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PRESENÇA

ED. 142 . ANO 23


JULHO . 2018

pedagógica
na sala de aula
R$ 49,90

Escola
Diálogo em
busca da paz
Entender o ambiente
escolar como um lugar
de diversidade é o primeiro
passo para a promoção
da cidadania

LÍNGUA ESTRANGEIRA PEDAGOGIA NO BRASIL DEBATE


O ensino de inglês na Obra de Dermeval Saviani A lógica do pódio gera
Educação Infantil e no apresenta estudo da história competição e rivalidade
Ensino Fundamental da educação do País nas escolas
Alex Moletta
TECNOLOGIA & EDUCAÇÃO Graduado em Filosofia, escritor, dramaturgo e roteirista.
Autor dos livros Criação de Curta-metragem em Vídeo
Digital e Fazendo Cinema na Escola

A linguagem
audiovisual nas escolas:
um dos caminhos
para a inovação

ara refletirmos sobre a questão do em uma sala de aula. Aí nos vem outra
audiovisual no ambiente escolar, pergunta: como não considerar o au-
precisamos nos fazer a seguinte diovisual um dos aspectos relevantes
pergunta: hoje, o que existe em para o processo de ensino/aprendiza-
comum em boa parte das crianças entre gem dentro do ambiente escolar?
2 e 5 anos e em grande parte dos ado-
lescentes entre 12 e 15? A resposta é Outra questão importante a ser con-
bem simples: ambos assistem a vídeos siderada é que estamos passando por
online em dispositivos móveis. um momento sensível de transição so-
cial no cenário educacional, pois temos
Segundo pesquisas que medem a au- hoje, em grande parte das escolas e
diência (Painel Nacional de Televisão, universidades, os chamados imigran-
do Ibope Media), as crianças passam tes digitais educando nativos digi-
mais de quatro horas diárias assistindo tais. Essa é uma questão que, por si, já
a conteúdo audiovisual. Seguindo essa gera críticas, anseios, dilemas e, por-
premissa, uma criança que está com tanto, também necessita de reflexão.
6 anos de idade, no primeiro período O estudo The myths of the digital na-
do Ensino Fundamental, que ainda tive and the multitasker, publicado, em
não aprendeu a ler nem a escrever, já 2017, na revista Teaching and Teacher
assistiu a quase 6 mil horas de con- Education, afirma que o conceito na-
teúdo audiovisual sem supervisão pe- tivo digital não possui embasamento
dagógica. Antes de aprender a ler e a científico e aparentemente o problema
escrever, ela já construiu um repertó- não estará resolvido no futuro quando
rio de alfabetização audiovisual sem professores nativos digitais educarem
a figura de um orientador. O aprendi- alunos na mesma condição. Essa dis-
zado dessa criança, na era digital, já cussão ainda se dará por mais tempo
se iniciou antes mesmo de ela entrar no meio educacional e não podemos

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Composição de imagens: demaerre e HAKINMHAN/iStock.com

ignorar que alguns aspectos de mu-


dança de comportamentos sociais pre-
cisam ser analisados e repensados
para fazerem parte da pauta de dis-
cussão sobre as práticas educacionais.

Partindo do princípio de que qualquer


cidadão – incluindo aqui a infância e
a adolescência – tem direito à cultura,
à educação, a ampliar seu repertório,
adquirir novas experiências e desen-
volver seu senso crítico e intelectual, a
linguagem audiovisual passa a ter um
sentido mais amplo e relevante do que
apenas uma ferramenta paradidática,
o que também não a exclui nesta fun-
ção, evidentemente. O uso do audiovi-
sual como ferramenta para o professor
já faz parte do cotidiano escolar. Exibir
filmes, curtas, animações e documen-
tários já não é raro. Mas quais cami-
nhos o professor – que tiver o desejo
de ir além da exibição de filmes – deve
percorrer para ampliar o uso do audio-
visual em sua rotina didática?

Um caminho seria primeiro buscar o


autoconhecimento. Fazer um diagnós-
tico pessoal sobre como o audiovisual
está presente na vida cotidiana dele. A
que ele assiste? Como assiste? Qual é
seu repertório cinematográfico e audio-
visual? O que o cinema e o audiovisual
representam em sua vida afetiva e in-
telectual? O que ele conhece da lingua-
gem de comunicação desses veículos?
E o mais importante: por que deseja
usar essa linguagem para ensinar?

