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Psicologia Individual de Adler

Biografia de Alfred Adler


Alfred Adler nasceu em 1870 e faleceu em 28 de maio 1937. Formou-se em medicina em
1895 na Universidade de Viena, na Áustria. Começou trabalhando como oftalmologista e,
logo em seguida, abriu o seu consultório e atendia como clínico geral.
Adler morava na mesma cidade que Freud e, em 1902, ele juntou-se ao grupo de estudos
de psicanálise que era realizado às quartas-feiras.
Em 1910, Adler se tornou o presidente da Sociedade Psicanalítica de Viena e, no ano
seguinte, em 1911, ele e alguns colegas decidiram sair do movimento psicanalítico. Deste
modo, ele foi o primeiro grande autor a romper com Freud, três anos antes que C. G. Jung
o fizesse (1914).
Em 1912, Adler fundou a Sociedade da Psicologia Individual, que incluía muitos estudiosos
da obra de Nietzsche, que consideravam que as ideias de complexo de inferioridade
estavam próximas do filósofo criador do Übermensch, o super-homem.
Nos anos seguintes, Adler conquistou enorme sucesso como o criador de uma escola
psicoterapêutica diferenciada e até o final de sua vida viajou o mundo dando palestras e
cursos. Na década de 1930, ele criou clínicas infantis, enquanto continuava a trabalhar com
adultos.

Nas Lições do nosso Curso, veremos como Adler procura explicar a psique e
comportamento humano de uma forma integral, tanto para a saúde psíquica como as causas
das doenças mentais.
Observação: não é necessário realizar nenhum tipo de inscrição. As lições serão publicadas
aos poucos e, no final, se você tiver acompanhado, será possível solicitar o Certificado de
Participação (no valor de 25 reais, que é enviado pelos Correios).
Dúvidas, sugestões, comentários, por favor, escreva abaixo:

Lição do Curso:
1) O conceito de psique para Alfred Adler
2) Aspectos sociais da vida psíquica (segurança e adaptação social)
3) A criança e a sociedade
4) O mundo em que vivemos: percepção, memória, fantasia, empatia e sonhos
5) Sentimento de inferioridade e a luta pela consideração
6) O inconsciente para Adler e a preparação para a vida
7) Superioridade e Inferioridade: O homem e a mulher
8) Considerações gerais sobre o caráter: otimismo e pessimismo
9) Adler sobre a vaidade, ciúme, inveja, avareza e ódio
10) Traços não agressivos do caráter
11) A religiosidade (falsa) para Adler
12) Sentimentos e emoções: raiva, tristeza e alegria

O conceito de psique para Alfred Adler –


Lição 1 – Curso Grátis
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis

A vida psíquica é determinada pelo seu objetivo. Homem nenhum pode pensar, querer,
sonhar sem que estas atividades sejam determinadas para um objetivo.
Olá amigos!
Esta é a primeira Lição do nosso Curso Gratuito sobre a Psicologia Individual de Alfred Adler.
Nesta primeira Lição, vamos falar sobre alguns pressupostos desta psicologia e vamos
começar a estudar os conceitos de psique e vida psíquica. Como disse no post de
apresentação do Curso, o texto base será A Ciência da Natureza Humana, um conjunto de
conferências dadas no Instituto Popular de Viena e posteriormente transcritas.
Pelo título do livro, podemos ver desde já que o objetivo do autor era o de criar uma teoria
geral sobre a natureza humana, uma ciência para explicar porque as pessoas são como
são, porque as pessoas agem como agem e porque algumas pessoas crescem saudáveis
e outras tem leves, moderados ou severos transtornos mentais. Desde o princípio, é visível
como Adler concorda com Freud em um ponto: a diferença entre a normalidade e patologia
é de grau, ou seja: “apresentam-se à nossa consideração os mesmos elementos, as
mesmas bases, as mesmas atitudes. A única diferença é que no paciente aparecem mais
acentuados e são mais facilmente reconhecíveis (ADLER, 1961, p. 17).
Antes de entrarmos no conceito de vida psíquica, gostaria de mencionar algumas
características que transparecem da personalidade do autor. Em primeiro lugar, o seu
objetivo com estas palestras no Instituto Popular de Viena era o de divulgar o conhecimento
para todos. Para ele, a ciência da natureza humana, a psicologia não deveria ficar restrita a
especialistas.
Embora toda e qualquer pessoa possa se arrogar ter conhecimento sobre a psique, por ter
uma psique, é um fato que as pessoas em geral não conhecem o objeto de estudo da
psicologia, ainda que este desconhecimento traga consequências diárias. Tampouco
aprendemos sobre nós mesmos e sobre os outros (pensamentos, cognições, memória,
sensações, emoções, sentimentos) na escola.
Assim, o autor procurou sempre descer da sua “torre de marfim” e se aproximar das pessoas
e contribuir com a sociedade, mostrando de forma didática o que ele tinha descoberto,
sabendo que suas descobertas constituíam um pequeno pedaço do gigantesco universo a
se conhecer. Com isso, e ele já o demonstra no começo, ele transparece um sujeito de muito
humildade.

Introdução da Ciência da Natureza Humana


Na introdução da obra, Adler defende dois argumentos fundamentais: a forte influência que
a infância exerce na vida futura de um indivíduo e a existência do inconsciente, ou seja, as
forças desconhecidas as quais o sujeito não se dá conta e que o movem sem que ele o
saiba.
Para defender o primeiro argumento, ele escreve: “um paciente adulto de caráter ansioso,
de espírito constantemente cheio de dúvida e desconfiança, revelaria idênticos traços de
caráter e atitudes psíquicas no terceiro e quarto anos de vida, sendo apenas de notar que
na simplicidade de sua manifestação na infância esses traços poderiam ser mais facilmente
interpretados” (ADLER, 1961, p. 18)
E para defender o segundo argumento, ele diz que quem quiser colocar em prática os
conhecimentos da Psicologia Individual, terá que mostrar aos seus pacientes, clientes,
alunos ou conhecidos “o valor das forças desconhecidas e inconscientes, que operam dentro
de nós; para lhes poderem ser verdadeiramente úteis deverão conhecer todos os artifícios
encobertos, tortuosos e disfarçados do proceder humano. (ADLER, 1961, p. 23)
Em síntese, estes são os dois principais argumentos de Adler na introdução.
O conceito de psique para Alfred Adler
No livro 1 – “O procedimento humano” e no capítulo 1 – “A Alma”, Adler vai explicar o
conceito e a premissa da vida psíquica, a função do órgão psíquico e a finalidade (teleologia)
da vida psíquica. Mas vamos por partes.
É muito curioso quando vamos começar a estudar psicologia e descobrimos que psicologia
significa estudo da psique. Até aí tudo bem, mas muitos ficam um pouco espantados ao
saber que psique é a palavra grega para alma. Portanto, etimologicamente, psicologia é o
estudo da alma. A nossa palavra alma, por sua vez, vem do latim, anima, o que anima um
corpo.
E é esta a definição inicial de psique para Adler: o que anima, o que dá movimento ao corpo.
Por isso, não faz sentido atribuir alma a uma planta, pelo simples fato de que ela não se
movimenta. Escreve ele: “Podemos, pois, estabelecer, de começo, que o desenvolvimento
da vida psíquica está ligado ao movimento, e que a evolução e o progresso de todas as
coisas realizadas pela alma se condicionam à livre mobilidade do organismo (ADLER, 1961,
p. 29).
Deste modo, não faz sentido considerar uma psique isolada. A psique está sempre em
contato com o seu meio, em outras palavras, com o que a circunda e, portanto, age e reage
de acordo com as condições externas: “A vida psíquica é um complexo de atividades
ofensivas e defensivas prepostas a assegurar a continuidade da existência do organismo
humano na terra e habilitá-lo a melhor realizar o seu desenvolvimento”. (ADLER, 1961, p.
30)
Entretanto, um outro argumento já se faz notar desde o princípio. O sujeito começa a lidar
com o seu meio ambiente, é claro, desde que nasce. Mas quando nasce, na primeira
infância, ele é ainda totalmente indefeso para mudar, modificar ou alterar o que está ao redor
de si. E esta impossibilidade de alteração, esta predominância da falta de autonomia, será
um dos germes para o conceito de inferioridade que veremos em outra Lição de nosso
Curso.
Adler também é conhecido por modificar a pergunta central do estudo das patologias. Se
estamos atendendo um paciente depressivo, a tendência é venhamos a buscar as causas
que trouxeram a depressão, como se perguntássemos: “Porque o paciente está deprimido?”
Para Adler, é claro que a causa é relevante, porém, ele defende aqui um outro argumento.
Os pacientes – e as pessoas normais – estão sempre tendo em vista uma finalidade.
Portanto, ao invés de perguntarmos o porquê, vamos questionar o para quê: “Para quê o
paciente está deprimido? Com que finalidade esta doença apareceu”.
A pergunta pela finalidade traz de volta a importância da teleologia para a
psicologia. Télos, em grego τέλος, quer dizer finalidade.
Desta forma, Adler diz o seguinte: “A primeira coisa que descobrimos na vida psíquica é
que seus movimentos se dirigem a um fim (…) A vida psíquica do homem é determinada
pelo seu objetivo. Homem nenhum pode pensar, querer, sonhar, sem que estas atividades
sejam determinadas, continuadas, modificadas e dirigidas para um objetivo constante. Isso
resulta da necessidade de adaptação do organismo ao meio envolvente (…) Assim, todos
os fenômenos da vida da alma podem ser considerados como preparação para alguma
situação futura. Parece-nos impossível conceber a alma como outra coisa senão força a agir
rumo a um objetivo – e a Psicologia Individual considera todas as manifestações da alma
humana como dirigidas para um objetivo (ADLER, 1961, p. 31).
Para concluir esta primeira Lição, gostaria de compartilhar com vocês um exemplo do
próprio Adler, um exemplo que demonstra a hipótese da importância da infância para a vida
posterior e que também mostra como o pensamento teleológico pode ser útil na clínica:
“Um homem de trinta anos, de caráter extraordinariamente agressivo, que conseguira
triunfos e honras, apesar das dificuldades de sua carreira, vai ao médico num estado de
suprema depressão e queixa-se de que perdeu o amor ao trabalho e à vida. Expõe que está
quase noivo, mas encara o futuro com profundo desânimo. Sente-se dominado por fortes
zelos, havendo grande risco de romper-se o noivado. Os fatos que ele reproduz para provar
seus ciúmes não são concludentes. Como nada se pode censurar á moça, as dúvida que
ele manifesta desperta desconfiança em relação a ele. É um desses muitos indivíduos que,
atraídos pelos outros, se aproxima dele, para imediatamente assumir tal atitude agressiva,
que logo destroem o próprio contato que buscam estabelecer.
De acordo com a nossa experiência, costumamos perguntar qual é a mais antiga recordação
da infância do paciente, mesmo sabendo que nem sempre é possível apreciar objetivamente
o valor dessa recordação. A primeira recordação infantil daquele homem foi a seguinte:
estava ele no mercado com sua mãe e um irmãozinho mais novo. Devido ao movimento e
acumulação de gente, a mãe tomou nos braços a ele, o mais velho dos dois filhos. Assim
que notou seu engano, fê-lo descer e pegou no seu filho mais novo, deixando nosso paciente
andar sozinho, comprimido entre a multidão, e grandemente aflito.
Tinha ele então quatro anos de idade. Quando narrava esta reminiscência, notamos as
mesmas notas que acentuamos na descrição de sua queixa atual. Não tem certeza de ser
amado pela noiva e não pode tolerar a ideia de que outro que não ele seja o preferido,
do mesmo modo que, no episódio de criança, entrou em dúvida sobre a estima de sua mãe
e se encolerizou pela preferência dada ao irmão. Assim que lhe mostramos esta conexão,
nosso paciente, muito assombrado, imediatamente deu por ela.
O valor para o qual tendem todos os atos do ser humano é determinado por tais influencias
e impressões recebidas do meio na fase da infância. A condição ideal da vida, isto é, o
objetivo de cada ser humano, forma-se provavelmente nos primeiros meses de vida. Mesmo
nesse tempo, certas sensações desempenham um papel que provoca um resposta de
alegria ou desconforto na criança. Surgem então no espírito desta os primeiros traços de
uma filosofia de vida, embora se manifeste de modo mais primitivo” (ADLER, 1961, p. 34).
Na próxima Lição, vamos estudar os Aspectos Sociais na Vida Psíquica (em breve).

