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Defeitos do negócio jurídico (arts. 138 e segs.

do CC):

Sabe-se que a declaração de vontade é requisito de existência do negócio jurídico e


que para este ser válido, tal vontade deve ser manifestada de forma livre e espontânea.

Entretanto, pode acontecer de ocorrer algum defeito na formação ou declaração


da vontade, em prejuízo do próprio declarante, de terceiro ou da ordem pública.

Trata-se dos defeitos dos negócios jurídicos que se classificam em vícios de


consentimento onde a vontade não é expressada de maneira absolutamente livre
(não corresponde ao verdadeiro querer do indivíduo); e em vícios sociais onde a
vontade manifestada não tem, na realidade, a intenção pura e de boa-fé que enuncia
(mas sim de prejudicar terceiro).

Nas hipóteses em que a vontade se manifesta com algum vício, o negócio poderá
tornar-se anulável – art. 171 CC (prazo para pleitear a anulação quando não houver
disposição legal é de 2 anos – art. 179 CC, do dia em que se realizou o negócio
jurídico) ou nulo – art. 166 CC.
Obs: prazo para anulação por incapacidade relativa do agente é de 4 anos – art. 178,
III CC, do dia em que cessar a incapacidade.

- Vícios de consentimento: erro, dolo, coação, lesão e estado de perigo.


- Vícios sociais: simulação e fraude contra credores.

Vícios de consentimento:
Erro: consiste em uma falsa representação da realidade. Aqui o agente engana-se
sozinho (quando é induzido em erro por outro contratante ou por terceiro é dolo). Age
de modo que não seria sua vontade, se conhecesse a verdadeira situação por falso
conhecimento das circunstâncias.

O código equiparou os efeitos do erro à ignorância. No entanto, erro é um estado de


espírito positivo, seja qual for a falsa percepção da realidade - erro é a idéia falsa da
realidade; enquanto ignorância é um estado de espírito negativo, o completo
desconhecimento do declarante das circunstâncias do negócio.

Para o erro ser causa de anulabilidade do negócio jurídico deverá ser:


a) essencial (substancial): art. 138 CC. É o erro que incide sobre a essência
(substância) do ato que se pratica, sem o qual este não se teria realizado.
Ex: colecionador que pretendendo adquirir uma estátua de marfim, compra por
engano uma peça de material sintético.
Se o colecionador soubesse que a peça era de material sintético e não marfim, o
negócio não teria sido celebrado.

De acordo com o art. 139 do CC poderá o erro incidir no negócio, no objeto ou na


pessoa.

- no negócio: o erro incide sobre a natureza do negócio que se leva a efeito, como por
exemplo, quer alugar e escreve vender – o agente pretende praticar um ato e acaba
praticando outro.

- no corpo do objeto: aquele que versa sobre a identidade do objeto, como quando se
declara querer levar o animal que está diante de si, mas acaba levando outro trocado.
- na substância do objeto: é o que versa sobre a essência do objeto ou suas
propriedades essenciais. É o caso daquele que compra um anel imaginando ser de
ouro, não sabendo que se trata de cobre.

- na pessoa: é o que versa sobre a identidade ou as qualidades de determinada


pessoa. É quando o sujeito doa uma quantidade de dinheiro à Antônio pensando ter
este salvo a vida de seu filho, quando na verdade foi Bento.

Obs: essa modalidade é de grande importância no direito de família, pois o erro


essencial sobre o outro cônjuge é causa de anulação do casamento – arts. 1556 e
1557 CC c/c art.139 II CC.

- erro de direito: é o falso conhecimento, ignorância ou interpretação errônea da norma


jurídica aplicável à situação concreta.

Entende a corrente majoritária que o erro de direito deve ser admitido apenas em
caráter excepcional por força do art. 3º da LICC.

Assim não há que se alegar erro de direito quando se almejar suspender a eficácia
legal, para livrar-se das conseqüências de sua inobservância, mas se for para evitar
efeito de ato negocial cuja formação teve interferência de vontade viciada por aquele
erro, nada impedirá que se alegue.

Ex: pessoa que contrata a importação de determinada mercadoria ignorando existir lei
que proíbe tal importação. Sendo tal ignorância a causa determinante do ato, poderá
ser alegada para anular o contrato, sem com isso se pretender que a lei seja
descumprida.

