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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE

MINAS GERAIS
Instituto de Filosofia e Teologia Dom João
Resende Costa
CURSO: Teologia
DISCIPLINA: Antropologia Teológica
PROFESSOR: Pe. Luiz Eustáquio dos Santos
Nogueira
ALUNO: Jefferson Márcio Tenório Oliveira

FICHAMENTO
Moltmann, J. Deus na Criação. P. 135-144

Pág
135 “A criação do mundo está fundamentada na autodeterminação de Deus de ser
criador. Antes de Deus sair de si de forma criadora, ele atua para dentro sobre
si mesmo, na medida que ele se resolve, se decide, ele se determina.”
136 “Para criar um mundo ‘fora’ do seu próprio, o eterno Deus deve ter dado lugar
para o finito em si mesmo. Somente uma tal introjeção de Deus em si mesmo
libera lugar, para dentro do qual Deus pode agir criadoramente. Somente na
medida que o Deus todo-poderoso e onipresente renuncia a sua presença e
restringe o seu poder surge aquele ‘nihil’ para a sua ‘criatio em nihilo’”,
“Onde Deus pode-se contrair a partir de si em si mesmo, aí ele pode fazer
surgir algo que não é um ser divino e também não é uma ‘existência divina’. O
criador não é ‘movedor imóvel’ do universo. A criação é, muito mais,
precedida por uma auto movimentação de Deus, que lhe dá um espaço para a
sua própria existência. Deus entra em si para sair de si. Ele ‘cria’ os
pressupostos para a existência da sua criação, na medida em que ele restringe
a sua presença e o seu poder”.
137 “[...] viram na concessão da criação de Deus o primeiro ato daquele auto
rebaixamento de Deus que na cruz de Cristo atingiu o seu ponto mais baixo”
138 “A sua atividade criadora para fora é precedida por este humilhante auto
rebaixamento de Deus. Nesta perspectiva, o auto rebaixamento de Deus não
indica somente com a criação, na medida em que Deus se deixa envolver neste
mundo, mas ele já indica antes da criação e é um pressuposto para tal. O amor
criador de Deus está fundamentado no humilde amor que levou ao seu próprio
rebaixamento.
139 “O segredo do Messias é descrito no hino cristológico de Filipenses 2, com
seu esvaziamento e rebaixamento, assumindo a ‘forma de servo’. A nova
criação da graça surge a partir da ‘fadiga do trabalho’ de Deus. Através do seu
auto rebaixamento ele cria libertação, através do seu auto rebaixamento e
enaltece e a partir do seu sofrimento vicário é operada a redenção dos
pecadores”.
140 “Se o criar de Deus remonta a uma decisão de criação, então nele já reside a
abertura do criador para o sofrimento salvífico e a disposição para o próprio
rebaixamento. [...] Criação a partir do nada no início é um preparativo e uma
promessa da redentora aniquilação do nada (‘annilatio nihili’), da qual resulta
a existência eterna da criação. A criação do mundo é ela mesma uma promessa
da ressurreição e da superação da morte pela vida eterna (1Cor 15, 22.55-57)”.
141 “A entrega do Filho à morte no abandono de Deus na cruz e sua entrega ao
inferno constituem, nesta perspectiva, a entrada do Deus eterno naquele nada,
do qual ele criou o mundo. [...] Esta presença de Deus no Cristo crucificado,
ao invés de destruir a criação, dá-lhe a vida eterna”.
142 “Com vistas a criação, a cruz de Cristo significa a verdadeira sustentação do
universo. Pelo fato do criador, desde o início, estar disposto a esse sofrimento
em favor da sua criação, a sua criação tem sustentação em toda a eternidade. A
cruz é segredo da criação e o seu futuro”.
144 “A fé no Deus criador não se coaduna com uma esperança apocalíptica que
espera uma aniquilação total do mundo (‘annihilatio mundi’). O que
corresponde a ele é a expectativa e a antecipação ativa da transformação do
mundo (‘transformatio mundi’). [...] Escatologia, porém, não é outra coisa do
que a fé orientada para o futuro. Quem crê no Deus que do nada criou o ser
humano também crê no Deus que pode fazer ressuscitar dos mortos”.

Apreciação
Moltmann usa de duas imagens de auto rebaixamento de Deus no ato da criação,
a primeira é Deus mesmo que para criar precisa passar por um entrar em si, ou seja,
retrair-se, para depois sair de si e criar. Esse movimento de Deus cria o espaço do nada,
que por sua natureza é tenebrosa e infernal, mas como ele por determinação, por decisão
e revelação é criador, transforma o nada, mesmo que não em uma realidade divina, ou
criação divina, trata-se de uma criatura sua.
Esse primeiro movimento de auto rebaixamento, que é compreendido também
como kenosis, está unido a outra imagem, aquela de Fl 2, pois Deus se faz servo, ele
sofre um auto rebaixamento porque do nada que leva o Cristo a cruz, Ele se entrega,
salvando e criando uma nova criação. O brilhantismo do autor reside no fato de que em
ambas as imagens de auto rebaixamento, Deus cria, porque ama. Por essa razão, torna-
se incongruente com a fé cristã o fim apocalíptico da criação, pois se na primeira
imagem já se contempla a segunda, pois o Deus que se retrai, que sofre o cansaço da
criação (na perspectiva Sacerdotal (P)) é o mesmo que sofre a dor e a morte de cruz,
então no nada original, naquele espaço infernal, já se encontrava a cruz, eixo
sustentador da criação, que livra a criação de um fim, mas a conduz para uma
transformação futura, do novo céu e da nova terra.
É verdade que chega a assustar que Deus se depara com o limite, mas assusta
mais ainda como esse limite é possuidor da criatividade, que em ambas as imagens, a
vida sempre nasce e para jamais morrer. Assim, o homem que é assumido pelo Verbo
Encarnado é salvo e renovado, mesmo que Deus tenha que ir aos infernos para buscá-lo.

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