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Sebenta DC II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Introdução .................................................................................................................................... 3
Evolução Histórica até à Atualidade.......................................................................................... 3
NOÇÃO DE SOCIEDADE................................................................................................................... 8
Princípios Gerais das Sociedades ............................................................................................... 9
Elementos das Sociedades....................................................................................................... 10
Tipos Societários .................................................................................................................. 15
Personalidade Jurídica das Sociedades .................................................................................... 23
Capacidade Jurídica das Sociedades ........................................................................................ 30
CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADES ................................................................................................... 36
Processo de Formação de Sociedades ..................................................................................... 40
Situações pré-societárias ......................................................................................................... 42
Sociedades Irregulares Por Incompletude ............................................................................ 43
Sociedades Irregulares Por Invalidade .................................................................................. 48
SITUAÇÃO JURÍDICA DE SÓCIO ..................................................................................................... 50
Direitos e Deveres dos Sócios ................................................................................................. 51
Obrigação de Entrada ......................................................................................................... 53
Obrigações Acessórias e as Prestações Suplementares. ................................................... 58
Suprimentos ........................................................................................................................ 62
Direito à Informação........................................................................................................... 67
Participação nos Lucros e nas Perdas ................................................................................ 71
Reservas .............................................................................................................................. 77
DELIBERAÇÕES SOCIAIS ................................................................................................................ 78
Ata – art. 63º ........................................................................................................................... 80
Deliberações Ineficazes – art. 55º ........................................................................................ 82
Deliberações Nulas – art. 56º ............................................................................................... 83
Deliberações Anuláveis – art. 58º ......................................................................................... 87
Disposições comuns à Nulidade e à Anulabilidade – art. 60º ................................................ 92
Eficácia do Caso Julgado – art. 61º ....................................................................................... 93
Renovação da Deliberação – art. 62º.................................................................................... 93
ADMINISTRAÇÃO E FISCALIZAÇÃO................................................................................................ 95
Governo das Sociedades = Corporate Governance ................................................................. 95
Modelos de Governo............................................................................................................ 95
Administração.......................................................................................................................... 97
Art. 64º CSC – Deveres Fundamentais dos Administradores................................................. 98
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Situação Jurídica dos Administradores ............................................................................... 101


Responsabilidade Civil dos Administradores para com a Sociedade ................................... 105
Fiscalização ............................................................................................................................ 110
MODIFICAÇÕES DAS SOCIEDADES .............................................................................................. 111
Alterações do Contrato.......................................................................................................... 111
Fusão de Sociedades – art. 97º e ss. CSC ............................................................................... 113
Cisão de Sociedades – art. 118º e ss. CSC .............................................................................. 118
Transformação de Sociedades – art. 130º e ss. CSC .............................................................. 119
GRUPOS DE SOCIEDADES ........................................................................................................... 120

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Introdução
Menezes Cordeiro: Direito das Sociedades é o ramo jurídico-positivo que regula as
Sociedades e as questões conexas.
➢ Ordena e legitima o funcionamento das realidades de que se ocupa.
➢ Disciplina as relações que se estabelecem entre os sócios e assegura eficácia erga
omnes da atuação societária.
➢ Regula os bens sociais, assegura a administração e a representação.

Dá corpo à existência e ao funcionamento das sociedades.

Sociedades:
• Civis Puras – art. 980º CC
o Lógica civil que tem enfoque no contrato de sociedade, levantando a questão da
personalidade jurídica.
o Preocupação do legislador civil é centrada no Negócio Jurídico e não na
Instituição/Entidade.
▪ Januário: embora estas categorias não são antagonistas uma da outra,
tendo o Negócio Jurídico sempre bastante importância.

• Civis sob forma Comercial – regem-se pelo CSC


• Comerciais – regem-se pelo CSC

Abrangência e importância das Sociedades Civis é menor face às Sociedades Comerciais – que
têm uma dinâmica, regulação e complexidade próprias.

Sociedades Comerciais têm 2 elementos essenciais – art. 1º CSC:


1. Objetivo ser a prática de atos de comércio
2. Adoção formal de um dos 5 tipos societários contidos no CSC.
➢ MC: elemento determinante pois o art. 1º/4 estabelece que a entidade que
adote um tipo de sociedade comercial rege-se pelo Direito das Sociedades,
mesmo quando tenha por objeto exclusivo a prática de atos não-comerciais.
➢ Formalização das Sociedades Comerciais serve valores de certeza e segurança
jurídica no âmbito do comércio societário e de imediata aplicabilidade das
normas na concretização dos diversos tipos.

Evolução Histórica até à Atualidade


Inicialmente as Sociedades Comerciais surgiram nos códigos de comércio, como um contrato
entre outros.
• Ao longo do séc. XIX e XX ganharam uma projeção que levou à retirada dos códigos de
comércio e ao surgimento de leis extravagantes a regular estas matérias.

Evolução “institucionalizante” ou organizativa levou a uma autonomia desde Direito


dotado de fontes próprias, com normas técnicas, diferenciadas e desenvolvidas,
enformando uma dogmática societária.
• Antes do séc. XIX apenas havia enfoque no Negócio Jurídico e só a partir desse século é
que se começou a haver uma preocupação com a Instituição.

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o Passagem do contrato à sociedade enquanto pessoa jurídica passa pelo


fenómeno da Personificação1 – apesar de hoje o CSC dá um tratamento jurídico
específico aos fenómenos de pré-sociedade: quando ainda não há Sociedade
com personalidade jurídica (art. 5º CSC).

MC: O conceito atual de Sociedade é recente e surge no ponto de encontro de três poderosos
institutos (fatores histórico-culturais):
• Contrato romano de sociedade (societas) –surge como um contrato que traduzia uma
relação de cooperação, entre duas ou mais pessoas
• Personalidade coletiva – conceito que sofreu uma evolução técnico-jurídica no período
do racionalismo.
• Companhias coloniais dos séc. XVII e XVIII – exploração colonial foi levada a cabo
através de companhias privadas (Inglaterra e Holanda), o que levou a que estas fossem
os antecedentes mais diretos das Sociedades Anónimas.

CODIFICAÇÕES OITOCENTISTAS
Code de Commerce, 1807 – só conhecia 3 tipos de Sociedades Comerciais (Sociedade em nome
coletivo; Sociedade em comandita; Sociedade anónima). Modelo tripartido que veio a enformar
os diversos códigos comerciais subsequentes.

Influência do Code de Commerce francês precedeu a do próprio Código Civil – sob o signo
pioneiro, o século XIX fez avançar a dogmática das sociedades comerciais (particularmente a das
sociedades anónimas que operariam como matriz das restantes) e todo o esquema jurídico-
científico das organizações privadas adveio, precisamente, dessa época.
➢ A primeira geração de códigos comerciais cumpriu exemplarmente a sua missão:
além de ter permitido estabelecer as bases de uma ordem comercial e económica
nova, ela deu azo a uma doutrina comercialista.

EXPERIÊNCIA PORTUGUESA
Teve início com as Companhias Coloniais, sendo a primeira a Companhia de Lagos, de 1444, que
não era uma verdadeira companhia por faltar uma estrutura interna e não possuírem órgãos
diferenciados.
➢ Foi com os descobrimentos que estas Companhias verdadeiramente despoletaram,
sendo de destacar: Companhia Portuguesa das Índias Orientais (1587), Companhia para
a Navegação e Comércio com a Índia (1629), Companhia Geral do Comércio do Brasil
(1649).

Marquês de Pombal opera inúmeras reformas e desenvolve a criação de Companhias –


Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755), Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba
(1759), Companhia Geral dos Agricultores dos Vinhos do Alto Douro (1756), Companhia Geral
das Reaes Pescarias do Algarve (1773) – tendo diversos objetivos.
➢ MC: Portugal teve protagonismo na expansão mas faltou uma ciência jurídica que desse
corpo a companhias capazes. O próprio modelo de expansão, baseado na iniciativa do
Estado, levou à publicização das companhias, no sentido de as fazer instrumentos da
soberania do Estado.

1
Pessoa Coletiva é uma ficção jurídica que faz surgir um novo ente, a Sociedade.

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Código Ferreira Borges, de 1833, continha disposições gerais que eram o embrião das regras
sobre sociedades.
• Introduziu figuras jus-societárias mas não iguais às francesas: Companhias, Sociedades
e Parcerias Comerciais.

A Lei 22 de Junho de 1867, numa situação reforçada por diversas experiências estrangeiras
(nomeadamente a francesa), consistia numa lei extravagante sobre as Sociedades Anónimas.
➢ O número de sociedades anónimas cresceu rapidamente.

A discussão da reforma do Código Comercial começou, praticamente, logo após a aprovação do


Código Ferreira Borges, sendo a aprovação do Código Civil de 1867 um dos impulsos a esta
reforma.
Em 1888 surge o Código Veiga Beirão, que demonstra uma sistematização da matéria atinente
às Sociedades Comerciais de forma articulada e evoluída. Incorporou também o regime das
sociedades anónimas.

A Lei 11 de Abril de 1901, com origem na receção do regime alemão das sociedades de
responsabilidade limitada, consistia numa lei extravagante sobre as Sociedades por Quotas2.
➢ Este tipo societário teve grande sucesso, devido à estrutura económica do país,
assente em pequenas empresas e na possibilidade que as sociedades por quotas
têm de dar corpo a agremiações de tipo familiar.

Apesar de até aos anos 80 o quadro das Sociedades Comerciais ter sido mais ou menos estável,
a evolução do Direito Português das Sociedades foi, no séc. XX, marcado por quatro grandes
temas que exigiram novos contributos jurídico-científicos: a) fiscalização, b) codificação, c)
mobiliarização e d) europeização.

a) Problema da fiscalização dominou largamente a panorâmica do Direito das Sociedades quase


até às vésperas da preparação do CSC de 1986.

b) Necessidade de reforma foi sentida devido à perceção que os diversos aspetos contemplados
no texto de Veiga Beirão não poderiam acompanhar o dinamismo do Direito Societário.
• Além de reafirmar que aproveita a experiência portuguesa e quer adaptar-se à evolução
recente marcada pela evolução tecnológica e informática, também pretende acolher as
soluções adotadas no âmbito do projeto europeu.
• Assume também a orientação de não bulir com os conceitos comerciais provenientes
da tradição de Veiga Beirão, mas, tem uma feição codificadora e vem revogar o
essencial das normas pré-vigentes sobre sociedades comerciais, ordenando o
respetivo material em função de critérios jurídico-científicos.

As Sociedades Cooperativas autonomizaram-se e deixaram de ser Sociedades Comerciais em


sentido próprio, aprovando-se o Código Cooperativo em obediência a princípios próprios.
➢ Januário: não havia necessidade dessa autonomização e não atentava contra a
dogmática se o CSC comportasse as Sociedades Cooperativas como tipo autónomo.

2
Que a doutrina discute se é uma Sociedade Capital ou uma Sociedade Pessoa.
➢ Januário: Sociedades Capitais com regime próprio – devido à responsabilidade dos sócios ser
limitada. O regime das responsabilidades tem consequência na caracterização do tipo.

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Ao longo dos anos, o CSC foi sofrendo alteração devido ao desenvolvimento doutrinário e
jurisprudencial do Direito das Sociedades, bem como com a publicação de diplomas
complementares.

c) Código dos Valores Mobiliários levou à mobiliarização das Sociedades, tratando as sociedades,
particularmente as comerciais, enquanto entidades emissoras de valores mobiliários.
➢ MC: foi demasiado longe e prejudicou o mercado de capitais.

d) Foi devido às pressões de se alterar a legislação para mais facilmente acomodar-se a adesão
à CEE que, em 1986, a parte das Sociedades Comerciais do Código Veiga Beirão é revogada e
surge o CSC.
➢ O Direito das Sociedades tem uma acentuada influência do Direito da União Europeia
pois os grandes operadores económicos europeus são Sociedades.
o A necessidade de transpor sucessivas diretivas societárias tem constituído um
motor fundamental de progresso do Direito das Sociedades.

LIMITAÇÕES CIENTÍFICAS
O CSC não teve um tempo de laboração, de estudo e discussão muito longo o que leva a que
tenha algumas incongruências e assintonias.
• Insuficiências da Parte Geral prendem-se diretamente com as limitações
científicas existentes no momento da elaboração do Código, incorrendo em
problemas sistemáticos que não foi possível solucionar.

1) Há casos de previsões normativas específicas da parte geral que só se aplicam a certos tipos
e não a todos – há situações reguladas na Parte geral que só na aparência têm aplicação
aos diversos tipos de Sociedades Comerciais;
• Ex: art. 84º CSC
o Januário: disposição estranha pois está na parte geral e refere-se a “ações e
quotas”.3

2) Há matérias na parte especial (dos tipos) que deveriam estar na Parte Geral e não estão – o
que implica repetições e remissões entre tipos – há matéria geral que não está no local
sistematicamente apropriado, acabando por ter de se repetir várias vezes, a propósito dos
diversos tipos societários.

O CSC foi sendo alterado ao longo dos anos, havendo grandes alterações em 2006/2007 com o
Simplex, não apresentando resolução destes problemas.
➢ Januário: mas no geral é um bom edifício normativo.

O CSC, apesar da sua vocação codificadora, não regula toda a matéria relativa às Sociedades
Comerciais e há diversos aspetos que ficaram fora do código, como a regulação de instituições
de crédito e sociedades financeiras, sociedades gestoras de participações sociais e etc.

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Januário: Importante para as Sociedades unipessoais por quotas. Traz à colação os cados do
levantamento do véu e desconsideração da pessoa coletiva.

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• Surge cada vez mais a necessidade de intercalar e articular o CSC com o Código dos
Valores Mobiliários (caso de OPAs – articulação estreita dos 2 no caso de sociedades
abertas4)
• Outros diplomas, como Cód Reg Com, RNPC, CIRE e etc., têm também aplicação no
âmbito das Sociedades Comerciais.

MC: Direito das Sociedades tem vindo a alargar as suas fronteiras, de tal modo que acolhe
as próprias associações e outras realidades numa ideia de “sociedade em sentido amplo”.

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Nós só vamos estudar as fechadas, que não têm ações na bolsa.

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NOÇÃO DE SOCIEDADE
CSC não tem noção de Sociedade5
Coutinho de Abreu: O CSC diz-nos quando é comercial uma sociedade, não nos diz o que é uma
sociedade, pressupondo esse conceito.

O art. 1º6 pressupõe que ela já esteja dada.


➢ Mas, o CC apenas dá noção do contrato de Sociedade.
o Januário: noção do art. 980º CC7 é importante mas não pode ser
absolutizada/sacralizada, no sentido de se faltar um elemento da mesma já não
há uma sociedade.
o Esta noção, no âmbito do Direito das Sociedades Comercias, é o ponto de
partida mas não o ponto de chegada.
▪ Parte-se dela a priori mas atende-se ao edifício típico da Sociedade em
questão e se tal não pode fazer desconsiderar alguns elementos do art.
980º8

Dogmática do Direito das Sociedades é uma articulação entre o substrato obrigacional e o


substrato organizacional
➢ Coutinho de Abreu: é legítimo falar-se de sociedade-ato jurídico e de sociedade-
entidade.
o Mas entre ato jurídico constituinte e entidade societária há uma íntima
ligação: o ato faz nascer a entidade, que assenta geneticamente nele e por ele
é disciplinada.
o No entanto, a organização e funcionamento interno da sociedade são
independentes do ato de constituição (sendo regidos pela legislação societária).

As fontes aplicáveis às Sociedade articulam-se num sistema complexo.


Têm de atender ao Direito imperativo e supletivo, designadamente:

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José Ferreira Gomes: que no fundo é um instrumento jurídico para desenvolver um projeto empresarial.
6
Define o âmbito de aplicação e o que são Sociedades Comerciais.
Nº2 – Princípio da Tipicidade
• Foge ao princípio da autonomia privada devido a razões que ultrapassam os intervenientes e
afetam o comércio jurídico, havendo uma necessidade de certeza e segurança para terceiros
o Januário: em princípio adota-se a tipicidade, mas dentro de cada tipo societário há
possibilidade dos intervenientes se comporem com alguma amplitude.
• Tem a implicação que o CSC se aplique às Sociedades Civis sob a forma comercial e às Sociedades
Comerciais.
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Dá a noção do que é um contrato de sociedade, mas, está pensada para a Sociedade Civil e tem enfoque
no Negócio Jurídico de Sociedade.
➢ Em Direito das Sociedades Comerciais tem sempre de se articular a lógica contratual (ligada ao
NJ) e a institucional (ligada ao ente jurídico criado).
o Quando se fala em Sociedades Comerciais não é necessariamente acerca de pessoas
jurídicas – o CSC tem disposições para entes em personalidade jurídica
o Quando se fala no ente jurídico “Sociedade Comercial” não se pode esquecer o contrato
que instituiu essa mesma sociedade.
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Por exemplo quanto ao lucro: há casos de non-profit making companies.
➢ Caso dos ACE, que amplamente cabem neste conceito – considerando um “direito das pessoas
coletivas comerciais”.

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➢ às regras sobre os tipos, às regras da parte geral, às regras aplicáveis aos casos análogos
e princípios e regras do CC (art. 2º CSC), à analogia e à norma criada dentro do espírito
do sistema, ao contrato de sociedade e estatutos e às deliberações dos sócios.
➢ Contraposição entre elementos normativos e a factos derivados da autonomia
privada.
o Art. 2º CSC
▪ Diretriz metodológica com sequência específica de aplicação, perante
uma lacuna.

Princípios Gerais das Sociedades


AUTONOMIA PRIVADA – apesar de ter vários níveis de delimitação
• Januário: não tem aplicação plena.
o Dimensão aplicativa deste princípio está limitado pelo princípio da tipicidade, na
fase da constituição da sociedade.
o Este princípio assume maior relevância na fase de constituição da sociedade.
o No caso das SA, há autonomia privada em relação a cada modalidade – divisão
de competências entre órgãos pode ser conformada com alguma autonomia.

BOA FÉ E TUTELA DA CONFIANÇA – a tutela da confiança é um princípio operante da boa fé, que
exprime em cada situação concreta os valores fundamentais da ordem jurídica.
• Tem diversas manifestações, sendo uma delas os deveres de lealdade entre sócios e
administradores e etc. a realidade societária exige que as pessoas possam confiar umas
nas outras, pelo menos funcionalmente.
o Januário: CSC trata as situações com formalismo excessivo, pelo que o sistema
tem de dar resposta a isto ao atender à materialidade subjacente.

PRINCÍPIO DA LEALDADE – a relação de lealdade envolve uma relação de confiança na qual o polo ativo
(que suscita a confiança) é o indivíduo leal.

Se decompormos os elementos em que assenta a lealdade há duas bases:


• Previsibilidade da conduta – elemento subjetivo da prognose; atuação de uma parte
que suscita a convicção na outra de uma preferência, entrega e investimento.
• Correção da conduta – elemento objetivo; observância de bitolas corretas de atuação.

Os deveres de lealdade têm uma grande importância no direito privado.

No direito societário a lealdade tem manifestações em:


➢ Lealdade dos sócios entre si, lealdade dos sócios para com a sociedade, lealdade dos
administradores para com a sociedade, lealdade dos administradores para com os
acionistas.
Essas manifestações evoluíram no plano jurisprudencial e doutrinal distinguindo-se três áreas:
a) lealdade exigível aos sócios (nas relações entre si e nas com a sociedade – impressa no
seu status de sócios);
b) lealdade da sociedade para com os sócios,
c) lealdade requerida aos órgãos societários.

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Estas manifestações podem ser reconduzidas às exigências básicas do sistema – os valores


fundamentais são assegurados nas diversas decisões concretas, donde a aproximação ao
princípio geral da boa fé permite a dogmatização da ideia de sistema.

IGUALDADE E JUSTIÇA DISTRIBUTIVA – aflora em institutos como os do art. 22º/3, 22º/1,


56º/1/a, 321º, 531º e etc.
• Januário: lógica do capital em que numa sociedade, quem tem maior percentagem de
capital tem maior poder do que os outros.
• Há instrumentos que põe em crise este princípio – normas imperativas para evitar certas
situações (como pacto leonino do art. 22º/3 CSC).
o O art 24º, dos direitos especiais, é compatível com o sistema atendendo ao que
for disposto no contrato de sociedade e tem de ser enquadrado quanto às
vicissitudes societárias.

CONTROLO DO DIREITO SOBRE A ECONOMIA – o Direito não está ao serviço da Economia,


sendo conformado pelas relações de força que nesta se estabeleçam.
• O Direito defende a concorrência e tutela as minorias – art. 76º/1, 77º/1, 86º/1.
• Economia é instável pelo que o Direito tem de a regular.

MODO COLETIVO – regras básicas não se dirigem a seres humanos mas a entes coletivos,
existindo, então, uma autonomia funcional e patrimonial deste sujeito de direito (centro próprio
de imputação de normas jurídicas). Também há mecanismos de limitação do risco.
• Januário: associado à personalidade coletiva – funcionando pelo paradigma da
pluripessoalidade e associado às responsabilidades.

Elementos das Sociedades


Não havendo definição de Sociedade no CSC, partimos da noção civil do art. 980º CC de onde
se decantam os elemos próprios da Sociedade Comercial a partir dos da Civil.

PESSOAL – fator humano subjacente à pessoa considerada.


Exigência de um elemento pessoal traduzido na pluralidade de sócios radica na ideia de
societas como contrato e no desenvolvimento da sociedade como ente autónomo, irredutível a
uma realidade humana singular.
➢ Agrupamento de sujeitos que compõe a Sociedade.

Boa parte das regras próprias das Sociedades Comerciais têm a ver com a necessidade de
acomodar os interesses de várias e distintas pessoas.

Esta pluralidade nem sempre se verifica – devido a eventos naturais (morte) ou fenómenos
jurídicos (exoneração) – mas a lei exige que essa pluralidade seja reconstituída (art. 142º).
➢ Um desvio a isto é a possibilidade de se criar Sociedades Unipessoais9 – no entanto, a
estrutura das Sociedades está marcada em função dessa pluralidade, que é existencial.

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Coutinho de Abreu:
• Sociedades supervenientemente unipessoais – em regra é transitório e é admitido pelo art.
1007º/d CC e 142º/1/a, 270º-A/2, 464º/3 CSC

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o A Sociedade Comercial, na base da pluralidade de sócios, dá azo a esquemas


organizativos suscetíveis de dar forma jurídica a empresas que seguem
determinados fins e que se deviam a essa base.
o Esses esquemas organizativos podem ser utilizados fora dos condicionalismos
para os quais foram pensados e a carga do termo “sociedade”, culturalmente, é
preferível a figuras como o EIRL.

Januário: não podemos absolutizar o art. 980º, mas, a regra é ainda a pluralidade de sócios.
• Funcionamento das sociedades comerciais está estruturado numa lógica de pluralidade
– mesmo nas sociedades unipessoais o paradigma é o da pluralidade

Art. 488º permite um número singular.

Art. 273º (mínimo na SA são 5 pessoas) é a exceção ao art. 7º (mínimo para uma sociedade são
2 pessoas)

PATRIMONIAL – conjunto de bens que servem a sociedade


As Sociedades dispõem de um património ou conjunto de bens – coisas e direitos – unificados
em função de determinado ponto de vista, tal como as Sociedades Civis Puras.
➢ Sociedade representa uma organização humana, com objetivos patrimoniais.
➢ Entidade que exige um património próprio

A Sociedade adquire o direito (de crédito) às entradas, pelo que esse elemento integrará sempre
o acervo patrimonial.
➢ Não há Sociedades sem obrigações de entrada e, portanto, sem um património daí
resultante.
o Sem esse elemento real, as sociedades despareceriam enquanto ente autónomo,
transformando-se em meras articulações de serviços.
➢ Património da entrada dos sócios passa a ser o património da sociedade
o Inicialmente, o património é constituído pelos direitos correspondentes às
obrigações de entrada dos sócios.
o Depois, à medida que vai correndo a vida da sociedade, o património social vai-
se alterando com a entrada e saída de outros direitos ou bens e de obrigações
pecuniariamente avaliáveis.