Obs: não há que se confundir vícios redibitórios com erro substancial.


Vício redibitório é um defeito oculto na coisa, é quando o adquirente recebe a coisa
com defeito oculto que lhe diminui o valor ou prejudica sua utilização. Poderá rejeitá-la,
redibindo o contrato, ou se preferir, exigir o abatimento do preço.
Observa-se que aqui o agente não incorreu em erro, pois recebeu exatamente o que
pretendia comprar.

a) escusável (perdoável): há que ser o erro invalidante do negócio jurídico perdoável


dentro do que se espera do homem médio que atue com grau normal de diligência.
A displicência não é admitida pelo direito, uma vez que este não ampara o
negligente.

A compra de uma jóia falsa de um particular poderá ser um erro escusável, justificável,
mas muito dificilmente será de um especialista no comércio de jóias.

Dolo: costuma-se para efeitos didáticos afirmar que o dolo é erro provocado por
terceiro, e não pelo próprio sujeito enganado.

É todo artifício malicioso empregado por uma das partes ou terceiro, com o
propósito de prejudicar outrem, quando da celebração do negócio jurídico. Difere do
erro por este ser espontâneo, ou seja, a vítima se engana sozinha, enquanto no dolo é
provocado intencionalmente pela outra parte ou por terceiro.

Ex: sujeito que aliena caneta de cobre afirmando tratar-se de ouro, age com dolo e o
negócio poderá ser anulado.
O dolo civil é diferente do criminal, que é a intenção de praticar um ato que se sabe
contrário à lei. O dolo civil é todo artifício empregado para enganar alguém.
E ainda, do dolo processual, que decorre de conduta processual reprovável, contrária
à boa fé e que sujeita, tanto o autor como o réu que assim procedem, a sanções várias,
como o pagamento de perdas e danos, custas e honorários advocatícios (CPC, arts 16
a 18).

Obs: não se deve confundir dolo com fraude. Aquele que frauda quase sempre busca
violar a lei ou prejudicar a um número indeterminado de pessoas, ela se consuma sem
a participação pessoal do lesado no negócio; já com dolo, o agente dirige-se
especificamente à outra parte do negócio e concorre para a sua realização, iludido por
manobras desleais. Dolo não se presume, cabe a quem o alega prová-lo.

O dolo pode ser principal ou acidental:


Principal (essencial, determinante ou causal): ataca a causa do negócio em si – art.
145 CC. Somente esta modalidade vicia o negócio jurídico.

Acidental: não impedirá a realização do negócio jurídico, apenas irá gerar a obrigação
de indenizar – art.146 CC.

Ex: imagine-se que uma pessoa queira adquiriu um carro, escolhendo-o com cor
metálica. Ao recebê-lo, constata que foi enganado pelo vendedor ao verificar que a cor
é básica e não metálica. Neste caso, não pretendendo desistir do negócio, poderá
exigir compensação por perdas e danos.

Mas, diferente seria se a tal pessoa, somente interessasse comprar o veículo se fosse
da cor metálica, hipótese em que esse elemento faria parte da causa do negócio
jurídico. Neste caso, o negócio jurídico poderia ser anulado com base em dolo, pois
este foi enganado pelo vendedor para que o mesmo se realizasse.

Poderá o dolo, quanto à atuação do agente ser:


- positivo: decorre de uma ação comissiva, como o exemplo supra citado, onde o
negócio poderia ser anulado por dolo (positivo).
- negativo: decorre de uma conduta omissiva, onde uma das partes fica em silêncio
intencional, levando a outra a celebrar o negócio jurídico diverso do que pretendia –
art.147 CC (traz na redação os requisitos para configurar dolo negativo).

Vale lembrar que o negócio jurídico pode ser anulado por dolo de terceiro – art. 148
CC.

Ex: Manoel, colecionador de entalhes da Ásia, contrata os serviços de Lucimário,


profissional especializado em intermediar a compra e venda de objetos dessa natureza.
Após dois meses de buscas infrutíferas por entalhes asiáticos, Lucimário, temendo
perder sua remuneração, promoveu a negociação de um entalhe do Deus Shiva, feito
no Brasil por um entalhador de Salvador, entre Manoel (tomador dos serviços de
Lucimário) e Tião, proprietário do falso entalhe.