Aspectos sociais da vida psíquica por


Adler – Curso Grátis
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis
“É natural concluir que o homem, sob o ponto de vista natural, é um organismo inferior. Este
sentimento de sua inferioridade e insegurança está constantemente presente em seu
espírito, atuando como um estímulo permanente para a descoberta de melhores meios e de
mais apurada técnica de adaptação à natureza”.
Olá amigos!
O grande Isac Newton disse em uma carta “If I have seen further it is by standing on the
shoulders of giants”, ou seja, “Se eu vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”.
Esta é uma imagem belíssima para nos ajudar a introduzir o que Adler entender por aspectos
sociais da vida psíquica. Esta frase de Newton, por sua vez, vem de um ditado latino nanos
gigantum humeris insidentes, de anões se sustentando nos ombros de gigantes. A ideia aqui
é de que as descobertas da física feitas por Newton não deveriam ser atribuídas ao esforço
individual, à sua capacidade, pois, segundo ele, ele só conseguiu criar as suas teorias por
estar sobre ombros de gigantes, ou seja, ter tido centenas de outras mentes brilhantes, de
matemáticos, filósofos, cientistas antes dele.
Em poucas palavras: sozinho Newton pensava que não teria sido possível. Com a ajuda
destes gigantes do passado, tinha sido possível. Mas não é necessário ser um gênio para
ver como dependemos dos outros para quase tudo. Eu não estaria escrevendo este texto
se milhares de pessoas não tivessem trabalho para a criação do computador pessoal, dos
programas que utilizo, da internet. E de tudo o que é necessário como condição: cabos,
teclado, mouse, energia elétrica, minha escrivaninha, minha cadeira, etc, etc.
Para eu escrever um texto como este é necessário o trabalho de muitas pessoas (que não
vemos diretamente). Há o pessoal que trabalha com os servidores do site que estão no
Canadá, os serviços de email, o wordpress e todos os seus plugins e a lista continuaria
ainda muito. E se formos observar a nossa vida, veremos que dependemos demais uns dos
outros para as atividades mais comuns. Se você pega o seu carro para ir ao trabalho, não
só muitas pessoas tiveram que
-lo (como tiveram que inventá-lo antes), mas também a gasolina, a rua e a estrada, o sinais
de trânsito tudo o que você utiliza para se locomover foi criado socialmente, antes de ti. Isto
é válido para a alimentação, para as vestimentas, para os conhecimentos. Para tudo.
Apenas como uma informação a mais, Adler cita neste segundo capítulo do A Ciência da
Natureza Humana, as teorias de Marx e Engels, da infraestrutura e superestrutura, para
fundamentar a ideia da importância da divisão do trabalho.

Aspectos sociais da vida psíquica


Deste modo, para Adler, o indivíduo é sempre fraco para produzir algo sozinho, sem
ninguém, isolado. Fica fácil de concordar com esta perspectiva se pensarmos que até a
linguagem é uma criação social. Um sujeito que nasça em uma floresta, sem contato social
nenhum, nunca vai falar. Não vai aprender a ler, não vai aprender os conhecimentos básicos
que aprendemos primeiro na escola. Não vai ter condições nenhuma de criar uma teoria da
física.
Assim, para Adler todo o desenvolvimento psíquico de um indivíduo tem que levar em conta
também o social. O indivíduo nasce fraco, indefeso, inferior. Um bebê humano leva cerca
de 12 meses para começar a andar e é extremamente frágil. Se fosse deixado sozinho, para
sobreviver por si, não sobreviveria. Mas não só no primeiro ano de vida, os primeiros anos
da infância também podem ser claramente vistos como anos de falta de autonomia. Uma
criança pequena não consegue e não é capaz de realizar diversas atividades que seriam
fundamentais para a sua manutenção.
Adler escreve: “É natural concluir que o homem, sob o ponto de vista natural, é um
organismo inferior. Este sentimento de sua inferioridade e insegurança está constantemente
presente em seu espírito, atuando como um estímulo permanente para a descoberta de
melhores meios e de mais apurada técnica de adaptação à natureza”.
Em sua teoria, a falta de capacidade física levou a humanidade a desenvolver a psique: “O
próprio estímulo desse constante senso de inferioridade e inaptidão desenvolveu no homem
a precaução e a previdência, e determinou a evolução do seu espírito até chegar ao ponto
atual como órgão de pensamento, sentimento e ação. Como a vida social desempenhou
papel essencial neste processo de adaptação, o órgão psíquico, desde o começo, deve levar
em conta as condições de vida em comum (…) Daí conclui-se que os pensamentos e os
conceitos, assim como a razão, a inteligência, a lógica, a ética e a estética se originam na
vida social do homem; são, ao mesmo tempo, elos entre os indivíduos, tendo a finalidade
de impedir a desintegração da civilização”.
Para o indivíduo, esta falta de capacidade inerente aos seus primeiros anos de vida
estabelece também o seu querer, a sua vontade. “Cada ato voluntário principia com um
sentimento de inaptidão, de insuficiência, e em sua resolução se encaminha para uma
condição de satisfação, de repouso, de plenitude”.

Conclusão
O ponto de vista de Adler é certamente o ponto de vista de um extrovertido (segundo a teoria
de Jung. Você pode saber mais sobre a extroversão aqui). O sujeito introvertido, para Adler,
é um sujeito que não conseguiu se adaptar direito ao seu meio.
O sentimento de sociabilidade (Gemeinschaftgefühl), o sentimento de estar junto é, portanto,
o centro para a ligação do indivíduo com a sociedade que o precede e, ao mesmo tempo, é
o que fará com que o indivíduo se adapte aos outros e, em alguns casos, ajude na
consolidação ou criação das instituições sociais. Assim, até para sabermos sobre como um
indivíduo é, segundo Adler, utilizamos critérios sociais:
“Somente do ponto de vista da sociedade é que julgamos um caráter bom ou mau (…) Os
critérios que podemos julgar um indivíduo são determinados pelo valor do indivíduo para o
gênero humano em geral”.

A criança e a sociedade para Alfred Adler


– Curso Grátis
por Professor Felipe de Souza | Psicologia
“A vida amorosa da criança está sempre dirigida para outras pessoas, e não,
como diz Freud, para o seu próprio corpo” (Adler). E como a criança é pequena,
indefesa e não tem autonomia, sente constantemente a sua inferioridade. O
modo como reagirá a essa inferioridade criará um padrão de comportamento
pela vida, difícil de ser mudado.
Olá amigos!
Para começarmos este post, que é a 3° Lição do Curso Grátis sobre a Psicologia Individual
de Adler, eu sugiro que você observe atentamente uma criança, em sua primeira infância
(até os 6 anos) por um bom tempo ou, então, tente se lembrar como era ser criança nesta
tão tenra idade. Enquanto eu estava estudando este capítulo do livro de Adler, eu fiquei
fazendo este exercício. Me lembrei como achei fantástico conseguir ser alto o suficiente para
conseguir acender e apagar as luzes sozinho (o interruptor media por volta de um metro).
Se você tem crianças em casa, perto de ti, ou se você consegue se lembrar de como era
ser uma criança, se colocar na pele de uma, você não terá dificuldade para entender o modo
como Adler concebe a relação da criança com a sociedade, porque as suas concepções são
empíricas, quer dizer, baseadas na realidade, com apenas algumas interpretações finais.
Se você consegue se imaginar pequeno, bem pequeno, você vai conseguir ver que nesta
época você não conseguia levantar muito peso, não conseguia fazer sua própria comida,
nem conseguia ir a pé até longas distâncias ou se ir de carro, moto, ônibus. Um jardim era
tão grande quanto uma floresta, o mundo era muito maior e era cercado de gigantes
(adultos) que podiam te ajudar, mas nem sempre.
O pai ou a mãe – ou quem quer que fosse maior e estava ali para cuidar de você – não
poderia atender a todos os seus pedidos, pelos mais variados motivos. Segundo os
psicólogos infantis, a palavra que as crianças mais escutam é “não”.
Bem, se você está acompanhando até aqui terá concordado comigo que qualquer criança
terá sentido diversas vezes a sua dependência e falta de autonomia. Muitas pessoas
esquecem destas fases, já que a memória pode começar a ficar mais nítida e mais clara
quando se entra na escola. Na segunda infância, a criança possui mais capacidade,
entretanto, ainda está limitada por regras e ordens das pessoas que devem cuidar dela.
Para Adler, os sentimentos da infância tem grande impacto na vida posterior e, dependendo
do modo como a criança reage ao seu meio e do modo como o meio cuida (ou não cuida)
da criança, o destino dela estará lançado.
Em síntese, Adler diz existir duas possibilidades de desenvolvimento opostas: “Algumas
crianças se desenvolvem no sentido da aquisição de poder e de uma técnica de coragem,
do que resulta o se imporem à atenção, ao passo que outras parecem prevalecer-se de sua
própria fraqueza, tentando mostrá-la dos modos mais variados” (ADLER, 1961, p. 45).
Em outras palavras, em resposta ao meio que a circunda, e à condição de um ser frágil e
dependente, Adler interpreta que a criança ou vai tentar se impor ou vai se retrair. Se
conseguir se impor, à medida que cresce, poderá se adaptar e ter uma vida normal. Se for
pela retração, poderá se isolar e se colocar na posição de vítima, demandando sempre mais
e mais atenção e cuidado e, mesmo que seja já adulta, terá uma atitude infantil perante a
vida, como se a vida lhe devesse um favor e todas as pessoas tivessem que agir de maneira
benévola como se fosse um ato dirigido a um bebe.
Adler também menciona que o meio pode agir de um dos seguintes modos:
1) Não oferecer uma quantidade suficiente de afeição
2) Oferecer afeição em demasia – o que cria uma pessoa mimada
3) Oferecer condições por demais rígidas e severas
4) Oferecer tantas facilidades que a criança (e a pessoa) nunca são preparadas de verdade
para os obstáculos da vida
Embora o autor divida as possibilidades das condições do meio ambiente, as respostas do
indivíduo, desde pequeno, a tais condições poderá ser muito variada. Assim, uma criança
pode reagir a um meio com pouca afeição sendo uma criança modelo e perfeitamente
educada ou então agir com total desrespeito para chamar a atenção. Um meio hostil pode
gerar uma pessoa forte ou fraca, assim como um meio severo pode criar um medroso ou
um destemido. Segundo Adler: “Tudo se pode tornar um meio para atingir um fim, uma vez
que esteja fixado o padrão da atividade psíquica” (ADLER, 1961, p. 50).
E, portanto, ao contrário de Freud que defendia que o amor (a sexualidade) de uma criança
era autoerótica – voltada para si mesma – Adler defende o ponto de vista segundo o qual o
amor da criança é desde os dois anos sempre voltada para uma outra pessoa: “A vida
amorosa da criança está sempre dirigida para outras pessoas, e não, como diz Freud, para
o seu próprio corpo” (ADLER, 1961, p. 52).
A conclusão que o criador da Psicologia Individual chega neste final de capítulo sobre a
criança e a sociedade é a seguinte: “A conclusão essencial de nosso estudo é o
conhecimento da necessidade de tratar o homem como ser social. Uma vez aprendida esta
ideia, adquirimos um importante elemento para a compreensão do procedimento
humano” (ADLER, 1961, p. 53).

Conclusão
Em minha opinião, este capítulo do A Ciência da Natureza Humana de Adler, intitulado “A
Criança e a Sociedade” deixa em aberto uma série de questões. Fica claro que o autor
defende três importantes argumentos de sua teoria sobre o complexo de inferioridade:
Argumento 1) Toda criança é dependente e para que possa sobreviver e crescer precisa do
auxílio de outros seres humanos, em suma, da sociedade
Argumento 2) O meio influencia o comportamento futuro da criança
Argumento 3) A partir da individualidade da criança e da influência do meio, a personalidade
é formada e só pode ser modificada com muito esforço e dificuldade
As questões em aberto dizem respeito à esta influência do meio. Afinal, o que autor
menciona é que um meio hostil pode criar um indivíduo adaptado assim como um meio
permissivo e com extrema liberdade e falta de problemas pode criar um sujeito neurótico e
problemático. Porque isto ocorre? Como criar um ambiente favorável para o
desenvolvimento saudável de um indivíduo?
Nas próximas Lições, veremos a continuidade dos argumentos de Adler e encontraremos
as respostas às estas dúvidas que ficam, por enquanto, em aberto. Na lição seguinte,
falaremos sobre percepção, memória, imaginação, fantasia, sonhos, empatia e identificação
e hipnotismo e sugestão. E na lição posterior, começaremos a falar diretamente sobre o
complexo de inferioridade.

A percepção, memória, fantasia, empatia


e sonhos para Adler
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis, Psicologia
Para Adler, a percepção, a memória, a fantasia, a empatia e os sonhos sempre
possuem uma função que é dirigida a um fim, a uma finalidade, o que chamamos
de princípio teleológico. O desejo de poder, de dominar estará presente em todos
os indivíduos em seu processo de adaptação ao meio social.
Olá amigos!
Continuando o nosso Curso sobre a Psicologia Individual de Adler, chegamos agora ao
quarto capítulo do livro A Ciência da Natureza Humana, intitulado “O mundo em que
vivemos”. Neste capítulo, Adler vai definir diversos conceitos: percepção, memória,
imaginação, alucinação, delírios, fantasia, empatia, sonhos, hipnose e sugestão. E, embora
sejam conceitos que poderiam ser separados por serem distintos, todos se encontram
unidos em virtude da argumentação central do autor que estamos estudando. Para Adler:
1) A psique está em constante processo de adaptação com o seu meio ambiente;
2) Este processo de adaptação é necessário porque o meio ambiente se modifica e o
indivíduo, a partir do momento em que começa a se mover, também está propenso a mudar
de ambiente de tempos em tempos. A capacidade de se mover e de fazer (machen – em
alemão) vincula-se ao seu desejo de poder (Machen – em alemão)
3) O desejo de poder, de dominar estará presente em todos os indivíduos. Alguns sentirão
que podem dominar e dominarão. Outros sentirão que não podem dominar e se sentirão
inferiores.
4) O meio ambiente em que os indivíduos vivem é social, ou seja, estamos sempre cercados
por outras pessoas. Por este motivo, o ambiente torna-se ainda mais incerto. Por isso, o ser
humano tem que fazer uso da sua percepção para observar aonde está, da sua memória
para prever as consequências que podem surgir, assim como tem que fazer uso da sua
faculdade de criação, de imaginação, para antever possíveis desdobramentos.

