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Reportagem

edição 25 - Novembro 2005

Casamento, uma invenção cristã


A união indissolúvel, celebrada por um sacramento, substituiu antigos costumes de
poligamia, provocando grande mudança nos hábitos europeus.

por Michel Rouche

Em 392, o cristianismo foi proclamado religião oficial.


Entre 965 e 1008 eram batizados os reis da Dinamarca,
Polônia, Hungria, Rússia, Noruega e Suécia.

Desses dois fatos resultou o formato do casamento, em


princípios do ano 1000, com uma face totalmente nova.
Durante o Sacro Império Romano Germânico - que
sucedeu ao desaparecido Império Romano -, dirigido
por Oto III de 998 a 1002, houve uma fabulosa
transformação das sociedades urbanas romanas e das
sociedades rurais germânicas e eslavas. As uniões
entre homens e mulheres eram, então, o resultado
complexo de renitências pagãs, de interesses políticos e
de uma poderosa evangelização.

"Amor: desejo que tudo tenta monopolizar; caridade:


terna unidade; ódio: desprezo pelas vaidades deste
mundo." Esse breve exercício escolar, escrito no dorso
de um manuscrito do início do século XI, exprime bem
o conflito entre as concepções pagã e cristã do
casamento. Para os pagãos, fossem eles germânicos,
eslavos ou ainda mais recentemente vikings instalados
na Normandia desde 911, o amor era visto como
subversivo, como destruidor da sociedade. Para os Casamento de Felipe da Macedônia com Olimpia. Miniatura
cristãos, como o bispo e escritor Jonas de Orléans, o do séc. XV
termo caridade exprimia, com o qualificativo
"conjugal", um amor privilegiado e de ternura no interior da célula conjugal. Esse otimismo aparecia
em determinados decretos pontificais, por meio de termos como afeto marital (maritalis affectio) ou
amor conjugal (dilectio conjugalis). Evidentemente, o ideal cristão era abrir mão dos bens deste
mundo desprezando-os, o que constituía um convite ao celibato convencional.

A Europa pagã, mal batizada no ano 1000, apresentava portanto uma concepção do casamento
totalmente contrária à dos cristãos. O exemplo da Normandia é ainda mais revelador, por ser muito
semelhante ao da Suécia ou da Boêmia. Os vikings praticavam um casamento poligâmico, com uma
esposa de primeiro escalão que tinha todos os direitos, e com esposas ou concubinas de segundo
escalão, cujos filhos não tinham nenhum direito, a menos que a oficial fosse estéril, ou tivesse sido
repudiada. As cerimônias de noivado organizavam a transmissão de bens, mas não havia casamento
verdadeiro a não ser que tivesse havido união carnal. Na manhã da noite de núpcias, o esposo
oferecia à mulher um conjunto muitas vezes bastante significativo de bens móveis. Ele era chamado
de presente matinal (Morgengabe), que os juristas romanos batizaram de dote. Portanto, o papel da
esposa oficial era bem importante, sobretudo se ela tivesse muitos filhos, já que o objetivo principal
era a procriação.
Essas uniões eram essencialmente políticas e sociais, decididas pelos pais. Tratava-se de constituir
unidades familiares amplas, no interior das quais reinasse a paz. Por isso, as concubinas de segundo
escalão eram chamadas de Friedlehen ou Frilla, ou seja, "cauções de paz". Na verdade, elas vinham
de famílias hostis de longa data. A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se
misturava, a guerra já não era mais possível. Assim, as mães escolhiam as esposas dos filhos, ou os
maridos, das filhas, sempre nos mesmos grupos clássicos, a fim de salvaguardar essa paz. Se uma
esposa morresse, o viúvo se casaria com a irmã dela. Dessa forma, pouco a pouco as grandes famílias
tornavam-se cada vez mais chegadas por laços de sangue (consangüinidade), pela aliança (afinidade)
e, finalmente, completamente incestuosas. Acrescentemos a esse quadro as ligações entre os
homens, a adoção pelas armas, o juramento de fidelidade e outras ligações feudais que triunfaram no
século X como um verdadeiro "parentesco suplementar", segundo a expressão de Marc Bloch, e
teremos a prova de que esses casamentos pagãos não deixavam nenhum espaço livre para o
sentimento.