TELEOLÓGICO – finalidade do ente coletivo


Januário: atividade económica que não seja de mera fruição, traduzindo-se na prática de atos
de comércio.

• Sociedades originariamente unipessoais – previsto pelo art. 270º-A/1, 488º/1

Art. 7º/2 CSC


➢ Evolução do pensamento jurídico desde a impossibilidade de se criar uma Sociedade Comercial
com apenas uma pessoa singular (que levou ao surgimento do EIRL) até à aceitação dessa
possibilidade.
➢ Influência da doutrina no sentido de considerar a lógica institucional – e não a contratual, que
impedia formar o contrato de sociedade (pois para um contrato é preciso mais partes do que
apenas uma).

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• Uma sociedade só existe porque tem um fim, ao serviço de seres humanos.


o A não ter um objeto (exterior), nenhuma razão existe para a subsistência da
sociedade: levando à sua dissolução, legalmente prevista.
• Deve traduzir-se na prática de atos de comércio – art. 1º/2 CSC

Coutinho de Abreu: atividade económica (i.e., uma série ou sucessão de atos de onde resulta
um lucro patrimonial10) que os sócios se propõem a exercer mediante a sociedade (ou
propõem que a sociedade exerça). Deve ser uma atividade certa ou determinada e traduzida
na prática de atos de comércio.

Enquanto a Sociedade Civil pura visa o exercício comum de certa atividade económico (art. 980º
CC) a Sociedade Comercial tem como escopo a obtenção de lucros.
➢ Obtenção de lucros é o Objeto Mediato/final de qualquer sociedade.
o Para além dele, cada ente societário terá um fim ou Objeto Imediato: a
concreta atividade económica a que se irá dedicar.

O objeto da Sociedade deve constar obrigatoriamente dos seus estatutos – art. 9º/1/d CSC.
• Deve manter-se durante toda a vida da sociedade, basta ver que a sua realização
completa ou a sua ilicitude superveniente constituem casos de dissolução imediata dos
entres societários (art. 141º/c, d).

O objeto da sociedade condiciona as deliberações dos sócios, sob pena de violação dos próprios
estatutos sociais e baliza a atuação dos administradores.

Pode abranger uma ou mais atividades principais (objeto principal da sociedade), atividades
secundárias (considerada nos estatutos sociais de forma subordinada – só faz sentido perante a
primeira – ex: atividade principal é comércio de peixe e a secundária é o embalar) e atividades
acessórias (teia de atividades acessórias que dão corpo à atividade principal – ex: sociedade tem
um objeto económico e contrata trabalhadores para o realizar).

Fim da sociedade: escopo da sociedade é a obtenção, através do exercício da atividade-


objeto social, de lucros e a sua repartição pelos sócios.
➢ Doutrina italiana afirma que não basta lucro objetivo (obtenção de lucro) e também é
preciso o lucro subjetivo (divisão pelos sócios).
o LUCRO = ganho traduzível num incremento do património da sociedade, sendo
um valor patrimonial distribuível.
o Estes lucros são da sociedade mas destinam-se a ser
divididos/distribuídos/repartidos pelos sócios.

Sujeição a perdas: casos em que os sócios podem perder e não lucrar não está contemplada pelo
art. 980º CC mas deve integrar-se nos elementos que caracterizam a sociedade, extraindo-se do
art. 994º CC e do art. 22º/3

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Não podem ser atividades de mera fruição, tendo por objeto atividades de simples desfrute, de mera
perceção de frutos (naturais ou civis) de bens.

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FORMAL – concreta configuração ou organização de que a Sociedade se reveste


Do elemento formal deriva a organização – Sociedades Comerciais implicam uma estrutura
interna, com órgãos diferenciados e esquemas de representação.

Princípio da Tipicidade das Sociedades Comerciais conduz a:


A. Numerus clausus de sociedades – não são possíveis esquemas societários não previstos
na lei. Torna-se possível, pela interpretação, apurar concretamente quantos e quais os
tipos societários existentes.
B. Natureza delimitativa de cada tipo – regras de cada tipo não podem ser afastadas pela
autonomia privada. Cada um dos tipos tem um regime fechado.
C. Limitação da analogia – não se pode recorrer à analogia para constituir tipos diferentes
dos previstos na lei.

A finalidade da tipicidade societária11 corresponde a um fenómeno de institucionalização de


regras antes dispersas, limitando a liberdade contratual.
➢ Januário: independentemente do contrato de sociedade e da adoção de um tipo
societário, existe uma margem de autonomia privada – as regras que caracterizam a
arquitetura do tipo têm de ser respeitadas, fora isso há lugar à autonomia privada – há
margem de realização do contrato que pode ser trabalhada.
o O modelo legal pode ser tomado como um contrato-quadro, com um
considerável espaço para a conformação contratual das sociedades.

Função formal de permitir normalizar as decisões e função substancial de eticizar as relações


materiais entre os intervenientes.

Na escolha do tipo social cabe às partes ponderar diversos vetores em presença – aspetos
fiscais, organizatórios, responsabilidade patrimonial e etc.
➢ O tipo societário é integrado por normas que têm a ver com os pontos seguintes:
conformação da firma; regime de responsabilidade por dívidas; regras básicas de
participações sociais;

Uma sociedade que tem por objeto a prática de atos de comércio, ainda quando não adote
um dos referidos tipos, é sociedade comercial – apesar de irregularmente constituída quando
falte essa adoção.
➢ Para uma sociedade ser Sociedade Civil há-de ter exclusivamente por objeto uma
atividade não comercial, é o que resulta dos art. 1º/3 e 4 CSC.
➢ Mas essa sociedade civil pode ser Sociedade Civil Simples ou de Forma Comercial (são
sociedades civis mas adotam um tipo comercial, sendo-lhes aplicável o CSC – art. 1º/412)

Uma sociedade com objeto mercantil deve adotar, e só pode adotar, um dos tipos de
sociedades comerciais do art. 1º/3 CSC.

11
Januário: Com este princípio pretende-se aferir do regime da responsabilidade dos sócios. Ou seja, se
podem, e em que termos, é que os sócios da sociedade podem ser responsabilizados pelas dívidas da
sociedade
12
Há sociedades que não podem adotar nenhum tipo de sociedade comercial: sociedades de advogados
(DL 229/2004). Há outra que têm de adotar apenas um certo tipo: sociedades de agricultura de grupo

13
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Portanto, tendo isto em conta:


→ Sociedade é a entidade que, composta por um ou mais sujeitos (sócios) tem
um património autónomo para o exercício de atividade económica, a fim de
(em regra) obter lucros e atribuí-los aos sócios – ficando estes, todavia,
sujeitos a perdas.

14
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Tipos Societários
Pedro Maia

Princípio da tipicidade constitui uma restrição ao princípio da autonomia privada, em especial


na sua vertente de liberdade contratual (mesmo para aquelas que se estabelecem por negócio
jurídico unilateral, como as sociedades unipessoais por quotas, art. 270º-A e ss., e anónimas,
art. 488º).
➢ Partes não podem celebrar contratos de sociedade comercial diferentes dos previstos
na lei.
o Mas, art. 1º/3 CSC deixa intacta a liberdade de contratar em sentido estrito e
a liberdade da escolha das contrapartes no contrato.

No entanto, ainda há um espaço de liberdade que varia consoante o tipo de sociedade em causa:
➢ Observando um tipo e respeitando as normas de caráter imperativo que o regulam, as
partes podem conformar livremente o conteúdo do contrato de sociedade.

Este princípio da tipicidade aplica-se às sociedades cujo objeto consista apenas na prática de
atos de comércio e também às sociedades que tenham um objeto misto, i.e., tanto pratiquem
atos de comércio como atos não comerciais por objetivo – resulta a contrario do art. 1º/4 CSC.
• Aplica-se às criadas por negócio jurídico.
o As criadas ope legis podem desviar-se dos tipos previstos no CSC.
• Aplica-se o regime das Sociedades Comerciais devido a terem um dos tipos do CSC (art.
1º/2 e art. 1º/1).

Justifica-se pela tutela da segurança jurídica, em especial os interesses de terceiros.


➢ Compreende-se que o legislador só conceda aos sócios o benefício da limitação da
responsabilidade mediante a observância por estes de um tipo cujo regime se encontra
pré-fixado na lei, sendo por isso, conhecido de todos.
o Sócios: Também se compreende devido ao afastamento da possibilidade de
constituição de sociedades atípicas, que é um acréscimo de segurança e certeza
para os sócios na sua relação jurídica com a sociedade.
o Sociedade: No fundo, também protege a própria sociedade (ex: conflito entre
sócios e a sociedade) – garante que a sociedade existe para prosseguir o seu fim
da melhor maneira possível.
o “Interesse comercial geral”: Interesse público devido às sociedades serem os
instrumentos fundamentais da economia dos nossos dia e na medida em que o
princípio da tipicidade torna a sua intervenção no tráfico jurídico muito mais
estável e certa.

CARACTERIZAÇÃO GERAL DOS TIPOS LEGAIS SOCIETÁRIOS


O tipo de responsabilidade assumida pelos sócios revela-se um elemento fulcral para a definição de cada
tipo de sociedade, mas, a par desse elemento, a estrutura organizatória (definida na lei para cada um dos
tipos) também é um elemento fulcral na definição de cada tipo.

Existe uma relação de mútua implicação entre a estrutura organizatória e a natureza da


responsabilidade dos sócios em cada tipo de sociedade – devido ao equilíbrio interno de cada sociedade
que se revela essencial para a prossecução dos interesses da mesma e o princípio da tipicidade.

15
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1. Responsabilidade dos sócios perante a sociedade e perante credores sociais


SNC – SOCIEDADES EM NOME COLETIVO; art. 175º
Respondem perante a sociedade pela sua obrigação de entrada
Respondem perante os credores da sociedade pelas obrigações desta – responsabilidade
subsidiária face à sociedade e solidária entre os sócios (art. 175º/1)
• “subsidiariamente” – significa que exaurido o património social podem os sócios
responder pelas dívidas da sociedade
o = Responsabilidade Ilimitada
• “solidariedade” – esses sócios respondem pelas dívidas da sociedade a terceiros de
forma solidária
o Nos termos de uma obrigação solidária em que interpelado um responde por
todos, tendo depois direito de regresso.

LDA. – SOCIEDADES POR QUOTAS; art. 197º e 198º


Art. 197º/1 e 3
Respondem perante a sociedade pela sua obrigação de entrada e pela realização das entradas
dos seus consócios.
Não respondem perante os credores da sociedade
o = Responsabilidade Limitada

Mas o art. 198º permite estipulações contratuais distintas em que um ou mais sócios podem
responder perante os credores sociais até determinado montante.
➢ Esta possibilidade vem impedir a afirmação que a irresponsabilidade dos sócios
perante os credores sociais é uma característica essencial da sociedade por quotas.
o É um traço-regra de caráter supletivo

O elemento nuclear é a limitação da responsabilidade – sócios podem responder por dívidas da


sociedade, mas nunca podem responder ilimitadamente por essas dívidas.
• Esse determinado montante, da limitação, tem de corresponder +/- à atividade social,
não podendo ser desajustado da faturação da sociedade, uma vez que tal pode servir
para mascarar o regime das responsabilidades, passando a ser ilimitado.

Januário: margem parametrizada, em que o sócio pode admitir responder perante credores da
sociedade.
➢ Esses parâmetros são dados por contrato e até ao montante máximo coerente com o
capital social (senão desvirtuava-se a norma e teríamos uma SNC)

SA – SOCIEDADES ANÓNIMAS; art. 217º


Sociedade duplamente limitada:
• Internamente – Respondem perante a sociedade pela sua obrigação de entrada apenas;
não respondem por nenhuma dívida além da sua própria obrigação de entrada (art.
217º)
• Externamente – Não respondem perante os credores da sociedade pelas dívidas desta

16
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Sociedades em comandita simples


Existem 2 grupos de sócios:
• Comanditados – assumem uma responsabilidade igual à dos sócios das sociedades em
nome coletivo
• Comanditários – respondem apenas pela sua entrada (art. 465º/1)

Por isso se fala que esta pode ser uma sociedade de tipo misto ou híbrido – reúne numa mesma
sociedade sócios com responsabilidade limitada e outros com responsabilidade ilimitada.

Sociedades em comandita por ações


Responsabilidade iguais às Sociedades em comandita simples.
➢ Diferenças entre os tipos não é na sede das responsabilidades

2. Transmissão de participações sociais inter vivos


Transmissão da Participação Social = venda da percentagem que o sócio detém no capital social
da sociedade.
➢ Ao vender tudo, deixa de ser sócio, pois a qualidade de sócio é inerente à detenção do
capital social.
➢ Se vender e ficar com 1% ainda é sócio.
➢ Implica a substituição de sócios

Tem de conciliar interesses antagónicos:


• o interesse do sócio que pretende transmitir a sua participação (pretendendo máxima
liberdade para essa transmissão, de forma a mobilizar quando e como quiser o seu
património e poder desvincular-se do grémio social);
• os interesses dos restantes sócios e da própria sociedade (pretendendo impedir a
transmissão quando tal for indesejável).

A solução encontrada para a composição de tais interesses difere do tipo de sociedade, pois a
medida/intensidade desses interesses também não é a mesma em todos os tipos.

SNC – SOCIEDADES EM NOME COLETIVO; art. 182º/1 + 185º/1/a


Primazia ao interesse dos sócios subsistentes na sociedade em não passarem a ter, sem o seu
expresso consentimento, um novo sócio.
➢ Devido às consequências negativas que podiam advir da entrada de um estranho
(indesejado) na sociedade.

LDA. – SOCIEDADES POR QUOTAS; art. 228º/2 + 242º-A


Regime supletivo para a cessão de quotas difere, pois, consoante a pessoa do cessionário:
➢ É livre a cessão para o cônjuge, ascendente ou descendente, bem como para outro
sócio;
➢ Dependem de consentimento da sociedade todas as outras cessões.

17
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Nos casos em que a cessão não é livre, o consentimento é dado pela sociedade e não pelos
sócios – deliberação em que sócio alienante não pode votar.

Este regime pode ser amplamente derrogado no contrato de sociedade – art. 229º
• Pode tornar mais fácil ou menos fácil a transmissão de participações – conformação da
sociedade especificamente está na autonomia dos sócios, aproximando-as mais das
sociedades pessoas ou sociedades capitais.

Tutelam-se os interesses dos sócios que permanecem mas também do que quer sair, pois aquele
a quem é recusado consentimento terá sempre a possibilidade de realizar, ao menos
parcialmente, o seu interesse – art. 231º

Difere das Sociedades em Nome Coletivo pois há casos em que não é necessário o consentimento
(os do art. 228º/2) e a grande diferença é que na Sociedade por Quotas o consentimento é dado
pela sociedade e não pelos sócios.

SA – SOCIEDADES ANÓNIMAS; art. 328º


É em princípio livre, basta o sócio querer alienar a sua ação

Art. 328º/2 limita (nunca exclui) a transmissão das ações nominativas, mas não as ações ao
portador.
➢ Sócios podem limitar mas nunca excluir (enquanto nos outros tipos societários pode
haver essa exclusão).
➢ Sujeito aos prazos do art. 329º - se forem ultrapassados a transmissão é livre

Lei deixou reduzido âmbito para derrogação do regime da liberdade, por via do contrato –
compreende-se esta solução devido à Sociedade Anónima estar gizada para a disseminação do
seu capital, o que impõe a fácil circulação das ações.

SNC = mais difícil; autorização de todos os sócios


Lda. = difícil; autorização da sociedade (exceto alguns casos)
S.A. = menos difícil; nenhuma autorização (pode é haver alguma limitação)

Sociedades em comandita; art. 469º/1 + 475º + 478º

3. Estrutura Organizatória
Coutinho de Abreu: órgãos sociais são centros institucionalizados de poderes funcionais a
exercer por pessoa/pessoas com o objetivo de formar/exprimir a vontade juridicamente
imputável às sociedades.

SNC – SOCIEDADES EM NOME COLETIVO; art. 189º e ss.


Poder supremo sobre a sociedade pertence à coletividade de sócios – à assembleia de sócios.
➢ Este órgão pode deliberar sobre todos os assuntos – art. 189º

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Aos gerentes cabe a administração da sociedade – art. 192º (+ 191º, 193º)

2 órgãos: administração (Gerência) + deliberação (Assembleia Geral)


➢ Todos os sócios são gerentes, à partida, devido a cada sócio poder vir a responder com
o seu património
o Oneração do sócio é de tal ordem que justifica ele poder tomar as decisões na
vida societária que podem vir a impactar o património da sociedade que possam
comprometer o património dos sócios.

LDA. – SOCIEDADES POR QUOTAS; art. 246º-252º e ss.


Existe o órgão coletividade dos sócios – Assembleia de Sócios.
➢ Delibera de forma unânime por escrito (art. 54º) e pode decidir mediante deliberação
em assembleia geral (art. 247º)
o Conjunto imperativo de competências que não podem ser remetidas para
outro órgão – art. 246º/1
▪ Conjunto de competências supletivas – art. 246º/2

Gerência: art. 252º + 261º


Pode ainda ter o órgão do conselho fiscal: art. 262º

ADMINISTRAÇÃO: Gerente (art. 252º)


DELIBERAÇÃO: Assembleia Geral (art. 248º)
FISCALIZAÇÃO: Conselho Fiscal (art. 262º), ou, Fiscal Único (que, a ser, é ROC – art. 414º)
• Se não tiver Conselho Fiscal pode ter Revisor Oficial de Contas atendendo aos requisitos
do art. 262º/2 – na SNC não há este órgão devido ao regime da responsabilidade e etc.
• Não tem sempre este órgão de fiscalização – só nestes casos e atendendo ao volume de
negócios.
o Quando não tem este órgão quem fiscaliza são os próprios sócios.

SA – SOCIEDADES ANÓNIMAS; art. 278º


Pode estruturar-se segundo 3 modalidades distintas – art. 278º/1
a) MONISTA/LATINA
➢ Administração: um só Órgão (Conselho de Administração ou Administrador
Único – art. 390º e ss.)
➢ Fiscalização: Conselho Fiscal (art. 413º/1)

b) ANGLO-SAXÓNICA
➢ Administração: um órgão (Conselho de Administração)
i. Parte desses membros do conselho de administração integra um outro
órgão de fiscalização (Comissão de Auditoria – art. 423º-B)
ii. Membros da comissão de auditoria, que é um órgão de fiscalização da
sociedade são simultaneamente administradores membros do
conselho de administração.

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➢ Construído sobre o modelo monista, do qual difere apenas na parte em que


destaca do conselho de administração um outro órgão a quem compete
genericamente fiscalizar a atividade da administração da sociedade.
➢ Aparentemente mantém-se idêntico tanto o quadro de competências como o
estatuto individual dos administradores e o funcionamento do conselho de
administração.
➢ Fiscalização: ROC (art. 446º + art. 413º/2)

Conselho de Administração (com Comissão de Auditoria) + ROC

c) DUALISTA/GERMÂNICA
➢ Administração: dois órgãos (Conselho Geral e de Supervisão + Conselho de
Administração Executivo –> art. 434º e ss. + 424º e ss.)
➢ Fiscalização: ROC (art. 446º)

CAE + CGS + ROC

Existe sempre um órgão de coletividade de sócios que não tem as mesmas competências em
todas as estruturas admitidas por lei.
• Não tem de compor-se por todos os sócios e pode haver ações preferenciais sem voto
(art. 343º/1 e 379º/2) ou exigir número mínimo de ações (art. 379º/2 e 384º/2/a).
• Não podem deliberar fora dos casos previstos na lei, sobre matérias de gestão da
sociedade – a não ser no caso do art. 373º/3.

Sociedades em comandita
Por remissão dos art. 474º (simples) e 478º (por ações) aplicam-se as disposições relativas às
sociedades em nome coletivo e às sociedades anónimas, em tudo o que não for contrariado
por normas específicas destes tipos.

Gerência deve ser composta por sócios comanditados – art. 470º/1

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Resumo

4. Número mínimo de sócios


Art. 7º/2 – comportando exceções

Exigência de mais: sociedades anónimas (art. 273º) + comandita por ações (art. 479º)
Dispensa do mínimo: sociedades por quotas unipessoais (art. 270º-A) + anónimas unipessoais
(art. 488º/1 + 481º/1)

TIPOS DOUTRINAIS DE SOCIEDADES COMERCIAIS


Sociedades Pessoas
Importância decisiva é a pessoa dos sócios no exercício da atividade social, e têm na sociedade
em nome coletivo o seu protótipo.
• Cariz personalístico reflete-se em diversos aspetos do seu regime jurídico como o da
transmissão de participações sociais por negócio inter vivos, transmissão mortis causa,
exclusão da sociedade (art. 186º), deliberações por unanimidade (art. 194º), todos os
sócios são gerente e etc.
• Em todos estes aspetos é bem patente a importância que a pessoa de cada sócio
assume nesta categoria de sociedades.

Sociedades de Capitais
Importância decisiva não é o sócio mas sim a sua “participação de capital” ou o seu contributo
patrimonial para o exercício da atividade societária.
• O paradigma é do da sociedade anónima.
• O regime altera-se tendo em conta esta ótica de contributo patrimonial e não pessoal.

21
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E as Sociedades por Quotas?


Regime legal muito flexível levado pelo legislador atribuir caráter meramente supletivo a muitas
das normas que regulam estas sociedades.
➢ Devido a tal, os sócios podem atribuir à sociedade um caráter iminentemente
capitalístico ou vincadamente personalístico.
o Concretamente, uma sociedade por quotas tanto pode pertencer a uma
categoria como à outra, tudo dependendo das opções tomadas pelos sócios.

Em abstrato, o modelo que o legislador seguiu foi o da sociedade por quotas personalística –
não afastando os sócios o regime supletivo fixado no CSC, esta sociedade apresenta-se como
uma Sociedade de Pessoas.

Pedro Maia: esta distinção tem uma utilidade didática, em sede de interpretação e integração
da própria lei (em que pode ser útil ter presente o figurino personalístico ou capitalístico seguido
pelo legislador) e em sede de interpretação e integração de (cada) contrato de sociedade (de
forma a se encontrar o sentido das cláusulas inscritas no contrato de cada sociedade e para mais
facilmente encontrar-se o regime aplicável quando houver uma lacuna).
➢ No entanto, esta distinção não é estanque e pode haver desvios.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Personalidade Jurídica das Sociedades


Formado o substrato societário (com os elementos) e cumpridos outros requisitos (registo),
a lei atribui personalidade jurídica às sociedades comerciais (e civis de tipo comercial).
➢ Todas adquirem personalidade com o registo13

O desenvolvimento geral da doutrina da personalidade coletiva constituiu um dos fatores de


sedimentação das Sociedades14
• Em Direito, pessoa é sempre um centro de imputação de normas jurídicas, i.e., um
pólo de direitos subjetivos, que lhe cabem e de obrigações que lhe competem.
o MC: Definição sistemática, técnica e funcional: permite numa fórmula
sintética, a articulação da personalidade com o direito subjetivo e os
demais níveis da ordem jurídica. É unitária.

Ao lado da personalidade coletiva, tendencialmente plena (boa para todos os efeitos, dentro do
princípio da especialidade), existe uma personalidade coletiva rudimentar (operacional, apenas
para os concretos âmbitos que a lei lhe atribuir).
• Às pessoas rudimentares podem aplicar-se regras próprias da personalidade coletiva,
mas, apenas aquelas que surjam expressamente com essa dimensão.
o Fora do que a lei preveja, a pessoa rudimentar é substituída pelos titulares
efetivos dos bens em presença.
o O modo coletivo deve ser apurado caso a caso.
• Pode haver um modo coletivo imperfeito – constituem-se figuras afins às pessoas
coletivas.

