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Setembro/Outubro

Alice #3 2010

ricardo miranda 1/4

Portugal precisa
(desesperadamente) de filmes
de terror

ricardo miranda

“Scream”, 1996, Wes Craven / “True


Somos um povo apavorado. Temos medo de tudo. Da crise, do desemprego, do
Blood”, 2008, série televisiva produzida por
emprego, do ridículo, de ofender, da humilhação, de não sermos aceites, da
Alan Ball, HBO
frase errada, das "verdades", de magoar os outros, de sermos magoados, de
parecer mal, de parecer bem, de aparecermos, de desaparecermos. Mas,
sobretudo, temos (muito, muito) medo de reconhecer que temos medo.

Este é um pavor que nos paralisa, que nos deixa sem reacção, que nos
mergulha num limbo emocional do qual nunca saímos. A não ser quando o
Nelson Évora ganha ouro, o Mourinho ganha a Liga dos Campeões ou a
transferência do Cristiano se torna na mais cara de sempre. Só que, em vez de
reagir e darmos o corpo ao manifesto, fazemos de hamster: ficamos a tremer no
nosso cantinho, a rezar para que ninguém repare em nós.

E, no entanto, objectivamente, somos um país privilegiado: atentados


terroristas como nos Estados Unidos, Espanha, Grã- Bretanha, nem vê-los;
Etas, Iras e afins, não há; perigo real de partir o país em vários, como em
Espanha, Bélgica, Rússia, não há; revoltas sociais como na França e Grécia,
não temos; epidemias como no México, não temos; colapso económico como
na Argentina do começo do século, não há; colapso social como na Somália,
Ruanda, não temos.Temos medo de quê, então?

O problema do país não é de mentalidade, é de "emocionalidade". Temos uma


incapacidade primária de enfrentar os nossos medos. Ter medo faz bem. Fingir
que o medo não existe, é medonho.

O que é frustrante no nosso "medo de existir", como lhe chamou José Gil, é
sermos sempre uma eterna promessa de qualquer coisa. "Eu fazer até fazia,
mas..." e lá vem uma desculpa esfarrapada, um eufemismo para a desculpa real,
o "medo". É esta morte em vida, este sermos 20% do que podíamos ser, que me
tira do sério. Enfrentar os medos sai-nos da pele, mas também nos faz sentir
vivos. Só assim se ganha maturidade. É suposto usarmos a vida para a
vivermos. Estamos a poupá-la para quê? Para depois da morte?
Setembro/Outubro
Alice #3 2010

ricardo miranda 2/4

Curiosamente, não estamos sozinhos no medo. Todos os povos os têm. Faz


parte. Mas lidam com eles. Uma dessas formas é contando histórias.
Inventando, recriando, ficcionando. E é aqui que está a diferença. Filmes de
terror são histórias filmadas onde a emoção primária em foco é um medo
específico.

No caso dos vampiros - tão em voga com a saga "Twilight", a série "True
Blood", "Daybreakers" - é o medo de encontrarmos pessoas superiores a nós e
que nos suguem a energia de viver. Com os lobisomens, é o medo de que a
raiva que fermenta dentro de nós acabe por explodir e nos transforme em
monstros. Com os zombies - originais do Haiti, mas que sofreram um
"rebranding", em 1968, às mãos de George Romero - lidamos com o medo da
“Night of the living dead” (still), 1968, morte e com o medo da morte em vida. Com os "serial killers" - os "slashers"
George A. Romero dos anos 80 que sofreram um "restyling" com "Scream" (1996) e se
transformaram num mercado para adolescentes, desde o sucesso de "Sei o que
fizeste no Verão passado" (1997) - é o medo de virmos a pagar pelos nossos
"pecados", como se os "serial killers" fossem anjos vingadores ou,
ironicamente, "justiceiros".

Nos filmes com monstros extraterrestres é o medo do "outro" (iconizado no


filme "Alien"), de tudo o que é diferente de nós, da ameaça exterior. Nos filmes
com "monstros" terrestres ("King Kong", "Pássaros", "Tubarão", "Orca, a fúria
dos mares" ou o recente "remake" de "Piranha") é o medo de que os papéis se
invertam e que, depois de séculos como caçadores, sejamos nós os caçados,
numa espécie de vingança da natureza pelo que lhe temos feito.

