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NÚMERO 82 – 2019

ANO XXV
BRASÍLIA DF

82
ISSN 1517-6959

ENTREVISTA: SUZANA BRESSLAU, DO


MAPA, E AS MEDIDAS DE COMBATE À
RESISTÊNCIA ANTIMICROBIANA

ARTIGO ABORDA TRATAMENTO,


PREVENÇÃO E CONTROLE DA PESTE
SUÍNA NO BRASIL

CLÍNICA VETERINÁRIA: DETALHES


QUE IMPRESSIONAM O CLIENTE

PRÁTICA EM
CURSO
Novas diretrizes curriculares provocam
mudanças para melhorar formação dos
T Aula em campo de Medicina
futuros médicos-veterinários Veterinária na Fazenda Água
Limpa, da Universidade
de Brasília
8
SUMÁRIO

nº 82
CAPA

Foto: Ernani Coimbra/FMVZ-USP


8 Revolução positiva no ensino

ENTREVISTA
5 Suzana Bresslau, do Mapa, sobre
resistência antimicrobiana

15 CFMV se faz cada vez mais


15
presente no Congresso Nacional

CRMVS EM PAUTA
18 De janeiro a agosto, CRMV-RN
fez mais de mil fiscalizações
Foto: Gilberto Soares (Giba)

19 Projeto-piloto incentiva
desenvolvimento da aquicultura

20 CRMV-RR participa de vacinação


antirrábica e orientação sobre
posse responsável
22 27
21 Rio ratifica presença de médico-
-veterinário como RT em pet shops

ARTIGOS TÉCNICOS
22 Peste suína clássica e peste

Foto: Gilberto Soares (Giba)


suína africana: as doenças e os
riscos para o Brasil
Foto: Pixabay.com

27 Análise da suplementação de
biotina no crescimento dos cascos de
equinos adultos criados a pasto

33 Hipertensão pulmonar tipos 1 e 33


2: existe diferença na clínica de cães
e gatos?

37 Suplemento científico

62 Clínica veterinária
Foto: Pixabay.com
Conselho Federal de
Medicina Veterinária
SIA – Trecho 6 – Lotes 130 e 140
PALAVRA DO PRESIDENTE
Brasília-DF – CEP 71205-060
Tel.: (61) 2106-0400
www.cfmv.gov.br
OS PRÓXIMOS 50 ANOS Presidente
Francisco Cavalcanti de Almeida
CRMV-SP nº 1012
Encerradas as celebrações e análises despertadas pelos 50 anos
Vice-Presidente
do Sistema CFMV/CRMVs, é hora de olhar para frente. O passado, claro, Luiz Carlos Barboza Tavares
permanece como referência de aprendizado e alegria pelas conquistas. CRMV-ES nº 0308
Secretário-Geral
Uma delas estampa a capa deste número: após quatro anos de trabalho
Helio Blume
e articulação do conselho, o Ministério da Educação homologou as no- CRMV-DF nº 1551
vas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do curso de graduação em Tesoureiro
Medicina Veterinária, deixando claras a inclusão de saúde única, susten- Wanderson Alves Ferreira
CRMV-GO nº 0524
tabilidade econômica, social e ambiental e a importância do bem-estar Conselheiros Efetivos
animal nos componentes curriculares. Cícero Araújo Pitombo
As novas DCNs foram pensadas no intuito de preparar profissionais CRMV-RJ nº 3562
Francisco Atualpa Soares Júnior
melhores para o exercício profissional, médicos-veterinários mais com-
CRMV-CE nº 1780
pletos e conectados às necessidades atuais da sociedade. Entretanto, a João Alves do Nascimento Júnior
Proposta de Emenda à Constituição nº 108/2019 nos obriga a enfren- CRMV-PE nº 1571
tar uma nova batalha, ao tentar acabar com os conselhos profissionais. José Arthur de Abreu Martins
CRMV-RS nº 2667
Nada mais absurdo! Temos a competência legal de proteger a população Therezinha Bernardes Porto
dos serviços prestados pelos maus e falsos profissionais. Fazemos isso CRMV-MG nº 2902
fiscalizando o exercício profissional nos 27 estados e no âmbito fede- Wendell José de Lima Melo
CRMV-PB nº 252/Z
ral, regulamentando e orientando 183 mil médicos-veterinários e 30 mil
Conselheiros Suplentes
zootecnistas do país sobre as diretrizes éticas e técnicas que norteiam a Antonio Guilherme Machado de Castro
conduta adequada. CRMV-SP nº 3257
Fábio Holder de Morais Holanda Cavalcanti
Um trabalho como o que gerou as novas diretrizes mostra que nos-
CRMV-AM nº 41/Z
sa função vai além da punição. Esse documento, gerado Irineu Machado Benevides Filho
dentro do sistema, prova que acreditamos na neces- CRMV-RJ nº 1757
sidade de investir em formação adequada aos pa- Nestor Werner
CRMV-PR nº 0390
drões de excelência que a sociedade espera. Que Paula Gomes Rodrigues
daqui a 50 anos possamos colher esses e outros CRMV-SE nº 047/Z
frutos do trabalho realizado hoje. Diretora de Comunicação
Flávia Lôbo
Francisco Cavalcanti de Almeida Revista CFMV
Editor
Presidente do Conselho Federal de
Cícero Araújo Pitombo
Medicina Veterinária (CFMV) CRMV-RJ nº 3562
Subeditora e Jornalista Responsável
Viviane Marques
MTb 22701-RJ
revista@cfmv.gov.br
Conselho Editorial
Emanoel Elzo Leal de Barros
A Revista CFMV é trimestral e se destina a divulgar ações do CFMV, promover CRMV-DF nº 240/Z
educação continuada e valorizar a Medicina Veterinária e a Zootecnia. Distribuída Ligia Maria Cantarino da Costa
gratuitamente em repartições públicas, instituições de ensino e Conselhos Regionais CRMV-DF nº 0981
de Medicina Veterinária (CRMVs), encontra-se disponível em formato PDF para ser Marcelo Hauaji de Sá Pacheco
lida diretamente on-line ou para download, no endereço cfmv.gov.br. CRMV-RJ nº 4034
Diagramação
AGRIS L70 Bonach Comunicação
EXPEDIENTE

CDU619 (81)(05) Foto da capa


Gilberto Soares (Giba)
Impressão
O conteúdo dos artigos técnicos e científicos é de inteira responsabilidade de seus autores e não representa,
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Parte ou resumo das pesquisas publicadas, quando enviados a outros periódicos, deverão assinalar, obrigatoriamente, a
Tiragem impressa
fonte original. As fotos enviadas, com os devidos créditos, serão indexadas ao banco de imagens do CFMV. 6 mil exemplares
ENTREVISTA

O uso indiscriminado e equivocado de antibióticos


ameaça a vida humana, animal e o meio ambiente. Que
riscos e quais dados atestam a gravidade da situação?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) esclarece que
a resistência aos antimicrobianos (AMR, na sigla em in-
glês) ocorre naturalmente, ao longo do tempo. No en-
tanto, o uso indiscriminado e excessivo em humanos
e animais está acelerando esse processo. Novos meca-
nismos de resistência estão emergindo e disseminan-
do-se globalmente, ameaçando a habilidade de tratar
infecções comuns, resultando em prolongamento de
doenças, incapacitação e mortes.
A AMR é um problema complexo que afeta toda a
sociedade, gerado por fatores interconectados.
Por isso, a OMS, a Organização das Nações Unidas
para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organiza-
Foto: Noaldo Santos/Mapa

ção Mundial da Saúde Animal (OIE) trabalham numa


aliança tripartite na abordagem de saúde única para
promover as melhores práticas, a fim de evitar sua
emergência e disseminação.

SUZANA BRESSLAU
A ausência de antimicrobianos efetivos para a pre-
venção e tratamento de infecções torna de alto risco
procedimentos médicos como transplante de órgãos,
quimioterapia, cirurgias, entre outros. Adicionalmen-
Gerada pelo uso excessivo e indiscriminado de
te, aumentam os custos de assistência à saúde por
antibióticos, a resistência antimicrobiana é um
problema complexo e que afeta toda a sociedade, conta de prolongadas internações hospitalares e
alerta a médica-veterinária Suzana Bresslau. No necessidade de terapia intensiva. São cruciais ações
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento coordenadas entre saúde humana e animal e setores
(Mapa), ela é chefe da Divisão de Programas Especiais do meio ambiente. Antimicrobianos são um bem pú-
da Coordenação Geral de Medicamentos Veterinários do blico global e seu uso responsável e prudente em ani-
Departamento de Saúde Animal e Insumos Pecuários, mais, de acordo com os padrões intergovernamentais
área da pasta responsável pela coordenação das da OIE, torna possível resguardar a eficácia desses
atividades de prevenção e controle da resistência aos medicamentos essenciais.
antimicrobianos. Auditora fiscal federal agropecuária Um estudo sobre o tema coordenado pelo economis-
desde 2008, também coordena os grupos técnicos da
ta britânico Jim O’Neill estimou que o problema cau-
Comissão do Codex Alimentarius sobre Resíduos de
sa 700 mil mortes por ano. Até 2050, caso não haja
Medicamentos Veterinários em Alimentos e a força-
mudança na abordagem, serão dez milhões, levando a
-tarefa sobre resistência aos antimicrobianos – esta
mais óbitos anuais que o câncer e gerando um impacto
em conjunto com a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). “O veterinário está na linha à economia global de cerca de cem trilhões de dólares,
de frente na prevenção e controle da resistência relacionando a AMR à perda econômica pela diminui-
antimicrobiana”, afirma. ção da produtividade.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 5


ENTREVISTA

Qual é o papel do médico-vete- conscientização e compreensão planos nacionais de forma alinha-


rinário no uso consciente desses sobre o tema; fortalecer os co- da às recomendações internacio-
fármacos? E como o zootecnista nhecimentos e a base científica, nais, o que demanda comprometi-
pode atuar? por meio da vigilância e pesquisa; mento político, regulamentação e
Em contato com animais e criado- reduzir a incidência de infecções governança efetiva, envolvimento
res, o veterinário está na linha de com medidas eficazes de higiene multissetorial, além de investi-
frente da prevenção e controle da e prevenção; otimizar o uso de an- mentos financeiros para a execu-
AMR. Ele deve prescrever antimi- timicrobianos, bem como preparar ção das intervenções necessárias.
crobianos somente após o exame argumentos econômicos voltados
clínico dos animais, escolhendo ao investimento sustentável, con- Em 1998, o Mapa restringiu di-
o agente baseado na experiência siderando necessidades de todos versos antimicrobianos para
clínica e no diagnóstico laborato- os países e de aumento no inves- melhorar o desempenho de reba-
rial, quando possível, bem como timento de novos medicamentos, nhos. Em 2018, publicou o Plano
considerando a lista de agentes ferramentas de diagnóstico, va- de Ação Nacional de Prevenção
antimicrobianos de importância cinas e outras intervenções. Dos e Controle da Resistência aos
veterinária da OIE. Medicamentos 194 países-membros da OMS, 93 Antimicrobianos no Âmbito da
não devem substituir as boas prá- já possuem um plano e 50 estão Agropecuária (PAN-BR AGRO),
ticas pecuárias, as medidas de hi- desenvolvendo um. como parte do Programa Nacio-
giene e biosseguridade e os pro- A Conferência Global da OIE em nal de Prevenção e Controle de
gramas de vacinação. Resistência aos Antimicrobianos, Resistência a Antimicrobianos na
O zootecnista pode, sim, atuar em em outubro de 2018, teve como Agropecuária (AgroPrevine). Po-
prol da prevenção e controle da lema “Colocando padrões em deria listar as principais ações vol-
AMR, adotando na produção ani- prática”, reforçando que, para ga- tadas à atuação do médico-veteri-
mal boas práticas agropecuárias, rantir uma resposta de sucesso, nário e de que forma o Conselho
com destaque para a nutrição harmonizada e sustentável para Federal de Medicina Veterinária
adequada e de qualidade, e im- enfrentar a AMR, as recomenda- (CFMV) está contribuindo?
plementando medidas pelo bem- ções internacionais devem ser Os médicos-veterinários são con-
-estar animal, reduzindo a neces- implementadas em todos os ní- siderados protagonistas nas ações
sidade do uso de antimicrobianos. veis e áreas relacionadas à saúde relacionadas à prevenção e contro-
e produção animal. Destacam-se le da AMR e há diversas ações do
Quais são os maiores desafios para a importância de ferramentas de PAN-BR AGRO voltadas ao profis-
que se chegue, mundialmente, ao comunicação e estratégias que sional. Destacam-se a promoção
uso equilibrado de antibióticos? disseminem mudanças compor- de estratégias de comunicação e
Em 2015, os países-membros da tamentais na redução do uso de educação em saúde, o aprimora-
OMS aprovaram o Plano de Ação antimicrobianos em animais, a mento da formação e capacitação
Global sobre AMR, atendendo ao promoção do uso responsável e de profissionais e gestores da área
conceito de saúde única em cola- prudente e a ampliação da cola- de saúde animal, a atualização e
boração com FAO e OIE, compro- boração entre os envolvidos. aprimoramento do currículo do
metendo-se a elaborar planos de Portanto, o grande desafio é que curso de Medicina Veterinária, a
ação nacionais. O plano tem como todos os países consigam, efe- implementação de medidas de
objetivos estratégicos melhorar a tivamente, implementar os seus prevenção e controle de infecções,

6 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


ENTREVISTA

boas práticas agropecuárias, a pro- bricação de alimentos para ani- mas de vacinação. O PAN-BR AGRO
moção do uso racional e o geren- mais contendo produtos antimi- prevê a elaboração de protocolos
ciamento adequado dos resíduos crobianos de uso veterinário. Na de uso racional de antimicrobianos
de antimicrobianos de uso veteri- oficina, foram ainda ressaltadas para diferentes áreas e cadeias da
nário, entre outros. as recomendações da OIE quanto Medicina Veterinária.
O CFMV participa de eventos or- ao uso em animais e à necessida-
ganizados pelo Mapa e de grupos de de atenção especial a antimi- E quanto à prescrição de anti-
de discussão. Apoiou a elaboração crobianos das classes quinolona/ bióticos de uso humano para
e divulgação de materiais de cam- fluorquinolona (ciprofloxacina, uso veterinário, que riscos estão
panha, bem como está organizan- norfloxacina, danofloxacina, en- envolvidos?
do, em conjunto com o ministério, rofloxacina), cefalosporina de O ideal é que os veterinários so-
uma oficina para alinhar diretrizes terceira e quarta geração (ceftio- mente prescrevam antimicrobia-
da elaboração de protocolos de fur, cefoperazone, cefquinome) e nos de uso humano caso não haja
uso racional de antimicrobianos polimixina (colistina). Concluiu-se nenhum produto de uso veteriná-
em animais. Ele é um parceiro es- que novas regras para implemen- rio indicado para a espécie ani-
tratégico para que o Brasil avan- tação de retenção de receituário mal e patologia diagnosticada. Em
ce nas atividades de prevenção veterinário devem prever fases especial para animais produtores
e controle da AMR, atendendo ao de transição e prazos diferencia- de alimentos, a prescrição deve
conceito de saúde única. dos para adequação, tanto por ca- ser restrita a situações excepcio-
deias animais quanto por classes nais, apenas caso não haja apro-
No Brasil, hoje, exige-se a receita, de antimicrobianos, bem como a vação da substância para outra
mas não a sua retenção. Isso pode necessidade de treinamentos re- espécie animal. Todo uso extra-
mudar? lativos às futuras alterações na bula de antimicrobianos, ou seja,
Um dos objetivos estratégicos do legislação e à implementação de o emprego de modo diferente do
PAN-BR AGRO é a otimização do novos procedimentos. previsto na sua rotulagem, deve
uso de antimicrobianos, tendo ser limitado e restrito aos casos
como atividade avaliar e propor Fala-se muito do uso dos antimicro- em que não haja opções, sem-
estratégias regulatórias para au- bianos na produção animal. Em re- pre sob a responsabilidade direta
mentar a supervisão veterinária lação às demais espécies, principal- do médico-veterinário, baseado
no uso de antimicrobianos em ani- mente, para animais de companhia, em diagnóstico, com a ciência e
mais, tema de uma oficina realiza- há uma orientação específica? consentimento do proprietário
da em setembro, com a presença As orientações gerais são as mes- do animal e, em especial, preser-
de representantes do Mapa, An- mas: receitar antimicrobianos so- vando as classes de antimicro-
visa, CFMV e entidades represen- mente após o exame clínico, com bianos criticamente importantes
tativas da indústria e produtores base em experiência clínica e diag- na medicina humana. A presen-
rurais. A legislação atual já prevê nóstico laboratorial, quando possí- ça de resíduos acima dos limites
a comercialização dos antimicro- vel, e considerar a lista de agentes de segurança estabelecidos em
bianos ao usuário sob prescrição de importância veterinária da OIE. alimentos e o desenvolvimento
do médico-veterinário, bem como No caso de animais de companhia, e disseminação da AMR são con-
a obrigatoriedade da retenção de antimicrobianos não devem substi- siderados riscos à saúde pública
receituário veterinário para a fa- tuir medidas de higiene e progra- relacionados ao uso extrabula.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 7


CAPA – EDUCAÇÃO

REVOLUÇÃO POSITIVA NO

ENSINO
Novas DCNs devem ser implementadas em até dois anos e
imprimem modernidade aos cursos de graduação em
Medicina Veterinária
Viviane Marques

8 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


P
ublicadas em 16 de agosto de 2019, no Diário
Oficial da União, as novas Diretrizes Curricu-
lares Nacionais (DCNs) do curso de graduação
em Medicina Veterinária prometem uma revolução
positiva no ensino. A Resolução CNE nº 3/2019 prevê
mais atividades práticas ao longo da formação, além
de indicar que todas as ações pedagógicas devem ser
pautadas nos conceitos de bem-estar animal, susten-
tabilidade ambiental, ética e saúde única.
“O prazo de dois anos para implementação provo-
cará uma movimentação nas instituições. Elas terão de
mostrar, em seus Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs),
como realizarão a inter e a transdisciplinaridade, além
de maneiras de promover a integração com a pós-gra-
duação. As DCNs regulamentam o Trabalho de Conclu-
são de Curso (TCC), o que é uma novidade, e abordam
atividades complementares e o estágio curricular obri-
gatório, cumprido ao longo do último ano”, descreve
Rafael Mondadori, presidente da Comissão Nacional de
Educação da Medicina Veterinária do Conselho Federal
de Medicina Veterinária (CNEMV/CFMV), que participa
desde o início da elaboração do documento.
O novo modelo de estágio, formação em serviço,
será desafiador para as Instituições de Ensino Superior
(IESs). No nono semestre, ele será em serviços próprios
da instituição, em sistema de rodízio pelas áreas de
atuação profissional. No décimo, o estudante escolhe-
rá a área de sua preferência para estagiar. A mudança
conduzirá a um remanejamento na matriz de disciplinas.
“Será preciso distribuir os 280 créditos do nosso curso
em oito semestres”, assinala Ricardo Miyasaka de Almei-
da, coordenador da graduação em Medicina Veterinária
da Universidade de Brasília (UnB), onde uma comissão
trabalha na reformulação do PPC.
Formar profissionais melhores e mais preparados é,
para Mondadori, a principal conquista das novas DCNs.
Isso se deve à ênfase nas atividades práticas e ao de-
senvolvimento de competências e habilidades gerais a
partir do uso das metodologias ativas de ensino-apren-
dizagem. “O foco sai do conteúdo e passa a ser a apli-
cação do conhecimento na prática. Isso inclui o desen-
volvimento de competências humanísticas, algo ainda
pouco utilizado”, diz.
Foto: Gilberto Soares (Giba)

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 9


HISTÓRIA entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) do
As novas diretrizes são resultado de um processo Ministério da Educação (MEC). “No CNE, surgiram su-
iniciado em 2014, no Seminário Nacional de Educação gestões, como a aprendizagem em serviço no penúlti-
(Senemev), promovido pelo CFMV. Debates e contri- mo semestre e a obrigatoriedade de clínicas ou hospi-
buições dos grupos de trabalho indicaram os temas tais veterinários próprios”, lembra Mondadori.
que precisavam de atualização, como os conceitos de A Câmara de Educação Superior do CNE debateu a
bem-estar animal e saúde única. minuta com o CFMV e outros interessados e, em 23 de
A CNEMV/CFMV consolidou as sugestões em um janeiro de 2019, o texto foi aprovado pelos conselheiros
documento, que recebeu contribuições dos Conselhos Antonio Carbonari Netto (relator), Luiz Roberto Liza Curi
Regionais de Medicina Veterinária (CRMVs) e de coor- (presidente do CNE) e Marco Antonio Marques da Silva.
denadores de cursos. Em 2017, a primeira proposta foi Na sequência, foi publicada a Resolução CNE nº 3/2019.

ENTREVISTA

LUIZ ROBERTO LIZA CURI,


PRESIDENTE DO CNE
Desde 2018, o professor Luiz Roberto Liza Curi está à
frente do CNE. Como presidente da Câmara de Ensi-

Foto: Luis Fortes/MEC


no Superior do órgão, contribuiu desde o início com
as mudanças nas diretrizes curriculares dos cursos de
graduação em Medicina Veterinária.

O senhor presidiu As propostas foram convergentes com as formuladas na base da organização


a comissão para a curricular realizada pelo CNE, ao qual coube, em processo amplo de mobiliza-
revisão das diretrizes da
graduação em Medicina ção, levantar aspectos organizacionais das DCNs para discussão com a comuni-
Veterinária. Como avaliou dade: coordenadores, docentes, discentes, empregadores e CFMV. Elas devem
o texto proposto pelo expressar um estímulo a novas políticas institucionais curriculares, inspirar no-
Sistema CFMV/CRMVs?
vas formas de aprendizado, focar em competências e perfis e não em procissão
de disciplinas. Devem guiar um aumento das atividades acadêmicas práticas
e buscar inserir a pesquisa e a extensão como formas curriculares de aprendi-
zado. Uma diretriz é muito mais a organização curricular do que a reafirmação
de disciplinas.

A partir de sua experiência Destacaria os pontos referentes às competências, à expansão de atividades prá-
na área de educação, que ticas, aos perfis esperados dos egressos e às formas de interação. O processo
pontos destacaria no texto
que vão contribuir para o
avaliativo proposto também estimula o aprendizado focado nas práticas e elas
avanço da profissão? próprias devem conduzir diversos conteúdos. Além disso, buscam habilidades
gerais que ampliem a inserção dos egressos em espaços sociais formais de tra-
balho e seus requisitos gerais, e não apenas de conhecimento específico da área.

Existe um prazo de dois anos Quaisquer que forem as modalidades, a organização curricular nas DCNs deve ser
para a implementação das robusta, especialmente, na diversidade do aprendizado, nas práticas e aproxima-
novas diretrizes. De que forma
o ministério planeja verificar a ções de ambientes profissionais. O CNE está à disposição para participar de deba-
adequação dos cursos, visto que tes, esclarecer dúvidas, a convite de instituições e do CFMV, mas, principalmente,
hoje o país possui mais de 400 zelar para que o MEC organize uma avaliação adequada dos cursos com novos
deles, muitos na modalidade a
distância? E que tipos de sanção currículos. Também ficamos à disposição para zelar para que haja uma adequada
estão previstos no caso de não supervisão pelo ministério dos cursos que não cumprirem as diretrizes.
cumprimento?