Amor subversivo
Assim, quando o amor se manifestava, ele só podia ser adúltero, ou assumir a forma de um estupro,
maneira de tornar o casamento irreversível, ou de um rapto mais ou menos combinado entre o raptor
e a "raptada", a fim de ludibriar a vontade dos pais. Nesses casos o amor era efetivamente
subversivo, uma vez que destruía a ordem estabelecida. Ele se tornava sinônimo de morte e de ruína
política, como prova o romance, de fundo histórico verdadeiro, Tristão e Isolda, transmitido oralmente
pelo mundo europeu de então - celta, franco e germânico. Tristão, sobrinho do rei e seu vassalo,
cometeu ao mesmo tempo incesto, adultério e traição para com o rei Marco, o marido de Isolda. Aliás,
ele mesmo diz, após seu primeiro encontro: "Que venha a morte". Nas sociedades antigas, obcecadas
pela sobrevida, a vontade de potência, de poder, era mais importante do que a vontade de prazer,
pois aquelas tribos de imensas famílias não conheciam nenhuma limitação administrativa ou externa.
Esse quadro deve ter sido abrandado pelo fato de eles terem estado em contato com países cristãos,
ou povos de regiões mergulhadas no cristianismo, como por exemplo os normandos batizados do
século X. Em decorrência, duas estruturas coexistiam, mais ou menos confundidas. Por volta do ano
1000, o bispo da Islândia teve muita dificuldade para separar um chefe de tribo, já casado, de sua
concubina, especialmente porque ela era sua própria irmã - fato que sustentava a opinião de que seu
irmão, o bispo, não passava de um tirano. Nos séculos X e XI, os duques da Normandia tinham dois
tipos de união, regularmente: uma esposa oficial, franca e batizada, e uma ou várias concubinas.

Guilherme, o Conquistador, que tomou a Inglaterra em 1066, tinha o codinome de bastardo, por ter
nascido de uma união desse tipo. À entrada de Falésia, seu pai, Roberto, o Demônio, teve a atenção
chamada por uma jovem que, no lavadouro da cidade, calcava a roupa com os pés, nua como suas
companheiras de tarefa, para melhor sovar a roupa. Naquela mesma noite, com a autorização de seu
pai, Arlette, a jovem, se viu no quarto do duque, usando uma camisola aberta na frente, "a fim de
que", nos diz o monge Wace, que contou a história, "aquilo que varre o chão não possa estar à altura
do rosto de seu príncipe". Esses amores "à dinamarquesa" demonstram que as mulheres eram livres,
com a condição de aceitar uma posição secundária.

Essa duplicidade de situação num mundo ocidental oficialmente cristão, mas ainda pagão, complicou-
se quando as mulheres conquistaram poder, algo facilitado pela matrilinearidade das origens
germânicas. Algumas incentivavam os maridos a se proclamarem reis, por serem elas de origem
imperial carolíngia. Castelãs, senhoras de grandes propriedades, ou mulheres de alta nobreza, elas
utilizavam o casamento como trampolim para sua ambição. Em Roma, Marozia (ou Mariuccia) foi mãe
do papa João XI, filho de sua ligação com o também papa Sérgio III. Viúva do primeiro marido, Guido
da Toscana, meio-irmão do rei da Itália, Hugo, ela convidou este a se casar com ela. Mas Alberico II,
seu filho do primeiro casamento, expulsou do castelo de Santo Ângelo onde foram celebradas as
núpcias, aquele intruso manipulado por sua mãe.