A percepção
Percebemos o mundo que nos cerca através dos cinco sentidos e, embora objetivamente
possamos considerar que o ambiente possui características intrínsecas, duas pessoas vão
perceber os mesmos estímulos de maneiras diversas. Isto porque, para Adler, há a
predominância de um sentido sobre os demais.
Por exemplo, um músico que consegue perceber – sem ver – qual nota está sendo tocada
em um piado terá a sua faculdade acústica, a percepção auditiva, muito mais apurada,
enquanto outra pessoa terá a percepção visual. Segundo o autor, a pessoa visual é a mais
comum. Além disso, há a pessoa que valoriza mais a faculdade de locomoção (como um
esportista) e entre os outros sentidos menos comuns está a faculdade da percepção olfativa,
que é justamente a mais rara quer dizer, pessoas que centram a sua percepção do mundo
pelo cheiro.
E, retomando as concepções descritas na Lição anterior, Adler menciona a importância da
infância para a fixidez de uma percepção como mais central e, também, como as primeiras
percepções serão fundamentais para as suas crenças e atitudes para com o mundo externo:
“Impressões que nos adultos perecerão sem importância ou triviais podem ser de enorme
influência no espírito da criança e modelar definitivamente a sua impressão sobre o mundo
em que vive” (ADLER, p. 55).
A percepção, ao contrário do que poderia parecer a princípio, não é uma estimulação
passiva. O que cada um percebe vincula-se sempre com o objetivo que tem em mente – na
chamada perspectiva teleológica, a perspectiva que visa a um fim: “A individualidade e a
unicidade de um ser humano consiste no que ele percebe e no como ele percebe. A
percepção é mais do que um simples fenômeno fisiológico; é uma função psíquica da qual
podemos extrair as mais remotas conclusões referentes à vida íntima” (ADLER, p. 58).
Na continuação do texto, Adler passa a definir a memória e, assim como todas as outras
funções psíquicas, a memória terá também um fim, uma finalidade, uma teleologia: “Sem
memória, seria impossível tomar-se qualquer precaução em referência ao futuro. Podemos
deduzir disso que todas as recordações contem em si mesmas um propósito inconsciente.
Não são fenômenos fortuitos; falam claramente a linguagem do encorajamento estimulante
ou do aviso acautelador. Não existem recordações indiferentes ou sem sentido” (ADLER, p.
58)
Curiosamente, uma memória enganadora, ou seja, uma memória de algo que não existiu de
verdade pode ser tão eficaz para eliciar um determinado tipo de comportamento quanto uma
memória real. O autor continua o seu argumento sobre a finalidade neste trecho: “Toda a
memória é domina pela ideia-meta que dirige a personalidade como-um-todo. Uma
lembrança duradoura, mesmo que seja falsa (…) pode sair dos domínios da consciência e
se transformar em uma atitude, um tom emocional, ou mesmo um ponto de vista filosófico,
se isto for necessário para se alcançar a meta desejada” (ADLER, p. 60).

Imaginação
Na parte em que define a imaginação, Adler também inclui os conceitos de alucinação e
delírio. Para quem não trabalha com psicologia clínica, psicanálise ou psiquiatria, este tipo
de questão pode parecer sem sentido. Mas para todo clínico, entender o que significa uma
alucinação de um paciente é parte do seu trabalho, assim como conseguir diagnosticar de
maneira adequada os sintomas e as doenças mentais correspondentes.
Para Adler, as alucinações e os delírios não seriam fantasias sem significado. Ele diz:
“Chamamos-lhes alucinações quando as fantasias aparecem como se fossem o resultado
de um estímulo realmente presente” (ADLER, p. 60), e, mais a frente: “As alucinações
aparecem na ocasião em que a tensão psíquica está no auge, e em circunstâncias em que
uma pessoa receia ser impossível atingir o alvo” (ADLER, p. 62).
Ele cita o exemplo de uma mulher de família rica que faz um casamento desfavorável em
termos financeiros, pois o marido é bem mais pobre. Por conta disso, ela briga com a família
toda e se afasta deles. Devido ao seu orgulho e à sua ambição, ela fica anos sem falar com
eles, inclusive quando tem um filho, apesar de que, também, do outro lado a atitude não é
favorável a uma reaproximação. Quando os problemas estão atingindo o seu auge, ela
alucina que a Virgem Maria aparece para ela, prevendo a sua morte em dezembro próximo.
Segundo o autor, devido à sua ambição e vontade de dominar a família, ela não tinha tentado
uma reaproximação. Quando viu que eles também não davam o braço a torcer,
inconscientemente, ela tem esta alucinação de que vai morrer em breve. O que é digno de
nota é que ela não chora, não se entristece, porque sabe que a morte não está próxima. Ao
contar para o seu marido, a notícia se espalha e, em pouco tempo, a família toda está aos
seus pés novamente. Assim, Adler explica a alucinação como a fantasia que aparece, como
se fosse um estímulo externo, quando a situação está insustentável e o sujeito não encontra
outra forma de solucionar o seu problema.

Fantasias
As fantasias e os devaneios, o que chamamos de sonhar acordado, são muito comuns na
infância, mas estão presentes igualmente em momentos do nosso dia-a-dia quando
deixamos o pensamento dirigido e crítico e seguimos o fluxo de ideias. Do mesmo modo
que acontece com os outros conceitos, para Adler, as fantasias sempre possuem um
objetivo, uma meta, um alvo: “As fantasias… sempre se relacionam com o futuro. (…) A
análise das fantasias infantis revela claramente que, nelas, o papel predominante é o esforço
para a obtenção de poder” (ADLER, p. 66). Por exemplo, a criança que brinca que é grande
e que tem o poder de fazer isto ou aquilo – que não pode fazer ainda.
E, devemos nos lembrar que o poder de fazer isto ou aquilo, o poder em geral (Machen)
está intimamente ligado com as relações sociais, já que desde pequenos estamos envoltos
pela sociedade que, por sua vez, também nos instiga a conquistar e valoriza o destaque
social, o status.
Adler escreve: “O senso de sociabilidade, do mesmo modo que o esforço por domínio,
desempenha um grande papel na vida da fantasia (…) Manifesta-se tal característica nas
fantasias em que uma pessoa se figura de salvador, ou paladino, ou triunfador sobre forças
malignas, demônios, e coisas que tais”. (…) Muitos imaginam que pertencem a outra família
e que um dia seu verdadeiro pai, algum importante personagem, virá buscá-las” (ADLER, p.
67).

Sonhos
Neste capítulo quarto do livro A Ciência da Natureza Humana, Adler não se aprofunda sobre
os sonhos. Diz, entretanto, algumas informações importantes: “Os sonhos constituem uma
reprodução do mesmo mecanismo mental dos devaneios” (ADLER, p. 68).
O seu grande objetivo é o de planejar a vida futura: “Limitamo-nos por agora a dizer que o
esforço por domínio ou poder de um indivíduo a procurar vencer dificuldades e garantir sua
posição no futuro, encontra eco em seus sonhos”. (ADLER, p. 68)

Empatia
A empatia é a capacidade de sentir e se aproximar do outro: “A empatia ocorre desde o
momento em que uma ser humano fala com outro. É impossível compreendermos outro
individuo se nos for impossível identificar-nos com ele. O drama é a expressão artística da
empatia” (ADLER, p. 69). Sentimos empatia em situações banais como quando freamos o
carro sem estarmos dirigindo ou quando vamos ao teatro e sentimos os sentimentos do
personagem ou entramos em um jogo de futebol e defendemos ou chutamos a bola.
Como vimos no início do texto, para Adler a adaptação ao meio, que inclui a sociedade, é
um tema central de seus estudos. Por isso, para ele quem não tem empatia está longe de
conseguir adaptar-se e perto de ter ou desenvolver uma perturbação mental: “Casos de
crueldade com os animais, que notamos na infância, seriam quase impossíveis de ocorrer
sem a ausência quase total do sentimento de sociabilidade e da aptidão de identificar-se
uma pessoa com outros seres vivos” (ADLER, p. 70). Como sabemos, casos como este
geralmente indicam algum distúrbio futuro.

Hipnotismo e sugestão
No último tópico do texto, Adler menciona a hipnose e a sugestão, que ainda estavam em
voga no início do século XX. Segundo ele, “Na hipnose estamos comumente a lidar com
indivíduos que, embora pareçam reagir à ação do hipnotizador, estão essencialmente
desejosos de se submeter às suas ordens” (ADLER, p. 73).
Não poderia ser diferente, afinal, até aqui vemos que o ponto central de todos os conceitos
de Adler é a relação do indivíduo com o seu meio e o desejo de poder. Na hipnose,
claramente, o sujeito deixa o seu poder e dá-o para uma outra pessoa, o hipnotizador: “Em
nenhum caso, o grau de prontidão em obedecer depende da vontade do hipnotizador.
Condiciona tão prontidão a atitude psíquica do paciente ou médium” (ADLER, p. 73).
Uma consequência interessante a ser retirada deste ponto é que a educação de um sujeito
não pode ser feita se o conteúdo ou a forma provocar um mal no indivíduo, como as punições
que eram frequentes. Assim como para aprender e para educar-se o sujeito tem que ter
certa autonomia para pensar e, ao mesmo tempo, a capacidade de ter empatia com o
educador.

Conclusão
Neste texto, podemos ver como os argumentos fundamentais de Adler são também
explicativos para diversas áreas do funcionamento psíquico. Fiz questão de citar
diretamente o texto porque sei que quase ninguém tem acesso a este livro aqui no Brasil.
Na próxima Lição, falaremos sobre o senso de inferioridade e a luta pela consideração.

Sentimento de inferioridade e a luta pela


consideração – Adler
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis
Segundo Alfred Adler, “toda a manifestação de vida de um homem é um aspecto
de seu padrão uno de desenvolvimento”. Este padrão único baseia-se, por sua
vez, na superação do sentimento de inferioridade que todos teríamos na primeira
infância
Olá amigos!
Continuando o nosso Curso Gratuito sobre a obra de Alfred Adler, A Ciência da Natureza
Humana, vamos falar hoje sobre o capítulo V – O sentimento de inferioridade e a luta pela
consideração, de acordo com a perspectiva da Psicologia Individual.
Eu separei alguns trechos mais importantes e um exemplo final através do qual poderemos
ver, na prática, as ideias de Adler.

A luta da primeira infância


Como vimos em aulas anteriores, o criador da Psicologia Individual, Alfred Adler,
frequentemente volta o seu olhar para a primeira infância e coloca-se na posição da criança.
Se fizermos o mesmo exercício, veremos que a criança se vê frente a um mundo “de
gigantes”, com necessidades que não pode aplacar. Quando somos crianças, não
conseguimos preparar o nosso próprio alimento, não conseguimos acender ou apagar uma
luz, enfim, precisamos quase que todo o tempo da ajuda e do auxílio dos mais velhos.
A forma com a qual a criança é criada neste primeiro momento de sua vida terá um grande
impacto no modo como o seu ser se constituirá. Em outras palavras, embora todas as
crianças no mundo compartilhem deste começo como seres que precisam de ajuda, a
educação e o meio influenciará como cada criança vai lidar com a sua inferioridade.
Diz Adler: “Compreende-se, ao notar-se quão fraca e inerme é uma criança, que todo o
começo de vida é marcado por um maior ou menor senso de inferioridade. Mais cedo ou
mais tarde a criança adquire consciência de sua inaptidão para lutar, sem a ajuda de outrem,
com as dificuldades da existência. Este sentimento de inferioridade é a força geradora, o
ponto de partida dos impulsos combativos das crianças. Será ele que determinará o modo
por que a criança adquirirá paz e segurança na vida, será ele que determinará a própria
meta de sua existência e preparará o caminho pelo qual esta meta será atingida” (ADLER,
p. 78).
Neste capítulo V, Adler mostra como crianças que tem alguma deficiência podem vir a
exacerbar este sentimento de inferioridade e como os adultos ou as outras pessoas
circundantes podem vir a ferir e a deixar marcas profundos em situações que seriam
consideradas corriqueiras ou sem significado. Outro exemplo reside nas mentiras contadas
à criança que poderão fazê-la desconfiar de tudo e de todos.
Regra geral, com exceção das pessoas que conseguem lidar bem com a sua inferioridade
inicial, nós encontraremos duas grandes possibilidades futuras que são negativas:
1) a intensificação do sentimento de inferioridade;
2) a tentativa de sobrepujar a inferioridade com o sentimento de ser superior.
Nas palavras de Adler: “A educabilidade pode ser prejudicada por dois fatores. Um deles é
o exagero, a intensificação, a persistência do senso de inferioridade, e o outro é a ambição
de conseguir não somente segurança, paz e equilíbrio social como também o predomínio
sobre o meio e sobre os seus iguais” (ADLER, p. 748).

