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Tudo que você

precisa saber sobre


Desempenho de Corte
Quando a Ciência encontra a Arte !

Com absoluta certeza, nada gera mais mística na cutelaria


moderna do que o desempenho de corte de uma lâmina.
Inúmeras lendas atravessaram os séculos, sobre o poder
absoluto de corte de algumas espadas. Até mesmo nos dias
de hoje, brilhantes estratégias de marketing produzem
verdadeiros "milagres cortantes" que, pelo supremo poder
de corte, só podem ter sido forjadas pelo Senhor nosso
Deus!
Vamos sepultar de uma vez por todas as fantasiosas,
absurdas e mentirosas afirmações fantásticas de facas, que
não precisam ser afiadas nunca!
Balela marqueteira! Todo material que entra em contato
com outro, gera atrito e, portanto, sofre desgaste! Até o
diamante!
Quando a Ciência encontra a Arte !

E o que dirá do desprazer que tive de assistir à


uma "fantástica demonstração de corte
milagroso" com uma faca, onde o performático
cuteleiro cortava arame apoiado sobre um duro
anteparo, com a parte inicial do fio da faca,
perto do cabo, que tinha uma geometria de fio
mais semelhante à de um machado e na
sequência, aproveitando-se da distração dos
embasbacados observadores, enquanto fatiava
um tomate com a outra extremidade do fio,
perto da ponta, usinada muito mais
agressivamente, que permanecia intocada do
corte mágico do arame!
Quando a Ciência encontra a Arte !

Cutelaria e Metalurgia são uma miscelânea de ciência e arte! Isso é


ESTELIONATO e esse camarada não é cuteleiro... é BANDIDO, e vendeu muita
faca por causa desse TRUQUE!

E para discutirmos sobre corte, vou usar como Não existe mágica, fórmula secreta, magia nem
referência a lâmina mais cortante já produzida ilusionismo. Toda faca necessita ser afiada! O que
pelo homem, a espada japonesa Katana. passa disso, plagiando a Bíblia Sagrada, é de
procedência do mal!!!
Mas onde termina a mística e começa a
realidade? Qual é a fronteira entre o marketing e
a ciência?
Vamos analisar alguns dos fatores determinantes
do desempenho de corte, não todos eles, pois
seria demasiadamente demorado e extenso,
porém os principais!
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Sem qualquer hesitação é a mais eficiente arma antiga que a humanidade criou. Além do mais,
obviamente, por ser o ápice do desempenho de corte, ela contém muito bem destacados os principais
fatores determinantes a que me referi.

Por séculos artesãos forjadores japoneses desenvolveram técnicas de


confecção secretas, que eram passadas e aperfeiçoadas de geração em
geração, somente àqueles dignos de deter tão sagrado conhecimento.

Mestre Forjador Japonês

O fruto resultante desse árduo desenvolvimento técnico,


aperfeiçoado especialmente mediante tentativa e erro, tornou-se
uma lenda nas mãos dos lendários guerreiros Samurais, que eram
hábeis não somente com a espada, mas com arco, lança, cavalo e
inúmeros outros implementos de guerra.
Os Lendários Samurais
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Diante de infinitos designs e técnicas


construtivas, por que a Katana se destacou
tanto?
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A sensual curvatura acentuada do fio de uma Katana não se trata de


forma alguma de um requisito estético. Essa curva reduz a superfície de
contato inicial entre o fio e o objeto a ser cortado, que por ser menor,
produz consequente aumento de pressão na área de corte, que toca o
objeto.

1º Perfil do Fio
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Isso é óbvio... acompanhem o raciocínio: Como cortamos


uma prancha de madeira com maior facilidade usando uma
faca, na face maior ou na menor? Na menor, claro... assim
conseguimos maior penetração do fio na madeira, pois a
área do fio que entra em contato com a madeira é menor,
exercendo maior pressão e encontrando menor resistência!!!

Teste de Corte Faca de Campo


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Essa é a grande sacada dos fios curvilíneos das Katanas e


também de vários outros estilos de lâminas com perfil de
fio convexo, como por exemplo facas de chef e alguns
modelos de bowies.

