em
Azevedo - Campanhã, Porto e em 1995 para Lame-
go. A Madre Maria Inês (no século Ana Félix Perei-
ra Botelho) foi a principal responsável pela restaura-
ção da ordem em Portugal; fundadora, prioresa e
mestra de noviças do mosteiro de Azurara, faleceu
Monjas dominicanas: Mosteiro de Santa Maria. Lisboa.
DOMINICANOS

em 3 de Abril de 1967. Em 1995 havia três mostei- nerante (cf. C O E L H O - O convento, p. 4 5 ; T U T H I L L -


ros de monjas contemplativas dominicanas: o de La- Fr. Paio, p. 347), e no ensino da teologia confiado
mego, um no Lumiar em Lisboa e outro em Fátima por D. Dinis aos Mendicantes ut sit fides catholica
das Monjas Dominicanas do Rosário Perpétuo. Insti- circumdata muro inexpugnabili bellatorum (cf
tutos de vida activa ligados à família dominicana, B R A N D Ã O - A Universidade, p. 3 2 ) . O sucesso dos
presentes em Portugal: Anunciatas (Dominicanas de Mendicantes suscitou emolação. Os conventinhos
la Anunciata); Dominicanas Irlandesas do Bom Su- térreos de quatro metros de altura, sem espaço para
cesso; Dominicanas Portuguesas ( V . IRMÃS DOMINICA- pregação obrigavam-nos a demandar caminhos, pra-
NAS DE SANTA CATARINA DE SF.NA); Missionárias Domi- ças e colegiadas. Quando estas se lhes fecharam,
nicanas do Rosário; Religiosas Missionárias de São protegeram os ouvintes com as alpendoradas ou
Domingos. construíram igrejas espaçosas ad capiendos homines
M A R I A DO PILAR S. A. VIKIRA in praedicationibus (cf. M E E R S S E M A N - L 'architectu-
re, p. 159), em gótico mendicante, como Santarém,
Fortunato de História da Igreja em Portugal.
BIBLIOGRAFIA: A L M E I D A ,
Porto: Portucalense, 1967. DIZIONARIO degti Islituti di Perfezione. Roma:
Lisboa, Elvas. 2. Declínio e ressurgimento: A crise
Edizionc Paoline, 1974. NICOLAU, Maria do Nascimento Lourenço - do século xiv, a Peste Negra ( 1 3 4 6 ) o Cisma do Oci-
Uma vivência cristã no feminino. Lisboa: UCP, 1996. Colecção Nova dente* ( 1 3 7 8 ) e a luta pela independência ( 1 3 8 3 )
Spcs. RIBEIRO, José Joaquim Nas pisadas de Maria ao serviço dos po-
bres. Évora: Irmãs Conccpcionistas, 1981. VINDE e vede. Lisboa: Pauli-
romperam a unidade dominicana peninsular em tor-
nas, 1995. no de dois pontífices e duas coroas. Mais de um sé-
culo se escoou entre a fundação do convento de Évo-
DOMINICANOS. Ordem dos Frades Pregadores, fun- ra ( 1 2 8 6 ) e a posse do Mosteiro da Batalha ( 1 3 8 8 ) .
dada por São Domingos de Gusmão ( 1 1 7 0 - 1 2 2 1 ) , A família de Avis, partidária de Urbano VI ( 1 3 7 8 -
- 1 3 8 9 ) , favoreceu os dominicanos seguidores do
aprovada por Inocêncio III ( 1 2 1 5 ) e confirmada por
Honório III ( 2 2 de Dezembro de 1 2 1 6 ) . / . Originali- mestre-geral romano, Frei Raimundo de Cápua
( 1 3 8 0 - 1 4 0 0 ) , que promoveu a reforma da ordem
dade: É constituída por comunidades de sacerdotes
( C A P U A N I - Opuscula, p. 5 7 - 7 6 ) . Em 1 3 9 9 , Frei Vi-
com disciplina monástica, pobreza mendicante, da-
dos ao estudo e ao ensino, pregação itinerante e ao cente de Lisboa obteve do rei os paços de Benfica
Ministério sacramental com jurisdição imediata do para sede da observância portuguesa ( S O U S A - Histó-
Papa parecia implicar uma subversão da praxe ecle- ria, vol. 2, liv. 2). Os oito conventos do vicariato
siástica. Domingos preveniu as confusões e contesta- prosseguiram no anterior ritmo disciplinar. Os infan-
ções: em menos de quatro anos impetrou 38 bulas de tes de Avis incentivaram principalmente a reforma:
recomendação da ordem (cf K O U D E L K A - Monumen- D. Pedro fundou o convento de Aveiro ( 1 4 2 3 ) ;
ta, p. 42). Os Dominicanos ajudaram, desde o início, D. Duarte e D. Leonor promoveram a observância de
a construir a história religiosa de Portugal. Frei Soei- Azeitão ( 1 4 3 5 ) . Os Dominicanos passaram a viver a
ro Gomes ( 7 - 1 2 3 3 ) , colega de São Domingos, che- dois ritmos disciplinares, fonte de tensões. Em 1466,
gou a Alenquer, em 1217, e instalou-se em Monte- o superior-geral da ordem, Frei Marcial Auribelli,
junto. Em 1221, designado provincial de Espanha aceitou São Domingos de Évora na observância e
(toda a Península), interveio nos dissídios de deu aos reformados autonomia dos superiores claus-
D. Afonso II com o arcebispo de Braga e com as in- trais e a faculdade de elegerem um vigário-geral pró-
fantas. Estas tornaram-se protectoras da ordem. Parti- prio, sob a jurisdição imediata dos superiores-gerais
( M O R T I E R - Histoire, vol. 4 , p. 3 6 8 ss.). A reforma
cipou na codificação da primeira parte das constitui-
ções da ordem ( 1 2 2 8 ) . Faleceu em 1 2 3 3 ( R O S Á R I O - observante deu um forte contributo à história religiosa
Primórdios, p. 26). Sucedeu-lhe no provincialato São portuguesa nos séculos xiv-xvi; aos conventos do vi-
Frei Gil de Santarém, doutor parisiense, conhecedor cariato acrescentou o ramo feminino, com mosteiros
do árabe, presente à codificação da segunda parte de contemplativas: Rei Salvador de Lisboa ( 1 3 9 2 ) ,
das constituições da ordem ( 1 2 3 6 ) . Provincial segun- Jesus de Aveiro ( 1 4 6 5 ) , que adoptou a regra primiti-
da vez ( 1 2 4 4 ) , favoreceu a missionação dos mouros va do Beato Humberto ( 1 2 5 4 - 1 2 6 3 ) ( M A D A H I L -
e a fundação das escolas de línguas. Amigo de San- Constituições, p. 8). O prestígio da Santa Princesa
cho II, interveio no processo da sua deposição. A or- promoveu a irradiação para outros mosteiros: Santa
dem alcançou grande expansão nestes anos. A pro- Catarina de Sena, Évora ( 1 4 9 0 ) , SanfAna de Leiria
( 1 4 9 8 ) , clausura da Anunciada, de Lisboa ( 1 4 9 9 ) ,
víncia de Espanha, no capítulo provincial de 1275,
subdividiu-se em sete vicariatos (ACTA). O de Portu- Saudação de Montemor-o-Novo ( 1 5 1 3 ) , clausura de
gal já tinha os conventos de Santarém ( 1 2 2 2 ) , Coim- São João de Setúbal ( 1 5 2 9 ) ( S O U S A , II-III). Os Domi-
bra ( 1 2 2 7 ) , Porto ( 1 2 3 8 ) , Lisboa ( 1 2 4 1 ) , Elvas nicanos não foram indiferentes à protecção dos in-
(1267) e Guimarães ( 1 2 7 0 ) ( S O U S A - História, fantes: Frei João Verba, confessor e companheiro de
vol. I). As constituições de 1236 exigiam para a fun- D. Pedro, co-autor da Vertuosa benfeytoria e tradutor
dação de convento 12 frades integrando um prior e do De amicitia de Cícero que pôde servir ao Leal
um doutor; uma unidade de estudo e de pregação, conselheiro de D. Duarte; Frei Antão de Santa Maria
como as sugeridas pelo IV Concílio de Latrão de Neiva, confessor de D. Duarte e de D. Leonor, à
( 1 2 1 5 ) ( M A N D O N N E T - Frères). Seriam uns oitenta
morte do rei, tornou-se o amparo da rainha na soleda-
dominicanos portugueses. Em 1303 a estatística ge- de da viuvez e principalmente no exílio, privada dos
ral revelou 18 províncias, 509 conventos, cerca de filhos e na humilhante condição de pobreza ( S C A R L A T -
12 600 religiosos e 157 mosteiros de monjas domini- TI - Os homens, p. 126). O Infante Santo, antes de em-
canas (cf. H I N N E B U S C H - Breve, p. 3 3 ) . No século xin barcar para Tânger, comungou em Santa Maria da Es-
o convento de Coimbra era modelar na pregação iti- cada e teve por sócio de cativeiro o confessor Frei Gil

82
DOMINICANOS

Exterior da Igreja de São Domingos de Benfica.

Mendes que, pela doença e maus tratos, o precedeu na ( 1 4 3 8 - 1 4 8 1 ) ergueu o novo claustro da Batalha e
morte. D. João II tinha camarim na Igreja de Benfica, dotou o complexo de amplas oficinas; chamou da
donde assistia a matinas e observava as vigílias dos Itália o humanista dominicano D. Frei Justo Baldi-
frades. O sentimento religioso e a austeridade da disci- no, para escrever em latim a história do reino, mas,
plina evocam analogias espirituais com a devotio mo- vitimado pela peste ( 1 4 9 3 ) , foi sepultado na Batalha.
derna ( R O L O - Ressurgimento, p. 165). 3. Província de D. João II, atraído pelo halo humanista, incitou os
Portugal. 3.1. Contexto: A extinção do cisma (1415) frades às letras e desenvolveu eficazmente a escola
restituiu a unidade à família dominicana peninsular e do mosteiro ( G O M E S - Santa Maria, p. 3 3 0 ) . O Ven-
favoreceu a criação da província de Portugal (1418), turoso, convicto do seu carisma messiânico de novo
formada pelos nove conventos do território portu- Emmanuel de ir à frente para dar a conhecer a salva-
guês entre os quais emergiu o de Benfica (1399), es- ção, interveio directamente no mosteiro para estimu-
tabelecendo a diferença de claustrais e observantes. lar os Dominicanos à disciplina religiosa e ao estu-
Com o tempo, porém, foram-se atenuando as arestas do, para maior qualificação das missões no Oriente.
de modo «que a diferença não era mais do que nome» Os investigadores do cartório do mosteiro notam a
(cf. S O U S A - História, P. in, liv. 1). Os novos tempos acentuada frequência dos titulares académicos (GO-
exigiam mais renovação e coesão. D. Afonso V MES - O mosteiro, p. 337). Em São Domingos de

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DOMINICANOS

Lisboa encostou ao Studium generale, em 1517, o -pastor da reforma católica, retratado no Stimulus
Colégio de São Tomás. Em toda a ordem, nos princí- Pastorum, paradigma confesso de São Carlos Borro-
pios de Quinhentos, era grande o entusiasmo pelo meu, renovador e disciplinador do clero instruído
estudo, ressonância da disciplina e trabalho das con- nas múltiplas escolas de «casos» que fundou pela
gregações reformadas dos séculos xiv-xv. O geral diocese ( R O L O - Bartolomeu, p. 113). Infatigável vi-
Vicente Bandelli (1501-1506) organizou a Glosa das sitador das igrejas em toda a roda do ano, de largo
constituições primitivas à luz das actas dos capítulos impacte sociocaritativo pela atribuição de bolsas de
gerais, a radiografia mais autêntica do carisma da or- estudo, dotes de casamento e de profissão religiosa,
dem. Frei Tomás de Vio Caetano deu-a à estampa importação de panos baratos da Inglaterra para vestir
em 1507. Os anos da formação das novas gerações pobres, frisas da Irlanda contra as invernias e trigo
destinam-se ad contemplandum et ad studendum: de Castela para socorro de famintos. O exemplo
formação integral do dominicano ( R O L O - Forma- heróico nessas calamidades, na peste e na guerra
ção, p. 130, nt. 2). Os estudos da ordem em Bolo- que assolaram Braga no seu pontificado, mereceu-
nha, Colónia, Lovaina, Paris e Salamanca criaram -lhe o apelido de «Arcebispo Santo» ( S O U S A - Vida,
um património cultural herdado principalmente nas p. 684). A piedade patriótica, quando enviuvou Fili-
escolas de Lisboa, Batalha e Coimbra ( R O L O - A Uni- pe II, levou-a a escrever a Gregório XIII que, se o rei
versidade, p. 184). D. João III, ao transferir a univer- pretendesse contrair novas núpcias, o aconselhasse a
sidade para Coimbra (1537), pôde contar com os fazê-lo com alguma das filhas da duquesa Catarina
Dominicanos: D. Frei Bernardo da Cruz, Frei Mar- de Bragança, esperando um português para a Coroa
tinho de Ledesma, Frei João Pinheiro, Frei António ( R O L O - O patriotismo, p. 26). Os Dominicanos nos
de São Domingos e, na Escritura, Frei António da seus estudos de Lisboa, Batalha, Porto, Coimbra e
Fonseca, logo superado por Frei Luís de Sotomaior Évora já concediam graus académicos aos confrades;
( R O D R I G U E S - A cátedra, cf. índice geral). O Mostei- a partir de 1573, por breve de São Pio V, também os
ro da Batalha não teria Studium generale, em 1551, conferiam aos seculares. D. Catarina confiou-lhes
sem o biblista lovaniense Jerónimo de Azambuja e o em 1572 o instituto de pastoral que fundara em Nossa
teólogo tomista Frei Bartolomeu dos Mártires, que, Senhora da Escada, acrescentando à cátedra de Moral
aprofundando as postilas de Vitória, desenvolveu outra de Dogma, em vista à preparação de pregado-
com singular acuidade e firmeza a liberdade da pre- res ( B R Á S I O - Instituto, p. 154 ss.). Em 1550, referin-
gação como adesão à fé, e as questões de ética ultra- do a Júlio III a actividade parenética dos Dominica-
marina ( R O L O - Bartolomeu, p. 15). 3.2. Concílio: nos, D. Catarina atesta que saíam mais de 20 frades
D.João III, pouco esperançado no resultado do a pregar pela cidade e pelo reino. O núcleo de espiri-
Concílio* de Trento, enviou contudo três teólogos tuais que se acolhiam nos claustros de São Domin-
dominicanos de elevada craveira doutrinal e huma- gos, sob a direcção de Frei Bartolomeu dos Mártires
na: Jerónimo de Azambuja, Jorge de Santiago e e de Luís de Granada, foi considerado o mais equili-
Gaspar dos Reis. Ao terceiro período tridentino, brado e fervoroso de Portugal ( D I A S - Correntes,
D. Catarina pôde enviar Frei João Pinheiro, Fran- p. 298). O cardeal-legado, D. Henrique, ao empreen-
cisco Foreiro e Luís de Sotomaior, aos quais se der a reforma beneditina, mediante a Congregação
juntou Frei Henrique de Távora e Brito, teólogo e de São Bento (Tibães), comprovou que para muitos
orador da «figura admirável do venerável Frei Bar- mosteiros não havia condições para a reforma, em-
tolomeu dos Mártires, o grande arcebispo de Braga, bora tivessem muitas igrejas anexas com grossas
protagonista no Concílio de Trento, rico de virtudes rendas mas quase abandonadas. Tomou por assesso-
e de zelo apostólico» ( c f . J O Ã O P A U L O II - Discursos, res o arcebispo de Braga e o bispo de Leiria (dois
Fátima, 13 de Maio de 1983, p. 63) ( C A S T R O - Por- conciliares): extinguiu tais mosteiros e distribuiu as
tugal, vol. 2, 5). Henrique de Távora faleceu arcebis- rendas dessas igrejas pela Ordem de São Domingos
po de Goa* em 1581. Mas entre os teólogos desta- e Companhia de Jesus, (v. JESUÍTAS), como mais re-
cou-se Frei Francisco Foreiro, secretário e spiritus formadas e dedicadas à pregação, à formação cristã e
rector da comissão conciliar para a confecção do In- ao ministério dos sacramentos. À Ordem de São Do-
dex e redacção do Catecismo, só concluído em Ro- mingos atribuiu as igrejas de oito mosteiros, e encar-
ma, redigido quase exclusivamente por ele ( R O L O - regou aos frades de nove conventos a assistência
Antologia, p. 1057). Na época dos Descobrimentos o pastoral àqueles povos: gravíssimo projecto pastoral
serviço mais relevante dos dominicanos portugueses (ADB/UM. Col. cron., Cx. 46, doe. 11, 20.3.1570).
foi o seu carisma apostólico nas 26 sedes episcopais 3.4. Projecto truncado: Alcácer Quibir não fez cati-
em que serviram, no reino ou na área missionária vos só em África. A crise política fez muitos outros
( R O S Á R I O - Dominicanos, p. 353). 3.3. Pós-concílio: reféns, alguns entre os melhores espíritos do reino:
Constituíram prioridades apostólicas para os Domi- Frei Luís de Sotomaior, Heitor Pinto, Nicolau Dias,
nicanos a renovação exegética e teológica, a forma- Estevão Leitão, António de Sena, João da Cruz,
ção pastoral e espiritual do clero, a pregação apolo- Francisco Foreiro e outros. Os Dominicanos fica-
gética da fé católica de ressonância conciliar, acção ram à cabeça dos proscritos do Gran Perdón\ mas
catequética do povo e edificação pela escrita e pane- Filipe II veio para reinar. Frei Luís de Sotomaior
gíricos dos santos ( C A S T R O - Retórica, p. 229). Entre regressou à cátedra e faleceu jubilado em 1610 (RO-
os dominicanos da época tridentina surgiu Frei Bar- DRIGUES - A cátedra, p. 189). Frei António de São
tolomeu dos Mártires, o primeiro da história religio- Domingos, catedrático de Prima de Teologia, pre-
sa pela heroicidade das virtudes, teologia espiritual gador em Santa Cruz, na aclamação pela universi-
de vanguarda expressa no Compendium, bispo- dade do prior do Crato, não o perturbaram, jubilou

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DOMINICANOS

e faleceu em 1596. Na altura da sucessão da cátedra, apresentou-se marcado com os estigmas de Cristo;
veio à tona o ressentimento de Filipe, e impôs à uni- São Domingos impetrava em altos brados a clemên-
versidade um espanhol, contra o parecer do reitor e cia de Cristo para com os pecadores e na pregação
da consulta da Mesa da Consciência ( M O N T E I R O - aos cátaros, que não acreditavam na Mãe de Deus,
Frei António, p. 113). Os Dominicanos perderam, fazia a apologia do já conhecido Saltério de Maria
por muito tempo, a universidade. 3.5. Novos tempos: de 150 ave-marias correspondentes aos 150 salmos
O ímpeto renovador tridentino estava por cumprir. do ofício divino. A evocação de Maria deu singular
Os Dominicanos, contudo, aceitaram os desafios de- eficácia de conversão. Antes de enviar os primeiros
correntes do seu carisma. 3.5.1. Teologias: Os cinco dominicanos (1217), pregoeiros do Nome de Jesus
estudos da província prosseguiram abertos. No con- Cristo, congregou-os no Santuário de Santa Maria de
texto da controvérsia De auxilis, D. Frei João de Prouille. O primeiro grupo para a Espanha foi con-
Portugal (1554-1627) ocupou lugar honroso pelos duzido pelo português Frei Soeiro Gomes. Este diri-
volumes De gratia increata (1627) et creata. O de- giu-se a Alenquer e, em 1217-1218, acolheu-se na
creto de 1611 (Denz, 1090), silenciando o debate na Ermida de Nossa Senhora das Neves em Montejun-
matéria, obstou à publicação do segundo tomo. Os to; foi o início da intervenção dos Dominicanos na
escritos teológicos de Pedro Mártir, Simão da Luz, história de Portugal. Quando fundaram o quarto con-
Pedro Magalhães, etc., não tiveram melhor sorte. vento em Lisboa (1241), arrimaram a igreja à Ermi-
Noutro clima, Frei Domingos de São Tomás da de Santa Maria da Purificação (depois da Esca-
(1606-1675), com três tomos do Tyrocinium theolo- da), no sopé da encosta do castelo. Na história
giae (1668-1670) e principalmente o Manuale Tho- dominicana, Maria acompanhou a acção apostólica
misticum, em cinco in-fólios manuscritos, granjea- dos pregadores, orago dos seus conventos: das Ne-
ram-lhe merecida fama de melhor teólogo do tempo. ves, Graça, Piedade, Mártires, Misericórdia, Vitória,
O geral da ordem, Th. Rocaberti, integrou a contro- Assunção, Paraíso, Rosário. Em São Domingos de
vérsia 273 De ecclesia, na Bibliotheca maxima pon- Lisboa, com a anexa dos Homens Negros (1460), li-
tifícia. 3.5.2. Erudição: Estão no limiar desta época gada aos Descobrimentos. No século xvin, cerca de
os historiadores da Igreja e da ordem: Luís de Cacé- dois terços das paróquias de Portugal tinham a Con-
gas (1540-1616), Luís de Sousa (1555-1632) e os fraria do Rosário. A erecção das confrarias do Rosá-
académicos de número da Academia Real da Histó- rio, do Nome de Jesus (1247) e do Santíssimo Sacra-
ria Portuguesa: Pedro Monteiro (1662), Fernando de mento (anexa à da Basílica da Minerva em Roma)
Abreu (7-1727), José da Purificação (1673-1746) e era reservada ao mestre-geral dos Pregadores ou
Lucas de Santa Catarina (1660-1740) ( c f . M O N T E I R O - seus delegados. Na Igreja de São Domingos de Lis-
Claustro, p. 23). A Ordem dos Pregadores, «specia- boa estavam instituídas mais de seis irmandades.
liter ob Praedicationem et animarum salutem [...] Nas igrejas dominicanas as confrarias não são perga-
noscitur institutus fuisse» (Constitutiones prol.), por minhos de arquivo, mas instituições vivas da religio-
fidelidade ao carisma, deu sempre a primazia à for- sidade do povo. Cada domingo há programa com ce-
mação dos ministros da proclamação da palavra. Os lebração, procissão e sermão adequado ao mistério
113 parágrafos da Glosa às Constituições, até ao sé- ou orago: no 1 o Rosário, no 2.° o Nome de Jesus,
culo xix, comprovam bem essa solicitude da ordem no 3.° o Santíssimo Sacramento e no 4.° São Domin-
( F O N T A N A - Constitutiones, p. 360 ss.). O contexto gos (Processionarium O. P. [1930], 303 ss.).
socioeclesial da Contra-Reforma* ao neoclassissis- 4. Evangelizantes per ordem. 4.1. Carisma: São Do-
mo, entre vacilações na fé e tibieza no povo, exigiu mingos, antes de fundar a ordem, sentiu-se impelido
maior acuidade apologética e mais ardente zelo na a evangelizar os cumanos. Inocêncio III preferiu que
acção apostólica do pregador verbo et vita (cf. CAS- pregasse aos cátaros do Languedoc (1208). Confir-
TRO - Retórica, p. 94; M A R Q U E S - A parenética, mada a ordem (1216), quis de novo partir em 1221.
p. 50). Talvez nas estantes conventuais ainda se en- Só o capítulo-geral de Bolonha lho impediu (cf.
contrassem a Colectânea e a Retórica eclesiástica de D ' A M A T O - L 'Ordine, p. 83). Daí veio Frei Soeiro