A compensação do sentimento de inferioridade:


a luta pela consideração e superioridade
“É o sentimento de inferioridade, de inaptidão, de insegurança, que determina o alvo da
existência de um indivíduo. A tendência de se por em foco, de atrair a atenção dos pais, faz-
se sentir desde os primeiros dias de vida. Encontram-se aí os primeiros indícios do despertar
desse desejo de consideração, de apreço, a desenvolver-se sob o concomitante fluxo do
senso de inferioridade e do propósito dele originado de atingir uma posição em que o
indivíduo seja aparentemente superior ao seu ambiente” (ADLER, p. 78).
Nesta frase de Alder, podemos notar como ele vincula a busca de um objetivo na vida (a
luta pela consideração) como uma compensação para o sentimento de inferioridade. Ao
analisar um caso clínico, o autor vai buscar sempre a causa do sintoma mais na finalidade
do comportamento – o que o comportamento visa ou busca – do que na causa infantil,
embora a causa infantil (a inferioridade) seja importante para entendermos a história de
surgimento da finalidade.
O exemplo mais forte deste capítulo é de uma dona de casa, casada, que reclama de estar
fatigada, cansada, sem desejo de viver, apesar de estar sempre imersa em seus afazeres
domésticos, sem chance ou tempo de descansar. Apresenta-se agitada, irriquieta e dos que
estão ao seu redor, descobre-se que é uma pessoa que leva cada mínimo detalhe a sério e
que “faz tempestade em copo d’água”.
Investigando mais a fundo, Adler levanta a hipótese de que o fato de manter-se
constantemente atarefada justifica-se para que ninguém solicite nenhuma outra atividade
dela, por mais simples que seja. Como está sempre fazendo tudo ao mesmo tempo, ninguém
pode pensar mal dela. Afinal, ela está ocupada. O seu expediente da super-ocupação visa,
igualmente, buscar a consideração e afeição do marido. A paciente diz:
“Ninguém me pode censurar por este motivo (defeitos como dona de casa), pois de manhã
até a noite vivo sobrecarregada de trabalho. Se o almoço não for posto a tempo na mesa,
ninguém me poderá dizer nada, porque ando sempre numa roda viva, com mil coisas por
fazer. Deveria eu desistir desse meu método?” (ADLER, p. 91).
Apesar de que o seu procedimento lhe trazia vantagens, as desvantagens eram os seus
próprios sintomas: em sua tentativa de dominar os outros e conseguir deles a afeição e
carinho, ela tinha constantes dores de cabeça por erros insignificantes, insônia ao pensar
no que tinha ainda que ser feito, cansaço e afastamento dos outros para não ser criticada.
Desta forma, todos os seus sintomas era frutos de sua luta pela consideração, luta esta que
vinha tentar abafar o seu sentimento de inferioridade. Se o marido precisava chegar mais
tarde para o trabalho, ela ficava brava e brigava com ele. Com o tempo, ela descobriu que
o melhor seria lhe dar uma autorização para ficar até mais tarde, ou seja, inverter as coisas
de um modo que lhe parecesse que ela que estava dominando e não de um jeito que ficasse
como se ela estivesse sendo dominada.
Na história de vida da paciente, que tinha um irmão e uma irmã mais novos, ela tinha tido
que lidar com os ciúmes infantis. Com o nascimento primeiro do seu irmão e depois da sua
irmã, ela tinha perdido o posto principal na atenção dos pais, especialmente da mãe. Cedo
ela viu que dedicavam mais atenção ao irmão (por ser um garoto) e logo em seguida veio a
entender que também dedicam mais consideração à irmã, por ser a caçula.
Assim, toda a sua vida psíquica visava preencher este sentimento de inferioridade (de ser
pior do que seus irmãos e de não ser digna da estima materna) com a dominação do seu
ambiente. Como ela percebeu que ao não fazer uma tarefa na escola e depois como dona
de casa receberia críticas, ela fez o inverso: começou a fazer tudo no máximo e a atentar
tanto para os mínimos detalhes que como consequência viu surgir os sintomas dos quais
reclamava.
Adler conclui com a análise de um sonho:
“Interpretemos agora um sonho para mostrar quão profundamente este padrão de
procedimento se acha fixado em sua alma. Essa senhora sonhou que estava em casa
conversando com o marido, mas o marido aparecia-lhe não como homem, mas como
mulher. Este pormenor é um símbolo do padrão com que ela coteja todos os seus atos e
relações. O sonho significa que, durante o mesmo, conseguiu igualmente com o esposo. O
esposo não é mais o macho dominador, como seu irmão o fora, pois que lhe aparece como
mulher. Já não há diferença para melhor ou para pior entre eles. Em seu sonho, conseguiu
aquilo que desejava desde a meninice” (ADLER, p. 96).
Na próxima Lição do nosso Curso Grátis, trataremos o tema “A preparação para a vida”.
O inconsciente para Adler e a preparação
para a vida
por Professor Felipe de Souza | Psicologia
Para Adler, “Todos os fenômenos psíquicos podem ser considerados como
preparações para um definido objetivo… uma constante preparação para um
futuro em que se realizem os desejos do indivíduo”.
Olá amigos!
Hoje vamos continuar o nosso Curso sobre a obra de Alfred Adler. No capítulo intitulado “A
preparação para vida”, Adler apresenta seus principais argumentos com relação à alguns
temas importantes para a sua psicologia individual. Estes temas que vamos tratar nesta lição
são: o brinquedo, a atenção e a distração, o inconsciente, os sonhos e a inteligência.

O brinquedo
Como já vimos em lições anteriores, a psicologia individual avalia sempre a infância de um
indivíduo. E, como na infância, o brincar é uma atividade importante, é necessário pensar
em que consiste a forma de brincar de uma criança.
O autor diz:
“Pode-se ver em todos os brinquedos a preparação para o futuro. O modo com que a criança
se entrega ao brinquedo, a escolha deste, e a importância em que o tem, indicam uma
atitude para o meio e o modo com que vai fixando a suas relações com os demais indivíduos.
Se se trata de uma criança belicosa e hostil, ou amável e amigável, vou de alguma com
tendência ao mando, logo podemos ver pelo seu brinquedo: observando a criança em seu
jogos, descobre se a sua atitude fundamental em face da vida” (ADLER, p. 98).
Quem estuda psicologia infantil e trabalha com a psicologia clínica para atendimento de
criança com certeza concordará com essa perspectiva. É fácil de observar na clínica infantil
como a criança escolhe seus brinquedos a partir de seu modo de relacionar com os outros
e com a vida.
No texto, o autor frisa dois aspectos fundamentais do brincar da brincadeira. Estes dois
aspectos são: a sociabilidade e a competição.
“Observando-se uma criança a brincar, podemos avaliar com apreciável exatidão o quantum
de seus sentimento de sociabilidade”, e, mais à frente: “O alvo do predomínio ou
superioridade, outro fato óbvio no jogo, trai-se pela tendência da criança a ser o
comandante, o capitão, o chefe” (ADLER, p. 98).

A atenção e a distração
Nos dias atuais tem sido dado muito destaque para o que o DSM-5 chama de Transtorno de
Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), sobre o qual já falamos neste texto – O
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma mentira?
Apesar de que Adler está localizado historicamente muito antes da criação do TDAH, alguns
de seus pensamentos são interessantes para que possamos criticar o excesso de
diagnóstico que vem sendo dado, além da medicamentalização de uma suposta doença
sem causa definida.
Adler diz: “Todos os seres humanos possuem a aptidão de prestar atenção” e “O mais
importante fator para despertar a atenção é um real e profundo interesse pelo mundo
(ADLER, p. 100). Para o criador da psicologia individual, o fato de uma criança não prestar
a atenção em uma aula, por exemplo, é indício apenas de que o interesse não lhe foi
despertado.
Uma dica simples que podemos utilizar (com sucesso) está presente na seguinte frase: “É
fácil de observar-se como se prende imediatamente atenção da criança quando se trata de
pôr em foco ou de reconhecer-lhe a importância (ADLER, p. 101), ou seja, podemos
estimular o interesse e a atenção de uma criança ao notarmos o seu ser e darmos relevância
à sua individualidade.
Se formos parar para pensar, veremos que a maioria das crianças gosta muito dos primeiros
anos da escola. O interesse parece diminuir com o tempo, na medida em que a relação com
os professores é distanciada. No começo, a professora é atenta a cada aluno e elogia os
seus esforços (“Parabéns”, “Excelente”, “Maravilhoso”) e depois o elogio é substituído pelas
exigências de notas e críticas a notas baixas.
Para finalizar este tópico, Adler diz: “Não é direito, portanto, dizer-se que alguém não seja
capaz de concentrar-se. Podem-se provar a perfeição que essa pessoa é muito capaz de
concentrar-se, mas sempre em outra coisa que não a observada… Em todos os casos
podemos estar certos de haver deficiência de atenção, somente por estar sendo demandado
objetivo diverso do que devia ser adotado” (ADLER, p. 101).

O inconsciente
No capítulo “A preparação para vida”, este é um dos tópicos mais importantes para quem
deseja aprender com sua psicologia. Como o livro é raro, compartilho com vocês os
principais trechos desta parte do capítulo:
Adler diz:
“Poderemos procurar e encontrar um padrão de procedimento de um homem no
inconsciente. Em sua vida consciente apenas poderemos encontrar um reflexo, um negativo
desse padrão. Uma mulher vaidosa geralmente não tem conhecimento de sua vaidade, na
maioria das vezes em que manifesta; caso contrário, procederia de modo que apenas
aparentasse modéstia aos olhos dos outros” (ADLER, p. 103).
E na qualidade do que é consciente ou inconsciente, ele apresenta a hipótese de duas
classes de sujeitos, os que tem mais consciência de si e os que tem menos: “Os seres
humanos podem ser classificados em dois tipos: dos que conhecem mais coisas do que o
comum dos homens sobre sua vida inconsciente, e aqueles que conhecem menos, isto é,
de acordo com a extensão da esfera da sua consciência. Em grande número de casos,
observamos coincidente mente que um indivíduo do segundo tipo se concentra em uma
esfera de atividade, ao passo que os do primeiro tem um largo círculo de atividade de grande
interesse pelos homens, coisas, fatos e ideias (…) Os da primeira classe vivem uma vida
mais consciente, encaram os problemas da vida de modo mais objetivo, sem cataratas nos
olhos. Os da segunda classe enfrentam a vida cheios de ideias preconcebidas concebidas
e apenas veem pequena parte dela” (ADLER, p. 104-105).
Porém, apesar de que alguns tem mais consciência de si, a consciência de quem se é,
também não está alheia a equívocos: “Nos sucessos da vida, descobriremos muitas vezes
que um indivíduo desconhece suas próprias aptidões, por ser estimar em menos do que
vale. Descobriremos também que lhe falta a verdadeira orientação no que diz respeito a
suas deficiências: considera-se um homem bom, quando na realidade faz tudo inspirado
pelo egoísmo; ou, vice-versa, considera-se um egoísta em conjucturas em que uma análise
mais rigorosa mostrará ser um homem bom” (ADLER, p. 104).
Assim como Freud, Adler também antevia que no processo de tornar um conteúdo
inconsciente estava o processo de repressão: “Há certas ideias que não podemos manter
muito a vista, não só por causa dos outros, como também por causa de nós próprios (…)
É fenômeno humano universal que todos se deixem empolgar pelas ideias que justifiquem
sua atitude e repulsem as que possam impedi-los de seguir para a frente.os seres humanos
não ser atrevem a servir-se senão das coisas que na sua interpretação do mundo são
valiosas para eles. Aquilo que nos é útil à argumentação, trazemos para a consciência; e
que podem perturbá-la, impelimos para o subconsciente” (ADLER, p. 109).
Sobre os sonhos, Adler define: “O sonho, aliás, evidencia a maneira por que se manifesta o
processo do pensamento de quem sonha, bem como revela o padrão de seu procedimento.
O sonho é comparável a uma coluna de fumaça que revela haver fogo em alguma parte. O
lenhador experiente, ao observar a fumaça, diz que espécie de madeira está queimando:
exatamente como psiquiatra pode tirar conclusões relativas à natureza de um indivíduo,
mediante a interpretação de seus sonhos. (ADLER, p. 120).
E de forma sintética, diz: “Em suma, podemos dizer que um sonho nos mostra não só que
a pessoa que sonha se acha preocupada com a solução de um problema de sua vida, como
também o modo pelo qual ela enfrenta esse problema. Os sonhos revelam em particular os
seguintes dois fatores que influenciam as relações da pessoa com o mundo e a realidade:
o sentimento de sociabilidade e a lutar pela dominação” (ADLER, p. 120).