10 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


REGIONAIS SE MOBILIZAM
PRINCIPAIS
MUDANÇAS As Comissões de Educação vêm debatendo formas
de implementar as mudanças previstas no documen-
to. No Piauí, as DCNs foram debatidas, entre outros te-
mas, durante o I Seminário de Educação da Medicina
Veterinária do Piauí, realizado em 16 e 17 de setem-
bro. Em Goiás, após uma reunião da Comissão Estadual

Foto: Gilberto Soares


de Ensino da Medicina Veterinária do CRMV-GO com
coordenadores e diretores de cursos, o presidente da
comissão, Benedito Dias de Oliveira Filho, anunciou a
Aprender fazendo: a universidade deve intenção de, até o início de 2020, fazer reuniões nas
preparar o estudante para usar a informa- regiões do estado para orientar os 21 cursos goianos
ção teórica para resolver problemas reais. sobre as novas diretrizes curriculares.
Já a Comissão Estadual de Educação da Medicina
Os dois últimos semestres (nono e déci- Veterinária do CRMV-RJ convidou comissões do re-
mo) passam a ser estritamente práticos. No gional para debater os impactos da Resolução CNE nº
nono, os alunos farão rodízio nos próprios 3/2019 em suas áreas. “As diretrizes reforçam carac-
serviços da instituição, em modelo seme- terísticas de competências gerais listadas em 2003,
lhante aos internatos dos cursos de Me- levando em consideração também as necessidades
dicina; no décimo, poderão optar por uma atuais”, ponderou o presidente da comissão, Paulo Ce-
área específica para o exercício profissio- sar Amaral, que também levou coordenadores e direto-
nal sob supervisão. res de cursos de graduação do estado para debater o
tema. A ideia foi conhecer as particularidades de cada
As instituições terão de dispor de clínicas instituição, a fim de definir as ações que visam à quali-
ou hospitais próprios para grandes e pe- dade dos cursos de Medicina Veterinária do estado, de
quenos animais, com casuística adequa- acordo com o documento. A comissão planeja realizar,
da, bem como de laboratórios de serviço ainda, um seminário estadual de educação.
nas diferentes áreas. A fazenda de ensino
pode ser conveniada, mas deve ter todas
as áreas necessárias para compor a forma-
ção dos discentes.

É preciso que o projeto pedagógico de-


monstre como realizará a inter e a transdis-

Foto: Gilberto Soares (Giba)


ciplinaridade ao longo do curso, bem como
as metodologias ativas de ensino-aprendi-
zagem, indicando, inclusive, existência de
programa permanente de atualização e ca-
T Alunas do segundo semestre da UnB em aula de Anatomia
pacitação de docentes.

As ações pedagógicas devem se pautar por


bem-estar animal, sustentabilidade am-
biental, ética e atendimento a expectativas
humanas e sociais, ou seja, o conceito de
saúde única está explícito e a diretriz deixa
mais evidente o papel do médico-veteriná-
Foto Denise Duarte

rio como profissional da saúde.


Fonte: CNEMV/CFMV

T Comissão do CRMV-GO reuniu-se com coordenadores de cursos

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 11


CNEMV/CFMV As Comissões de
Educação da Medicina
Veterinária dos CRMVs

RESPONDE dos estados de Goiás, Rio


de Janeiro, Rio Grande do
Norte e Bahia enviaram
dúvidas sobre as novas
DCNs, respondidas pela
CNEMV/CFMV

As novas diretrizes indicam que o Não. O propósito da formação em serviço nos últimos dois semes-
estágio deverá ser nos dois últimos tres é para que a fundamentação teórica realizada nos semestres
semestres. Será permitido mantê-lo
somente no último, como ocorre anteriores, combinada à experiência vivenciada e problematizada,
atualmente? produza conhecimento, habilidades e atitudes, ou seja, a ética e
competências humanísticas necessárias ao exercício profissional,
além de parte das tecnologias que os futuros profissionais deverão
lançar mão em seu trabalho.

Como operacionalizar o estágio A formação em serviço no penúltimo semestre do curso deve


supervisionado nos dois últimos pe- ocorrer nos serviços próprios da IES, atendendo a aspectos es-
ríodos, com 50% ocorrendo na institui-
senciais das áreas de atuação profissional (saúde animal, clínicas
ção e 50%, fora? De que forma serão
realizados? Qual é o limite máximo e médica e cirúrgica veterinárias, medicina veterinária preventiva,
razoável de carga horária total, den- saúde pública, zootecnia, produção e reprodução animal e inspe-
tro de um contexto pedagógico? ção e tecnologia de produtos de origem animal). A carga horária
fica a critério da instituição, mas o tempo em cada área para ati-
vidades teóricas é limitado a 10%. No último semestre, o estágio
poderá ocorrer fora da IES e o educando escolherá atuar em uma
ou mais áreas de sua preferência.

Ainda sobre o estágio supervisionado, Durante a etapa cumprida na IES, o estudante deve ser permanen-
como fica a presença permanente do temente acompanhado por docente.
professor, visto que o aluno, quando
se encontra a campo, está sob a
tutela de um supervisor que, não
necessariamente, é um professor?

A que se deve a ausência do Conforme o Parecer CNE/CES nº 70/2019, a Comissão do CNE/Câma-


percentual mínimo de 10% do estágio ra de Educação Superior do MEC, por entender que a aprendizagem
supervisionado em relação à carga
horária do curso, contemplado nas em serviço é fundamental para a formação do profissional e que é
diretrizes de 2003 e não nas atuais? por meio da vivência nas diferentes áreas de atuação da profissão
que se aprende o relacionamento interpessoal e com os animais,
reservou os últimos dois semestres do curso para estágio curricular
obrigatório de formação em serviço, o que na maioria das IESs cor-
responderá a mais de 10% da carga horária total do curso.

O art. 14 não deixa claro se as O texto não explicita esse ponto, realmente. No entanto, recomen-
atividades complementares poderão da que o PPC as contemple e as instituições criem mecanismos
ser aproveitadas pelo estudante para
a integralização da carga horária do
de aproveitamento de conhecimentos adquiridos pelo estudante,
curso. Se sim, qual é o limite? por meio de estudos e práticas independentes presenciais e/ou
a distância, como monitorias e estágios, programas de iniciação
científica, de extensão e de intercâmbio nacionais ou internacio-

12 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


nais, estudos complementares e cursos realizados em áreas afins,
bem como qualquer outra possibilidade contemplada no PPC do
curso. Com isso, orienta a construção de um projeto que estimule
a aprendizagem ativa, incentivando estudos e práticas elencados
no citado artigo.

Poderia citar alguns exemplos prá- Sugerimos consultar a Resolução CNE nº 7/2018, que regulamen-
ticos de incorporação da extensão ta as atividades acadêmicas de extensão dos cursos de graduação,
na grade, pensando na sua integra-
na forma de componentes curriculares.
ção com o currículo?

A fazenda-escola, que o instrumento A fazenda de ensino poderá ser própria ou conveniada e utilizar
de avaliação do MEC informava que “modernas tecnologias de produção, abrangendo todas as etapas
deveria ser própria, agora poderá
de produção nas seguintes áreas essenciais de formação do profis-
ser conveniada?
sional: bovinocultura de corte e leite, avicultura, suinocultura, equi-
deocultura, ovino/caprinocultura, piscicultura”.

Em relação à infraestrutura laborato- De acordo com o art. 20, “o Curso de Graduação em Medicina Ve-
rial e de hospital/clínica veterinária terinária deverá contar minimamente com a infraestrutura labora-
próprio, esses setores devem estar
vinculados ao curso no organograma torial e hospital/clínica veterinária próprios, para atendimento de
da instituição (art. 20) ou podem estar animais de produção e de companhia”.
ligados a outros setores e atender ao
curso ocasional ou voluntariamente?

O ensino por competências deve ocor- Neste caso, também se aplica o Parecer CNE/CES nº 70/2019, cita-
rer por meio de metodologias ativas, do anteriormente, destacando o trecho: “O Curso de Graduação em
mas o assunto é contemplado de forma
ampla. Haverá alguma regulamenta- Medicina Veterinária deverá utilizar metodologias ativas e critérios
ção específica? Elas serão obrigatórias para acompanhamento e avaliação do processo ensino-aprendiza-
ou cada curso poderá se adequar à gem e do próprio curso, bem como desenvolver instrumentos que
realidade local?
verifiquem a estrutura, os processos e os resultados, em conso-
nância com o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior
(Sinaes) e com a dinâmica curricular definida pela IES em que for
implantado e desenvolvido”.

Seria possível citar exemplos Os temas transversais são assim adjetivados por não pertencerem
práticos do uso da transversali- a nenhuma disciplina específica, mas atravessarem-nas como se a
dade dos conteúdos relacionados
ao meio ambiente, bem-estar todas fossem pertinentes, correspondendo a questões presentes
animal, legislação e ética? na vida cotidiana. Seguem alguns exemplos hipotéticos:
a) Na clínica médica e na semiologia, a contenção física pode ser
relacionada ao bem-estar da espécie em questão.
b) Meio ambiente: orientar sobre descarte correto de dejetos, car-
caças e substâncias químicas em geral e o impacto ambiental.
c) Ética:
- Profissional: conjunto de normas éticas que formam a cons-
ciência do profissional e representam imperativos de sua con-
duta contidas no Código de Ética da profissão (CFMV), aplicável
a atividades de formação do educando.
- Ética e cidadania são conceitos fulcrais na sociedade e rela-
cionados às atitudes dos indivíduos e à forma como interagem
na sociedade.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 13


Poderiam dar exemplos práticos A temática colabora na formação de um cidadão capaz de agir e
do que seria a incorporação das pensar de maneira respeitosa frente às diversidades, começando
culturas nacionais e regionais,
estrangeiras e históricas, em um pelo espaço escolar e se estendendo à sociedade. Alguns exem-
contexto de pluralismo e diversi- plos são atividades de extensão em comunidades quilombolas, in-
dade cultural (art. 16)? dígenas e colônias de pescadores.

Como o PPC poderá definir e re- Dependerá da política da IES e de seus critérios, conforme explici-
gulamentar exames para certifi-
tado no § 3º do citado artigo.
cação parcial de aprovação em
disciplinas ou áreas (art. 19)?

A CNEMV/CFMV tem alguma in- O instrumento de avaliação, para autorização, reconhecimento ou


formação sobre a efetiva fisca- renovação do reconhecimento do curso, apresenta vários indicado-
lização pelo MEC em relação à
res que direcionam os avaliadores do MEC a considerar o que está
implantação das novas diretrizes?
contido no PPC elaborado com base nas DCNs. Portanto, a imple-
mentação será avaliada pela análise do PPC.

Foto: Gilberto Soares (Giba)


Foto: Pixabay.com

Foto: Ernani Coimbra/FMVZ-USP

14 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


INSTITUCIONAL
Fotos: Gilberto Soares (Giba)

T Mesa na sessão solene da Câmara dos Deputados. A partir da esquerda: Bruno Divino Rocha, presidente do CRMV-MG; Maria José Sena, reitora da Universidade Federal
Rural de Pernambuco (UFRPE); Francisco Cavalcanti de Almeida, presidente do CFMV; Domingos Sávio, deputado federal; Milton Thiago de Mello, ex-presidente da
Academia Brasileira de Medicina Veterinária; Eros Biondini, deputado federal; e Luiz Carlos Rodrigues Cecílio, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária

CFMV SE FAZ pelos seus 50 anos. A data foi marcada por três ações:
uma sessão solene na Câmara dos Deputados em ho-

CADA VEZ MAIS menagem ao cinquentenário do Sistema CFMV/CRMVs;


a entrega dos prêmios Professor Paulo Dacorso Filho e

PRESENTE NO Professor Octávio Domingues – Edição 2018 e da Co-


menda Ivo Torturella; e o lançamento do livro 50 anos

CONGRESSO
do Conselho Federal de Medicina Veterinária.
Realizada na manhã do dia 23 de outubro, a sessão

NACIONAL
solene lotou o Plenário Ulysses Guimarães de médi-
cos-veterinários, zootecnistas, parlamentares e outros
convidados. Os discursos apresentados reconheceram
o papel da autarquia como representante máxima das
Solenidade na Câmara dos duas profissões e as conquistas obtidas graças à atua-
Deputados e premiações encerraram ção do sistema.
celebrações do jubileu de ouro A homenagem foi uma solicitação do parlamentar
mineiro Domingos Sávio, também médico-veterinário,
que abriu a solenidade lendo uma mensagem do pre-

A
rticulação, celebração, valorização, reconheci- sidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que
mento e fortalecimento resumem o trabalho ressaltava: “As duas categorias têm hoje um papel de
do Conselho Federal de Medicina Veterinária destaque no desenvolvimento do agronegócio brasi-
(CFMV) no último trimestre. Em outubro, a autarquia leiro, permitindo ao Brasil abrigar o maior rebanho bo-
encerrou, de forma especial, um ano de comemorações vino do mundo”.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 15


Nos últimos dois anos e meio, as ações de fiscali-
zação do sistema resultaram em 20,3 mil multas, 47,2
mil autos de infração, 80 mil termos de constatação de
irregularidades e 61,4 mil certificados de regularidade
para estabelecimentos aptos a prestar serviços à so-
ciedade. Também foram instaurados 1.500 processos
éticos, entre 2013 e 2017, os quais geraram penalida-
des de advertência até cassação profissional.

PREMIAÇÃO
A entrega dos prêmios Professor Paulo Dacorso
Filho e Professor Octávio Domingues – Edição 2018
também ocorreu no dia 23 de outubro, como parte do
T Discurso de Cavalcanti abordou EaD e PEC 108
encerramento das celebrações. A homenagem é feita
pelo conselho a médicos-veterinários (desde 1977) e
Em seu pronunciamento, o presidente do CFMV, zootecnistas (desde 2008) que tenham realizado ser-
Francisco Cavalcanti de Almeida, destacou que o con- viços relevantes para a ciência veterinária ou o desen-
selho repudia veementemente a modalidade de Ensi- volvimento agropecuário no país.
no a Distância (EaD) para a área da saúde e reforçou A solenidade contou, ainda, com a entrega da
aos presentes que a Proposta de Emenda à Constitui- Comenda Ivo Torturella, instituída pelo CFMV em
ção (PEC) nº 108/2019, que pode levar à extinção dos comemoração ao seu jubileu de ouro, por meio da
conselhos profissionais, é um retrocesso, sendo bas- Resolução nº 1.227/2018. Foi concedida a médicos-
tante aplaudido pelo público presente. -veterinários e zootecnistas que contribuíram signifi-
Ainda sobre a PEC 108, Cavalcanti assinou um ar- cativamente para a promoção e valorização da ciên-
tigo, publicado no jornal Correio Braziliense, no dia 29 cia animal brasileira ou o desenvolvimento de suas
de outubro, no qual defendeu que, para além da ques- áreas correlatas.
tão administrativa, a proposta ameaça a segurança da Em 2019, os agraciados foram Maria José de Sena
sociedade. “Como conselho profissional, temos a com- (Professor Paulo Dacorso Filho) e José Neuman Miran-
petência legal de proteger a população dos serviços da Neiva (Professor Octávio Domingues). Já as comen-
prestados pelos maus e falsos (charlatões) profissio- das foram designadas a Alberto Neves Costa, Aristeu
nais. Fazemos isso fiscalizando o exercício profissional Pessanha Gonçalves, Benedito Dias de Oliveira Filho,
nos 27 estados e no âmbito federal, regulamentando David Driemeier e Carlos Wilson Gomes Lopes.
e orientando os mais de 180 mil médicos-veterinários
e os cerca de 30 mil zootecnistas do país sobre as di- LIVRO
retrizes éticas e técnicas que norteiam a conduta ade- Na ocasião, houve o lançamento do livro 50 anos
quada”, escreveu. do Conselho Federal de Medicina Veterinária, editado
pelo conselho. A obra reúne a história de 50 médicos-
-veterinários, de diversos segmentos, que contribuí-
ram para o crescimento e a valorização da Medicina
Veterinária e colaboraram, de maneira
ímpar, para o desenvolvimento do
sistema. O livro se encontra disponí-
vel para download no Portal CFMV.
A intenção é que cada médico-
-veterinário do Brasil se reconheça
e se sinta homenageado, por meio
dos aprendizados, lembranças e
trajetórias de seus colegas re-
T Cinco profissionais foram agraciados com a Comenda Ivo Torturella

16 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


tratados na obra. A história do Sistema CFMV/CRMVs
é a história de cada médico-veterinário que honra a
sua profissão, colaborando para o desenvolvimento
do Brasil, impactando diretamente a saúde animal e
humana e preservando o meio ambiente, conceito
defendido pela saúde única.

ARTICULAÇÃO
Além da participação na celebração pelo cinquen-
tenário do conselho, o presidente do CFMV compare-
ceu à Câmara dos Deputados em outras duas ocasiões
T A reitora da UFRPE, Maria José de Sena, recebe o Prêmio Paulo Dacorso
para defender a valorização dos profissionais e divul- das mãos de Francisco Cavalcanti de Almeida
gar o trabalho desenvolvido pelo sistema.
No dia 3 de outubro, participou da sessão sole- Até que seja concluída a tramitação do PL nº
ne em homenagem ao Dia Mundial dos Animais, na 5.414/2016, que trata do tema, ou haja a devida re-
qual falou sobre a importância dos profissionais para gulamentação do art. 80 da Lei nº 9.394/1996 (Lei de
o bem-estar deles. Lembrou que o Brasil é o segundo Diretrizes e Bases da Educação Nacional) sobre o de-
país do mundo em número de animais de estimação, senvolvimento do EaD, o pedido é para que se mante-
perdendo apenas para os Estados Unidos. Segundo da- nha a suspensão.
dos de 2018 da Associação Brasileira da Indústria de Ainda sobre articulação política, vale recordar que,
Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), há mais em 20 de agosto, o presidente do CFMV reuniu-se com
de 139 milhões de pets no país. “Precisamos urgente- Rodrigo Maia, em Brasília (DF). Cavalcanti esteve acom-
mente de um órgão que trate dos animais de estima- panhado do deputado Ruy Carneiro (PSDB-PB), parcei-
ção”, ressaltou Cavalcanti. ro do conselho na construção do PL nº 2.237/2019,
Já no dia 27 de agosto, em audiência pública na que estabelece diretrizes e normas para atender aos
Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF), de- princípios de bem-estar de animais domésticos e sil-
fendeu que os conselhos profissionais participem da vestres em diversas atividades. Na ocasião, o presiden-
aprovação dos novos cursos de graduação com o Mi- te do conselho falou sobre o PL e outras demandas da
nistério da Educação (MEC). Com discurso contra o EaD Medicina Veterinária e Zootecnia.
na Medicina Veterinária, o presidente participou de de-
bate sobre os Projetos de Lei (PLs) nº 5.414/2016, nº JUSTIÇA
6.858/2017 e nº 7.121/2017, que tramitam em con- No dia 11 de outubro, foram publicados, no site
junto e têm o objetivo de alterar a legislação vigente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), dois
sobre EaD na saúde. acórdãos da 7ª Turma do tribunal reconhecendo que
Na audiência, destacou que há cursos sendo autori- são nulas as resoluções dos Conselhos Federais de Far-
zados sem que a faculdade possua hospital veterinário. mácia (CFF) e de Biomedicina (CFBM) que autorizavam
“É importante que o conselho analise se as faculdades farmacêuticos e biomédicos a realizar exames labora-
realmente atendem às exigências previstas nas novas toriais em animais, emitir laudos e exercer responsa-
Diretrizes Curriculares Nacionais, recentemente atuali- bilidade técnica em laboratórios de análises clínicas
zadas pelo Conselho Nacional de Educação”, observou. médico-veterinárias, avançando em competências pri-
Vale lembrar que o CFMV aprovou, em fevereiro de vativas do médico-veterinário.
2019, a Resolução nº 1.256, que proíbe a inscrição de Outro avanço recente foi a mesma turma do TRF1
egressos de cursos de Medicina Veterinária realizados ter decidido, por unanimidade, pela legalidade da Re-
na modalidade a distância. O Ministério Público Fede- solução CFMV nº 947/2010. O acórdão, publicado em
ral (MPF) apresentou, em outubro, uma recomendação 4 de outubro, confirmou que compete ao médico-vete-
ao MEC para que a pasta suspenda imediatamente a rinário a responsabilidade técnica de estabelecimen-
autorização para o funcionamento de novos cursos de tos de produção/reprodução de aves e ovos em larga
graduação a distância na área da saúde. escala. Marta Moraes

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 17


CRMVs
EM PAUTA

DE JANEIRO
A AGOSTO,
CRMV-RN FEZ
MAIS DE MIL
FISCALIZAÇÕES
Pela primeira vez, fiscais percorreram
Foto: Igor Andrade

todos os 167 municípios do estado


em menos de um ano
T Estabelecimentos fiscalizados passaram a ter adesivo

E
m apenas oito meses, de janeiro a agosto de ainda mais com a contratação de servidores, após a
2019, o Conselho Regional de Medicina Veteri- nomeação dos aprovados no recente concurso público
nária do Rio Grande do Norte (CRMV-RN) atingiu realizado pela autarquia com vagas para fiscais e agen-
um recorde: pela primeira vez na sua história, realizou tes administrativos.
mais de mil fiscalizações no período de um ano. Até 30 “Vamos aumentar a fiscalização, reconhecer es-
de setembro, esse número já havia chegado a 1.312 tabelecimentos e eventos agropecuários para que os
fiscalizações. Também de forma inédita, todos os 167 profissionais possam ser contratados e, mais importan-
municípios potiguares receberam visita da equipe de te, para que a sociedade tenha alimentos com qualida-
fiscalização do conselho neste ano. de, saúde, sanidade e os animais sejam sempre bem
O resultado representa um crescimento de 308% tratados nos quesitos saúde e produção pelos médi-
em relação ao mesmo período do ano passado, quando cos-veterinários e zootecnistas”, ressalta Costa.
houve 321 fiscalizações. Comparada a 2017, a diferen-
ça chega a 940% – foram registradas 126 fiscalizações CONTATO FACILITADO
nos oito primeiros meses daquele ano. Em setembro, o CRMV-RN passou a fixar um adesi-
O fortalecimento da fiscalização e o trabalho de vo em todos os estabelecimentos fiscalizados. Após a
orientação contribuíram também para o aumento dos re- fiscalização ser concluída, o fiscal do conselho cola o
gistros de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), o adesivo próximo ao certificado de regularidade e do
que significa mais emprego para os profissionais. Até se- alvará de funcionamento da empresa.
tembro, foram emitidas 791 ARTs. No mesmo período do O documento deve ficar em local visível e traz in-
ano passado, foram 320, um aumento de 147%, enquan- formações como a data em que o local foi visitado e um
to na comparação com 2017 o percentual vai a 211%. QR code para contato com a autarquia. A ferramenta é
De acordo com o presidente do CRMV-RN, Wir- ativada ao se apontar a câmera do smartphone para a
ton Peixoto Costa, foi preciso reestruturar o regional imagem, estabelecendo contato direto via WhatsApp
para que a fiscalização pudesse ocorrer de forma mais com o regional, com o objetivo de tirar dúvidas, fazer co-
abrangente, atendendo também a eventos como va- mentários ou mesmo denunciar alguma irregularidade.
quejadas. A previsão é de que o trabalho aumente Igor Jácome, Assessoria de Comunicação do CRMV-RN

18 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


CRMVs
EM PAUTA

PROJETO-
-PILOTO

Foto: Renato Araújo/Agência Brasília


INCENTIVA A
AQUICULTURA T Aquicultura oferece possibilidades a médicos-veterinários e zootecnistas

ção de animais são muito antigos e, quando a legislação


Técnicos do Mapa estiveram no
foi criada, o mercado operava basicamente com animais
CRMV-DF para apresentar programa de sangue quente, como bovinos, suínos e aves. Mas as
de capacitação profissional na área demandas se modernizaram e surgiram outras necessi-
dades de consumo – como a busca por pescados.