A pessoa coletiva prossegue objetivos práticos, surgindo dotada de um substrato: uma


organização de pessoas que a sirvam, bens de afetação e um objetivo geral.
• Esse substrato põe-se em marcha antes do ato formal atributivo da personalidade.
• Direito reconhece a esse substrato em jogo, mesmo sem ter um reconhecimento formal.
o Determinadas potencialidades, enquanto sujeito de direitos.

Domina na doutrina a compreensão técnico-jurídica da pessoa coletiva – a ordem jurídica atribui


às Sociedades a qualidade de sujeitos de direito, de autónomos centros de imputação de
efeitos jurídicos.
➢ É uma construção técnico-jurídica
o CA: sendo realidade15 e não ficção – as pessoas jurídicas não são tratadas “como
se” fossem homens; esta realidade é jurídica de criação pelo direito e não social-
antropomórfica.

13
Quanto às (novas) sociedades resultantes de fusão ou de cisão, também adquirem personalidade com o registo
respetivo (art. 112º, 120º).
O mesmo se entende quanto às sociedades civis de tipo comercial, resultantes da transformação de sociedades civis
simples (art. 130º/2, 6).
14
Quanto à cessação da personalidade: dissolução e a liquidação
➢ Uma vez constituída, a personalidade coletiva mantém-se até à superveniência de uma
dissolução e ao término da liquidação.
➢ Com efeito, ainda que em liquidação, a sociedade mantém a sua personalidade (art.
146º/2): a extinção sobrevém, mesmo entre os sócios, com o registo do encerramento da
liquidação (art, 160º/2).
15
MC: classifica a doutrina de Coutinho de Abreu como realismo jurídico

23
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

➢ Não tem carga ético-axiológica que a personalidade das pessoas singulares encerra,
importando indagar o sentido-função (o porquê-e-para-quê da personalidade
coletiva):

o Pessoa coletiva é meio simples e eficaz para prover a interesses coletivos


▪ Não é condição suficiente nem necessária: existem sociedades
unipessoais.
▪ Podem promover interesses pessoais (relativos à limitação de
responsabilidade).
o Pessoa coletiva tem certos atributos e consequências (como a
responsabilidade própria)
▪ Nada disto é exclusivo das pessoas coletivas – entes não personalizados,
como sociedades antes do registo definitivo, também os podem ter.
• Portanto, nem todos os sujeitos de direitos, deveres e situações
jurídicas têm de ser pessoas – personalidade coletiva, enquanto
conceito expressivo de autónoma subjetividade, não deve ser
absolutizada.

CA: Papel do conceito de “Pessoa Coletiva” é Normativo


• Conteúdo significativo mínimo de autónoma subjetividade jurídica auxilia em tarefas de
interpretação, integração e aplicação do direito.
• Função ideológica – quanto à limitação da responsabilidade.
o Graças ao conceito de pessoa jurídica, a responsabilidade limitada pode ver-se
já não como “privilégio” (exceção ao princípio geral da ilimitada
responsabilidade patrimonial do devedor) e transforma-se, ela própria, na
aplicação do princípio geral (pois o património da pessoa jurídica sociedade
responde ilimitadamente perante os devedores).16

CONSEQUÊNCIAS DA PERSONIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES – art. 5º CSC


A sociedade é uma “pessoa”, uma entidade destinatária de normas jurídicas e, portanto, capaz
de ser titular de direitos subjetivos ou de se encontrar adstrita a obrigações.
➢ A sociedade pode autodeterminar-se, no espaço de legitimidade conferido pelos
direitos de que seja titular e, deve agir, no campo das suas adstrições.

Quais as consequências de ser um polo de direitos subjetivos, que lhe cabem e de obrigações,
que lhe competem?
1) As sociedades têm direitos e deveres próprios, irrepercutíveis nos sócios;
2) Os atos dos administradores, praticados nessa qualidade, sejam eles lícitos ou ilícitos,
são imputados, apenas, à sociedade;
3) Pelas dívidas da sociedade respondem os bens desta;
4) Os credores individuais do sócio não podem responsabilizar os bens da sociedade: só a
participação social;
5) O sócio não pode dispor dos bens da sociedade: só da sua participação social;

16
Januário concorda com Coutinho de Abreu
➢ Januário: todas as sociedades acabam por ser de responsabilidade ilimitada – a discussão gira
em torno de saber até que ponto os sócios podem responder pelas dívidas da Sociedade (e se os
sócios podem ser responsabilizados pelos credores).

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

6) Os credores da sociedade preferem sobre os bens sociais, no confronto com os credores


individuais dos sócios.

Quanto a deveres próprios, salientam-se as obrigações públicas, relacionadas com o RNPC, com
a tributação e com a prestação de contas e as privadas, derivadas da lei e dos contratos
celebrados através dos órgãos públicos.

No plano dos direitos próprios, irrepercutíveis nos sócios (1), há direito ao bom nome e à honra?
Não há dúvidas quanto ao: Direito ao nome (à firma), que acompanha todas as sociedades
comerciais, como elemento essencial – art. 9º/1/c CSC.

Art. 12º/2 CRP determina que as pessoas coletivas gozam dos direitos e estão sujeitas aos
direitos compatíveis com a sua natureza.
➢ MC: Não ficam por isso excluídos, o direito ao bom nome, o direito à honra.
o É possível concluir que a sociedade, por um lado, é titular de direitos de
personalidade, como também tem a necessária capacidade para intentar uma
ação que garanta que os mesmos estão a ser respeitados.

No direito ao bom nome/honra como uma proteção externa.


➢ As pessoas coletivas não têm um substrato humano que lhes permita o sofrimento da
construção da dimensão interna, mas temos a dimensão externa: a dimensão da honra
tem impacto na sua rentabilidade, na sua possibilidade de desenvolver a atividade
comercial; tem impacto no bom nome/reputação na praça

Tendo em conta a existência deste direito, quando ele é violado surge como Dano Patrimonial
ou Dano Não Patrimonial/Moral?
➢ Art. 484º CC
o Questão prévia é averiguar se este artigo é extensível às Sociedades Comerciais.
▪ Maioria da doutrina entende que sim, pois o Bom Nome da Sociedade
influencia a sua atividade comercial.

1. Para uma corrente jurisprudencial a ofensa do bom nome e reputação das sociedades
comerciais apenas releva como dano patrimonial indireto17, não sendo por isso suscetível de
indemnização por danos não patrimoniais.
• Invocando-se que o bom nome e reputação das sociedades comerciais apenas
interessam na medida da vantagem económica que deles podem retirar
• STJ 27/11/2003; STJ 9/6/2005; STJ 23/1/2007

17
STJ, 6 de julho de 2011, Rel. Gabriel Catarino
➢ A ofensa do bom nome e reputação das sociedades comerciais só releva enquanto dano
patrimonial indireto – não é suscetível de indemnização por danos não patrimoniais.
➢ O bom nome e a reputação das sociedades comerciais apenas interessam na medida da
vantagem económica que deles podem retirar
TRG, 16 de fevereiro de 2017, Rel. Higina Castelo
➢ Este Acórdão admite que as pessoas coletivas possam ter direitos de personalidade, como ao
crédito ou ao bom nome, mas que jamais estes possam causar danos não patrimoniais. Quanto
muito, podem causar danos patrimoniais indiretos

25
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

2. Para outra corrente, é possível reconhecer às sociedades comerciais o direito a indemnização


por danos não patrimoniais
• São sujeitos autónomos de direito, dotados de personalidade jurídica e têm interesse
em defender o seu bom nome comercial, o seu prestígio, a sua credibilidade, enfim, a
sua imagem, pois daí pode depender em grande medida o sucesso da sua atividade
• STJ 5/10/2003; STJ 12/2/2008; STJ 21/5/2009; STJ 12/5/2010; STJ 17/6/2010

António Pinto Monteiro: danos não patrimoniais não são transponíveis para as pessoas
coletivas, pois elas não têm as características da pessoa humana (as sociedades não choram).
➢ A própria índole do dano não patrimonial pressupõe que a vítima possa sofrer, ter dores,
ter sentimentos e emoções. O dinheiro com que se visa compensar esse dano também
pressupõe estes sentimentos – ou seja, pressupõe a capacidade de chorar e de rir
➢ As pessoas coletivas não podem sofrer danos de natureza não patrimonial, posição mais
adequada ao princípio da especialidade de fim dessas pessoas
o Portanto, não pode valer na mesma lógica e tem de se valorar de forma
diferente, como dano patrimonial indireto.

E se o dano for produzido em duas esferas distintas (dum sócio e da sociedade)?


Além da Sociedade, o Sócio pode pedir uma indemnização – mas tem de ser aferido que através
do ataque à sociedade o sócio sofreu repercussões na sua esfera jurídica.
➢ Ex: sociedade e sócio têm mesmo nome.

A personalização das sociedades significa, no fundo, que os direitos e deveres dos seus sócios
são tratados em modo coletivo.
➢ Ou seja: embora os seres humanos sejam sempre, em última análise, os únicos
destinatários possíveis de normas jurídicas, a personalidade coletiva permite que,
através de novos jogos de normas, os direitos e deveres daí resultantes sejam exercidos
e acatados através de uma organização própria.

LEVANTAMENTO/DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA


Separação da pessoa coletiva dos seus sócios (outros autónomos sujeitos de direito) não deve
obnubilar-nos.
➢ A sociedade não vive por si e para si, antes existe por e para os sócios sendo instrumento
destes.

Esta substancialista consideração da personalidade coletiva abre vias à desconsideração da


personalidade coletiva, levando por vezes ao levantamento do véu da personalidade que
derroga o princípio da separação.
• Menezes Cordeiro: Instituto que surgiu a posteriori para sistematizar e explicar
diversas soluções quanto a problemas da personalidade coletiva.
o Este instituto surge como consequência da personalidade coletiva.
o Na sua origem encontra-se uma multiplicidade de casos concretos.

Desconsideração da Personalidade Coletiva das Sociedades: derrogação ou não observância da


autonomia jurídico-subjetiva e/ou patrimonial das sociedades em face dos respetivos sócios.
➢ Tal desconsideração legitimar-se-á através do recurso a operadores jurídicos como a
interpretação teleológica de disposições legais e negociais e o abuso do direito, auxiliado

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

pela conceção substancialista, não formalista nem absolutizadora da personalidade


coletiva (não há fronteira intransponível entre sociedade e sócios).

Grupo de Casos de Imputação – determinados conhecimentos, qualidades ou comportamentos


de sócios são referidos ou imputados à sociedade e vice-versa.
➢ Ex: trespassário cria sociedade unipessoal para violar obrigação de não concorrência;
venda da totalidade das participações sociais não se identifica com a venda da empresa
social; venda de bens a filhos ou netos (art. 877º); nulidade ou anulação de certos
negócios jurídicos inoponíveis a terceiros de boa fé (art. 291º) como as exceções extra-
cartulares; conflito de interesses.

Grupo de Casos de Responsabilidade – regra da responsabilidade limitada (ou da não


responsabilidade por dívidas sociais) que beneficia certos sócios pode ser quebrada.

Confusão de Esferas/Mistura de Patrimónios


Quando, por inobservância de certas regras societárias, não há clareza quanto à separação
entre o património da sociedade e o do sócio ou sócios.
➢ Ocorre frequentemente nas sociedades unipessoais.

Januário: sistema não pode aceitar uma promiscuidade entre sociedade e sócios.

Frequentemente circulam bens de um património pessoal para um património social, sem


registos contabilísticos e etc. tornando-se inviável distinguir com rigor os patrimónios dos sócios
e da sociedade e controlar a observância das regras relativas à conservação do capital social.
➢ Estando a Sociedade insolvente, não poderão os sócios opor aos credores sociais a
responsabilidade limitada (perante a sociedade) e irresponsabilidade pelas dívidas
societárias por desrespeitaram o princípio da separação, não havendo que observar a
autonomia patrimonial da sociedade.

Subcapitalização material manifesta


É relevante quando uma sociedade tenha sido constituída com um capital insuficiente.
➢ A insuficiência é aferida em função do seu próprio objeto ou da sua atuação, surgindo,
nesses moldes, como tecnicamente abusiva.
➢ Sociedade não dispõe de capitais próprios e suficientes para o exercício da respetiva
atividade.
o Pode ser originária ou superveniente.

Cumpre distinguir entre:


• Subcapitalização Nominal – sociedade considerada tem capital formalmente
insuficiente para o objeto ou para os atos a que se destina;
• Subcapitalização Material – há efetiva insuficiência de fundos próprios ou alheios.

Sócios abusam da personalidade coletiva da sociedade quando a introduzem no comércio


jurídico ou a mantêm nele, apesar de sofrer de subcapitalização material (= evidente,
reconhecível pelos sócios).

27
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Além da inadequação abusiva, exige-se ainda uma explicitação dos seus fundamentos – como
o intento de prejudicar os credores, os administradores praticarem falências evitáveis ou
retardando prejudicialmente falências inevitáveis.
• Subcapitalizada, ao cair em insolvência serão os sócios chamados a responder
ilimitadamente (todos, se inicial; os sócios controladores se superveniente).

Mota Pinto discorda desta solução pois a lei apenas exige que a sociedade esteja dotada com o
capital mínimo, sem exigir adequação do capital relativamente ao objeto social.
➢ Coutinho de Abreu responde que a questão não é de legalidade estrita e que tal não
impede o abuso da personalidade coletiva pois o prejuízo é dos credores, sendo a
possível responsabilidade dos sócios para com os credores e não para com a sociedade
(é externa).

Descapitalização Provocada por Sócios


Sócios levam património para nova sociedade para escapar à execução do mesmo por dívidas
da antiga sociedade.

Atentado a Terceiros e Abuso da Personalidade


Situações em que a personalidade coletiva é utilizada de modo ilícito ou abusivo para
prejudicar terceiros.
➢ Não basta a ocorrência de prejuízos a terceiros, para haver levantamento da
personalidade jurídica será necessário uma utilização da mesma contrária a normas ou
princípios gerais, incluindo a ética dos negócios.

O abuso da personalidade jurídica é uma situação de abuso do direito ou de exercício


inadmissível de posições jurídicas.
➢ Não se permite a utilização da sociedade como instrumento de inflição de danos aos
credores

Se se verificar este abuso há ilícito, culpa, dano e nexo de causalidade portanto estão verificados
os pressupostos para responsabilizar os sócios para com os credores sociais (apesar de ser a
sociedade a devedora e pese embora o “princípio da separação”18).

Verifica-se que, no seu conjunto, a jurisprudência relativa ao levantamento manteve típicas


características civis.
Não são invocados institutos novos nem especiais princípios societários: os problemas têm sido
resolvidos através do mérito dos factos e com apeto jurídico-positivo às cláusulas civis de boa-
fé e bons costumes.

O problema do levantamento da personalidade coletiva, atendendo às constelações de casos


típicos, tendem a ser explicados por:

18
Doutrina portuguesa importa tal solução da Alemanha, que com o Acórdão Trihotel levou a esta
construção – antes o fundamento da responsabilidade dos sócios era o desrespeito dos deveres de
lealdade dos sócios para com a sociedade.
➢ De facto, estes deveres também são violados pelo que esses sócios desleais ainda podem ter de
responder perante a sociedade (internamente). Mas perante os credores sociais é através do
mecanismo da desconsideração da personalidade coletiva.

28
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

• Teoria Subjetiva – autonomia da pessoa coletiva é afastada quando houvesse abuso da


sua forma jurídica com vista a fins não permitidos, exigindo um abuso consciente da
pessoa coletiva.
o Tem sido rejeitada pois a exigência do elemento subjetivo específico geraria
dificuldades de prova.
• Teoria Objetiva, incluindo versões institucionais – sindica-se a má intenção do agente
e, a partir dessa primeira fase, o instituto depende da pura contrariedade ao
ordenamento.
• Teoria da Aplicação das Normas – não se trata de problema geral de personalidade
coletiva mas sim de aplicação de diversas normas jurídicas. Quando por via do seu
escopo estas tivessem uma pretensão de aplicação absoluta ou visassem atingir a
realidade subjacente à própria pessoa coletiva, aplicar-se-iam.
• Teorias Negativas – negam a autonomia do levantamento da personalidade, enquanto
instituto

• MC – as diversas teorias documentam facetas próprias do levantamento,


correspondendo a progressões da mesma ideia. Elas não se opõem: completam-se. Este
é um instituto de enquadramento. As diversas teorias (de Serick e Müller-Freienfelds)
documentam facetas próprias do levantamento, complementando-se.

No fundamental,
• o Levantamento traduz uma delimitação negativa da personalidade
coletiva por exigência do sistema, ou seja, exprime situações na quais, mercê
de vetores sistemáticos concretamente mais ponderosos, as normas que firmam
a personalidade coletiva são substituídas por outras normas.

É o instituto pelo qual, em circunstâncias muito especiais, é possível não ter em conta as
normas que sustentam a personalidade coletiva, de modo a imputar as obrigações da
sociedade às pessoas singulares que lhe sirvam de suporte: seja aos administradores, seja aos
sócios, conforme as circunstâncias.
➢ O levantamento opera por exigência marcada da boa fé, ou seja, dos valores
fundamentais do ordenamento jurídico, de tal modo que a invocação, pelos sócios ou
pelos administradores da sociedade considerada, da personalidade, se configure como
um abuso do direito.

29
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Capacidade Jurídica das Sociedades


Capacidade de Gozo = concreta medida de direitos e obrigações que podem ser
imputados ao sujeito considerado.
Capacidade de exercício = medida de direitos e deveres que o mesmo sujeito
possa exercer livre e pessoalmente.

CAPACIDADE DE GOZO
Das instituições eclesiásticas medievais resultou uma filosofia de base de que as pessoas
coletivas só poderiam adquirir os direitos que fossem estritamente necessários para a
prossecução dos seus fins; a sanção normal seria a perda, para o Estado, dos direitos supérfluos.

A capacidade de gozo das pessoas coletivas é limitada pelo princípio da especialidade: apenas
abrange os direitos e obrigações necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins (art.
6º/1 CSC e art. 160º CC).
• Ideia da limitação da capacidade: doutrina ultra vires anglo-saxónica e restrições
continentais aos bens de mão-morta.
o Essas situações foram ultrapassadas historicamente e pela aquisição de
personalidade jurídica das sociedades comerciais.

O Princípio da Especialidade, como elemento limitador da capacidade jurídica das pessoas


coletivas tende a ser abandonado.19
➢ Princípio da Especialidade já não tem alcance prático, quer na doutrina, quer na
jurisprudência.
➢ O sistema da capacidade jurídica geral protege mais a segurança e a rapidez do comércio
jurídico – os terceiros que queiram negociar com a sociedade não têm de investigar se os
negócios serão ou não compatíveis com o fim social.

MC: A moderna comercialística retira-lhe um papel atuante, limitando-o a aspetos descritivos


ou reportando-o meramente a um objeto final de conseguir lucros20, assim legitimando tudo
e mais alguma coisa.
• Sociedades podem constituir-se livremente de acordo com o figurino que os particulares
interessados lhes queiram imprimir e podem assumir diversos fins, sendo a limitação de
capacidade ultrapassada a esse nível.
• Por outro lado, os terceiros que contratem com a Sociedade não podem ficar na
contingência de ir analisar os “fins” estatutários para extraírem a validade dos atos.
o Em Portugal vigora a solução de que a capacidade das sociedades é balizada
pelo escopo lucrativo que às mesmas se reconhece.

19
MC: consagração deste princípio no CSC é refluxo concetualista e deve ser desconsiderado.
➢ Januário: Menezes Cordeiro passa atestado de óbito a este princípio, mas, tal não deve ser feito
pois o art. 6º deve ser interpretado apelando ao objeto imediato (atividade comercial concreta
da sociedade) e ao mediato (lucro).
o O Princípio da Especialidade só é limitativo da capacidade jurídica da sociedade em
função do objeto mediato – atos que a sociedade pratique que sejam contraditórios
com o objeto mediato (produção de lucros) afrontariam com este princípio.
20
CA: O sistema da capacidade específica, limitada ou funcional, tutela mais os interesses dos sócios –
quando os limites sejam fixados pelo fim lucrativo; os credores sociais podem por em causa atos das
sociedade que provoquem a diminuição dos patrimónios que garantem os seus créditos.

30
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Mas, o princípio da especialidade cede o passo a fatores de clara delimitação da


capacidade – art. 6º/1:
• Natureza das coisas – sociedades não têm capacidade de direitos e deveres inseparáveis
da personalidade singular, mas, não se exclui os direitos não-patrimoniais compatíveis
com as pessoas coletivas (que têm direitos de personalidade como o direito ao bom
nome e à honra).
o Nulos por impossibilidade jurídica (art. 280º/1 CC).
• Normas legais – explicitamente excluem certas situações no âmbito de leis fiscais e
tutela do consumidor; implicitamente excluem certas situações como direitos reais de
uso e habitação.
o Nulos por violação da lei (art. 280º/1 e 294º CC).
• Regras estatutárias e deliberações sociais – não limitam a capacidade da sociedade,
elas obrigam os órgãos em causa a não exceder o objeto que fixem ou a não praticarem
os atos que vedem.
o Válidos mas podem ocasionar a responsabilidade civil dos titulares envolvidos.

Norma do art. 6º/1 é imperativa, tuteladora sobretudo dos interesses dos credores sociai e dos
sócios, não podendo ser derrogada por vontade (ainda que unânime) dos sócios, quer nos
estatutos quer em deliberações (art. 9º/3).
➢ Se alguma deliberação dos sócios ou do órgão de administração autoriza a prática de
algum desses atos, ela é nula também (art. 56º/1/d; 411º/1/c CSC).

CA: Um ato excede o seu objeto social quando é não possui, no momento da sua prática,
qualquer relação de potencial instrumentalidade (de meio-fim).

ART. 6º
Atos Gratuitos – art. 6º/2
Se liberalidades são usuais não são doações (art. 940º/2 CC) sendo permitidas segundo as
circunstâncias da época e condições da própria sociedade não são contrárias ao fim. Ex:
oferecer relógio aos trabalhadores pelo Natal.
• Circunstâncias da época = contexto socio-cultural; casos em que socio-culturalmente se
admite o ato de generosidade.
• Condições da própria sociedade = se a sociedade não está insolvente; atendendo ao
montante da liberalidade e o lucro da sociedade (circunstâncias contabilísticas da
sociedade)

Quando não usuais, são admitidas se poderem servir o interesse da sociedade, tal como
definido pelos órgãos competentes. Ex: mecenato, doações com fins publicitários e etc.
• Casos em que as doações não contrariam o fim (há benefício de imagens e etc.)
o Se em tal houver algum intuito lucrativo, a liberalidade é subsumida pelo art.
6º/1 e aí é possível (não sendo excluída pelo art. 6º/2)
o Januário: prática de atos gratuitos pode ser compatível com a prática societária
se tal não ofender o fim mediato da sociedade (o lucro). Assim não se
desconsidera a posição (restritiva) do legislador e assegura uma margem de
manobra ampla das Sociedades Comerciais.
• Pontualmente podem ser nulas (sendo proibidas, regra geral, o desvalor é a nulidade),
cabendo aos órgãos societários decidir, caso a caso, se elas ainda integram o fim da
sociedade

31
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Prestação de Garantias – art. 6º/3


São proibidas salvo se21:
1) justificadas pelo interesse próprio da sociedade garante
➢ Definido pela própria sociedade, através dos seus órgãos.
➢ Depende de opções da sociedade garante e a jurisprudência admite que seja
indireto. Ex: estabelecimento comercial farante certas dívidas, dentro de uma
política de boas relações com os clientes (TRL, 11/3/04, Caetano Duarte).
➢ Janu: quem tem de demonstrar interesse próprio é, em função da
especificidade da matéria, quem se pretende valer22.
➢ A Sociedade pode ter vantagens e profit com estas ações. Ex: prestação de
garantias à sociedade abate dívida a credores, de forma a continuar a receber
fornecimento

2) justificadas por Sociedades em relação de domínio ou grupo.