Inteligência
Sobre a inteligência Adler escreve: “Se quisermos com tudo julgar com acerto um indivíduo,
não podemos excluir de nosso exame seus pensamentos e palavras” (ADLER, p. 121). Quer
dizer, se formos fazer uma avaliação de personalidade de uma pessoa, não podemos nos
contentar no que a pessoa faz. Temos também que levar em conta o que a pessoa diz e,
talvez até mais importante, o que a pessoa pensa e não diz – assim como as suas ideias
que são mais inconscientes do que conscientes e se escondem por detrás dos seus jeitos,
trejeitos, falas, reflexões e sonhos.
Já no final do capítulo V, Adler conclui: “É bem sabido que as crianças de oito a 10 anos das
famílias de classes elevadas, tem mais vivacidade mental do que as crianças pobres dessa
mesma idade. Isto não significa que as crianças ricas tem mais inteligência, e sim que as
causas dessa diferença estão inteiramente nas circunstâncias de sua vida anterior” (ADLER,
p. 122). Esta frase indica a sua ênfase sempre presente da importância do meio na formação
do indivíduo.
Na próxima aula, falaremos sobre as diferenças de gênero: homem e mulher.

Adler: Superioridade e Inferioridade – O


Homem e a Mulher
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis
Conheça as concepções do criador do conceito de complexo de inferioridade
sobre as questões de gênero e as suas críticas às ideias de que a mulher é
naturalmente um ser inferior.
Olá amigos!
Continuando o nosso Curso Psicologia Individual de Adler, hoje vamos descrever as
concepções de Adler a respeito das relações entre os gêneros feminino e masculino. Mais
especificamente, como a mulher – em uma sociedade patriarcal – vem sendo identificada
com a inferioridade e como este estado de coisas é prejudicial não só para ela como para
todos.

1) A bissexualidade e a divisão do trabalho


Adler começa o texto fazendo um resumo do que viemos tratando em nosso curso:
“Pelas nossas considerações antecedentes, ficamos sabendo que duas grandes tendências
dominam os fenômenos psíquicos. Estas duas tendências – o senso de sociabilidade e o
senso de superioridade ou dominação – influenciam a atividade humana e governam a
atitude fundamental do indivíduo em sua luta pela segurança, e pela satisfação das três
grandes exigências da vida: o amor, o trabalho e a vida social” (ADLER, p 123).
O que devemos guardar desta breve citação são as duas grandes tendências: a vida em
sociedade e a superioridade ou inferioridade. Afinal, se não vivêssemos em sociedade não
faria sentido uma comparação com os outros ou a tentativa de dominar ou sobrepujar. Mas,
como vivemos em grupos sociais, temos que nos adequar ou procurar transformar o que
nos é apresentado.
Por exemplo, no trabalho frequentemente temos que lidar com pessoas que estão em cargos
mais “altos” (e nos submeter às ordens) e com pessoas que estão em cargos mais “baixos”
(e dar ordens). Trazendo esta divisão social do trabalho para o campo da discussão das
questões de gênero, veremos que há uma identificação – totalmente equivocada – entre a
posição subalterna e a mulher. Ou seja, a sociedade até os dias atuais tenta colocar a mulher
uma posição inferior.
É claro que, temporalmente, o texto de Adler dista quase um século. Entretanto, muito do
que ele diz (quase que prevendo o futuro) ainda acontece.

O predomínio do homem sobre a mulher na


civilização atual
Adler escreve: “A divisão do trabalho se fez de tal arte que, ao grupo privilegiado, o dos
homens, foram garantidas certas vantagens, decorrentes de sua dominação sobre as
mulheres” (ADLER, p. 125). E lembra, também, que durante séculos se discutiu no âmbito
da teologia cristã, se as mulheres teriam ou não alma. Como ele menciona, o tempo da caça
às bruxas acabou, felizmente.
Entretanto, apesar dos esforços das lutas feministas terem trazido diversas modificações
importantes, é digno de nota o fato de que as mulheres normalmente ganham menos do que
os homens mesmo desempenhando função idêntica. Ou, se ganham salário igual, tem
sempre que provar a sua capacidade – só pelo fato de ser mulher.
E isto é visível, ainda em nossos dias, desde a infância. Adler diz:
“Desde o dia de seu nascimento, [o menino] é logo recebido com grande entusiasmo por ser
um menino e não uma menina. É bem sabido que, com grande frequencia, os pais preferem
ter filhos homens a ter filhas” (ADLER, p. 128).
É importante lembrar também que a linguagem cotidiana pode ser extremamente parcial e
enganosa. Por exemplo: “certos traços de caráter são considerados masculinos e femininos,
posto que não haja base alguma para tal classificação” (ADLER, p. 129). E mais a frente:
“Uma das piores consequencias do prejuízos à inferioridade da mulher, é a classificação
feroz dos conceitos de acordo com o critério dessa inferioridade: assim, ‘masculino’ significa
valioso, poderoso, vitorioso, capaz, ao passo que ‘feminino’ equivale a obediente, servil,
subalterno” (ADLER, p. 135).
Assim, com a idealização do papel masculino, com a maior dominação masculina, a menina
frequentemente não encontra um ponto de referência.
A deserção da feminilidade
“As evidentes vantagens de ser-se homem tem causado sérias perturbações no
desenvolvimento psíquico das mulheres – e, em consequência dessas perturbações, há
uma quase geral insatisfação com o papel feminino” (ADLER, p. 135). O criador da
Psicologia Individual cita 4 possíveis tipos a partir desta deserção da feminilidade:
1) A mulher que se identifica com a masculinidade: “Faz-se extraordinariamente enérgica e
ambiciosa, e luta incessantemente para vencer nos torneios da vida. Procura ultrapassar os
irmãos e colegas do sexo masculino, prefere atividades geralmente considerados privilégios
dos homens, interessa-se por desportos, etc. Muitas vezes evita o amor e o casamento”
(ADLER, p. 136).
Ao educar os filhos, se os tiver, será excessivamente brava e enérgica, recorrendo a
castigos, punições e ameaças para tentar coagir seja o filho ou a filha.

2) A mulher que se sente inferior e se identifica com esta posição: “Apresenta um grau quase
incrível de adaptação, obediência e humildade (…) Apesar disso, se faz habitualmente
acompanhar de moléstias nervosas, como se dissesse: ‘Como é triste a vida!’ (ADLER, p.
136).
3) A mulher que se sente inferior e defende a superioridade masculina: “Convencida da
inferioridade das mulheres (…) ajuda a avolumar o côro de vozes que entoa os louvores do
homem como o ente que faz e cria – e exige para ele, uma situação especial” (ADLER, p.
138).
Na educação, as mulheres do segundo e do terceiro tipo são submissas e chamam o pai
para resolver os problemas ou para ameaçar com punições.
4) A mulher que esconde a sexualidade: “A insatisfação contra o papel feminino ainda se
demonstra com maior evidência nos casos das moças que fogem à vida comum por algum
dos tais motivos a que chamam ‘nobres’. Constituem casos dessa espécie as freiras e outras
mulheres que se dedicam a trabalho para o qual seja indispensável o celibato” (ADLER, p.
139).

A hostilidade entre o homem e a mulher


Como é evidente para qualquer observador atento, a identificação entre o papel dito
masculino (superior) e o papel dito feminino (inferior) é motivo para desentendimentos,
confusões, brigas, ressentimentos – o que Adler chama de hostilidade:
“O erro da inferioridade da mulher, e seu corolário – a superioridade do homem – perturbam
constantemente a harmonia entre os representantes dos dois sexos” (ADLER, p. 146).
Estas concepções erradas são criações do meio: ” a criança em sua inferioridade não é
congenita mas embutida pelo ambiente em que vive” (ADLER, p. 149).

Conclusão
Não obstante o fato de que o texto de Adler é do início do século XX, a maior parte de suas
concepções são atuais. Neste texto, procurei citar os trechos mais importantes do capítulo
“O homem e a mulher” do livro A Ciência da Natureza Humana, pois sei que é um livro difícil
de ser encontrado. Apesar das diversas citações, não sei se ficou totalmente claro o ponto
de vista de Adler.
Em resumo, o criador da Psicologia Individual possui uma perspectiva progressista e, com
o uso correto da palavra, feminista. Ou seja, ele não defende uma posição superior dos
homens. Pelo contrário, vai contra a sua época que preconizava a posição inferior da mulher
(inclusive refutando a suposta inferioridade biológica).
Como excelente psicólogo e médico que era, Adler não poderia concordar com colocar a
metade da população mundial em uma situação de prejuízo psíquico. Mas, como já é sabido
dentro do movimento feminista, a maior dificuldade para uma mudança maior é a própria
mulher, que ainda se vê nesse posto de inferioridade frente ao homem. Como ela se vê
assim, ela passa isso para as gerações seguintes. Talvez de uma maneira mais forte, ainda,
do que os homens infantis que, se sentindo inferior e querendo ser superior aos demais,
procuram inferiorizar o “sexo frágil”.
No próximo texto de nosso Curso, falaremos sobre A ciência do caráter.
Adler e a Ciência do Caráter: Otimismo e
Pessimismo
por Professor Felipe de Souza | Psicologia
Conheça a definição de caráter para Alfred Adler, o criador da Psicologia Individual e as
diferenças entre otimismo e pessimismo.
Olá amigos!
Continuando o nosso Curso Grátis sobre a Psicologia Individual de Adler, hoje nós veremos
as concepção dele sobre o caráter, no capítulo intitulado: “A Ciência do Caráter”.
Especificamente, falaremos de dois tipos de caráter descritos pelo autor: o otimismo e o
pessimismo.

Definição de Caráter
Adler define do seguinte modo o que entende por caráter:
“Chamamos traço de caráter todo modo especial de expressão, pelo qual o indivíduo tenta
adaptar-se ao mundo onde vive (…) O caráter é uma atitude psíquica resultante do modo
por que o indivíduo se defronta com o meio onde exerce a sua atividade. É o padrão de
procedimento que condiciona, dentro do senso de sociabilidade do indivíduo, a sua luta para
adquirir consideração e predomínio social” (ADLER, p. 161).
Assim, caráter é o padrão de conduta que vai sendo criado a partir do contato do indivíduo
com o seu meio, desde a sua primeira infância. Adler critica as teses de que o caráter é
hereditário ou biológico (temperamento ou endocrinológico). Para ele, quando notamos o
mesmo traço de caráter em diversos membros de uma família, estamos apenas notando
que aquele traço de caráter, em especial, foi imitado pelos mais novos como uma forma de
se adaptar à vida:
“Os traços de caráter não são herdados, como muitos supõe; não são congênitos. Devem
ser considerados como modelos, planos de existência, que permitem ao ser humano viver
a sua vida e manifestar a sua personalidade em todas as situações, sem a necessidade de
conscientemente refletir a respeito” (ADLER, p. 162).

Exemplos de traços de caráter


Como sempre, facilita entender o conceito de caráter e traços de caráter a partir de
exemplos. Antes de entrarmos nos tipos otimistas e tipos pessimistas, é interessante
também vermos outras possibilidades.
Adler escreve: “Uma criança, por exemplo, não nasce preguiçosa; faz-se preguiçosa porque
a preguiça lhe parece o meio mais adequado para tornar a vida mais fácil. ao mesmo tempo
que lhe permite manter seu senso de importância” (ADLER, p. 162).
Com esta citação, podemos ver que Adler refuta a ideia de que o caráter venha com o
nascimento. Ele coloca a ênfase na relação entre o indivíduo e o seu meio. Como o
ambientalismo é a sua tese central e como a forma como o sujeito enfrenta o ambiente
aonde nasce é de suma importância, temos novamente os dois aspectos sem os quais não
podemos compreender a sua Psicologia Individual:
– é fundamental compreender o meio no qual o indivíduo nasce;
– é fundamental compreender de que jeito o indivíduo procura dominar o seu meio (senso
de importância e complexo de inferioridade ou superioridade).
Nas palavras do autor:
“Toda criança se defronta com tantos obstáculos na vida que nenhuma cresce sem deixar
de lutar para obter a sua parcela de importância. As formas que pode tomar esta luta são
variáveis, mas cada ser humano procura resolver, de um modo individual, o problema de
sua importância pessoal” (ADLER, p. 164).
E, mais a frente:
“O senso de sociabilidade é, depois da luta pela dominação, o fator mais importante na
formação do caráter” (ADLER, p. 165).