E
m busca de incentivar o desenvolvimento da A ideia de Queiroz é reunir profissionais multitarefas,
aquicultura no Distrito Federal, a equipe da com o auxílio de órgãos de governo como os CRMVs, além
Coordenação de Desenvolvimento da Aquicul- de outros conselhos que estejam envolvidos na cadeia
tura em Estabelecimentos Rurais e Áreas Urbanas do produtiva e de bem-estar animal, para juntos criarem
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento uma rotina de esclarecimentos na prevenção de doenças,
(Mapa) e a diretoria do Conselho Regional de Medicina promoverem o bem-estar animal e melhorar o custo-be-
Veterinária do Distrito Federal (CRMV-DF) reuniram-se, nefício na produção. “As escolas de ensino superior qua-
em agosto, para que o regional integre um projeto-pi- se não têm essa disciplina como obrigatória”, comentou o
loto a ser desenvolvido localmente e, na sequência, coordenador do Mapa, que é médico-veterinário.
expandido para todos os estados brasileiros.
Os técnicos do Mapa apresentaram o programa ALÉM DO PESCADO
“Forma Jovem Segura”, que tem o objetivo de capacitar Segundo o presidente do Sindicato do Comércio
profissionais e mostrar as possibilidades que o mercado Varejista e Serviços para Animais de Pequeno Porte e
de aquicultura oferece a médicos-veterinários e zootec- Domésticos do Distrito Federal (SindPet-DF), Fernando
nistas. “A ideia inicial é realizar esse trabalho de capaci- Toniol, o mercado de piscicultura no mundo é cinco ve-
tação, para passar um padrão de produção preventivo”, zes maior do que o de cães. Os continentes asiático,
explicou o coordenador da área no Mapa, Bruno Machado europeu e a América do Norte são os principais consu-
Queiroz, que compareceu acompanhado pelo técnico Rui midores. “Ainda há mercado e espaço para trabalhar e
Donizetti Teixeira. Eles foram recebidos pelo presidente se desenvolver”, afirma. “A piscicultura talvez seja uma
do CRMV-DF, Laurício Monteiro Cruz; pelo vice-presiden- janela a ser explorada”, complementa.
te, Saulo Borges; pelo secretário-geral, Emanoel Barros; e Nos últimos anos, o consumo de pescados cres-
pelo assessor da Presidência, Roberto Carneiro. ceu no Brasil, porém a legislação que regula o setor
O programa tem como base o trabalho preventivo foi adaptada de outros. A área de aquicultura sofre
já na produção de alevinos, com o estabelecimento de também para desenvolver pesquisas em produção de
normas para que o transporte ocorra de maneira a con- fármacos, engorda e desenvolvimento de produtos
trolar possíveis disseminações de doenças e melhorar o químicos para o controle do ambiente aquático. Wel-
custo-benefício da produção de pescado. Segundo os lington Oliveira, Assessoria de Comunicação Social do
técnicos do Mapa, os protocolos para manejo e produ- CRMV-DF

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 19


CRMVs
EM PAUTA

CRMV-RR
PARTICIPA DE

Foto: Divulgação/CRMV-RR
EVENTO PARA
TUTORES T Membros do CRMV-RR orientaram sobre cuidados com pets

Profissionais informaram sobre gundo o Instituto Pet Brasil (IPB), o setor movimentou
R$ 34,4 bilhões, um aumento de 4,6% em relação a
posse responsável e importância da
2017, e gerou cerca de dois milhões de empregos. Tais
vacinação antirrábica números refletem a importância do animal de estima-
ção na economia. 

A
Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho A médica-veterinária Raquel Lisbôa, presidente da
Regional de Medicina Veterinária de Roraima Comissão de Bem-Estar Animal do CRMV-RR, alertou os
(CRMV-RR) participou, em setembro, da Campa- tutores sobre os perigos da aquisição por impulso. “A
nha de Vacinação de Cães e Gatos promovida pelo curso pessoa que quer um animal de estimação deve pensar
de Medicina Veterinária do Centro Universitário Estácio antes em características como tamanho, para adequa-
da Amazônia e pelo Centro de Controle de Zoonoses de ção do espaço físico, e se prefere um pet calmo ou mais
Roraima (CCZ).  Os membros da comissão orientaram os ativo, além de considerar custos com vacinas, vermí-
presentes sobre posse responsável e deram informa- fugos e tratamentos de saúde, custo mensal e tempo
ções sobre a raiva e a importância da vacinação. disponível para interagir com o animal”, explicou.
O coordenador do curso de Medicina Veterinária Raquel destacou que o tutor deve se informar com
da Estácio, Fábio Silva de Souza, destacou que a raiva o médico-veterinário ou zootecnista sobre o melhor
é altamente contagiosa, principalmente para animais alimento para o animal e manter comedouros e be-
que vivem em áreas com animais silvestres ou viajam bedouros em local seco, limpo e protegido do sol. “É
para área de risco, como sítios e fazendas. “Manter o preciso estar realmente disposto a manter e cuidar do
pet vacinado é uma questão de segurança. A vacina é a animal. Cães e gatos podem viver por mais de dez anos
única forma de prevenção”, explicou. e ao adotar assume-se o compromisso de cuidá-los e
Souza destacou que é preciso tomar precauções, protegê-los nesse tempo. Animais de estimação não
como evitar se aproximar de cães e gatos sem donos são descartáveis, nem brinquedo. Devem ser parte da
e não mexer neles quando estiverem se alimentando, família”, concluiu. Scheila Muller, Assessoria de Comuni-
com crias ou mesmo dormindo. “Não se deve tocar em cação do CRMV-RR
morcegos ou outros animais silvestres diretamente,
principalmente quando estiverem caídos no chão ou
forem encontrados em situações não habituais”, com-
pletou o médico-veterinário. "Cães e gatos podem viver por mais
de dez anos e ao adotar assume-se o
POSSE RESPONSÁVEL
O mercado pet brasileiro é o segundo maior do compromisso de cuidá-los e protegê-
mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2018, se- los nesse tempo."

20 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


CRMVs
EM PAUTA

RIO RATIFICA
MÉDICO-
-VETERINÁRIO
COMO RT EM
PET SHOPS
Em vigor desde setembro, Lei Estadual
nº 8.531/2019 visa à garantia da
sanidade e do bem-estar dos animais
Foto: Pxhere.com

N
a contramão da decisão do Superior Tribunal de
Justiça (STJ), que nos Temas 616 e 617 estabele- T Lei fluminense reforça entendimento do Sistema CFMV/CRMVs sobre a
ceu a dispensa de contratação de médico-veteri- importância do médico-veterinário para a saúde única

nário como Responsável Técnico (RT) por empresas que


comercializam animais vivos e medicamentos veteriná- A saúde pública também é a grande beneficiária
rios, o estado do Rio de Janeiro promulgou, em setem- da nova lei, uma vez que o profissional é um impor-
bro, a Lei Estadual nº 8.531. tante agente, atuando como fiscal sanitário na garantia
Entre outros itens, a medida dispõe sobre nor- da qualidade do produto e do serviço que estão sendo
mas e princípios a ser adotados pelos estabeleci- consumidos pelo cidadão. Para Siqueira, isso reforça
mentos comerciais envolvidos com a exposição, o entendimento do Sistema CFMV/CRMVs acerca da
manutenção, higiene, estética, venda ou doação de importância do médico-veterinário para resguardar a
animais. O principal ponto é tornar obrigatória a pre- saúde única.
sença nesses locais do médico-veterinário como RT “O interesse do Sistema CFMV/CRMVs é proteger a
devidamente inscrito no Conselho Regional de Me- sociedade. A lei fará com que tanto a população quan-
dicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ). to o poder público reconheçam a importância do mé-
Para o assessor jurídico da Presidência do regional, dico-veterinário para a proteção da saúde única”, res-
André Siqueira, a normativa reforça e ratifica as ações salta o assessor jurídico.
de fiscalização do CRMV-RJ nesses estabelecimentos Siqueira acredita que, a exemplo do que ocorreu no
comerciais, complementando a Resolução CFMV nº estado de Pernambuco no início do ano (Lei Estadual
1.069/2014, visando à garantia da sanidade e do bem- nº 16.536/2019) e, agora, no Rio de Janeiro, as leis es-
-estar dos animais sob sua guarda. taduais poderão estimular um efeito-cascata pelo país,
“Essa lei representa um marco. No Rio de Janeiro, levando o STJ a reconsiderar a decisão, “uma vez que
nenhum pet shop pode mais funcionar sem a contra- não houve uma análise concreta da questão, tampou-
tação de um médico-veterinário RT e o devido regis- co uma consulta aos órgãos de saúde, como a Agência
tro no CRMV-RJ. A lei resguarda a proteção da socie- Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. Adrielly Reis,
dade”, esclarece. da Assessoria de Comunicação do CRMV-RJ

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 21


ARTIGOS
TÉCNICOS

Foto: Pixabay.com
T A PSA e a PSC são doenças virais graves que infectam suídeos, mas não são transmitidas a humanos ou outras espécies animais (foto ilustrativa)

PESTE SUÍNA CLÁSSICA E PESTE


SUÍNA AFRICANA: AS DOENÇAS E
OS RISCOS PARA O BRASIL*
biente, intensificação do comércio de animais vivos,
Técnicos do Mapa e da Embrapa material genético, insumos e produtos de origem ani-
mal e intensa movimentação de pessoas.
destacam o risco para o sistema de
De acordo com o agente infeccioso, os países são
produção de suínos e como prevenir considerados livres, endêmicos ou com a presença da
a entrada da PSA no Brasil ou a doença em certas áreas. Essa condição sanitária é a prin-
disseminação da PSC para a zona livre cipal referência para o comércio seguro de animais e seus
produtos entre os países. Entre as doenças mais relevan-

O
Brasil é o quarto maior produtor e exportador tes para o comércio internacional de produtos suínos, a
mundial de carne suína. Em 2018, produziu Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) destaca a
mais de 3,9 milhões de toneladas, exportou Peste Suína Africana (PSA) e a Peste Suína Clássica (PSC).
aproximadamente 650 mil toneladas e a movimentação Atualmente, o Brasil é considerado livre de PSA
financeira de toda a cadeia de suínos foi de aproxima- junto à OIE, pois, apesar de a doença ter ingressado no
damente R$ 150 bilhões, posicionando-se entre as ati- país em 1978, foi erradicada em 1984 (Figura 1A). Com
vidades econômicas mais importantes do agronegócio. relação à PSC, possui grande parte de seu território – e
A manutenção e a abertura de mercados depen- cerca de 95% da suinocultura industrial – reconhecida
dem dos padrões de qualidade e competitividade, do como zona livre pela OIE. Os surtos recentes que têm
fortalecimento da condição sanitária e da capacidade ocorrido na região Nordeste estão localizados na área
de certificação dos serviços veterinários. Nesse con- considerada endêmica para a doença (Figura 1B).
texto, as doenças infecciosas, caracterizadas por surtos A PSC causa prejuízos sanitários e socioeconô-
súbitos, que muitas vezes tomam proporções epidêmi- micos graves, principalmente pelas perdas diretas
cas, representam uma ameaça. Entre os aspectos que e restrições comerciais impostas a produtos oriun-
podem levar à emergência de doenças infecciosas em dos de áreas não livres da doença. Sua presença em
animais domésticos, estão a intensificação da produ- parte expressiva do território nacional ameaça a po-
ção, mutações nos patógenos, mudanças no meio am- sição do país no mercado internacional, causando

22 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


limitações para as comunidades locais que têm na HISTÓRICO
criação de suínos uma alternativa de fonte alimentar A PSA é causada por vírus DNA da família Asfarvi-
e de renda. ridae, gênero Asfivirus, compreendendo 24 genótipos.
A PSA, devido à rápida disseminação a vários países O vírus foi identificado no continente africano em
nos últimos dez anos, tem sido a principal preocupação 1921, onde a doença é endêmica e subclínica em suí-
da sanidade dos suínos em nível mundial. A doença atin- nos selvagens, por meio de um ciclo de transmissão
ge hoje vários países no Leste Europeu e Ásia, provocan- complexo que envolve suínos selvagens africanos,
do graves perdas na produção e elevando os riscos de carrapatos (Ornithodoros spp.) e suínos domésticos.
atingir outras partes do mundo. Sua expansão ainda não Em 1957, foi introduzido em Portugal, disseminando-
atingiu as Américas, o que favorece os países da região -se para Itália, França, Holanda, Bélgica, Malta e Amé-
no comércio internacional, configurando-se como uma rica do Sul, inclusive Brasil e Caribe, sendo o vírus ca-
oportunidade para a suinocultura e, ao mesmo tempo, racterizado como genótipo I. A doença foi erradicada
uma grande ameaça de um eventual ingresso da doença. em todos esses países.
Este trabalho aborda aspectos importantes de PSA Em 1982, o vírus foi introduzido na Sardenha
e PSC em suídeos domésticos e asselvajados, desta- (Itália), onde permanece endêmico. Desde 2014,
cando o risco para o sistema de produção de suínos e novos surtos continuam a ocorrer em vários países,
como prevenir a entrada da PSA no Brasil e a dissemi- inclusive na Europa. Em 2017, uma nova introdução
nação da PSC para a zona livre. viral a partir do continente africano voltou a ocorrer
na Geórgia e Leste Europeu; neste caso, o genótipo
II foi detectado. A partir da Geórgia, o vírus dissemi-
nou-se por vários países do Leste Europeu e Ásia.
Em setembro de 2018, foi detectado em suínos de
subsistência, na China e na Romênia, e em javalis, na
Bélgica. Desde então, novos surtos foram reportados
na Europa (Rússia, Bulgária, Hungria, Letônia, Moldá-
via, Polônia, Romênia, Sérvia, Eslováquia e Ucrânia),
Ásia (China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Laos,
Mianmar, Camboja, Vietnã, Filipinas) e, mais recente-
T Figura 1. Mapa do Brasil mostrando a situação sanitária dos estados frente
à PSA (A) e PSC (B)
mente, Timor Leste (Figura 2).

T Figura 2. Distribuição mundial dos focos de PSA, de 2009 a 2019, segundo o Sistema WAHIS/OIE

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 23


A PSC é causada por vírus RNA da família Flaviviri- são livres, conforme ilustrado na Figura 3. Nos anos
dae, gênero Pestivirus, sendo atualmente descritos três 1990, grandes surtos ocorreram na Holanda, Alema-
genótipos. A doença tem distribuição mundial, mas nha, Bélgica e Itália. No Japão, onde a PSC não ocorria
alguns países, como Austrália, Nova Zelândia, Canadá, desde 1992, foi novamente detectada em setembro de
Estados Unidos, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai, 2018 e desde então vários focos foram relatados à OIE.

T Figura 3. Situação sanitária oficial dos países junto à OIE em relação à PSC, 2019

No Brasil, a PSC era endêmica em vários estados elucidados. Informações detalhadas sobre as formas
até 1980, porém programas oficiais de controle e er- de apresentação clínica e epidemiologia das duas
radicação, com uso massivo de vacina viva modificada, doenças estão disponíveis no site da OIE (https://
reduziram drasticamente a ocorrência da doença no www.oie.int/standard-setting/terrestrial-code/ac-
país. Atualmente, grande parte do território brasileiro cess-online).
é reconhecida pela OIE como livre de PSC, compreen- A principal via de transmissão dos vírus é pelo
dendo Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas contato direto entre suínos infectados e suscetíveis ou
Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, ingestão de produtos cárneos de origem suína (como
Goiás, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, To- salames e embutidos) contaminados com vírus, oriun-
cantins, Rondônia, Acre, Distrito Federal e mais quatro dos de restos da alimentação humana.
municípios amazonenses (Figura 1B). Na PSA, tanto a transmissão quanto a manutenção
do vírus no ambiente podem ocorrer pelos ciclos sil-
PONTOS IMPORTANTES DA TRANSMISSÃO DOS VÍRUS vestre e doméstico. A epidemiologia da doença varia
A PSA e a PSC são doenças virais graves que in- em diferentes partes do mundo, de acordo com a cepa
fectam suídeos, mas não são transmitidas a huma- prevalente, o habitat, a presença ou não de suídeos
nos ou outras espécies animais. Embora sejam sín- selvagens e vetores (por exemplo, Ornithodoros spp.)
dromes hemorrágicas que podem ser clinicamente e os tipos de criação.
confundíveis, apresentam diferenças clínico-epide- Para PSC, a infecção congênita causa o nasci-
miológicas significativas, com aspectos ainda a ser mento de leitões clinicamente sadios, mas persis-

24 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


tentemente infectados, o que os torna uma impor- a erradicação está na fase final do processo, a vaci-
tante fonte de infecção e transmissão da doença. A nação é proibida.
movimentação e introdução de suínos infectados
num rebanho são a principal forma de disseminação AÇÕES DO MAPA E DA EMBRAPA
da doença. Veículos que transportam suínos podem O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abasteci-
carrear fezes ou urina de animais infectados a longas mento (Mapa) tem reforçado as ações, visando a: (i)
distâncias e transmitir o vírus em casos de falha na evitar o ingresso da PSA no país e da PSC na zona li-
biosseguridade. vre; (ii) mitigar os riscos de exposição dos suínos aos
agentes infecciosos; (iii) fortalecer a detecção precoce
TRATAMENTO, PREVENÇÃO E CONTROLE de casos suspeitos; (iv) aperfeiçoar a capacidade de
Não existem vacinas ou tratamento para PSA. Nos realizar o diagnóstico de forma rápida; (v) melhorar
países africanos onde a doença é endêmica, é difícil as capacidades de preparação e resposta a eventuais
eliminar o vírus devido à presença de vasto reservató- emergências; (vi) buscar condições para a continuida-
rio natural em suídeos selvagens. Em países livres, sua de dos negócios e minimizar os impactos comerciais
prevenção depende de políticas de importação rigo- das doenças.
rosas, garantindo que não sejam introduzidos suínos Para proteger o status sanitário do rebanho suíno
vivos infectados ou produtos de origem suína oriun- brasileiro, elaborou o Programa Nacional de Sanidade
dos de países ou regiões afetados pela doença. Entre Suídea (PNSS), que tem como objetivo a coordenação,
as medidas de prevenção, estão: descarte adequado, normatização e suporte às ações de defesa sanitária
com tratamento térmico, de resíduos de alimentos de animal referentes à suinocultura nacional. O PNSS con-
aeronaves, navios ou veículos provenientes de países ta com um sistema de vigilância para as síndromes he-
com ocorrência de PSA; fiscalização de bagagens em morrágicas dos suínos, com Laboratórios Federais de
aeroportos e portos; e aplicação de medidas rigorosas Defesa Agropecuária capacitados para o diagnóstico
de biosseguridade em granjas. delas, incluindo teste laboratorial para PSA como dife-
Em focos de PSA, é essencial o sacrifício sanitário rencial de PSC.
rápido de todos os suínos, com eliminação adequada Diante da disseminação da PSA em várias partes
de cadáveres, além de limpeza e desinfecção comple- do mundo e da ocorrência de focos de PSC na zona
tas das instalações. É preciso designar as zonas infec- não livre do Brasil, o ministério intensificou a vigi-
tadas e de risco epidemiológico, com investigação e lância nas fronteiras internacionais e divisas da zona
rastreamento de possíveis fontes de disseminação da livre, assim como a fiscalização de bagagens e a im-
infecção, além de vigilância em toda a área circundan- portação de produtos agrícolas e alimentos de países
te e controle de movimentação dos suínos e produtos onde a PSA está ocorrendo. Recentemente, o Sistema
com risco de veicular o agente. de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro)
No caso de PSC, também não existe tratamento. publicou a Instrução Normativa (IN) nº 11/2019, que
Os suínos afetados devem ser abatidos e as carcaças, estabelece o regulamento para ingresso no território
enterradas ou incineradas. Como profilaxia sanitária, nacional de produtos de origem animal, presumivel-
recomendam-se: comunicação eficaz entre autorida- mente não veiculadores de doenças contagiosas, em
des veterinárias, médicos-veterinários e criadores bagagem de viajantes, para consumo próprio e sem
de suínos para a detecção precoce e investigação finalidade comercial.
de casos suspeitos; política rígida de importação de Com relação à PSC, em 1981 foi instituído o Pro-
suínos vivos, sêmen e carne suína fresca e curada; grama de Combate à Peste Suína (PCPS), que exigiu a
quarentena de suínos antes da entrada no rebanho; adoção de procedimentos para definir as zonas livres
vigilância sorológica direcionada a suínos e javalis; da doença, tais como: diagnóstico laboratorial, abate
e medidas de biosseguridade dos rebanhos. A vaci- e incineração dos animais positivos; vacinação e mo-
nação com vírus vivo modificado é eficaz na redu- nitoria sorológica em abatedouro. Em 1992, foi reali-
ção de perdas em áreas onde a PSC é endêmica, mas zado um processo progressivo de zoneamento no país
deve estar associada a ações de vigilância e elimina- iniciado nos estados de Santa Catarina e Rio Grande
ção de focos. Em países considerados livres ou onde do Sul, com reformulação do programa preconizando

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 25


a suspensão da vacinação nos grandes centros pro- de Descentralizada Embrapa Suínos e Aves, tem o
dutores, criação de um cinturão de vacinação com- papel de fornecer informações sobre a PSA e PSC e
pulsória em torno dessas áreas, controle de trânsito e os impactos na cadeia produtiva de suínos, subsi-
criação de fundos de indenização administrados pela diando a tomada de decisão dos órgãos competen-
iniciativa privada. tes. Não existem pesquisas sobre a PSA no Brasil,
As normas para erradicação da PSC no território pois o país é considerado livre. Contudo, a Embrapa
nacional e o Plano de Contingência de PSC foram es- atua em apoio aos órgãos oficiais e setor produti-
tabelecidos pelas INs nº 6/2004 e nº 27/2004, res- vo na capacitação de médicos-veterinários e outros
pectivamente. Em 2009, foram estabelecidos os pro- públicos com vistas à vigilância de síndromes he-
cedimentos do sistema de vigilância sanitária na zona morrágicas e desenvolve pesquisas em vigilância e
livre de PSC, por meio da Norma Interna nº 05, que monitoramento sanitário de suídeos asselvajados
contempla a vigilância em Granjas de Reprodutores na zona livre de PSC.
Suídeos Certificadas (GRSCs), granjas de suínos, cria-
tórios de suídeos (criações de subsistência, sem fins
comerciais) e abatedouros. Em 18 de setembro de REFERÊNCIAS
Blome, S. et al. Classical swine fever – an updated review. Viruses. v.9, n.4, 2017.
2014, foi aprovado o Plano de Vigilância de Suídeos
Chenais, E. et al. Identification of wild boar-habitat epidemiologic cycle in
Asselvajados na área livre de PSC no Brasil, por meio african swine fever epizootic. Emerging and Infectious Diseases. v.24, n.4,
p.810-812, 2018.
da Norma Interna nº 03. Galindo, I. & Alonso, C. African Swine Fever Virus: A Review. Viruses. v.9, n.5,
2017.
Apesar de grande parte da suinocultura brasileira
MAPA/DSA/PNSS - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/
estar localizada na zona livre de PSC sem vacinação, em Departamento de Saúde Animal/ Programa Nacional de Sanidade dos Suídeos.
Disponível em: http://www.agricultura.gov.br/assuntos/sanidade-animal-e-
2018 e 2019 foram detectados focos no Ceará, Piauí e vegetal/saude-animal/programas-de-saude-animal/sanidade-suidea. Acesso
em 15 de outubro de 2019.
Alagoas. Cabe a ressalva de que os focos localizados no Morés, N. & Zanella, J.R.C. Como evitar a disseminação da PSC. Nota Técnica,
Embrapa Suínos e Aves, 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/
Ceará e Piauí estão longe da fronteira com a região con- documents/1355242/0/Nota+Técnica+PSC/. Acesso em 15 de outubro de
2019.
siderada livre, enquanto o foco em Alagoas está somen-
Postel, A. et al. Epidemiology, diagnosis and control of classical swine fever:
te a 7 km da zona livre, porém os limites entre a zona Recent developments and future challenges. Transboundary and Emerging
Diseases. v.65, n.1, p.248-261, 2015.
livre e a não livre estão separados por barreiras naturais Sánchez-Vizcaíno, J.M. & Neira, M.A. African Swine Fever Virus. In: Zimmerman,
J.J.; Karriker, L.A.; Ramirez, A.; Schwartz, K.T. & Stevenson, G.W (Eds). Diseases of
e postos de fiscalização e vigilância, os quais atuam de Swine. 10th ed. p.396-404. 2012.
forma contínua (Nota Técnica nº 43/2019). Embora a Schaefer, R. et al. Peste Suína Africana. Nota Técnica, Embrapa Suínos e Aves,
2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1355242/0/PSA+-
ocorrência de PSC na zona não livre não altere o reco- +Nota+T%C3%A9cnica+Embrapa+Su%C3%ADnos+e+Aves.pdf. Acesso em
15 de outubro de 2019.
nhecimento internacional concedido às 16 unidades da Schaefer, R. et al. Detecção da Peste Suína Clássica no Estado do Ceará
(localizado na zona não livre da doença). Nota Técnica, Embrapa Suínos e
federação, o Mapa lançou, em 2019, o Plano Estratégico Aves, 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1355242/0/
Nota+Técnica+PSC/. Acesso em 15 de outubro de 2019.
para a Erradicação da PSC dos estados de Alagoas, Ama-
Schulz, K. et al. African and classical swine fever: similarities, differences and
pá, Amazonas, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernam- epidemiological consequences. Veterinary Research. v.48, n.1, p.84, 2017.
Tokarnia, C.H. et al. O surto de peste suína africana ocorrido em 1978 no
buco, Piauí, Rio Grande do Norte e Roraima. município de Paracambi, Rio de Janeiro. Pesquisa Veterinária Brasileira. v.24,
n.4, p.223-238, 2004.
Devido às características das doenças, a comu-
World Organisation for Animal Health (2009). - Terrestrial Animal Health Code.
nicação de casos suspeitos é primordial, pois, se não OIE, Paris.
World Organisation for Animal Health (2008). - Manual of Diagnostic Tests and
controladas, continuarão a se alastrar, trazendo gran- Vaccines for Terrestrial Animals. OIE, Paris.
des prejuízos para o país. Frente a qualquer suspeita
de infecção pelo vírus da PSA e PSC, a comunicação
deve ser feita imediatamente ao órgão estadual de
defesa agropecuária ou diretamente ao Departamen-
to de Saúde Animal (DSA/Mapa). Em casos de surtos, AUTORES
o serviço veterinário oficial determinará as medidas
a ser implementadas, seguindo as recomendações da DANIELLE GAVA, JANICE REIS CIACCI ZANELLA, LUIZINHO CARON,
REJANE SCHAEFER E VIRGÍNIA SANTIAGO SILVA
OIE de sacrifício sanitário e demais formas de vazio e Embrapa Suínos e Aves
descontaminação. GERALDO MARCOS DE MORAES, JORGE CAETANO JUNIOR E RONALDO
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária CARNEIRO TEIXEIRA
Mapa
(Embrapa), vinculada ao Mapa, por meio da Unida-
* Trabalho elaborado a convite do Conselho Editorial da Revista CFMV.