➢ A situação de domínio (art. 486º23) e a de grupo (art. 488º24 e ss.) podem ser
alargadas aos grupos de facto.
i. A lei não distingue, nem há razões para o intérprete distinguir, se no caso
das sociedades em relação de domínio ou de grupo só a sociedade
dominadora pode ser garante da dominada. Basta estar nesta relação
para que seja possível prestar garantias.
ii. Mas, a sociedade garante não pode, com a prestação de garantia
(gratuita) descurar o próprio interesse e o interesse dos seus credores.
• Por isso, nas relações de domínio, a sociedade dominante pode
prestar garantias à dependente (dominante, enquanto sócia da
dependente tem interesse no bom andamento da segunda) mas
não o oposto.
• Portanto, a parte final do art. 6º/3 deve ser interpretada
restritivo-teleologicamente.

21
Duas exceções são consonantes com o art. 6º/1, pois a prestação de garantias mostrar-se-á necessária
ou conveniente à prossecução do escopo lucrativo da sociedade.
22
Não pode ser um sócio. Ex: sócio domina SA a 100%. Tem outras sociedades e para essas outras assegura
como garantia um bem da SA. Isto desconsidera a autonomia da sociedade e diversidade da personalidade
da sociedade relativamente aos sócios.
23 O art. 486º aplica-se quando a sociedade dominante e a sociedade dominada revestem, ambas, o tipo de sociedades

por quotas, anónimas ou em comandita por ações (art. 481º/1: âmbito pessoal) e têm a sua sede em Portugal (art.
481º/2: âmbito espacial).
Influência dominante exprime, nuclearmente, a suscetibilidade ou potencialidade de uma sociedade (dita dominante)
impor, com intensidade variável, decisões ou comportamentos a outra sociedade (dominada); traduz um poder
direcional sobre a sociedade dominada – que releva independentemente do respetivo exercício efetivo. A influência
dominante traduz a suscetibilidade de exercício de uma direção unitária das sociedades controladas que, obtendo
eficiência operativa, tenderá a originar um grupo de facto.
Assim, quando uma sociedade dispõe de influência dominante sobre uma ou mais sociedades encontra-se em
condições de exercer a direção unitária das sociedades envolvidas.
24 Este preceito estabelece o conceito de domínio total inicial, que ocorre quando uma sociedade constitui outra

sociedade de cujo capital social é inicialmente a única titular. O domínio total origina, ex vi legis, uma relação de grupo
entre a sociedade totalmente dominante e a sociedade totalmente dominada.
As sociedades ajudam-se mutuamente. A prestação de garantias em sentido ascendente não é valida porque quem
beneficia são os sócios da sociedade mãe e não os da sociedade filha. Assistente: esta leitura não faz sentido à luz do
princípio da especialidade. É demasiado restritiva. O mesmo vale para sociedades irmãs.
6º/3 é uma presunção ilidível. As sociedades não estavam em relação de domínio nem de grupo. Mas tinham
acionistas comuns, que tinham atividades interligadas entre si e podíamos sustentar que a garantia era defensável.

32
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➢ Na relação de domínio não há necessidade de justificar, devido ao domínio


total.

Restrições deste artigo são apenas em relação às garantias gratuitas.


➢ Celebrada a garantia, o ónus da prova cabe à sociedade que invoque a nulidade.
➢ É o credor da entidade cuja dívida foi garantida que deve provar, se quiser ver reconhecida
a validade da garantia, que se verifica a exceção de que a sociedade garante tinha
justificado interesse próprio (e não dos sócios) na prestação de garantia.

Januário: interpretação do art. 6º, tendo em conta este progressivo abandono do


princípio, é aquela que faz uma articulação entre o objeto imediato (prática de atos
comerciais) e o objeto mediato (lucro – art. 980º CC).
➢ Capacidade da Sociedade é realizar o objeto imediato tendo sempre em vista e não
podendo contradizer o objeto mediato.

E quanto às prestações assistenciais?


Em regra, uma sociedade comum não está apetrechada no domínio de obrigações de natureza
assistencial (como a reforma a antigos administradores).

No entanto, a prestação de reforma pode não ser um ato gratuito e sim um ato remuneratório.
• Sociedades podem assumir pensões ou complementos de reforma a trabalhadores, mas
com restrições.
• Não são atos gratuitos e têm natureza retributiva.

O art. 402º/1 CSC vem permitir no âmbito das SA, devendo constar do Pacto Social.
• A reforma, a cargo da sociedade, não contradiz a sua natureza lucrativa.
o Januário: Todavia, ela deve estar prevista no próprio contrato de sociedade, não
podendo ser criada ex novo pela assembleia geral.
o Os preceitos permissivos devem ser interpretados restritivamente.

As disposições estatutárias limitam a capacidade de gozo?


Não, a capacidade de gozo acompanha automática e necessariamente a personalidade
jurídica.
• Apenas a lei pode reduzir o campo de ação das sociedades ou das pessoas coletivas em
geral.
• As limitações estatutárias são meras regras de conduta interna, que adstringem os
órgãos da pessoa coletiva a não praticar os atos vedados, sem, contudo, limitarem a
capacidade da sociedade.
o Solução do art. 6º/4 CSC.
• Aplica-se o mesmo regime às limitações deliberativas.

“CAPACIDADE” DE EXERCÍCIO
Art. 6º reporta-se à capacidade de gozo.

MC: No tocante a pessoas coletivas não faz sentido falar em capacidade (de exercício) -> elas
operam com os competentes órgãos, através de nexos de organicidade.
• Esta categoria é só aplicável às pessoas singulares.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

• As pessoas coletivas movem-se num universo diferente, tecido sobre normas e


princípios jurídicos.

Os atos praticados pelos titulares competentes dos órgãos projetam-se, automática e


imediatamente, nas sociedades respetivas, através de vínculos de organicidade.
➢ É através da representação orgânica que a sociedade age – art. 192º/1, 252º/1, 405º/2,
996º/1 CC

Só num plano muito imediato e empírico tem a ver com a verdadeira representação (voluntária)
ou com a representação legal.
➢ O que está aqui em jogo é um problema de organização – exige-se que a pessoa coletiva
se autodetermine e se manifeste para o exterior.
o Para tanto, ela dispõe dos seus órgãos, cujos titulares agem e o que fazem é,
ope legis, imputado à pessoa coletiva.

Regras referentes à orgânica das sociedades acabam por se refletir nos poderes de
representação dos seus administradores, variando em função do tipo social, dos estatutos e do
próprio Direito em causa.
➢ A designação dos administradores está sujeita a registo comercial (art. 3º/1/m CRC)
como forma de tutela de terceiros.

Para se desencadearem os efeitos próprios da representação (orgânica) basta que o


administrador pratique um ato invocando essa sua qualidade e o estar a agir em nome e por
conta da sociedade.
➢ Atuando assim, os atos são logo imputados à sociedade.
➢ Mas, a falsa invocação da qualidade de administrador, não havendo registo, não permite
imputação à sociedade.

RESPONSABILIDADE DAS SOCIEDADES


As sociedades são responsáveis pelos atos dos seus representantes orgânicos, perante
terceiros, quer em termos contratuais (art. 798º CC) quer em termos aquilianos (art. 483º CC).
• Interpretação do art. 6º/5 em linha de conta com a interpretação corretiva do art. 165º
CC:
o quanto a atos dos titulares dos órgãos, há responsabilidade direta;
▪ A pessoa coletiva responde diretamente pelos atos ilícitos dos titulares
dos seus órgãos, desde que tenham agido nessa qualidade.25

25
Começou por ser defendida por Manuel de Andrade, seguida de Ferrer Correia.
• Devido ao teor literal do art. 165º, 998º/1 CC e 6º/5 CC, alguma doutrina tem sido levada a pensar
que, para efeitos de responsabilidade civil aquiliana, a pessoa coletiva é um “comitente”, sendo
o titular do seu órgão um comissário, de modo a aplicar o art. 500º CC.
o Tal tem obstáculos jurídico-científicos e práticos pelo que se tem de recorrer ao
pensamento de Manuel de Andrade e concluir que lhe pode ser diretamente aplicável
a responsabilidade civil do art. 483º CC.
• Januário: não se aplica o art. 500º CC pois a representação é orgânica; daí que se pode
responsabilizar diretamente as Sociedades Comerciais nos termos gerais de Direito – quando
age através de órgãos próprios é a própria sociedade que age.
o O art. 165º CC refere-se à responsabilidade dos representantes (legais ou voluntários) e
não aos titulares dos órgãos da sociedade.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

o quando haja atos de representantes (voluntários, legalmente escolhidos e


titulados), de mandatários ou agentes, a responsabilidade segue o esquema
geral da comissão (art. 500º CC), por via do art. 6º/5 CSC.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADES
Qualquer que seja o modo (jurídico-privado ou jurídico-público), a constituição de sociedades
comerciais analisa-se com base num processo que tem uma série de atos e formalidades.

O processo normal desdobra-se em 3 atos principais:


1. Contrato de Sociedade
2. Registo
3. Publicação do Contrato

É possível que sociedades comerciais sejam constituídas em termos diversos dos regulados no
CSC: através de Lei ou Decreto-Lei, o Estado tem constituído algumas sociedades anónimas.
➢ Ao constituir estas Sociedades desta forma, como derroga o disposto no CSC (aprovado
por DL), só atos normativos com força idêntica é que o podem fazer.
➢ Pinto Furtado discorda e admite que se possam criar por ato administrativo.

A sociedade comercial forma-se por via de um processo, sendo o registo o ato que atribui
personalidade jurídica à sociedade.
➢ Mas, ela já existe antes do registo como tendo subjetividade, podendo até atuar antes
do registo.

CONTRATO DE SOCIEDADE – Celebração, Forma e Natureza


Art. 980º CC estabelece o contrato de sociedade, que é nominado e típico.
➢ É um negócio jurídico.
o Natureza contratual do contrato: de fim comum (a obtenção de lucros
distribuíveis pelos sócios) e de organização (o negócio faz nascer uma entidade
estruturada orgânico-funcionalmente), não de um contrato comutativo.
o Coutinho de Abreu: O ato constituinte das sociedades unipessoais ab initio é um
negócio jurídico unilateral – de “organização” e já não, naturalmente, de “fim
comum”.

Uma parcela das regras legais aplicáveis às sociedades tem natureza meramente supletiva,
podendo ser afastadas pela vontade das partes.

Na sua configuração, o contrato de sociedade permite, muitas vezes, distinguir duas áreas:
1. a do contrato propriamente dito, na qual as partes se identificam e manifestam a
intenção de constituir essa sociedade;
2. a do pacto social ou estatutos, nos quais as partes, normalmente articulados disciplinam
a nova entidade.

Sujeitos que podem constituir ou participar na constituição de sociedades: pessoas


singulares26; pessoas coletivas privadas (incluindo Sociedades Comerciais); pessoas coletivas
públicas.

26
De onde se excluem os incapazes sem estarem devidamente representados.
➢ Quanto aos cônjuges, devido à possibilidade de um contrato de sociedade alterar o regime
estabelecido em convenção antenupcial (art. 1714º CC), o art. 8º CSC estabelece que eles podem
constituir sociedades por quotas ou em comandita simples e podem ambos participar em
sociedades por quotas, anónimas, em comandita simples ou por ações.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Forma
Contrato formal – art. 7º/1 CSC
➢ Quanto aos contratos próprios das Sociedades Comerciais há diversas opções na lei: art.
17º, 29º/4, 85º/3, 106º, 120º, 145º/1, 498º (exemplos de diversidade)

O contrato de sociedade não tem apenas eficácia inter partes, originando, pelo registo, um
ente coletivo personalizado, que produz efeitos erga omnes: perante os novos sócios, perante
terceiros estranhos, perante credores da sociedade.

É contrato formal, pelo que seria interpretado pelo art. 238º/2 CC – não se pode recorrer a esta
disposição, não podendo ser interpretado como um contrato comum, uma vez que com a
sociedade não há um diálogo negocial a dois e as partes preparam estatutos estando a escrever
para o futuro e, não, uma para a outra.
➢ A interpretação dos pactos sociais é fundamentalmente objetiva, devendo seguir o
prescrito para a interpretação da lei (art. 9º CC), com inevitáveis adaptações.

Interpretação do Contrato de Sociedade


• Art. 236º pressupõe paradigma do declaratário normal
• Interpretação objetiva do contrato de sociedade mas com duas cedências aos
princípios gerais de interpretação e integração:
o Presença de cláusulas extrassocietárias – se for inserida uma cláusula que nada
tem a ver com o contrato de sociedade, deve seguir os cânones interpretativos
negociais comuns
o Proibição do venire contra factum proprium – deriva da boa fé e impede que
uma parte interprete subjetivamente o pacto e depois se faça valer da
interpretação objetiva.

A maior parte dos estatutos/atos constituintes das sociedades são negócios jurídicos (unilaterais
ou contratos), expressivos de ordenação baseada na vontade dos sócios fundadores.
➢ Alguns autores e jurisprudência têm defendido uma interpretação objetiva dos
estatutos: não há que indagar a vontade real dos sujeitos do ato constituinte para a
fixação do sentido das cláusulas, nem atender a elementos extrínsecos ao estatuto.

Devido a serem relevantes para terceiros e futuros sócios, são muito pouco atendíveis as
circunstâncias exteriores ao estatuto utilizáveis para perquirir a vontade real ou o sentido das
declarações dos sócios fundadores.

O método tem de ser mais objetivo, encontrado no texto das cláusulas estatutárias e no contexto
(estatutário).
➢ Isto vale para as sociedades de capitais e para as sociedades de pessoas.
➢ Mas nas sociedades de pessoas há maior espaço para a consideração das vontades,
representações e interesses dos diversos sócios.

Natureza

➢ Menores podem ser partes em contratos de sociedade, sendo possível atuar pessoal e livremente
em alguns. Para outros tipos necessita de autorização: art. 1889º/1/d, 1938º/1/a,b,d

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Divergências quanto à natureza do ato constitutivo de sociedade ocorreram em diversos


países da família romano-germânica, inclusive em Portugal.
➢ MC: não há dúvidas que está no campo negocial, tendo as partes a liberdade de
estipulação e de celebração, colocando este contrato no campo da autonomia privada.
o Na sua configuração mais natural e típica, a sociedade traduz-se num encontro
de vária vontade que se põem de acordo para concretizar um projeto comum
(sendo necessariamente um contrato e não um negócio jurídico unilateral,
como dizia Guilherme Moreira).
o Há diversas especificidades mas simplesmente colocam-no na categoria de
contrato, numa aceção ampla.

Há constituição de sociedades por negócio não contratual:


• Fusão, cisão ou transformação – art. 7º/4 e 97º e ss. CSC
• Constituição de SA com apelo a subscrição pública – art. 279º e ss.
• Constituição originária de sociedade unipessoal por quotas – art. 270º-A/1
• Constituição originária de SA unipessoal – art. 488º/1
• Constituídas por diploma legal ou decisão judicial

Conteúdo – art. 9º CC
Menções obrigatórias que o ato constituinte de sociedade comercial tem de ter (aplicável à
generalidade das sociedades, seja qual for o tipo).
➢ Este artigo não se aplica só às sociedades formadas por contrato.

Outros preceitos complementam o conteúdo do contrato, a propósito dos vários tipos sociais:
art. 176º (SNC), art. 199º (Lda.), art. 272º (S.A.)27, art. 446º (Sociedades em Comandita).

Na ausência dos elementos do art. 9º o contrato é inválido pelo art. 42º/1.


➢ O art. 42º/2 esclarece quais os vícios sanáveis por deliberação dos sócios, tomada nos
termos prescritos para a alteração do contrato.
o A contrario temos aqueles que são insuscetíveis de sanação.

Menções facultativas: art. 27º/3; 146º/5; 148º; 185º; 198º; 209º e etc.

Firma – art. 10º


• Sociedade em nome coletivo: art. 177º/1
• Sociedade por quotas: art. 200º
• Sociedades anónimas: art. 275º
• Sociedades em comandita: art. 467º/1

Objeto – art. 11º


Objeto da sociedade é constituído pelas atividades a desenvolver pelo ente coletivo.
➢ Januário: art. 11º/1 é importante até para casos de veracidade da firma e facilitação da
interpretação do art. 6º.

27
Coutinho de Abreu: Problema das SA é quanto ao número dos administradores: devem os estatutos
mencionar obrigatoriamente ou basta indicar um número mínimo e número máximo?
➢ Deve ter o número preciso (art. 390º/1, 2 + 424º/1 + interesse de terceiros conhecer qual o
número de membros para se concluir negócio jurídico)

38
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Art. 11º/3 permite que o contrato indique uma série de atividades não efetivas elencadas no
objeto social, cabendo aos sócios escolher aquelas que a sociedade efetivamente exercerá.
➢ A prática vai no sentido de alongar o objeto da sociedade a toda uma série de hipóteses
de atuação.

O grande papel do objeto poderia residir na delimitação da capacidade da sociedade,


em virtude do princípio da especialidade. Todavia, esse princípio encontra-se hoje
superado, não limitando já essa capacidade.
➢ O objeto da sociedade tem, assim, a ver primordialmente com o funcionamento
da própria sociedade e com a responsabilidade dos titulares dos seus órgãos.

Art. 11º/4 e 11º/5 problemática se a sociedade pode adquirir participações noutra sociedade.
Tem de ser o próprio contrato de Sociedade a autorizar que quem passa a ser sócia é a própria
sociedade.

Januário: tem dúvidas se o art. 11º/6 é compatível com o art. 980º CC – levanta a dúvida se
esta “gestão” não uma atividade de mera fruição, estando fora do universo das sociedades
comerciais

Sede e formas locais de representação – art. 12º e 13º


• Sucursal = centro autónomo de negócios, apetrechado para a celebração de todos e
quaisquer negócios, sendo como que uma espécie de sede secundária
• Agência = local de angariação de clientela, sendo encaminhados para a sede para a
conclusão dos negócios
• Delegação =limita-se a atuar recebendo instruções da sede
• Outras formas de representação = secções, interpostos, postos de venda, postos de
distribuição, lojas móveis e etc.

Distinta da Sede Estatutária (lugar concretamente definido onde a sociedade se considera


situada para a generalidade dos efeitos jurídicos em que a localização seja relevante) é a Sede
Principal e Efetiva da administração da sociedade (lugar onde são tomadas e mandadas
executar as decisões de gestão societária, determinando a lei pessoal das sociedades – art. 3º/1
CSC)

Capital Social – art. 14º


Equivale ao conjunto das entradas dos diversos sócios.
• Capital subscrito vs. a subscrever – em função de pessoas já vinculadas às entradas vs.
ainda não vinculadas às entradas
• Capital realizado vs. não realizado – em função de terem sido concretizadas as entregas
à sociedade dos valores postulados vs. não terem sido concretizadas as entregas à
sociedade dos valores postulados

O capital é realizado em espécie ou em dinheiro consoante o tipo de entradas a que dê azo.

O capital exprime uma cifra ideal que representa as entradas estatutárias.


➢ Poderá não ter mais que ver com o real património da sociedade em jogo (na relação
ativo/passivo) nem com o valor de mercado da mesma sociedade.

39
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Capital contabilístico – cifra que consta do balanço, como passivo, correspondente às entradas
realizadas dos sócios; quando por realizar surgem no ativo.
Capital estatutário ou nominal – valor inserido nos estatutos e que traduz, de modo abstrato e
formal, o conjunto das entradas dos sócios.
Capital real ou financeiro – expressão dos denominados capitais próprios ou valores de que a
sociedade disponha como seus.
Capital económico – imagem da capacidade produtiva da sociedade, enquanto empresa ou
conjunto de empresas.

Januário: capital tem implicações de regime e não pode ser confundido com o património

Duração – art. 15º


Fixação da duração da sociedade pode ser feita por remissão para termo certo ou para fator
certus an incertus quando.
➢ Também pode haver uma fixação condicional.

Se não for estabelecida duração, ela subsiste indefinidamente havendo relações


tendencialmente perpétuas entre os sócios.
• Relaciona-se com a dissolução e extinção das sociedades (art. 141º/1/a)
• Aumentar só pelo art. 161º

Vantagens, retribuições e indemnizações – art. 16º


Acrescenta ao rol de elementos do contrato de sociedade um fator eventual: a indicação de
vantagens, indemnizações e retribuições.
➢ Não presente no art. 9º mas que também deve constar do estatuto das sociedades são as
vantagens especiais concedidas a sócios (devido a iniciativa, custear de despesas e etc.)
o Por sua vez, os direitos especiais dos sócios só existem quando previstos no
contrato social – art. 24º.

Isto serve para que as inerentes obrigações sejam oponíveis à própria sociedade (art. 16º/2).

Art. 16º refere-se a situações que têm conexões com a constituição da Sociedade.
➢ Regime próprio circunscrito/parametrizado pela fase constitutiva, que suscita este
regime social (embora na praxis não tenha grande expressão).

Processo de Formação de Sociedades


Há fases necessárias e eventuais na constituição do novo ente.
➢ Sócios têm de acordar diversos aspetos relacionados com a Sociedade e têm de se
preocupar com pontos essenciais da vida da Sociedade.

Fases Necessárias da Formação de Sociedades


1. Contrato escrito, com assinaturas presencialmente reconhecidas (art. 7º/1)
2. Registo (art. 18º)28

28 Contratos de Sociedade devem ser inscritos no registo comercial (art. 18º/5 CSC + art. 3º/1/a CRC).

40
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3. Publicações obrigatórias (art. 167º)29

Havendo registo prévio (previsto no art. 18º/1) a sequência das fases é:


registo prévio -> contrato escrito -> registo definitivo -> publicações obrigatórias.

Janu: Há um roteiro normal mas as partes podem optar por constituir Sociedades de outra forma
– via do art. 18º: partes podem optar por iniciar o contrato com um registo prévio (registo
definitivo só será possível se contrato estiver em conformidade com o registo prévio).

Fases Eventuais da Formação de Sociedades


• Acordos de princípios, memorandum of understanding – no âmbito da contratação
mitigada.
• Promessas de Sociedade – não é frequente em pequenas/médias sociedades por quotas
mas é possível.
o É possível a execução específica deste contrato (art. 830º CC)?
▪ Depende do tipo societário.
▪ Tem de se perceber se a natureza da obrigação assumida (constituir
uma sociedade) é compatível com a execução específica. Essa
indagação tem de ser de acordo com o tipo.
▪ Janu: não pode haver execução específica quando houver posições em
que a responsabilidade do sujeito em causa, sendo/quando for sócio,
seja uma de responsabilidade ilimitada. Haveria responsabilidade civil.

+ negócios instrumentais preparatórios; acordo de subscrição pública (art. 279º - negócio


preliminar específico); acordo destinado a fazer funcionar a sociedade antes do registo
definitivo.

A formação de uma sociedade implica, ou pode implicar, negociações demoradas – durante a


constituição da sociedade devem observar-se as regras da boa-fé (art. 227º CC).

• O registo tem o efeito de atribuir personalidade jurídica à sociedade constituída naquele ato
constituinte – art. 5º CSC.
o Registo Constitutivo – a personalidade jurídica da sociedade só pode ser invocada após
o registo definitivo do ato constituinte.

• Eficácia constitutiva do registo não significa que sem ele o ato constituinte não produz qualquer
efeito, pois a sociedade existe ainda antes do registo e há disposições legais de natureza
societária que lhe são aplicáveis.