O Otimismo e o Pessimismo como


desenvolvimentos do Caráter
Para Adler, podemos compreender o caráter a partir de certas características facilmente
visíveis. Na medida em que o caráter se desenvolve desde a infância – sempre levando em
conta a tendência humana à socialização e a tendência à dominação – as consequências
que o meio pode impor e as reações individuais vão tecendo, criando e formando o padrão
de comportamento.
Assim, dada a tendência de todo ser humano de tentar dominar, uma criança que não
encontre muitos obstáculos pode ter uma visão mais otimista da vida:
“Na ausência desses obstáculos a sua atitude inicial não se perturbará; ela investirá
animosamente contra as suas dificuldades; mas em face de obstáculos sérios a criança se
transmuda, teremos diante de nós não mais a criança franca e otimista, mas a criança que
aprendeu que o fogo queima, e que existem adversários de quem se deve acautelar. Então,
procurará atingir seu alvo de impor-se à atenção e conquistar o poder por meio de
tortuosidades psíquicas” (ADLER, p. 171).
Na sequência, Adler define as diferenças fundamentais entre o caráter de uma pessoa
otimista e de um pessimista:
Otimistas: “Estes arcam corajosamente com todos os obstáculos, não os tomando muito a
sério. Tem confiança em si mesmos e assumem com relativa facilidade uma atitude feliz.
Não existem muita coisa da vida porque se tem em grande conta, não se considerando
esquecidos nem insignificantes. São, por isso, capazes de superar os obstáculos da vida
mais facilmente do que as outras pessoas, que apenas os encaram como outras tantas
justificativas de sua fraqueza e inadaptação. Nas situações mais difíceis os otimistas se
conservam calmos, convencidos de que seus erros poderão ser sempre retificados”
(ADLER, p. 173).
Pessimistas: “De tipo completamente diverso são os pessimistas. É com eles que surgem,
para nós, os máximos problemas da educação. São indivíduos que adquiririam um complexo
de inferioridade, em resultado de fatos e impressões de sua infância, e para quem toda
espécie de embaraços concorreu para vigorizar-lhes o sentimento de que viver não é coisa
fácil. Sempre encaram o lado sombrio da existência em consequência de sua filosofia
pessoal pessimista, que foi alimentada, na infância, por tratamento inadequado. Tem muito
mais consciência das dificuldades da vida do que os otimistas, e é-lhes fácil desanimar.
Torturados por um sentimento de insegurança estão constantemente a procurar um apoio”
(ADLER, p. 173).

Um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; um otimista vê uma oportunidade em cada


dificuldade (Winston Churchill)

Conclusão
Para concluir, gostaria de mencionar também a conclusão de Adler para este capítulo (que
é uma introdução à 2° Parte do Livro A ciência da natureza humana sobre o caráter –
veremos mais sobre o tema nas lições seguintes):
Adler diz: “O caráter de um ser humano nunca deve servir para base de um julgamento
moral e sim como índice da atitude desse ser humano para com seu ambiente e de suas
relações com a sociedade em que vive” (ADLER, p. 187).
Ou seja, estudar o caráter – o otimismo ou o pessimismo, a preguiça ou a delinquência –
não objetiva apontar o dedo e mostrar os erros dos outros. O intento é compreender o que
está por trás de cada uma das atitudes. É importante lembrar a grande preocupação do
autor com a educação das crianças e a tentativa de encontrar uma forma para que elas
cresçam não somente bem adaptadas como, também, felizes.

Adler sobre a vaidade, ciúme, inveja,


avareza e ódio
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis
Olá amigos!
Continuando o nosso Curso Grátis sobre a Psicologia Individual de Alfred Adler, vamos falar
hoje sobre traços agressivos do caráter: a vaidade, a ambição, a inveja, a avareza e o ódio.
Lembrando que Adler é o criador do conceito de complexo de inferioridade e valoriza dois
aspectos principais da vida psíquica: a influência do meio sobre a construção do caráter e a
importância da teleologia, ou seja, toda e qualquer ação tem uma finalidade; em especial, a
finalidade de conseguir superar o sentimento de inferioridade oriundo das necessidades de
ser criança e precisar de ajuda.

A vaidade
Segundo as concepções de Adler, a vaidade consiste no fato de se pensar no que os outros
estão pensando sobre si. Embora a vaidade não seja valorizada socialmente, é provável
que todos possuam certo grau de vaidade, desde aquele que se arroga a uma posição
superior para parecer melhor do que os demais até aquele que procura sempre mostrar um
ar de modéstia ou de humildade que, no fundo, não é nada mais nada menos do que
vaidade.
Em suas palavras: “O vaidoso conhece sempre o modo de atirar para as costas dos outros
a responsabilidade dos erros que tenha cometido (…) Em lugar de prestar sua contribuição,
o vaidoso ocupa-se principalmente com queixas, desculpas e explicações. É que estamos
em face de artifícios da alma humana, da tentativa do indivíduo para conservar, a todo
transe, seu sentimento de superioridade, resguardando o amor próprio de qualquer ofensa”
(ADLER, 1961, p. 190).
O objetivo do sujeito vaidoso – aquele para o qual a vaidade é o centro da sua existência –
é “ser superior a todas as pessoas do mundo” (ADLER, 1961, p. 193). Como isto é
totalmente impossível, são criados expedientes para afastar o seu senso de inferioridade,
como apontar sempre os erros alheios, apresentar certo ar “aristocrático”, de superioridade,
colocar a culpa nos demais, por não ter podido realizar o que deveria realizar e assim por
diante.
Como diz Adler: “O hábito de depreciar e menosprezar de tais indivíduos é um dos seus
traços de caráter mais comuns. Chamamos a isso de ‘complexo de menosprezo’ (…) O
reconhecimento do valor de outra pessoa equivale a uma afronta à personalidade do
vaidoso” (ADLER, 1961, p. 195).
Na medida em que é relativamente complicado deixar de pensar no que os outros pensam
de nós (e tentar buscar uma melhor aparência de quem somos), Adler também diz que,
neste caso, o melhor procedimento seria utilizar a vaidade – tentativa de se mostrar de
maneira positiva para os demais, de criar uma boa imagem sobre si – para algo que fosse
benéfico para a sociedade em geral.
Por exemplo, um sujeito caridoso pode até ser vaidoso de sua caridade, mas, pelo menos,
está utilizando a sua vaidade para ajudar os demais.

O ciúme
Adler explica que o que entende por ciúme não é apenas aquele existente na maioria das
relações amorosas. Para ele, o conceito de ciúme perpassa também as demais relações
humanas. De acordo com o criador da Psicologia Individual: “o ciúme, irmão da ambição, é
traço de caráter que pode perdurar a vida inteira e que desponta com a impressão de
abandono e de injustiça” (ADLER, 1961, p. 214).
Um exemplo de ciúme que vai além das relações de duas pessoas apaixonadas, é o ciúme
que aparece na família com o nascimento de um irmãozinho ou irmãzinha. Infelizmente,
acontece de o ciúme ser tão forte que chega a agressões físicas e, nos casos mais extremos,
até a assassinatos.
“Uma das causas mais frequentes dos ciúmes na família é a exagerada rivalidade entre
irmãos e irmãs. Sentindo-se desprezada, uma menina esforça-se incansavelmente para
vencer os irmãos” (ADLER, 1961, p. 216). Neste trecho, Adler menciona a questão de
gênero, já que em sua época – mas não raro atualmente – o nascimento de um menino era
mais valorizado do que o nascimento de uma menina.
De toda forma, o nascimento de um irmão ou irmã gera o ciúme na medida em que a criança
maior sente que está sendo abandonada, “destronada”, retirada de seu posto de privilégios
anterior, pois com a chegada de um bebê, tanto a mãe como o pai tem que dar mais atenção
para este.
Adler salienta também que o ciúme pode se apresentar de diversas formas:
1) como desconfiança;
2) como preparo de armadilhas para os outros;
3) como críticas a qualquer pequeno detalhe;
4) como autodestruição;
5) e até como obstinação enérgica para ser superior.
Ele diz: “Algumas das formas proteicas deste traço de caráter são o gosto de ser
desmancha-prazeres, de ter o espírito de oposição sem motivo, de restringir a liberdade de
outra pessoa e conseguir sua consequente sujeição.
Fixar para outrem uma série de regras de conduta é um dos expedientes prediletos do
ciúme. É este o padrão característico do procedimento que uma pessoa adota, quando
intenta ditar jeitosamente algumas regras de amor ao cônjuge, quando cerca de muralhas a
pessoa a quem ama, e lhe determina par aonde deve olhar, que deve fazer e como deve
pensar” (ADLER, 1961, p. 246).

A inveja
Como estamos aprendendo com a teoria de Adler, um dos aspectos mais importantes da
vida psíquica é a tendência de cada um para sobrepujar o seu senso de inferioridade, a fim
ou com a finalidade de se sentir superior ou ter autonomia. Esta luta pela superioridade pode
ser benéfica ou maléfica, tanto individualmente como socialmente.
Para Adler, entender esta luta pela superioridade é fundamental para entender a psique.
Sobre a inveja diz ele:
“Sempre que existe a luta pelo poder e dominação, podemos, com certeza, encontrar, como
acréscimo, o característico da inveja. O contraste entre o indivíduo e seu objetivo
vertiginosamente elevado, manifesta-se pela forma de um complexo de inferioridade”
(ADLER, 1961, p. 217).
Em outras palavras, no fundo o sujeito sabe o que é e o que obteve, embora deseje e sinta
que poderia ser melhor ou ter mais, não pode deixar de admitir que não atingiu a perfeição
ou tudo o que alguém poderia obter. Comparando as suas realizações com os demais, tem
início a inveja:
“O invejoso passa o tempo a dar balanço das vitórias dos outros, a ocupar-se com o que os
outros pensam dele e com o que os outros realizaram. É presa, sempre, da impressão de
ser desprezado, de ser vítima de injustiças” (ADLER, 1961, p. 217).
Assim como acontece com a vaidade, Adler alerta que qualquer pessoa está passível de
sentir inveja. Quando a vida vai bem e não enfrentamos problemas muito grandes, a inveja
não aparece. Mas, com o surgimento de dificuldades (financeiras, amorosas, de saúde, etc),
a inveja começa a transparecer.
Igualmente, a saída é encontrar uma forma de utilizar a inveja para o próprio crescimento.
Ou seja, em vez de ficar comparando com os feitos dos outros, pode-se aumentar a
autoestima e imaginar que também é possível atingir aquilo que se deseja. Deste modo, a
inveja vai dando lugar cada vez mais para a vontade de realização e, com o tempo, poderá
até desaparecer.

O ódio
Devemos entender que o ódio possui diversos graus de intensidade ou matizes. Desde o
grau mais intenso, da cólera, até a tendência de implicar com os demais ou dizer maldades
sobre os outros. É importante notar também que o ódio nem sempre possui um objeto
definido e para sempre. Ou seja, um sujeito pode odiar uma pessoa por sua cor de pele e,
alguns anos depois, odiar uma pessoa pelo seu gênero ou opção sexual ou opção política.
Isso é importante porque não só o objeto não está definido de todo como também a
intensidade talvez se esconda bem quase todo o tempo, sem conseguir desaparecer por
completo, entretanto, reaparece como a face real de alguém em um momento em que perde
a cabeça, em que o sangue sobe…
“Uma das mais veladas modalidades é a da misantropia, que revela um altíssimo grau de
hostilidade contra o gênero humano. Existem escolas filosóficas tão saturadas de
sentimentos hostis ao homem e de misantropia, que se podem considerar equivalentes aos
mais grosseiros e indisfarçados atos de crueldade e brutalidade” (ADLER, 1961, p. 222).

A avareza
Adler não limita a avareza apenas em acumular dinheiro e ter “a mão fechada”. Ele define a
avareza como a inaptidão de dar prazer aos outros. Em resumo, na incapacidade de
proporcionar ou querer agir em benefício dos demais. Afinal, alguém pode ser avaro ao não
contribuir financeiramente com uma ajuda para o próximo, mas a avareza pode ser notada,
de igual forma, naquele que não ajuda o outro com ações ou mesmo palavras.
“Reconhecemos sua relação com a ambição e a vaidade e suas relações com a inveja. Não
há exagero em dizer que todos esses traços de caráter se mostram habitualmente reunidos
e, por isso, não é de estranhar que um ledor de almas, tendo descoberto um desses traços,
possa declarar que os outros também existem” (ADLER, 1961, p. 220).
Timidez, retraimento, ansiedade, medo e
desânimo para Adler
por Professor Felipe de Souza | Psicologia
Olá amigos!
Continuando o nossos Curso Grátis sobre a obra do Adler, o criador da Psicologia Individual
e do famoso conceito de complexo de inferioridade, hoje vamos falar sobre os traços não
agressivos do caráter, em oposição aos traços agressivos (que ele enumera e sobre o qual
falamos na aula anterior: vaidade, ambição, inveja, avareza e ódio). Os traços não
agressivos são: retraimento ou timidez, ansiedade, medo e desânimo.
Para ele, são traços igualmente negativos da relação do indivíduo com a sociedade.
Enquanto os traços agressivos são mais visíveis, os não-agressivos ocasionam “a
impressão de isolamento e fuga. É como se a corrente de hostilidade fosse desviada do seu
curso; tem-se a impressão de um desvio psíquico” (ADLER, 1961, p. 226).

