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Os cinco graves problemas com o PIB

Para começar, ele foi criado com o intuito


de avançar a agenda keynesiana

Nota do editor
Os dados do PIB do segundo trimestre de
2019 divulgados ontem ocultaram informações
importantes: os gastos do governo caíram, as
importações cresceram e as exportações
diminuíram. (Eis um bom gráfico resumindo
isso).

Esses três fenômenos reduzem o valor do PIB.

Ou seja, se o governo gastasse mais (com


qualquer coisa), se parássemos de trazer
maquinários para o país (o que aumenta a
produtividade das indústrias) e se
enviássemos mais produtos para fora do país
(desabastecendo o mercado interno), o valor
do PIB seria ainda maior — algo que qualquer
leigo sabe ser totalmente insensato.

O artigo abaixo explica como surgiu a


mensuração do PIB e por que ele apresenta
essas "distorções".

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A maneira tradicional de se calcular o PIB de


um país é por meio da seguinte (e
extremamente simples) equação:

PIB = C + I + G + X - M

C representa os gastos do setor privado, I


representa o total de investimentos realizados
na economia, G representa os gastos do
governo, X é o total de exportações e M, o de
importações.
Logo de partida, já é possível notar dois
problemas graves: gastos governamentais são
considerados atividades econômicas viáveis; e
importações são consideradas negativas, e são
subtraídas das exportações, que são
consideradas positivas.

Mas não é só. Há inúmeras distorções

1. O mensurador não mensura

O cálculo do PIB tem o propósito de mensurar


a atividade econômica. Só que ele não
mensura — e nem tem como mensurar — a
qualidade, a lucratividade, a amplitude, as
melhorias e os avanços dos bens e serviços
produzidos. E é isso o que realmente importa
para uma economia.

Por exemplo, se um navio — construído a


custos altos — estiver navegando sem
passageiros, sem cargas, e sem conseguir
pescar nada, ainda assim sua construção terá
contribuído para o crescimento do PIB. Não
importa se tal navio foi lucrativo para os
investidores ou se ele atolou na areia; ele
contribuiu para aumentar o PIB. Navegando
nos mares ou enferrujando abandonado em
um estaleiro, o PIB do país cresceu por causa
de sua construção.

Colocando de outra maneira, o PIB não avalia


corretamente o valor dos bens e serviços
fornecidos por uma economia, e,
consequentemente, é incapaz de estimar o
padrão de vida de uma sociedade. O PIB é
uma régua com uma métrica totalmente
irregular.

Eis uma evidência empírica que comprova


esse absurdo: em 1990, o PIB soviético
equivalia à metade do PIB americano, de
acordo com o CIA Factbook de 1991. Só que
ninguém que visitasse a União Soviética em
1990 iria acreditar que a economia deles
sequer chegasse perto de ter 50% da qualidade
e da quantidade dos bens e serviços
produzidos nos EUA. As estatísticas de
produção definidas pelo PIB podiam ser
robustas, mas construir estradas que vão do
nada a lugar nenhum, fundir aço que não será
utilizado na fabricação de nenhum produto, e
fazer pães intragáveis é forçar demais a
definição de "produção".

2. Gastos, de qualquer tipo, aumentam o


PIB

A equação do PIB não distingue as transações


econômicas que beneficiam a saúde da
economia do país daquelas que apenas a
enfraquecem. Atividades destruidoras de
riqueza são incluídas em pé de igualdade com
atividades produtoras de riqueza. 
Quando há um furacão ou uma enchente
devastadora, os esforços de reconstrução
fazem o PIB aumentar, não obstante toda a
destruição e todas as perdas trágicas
enfrentadas pela população. Outras despesas
negativas, como gastos para se proteger contra
a criminalidade, gastos com médicos, gastos
com divórcios, gastos com a defesa nacional,
gastos para se reparar depredações etc., tudo
isso aumenta o valor do PIB, sendo, portanto,
considerado geração de riqueza e bem-estar
econômico.

Quando alguma indústria, para produzir


algum bem, consome recursos naturais até seu
completo esgotamento, isso também gera um
aumento no PIB. Quando uma petroleira faz
lambança e deixa vazar petróleo no mar, o
dinheiro gasto para limpar o oceano aumenta
o PIB. Se algum lixo tóxico é derramado em
um rio, o dinheiro gasto para descontaminar o
rio estimula o PIB.

Mais absurdo ainda: o dinheiro que foi gasto


para criar esse lixo tóxico também gera
acréscimos ao PIB.

3. Atribui importância exagerada ao


consumismo

Quais transações deveriam ser incluídas no


cálculo do PIB? Dado que a maioria dos
produtos foi produzida utilizando outros
produtos que já haviam sido produzidos, os
arquitetos do cálculo do PIB tentam evitar
essa "dupla contagem" incluindo na equação
apenas bens e serviços finais. 