A lista de sub-géneros de filmes de terror é extensa e em expansão. Novos


medos tendem a gerar novos sub-géneros. Nada disto é racionalizado desta
“Jaws”, 1975, Steven Spielberg / “King forma quando nos sentamos a ver um filme, mas o medo em causa é estimulado
Kong” (título de genérico), 1933, Meriam C. e apaziguado. Como uma vacina, que nos introduz uma bactéria enfraquecida
Cooper e Ernest B. Schoedsack no organismo, para ensinar o nosso corpo a combatê-la. Embora o medo seja
negativo, ele é útil. Foi "inventado" pela natureza para situações-limite, quando
a nossa sobrevivência está em jogo: correr ou morrer; estar quieto ou morrer,
consoante os casos. Vários estudos académicos (Gray, Panksepp, Tomkins,
Stein & Trabasso, Ekman, Izard) estabelecem o medo como uma das emoções
primárias - contidas no kit básico do ser humano. Ter medo é, assim, normal.
Viver no medo, já não.

É verdade que Portugal vive uma época de medos reais. A crise. O desemprego
elevado. Os escândalos políticos. Os sinais vermelhos sobre a sobrevivência do
país. O colapso de alguns bancos e de muitas empresas. O aumento da dívida
pública. O fisco a apertar o nosso bolso. Mas é exactamente por isso que
precisamos (desesperadamente) de filmes de terror. Precisamos de histórias que
nos ajudem a processar emocionalmente estas emoções.
Setembro/Outubro
Alice #3 2010

ricardo miranda 3/4

O fascínio de vermos um filme de terror é que, embora as nossas emoções


sejam reais, aquilo que estamos a ver no ecrã é ficção, é a fingir. O que nos dá
uma margem de segurança. Saímos do cinema ou do sofá com a sensação de
termos enfrentado uma ameaça e sobrevivido. É um ritual de exorcismo.
Ajuda-nos a lidar com o medo, a tratá-lo por tu e deixa-nos capazes de
enfrentar a vida com outra atitude emocional. Deixamos de ser aquilo a que os
miúdos chamam "medricas".

É comum todos os países criarem filmes de terror para lidar com os seus
medos. Veja-se os Estados Unidos. Durante e depois do Vietname tiveram uma
década de ouro de filmes de terror: "A noite dos mortos vivos" (1968), "Last
house on the left" (1972), "The Texas Chainsaw Massacre" (1974), "Dawn of
“King Kong vs. Gozilla”, 1962, Ishiro Honda the dead" (1978), "Halloween" (1978) e "Sexta-feira 13" (1980) funcionaram
/ “King Kong” (still), 1933, Meriam C. como uma espécie de terapia colectiva. Mais recentemente lançaram a série
Cooper e Ernest B. Schoedsack "Saw"(2004) para lidar com o medo de pagarem pelos erros cometidos na Era
Bush. E o "Hostel" (2005) e o "Turistas" (2006) para lidarem com o
anti-americanismo daí resultante.

O "I am legend" (2007) ou o "Projecto Cloverfield" (2008) para lidarem com o


11 de Setembro. A Espanha, por exemplo, tem filmes de terror magníficos
("Los sin nombre", "Thesis", "O Labirinto do Fauno") que os ajuda a lidar com
as sequelas da guerra civil e do regime franquista. Os japoneses criaram o
Godzilla, destruidor de cidades, para lidarem com o trauma de Hiroshima e
Nagasaki. A França idem: "Haute tension", "Martyrs", "Ils", para lidar com
uma sociedade em contradição, herdeira da "liberdade, igualdade,
fraternidade", mas incapaz de aceitar ciganos e muçulmanos. A Noruega aspas
aspas: "Let the right one in" e "Dead Snow", para lidar com as tensões internas
de uma sociedade "perfeita" ."A Áustria para lidar com a falta de empatia
extrema que se esconde por trás de pacatos cidadãos ("Funny games").
Alfred Hitchcock

Portugal teve 40 anos de ditadura onde a invisibilidade era premiada; uma


polícia política sinistra; década e meia de guerra colonial, com massacre de
populações e milhares de homens com cérebros mutilados para a vida; milhares
de retornados que recomeçaram do zero num país quase desconhecido; pobreza
a sério que nos levou a emigrar em massa "to bidonville and beyond". Temas é
coisa que não nos falta. Onde estão as nossas histórias? Sim, há literatura sobre
o tema, alguns filmes mais cerebrais, documentários de qualidade, mas é
(muito, muito) pouco. Falta o dedo na ferida. Precisamos de ficção para lidar
com os factos. Precisamos do "a brincar" para lidar com o "a sério".