Faca de Cozinha Fio Curvo

Fio Curvo Altamente Cortante


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E qual seria então a destinação dos fios de perfil reto e côncavo (ou
recurvo)?

Vs.
Recurvo Plano

Os fios planos tem capacidade de "colher" uma maior superfície de corte de uma só vez, ou seja, o
fato de ter seu fio reto faz com que este toque uma maior superfície de uma só vez.
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Perdendo a cabeça

E o fio recurvo? Ele serve para cortar mediante impacto, ou


seja, cortar golpeando. Talvez o melhor exemplo desse
design sejam as míticas facas kukri. Que serviam pra quê???

Decapitar o inimigo!!! Os temidos soldados nepaleses


fizeram muita gente literalmente perder a cabeça, durante a
2ª Guerra Mundial!

Gurkhas Nepaleses
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Composição Química do Aço:

Certamente esse é o ponto mais explorado midiaticamente. Provavelmente todos que gostam de facas
devem ter ouvido no passado sobre o famoso aço alemão Solingen, que na verdade não é o nome de
um aço, mas de uma cidade com forte tradição metalúrgica.

Realmente os aços produzidos na região de Solingen


eram e ainda são excelentes, aliás, como praticamente
tudo produzido pelo povo alemão. Contudo, a forte
estratégia de marketing conduzida com excelência pelas
indústrias metalúrgicas alemãs, fizeram com que hoje,
tenhamos falsificações de facas Solingen Stahl produzidas
em dezenas de países do mundo.

Moléculas de Carbono
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Mas afinal, o que torna o aço bom para corte?

Uma infinidade de componentes químicos, mas o mandachuva deles sem dúvida é o carbono. Os aços
classificam-se em:

Baixo Carbono Médio Carbono Alto Carbono

Destes, os médios e altos normalmente são os mais utilizados para a confecção de facas e canivetes e
os baixos e médios normalmente para a confecção de machados e espadas. Isso não é regra! Eu
explico...

Os machados e espadas cortam normalmente mediante impacto, ou seja, corta-se golpeando. Isso
produz uma considerável "torção" na lâmina, invisível olho nu. A lâmina em questão deve permanecer
intacta depois dessa torção. Essa capacidade de sofrer deformação e retomar a forma original é
tecnicamente denominada de tenacidade. Aí entra o carbono e a dureza advinda do tratamento
térmico.
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Quanto mais dura a lâmina, mais fácil de ela quebrar. Isso é regra! Como na maioria das facas e
canivetes cortamos mediante deslizamento do fio ( exceto por exemplo camps e cutelos), pode-se
imprimir mais dureza quando do tratamento térmico.

Para espadas e machados, é conveniente que fiquem um pouco menos duros, para otimizar a
tenacidade. Ou seja, uma espada, está normalmente mais para uma mola, do que para uma faca. De
nada adianta ter um fio super duro e no primeiro golpe do oponente perder a lâmina... e no segundo
perder a cabeça!

Entretanto, em se tratando de uma lâmina de faca, por exemplo, não podemos simplesmente pensar
que quanto mais dura melhor e ponto final. Isso é burrice.

Em tese, tendo mais dureza, teríamos mais retenção de fio. Ou seja, quanto mais dura a lâmina, menos
teremos que reafiar a faca. A dureza alta reduz o coeficiente de desgaste do fio, fazendo com que a
faca necessite de menos afiação.
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Normalmente as facas custom são produzidas entre 48 e 62 Rocwell C. Mas há outra coisa a se
considerar. Quanto mais dura, muito mais difícil de afiar. Uma faca com dureza 62, 64 por exemplo, só é
afiada com uma pedra diamantada, e dá um baita trabalho pra refazer o fio.
Ao passo de que uma faca com 56 ou 58, numa situação emergencial, pode ser reafiada até com uma
pedra de rio!!!