Aqui abrimos um parêntese para dife-


renciar os termos cinema e audiovisual.
Segundo o doutor em Meios e Proces-
sos Audiovisuais, mestre em Artes e Ci-
nema, professor e pesquisador Sérgio
Rizzo, cinema é o espaço físico desti-
nado a exibir filmes, ou seja, uma sala
escura com tela grande de projeção e

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sistema de som climatizado, projetados diovisual em sala de aula. Esse ma-
para nos concentrarmos no filme a que peamento de interesses ou perfis de
assistimos, embarcarmos totalmente na espectadores – de professores e alu-
história contada. Já o termo audiovi- nos – determina o tipo de conteúdo
sual se refere a um aspecto muito mais que será trabalhado naturalmente e o
amplo, pois não se restringe a filmes. que necessita ser inserido de conteúdos
Ao contrário do cinema, para o qual novos para estimular a diversidade, a
precisamos ir até a um local específico compreensão do outro, a reflexão sobre
(sala de exibição), o audiovisual está temas desconhecidos e o senso crítico,
presente em praticamente todos os lu- tanto do aluno como do professor.
gares, do aparelho de TV na sala das
casas ao smartphone na palma de nos- Quando se fala em audiovisual nas es-
sas mãos. Está também em o ­utdoors colas, a segunda ideia que nos vem à
eletrônicos, praças de alimentação, mente é a de criação e produção de
lojas, bancos, escolas, empresas e ou- curtas-metragens de ficção, animação
tras situações que nos rodeiam. Por- ou documentário – a primeira é quase
tanto, ao falar em cinema, você estará sempre a de exibição de filmes com
falando de um veículo e uma lingua- eixos temáticos. Mas a linguagem está
gem específica. Por outro lado, o au- muito além disso. A criação audiovisual
diovisual possui um caráter muito mais não se limita a narrar histórias de fic-
abrangente em termos de veículo de ção, mas também a criar séries de vi-
comunicação. deoaulas, utilizando como conteúdo as
disciplinas curriculares como matemá-
Um outro caminho seria o professor tica, língua portuguesa, idiomas ou ci-
fazer um diagnóstico da presença do ci- ências, apresentadas pelo professor ou
nema e do audiovisual na vida de seus pelos próprios alunos. Apresentações
alunos. Saber a que eles assistem no dia em slides com imagens e sons tam-
a dia. Quais filmes? Quais programas de bém são recursos audiovisuais já uti-
TV? E já que os jogos eletrônicos tam- lizados em trabalhos escolares e, em
bém fazem parte do audiovisual, quais ambos os casos, entram como ferra-
games eles gostam de jogar? Quais ca- menta pedagógica.
nais de vídeos do YouTube eles seguem
e a quais assistem periodicamente? O Agora, o desafio de unir a criação ar-
que lhes interessa audiovisualmente? O tística audiovisual – de se narrarem
que eles sabem ou pensam do audiovi- histórias – aos conteúdos curriculares
sual? Esses são dois caminhos nortea- da sala de aula em uma mesma obra
dores e de grande importância quando amplia a compreensão desses conteú-
se trata de trabalhar a linguagem au- dos, estimula a busca por uma aplica-

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ção prática do conhecimento adquirido,


a integração e o trabalho em equipe
na sala de aula e desenvolve o pen-
samento crítico do aluno. Um exemplo

Imagens: Divulgação
desse caminho é o trabalho do profes-
sor de sociologia da rede de ensino pú-
blico de Brasília/DF, Gilberto Barral, que
propôs aos seus alunos, em 2003, um
trabalho audiovisual com o tema O que
é a cidade? O trabalho consistia em um
registro sobre como os alunos enxer-
gavam a sua cidade, e o desafio era
também explicar com imagens e sons
o que significava a cidade para eles. A
partir dessas produções, ele pôde apli-
car seu conteúdo de sociologia, deba-
tendo com os alunos suas produções e
seus respectivos olhares diferenciados.

Um aspecto importante a ser consi-


derado sobre o uso da linguagem au-
diovisual nas escolas é que não há um
método científico ou uma forma cor-
reta de se fazer isso. Esse processo de
trabalho e pesquisa sempre irá depen-
der de inúmeros fatores sociais, educa-
cionais, empíricos e tecnológicos. Cada
lugar terá um processo único, pois de-
penderá muito do grupo: professor,
alunos e realidade social. Por esse mo-
tivo, faz-se necessária esta reflexão e o
compartilhamento de experiências.

Foi com esse intuito que nasceu o pro-


jeto Mais Videomundo, um canal de
criação de conteúdo que provoca esse
tipo de reflexão, promove o diálogo e
se propõe a compartilhar experiências
de professores, coordenadores e alu-
nos sobre educação e audiovisual. Esse
projeto tem dois livros publicados: Cria-
ção de curta-metragem em vídeo digi- Se você é professor, pesquisador, co-
tal – Uma proposta para produções de ordenador ou aluno e se interessa pelo
baixo custo (2009) e Fazendo cinema tema, ou deseja compartilhar sua expe-
na escola – A arte audiovisual dentro e riência conosco, inscreva-se em nosso
fora da sala de aula (2014), ambos pela canal ou entre em contato pelo e-mail
Summus Editorial. maisvideomundo@gmail.com. 

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