• Com o registo, há a consequência para a sociedade da “assunção” ipso iure de direitos e


obrigações decorrentes de atos em nome dela realizados antes do registo – art. 19º
29 Publicação do Ato Constituinte + outras
• A fim de potenciar a publicidade dos atos constituintes das sociedades (publicidade visada já pelo
registo comercial – art. 73º e ss. CRC)
• Publicação obrigatória do ato constituinte são promovidas pela conservatória – art. 71º CRC
o Esta publicação é condição de eficácia ou oponibilidade do registo a terceiros (art. 168º/2
CSC)

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Situações pré-societárias
Antes da sociedade ser pessoa jurídica qua tale, nos termos do art. 5º, há situações de pré-
sociedade.
➢ Situações que estão à margem da sociedade como pessoa jurídica, mas fazem parte do
universo das sociedades comerciais.
o Caso de situações jurídicas pré-societárias a que o código dá relevância: art. 36º
o Art. 38º tem referência específica a um tipo

Situações em que o funcionamento se inicia antes da constituição da sociedade estar


completada, pelo registo.

Os sócios podem, antes de completado o processo de constituição de uma sociedade, iniciar a


atividade visada por esta – âmbito do Direito Privado onde é permitido tudo o que não for
proibido.
➢ Direito predispõe um regime que, em certos pontos, é menos favorável do que o
aplicável às sociedades perfeitas.

Estas sociedades “não-existentes”, por falta de personalidade jurídica plena, são consideradas
Sociedades Irregulares que podem abranger diversas situações:
1. sociedades com vício de forma;
2. sociedades cujo processo constitutivo ainda não estivesse concluído, designadamente
por falta de matrícula ou de inscrição no registo;
3. sociedades de facto;
4. sociedades com vícios constitutivos.

Apesar deste enquadramento, o regime das sociedades irregulares molda-se, quanto possível,
pelo das sociedades (completas).

O que significa sociedade não registada, nos termos do art. 5º?


• Art. 107º CCom considerava como não existente30 uma sociedade que não se
configurasse nos termos certos.
o Foi revogado.
• Doutrinariamente, a redação deste artigo levou a chamar-se a essas sociedades de
Sociedades Irregulares – mas esse conceito era muito abrangente e comportava diversas
realidades como Sociedades Incompletas, Sociedades com vícios de forma, com outros
vícios que não formais, Sociedades de Facto.
o Janu: expressão continua a ser utilizada e há vantagens em utilizá-la mas apenas
quanto às sociedades em que há uma incompletude no processo formativo
(incompletas).
o Característica de efetiva presença de organização societária (de acordo com um
paradigma societário) mas não completa no processo formativo.

Art. 36º/1 refere-se a outra situação: tutela da aparência


• Diferença de previsões do art. 36º/2
• Casos em que houve acordo mas ainda não foi celebrado contrato

30
Conceito de inexistência não era o mesmo em 1888 daquele que existe hoje.

42
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Campo de diferenciação entre o 36º/1 ou 36º/2 é relativamente difícil de se encontrar.


É sociedade civil ou comercial? Parte-se do princípio que é uma sociedade que pratique atos de
comércio, mas não sabemos se Sociedade Civil ou Comercial.
• MC: Comercial não pode ser
• Coutinho de Abreu: claro que é comercial
o Janu: independentemente do relevo da questão, que é diminuto, estamos num
âmbito de pré-sociedade Comercial pelo que ao caracterizarmos as questões
que se levanta é sociedade comercial irregular (cujo processo formativo não
está completo).

Art. 37º - relações entre os sócios


Há soluções diversas para os tipos, não quanto às relações com os sócios mas com terceiros.
Período entre celebração do contrato e registo aplicam-se as regras do contrato e da lei, salvo
algumas (o que pressupõe a sociedade enquanto pessoa jurídica).

Consequências das situações de pré-sociedade variam conforme o regime de responsabilidade


dos sócios na Sociedade
• Art. 38º/1 – respeitando a puras Sociedades Pessoas.
• Art. 40º/1 – respeitando a puras Sociedades Capitais. Nº1 pressupõe que não existe a
situação do nº 2 (que tem lógica de condição suspensiva). Há atenção à especificidade
do tipo e tutela de terceiros.
• Art. 40º não está centrado nas relações entre sócios e sim com terceiros

Comercialística clássica portuguesa trabalhava com uma ideia de sociedade irregular que era
possível ser reconduzida a diversas figuras, que tinham em comum o facto de traduzirem uma
situação societária não totalmente conforme com a sociedade perfeita.

Não tem consagração legal expressa (se bem que se pode considerar para o disposto no art.
172º, 173º e 174º).
Doutrina e jurisprudência continuam a usar a expressão “Sociedade Irregular” para cobrir:
1. Sociedade Organizada e posta a funcionar independentemente das partem formalizado
qualquer contrato de sociedade;
2. Sociedade formalizada por escritura pública (como exigido antes de 2006) mas ainda
não registada;
3. Sociedade já formalizada mas cujo contrato seja inválido – de onde ainda se
subdistinguem situações consoante haja ou não registo.

Sociedades Irregulares Por Incompletude


MC: Sociedade Irregular refere-se aos casos em que haja incompletude do processo, seja por
falta da própria escritura, seja por ausência do registo.31
• Não conclusão do processo formativo, o qual pressupõe acordo solene e registo
definitivo;
• Efetiva presença de organização societária em funcionamento, com relações atuantes
(quer entre sócios interessados, quer com terceiros).

Conceito que tem potencial descritivo e habilita a cobrir todas esta situações.

31
As invalidades não são consideradas nesta sede e sim quanto às “invalidades da sociedade”.

43
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Art. 36º/1 – Sociedade Material


Caso em que há uma situação de sociedade material sem qualquer acordo entre os
participantes.
➢ No campo material, há contribuições feitas por duas ou mais pessoas, para o exercício
em comum de certa atividade económica que transcende a mera fruição e o cujo fim é
a repartição de lucros – falta é qualquer contrato ou outro título legitimador.

Sociedade Material equivale à Sociedade Aparente – que se caracteriza por não ter, na origem,
qualquer contrato ou acordo societário.
➢ Perante uma sociedade aparente podemos fazer intervir as regras da tutela da
aparência32.
➢ MC: legislador pugnou por uma total aparência de sociedade, em que os responsáveis
nem intenção têm de celebrar um contrato.

Pré-Sociedade Antes do Contrato33


Art. 36º/2
Estabelece que se for acordada a constituição de uma sociedade e antes da celebração do
contrato as partes iniciarem a competente atividade, tem aplicação o regime das sociedades
civis – há intenção de celebrar um contrato.
➢ Caso em que há acordo tendente à constituição de uma sociedade comercial mas sem
que se tenha celebrado o contrato escrito.

MC: pelo prisma dos terceiros não se entende a diferenciação do art. 36º/1 e 2 pois é-lhes
inacessível o facto de os “sócios” terem ou não a intenção de celebrar, no futuro, um contrato
que faltava.
• Devido a isto, a solução normal tenderá a ser a de aplicação das regras das sociedades
civis puras – cuja constituição não depende de forma especial.

32
Além da solução do art. 36º/1 há outros elementos próprios: confiança deve ser objetivamente
justificada; confiantes a tutelar devem estar de boa fé, i.e., devem desconhecer, sem culpa, a natureza
aparente da sociedade.
33
Janu: Art. 36º e ss. CSC
Disposições sobre a pré-sociedade: quando a Sociedade Comercial ainda não tem personalidade jurídica
plena pelo art. 7º e depende se é antes ou depois da celebração do contrato de sociedade.
≠ situações de Para-Socialidade (art. 17º) que informa em que medida são válidos e eficazes os acordos
entre os sócios (à margem da SC) – Januário diz que à partida são válidos desde que não conflituam com
a vida da sociedade.
• Acordos Parassociais – art. 17º
o Contratos celebrados entre todos ou alguns sócios (ou entre sócios e terceiros),
produtores de efeitos atinentes à posição jurídica dos pactuantes sócios (enquanto tais)
e, eventualmente, atinentes também a outros pactuantes (terceiros) e à vida da
sociedade, mas que não vinculam a própria sociedade.
o Podem influenciar a vida societária e intervir na delimitação de direitos e obrigações dos
sócios daí terem alguma conexão aos estatutos.
o Mas esses acordos são inoponíveis à sociedade e só vincula quem neles interveio.
o Consideram-se nulos os acordos parassociais que violem ou defraudem a lei, como em
relação à proibição do pacto leonino e acordos de voto (que obriguem sócios a votam
num determinado sentido e etc.).
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• Campo de aplicação do art. 36º/1 reduz-se, acantonando-se na parte mais interessante:


a da responsabilidade civil solidária, pelos danos causados.

Lei permite início de atividade da sociedade mas sob o regime de sociedades civis puras.

Este artigo exige um acordo (pré-acordo em relação ao contrato da sociedade) que se bastará
como sendo muito simples e incipiente – basta o prever um acordo para futuro início de
atividade como sociedade constituída.

Não deveria conter os elementos requeridos pelo contrato civil de sociedade que se irá aplicar?
• Tem de haver um mínimo de elementos, para se poder identificar a própria situação,
mas, isso implica apenas a indicação das partes e a determinação da atividade comum
em causa.
o Pinto Furtado: preceito fala em invalidade formal pelo que se operaria uma
conversão ope legis de uma sociedade comercial de facto em sociedade civil.
▪ MC discorda: o artigo pressupõe que no futuro se possam fazer os
ajustes necessários sendo um acordo incipiente não precisa de conter
disposições quanto á administração, fiscalização e etc.; lei trata como
processo (ainda) incompleto e não se apela ao vício de forma.
▪ Há aplicação de regras civis e não uma converão de uma (inexistente)
sociedade comercial numa sociedade civil.

Deste artigo resulta que, a haver elementos suficientes para se poder falar em sociedade, ela
será civil.
➢ Isso não impede que a situação globalmente considerada seja comercial, tal como
comerciais serão os atos praticados pelos intervenientes, em nome e por conta da
“sociedade”.

Pré-Sociedade Depois do Contrato mas Antes do Registo


Relações Internas (art. 37º)
• Relações patrimoniais e/ou pessoais estão precisadas pelo contrato.
o O único óbice resulta da falta de personalidade (plena) a qual, nos termos do
art. 5º, apenas surge com o registo definitivo.
• Uma vez que as partes celebraram um contrato, deverão cumpri-lo, nas suas relações
entre si
o CA: aplicam-se as regras do Estatuto e do CSC exceto as que não o podem ser.
o Vigora praticamente o mesmo regime que vigorará quando a sociedade estiver
perfeitamente constituída.

CA: Art. 37º/2 apresenta exceções que não são muito compreensíveis pois são demasiado
concetualistas e não entendem as consequências práticas.
➢ MC: explica-se porque até ao registo há só mero contrato, pelo que só por mútuo
consentimento é que pode ser modificado. Também há razões societárias: sócios podem
ser responsáveis elas dívidas contraídas antes do registo e de acordo com esquemas que
variam consoante a sociedade (admitindo exonerações ou alterações por maioria
poderia prejudicar os credores e os próprios sócios minoritários, respetivamente); difícil
fixação do preciso momento da eficácia dessas exonerações ou modificações; esquema
compulsório destinado a efetivar a realização do registo.

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Relações Externas com terceiros (art. 38º a 40º)


Sociedades Pessoas
SNC – art. 38º
➢ O que se entende por responder?
o Resposta prende-se com o tema das pré-sociedades e com a assunção, pelas
sociedades uma vez constituídas, das posições daquelas – utiliza-se no sentido
de alguém ser convocado em termos de responsabilidade patrimonial.
o Negócios celebrados em nome da pré-sociedade visada devem ser cumpridos
por esta, ou nem haveria negócios.
➢ O definido neste artigo segue o regime do art. 997º/1 e 2 CC, incluindo,
designadamente, o benefício da prévia excussão do património social.

em Comandita Simples – art. 39º


➢ quanto à responsabilidade aplicam-se as regras apuradas quanto às sociedades em
nome coletivo.

Sociedades de Capitais
por Quotas, Anónimas, em Comandita por Ações – art. 40º
➢ Não deveria a própria pré-sociedade responder também pelas dívidas em seu nome
contraídas?
o Sim, esse é o regime das sociedades civis puras.

Nos negócios celebrados pelos representantes, eles respondem solidariamente e


ilimitadamente por aquilo a que vincularam a pré-sociedade. Mas essa representação ou
autorização do negócio não isenta o património social da responsabilidade principal.

Art. 40º/2: O registo definitivo de uma sociedade comercial não se limita a atribuir-lhe
personalidade jurídica plena, tendo ainda o efeito de provocar a assunção, pela sociedade,
dos negócios anteriores ao próprio registo – art. 19º
• Significa que a própria pré-sociedade de capitais, já formalizada em contrato mas ainda
não registada, não ficava obrigada pelos negócios celebrados em seu nome durante esse
período;
• Tais negócios apenas respeitassem a quem, no negócio, tivesse agido em representação;
• Com o registo, eles fossem assumidos pela sociedade.

Faz cessar o que resulta do art. 40º/1

Capacidade
As pré-sociedades dispõe de uma capacidade geral similar à que compete às próprias
sociedades definitivas.
➢ O especial óbice reside na responsabilidade de quem pratique os inerentes atos.
➢ Disfruta de representação orgânica – qualquer um dos promotores (art. 36º/2) ou pelos
órgãos competentes já previstos nos estatutos (art. 38º a 40º).

Natureza
• Teoria da Sociedade de Facto – sociedade tem a sua origem no surgimento e
funcionamento, no campo dos factos (Von Gierke).

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• Teoria dos Limites da Nulidade – as regras que determinam a invalidade de uma


sociedade não são radicais, pretendendo afastar o ente visado, como se não existisse,
mas, existem alguns limites através dos quais a sociedade irregular ainda pode exercer
certa atividade.
• Teoria da Organização – dupla natureza do contrato de sociedade, que faz surgir uma
relação interna (puramente obrigacional) e uma externa (transcende a obrigacional e
tende a representar um centro de interesses próprios).

MC – a falta de registo, na prática, apenas vem impedir o privilégio da limitação da


responsabilidade, tendo significado efetivo no tocante às sociedades de capitais. Quanto ao
resto: temos órgãos, representantes orgânicos e, de facto um centro autónomo de imputação
de normas, com funções e “interesses” próprios.
➢ Sociedades irregulares retiram a sua jurídico-positividade da vontade das partes.
o São verdadeiras sociedades, assentes em equivalentes contratos de sociedade.
o Tais contratos, por razões endógenas ou exógenas não equivalem é aos modelos
finais legalmente fixados.
➢ São verdadeiras e próprias sociedades, ainda que diversas do figurino elencado no art.
1º/2.
o A sua natureza, tal como a matriz societária, é contratual.

Januário: Teoria da organização explica melhor a pré-sociedade pois as perspetivas que aqui são
trazidas devem ser trazidas em conjunto e melhor explicam a pré-sociedade.
➢ Já temos sociedade qua talle.
o Temos uma sociedade cujo processo formativo não está completo a que se
aplica regime societário – tendencialmente aplica-se regime societário com
exceção das normas que preveem já haver constituição da pessoa jurídica.
o São verdadeiras sociedades mas com modelo diferente.

Coutinho de Abreu: Alguns problemas que se levantam


1. Além dos sócios, também as sociedades respondem com os respetivos patrimónios pelos
negócios realizados em seu nome?
• NÃO: sociedade antes do registo ainda não existe como pessoa jurídica, não tendo
património social propriamente dito.
o Nada diz sobre a responsabilidade, daí serem só os sujeitos.
o Património não deve poder ser diminuído antes do registo, devendo ser
preservado de modo a ter valor idêntico ao do capital social.
o Art. 19º significa que a sociedade antes do registo não é sujeito de obrigações,
não podendo então responder.
• SIM: ainda que sem personalidade jurídica, a sociedade-ente já existe e tem património
próprio, constituído pelo menos por créditos correspetivos das obrigações de entrada.
o Ela já pode participar no tráfico jurídico. O silêncio da lei não implica exclusão
da responsabilidade social.
o O direito atual não consagra a proibição de pré-endividamento ou de oneração
do património social.
o O art. 19º vem trazer uma “identidade” da sociedade antes e depois do registo,
consolidando e continuando os direitos e obrigações, sendo agora a única
responsável pelas obrigações contraídas antes do registo.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

▪ Defendida por Coutinho de Abreu que apresenta mais argumentos ->


conclui que as sociedades respondem pelos atos em seu nome
realizados no período compreendido entre a celebração do ato
constituinte e o seu registo definitivo, com dois limites: não respondem
por obrigações que não podem assumir depois do registo (art. 19º/4);
dinheiro das entradas não pode ser mobilizado (exceto a título judicial
ou com autorização – art. 277º/5/b; 478º)

2. Sócios que atuam em nome da sociedade, solidariamente responsáveis entre si, respondem
solidariamente também com as respetivas sociedades?
• SIM: analogia com o art. 36º/2 (que remete para o art. 997º/1 e 2 CC). Mas, estas
solidariedade não funciona plenamente, pois, segundo essas normas, os sócios são
responsáveis subsidiariamente – i.e., podem exigir a prévia excussão do património
social.

3. Sócios que não agem nos negócios nem os autorizam (art. 40º/1, 2ª parte), respondem
solidariamente com os que atuam em nome da sociedade e com os sócios que autorizam tal
atuação?
• NÃO: responsabilidade dos sócios é limitada e não prevê a solidariedade, pois
assemelha-se à sub-rogação dos credores à sociedade (art. 30º/1 CSC).

Sociedades Irregulares Por Invalidade


Transcendendo as exigências da UE, o legislador consagrou uma regulação minuciosa para esta
matéria: art. 41º a 52º CSC

Invalidades do Ato Constituinte – Vícios do Ato


Globalmente considerado ou em relação a certas partes34 que afetam imediatamente todo o
ato.
➢ Antes do Registo: art. 41º/1
➢ Depois do registo: art. 42º/1 tem as causas que permitem declarar o ato como nulo

Dentro da Invalidade, e quando a lei não disponha de outro modo, o vício concretizado é o da
nulidade.
• A nulidade é aplicável aos casos de invalidades antes de ter ocorrido o registo – art. 41º,
que tem duas especificidades:
o Art. 41º/1/2ª parte – as invalidades (nulidade declarada ou anulação
pronunciada) envolvem a liquidação da sociedade
o Art. 41º/2 – as invalidades resultantes de incapacidade são oponíveis, também,
a terceiros

Princípios Gerais

34
Vícios Parciais – vícios de partes do ato constituinte que só a elas afetam (ou todo o ato, mas em
determinadas circunstâncias).
➢ Antes do Registo: art. 41º/1 + 52
➢ Depois do Registo: há desvios à lei civil e tem de se ter em conta o tipo de sociedade

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A nulidade pura e simples iria comprometer todos os atos já praticados pela sociedade em jogo,
desamparando os terceiros e pondo em risco a própria confiança que a comunidade tem no
fenómeno societário.
➢ Por isso, há todo um conjunto de regras que se destinam a minimizar as consequências
dessa invalidade – favor societatis.

Favor societatis exprime-se, na lei portuguesa, em 7 vetores:


1. Limitação dos fundamentos da nulidade – art. 42º é taxativo. Nulidades “totais” do
contrato de sociedade só são possíveis nas descritas situações.
2. Introdução de prazos para invocação dessa nulidade – art. 44º
3. Presença de esquemas destinados a sanar as invalidades
4. Delimitação da legitimidade para invocar a nulidade
5. Limitação dos efeitos da anulabilidade, perante as partes
6. Certa inoponibilidade das invalidades a terceiros
7. Presença de um regime especial, no tocante à execução das consequências da nulidade

Efeitos da Invalidade – art. 52º


De onde resulta que a sociedade é tratada como uma válida sociedade – quer antes quer depois da decisão
judicial de nulidade ou anulação.

As causas de invalidade do ato constituinte da sociedade são verdadeiras causas de liquidação


da sociedade – os chamados efeitos da invalidade do ato constituinte são verdadeiros efeitos
da entrada da sociedade em liquidação judicialmente decidida.
➢ Liquidação: art. 146º e ss. – conjunto de operações que, dissolvida a sociedade,
permitem o pagamento dos credores sociais e a repartição do remanescente pelos
sócios, nos termos acordados ou legais.
o Os custos com a liquidação cabem aos sócios, que têm esse risco quando hajam
decidido subscrever a sociedade viciada, tenham ou não culpa na ocorrência.
o Este artigo não pode ser reduzido teleologicamente pois: não pode haver
dispensa de liquidação nem formação do respetivo processo à margem da lei,
mesmo nos casos em que o património da sociedade não tenha passivo e o ativo
seja composto por dinheiro ou bens suscetíveis de imediata partilha; perante
invalidade do contrato de sociedade, por vício de forma, ocorrida antes do
registo definitivo, não pode ser restituído aos sócios o valor das prestações que
fizeram a título de entrada, tendo unicamente o direito de verem partilhado o
ativo resultante da liquidação.

Negócios concluídos anteriormente em nome da sociedade – não são afetados (art. 52º/2).
➢ Entendimento parece ser perturbado pelo art. 52º/3: a contrario, parecia que a tutela
do art. 52º/2 aproveitaria mesmo a terceiros de má fé, o que não é possível, tendo em
conta os dados basilares da ordem jurídica.
o Especificidades desta disciplina justificam-se por interesses dos sócios e
também de terceiros.

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SITUAÇÃO JURÍDICA DE SÓCIO


À partida, os sócios corresponderiam às pessoas que celebraram o contrato de sociedade,
dando lugar à organização dele derivada e ingressando, nela, com a posição que tenha sido
acordada.
➢ No entanto, devido à possibilidade de alteração de sócios, a qualidade de sócio passa a
ser expressa pela titularidade dessa posição.
o Pode ser original (quando o próprio sócio considerado tenha participado na
celebração do contrato constitutivo) ou adquirida (interessado veio, por uma
das vias possíveis no Direito Societário, a subingressar na posição considerada).

Evolução progressiva desta situação:


• Sociedade de Pessoas – qualidade de sócio
• Sociedades Mistas – titularidade de uma posição
• Sociedades de Capitais – própria posição per si, independentemente do seu titular

Estas devem ser as considerações que enquadrem uma parte geral, que permite melhor
conhecer e depois densificar as regras próprias de cada tipo societário.

Enumeração Legal de Direitos e Deveres


• Art. 9º - celebração e registo – art. 9º/1/f quanto ao capital social
• Art. 16º
• Art. 17º - acordos parassociais podem ser fonte de diversos direitos
• Art. 20 º a 35º
• Art. 53º a 63º

MC – há omissão de alguns deveres que são depois repetidos a propósito de todos os tipos
societários: proibição da concorrência (art. 180º, 254º, 398º/3, 477º) e etc.

Posições jurídicas dos sócios assumem uma configuração nuclear, presente nas diversas
posições societárias.
Quais os factos suscetíveis de influenciar a concreta composição dos direitos dos sócios?
➢ Além do tipo societário, a forma como a sociedade é estatutariamente configurada.
➢ São direitos patrimoniais privados que não podem ser arbitrariamente suprimidos
(sob pena de violar o art. 62º/1 CRP).

Direitos Especiais
Schmidt tenta sistematizar os múltiplos exemplos dados pela a doutrina alemã em 3 categorias:
Direitos de participação; Direitos de permanência; Direitos patrimoniais.

Art. 24º refere a categoria dos direitos especiais dos sócios em termos gerais e não concretiza
que precisos tipos de direitos poderiam estar em causa.
➢ Jurisprudência portuguesa aponta os seguintes exemplos:
o Direito de vincular uma sociedade por quotas em juízo ou fora dele, apenas com
a assinatura do beneficiário;
o Direito de exercer atividade concorrente com a da sociedade;
o Direito de dividir ou de alienar a sua quota sem as autorizações exigidas aos
demais;

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o Direito de alienar quotas sem possibilidade de exercício da preferência pelos


demais;
o Direito de veto em todos ou alguns assuntos.