Observa-se em tal exemplo que Manoel foi induzido a erro por Lucimário, pessoa na
qual nutria absoluta confiança.

De acordo com o CC art. 148, conclui-se de acordo com o exemplo oferecido que:

- o negócio poderá ser anulado, se Tião tinha conhecimento da má fé de Lucimário,


podendo responder os dois civilmente (obrigação de pagar perdas e danos); da mesma
forma seria se Tião, não tinha conhecimento direto do dolo de Lucimário, mas podia
presumi-lo, em face das circunstâncias.

- o negócio subsiste, respondendo apenas Lucimario pelas perdas e danos devidas à


Manoel, se Tião não sabia, nem tinha como saber da atuação dolosa de Lucimário.

Coação: a coação traduz violência psicológica, apta a influenciar a vítima a realizar


negócio jurídico que sua vontade interna não deseja realizar, ela inspira temor.

Há dois tipos de coação:


a) coação física: é aquela que age diretamente sobre o corpo da vítima, neutralizando
totalmente a vontade real da vítima.

b) coação moral: incute na vítima um temor constante, perturbando-a, embaraçando-a,


fazendo com que sua manifestação de vontade se apresente de forma viciada –
art.151 CC.

Ex: pessoa que é ameaçada de sofrer um mal físico se não assinar determinado
contrato.

Para se caracterizar coação, deve-se observar a presença de três requisitos:


- violência psicológica;
- declaração de vontade viciada;
- receio sério fundado de grave dano à pessoa, à família (ou pessoa próxima) ou aos
bens do paciente.

Observar o art. 152 CC.

De acordo com o art.154 CC, com relação à coação exercida por terceiro, só será
admitida anulação do ato negocial se o beneficiário souber ou devesse saber da
coação, respondendo solidariamente com o terceiro pelas perdas e danos.

Mas se a parte não coagida de nada sabia, subsiste o negócio jurídico, respondendo o
autor da coação nos termos do art. 155 CC.

Lesão: art.157 CC - artigo inovador, prevê uma verdadeira limitação à autonomia


individual da vontade, não mais admitindo o chamado “negócio da china”.

É prejuízo resultante da desproporção existente entre as prestações de um


determinado negócio jurídico, em face do abuso, inexperiência, necessidade
econômica ou leviandade de um dos declarantes.

Ex: na época da imigração italiana, muitos coronéis induziam os lavradores a comprar


mantimentos nos armazéns da própria fazenda, a preços e juros abusivos.

Hoje pode-se equiparar a essa prática, os contratos de adesão (em massa) como o
maior veículo de circulação de riquezas, bem como o mais eficaz instrumento de
opressão econômica que o direito contratual já criou.

O CDC procura em vários artigos combater a lesão nos contratos de consumo (lesão
consumerista) exigindo para sua caracterização e reconhecimento, apenas a
desvantagem obrigacional exagerada em detrimento do consumidor (desproporção das
prestações avençadas).

A lesão se compõe de dois requisitos:


a) objetivo ou material: desproporção das prestações avençadas. Possua ou não
fortuna o lesado, impõe-se de forma inevitável a celebração do negócio prejudicial.
Ex: alguém que possua posses, mas que em um determinado momento precisa de
dinheiro em espécie e para tal dispõe de um imóvel a baixo preço, a necessidade que o
leva a vendê-lo, configura lesão.

c) subjetivo ou imaterial ou anímico: a inexperiência e a leviandade podem compor


subjetivamente o vício da lesão. A primeira como falta de habilidade para os
negócios (não falta de instrução necessariamente) e a segunda, caracteriza uma
ação temerária, impensada, inconseqüente (falta de consciência das
conseqüências da avença).

Estado de perigo: art.156 CC.


É quando o agente, mediante situação de perigo conhecido pela outra parte, emite
declaração de vontade para salvaguardar direito seu, ou de pessoa próxima,
assumindo obrigação excessivamente onerosa.