Timidez: uma outra explicação para o retraimento

Existem várias explicações do porquê de uma pessoa ser tímida. As mais conhecidas e
divulgadas são as de que a pessoa tímida tem medo (a origem etimológica da palavra dá
esse sentido), ou seja, a pessoa tímida tem medo social. O que, tecnicamente, consiste na
fobia social ou ansiedade social.
Causas ambientais, genéticas, sociais são explicações comuns. A explicação de Adler,
entretanto, vai em uma direção bastante original. Levando em conta o argumento central da
sua teoria – o complexo de inferioridade e a tentativa de compensação pela dominação –
temos que uma pessoa tímida pode ter por trás da sua timidez um motivo inconfesso: o
sentimento que é superior aos demais.
Por exemplo, o intelectual que cita Platão em grego e apresenta-se timidamente em uma
festa pode, no fundo, querer se distanciar de tudo aquilo e manifestar todos os sintomas da
timidez porque se sente muito superior àquele ambiente burro ou inferior.
Ou, seguindo a mesma trilha do pensamento de Adler, este sujeito pode apresentar o medo
em situações em que o seu suposto (e talvez inconsciente) sentimento de superioridade
tiver que ser colocado à prova. Desta forma, conseguimos explicar sujeitos brilhantes
intelectualmente mas que temem qualquer tipo de prova, seja escrita, seja oral, seja uma
apresentação em grupo, um seminário, vestibular, concurso.
Escreve Adler: “Várias são as formas em que se manifestam o retraimento e o isolamento.
Há pessoas que se afastam da sociedade, que falam pouco ou absolutamente nada, não
olham de fito seus interlocutores e não ouvem, ou ficam desatentos quando alguém lhes
fala. Em sua relações sociais, até mesmo nas de natureza mais singela, mostram uma certa
frieza que lhes aliena a simpatia dos seus semelhantes. Sente-se-lhes a frieza nos modos
e gestos, na maneira por que apertam a mão, no tom de voz e na forma com que acolhem
ou deixam de acolher aos outros. Cada um de seus gestos parece visar aumentar a distância
entre si e os demais” (ADLER, 1961 , p. 227).
Como a timidez, o retraimento, a ansiedade social e o estão intimamente relacionados,
devemos falar destes aspectos em conjunto. Adler continua o seu texto falando sobre o
caráter do misantropo. Há um tempo atrás eu escrevi o seguinte texto – O que é
misantropia? Um exemplo do Livro Vermelho de Jung
O que gostaria de observar sobre este texto é que ele tem sido bastante acessado porque
está bem colocado nos mecanismos de busca. E, curiosamente, recebo frequentemente
comentários de pessoas que se afastaram de um jeito ou de outro do convívio social e
defendem a misantropia. Porém, não raro são extremamente odiosos (em inglês, haters
gonna hate, os que odeiam vão odiar, quer dizer, vão fazer questão de realizar comentários
ofensivos). O que comprova a tese de Adler de que muitos destes traços teoricamente não-
agressivos são desvios de uma hostilidade anterior.
Continua Adler:
“O caráter do misantropo é, com frequência, repassado de ansiedade. A ansiedade é uma
característico extraordinariamente espalhado entre os homens. Acompanha o indivíduo
desde a primeira infância até a idade avançada, amargurando-lhe a existência, privando-o
das relações humanas, destruindo-lhe a esperança de conseguir uma vida serena, ou de
prestar frutíferas contribuições ao mundo. O medo pode influir em toda atividade humana.
Podemos ter medo do mundo exterior, ou ter medo do mundo que encerramos em nós”
(ADLER, 1961, p. 228).
O criador da Psicologia Individual menciona, então, o uso que é feito pelas pessoas ansiosas
ou temerosas do seu medo com benefícios egoístas. Por exemplo, em certas crianças se
nota que o medo acaba trazendo consequências positivas. Obtém mais companhia, mais
atenção, mais cuidado do que quando não apresentam medo.
Por exemplo, uma criança que tem medo do escuro chama o seu pai ou sua mãe para dormir
com ela. Instantaneamente, o medo cessa. Se o pai ou a mãe saírem de perto, entretanto,
ele retorna. No fundo, o que está em jogo é o poder de exigir dos pais o que quer: “Enquanto
a pessoa obedece, dissipa-se a ansiedade, mas no momento em que fica ameaçada a
sensação de superioridade da criança, ela se torna outra vez aterrorizada” (ADLER, p. 1961,
p. 230). Também conseguimos compreender este tipo de comportamento pelo conceito
freudiano de ganho secundário.

O desânimo
“O desânimo é o traço característico daqueles que se acham que todos os trabalhos co os
quais se defrontam são particularmente difíceis; ou dos que não tem confiança em suas
forças para fazerem qualquer coisa. Em regra, este característico se evidencia sob a forma
de movimentos retardados” (ADLER, 1961, p. 232).
Notamos o desânimo como uma forma de se afastar de certos tipos de trabalho ou atividades
as quais a pessoa associa como desagradável. Adler define como esquivamento às
responsabilidade ou “problema da distância”.
O problema da distância é um conceito importante da Psicologia Individual, que visa avaliar
a distância que a pessoa estabelece entre três grandes problemas da existência:
1) Responsabilidade sociais: relação entre o eu e o vós (a sociedade em geral);
2) Responsabilidades profissionais: carreira, ocupação, trabalho, hobbies, projetos sociais;
3) Responsabilidades amorosas: namoro, amor, casamento, união estável…
Escreve ele: “Da proporção em que o indivíduo os deixou de resolver, da distância em que
ficou da solução desses problemas, podemos tirar conclusões do maior alcance sobre a sua
personalidade. A utilização dos dados obtidos por essa maneira nos auxiliará no
conhecimento da natureza humana” (ADLER, 1961, p. 232).
E, já no final deste capítulo do livro A Ciência da Natureza Humana, Adler traz dois
exemplos.
No primeiro, ele cita o caso de um homem que tinha tido uma boa situação econômica em
virtude dos sucessos empresariais de seu pai. Sempre um bom aluno, olhava “de cima”
todos os demais. Com o tempo, substituiu o seu pai na empresa e manteve-se contente e
feliz enquanto conseguiu manter a posição de um ser superior e intocável em seu trabalho.
Quando a posição de superioridade não foi mais possível de ser mantida, passou a se sentir
desgostoso com o trabalho e a se sentir infeliz.
Arrumou então uma mulher para casar (mandar). Entretanto, não teria graça para ele
arrumar uma mulher submissa. Encontra uma mulher que visa tanto o poder quanto ele e,
desta forma, o casamento é um contínuo martírio de brigas para saber quem tem a razão
ou quem ganha a disputa. Como diz Adler: “os elos fortíssimos que o amor exige não se
compadecem com os impulsos dominadores de um indivíduo” (ADLER, 1961, p. 234).
Sem nenhum amigo verdadeiro, tenta entrar em clube. Começa a beber sem nenhuma
moderação, o que afeta cada vez mais sua profissão e seu casamento.
“Esse caso prova com clareza que não são nossos atos objetivos que nos libertam do
estreito caminho errado de nossa evolução, e sim nossa atitude mental e nossa apreciação
pessoal dos fatos, o modo como os avaliamos e pensamos. Tocamos aqui a essência dos
erros humanos. Este caso e outros análogos nos mostram uma série inicial de erros e a
possibilidade de se cometerem erros ulteriores.
Devemos examinar os argumentos de um indivíduo confrontando-os com o seu padrão de
procedimento, para lhe compreendermos os erros e eliminá-los por meio da conveniente
orientação” (ADLER, 1961, p. 237).
No segundo caso, vemos a história de uma mulher que, chegando aos vinte anos, viu-se
impelida pelos pais a começar a trabalhar e a sair de casa. Entretanto, dado o seu forte
apego com sua mãe, já havia feito de tudo para fazê-la ser totalmente submissa aos seus
desejos. Assim, fica doente para ter cuidados. Quando teve que sair obrigada para trabalhar,
usou de expedientes para não fazer o trabalho direito e ser mandada embora. E, por fim,
tentou cometer suicídio para poder voltar para casa e ter os cuidados da mãe apenas para
si.

Conclusão
Para concluir, deixo mais uma citação de Adler para refletirmos:
“Na sociedade não há lugar para desertores. São necessárias uma certa adaptabilidade e
subordinação para fazer-se parte dela – cumpre a cada um tornar-se útil, e não assumir o
mando simplesmente pelo prazer de mandar” (ADLER, 1961, p. 238).

A religiosidade (falsa) para Adler


por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis
Olá amigos!
Continuando o nosso Curso Grátis sobre Alfred Adler, o criador da Psicologia Individual, hoje
vamos tratar sobre alguns aspectos diferentes do caráter, conforme o capítulo: Outras
manifestações do caráter, especialmente a jovialidade, a subserviência, os princípios e a
religiosidade.
Às vezes temos a impressão de que uma boa parte do livro A Ciência da Natureza
Humana, dedicado à divulgação da Psicologia Individual, procura mostrar e descrever os
fundamentos com exemplos práticos, concretos, do dia a dia. Parece-nos que Adler tinha
por objetivo trazer como que fotos de tipos de pessoas para exemplificar os seus
pressupostos. Em certos trechos, podemos notar até um pouco de censura no modo como
alguns destes tipos se comportam.
Esta crítica à ética alheia, entretanto, não deve ser subsumida à peculiaridades individuais
da pessoa do autor. Devemos nos lembrar que o autor era médico (foi psicanalista e
trabalhou como psicólogo), ou seja, o seu grande objetivo de vida foi ajudar aqueles que
sofrem de problemas mentais, emocionais e comportamentais.
E para todo aquele que trabalha na área é inevitável a pergunta ética: o que é felicidade?
Para Adler, todos nós temos o sentimento de inferioridade, em maior ou menor grau. Todos
temos porque todos nós fomos crianças e, enquanto infantes, precisamos do cuidado e
atenção dos outros. Porém, enquanto alguns conseguem lidar bem com este sentimento e
superá-lo ao longo da vida, outros tem imenso problema na superação.
A superação – para o criador da Psicologia Individual, e, portanto, a sua noção de felicidade
– está em ter iniciativa para enfrentar as dificuldades (internas e externas) e, em última
instância, em colaborar com a sociedade. Didaticamente, então, podemos ver que existem
tipos que são egoístas e não fazem nada, outros são egoístas mas bem ou mal contribuem
com o seu trabalho e esforço, outros querem ser altruístas – e religiosos – mas não o são e
também não fazem nada, enquanto outros conseguem se doar e contribuir verdadeiramente
com a comunidade na qual vivem.
Em resumo, este é o princípio de felicidade para Adler: conseguir superar as suas
dificuldades internas e externas, o complexo de inferioridade, e contribuir e fazer algo
benéfico também para os outros. Por isso, neste texto, veremos a sua crítica a determinadas
pessoas que se dizem religiosas, mas são totalmente egoístas.

A jovialidade
Logo no começo deste capítulo, Adler descreve certo tipo de gente que é jovial e alegre: “as
pessoas joviais travam relações mais facilmente e são julgadas pelos demais como criaturas
amáveis e simpáticas. Parece que instintivamente sentimentos revelar em tal característico
um senso de sociabilidade altamente desenvolvido” (ADLER, 1961, p. 243).
E, citando diretamente Dostoiévski – que ele tem por um psicólogo nato: “Pode-se conhecer
melhor o caráter de uma pessoa pelo modo de rir, do que por um fatigante exame
psicológico” (ADLER, 1961, p. 243). E esta frase realmente nos dá o que pensar…
Por outro lado, existem pessoas que fazem de tudo para não serem alegres e contentes:
“os contrários dos indivíduos pertencentes ao tipo simpático são os crônicos desmancha-
prazeres, os pregoeiros de desgraças, os propagandistas da teoria do vale de lágrimas, os
que atravessam a existência como se dobrados ao peso de um grande fardo. Exageram
todas as pequenas dificuldades, o futuro aparece-lhes sempre tétrico e desalentador, e não
perdem ocasião em que vejam os outros felizes para fazerem, quais Cassandras, lúgubres
profeciais” (ADLER, 1961, p. 244).

Pessoas de Princípios
É evidente que o mundo é complexo. Já se foi o tempo em que alguém podia dominar todo
o conhecimento (dizem que no século XVIII viveu o último homem que sabia tudo de tudo).
Para lidar com esta complexidade, acabamos criando pressupostos, axiomas, verdades.
Isso acontece com todos. Porém, notamos que alguns indivíduos acabam se limitando
muito. Diz Adler:
“Creem nestes princípios e se sentiriam mal se alguma coisa não pudesse ser interpretada
de acordo com eles. São os pedantes emperdenidos. Tem-se a impressão de que se sentem
em tanta insegurança, que procuram engaiolar a vida, reduzindo-a a umas poucas regras e
fórmulas, para que ela não os amedronte muito. Ao enfrentar situações para as quais não
tenham regras ou fórmulas, seu recurso é fugir” (ADLER, 1961, p. 246).