26 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


ARTIGOS
TÉCNICOS
Foto: Gilberto Soares (Giba)

T Animais com rachaduras no casco receberam doses de biotina e, após um período, tiveram recuperação total (foto ilustrativa)

ANÁLISE DA SUPLEMENTAÇÃO DE
BIOTINA NO CRESCIMENTO DOS
CASCOS DE EQUINOS ADULTOS
CRIADOS A PASTO
tal foi inteiramente casualizado em esquema fatorial
Grupo de professores e alunos da 4x3, com quatro níveis de suplementação e três ida-
des diferentes. Após a coleta dos dados, estes foram
Universidade Estadual do Oeste
tabulados e submetidos à análise de variância. As va-
do Paraná realizou experimento riáveis idade e tratamentos foram submetidas ao teste
acompanhando 12 animais de Tukey a 5% de probabilidade. Todos os dados foram
avaliados pelo programa estatístico SAEG versão 8.1. O

O
objetivo deste trabalho foi avaliar o cresci- tratamento-testemunha apresentou melhores resulta-
mento dos cascos de equinos criados a campo dos de crescimento. Não foi necessária a suplementa-
suplementados com diferentes níveis de bio- ção de biotina para animais com baixa atividade física
tina. Foram utilizados 12 equinos no Setor de Equideo- e criados a pasto.
cultura do Núcleo de Estação Experimental da Univer- Ao observar um equino com rachaduras no casco e
sidade Estadual do Oeste do Paraná, suplementados apresentando falta de pedaços na circunferência distal
com 0 mg de biotina (T1 – testemunha), 14 mg (T2), 28 externa na capa da córnea dos quatro membros, além de
mg (T3) e 42 mg (T4). Foram feitas as medidas de altura sinais de parede fraca, fina e lacuna de separação entre
de muralha, altura de talão e espessura de muralha, em a sola e a muralha do casco, dificultando e impedindo a
intervalos de 30 dias, de acordo com o casqueamento, fixação da ferradura, Ribeiro (1987) forneceu 15 mg de
com o uso de fita métrica. O delineamento experimen- biotina a esse animal durante cinco meses e 12 dias e

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 27


verificou que houve recuperação total dos cascos, não longe do solo em aproximadamente 12 mm em nível
apresentando limitações para seu ferrageamento. dos talões (STASHAK, 2006). Sua função não está bem
O casco é um estojo córneo responsável pela pro- definida, mas durante a locomoção dissipa a com-
teção e sustentação da extremidade do membro equi- pressão sobre a face da sola, distribuindo o impacto
no. Quando em equilíbrio, possibilita o amortecimento que recebe aos demais componentes do aparelho fi-
do impacto, a partir da dissipação do choque que o broelástico do casco (THOMASSIAN, 2005), e parece
casco sofre ao tocar o solo, por isso deve ser um objeto auxiliar na irrigação sanguínea de seu interior (MELO
de atenção permanente. et al., 2006).
A parede do casco possui três camadas: estra- Como todo animal, o cavalo desenvolveu caracte-
to externo, médio e interno. O estrato externo é uma rísticas próprias, adaptadas ao ambiente em que vivia.
camada córnea espessa, o médio consiste de túbulos Os cascos desenvolveram um mecanismo fisiológico,
córneos e tecido córneo intertubular, dando volume à cujo funcionamento necessita que o cavalo ande e se
parede, e o interno é responsável por ligar o casco ao exercite constantemente, como fazia em seu ambiente
cório, por meio de ramificações de lâminas microscó- natural, onde percorria grandes distâncias em busca
picas (STASHAK, 2006). A muralha estende-se da coroa de alimento e fugia de predadores. Para que o meca-
ao solo e é dividida em três porções: em pinça, que nismo fisiológico de apoio funcione e o cavalo possa
corresponde à porção anterior; quartos lateral e me- ter cascos sadios e perfeitos, é necessário que ocorram
dial, que correspondem à porção intermediária do cas- a expansão e contração do casco, o efeito bomba da
co; e talões lateral e medial, correspondendo à porção cartilagem alar sobre a rede circulatória, o efeito amor-
posterior do casco. A muralha apresenta uma espes- tecedor do coxim plantar coronário e aprumos corretos
sura que varia entre 0,2 e 0,5 cm, cresce cerca de 8 a (JUNQUEIRA, 1991).
10 mm por mês, levando de nove a 12 meses para se A biotina (vitamina H) é uma vitamina hidrossolú-
renovar completamente (MELO et al., 2006). vel que se mostra essencial para a síntese de proteí-
O clima pode interferir no crescimento do casco, nas e a formação de ácidos graxos de cadeia longa que
apresentando-se mais lento nos climas frios e em am- compõem a matriz intracelular dos cascos. Somente a
bientes secos. Como a muralha cresce uniformemente partir da década de 1980, a influência da alimentação
no sentido distal à epiderme coronária, a parte mais sobre a integridade dos cascos dos equinos passou
jovem e mais elástica do casco se encontra nos talões, a ser estudada. Os primeiros trabalhos, baseados em
portanto essa região ajuda na expansão dos talões du- pesquisas realizadas com suínos, demonstraram a in-
rante a concussão (SAMPAIO et al., 2013). fluência da biotina sobre o desenvolvimento dos cas-
A sola é a superfície inferior do casco, que deve cos, bem como os problemas inerentes à sua carência
ser côncava, pois sua função não é suportar o peso do na dieta (DITTRICH, 1992).
animal. Sua espessura é de cerca de 1,27 cm e contém A biotina parece ser um nutriente de influência
33% a mais de água que a muralha, portanto é menos sobre a resistência dos cascos. Zenker et al. (1995),
resistente. É um aparelho fibroelástico que amortece ao trabalhar com 42 garanhões da raça Lipizzaner,
os choques durante o trabalho e é constituído pela dos quais 90% com problemas nos cascos, verifica-
ranilha, talões, barras, linha branca e superfície solear ram que a suplementação com biotina melhorou a
da parede. No ponto em que se une à muralha, a sola sua condição. Essa melhora ocorreu na linha bran-
apresenta um sulco denominado linha branca, que, por ca, na histologia e na resistência após 19 meses de
uma inflexão em nível de talões, se volta para o cen- suplementação. O aumento da resistência e dureza
tro da sola, formando as barras. O cório sensível está do casco ocorreu após 19 a 33 meses do início da
imediatamente interno à linha branca, que serve como suplementação.
marcador para determinação da posição e do ângulo Devido à seleção genética e à alteração no manejo
dos cravos a ser introduzidos nas ferraduras dos equi- alimentar dos equinos imposta pelo homem, as neces-
nos (ZÚCCARI et al., 2009). sidades de biotina para suprir todas as funções meta-
A ranilha é uma estrutura córnea elástica que par- bólicas dos animais aumentaram (COMBEN et al., 1984).
te dos talões, avança para o centro da sola e termina Carrol et al. (1949) conduziram um experimento
num vértice ou ápice. Deve ser proeminente e estar com cavalos alimentados com dietas purificadas baixas

28 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


em vitaminas do complexo B e quantificaram a síntese campo, onde são submetidos ao sol e a outras condi-
das vitaminas tiamina, riboflavina, ácido pantotênico, ções edafoclimáticas.
biotina, entre outras, no ceco e cólon. Os requerimen- Diante do exposto, objetivou-se, com a realização
tos de vitaminas, assim como de outros nutrientes, desta pesquisa, avaliar a suplementação de biotina
são afetados pela idade, estágio de produção e uma no crescimento dos cascos de equinos adultos cria-
variedade de situações de estresse, como infecções in- dos a pasto.
testinais e exercício muscular intenso. A necessidade
de suplementação vitamínica depende do tipo e qua- MATERIAIS E MÉTODOS
lidade da dieta, da quantidade de vitamina microbiana O experimento foi conduzido no Setor de Equi-
sintetizada no sistema digestivo e da extensão da ab- deocultura do Núcleo de Estações Experimentais da
sorção da vitamina a partir do local da síntese. Cavalos Universidade Estadual do Oeste do Paraná, no muni-
a campo em pastagens de alta qualidade não preci- cípio de Marechal Cândido Rondon (PR). A área total
sam de suplementação, pois as forragens são fontes de pastagem utilizada foi de 2 ha, divididos em dez
ricas de vitaminas lipossolúveis e hidrossolúveis (NRC, unidades de piquetes, com área média de 1.930 m²,
1989). De acordo com o NRC (1989), as informações os quais foram cultivados com grama Tifton 85. O ma-
das concentrações de biotina nos alimentos para equi- nejo adotado durante todo o período experimental
nos são limitadas; sabe-se que a alfafa tem maiores foi o rotacional e o tempo de permanência dos ani-
concentrações de biotina no feno de alfafa (0,2 mg/kg mais em cada piquete variou de acordo com a dispo-
MS) e na alfafa fresca (0,49 mg/kg MS); concentrações nibilidade de matéria natural e altura do dossel (mé-
intermediárias para aveia (0,11 a 0,39 mg/kg MS), ce- dia de 20 cm).
vada (0,3 a 0,17 mg/kg MS), farelo de soja (0,18 a 0,5 Foram utilizados 12 equinos, sendo quatro puros
mg/kg MS) e milho (0,06 a 0,1 mg/kg MS). A exigência da raça Árabe, um mestiço Árabe e Quarto de Milha,
de biotina não foi disponibilizada para equinos, assim quatro mestiços Quarto de Milha, um mestiço Campo-
como para aves e suínos. lina e dois Sem Raça Definida (SRD), entre eles cinco
Carrol et al. (1949) alimentaram equinos com machos castrados, um garanhão e seis fêmeas com
dietas contendo apenas 0,01 mg de biotina/kg MS e idade aproximada entre dois e 28 anos. A avaliação
encontraram as seguintes concentrações na digestão cronológica dos animais que não tinham ficha zootéc-
(mg/kg MS): duodeno, menos de 0,1; íleo, 0,1; ceco, 0,2; nica nem controle de nascimento foi realizada com
cólon maior anterior, 3,8; e cólon menor anterior, 2,3. base na dentição.
Dessa forma, os pesquisadores comprovaram a síntese Embora a estimativa da idade dos equinos pelo
microbiana entérica de biotina (NRC, 1989). exame dentário tenha atualmente uma aplicabilidade
A biotina é essencial em duas etapas importantes limitada, continua a ser a melhor forma de conhecer
do processo de formação de tecido córneo, denomi- a idade na ausência de provas documentais. Conside-
nado queratinização: síntese de proteínas e síntese de ram-se, nessa avaliação, aspectos relativos à estrutura,
substâncias lipídicas. Essa vitamina é sintetizada pe- tipos de dente, fórmula dentária, evolução dentária
los microrganismos do trato gastrointestinal no cavalo dos equinos e cronologia dos eventos observáveis no
adulto. A suplementação com 10 a 30 mg de biotina exame dentário, principalmente da arcada inferior dos
por dia durante nove meses pode melhorar a qualida- equinos (SILVA et al., 2003).
de do casco equino. Doses diárias de 15 mg de biotina Antes do início do experimento, todos os equinos
são recomendadas como tratamento preventivo de la- foram vermifugados (Ivermectina 1,87 g/kg PV). Os
minite (FARIA, 2009). animais foram mantidos exclusivamente a pasto, com
Apesar de o NRC (2007) ter postulado que a su- consumo de forragem à vontade e acesso à água ad li-
plementação de biotina pode ser indicada apenas para bitum; durante todo o período experimental, não foram
populações de equinos com cascos frágeis, ainda não suplementados com sal mineral.
foram abordadas as condições de manejo diário de Os tratamentos experimentais se basearam em
animais submetidos a situações de estresse dos cascos diferentes volumes de um suplemento comercial à
em função de programas de treinamento para provas base de biotina. A suplementação vitamínica, mine-
equestres e até mesmo sua criação e manutenção a ral e de aminoácidos foi em frascos de 1 L (1 kg) na

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 29


forma líquida, cuja composição foi: betacaroteno (10 diária com biotina; o tratamento 2 (T2), com suplemen-
mg/kg), biotina (2.800 mg/kg), DL-metionina (20 g/ tação diária de 14 mg de biotina, contidos em 5 mL
kg), enxofre (10 g/kg), L-lisina (53 g/kg), manganês do suplemento; o tratamento 3 (T3), com suplementa-
(4.200 mg/kg), selênio (32 mg/kg) e zinco quelatado ção diária de 28 mg de biotina contidos em 10 mL de
(18 g/kg). suplemento (recomendação do fabricante); e o trata-
O experimento consistiu em quatro tratamentos mento 4 (T4), com suplementação diária de 42 mg de
distribuídos em três grupos baseados na idade, com biotina contidos em 15 mL de suplemento (Tabela 1).
quatro cavalos por grupo. O tratamento 1 (T1), teste- O suplemento comercial à base de biotina foi ofertado
munha, foi baseado na ausência de suplementação uma vez ao dia, por via oral.

TABELA 1. DISTRIBUIÇÃO DOS ANIMAIS POR GRUPO DE IDADE E POR TRATAMENTO.

Grupo T1 (0 mg) T2 (14 mg) T3 (28 mg) T4 (42 mg)

A (1-10 anos) A2 A3 A8 A9

B (11-17 anos) A4 A5 A7 A11

C (18-30 anos) A1 A6 A10 A12

O experimento teve a duração total de 210 dias As mensurações de biometria (crescimento do cas-
(sete meses). As coletas de dados do crescimento dos co) foram realizadas antes e depois do casqueamento,
cascos foram feitas a cada 30 dias, coincidindo com a com o auxílio de uma fita métrica. Foram medidas a al-
data prevista do casqueamento de todos os animais, tura dos talões, altura das muralhas e espessura das
tendo sido este feito pelo mesmo profissional em to- muralhas (Figura 1), nos cascos anteriores esquerdos e
das as coletas. direitos e posteriores esquerdos e direitos (cm).

FIGURA 1. ESQUEMA DAS MEDIDAS DOS CASCOS FEITAS NAS COLETAS (ALTURA DOS TALÕES, ALTURA DAS MURALHAS E ESPESSURA
DAS MURALHAS).

Fonte: Adaptado de Brasil Hipismo (2015).

30 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


Foi feito o delineamento inteiramente casua- avaliados pelo programa estatístico SAEG versão 8.1
lizado em esquema fatorial 4x3, com quatro níveis (UFV, 2003).
de suplementação e três idades diferentes. Após a
coleta dos dados, estes foram tabulados e subme- RESULTADOS E DISCUSSÃO
tidos à análise de variância; no caso de os valores Os resultados encontrados no T1, em que os ani-
apresentarem significância (α = 5%), as variáveis mais não receberam nenhum tipo de suplementação,
foram submetidas ao teste de média. As variáveis foram estatisticamente superiores aos demais trata-
idade e tratamentos foram submetidas ao teste de mentos para a característica de crescimento de muralha,
Tukey a 5% de probabilidade. Todos os dados foram apresentando valores médios de 1,1653 cm (Tabela 2).

TABELA 2. RESULTADOS DE CRESCIMENTO DE MURALHA (CM), CRESCIMENTO DE TALÃO (CM) E CRESCIMENTO DE ESPESSURA DE
MURALHA (CM), EM DIFERENTES NÍVEIS DE SUPLEMENTAÇÃO (0, 5, 10 E 15 ML) E EM DIFERENTES IDADES A (1-10 ANOS), B (11-17
ANOS) E C (18-30 ANOS).
Tratamento Crescimento de muralha Crescimento de talão Espessura de muralha

0 mg (testemunha) 1,1653a 0,9764a 0,0528

14 mg (5 mL) 0,8903b 0,8139b 0,0444

28 mg (10 mL) 0,9225b 0,8750ab 0,0514

42 mg (15 mL) 0,9667b 0,8764ab 0,0389

Idade

A 0,9740 0,8927 0,0510

B 1,0094 0,8948 0,0510

C 0,9771 0,8688 0,0385

Trat. 0,0001 0,0081 0,4606

Idade 0,6459 0,7812 0,2389

Trat. * Idade 0,1122 0,9654 0,0822

CV (%) 29,42 32,21 25,74


Nota: Médias nas colunas, seguidas pela mesma letra minúscula, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de significância.

Considerando o período total de duração do expe- Para os resultados de espessura de muralha, não
rimento, os animais suplementados com biotina não foi observada nenhuma diferença. Todos os valores fo-
apresentaram taxas superiores de crescimento, o que ram próximos a 1 cm de espessura.
coincide com o proposto por Dittrich (1992), que cita Os cascos não apresentaram diferenças no seu cres-
que a suplementação de biotina de até 40 mg/dia, em cimento em relação à idade dos animais; todos os va-
três meses de testes, não apresentou nenhuma taxa lores encontrados foram semelhantes, o que contradiz
acelerada de crescimento da muralha. O mesmo autor com o proposto por Faria (2009), que cita que o grau de
relata que a suplementação de 40 mg de biotina/dia crescimento do casco declina com a idade do animal.
apresentou uma diminuição do crescimento da mura- Todos os animais demonstraram crescimento de
lha dos cascos, quando comparada aos outros trata- casco dentro dos valores médios para crescimento ci-
mentos de 10 e 20 mg de biotina/dia. tados por Wintzer (1986), que são de 8 a 13 mm men-
O tratamento de 0 mg/dia também apresentou su- sais. O mesmo autor afirma que um incremento na taxa
perioridade em relação ao tratamento de 14 mg/dia no de crescimento ou diminuição no período de renova-
crescimento de talão, porém, em relação aos demais ção do tecido córneo do casco não deve ser esperado
tratamentos, não obteve diferença estatística nessa com uma suplementação de biotina.
característica (Tabela 2), indicando efeito nulo da su- Os resultados obtidos neste experimento po-
plementação de biotina. dem estar ligados ao tempo de pesquisa realizado,

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 31


sendo necessário maior período de coleta de dados, REFERÊNCIAS
pois Schulze e Scherf (1989) relataram que melho- CARROLL, F. D., H. Goss, and C. E. Howell. 1949. The synthesis of B vitamins in
the horse. J. Anim. Sci. 8:290, 1949
ras evidentes nos cascos dos animais em tratamen- COMBEN, N.; CLARK, R. J.; SUTHERLAND, D.J.B. Clinical observations on the re-
to, utilizando níveis suplementares de 15 mg/dia, só sponse of equine hoof defects to dietary supplementation with biotin. Veteri-
nary Record, London, v. 115, p. 642-645, 1984.
aparecem após seis a nove meses de administração DITTRICH, J. R. Efeitos de niveis suplementares de biotina no crescimento, es-
trutura e integridade dos cascos de potros de 1 a 2 anos de idade. 1992. 50
da vitamina. f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) - Universidade Federal do
Os animais apresentaram uma melhora na apa- Paraná. Curitiba 1992.
FARIA, G. A. Casco equino: uma abordagem prática sobre sua qualidade e cres-
rência dos cascos, com seu fortalecimento, levando cimento.2009.Disponívelem:<http://agronomia.com.br/conteudo/artigos/ar-
tigos_casco_equino_ qualidade_crescimento.htm>. Acesso em: 02 ago. 2016.
em consideração o aspecto visual, podendo ser com-
JOSSECK, H.; ZENKER, W.; GEYER, H. Hoof horn abnorma-lities in Lipizzaner
parado aos dados citados por Dittrich (1992), o qual horses of the effect of dietary biotin on macros-copic aspects of hoof horn
quality. Equine Veterinary Journal, v. 27, n. 3, p. 175-182, 1995.
relatou que, com uma dose de 40 mg de biotina/dia, JUNQUEIRA. A. Podologia equina. In: REUNIAO ANUAL DA SOCIEDADE BRASI-
se consegue um fortalecimento de todas as estrutu- LEIRA DE ZOOTECNIA, 28., 1991, Joao Pessoa. Equinocultura. Joao Pessoa: SBZ,
1991. p. 60.
ras dos cascos dos equinos tratados num período de LEY, W. B.; SCOTT PLEASANT, R.; DUNNINGTON, E. A. Effects of season and diet on
tensile strength and mineral content ofthe equine hoof wall. Equine Veterinary
três meses, embora com outros níveis de suplemen- Journal, Supl. 26, p. 46-50, 1998.
tação (10 mg e 20 mg) esse fortalecimento dos cascos MELO, U. P.; FERREIRA, C.; SANTIAGO, R. M. F. W.; PALHARES, M. S.; MARANHÃO,
R. P. A. Equilíbrio do casco. Ciência Animal Brasileira, v. 7, p. 389-398, 2006.
possa ocorrer em um período maior de suplementa-
NATIONAL RESEARCH COUNCIL – NRC. Nutrient requirements of horses. 5. ed.
ção da vitamina. rev. Washington, DC., 1989. 112p.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL – NRC. Nutrient requirements of horses. 7. ed.
O mesmo autor cita que níveis suplementares de rev. Washington, DC., 2007. 341p.
40 mg de biotina/dia permitem um aumento no in- RIBEIRO, R. C. Utilizacão da biotina na nutrição de equinos. A Hora Veterinaria,
Porto Alegre, n. 38, p. 8-12, jan/fev.1987.
tervalo entre as sucessivas práticas de casqueamento SAMPAIO, B. F. B.; SHIROMA, M. Y. M.; BERTOZZO B. R.; COSTA E SILVA, E. V., ZÚC-
pela diminuição da taxa de crescimento e pelo aumen- CARI, C. E. S. N. Equilibrio do casco equino. REDVET Rev. Electrón. Vet., v. 15, n.
1, p 11, 2013.
to na resistência das partes córneas do casco. STASHAK, T. S. Claudicação em eqüinos segundo Adams. In: STASHAK, T.S.; HILL,
C.; KLIMESH, R.; OVNICEK, G. (Eds). Cuidados com os cascos e colocação de fer-
Segundo pesquisa realizada por Josseck et al. raduras para equilíbrio e integridade. 5. ed. São Paulo: Roca, 2006. p.1015-
(1995), a biotina melhora a qualidade do casco, porém 1071.
THOMASSIAN, A. Enfermidades dos cavalos. 4. ed. São Paulo:Varela, 2005. 608 p.
sem afetar seu crescimento. Os resultados encontrados
UFV, Universidade Federal de Viçosa. Sistema de análises. Manual do usuário
neste experimento podem ser explicados pelos dados (SAEG). Versão 8.1, Viçosa, 2003. 301 p.
WINTZER, H.J. Der Einflub einer Vitamin-H-Substitution auf Wachstum und
encontrados no NRC (1989), que cita que os cavalos Beschaffenheit des Hufhorns. Tieräztliche Praxis. v. 14, n. 4, p. 495-500, 1986.
criados a campo em pastagens de alta qualidade não ZENKER, W.; JOSSECK, H.; GEYER, H. Histological and physical assessment of
poor hoof horn quality in Lipizzaner horses and a therapeutic trial with biotin
precisam de suplementação, pois as forragens são fon- and placebo. Equine Vet. J., v. 27, p. 183-191, 1995.
tes ricas de vitaminas lipossolúveis e hidrossolúveis. Por ZÚCCARI, C. E. S. N.; SHIROMA, M. Y. M.; BERTOZZO, B. R. Avaliação do equilíbrio
do casco equino. In: SARAN NETO, A.; MARIANO, W. S.; SÓRIA, S. F. P. (Orgs.). Tópi-
isso, Dittrich (1992) comenta que, nas criações em que cos especiais em saúde e criação animal. São Carlos, SP: Pedro & João Editores,
2009.v.1, p.245-274
as pastagens se encontram degradadas e a alimentação
concentrada é formulada com farelos de oleaginosas e
grãos de cereais, geralmente a alimentação não supre
as quantidades de biotina necessárias para um perfeito
desenvolvimento do estojo córneo dos equinos. AUTORES
A alimentação influencia a qualidade do cresci-
mento do casco, sendo inapropriados tanto a carência
JEFERSON AUGUSTO KÜHL
quanto o excesso de proteínas, minerais e vitaminas. LIGIA ALVES SALVADOR
JULIA ANDRESSA BOUFLEUR
Segundo Ley et al. (1998), a biotina, a metionina, o zin- Graduandos em Zootecnia na Universidade Estadual do Oeste do
Paraná (Unioeste)
co e o enxofre são os nutrientes geralmente utilizados
ANA ALIX MENDES DE ALMEIDA OLIVEIRA
para estimular uma melhora na qualidade do casco. Zootecnista
CRMV-PR nº 1052/Z

CONCLUSÃO NILTON ROHLOFF JUNIOR


Zootecnista
A suplementação de biotina para equinos criados a CRMV-PR nº 1400/Z
pasto é desnecessária, uma vez que os microrganismos PAULA KONIECZNIAK
Médica-veterinária
do ceco e cólon produzem níveis de biotina endógena CRMV-PR nº 12430
suficientes para o crescimento regular dos cascos.