Ex: Quando um indivíduo presta garantia para poder internar em caráter de urgência
um parente seu ou amigo próximo em determinada UTI, e se vê, diante da condição
imposta pela diretoria do hospital, de só poder fazê-lo mediante garantia, onera-se
excessivamente.

Obs: a negatória de atendimento emergencial por falta de garantia (cambial ou


fidejussória) -pode gerar responsabilidade criminal dos envolvidos. Deve-se neste caso,
prestar o atendimento emergencial e em seguida providenciar a transferência do
paciente para um hospital da rede pública.

Vícios sociais:
Simulação: art.167 CC, considerada causa de nulidade e não mais de anulabilidade
do negócio jurídico.
Obs: único vício que enseja NULIDADE.
Desta forma, sendo causa de nulidade do negócio jurídico, pode ser alegada por uma
das partes contra a outra – observar o art. 168 caput e parágrafo único do CC.

Trata-se de uma declaração enganosa de vontade, cujo objetivo é produzir efeito


diverso do indicado.

Aqui, celebra-se um negócio jurídico que possui aparência normal, mas que na
verdade não pretende atingir o efeito jurídico que deveria produzir.

É um vício social pois revela total frieza de ânimo e nenhum respeito ao ordenamento
jurídico pátrio por parte do agente.

Poderá ser a simulação:


a) absoluta: aqui o negócio forma-se a partir de uma declaração de vontade ou
uma confissão de dívida emitida para não gerar efeito jurídico algum.

Ex: a fim de livrar bem da partilha, imposta pelo regime de bens em decorrência de
uma separação judicial, o cônjuge simula negócio com um amigo, contraindo falsa
dívida, com o objetivo de transferir-lhe o bem em pagamento, prejudicando sua esposa.

b) relativa:
Poderá ser: - relativa objetiva, quando os efeitos queridos pelo agente são proibidos
por lei e para obtê-los, emite uma declaração de vontade ou confissão falsa, a fim de
encobrir ato de natureza diversa (não gera efeitos jurídicos); - relativa subjetiva,
quando a declaração de vontade é emitida aparentando conferir direitos a uma pessoa,
mas transferindo tais direitos para terceiro, não integrante da relação jurídica. Aqui,
gera-se efeitos jurídicos.

O art. 110 do CC menciona o termo reserva mental. Esta se configura quando o


agente emite vontade, resguardando no seu íntimo propósito de não cumprir o
avençado, ou ainda, atingir fim diferente do que foi declarado.

Diz a doutrina que a vontade que vale é a que foi manifestada e não a que se
conservou no íntimo, assim tendo um autor no lançamento do seu livro declarar na
sessão de autógrafos que irá doar os direitos autorais para uma instituição de caridade,
o que importa é que esta foi feita sem vício, pouco importa se no seu íntimo apenas
queria fazer marketing. Não tendo o destinatário conhecimento da reserva mental, a
vontade é válida.

Se no entanto, chegar ao conhecimento do outro contraente, aí sim poderá converter-


se em simulação e assim invalidar o ato negocial, como acontece nos casamentos para
adquirir nacionalidade. Se a outra parte sabia da verdadeira intenção de não se cumprir
os deveres do casamento, o ato poderá ser invalidado por simulação.

Fraude contra credores: arts. 158 a 165 CC


Consiste no ato de alienação ou oneração de bens, assim como de remissão (perdão)
de dívida praticado pelo devedor insolvente, ou à beira da insolvência, com o propósito
de prejudicar credor preexistente, em virtude da diminuição experimentada pelo seu
patrimônio – prejudica 3º de boa fé – vício social.

O patrimônio do devedor constitui a garantia geral dos credores, se ele o desfalca


maliciosamente, a ponto de não garantir mais o pagamento de todas as dívidas, se
tornando insolvente (passivo supera o ativo), configura-se fraude contra credores.

Aqui não há um necessário “disfarce” como na simulação, o ato em si já é lesivo ao


credor, como uma manobra para prejudicar e lesar terceiro.
A vontade manifestada corresponde exatamente ao seu desejo, desfalca
maliciosamente e substancialmente seu patrimônio a ponto de não garantir mais o
pagamento de todas as dívidas, se tornando insolvente.