Frei Luís de Granada. Contudo, nem todos os con- Gomes provincial da Península e quis orientar a ac-
frades terão adoptado os cânones do mestre, ou até ção apostólica para as fronteiras da Reconquista.
as simples advertências de D. Frei Bartolomeu no O primeiro bispo de Marrocos (1225) foi dominica-
proémio do Catecismo e na prática aos capitulares no. Por morte de Frei Soeiro (1233) sucedeu-lhe no
da província ( S O U S A - Vida, liv. 4, c. 11, p. 488). provincialato, durante dois mandatos, São Frei Gil
Nem os melhores negaram o seu tributo ao império de Santarém. Nasceram as escolas de línguas precur-
da moda. Os seis noviciados e casas de estudo fize- soras da missiologia moderna. Os mestres Raimundo
ram subir perigosamente a estatística dominicana; Marti, para árabes (Pugio fideí) e judeus (Capistrum
eram muitos e consagraram-se ao ministério do púl- iudaeorum), e Tomás de Aquino para os pagãos
pito. Uma estatística sumária da produção parenética (Summa contra gentiles) e cismáticos (De rationibus
impressa dos Dominicanos no século xvin ronda por fidei contra sarracenos, graecos et armenos), ape-
uns mil sermões e práticas (cf. D E R O D R I G U E S , ms.) trecharam culturalmente os confrades (cf. LAVAJO -
3.5.4. Vida devoluta: Os fiéis, isolados ou associa- Cristianismo, p. 430). Até ao Cisma do Ocidente*
dos, encontram nas igrejas e claustros o ambiente (1378), os dominicanos peninsulares formaram uma
mais propício aos actos religiosos de devoção, ora- única circunscrição apostólica. 4.2. Na rota das ca-
ção e adoração. Os Mendicantes, pregando nas pra- ravelas: A obediência do reino a Roma e dos Domi-
ças, atraíram às suas igrejas a afluência do povo. São nicanos ao geral Raimundo de Cápua (1380), a con-
Francisco representou ao vivo o Natal de Jesus, e quista de Ceuta (1415) e a ascensão do Vicariato de

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DOMINICANOS

Portugal a província autónoma ( 1 4 1 8 ) levaram os


Dominicanos a tomarem a rota das caravelas.
A evangelização completava-se em São Domingos
de Lisboa. Antes de 1460 tinha instituída a confraria
do Rosário, dos Homens Negros ( R O S Á R I O - Confra-
rias, p. 366). Os cronistas reivindicam a prioridade
da chegada ao Congo ( S O U S A - História, vol. 1,
p. 1 1 1 1 ; B R Á S I O - Monumenta, vol. 1 , p. 8 3 ; M I S S I O -
N A Ç Ã O , vol. 1 , p. 6 4 8 ) . Em 1 5 1 0 , o sobrinho do rei,
D. Afonso Preto, ouvia lições em São Domingos.
Frei Domingos de Sousa chegou a Cochim em 1503,
na armada de Afonso de Albuquerque, e em 1514
escreveu de Ceilão* a D. Manuel. Outros passaram à
índia* como Frei Rodrigues Quassada, Frei Vicente
Laguna, com epístola a D.João III, em 1530 (DE
M E Y E R - Registram, p. 3 0 8 , 3 1 4 ; B I E R M A N N - Docu-
menta, p. 133). Em 1548 partiram de Lisboa 12 fra-
des para ir fundar em Goa*. Entre eles Frei Francis-
co de Macedo, que logo abriu escola de teologia no
convento dos Franciscanos*, e Frei Gaspar da Cruz,
o autor do Tractado das cousas da China. A missio-
nação nas índias Orientais, pelo nível sociocultural
das populações, não levantou as dificuldades radi-
cais do puro selvagem americano, beneficiando da
teologia vitoriana ensinada em Coimbra e Batalha
( R O L O — A universidade, p. 3 7 9 ) . Contudo, não falta-
ram tribulações vindas do método pastoral e do pró-
prio conteúdo da mensagem. Em 1580, o capítulo-
: geral de Roma deu à congregação dominicana das
índias Orientais um estatuto, o mais antigo e comple-
to documento acerca da organização dos religiosos
portugueses na índia no século xvi (cf. D E W I T T E -
Aux origines, p. 471). Os dominicanos, com todas as
estruturas de formação humana, cultural, doutrinal e Capa da revista Verdade e Vida. ano viu, n." 1, 1945
religiosa dos seus membros, desenvolveram fecunda (Lisboa, Biblioteca Nacional).
acção missionária em toda a costa indica na África
Oriental, na Ásia até à China e, para o Sul, no Pacífi-
missão de noviços, pois já não havia sustento para os
co, até à descoberta e pregação em Timor. Em mea-
600 religiosos. O capítulo-geral de Roma, em 1721,
dos do século xvii há mais de 500 dominicanos no
ordenou, sob pena de nulidade, que o número de ad-
Oriente e, no primeiro quartel do século xvin, sobe a
missões não excedesse o dos óbitos desde o último
estatística para 7 0 0 ( A N A L E C T A , 1 2 2 ) . Porém, como
capítulo ou congregação (dois anos). A província era
por toda a parte, a regressão da sociedade, da Igreja,
constituída por 24 conventos, com capacidade para
da cultura e da ordem precipitaram na ruína a obra
816 frades, seis casas de noviços, cinco estudos ge-
missionária e civilizadora de Portugal. O último ca-
rais e o Instituto de Pastoral de Santa Maria da Esca-
pítulo da congregação, em 1831, ainda nomeou vigá-
da. Na manhã de 1755, o terramoto deixou a igreja e
rios para os conventos de Goa, Diu, Meliapor, Mala-
o convento uma ruína. O fogo consumiu o arquivo, a
ca e para as ilhas do Sul asiático, assim como para
biblioteca dos manuscritos e as duas amplas livrarias
Moçambique* e os dispersos pela Etiópia Oriental
de impressos. Apesar da cotização dos conventos pa-
( R O L O - Dominicanos, p. 2 3 ) . 5. Ocaso 5.1. Antece-
ra a reedificação da igreja, ainda em 1778 o culto era
dente e consequentes ao terramoto de 1755: Vinha
celebrado na casa do capítulo ( A T A Í D E - A Igreja,
de longe uma grave recessão económica. Os que ain-
p. 18). As réplicas do sismo causaram graves danos
da podiam, migravam com a sua corte para a aldeia;
em outros sete conventos a exigir parciais reconstru-
a muitos outros seduziu a miragem do claustro como
ções. Em 1772 suspenderam-se os estudos por falta
refúgio socialmente honesto de vocações dúbias.
de alunos. Em 1774, Pombal impediu o capítulo de
A disciplina regular relaxou, a crise espiritual e mo-
eleger provincial e impôs Frei João de Mansilha à
ral desacreditou a pureza do carisma monástico.
província por vigário visitador, reformador e supe-
A heresia da ilegitimidade do estado religioso e a
rior maior e único. No ano seguinte o superior único
certidão de óbito das ordens só chegará no prólogo
impetrou licença régia para vender seis conventos
do decreto da sua extinção, a 28 de Maio de 1834:
designados e os mais que fossem necessários. Pelo
«Jesus Cristo não as criou e os Apóstolos desconhe-
falecimento do rei ( 2 4 de Fevereiro de 1 7 7 7 ) , caiu o
ceram-se» (cf Decretos). As estatísticas dominica-
marquês e arrastou na sua «desgraça» os fiéis ser-
nas são um barómetro do contexto geral. O capítulo
ventários. A 1 de Março a rainha depôs Mansilha de
provincial de 1717 recorreu à Santa Sé* para ordenar
todas as suas funções e lavrou contra ele o decreto
aos provinciais que fossem menos indulgentes na ad-
de «extermínio» e desterro ad vitam para o convento

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DOMINICANOS

de Pedrógão. Ali faleceu em 1780 ( D O M I N G O S - antigos entregou as chaves a D. Teresa de Saldanha,


O mosteiro, p. 354). Quem livrou Pombal da pena de que o padre Manuel Rosa Frutuoso, professo domi-
morte foi o carmelita, confessor da rainha, Frei Iná- nicano em 1894, sob o nome de Frei Domingos Ma-
cio de São Caetano, arcebispo de Tessalónica (MA- ria, conheceu bem e descobriu os sinais de santidade
C H A D O - Quem livrou, p. 339 ss.). 5.2. Tracto 1777- que nela detectou. Há mais de 350 anos que os con-
-1834: No mesmo 1 de Março de 1777, o núncio frades hibérnios, fugindo da perseguição na sua ter-
Petra instituiu vigário dos dominicanos Frei Manuel ra, encontraram fraterno acolhimento em São Do-
do Nascimento. Este promoveu o capítulo provincial mingos de Benfica, e cá se radicaram para não mais
que, em 12 de Julho, elegeu Frei José da Rocha. se ausentarem. O sacerdote escalabitano Manuel
Quando o mestre-geral da ordem recebeu carta do Frutuoso, à semelhança de Lacordaire em França,
provincial de Portugal chorou de alegria. Frei José concluídos os estudos complementares exigidos pela
da Rocha tinha pela frente uma província moral e ordem, regressou a Portugal em 1897. Pregador
materialmente arruinada. Em 1779 tentou restaurar apostólico, devotíssimo do Rosário, foi zeloso na se-
os estudos em São Domingos. Sem nível nos mes- menteira e cultivo de novos gérmenes do carisma
tres, nem frequência de alunos, nem futuro para es- dominicano na sua terra. Os tempos eram adversos,
tes, e por entre as crescentes medidas repressivas do e tendo sido preceptor dos príncipes D. Luís Filipe,
governo, o studium agonizou ainda até 1833: os martirizado com o rei seu pai, e de D. Manuel II, ao
mestres prestaram o último juramento a 1 de Junho rebentar a república carbonária, para salvaguardar o
de 1831 e o derradeiro assentamento de acto dc exa- seu projecto de restauração, retirou-se prudentemen-
mes é de 21 de Junho de 1833 (AHDP, Livro dos es- te para o exílio. Em 1913 pôde regressar ordeira-
tudos, fl. 100). 5.3. O desenlace: De 1821 a 1833 o mente ao abrigo do salvo-conduto: pois não é jesuí-
governo desmantelou todas as estruturas constitucio- ta! Havia angariado mais dois sacerdotes de Braga e
nais das ordens religiosas: proibição das profissões, do Algarve quando, em 1920, Bento XV o criou bis-
redução dos conventos, interdição de acesso às or- po de Portalegre. O mestre-geral da ordem, Frei Luís
dens sacras, mandato aos bispos de receberem nas Theissling, quis poupar aos dois religiosos restantes
dioceses todos os frades que quisessem passar a elas, o ambiente persecutório e de insegurança, sugerin-
aliciados por regalias e benefícios, isenção forçada do-lhes acolherem-se noutros climas menos perigo-
dos superiores maiores, deposição geral dos superio- sos, noutras áreas da ordem que preferissem. D. Fru-
res locais e ordem de elegerem outros subordinados tuoso escreveu ao superior-geral uma carta patética,
aos bispos diocesanos. Só faltava o golpe de graça de amor ferido e de constância humilde e tenaz do
de 28 de Maio de 1834: extinção total das ordens, no ministério apostólico devido à sua igreja; abriria os
reino e seus domínios. Herculano deve-se ter lison- seus seminários aos candidatos à ordem. O tronco da
jeado pelo cumprimento profético do seu poetar: oliveira de São Domingos continuou a enfeitar-se dc
«Caia em pó o mosteiro, e maldito / o que erguê-lo coroas de novos rebentos. Em 1940, na garagem ar-
outra vez intentar» (cf. H E R C U L A N O - A harpa, mada em catedral, na velha residência alugada do
p. 204). Nos Egressos, porém, caído em si, qualifi- Porto, o bispo de Portalegre impôs as mãos aos pres-
cará a extinção das ordens de «uma das realidades bíteros dominicanos Frei Francisco Rendeiro e Frei
mais torpes, mais ignominiosas, mais estúpida e co- João de Oliveira. Frei Gil Alferes, sensível aos pro-
bardemente cruéis do século presente...». E senten- blemas sociais, já era o ornamento da cátedra sagra-
ceia «Aqui jaz a última era dos mártires» (cf. HER- da; Frei João de Oliveira, com uma pequena equipa
CULANO - Opúsculos, 1883, vol. 1, p. 143-145). de confrades, levou a Lisboa a experiência lacordai-
O último provincial, Frei Francisco Henriques de riana da formação cristã da juventude, enquanto Frei
Faria, enviou ao geral Jabalot uma última estatística Francisco Rendeiro irradiou a Portugal a mensagem
de 1833, observando que «apesar dos graves danos rosariana, a cultura teológica mariana, a consciência
já sofridos pelo rebentar da procela» ainda residiam cristã do povo, a ressonância evangélica da sua pala-
nos conventos 242 religiosos ou, ao todo, uns 250 vra, até lhe imporem a missão episcopal e ser padre
(cf A N A C O L E T A , p. 122, nt. 1). Conhecemos casos de conciliar interveniente no Concílio Vaticano II. A re-
heróica fidelidade. Em 1861, Frei Manuel, octogená- vista Verdade e Vida inspirou o nome da livraria de
rio de Benfica, capelão dos marqueses de Fronteira, Fátima, e o Rosário de Maria, lançado nessa altura,
ia pernoitar na sua cela; o enfermeiro do convento de conta agora 52 anos de publicação. Na área cultural
Viana do Castelo, forçado a abalar, confiou ao far- contemporânea, o terceiro centenário de João de São
macêutico da Vila o Cristo de D. Frei Bartolomeu, Tomás, os encontros de história dominicana e o
que presidia à enfermaria, sob o compromisso de ser quarto centenário da morte de D. Frei Bartolomeu
entregue aos frades no dia em que voltassem! Por es- dos Mártires, com o seu congresso internacional,
te Abraão, que esperou contra toda a esperança, está com volume de actas e os dez tomos das obras com-
hoje resgatado esse Cristo para a nova diocese. pletas do Arcebispo Santo e alguns volumes de estu-
6. Fénix? 6.1. Certezas: Da maldição do mosteiro do da sua mensagem doutrinal e apostólica, embora
por Herculano, do tirânico decreto da extinção das em gotas finas de cultura portuguesa, humedeceram
ordens, do letreiro ditado para epitáfio dos egressos: o terreno da inteligência e sã doutrina. A história,
«aqui jaz a última era dos mártires» (cf H E R C U L A N O - nas suas funções de testis temporum e nuntii vetusta-
Ibidem) os Dominicanos levam 770 anos contínuos tis, não tem pressa para ser contada, para resplande-
na história religiosa de Portugal, desde a chegada de cer como lux veritatis. Quanto poderá vir a pesar no
Frei Soeiro Gomes a Montejunto em 1217. Pelo ra- tesouro do seu templo o cruzadinho das últimas dé-
mo feminino, a «última freira» de quatro cenóbios cadas dominicanas? Por agora a estatística acusa

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DOMINICANOS

quatro conventos, outras tantas casas, duas missões Aveiro da O r d e m de S. Domingos. Arquivo Distrital de Aveiro. 16
(1951) 1-154. MANDONNET, P. Frères Prêcheurs. Dict. de Théologie
em Angola* e setenta membros e alguns professores Catholique, vol. 6, col. 863-924. M A N D O N N E T , P.; V I C A I R E , M.-11., S A I N T
universitários. D O M I N I Q U E , L'idéal l'homme et l'oeuvre. Paris: Dcsclée dc Brouwer,
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88
ECONOMIA. I. Época Medieval: 1. Bens e rendi-
mentos: Na sociedade medieval, a Igreja surge-nos
dotada de um enorme poderio que lhe advinha não
apenas do papel que desempenhava nos campos da
E e fogueiras (210 pertencentes às ordens militares;
435 ao clero regular e 357 ao clero secular) e 124 vi-
las e aldeias. A Igreja tinha também aí vários senho-
rios, onde se relevam os coutos de Midões e São
espiritualidade, assistência, ensino e da política, mas João de Tarouca e a honra de Vila Verde, do Mostei-
também dos avultados bens imobiliários de que era ro de Salzedas, que fora outrora de Egas Moniz. Fo-
proprietária. Eram precisamente estes bens, aliados ra desta área, mas dentro ainda da zona centro, des-
aos elevados rendimentos que deles e doutras fontes tacavam-se os domínios dos mosteiros de Grijó e
auferia, que faziam dela, para além de um poder es- Pedroso, distribuídos em grande parte pelos julgados
piritual e político, um poderoso agente económico, de Gaia, Feira e Vale de Cambra; do Mosteiro de
com forte intervenção na economia do país, nomea- Santa Cruz de Coimbra, implantados nas áreas do
damente nos sectores primário e terciário. 1.1. Pro- Baixo Mondego e de Leiria; da Sé de Coimbra, nas
priedade e produção agrícola: No sector primário, áreas dos actuais concelhos de Aveiro, Arganil, Can-
um dos mais activos neste período, a Igreja aparece tanhede, Coimbra, Condeixa-a-Nova, Figueira da
ao lado da Coroa/rei, dos concelhos e particulares Foz e de muitos outros, e do Mosteiro de Alcobaça*,
como proprietária de um enorme património disper- na Estremadura, Ribatejo e também no Alentejo.
so por todo o território, (v. PATRIMÓNIO E C L E S I Á S T I C O ) . A Beira Baixa e uma boa parte da Beira Litoral e do
No seu conjunto, podemos distinguir uma grande va- Ribatejo eram pertença das ordens militares do Tem-
riedade de tipos de propriedade que ia desde as gran- plo e do Hospital (v. O R D E N S M I L I T A R E S ) . Na área de
jas às simples leiras ou peças, passando pelas quin- Lisboa avultavam os domínios da Sé de Lisboa e do
tãs, casais, searas, vinhas, almuinhas, montes e Mosteiro de São Vicente de Fora, igualmente disper-
outros prédios. Do seu património faziam igualmen- sos por toda a Estremadura e a sul do Tejo. Na res-
te parte numerosas marinhas, minas, pesqueiras, por- tante área do país, o seu património afigura-se-nos
tos, moinhos, azenhas, lagares e fornos, bem como igualmente maioritário. Encontrava-se repartido por
ermidas, capelas, igrejas, mosteiros e outros edifí- várias instituições, onde se destacavam as ordens
cios, cuja presença aparece abundante e sugestiva- militares de Avis, Templo (até D. Dinis), Santiago e
mente documentada do Norte ao Sul do país. do Hospital. Os domínios da Ordem de Avis ocupa-
A maior parte destes bens foi adquirida por doação, vam uma grande parte do Ribatejo e do Alto Alente-
compra e permuta. A estas formas de aquisição do jo. Havia outros quinhões no Alto e Baixo Alentejo
património eclesiástico devemos acrescentar uma e no Algarve. A área da actual província do Baixo
outra, que consistia nas frequentes usurpações prati- Alentejo era, em grande parte, da Ordem de Santia-
cadas por alguns dos seus membros no fundo domi- go. No Algarve, a Igreja aliava à posse de terras a te-
nial da Coroa, de que as Inquirições gerais fazem nência de alguns castelos. Uma outra ordem militar
eco. De entre os principais proprietários eclesiásticos implantada em terras algarvias era a de Cristo, que
implantados na região de Entre Douro e Minho, des- D. Dinis criara em 1319 em substituição dos Tem-
tacavam-se as sés de Braga e Porto, a colegiada de plários. Para valorizar e obter rendimento deste
Guimarães e os mosteiros de Rendufe e Pombeiro. enorme património, cujas principais manchas dc im-
No Norte interior, ao tempo de Afonso III, a Igreja plantação acabámos de apontar, a Igreja recorria,
detinha amplas e numerosas terras, repartidas por or- para além da exploração directa, à exploração indi-
dens militares (Templo, Hospital e Uclés), igrejas e recta, entregando numerosas parcelas dos seus do-
mosteiros. De entre estes últimos, de relevar o patri- mínios a empresários e camponeses, mediante con-
mónio do mosteiro de Castro de Avelãs, esparso por tratos de arrendamento e de índole enfitêutica.
numerosas paróquias, e dos mosteiros leoneses de É provável que também recorresse aos contratos de
São Martinho da Castanheira e de Moreruela, ambos parceria, de que tratam as Ordenações Afonsinas,
com forte implantação em terras trasmontanas. A sul cuja renda consistia numa parte alíquota da produ-
do Douro, na área do antigo maciço a ocidente do ção. A opção da Igreja por um destes contratos de-
Côa, há a registar, em 1258, um total de 1002 casais pendia de várias condicionantes de natureza econó-

89
ECONOMIA

mica, onde as flutuações dos preços dos cereais, a correntes da sua condição de proprietária e senhora
escassez de braços e a consequente alta dos salários de terras imunes, onde se incluíam o tabeliado, as
dos rurais e as desvalorizações monetárias eram de- multas, a carceragem e outros réditos provenientes
certo determinantes. Nos grandes domínios eclesiásti- do exercício da justiça, a portagem, a passagem, a
cos, nomeadamente cistercienses* e crúzios*, coexis- ancoragem, o relego, o jantar e o mordomado. Para
tiam muitas vezes as duas modalidades de exploração a recolha das rendas, as instituições recorriam aos
atrás referenciadas - a directa e a indirecta - recor- mordomos e a outros agentes ou, no caso de prédios
rendo os monges, para o cultivo da parte reservada bastante excêntricos às suas casas, ao arrendamento
ao seu uso, ao trabalho dos conversos (sobretudo co- dos respectivos mordomados. No tocante às culturas,
mo gestores), à mão-de-obra servil e assalariada e, as preferências da Igreja e dos seus lavradores iam,
ainda, às jeiras de trabalho gratuito a que estavam em primeiro lugar, para os cereais, vinha e oliveira,
obrigados alguns dos seus colonos que viviam nas facto aliás comum à grande maioria dos proprietá-
suas proximidades. Os extensos e numerosos domí- rios e cultivadores deste período. O linho, as frutei-
nios de que a Igreja era proprietária, bem como a in- ras e as leguminosas despertavam igualmente o inte-
capacidade de alguns dos seus membros (bispos, resse dos gestores e produtores eclesiásticos, que a
abades e priores), cada vez mais ocupados com o elas dedicavam algumas das suas melhores leiras lo-
serviço da corte e os problemas da Igreja, se pode- calizadas nas proximidades dos centros urbanos. Em
rem dedicar à sua gestão, obrigaram-na desde cedo a relação às fruteiras, recordemos a importância eco-
alienar numerosas parcelas a particulares, contri- nómica que lhes atribuíam os monges alcobacenses.
buindo desta forma para o seu progressivo parcela- 1.2. Pecuária e actividades recolectoras: A activida-
mento. Em meados do século X I I I , a fragmentação de dos rústicos que trabalhavam nas reservas da
dos grandes domínios eclesiásticos era já notória na Igreja e a dos seus foreiros não se circunscrevia à
região de Entre Douro e Minho, precisamente numa agricultura. A pecuária, a criação de aves e a recolha
parte do país onde os terrenos se apresentavam rela- de lenha, madeira, mato, junco, mel e cera, bem co-
tivamente férteis e a população mais compacta. mo a caça nas devesas e matas senhorais comple-
A tendência para o parcelamento irá atingir, ainda mentavam essa actividade. A existência de várias es-
neste século, as explorações directas de algumas pécies pecuárias e de aves nas pequenas explorações
grandes casas monásticas (caso do Mosteiro de San- entregues a camponeses aparece largamente docu-
ta Cruz de Coimbra), agravando-se no século se- mentada. Na maior parte dos casos, não se tratava de
guinte devido à grande depressão que se seguiu à uma actividade especializada. Ela tinha sobretudo
Peste Negra. A falta de braços para o amanho das em vista satisfazer os compromissos assumidos para
terras, que se registou por toda a parte após esta pan- com os respectivos senhorios, de fornecer anualmen-
demia, e a consequente subida dos salários dos rurais te um certo número dc animais e/ou derivados e
obrigaram os grandes senhorios monásticos a alienar acorrer às necessidades do próprio agricultor e fami-
as suas reservas, ou parte delas, a particulares, recor- liares - de carne, leite e ovos para a alimentação c de
rendo sobretudo a contratos de índole enfitêutica, os animais para os trabalhos agrícolas, transportes e
que melhor se adaptavam à conjuntura socioeconó- produção de estrumes. O número e as espécies cria-
mica do momento. O seu arrendamento a nobres ou das nestes domínios dependiam de várias condicio-
a lavradores abastados também se documenta neste nantes, nomeadamente dos efectivos alimentares de
período, conquanto em número pouco significativo. que se dispunha. Os grandes senhorios eclesiásticos
Embora ao longo dos séculos X I I I e xiv se tenha re- facultavam, normalmente, aos moradores das suas
gistado uma acentuada retracção da exploração di- terras o acesso às matas e incultos dc que eram pro-
recta, ela não desapareceu completamente neste pe- prietários, mediante o pagamento de direitos de uso,
ríodo, mantendo-a algumas casas monásticas nas o que lhes permitia criar um maior número de cabe-
granjas localizadas nas suas proximidades. Em prin- ças. Também a Igreja nos aparece directamente en-
cípios do século xv, a maior parte das terras agríco- volvida nesta actividade, sobretudo nos extensos
las da Igreja encontrava-se nas mãos de famílias fundos que possuía na Estremadura, Ribatejo e no
campesinas, devido a contratos com elas firmados, Alentejo. Os monges de Alcobaça, além da agricul-
ou com os seus ascendentes, de natureza perpétua e tura, dedicavam-se à criação de gado em grande es-
hereditária ou em vidas. Em troca do usufruto das cala nos seus domínios da Estremadura, figurando o
mesmas, os colonos estavam normalmente obrigados seu mosteiro entre os principais abastecedores de ga-
a pagar ao senhorio directo, para além de uma quota do, couro, peles, queijo e até de calçado da zona cen-
parciária dos frutos, que oscilava entre o 1/2 e 1/10 tro. A recolha de lenha, madeira, mato, junco e ou-
da produção, várias quantidades de géneros, animais tros produtos, incluindo a caça, que o bosque e a
e/ou derivados, fibras têxteis e outros artigos e/ou floresta propiciavam, complementavam a actividade
numerário. Deviam ainda prestar certos serviços (jei- agrícola e constituíam uma importante fonte de in-
ras, carreiras e outros) e satisfazer algumas presta- gressos para as respectivas instituições proprietárias.
ções extraordinárias, como era o caso da lutuosa. De Regra geral, as populações campesinas gozavam do
entre as várias prestações certas a que muitos casei- direito de acesso às matas e devesas senhoriais, me-
ros da Igreja estavam sujeitos, destacavam-se a eirá- diante o pagamento de direitos de uso (montado).
diga (do pão, do vinho, do linho e, provavelmente, O papel da Igreja no campo económico não se esgo-
também das castanhas), a fogaça, a pedida do mor- tava nestas actividades. Em estreita conexão com
domo e a alça, entre outros. Pagavam-se-lhe vários elas estavam ainda as «indústrias» tranformadoras,
outros direitos de natureza jurisdicional e fiscal, de- presentes em muitos dos seus domínios. 1.3. Trans-