32 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


ARTIGOS
TÉCNICOS

HIPERTENSÃO PULMONAR TIPOS


1 E 2: EXISTE DIFERENÇA NA
CLÍNICA DE CÃES E GATOS?
Possui sinais clínicos diversos, com gravidade va-
Doença não tem cura e o paciente riável, e seu diagnóstico em animais se baseia na uti-
necessita de tratamento por toda lização de ecodopplercardiografia. O tratamento é um
a vida. Objetivos da terapia, entre desafio para o clínico de pequenos animais, uma vez
que não há consenso sobre medicamentos e doses
outros, são melhorar os sinais mais eficazes, principalmente na HP secundária.
clínicos, reduzir a progressão
da doença e proporcionar maior ETIOLOGIA
sobrevida, com qualidade A Pressão Arterial Pulmonar (PAP) é o resultado de
interações entre fluxo sanguíneo pulmonar, impedân-

A
Hipertensão Pulmonar (HP) é uma enfermi- cia vascular e pressão pós-capilar. Assim, a HP pode
dade complexa, caracterizada por aumento ser classificada como Hipertensão Arterial Pulmonar
progressivo da resistência vascular pulmo- (HAP – tipo 1), também descrita como “ativa”, resul-
nar. Sua etiologia pode ser primária ou secundária a tante de anormalidades no lado arterial do sistema
outras doenças, como a Degeneração Mixomatosa da vascular pulmonar, e Hipertensão Venosa Pulmonar
Valva Mitral (DMVM), dirofilariose, cardiopatias congê- (HVP – tipo 2), também descrita como “passiva”, as-
nitas como persistência do ducto arterioso e síndrome sociada a múltiplas anormalidades pulmonares ou do
de Eisenmenger. Hemodinamicamente, define-se por sistema cardiovascular, reação inflamatória sistêmica
pressão média da artéria pulmonar igual ou superior a ou doenças infecciosas, como a endocardite (KEL-
25 mmHg em repouso (DIAS et al., 2015). LIHAN; STEPIEN, 2012). Já em gatos, a HP é uma con-

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 33


dição rara, com poucos estudos e relatos na literatura me físico, como tosse, dispneia, letargia, intolerância
(HENIK, 2009). ao exercício e cianose, que podem ser decorrentes
Além da HAP idiopática, algumas doenças deter- da diminuição do Débito Cardíaco (DC), associada à
minantes incluem dirofilariose e desvios congênitos vasoconstrição sistêmica e à relação ventilação-per-
sistêmico-pulmonares, como comunicação interatrial, fusão deficiente, determinando hipoxemia (JOHN-
comunicação interventricular, persistência do ducto SON et al., 1999).
arterioso e vasculite/arteriolite necrosante (HAW- Na maioria das vezes, o diagnóstico é obtido
KINS, 2010). após exames em cães que apresentam suspeita de
Em contraste, a HVP é consequência de PAP eleva- problemas cardíacos ou respiratórios, sendo a ecodo-
da resultante do aumento do pico pressórico arterial pplercardiografia o método de maior utilidade para
pulmonar (PAWP) com Resistência Vascular Pulmonar o diagnóstico da HP, pois é amplamente disponível e
(RVP) normal. Esse tipo de hipertensão ocorre, mais co- possibilita descartar ou confirmar afecções cardíacas
mumente, em cães com DMVM e na cardiomiopatia di- concomitantes.
latada. A HAP e HVP podem ocorrer simultaneamente A ecodopplercardiografia permite a obtenção da
em pacientes com doença cardíaca do lado esquerdo pressão na artéria pulmonar de forma não invasiva, di-
(KELLIHAN; STEPIEN, 2012). minuindo consideravelmente a necessidade de catete-
Outras classificações têm sido utilizadas para a rismo cardíaco. A pressão na artéria pulmonar em ani-
doença, como HAP induzida por hipóxia, HP trom- mais saudáveis é de aproximadamente 20-25 mmHg
boembólica secundária a doenças respiratórias e alte- durante a sístole e 6-10 mmHg na diástole, sendo a
rações congênitas. Dessa forma, o fator desencadeante HP identificada quando a pressão sistólica é superior a
da doença pode influenciar o manejo terapêutico e o 25-30 mmHg (BOON, 2011).
prognóstico do paciente (KELLIHAN; STEPIEN, 2012). Utilizando a ferramenta ecocardiográfica Do-
ppler (pulsado e contínuo), é possível obter os fluxos
DIAGNÓSTICO valvares e observar a presença de fluxos regurgitan-
O diagnóstico inicial da HP em cães e gatos se tes, pois na HP é frequente a Regurgitação Tricúspi-
baseia nos sinais inespecíficos observados ao exa- de (RT) (Figura 1) e pulmonar (BOON, 2011). Pyle et

T Figura 1. Exame ecocardiográfico, modo Doppler pulsado, posição apical esquerda quatro câmaras em um cão com HVP moderada, mostrando regurgita-
ção na valva tricúspide com velocidade de 4,42 m/s e pressão de 78,3 mmHg.

34 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


al. (2004) definem HP leve como uma PAP sistólica no diagnóstico da HP. Em cães, tem sido usado para
entre 30 e 55 mmHg, moderada entre 56 e 79 mmHg discriminar doença cardíaca de doença respiratória,
e grave em 80 mmHg ou maior. A quantificação da enquanto, em humanos, para estratificar a gravidade
HP pode definir melhor prognóstico e auxiliar na da doença. No estudo de Sastravaha et al. (2010), as
conduta terapêutica. concentrações séricas de NT-proBNP em cães com In-
Além da avaliação e quantificação dos volumes suficiência Cardíaca Congestiva (ICC) foi significativa-
regurgitantes, outros índices ecocardiográficos podem mente maior (2.977 ± 184 pmol/L) que em cães com
predizer indiretamente a possibilidade da presença de doença cardíaca sem ICC (611 ± 46 pmol/L) e doença
HP, como o Índice de Performance Miocárdica do Ven- respiratória (583 ± 52 pmol/L).
trículo Direito (IPM-VD). Esse índice (Figura 2) tem de- O cateterismo cardíaco direito, apesar de considera-
monstrado uma correlação positiva com a presença de do o exame padrão ouro para diagnosticar a HP, na Medi-
HP secundária em cães com DMVM. Segundo Kellihan cina Veterinária ainda não é uma realidade, uma vez que
e Stepien (2012), em cães, um IPM-VD superior a 0,25 possui custo elevado e equipamentos específicos. Além
é favorável ao diagnóstico de HP. disso, essa técnica necessita da utilização de anestésicos,
o que pode ser um risco aos pacientes, principalmente
aqueles em estado crítico. Soydan et al. (2015) demons-
tram que o exame ecodopplercardiográfico para estimar
a PAP em cães é satisfatório e apresenta uma moderada
correlação com uso de cateterismo cardíaco direito.

TRATAMENTO
É importante ressaltar que, até o momento, a doença
não tem cura e o paciente necessita de tratamento por
toda a vida. Os objetivos da terapia são melhorar os sinais
clínicos, diminuir a pressão pulmonar e a sobrecarga do
T Figura 2. Exame ecocardiográfico demonstrando obtenção do IPM-VD.
O índice é calculado a partir dos fluxos sanguíneos obtidos pelo Doppler
ventrículo direito, reduzir a progressão da doença e, com
pulsado na fase diastólica da valva tricúspide (imagem à esquerda) e na isso, obter maior sobrevida e melhora da qualidade de
fase sistólica da valva pulmonar (imagem à direita). Para cada ciclo car-
díaco, há duas ondas na fase diastólica: onda E (diástole precoce) e onda vida do paciente (SUBRAMANYAM et al., 2010).
A (diástole final). Mede-se a distância entre a extremidade da onda A Como a maioria dos casos de HP em cães e gatos é
(fechamento da valva tricúspide) e o início da onda E’ (abertura da valva
tricúspide no ciclo seguinte). O fluxo pulmonar é utilizado para calcular do tipo 2, o tratamento visa a eliminar ou melhorar o esta-
o tempo de ejeção pulmonar (TE = duração do fluxo, determinado pelo do da doença subjacente. Por esse motivo, o tratamento
início e fim do envelope espectral). A diferença entre a duração AE e TE
corresponde à soma dos tempos isovolumétricos (diástole e sístole). O varia de acordo com os sinais clínicos apresentados pelo
índice é definido como a relação entre a diferença (AE - TE) e TE.
paciente; além disso, conseguir um tratamento efetivo
para HP grave é muito difícil de ser alcançado, devido ao
O speckle tracking bidimensional (2D-STE) é fato de que muitas causas secundárias possuem caráter
uma das mais recentes ferramentas de ultrassono- progressivo e resultam em alterações irreversíveis na vas-
grafia que permitem o acesso à função miocárdica. culatura pulmonar (ATKINSON et al., 2009).
Tem sido empregado para avaliação mais precoce da As opções de tratamento para os cães incluem
função ventricular e do efeito da HP sobre a função bloqueadores do canal de cálcio, diuréticos, inibido-
dos ventrículos direito e esquerdo. Estudos como de res da enzima conversora da angiotensina, digoxina e
Nishimura et al. (2012) têm avaliado a relação entre tromboprofilaxia, mas são muitas vezes ineficazes em
a deformação radial e a hipertrofia ventricular es- cães com HP grave. Já as medicações de uso humano
querda em pacientes hipertensos. Além disso, tem incluem três grupos de fármacos: os bloqueadores dos
sido sugerida uma avaliação quantitativa da contra- receptores de endotelina, os inibidores da fosfodieste-
tilidade do ventrículo direito por meio do 2D-STE rase e os análogos da prostaciclina. No entanto, a res-
para obter um valor prognóstico significativo (FINE posta dos pacientes à terapia também é insatisfatória
et al., 2013). (RAMOS et al., 2015).
Alguns biomarcadores, como o peptídeo natriuré- O sildenafil é o fármaco mais recentemente utiliza-
tico cerebral (BNP), têm sido utilizados como auxiliares do na rotina da clínica médica para o controle da HP em

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 35


pequenos animais. Possui efeito inibidor da fosfodies- BOON, J.A. Hypertensive heart disease-pulmonary hypertension. In_: BOON,
J.A. (Ed.) Veterinary Echocardiography. 2Ed. Blackwell Publishing, Iowa, United
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têm diferentes distribuições e afinidades de substrato DIAS, M.M.; RUFINO R.; FERREIRA E. et al. Investigação hemodinâmica da hiper-
tensão pulmonar. Pulmão, v.24, n.2, p.19-24, 2015.
nos tecidos, com expressão abundante da PDE5 em te- FINE, N.M.; CHEN, L.; FRANTZ, R.P. et al. Right Ventricular Systolic Strain Predicts
cidos pulmonares. Seu efeito inibitório resulta em au- Outcomes in Pulmonary Hypertension: A Prospective Evaluation. The Journal
of Heart and Lung Transplantation, v.32, n.4, p.77, 2013.
mento das concentrações de guanosina monofosfato cí- GUAZZI, M.; TUMMINELLO, G.; Di MARCO, F. et al. The effects of phosphodiestera-
clica (GMPc) e, dessa forma, promove uma vasodilatação se-5 inhibition with sildenafil on pulmonary hemodynamics and diffusion capa-
city, exercise ventilatory efficiency, and oxygen uptake kinetics in chronic heart
mediada pelo óxido nítrico (BACH et al., 2006). failure. Journal of the America College of Cardiology, v.44, n.12, p.2339-2348,
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O sildenafil pode produzir efeitos benéficos na HP
HAWKINS, E.C. Doenças do Parênquima e Vasculatura Pulmonar. In:_ NELSON,
por mecanismos múltiplos, mas o principal parece ser R.W.; COUTO, C.G. (Eds). Medicina interna de pequenos animais. 4ed. Saunders
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a vasodilatação direta da artéria pulmonar. Ainda, pode
HENIK, R.A. Pulmonary hypertension. In_: BONAGURA, J. D.; TWEDT, D. C. (Eds).
melhorar a condutância da membrana capilar do alvéo- Kirk’s current veterinary therapy XIV. 14Ed. Saunders Elsevier, St Louis, Mis-
souri, United States of America, Chap156, p.697-702, 2009.
lo e a troca gasosa, bem como contribuir para a prote-
JOHNSON, L.; BOON, J.; ORTON, E.C. Clinical characteristics of 53 dogs with
ção da permeabilidade das células endoteliais, atenua- Doppler-derived evidence of pulmonary hypertension: 1992-1996. Journal of
Veterinary Internal Medicine, v.13, n.5, p.440-447, 1999.
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KELLIHAN, H.B.; STEPIEN, R.L. Pulmonary hypertension in canine degenerati-
gás alveolar (GUAZZI et al., 2004). ve mitral valve disease. Journal of Veterinary Cardiology, v.14, n.1, p.149-
Nos cães, o uso desse fármaco tem demonstrado 164, 2012.
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RAMOS, R.P.; FERREIRA, E.V.M.; ARAKAKI, J.S.O. Estratégias do Tratamento da Hi-
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Serum NT-proBNP Levels in Dogs with Respiratory Distress Associated with
entanto, a dose terapêutica utilizada é variável, demons- Heart disease and Respiratory Disease. The Thai Journal of Veterinary Medici-
trando a ausência de padronização (0,5 a 3,0 mg/kg, uma, ne, v.40, n.3, p.289-295, 2010.
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SUBRAMANYAM, N.M.; NOSSAMAN, B.D.; KADOWITZ, P.J. New approaches to the
dan possibilitou, em curto prazo, a redução da gravi- treatment of pulmonary hypertension. Cardiology in Review, v.18, p.76-84, 2010.
dade da doença, melhorou a qualidade de vida dos
pacientes e reduziu os níveis de BNP. Em longo prazo,
só foi observada redução da velocidade do fluxo re-
gurgitante da valva tricúspide (ATKINSON et al., 2009). AUTORES

CONSIDERAÇÕES FINAIS MARIANA DE RESENDE COELHO


Médica-veterinária
A HP ainda é um desafio para os clínicos, uma vez CRMV-MG nº 14001
que na Medicina Veterinária ela ocorre principalmente na MSc, doutoranda em Ciências Veterinárias na Universidade Federal de
Lavras (UFLA)
forma secundária, o que pode dificultar a eficácia do tra-
CLAUDINE BOTELHO DE ABREU
tamento, bem como a taxa de sobrevida. Além disso, não Médica-veterinária
CRMV-MG nº 13286
estão bem estabelecidas as doses terapêuticas e o trata- MSc, doutoranda em Ciências Veterinárias na UFLA
mento instituído é apenas paliativo, objetivando melhora RUTHNEA APARECIDA LÁZARO MUZZI
da qualidade de vida do paciente. Recomendam-se mais Médica-veterinária
CRMV-MG nº 4671
estudos sobre os medicamentos disponíveis, bem como MSc, DSc, PhD, docente da UFLA

desenvolvimento de drogas mais específicas. LUIZ EDUARDO DUARTE DE OLIVEIRA


Médico-veterinário
CRMV-MG nº 13455
MSc, doutorando em Ciências Veterinárias na UFLA

LORENA LORRAINE ALVES FURTADO


REFERÊNCIAS Médica-veterinária
CRMV-MG nº 14278
ATKINSON, K.J.; FINE, D.M.; THOMBS, L.A. et al. Evaluation of pimobendan and MSc, autônoma
N-terminal probrain natriuretic peptide in the treatment of pulmonary hyper-
tension secondary to degenerative mitral valve disease in dogs. Journal of Ve- LEONARDO AUGUSTO LOPES MUZZI
terinary Internal Medicine, v.23, n.6, p.1190-1196, 2009. Médico-veterinário
BACH, J.F.; ROZANSKI, E.A.; MacGREGOR, J. et al. Retrospective evaluation of CRMV-MG nº 4672
sildenafil citrate as a therapy for pulmonary hypertension in dogs. Journal of MSc, DSc, PhD, docente da UFLA
Veterinary Internal Medicine, v.20, n.5, p.1132-1135, 2006.

36 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


Suplemento
científico
Revista CFMV
Brasília DF
Ano XXV nº 82

38
Primeira detecção de DNA de Anaplasma platys e
Ehrlichia canis em Culex spp.

45
Modelo sintético de medula espinhal de cão
para ensino de lesões segmentares

52
Os efeitos da música clássica na
produção de leite de vacas

56
Redução de coroa clínica em dentes caninos
mandibulares com hipercrescimento em suíno da
linhagem Yucatan – relato de caso

A SUBMISSÃO DE NOVOS ARTIGOS ESTÁ TEMPORARIAMENTE SUSPENSA. EM BREVE, DIVULGAREMOS,


EM NOSSO PORTAL E MÍDIAS SOCIAIS, NOVAS NORMAS PARA APRESENTAÇÃO.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 37


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

PRIMEIRA DETECÇÃO DE DNA DE ANAPLASMA


PLATYS E EHRLICHIA CANIS EM CULEX SPP.
FIRST DETECTION OF DNA OF ANAPLASMA PLATYS AND
EHRLICHIA CANIS IN CULEX SPP.

RESUMO

As erliquioses são causadas por bactérias gram-negativas e podem ocorrer em um grande número de animais,
incluindo o ser humano. Nos cães, a Ehrlichia canis e a Anaplasma platys (Ehrlichia platys) causam pancitopenia
tropical canina e anaplasmose trombocítica, respectivamente, e têm como vetor o carrapato Rhipicephalus
sanguineus, que, durante o repasto sanguíneo, inocula com a saliva as formas infectantes de Rickettsias. O
objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de culicídeos naturalmente infectados por hemoparasitos
em diferentes áreas da região Noroeste do estado de São Paulo, Brasil, e relatar a primeira detecção de DNA
de E. canis e A. platys em Culex spp. Armadilhas luminosas e de gás carbônico foram instaladas para captura
dos mosquitos. Os culicídeos foram separados em nível de espécie, formando grupos que, posteriormente,
foram triturados em solução fisiológica salina estéril e congelados. Essas amostras foram analisadas por
meio da técnica de real time PCR. Dos sete grupos analisados, 100% (7/7) apresentaram amplificação
positiva para E. canis e 42,8% (3/7), para A. platys. Não houve amplificação positiva nas amostras para
Babesia canis, Rangelia vitalii, Mycoplasma haemocanis e Leishmania infantum. Todos os grupos infectados
corresponderam àqueles compostos pelo gênero Culex, ocorrendo entre as espécies Culex quinquefasciatus
e Culex pipiens. O número de Aedes aegypti capturado foi inexpressivo quando comparado com Culex sp. e
resultou como negativo nos testes. Este estudo demostra o primeiro relato da infecção natural de mosquitos
do gênero Culex por A. platys e E. canis, fazendo-se, assim, necessária a realização de mais pesquisas sobre a
possibilidade de mosquitos atuarem no ciclo das erliquioses.

Palavras-chave: Anaplasmose. Bactéria gram-negativa. Erliquiose. Pancitopenia tropical canina. Pernilongos.

ABSTRACT

Ehrlichiosis are diseases caused by gram-negative bacteria and can occur in a large number of animals, including
humans. In dogs, the Ehrlichia canis and Anaplasma platys (Ehrlichia platys) can cause the canine tropical
pancytopenia and the thrombocytic anaplasmosis, respectively, and have as vector the Rhipicephalus sanguineus
which, together with saliva inoculates the Rickettsias. The objective of this study was to evaluate the prevalence of
culicidae naturally infected by hemoparasites in different areas of the northwest region of São Paulo state, Brazil and
report the first detection of DNA of E. canis and A. platys in Culex spp. Traps of light and carbon dioxide were installed
to catch mosquitoes. Culicidae were separated at the species level forming groups that were macerated in sterile
physiological saline solution and frozen. These samples were analyzed by means of the Real Time - PCR technique.
Of the seven groups analyzed, 100.0% (7/7) presented positive amplification for E. canis and 42.8 (3/7) for A. platys.
There was no positive amplification in the samples for Babesia canis, Rangelia vitalii, Mycoplasma haemocanis and
Leishmania infantum. All the infected groups corresponded to those composed by the genus Culex, occurring between
the species Culex quinquefasciatus and Culex pipiens. The number of Aedes aegypti captured was inexpressive when
compared to Culex spp. and was negative in the tests. This study shows the first report of the natural infection of
mosquitoes of the genus Culex sp. by A. platys and E. canis, thus making it necessary to implement further studies on
the possibility of mosquitoes being able to act in the cycle of the ehrlichiosis.

Keywords: Anaplasmosis. Canine tropical pancytopenia. Erhlichiosis. Gram-negative bacteria. Mosquitoes.

38 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

INTRODUÇÃO
Os carrapatos são vetores de grande número de como E. platys (DUMLER et al., 2001). Além dessas Rickett-
doenças aos animais e seres humanos. Entre essas sias, os carrapatos podem atuar como vetores da mico-
enfermidades, se destaca a transmissão de bactérias plasmose (DANTAS-TORRES, 2008), babesiose (SILVA et
do gênero Rickettsia (GUEDES et al., 2005; YU et al., al., 2014) e rangeliose (SILVEIRA et al., 2014).
2007), sendo o carrapato Rhipicephalus sanguineus Entre as diversas zoonoses de transmissão ve-
o principal vetor da erliquiose canina (GROVES et al., torial, destaca-se a leishmaniose, doença parasitária
1975; SILVA et al., 2010). O potencial zoonótico dessa transmitida por dípteros hematófagos conhecidos
doença encontra fundamentação em diversas pesqui- como flebótomos, sendo, no Brasil, a espécie Lut-
sas, em que fica demonstrada a similaridade genética zomyia longipalpis o principal transmissor da doen-
de E. canis detectada em carrapatos, cães e humanos ça entre animais e seres humanos (DANTAS-TORRES,
infectados numa mesma área (DORAN et al., 1989; 2008). Semelhantemente aos carrapatos e flebóto-
GOLDEN et al., 1989). mos, os culicídeos são vetores de diferentes agentes
Os ixodídeos parasitam grande número de animais, patogênicos, com destaque para a malária, as filario-
particularmente os mamíferos. Por serem parasitas intra- ses e várias arboviroses, como dengue, Chikungunya,
celulares obrigatórios, as diferentes espécies de Ehrlichia Zika vírus, febre amarela, além de várias encefalites
podem infectar monócitos (E. canis, E. risticii, E. sennetsu), virais (GOUVEIA DE ALMEIDA, 2011).
granulócitos (E. ewingii, E. equi, E. phagocytophila) e trom- O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência
bócitos (Anaplasma platys), denominadas atualmente de culicídeos naturalmente infectados por hemopara-

T Figura 1. Locais de captura de culicídeos no município de Andradina, São Paulo, Brasil (marcadores amarelos) – 2018.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 39


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

sitos em diferentes áreas da região Noroeste do esta- dradina, onde se encontra abrigado grande número de
do de São Paulo, Brasil, e relatar a primeira detecção cães e gatos durante todo o ano, seja por um período
de DNA de E. canis e A. platys em Culex spp. transitório, seja permanente. Armadilhas luminosas e
de gás carbônico foram instaladas em diferentes loca-
MATERIAL E MÉTODOS lidades das cidades de Andradina (latitude 20°53’38”
Local do estudo Sul, longitude 51°23’1” Oeste, 405 m de altitude) e Ilha
O critério utilizado para distribuição das armadi- Solteira (latitude 20°25’52” Sul, longitude 51°20’33”
lhas foi baseado na distribuição espacial norte/sul das Oeste, 366 m de altitude), estado de São Paulo, Brasil
cidades, incluindo a parte leste do município de An- (Figuras 1 e 2).