Punição para a libido


Aos olhos de inúmeros escritores eclesiásticos, como o bispo Ratherius de Verona, a libido feminina
era perigosa e devia ser reprimida severamente. O fato de que velhos países como a Espanha, a Itália
e o reino dos Francos, embora cristãos havia já cinco séculos, não tivessem ainda integrado a
doutrina do casamento - a ponto, por exemplo, de o rei Hugo ter tido duas esposas oficiais e três
concubinas - prova o quanto essa doutrina estava na contramão de seu tempo. E contudo ela fora
claramente afirmada e repetida desde que Ambrósio declarara em 390 que "o consentimento faz as
bodas". A isso, o Concílio de Ver acrescentara, em 755: "Que todas as bodas sejam públicas" e "Uma
única lei para os homens e mulheres".

Reclamar a liberdade do consentimento dos esposos e a condição de igualdade do homem e da


mulher era utópico, sobretudo numa sociedade romana patriarcal. Todavia, progressos importantes
ocorreram no século X, graças à repetição da apologia do casamento, símbolo da união indissolúvel
entre Cristo e a Igreja. Após a atitude irredutível do arcebispo Hincmar e do papa Nicolau I, o divórcio
de Lotário II por repúdio a sua esposa Teutberga - devido a sua esterilidade - tornou-se impossível
após 869, ano de sua morte. Incompreensível para os contemporâneos, o casamento não se baseava
somente na procriação. A aliança era mais importante do que um filho. Mais do que ninguém, longe
dos discursos sobre a superioridade da virgindade, Hincmar havia demonstrado que um
consentimento livre sem união carnal consecutiva não era um casamento. Ele prefigurava assim a
noção de nulidade instituída pelo decreto de Graciano, em 1145. Em decorrência, os rituais, como
escreveu Burchard de Worms por volta do ano 1000, traduziam no nível da disciplina do casamento a
doutrina otimista dos moralistas carolíngios.

A união carnal, conseqüência do consentimento entre um homem e uma mulher (e não várias), é o
espaço de santificação dos esposos. O ideal de monogamia, de fidelidade e de indissolubilidade
tornou-se tanto mais possível porque no final do século X desapareceu a escravidão de tipo antigo,
nos países mediterrâneos. Um novo espaço se abria para o casamento cristão, graças ao surgimento
do concubinato com as escravas, que não tinham nenhuma liberdade. Essa foi também a época em
que as determinações dos concílios tornaram obrigatória a validade do casamento dos não libertos.
Mas um outro combate chegava a seu ponto culminante no ano 1000: a proibição do incesto. Iniciada
a partir do século VI e quase bem-sucedida na Itália, na Espanha e na França, essa interdição
enfrentou contudo forte oposição na Germânia, na Boêmia e na Polônia. Proibidos em princípio até o
quarto grau entre primos irmãos, os casamentos de consangüinidade e de afinidade foram punidos, e
os culpados separados. Mais tarde, a partir de Gregório II (715-735), a proibição foi estendida ao
sétimo grau (sobrinhos à moda da Bretanha), assim como aos parentes espirituais (padrinho e
madrinha): não haveria mais aliança a não ser com estranhos, com quem fosse outro (Deus ou o
próximo de sexo diferente), mas de modo algum com aquele ou aquela com quem já existisse um tipo
de ligação.
As conseqüências sociais de tal doutrina foram incalculáveis. Ela obrigou cada um a procurar um
cônjuge longe de sua aldeia e de seu castelo. Acabou por destruir as grandes famílias, de dezenas de
pessoas, que viviam sob o mesmo teto, e por favorecer a formação de um grupo nuclear, do tipo
conjugal. Ela suprimiu, assim, as sucessões matrilineares e a escolha dos esposos pelas mulheres. A
exogamia tornou-se obrigatória. A Europa se abriria para o exterior.