90
ECONOMIA

Castelo de Almourol, dos Templários, grandes proprietários na Beira Baixa, Beira Litoral e Ribatejo.

formação dos produtos agropecuários: Do patrimó- acerca desta actividade são mais ou menos frequen-
nio eclesiástico faziam parte numerosos moinhos, tes, sobretudo no tocante ao condado, primariças e à
azenhas, lagares de vinho e de azeite, pisões e fornos dízima a que estavam sujeitos os que pescavam em
de pão, telha, louça e cal, localizados dentro e fora águas de senhorio eclesiástico ou descarregavam nos
dos seus coutos. A eles tinham acesso os moradores seus portos. Ligada à pesca e aos transportes estava
das suas terras e estranhos, mediante o pagamento dc a «indústria» da construção naval, onde sobressaíam
uma determinada quantia ou maquia. Nas terras se- os estaleiros da Pederneira e da foz do Alfeizerão,
nhoriais, a Igreja reservava, nalguns casos, para si, o do senhorio de Alcobaça, cujos serviços chegaram a
monopólio destas construções, donde arrecadava ser procurados pela própria Coroa. O seu património
avultados proventos. Alguns destes meios de produ- compunha-se ainda de numerosas salinas, ou talhos
ção eram explorados ou usufruídos por particulares, de salinas, localizados ao longo da costa. Uma boa
mediante o pagamento de uma renda aos respectivos parte da produção de sal de algumas casas eclesiásti-
senhorios. A «indústria» dos curtumes também me- cas (caso do Mosteiro de Alcobaça), que excedia os
receu o interesse de algumas casas religiosas, no- respectivos consumos, entrava nos circuitos comer-
meadamente da dos monges de Alcobaça, que se ciais. 2. Proventos eclesiásticos e sua aplicação: As
apresentava como uma das principais fornecedoras fontes de receita da Igreja não se esgotavam nos pro-
de couros, peles e até de calçado da zona centro. ventos recebidos da terra e do mar e dos diversos di-
1.4. Actividades fluviomarítimas: A Igreja aparece reitos que, a títulos vários, cobrava aos moradores
igualmente envolvida nas actividades ligadas à pesca dos seus domínios e senhorios. Ao lado destes, depa-
e à salicultura. Muitas das suas terras estavam situa- ramos com uma enorme variedade de direitos de na-
das junto dos principais rios e na orla marítima, o tureza eclesiástica que, a pretextos diversos, cobrava
que lhe permitiu desenvolver essas mesmas activi- aos seus fiéis. Era o caso da dízima, mortuárias, vo-
dades e/ou delas beneficiar. De entre as instituições tos de Santiago. Catedrático, dádivas ou jantares, ca-
nelas envolvidas, merece especial destaque o Mos- lendário, capelas, visitações, direitos do pé-de-altar e
teiro de Alcobaça, em cujos domínios se localiza- de muitos outros. O mais importante e generalizado
vam dois excelentes abrigos, o da lagoa da Pedernei- era, sem dúvida, a dízima ou décima, que recaía so-
ra e o da concha de São Martinho, para além porto bre o rendimento dos imóveis (dízima predial) e do
de Paredes que as areias do mar viriam, entretanto, a trabalho (dízima pessoal), à qual D. Afonso II sujei-
soterrar. No que diz respeito à pesca, as referências tou as rendas da Coroa a partir de 1218. As mortuá-

9I
ECONOMIA

rias consistiam na cobrança dc uma parte alíquota para as despesas de culto e compra de alfaias (litúr-
dos bens dos defuntos pro anima, cujo produto re- gicas e profanas), paramentos e ornamentos; para a
vertia em parte para o prelado da diocese ou para a guerra contra os muçulmanos e redenção de cativos,
igreja paroquial. Os votos de Santiago*, pagos por muitos deles raptados nas costas do Algarve e da
alguns lavradores do Norte de Portugal à Igreja de Andaluzia pelos corsários do Norte de África; para a
Santiago de Compostela e de que a Sé de Braga* se cúria romana, sobretudo quando esta atravessava
veio a apoderar, consistiam numa medida de pão e momentos de grande aperto financeiro, e para mer-
noutra de vinho por cada junta de bois com que la- cês e benefícios a entidades diversas (comendatários,
vraram a terra. A esta mesma igreja de Braga se pa- padroeiros e outros), onde se incluíam alguns mem-
gava anualmente o catedrático, ou sinodático, a títu- bros da família real. De realçar aqui o elevado nú-
lo de sujeição ao seu bispo; o pano ou bragal, cujo mero de padroeiros de algumas instituições monásti-
nome derivava do produto em que era solvido este cas (Rio Tinto, Grijó e outras) e a voracidade de
encargo, o mesmo ocorrendo com a cera que arreca- muitos deles, revelada nas suas exigências de come-
dava em Trás-os-Montes. Dos restantes direitos dorias para si e familiares, criados, escravos e até pa-
mencionados, de relevar os do pé-de-altar (de bapti- ra os seus cães. Os investimentos agrícolas (arrotea-
zados, casamentos e enterramentos), de que a Igreja mentos e drenagem de terras, florestação e outros
ou os seus ministros auferiam significativos proven- plantios), sobretudo os das grandes casas monásti-
tos. Uma outra importante fonte de ingressos provi- cas, consumiam, também eles, uma boa fatia do seu
nha das esmolas dadas pelos fiéis a títulos vários, rendimento. A estas despesas devemos ainda acres-
mas sempre em benefício de suas almas e/ou das al- centar outras, como a que respeita aos vários conten-
mas dos seus familiares. Vários reis e membros da ciosos que a Igreja sustentou em defesa dos seus di-
família real, nos seus testamentos, não se esqueciam reitos e/ou património com as igrejas de Santiago e
de deixar à Igreja vultuosas quantias para obras, ob- Toledo, Coroa e particulares. A propósito da sua
jectos de culto, aniversário e outros fins piedosos. contribuição para a guerra, recordemos que a avalia-
A Igreja participava também no mundo das trocas, ção do seu rendimento no tempo de D. Dinis (1320-
quer colocando os seus excedentes no mercado, quer -1321) teve como principal objectivo facultar à Co-
cobrando vários direitos aos agentes comerciais em roa a décima parte do seu produto por um período de
terras do seu senhorio, como era o caso das porta- três anos, para as despesas da guerra contra os inimi-
gens, passagens, açougagens e de muitos outros di- gos da fé. A Igreja contribuía igualmente para a ma-
reitos, dc que o Foral Velho ou Inquiriçois do nutenção de escolas (catedralícias e outras) destina-
Sr. Rey D. Affonço 4o, da cidade do Porto, fornece al- das sobretudo à formação dos seus membros, a que
guns exemplos bem elucidativos. A ela também não no tempo de D. Dinis se veio a juntar o Estudo Ge-
eram estranhas nem infrutíferas as operações credití- ral, subvencionado por diversas instituições eclesiás-
cias, não obstante os seus ideólogos condenarem o ticas, cujos rendimentos lhe foram em parte afecta-
empréstimo a juros. Eram estas, em linhas muito ge- dos. Até então, a Igreja via-se obrigada a enviar os
rais, as principais fontes de rendimento da Igreja seus estudantes para o estrangeiro para a obtenção
neste período e as actividades económicas em que de graus académicos, o que acarretava o dispêndio
esteve envolvida. Quanto ao balanço geral da renda de enormes verbas. A retirada de uma boa parte das
eclesiástica, desconhecemos a existência de qualquer suas receitas para fins diversos, nomeadamente de
fonte para o seu cálculo, salvo o rol da avaliação de utilidade pública, reduziram algumas instituições a
1320-1321. Embora os dados fornecidos por este do- um estado de extrema pobreza, motivando alguns
cumento não sejam absolutamente rigorosos, pecan- queixumes ao monarca. Em suma, na Idade Média, a
do muito provavelmente por defeito na maioria dos Igreja comportava-se, no plano económico, como
casos e, em alguns outros, por omissão, podemos, qualquer outro senhorio privilegiado. Era proprietá-
não obstante, com base nos valores expressos, for- ria de um enorme património composto em grande
mar uma ideia quer do seu rendimento global nesse parte por terras coutadas, que geria e explorava de
ano quer de cada uma das instituições eclesiásticas modo idêntico ao dos outros senhorios régios e parti-
em particular nele referenciadas. De acordo com esta culares. Intervinha igualmente nos outros sectores da
avaliação, o rendimento da Igreja nesse ano foi de economia, produzindo, transformando e colocando
629 274 libras e 13 soldos. A maior fracção deste no mercado os seus excedentes. As operações credi-
rendimento vai para as igrejas (74 %), seguida dos tícias também não lhe eram estranhas, conquanto
mosteiros (23,8%), comendas (1,5%) e de outras praticadas com uma certa discrição e contenção por
instituições que, devido à insignificância dos seus alguns dos seus membros ou instituições, uma vez
valores, se não particularizam aqui. Quanto às or- que a doutrina canónica se opunha abertamente à
dens militares, os avaliadores limitaram-se, nalguns prática da usura. Era esta, em linhas muito gerais,
casos, a estimar o rendimento das suas igrejas igno- a situação e o comportamento económicos da Igreja
rando o dos seus bens temporais, bem mais relevan- na Idade Média e assim continuará a ser no período
tes, sem dúvida. Uma grande parte do rendimento da seguinte.
Igreja era canalizada para o sustento e vestuário do M A R I A ROSA F E R R E I R A M A R R E I R O S
clero e instituições pias (albergarias, hospitais e ou-
tras) e de ensino dela dependentes; para obras de B I B L I O G R A F I A : A L M E I D A , Fortunato de - História da Igreja em Portugal.
construção e reparação de igrejas, mosteiros e outros Porto: Portucalense Ed., 1 9 6 7 - 1 9 7 1 . A M A R A L , Luis Carlos - São Salva-
dor de Grijó na segunda metade do século xtv: Estudo de gestão agrá-
edifícios do seu património, onde aparece ligada a ria. Lisboa: Ed. C o s m o s , 1994. AZEVEDO, Rui Pinto de - Período de for-
alguns progressos tecnológicos então verificados; m a ç ã o territorial. Expansão pela conquista e sua consolidação pelo
p o v o a m e n t o : As terras doadas: Agentes colonizadores. In HISTÓRIA da

92
ECONOMIA

expansão portuguesa no mundo. Lisboa: Atiça, 1937, vol. 1, p. 7-64. bém fazem huma considerável porção das suas ren-
BARBOSA, Pedro G o m e s - Povoamento e estrutura agrícola na Estrema- das as diarias vendas de suas sepulturas. As pen-
dura Central. Lisboa: 1NIC, 1992. BARROS, Henrique da G a m a - Histó-
ria da administração pública em Portugal nos séculos xn a xv. 2. a ed.
soens annuaes, as vendas de seus hábitos, túnicas,
Lisboa: Sá da Costa, 1945-1954. BEIRANTE, Maria Angela Rocha - Évo- escapulários, resistos de imagens e verónicas, etc.
ra na Idade Média. Lisboa: F C G ; J N I C T , 1995. C A S T R O . A r m a n d o - Sobretudo o produto dos milagres dos seus sanctos.
A evolução económica de Portuga! dos séculos xn a xv. Lisboa: Portu-
gália, 1964-1970. COELHO, Maria Helena da Cruz - O mosteiro de
Nelles e por eles, derrama Deos sobre as suas Casas
Arouca: do século x ao século xm. Coimbra: FLUC, 1977. IDEM - hum chuveiro de bens» (Oliveira - Discurso. Porto.
O Baixo Mondego nos finais da Idade Média. Lisboa: I N C M , 1989. 1999); «uma infinita variedade de oblatas e presta-
CORPUS codicum latinorum et portugalensium eorum qui in archiva mu-
nicipali Portucalensi asservantur antiquissimorum: I: Diplomata, char- ções que recebiam dos povos» ( R O C H A - Ensaio,
tae et inquisitiones. Porto, 1891. COSTA, Avelino de Jesus da O bispo 186), bem como o «que os nossos portugueses man-
D. Pedro e a organização da diocese de Braga. Biblos. Coimbra: FLUC. dão para a Curia Romana [...] que tudo faz um ba-
33, 34 (1957-1958). COSTA, Mário Júlio de Almeida Origem da enfi-
teuse no direito português. Coimbra: Coimbra Ed., 1957. DICIONÁRIO de lanço considerável» ( O L I V E I R A - Mappa, p. 57). Ain-
história da Igreja em Portugal. Dir. A. A. Banha de Andrade. Lisboa: da seriam de considerar os patrimónios eclesiásticos
Ed. Resistência, 1979-1983. DICIONÁRIO de história de Portugal. Dir. e as legítimas, que «levam as Religiões importantes
Joel Serrão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1961-1971. DURAND, Robert
- Les campagnes portugaises entre Douro et Tage aux xif et XIII siècle.
e fazendas nas legitimas [...] que extrahidas do poder
Paris: Centro Cultural Português/FCG, 1982. FERNANDES, A. de Almei- dos Vassallos lhes diminuem os cabedaes, acrescen-
da - Acção dos cistercienses de Tarouca: As granjas nos séculos xn e tando-os às religiões» ( R I B E I R O - Dissertações,
xm. Revista de Guimarães. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento.
1 9 7 3 - 1 9 7 5 . G O M E S , Saul António - O Mosteiro de Santa Maria da Vitó-
vol. 1, p. 383-385). Ainda poderíamos considerar os
ria no século xv. Coimbra: Instituto de História da Arte/FLUC, 1990. decorrentes do gozo dos direitos e privilégios pró-
GONÇALVES, Iria - O património do Mosteiro de Alcobaça nos séculos prios, que podiam constituir encaixes finais de rele-
xiv e xv. Lisboa: F C S H , 1989. MARQUES, José - A arquidiocese de Bra-
ga no século xv. Lisboa: I N C M , 1988. MARREIROS, Maria Rosa Ferreira
vo. (Considere-se, em concreto, a importância das
O senhorio da O r d e m do Hospital em Amarante (sécs. xm-xiv): Sua Relações e dos Cíveis desses numerosos coutos e ad-
organização administrativa e judicial. Estudos Medievais. Porto. 5/6 ministrações eclesiásticas.) 2.: Não pode repetir-se, a
(1984-1985) 3-38. IDEM - Propriedade fundiária e rendas da Coroa no
reinado de D. Dinis. Guimarães. Coimbra: F L U C , 1990. IDEM - O s
esmo, a confusão sobre este diversificado tipo de
coutos do mosteiro de S. J o ã o de Tarouca na Idade Média: Sua organi- bens c patrimónios que por diversificadas vias entra-
zação administrativa c judicial. Bracara Augusta. Braga: Câmara Muni- vam na constituição final das rendas eclesiásticas -
cipal. 43 (1991-1992) 321-374. IDEM - O património do mosteiro cister-
ciense de S. João dc Tarouca nos séculos xn e xm. In C O N G R E S S O
entendidas, aqui, como encaixes globais do clero,
INTERNACIONAL SOBRE S A N B E R N A R D O E O C I S T E R EN G A L I C I A E P O R T U G A L - qualquer que fosse a sua proveniência e a sua nature-
Actas. Ourense, 1992, vol. 1 p. 496-551. Co-autoria. MATTOSO, José za. Um pilar dessas rendas era constituído pelos bens
L ' a b b a y e de Pendorada des origines à 1160. Revista Portuguesa de
História. Coimbra: F L U C . 7 (1962). IDEM - Senhorios monásticos do e ingressos decorrentes da natureza senhorial da ins-
Norte de Portugal nos séculos xi a xm. In A NOBREZA medieval portugue- tituição eclesiástica. Um outro, de natureza bem di-
sa: A família e o poder. Lisboa: Estampa, 1981, p. 269-278. N A T I V I D A - versa e distinta, era constituído pelos ingressos pro-
DE, Joaquim Vieira - Os monges agrónomos do mosteiro de Alcobaça.
Alcobaça, 1942. IDEM - As granjas do mosteiro de Alcobaça. Boletim venientes dos pagamentos e «ofertas» que os fiéis
da Junta de Província da Estremadura. Lisboa. 5 (1944). NOVA história satisfaziam por virtude de serviços prestados e asse-
de Portugal. I: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325): Do gurados pela Igreja. Eram os bens de natureza domi-
condado portucalense à crise do século xiv. Lisboa: Presença, 1995,
vol. 3. OLIVEIRA, Miguel de - O senhorio da cidade do Porto e as pri- nical. O grosso destes encargos era, sem dúvida,
meiras questões com os bispos. Lusitania Sacra. Lisboa. (1959) 29-60. constituído pelo dízimo. 3.: A diferente natureza da
ORDENAÇÕES do Senhor Rey D.Afonso V. Lisboa: F C G , 1984. R O D R I -
GUES, Ana Maria - Torres Vedras: A vila e o termo nos finais da Idade
instituição eclesiástica ditou a prevalência do tipo de
Média. Lisboa: FCG; JNICT, 1995. RODRIGUES, Cristina [et ai ] - O En- bens sobre que se constituiu o seu património e sua
tre C á v a d o e Minho, cenário de expansão senhorial no século xm. Re- renda. Na generalidade, o clero regular (mormente
vista da Faculdade de Letras de Lisboa. Lisboa: FLUL. 2 (1978) 399-
-440. SANTOS, Maria José Azevedo - As origens do Mosteiro de
regular masculino) assentou a base do seu patrimó-
S. Paulo de Almaziva. Arquivo Coimbrão. Coimbra. 30 (1982) 213- nio em domínios fundiários, de natureza essencial-
-257. SOUZA, José Pedro de Saldanha Oliveira e Coutos de Alcobaça: mente agrícola. Posse dc terras que «geria» de dois
As cartas de povoação. Lisboa, 1929. TRINDADE, Maria José Lagos
A propriedade das ordens militares nas Inquirições Gerais de 1220. Do
modos diferentes. Os chamados domínios de admi-
tempo e da História. Lisboa: IAC; Centro de Estudos Históricos/FLUL. nistração directa, e os bens de administração indirec-
4 ( 1 9 7 1 ) 125-138. ta, isto é, as terras de que eram directos titulares mas
em que se cedia o domínio útil a rendeiros ou forei-
ros - qualquer que fosse a modalidade de arrenda-
II. Época Moderna: 1.: Para além dos patrimónios mento, fosse directo fosse indirecto. Eram os chama-
do clero regular e do clero secular, têm aqui dc con- dos bens de foro. Era muito grande a porção de terra
siderar-se os de outras instituições religiosas ou pa- que andava sob esta modalidade. Por isso, frequente-
rarreligiosas como confrarias, irmandades, miseri- mente deparamos com as referências de que toda a
córdias (e as suas instituições dependentes). Ainda terra portuguesa era de propriedade eclesiástica, tal
colégios, seminários, para além dos patrimónios de era, no global, a extensão destes bens. Pelos séculos
comendas, ordens militares, etc. Mesmo a Inquisi- xvi (2.a metade) e xvii pertencia-lhe a maior parte da
ção* que, de per si, «desviou pensões consideráveis terra do reino - incluindo a da própria nobreza. (Fr.
dos rendimentos de muitos dos Bispados» ( A L M E I D A Luís - Vida do Arcebispo, vol. 2, p. 91). Realidade
- História, vol. 3, p. 16). Considerar ainda a sua di- agravada nos tempos posteriores: «toda a terra é nes-
ferente origem e natureza, como outros diferentes ti- tas Províncias [de Trás-os-Montes, Minho e Beiras -
pos e canais de ingresso, também quase nunca consi- finais do século xvin] de natureza de prazo e perten-
derados. Estão neste caso os legados de alma, que ce ao clero» (Oliveira - Discurso). Estes bens de fo-
constituíam uma suculenta fonte de ingressos, aos ro, na globalidade, suplantavam sempre em valor os
quais houve, às vezes, que pôr algum travão, «para primeiros no cômputo global das rendas. Segura-
que as almas dos outro mundo se não fizessem donas mente também no valor do imobilizado. Mais gros-
e senhoras deste». Juntem-se outros «canais»: «Tam-

93
ECONOMIA

Quadro dos rendimentos por dioceses. In Dicionário dc história da Igreja cm Portugal, 2." vol.. p. 439).