T Figura 2. Locais de captura de culicídeos no município de Ilha Solteira, São Paulo, Brasil (marcadores amarelos) – 2018.

Foram instaladas armadilhas no ambiente interno ciação de Andradina um total de 30 cães e, em Ilha Sol-
e externo de duas associações protetoras de animais teira, 45 cães e 27 gatos. Esses animais eram de dife-
(Figura 3). No período do experimento, havia na asso- rentes raças, faixas etárias, incluindo machos e fêmeas.

40 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

Formou-se um total de sete grupos a partir de sua


espécie e local de origem, que, posteriormente, foram
triturados em solução fisiológica salina estéril, tamisa-
dos, aliquotados em tubo plástico Vacuplast® estéril
contendo EDTA K3 num volume mínimo de 2 mL, e con-
gelados a -20 °C até a extração do DNA genômico, uti-
lizando oligonucleotídeos de gênero específico para o
gene 16S rRNA de Ehrlichia spp. e oligonucleotídeos
Ebr1 (sense) 5’-CCT CTG GCT ATA GGA AAT TG- 3’ e Ebr5
(antisense) 5’ -GGA GTG CTT AAC GCG TTA G- 3’ C com
temperatura de anelamento de 53 °C para a reação
em cadeia de polimerase (PCR) e amplificação do frag-
mento-alvo de 765 pb de E. canis, conforme descrito
por Alves et al. (2005).
A PCR para amplificação do fragmento de 556 pb
do gene 16S rRNA de A. platys foi realizada utilizan-
do primers EPLAT5 (sense) 5’-TTT GTC GTA GCT TGC TAT
GAT-3’ (MATHEW et al., 1997) e ERB2 (antisense) 5’
CTC CGG ACT CTA GTC TG-3’) (ENGVALL et al., 1996),
com temperatura de anelamento de 72 °C. As amos-
tras foram enviadas para laboratórios de referência em
diagnóstico e sanidade animal, junto de uma amostra
de sangue de cão positivo na citologia para E. canis e
outro para A. platys.
Após a divulgação dos resultados para E. canis e A.
platys, foi solicitada ao laboratório a inclusão do painel
PCR real time multiplex (sondas TaqMan) para os agentes
B. canis, R. vitalii, M. haemocanis e L. infantum nas amos-
tras de teste.

RESULTADOS
Dos sete grupos analisados, 100% (7/7) apre-
sentaram amplificação positiva na PCR para E. canis
T Figura 3. Armadilhas para captura de culicídeos instaladas na parte in- e 42,8% (3/7), para A. platys. Não houve amplificação
terna (superior) e externa (inferior) dos abrigos de animais – 2018.
positiva nas amostras para B. canis, R. vitalii, M. haemo-
canis e L. infantum.
Todos os grupos infectados corresponderam àque-
Formação dos grupos e extração do DNA
les compostos pelo gênero Culex, ocorrendo entre as
Os culicídeos capturados foram separados com espécies Culex quinquefasciatus e Culex pipiens (Qua-
identificação para tribos e gênero de Culicinae adultos dro 1). O número de Aedes aegypti (cinco exemplares)
e em nível de espécie, conforme descrito por Consoli e capturado foi inexpressivo quando comparado com
Oliveira (1998) (Figura 4). Culex sp. e resultou como negativo nos testes.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 41


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

T Figura 4. Pool de insetos capturados por meio de armadilha luminosa (esquerda), separação e classificação dos insetos (direita) – 2018.

QUADRO 1. PREVALÊNCIA DE HEMOPARASITOS EM CULICÍDEOS CAPTURADOS NA REGIÃO NOROESTE DO


ESTADO DE SÃO PAULO, BRASIL.
Andradina Ilha Solteira

Área 1 Área 2 Área 3 Área 4 Área 5 Área 1 Área 2

A. platys --- --- --- XCq XCq XCq ---

E. canis XCp XCq XCp XCq XCq XCq XCq

B. canis --- --- --- --- --- --- ---

L. infantum --- --- --- --- --- --- ---

M. haemocanis --- --- --- --- --- --- ---

R. vitalii --- --- --- --- --- --- ---

Notas: X = PCR real time positiva. --- = PCR real time negativa. Cq = Culex quinquefasciatus. Cp = Culex pipiens.

DISCUSSÃO
Este é o primeiro relato da infecção natural de avaliação da competência vetorial de culicídeos na
culicídeos por Ehrlichia spp. e, frente a estes acha- transmissão das Rickettsias com base no ciclo bioló-
dos, far-se-á necessária uma abordagem sobre a gico desses agentes.

42 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

Os mosquitos são vetores de numerosas doenças, pode ser semelhante ao de E. canis, podendo infectar,
incluindo protozoários, helmintos e numerosos vírus, inclusive, a população de gatos domésticos (LIMA et al.,
apresentando elevada capacidade de adaptação, pro- 2010), uma vez que a transmissão experimental de A.
liferação e dispersão no meio ambiente (GOUVEIA DE platys por R. sanguineus como vetor não foi comprova-
ALMEIDA, 2011). Complementa-se a importância dos da (RAMOS et al., 2014).
mosquitos na epidemiologia das zoonoses com a re- A transmissão de anaplasmas tem sido objeto
cente descoberta da infecção natural de A. aegypti por de discussão entre os pesquisadores, especialmen-
Leishmania spp. (COELHO et al., 2017). te sobre os meios de transmissão e a importância
Os carrapatos destacam-se na transmissão de epidemiológica de possíveis vetores. Em relação à
doenças aos animais, particularmente a erliquiose anaplasmose bovina, por exemplo, a infecção por
(SOUZA et al., 2010; SILVA et al., 2011). Ao realizar Anaplasma marginale ocorre por meio dos carrapa-
o repasto sanguíneo em animais infectados, a Ehrli- tos ixodídeos, predominantemente Boophilus mi-
chia spp. multiplica-se no interior do carrapato, que croplus. No entanto, sugere-se a possibilidade de
passa a transmitir as formas infectantes, inoculando- transmissão iatrogênica e transplacentária, além de
-as com a saliva (SAITO et al., 2008). Entretanto, com outros insetos hematófagos como vetores (KESSLER,
exceção dos carrapatos, a transmissão de Rickettsia 2001). Kessler (2001) sugere ainda que a capacida-
felis (HORTA et al., 2006) e Rickettsia acari tem as de de transmissão de A. marginale para insetos he-
pulgas e os ácaros como vetores, respectivamente matófagos deve ser objeto de mais pesquisas, antes
(YU; WALKER, 2004). de considerá-la vetor de importância epidemiológi-
A competência vetorial de outros ectoparasitos ca, o que está de acordo com este estudo.
na transmissão da erliquiose foi analisada por Lemos- Nesta pesquisa, não foi constatada a amplificação
-Monteiro et al. (1932), que avaliaram a infecção de de DNA de B. canis, R. vitalii e M. haemocanis nos culicí-
pulgas, piolhos, percevejos e ácaros na transmissão da deos. Todavia, não se pode afirmar que os pernilongos
febre maculosa e nada constataram. não serão infectados em outro momento, porque se tra-
Devido à similaridade genética encontrada en- ta de um trabalho pontual que não avaliou a incidência
tre a E. canis obtida de pessoas doentes (PERES et al., desses hemoparasitos nos culicídeos. A literatura cien-
1996) e a E. canis encontrada em cães e carrapatos de tífica contempla que a transmissão de hematozoários,
uma mesma área, atribui-se a transmissão zoonótica como B. canis, R. vitalii e M. haemocanis, ocorre a partir
dessa Rickettsia ao R. sanguineus (UNVER et al., 2001), de carrapatos infectados (SILVA et al., 2014) e que, no
que pode ser encontrado parasitando seres humanos ciclo das leishmanioses, embora o vetor competente
(DANTAS-TORRES et al., 2006). Como diferentes espé- sejam os flebótomos (DANTAS-TORRES, 2008), o DNA
cies de carrapatos podem parasitar os seres humanos, desse protozoário tem sido detectado em outros pa-
muitas outras espécies de Ehrlichia também podem in- rasitos artrópodes, como mutucas (COELHO; BRESCIA-
fectá-los (DUMLER et al., 2007). NI, 2013), carrapatos, pulgas (COLOMBO et al., 2011) e
Neste estudo, demonstra-se também o primeiro mosquitos (COELHO et al., 2017).
relato da infecção natural de culicídeos por A. platys.
Embora seja aceito que, na epidemiologia das Rickett- CONCLUSÃO
sias, a transmissão entre cães ocorra principalmente Este estudo demostra o primeiro relato da infecção
pelo carrapato R. sanguineus (INOKUMA, 2000; RAMOS natural de mosquitos do gênero Culex sp. por A. platys
et al., 2014), Almeida et al. (2010, 2012) alertam que e E. canis, fazendo-se, assim, necessária a implementa-
o ciclo de desenvolvimento de A. platys no cão ainda ção de mais estudos sobre a possibilidade de os mos-
não está completamente definido, sugerindo que ele quitos atuarem no ciclo destes.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 43


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

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AUTORES
WILLIAN MARINHO DOURADO COELHO LUCIANO ALVES DO ANJOS ANTÔNIO GILBERTO GASPARELLI JR.
Médico-veterinário Biólogo Médico-veterinário
CRMV-SP nº 22512 CRBIO nº 451688-6 CRMV-SP nº 21963
Departamento de Patologia Animal da Faculdade Departamento de Biologia e Zootecnia da Unesp,
de Ciências Agrárias de Andradina (FCAA) campus Ilha Solteira (SP) ROBSON DOURADO
willianmarinho@hotmail.com Acadêmico de Medicina Veterinária na FCAA
JULIANA DE CARVALHO APOLINÁRIO COÊLHO
FABIANO ANTONIO CADIOLI Fisioterapeuta KATIA DENISE SARAIVA BRESCIANI
Médico-veterinário CREFITO nº 71837-f Médica-veterinária
CRMV-SP nº 1081 Estudante de Enfermagem na FCAA CRMV-SP nº 7161
Departamento de Clínica, Cirurgia e Reprodução Departamento de Apoio, Produção e Saúde
Animal da Universidade Estadual Paulista AZIZ ABDELNOUR Animal da Unesp, campus Araçatuba (SP)
(Unesp), campus Araçatuba (SP) Médico-veterinário
CRMV-SP nº 44075

44 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

MODELO SINTÉTICO DE MEDULA ESPINHAL DE


CÃO PARA ENSINO DE LESÕES SEGMENTARES
SYNTHETIC MODEL OF CANINE SPINAL CORD FOR THE
TEACHING OF SEGMENTAL LESIONS
RESUMO

Métodos alternativos de ensino são desenvolvidos para diminuir ou mesmo excluir o uso de animais na
educação. Na Medicina Veterinária, muitos confrontos éticos e morais ocorrem diante do uso de animais,
que implica limitações na qualidade do conteúdo fornecido ao estudante pela falta de métodos que
substituam ou diminuam o número ou o sofrimento dos animais. O estudo prático da neurologia veterinária
é um dos grandes desafios no ensino, devido à dificuldade dos estudantes de interpretar o exame clínico e
correlacioná-lo com a neuroanatomia. Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi desenvolver um modelo
sintético que simulasse lesões na medula espinhal de cães e as alterações observadas nos principais reflexos
testados na rotina clínica. Foram projetados quatro esquemas de lesões, um para cada segmento da medula
e alterações encontradas nos principais testes neurológicos nos segmentos medulares craniais e caudais
a cada lesão. A medula foi representada com luzes de LED de diferentes cores, que acendiam e apagavam
de acordo com a propagação dos impulsos nervosos e reflexos medulares que se pretendia demonstrar.
O modelo, em associação com dois cães vivos saudáveis, foi aplicado na aula de Semiologia do Sistema
Nervoso. A utilidade do modelo para o aprendizado dos estudantes foi avaliada por meio de um quiz sobre
reflexos medulares, respondido após a aula prática, resultando em 77,5% de acertos. Também foi aplicado
um questionário aos estudantes sobre a eficácia do modelo proposto como forma de ensino. Os discentes
aprovaram a aula prática associando modelo sintético com animal vivo.

Palavras-chave: Cão. Neurologia veterinária. Métodos alternativos. Trauma medular.

ABSTRACT

The use of alternative methods for teaching purposes can reduce or even exclude the use of animals in education. In
veterinary medicine, many ethical and moral confrontations arise from the use of animals, which implies limitations
to the quality of the content provided to the student due to the lack of methods that replace or reduce the number
of animals or their suffering. Veterinary neurology practice is challenging in terms of teaching due to the students’
difficulty in interpreting clinical examination and correlating it to the neuroanatomy. Thus, the aim of this study was
to develop a synthetic model of the canine spinal cord that simulates spinal cord injuries in dogs and the alterations
observed in major reflexes tested in the clinical routine. Four lesion schemes were designed. Each scheme represented
a segment of the spinal cord and its related cranial and caudal neurological alterations found in the reflex tests. The
spinal cord was represented with LED lights of different colors, which turned on and off according to the propagation
of the nerve impulses and spinal reflexes that it was intended to show. In a practical class of veterinary semiology
(physical animal examination), the synthetic spinal cord model and two healthy live dogs were used. The model’s
usefulness to the students’ knowledge was evaluated through a quiz about spinal cord reflexes, resulting in 77,5%
correct answers. The students also answered a questionnaire about the effectiveness of the spinal cord model in
learning. They approved practical class’s use of a synthetic model in conjunction with a living animal.

Keywords: Alternative methods. Dog. Spinal cord trauma. Veterinary neurology.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 45


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

INTRODUÇÃO
As síndromes medulares são causadas por lesão em foram desenhados cinco esquemas, sendo um repre-
algum segmento da medula espinhal. Podem ocorrer sentando a medula sem lesões e quatro, lesões em dis-
por traumas, tumores, doenças degenerativas na colu- tintos segmentos, tendo como base a divisão neuroa-
na vertebral ou na medula espinhal em si (ESCALHÃO, natômica dela. As lesões representadas foram: cervical,
2010). A localização da lesão, normalmente, é possível cervicotorácica, toracolombar e lombossacra.
realizando somente um bom exame físico do paciente Os esquemas foram planejados para ser repro-
(MARQUES JR. et al., 2013). Dessa forma, o conhecimen- duzidos, posteriormente, em um modelo com luzes
to da anatomia e do funcionamento da medula espinhal, LED que acendessem, apagassem ou alterassem sua
incluindo reflexos medulares, é de extrema importância intensidade de acordo com a representação de cada
para a formação de um bom profissional. lesão (os autores podem disponibilizar o relatório da
Nas aulas de neurologia da disciplina Semiologia montagem do circuito para os interessados). Cada um
Geral Veterinária de nossa universidade, tradicional- representava o paciente hígido ou com lesão em um
mente são utilizados cães saudáveis (pertencentes aos segmento medular, para demonstrar de forma faci-
próprios estudantes) para demonstração prática dos litada quais reflexos e regiões estariam responsivos
reflexos medulares, porém a demonstração em casos (aceso) ou não responsivos (apagado) e as diferentes
de lesões nos segmentos medulares não é realizada intensidades do reflexo patelar (normal, aumentado ou
em aula prática. Por questões éticas, a única possibili- diminuído) (Figuras 1A, 2A, 3A, 4A e 5A).
dade para que os alunos acompanhem o exame físico O modelo foi confeccionado utilizando uma co-
de um animal com lesão medular seria se assistissem luna vertebral sintética de cão, que serviu como base
a uma consulta de rotina de um paciente naturalmen- para inserção dos fios e luzes. Um único modelo foi
te lesionado. Mesmo assim, por questões logísticas de suficiente para acoplar os sistemas de luzes dos cinco
coincidir a consulta com o horário da aula, conseguir esquemas propostos. As vértebras foram marcadas de
diferentes pacientes com lesões em distintos segmen- forma a facilitar sua identificação com o local corres-
tos medulares e incluir uma grande quantidade de pondente da lesão. As Figuras 1B, 2B, 3B, 4B e 5B mos-
estudantes no ambulatório da consulta, esse acompa- tram o modelo em funcionamento.
nhamento, na prática, se torna inviável.
Métodos alternativos ao uso de animais são utiliza-
dos em diversos centros de ensino (CERQUEIRA, 2008),
mas, na literatura pesquisada, não foram encontrados
modelos de lesões medulares para auxiliar no ensino
da neurologia veterinária. Dessa forma, o objetivo deste
trabalho foi desenvolver um modelo de coluna verte-
bral com medula espinhal de cão para auxiliar no estudo
anatômico e demonstrativo dos reflexos medulares em
cão saudável e nas síndromes neurológicas cervical, cer-
vicotorácica, toracolombar e lombossacra. Objetivou-se,
ainda, avaliar a assimilação do conteúdo da aula prática
pelos estudantes, bem como sua aceitação do modelo. T Figura 1. A - Esquema de medula espinhal de cão sem lesões. As setas
com círculos verdes representam os neurônios sensitivos (aferentes) dos
reflexos flexores do membro torácico e do membro pélvico e as setas
com círculos amarelos, os neurônios motores (eferentes). A seta com
MATERIAL E MÉTODOS círculos vermelhos representa o neurônio sensitivo (aferente) do reflexo
Para demonstração das diferentes lesões medula- patelar e a seta com círculos azuis, o neurônio motor (eferente). Por se
tratar de um animal sem alterações, todas as luzes estão acesas e com
res e suas implicações nos reflexos flexores de mem- intensidade normal. B - Representação no modelo de um animal saudá-
bros torácicos e pélvicos e reflexo patelar, inicialmente vel, com os reflexos flexores e patelar preservados.

46 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

T Figura 2. A - Esquema de uma lesão em segmento cervical de medula espi- T Figura 4. Esquema de uma lesão em segmento toracolombar de medula espi-
nhal de cão e repercussão nos reflexos flexores e patelar. O X indica o local nhal de cão e repercussão nos reflexos flexores e patelar. O X indica o local da
da lesão e a representação gráfica mostra que as luzes na medula após a lesão e a representação gráfica mostra que as luzes na medula após a lesão
lesão não se acendem mais. As setas com círculos verdes representam os não se acendem mais. As setas com círculos verdes representam os neurônios
neurônios sensitivos (aferentes) dos reflexos flexores do membro toráci- sensitivos (aferentes) dos reflexos flexores do membro torácico e do membro
co e do membro pélvico e as setas com círculos amarelos, os neurônios pélvico e as setas com círculos amarelos, os neurônios motores (eferentes).
motores (eferentes). A seta com círculos vermelhos representa o neurônio A seta com círculos vermelhos representa o neurônio sensitivo (aferente) do
sensitivo (aferente) do reflexo patelar e a seta com círculos azuis, o neurô- reflexo patelar e a seta com círculos azuis, o neurônio motor (eferente). Nessa
nio motor (eferente). Nessa lesão, o reflexo patelar se mostra aumentado; lesão, o reflexo patelar se mostra aumentado; suas luzes devem, então, ser
suas luzes devem, então, ser representadas com maior intensidade. B - Re- representadas com maior intensidade. B - Representação da lesão toracolom-
presentação da lesão cervical no modelo. Observar a ausência de luzes na bar no modelo. Observar a ausência de luzes na medula caudal à lesão, com
medula caudal à lesão, porém com reflexo flexor preservado. As luzes azuis reflexo flexor de membros torácicos e pélvicos preservado. As luzes azuis de
de maior intensidade representam o reflexo patelar aumentado. maior intensidade representam o reflexo patelar aumentado.

T Figura 3. A - Esquema de uma lesão em segmento cervicotorácico (intu- T Figura 5. A - Esquema de uma lesão no segmento lombossacro (intumes-
mescência cervicotorácica) de medula espinhal de cão e repercussão nos cência lombossacra) de medula espinhal de cão e repercussão nos reflexos
reflexos flexores e patelar. O X indica o local da lesão e a representação flexores e patelar. O X indica o local da lesão e a representação gráfica mos-
gráfica mostra que as luzes na medula após a lesão não se acendem mais. tra que as luzes na medula após a lesão não se acendem mais. As setas com
As setas com círculos verdes representam os neurônios sensitivos (aferen- círculos verdes representam os neurônios sensitivos (aferentes) dos reflexos
tes) dos reflexos flexores do membro torácico e do membro pélvico e as flexores do membro torácico e do membro pélvico e as setas com círculos
setas com círculos amarelos, os neurônios motores (eferentes). A seta com amarelos, os neurônios motores (eferentes). A seta com círculos vermelhos
círculos vermelhos representa o neurônio sensitivo (aferente) do reflexo representa o neurônio sensitivo (aferente) do reflexo patelar e a seta com
patelar e a seta com círculos azuis, o neurônio motor (eferente). Nessa le- círculos azuis, o neurônio motor (eferente). Nessa lesão, o reflexo patelar se
são, o reflexo patelar se mostra aumentado; suas luzes devem, então, ser mostra diminuído; suas luzes devem, então, ser representadas com menor
representadas com maior intensidade. Há também alteração na resposta intensidade. Há também alteração na resposta do reflexo flexor do membro
do reflexo flexor do membro torácico, portanto as luzes do neurônio motor pélvico e suas luzes não se acendem, portanto as luzes do neurônio motor
não se acendem. B - Representação da lesão cervicotorácica no modelo. não se acendem. B - Representação da lesão da intumescência lombossacra
Observar a ausência de luzes na medula caudal à lesão, com reflexo flexor no modelo. Observar a ausência de luzes na medula caudal à lesão, com
de membros torácicos ausente (neurônio motor apagado e neurônio sen- reflexo flexor de membros torácicos preservado e de membros pélvicos au-
sitivo aceso) e de membros pélvicos preservado. As luzes azuis de maior sente (neurônio motor apagado e neurônio sensitivo aceso). As luzes azuis
intensidade representam o reflexo patelar aumentado. de menor intensidade representam o reflexo patelar diminuído.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 47


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

O modelo foi utilizado em uma aula da disciplina Após o quiz, foi solicitado aos estudantes que
Semiologia Geral Veterinária, correspondente ao se- respondessem a um questionário considerando
gundo ano do curso de Medicina Veterinária. Primei- sua percepção ou opinião acerca da aula teórica,
ramente, foi ministrada aula teórica de semiologia do prática, utilidade do modelo para seu aprendizado
sistema nervoso, cujo conteúdo contemplava, entre e uso dos cães na aula prática. O questionário foi
outros tópicos, as síndromes medulares. Após a aula composto de 13 questões, sendo seis em escala
teórica, foi ministrada a aula prática, com a utilização Likert, três de múltipla escolha e quatro abertas.
de dois cães saudáveis e do modelo. Os cães foram Foi aplicado em papel impresso e respondido de
empregados para demonstração do exame neurológi- forma anônima.
co, desde os testes de nervos cranianos até os testes A análise dos dados foi realizada por estatística
proprioceptivos, reações posturais e reflexos flexores descritiva, considerando as respostas obtidas no quiz
e patelares normais. O uso deles na aula foi aprovado e no questionário.
pela CEUA-SCA, sob o protocolo nº 023/2013. O mo-
delo foi utilizado para demonstração das alterações RESULTADOS
decorrentes de lesões medulares. Participaram do estudo duas turmas da disciplina
No fim da aula prática, os estudantes participaram Semiologia Geral Veterinária, em um total de 40 estu-
de um quiz com oito perguntas para testar seu conheci- dantes. Durante a aula prática, o modelo foi colocado
mento referente ao conteúdo dado. O teste foi monta- em funcionamento mais de uma vez para que as dúvi-
do por meio do programa on-line gratuito Kahoot, sen- das fossem esclarecidas. O quiz teve 77,5% de acerto
do o link https://create.kahoot.it para a formulação das total e as porcentagens para cada questão estão des-
questões e o link https://kahoot.it para a participação critas na Tabela 1. O método teve aprovação dos es-
dos estudantes. tudantes e suas opiniões estão descritas na Tabela 2.