Considerando que nós nunca sabemos com certeza em quais circunstâncias nossas vidas dependerão
de nossas facas, eu sempre opto por uma dureza entre 52 para as maiores e até 60 para as facas
menores. Isso não é medido faca a faca. Temos uma estimativa baseada na tabela de tratamento
térmico dos aços.

Um estudo realizado nas forças armadas americanas concluiu que todas elas, Marinha, Exército,
Aeronáutica e Corpo de Fuzileiros Navais, preferiram facas menos duras, por serem mais tenazes,
resistentes e de fácil manutenção de fio! Mais uma vez, o meio termo é a melhor opção!
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Tratamento Térmico
Quando falamos de tratamento térmico de Facas Custom, basicamente temos:

Normalização: etapa onde mediante aquecimento à determinadas


temperaturas, livramos as lâminas das tenções internas advindas do
forjamento.

Têmpera: etapa de "endurecimento" do aço mediante aquecimento e


resfriamento brusco, onde alcançamos a máxima dureza de cada tipo de
aço.
Normalização

Revenimento: Etapa, onde mediante exposição da lâmina


temperada a aquecimento em um forno, conseguimos baixar a
dureza excessiva, até uma dureza que chamo de "saudável", ou
seja, adequada para uso, promovendo boa tenacidade, boa
retenção de fio e razoável facilidade de reafiação.

Temperando
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Vou citar o exemplo dos aços mais conhecidos e utilizados no


Brasil: 52100, 5160, 1070, 1095, O1, W1, W2.

O tratamento térmico é tão vital para o desempenho de corte


que, por exemplo, tanto com o 5160, que tem 0,60 % de carbono,
quanto com o W2 que tem exatamente o dobro, 1,2 %,
conseguimos durezas entre 40 e 60 Rockwell C.

No país, tem-se uma errônea noção de que quanto mais carbono


melhor e ponto final. Isso não é verdade.
Qualquer lâmina confeccionada com os aços acima citados, se
tratada termicamente correta, é capaz de produzir altíssima
performance.

Medidor de Dureza Rocwell C


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Já citei isso o artigo "Damasco, Carbono ou Inox: Afinal qual é o melhor aço?", no Brasil
alguns colecionadores tem um certo preconceito com o aço 5160, por ele ser um aço de
médio carbono. Mas exatamente esse aço, é o maior vencedor absoluto das edições do
Campeonato Mundial de Corte, normalmente realizado nos Estados Unidos.

Ademais, eu pessoalmente já cortei um cabo de aço, da espessura de meu dedo indicador, tendo-o
apoiado e batendo com um pedaço de pau no dorso da faca, numa única tentativa (faca feita pelo
cuteleiro Ricardo Vilar - Modelo Lobo Guará). O cabo seccionou totalmente na primeira pancada, a faca
não sofreu nenhuma deformação no fio e admirem-se, a lâmina era feita de 5160. Obviamente que
depois disso ela perdeu o fio e necessitou ser reafiada, contudo manteve-se estruturalmente intacta.

De nada adianta um aço de última geração, se a lâmina não passar por criterioso tratamento térmico.
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Geometria de Fio
Essa é certamente a mais difícil de ensinar a novos
cuteleiros, bem como de explicar a vocês leitores, por se
tratar de uma parte crucial da faca, que no entanto não
pode ser enxergada nem tampouco medida.

Vou usar dois extremos que explicam bem o conceito: um


bisturi e um machado!

O primeiro é uma ferramenta de corte que


trabalha única e exclusivamente deslizando
ao cortar. O cirurgião o apoia delicadamente
sobre o corpo do paciente e suavemente o
desliza, produzindo o corte desejado.
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Já o machado, foi desenvolvido para cortar, sempre mediante


impacto, materiais muito mais duros do que o corpo humano,
como por exemplo a madeira.

Para tal, deve ter uma estrutura física muito mais robusta,
tanto com relação ao peso, para que o lenhador se beneficie da
inércia, quanto com relação à resistência mecânica do fio, para
que este sofra impacto e não se deforme, quebre ou produza
dentes.