sos, porem, eram os encaixes provenientes dos dízi- aparecimento de novas comunidades a que foram
mos. Estes suplantaram sempre as importâncias dos adstritos novos bens e rendas. Não obstante, verifi-
bens de foro, e muito mais ainda os provenientes da cou-se, sobretudo, uma redistribuição, afectando-
exploração dos bens dc domínio directo. A fonte -lhes recursos c bens já pertencentes ao grémio ecle-
principal e mais suculenta de que se alimentava a siástico. Não pode, por isso, o numeramento e
instituição eclesiástica, no seu conjunto, era, na ver- contagem destas novas instituições e unidades surgi-
dade, constituída pelos encargos dominicais, inaxi- das ao longo deste período ver-se como um sinóni-
me, pelos dízimos. Apuraram-se percentagens dife- mo de aumento do património eclesiástico, como
rentes de instituição para instituição, com um peso tem sido habitual. A contagem das casas das ordens
relativo também diferente consoante se tratava do religiosas resulta ainda aleatória, não só por repre-
clcro regular ou secular. Nos mosteiros da Ordem de sentar uma parte diminuta do clero, como por nos
São Bento (Beneditinos*) variáveis de casa para ca- deixar na ignorância das rendas e dos imobilizados.
sa, esses recursos representaram, ao longo de toda a E mesmo aqui raramente os dados batem certo. Não
Época Moderna, valores sempre acima dos 55 % há números seguros quanto à simples contagem das
(mais correntemente entre 60 e 75 %) do valor total casas. O mesmo se diga quanto ao aumento do nú-
de todos os ingressos ou rendas ânuas. Nos patrimó- mero de clérigos. O seu crescimento (com contagens
nios do clcro secular* era, porém, mais pesada essa também incertas) representou, às vezes, empobreci-
percentagem, acentuando-se, pois, a sua prevalência mento e delapidação. O poder régio opor-se-ia cada
sobre os bens de foro. Aqui subiam frequentemente vez mais à acumulação de bens imobiliários, procu-
acima dos 90 % (na Colegiada de Guimarães consti- rando limitar o seu crescimento. Não importa aqui
tuíram 97,5 % de todo o tipo de encaixes). Toda esta referir a sucessão cronológica dessas medidas. Diga-
situação mudava consideravelmente quando se con- -se, tão só, que frequentemente se repetiram atestan-
sidera a realidade das instituições paraeclesiásticas, do a vontade dos monarcas cm pôr cobro à situação
confrarias, irmandades e misericórdias, etc. Os seus e à fuga assídua a essas mesmas determinações. As-
bens e patrimónios repousam essencialmente nos sim cresceriam, por vezes ainda consideravelmente,
bens de foro, nas doações ou dotações, e no giro e os bens de certas instituições. A centúria de Seiscen-
trato com o dinheiro. Os encaixes realizados por esta tos seria a que veria a instalação do maior número dc
última via não se encontram, por seu turno, também casas, contra o que, aliás, não faltaram manifesta-
determinados nos seus valores para as diferentes ções dc desagrado por parte dos povos. Solidificados
épocas, mas foram igualmente consideráveis. No sé- e consolidados os patrimónios fundiários, as rendas,
culo xvni uma fonte de encaixes frequentemente aci- no geral nesse mesmo século xvn, começariam até,
ma dos 50 % a 60 % de todos os ingressos. Chegaria com a perda de algumas imunidades fiscais, a ser
aos 93-94 % em alguns casos, como se verificou nas afectadas. Foi um facto que aconteceu ainda com a
Misericórdias* da comarca de Leiria, pelas contas administração filipina, avolumou-se com a Restaura-
dadas a rol em 1834. 4.: Pelo geral, os patrimónios ção, e assumiria gravame pesado - motivando gran-
fundiários ficariam praticamente consolidados com a des queixas - nos apertos fiscais e financeiros do Es-
Reforma e praticamente terminados durante o sécu- tado e da Coroa nos finais do século xvni, altura em
lo xvii. As ordens antigas veriam consolidados os que «sujeitos aos tributos como os mais cidadãos,
seus bens, não se observando grandes mutações nos veriam os antigos privilégios e imunidades continua-
tempos posteriores. Cresceriam algo, sobretudo du- damente decaírem da antiga consideração» (Rocha -
rante a primeira metade de Seiscentos, sendo neste Ensaio, p. 187). 5.: A boa administração era condi-
particular mais importante os novos núcleos que se ção dc conservação dos patrimónios e rendas. A boa
foram formando com a implantação de novas ordens e «exemplar economia e exatíssima administração
e casas religiosas e o alargamento dc outras. O au- dos bens e patrimónios» era peça fundamental do
mento da propriedade resultou, essencialmente, do poderio e «sucesso» económico de algumas dessas

94
ECONOMIA

instituições. Ao contrário, a má administração leva- O que, de facto, não traduz a realidade nem dos pa-
va à perda de rendas e de patrimónios. Por isso, teve trimónios nem dos seus efectivos rendimentos.
o poder temporal de algumas vezes pôr cobro tam- É, por isso, muito aleatório tomar esses dados como
bém aos abusos e descalabros eclesiásticos. Assim elementos de observação correcta. E sempre deixam
com Pombal (1755 e 1776); assim com D.Maria. de fora uma realidade importante e que lhes serve de
A Junta para o Melhoramento Temporal das Ordens base: a verdadeira dimensão e valor dos «imobiliza-
Regulares* (1789) teve, porém, efeitos efémeros. dos», porque a boa ou má gestão podia distorcer
Durou pouco e foram muitos mais os abusos c dela- enormemente os valores das rendas ânuas apresenta-
pidações praticados que os resultados positivos obti- das quando a realidade física sobre o terreno poderia
dos: «Este systema das supressões foi péssimo, não ser bem diferente. Por isso, algumas referências mais
só pelas delapidações a que os Juizes suppressores qualitativas que quantitativas (que enfermam de tan-
deram causa, mas também porque os frades, vendo tos destes defeitos) traduzirão melhor, até, a situa-
arder as barbas de seus irmãos, botarão logo as suas ção, sobretudo quando se puderam estabelecer corre-
de remolho, e desde então começaram a occultar, c a lações com o rendimento de outras instituições.
subtrair tudo o que tinhão de mais precioso, e muitos 7.: Tentar aproximações correlativas talvez nos habi-
queimarão ou sumirão os livros da fazenda, os títu- litasse a uma ordem de grandeza e nos desse uma
los, e Tombos dos Conventos para que se não pudes- ideia mais correcta da importância dos bens do clero.
se saber quais eram as suas rendas afim de se não Algumas referências aos bens da Igreja bracarense,
poderem cobrar» (IDEYÃ). Durante este período as ainda que não, certamente, na sua totalidade, podem
«rendas» cresceriam, não principalmente por alarga- servir, em parte, a esse objectivo. Ainda que de mo-
mento dos patrimónios fundiários, mas por virtude do grosseiro - reconheça-se - os bens deste clero re-
de um paulatino mas seguro crescimento económico. presentariam (pelos princípios do século xvi) um va-
Mas os aumentos provenientes dos bens de foro se- lor que se aproximaria muito dos três quartos dos
riam sempre moderados e, em verdade, quase nada réditos arrecadados pela Coroa nos almoxarifados
significativos. Em algumas instituições importantes correspondentes, atingindo valores que andariam en-
as percentagens não foram além 0,3-5 % e 1,4-5 %. tre os 6 5 e os 7 5 % , ( B A R R O S - Geographia; P E R E I R A
O principal crescimento proviria das massas monetá- - O orçamento, p. 36), sendo certo que ficariam dc
rias acumuladas, provenientes da transacção dos gé- fora, nesta referência, muitos daqueles que temos
neros, sobretudo cereais. Sempre e sobretudo com os vindo a referir. Não se duvidará de que no restante
«negócios» das massas dizimeiras. Por todo o lado território a situação não seria muito diferente. Assim
serão estas as grandes e principais responsáveis pela o parece, mais uma vez, confirmar a situação nas
variação e comportamento das «rendas» eclesiásti- Beiras pelos parcos dados respeitantes à Igreja de
cas, no seu conjunto: «grossas rendas, grossos dízi- Lamego se os compararmos com os rendimentos
mos», dirá, com razão, Ladurie, (Les Paysans, vol. I, deste almoxarifado para a mesma altura ( F E R N A N D E S -
p. 201). Confirmando-se no tabelado nacional, pelos Descrição). Por meados de Quinhentos, avaliou-se o
casos já analisados. Verificaram-se, aqui, variações rendimento global de todo o arcebispado (de Braga)
nada comparáveis com as dos foros. Um exemplo em 190 contos, isto é, uns 475 000 cruzados. Braga
que pode ser significativo (retirados dos montantes ocupava então o topo dos bispados mais ricos (logo
das igrejas de Tibães): de 1683 para 1710 verifica- seguido por Évora, com 450 000 e por Lisboa com
ram-se alterações na ordeni dos 28,5 %; de 1710 pa- 330 000). Este arcebispado, só por si, capitalizava,
ra 1801 de 184%. 6.: «É difícil se não impossível então, mais de um quarto de todo o rendimento ecle-
ainda hoje dizer o valor dos patrimónios eclesiástico siástico. Mas as suas rendas cresceram consideravel-
ou sequer até quanto pagava ao clero a propriedade mente. Depois de 1582 teriam saltado para o dobro!
antes das reformas liberais. O que se pode assinalar Em síntese, e por sobre os parcos dados de que se
e atestar é, ao contrário, a disparidade dos números, dispõe, benefícios pingues, sempre chorudos, sem-
que bem pode traduzir a total incapacidade de adian- pre despertando cobiças e abusos ( O L I V E I R A - Bra-
tar uma avaliação ou valor global dos bens do clero, ga). A fazer fé em alguns dados de que dispomos pa-
quer no seu conjunto, quer mesmo sectorialmente ra os inícios do século xvn a correlação com os bens
considerados» ( B U L H Õ E S - A fazenda, p. 19-20). da Coroa mantinha-se. Assim o parecem mostrar os
«Não é, na verdade, possível determinar com exacti- que se reportam ao Porto e Ponte de Lima como para
dão a importância dos bens eclesiásticos quer em to- Guimarães sobretudo, sublinhando a mesma cons-
do o reino quer distribuídos por pessoas e corpora- tante, isto é, em relação às rendas arrecadadas pela
ções eclesiásticas» ( A L M E I D A - História). Torna-se Coroa, a Igreja bracarense levaria a vantagem em
quase por completo aleatório adiantar valores e apre- cerca de 7 0 % ( F A L C Ã O - Livro, p. 3 1 - 3 9 ) . Nos tem-
sentar dados globais ou mesmo sectoriais. Isso pode pos posteriores os rendimentos globais devem ter
conduzir a ideias erróneas e distorcidas. Apelar às acompanhado aquele andamento, não obstante por
contagens dos conventos e casas religiosas (como 1632 se continuarem a atribuir os mesmos 190 con-
sistematicamente se tem feito, ao tratar destes assun- tos referenciados por Góis para 1558! Mas os encai-
tos) não chega, até porque ficam de fora muitas ou- xes efectivos seriam muito maiores. Tratando-se de
tras instituições de importância muito grande no que uma estimativa para derramas, o clero limitou-se a
respeita ao objectivo de uma avaliação ou juízo glo- apontar rendimentos que já pouco teriam a ver com
bal sobre o património «eclesiástico». Podemos ob- a realidade. Na verdade, vinham de quase três quartos
servar que números e valores - algumas vezes forne- de século atrás! Tomar esses números como retrato
cidos - o continuam a ser por tempos indefinidos. da situação nesta altura? A «imobilidade» dos valo-

95
ECONOMIA

res apresentados que constatamos para o século xvi lo XVII permitem também estabelecer uma relação de
voltará a repetir-se para o século XVII mostrando-nos grandeza com os bens e rendas dos maiores títulos
o perigo de tomarmos esses valores como avalistas do reino. E isso importará, sobretudo, referir. Em re-
reais dos bens do clero. Os rendimentos globais de lação aos cerca de 50 títulos da nobreza do reino -
1632 assim o mostram. São praticamente os mesmos cujos rendimentos são também apresentados - o
que se apresentam nos finais do século, como se, conjunto das 13 mitras representava uns 38-40 % de
praticamente, bens e rendimentos se não tivessem todo o rendimento da nobreza (sendo certo que só a
mexido. Uma ideia estática quando efectivamente o Casa de Bragança representava no conjunto de toda
não foi. Consideraremos apenas os valores globais essa nobreza nada menos que 19 %!). Se a referência
em dois momentos: em 1632 (totais das mitras: se fizesse relativamente ao valor global, mesmo que
120 000S000); e em 1696-1697 (121 600$000). Pas- considerando, para isso, os montantes dos dados pa-
samos, mais uma vez, o aleatório destes dados nu- ra 1632, a relação era quase esmagadora. O rendi-
méricos (relativos ou aos bispados ou às mitras pro- mento da nobreza do reino (com aquele enorme de-
priamente ditas) (Ribeiro - Dissertações - iv, P. li sequilíbrio em relação à Casa de Bragança) andaria
p. 221-222). Não se deixe passar em branco o facto em torno ou abaixo dos 15 % (dificilmente os ultra-
de referir-se para o arcebispado de Braga* os 190 passando) dos bens do clcro aqui tomados como
contos que já tinham sido adiantados por Damião de ponto de referência e com as grandes lacunas e de-
Góis para o século xvi! As mitras representavam um feitos assinalados: ausência das ordens religiosas,
valor que andaria à volta dos 13 a 15 % do total dos certamente de Misericórdias, confrarias, etc. (Se o
rendimentos eclesiásticos que terão sido dados à der- que se passa em Braga se repetisse com os outros
rama em 1632. Para os finais do século (1697), con- bispados quanto a valores das ordens religiosas,
tinuam a referir-se praticamente estes mesmos nú- cresceria a disparidade em relação à nobreza para
meros. Uma escassa variação no rendimento de números substancialmente muito maiores.) A dete-
cerca de 1,2 % nos valores apenas referentes às mi- rioração dos «títulos» face ao clero manter-se-ia pe-
tras! Quer dizer: em mais de meio século a situação los tempos posteriores, agravando-se ainda mais no
não seria praticamente alterada o que não é verdade século xvin: «grandes privilégios e regalias, avulta-
a avaliarmos pelas rendas de algumas casas religio- díssimos dotes e patrimónios por onde se acha mani-
sas da região de Entre Douro e Minho. Utilizemos os festamente superior ao Estado da Nobreza» ( O L I V E I -
números exactos de Tibães (da Ordem de São Ben- RA - Mappa, p. 35). Retenhamos ainda os inícios do
to). Em 1632. E em 1698 coincidentes com os anos século xvin. Rebelo da Costa dá como rendimento da
acima referidos. Verificaram-se aumentos efectivos Igreja bracarense para cima de milhão e meio de cru-
de quase o triplo! Exactamente uns 150,2 % ( O L I V E I - zados, isto é, cerca de uns 600 contos ( C O S T A - Co-
RA - A abadia). Por aqui se poderá fazer uma ideia rografia, p. 160). Quanto representava então a mi-
do que realmente podem representar as variações tra? Uns 40 contos - segundo o mesmo autor. Valor
adiantadas na base daqueles dados por onde se cos- superior ao que é ainda atribuído aos anos de 1725
tumam avaliar os bens do clero (e parte, somente). em que rondaria os 35 contos (entre 30 e 40 - refere
O escalonamento relativo das mitras, como os arce- a fonte - , que não é pequena incerteza!). Teriam,
bispados ou bispados, pouco variou. Da primeira po- pois, diminuído - o que não é, mais uma vez, credí-
sição no século xvi, Braga surge-nos em quarto lugar vel visto coincidir com o primeiro período mais acti-
(pelos dados de 1632) depois de Lisboa, Évora e vo de crescimento das rendas (6-7 % o global do ar-
Coimbra. Braga, na sua globalidade, representava cebispado; pela mesma altura - 1709 - os bens do
então cerca de uns 20 % de toda a Igreja portuguesa. cabido subiriam a uns 27 a 28 %). Mas o que mais
Todavia, pela mesma altura, diz o metropolita - con- importa é a relação (evidentemente não rigorosa)
testando as verbas rateadas e impostas ao seu arce- que se poderá estabelecer com os montantes de
bispado - que mais de um quarto de toda a derrama 1632: de uns 190 contos passara-se, presumivelmen-
lançada em todo o reino estava imposta nos bens da te, para os 600 por 1710. Quer dizer: aumentos supe-
sua Igreja (Oliveira - Conjuntura, p. 137). Estas riores a 426 %. Quer dizer ainda: valores agora apro-
contagens para a Igreja bracarense confirmam, mais ximados com os apresentados pelas exactas
uma vez, as disparidades e o aleatório destes dados administrações e contas das casas da Ordem de São
sobre que se costumam avaliar os bens do clero. An- Bento nesta região. A meados do século (1755-1777)
darão incluídos os bens dos mosteiros e outras insti- dizem-nos algumas fontes que se duvidava de qual
tuições? Certamente que não. Mas apenas da Igreja seria a maior renda em Portugal, se a do rei (portos e
secular. Neste caso - a considerar dados apontados tratos incluídos) se a da Igreja (assinalando-se, na
para o clero regular neste mesmo século xvii, cresce- mesma altura, o «peso esmagador do clero» na so-
riam consideravelmente as rendas «globais» de todo ciedade e na repartição da riqueza). É esta mesma
o clero de Entre Douro e Minho. Na verdade, essa correlação que persiste ou algo, mesmo, se terá
«contagem» do século xvii dá-nos para o arcebispa- agravado pelos finais da centúria, dado o aumento,
do de Braga um total (mas onde se diz não irem in- por vezes espectacular, das rendas. Tomemos uma
cluídas as esmolas) de uns 70 conventos (entre mas- amostra, ainda que necessariamente muito diminu-
culinos e femininos) com uma renda global de uns ta, no conjunto do reino. Na comarca de Guima-
35,4 contos (fora as esmolas e certamente outros re- rães, em 1787, as rendas da Coroa, isto é, do Esta-
cursos e entradas «das sacristias»). Quer dizer: mais do, e as da Igreja aparecem-nos assim distribuídas:
que dobrando - no seu conjunto - o total dos rendi- rendas do Estado - 106 725S589; rendas da Igreja -
mentos da mitra. Os dados do último quarto do sécu- 216 988S384 (ANNAES, p. 171). Isto é, os bens aqui

96
ECONOMIA

considerados representavam uns 67 % em favor das com mais uns 80 contos dos réditos das casas femi-
rendas eclesiásticas. Manter-nos-íamos, assim, den- ninas. E nestas muito por defeito visto só irem in-
tro da mesma ordem de grandeza. Os rendimentos cluídos os géneros principais (quando para os bens
das ordens religiosas «antigas» na província de Entre das casas das religiosas não estão, sequer, apontados
Douro e Minho excediam em muito o rendimento os montantes do cereal de segunda!) ( B A L B I - Es.sai,
anual conjunto dos bens da Coroa, da Casa do Infan- vol. 1; B A L B I - Variétés). 8.: Por último - mas sem-
tado e da Casa de Bragança. Acrescente-se ainda pre referido, apenas, a uma parte do clero - poderá
(confirmando o que acima deixámos já dito) o ex- referir-se a estrutura da renda do clero regular de
traordinário volume das esmolas num dos santuários Portugal (que não dos seus imobilizados e sua real
bracarenses: «mais de dois milhões das nossas libras» extensão no conjunto da geografia da propriedade do
( B O M B E L L E S - Mémoires). Outro dado referencial po- reino nos finais do Antigo Regime e princípios do sé-
derá ser constituído pelos dados da décima alvitrada culo xix a que estes dados se reportam). Têm sido
ao clero na província do Minho em 1799. Esta déci- apontados com a seguinte estrutura e composição:
ma eclesiástica, só nesta província, ultrapassou o to- Rendas (ânuas) do clero regular de Portugal por
tal da contribuição predial de todo o reino. Respecti- 1827-1828 (ver quadro abaixo).
vamente 624 805S000 contra 561 300$000 desta Como vemos, estão muito provavelmente omitidas
última ( O L I V E I R A - Mappa, p. 81). Mas as incertezas algumas fontes de ingressos que apontámos. E se os
continuam mesmo para sectores específicos e tem- dízimos se reportam ao somatório das várias casas e
pos em que se esperaria exactidão de números, e de mosteiros, ficariam ainda por contemplar os que an-
valores. Assim, no que respeita à radiografia dos davam adstritos às ordens como tal. Na Ordem de
bens das ordens religiosas dados para as Constituin- São Bento, por exemplo, deveriam acrescentar-se os
tes em 1822 ou apurados para a extinção*, logo de- que a congregação recebia independentemente dos
pois, têm sido apontados: casas das ordens religiosas cobrados e arrecadados pelos diferentes mosteiros.
masculinas - 402; ordens religiosas femininas - 133; E o valor desses dízimos (que entravam em arca pró-
total: 535 (incluindo colégios e hospícios). O rendi- pria) somavam, por 1742, cerca de mais sete contos -
mento apurado somaria os 771 contos nos primeiros o que era boa maquia! Mas para a aproximação ao
e 438 contos para os femininos (cerca de 80 % dos património do clero, em geral, a panóplia de institui-
quais constituídos por ingressos a dinheiro). Mas ções e bens que efectivamente ficam por considerar!
não estamos, na verdade, perante dados e valores de- Para que façamos uma ideia, calculando apenas os
finitivos. Divergem os cálculos consoante os autores dízimos, consideremos que estes somariam à data do
ou as fontes. «Não há uma base segura para se calcu- apuramento das Constituintes em 1822 uns 321 con-
lar ao certo os bens móveis e imóveis sendo arbitrá- tos nestes bens das ordens dados a rol. Todavia,
rios os valores até hoje atribuídos» (e que constam aquando da extinção destes encargos, pelas medidas
de alguns papéis). Tudo aproximações possíveis. Os de Mouzinho da Silveira, houve quem calculasse a
valores encontrados para os montantes das rendas a sua massa, em todo o clero, em cerca de 8000 con-
que se chegou continuam a ser aleatórios. Na verda- tos. Mas apontam-se outros valores bem diversos.
de, os mapas indicam um volume de 209 700 alquei- Continuamos, efectivamente, na arbitrariedade e in-
res de «pão e legumes» indistintamente, sem se dife- certeza quanto aos bens que estes números querem
renciar o montante dos trigos, dos milhos, centeios e mostrar mesmo em tempos já muito próximos em
cevadas! Superados também, em muito, os valores que se julgaria arredada a insegurança. «Avaliações
atribuídos às rendas cobradas dos vinhos e azeites, perfeitamente disparatadas, arbitrárias», diferindo de
com a seriíssima suspeita de que, tanto os vinhos, autor para autor, de fonte para fonte ( B A L B I - Essai,
como azeites, não correspondem à realidade pois, se- vol. 2, p. 5). Diz-se, por seu turno, em 1834 com os
gundo Balbi, por exemplo, estes géneros, só nas or- papéis que deveriam andar debaixo de olho: «total
dens monásticas masculinas, subiam a mais uns 436 dificuldade e impossibilidade de se poderem descre-
contos e nas femininas a uns 80 contos (fora o cereal ver os bens dos Conventos representados por todas
de segunda para estas, que também não vem aí refe- as autoridades dos Distritos da Província a que se in-
rido). Quanto ao número de casas bem como a rendi- cumbia tal tarefa» ( I D E Y A , p. 24, 26). Os números e
mentos, continuam as disparidades. Por 1821: umas valores a que se chegou «perfeitamente arbitrários
360 casas de religiosas com um rendimento de por que além de tudo ficaram por avaliar muitos dos
421 000$000 num total de 498 e um rendimento glo- bens de foro» ( B U L H Õ E S - A fazenda, p. 20, 26). Par-
bal de 1 028 750$000 em dinheiro (fora os géneros tamos a meio a soma dos dízimos alvitrada por Bu-
que fazem soma global, muito superior se os incluir- lhões, que, considerando os 8000 contos exagero, os
mos, como devemos). Na totalidade (dos trigos, se- avalia em dois a três mil contos (Ibidem). Fiquemos
gunda, cevada, vinho e azeite) uns 436/488 contos pelos 2500 contos. Teríamos, assim, que os dízimos