TABELA 1. QUESTÕES E ALTERNATIVAS DO QUIZ APLICADO NA AULA DE NEUROLOGIA VETERINÁRIA E


PORCENTAGEM DE ACERTOS DOS ESTUDANTES PARA CADA QUESTÃO. AS RESPOSTAS CORRETAS ESTÃO
MARCADAS COM ASTERISCO.
Questão Alternativas Acertos (%)

Lesões em intumescências normalmente causam perda dos Sim*


94,1
reflexos flexores correspondentes? Não

Medula cervical
Medula cervicotorácica
Com o reflexo patelar diminuído, onde se localiza a lesão? 86
Medula toracolombar
Medula lombossacra*

Diante de uma lesão em intumescência cervicotorácica, Sim


84,5
espera-se notar diminuição de reflexo patelar? Não*

Aumento de reflexo patelar e presença de


reflexos flexores em membros pélvicos
Em uma lesão entre L6-L7, quais sinais espera-se notar no
Diminuição de reflexo patelar e ausência 82,2
paciente?
de reflexos flexores de membros
pélvicos*

Continua

48 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

Continuação

Questão Alternativas Acertos (%)

Aumentado
Em uma lesão toracolombar, o reflexo flexor do membro Diminuído
76,5
torácico estará: Ausente
Normal*

Presença de reflexos flexores em


membros pélvicos e torácicos e aumento
de reflexo patelar
Em uma lesão em C6, quais sinais espera-se notar no
Ausência de reflexo flexor de membros 73,5
paciente?
torácicos com presença de reflexo flexor
em membros pélvicos e aumento de
reflexo patelar*

Se o animal tem uma lesão cervicotorácica, o reflexo flexor Presente


54,3
nos membros torácicos estará: Ausente*

Em um paciente com ausência de reflexos flexores em


Sim
membros torácicos, espera-se uma lesão em região 48,1
Não*
cervical?

TABELA 2. OPINIÃO DOS ESTUDANTES SOBRE AULA PRÁTICA DE SEMIOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO COM
ASSOCIAÇÃO DE MODELO SINTÉTICO E CÃO VIVO. QUESTIONÁRIO APLICADO NA AULA DE SEMIOLOGIA GERAL
VETERINÁRIA. DF – DISCORDO FORTEMENTE; D – DISCORDO; N – NEUTRO; C – CONCORDO; CF – CONCORDO
FORTEMENTE (ESCALA LIKERT).
Questão DF D N C CF

Você compreendeu somente com a aula teórica os reflexos 2 21 9 8 0


medulares e o que ocorre com a resposta do neurônio motor (5%) (52,5%) (22,5%) (20%) (0%)
superior e inferior nas lesões medulares.

A aula prática foi essencial para a compreensão dos reflexos 0 0 7 9 24


medulares e o que ocorre com a resposta do neurônio motor (0%) (0%) (17,5%) (22,5%) (60%)
superior e inferior nas lesões medulares.

A utilização do modelo artificial contribuiu para seu 0 0 0 8 32


aprendizado. (0%) (0%) (0%) (20%) (80%)

Após a aplicação do modelo, como você classifica seu nível de 2 0 8 18 12


compreensão. (5%) (0%) (20%) (45%) (30%)

O modelo é útil e deveria continuar nas próximas turmas da 0 0 0 3 37


disciplina Semiologia Veterinária. (0%) (0%) (0%) (7,5%) (92,5%)

Você acha importante a confecção de modelos, como o 0 0 0 5 35


utilizado, para o aprendizado de neurologia. (0%) (0%) (0%) (12,5%) (87,5%)

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 49


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

Considerando as disciplinas já cursadas em Medi- entender a relação entre neurônios motores superiores e
cina Veterinária até o segundo ano da graduação, foi inferiores”; “Foi muito boa e bem didática, permitiu rever
perguntado aos estudantes que nível de dificuldade conceitos”; “Manter o modelo ajuda muito, juntamente
atribuiriam ao estudo da neurologia veterinária: 18 do teste no celular [se referindo ao quiz respondido on-
(45%) consideraram o nível de dificuldade do assunto -line]”; “Foi muito boa a associação da parte teórica e
neutro; 16 (40%), difícil; quatro (10%), muito difícil; e prática em sequência”.
dois (5%), fácil. Quanto à importância da neurologia na
vida profissional, 29 (72,5%) responderam ser extre- DISCUSSÃO
mamente importante e 11 (27,5%), muito importante. Na clínica de cães e gatos, a lesão medular é a prin-
Os discentes foram também questionados sobre o for- cipal causa de deficits neurológicos na deambulação
mato da aula, sendo que 100% consideraram que, além dos pacientes. O prognóstico é feito com base na aná-
da aula teórica, a associação das duas técnicas (modelo e lise do exame clínico e nas informações obtidas pelo
animal vivo) seria o melhor formato para o aprendizado. diagnóstico por imagem (WEBB et al., 2010). Essas in-
Quando perguntados sobre a utilidade do modelo e se ele formações corroboram a grande relevância dessa abor-
deveria continuar nas próximas turmas da disciplina, todos dagem prática, visando à realização correta do exame
responderam positivamente, sendo que 37 (92,5%) con- neurológico e sua interpretação. Saber a localização
cordaram fortemente e três (7,5%) concordaram. da lesão na medula é de extrema importância para a
Sobre os pontos fortes e fracos do modelo, os requisição de exames adequados para cada síndro-
estudantes citaram como pontos fortes: ser bastante me medular e a determinação correta do tratamento.
didático; facilidade na visualização dos segmentos O modelo proposto auxiliou na interpretação das al-
medulares; e auxílio na compreensão do assunto abor- terações referentes aos reflexos medulares de acordo
dado. Como pontos fracos, relataram: cores das luzes com o segmento lesado, como verificado pelo alto ín-
de LED semelhantes para mais de um segmento me- dice de acertos no quiz, levando a um aprendizado de
dular, sugerindo a melhoria de quatro cores distintas maior fixação pelos estudantes. Durante sua aplicação,
na medula; e falta de movimentação dos membros em foi possível observar grande interesse e concentração
resposta aos reflexos flexores. dos estudantes na tentativa de acertar as questões. No
Também foi perguntado aos estudantes se eles con- fim da aula, vários deles elogiaram e deram opiniões
sideravam a aula prática prejudicial aos animais, sendo positivas quanto à realização do teste. Segundo sua
apontado o cansaço e estresse deles. Outra questão opinião, o uso do modelo proporcionou um aumento
aberta se referia à sugestão de tópicos para a confecção no nível de compreensão da matéria.
de novos modelos para aulas de neurologia, cujas res- A utilização dos recursos didáticos diminui a tensão
postas foram: regiões do cérebro, coleta de liquor, teste dos estudantes durante o treinamento, como também pos-
de propriocepção e teste de nervos cranianos. sibilita as repetições necessárias, levando a um aprendiza-
O questionário tinha, no fim, um espaço para que do mais eficaz e menos estressante (MAGALHÃES; ORTÊN-
os acadêmicos fizessem comentários e sugestões so- CIO FILHO, 2006). Neste estudo, isso pôde ser observado
bre a aula, sendo transcritas aqui algumas das respos- pela reação dos estudantes, que se mostraram focados
tas: “A aula foi muito boa para aplicar os conhecimen- e interessados no assunto abordado durante toda a aula
tos de neuroanatomia, fisiologia e semiologia. Muito prática, comprovando que a utilização de métodos alter-
importante saber reconhecer sinais e ser capaz de tes- nativos cumpre seu objetivo de auxiliar no aprendizado e
tar animais com suspeita de lesão”; “Foi muito didática deixar a aula mais interativa e interessante.
e ajudou muito a compreender esse assunto, que não é É possível a substituição de animais nas aulas
simples”; “Neurologia é um dos assuntos de que tenho práticas, mantendo a qualidade de ensino, evitando o
menos compreensão, mas com o uso do modelo pude sofrimento dos animais e induzindo valores éticos aos

50 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

estudantes (DINIZ et al., 2006). Os autores deste tra- um estudo utilizando um simulador para ensinar fisio-
balho estão de acordo com a substituição, no caso do logia do choque (CENDAN; JOHNSON, 2011).
uso prejudicial de animais. No entanto, na aula de se- Todos os estudantes concordaram que o modelo
miologia do sistema nervoso, os cães foram utilizados deveria continuar sendo utilizado nas próximas turmas
de forma não prejudicial, pois não foram feitas inter- da disciplina, o que leva a concluir que o método foi útil
venções que causassem dor ou sofrimento. Supõe-se no auxílio do entendimento do assunto e que os alu-
que a forma respeitosa com que os cães foram utiliza- nos gostaram da experiência. Entre os pontos fracos do
dos repercutiu de forma positiva nos estudantes, pois, modelo apontados pelos discentes, alguns podem ser
quando perguntados sobre sua preferência quanto ao considerados para modificação, como colocar os LEDs
uso de animais e/ou modelo na aula desse tema, a opi- de cada segmento medular de uma cor, mas outros são
nião foi unânime, escolhendo a opção de associação mais complexos, como, por exemplo, os membros se
dos dois recursos didáticos, animal e modelo sintético, movimentarem ou não em resposta ao teste, podendo
como melhor forma de aprendizado. ser uma proposta para modelos futuros.
Uma limitação deste projeto foi a quantidade de
alunos (n) que participaram da aula, por se tratar de CONCLUSÃO
turmas pequenas, para que testes estatísticos pudes- Apesar do número pequeno de participantes neste
sem ser aplicados. Foram pensadas alternativas, como estudo, foi possível avaliar a eficácia do modelo apre-
aplicação do quiz antes e depois da aula, porém o viés sentado e a opinião dos estudantes com relação à sua
referente ao efeito do aprendizado quando se apre- utilização nas aulas. Eles consideraram o modelo útil
senta o quiz duas vezes como avaliação de pós-teste para o entendimento das lesões medulares e sugeri-
teria que ser considerado, pois, na segunda vez, se es- ram que continue sendo empregado nas próximas tur-
pera que o resultado seja superior, como verificado em mas da disciplina Semiologia Geral Veterinária.

REFERÊNCIAS
CERQUEIRA, N. Métodos alternativos ainda são Brasileira de Educação Médica, v.30, n.2, p.31- de Ciências Veterinárias e Zoologia da UNIPAR,
poucos e não substituem totalmente o uso de ani- 40, 2006. v.9, n.2, p.147-154, 2006.
mais. Ciência e Cultura, v.60, n.2, p.33-36, 2008.
ESCALHÃO, C.C.M. Comparação das escalas de ava- MARQUES JR., A.P.; BERGMANN, J.A.G.; HEINEMANN,
CENDAN, J.C.; JOHNSON, T.R. Enhancing learning liação funcional de cães com lesões medulares M.B. et al. Neurologia em cães e gatos. Cadernos
through optimal sequencing of web-based and compressivas provocadas por hérnias de disco. Técnicos de Veterinária e Zootecnia, v.69, p.7-36,
manikin simulators to teach shock physiology in Seropédica, 2010. 79p. Dissertação (Mestrado em 2013.
the medical curriculum. Advances in Physiology Ciências) – Curso de Pós-graduação em Medicina
Education, v.35, n.4, p.402-407, 2011. Veterinária (Ciências Clínicas). Universidade Fede- WEBB, A.A.; NGAN, S.; FOWLER, D. Spinal cord inju-
ral Rural do Rio de Janeiro. ry II: prognostic indicators, standards of care, and
DINIZ, R.; DUARTE, A.L.A.; OLIVEIRA, C.A.S. et al. clinical trials. The Canadian Veterinary Journal,
Animais em aulas práticas: podemos substituí- MAGALHÃES, M.; ORTÊNCIO FILHO, H. Alternativas v.51, n.6, p.598-604, 2010.
-los com a mesma qualidade de ensino? Revista ao uso de animais como recurso didático. Arquivos

AUTORES
JULIANA IKEDA ISHIKURA MATHEUS BARBOSA GOMES CRUZ
Médica-veterinária Médico-veterinário
CRMV-SP nº 42580 CRMV-PR nº 11124
julianaishikura@gmail.com Doutorando em Ciências Veterinárias na UFPR
Professor adjunto da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP)
CAROLINA TROCHMANN CORDEIRO
Médica-veterinária SIMONE TOSTES DE OLIVEIRA STEDILE
CRMV-PR nº 10462 Médica-veterinária
Mestra e doutoranda em Ciências Veterinárias na Universidade Federal do Paraná CRMV-PR nº 10626
(UFPR) Doutora em Ciências Veterinárias e professora associada da UFPR

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 51


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

OS EFEITOS DA MÚSICA CLÁSSICA NA


PRODUÇÃO DE LEITE DE VACAS
CLASSIC MUSIC EFFECTS ON THE DAIRY CATTLE MILK
PRODUCTION
RESUMO
Atualmente, para atender à crescente demanda da população, a produção de produtos de origem animal se
tornou um desafio no setor produtivo quando se refere à quantidade e qualidade. No campo da bovinocultura
leiteira, os produtores buscam constantemente uma forma de aumentar a produtividade sem que ocorra aumento
no custo de produção. A musicoterapia é uma forma de enriquecimento ambiental não invasiva e de baixo
custo que pode ser usada para aumentar a produtividade animal em vacas leiteiras. O objetivo deste estudo foi
avaliar o efeito da música clássica na produção de leite de vacas. O experimento foi realizado com 12 vacas em
lactação, num período de 48 dias. A música foi reproduzida em sequência aleatória, uma hora antes da ordenha,
com as vacas no sistema free stall e sala de espera, e durante todo o período da ordenha (aproximadamente duas
horas). Os parâmetros observados foram a quantidade total de leite produzida e a quantidade de leite produzida
por vaca. Os resultados mostraram um aumento significativo na produção de leite durante o período em que
as vacas foram ordenhadas ao som de música clássica. Conclui-se que a musicoterapia afetou positivamente a
produção de leite dos animais analisados durante o experimento, sugerindo que a estimulação auditiva pode
ser usada para aumentar sua produtividade..

Palavras-chave: Musicoterapia. Gado de leite. Bem-estar. Ordenha.

ABSTRACT
Currently, to attend the growing demand of the population, the production of the products of animal origin has
become a challenge in the productive sector when it comes to quantity and quality. In the field of dairy cattle,
farmers are constantly seeking a way to increase productivity without an increase in the cost of production. Music
therapy is a low-cost, non-invasive form of environmental enrichment that can be used to increase the efficiency
of dairy cows. The objective of this study was to evaluate the effect of classical music on the dairy cattle milk
production. The experiment was accomplished with 12 lactating cows in a period of 48 days. The music was
played in random order, one hour before milking, with cows in the free stall and waiting room, and throughout the
milking period (approximately two hours). The parameters observed were the total amount of milk production and
the amount of milk per cow. The results showed a significant increase in the milk production during period with
classical music. In conclusion, music therapy positively affects dairy cattle milk production analyzed during the
experiment and therefore, auditory stimulation can be used to increase animal productivity.

Keywords: Music therapy. Dairy cattle. Welfare. Milking.

INTRODUÇÃO
Atualmente, para atender à crescente demanda da ser resolvido pela seleção de raças mais produtivas,
população, a produção de produtos de origem animal, seleção de diferentes sistemas de produção, melhoria
em quantidade e qualidade, se tornou um desafio no se- nutricional ou métodos de enriquecimento ambiental,
tor produtivo (PAZ, 2012; SILVA et al., 2014), o qual pode em que muitas vezes os produtores visam apenas ao

52 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

aumento da produtividade, desprezando a preocupação 2014); diminuir a vocalização e tremores corporais e au-
com o bem-estar dos animais (PAZ, 2012; BATISTA et al., mentar o sono de cães alojados em canis (KOGAN et al.,
2014; SILVA et al., 2014). Quando se fala em bem-estar 2012); promover o bem-estar e o crescimento acelera-
de animais de produção, o principal fator abordado é o do de carpas (PAPOUTSOGLOU et al., 2007); induzir uma
econômico, pois o animal que é criado em baixas con- melhor aprendizagem em ratos, fazendo com que eles
dições de bem-estar tem uma produtividade menor e é consigam passar por situações de desafio e completem
mais suscetível a enfermidades, devido à diminuição da o labirinto mais rápido e com menos erros (RAUSCHER
imunidade (PAZ, 2012; SILVA et al., 2014). et al., 1998); além de diminuir o estresse e aumentar a
No campo da bovinocultura leiteira, os produto- produção de leite em vacas (UETAKE, 1997; MCCOWAN
res buscam constantemente uma forma de aumentar et al., 2002; BATISTA et al., 2014; KENISON, 2016).
a produtividade sem que ocorra um aumento no custo Este estudo teve por finalidade avaliar se a musi-
de produção (PAZ, 2012). A musicoterapia é um recur- coterapia é capaz de interferir positivamente na pro-
so opcional usado com finalidade terapêutica e tem se dução de leite das vacas.
mostrado um enriquecimento ambiental de sucesso
em seres humanos. Estudos mostram que a reprodu- MATERIAL E MÉTODOS
ção de música, principalmente clássica, pode reduzir a O experimento foi realizado com 12 vacas mestiças
dor, depressão, estresse e ansiedade (INFANT; SANTES, Holandês x Jersey, apresentando peso médio de 550 kg
2008; BRÉSCIA, 2009; MARQUES et al., 2013; JAYAMA- e entre a segunda e a terceira semana de lactação. O
LA et al., 2015). Além disso, a música pode melhorar a estudo ocorreu no Clube de Campo Pró-Vida, em Ara-
coordenação motora, a respiração e a dicção, aumentar çoiaba da Serra, São Paulo, onde o sistema de criação é
a produção de leite em mulheres que estão amamen- semi-intensivo e as vacas ficam parte de seu tempo em
tando, aumentar o bem-estar, ajudar em problemas pastagens de braquiária e parte no sistema free stall, que
emocionais, além de causar alterações fisiológicas, é constituído por baias individuais nas quais os animais
como diminuição da frequência cardíaca e respiratória entram e saem espontaneamente para repousar sobre
e redução do cortisol, gerando relaxamento, confor- um piso de borracha. O sistema free stall é localizado ao
to e diminuição do estresse (INFANT; SANTES, 2008; lado da sala de espera e sala de ordenha. A ordenha é
BRÉSCIA, 2009; MARQUES et al., 2013; JAYAMALA et mecânica e a equipe de ordenhadores e manejadores é
al., 2015; CALAMITA et al., 2016). Segundo Kudryavtzev composta por três funcionários fixos da propriedade. Os
(1962), as vacas têm a audição bem desenvolvida, por- animais foram alimentados durante todo o experimen-
tanto a musicoterapia pode ser uma forma eficiente to com ração produzida no local, contendo milho (287
de enriquecimento ambiental não invasiva e de baixo kg), farelo de algodão 38% (180 kg), guabi lactage gold
custo, que pode ser usada para aumentar a produtivi- (17,5 kg), calcário calcítico (5 kg), sulfato de amônia (1,5
dade animal em vacas leiteiras (UETAKE, 1997; KOGAN kg) e ureia (9,0 kg), sendo oferecidos 5 kg da mistura
et al., 2012; PAZ, 2012; BATISTA et al., 2014). duas vezes ao dia, de manhã e à tarde, após a ordenha.
O reconhecimento de que a música pode ter efeito Além disso, foi oferecida silagem de milho duas vezes
sobre os seres humanos tem gerado interesse em inves- ao dia durante o período de estudo, também após as or-
tigar seu efeito sobre outras espécies (BRÉSCIA, 2009; denhas. Cochos com água foram disponibilizados para
PAZ, 2012). Um número limitado de estudos explorou os os animais ad libitum.
efeitos da música sobre animais não humanos (BRÉSCIA, O experimento foi aprovado pelo Comitê de Ética
2009; KOGAN et al., 2012; PAZ, 2012; KENISON, 2016). no Uso de Animais (CEUA) da Universidade de Soroca-
Por exemplo, a música clássica tem sido utilizada para ba (Uniso), sob o protocolo nº 138/2018.
diminuir o comportamento estereotipado de elefantes Foram feitas duas ordenhas ao dia: às 07h00 e às
e gorilas (WELLS; IRWIN, 2008; ROBBINS; MARGULIS, 15h00. Antes do início do experimento, realizou-se um

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 53


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

período de adaptação à presença do pesquisador, de relação ao número de ordenhas e à produção total de


20 dias, sem reprodução de música aos animais. Com leite está indicado no Gráfico 1. Os resultados obtidos
o início do experimento, foi implementado um período estão de acordo com os dados observados por Kenison
de controle de 14 dias, em que todas as vacas selecio- (2016), que, ao estudar a produção de leite em vacas
nadas para o estudo foram avaliadas sem a reprodução submetidas à musicoterapia, obteve aumento linear na
de música. Logo após, houve um período de 14 dias em produção de leite total durante o período com música.
que todas as vacas foram avaliadas com a reprodução
de música clássica (Beethoven, Mozart, Schubert, entre GRÁFICO 1. PRODUÇÃO TOTAL DIÁRIA DE LEITE NOS
outros). Para reproduzir a música, utilizou-se uma caixa PERÍODOS COM E SEM MÚSICA.
de som (JBL®) posicionada 3 m acima da máquina de
Litros de leite
ordenha. A música foi reproduzida em sequência aleató- 230

ria, uma hora antes da ordenha, com as vacas no sistema 220 218
212
free stall e sala de espera, e durante todo o período da 210

200 198 198 202 201 204


ordenha (aproximadamente duas horas). 190
194
191
197 195 Música
189
186 187 186 186 COM
Durante o período de experimentação, foram coleta- 180
185
180 179 182 178
185
181 180 182 179 SEM
175
dos os seguintes dados: quantidade de leite total produ- 170

160
zida por dia e quantidade de leite produzida por ordenha
150
por cada animal. Para análise estatística dos dados, foi 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14

Dia
realizado o teste de comparação de médias T de Student,
para um nível de significância de 5%, em que foram cal-
culadas as médias da quantidade total de leite de todas No período da manhã, no qual todas as vacas se
as ordenhas, tanto do período da manhã quanto do pe- mostraram mais produtivas, a diferença na produção
ríodo da tarde. A análise estatística foi realizada mediante de leite entre a fase com e sem música não foi signi-
comparação entre: produção total de leite, sem distinção ficativa (p > 0,05). Já no período da tarde, a diferença
de período, apenas comparando as fases com e sem mú- entre as fases com e sem música foi significativa (p <
sica; produção de leite de cada animal submetido ou não 0,05). Pode-se observar que a diferença conseguida na
à reprodução de música durante os períodos da manhã e quantidade total de leite com e sem música ocorreu
da tarde; e produção total de leite nas fases com e sem principalmente no período da tarde (Gráfico 2).
música, nos períodos da manhã e da tarde.
GRÁFICO 2. QUANTIDADE TOTAL DE LEITE
RESULTADOS E DISCUSSÃO PRODUZIDA NO PERÍODO DA MANHÃ E DA TARDE
A produção total aumentou significativamente du- NOS MOMENTOS COM E SEM MÚSICA.
rante o período com música (m = 8,2 ± 2,8 L/vaca/dia, p <
Litros de leite
0,05) quando comparado com o período sem música (m 2000
1794
= 7,5 ± 3,2 L/vaca/dia, p < 0,05). Analisando a produtivi- 1735

1500
dade diária, houve tendência a aumentar a quantidade
* Música
de leite obtida com a música ao longo do estudo, sendo 1000 975
813
COM
os últimos dias os de maior diferença entre as coletas
500 SEM
com e sem música. O aumento total de produção obtido
durante o período foi de 9%, resultando numa renda 0
Manhã Tarde
adicional de R$ 300,00, com base no preço médio de
Período
R$ 1,35/L com a comercialização do leite. O efeito que
a musicoterapia teve sobre os animais estudados em Nota: * p < 0,05.