Este é um momento tão bom como qualquer outro para ultrapassarmos este
pânico e produzirmos filmes de terror. Precisamos de escrever sobre os nossos
medos, de os filmar, de os mostrar uns aos outros para os podermos amar e
odiar, para começarmos a reagir. Acredito que nos vamos dar melhor do que
pensamos. Sim, não somos ricos. Mas se há coisa que não falta na história do
cinema são grandes filmes de terror produzidos com orçamentos aceitáveis, até
para Portugal. Chama-se Série B.
Setembro/Outubro
Alice #3 2010

ricardo miranda 4/4

"Monsters" (2010) foi feito com 150 mil dólares e é um belíssimo filme sobre o
medo do que existe para lá do nosso "quintal". "Ils" (2006) é um filme quase
amador sobre o medo da nossa vulnerabilidade face a estranhos. Qualquer um
deles podia ter sido produzido em Portugal. Tudo o que precisamos é de uma
boa ideia, um bom conceito e uma boa história. "I'll see you in my dreams"
(2003) de Miguel Àngel Vivas foi uma primeira tentativa bem humorada de
introduzir o imaginário zombie em Portugal. Durava apenas 20 minutos, mas
foi pioneiro. "Coisa Ruim" (2006) de Tiago Guedes e Frederico Serra foi uma
tentativa de criar um universo português original. Não se assumia como filme
de terror, mas para lá caminhava. "Lua vermelha" é uma série da SIC que cruza
"Morangos com Açúcar" com vampiros estilo "Twilight". Neste caso não são
os nossos medos que estão em causa, não é bem terror, fica a intenção.
“The Birds” (poster e still), 1963, Alfred
Hitchcock
Mas existe mercado? (Leia-se: serão projectos como estes comercialmente
viáveis?) O sucesso crescente de festivais como o Fantasporto, onde o cinema
de terror tem uma fatia de leão, ou o MotelX, assim parece indicar. Mas o
indicador principal vem de Hollywood. Cada vez se produzem mais filmes de
terror, com orçamentos maiores, dirigidos a uma geração de jovens que vêem
neste cinema uma resposta às suas angústias. "Zombieland" (2009) é o primeiro
exemplo de um "blockbuster" zombie. Os nossos teenagers (e pós-teenagers)
não são diferentes de todos os outros e consomem filmes de terror em doses
cada vez mais maciças. Outro indicador curioso são as mulheres. Há 20 anos
era mais fácil encontrar um unicórnio do que uma portuguesa amante do
género. Hoje, basta ir a qualquer faculdade e em cada 10 mulheres na casa dos
vintes, pelo menos metade gosta (quando não adora) filmes de terror. Não é um
exercício de masoquismo, mas de exorcismo. O ICA (Instituto do Cinema e do
Audiovisual) devia apoiar a criação e produção de filmes de terror. Não
“Saw”, 2004, James Wan / “Night of the enquanto extravagância, mas com espírito de missão - é uma recomendação. O
living dead”, 1968, George A. Romero / mesmo podia ser feito pelos canais portugueses. A RTP apoiou recentemente o
“Saw II”, 2005, Darren Lunn Bousman centenário da República com duas séries históricas. A SIC e TVI já apoiaram a
produção de cinema nacional.

Portugal tem muitas histórias de medos para contar. E sim, implica lidar com
os nossos preconceitos, mas precisamos desta terapia colectiva. O medo não
vai desaparecer. Não vamos ficar "curados". Mas pode ser que nos vá
libertando. Porque o medo é isso mesmo, uma prisão. ¬ A