Estes são direitos intuitu personae: estabelecido em função de um concreto titular, não sendo
transmissíveis a terceiros junto com a respetiva quota.
➢ Pode haver cláusula expressa a facultar essa possibilidade (art. 24º/3)

Quando os estatutos atribuam uma certa posição a uma pessoa, será questão de interpretação
o saber se se trata de um verdadeiro direito especial, sujeito ao art. 24º ou se antes se verifica
uma mera designação em pacto social.
➢ Não basta a atribuição de um direito, é necessário uma atribuição especial – são
direitos especiais não por pertencerem apenas a alguém, mas por pressuporem, em si,
um regime especial (diferente do comum).

Art. 24º/2, 3 e 4 estabelece as regras para alguns tipos societários.

Posição jurídica do sócio é complexa e os diversos direitos dos sócios são suscetíveis de se
concretizar, ou não, consoante os eventos subsequentes que rodeiem a vida da sociedade. Ex:
direito a lucros depende de haver, efetivamente, lucros e de se ter optado pela sua distribuição.

No essencial, o sócio tem o dever de entrada inicial e, depois, o direito “de sócio”.
➢ Tudo o resto é mero potencial, dependendo de fatores de natureza muito variada.

Ideia de Sócio como Estado – com a concordância de PPV e Costa Gonçalves.


• Aceções de estado (qualidade, complexo de situações jurídicas, complexo de normas
jurídicas) interligam-se.
• Ao admitir o “estado de sócio”, podemos exprimir, de modo sintético, todo um mutável
mas consistente

Direitos e Deveres dos Sócios


Obrigações e direitos dos sócios – quer em função da lógica contratual quer da institucional

Direitos Abstratos – posição favorável protegida pelo Direito e que, verificando-se certas
ocorrências, permitirá ao sócio ver surgir um direito concreto correspondente.
Direitos Concretos – produto da concretização de uma prévia posição favorável, que assistia ao
sócio.
Ex: direito aos lucros do art. 21º/1/a é direito abstrato que permite o sócio encabeçar numa
pretensão efetiva de um lucro concreto.

Direito abstrato surge como uma expetativa em relação a um bem final futuro, pressupondo um
processo no termo do qual esse bem poderá surgir.
• É expetativa juridicamente tutelada: diversos procedimentos instrumentais estão
previstos e devem ser respeitados, sob cominações jurídicas.
• Pressupõe direitos instrumentais que são suscetíveis de efetivação. Ex: direito de acesso
às instalações sociais, de informação, consulta de documentos e etc.

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• MC: são verdadeiros direitos porque permitem exprimir uma posição favorável do
sujeito, tutelada pelo Direito, de exercício permitido e reportado a vantagens suscetíveis
de expressão linguística unitária.
o Inscrevem-se no Estado de Sócio.

O Estado de Sócio tem diversos direitos que podem ser objeto das mais diversas classificações:
1. Valores patrimoniais – direito aos lucros ou “quinhoar nos lucros” (art. 21º/1/a) que pode
implicar outros direitos instrumentais. Há diversas posições ativas de tipo patrimonial (art.
24º/1, 29º/1, 31º a 35º, 77º/1, 37º/2/2ª parte, 94º/1 e 95º/4/d, 105º/1, 112º/b, 120º, 137º/1,
147º/1, 148º/1, 156º/1 e 164º/1).
➢ Podem também dispor da participação social atendendo ao disposto para o tipo
societário correspondente

2. Valores que se prendam com o funcionamento da sociedade – direitos participativos que


dão a possibilidade aos sócios de ingressar no modo coletivo de gestão dos interesses, inserindo-
se na organização social e atuando nos esquemas de cooperação por ela previstos.
➢ Correspondem a concretizações dos direitos ao trabalho e à livre iniciativa
constitucionalmente garantidos.
➢ Art. 21º/1/b, c, d

3. Valores pessoais do sócio – há uma teia de direitos e deveres mútuos surgindo ainda diveras
outras posições ativas.
• Direitos Parassociais: posições pessoais obtidas por força dos acordos, mas, apenas
devido à qualidade de sócio e no âmbito do status deste – art. 17º.
• Direito à Lealdade: relações entre sócios si e destes para com a sociedade. Concretiza-
se na proibição da concorrência, por exemplo.
• Direito ao respeito do estado de sócio: é qualidade do sujeito que deve ser respeitada.
Ex: ser impedido de falar numa assembleia geral pode representar uma violação dos
seus direitos participativos e configurar-se um atentado à sua integridade moral.

Direitos dos sócios – art. 21º


• Direitos de participação: nas deliberações sociais e em órgãos de administração e
fiscalização
• Direitos patrimoniais: direito de quinhoar nos lucros, preferência e quota de liquidação
• Direitos de controlo: direito de informação, ação judicial e etc.

Direitos Gerais: pertencem, em regra, a todos os sócios da mesma sociedade, ainda que em
medida diversa.
Direitos Especiais: atribuídos no contrato social a certos sócios ou a sócios titulares de ações de
certa categoria, conferindo-lhes uma posição privilegiada que não pode em princípio ser
suprimida ou limitada sem o consentimento dos respetivos titulares.
Ex: ceder a quota sem necessidade de consentimento da sociedade (art. 228º/2 + 229º/2)
➢ A simples designação de gerente(s) no contrato de sociedade significa a atribuição de um
direito especial à gerência? Não, a designação de gerentes no contrato social é um modo
alternativo da eleição posterior por deliberação dos sócios (art. 252º/2)

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Art. 24º - sem cláusula estatutária correspondente estes direitos especiais não existem, ou
melhor, são ineficazes em relação à sociedade (ainda quando todos os sócios tenham acordado
na sua criação).

É possível criar direitos especiais para sócios por alteração do contrato social (com nova cláusula,
art. 85º)?
• Sim, se a alteração contratual for votada por unanimidade (devido ao princípio da
igualdade de tratamento dos sócios – presente no CSC em várias normas, que diz que
os sócios devem ser tratados de modo idêntico, não devendo haver discriminações
arbitrárias).
• No entanto, uma deliberação tomada por maioria qualificada que introduz no contrato
uma cláusula conferindo direito especial a apenas um/alguns sócio(s) pode ser válida e
não violar o princípio de igual tratamento, quando o interesse social impõe ou
recomenda essa alteração estatutária.
o Pode haver direito especial atribuído a todos os sócios – devido à maior
proteção de que goza o seu direito.
o Não faz sentido em todos os direitos mas apenas nalguns. Ex: direito especial à
gerência de todos garante que cada um dos sócios não pode ver a cláusula
eliminada ou modificada sem o seu consentimento.

Um dos direitos do sócio é o da Participação Plena nas Deliberações e Direito de Voto


• Participação Plena: além do direito de estar presente (real ou virtualmente) nas
assembleias e de nelas discutir os assuntos sobre que se deliberara tem o direito de
votar as propostas.
• Direito de Voto: poder que o sócio tem de participar na tomada de deliberações através
da emissão de votos – declarações de vontade que formam ou contribuem para formar
as deliberações.

Obrigações dos Sócios


Situações passivas (art. 20º):
• Obrigação de entrada – art. 25º
• Sujeição às perdas – tem duplo alcance e representa a frustração de contrapartidas
esperadas pelas entradas, bem como traduzir o funcionamento das regras de
responsabilidade dos sócios.

Depende também do tipo societário e podem haver outras prestações devidas.


Há vários casos em que há deveres como contrapartida de diversos direitos: há direito à
participação pelo que cada um tem o dever de possibilitar essa participação.

Obrigação de Entrada
Art. 980º CC apresenta a entrada como uma das obrigações essenciais do contrato de sociedade.
Art. 20º CSC: entrada como elemento essencial que tem regime na parte geral e traços próprios
na parte especial.
➢ Uma pessoa para ser sócia tem de contribuir para o elemento constitutivo.
➢ Uma participação social só pode ser atribuída conforme a entrada.

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Participação Social = conjunto unitário de direitos e obrigações atuais e potenciais do


sócio (enquanto tal).
• O titular de uma participação social respeitante a determinada sociedade é
sócio dessa (nessa) sociedade.
• Aquisição da participação pode ser originária ou derivada (que pode ser por
transmissão mortis causa ou entre vivos).

Coutinho de Abreu: Obrigação de Entrada é a primeira e fundamental obrigação de todos os


sócios primitivos de uma sociedade.
➢ Sem esta obrigação cumprida, a sociedade não terá meios para poder desempenhar a
sua atividade.
➢ Paralelamente, os sócios não terão título de legitimidade para recolher lucros e para
pretender intervir na vida da sociedade.

O tipo de entrada é definido no contrato de sociedade nos termos do art. 9º/g, h – quer
quantitativa quer qualitativamente.

Pode consistir em diversas realidades com alcance patrimonial:


A. Entradas em Dinheiro – assunção de uma obrigação pecuniária;
• Coutinho de Abreu: tudo aquilo que num determinado espaço é aceite
consensualmente como meio de pagamento. Não se usa este conceito amplo e
aqui dinheiro = moeda
• Entradas em dinheiro tem de ser com moeda em curso legal em Portugal (art.
14º).
i. Tem que se atender ao princípio do nominalismo
• Equipara-se à entrada em cheque (que não vale como dinheiro e sim como
dação pro solvendo).
B. Entradas em Espécie – entrega de bens diferentes de dinheiro, art. 28º/1;
• Deve ser avaliado pelo ROC (art. 28º)35 – correspondência dos bens que os
sócios entram e a sua participação no capital social
Requisitos do relatório do ROC e o que se visa:
i. Proteção do interesse da sociedade
ii. Proteção dos credores sociais, assegurando o principio da exata
formação do capital social
• Transfere-se para a sociedade direitos patrimoniais suscetíveis de penhora e
que não são dinheiro: pode ser direito de propriedade, uso e fruição, know-
how.
• Podem os sócios entrar para a sociedade atribuindo-lhe o gozo de bens a título
obrigacional? Sim, o valor imputável às entradas em espécie de mero gozo é o
valor atual de um rendimento futuro (apoiado pelo art. 25º/4).36

35
Art. 25º/3 – há várias perturbações que são possíveis (ex: desencontro entre valor atribuído pelo sócio
e valor objetivo do bem).
36
Se sócio entrar com bem, não a título de propriedade mas com outro título, e depois há privação do
uso desse bem? E se entrar como proprietário e depois perceber que não é proprietário?
➢ Nesses casos sócio realiza a entrada em dinheiro.
➢ Perturbações que resultam do estatuto jurídico do bem.

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C. Entradas em Indústria – serviços humanos não subordinados, senão seria trabalho o


que estaria sujeito a diversa disciplina jurídica.
• Entradas de execução continuada.
• O sócio de indústria fica vinculado a partir do contrato social, mas, o
cumprimento da obrigação prolonga-se no tempo.

A + B = Entradas em Bens
• Bens: dinheiro ou bens de outra natureza (art. 28º);
o Situação normal é realizar entradas com dinheiro (se for outro bem, tem de ser
avaliado o valor do mesmo).
o Têm tradução no capital social.

• Levanta-se a questão se têm de ser bens suscetíveis de penhora (art. 20º/a CSC) – há
relação entre a garantia patrimonial e a suscetibilidade de os bens poderem ser afetado.
o Doutrina tem vindo dizer que esta opção do legislador é uma hiperbolização da
função de garantia – tem de se agilizar estas questões.
• Art. 20º/a é inspirado em Diretiva europeia que diz “bens suscetíveis de avaliação
económica”.
o Se interpretarmos em conformidade com a Diretiva, uma interpretação menos
rígida leva a optar por esta posição: entrada pode ser constituída por qualquer
bem suscetível de ser avaliado economicamente, o que não é sinónimo de “bens
suscetíveis de penhora”.
o O núcleo de bens suscetíveis de penhora são bens suscetíveis de alteração
devido a motivações políticas.

C = Entradas em Indústria
• Não são contabilizadas no capital social
o A razão da exclusão das Entradas em Indústria nas sociedades capitais é porque
é mais difícil a avaliação, não há deliberação instantânea e a indústria vai sendo
cumprida (caráter futuro e sucessivo), impossibilidade de execução específica.37
o Não funciona a garantia dos credores.
• Só se admitirem estas entradas nas SNC é um afloramento de que as SNC personificam
as Sociedades-Pessoas: tem esta nota de pessoalidade devido às características de
confiança que têm este tipo de entradas

Para garantir uma correta correspondência entre as entradas em espécie e as relativas


participações sociais e entre as participações sociais e o capital social – assim se tutelando os
interesses da generalidade dos sócios e dos credores sociais – o art. 28º exige a avaliação em
certos termos dessas entradas.
➢ O valor das entradas em indústria também deve constar do estatuto social.
o Mas a avaliação é feita pelos sócios, o art. 28º não lhes é aplicável.

➢ Sendo arrendatário entra para a sociedade como arrendatário desse espaço. Entretanto
arrendamento extingue-se. Sociedade fica privada desse bem.
37
Proibições de entradas em indústria nas sociedades de capitais podem ser questionas se, ao falarmos
em prestações acessórias, por esta via, não estamos a fazer entrar pela janela o que se fez sair pela porta.
Admitem-se prestações acessórias a cargo dos sócios que podem ser de indústria, mas não se admite que
a entrada seja em indústria.

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É possível entrar com know-how? Saber-fazer pode constituir objeto de entrada?


Januário: não se coloca quanto ao patenteado e tem de ser objeto de avaliação pelo art. 28º
Tendência é admitir-se que a entrada com saber-fazer, quando os conhecimentos técnicos se
encontram materializados e incorporados num suporte que permite que outra pessoa além do
sócio o possa utilizar.
➢ Sociedade deve estar em condições de poder utilizar o know-how38 com independência
do sócio que realizou essa entrada.

Entrada não tem de se destinar necessariamente à cobertura do capital social – art. 178º/1 CSC
Obrigação de entrada é, à partida, uma obrigação comum em que, como devedor, surge o sócio
e, como credor, a própria sociedade.

Valor nominal da entrada – valor da participação social correspondente à entrada.


➢ Art. 25º/1 permite estabelecer que o valor nominal da participação não pode exceder o
valor da entrada.
Valor real da entrada – valor que corresponde à cifra, em dinheiro, em que ela se traduza,
quando pecuniária ou ao valor dos bens que implique, quando em espécie

Januário: Princípio que o valor nominal da participação social não pode ser superior ao valor da
entrada – na prática significa que o valor da entrada é o limite máximo do valor nominal da
participação social, apesar de não terem de coincidir.

O valor da entrada não pode ser inferior ao da participação nominal atribuída ao sócio.

Pode ser superior: acima do par.


➢ Quando há uma entrada superior à participação social temos um Ágio – prémio de
subscrição ou emissão que passará a integrar as reservas.

Art. 295º/3/a – acionista pode desembolsar mais pelo valor das ações do que o valor nominal;
isso configura o ágio

O Ágio/Emissão Acima do Par (em regra nas SA) justifica-se por 3 ordens de razões que muitas
vezes operam em conjunto:
i. constituição da sociedade e congregação de esforços nesse sentido vale dinheiro;
ii. sociedade pode gerar expetativas de negócio que conduzam a uma sobrevalorização de
mercado;
iii. sociedade pode representar um valor real que ultrapasse o valor nominal do capital.

Ana Perestrelo de Oliveira


ÁGIO – exprime a diferença entre o valor com que o sócio efetivamente entra para a sociedade
(valor real da participação) e o valor nominal ou de emissão da participação.
➢ Prémio de emissão calcula-se pela diferença entre o preço de subscrição efetivo e o
preço de subscrição mínimo, que, por sua vez, toma como referência o valor do capital
social de cada emissão (art. 295º/3).

38
Know-how puro é entrada em indústria

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➢ Reservas de ágios só são indisponíveis até ao limite do valor da reserva legal: apenas o
montante necessário para completar a reserva – se esta não estiver totalmente
integrada – não é, em rigor, de utilização livre.

Obrigação de Entrada deve ser realizada no momento da outorga da escritura, salvo quando o
contrato preveja o diferimento das entradas em dinheiro e a lei o permita.
• É diferida nas: sociedades por quotas (art. 202º e 203º); sociedades anónimas (art.
277º/2).
• Não é possível nas Sociedades em Nome Coletivo.
• Não é possível para Entradas em Espécie.

Forma de cumprimento está regulada para as Sociedades Anónimas – art. 277º/3


➢ Depósito na CGD - art. 543º CC
➢ Alargamento a outros bancos - Portaria 228/92

Tempo das entradas – art. 26º


Garantias da obrigação de entrada – art. 27º

Art. 29º: Entrada em espécie dissimulada ou oculta – aquisição de bens acionistas


Sociedade anónima ou comandita por ações.
➢ Janu: difícil fazer interpretação extensiva do art. 29º.
o É complicado fazer essa interpretação extensiva de forma a abranger as
sociedades por quotas. Por isso grande parte da doutrina entende não ser
possível essa extensão.
o Essas situações geram uma suspeição que pode ser sindicada, pelos sócios e
outros órgãos próprios da sociedade.
➢ Janu: este artigo devia ser objeto de reponderação, de iure condendo

Ao levantar suspeição provoca reação mais acutilante dos órgãos próprios dos órgãos da
sociedade.
➢ Órgão de fiscalização e de administração têm dever de vigilância.

Relevo das Entradas: articulação dos bens que entram na sociedade e a tutela dos credores da
sociedade.

Direitos dos Credores


Efetivação das entradas interessa à sociedade: ela carece de meios materiais para poder levar
a cabo os fins a que se destina.
➢ Mas, interessa também aos credores da sociedade, uma vez que releva para a cobertura
patrimonial dos seus direitos.
➢ Art. 30º veio referenciar dois direitos dos credores, concretizando a ação sub-rogatória,
prevista no art. 606º CC
o Sociedade pode ser credora de certos sócios, tendo legitimidade para exigir o
cumprimento.
o Art. 30º - basta que as entradas sejam exigidas e não tenham sido realizadas
para que os credores exerçam o direito das sociedades relativamente à entrada
(sub-rogação).

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▪ Não estão a exigir satisfação dos próprios créditos mas sim satisfação
dos créditos da sociedade, fortalecendo o património desta.
▪ Art. 606º CC: pode promover-se judicialmente as entradas a partir do
momento que estas sejam exigíveis.
o Art. 30º/b não vai permitir acelerar os tempos de pagamento de prestações
específicas de entradas que foram diferidas.
▪ Alínea pró-sociedade.
▪ Não permite alterar as diferidas se articulado com o art. 606º

Obrigações Acessórias e as Prestações Suplementares.


A propósito das entradas, essa referência deve ser complementada com as Obrigações
Acessórias e as Prestações Suplementares – art. 209º, 210º e ss.
• Prestações acessórias: para SA e Lda.
• Prestações suplementares: apenas para Lda. e não SA.

Além das obrigações principais, aos sócios pode ser imposto outras obrigações de entrada –
prática de os sócios disponibilizarem meios financeiros à sociedade para alem das entradas para
o capital (Ana Perestrelo Oliveira).:
• Obrigações estão previstas no contrato de sociedade, qua tale – necessidade de realizar
essas prestações não carece de nova deliberação da sociedade
• Obrigações que são previstas pelo contrato social mas que requer uma deliberação
social.

Obrigações que não tocam a todos os sócios


Obrigações que não têm lugar em todos os tipos societários – e nas sociedades que operam
não têm de vincular todos os respetivos sócios.
➢ Mas o caráter eventual destas obrigações resulta sobretudo do facto de só existirem
quando tal seja determinado pelo estatuto social e/ou por deliberação.

OBRIGAÇÕES DE PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS


Art. 209º - Sociedades por Quotas
Art. 287º - Sociedades Anónimas

São prestações acessórias que acrescem às obrigações principais (de entrada).


Elas introduzem elementos personalísticos na sociedade: fornecimento de coisas, aquisição de
produtos desta, assistência técnica, prestação de garantias e etc.

É possível alterar os estatutos e introduzir cláusulas relativas a estas obrigações (art. 85º, 265º,
386º/3, 4).
➢ Porém, deliberada uma tal introdução, ela não produz efeitos relativamente aos sócios
que a não tenham votado favoravelmente, não ficando eles obrigados a efetuar
prestações acessórias – art. 86º/2

Estas prestações têm de estar previstas no estatuto social originário ou alterado.


• Elas podem ficar logo perfeitamente determinadas mas os art. 209º e 287º bastam-se
com a fixação de critérios, mesmo que não se conheça imediatamente a medida das
prestações.

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• Tem de também ser explicitado se as prestações se efetuam onerosa ou gratuitamente


– pode ser uma estipulação implícita que se retiram de outros dizeres.
o Se tal não for especificado (explicita ou implicitamente) a cláusula estatutária é
nula.

O art. 287º/3 tem mais disposições do que o art. 209º/3, mas, o que se estatuiu a mais para
as SA aplica-se por analogia às Sociedades por Quotas.

A contraprestação a cumprir pela sociedade, pela prestação acessória, pode ser determinada
posteriormente mas não pode exceder o valor de mercado da prestação acessória, pois tal
abriria uma porta para a descapitalização das sociedades e para a restituição de entradas aos
sócios.

Art. 209º/2 e 287º/2


Nada dizem acerca da transmissão das obrigações.
➢ Estas obrigações são elementos das participações sociais, portanto elas transmitem-se,
por ato inter vivos ou mortis causa, quando se transmitam as respetivas participações
sociais.
➢ Porém, a transmissão destas não envolverá a daquelas quando o objeto das prestações
acessórias for infungível.

Art. 209º/4 e 287º/4


A participação social, direitos e obrigações dos sócios não são afetados pelo simples facto do
não cumprimento da obrigação de prestações acessórias.
➢ O não cumprimento segue as consequências gerais do Direito Civil.
o O art. 209º/4 permite a aplicação do art. 204º - via de reação por parte da
sociedade é a via obrigacional.
o Credores podem agir ao abrigo do art. 30º? Nos termos tout cour do art. 30º
não podem. Não há remissão plena do art. 209º para o regime das entradas.
Nos termos gerais têm o art. 606º CC
➢ Todavia, o estatuto social pode prever sanções que afetem a situação de sócio como tal,
designadamente a sanção da exclusão (art. 241º e 347º).

OBRIGAÇÕES DE PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES


Art. 210º-213º
➢ Diferem das Acessórias, quanto à raiz que têm de estar no contrato de sociedade para
ser exigida
o Exigência de Dupla Fonte: contrato de sociedade + deliberação pelos sócios

Meios de financiamento privativo das sociedades por quotas – prestações em dinheiro sem
juros que a sociedade exigirá aos sócios quando, havendo permissão do estatuto, uma
deliberação social o determine.

O estatuto pode ser originário ou alterado (alteração para a qual se exige maioria qualificada –
art. 265º/1).
• Fixará o montante global destas prestações (art. 210º/3/a + 210º/4) – têm sempre
dinheiro como objeto

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o Se não referir qualquer montante ou se referir a um montante impreciso é uma


cláusula nula.
o Enquanto se mantiver a cláusula estatutária que permite prestações
suplementares, a sociedade não pode (quer por deliberação dos sócios ou
decisão do órgão de administração) exonerar os sócios da obrigação, atual ou
potencial, de as efetuarem (art. 212º/3).

Embora necessária, a permissão estatutária não é suficiente para constituir as obrigações de


prestações suplementares.
➢ Elas (bem como correspondente direito de crédito da sociedade) só nascem se e quando
os sócios deliberem que lhes sejam exigidas prestações em dinheiro (art. 211º).

Estas prestações suplementares podem ser restituídas desde que deliberação dos sócios o
autorize (art. 213º).

Doutrina entende que SA não é compatível com este quadro das prestações suplementares.
• Januário: mas não parece fazer sentido que à partida haja impedimento numa SA que a
prestação seja em dinheiro.
o Mas pode haver solução em que contrato de sociedade preveja essa opção?
o Janu: sim, mas não se aplica a totalidade do regime. Há um cherry-picking desse
regime e aplica-se o compatível com as SA.