54 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

Segundo observações de McCowan et al. (2002), também o benefício da musicoterapia, com o aumento
a reprodução de vocalizações de bezerros durante a significativo da produção total de leite.
ordenha aumentou a produção de leite das vacas lei-
teiras. Mesmo com a adoção da reprodução de música CONCLUSÕES
clássica, em vez da vocalização de bezerros, neste es- Os resultados deste estudo sugerem que a musi-
tudo, foi possível observar um aumento significativo coterapia afeta positivamente a produção de leite das
da produção total de leite. Dessa forma, pode-se infe- vacas leiteiras; portanto, a estimulação auditiva pela
rir que tanto a reprodução de música clássica quanto música pode ser usada para aumentar a produtividade
a reprodução de vocalizações de bezerros podem ser dos animais.
ferramentas utilizadas para obter um aumento na pro- O período que mais sofreu alterações na quantida-
dução de leite em vacas leiteiras. de de leite total foi o da tarde, quando as vacas produ-
No estudo realizado por Jayamala (2015), a re- ziam menos em relação ao período da manhã e, devido
produção de música aumentou significativamente a à reprodução de música, começaram a produzir mais.
quantidade de leite em mulheres que deram à luz be- Futuros estudos envolvendo mais tipos de música
bês prematuros, comparando com mulheres que não e um período de avaliação maior são importantes para
passaram pelas sessões de musicoterapia. Este estu- continuar a determinar os efeitos da musicoterapia no
do realizou o experimento com vacas, demonstrando gado leiteiro brasileiro.

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AUTORES
NATALYA GARDEZANI ABDUCH ANA CAROLINA RUSCA CORRÊA PORTO FABIO ANDRÉ FERREIRA CUSTÓDIO
Médica-veterinária Médica-veterinária Médico-veterinário
CRMV-SP nº 43447 CRMV-SP nº 15669 CRMV-SP nº 14636
Mestranda em Produção Animal Sustentável no Doutora em Clínica Médica de Equinos e pós-doutora Especializado em Reprodução Bovina e Sanidade
Instituto de Zootecnia do Governo de São Paulo em Reprodução Animal de Animais de Produção e mestre em Processos
Coordenadora do curso de Medicina Veterinária da Tecnológicos e Ambientais
Uniso Diretor técnico do Centro de Treinamento Agropecuário
Ltda. e docente da Uniso

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 55


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

REDUÇÃO DE COROA CLÍNICA EM


DENTES CANINOS MANDIBULARES COM
HIPERCRESCIMENTO EM SUÍNO DA LINHAGEM
YUCATAN – RELATO DE CASO
CLINICAL CROWN REDUCTION IN MANDIBULAR
CANINE TEETH WITH OVERGROWTH OF SWINES FROM
YUCATAN STRAIN – CASE REPORT
RESUMO
O hipercrescimento dentário é uma afecção comum encontrada em dentes caninos de suínos criados como ani-
mais de estimação. Dentes que apresentam hipercrescimento podem causar desconforto, maloclusão e saliva-
ção excessiva, além de permitir lesões teciduais em região oral. O objetivo deste relato é evidenciar a importân-
cia da técnica de redução de coroa clínica em dentes com hipercrescimento em um suíno da linhagem Yucatan.
Com histórico de disfagia e intensa vocalização à manipulação da cavidade oral, ao exame físico específico, foi
diagnosticado hipercrescimento de ambos os dentes caninos mandibulares. Radiografias intraorais e de crânio
foram importantes ferramentas complementares para o planejamento cirúrgico. Elegeu-se como conduta tera-
pêutica a ressecção parcial de coroa clínica em ambos os dentes caninos inferiores, sendo confirmada a preser-
vação do tecido pulpar pela realização de radiografia intraoral após o procedimento cirúrgico.

Palavras-chave: Porco-miniatura. Tratamento cirúrgico. Maloclusão.

ABSTRACT
Dental overgrowth is a common condition found in canine teeth of pigs raised as pets. Teeth that present hypergrowth
can cause discomfort, malocclusion and excessive salivation, besides allowing tissue lesions in the oral region. The
objective of this report is to highlight the importance of the technique of clinical crown reduction in teeth with
overgrowth in a pig of the Yucatan lineage. With a history of dysphagia and intense vocalization to the manipulation
of the oral cavity, at the specific physical examination, it was diagnosed hypergrowth of both mandibular canine
teeth. Intraoral and skull radiographs were important complementary tools for surgical planning. The clinical crown
partial resection of both lower canine teeth was chosen as therapeutic treatment, and preservation of the pulp tissue
was confirmed by intraoral radiography after the surgical procedure.

Keywords: Swine miniature. Surgery. Malocclusion.

INTRODUÇÃO
Desde o desenvolvimento do mini pig, em 1940, utilizados como modelo animal para diversos experi-
pelo Instituto Hormel nos Estados Unidos (ENGLAND et mentos biomédicos (WANG et al., 2007). Razões para a
al., 1954), os porcos-miniatura têm sido extensamente utilização desses animais na pesquisa incluem simila-

56 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

ridade anatômica e fisiológica com os seres humanos, mandibulares (OEHME, 1988). Já o canino maxilar é
vantagens econômicas e questões éticas (WANG et al., mais curto em relação ao mandibular e curva-se ves-
2007). Entretanto, eles também conquistaram o mer- tibularmente à medida que cresce no sentido dorsal.
cado pet, tornando-se populares nesse ramo, de modo O esmalte cobre apenas a cúspide da coroa do canino
que o número de mini pigs criados como pets vem au- maxilar (EUBANKS; GILBO, 2005).
mentando progressivamente (SIPOS et al., 2007). Embora a maioria dos dentes seja anelodonte e
Todo suíno doméstico (Sus scrofa domesticus) é braquiodonte, com período de crescimento limitado e
descendente do javali selvagem (Sus scrofa), o qual coroas curtas, respectivamente, os dentes caninos nes-
pertence à ordem de mamíferos placentários Artio- sa espécie são elodontes e hipsodontes, ou seja, com
dactyla. Com a domesticação e inbreeding ou endocru- crescimento contínuo e coroa longa (LENNOX; MIWA,
zamento realizado, o crânio do mini pig tornou-se mais 2016), com crescimento estimulado pela testosterona
curto e com perfil frontal mais côncavo (ŠTEMBÍREK et (TYNES, 1999; AMPA, 2016). Portanto, um suíno macho
al., 2010). Apesar disso, a cavidade oral e a dentição não castrado apresentará maior crescimento desses
mantiveram-se similares às demais espécies de suínos. dentes se comparado ao macho castrado e à fêmea
Assim como nos humanos, a dentição reflete a dieta (TYNES, 1999; AMPA, 2016; LENNOX; MIWA, 2016).
onívora, apresentando-se como difodontes e hetero- Quando erupcionados, os caninos permitem o atrito
dontes (STEMBÍREK et al., 2010), respeitando a fórmula com seus opositores, tornando-se afiados e com pontas
dentária para adultos de 2 (I 3/3, C 1/1, P 4/4, M 3/3), (TYNES, 1999; LENNOX; MIWA, 2016). Grave dano cor-
em um total de 44 dentes (LENNOX; MIWA, 2016). poral no próprio animal ou em contactantes pode ocor-
Os suínos possuem dois incisivos maxilares cen- rer a partir desses dentes afiados (AMPA, 2016).
trais arqueados e curvados mesialmente. Os incisivos De acordo com a Associação Americana de Mini Pigs
mandibulares são projetados rostralmente e utiliza- (AMPA), os dentes caninos devem ser desgastados pela
dos para chafurdar. Os pré-molares permanentes, primeira vez entre o primeiro e o terceiro ano de vida
muitas vezes, não têm predecessores decíduos e au- do animal. Entretanto, Amstutz (2014) relata ser pre-
mentam de tamanho caudalmente. O primeiro pré- ciso passar por avaliação de médico-veterinário para
-molar inferior surge imediatamente caudal ao canino verificar a necessidade desse procedimento. Woods e
mandibular e rostral ao espaço interdental. O quarto Tynes (2012) preconizam o intervalo entre desgastes
pré-molar maxilar tem quatro ou cinco raízes (SHI- de seis a 12 meses, enquanto Amstutz (2014) refere
VELY, 1984; EISENMENGER; ZETNER, 1985). Os mola- como procedimento anual. Pelas diretrizes da AMPA, o
res tornam-se mais fortes caudalmente, apresentando desgaste deve ser realizado conforme a necessidade
quatro a seis principais cúspides e até seis raízes. Os individual de cada animal. Apesar de haver variação
dentes mesiais da mandíbula são importantes para a entre machos e fêmeas, castrados e não castrados, de-
apreensão e dilaceração dos alimentos, assim como ve-se considerar que a taxa de crescimento da presa
nos carnívoros, sendo a mastigação realizada caudal- varia individualmente, sendo que alguns machos cas-
mente (EISENMENGER; ZETNER, 1985). trados requerem desgaste na mesma frequência que
O dente canino mandibular é maior do que o ca- porcos não castrados (WOODS; TYNES, 2012).
nino maxilar e apresenta forma triangular, curvado Dentes caninos com hipercrescimento podem
sentido caudal e coberto com esmalte apenas na face causar desconforto, maloclusão, movimento de masti-
vestibular (HARVEY, 1985; OEHME, 1988). O cemento gação persistente e salivação (AMSTUTZ, 2014). Além
que cobre o restante do dente desgasta-se mais facil- disso, podem crescer em ângulo inapropriado e causar
mente. Devido ao atrito contínuo com os dentes cani- lesões em tecidos moles, intra e extraorais. Nesses ca-
nos maxilares, bordas afiadas formam-se nos caninos sos, o desgaste não é opcional e deve ser realizado ro-

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 57


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

tineiramente para a manutenção da saúde e bem-estar


do suíno acometido (AMPA, 2016).
O desgaste dentário deve sempre ser realizado sob
anestesia geral ou sedação (AMSTUTZ, 2014; AMPA,
2016), a fim de evitar aspiração de resíduos transope-
ratórios. Ainda, os suínos, quando submetidos a situa-

Foto: LOC-FMVZ/USP (2016).


ções de estresse, podem desencadear a síndrome do
estresse suíno, resultando em parada cardiorrespirató-
ria, sendo, portanto, a anestesia necessária para evitar
esse tipo de situação (AMPA, 2016).
A odontossecção deve ser realizada o mais pró- T Figura 1. Setas indicando a lesão em gengiva e mucosa alveolar na face
vestibular do canino superior direito do suíno, expondo osso alveolar.
ximo possível da linha da gengiva, sem que a mucosa
oral ou os lábios sejam lesados. Ademais, deve-se evi-
tar exposição do canal radicular após o desgaste (AMS- Sob sedação, foram realizadas imagens radiográfi-
TUTZ, 2014) e as pontas e rebordos dentários devem cas de crânio, as quais identificaram integridade óssea
ser arredondados (WOODS; TYNES, 2012). e ausência de comunicação oronasal. O exame permi-
tiu a avaliação da câmara pulpar dos caninos mandibu-
RELATO DE CASO lares previamente à intervenção cirúrgica, tendo sido
Um suíno-miniatura da linhagem Yucatan, macho, constatada a ausência da câmara pulpar bilateralmen-
não castrado, de um ano e sete meses de idade, com 50 te nesses dentes. Exames complementares de sangue,
kg de peso vivo, foi admitido no Laboratório de Odonto- como hemograma e bioquímico, foram coletados ainda
logia Comparada da Faculdade de Medicina Veterinária com o animal sedado, para avaliação pré-anestésica,
e Zootecnia da Universidade de São Paulo (LOC-FMVZ/ sem alterações significativas.
USP), com histórico de disfagia e intensa vocalização à O procedimento cirúrgico foi realizado sob anestesia
manipulação da cavidade oral. A alimentação consistia geral inalatória, com o paciente posicionado em decúbito
em ração específica para suínos, associada a legumes esternal. Inicialmente, fez-se a higienização da cavidade
e vegetais e fornecida de forma umedecida e pastosa. oral com água e gluconato de clorexidina a 0,12%, segui-
Ao exame clínico geral, o animal apresentou-se da de profilaxia oral com raspagem e polimento dentário,
alerta, com bom escore de condição corporal e sem visando a reduzir a carga bacteriana oral, o que minimi-
demais alterações sistêmicas. Ao exame clínico da zaria o risco de infecção pulpar em eventual exposição
cavidade oral, realizado sob sedação, observou-se do canal durante o desgaste dentário. Após esse preparo,
hipercrescimento dentário de ambos os caninos man- foram realizadas radiografias intraorais dos dentes cani-
dibulares. A porção coronal do canino mandibular di- nos mandibulares, utilizando películas radiográficas pe-
reito permitia sua maloclusão com a região de mucosa riapicais e oclusais (Figuras 2 e 3), para avaliação do canal
alveolar, distal ao canino maxilar direito, provocando pulpar. Nelas, foi confirmada a ausência da câmara pulpar
exposição do osso alveolar (Figura 1). O canino mandi- em região da coroa clínica, como previamente identifica-
bular esquerdo também apresentava hipercrescimen- do pela radiografia de crânio. O protocolo cirúrgico insti-
to dentário, apesar de não ter sido identificada lesão tuído consistiu no desgaste dentário de ambos os cani-
em tecidos moles adjacentes. Contudo, o diagnóstico nos inferiores no nível gengival. No entanto, o material
presuntivo foi de doença periodontal de grau modera- necessário para realização do capeamento pulpar, caso
do e maloclusão dentária, com consequente laceração houvesse exposição do canal, estava adequadamente
de tecidos moles. disponível ao longo do procedimento.

58 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

Foto: LOC-FMVZ/USP (2016).


Foto: LOC-FMVZ/USP (2016).

T Figura 4. Imagem ilustrando o desgaste após a amputação da coroa do ca-


nino inferior esquerdo, com broca FG Carbide 703 e caneta de alta rotação.
T Figura 2. Radiografia do canino inferior direito do suíno, antes da realização Nota-se irrigação realizada por solução fisiológica estéril.
do desgaste dentário. Seta indicando ausência da câmara pulpar em coroa
anatômica e raiz cervical.
A ressecção da coroa foi sucedida do desgaste dentá-
rio, com arredondamento das bordas dentárias, a fim de
evitar lesões em mucosa e língua. O exame físico com o
explorador confirmou a ausência de comunicação com a
cavidade pulpar após o procedimento (Figura 5).
Foto: LOC-FMVZ/USP (2016).

T Figura 3. Radiografia intraoral do canino inferior esquerdo do suíno. Avalia-


ção da coroa anatômica antes do desgaste dentário. Seta indicando ausên-
cia da câmara pulpar em coroa anatômica.
Foto: LOC-FMVZ/USP (2016).

A ressecção da coroa clínica foi realizada com caneta


de alta rotação e broca FG Carbide 703 (Figura 4). Para
evitar o superaquecimento dentário, o qual poderia cul-
T Figura 5. Imagem ilustrando o exame físico com o uso do explorador no
minar em pulpite iatrogênica, foi feita irrigação com so- canino inferior direito após o desgaste da coroa dentária. O mesmo procedi-
lução fisiológica durante todo o procedimento (Figura 4). mento foi realizado no canino inferior esquerdo.

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 59


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

O tecido necrosado em mucosa alveolar, ocasiona- pulpar, caso haja o envolvimento da polpa (EUBANKS;
do pela maloclusão do dente canino mandibular direi- GILBO, 2005), evitando, assim, a dor e formação de
to, foi removido pela curetagem e desbridamento da abscessos periapicais nos dentes envolvidos. Mesmo
região com descolador de Molt, além de sua higieni- havendo confirmação radiográfica, a equipe, ciente
zação com clorexidina a 0,12%. Manteve-se a prescri- do risco, preparou-se com materiais adequados para
ção de higienização da cavidade oral com clorexidina possível tratamento endodôntico, como indicado por
0,12% a cada oito horas por dez dias. A imediata reso- Eubanks e Gilbo (2005).
lução do quadro permitiu restabelecimento da saúde e A irrigação deve ser utilizada em abundância para
ausência de dor, confirmada em reavaliação após dez evitar o superaquecimento do órgão dentário acima do
dias do procedimento. tolerado pelo tecido conjuntivo pulpar, conforme refe-
rido por Aranha et al. (2011). Segundo Zach e Cohen
DISCUSSÃO (1965), o calor friccional excessivo gerado sobre o te-
Quadros de maloclusão dentária em animais cido dental pode degradar a porção fundamental da
com dentes elodontes podem ser identificados matriz extracelular da polpa, comprometendo suas
clinicamente. Os sinais clínicos observados, como funções e, consequentemente, ocasionando a morte
dor durante a manipulação oral, maloclusão e le- pulpar. Neste caso, utilizou-se solução fisiológica esté-
sões em tecidos moles adjacentes causadas pelo ril como método de irrigação contínua para controlar o
crescimento dos caninos inferiores em ângulos ina- calor gerado pelo instrumental rotatório no elemento
propriados, coincidem com os sinais descritos por dentário, além de minimizar a contaminação local.
Amstutz (2014). Os suínos possuem o gene halotano (gene hal),
Segundo Lennox e Miwa (2016), o exame radio- que, em homozigose recessiva (nn), está associado
gráfico de crânio é importante para a avaliação das com o aparecimento da síndrome do estresse porcino,
estruturas dentárias, especialmente para a avaliação o que pode ocasionar a morte do animal submetido à
óssea e dos elementos dentários. Importantes anor- situação de estresse (BASTOS et al., 1998; BASTOS et al.,
malidades podem ser detectadas por esse exame, 2001), como, por exemplo, manipulação e contenção
incluindo fraturas, infecção e alterações em tecidos para o desgaste dentário (AMPA, 2016). Esse gene tam-
periapicais. Neste caso, o exame radiográfico con- bém é responsável por algumas manifestações clíni-
vencional auxiliou no descarte de alterações ósseas, cas, como a hipertermia maligna, comum reação após a
como abscesso periapical e comunicação oronasal administração de anestésicos voláteis (destacando-se
secundários à maloclusão dentária. No transoperató- o halotano) (BASTOS et al., 1998). Apesar disso, o des-
rio, a utilização de radiografias intraorais foi impres- gaste dentário nessa espécie deve sempre ser realiza-
cindível para avaliação mais detalhada da estrutura do sob anestesia geral ou sedação (AMSTUTZ, 2014;
dentária. Elas permitiram o direcionamento do pro- AMPA, 2016), o que torna o procedimento mais seguro
cedimento, evitando o acometimento da câmara pul- para toda a equipe (LENNOX; MIWA, 2016).
par durante a ressecção da coroa clínica. Assim, em A correta e rápida condução do caso, com equipe
concordância com Woods e Tynes (2012), ressalta-se multidisciplinar envolvendo profissionais anestesiolo-
a importância da radiografia intraoral prévia ao proce- gistas e odontologistas veterinários, permitiu o correto
dimento, uma vez que o comprimento do canal pode diagnóstico e tratamento para o caso de maloclusão
variar individualmente nessa espécie. dentária secundária ao hipercrescimento de dentes
Conforme foi observado nas radiografias intraorais caninos em um suíno doméstico, interrompendo o pro-
do paciente relatado, não houve exposição aparente cesso álgico e infeccioso instalado, levando à restitui-
da câmara pulpar; todavia, indica-se o capeamento ção da qualidade de vida do paciente.

60 Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82


SUPLEMENTO CIENTÍFICO

CONSIDERAÇÕES FINAIS tológicos adequados, evitando lesões iatrogênicas no


O hipercrescimento dentário é uma afecção comu- órgão dentário e, consequentemente, desconforto do
mente encontrada em dentes caninos de suínos-mi- paciente. Exames radiográficos, extra e intraorais, são
niatura, sendo considerados tratamento de eleição a essenciais para avaliação da cavidade pulpar e devem
redução da coroa clínica e o acompanhamento odonto- ser feitos para delineamento terapêutico. Por fim, res-
lógico semestral a anual para o planejamento cirúrgico salta-se que, devido às particularidades anatômicas e
adequado a cada caso, de acordo com a necessidade fisiológicas da espécie, esse procedimento deve ser
do paciente. Destaca-se que essa técnica deve ser rea- realizado por profissionais especializados, prezando
lizada sob anestesia geral, com equipamentos odon- pela qualidade de vida do animal.

REFERÊNCIAS
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v. 30, n. 1, p. 37–40, 2001. dicine Series A, v. 54, n. 9, p. 504–511, nov. 2007.

AUTORES
NAIÁ CARVALHO SOUZA JULIANA BAIA DURIGAN
Médica-veterinária Médica-veterinária
CRMV-SP nº 47003 CRMV-MT nº 4730
Especializada em Odontologia Veterinária e mestra em Ciências pela Mestra em Ciências pela FMVZ/USP
FMVZ/USP Especializada em Odontologia Veterinária pela Anclivepa-SP
naiacsouza@usp.br Coordenadora do Instituto de Ensino Didax

CARLA PANTAROTTO BONI MARCO ANTONIO GIOSO


Médica-veterinária Médico-veterinário
CRMV-SP nº 39735 CRMV-SP nº 5642
Residente em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais pela FMVZ/USP Professor doutor livre-docente do Departamento de
Cirurgia da FMVZ/USP
PAULA ABREU VILLELA
Médica-veterinária
CRMV-SP nº 33688
Residente em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e mestra em Ciências
pela FMVZ/USP
Especializada em Odontologia Veterinária pela Anclivepa-SP

Revista CFMV Brasília DF Ano XXV nº 82 61


BOAS PRÁTICAS NO
CLÍNICA ATENDIMENTO CLÍNICO
VETERINÁRIA

Higiene, atenção e cuidado da equipe aumentam a


percepção de qualidade do estabelecimento

A
consulta é o momento da clínica veterinária no qual interagem tutor,
médico-veterinário, paciente, colaboradores do estabelecimento, bem
como as cadeias da indústria pet. O cliente escolhe um local de atendi-
mento indicado por pessoas próximas ou por meio de publicidade. Sua impres-
são, no entanto, é influenciada por fatores aos quais o proprietário do estabele-
cimento deve estar atento, tais como:
» Fachada: com boa apresentação e manutenção do letreiro.
» Recepção: atenção da equipe, higiene e organização; explicações claras so-
bre os serviços oferecidos e odorização (eleger uma fragrância para ficar
Wanderson Alves Ferreira
como marca). O cabeçalho da ficha do cliente deve ser preenchido na to-
Tesoureiro do CFMV e sócio
proprietário de clínica talidade e o valor da consulta deve ficar claro, assim como procedimentos
e formas de pagamento. Banheiro limpo e abastecido com papéis toalha e
higiênico, equipado com espelho de corpo inteiro.
» Consultório: piso, paredes, mesa de atendimento, lixeiras, termômetros e
demais equipamentos limpos e organizados.
» Consulta: presencial, com roteiro da ficha de avaliação previamente im-
presso contendo sequência de perguntas. O tempo total mínimo de consul-
ta deve ser de 15 minutos, por mais evidente que seja o diagnóstico.
» Consultas em domicílio: necessárias em caso de tutores com dificuldade de lo-
comoção, pacientes estressados ao sair do seu ambiente etc. Como o local não
dispõe dos recursos do consultório, o profissional deve levar um auxiliar e estar
consciente de que sua conduta será constantemente avaliada pela família.
» Receita: impressa e contendo, no máximo, quatro medicamentos, pois o
cliente pode ter dificuldade de administrar e/ou adquirir produtos. Caso
sejam necessários mais, sugira a internação.
» Recomenda-se ligar para o cliente de 24h a 48h depois do atendimento. Além de
demonstrar interesse pelo animal, ainda está em tempo de alterar a prescrição.
Em casos de eutanásia, não recomende o procedimento de forma direta.
Esclareça a real situação do animal, deixe o tutor decidir e concorde com sua
escolha. Se tiver de ocorrer, anestesie o animal antes da administração do me-
dicamento letal. Não realize eutanásia em um paciente com doença curável. Se
o animal for encaminhado por um colega, exija um termo assinado e carimbado,
com as justificativas para o procedimento.
Caso o paciente vá a óbito na clínica, o tutor deve ser comunicado de forma
presencial ou por telefone – nunca envie mensagens ou deixe que o cliente sai-
ba da notícia no momento da visita. Na presença do proprietário, não coloque o
animal em saco preto, pois passa uma ideia de desprezo. Prefira caixas, tecidos
ou embalagem plástica branca.
Após uma semana, envie um cartão/mensagem de condolências, deixando clara
a importância de paciente e cliente para o médico-veterinário e o estabelecimento.

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