Subserviência
Uma outra manifestação do caráter que nos interesse é o espírito de submissão. Pessoas
que gostam de serem mandadas e ficam o tempo todo esperando ordens para cumprir. Sem
ninguém para mandar, paralisam. Adler escreve: “só sentem bem quando estão a obedecer
a ordens alheias” e “Estas pessoas encontram verdadeiro prazer em ser dominadas”
(ADLER, 1961, p. 247).
Mas o mais importante desta parte do livro diz respeito à relações de gênero. E, neste
sentido, Adler estava muito à frente do seu tempo:
“Sabemos que para muitas pessoas a submissão é a lei da vida. Não nos queremos referir
à classe dos criados, mas às pessoas do sexo feminino. Que a mulher deve ser subalterna
é uma lei não escrita, mas profundamente arraigada e que muitas pessoas adotam como
dogma imutável. Essas pessoas acreditam que as mulheres nascem com o destino da
subserviência. Tais ideias tem envenenado e destruído as relações humanas, mas é
superstição que há de custar para desaparecer. Até entre as mulheres, muitas existem que
creem ser essa uma lei eterna a que devem obedecer. Mas nunca se viu um caso em que
se tenha ganho alguma coisa com tal teoria… dixando-se de lado o fato de que o espírito
humano não tolera a submissão sem revolta, a mulher submissa mais cedo ou mais tarde
se torna uma simples criatura dependente e socialmente estéril” (ADLER, 1961, p. 248).
Ou seja, a ideia de que o homem é superior à mulher e de que a mulher deve obedecer ao
homem é muito prejudicial para ambos: “quando um homem e uma mulher vivem juntos,
devem dividir como camaradas o seu trabalho, para que nenhum dos cônjuges seja
dominado pelo outro” (ADLER, 1961, p. 249).

A religiosidade
E, para concluir a nossa lição de hoje, e tendo em vista o que falei no início sobre a felicidade
como a doação de si para ajudar na sociedade, Adler menciona a falsa religiosidade:
“Algumas destas pessoas vítimas de incompreensão crônica batem em retirada para a
religião, onde continuam a proceder do mesmo modo que procediam antes. Lamuriam,
lastimando-se a si mesmas e baldeiam seus pesares para os ombros complacentes de
Deus. Toda a sua atividade é embebida e penetrada de um interesse único: as suas
próprias pessoas.
E deste modo acreditam que Deus, este Ser extraordinariamente honrado e adorado por
elas, se interessa grandemente em servi-las, sendo não só o inspirador como o responsável
de cada uma de suas ações.
Esses devotos entendem que podem pôr-se em comunicação imediatamente com Ele por
meios artificiais, como por alguma oração muito fervorosa, ou outras coisas do ritual
religioso. Em suma, seu querido Deus de nada mais sabe e não tem outra coisa a fazer não
ocupar-se com os seus aborrecimentos.
Há tanta heresia nesta espécie de culto religioso que, se voltassem os velhos tempos da
Inquisição, esses fanáticos seriam provavelmente os primeiros a ser queimados. Eles se
dirigem a Deus do mesmo modo por que se dirigem a seus semelhantes, gemendo queixas,
lamentando-se, mas não erguendo sequer um dedo para aliviar sua própria sorte ou
melhorar as suas circunstâncias. A cooperação social, no sentir deles, é coisa somente para
outros” (ADLER, 1961, p. 253-254).
No final, ele cita um caso clínico no qual uma de suas pacientes teve uma crise religiosa,
cujo fundamento era o seu senso de inferioridade e a sua busca por dominação mal
direcionada.
Dúvidas, comentários, sugestões, escreva abaixo!

Sentimentos e Emoções para Adler: raiva,


tristeza e alegria
por Professor Felipe de Souza | Curso Grátis, Psicologia
Olá amigos!
Estamos chegando ao final do nosso Curso Grátis sobre a obra de Adler, A Ciência da
Natureza Humana. Na última lição, vamos falar sobre sentimentos e emoções. Como viemos
falando ao longo do Curso, encontramos alguns princípios fundamentais na Psicologia
Individual.
Em primeiro lugar, Adler defende que todos nascem e crescem na primeira e segunda
infância dependendo do cuidado e atenção de outras pessoas. Isso cria no psiquismo um
sentimento de inferioridade, que pode ser compensado de maneira positiva ou negativa, de
acordo com as tendências de cada indivíduo e das respostas que obtém do ambiente em
que vive.
A partir das respostas, cria-se o caráter: um tipo de padrão de comportamento que tende a
se repetir no futuro. Por exemplo, alguém que tenha feito birra e ficado triste por não
conseguir alguma coisa dos pais, pode passar a aprender que ao chorar e ficar triste
conquista mais atenção, carinho ou o que quer que for que esteja querendo.
Ao aprender, portanto, que a tristeza lhe é positiva (o que chamamos de ganho secundário
na psicanálise), há a tendência de se repetir o procedimento ao longo da vida.

Definição de Emoção e Sentimento


Adler define do seguinte modo: “a afetividade e a emoção são estados intensos daquilo a
que chamamos traços de caráter (…) Podemos denominá-los manifestações psíquicas
limitadas no tempo. Os estados afetivos – as paixões – não são fenômenos misteriosos que
desafiam a interpretação; sobrevêm sempre que são apropriados a dado estilo da vida e a
predeterminado padrão de procedimento do indivíduo. Seus objetivos são modificar a
situação do indivíduo em que ocorreram para o seu benefício. São os intensos e veementes
movimentos de alma de um indivíduo que perdeu outros meios de atingir a meta, ou que
perdeu a fé em outras possibilidades de atingi-la” (ADLER, 1961, p. 255).
A definição coloca que os sentimentos e emoções (os afetos ou paixões) surgem em
momentos em que outras vias foram esgotadas. Quando alguém pede para um funcionário
realizar determinada ação e não é correspondido e tem um ataque de raiva (cólera), está
fazendo uso de um meio, quando o meio anterior – o pedido – não foi atendido.
Podemos notar as emoções e os afetos através das modificações fisiológicas visíveis: “os
fenômenos fisiológicos que acompanham a manifestação das paixões e emoções, são
indicados por várias alterações nos vasos sanguíneos e no aparelho respiratório, como se
nota pelo rubor, a palidez e a aceleração do pulso e dos movimentos respiratórios” (ADLER,
1961, p. 256).
Atualmente, conseguimos também observar o que acontece no corpo de um indivíduo
através das modernas técnicas de neuroimagem.
Depois da definição, Adler escolhe algumas das principais emoções humanas para o debate:

A cólera (raiva)
E começa com a cólera ou raiva: “a cólera é um estado afetivo, ou uma paixão, que constitui
a verdadeira súmula da luta pelo poder e dominação” (ADLER, 1961, p. 256).
A ideia é que a cólera sobrevém quando o senso de poder de um sujeito é ferido. Se uma
pessoa que tem em si forte o desejo de superioridade vai até um restaurante e ao fazer o
seu pedido não é escutado ou se a ordem demora para ser anotada, pode ter uma acesso
de cólera. Seria como se a pessoa dissesse: “Como você ousa demorar para me atender?“
Se a cólera e a raiva forem constantes na vida, a pessoa então transparece sempre estar
em conflito com o mundo. Afinal, no cotidiano é inevitável o surgimento de contrariedades e
problemas. Quando isso ou aquilo ou aquilo outro acontece, a pessoa explode. E surge o
mesmo tipo de pensamento: “Quem é você para me afrontar e não fazer o que eu quero que
seja feito?”
Por isso, Adler diz: “a paixão da cólera significa a negação quase absoluta do senso de
sociabilidade” (ADLER, 1961, p. 258). A lógica consiste no fato de que o senso de
sociabilidade se sustenta no respeito e empatia pelo outro. Em ver não só o próprio umbigo
como também perceber as necessidades e desejos alheios.
Adler também escreve: “nenhum homem consciente de suas próprias forças tem
necessidade de se exibir em atitudes agressivas e violentas. Nunca devemos olvidar esse
fato” (ADLER, 1961, p. 258).
E, por fim, menciona a relação da raiva e da cólera com o uso e abuso do álcool:
“O álcool é um dos mais importantes fatores para facilitar a manifestação da cólera. Basta
pequena quantidade, às vezes, para produzir este efeito. É bem sabido que a ação do álcool
amortece ou suprime as inibições da civilização. Um ébrio procede como se nunca tivesse
sido civilizado. Perde o domínio de si e a consideração pelos outros. O alcoólatra, quando
não está embriagado, consegue às custas de grandes esforços ocultar sua hostilidade pelo
gênero humano e inibir suas tendências antagonistas. Apenas se ache sob a ação da
bebida, aparece seu verdadeiro caráter. Não se trata de uma circunstância casual o fato de
serem os indivíduos que não estão em harmonia com a vida os primeiros a habituar-se ao
álcool. Esses indivíduos encontram na bebida uma certa consolação e esquecimento, assim
como uma desculpa para o fato de não terem atingido seus objetivos” (ADLER, 1961, p.
259).

A tristeza
A tristeza, conforme já mencionei no início, também está relacionada com as contrariedades
naturais da vida. É um modo de reação parecida com a cólera (na finalidade de querer
dominar o ambiente). Segundo Adler: “A paixão da tristeza se manifesta quando alguém não
se consola de uma perda ou privação. A tristeza, assim como outras paixões, é uma
compensação de um sentimento de desprazer ou fraqueza, e importa na tentativa para
conseguir melhor situação. A este respeito, é igual a uma explosão de cólera” (ADLER, 1961,
p. 259).
Mais a frente, o criador da Psicologia Individual complementa: “na cólera, um indivíduo
procura elevar sua autoestima e rebaixar a do seu contrário. Sua fúria é dirigida contra um
opositor. A tristeza se equipara a um esquivar-se da frente psíquica de combate; depois de
ter assim desertado, o indivíduo, por meio da tristeza, consegue sua elevação e satisfação
pessoais” (ADLER, 1961, p. 260).
A metáfora aqui é dos tipos de reações instintivos: lutar ou fugir. A luta estaria ligada à raiva
e à cólera, enquanto a fuga estaria relacionada à tristeza. Porém, é preciso lembrar que a
tristeza, apesar de ser um esquivar-se, talvez consiga um benefício para o sujeito. Assim,
“quanto mais o queixoso exige e consegue de seu ambiente para consolo da sua tristeza,
tanto mais transparente se torna o seu poder” (ADLER, 1961, p. 260).
Em outras palavras, a tristeza – e no seu extremo de depressão – esconde em seu
fundamento a finalidade de um desejo de superioridade.
Por exemplo, em um relacionamento amoroso, após uma briga, a pessoa se afasta e passa
dias chorando. Diz até que pretende acabar com a própria vida. Se a outra pessoa se
comove e a consola, sem querer está reforçando uma atitude, na qual a tristeza, o choro, a
ameaça de acabar com a própria vida é tão somente um desejo de controlar a relação e
obter do outro o que se quer.
No sub-capítulo, “O abuso das emoções”, Adler escreve: “quando uma criança aprendeu
que pode tiranizar o seu ambiente por meio da cólera, da tristeza, ou do pranto, despertados
pela sensação de ser desprezada, ela recorrerá repetidamente a esse meio de dominação
(ADLER, 1961, p. 260). Deste modo cria um padrão de procedimento, uma típica resposta
emocional que tende a ser reproduzida diversas vezes ao longo da vida.
Como conclusão sobre a tristeza e a cólera, ele diz: “apesar de provocar em vários graus a
nossa simpatia, a cólera e a tristeza não deixam de ser emoções dissociativas ou
desagregadoras. Não servem para incentivar a aproximação humana” (ADLER, 1961, p.
262).
Ou seja, enquanto existem outras emoções associativas (que promovem a associação com
os demais), estes dois tipos de emoção são dissociativos, afastam quem os tiver da
sociedade.

Sentimentos associativos
Como exemplo de um sentimento associativo, Adler menciona a alegria:
“A alegria é a emoção ou sentimento que mais intensamente suprime as distâncias entre os
homens. A alegria não tolera o isolamento. Nas pessoas que gostam de brincar juntas, de
ficar reunidas ou de fruir em comum algum prazer, produzem-se manifestações de felicidade
que se exprimem com o procurar-se a companhia de outrem, com abraços amistosos etc.
Essa atitude é associativa. Equivale, por assim dizer, a estender-se a mão a um semelhante.
Parece que se dá certa irradiação de cordialidade entre uma pessoa e outra. Todos os
elementos congregadores se acham presentes neste sentimento” (ADLER, 1961, p. 265).
Conclusão
Chegamos aqui ao final do nosso Curso de Introdução à Psicologia Individual de Adler. Na
medida em que a obra deste autor é pouquissimamente estudada mesmo nas faculdades
de Psicologia, o nosso objetivo foi apresentar alguns dos principais conceitos, tomando por
base o seu livro A Ciência da Natureza Humana, um dos raros livros dele que foram
traduzidos para o português.
Esperamos assim ter contribuído com a divulgação da Psicologia Individual e ter despertado
o interesse para maiores aprofundamentos nesta abordagem.
Até o próximo Curso!

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