Ana Perestrelo Oliveira: Analogia das Sociedades por Quotas às SA não pode ser feita, devido à
regra da nominatividade obrigatória das ações (art. 299º/2/e, por analogia).

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Suprimentos
CONTRATO DE SUPRIMENTO – ART. 243º39

Intervenientes são os sócios e a sociedade.


• Pode ser coisa fungível (dinheiro é o mais comum) ou diferimento de crédito.

Apresenta duas modalidades:


• Empréstimo de dinheiro ou outra coisa fungível
• Diferimento de crédito

Características essenciais deste contrato são:


1. Qualidade das partes – dum lado a sociedade e do outro o sócio
o Quem é parte no contrato de suprimento é um sócio, que proporciona à
sociedade bens substitutivos de novas entradas para satisfação imediata das
necessidades sociais não passageiras e para satisfação mediata dos seus
interesses enquanto sócio.
o Tem fortes preocupações de tutela dos interesses dos credores sociais.

2. Caráter de permanência do crédito do sócio relativamente à sociedade – essencial


para a qualificação do contrato como suprimento, devido à função destes que é a de
suprir insuficiências do capital social, substituindo novas entradas do capital.40
o Se não tiver esta característica é mero empréstimo e não um contrato de
suprimento (segue regime geral e não este regime societário).
o Requisito essencial que diferencia este regime do regime dos empréstimos
comuns.

Os atos só são de suprimento quando a sociedade está em situação de crise financeira ou tendo
decidido ampliar a atividade ou os investimentos, as necessidades sociais (não passageiras)
sejam por eles satisfeitas em vez de serem satisfeitas por novas entradas de capital.

O que é ter caráter de permanência?


➢ Legislador auxilia estabelecendo índices / presunções no art. 243º/2
o É presunção relativa em que há margem de liberdade, para provar, quer da
parte dos credores e dos sócios (art. 243º/4).

Art. 243º/2 e 3 são índices do caráter de permanência – presunções ilidíveis de permanência

39
Importante com e para a Lei 7/2018
40
Januário: Explica-se em função especificamente societária deste regime: suprir insuficiências de capital
da sociedade, tendo uma vocação de substituir novas entradas – lógica de mecanismo substitutivo de
novas entradas.

62
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Os sinais reveladores dos suprimentos não se esgotam nestes índices e podem manifestar-se
através de outros (em conformidade com isto: art. 243º/4/1ª parte).
➢ Apesar de o crédito ser mantido menos de um ano, podem os credores da sociedade
provar que ele era um crédito de suprimento – porque tinha caráter supletivo do capital
social.

Estas presunções iuris tantum podem ser ilididas pelos sócios credores mediante prova em
contrário (art. 243º/4/2ª parte).
➢ Podem demonstrar que o crédito não é um suprimento porque não faz as vezes de nova
entrada de capital que o sócio enquanto tal (interessado na sobrevivência ou no
desenvolvimento da “sua” sociedade” deveria ou poderia ter realizado.

Art. 243º/5 visa prevenir a defraudação do regime legal dos suprimentos, não introduzindo uma
terceira modalidade de contrato de suprimento, pois não há nesse caso qualquer acordo entre
o sócio e a sociedade – trata-se antes de um caso em que, por força da lei, certos créditos de
sócios ficam sujeitos ao regime dos suprimentos.
• Admite a hipótese que um crédito originariamente de um sócio ser cedido a terceiro;
esse crédito continua sujeito ao regime dos suprimentos.
o Este regime é efetuado por um sócio, que tem interesse na sociedade pois com
ela quer auferir vantagens (receber o lucro) – interesse especificamente
societário do sócio.

Art. 243º/6 – forma


• Validade do contrato de suprimento não está sujeito a forma especial.
• Manifestação da especificidade deste negócio que se destaca do regime civil.

Os suprimentos só são retribuídos com juros quando tal seja estipulado.


Negócio oneroso ou gratuito?
• Prende-se com a questão da cindibilidade da comercialidade.
• Nada se impede que se estipule o pagamento de juros – como remuneração dos
suprimentos.

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• Mas se nada se disser a esse respeito estabelece-se a presunção de onerosidade do CC


ou não?
o Janu: não se deve partir da presunção da onerosidade.
o Tem-se em atenção o art. 209º quanto às prestações acessórias – que se aplica
aqui inteiramente.
o Obrigação de efetuar suprimentos não pode vincular os sócios que não votaram
a favor dessa deliberação.
o Esta obrigação, quando estabelecida nos estatutos, é-lhe aplicável o art. 209º.

Se se estabelecer juros, há limitação face à taxa de juro?


• Madalena Perestrelo de Oliveira: não há limites
• Francisco Rocha: limites do CC (art. 555º com articulação do art. 1146º)
• Januário: movemo-nos numa lacuna que tem de ser integrada recorrendo ao CC, pois o
negócio em causa não é comercial e está sujeito à lógica civil (limites e regimes do código
civil aplicam-se)

Contratos de suprimentos podem ser celebrados entre sócios e a sociedade,


independentemente de qualquer autorização estatutária ou deliberação.
➢ Mas, o estatuto social pode fazer depender de prévia deliberação dos sócios – art.
244º/3

Possibilidade de obrigação de efetuar suprimentos ter por fonte não um contrato autónomo mas
o próprio estatuto social ou uma deliberação dos sócios (art. 244º/1, 2).

O contrato de suprimento é um contrato típico não confundível com o contrato de mútuo e que
se compreende unitariamente num contexto societário.
➢ Este contrato é quo effectum.41
➢ Do próprio contrato social nasce a obrigação de efetuar suprimentos, que integra a
quota dos sócios vinculados, não sendo necessário logo efetuar uma entrega de
dinheiro. A posterior entrega de dinheiro é execução de contrato e não elemento
constitutivo de um contrato real.

O credor por suprimentos tem direito a ser reembolsado – essa restituição é condicionada
pelos interesses da sociedade e dos credores sociais, pois estas prestações são substitutivas de
entradas de capital.
➢ Regime no art. 245º
o Januário: regime que não é pensável em termos civis pois sócio é credor especial
– ele é credor na qualidade de sócio.
o Tem de se ter em conta as consequências para a sociedade desse reembolso.
o Os credores são credores interessados na sociedade, por serem sócios, e
atendendo à função substitutiva de capital, compreende-se o art. 245º/2.

41
Este negócio é um contrato real quanto à constituição?
➢ Janu: no campo bancário há uma tipicidade social que os mútuos bancários não são contratos
reais quanto à constituição, apesar da remuneração só fazer sentido após coisa ser entregue.
o É formalista e artificioso e exagerado, sem contemplar especificidade de lógica
societária (art. 243º/6), considerar este como um contrato real quanto à constituição.
o Não faz sentido essa caracterização para que se aplicasse rigidamente o direito civil (em
que o mútuo é real quanto à constituição).

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o Mas não podem eles próprios requerer a insolvência da sociedade por


desrespeito dos respetivos créditos.
▪ Art. 245º/4
▪ Razão de ser deste regime é razão que se entende com o regime do CIRE

Esta disciplina dos suprimentos para as Sociedades por Quotas é aplicável a outros tipos
societários?
Sim, em qualquer tipo de sociedade é possível ocorrerem insuficiências de capital, sendo que
tais insuficiências podem ser supridas com meios que o art. 243º qualifica como suprimento. É
pois razoável, ou mesmo imperioso, que a proteção dos interesses das sociedades e/ou credores
sociais externos valha igualmente para as sociedades que não sejam por quotas.

Este regime aplica-se a outros tipos societários?


Questão discutida sobretudo quanto às SA
➢ Januário: sim, deve ser aplicável às situações similares nas SA – aliás, quanto às
prestações acessórias (art. 287º), há regime próprio para as SA;
o Não há regime específico de suprimentos mas a doutrina geral não mostra
reservas à aplicação do regime dos suprimentos às SA.

É lícito no estatuto de uma SA estabelecer-se que alguns acionistas podem efetuar suprimentos.
➢ Consequentemente são lícitos os negócios acessórios (art. 294º).
➢ Como o contrato de suprimento é típico, é lícito estabelecer-se no estatuto de uma SA
a obrigação acessória de um, alguns ou todos os acionistas efetuarem suprimentos.
o Também são lícitos suprimentos que têm por fonte deliberações ou contratos –
aplicado analogicamente com o previsto para as Sociedades por Quotas.

Este regime especial dos suprimentos, que fragiliza o crédito do sócio (em termos de recuperação
de crédito a posição é mais frágil), dá base para que se aplique a todos os ócios da SA ou só
alguns sócios?
Doutrina tem entendido que se aplica aos sócios com interesses societário.

Por influência alemã tem-se que o regime de contratos de suprimento não deve aplicar-se a
qualquer sócio das SA mas somente aos acionistas com verdadeiros interesses societários ou
empresariais (acionistas empresários).42
➢ Quem são estes acionistas empresários?
o Atendendo ao art. 392º/1, 6 e art. 418º/1 diz-se que são os que possuem ações
correspondentes a 10% ou mais do capital social.
▪ Coutinho de Abreu discorda.43
▪ Todo e qualquer acionista pode ter créditos sobre a sociedade com
caráter de permanência e funcionalizados a suprir insuficiências do
capital social.
▪ Todo e qualquer acionista pode ser credor da sociedade.

42
Ideia de Raúl Ventura em que só os acionistas empresários estão intrinsecamente ligados a essa SA e
têm interesse em revitalizar a sociedade, devido ao volume elevado da sua participação social
43
Januário: porquê exigir 10? É manifestamente infundado. Qualquer acionista pode ser credor por
suprimento (porque há sócios só com 2% mas que têm interesse em que a sociedade não esteja com
insuficiência de capital)

65
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• Portanto, qualquer acionista pode ser credor por suprimentos.


• Mas um sócio com uma ou poucas ações que empreste dinheiro
à sociedade por prazo superior a 1 ano não leva a concluir que
estamos perante um contrato de suprimento, pois os sócios
podem ilidir a presunção de caráter de permanência do crédito.
➢ Posição MC: elemento de analogia é quando acionista ordenado faz uma
aplicação/contribuição do capital. Na tese de Raúl Ventura os 10% definem o
envolvimento maior na vida da sociedade, mas, não se deve ter essa bitola – portanto,
para concluir que o acionista está de tal modo envolvido na sociedade é através do
critério do Acionista Ordenado.
o Pergunta-se se acionista ordenado, nesse contexto, faria a contribuição ou não.
o Acionista Ordenado = acionista medianamente diligente e alinhado com o
interesse da sociedade

Quanto às SNC
Regime dos suprimentos é aplicável por analogia.
➢ Contudo, dada a responsabilidade ilimitada dos sócios, não será aplicáveis algumas
normas especialmente tuteladores dos interesses dos credores sociais externos
(designadamente a do art. 245º/3).

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Direito à Informação
Art. 21º/c - direito dos sócios

O direito das sociedades só funciona através de uma intricada e permanente rede de


informações, trocadas com a maior naturalidade entre todos os intervenientes.
➢ Por isso, há esquemas específicos destinados a proporcionar informações societárias.
➢ Não são esquemas específicos do Direito das Sociedades mas nele encontram uma
especial razão de ser.

Base jurídico-positiva do direito à informação:


Regras indeterminadas – institutos carecidos de concretização e que derivam da boa fé (art.
227ºC, 762º/2 CC)
Regras estritas
• Comuns – cobrem generalidade indeterminada de situações hipotéticas (art. 573º e ss.
CC).
o Este regime tem aplicação em todas as situações relevantes, em termos de
informação, sempre que lei especial não imponha regime diverso
• Especiais - impõe-se ma regulação delimitada de certos setores (art. 21º/c CSC)

Fonte: facto jurídico que dê azo ao dever de informação


• Facto específico - corresponde a uma precisa eventualidade que gera o dever de
informar
• Status – qualidade geral do sujeito que o habilita a colher informações

Conteúdo:
• Deveres de informação substanciais – obrigado está adstrito a veicular a verdade que
conheça. Descrevendo-a de modo compreensível e explícito.
• Deveres de informação formais – obrigado compete transmitir elementos prefixados.

Determinação do dever de informar:


• Autodeterminação - cabe ao próprio obrigado fixar os termos a informar e a matéria a
que tal diz respeito.
• Heterodeterminação - compete ao interessado indagar da matéria sobre a qual deseja
ser informado. Ex: informações a fornecer pelos administradores das sociedades
anónimas aos sócios em assembleia geral (art. 290º/1)

Inserção sistemática: dever de informação pode tomar corpo em diversas situações


• Prestações principais - vínculo (contratual ou legal) destinado a informar.
• Prestações secundárias - o status de sócio
• Deveres acessórios - acompanham as vinculações legais devido à boa fé

No direito das sociedades comerciais, o direito dos sócios à informação desenvolveu-se, em


especial, no domínio das SA.
➢ Por um lado, este é setor societário mais evoluído e que serviu de grande matriz para
este ramo jurídico-científico.
➢ Por outro lado, é nas SA que a distanciação entre o sócio e a sociedade e a própria
imaterialidade das situações mais exige em termos informativos.

67
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O dever de informar impõe-se nos diversos tipos sociais:


• Art. 988º CC - sócios têm injuntivamente o direito de obter dos administradores as
informações que necessitem.
• Art. 21º/c CSC
• Art. 35º, 65º, 66º - dever de relatar a gestão
• Art. 91º/2, 94º, 98º a 101º, 1190º, 120º, 132º - deveres de informação relacionado com
alterações do capital, fusões, cisões e transformações.
• Art. 146º/2, 152º/1, 155º, 157º - deveres de informação cometidos aos liquidatários
• Art. 181º, 214º a 216º, 288º a 293º - direito à informação nas SNC, por quotas, SA
respetivamente.

INFORMAÇÃO ORDINÁRIA - tem a ver com a gestão comum da sociedade e com os negócios
que não caiam sob específicas previsões de informar.

INFORMAÇÃO EXTRAORDINÁRIA - quando se reporta a hipóteses específicas que obrigam a


detalhadas informações.

INFORMAÇÃO PERMANENTE – prestada a todo o momento, a pedido do sócio. Prevalece na


sociedade de pessoas.

INFORMAÇÃO PRÉVIA - ocorre antes de cada assembleia geral para uma deliberação
esclarecida. Prevalece na sociedade de capitais.

INFORMAÇÃO EM ASSEMBLEIA – efetivada em plena assembleia como modo de instruir o


debate. Tem em vista as SA mas também se aplica às Sociedades por Quotas.

Nem todos os assuntos relativos à sociedade podem ser dados a conhecer a todos os sócios. Há
quatro círculos de matéria informativa societária, ordenados em função do acesso que a eles se
tenha.
1º. INFORMAÇÃO PÚBLICA - disponibilizada a todos os interessados, sócios ou não sócios.
Ela resulta do registo comercial e das publicações obrigatórias.
2º. INFORMAÇÃO RESERVADA – disponibilizada aos sócios. Deveria de assistir a todos os
sócios, mas a dispersão do capital em certas SA levou a limitar, nesse âmbito, aos
detentores de 1% do capital social (art. 288º/1 - direito mínimo à informação)
3º. INFORMAÇÃO QUALIFICADA – disponibilizada apenas aos sócios que detenham
posições mais consideráveis no capital da sociedade. Nas SA requerer-se que sejam 10%
do capital (art. 291º) e nas sociedades por quotas são todas (art. 214º) pois todas são
consideradas, em princípio, qualificadas. Informação que mergulha mais fundo na vida
da sociedade.
4º. INFORMAÇÃO SECRETA - não pode ser disponibilizada aos sócios. Informação sujeita a
sigilo profissional ou de informação que, ao ser divulgada, poderia prejudicar os sócios
ou a própria sociedade.

A enumeração legal dos elementos mínimos de informação quanto às SA (art. 288º a 290º) é
taxativo ou acrescentam-se todos os outros suscetíveis de integrar a "vida da sociedade" (nos
termos do art. 21º/1/c)?

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Tendo em conta o revogado art. 189º CCom


• Cunha Gonçalves: todos os elementos da estruturação deviam ser patentes aos
acionistas
• Fernado Olavo: só alguns elementos, indicados para o efeito.
o Teve o apoio da jurisprudência e levou a que se considere, hoje, que os
elementos indicados pela lei como objeto de informação são taxativos.

Art. 290º/1 é lato mas não abrange tudo: apenas matéria pertinente com o que se delibere
(fazendo um juízo de razoabilidade)
➢ Estas informações substantivas estão limitadas por: o que prevê art. 290º/1; ser
informação pública ou no âmbito do art. 289º; art. 290º/2, in medio; art. 290º/2, in fine.

Art. 214º não tem limites, exceto os do contrato.


➢ Aplicação analógica do art. 290º/2 e 291º/a.

Art. 291º exige uma participação de 10% do capital social.


➢ Acionistas que não atinjam esse valor podem agrupar-se para o efeito.

Informação reforçada quando estiver em causa elementos capazes de responsabilizar os


administradores (art. 214º/2, in medio) ou estes, os membros do conselho fiscal ou geral (art.
291º/2 - que têm ressalva quando pelo conteúdo do pedido esse não ser o fim visado pelo
pedido de informação ou quando se trata de informação secreta).

Art. 291º/4 interpreta-se restritivamente e não como a informação secreta a ceder perante
invocação de se tratar de efetivar a responsabilidade dos administradores ou outros titulares
de órgãos.
➢ Segredo profissional não pode ceder, a não ser em casos previstos na lei e com
intervenção do juiz.
➢ Este artigo contém a informação secreta.

Regime do Direito à Informação


Qual a finalidade/escopo do direito à informação dos sócios?
• Colaboração: sócios só poderão produzir trabalho útil em prol da sociedade e no seu
âmbito se tiverem conhecimento do que lhe exige e do que é útil.
• Organização: dimensão organizatória, operando como pressuposto do voto em
assembleia geral, como meio de legitimação dos investimentos e do mercado, como
forma de fiscalização da administração, como tutela das minorias.

Sujeitos da obrigação de informação são os sócios e a própria sociedade.


• Passivo: sociedade, representada pelos administradores.
• Ativo: sócios, que podem fazer um pedido de informação oral ou escrito (não depende
de forma especial salvo quando a lei diga o contrário), tendo ele o ónus de se identificar
como tal e de explicitar o que pretende.

Este direito é, em princípio, irrenunciável e inderrogável.


➢ Não pode haver renúncias prévias (art. 809º CC) nem derrogações, quer pelos estatutos
quer por deliberação social (art. 214º admite que o pacto social regulamente esse
direito à informação, mas sem o por em causa).

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Este direito é uma posição pessoal que integra o status de sócio.


• Direito abstrato à informação ou a pedir informações e Direito concreto, positivamente
constituído, perante situações que possibilitem a sua efetivação.
• É uma posição potestativa que se vai adaptando aos diversos tipos societários, podendo
ser de exercício individual ou coletivo.

Este direito pode ser bloqueado por abuso de direito ou violação da lealdade.

Este direito é meramente instrumental ou puramente funcional?


MC: é um elemento autónomo de quaisquer concretas finalidades e vale por si. É parte
integrante do status do sócio, dá corpo à propriedade privada, à livre iniciativa económica e à
própria liberdade de associação, valendo por si e não sendo instrumental.

É um direito que tem garantias (remédios)


• Sanções - art. 518º e 519º
• Anulabilidade de deliberações sociais por recusa injustificada de informações - art.
58º/1/c e 290º/3
• Danos patrimoniais e não patrimoniais - sócio a quem é recusada informação vê a sua
honra e o seu direito de participar ativamente nas situações que lhe competem lesados.
• Art. 67º/1

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Participação nos Lucros e nas Perdas


O funcionamento de uma sociedade comercial é suportado por fluxos monetários,
aplicando-se-lhe regras especializadas que a comercialística chama a “constituição
financeira das sociedades”
Com exceção das SNC em que todos os sócios contribuam apenas com indústria ou trabalho, do
estatuto da Sociedade deve constar o respetivo capital social – art. 9º/1/f CSC

Capital Social: cifra representativa da soma (dos valores) das entradas dos sócios.
• CA discorda – valor das entradas em indústria não é computado no capital social, valor
das entradas em dinheiro ou espécie podem ser superior ao valor das participações
sociais e etc. Propõe a definição como: cifra representativa da soma dos valores
nominais das participações sociais fundadas em entradas em dinheiro e/ou espécie.

Capital Social Real: montante de bens da sociedade destinados a cobrir o valor do capital social
estatutário. Integra-se no património (líquido) da sociedade, mas não se confunde com este

Património Social: conjunto de relações jurídicas com valor económico (i.e., avaliável em
dinheiro).
➢ Pode ser considerado o património global, bruto ou líquido
➢ Se nem todas as sociedades têm de ter capital social, todas elas têm património.
o Logo no momento inicial ele é constituído pelos direitos correspondentes às
obrigações de entrada.
➢ Depois, à medida que decorre a vida societária, o património vai-se alterando com a
entrada e saída de outros direitos ou bens e de obrigações.

Função do Capital Social


Financiamento da sociedade: valor do património social inicial deve ser pelo menos idêntico ao
capital social, o que é naturalmente um meio de financiamento próprio da sociedade.
Ordenação: determina a medida de direitos e obrigações dos sócios, a existência de certos
direitos na titularidade dos sócios e quóruns deliberativos.

Avaliação económico-financeira da sociedade


Garantia para credores sociais: a garantia geral das obrigações da sociedade está (nos bens
penhoráveis do) património social e não no capital nominal, mas, não obstante, os credores da
sociedade são protegidos pela proibição de o património social líquido se tornar inferior ao valor
do capital e reservas legais estatutárias em virtude de distribuições de bens aos sócios.
➢ Capital Social enquanto “cifra de retenção” é cifra de proteção dos credores sociais.
➢ Art. 35º

Ana Perestrelo Oliveira


Capitais Próprios – meios de financiamento que têm origem nos detentores do capital social e
que, nessa medida, apresentam caráter definitivo. Não são objeto de restituição, de tal maneira
que não têm prazo e não obrigam a pagamentos regulares.
• Entradas
• Prestações acessórias e suplementares – cumprem função de dupla capitalização
(adequando capital próprio às necessidades da sociedade) e de garantia dos credores
(na medida em que apenas podem ser restituídas se o capital próprio não ficar inferior
à soma do capital e da reserva legal)

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

• Reservas – valores que os sócios não podem distribuir (por lei ou contrato) ou deliberam
não distribuir. As reservas não correspondem a bens determinados ou especificados,
sendo um valor ideal. As reservas viam fazer face aos riscos da atividade económica e
em certos casos têm fins específicos.
Não se confunde com o “capital próprio” (do art. 32º e 35º) – entendido enquanto situação
líquida da sociedade (ou seja, o ativo deduzido o passivo).
Capitais Próprios: capital social + reservas de ágio + outras prestações + reservas

Capitais Alheios – pagamentos regulares associados e um prazo de vencimento, sendo pagos


com prioridade relativamente aos capitais próprios.
Capitais Alheios: obrigações + títulos de participação nos lucros e outros empréstimos

Capital Social (nominal) = cifra estável que representa a soma dos valores nominais das
participações sociais assentes em entradas em dinheiro ou em espécie ou dos valores de
emissão das ações sem valor nominal.
➢ É valor abstrato constante dos estatutos e não se modifica (salvo alteração, por iniciativa
dos sócios). Difere do património social que corresponde ao conjunto das situações
jurídicas de valor económico de que a sociedade é efetivamente titular.
➢ Quanto ao ágio, tal não é computado no capital social, pelo que nunca se pode dizer que
o capital social é a soma das entradas. O mesmo em relação às entradas em indústria.

Capital Social (real) = parte do património da sociedade que é necessária para cobrir a cifra do
capital social. Tem correspondência efetiva no património e é uma fração deste, correspondente
a bens ou situações jurídicas não especificadas ou não concretamente determinadas, ou seja, é
a parte ideal necessária para cobrir o valor do capital social.