97
ECONOMIA

dos regulares representavam tão somente uns 12,8 % - Discurso sobre a desamortização dos bens da Igreja. Lisboa, 1860.
CASTRO, João Baptista d e - Mapa de Portugal. Lisboa, 1745-1758. COL-
nesse cômputo contra 87,2 % nos bens do restante LECÇÃO das leis e decretos de D. José I (1769-1777). Lisboa. 1798. C O R -
clero. Se fosse lícito extrair outra ilação poderíamos REIA, J. E. Horta - Liberalismo e catolicismo: O problema congregacio-
pensar que 80 a 90 %, pelo menos, dos bens do clero nista. 1820-1823. C o i m b r a , 1984. COSTA, António Carvalho da
Corografia portugueza. Braga, 1868-1869. COSTA, J e r ô m e à - Histoire
em geral ficaram ou teriam ficado fora destas avalia- de l'origine et du progrès des revenus eclesiastiques. Francoforte,
ções. Muito para além, pois, dos números que os 1648. DISCURSO sobre os regulares. Lisboa, 1821. F A L C Ã O , Luiz de Fi-
bens e rendas dos regulares poderiam deixar supor gueiredo Livro de toda a fazenda real e património dos reinos de
Portugal. Lisboa, 1859. FARIA, Ana Mouta - A condição do clero portu-
quando se apela a eles para uma radiografia da situa- guês durante a primeira implantação do liberalismo. Revista Portuguesa
ção do clero em Portugal nos tempos do Antigo Re- de História. Coimbra. 23 (1988) 301-331. FRADES (Os) julgados no tri-
gime. Na contribuição de 1808 o rateio às ordens re- bunal da Razão. Lisboa. 1814. FRANZINI, M. - Considerações sobre a
renda total da nação. Lisboa, 1843. GODINHO, Vitorino Magalhães • Es-
ligiosas representou cerca de 10 % do total do reino trutura da antiga sociedade portuguesa. 2." ed. Lisboa, 1975. IDEYA ge-
mas juntamente com as comendas das três ordens ral dos trabalhos administrativos. Lisboa, 1835. LADURIE, Emmanuel
Le Roy Les Paysans de Languedoc. Paris, 1966. LEÃO, Duarte N u n e s
militares e ainda a de Malta uns 13,5 a 14 %, sendo de - Descrição do reino de Portugal. Lisboa. 1785. LEI para a reforma
certo que só o alvitrado ao ouro e prata das igrejas dos regulares. 24 de O u t u b r o de 1822. LOBÀO, Manoel d ' A l m e i d a e
somou uns 19,4 %! Ainda que de tempos posteriores Sousa d e - Discurso jurídico histórico e crítico sobre os direitos domi-
nicais. Lisboa, 1813. IDEM Dissertação sobre dízimos e oblações pias.
(1834) eis o que se deixou dito do valor de algumas Lisboa. 1815. IDEM - Tractado pratico das pensões ecclesiasticas. Lis-
alfaias pertencentes a algumas dessas casas: «Exis- boa, 1825. M A R Q U E S , A. H. de Oliveira Desamortização. In DICIONÁRIO
tem nesta Secretaria algumas Apólices e Padrões dos de história de Portugal. Dir. Joel Serrão. Porto: Figueirinhas, 1971,
vol. 1. MEMORIA sobre os laudemios. Porto. 1 8 2 1 . M U R P H Y , J. - A Gene-
extinctos Conventos, assim como as pratas do Con- ral view of the State of Portugal. Londres, 1798. OBSERVAÇÕES do ex-
vento de S. Domingos da Batalha, e os paramentos -corregedor de Alcobaça Antonio Luiz de Seabra sobre a arrecadacão
do Mosteiro de Alcobaça,* que são de uma riqueza dos bens do Mosteiro daquella Villa. Lisboa, 1835. OLIVEIRA, Aurélio
de Mappa historico e politico do reyno de Portugal. Porto, 1975.
tal, que não houve na Comarca de Lisboa quem os IDEM - A abadia de Tibães: 1630-1813: Propriedade, exploração e pro-
soubesse avaliar.» E na avaliação de 1834 os rendi- dução agrícolas no Vale do Cávado durante o Antigo Regime. Porto,
mentos, só dos conventos suprimidos, nas comarcas 1979. 2 vol. IDEM A renda agrícola em Portugal durante o Antigo Re-
gime: Séculos XVII-XVIII. Revista de História Económica e Social. Lis-
de Alenquer, Leiria, Santarém e Torres Vedras, re- boa. 6 (1980) 1-56. I D E M - Rendas e arrendamentos da Colegiada de
presentavam (por defeito) cerca de 30 % de todos os Guimarães. Guimarães, 1981. IDEM - Contabilidades monásticas e pro-
dução agrícola durante o Antigo Regime. Santo Tirso, 1982. IDEM
bens nacionais nas mesmas comarcas (IDEYA, p. 35). E c o n o m i a e conjuntura agrícola no Portugal de Seiscentos (1600-1650).
Estamos, de facto, perante uma incerteza muito gran- Penélope. Lisboa. 3 (1989) 130-169. I D E M - Da prática agronómica ao
de quanto a dados objectivos e concretos. 9.: Assim, fisiocratismo nos mosteiros de S. Bento. In 4." CENTENÁRIO da Fundação
do Mosteiro de S. Bento da Vitória. Porto, 1997. IDEM - Braga e o arce-
em termos correlativos finais, arriscaríamos, por is- bispado no tempo de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires. Braga, 1998.
so, e dadas também algumas referências aqui apon- IDEM A historiografia monástica em Portugal (1974-1997): Bens: Pa-
tadas, que os bens do clero em relação aos bens fun- trimónios e rendas na Época Moderna. Madrid, 1998. N o prelo, açtas
de colóquio. IDEM As Misericórdias e o trato com o dinheiro na Épo-
diários da Coroa terão representado sempre valores ca Moderna. Aveiro, 1998. PEREIRA. J o ã o Cordeiro - O orçamento do
nunca inferiores aos 60 a 70 % (às vezes considera- Estado português no ano de 1527. Nova História. I (1984) 27-65. RO-
velmente mais) ao longo de todo este período - de- CHA, M. A. Coelho da - Ensaio sobre legislação do governo de Portu-
gal. C o i m b r a , 1843. SARAIVA, Cardeal. Obras completas. Lisboa, 1872-
certo diferentemente repartidos conforme as comar- -1883 SILVA, António Martins da A v e n d a dos bens nacionais: A carta
cas e os almoxarifados do reino como aqui se deixou de lei d e 15 de Abril d e 1835. Revista Portuguesa de História. Coim-
também entender. E isso significou e implicou uma bra. 19 (1981). SILVA, Luiz Augusto Rebello da Historia de Portugal
nos séculos xvii e xvni. Lisboa. 1871, vol. 5. SILVEIRA, Luís da - A venda
hegemonia absoluta, quase esmagadora, sobre a pos- dos bens nacionais: 1834-43. Análise Social. 16 (1980). S O T T O M A Y O R ,
se da terra e do montante global dos seus rendimen- Miguel de - Historia da extinção das ordens religiosas em Portugal.
tos considerados os encargos que a pretexto de servi- Braga, 1889. SOUSA, Fernando de - O rendimento das ordens religiosas
nos finais do Antigo Regime. Revista de História Económica e Social.
ços religiosos/encargos dominicais (e outros) o clero Lisboa. 7 (1981) 1-27. THOMAZ, Manoel Fernandes Relatorio às cor-
recebia e que compunham, efectivamente, a sua tes geraes extraordinárias de Portugal. Lisboa, 1821. V A S C O N C E L L O S ,
Jacinto A u g u s t o de S a n t ' A n n a - Relatorio dos impostos e outros rendi-
«renda» global. Seria exagerado o que se diz, ou di- mentos anteriores ao anno de 1832. Lisboa, 1865.
zia, ao tempo, acerca da riqueza dos bens monásti-
cos (parte apenas do clero - refira-se, novamente)
segundo opina o autor de Os frades julgados no tri- / / / . Época Contemporânea: v. vol. iv (Apêndice).
bunal da Razão. Todavia, a correlação estabelecida,
considerando o clero no seu todo, o seu peso em re- ECUMENISMO. /. Antes do Vaticano II: Até ao II
lação à sociedade laica era, de facto, muito desequi- Concílio* do Vaticano não há diálogo ecuménico em
librada e numa proporção que não deve ter andado Portugal. Antes de 1910, Portugal era oficialmente
muito longe dos parâmetros aqui sugeridos durante um país confessional, pois a Carta Constitucional de
toda a Época Moderna. 1826 estabelecia que «a Religião Católica Apostó-
A U R É L I O DE OLIVEIRA lica Romana continuará a ser Religião do Reino.
BIBLIOGRAFIA: (F.ntre outros): ADÜ. Legislação vária sobre a décima
Todas as outras religiões serão permitidas aos es-
eclesiástica. 1801. ALMEIDA, Fortunato de - História da Igreja em Por- trangeiros, com o seu culto doméstico, em casas
tugal Porto; Lisboa: Civilização Editora, 1968-1970, vol. 2, 3. ANNAES particulares para isso destinadas, sem forma exterior
das Sciencias, das Artes e das Letras. Paris. 1818-1822, vol. 10. BEM,
T h o m a z Caetano do - Memorias históricas dos clérigos regulares de
de templo» ( C A R D O S O - História, p. 16-17). Outros
Portugal suas conquistas. Lisboa, 1972-1794. B P M P . Disposição sobre cultos eram portanto permitidos só a estrangeiros,
a lei de 25 de Junho de 1766. Manuscrito sobre os legadios pios. BU- embora o Código Civil de 1867 viesse a estabelecer
LHÕES, Miguel de - A fazenda publica de Portugal. Lisboa. 1884. B A L B I ,
Adrien - Essai Statistique sur le Royaume de Portugal. Paris, 1822.
o princípio da liberdade religiosa {Ibidem), o que
IDEM - Variétés politico-statistiques sur la Monarchie Portugaise. Paris, justifica, no final do século passado, o aparecimento,
1822. BARROS, João de Geographia d'Entre Douro e Minho e Tras-os- em Portugal, de várias comunidades cristãs ligadas
-Montes. Porto, 1919. BRANCO, Manoel Bernardes - Historia das ordens
monásticas em Portugal. Lisboa, 1888. CABRAL. José Bernardo da Silva
às Igrejas tradicionais da Reforma. Com a Lei de Se-

98
ECUMENISMO

paração de 20 de Abril de 1911, a religião católica contactos entre si para resolverem problemas bási-
deixa de ser a religião oficial do Estado português, cos, como seja a formação dos seus ministros e a
que passa a adoptar um carácter não confessional. presença mais significativa na sociedade. São elas
Por sua vez, a Constituição de 1933 confirma este a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal*, a Igre-
carácter não confessional e consagra formalmente o ja Evangélica Metodista Portuguesa* e a Igreja Lusi-
princípio da liberdade religiosa (artigos 45 e 48). tana Católica Apostólica Evangélica*, todas ligadas
Apesar destas condições objectivas favoráveis, não ao Conselho Mundial de Igrejas, com sede em Gene-
podemos falar da existência de uma prática ecuméni- bra (v. PROTESTANTISMO). Em 1946 aparece o Seminá-
ca em Portugal até ao Vaticano II. 2. Vaticano II: Es- rio Evangélico de Teologia, com sede em Lisboa,
te concílio veio trazer a preocupação ecuménica à por iniciativa da Igreja Evangélica Presbiteriana de
Igreja Católica e também aos cristãos portugueses. Portugal, mas três anos depois já tem uma direcção
Desde os anos 60, multiplicam-se os encontros entre constituída por membros das três referidas Igrejas,
católicos e cristãos de outras confissões, sobretudo podendo, assim, ser considerado «instituição pionei-
por ocasião da Semana de Oração pela Unidade. A se- ra do ecumenismo em Portugal» - pastor J. Leite, em
melhança da colaboração regular entre o Conselho entrevista a Jornal da Beira. 3902 (25 de Janeiro de
Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos 1996) 11 - Muda-se nessa data para Carcavelos, re-
(antes Secretariado para a Unidade dos Cristãos) e gressando à cidade de Lisboa em 1971, onde actual-
o Conselho Mundial das Igrejas, que desde 1968 mente se encontra ( c f . C A R D O S O - História, p. 24).
produzem anualmente o texto de apoio à Semana de Em 1970, por decisão do Sínodo da Igreja Presbite-
Oração pela Unidade, também em Portugal católicos riana de Portugal, é criado o Centro Ecuménico Re-
e protestantes colaboram na tradução e publicação conciliação, em Buarcos (Figueira da Foz), com o
desse mesmo texto. Há teólogos protestantes que objectivo de contribuir para que «a dádiva da recon-
têm participado em colóquios e até orientado disci- ciliação segundo o todo da Mensagem Bíblica se
plinas teológicas em seminários católicos e teólogos manifeste como uma realidade visível do homem
católicos chamados a colaborar em acções promovi- com o homem, do homem com as outras criaturas e
das pelo Seminário Evangélico de Teologia*. 3. Ins- do homem com Deus» - pastor Ireneu Cunha em en-
tituições ecuménicas protestantes: Do lado protes- trevista a Jornal da Beira. 3901 (18 de Janeiro de
tante, há três igrejas que, desde os anos 40, iniciaram 1996) 3 - Inicialmente com uma direcção alargada
incluindo elementos estrangeiros, de momento de-
pende das três referidas Igrejas protestantes, que no-
meiam a sua direcção. Vão ser ainda estas três Igre-
jas que, em 10 de Junho de 1971, fundam o
Conselho Português de Igrejas Cristãs, com o grande
objectivo de «trabalhar para uma maior manifesta-
ção da unidade da Igreja em Cristo» ( C A R D O S O -
História, p. 32). São seus objectivos estatutários pro-
mover uma maior compreensão mútua e uma mais
ampla unidade entre as Igrejas nele associadas; habi-
litar essas Igrejas a darem um testemunho mais unâ-
nime e a prestarem a Deus e aos homens um serviço
mais efectivo; trabalhar para a reconciliação de to-
dos os homens e de todas as coisas em Cristo, segun-
do a esperança cristã (cf. C O N S E L H O - Estatutos).
É esta a principal instituição de diálogo ecuménico
com a Igreja Católica em Portugal. 4. Instituições
ecuménicas católicas: A Igreja Católica em Portugal
não possui uma instituição especificamente manda-
tada para o diálogo ecuménico. Essa função está a
ser desempenhada pela Comissão da Doutrina da Fé,
que, ainda que com prejuízo de outras actividades, aí
concentrou, nos últimos tempos, a sua atenção e os
seus esforços. A tradução e publicação anual do tex-
to de apoio à Semana de Oração pela Unidade foi,
desde os tempos imediatamente posteriores ao Con-
cílio Vaticano II, a mais notada acção ecuménica.
Desde 1992, na sequência do V Encontro Ecuméni-
co Europeu realizado em Santiago de Compostela,
no ano anterior, institucionalizaram-se os regulares
encontros ecuménicos nacionais entre a Comissão da
Doutrina da Fé e o Conselho Português de Igrejas
Cristãs. Em Março de 1996 foi o XII Encontro. Nos
encontros ecuménicos nacionais já realizados apare-
ceu a dupla necessidade de aprofundamento teológi-
Capa do opúsculo «Semana de Oração pela Unidade co, por um lado, e de encontro de pontos de conver-
Cristã», 1971 (Lisboa, Biblioteca Nacional).

99
ECUMENISMO

gência na actuação pastoral das diferentes confissões - Estatutos: Base IV: Dos objectivos. Texto disponível n o Arquivo da
C o m i s s ã o da Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Portuguesa, pas-
cristãs, em Portugal, por outro. Entre os temas abor- ta Encontros Ecuménicos. G R U P O E C U M É N I C O P O R T U G U Ê S - A situação
dados contam-se o proselitismo, a espiritualidade ecuménica em Portugal. In SEMANA de oração pela unidade dos cris-
ecuménica, a dinâmica pastoral do ecumenismo, tãos-1996: «Olhem que estou à porta e chamo». [S. 1.]: C D F - C O P I C ,
1996, p. 31-33. MOREIRA, Eduardo Henriques - Esboço da história da
fundamentos bíblicos do ecumenismo. Teologia e Igreja Lusitana. Sínodo da Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangé-
pastoral da família e novo directório ecuménico, lica, 1949.
com as orientações nele consagradas para a prática
do ecumenismo, foram também objecto de estudo. EDUCADORAS PAROQUIAIS. Congregação de direi
Elencaram-se ainda alguns outros temas para serem to diocesano, começou as suas actividades por ini-
aprofundados em futuros encontros, entre eles o mi- ciativa de Maria Joaquina Oliveira Santos Ribeiro.
nistério ordenado, a Eucaristia*, Maria no mistério Sensível às dificuldades que os párocos enfrentavam
de Cristo, a hierarquia das verdades e dos sacramen- por falta de colaboradores, sobretudo nas zonas ru-
tos. Sugeriu-se a constituição de um grupo misto de rais, em 1956 organizou em Fiães, concelho de San-
trabalho teológico para o diálogo ecuménico, com a ta Maria da Feira, um pequeno grupo de senhoras
finalidade de aprofundar estes assuntos, o que ainda que passaram a trabalhar e viver em comunidade
não foi possível concretizar (a documentação de ca- com uma prática espiritual organizada. Por intermé-
da um dos encontros ecuménicos até agora realiza- dio de D. Moisés Alves de Pinho, bispo de Angola*,
dos encontra-se disponível no Arquivo da Comissão conseguiram licença do bispo do Porto*, em 1964,
da Doutrina da Fé, na pasta Encontros Ecuménicos). para continuar os trabalhos. Em 31 de Maio de 1970
A publicação do novo Directório para aplicação dos era erecta canonicamente por D. António Ferreira
princípios e normas do ecumenismo pelo Conselho Gomes a Pia União Educadoras Paroquiais, com es-
Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, tatutos próprios. A sua espiritualidade é mariana e o
em 1992, e sua tradução e publicação em português, seu carisma centra-se no zelo pela Igreja através da
no ano seguinte, deu mais um impulso ao esforço de promoção humana, evangelização, criação e anima-
diálogo ecuménico em Portugal. E de registar o ção de estruturas e serviços, com uma atenção parti-
apreço com que ele foi recebido pelas Igrejas ligadas cular aos jovens e às famílias. Os seus lugares de ac-
ao Conselho Português de Igrejas Cristãs. Para além ção são principalmente as comunidades paroquiais,
de colocar à Conferência Episcopal Portuguesa* o onde trabalham na catequese e formação de cate-
problema da criação de uma comissão episcopal para quistas, cursos bíblicos, cursos de formação domés-
o ecumenismo, que não existe, levou a que, por ini- tica, animação litúrgica, retiros, educação de crian-
ciativa da Comisão da Doutrina da Fé, tenham sido ças em creches, jardins de infância, apoio à escola;
dados os primeiros passos para promover nas dioce- acompanhamento e formação de jovens; apoio a ido-
ses a nomeação dos delegados e secretariados ou co- sos e doentes. Implantada basicamente no Norte do
missões para o ecumenismo previstos ( c f . C O N S E L H O - país, tem actualmente quatro casas.
Directório, n. os 41 e 42). Em Abril de 1996 fez-se o MARIA DO PILAR S. A. VIEIRA

primeiro encontro nacional de delegados diocesanos


para o ecumenismo. 5. Diálogo com confissões cris- BIBLIOGRAFIA: RIBEIRO, Maria Joaquina Oliveira Santos - Educadoras
paroquiais. Fiães, [s. d.J. Texto policopiado. VINDE e vede. Lisboa: Pau-
tãs de tradição não ecuménica: A institucionalização linas, 1995.
do diálogo ecuménico entre a Comissão da Doutrina
da Fé e o Conselho Português de Igrejas Cristãs mo- EGITÂNIA. V. G U A R D A .
tivou também o início do diálogo com as confissões
cristãs ligadas à Aliança Evangélica Portuguesa, de EGRESSOS. V. EXTINÇÃO DAS O R D E N S RELIGIOSAS.
tradição não ecuménica, e que são aquelas confis-
sões cristãs não católicas que, em Portugal, contam ELVAS, Diocese de. 1. Fundação: A diocese de El-
com maior número de elementos (cf. C A R D O S O - His- vas foi instituída em 1570 e extinta em 1881. A ideia
tória, p. 33 ss., sobre as Igrejas de tradição não ecu- da sua criação remonta ao tempo em que o cardeal
ménica em Portugal). Desde Outubro de 1994 que se D. Henrique era arcebispo de Évora pela primeira
têm vindo a realizar «encontros interconfessionais» vez, ainda em vida de D. João III, portanto, antes de
entre a Comissão da Doutrina da Fé, o Conselho 1555. Espírito clarividente, o eminente arcebispo, ao
Português de Igrejas Cristãs e a Aliança Evangélica experimentar a dificuldade de um só pastor gerir
Portuguesa. O sexto teve lugar em Maio de 1996. adequadamente, a partir de Évora, o vasto território
Neles, depois de uma fase em que se desfizeram pre- da arquidiocese alentejana, não hesitou em solicitar
conceitos, o grande tema tratado foi, até agora, a a sua divisão, sobrepondo assim os interesses espiri-
evangelização, e surgiu já alguma motivação para tuais ao prestígio e às vantagens económicas que po-
acções conjuntas, de modo a sensibilizar o meio social deriam advir-lhe da indivisibilidade de tão importan-
português para os valores fundamentais (documenta- te e extensa circunscrição eclesiástica (v. É V O R A ) .
ção igualmente disponível no Arquivo da Comissão Elvas e Beja eram, de acordo com o Numeramento
da Doutrina da Fé). de 1527-1532, as terras alentejanas demografica-
M A N U E L DA R O C H A EELÍCIO mente mais vocacionadas para sede de novas dioce-
ses, seguidas imediatamente de Montemor e Estre-
BIBLIOGRAFIA: ASPEY, Albert - Por este caminho. Porto: Sínodo da Igreja moz. Ambas haviam sido elevadas a cidade em data
Metodista Portuguesa, 1971. CARDOSO, Manuel Pedro - História do pro-
testantismo em Portugal. Cadernos CER. 2 ( 1 9 8 5 ) 1 - 5 9 . C O N S E L H O P O N - recente: Elvas, em 21 de Abril de 1513; Beja, em 10
TIFÍCIO PARA A P R O M O Ç Ã O DA U N I D A D E D O S C R I S T Ã O S Directório para a de Abril de 1521. Antes de propor à Santa Sé* a
aplicação dos princípios e normas do ecumenismo. Lisboa: Secrctaria-
do-Geral do Episcopado, 1 9 9 3 . C O N S E L H O P O R T U G U Ê S DE I G R E J A S C R I S T Ã S
criação das dioceses de Elvas e Beja, o cardeal,

ioo
ELVAS

siado distantes da sede episcopal, e as anexar à futu-


ra diocese de Elvas, de que se encontravam muito
mais próximas. Na diocese de Elvas deveriam ser in-
corporadas, além destas freguesias e das constantes
no plano do cardeal D. Henrique, as de Vila Fernan-
do, Vila Boim e Barbacena, que formavam com elas
uma unidade natural. Apesar de as razões invocadas
consistirem, fundamentalmente, no «muito serviço
de nosso senhor», no «proveito para as almas», no
«melhor governo espiritual» e no respeito pela me-
mória do seu avô, e de o rei assegurar que a mesa ca-
pitular não viria a ser economicamente prejudicada
com essa medida, o cabido de Évora, na reunião de
16 de Setembro do mesmo ano, decidiu peremptoria-
mente «não consentir na dita dismembração nem
aguora nem ao diante» (cf. ASE. Livro, fl. 209; BAP-
TISTA - Limites, p. 37-38). Nesse mesmo dia, os
membros da referida corporação eclesiástica decidi-
ram, por unanimidade, inviabilizar a pretensão real e
utilizar todos os meios legítimos e legais ao seu al-
cance para garantirem a integridade territorial da ar-
quidiocese. Para conseguirem os seus objectivos, de-
cidiram ainda encarregar alguns capitulares de
defender a sua causa, quer no reino, quer fora dele,
assumindo os encargos e as responsabilidades dos
danos físicos, económicos ou espirituais que even-
tualmente viessem a sofrer por parte de autoridades
eclesiásticas ou civis e de particulares. A primeira
decisão concretamente tomada foi a de nomearem
seu procurador em Roma o Dr. Manuel Fialho, que
então se encontrava na corte pontifícia. Os capitula-
res de Évora eram então apoiados pelo arcebispo
Fonte: com base na C a r t a A d m i n i s t r a t i v a de Portugal
D. João de Melo. Apesar da oposição formal do ca-
1:250 000, Lisboa, Comissão Nacional do
bido e do prelado de Évora, D. Sebastião avançou
Ambiente/Instituto Hidrográfico, 1979.
com o processo para Roma. O papa Pio V, desgosto-
so com a atitude infundada do bispo e do cabido
apoiado pela rainha D. Catarina, consultou o cabido (Nulla [...] alicujus ponderis causa allata), emitiu
e solicitou à corte o seu apoio (cf. BAPTISTA - Limi- um breve, datado de 15 de Dezembro de 1569, em
tes, p. 33-34). O cabido*, reunido em 14 de Novem- que os censurava pela obstaculização que ofereciam
bro de 1558, elegeu uma comissão encarregada de a uma causa religiosa e pastoralmente tão justa como
elaborar um estudo sobre o quantitativo das rendas era a do desmembramento da diocese de Évora, que
que deveriam ser atribuídas à nova diocese e das que se impunha, em virtude da sua exagerada vastidão.
ficariam na diocese-mãe. Dela faziam parte o deão Ao mesmo tempo que os intimava a justificarem
(v. DIGNIDADES ECLESIÁSTICAS), o Dr. Pedro Fernandes, imediatamente a sua posição, advertia-os de que se
Martins Trigueiro, mestre Paio e Diogo Mendes de essas razões não fossem justas e suficientes, assumi-
Vasconcelos ( c f . ASE - fl. 51; BAPTISTA - Limites, ria ele próprio a responsabilidade da divisão (Sine
p. 36). O projecto henriquino de divisão atribuía à ullo vestro consensu) (CF. CORPO, vol. 10, p. 351-
futura diocese as freguesias de Elvas, Monforte, Ca- -352). As razões invocadas pela bula papal eram as
beço de Vide, Alter Pedroso, Alter do Chão, Seda, seguintes: as povoações de Olivença, Campo Maior
Fronteira, Veiros, Alandroal e Juromenha. Confina- e Ouguela, sitas no reino de Portugal, distavam da
ria, pois, com os termos das freguesias eborenses de diocese de Ceuta, a que pertenciam, cerca de cem
Avis, Sousel, Estremoz, Borba, Vila Viçosa, Redon- léguas; a vastidão geográfica e demográfica da ar-
do e Terena (cf. ASE - Projecto; BAPTISTA - Limites, quidiocese de Évora* impedia a frequência das visi-
p. 34-36). Não conseguiu o cardeal levar por diante tas pastorais e dificultava a eficácia do governo
o seu plano de criação das duas dioceses durante o episcopal; a cidade de Elvas, com cerca de três mil
tempo em que esteve à frente do arcebispado de fogos, estava estrategicamente situada em relação
Évora. O projecto dc fundação da diocese dc Beja às mencionadas vilas de Olivença, C a m p o Maior e
foi depressa abandonado (v. BEJA). Quanto ao de El- Ouguela; a sumptuosidade e nobreza da igreja ma-
vas, o cabido moveu-lhe tal oposição que o fez tra- triz, dedicada a Santa Maria, creditavam a sua apti-
var durante cerca de dez anos. Ao assumir o governo dão para sede episcopal. Com base nestes argumen-
do país, D. Sebastião retomou o plano encetado pelo tos, Pio V, através da bula Super cunctas, de 9 de
tio. O rei viu no falecimento do bispo D. James de Junho de 1570 (cf. IGREJA - Super) fundou a diocese
Ceuta a conjuntura histórica favorável para desmem- de Elvas, como sufragânea da arquidiocese de Évo-
brar dessa diocese africana as vilas de Olivença, ra. 2. Organização material e espiritual: O primeiro
Campo Maior e Ouguela, que se encontravam dema-