Elogio da virgindade
Na Alemanha, desde os concílios de Mogúncia, em 813, e de Worms, em 868, os casos de casamentos
incestuosos mantidos pela obstinação das mulheres eram numerosos. Na Boêmia, o segundo bispo de
Praga, Adalberto, grande amigo do imperador Oto III, havia conseguido, em 992, um edito público
que o autorizava a julgar e separar os casais incestuosos. Foi um insucesso tão retumbante que ele se
desgostou para sempre de sua tarefa episcopal. Preferiu ir evangelizar os prussianos, que o
martirizaram em 23 de abril de 997.

A dinastia dos Oto, que havia restaurado o império em 962 na Alemanha e na Itália, nem por isso
deixou de apoiar a Igreja em sua empresa de transformação e cristianização. E suas esposas deram o
exemplo, já que Edite (946), Matilde (968) e Adelaide (999) foram consideradas santas. Os clérigos
que relataram suas vidas, em particular a de Matilde, insistem não na viuvez ou nos atos de fundação
de mosteiros, mas sim no papel de esposa e mãe. Sua santidade provinha essencialmente do
casamento e do papel de conselheira, junto a seu imperial esposo. A leitura dos ofícios de passagens
da vida de santa Matilde não teve uma influência desprezível sobre as audiências populares.

Se a Alemanha foi então uma frente pioneira na cristianização do casamento, não foi bem esse o caso
do reino dos francos. Ema, esposa traída do duque da Aquitânia, Guilherme V, vingou-se de sua rival
mandando que ela fosse violada por toda sua guarda pessoal. Berta, filha do rei da Borgonha, mal
tendo enviuvado, pousou seu olhar sobre o jovem Roberto, filho de Hugo Capeto, para fazer um
casamento hipergâmico.
Esse exemplo é revelador. A legislação da Igreja acerca do casamento cristão ia de encontro à
mentalidade da época. E no entanto o amor conjugal de caridade (dilectio caritatis) começava a
sobressair ao amor de posse (libido dominandi). Por volta do ano 1000, a expansão urbana e o início
do desbravamento e da cultura dos campos permitiram que a família nuclear monogâmica se
multiplicasse. As células rurais foram destruídas pela necessidade de ir buscar um cônjuge mais
longe. Somente a nobreza e as famílias reinantes mais antigas resistiram, fechadas em suas relações
feudais, ao contrário dos recém-chegados ao poder, os Oto, que acolheram e adotaram a doutrina
cristã como uma liberação e se lançaram com ousadia na direção do leste, para além do rio Elba, a
nova fronteira da expansão européia.

Dessa forma, da concepção do amor como subversivo e criador de morte passamos à de um amor
construtivo, promotor de vida. O desejo foi integrado no casamento com a união carnal, espaço de
gozo mútuo. A procriação tornou-se um bem do casamento, entre outros. A poligamia desapareceu. A
publicidade do casamento se instalou. As proibições de incesto permitiram que se descobrisse a
necessidade de alteridade e a afirmação da diferença sexual como força de construção. Esse momento
de otimismo e de vitória sobre o amor de morte pagão, à moda de Tristão, explica o elã prodigioso da
Europa no início do ano 1000. Mas ele não iria além do final do século XI. Também por volta do ano
1000, as diatribes de São Pedro Damião e Ratherius de Verona contra o casamento dos padres
anunciavam um outro combate que terminaria na reforma gregoriana e no triunfo do celibato
convencional.

Em conseqüência, o elogio da virgindade passou a ser mais e mais preponderante, a ponto de fazer
triunfar uma visão pessimista do casamento. Tanto isso é verdade que a história do casamento cristão
é feita de alternâncias entre sucessos e crises.

-Tradução de Marly N. Peres

Glossário

Casamento hipergâmico: quando a esposa tem um estatuto superior ao do marido.

Levirato: prescrição do próprio Moisés, segundo a qual o irmão solteiro de um homem morto, sem ter
deixado filhos, deveria desposar sua cunhada, a viúva.

A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se misturava, a guerra já não era mais
possível
A proibição de uniões entre parentes suprimiu as sucessões matrilineares. A exogamia tornou-se
obrigatória

Michel Rouche é historiador, professor e escritor, especialista em Alta Idade Média.

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