Dois são os elementos que constituem a fraude:


- objetivo (eventus damni): é a própria insolvência que constitui o ato prejudicial ao
credor.
- subjetivo (consilium fraudis): é a má fé do devedor, a consciência de prejudicar
terceiros. A prova desse elemento não sofre limitações, podendo ser ministrada por
todos os meios, inclusive indícios e presunções.

A venda a preço vil de todo o imobiliário pouco antes da constituição da dívida, com o
posterior retorno ao patrimônio do devedor, caracteriza fraude contra credores.

Parte da doutrina entende que o elemento subjetivo não é essencial neste tipo de vício
social, de maneira que a própria insolvência (objetivo) aliada ao prejuízo causado ao
credor, seriam suficientes para a caracterização da fraude.

Ainda que não haja unanimidade doutrinária, considera-se que em se tratando de atos
gratuitos de alienação praticados em fraude contra credores (como doação feita por
devedor reduzido à insolvência) o requisito subjetivo (má fé) é presumido.
Assim o ato praticado em fraude contra credores se dá por meio de uma ação
revocatória, denominada ação pauliana.

São causas de pedir da referida ação:

a) negócios de transmissão gratuita de bens – art. 158 caput CC (como a doação,


renúncia de herança, renúncia de usufruto, etc.)

b) remissão de dívidas – art. 158 caput CC (o devedor insolvente perdoa dívida de


terceiro);

c) contratos onerosos do devedor insolvente, em duas hipóteses – art. 159 CC:


- quando a insolvência for notória;
- quando houver motivo para ser conhecida do outro contratante (quem adquire o bem
do devedor é um parente próximo, que deveria conhecer o seu estado de insolvência);

d) antecipação de pagamento feita a um dos quirografários (os sem garantia –


ausência de garantia real ao direito creditório ou crédito de alguém) em detrimento
dos demais – art. 162 CC;

e) outorga de garantia de dívida dada a um dos credores, em detrimento dos demais –


art. 163 CC (firma-se neste caso uma “presunção de fraude”).É o caso da constituição
de hipoteca sobre o bem do devedor insolvente, em benefício de um dos credores.

Ação pauliana ou revocatória: introduzida no direito romano pelo pretor Paulo, é ação
pela qual os credores impugnam os atos fraudulentos de seu devedor.

Visa prevenir lesão ao direito dos credores causada pelos atos que tem por efeito a
subtração da garantia geral que lhes fornecem os bens do devedor, ou seja, seu
objetivo é a restauração do estado jurídico anterior.

A ação pauliana tem natureza desconstitutiva (há controvérsia, Carlos Roberto


Gonçalves a considera de natureza declaratória, porém não é o entendimento
majoritário) do negócio jurídico uma vez que acarreta a anulabilidade. Julgada
procedente a ação, anula-se o negócio fraudulento lesivo aos credores, determinando-
se o retorno do bem, ao patrimônio do devedor.

Legitimados a ingressar com a ação pauliana (ativa):

a) credores quirografários – art. 158 caput. Estes não possuem garantia especial
(bens destacados e individuados sobre os quais incidirá a execução) do
recebimento de seus créditos, sendo que o patrimônio geral do devedor
constitui a única garantia e esperança de receberem o montante que lhes é
devido.
b) só os credores que já o eram ao tempo da alienação fraudulenta – art.158, § 2º
CC. Aqueles que se tornaram credores depois da alienação já encontraram
desfalcado o patrimônio e mesmo assim negociaram com ele, não podendo
assim reclamar.

De acordo com o art. 158 § 1º CC o credor com garantia real (penhor, hipoteca), não
poderá reclamar a anulação, por ter no ônus real a segurança de seu reembolso, salvo
se executada a garantia, o bem onerado não for suficiente para satisfazer seus direitos
creditícios. Assim, com relação a esse saldo poderá fazer uso da ação pauliana (no
entanto, prescinde de prévio reconhecimento judicial).
Legitimidade passiva: de acordo com o art. 161 CC, a ação anulatória deve ser
intentada contra o devedor insolvente e também contra a pessoa que com ele celebrou
a estipulação fraudulenta ou ainda terceiros adquirentes que tenham procedido de má
fé. Isso porque de nada adianta acionar somente o alienante se o bem se encontra em
poder dos adquirentes.