Cada Ferramenta para o Seu Proposito


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Nas Facas Custom esse princípio deve ser obedecido. Dois extremos: Uma faca de cozinha com 4
polegadas de lâmina, projetada exclusivamente para descascar e picar vegetais, e um cutelo, também
para a cozinha, destinado a cortar ossos!

As facas da direita se assemelham mais à uma lâmina de barbear,


já a segunda à um machado. Porem ambas são facas!

Fica claro que essas duas peças devem ter


estruturas de fio diferentes. Isso é obvio, mas
nem todo mundo respeita essa relação entre
resistência mecânica e funcionalidade.

Faca de Legumes

Faca de Churrasco

Cutelo
Faca de Churrasco Grande
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Minha Primeira Faca

Me lembro bem que, no início de minha carreira, minhas primeiras 2 ou 3 facas de caça, tinham geometria de fio
parecidas com a de um machado. Obviamente erram horríveis de corte!
Mas como aferimos isso, se não é visível nem mensurável? Simples: utilizamos o tato da melhor ferramenta já
produzida por Deus... fazemos uma pinça entre os dedos indicador e polegar e deslizamos do meio da lâmina para
o fio, percebendo o quão acentuada é a curvatura. Isso leva anos para aprender, e mais alguns para conseguir
reproduzir.
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Skinner ou Nessmuk

É inimaginável esperar alto desempenho de uma Faca Skinner,


por exemplo, que se destina a retirar o couro de uma caça, se
ela tiver a mesma geometria de fio de uma faca de campo, que
se destina a cortar uma árvore! Não vai funcionar bem!!!
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Faca de Luta Alto desempenho de corte = respeito na construção da geometria de fio,


alinhada ao que a faca se destina.

Uma faca de luta: o que deve cortar??? Só duas coisas: roupas e o cara que está dentro delas, nada mais.
Ou seja, não devemos pensar numa estrutura física robusta de uma Camp Knife, quando projetamos
uma fighter. Além de não cortar como deveria, ainda ficará pesada e lenta.
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Então para concluir, se negligenciarmos esses aspectos na


confecção de um projeto, certamente não chegaremos nem
perto dos 100% que uma lâmina pode alcançar em termos
de performance. Creio que dos 4 itens citados, sem dúvida
os mais importantes/determinantes do sucesso de uma
lâmina são, o Tratamento Térmico e a Geometria do Fio. A
observância destes, são condições para alto desempenho!

Faca de Campo
Corte Mediante Impacto = Fio mais Robusto.
Corte Mediante Deslizamento = Fio menos Robusto
Aviso Legal
Todos os resultados obtidos através do método ensinado pelo Professor Berardo, podem variar de pessoa pra pessoa. Mesmo todos
testemunhos, sendo verdadeiros e enviados gentilmente por nossos membros do Curso de Cuteleiro, podem não representar os
resultados típicos. Cada pessoa tem uma forma de dedicar-se, de maneira diferente da outra, e os resultados também são
diferentes. O Professor Berardo, apesar de embasar todo o conceito e aplicação em estudos já validados por muitos cuteleiros e
pelo mercado, também é uma especialista validado por duas certificações internacionais com altíssimo grau de dificuldade de
aprovação. Uma como Mestre Cuteleiro pela Corporação Italiana de Cutelaria e outra como Master Smith, pela American
BladeSmith Society. Além de sua experiência prática, por mais de 15 anos como Cuteleiro Profissional Custom. O que por si só, já
serve de aval de seu conhecimento e o qualifica para exercer a função de professor. Desde então, vem acumulando todo esse
conhecimento na área da cutelaria, realizando suas próprias rotinas de testes e pesquisas. Isso o levou a desenvolver esse método.
Todos os conceitos, conhecimentos, dicas e estratégias compartilhadas aqui são de caráter exclusivamente educacional. Se mesmo
assim ainda tiver qualquer tipo de dúvida, envie um e-mail para suporte@cursodecuteleiro.com.br que responderemos o mais
breve possível. Gratidão a você!

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Primeira edição, 2019
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