IOI
ELVAS

bispo da diocese de Elvas foi D. António Mendes de


Carvalho (1571-1591), que, de acordo com o texto
da bula Super cunctas, passou a gozar da jurisdição
própria e total de bispo residencial, sem ficar depen-
dente, como coadjutor a título pessoal, do arcebispo
dc Évora, como estava previsto pelo projecto inicial
do cardeal D. Henrique. Ainda de acordo com a letra
da bula, foi atribuído ao bispo de Elvas o direito de
receber os proventos da cidade de Elvas e das vilas
de Olivença, Campo Maior, Ouguela, Juromenha,
Alandroal e Veiros, bem como o do priorado da Igre-
ja de Santa Maria de Elvas, cujo padroado, perten-
cente a D. Francisco de Melo, conde de Tentúgal, se-
ria extinto, e ainda os benefícios eclesiásticos
existentes na mesma igreja, logo que os respectivos
detentores anuíssem ou aqueles viessem a vagar. Os
proventos das restantes povoações continuariam a
pertencer ao arcebispo de Évora, ainda que a jurisdi-
ção espiritual ficasse exclusivamente dependente do
bispo de Elvas. Nestas terras, o prelado elvense fica-
ria apenas com o direito de receber os emolumentos
decorrentes das visitas episcopais e de outros servi-
ços espirituais {Ibidem). D. António Mendes de Car-
valho apressou-se a instituir o cabido, que dotou das
dignidades de deão, chantre, arcediago, mestre-
-escola e tesoureiro, e de dez cónegos de prebenda
inteira e dois de meia prebenda. A bula de erecção
do bispado exigia que um dos cónegos fosse mestre
em Teologia*, recebendo o nome de cónego magis-
tral, e outro, doutor em Decretos, com o nome de có-
nego doutoral. Estas conezias deviam ser providas
por concurso, a que apenas tinham acesso graduados
das universidade de Coimbra* e Évora (Ibidem).
Em 1579, Gregório XIII permitiu que, não existindo
candidatos com os referidos graus, pudessem candi-
datar-se a essas conezias bacharéis das mesmas uni-
versidades e, no caso de também os não haver, ou-
tras pessoas idóneas, graduadas ou não em outras
universidades ( A L M E I D A - História, vol. 2, p. 60-61). Exterior da igreja catedral de Elvas.
No final do século xvn e início do século xvin, a Sé
de Elvas distribuía assim os vencimentos ao seu pes- pelas tropas espanholas, em Maio de 1801, o bispo
soal: o deão recebia duas prebendas no valor de du- de Elvas, D. José da Costa Torres, continuou a exer-
zentos mil-réis cada; as outras dignidades, uma pre- cer a jurisdição sobre aquele território, mas perdeu
benda e um quarto cada uma; cada cónego, uma os respectivos dízimos, que representavam cerca de
prebenda; o mestre-de-capela e o organista, meia dez mil cruzados. Essa situação comprometeu seria-
prebenda cada um; os quartanários distribuíam entre mente a subsistência económica da diocese, na me-
si uma prebenda; o prebendeiro, duas terças partes dida em que representava cerca dc dois terços do seu
de prebenda; o sacristão e o sineiro repartiam uma rendimento total. Pressionado pela Espanha, o papa
terça parte de prebenda (ef. C O S T A - Corografia, Pio VII, pela bula de 10 de Outubro de 1802, inte-
vol. 2, p. 355; A L M E I D A - História, p. 103). Porque grou na diocese de Badajoz a cidade de Olivença,
estrategicamente situadas num dos mais importantes com as paróquias de Santa Maria do Castelo e Santa
eixos viários de ligação de Portugal com a Espanha, Maria Madalena, e as povoações e territórios de São
a cidade e a diocese de Elvas foram nefastamente Bento, São Domingos, São Jorge, Talega e Vila
afectadas pelas Invasões Francesas. Aí se instalou Real. Para compensar economicamente a diocese de
uma guarnição de 1300 soldados franceses que a Elvas pela amputação das referidas paróquias, o
submeteram a dura prova. A figura influente e apazi- mesmo papa, através da bula Cunctis ubique notum,
guadora do seu bispo, Azeredo Coutinho, foi provi- de 19 de Setembro de 1808, anexou-lhe provisoria-
dencial, na medida em que, por um lado, conseguiu mente a quarta parte dos rendimentos da mitra de
suster o impeto devastador dos invasores e, por ou- Beja. Contrafeita, esta diocese aceitou teoricamente
tro, após a capitulação de Junot em Sintra, em 30 de o encargo, mas na prática acabou por não o cumprir
Agosto de 1808, impediu os Espanhóis de atacarem (Ibidem, vol. 3, p. 11). 3. Extinção: A diocese de El-
e ocuparem a cidade e susteve os instintos de vin- vas teve de suportar, a par das graves dificuldades
gança do povo, que teimava em dizimar os soldados económicas que afectaram a Igreja em Portugal ao
franceses. Após a conquista da praça de Olivença longo do século xvin, os reveses das lutas liberais.

02
EMBAIXADORES D E P O R T U G A L J U N T O DA S A N T A SÉ

D. Frei Ângelo de Nossa Senhora da Boa-Morte foi tempo da sua extinção; o interesse dos fiéis, das con-
nomeado por D. Miguel bispo de Elvas em 16 de frarias, das ordens terceiras, das associações de pie-
Abril de 1832 e tomou posse por procuração em 7 dade e de 16 dos 20 sacerdotes que então trabalha-
de Março do ano seguinte, mas não chegou a entrar vam no território da antiga diocese, dos quais três
na diocese porque o governo de D. Pedro o não co- não assinaram a petição por se encontrarem ausentes
nheceu como bispo, nomeando, sucessivamente, três e um por, assumidamente, se ter recusado a fazê-lo;
governadores temporais, que conseguiu fazer eleger a existência de um vicariato-geral e de uma câmara
como vigários capitulares pelo cabido. Só em 1841, eclesiástica própria; a garantia de uma residência
por decreto de 2 de Julho, acabou por reconhecer condigna para o prelado no edifício da Ordem Ter-
D. Ângelo como bispo de Elvas. Desde então até à ceira de São Francisco (V. O R D E N S T E R C E I R A S ) ; e, além
morte, em 27 de Julho de 1852, a diocese viveu den- disso, as condições económicas requeridas para pôr
tro da normalidade eclesiástica. A partir dessa altura, em funcionamento a futura diocese (cf. APE. IV-
seguiu-se um interregno de vacância episcopal de 29 -D/21). A ser restaurada, a diocese de Élvas viria a
anos, durante o qual foi administrada por um vigário ficar com uma área de 250 quilómetros quadrados e
capitular. A vacância da mitra de Elvas prende-se uma população de 73 837 habitantes, distribuída por
com o facto de o Estado português, com base na 42 paróquias, isto é, por mais cinco do que as que
concordata então vigente, se negar a apresentar um possuía ao tempo da extinção. Apesar de todas estas
novo bispo, interessado como estava em suprimir a diligências, a Santa Sé não achou oportuna a restau-
diocese, o que veio a acontecer em 1881, através da ração da diocese de Elvas e o processo foi definitiva-
bula Gravissimum Christi, de 30 de Setembro, com mente abandonado.
que o papa Leão XIII confirmou, não sem «grande JOAQUIM C H O R Ã O LAVAJO

mágua», a supressão das dioceses de Elvas, Aveiro,


BIBLIOGRAFIA: A L M E I D A , Fortunato dc - História da Igreja em Portugal.
Castelo Branco, Leiria e Tomar e o priorado do Cra- Porto: Portucalense Ed., 1 9 6 7 - 1 9 7 1 . 4 vol. APE (Arquivo do Paço dc
to (cf. APE. 1V-D/21). A diocese de Elvas foi então Évora). Petição da restauração da diocese de Elvas. A S E . Cód. Questão
incorporada na de Évora. Depois de uma existência de Elvas. IDEM. Livro de Originais. Projecto de erecção dos bispados de
Elvas e Beja (cardeal D. Henrique). Cód. EE 20-i. IDEM. Livro dos
de 311 anos, sob o báculo de 25 bispos e regendo-se Acórdãos. Çód. C E C 13-iv BAPTISTA, Júlio César - Limites da diocese
por constituições sucessivamente aprovadas e reno- de Évora. Évora, 1 9 7 2 . IGREJA C A T Ó L I C A . Papa (Pio V ) - Super cunctas:
[Bula de 9 dc J u n h o de 1 5 7 0 ] . In A L M E I D A , Fortunato dc História da
vadas por quatro sínodos diocesanos (em 1572, Igreja em Portugal. Porto: Portucalense Ed., 1 9 6 7 , vol. 4, p. 1 8 1 - 1 8 9 .
1633, 1652 e 1720), terminava os seus dias através CORPO Diplomático Português. Lisboa: Typ. Acad. Real de Ciências,
da sentença executória da bula papal, lavrada pelo 1 8 6 2 - 1 9 3 6 . 1 5 vol. C O S T A , António Carvalho da Corografia portu-
guesa. Braga. 1868, vol. 2. NOVAIS, António G o n ç a l v e s de - Relação do
cardeal D. Américo, bispo do Porto, em 4 de Setem- bispado de Elvas, com hum memorial dos senhores bispos que o gover-
bro de 1882. Nessa altura, a catedral de Elvas conta- narão. Lisboa, 1635.
va com cinco dignidades, 12 cónegos, seis quartaná-
rios, 12 beneficiados, quatro capelães, um organista EMBAIXADORES DE PORTUGAL JUNTO DA SANTA
e 16 empregados menores (cf. APE. II-D/69). Por SÉ. A consideração do processo histórico que regeu
provisão de 18 de Outubro de 1882, o arcebispo de as relações entre Portugal e a Santa Sé*, visível no
Évora, D. José António Pereira Bilhano, criou e se- enumeramento dos embaixadores e representantes
deou em Elvas um distrito eclesiástico que funcio- lusitanos na cúria papal, deve entender-se de forma
nou até 1965, dotado de um vigário-geral residente, plural. Em praticamente nove séculos de história di-
com câmara eclesiástica própria e com jurisdição so- plomática, as relações de Portugal com Roma mol-
bre os concelhos de Elvas, Assumar, Campo Maior e daram-se pelas mais diversificadas circunstâncias
Monforte. Hoje, Elvas está reduzida a uma sede de históricas, conhecendo momentos de franca entreaju-
vigariaria da vara, que integra as paróquias dos refe- da, como também de tensão, conjugando-se, nesse
ridos concelhos. 4. Tentativa de restauração: A par- eixo de relacionamento diplomático, os equilíbrios e
tir da década de 30 do presente século, formou-se na distorções próprias de dois Estados com histórias di-
cidade de Elvas um movimento, que viria a irradiar ferenciadoras mas também interdependentes. Na
por todo o território da antiga diocese, apostado em análise histórica das relações entre Portugal e a San-
restaurá-la. Esse movimento, liderado por monse- ta Sé há que olhar para dentro de ambos os lados,
nhor Martinho Maia, com conhecimento neutral do que não apenas a visão interna portuguesa. Questões
então arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da como a formação de Portugal e o processo que leva
Conceição Santos, instruiu um processo que enviou à promulgação do decreto Manifestis probatum, pelo
para Roma em meados de 1943, acompanhado de cisterciense Alexandre III, em 1179, têm sido trata-
cerca de 520 assinaturas das mais variadas personali- das pelos historiadores apenas sob o ponto de vista
dades eclesiásticas e civis. De entre as muitas razões português. Mas é possível, também, observar o lado
então apresentadas para a restauração da diocese de interno da Santa Sé e do que factos políticos da mag-
Elvas, algumas das quais foram importadas do pro- nitude desse, na história estrutural das relações entre
cesso que, no século xvi, justificara a sua criação, estes dois Estados, representam enquanto tópico va-
avultavam as seguintes: a exagerada extensão da ar- lorizador da importância que Portugal, governado
quidiocese de Évora; a importância de Elvas, consi- por reis fidelíssimos, deteve no que respeita à (sobre)
derada a segunda povoação da arquidiocese, logo a vivência e afirmação histórica da Santa Sé. Relaciona-
seguir à cidade metropolitana; a inexistência de afi- mento que se fez de diferenciações e até de algumas
nidades económicas e culturais com Évora; o facto surpreendentes ausências e silêncios. Portugal bem se
de a Igreja de Santa Maria já ter desempenhado as diferencia de Espanha, por exemplo, pela escassa ga-
funções de catedral; uma população superior à do leria de lusitanos no colégio cardinalício ao longo

103
EMBAIXADORES D E P O R T U G A L J U N T O DA S A N T A SÉ

dos séculos ou pela ainda mais rara capacidade de largos decénios, uma posição de ribalta no que toca-
conjugar interesses e espíritos para a eleição de su- va às decisões pontifícias sobre o orbe cristão. Qua-
mos pontífices seus naturais (apenas João XXI). As trocentos foi, sublinhe-se, um período muito signifi-
relações diplomáticas de Portugal com a Santa Sé cativo no que toca à concretização dos interesses
conheceram períodos históricos distintos entre eles. portugueses na cúria papal. Como o demonstra o nú-
Na longa duração, são diferentes os interesses e pro- mero de cardeais portugueses então nomeados ou o
blemas políticos tratados, por exemplo, até cerca de apreço dos vigários de Cristo pela abertura da Coroa
finais do século xin e desde então até ao fim do sécu- para participar dc forma efectiva na(s) cruzada(s)
lo xv. O primeiro desses períodos comporta um ele- contra o Turco, como se comprova na permanente
vadíssimo conjunto casuístico de apelos junto da disponibilidade revelada para colaborar nesse intento
Santa Sé motivados pelas guerras da Reconquista*, por D. Afonso V. Novo período, aliás, se abre após
pela questão espiritual cruzadístico-militar, pela or- 1498, depois da chegada dc Vasco da Gama à índia*,
denação jurídica canónica e a sua promoção em Por- reinando D. Manuel, a ponto de entre Portugal e a
tugal no quadro das relações sociais e políticas entre Santa Sé se iniciar, com João de Faria (1512-24), o
a Espada e a Cruz, entre o Trono e o Altar. Esse foi o ciclo dos embaixadores portugueses permanentes na
período longo das concordatas sistematicamente re- Cidade Eterna e dos núncios desta em Portugal.
novadas entre os monarcas lusíadas e os pontífices, Tempo, aliás, de (re)afirmação portuguesa no palco
das permanentes intervenções papais sobre questões internacional. Depois do significado dc um Tratado
matrimoniais da realeza, dos interditos sobre dioce- de Tordesilhas, que o papa Alexandre VI promulga-
ses do reino, sobre algum dos seus mosteiros ou, rá, Portugal não se poupa a demonstrar à Europa o
mais globalmente, sobre todo o país. Alguns reis poder do seu rei e a sua riqueza imperial. Nesse
portugueses de então conheceram o que era estar-se campo se insere a célebre embaixada de Tristão da
excomungado ou o que era a reconciliação e a ce- Cunha ao romano pontífice Leão X, em 1514, aconte-
dência aos interesses poderosos do Altar na hora da cimento que tão profundamente impressionou Roma,
morte. Tempo duro, aliás, em que a fortaleza do pa- inspirando poetas e artistas como Rafael ou Bernini
pado, alicerçada no governo augusto de Inocên- (o célebre elefante usado na embaixada seria esculpi-
cio III, se impunha sobre o rei dos Portugueses. do por este último artista a fim de ficar exposto na
Após 1350, mormente com a sobrevinda do cisma de Praça de Minerva). Época, também, de (relançamen-
1378-1418, a Igreja-Estado enfraquece, passando a to de utopias e dc projectos políticos universais a
dominar o maior poder dos Estados e das monar- que o rei de Portugal se propunha servir de esteio.
quias como a portuguesa. O apoio do rei dos Portu- Caso do projecto de missionação, protagonizado jun-
gueses é desejado por qualquer um dos papas e anti- to da cúria pontifícia por Frei Henrique de Coimbra,
papas. Clemente VI bem o sentiu entre 1381 e 1382, sobre a conquista da Terra Santa. Menos utópica foi
quando D. Fernando I pende para Avinhão; e logo a consagração jurídica dos direitos do padroado por-
depois Urbano VI, pontífice romano, amparado pela tuguês no império, como, também, a prática que os
monarquia inglesa, reino de onde sairia a.consorte pontífices vão cumprindo de aceitarem as apresenta-
do novo rei de Avis, D. João 1, D. Filipa de Lencas- ções dos monarcas portugueses dos bispos para as
tre, em testemunho de uma sempre renovada aliança dioceses do seu território, das propostas de fundação
anglo-lusa, que acabaria por impor Portugal como de novas dioceses ou, sobremodo, a cedência roma-
mais uma peça de extremo significado no tabuleiro na aos interesses veiculados junto do sólio de Pedro
sensível do xadrez político europeu que opunha Ur- por D. Miguel da Silva, por Brás Neto e por Frei
bano VI aos avinhonhenses. Em Santarém, aliás, em Diogo da Silva para se obter a concessão do Tribunal
Fevereiro de 1383, um dos anticardeais que maiores do Santo Ofício (v. INQUISIÇÃO), segundo o modelo
responsabilidades detinha no cisma, D. Pedro de Lu- espanhol, o que se alcançaria, não sem reveses, em
na, que o destino faria também papa cismático, sob o 1531, vindo a confirmar-se em 1536. Os séculos mo-
título de Bonifácio XIII, receberia um vigoroso con- dernos, contudo, traziam outras potências políticas
tra-ataque, e humilhante vexação, às posições toma- aos palcos da história internacional, reforçando-se o
das contra o sucessor legítimo de São Pedro, prota- imperialismo habsburguiano e declinando o impacte
gonizado pelo cónego Rui Lourenço, deão de português. Mas numa Europa dividida pelo carisma
Coimbra ( A L M E I D A - História, vol. 1, p. 379). De- protestante, Portugal enviaria ainda a Trento alguns
pois, não só triunfa Roma, como Portugal anima o dos mais notáveis teólogos que o concílio conheceu.
Concílio de Constança, anunciando-lhe a conquista Apesar das fraquezas da Coroa lusa no campo da po-
de Ceuta pelos embaixadores Gil Martins e Vasco lítica internacional, agravadas pelo política espanho-
Gil Peres, abrindo uma nova era no combate aos in- la contrária aos interesses lusos, particularmente em
fiéis, que tantos êxitos e avanços conhecia na Europa Seiscentos, Portugal mantinha um império ultramari-
de Leste, como também iniciando o seu processo no pujante de riquezas que o açúcar ou o ouro brasi-
histórico atlântico-expansionista que lhe daria, du- leiros lhe proporcionavam. Por ele passavam ainda
rante séculos, os direitos sobre o padroado missioná- muitas das esperanças dos católicos romanos apostó-
rio cristão de praticamente metade do planeta. Não licos. O menor impacte político português no cons-
ignoraria Martinho V, numa Igreja finalmente reuni- pecto dos Estados europeus da época, desde então, é
ficada, o papel diplomático atlântico-europeu portu- contemporâneo de uma reascensão do poderio da
guês, o mesmo se escrevendo sobre todos os seus su- Santa Sé. A criação da Propaganda Fide e dos vigá-
cessores, que passam a receber de Portugal um apoio rios apostólicos, gestores eficazes de uma outra or-
considerabilíssimo, ocupando o nosso país, durante dem missionária e proselitista mundial, dificultava o