Por esse método, a produção de um carro é


contabilizada (como um aumento nos
estoques), mas os metais, as borrachas e os
plásticos comprados durante o processo de
produção do carro são desconsiderados. Essa
exclusão de determinadas transações
"intermediárias" simplesmente exclui volumes
significativos da atividade econômica.  Sendo
assim, o PIB simplifica em demasia a real
situação da economia ao superestimar o
consumo em detrimento dos investimentos
produtivos.

Só que variações no investimento e nas


cadeias produtivas influenciam muito mais a
economia do que variações no consumo.

E tudo piora: se toda a população resolvesse


gastar tudo o que tem isso elevaria
enormemente o PIB. Só que o consumismo
não gera nenhum crescimento econômico. O
que gera crescimento são investimentos, e
investimentos só são possíveis quando há
poupança, que é o exato oposto do
consumismo.
Uma sociedade que consumisse 100% da sua
renda teria um PIB bastante aditivado, mas
não haveria um único bem de capital
existente. Dado que ela não poupa, ela não
consegue acumular capital. Sem capital
acumulado, não consegue aumentar sua
produtividade. Sem aumento de
produtividade, não sai da pobreza.

Assim, em uma sociedade extremamente


consumista não haveria moradias, não haveria
fábricas, não haveria infraestruturas, não
haveria meios de transporte, não haveria
maquinários, não haveria escritórios e imóveis
comerciais, não haveria laboratórios, não
haveria cientistas, não haveria arquitetos, não
haveria universidades, não haveria nada.

Simplesmente, todos os indivíduos estariam


permanentemente ocupados produzindo bens
de consumo básicos — comidas e vestes — e
não se dedicariam à produção de bens de
capital, que são investimentos de longo prazo
que geram bens futuros. Por definição, se uma
sociedade consumisse 100% da sua renda, ela
não produziria nenhum outro bem que não
fosse de consumo imediato. 

Mas o PIB seria bastante impulsionado por


esse consumismo.

4. Os gastos do governo impulsionam o


PIB, sendo que são maléficos para a
economia

Talvez o mais sério problema com o PIB esteja


no fato de que ele inclui os gastos do governo
como se fossem um componente tão legítimo
quanto os outros.

Para começar, os gastos do governo só são


possíveis porque ele tem o poder de extrair
dinheiro do setor produtivo: dos trabalhadores
assalariados e dos empreendedores.
Consequentemente, as receitas do governo são
auferidas de maneira coercitiva, e advêm do
setor produtivo da economia. 

Logo, um aumento dos gastos do governo (o


que aumenta a equação do PIB) significa, de
maneira muito simples, que o governo ou
aumentará os impostos para fazer frente a
esses novos gastos ou irá se endividar ainda
mais — o que significa que, dado que o
governo está tomando mais crédito, sobrará
menos crédito disponível para financiar
empreendimentos produtivos. 

Assim, dado que os gastos do governo são


financiados via impostos e endividamento do
governo, eles desestimulam a poupança, a
produção e o investimento futuros.

Nada disso pode ser visto como positivo para a


economia.
Mas piora: o gasto do governo é
inevitavelmente de má qualidade. O governo
gasta o dinheiro alheio (dos impostos) com
terceiros (funcionalismo público, subsídios
para grandes empresários amigos do regime,
obras públicas feitas por empreiteiras ligadas a
políticos, artistas e eventos culturais etc.) e
consigo próprio (salários, benefícios e
mordomias para políticos; ministérios,
agências reguladoras, secretarias e estatais;
campanhas eleitorais; contratação de
apadrinhados; propagandas etc.).

Nenhum desses gastos está ligado à


maximização do bem-estar social.

Gastos, de qualquer natureza, só podem gerar


benefícios na economia quando são feitos
voluntariamente em troca de bens e serviços
prestados. Porém, no que tange ao governo, a
situação é totalmente diferente: os gastos do
governo se baseiam na coerção (impostos) e
não necessariamente têm relação com os
serviços que ele presta à população (queira ela
ou não). Com efeito, é simplesmente
impossível mensurar estes serviços.

E há também o problema dos custos de


oportunidade. Se o governo, por exemplo,
construir uma ponte ligando o nada a lugar
nenhum, e fizer tal obra utilizando materiais
caros e pagando preços superfaturados (os
fornecedores, por saberem que o governo não
tem preocupação com custos, irão cobrar o
máximo possível por seus materiais), o PIB
subirá.

Só que estes mesmos recursos poderiam ter


sido mais bem utilizados pelo setor privado, o
qual é sensível à demanda e tem de se
preocupar com custos e com o sistema de
lucros e prejuízos. Aquilo que foi utilizado
pelo governo em um setor será
necessariamente retirado de outro setor. Se os
gastos do governo imobilizam recursos em um
setor, então outros setores ficaram sem estes
mesmos recursos.

Consequentemente, por ter sido despojada de


recursos escassos (os quais foram imobilizados
pelo governo em obras esbanjadoras), a
riqueza futura desta economia será menor.

Dado que os serviços do governo não são


vendidos voluntariamente no mercado, eles
não possuem preços determinados pelo
mercado. Logo, não há como calcular seu real
valor de mercado para aqueles que se
beneficiam deles. E quanto mais esbanjadores
forem os gastos do governo, maior será o PIB
— uma contradição total.

Uma descrição mais acurada da atividade


econômica seria eliminar os gastos do governo
do cálculo do PIB.  Ou, indo mais além,
deduzir do PIB todos os gastos do governo,
uma vez que todo o gasto governamental
representa uma clara depredação, e não uma
adição, à atividade econômica.  Veja mais
detalhes sobre esse método aqui.

5. As importações são subtraídas das


exportações

O cálculo do PIB considera que as


importações subtraem riqueza da
economia. Isso possui várias implicações
contraditórias.

Para começar, ao subtrair as importações, a


equação do PIB seriamente subestima a
contribuição do comércio para a atividade
econômica como um todo. Uma economia que
exporta $1 e importa $1 terá a mesma
contribuição ao PIB (zero) que uma economia
que exporta $100 bilhões e que importa $100
bilhões.

No entanto, por motivos óbvios, a segunda


economia é muito mais dinâmica e rica.

Ademais, dar às importações uma conotação


negativa não faz nenhum sentido econômico.
Se, por exemplo, a economia está importando
maquinário e bens de capital, isso irá torná-la
mais produtiva, e não menos, que é o que a
equação sinaliza. 

Olhando-se estritamente do ponto de vista


contábil, as importações são subtraídas
porque o PIB está preocupado apenas com
aquilo que é transacionado dentro das
fronteiras do país, sem se importar com a
nacionalidade do produtor. Assim, um Audi
fabricado no Paraná gera um aumento no PIB;
porém, se uma empresa brasileira atuando no
exterior vendesse para o Brasil um produto
seu fabricado lá fora, mesmo que fosse um
bem de capital que aumentasse a
produtividade da economia, tal transação
diminuiria o PIB.

Tratar as exportações como algo positivo e as


importações como algo negativo é um
resquício da mentalidade mercantilista. Se o
objetivo do PIB é mensurar os bens e serviços
fornecidos às pessoas que vivem dentro de
uma região geográfica, então
as importações — e não as exportações — é
que são benéficas. Um aumento das
importações indica que o poder aquisitivo da
população aumentou; indica que o bem-estar
da população aumentou. Já um aumento das
exportações indica que a população agora
possui menos bens ao seu dispor, pois estes
foram enviados para fora. Pode também
indicar que o poder de compra da população
está em queda, o que significa que a
exportação foi a maneira de as empresas se
livrarem de seus excedentes não
consumidos. Em ambos os casos, o padrão de
vida da população diminuiu.

O PIB foi criado com o intuito de avançar a


agenda keynesiana

O russo Simon Kuznets (1901-1985) foi quem


revolucionou a econometria e padronizou a
mensuração do PIB. Após ter afiado suas
habilidades estatísticas na Rússia bolchevista,
ele se mudou para os EUA para continuar suas
pesquisas, as quais culminaram em seu livro,
lançado em 1941, chamado National Income
and Its Composition, 1919–1938 (A Renda
Nacional e sua Composição, 1919-1938).

Embora não fosse um keynesiano per se, a


natureza e o momento exato de suas pesquisas
serviram para aditivar a revolução keynesiana,
uma vez que o planejamento central requer
estatísticas econômicas: afinal, as estatísticas
são os olhos e os ouvidos do burocrata, do
político, do reformador socialista. É somente
pelas estatísticas que eles conseguem
descobrir, em toda a economia, quem
"necessita" do quê, e quanto de dinheiro o
governo deve gastar para fazer isso acontecer.

As instáveis bases teóricas do PIB, bem como


sua aceitação politicamente conveniente,
distorcem o desempenho e a natureza de uma
economia ao mesmo tempo em que são
incapazes de estimar de maneira satisfatória o
real padrão de vida de uma sociedade.  Com
efeito, o próprio Kuznets entendeu isso. Em
seu primeiro relatório ao Congresso
americano, em 1934, ele disse que "o bem-estar
de uma nação dificilmente pode ser inferido
de uma mensuração da renda nacional".
Ainda assim, o uso cego e fanatizado do PIB
persiste até hoje. O fato de que sua existência
e persistência servem apenas às políticas
keynesianas de estimular o consumismo,
defender aumentos dos gastos
governamentais, incentivar as exportações por
meio de desvalorizações cambiais e restringir
as importações por meio de tarifas
protecionistas não é algo que deve ser
considerado uma mera coincidência.

Infelizmente, as consequências de tudo isso —


estagnações econômicas, aumento do
endividamento e inflação — são tão
inevitáveis quanto previsíveis.