104
EMBAIXADORES DE P O R T U G A L J U N T O DA S A N T A SÉ

histórico monopólio português nessa matéria. As re- transformam Roma num dos principais pontos da di-
lação entre Portugal e a Santa Sé, particularmente no plomacia mundial da segunda metade de Oitocentos.
reinado de D. João V, conhecem, posto que não sem Em 1857, Pio IX e o rei D. Pedro V assinaram uma
turbulências a que a concordata* de 1737 pôs fim, nova concordata regulamentadora do Padroado Por-
uma época de profícua concessão mútua de honra- tuguês no Oriente. Foi também significativa a posi-
rias e privilégios simbólicos conseguidos, sobretudo, ção portuguesa mediadora no contexto da reunifica-
pela actuação dos embaixadores André de Melo e ção italiana, nomeadamente por causa do casamento
Castro e D. Frei José Maria da Fonseca e Évora. De- de D. Luís com D. Maria Pia de Sabóia, filha do rei
las resultava a garantia para Portugal de poder inter- Vítor Manuel II. No contexto da Questão Romana,
ferir na nomeação dos núncios para o Padroado do Pio IX conseguiria, no concílio de 1869 (a que assis-
Oriente, na regulação dos seus poderes, na sua pro- tiram os bispos portugueses de Lamego, Funchal,
moção ao cardinalato, no provimento de benefícios Algarve e Cabo Verde*) a consagração do dogma da
eclesiásticos e na concessão ao arcebispo-patriarca infalibilidade papal. O ministro português junto do
de Lisboa da inerência cardinalícia. Ao monarca Vaticano, António Bernardo da Costa Cabral, conde
português cumpria, quando oportuno, a imposição e depois marquês de Tomar, defenderá intransigente-
do solidéu cardinalício ao núncio residente em Lis- mente os direitos do Papa que o novo Estado italiano
boa. Privilégios a que correspondiam as generosíssi- procurava cercear. Neste contexto se processa a
mas e magnificentes dádivas monetárias com que anuência pontifícia de Leão XIII, em 30 de Setembro
D. João V e D. José presenteavam os papas, mor- de 1881, pela bula Gravissimum Christi, às reformas
mente Bento XIV. Em 1760, em pleno período domi- administrativo-eclesiásticas portuguesas, determi-
nado pelo agnosticismo pombalino, Portugal conse- nando a extinção de várias dioceses do reino e a re-
gue mesmo interferir na vida da Igreja, participando definição das fronteiras das que permaneciam. Uma
activamente na extinção dos Jesuítas* e não temendo nova concordata seria aprovada em 23 de Junho de
mesmo expulsar o núncio romano em Lisboa, ini- 1886, negociada entre Leão XIII e D. Luís, pelos mi-
ciando um período de suspensão de relações entre nistros plenipotenciários cardeal Camilo di Pietro e
ambos os Éstados que duraria até 1770. A difícil os representantes do governo português Rodrigo da
afirmação do liberalismo político em Portugal (que Fonseca Magalhães, João Baptista da Silva Serrão
não teve o apoio esmagador do clero nacional, antes de Carvalho Martins e o cardeal Luís Jacobini. Por
a sua oposição declarada e/ou tácita) e a opção de ela, definiam-se as novas circunscrições das dioceses
Gregório XVI, em 2 de Fevereiro de 1831, pelo re- portuguesas e regulamentava-se o exercício do direi-
conhecimento de D. Miguel como legítimo monarca to do Padroado Português no Oriente. Neste período,
português, com a promulgação do decreto Solicitudo Portugal procura no Vaticano um apoio para os seus
ecclesiarum, contribuíram para um novo período de interesses históricos em África. Apoio aparentemen-
tensão e mesmo de suspensão de relações diplomáti- te pouco eficaz, não conseguindo o país, em 1890,
cas com a Santa Sé após o triunfo liberal. D. Pe- impor o seu Mapa Cor-de-Rosa na partilha europeia
dro IV imporia mesmo a saída de Portugal do núncio do continente africano. Em 1892, o papa atribuiu à
Justiniani, criando-se condições sociais e psíquicas rainha D. Amélia a Rosa de Ouro. No ano seguinte,
favoráveis à extinção das ordens religiosas e à «na- Leão XIII, em ambiente de profunda simpatia que
cionalização» do clero secular como viria a suceder lhe fora motivado pelas preocupações sociais que re-
em 1834. Em compensação, o papa extinguira o pa- velara no seu pontificado, comemoraria o seu jubileu
droado português nos territórios ultramarinos não episcopal com cerimónias públicas extremamente
sujeitos a Portugal, fechando também a nunciatura concorridas pelo corpo diplomático presente em Ro-
de Lisboa. Esses anos revolucionários da história ma, representando então Portugal o Doutor João
portuguesa constituíram um dos capítulos «mais de- Baptista da Silva Ferrão de Carvalho Martins. Em 20
licados da diplomacia portuguesa» (J. Veríssimo Ser- de Agosto de 1894, no conclave para a eleição do
rão). Em 1835, contudo, é enviada uma primeira le- novo pontífice, Portugal, pelo seu embaixador Mi-
gação a Roma, chefiada pelo visconde Carreira, a guel Martins de Antas reclamou, e obteve, o direito
qual relança o diálogo entre os dois Estados. Entre ao «veto de exclusão», tal como o tinham a Espanha,
1838 e 1853, as relações diplomáticas entre Portugal França e Áustria, o que lhe permitiria, teoricamente,
e a Santa Sé seriam asseguradas por João Miguéis de interferir na escolha do novo sumo pontífice. A elei-
Carvalho e Brito, barão da Venda da Cruz, reencon- ção de Pio X, contudo, demonstraria que esse direito
trando a sua plena normalização. Em 1841, no pós- não passava, então, de um mero simbolismo. Na opi-
-setembrismo e em ambiente já de regeneração polí- nião pública portuguesa de finais de Oitocentos,
tica, restabeleceram-se oficialmente as relações contudo, crescia a simpatia pelo ideário republicano
diplomáticas, as quais se mantiveram sem grandes e espalhava-se o anticlericalismo. Foram particular-
sobressaltos até à proclamação da República em mente difíceis os anos que se seguiram à proclama-
1910. Dessa retomada é bom indício a concessão por ção da República. Pio X tentou intervir junto do go-
Gregório XVI à rainha D. Maria II, em 1842, da Ro- verno português, contra as medidas anticlericais
sa de Ouro. A evolução dos nacionalismos europeus, decretadas pelo novo poder republicano, nomeada-
nomeadamente o papel desempenhado pelo Império mente com a bula Jamdudum in Lusitania, promul-
Austro-Húngaro bem como pela Alemanha de Bi- gada em 1911 e confirmada no ano seguinte. Mas a
smark, a evolução do Império Britânico, os interes- divulgação desta foi proibida no país. As tensões po-
ses políticos em torno da colonização do continente líticas atingiram o ponto de ruptura das relações di-
africano, de que Portugal era uma peça sensível. plomáticas entre os dois Estados em 1913. Desde

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EMBAIXADORES DE P O R T U G A L J U N T O DA S A N T A SÉ

1917 que se sentiu uma notória melhoria no relacio- Salvador do Congo, 1967; Benguela, 1970) e cm
namento entre Portugal e o Vaticano, renascendo Moçambique* (Quelimane, 1954; Porto Amélia,
também em Portugal a devoção popular sobretudo 1957; Inhambane, 1962; Tete, 1962; Vila Cabral,
mariana como o comprovam as aparições de Fátima 1963). Depois da revolução de 25 de Abril de 1974,
(Maio a Outubro desse ano). Prova dessa melhoria é num contexto de evolução social, a Concordata foi
também a restauração de antigas dioceses extintas revista no seu artigo xxiv, por protocolo adicional de
em finais de Oitocentos (v. g. Leiria, Aveiro ou Vila 15 de Fevereiro de 1975, passando a permitir-se aos
Real) e o ingresso (e regresso) de novas e antigas casados catolicamente a obtenção do divórcio. /. Os
congregações religiosas. Com Sidónio Pais restabc- embaixadores: O estatuto social e político dado a
leceram-se as relações diplomáticas com a Santa Sé, embaixadores, na plenitude dos tempos tardo-me-
em 9 de Julho de 1919, sendo nomeado para a lega- dievais, não era igual em todos os Estados. A imuni-
ção portuguesa no Vaticano Forbes Bessa, como mi- dade diplomática que os tempos contemporâneos
nistro plenipotenciário, a que se seguiu o Doutor consolidaram não se aplicava como sistema naqueles
Joaquim Pedro Martins, com igual estatuto, perma- séculos. Perigosas eram as viagens, seja por terra,
necendo este no cargo até 1924. Em 16 de Abril de seja por mar, ficando as comitivas sujeitas a contin-
1919, chegaria a Lisboa o núncio monsenhor Aquiles gências que passavam por roubos, perigo de vida e
Locatelli, acto que assinalou a completa normalização outros infortúnios que recheavam normalmente mis-
das relações diplomáticas entre os dois Estados. Em sões espinhosas. Em 1391, D. João I ao premiar os
1922, tendo sido o núncio elevado à púrpura cardina- serviços do bispo portuense D. João Esteves como
lícia, seria mesmo o chefe de Estado, Dr. António embaixador em Roma não deixa de recordar «como
José de Almeida, a impor-lhe o solidéu, gesto que duas vezes, pondo seu corpo em aventura, foi por
evocava a tradição oriunda do reinado de D. João V. nosso embaixador à corte de Roma, aderensar nos-
Em 15 de Abril de 1928, Portugal e a Santa Sé con- sos feitos, e negocios, que nos muito cumpriam; e os
cordaram numa remodelação das regras de nomeação aderensou segundo anos fazia mister» de que resul-
de prelados para as dioceses das índias Orientais, taram «muitos estremados serviços que nos e estes
circunscrevendo-se também as dioceses luso-asiáti- Reinos recebemos» ( A L M E I D A - História, vol. 1,
cas e luso-africanas. Desde aí, a diocese de Goa*, p. 408). A protecção e tratamento honorável dispen-
com o título de patriarcal, estenderia a sua jurisdição sado por alguns reis e príncipes, como papas e car-
a Damão e a Diu, passando o seu prelado a designar- deais, a embaixadores portugueses, contrastaria, não
-se arcebispo de Goa e Damão. O arcebispo de Bom- raramente, com as dificuldades levantadas cm rece-
baim seria alternadamente português e britânico. Nas ber os embaixadores e seus séquitos em audiência ou
sés de Cochim, São Tomé, Meliapor e Macau, a no- mesmo com a recusa a prestar-lhes qualquer trata-
meação de bispos far-se-ia também cm candidato mento amigável ou de distinção diplomática. Mau
português, o que, simbolicamente, preservava a tra- grado isso, a tradição ocidental, nomeadamente a
dição histórica da presença lusíada no antigo patriar- que derivava dos códigos militares bélicos, impunha
cado das índias. De 1928 a 1931, a legação portu- alguma normalidade nos regimes protocolares que
guesa no Vaticano não teve representante oficial. rodeavam a recepção de embaixadas e a equiparação
Mas a consolidação no poder de Salazar imporia a simbólica do embaixador à pessoa do próprio mo-
manutenção de embaixador próprio junto do sumo narca emissário. A assuntos importantes e melin-
pontífice. Entre 1931 e 1934, o Dr. Alberto de Oli- drosos cumpriria uma escolha dc embaixadores
veira, como ministro plenipotenciário, acumularia a adequados e suficientemente aptos para os efeitos
representação portuguesa no Quirinal e no Vaticano. pretendidos. Nem todos os assuntos de Estado exi-
No contexto da evolução mundial para a extinção giam uma mesma categoria de representantes, além
dos ciclos imperiais, Portugal viu declinar a sua in- de que as relações diplomáticas, no caso em análise
fluência no controlo dos quadros institucionais reli- as que tocam a Portugal e à Santa Sé, tiveram mo-
giosos das colónias ultramarinas. Já em 1928 se defi- mentos políticos muito favoráveis como também co-
niram, como escrevemos, pela Santa Sé, importantes nheceram períodos de tensão e mesmo de suspensão
restrições ao monopólio português do padroado nos de contactos. Ser-se embaixador, até à época con-
territórios coloniais que ia controlando, de que um temporânea, pressupunha um bom conhecimento da
dos sintomas foi a extinção da diocese de Damão. língua latina, mais do que das línguas c dialectos itá-
A concordata de 1940 e o Acordo Missionário*, do licos do tempo, aspecto tão mais significativo quanto
mesmo ano, ambos assinados em plena Segunda se tratasse de missões junto da Santa Sé. Não espan-
Guerra Mundial e num momento triunfal das políti- ta, assim sendo, que uma parte numerosa dos embai-
cas fascistas europeias e germano-nazista, restringi- xadores portugueses nos Estados Pontifícios tenha
riam consideravelmente as prerrogativas portuguesas sido recrutada entre o clero ou entre os leigos letra-
nos territórios ultramarinos, diversificando o quadro dos da corte régia, tendo estes um passado escolar,
de recrutamento missionário que passava a evangeli- no entanto, que os envolvia, quase sempre, em estu-
zar e a europeizar os índigenas. Em 1950, a Santa dos colegiais ou universitários patrocinados pela
Sé, com acordo do Estado português, extinguiu lite- Igreja. Nos finais da Idade Média, notabilizaram-se
ralmente o que subsistia dos direitos desse padroado. embaixadores portugueses na Santa Sé como D. Pedro
Em contrapartida, o Vaticano erigiu toda uma nova Afonso, bispo do Porto, exilado na cúria de Clemen-
série de dioceses ultramarinas como Timor* e Gui- te VI durante alguns anos, vindo a exercer o cargo de
né* (1940) e, sobretudo, em Angola* (Sá da Bandei- embaixador de D. Afonso IV, em Avinhão, impres-
ra, 1956; Malanje, 1957; Luso, 1963; Carmona-São sionando o colégio cardinalício pela sua fluência e

io6
EMBAIXADORES DE PORTUGAL JUNTO DA S A N T A SÉ

elegância no domínio do latim. Um outro caso apre- João Beleágua, junto de Eugénio IV (1431-1447) e
ciável foi o de D. Garcia de Meneses, prelado de Nuno Fernandes Tinoco, procurador na cúria nos
Évora, que recitou diante de Sisto IV, em 1481, uma pontificados de Pio II, Paulo II e Sisto IV (1458-
oração latina extremamente elogiada por alguns dos -1484). É também do reinado de D. Duarte que nos
cardeais e eruditos presentes na audiência, como chega um formulário «per latim e linguagem» que
Pompónio Leto, o qual elogiou a «integram Latini regia os endereços diplomáticos da documentação
Sermonis puritatem», bem como a elegância, o orna- expedida com destino aos papas, ao concílio, ao co-
to verbal e o deleite da oração proferida, acabando légio cardinalício ou a algum cardeal em particular.
por reconhecer que tal embaixador «Lusitanorum in- Ao papa, D. Duarte dirigia-se como «humilis et de-
genia summe commendare caepit». Não menor fama votus vestrae sanctitatis filius [...] cum subiectione
de bom latino tinha o 4.° conde de Ourém, D. Afon- qua decet et reverentia tam debita quam deuota pe-
so, posto que, entre leigos, o domínio do latim pró- dum oscula beatorum». Ao Concílio de Basileia, o
prio das oratórias diplomáticas se trate de um fenó- monarca reconhecia-o como «legitime congregatae
meno bastante limitado. Era efectivamente dentro do universalem ecclesiam representanti» apresentando-
clero que, nessa época, se recutavam os melhores la- -lhe uma «filialem deuotionem legitimam et since-
tinos e, por conseguinte, os embaixadores mais aptos ram». Ao colégio cardinalício dirigia-se a correspon-
ao desempenho das missões junto da Santa Sé. De dência régia como a «reverendissimi in Christo
resto, as embaixadas correntes ou extraordinárias patres amicique nostri charissimi [...] debita reco-
junto de outros Estados laicos, mesmo quando che- mendatione proniissa». Finalmente, para um cardeal,
fiadas por um nobre da mais alta estirpe, não dispen- a chancelaria régia portuguesa utilizava um endereço
savam, na sua composição, a presença de um ou mais simples e comum, apresentando a saudação «in
mais bispos, ou doutros clérigos, o que lhes conferia eo qui vera est salus et actor salutis» ( L I V R O , p. 71,
dignidade e respeitabilidade, bem como alguns cléri- 181-182). É num quadro de promoção externa da
gos bons conhecedores de línguas, seja o latim (ou o Coroa que deveremos inserir as embaixadas extraor-
grego corrente se se tratasse de missões junto de Bi- dinárias enviadas pelo rei português a protestarem
zâncio), sejam quaisquer outras línguas vivas, desta- junto dos novéis pontífices máximos a simbólica
cando-se, nos finais da Idade Média, a língua france- obediência do reino ao sucessor de São Pedro. Os
sa, em moda nos ambientes cortesãos e preferida embaixadores então enviados a Roma, ou onde quer
para empresas heráldicas. Importante era também o que a cúria papal estanciasse, afirmavam-se como
árabe, particularmente junto das ordens mendicantes homens de grande cultura e erudição, proferindo em
(Franciscanos*, Dominicanos* ou Trinitários*, à elegante latim neoclássico, em audiência solene, as
frente de todos os demais, motivados sobretudo pe- orações de obediência que, algumas vezes, mereciam
las suas vocações empenhadas como missionários ou a impressão tipográfica. São conhecidos os textos
como intelectuais aptos na consumação de traduções pronunciados por Vasco Fernandes de Lucena (1485),
de textos de línguas orientais para a latina ou verna- D. Fernando de Almeida (1493), Diogo Pacheco
culares, bem como pelo seu empenho e participação (1505 e 1514), Aquiles Estaço (1560 e 1574), Antó-
no processo histórico português de conquistas de nio Pinto (1566) e António Velez Caldeira (1670).
praças magrebinas e do avanço das navegações De um modo geral, os séculos modernos caracteri-
atlânticas). Num conselho enviado pelo conde de zam-se pelo afinamento dos enjeux diplomáticos
Ourém ao rei D. Duarte, em 1433, propõe-se ao mo- protagonizados pelos representantes dos Estados nas
narca a escolha para embaixadas sensíveis que são suas relações externas. A base social de recrutamen-
«serviço de Deus» de homens «ousados e razoada- to de embaixadores permanece herdeira da medieva,
mente letrados», defendendo-se também serem boas predominando o corpo clerical, posto que, desde Se-
as embaixadas grandes por três razões: 1) por ser tecentos, se altere a composição em favor de leigos,
mais notificado a todo o mundo o assunto requerido, normalmente oriundos da nobreza cortesã ou saídos
«assim ao papa como a todos os outros príncipes das carreiras burocráticas e militares do Estado.
cristãos»; 2) porque isso motivaria na entidade visi- A legacia junto da Santa Sé é, cada vez mais, um lu-
tada «não haver empacho de negar» o que se lhe so- gar de promoção honrosa. Os representantes portu-
licitava; 3) porque «geralmente as pessoas se bem gueses que a alcançam têm nela um momento alto
entendidas são, arrecadam mais asinha as grandes do seu cursus honorum de serviços ao país. Casos
cousas que as outras pessoas somenos», além de houve, mesmo, em que se promoveu o aumento da
que, pelo grau dos embaixadores, assim se saberá «a titulatura simbólica dos embaixadores que aos anti-
grande tençom» na matéria pretendida. No reinado gos títulos nobiliárquicos acrescentam outros novos
do Eloquente, contudo, é já visível uma outra atitude e mais graduados. Como se poderá observar pela lis-
político-diplomática para com a cúria romana, de ta de representantes portugueses na Santa Sé, adiante
teor mais moderno, como o demonstra a opção régia exposta, foi muito frequente o «encontro» de vários
pela delegação num «procurador» residente, em Itá- diplomatas portugueses em Roma. Facto que se
lia, dos assuntos diplomáticos mais prementes. Não prende com as características dessas épocas recua-
é gratuitamente, aliás, que o célebre abade florentino das, em que os correios diplomáticos funcionavam
D. Gomes é frequentemente enunciado na corres- num tempo bastante mais lento que o de hoje em dia,
pondência diplomática como agente especialíssimo ou em que os jogos de interesses entre Portugal e
do monarca português junto dos Estados do sucessor Roma não dispensavam missões secretas. Por outro
de São Pedro. Com ele afirmam-se como embaixa- lado, os embaixadores extraordinários não dispensa-
dores ou legados del-rei, de forma efectiva, o Doutor riam, entre outras funções, o oficio de inspecção e de

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EMBAIXADORES D E P O R T U G A L J U N T O DA S A N T A SÉ

vigilância sobre as actividades correntes da legacia e interesses régios na cúria pontifícia); 1435 - Dou-
dos seus diplomatas permanentes. O processo histó- tor João Beleágua, embaixador efectivo junto do pa-
rico que molda as relações entre os Estados contem- pa Eugénio IV (1431-1447); 1440 - João Manuel e
porâneos evoluiu no sentido da exigência da profis- Uy da Cunha; 1447 - D. João de Ataíde, Diogo Soa-
sionalização e da especialização dos representantes res, Doutor João Fernandes da Silveira, mestre Lou-
diplomáticos portugueses no mundo e, por conse- renço, Rui Gomes, Pedro Lourenço de Almeida e
quência, também junto da Santa Sé. Dessa consciên- Luís Pires, capelão-mor (embaixada de obediência a
cia da diplomacia como uma arte de fazer política Nicolau V); 1452-1453 - João Fernandes da Silvei-
internacional e simultaneamente um meio eficaz de ra; 1455 - Nuno Fernandes Tinoco, D. João de Me-
defesa e de ganho para os superiores interesses do neses, mestre Afonso (embaixada de obediência a
país nos dão testemunho os escritos de diplomatas Calisto III); 1458 - Nuno Fernandes Tinoco e Diogo
portugueses dos séculos xvn e xvin, que são verda- da Silveira (embaixada de obediência a Pio II);
deiras peças de doutrina diplomática, expressos sob 1458-1484 - Nuno Fernandes Tinoco (procurador
forma epistolográfica (na qual caíam as «instruções» del-rei na cúria nos pontificados de Pio II, Paulo II e
e «advertências» dadas aos novos embaixadores), Sisto IV); 1461 - João Gomes de Abreu; 1471 - Lo-
como foram Cristóvão Soares de Abreu, José da Cu- po de Almeida e Doutor João Teixeira (embaixada
nha Brochado, D. Luís da Cunha, Luís António Ver- de obediência a Sisto IV); 1 4 7 4 - J o ã o Fogaça; 1481
ney ou Francisco de Sousa Coutinho ( M A G A L H Ã E S - - Frei João de São Mamede, Doutor Pedro Louren-
A Acção, p. 15-27). 2. Representantes de Portugal ço, Lourenço Abul, chantre de Évora, e D. Garcia de
na Santa Sé: 1143-1175 - D. João Peculiar (oito ve- Meneses, bispo de Évora (embaixada com a armada
zes enviado a Roma); 1234 mestre Vicente (bispo contra os Turcos); 1485 - Vasco Fernandes de Luce-
da Guarda); 1244 - mestre Silvestre Godinho (arce- na (profere oração de obediência a Inocêncio VIII);
bispo de Braga) e D. João Egas (futuro arcebispo de 1492 - cardeal Jorge da Costa e Henrique Coutinho;
Braga); 1245 - D.João Egas (arcebispo de Braga), 1493 - D. Fernando de Almeida, bispo eleito de
D. Pedro Salvador (bispo do Porto), D. Airas Vas- Ceuta (profere oração de obediência a Alexan-
ques (bispo de Lisboa), D. Tibúrcio (bispo de Coim- dre VI); 1495 - cardeal Jorge da Costa; 1496 - Pe-
bra), presentes no Concílio dc Lião; 1263 - bispos dro Correia; 1498 - Rodrigo de Castro, Henrique
de Coimbra (D. Egas Fafes) e de Lisboa (D. Ma- Coutinho e Fernando Coutinho; 1501-1502 - Fran-
teus); 1265-1268 - mestre Tomé (tesoureiro de Bra- cisco Lopes, Rui de Sousa e Diogo da Gama; 1505
ga) e Frei Afonso Pires Farinha (mestre da Ordem João Castelo Branco e Diogo Pacheco (profere ora-
do Hospital); 1271-1272 - Estêvão de Rates (cónego ção de obediência a Júlio II); 1505-1506 - Duarte
de Braga), João Pais (cónego de Viseu) e Afonso Ea- Galvão, Álvaro da Costa e João da Guarda (agentes);
nes (reitor de Santa Maria de Góis); 1276-1277 - Gil 1508 - Diogo de Almeida (agente); 1508-1511
Rebolo (deão de Lisboa); 1311 - Frei Estêvão (em- Francisco Juzarte (agente); 1512 - Bartolomeu de
baixador no Concílio de Vicnne); c. 1319 - Vicente Mendanha (encarregado de negócios); 1512-1514 -
Eanes, João Lourenço, cónego Pedro Pires; 1319- João de Faria (1.° embaixador permanente); 1513 -
-1320 - almirante Manuel Pessanha; 1320 - D. Gon- João de Castelo Branco; 1514 - Tristão da Cunha e
çalo Pereira; 1322 - Gomes Eanes; 1324 — Vasco Diogo Pacheco (profere oração de obediência a
Martins e o deão do Porto; 1330 - Lopo Fernandes; Leão X); 1515-1525 - Miguel da Silva; 1522 - A i r e s
1331, 1332 e 1334 - Doutor Pedro do Sem (chance- de Sousa, João Rodrigues (agentes) e João de Faria;
ler) e Airas Eanes; 1345 - João de Lisboa e Fernan- 1525-1527 - Martinho de Portugal; 1530-1532 -
do Gonçalves; c. 1351-1352 - mestre João Afonso e Braz Neto; 1532-1535 D.Martinho de Portugal;
Gonçalo Mendes de Vasconcelos; 1353 - Doutor Pe- 1534-1 536 - Henrique de Meneses; 1535-1546 - Ál-
dro de Corbiniaco e Rodrigo Gomes; 1357 - Álvaro varo Mendes de Vasconcelos (agente); 1536-1538 -
Sugério e João Lourenço; 1358 - Martinho Vasques, Pedro de Sousa de Távora; 1537-1540 - Pedro de
senhor de Góis; 1363, 1365 e 1366 - Vasco Martins Mascarenhas; 1539 - Cristóvão de Castro, Frei An-
e Geraldo Esteves; 1378-1383 - D. Martinho, bispo dré da Insua e António Homem (agentes); 1540-
de Évora (junto do papa de Avinhão); c. 1391 - -1542 - Cristóvão de Sousa; 1540 - Pedro António,
D. João Esteves, bispo do Porto; 1409 - Doutor Lan- António de Barros e Jorge de Barros (agentes);
çarote (ao Concílio de Pisa); 1411 - D. João Esteves 1542-1551 - Baltasar de Faria; 1542 - Frei André da
de Azambuja; 1415 - Doutor Gil Martins e Vasco Insua, Pêro Domênico e Frei João Calvo (agentes);
Gil Peres (no Concílio de Constança, onde anunciam 1542-1543 - Francisco Botelho (agente); 1545-
a tomada de Ceuta); 1417-1418 (Concílio de Cons- -1546 - João da Veiga (agente); 1547 - Simão da
tança) - Antão Martins (futuro bispo do Porto e car- Silveira; 1548 - João de Meneses; 1550-1559 -
deal) e Doutor Vasco Pires (depois bispo do Porto e Afonso de Lencastre; 1551 - Afonso de Lencastre e
de Évora); 1418 - infante D. Pedro; 1418...-1433 - Baltasar Faria; 1555 - Diogo Mendes de Vasconce-
João Rodrigues (secretário de D. Duarte e deão de los e Doutor António Lopes (agentes); 1559-1562 -
Lisboa); 1425 - Gomes da Silva; 1431-1447 - Dou- Lourenço Pires de Távora; 1560-1561 - António
tor Rui Gomes, Rui da Cunha, D. João (provincial Martins (agente); 1560 - Aquiles Estaço (profere
carmelita e depois bispo de Ceuta e da Guarda), Fer- oração de obediência a Pio IV); 1562-1564 - Álvaro
não Lopes de Azevedo, João Alves, Frei Gil de Tavi- de Castro; 1566 - António Pinto (profere oração de
ra; 1433-1438 - conde de Ourém, Doutor Lopo Vaz obediência a Pio V); 1566-1567 - Fernando de Me-
de Serpa, Doutor Vasco Fernandes, Frei Mestre An- neses; 1567-1568 - Álvaro de Castro; 1569-1572 -
dré do Prado, abade D. Gomes (agente principal dos João Telo de Meneses; 1574 - Aquiles Estaço (pro-

io8
EMBAIXADORES DE PORTUGAL JUNTO DA S A N T A SÉ

fere oração de obediência a Gregório XIII); 1574- de negócios); 1784-1785 - Diogo de Noronha (mi-
-1579 - João Gomes da Silva; 1575 - Doutor Antó- nistro); 1786-1788 - José Pereira Santiago (encarre-
nio Pinto (agente); 1580 - Francisco Barreto de gado de negócios); 1788-1790 - João de Almeida
Lima (embaixador especial); 1581 - João Gomes da Melo e Castro (ministro); 1790-1796 - Alexandre de
Silva; 1582 - Doutor António Pinto (agente); 1591 - Sousa Holstein (embaixador extraordinário e minis-
Francisco Vaz Pinto (agente); 1596 - Doutor Gonça- tro plenipotenciário); 1792-1802 - Luís Álvares da
lo Mendes de Vasconcelos (agente); 1599 - Dou- Cunha Figueiredo (encarregado de negócios); 1802-
tor Martim Afonso Mexia (agente); 1604 - José de -1803 - Alexandre de Sousa Holstein (plenipoten-
Melo (agente); 1610-1613 - Francisco Pereira Pinto ciário); 1804-1805 - Pedro de Sousa Holstein (en-
(agente); 1615-1618 - Salvador de Sousa; 1623- carregado de negócios); 1805-1816 - José Manuel
-1636 - Salvador de Sousa (agente); 1640-1644 - Pinto de Sousa (enviado extraordinário e ministro
D. Miguel de Portugal (embaixador), cónego Panta- plenipotenciário); 1814-1817 - conde do Funchal
leão Rodrigues (agente) e Rodrigo Rodrigues (secre- (embaixador extraordinário, permanecendo José Ma-
tário); 1641-1643 - Fernando Brandão (encarregado nuel Pinto e Luís Álvares da Cunha); 1818 - Luís
de negócios); 1641-1663 - padre Pedro Valadares, Álvares da Cunha (encarregado de negócios); 1819-
Manuel Roiz de Matos, Mário António Nobili e An- -1822 - Pedro de Melo Breyner (enviado extraordi-
tónio Lopes Arroio (agentes); 1643 - padre João de nário e ministro plenipotenciário); 1821 - José Seve-
Matos e Frei Fernando de Meneses (agentes); 1643- rino Maciel da Costa (encarregado de negócios);
-1654 - D. Vicente Nogueira (encarregado de negó- 1822-1824 - Carlos Matias Pereira, José Amado
cios); 1644-1646 - padre Doutor Nicolau Monteiro Grehon e João Pedro Miguéis de Carvalho (encarre-
(agente do estado eclesiástico e ministro em carác- gados de negócios); 1823-1828 - conde do Funchal;
ter); 1645-1650 - padre Nuno da Cunha (encarre- 1828-1840 - João Pedro Miguéis de Carvalho (en-
gado de negócios); 1646 - Frei Manuel Pacheco carregado de negócios); 1829-1831 - marquês de
(agente); 1646-1652 - Agostinho Castelete (ad ca- Lavradio (embaixador extraordinário de D. Miguel);
sum); 1647-1650 - padre António Vieira (ad casum)', 1840 - visconde da Carreira (ministro plenipotenciá-
1648-1650 - Doutor Manuel Álvares Carrilho (ad rio); 1841-1846 - João Pedro Miguéis de Carvalho
casum); 1648-1655 - abade de Intin (ad casum)', (ministro plenipotenciário); 1841-1849 - comenda-
1651-1663 - cardeal Orsini (ad casum)-, 1655-1659 - dor João Husson da Câmara (encarregado de negó-
Francisco de Sousa Coutinho; 1659 - padre Francis- cios); 1846-1855 - João Pedro Miguéis de Carvalho,
co de Távora (agente); 1663-1665 - Francisco Ma- com o título de barão da Venda da Cruz; 1853-1856
nuel de Melo (ad casum)-, 1663 - padre Gaspar da Husson da Câmara (encarregado de negócios);
Fonseca (agente); 1668 - padre Francisco de Villes 1854 - conde da Ponte (não tomou posse); 1855-
(ad casum)-, 1669-1670 - Doutor João da Rocha -1857 - José de Vasconcelos e Sousa (ministro ple-
Azevedo (residente); 1669-1670 - conde do Prado, nipotenciário); 1857-1862 - visconde dc Alte (mi-
marquês de Minas; 1670 - António Velez Caldeira nistro plenipotenciário); 1862-1868 - duque de
(profere oração de obediência a Clemente X) e An- Saldanha; 1862 - João de Sousa Lobo (encarregado
tónio Vellez Cordeiro (agente); 1671 - padre Antó- de negócios); 1864 - conde de Tomar e João dc Sou-
nio Vieira (ad casum)-, 1671-1676 - Doutor Gaspar sa Lobo (encarregados de negócios); 1867 - Pedro
de Abreu Freitas (residente); 1674-1675 - Francisco da Costa (encarregado de negócios); 1869-1870 -
de Azevedo (ad casum)-, 1675-1682 - D. Luís de conde de Lavradio (ministro plenipotenciário);
Sousa (embaixador) e José Sousa Pereira (enviado); 1869-1870 - barão Ferreira dos Santos (encarregado
1682-1691 - Doutor Domingos Barreiro Leitão (mi- de negócios); 1870-1885 - conde de Tomar (minis-
nistro); 1688-1705 - padre António do Rego (na au- tro plenipotenciário); 1877 - conde de Tomar (em-
sência do residente); 1692-1698 - Doutor Bento da baixador); 1878 - o anterior com o título de mar-
Fonseca (residente); 1705-1711 - André de Melo e quês; 1879 - António Tovar (encarregado dc
Castro (enviado extraordinário); 1712-1718 - mar- negócios); 1883 - Augusto de Andrade (encarregado
quês de Fontes (embaixador extraordinário); 1718- de negócios); 1885-1895 - conselheiro Martens Fer-
-1720 - André de Melo e Castro, conde das Gal- rão; 1890 - conde de Azevedo (encarregado de negó-
veias; 1721-1728 - padre Pedro da Mota e Silva, cios); 1892 - D. Aires de Gouveia, bispo de Betzaida
Bartolomeu e Alexandre de Gusmão (agentes); (embaixador especial); 1893 - conselheiro Martins
1730-1742 - Frei José Maria da Fonseca (ministro Dantas (embaixador especial); 1895-1910 - conse-
plenipotenciário); 1742-1750 - comendador Manuel • lheiro Martins Dantas (embaixador); 1895 - conde
Pereira de Sampaio (encarregado de negócios e de- Martens Ferrão (encarregado de negócios); 1902 -
pois ministro plenipotenciário); 1750-1756 - comen- conselheiro Martins Dantas (embaixador especial);
dador António Freire de Andrade Encerrabodes (en- 1907 - Henrique Oconor Martins (encarregado dc
carregado de negócios e ministro plenipotenciário); negócios); 1910 - Francisco dc Quintela Sampaio
1756-1779 - comendador monsenhor Francisco de (encarregado dc negócios); 1910 - conde dc Tovar
Almada e Mendonça (com interrupção, por corte de (não tomou posse). Relações diplomáticas suspen-
relações diplomáticas, entre 1760 e 1770; de 1774 a sas. 1918 - capitão Feliciano da Costa (ministro; não
1779 com o título de visconde dc Vila Nova do Sou- entregou credenciais); 1918 - Henrique Gabriel da
to de El-Rei); 1779-1781 - Henrique de Meneses Silva (encarregado dc negócios); 1919 - Forbes Bes-
(ministro; em 1781 com o título de marquês do Lou- sa (ministro plenipotenciário); 1919-1924 - Dou-
riçal); 1782 - Diogo de Noronha, conde de Vila Ver- tor Joaquim Pedro Martins (ministro plenipotenciá-
de; 1782-1783 - José Pereira Santiago (encarregado rio); 1924 - Mendes Leal (encarregado de negócios);

109
EMBAIXADORES DE P O R T U G A L J U N T O DA S A N T A SÉ

1924-1929 - Doutor Augusto de Castro (ministro mais importantes gramáticos latinos ou gregos e pro-
plenipotenciário); 1927 - Arenas de Lima (encarre- fessores de Retórica, o que contribuiu certamente
gado de negócios); 1929-1934 - Doutor Henrique para a Península Hispânica desempenhar um papel
Trindade Coelho (ministro plenipotenciário); 1929- bastante activo na vida romana. Não só através de
-1932 - Henrique da Guerra Viana (encarregado de autores de renome, nas letras e nas artes, como Séne-
negócios); 1933-1934 - José de Bivar Brandeiro (en- ca, Lucano, Marcial, Quintiliano, mas de imperado-
carregado de negócios); 1935-1936 - Doutor Alberto res cultos como Trajano, Adriano e Marco Aurélio.
de Oliveira (ministro plenipotenciário); 1936 - Mi- No campo da cultura latina cristã (cingindo-nos ape-
guel de Almeida Pile (encarregado de negócios); nas ao território português), surgiram igualmente ho-
1936-1940 - Doutor Vasco de Quevedo (ministro mens de grande vulto intelectual, a avaliar pelas
plenipotenciário); 1939 - Doutor António Carneiro obras que nos legaram, como Potâmio, primeiro bis-
Pacheco (embaixador especial); 1940 - Miguel de po conhecido de Lisboa; Paulo Orósio, presbítero de
Almeida Pile (encarregado de negócios); 1940 - ge- Braga, historiador, teólogo, polemista; o cronista
neral Eduardo Augusto Marques e Doutor Mário de Idácio, nascido na Galiza, bispo de Chaves (Aquae
Figueiredo (plenipotenciários); 1940-1946 - Doutor Flaviae) em 427; o monge-diácono Baquiário, pro-
António Carneiro Pacheco; 1946-1950 - Pedro To- vavelmente da Galécia, autor de várias obras escritas
var de Lemos (2.H conde de Tovar); 1950-1954 - Jo- entre 382-400; Apríngio, bispo de Beja, que compôs
sé Nosolini; 1954-1958 - Francisco de Calheiros e depois de 551 um Comentário ao Apocalipse, e por
Menezes; 1958-1961 - Vasco Pereira da Cunha; fim o cronista João de Biclara, oriundo de Santarém,
1961-1968 - António Leite de Faria; 1968-1974 - que estudou em Constantinopla e foi bispo de Gero-
Eduardo Brazão; 1974-1981 - José T. Calvet de Ma- na. No entanto, a vasta cultura clássica e teológica
galhães; 1981-1983 - Gonçalo Caldeira Coelho; que revelam não a adquiriram em escolas de inspira-
1983-1986 - Helder de Mendonça e Cunha; 1986- ção religiosa ou confessional, distintas e rivais da es-
-1993 - João de Sá Coutinho (4.° conde de Aurora); cola pagã do tipo clássico. Os cristãos seguiam as
1993-1996 - António A. Medeiros Patrício; 1996 - escolas gregas ou latinas e naturalmente o sistema de
António d'Oliveira Pinto da França. educação clássica, o que não significa que aceitas-
SAUL ANTÓNIO G O M E S sem a cultura. Houve até sinais de oposição profun-
da dos cristãos. Porque tanto a literatura como a arte
BIBLIOGRAFIA: ALMEIDA, Fortunato de - História da Igreja em Portugal. andavam ligadas ao velho politeísmo. Daí que a con-
Porto: Portucalense Ed., 1967-1971. 4 vol. BAPTISTA, J. C é s a r - Portugal
e o Cisma do Ocidente. Lusitania Sacra. Lisboa. 1 (1956) 65-203. BA-
versão à nova religião cristã exigisse ao homem cul-
RATA. David Sampaio Dias O governo português e a crise do papado to o reconhecimento dos limites da cultura clássica.
nos anos de 1848-1870. Lisboa, 1979. BRASÃO, Eduardo - Relações di- Mas conscientes da necessidade do acesso à cultura
plomáticas de Portugal com a Santa Sé: O reconhecimento de D. Mi-
guel (1831). Lisboa, 1972. IDEM Portuga! e a Santa Sé. Lisboa: APH, literária, dado o carácter letrado da religião cristã,
1976. CASTRO, José dc - Portuga! no Concilio de Trento. Lisboa: União admitiam que a juventude se formasse nas escolas
Gráfica. 1944, vol. 3. C O L Ó Q U I O «A D I P L O M A C I A NA H I S T Ó R I A DE P O R T U - públicas pagãs. Quanto à formação teológica sabe-se
GAL» Actas. Lisboa: A P H , 1990. C O S T A , A. D o m i n g u e s de Sousa
Santa Sé. In DICIONÁRIO de história de Portugal. Dir. Joel Serrão, [s. v]. que na Península, à semelhança do que se passava
COSTA, A. Fontoura da - As portas da Índia em 1484. Lisboa: Ed. Cul- noutras regiões, eram provavelmente os bispos e os
turais da Marinha, 1990. LIVRO dos conselhos de el-rei D. Duarte (livro
da cartuxa): Edição diplomática. Ed. J o ã o José Alves Dias. Lisboa: Es-
presbíteros que instruíam, nas suas próprias casas,
tampa, 1982. MAGALHÃES, José Calvet de A acção diplomática no os jovens chamados à vida eclesiástica, chegando a
p e n s a m e n t o dos diplomatas portugueses dos séculos XVII e xvin. In formar comunidades semelhantes ou preanunciado-
A DIPLOMACIA na história de Portugal [...]. P. 15-27. IDEM Breve histó-
ria da diplomacia portuguesa. Lisboa: Europa-América, 1986. MAR-
ras dos futuros seminários. O hino que celebra o
QUES, A. H. de Oliveira Portugal na crise dos séculos xiv e xv. In martírio dos jovens Justo e Pastor, que sofreram em
MARQUES, A. H. de Oliveira; SERRÃO, Joel, dir. Nova história de Por- Compluto, nas Espanhas, no tempo de Diocleciano,
tugal. Lisboa: Presença, 1987. vol. 4. IDEM - História de Portugal. 3."
ed. Lisboa: Palas Editores, 1986, vol. 3. MARQUES, Alegria O papado
parece referir-se a tais instituições de ensino e não a
e Portugal no tempo de D. Afonso 111 (1245-1279). Coimbra: FLUC, simples escolas de catequese (cf. F L Ó R E Z - Espana,
1990. Texto policopiado. MARTÍNEZ, Pedro Soares História diplomáti- vol. 7, ap. ii). Além disso, os clérigos e os leigos não
ca de Portugal. Lisboa: Verbo, 1986. OLIVEIRA, Miguel d e História
eclesiástica de Portugal. 2." ed. Lisboa, 1994. SERRÃO, J. Veríssimo hesitavam em recorrer frequentemente a outros ho-
História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1986-1997, vol. 8-13. V E L O S O , mens da Igreja dc maior saber, que admiravam e de-
M. Teresa D. A fonso II: Relações de Portugal com a Santa Sé durante sejavam seguir, procurando estabelecer entre si uma
o seu reinado. Coimbra: F L U C , 1988. Texto policopiado.
comunhão de ideias e de doutrina. Assim, Potâmio
correspondeu-se com Santo Atanásio. Paulo Orósio
EMIGRAÇÃO. V. MIGRAÇÕES.
tornou-se discípulo de Santo Agostinho (como este
se tinha tornado de Santo Ambrósio de Milão) e Idá-
EMPAREDADAS, v. EREMITISMO.
cio de Chaves, de São Jerónimo. Intercâmbio de
ideias que se prolonga pelos séculos seguintes, como
ENDOENÇAS. V. RELIGIOSIDADE POPULAR. se infere do impressionante testemunho dc São Fru-
tuoso, arcebispo de Braga (f 665-667), que se cor-
ENSINO. I. Época Medieval: 1. Escolas clássicas na respondia com Braúlio, bispo de Saragoça, homem
Península: A história do saber, na Península Ibérica, de grande cultura teológica que, por sua vez, tinha
encontra propriamente o seu momento mais expres- sido discípulo de Santo Isidoro, na escola de Sevi-
sivo na romanização das Espanhas. Do Norte ao Sul lha. Assim, na Igreja antiga, a educação cristã não
havia toda uma rede de escolas elementares. Tudo o era como a profana, ministrada na escola pública,
que estava para além deste ensino pertencia já ao se- mas na Igreja e na família como obrigação familiar e
cundário e ao superior ao qual dedicou Roma muito subsidiária (PG., t. 47, 19). E o clcro não era forma-
do seu esforço. Por esta razão existiam nas cidades

IIO
ENSINO

Oriente, o mosteiro tornou-se numa autêntica escola


de vida religiosa e num foco de cultura. Tanto o seu
fundador como os seus monges escreveram e tradu-
ziram várias obras. Dos seus discípulos sobressai
Pascásio de Dume, tradutor do Liber Geronticon do
grego para o latim, que é uma colecção de apoteg-
mas dos Padres do Deserto, destinada à edificação
dos monges e dos cristãos em geral. Do mesmo mos-
teiro de Dume foi bispo-abade São Frutuoso (635-
-657) e posteriormente metropolita de Braga, cuja
formação religiosa e intelectual a deve à Escola
Episcopal de Palência, dirigida então pelo culto e
virtuoso bispo Conâncio. Dotado de um impressio-
nante dinamismo ascético, tornou-se o promotor do
maior movimento monástico que a Espanha visigoda
conheceu. Nas regras que lhe são atribuídas não fal-
tam recomendações aos conversos para não perde-
rem tempo com fábulas vãs (referencia à cultura hu-
manista da Antiguidade pagã), mas dedicarem o seu
tempo ao estudo da Sagrada Escritura, às Collatio-
nes de João Cassiano, Vidas dos Santos e textos dos
Padres da Igreja. Fundador dos mosteiros de Com-
pluto, São Pedro de Montes, São Félix de Visónia e
outros em Castela, Galiza, Lusitânia e Bética, foi se-
pultado no de São Salvador de Montelhos, junto de
Braga, cuja fundação lhe é igualmente atribuída. Do
mesmo mosteiro foi abade São Rosendo (907-977),
fundador do mosteiro de Celanova, na região de
Orense. Posteriormente, mas já sob o domínio árabe,
devem mencionar-se outros mosteiros, não menos
Capitular ornada, em Libcr Setentiarum de Pedro
importantes para a história da cultura, como os de
Lombardo.
Lorvão e da Vacariça. O primeiro, fundado, segundo
Rui P. de Azevedo, por ocasião da conquista de
Coimbra, em 878 ou pouco depois (embora alguns
do propriamente em escolas religiosas, mas através historiadores o façam recuar a meados do século vi),
dos contactos pessoais com o bispo e os sacerdotes constituiu o mais importante pólo intelectual do ter-
mais idosos, como foi o caso de muitos Padres da ritório conimbricense, cuja irradiação cultural encon-
Igreja, entre os quais citamos São Jerónimo, que ou- trou continuidade na região com a fundação do Mos-
viu as aulas de Apolinário em Antioquia, de Dídimo teiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de
em Alexandria e de Gregório de Nazianzo em Cons- Coimbra*. Ao seu scriptorium pertenceram as có-
tantinopla. Eram certamente aulas particulares, sem pias iluminadas do Livro das aves (1183), o Comen-
carácter professoral, de relações de homem para ho- tário de Santo Agostinho sobre os salmos, copiado
mem. Por isso os grandes bispos dos séculos iv e v, em 1184, e o célebre Apocalipse de Lorvão (1 1 89).
como Basílio em Cesareia, João Crisóstomo em O mosteiro da Vacariça, que aparece nos documen-
Constantinopla, Ambrósio em Milão e Agostinho tos a partir de 1002, e que, segundo José Mattoso,
em Hipona, não criaram uma escola pública religiosa. procurou sempre ser independente dos patronos lei-
Realizaram um tipo de cultura cristã e propagaram- gos, chegou a ter como dependentes, por iniciativa
-na à sua volta, mas com o seu exemplo, pregação e do seu abade Tudeildo (1018), os mosteiros de Sever
escritos (V. PATROLOGIA). 2. Escolas monásticas (sé- do Vouga, Leça e Anta. Tal como estes também ou-
culos xi a x/i): Face ao desaparecimento das escolas tros se tornaram centros de cultura. Basta recordar
profanas ou clássicas da Antiguidade, consequência no Norte os mosteiros de Tibães, Pendorada, Paço
da barbarização do Ocidente, as escolas monásticas de Sousa, Santo Tirso e Pedroso; no Centro os cis-
tornaram-se o único instrumento de aquisição e tercienses de Tarouca e Alcobaça e os de Cónegos
transmissão da cultura. Trata-se de um tipo de escola Regrantes de Santa Cruz de Coimbra e de Lisboa
cristã particular, orientada essencialmente para a vi- (São Vicente de Fora). Alguns destes tornaram-se
da religiosa sem irradiação directa para o exterior e verdadeiros transmissores do saber antigo e no tem-
sem as características da escola antiga. Quanto à sua po contribuíram, notavelmente, para a preservação
origem é possível que já nos séculos iv e v o mona- cultural de valiosas obras, que graças à sua dedica-
cato estivesse difundido na Península. Cingindo-nos ção chegaram até aos nossos dias. No entanto, todas
ao território onde veio a constituir-se o reino portu- estas escolas têm um horizonte limitado. Surgem co-
guês, destaca-se, entre os mais antigos, o mosteiro mo instituições técnicas, destinadas apenas à forma-
de Dume, que remonta ao século vi. Foi seu funda- ção de monges e clérigos. Os seus beneficiários são
dor São Martinho (f 579), natural da Panónia (Hun- essencialmente pessoas da Igreja, esboçando-se as-
gria), monge na Palestina e que veio a ser bispo de sim um traço característico da Idade Média ocidental
Dume e de Braga. Organizado à semelhança dos do

IXI
ENSINO

cm que a ciência está nas mãos dos clérigos. Monás- bliotecas e de escribas. Estes tinham de conhecer o
tica, episcopal ou presbiterial, a escola não separa a latim, noções de direito, formulários e uma certa cul-
instrução da formação religiosa, dogmática e moral. tura mais geral. Daí a necessidade dc aquisição do
A escola cristã forma simultaneamente nas letras e significado ou da etimologia das palavras e de certas
nas virtudes (Htteris et bonis moribus). Ora é nesta regras dc gramática. A Ars Minor de Élio Donato ou
associação no ensino elementar da instrução literária as Etimologias de Isidoro de Sevilha podiam servir
c da educação religiosa que reside a essência da es- como guia de estudo já que existiam, como muitas
cola cristã da pedagogia medieval, por oposição à outras obras, nalguns mosteiros (Guimarães e Leça).
antiga. Donde se pode concluir que tanto os grandes Pelo Costumeiro de Pombeiro, analisado criteriosa-
mosteiros como certas escolas episcopais foram, até mente por J. Mattoso, é possível ter uma ideia do ho-
ao século xii, os principais (senão os únicos) centros rário de estudo e do modo como os vários mestr