Na Europa, em virtude da 2ª Diretiva, aplicável às SA, não se eliminou a noção de capital social
(para regime mais flexível), e manteve-se em termos obrigatórios para as SA.

Relatório Rickford vem tecer muitas críticas ao modelo do capital social e a sua aplicação às
sociedades.
➢ Este relatório, tomando como ponto de partida a proteção dos credores, propõe um
modelo alternativo: tem de se assegurar aos credores, através de balanço razoável ou
de proporcionalidade, uma expetativa razoável e justa de obterem o pagamento, ao
mesmo tempo que se confere aos acionistas uma expetativa equivalente de retorno do
seu investimento.
➢ Não são interesses opostos, na medida em que também é do interesse dos credores que
a empresa tenha meios para angariar capital, o que exige que o investimento em capital
tenha uma probabilidade razoável de retorno.
➢ Propõe um teste de liquidez e um teste de solvência, que veio exigir regras de
responsabilização pessoal dos administradores muito aprofundada.

Independentemente das críticas em que está envolto o conceito de capital social e das dúvidas
sobre a respetiva capacidade de tutelar credores, esta é atualmente a base de um sistema de
proteção que radica em dois princípios:
1. Princípio da constituição ou formação real do capital social – visa garantir que, pelo
menos no momento inicial da constituição da sociedade, a cifra correspondente ao
capital tem, efetivamente, correspondência em bens ou património social.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

2. Princípio da conservação ou intangibilidade do capital social – visa evitar que o


património social seja diluído em virtude de distribuições a favor dos sócios, efetuadas
em situações em que o montante em causa poderia ser necessário para a sociedade
cumprir as suas obrigações perante os credores.
Um é a manifestação dinâmica do outro.

LUCROS
Noção ampla: ganho traduzível em incremento do património da sociedade.

Lucro de Balanço: acréscimo patrimonial, revelado em balanço equivalente à diferença entre,


por um lado, o valor do património social líquido e, por outro lado, o valor conjunto do capital
social e das reservas indisponíveis. Este lucro marca o limite máximo dos bens que, durante a
vida da sociedade, podem ser distribuídos aos sócios (art. 32º).

Lucro de Exercício: excedente do valor patrimonial social líquido no final do exercício sobre o
valor do património social líquido no início do mesmo período. Releva para a constituição de
reservas.

Lucro Final: apurado na fase terminal da sociedade, nas contas finais de liquidação, e
corresponde ao excedente do património social líquido sobre o capital social.

Art. 21º/a + art. 22º


Podem surgir outras regras imperativas ou permissivas que facultem formas privilegiadas de
comunhão nos lucros ou que limitem perdas.

Direito dos Sócios a Quinhoar nos Lucros


Art. 21º/1/a – cada sócio tem o poder de exigir parte dos lucros (na proporção do art. 22º/1)
quando os mesmos sejam (ou tenham de ser) distribuídos.
• Todo o sócio tem o poder jurídico de exigir permanentemente da sociedade que não
seja excluído da comunhão nos lucros – direito abstrato (potencial) aos lucros não é
mera expetativa jurídica e contém já direitos concretos (atuais), poderes ou faculdades
atualmente exercitáveis.
• Daí proibir-se o Pacto Leonino – art. 22º/3
o A invalidade dos pactos leoninos assenta em sólida tradição histórica.
o MC: devemos inscrever a proibição do pacto leonino nos traços gerais do
ordenamento jurídico44.
o Estes envolvem um misto de renúncia antecipada aos direitos e de doação do
que (ainda) não se tem. Se alguém quiser dar lucros ou arcar com prejuízos, só
poderá fazê-lo na altura concreta em que ocorram e com eficácia limitada aos
valores efetivo em jogo.
o Doutrina tem entendido que um contrato de sociedade com um pacto leonino
deve ser reduzido (art. 292º CC). MC discorda: o negócio é uno e distorcido em
toda a sua conceção, podendo apenas ser salvo por conversão (art. 293º CC)

Distribuição de lucros de balanço: em regra sócios não têm um direito propriamente dito ao
lucro de balanço ou total (balizado no art. 32º).

44
Atendendo aos art. 809º, 812º/1, 863º/1, 942º/1, 947º/2 CC

73
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

• Têm é direito de exigir que anualmente a administração lhes apresente um relatório do


gestão (art. 65º/1/5) contendo também uma proposta de aplicação de resultados (art.
66º/5/f) e de deliberar sobre tal aplicação (art. 189º/3, 246º/1/e, 376º/1/b).
• Limites dos art. 341º/2, 342º + 217º/1 + 294º.
• Adotada uma deliberação (válida) de distribuição de lucro, ficam os sócios com direito
de crédito relativamente aos quinhões respetivos – deve a sociedade, pelos
administradores, executar a deliberação e satisfazer o crédito.

Distribuição de lucros de exercício: art. 217º e 294º


• Verificando pelo balanço que existe lucro de exercício distribuível, se o estatuto social
não dispuser diferentemente e se os sócios não deliberarem, com maioria qualificada,
distribuir menos de metade, então a sociedade fica obrigada a distribuir aos sócios
metade do lucro de exercício e os sócios têm direito a essa distribuição.
• Os lucros têm de ser distribuíveis.

Distribuição é feita tutelando os credores, à luz do art. 32º/1 – apenas podem ser distribuídos
aos sócios valores que, tecnicamente, se devam considerar como lucros.
• Em princípio, no que a situação líquida ultrapasse o capital e as reservas não
distribuíveis, há “lucro”.
• Processo de distribuição dos bens (art. 31º) é coerente com o sistema.
• Lucros e Reservas não distribuíveis – art. 33º

Ana Perestrelo de Oliveira


Importa ponderar o problema da saída dos bens da sociedade a favor dos sócios, seja a título de
lucros ou qualquer outro.
De recordar que o capital subscrito pelos sócios se encontra disponível para a atividade
económica da empresa mas que não pode ser restituído aos acionistas a não ser que estejam
salvaguardados os direitos dos credores ou em cado de liquidação, depois de todos os credores
terem sido satisfeitos.

Distribuição de lucros e outros bens aos sócios constitui dois níveis de preocupações:
1. Proteção dos credores – que contam com o património da sociedade para a satisfação dos
seus créditos
2. Proteção dos sócios – que têm exigências de igualdade entre eles e o art- 22º dispõe,
supletivamente, a distribuição dos lucros na proporção das respetivas participações sociais, não
podendo tal ser afetado por distribuições indiretas.
• Processo de distribuição de lucros aos sócios assenta num processo que começa pela
determinação do lucro distribuível a partir dos documentos contabilísticos da sociedade
(art. 65º, 66º e etc.).
• Materialmente, a distribuição de lucros aos sócios – dividendos, uma vez distribuídos –
está sujeita a limites máximos (art. 32º e 33º) e mínimos (art. 217º e 294º).

Limites Máximos à Distribuição


Ponto de vista do que não pode ser distribuído
➢ Art. 32º tem nota que abrange tanto a distribuição de bens propriamente ditos como a
distribuição de lucros.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

o Toda e qualquer distribuição que tenha por objeto dinheiro, terá de respeitar a
regra do art. 32º (apesar do Acórdão do STJ de 10/5/2011 não ter assim
considerado).
➢ Como é sublinhado pelo Relatório Rickford, as distribuições aos sócios tipicamente
assumem a forma de dividendos mas podem ter também lugar através da compra ou
amortização de ações próprias.
➢ Devido ao art. 34º/5, é possível que haja distribuição de lucros também em termos
indiretos, o que é contemplado pelo art. 32º.

Critério da possibilidade de distribuição é meramente contabilístico e em caso de violação dos


limites à distribuição, as consequências são: nulidade da deliberação (art. 56º/1/d); não deve
ser executada pelos administradores (art. 32º/2/b); há obrigação de restituição, mas, a
confiança dos sócios de boa fé é protegida, não havendo lugar a repetição (art.34º); há lugar a
eventual responsabilidade civil dos administradores (art. 72º) e responsabilidade penal
(art.514º).

Limites Mínimos à Distribuição


Ponto de vista do que deve ser distribuído
➢ Sociedades comerciais visam o lucro – se bem que a ideia do lucro como fim necessário
da sociedade entra em crise perante a crescente utilização da forma societária como
simples estrutura idónea para o desenvolvimento de um conjunto de atividades, sejam
elas lucrativas ou não.
o Sociedade torna-se numa estrutura empresarial disponível para ser utilizada em
diferentes contextos e com diferentes objetivos, não necessariamente
lucrativos (MC diz até que nada impede que uma sociedade tenha uma função
puramente benemérita).

A natureza societária do contrato, estabelecido nos termos do art. 980º (que tem presente
uma lógica de repartição dos lucros entre sócios), não se descaracteriza quando não é visado
o lucro ou a sua distribuição pelos sócios
➢ Visão contratualista do fim social – sócios, ao abrigo da autonomia privada, devem
poder fixar o fim das sociedades que fundam. O que não pode é a sociedade ser
constituída para prosseguir o lucro e, e forma imprevista, abandonar esse propósito.

Não há razão para se interpretar restritivamente a referência dos art. 217º e 294º quanto à
cláusula contratual derrogatória da obrigação de distribuição dos lucros.
• Assenta numa petição de princípio a posição segundo a qual a atividade da sociedade
terá de ser lucrativa e o lucro apurado distribuído aos sócios, i.e., ao lucro objetivo
acresceria necessariamente o lucro subjetivo, de tal maneira que a cláusula estatuária
em contrário, referida nos art. 217º e 294º, deveria ser objeto de entendimento
restritivo.
= Cassiano dos Santos

Existindo lucro, o sócio vê automaticamente constituído na sua esfera jurídica um direito de


crédito relativo à sua quota-parte nos lucros?
Não, tem de haver sempre deliberação social para que se constitua, na esfera jurídica do sócio
o direto aos dividendos.

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• Mas se não tiver havido aprovação de contas, é indiscutível que não se formou ainda
qualquer direito aos dividendos, há que não se verificou o apuramento dos lucros para
os efeitos legais.
• Se tiver havido aprovação de contas mas o art. 217º/294º foi violado pela deliberação
de aplicação de resultados – deliberação anulável mas tendo em conta o art. 58º/1/a

Distribuição Antecipada de Lucros


Ao lado da distribuição ordinária de lucros – deliberada pela assembleia geral (art. 31º) mediante
proposta da administração e constante do relatório de gestão (art. 66º/5/f), apresentado após
encerramento do exercício económico, nos prazos do art. 65º/5 – a lei prevê também a
distribuição antecipada de lucros, ou seja, na pendência do exercício económico (art. 297º),
decidida pelo órgão de administração, mediante parecer prévio do órgão de fiscalização e sujeita
a uma série de exigências.
• Prevista para as SA mas nada na lei define que é exclusivo para estas, admitindo-se
também para as Sociedades por Quotas.
• É possível aditamentos quando o contrato de sociedade nada disser a este respeito?
o Fica excluída distribuição decidida pelo órgão de administração, mas, esta
decisão pode ser tomada em assembleia geral.
o Sócios têm que votar unanimemente (sendo uma modificação informal
unânime do contrato).
o Mesmo que não seja unânime, é válido desde que a deliberação social respeite
os requisitos dos art. 32º e 33º.

PERDAS
Perdas Sociais são decréscimos ou quebras no património da sociedade.
• De balanço: diferença negativa, registada em balanço, entre o valor do património social
líquido e o valor do capital social e reservas indisponíveis.
• De exercício: diferença para menos do valor do património social líquido no final do
exercício relativamente ao que se verificava no início desse mesmo período.
• Final ou de liquidação: perda que se traduz na diferença negativa entre património
social líquido no termo da liquidação da sociedade e o capital social.

Obrigação de Quinhoar nas Perdas


Art. 20º/b + 22º/3
Significa que todo o sócio corre o risco de perder (total ou parcialmente) o investimento feito
como contrapartida da aquisição da participação social

Januário: como é que a obrigação de quinhoar as perdas, do art. 20º/d, se relaciona com o tipo?
• Previsão tem sentido específico e é diferente consoante o tipo, tendo de ser articulado
com o regime da dissolução e liquidação.
• Art. 20º/b – quinhoar nas perdas não pode ser igual para os diferentes tipos. Temos de
articular esta disposição com os regimes específicos dos tipos.
• Quinhoar nas perdas significa suportar a perda da entrada, no momento da extinção.

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Art. 20º/b, in fine – deve ser lida conforme o art. 178º.


• Na caracterização do tipo, o art. 175º/1, define quanto à conformação da
responsabilidade dos sócios perante os credores.
• Art. 178º/2

Reservas
Reserva Societária é a cifra representativa de valores patrimoniais da sociedade, derivados
normalmente de lucros que os sócios não podem ou não querem distribuir, que serve
principalmente para cobrir eventuais perdas sociais e para autofinanciamento.

Normalmente derivam de parte de lucros – que não podem ser distribuídos aos sócios (reservas
legais e estatutárias) ou que estes deliberam não distribuir (reservas facultativas ou livres).
Art. 296º - qualquer reserva é utilizável para cobrir prejuízos, porque impede a saída de bens
sociais da sociedade para os sócios, promovendo a utilização de meios próprios no
desenvolvimento da sociedade, sendo formas de autofinanciamento.

RESERVA LEGAL (ART. 218º, 295º)


Sociedades por quotas e anónimas devem constituir Reserva Legal.
• Só pode ter as aplicações discriminadas no art. 296º
• As reservas equiparadas à reserva legal têm a destinação desta – art. 296º/2
• São nulas as deliberações dos sócios violadoras dos preceitos dos art. 295º e 296º - isto
resulta do art. 56º/1/d ou art. 69º/3

RESERVAS ESTATUTÁRIAS
No estatuto social (originário ou alterado), podem os sócios estabelecer que certa percentagem
dos lucros de exercício será afetada a uma reserva.
• Podem, ou não, indicar-se as aplicações possíveis.
o Todavia, o facto de uma reserva ter uma destinação específica não impede que
ela seja aplicada na cobertura de perdas (art. 296º/a, b).
• Deliberações que desrespeitem são anuláveis (art.58º/1/a, in fine), mas, são nulas as
deliberações de distribuição de bens sociais que desrespeitem a intangibilidade da
reserva estatutária, a sua constituição ou reconstituição (art. 32º, 33º/1, 56º/1/d).

RESERVAS LIVRES
Constituídas por deliberação dos sócios, respeitando as balizas dos art. 217º e 294º, que afetam
a estas reservas a totalidade ou parte dos lucros de exercício distribuíveis.

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DELIBERAÇÕES SOCIAIS
Deliberação dos Sócios (de acordo com o direito à participação do art. 21º) – tratamento
normativo das próprias deliberações

Pensamos na Assembleia Geral – mas na dinâmica da Sociedade não são as únicas deliberações
possíveis e podem haver deliberações, com especificidades próprias de outros órgãos.

Art. 53º e ss. CSC – Deliberações dos Sócios


Tomada de posição de um órgão social, não de um conjunto de sócios.
➢ O art. 53º diz respeito às deliberações sociais, dos sócios reunidos em Assembleia Geral.

Deliberação é uma proposição imputada à decisão de um conjunto de pessoas singulares ou


seres humanos.
• Assenta em pressupostos de legitimidade e assume, ela própria, uma dimensão
legitimadora.
• É a decisão de um órgão coletivo sobre uma proposta.

Deliberação é uma manifestação de vontade da pessoa coletiva – essa “vontade” resulta de


um esquema abstrato em conjunto com normas jurídicas que permite imputar à pessoa coletiva
uma proposição tomada por vontades humanas.
➢ Para efeitos de deliberação, cada participante nesse órgão tem um (ou mais) votos –
sendo o voto, tecnicamente, a recusa ou a aceitação de uma proposta de deliberação.

Na deliberação articulam-se diversa vontades humanas, tende de haver uma construção


dogmática em torno desta figura.
➢ Sofreu evolução ao longo do tempo noutros ordenamentos jurídicos e foi recebida em
Portugal como tendo um conteúdo unitário e vinculativo e à qual se poderão aplicar as
regras dos negócios jurídicos.
o Pinto Furtado: deliberação integra um ato colegial e não um negócio
o Coutinho de Abreu: por vezes as deliberações não têm substância jurídica (ex:
votos de louvor ou de pesar), não sendo aí negócios jurídicos.
o MC: no âmbito dos negócios a deliberação ocupa um lugar próprio, com um
regime específico. Sendo um negócio deliberativo, ou simplesmente, uma
deliberação.
o Januário: tende a radicar-se a tese de que estamos perante Negócio Jurídico,
onde se encontram requisitos como a liberdade de estipulação e celebração.
o

Januário: Numa sociedade unipessoal parece estranho falar-se de deliberação por unanimidade
e por escrito. Mas é o que acontece porque o paradigma é a pluralidade de sócios.
➢ Nas sociedades pluripessoais, a AG congrega a vontade de todos os sócios.
➢ Direito dos sócios, de participar, pelo art. 21º CSC.

CSC adota a terminologia de “Deliberações dos Sócios” pois os sócios podem deliberar não só em
assembleia mas também, em alguns casos, em reunião.
➢ Os sócios votam, emitindo assim declarações de vontade, mas a deliberação é imputável
à sociedade.

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➢ A deliberação não deixa de ser uma “deliberação social” pelo facto de os sócios se
reunirem e votarem sem ser em assembleia.

Art. 53º/1 – Princípio da Tipicidade das Deliberações


Parece impor uma regra de tipicidade, no tocante às “formas” de deliberações dos sócios – só
podendo ser tomadas por algum dos modos admitidos por lei para cada tipo de sociedade.
• Lei esclarece que os órgãos sociais estão sujeitos ao princípio da tipicidade: não
podendo os sócios “deliberar” fora dos figurinos orgânicos previstos para cada tipo de
sociedade.
• Quanto à forma, em sentido técnico, mantém-se a regra de liberdade do Direito privado.
o Se os estatutos nada disserem, a forma da deliberação será fixada por
deliberação dos sócios ou por decisão do presidente de mesa da assembleia
(art. 384º/8).

Órgão da sociedade manifesta a sua vontade, através do negócio jurídico Deliberação e as


coisas funcionam a nível corporativo conforme as competências estão distribuídas
internamente.
➢ Em matéria corporativa, o negócio deliberação é que tem eficácia para a vida da
sociedade.

A deliberação social implica uma coordenação entre as distintas pessoas que nela possam
participar – tem de haver procedimento prévio a seguir.
➢ Tem de existir um conjunto de atos concatenados para obter-se um fim (a própria
deliberação).
➢ Tomando a deliberação das sociedades anónimas temos o seguinte quadro:
convocatória cabal, reunião da assembleia, uma ou mais propostas, um debate, uma
votação, elaboração da ata.

Do art. 54º/1 resultam dois grandes tipos de procedimento, para efeitos de deliberação social:
1. Deliberação em Assembleia – que tem de ser interpretada de forma atualista enquadrando,
se os estatutos preverem, reuniões telefónicas, por teleconferência e etc. Há uma assembleia
quando entra as diversas manifestações de vontade não haja um lapso de tempo juridicamente
relevante.
➢ Assembleias Universais: dispensa o esquema das convocatórias e só pode deliberar
sobre assuntos que todos os sócios tenham concordado por à apreciação do coletivo
societário (art. 54º/2).
o Depois de montada e em funcionamento, com o acordo de todos quanto á
ordem do dia, pode funcionar por simples maioria nos termos gerais.
o Nas Assembleias Universais não tem de haver unanimidade – não há
formalidades prévia (convocatória e etc.) e todos se reúnem e mostram a
vontade, conferindo assim a vontade da sociedade (através da deliberação).
o Mecanismo eficaz e operacional nas sociedades de pequena/média dimensão.
o Uma vez mostrada a vontade de deliberar, funcionam as regras da Assembleia
em função do tipo – art. 54º/2
➢ Assembleias comuns: quanto ao presencial tem de se ler atualisticamente e pela
internet através de videoconferência pode se considerar como presencial.

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2. Deliberação por Escrito – sócios prescindem da troca de opiniões e argumentos e vão-se


emitindo vontades em separado ocorrendo lapsos de tempo relevantes entre elas.
Deliberações Por Escrito é diferente da DUPE
➢ Deliberações unânimes por escrito (DUPE): prescinde-se da troca de opiniões e há
apenas texto que circula pelos sócios e em que aderem à posição. Exige-se unanimidade
pois ninguém pode ser despojado do direito de argumentar e de colocar questões, logo,
terão de prescindir livremente desses direitos, consubstanciando-se tal numa
aprovação por unanimidade da deliberação que daqui resultar.

Ata – art. 63º


Ata não é instrumento privativo das Assembleias Gerais mas é documento necessário para a
completude da formação da vontade de um órgão.

Coutinho de Abreu: Registo em documento escrito das deliberações tomadas pelos sócios em
assembleia ou por voto escrito, e ainda de outros dados do respetivo procedimento
deliberativo.
➢ Documento de onde consta o relato, mais ou menos pormenorizado, do decurso de uma
reunião.
➢ Tratando-se de deliberações dos sócios a ata reportar-se-á à Assembleia.

Apesar do art. 63º/1 CSC, as atas não dizem somente respeito às deliberações tomadas em
Assembleia e podem corresponder também às deliberações por voto escrito (art. 247º/6;
59º/2/b).
➢ Somente as deliberações unânimes por escrito não têm de ser exaradas em ata (apenas
a elas se aplica o “por escrito” do art. 63º/1/2ª parte).

SA: assinada pelo presidente de mesa da assembleia e secretário (ou secretário da sociedade)
(art. 388º/2; 446º-B/1/b).
Sociedades por Quotas + SNC: assinada por todos os sócios (ou seus representantes) que
tenham participado na respetiva assembleia. Quanto ao voto escrito, são assinadas pelo gerente
que a redigiu.

Art. 63º/2 – conteúdo mínimo da ata


➢ MC: as atas costumam ir mais longe e referir as intervenções dos diversos sócios,
fazendo uma súmula das mesmas

Art. 63º/3 – tem de ser um documento escrito, a mera gravação não vale como ata.
➢ Exigência de notificação judicial do art. 63º/3 tem sido muito criticada pela sua
inutilidade pois poderia bastar esperar os 8 dias e verificar se o sócio faltoso assina ou
não.

Art. 63º/4/1ª parte – atas devem ser lavradas no “respetivo livro”. Podem ser folhas soltas
datilografadas e depois encadernadas (art. 63º/5 e 6).

Deve haver uma ata por reunião: art. 388º/1


➢ No caso das S.A., não seria praticável a assinatura de todos os sócios da assembleia (art.
63º/3/1ª parte) – solução no art. 388º/2

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Ata tem uma função probatória forte e é um meio exclusivo de prova – só vale o que constar
do documento.
➢ O art. 63º/1 retoma uma jurisprudência tradicionalista, que retirava a eficácia às
deliberações não reduzidas a atas.

Se não houver, de todo, ata, a deliberação está incompleta


➢ Embora a fase da manifestação da vontade social se baste com a votação e o seu
apuramento, ela tem de ser formalizada e exteriorizada, entrando aí o papel da ata.
o Ata tem função probatória forte e é formalidade ad probatione que completa o
processo formativo da vontade do órgão.

Natureza
Ata visa completar a deliberação; trata-se de uma formalidade ad probationem (condiciona a
prova da deliberação); na sua falta a deliberação não é eficaz; pode ser afasta por falsidade sem
que, para o efeito, o Direito limite os meios de prova.
➢ Por razões de segurança jurídica, a ata é meio exclusivo de prova – sentido da
deliberação só pode ser provado através da ata.

Há casos em que se dispensa a ata: art. 59º/4 (remissão para o art. 63º/3)
➢ Não se bloqueia a ação de anulação por falta de ata, mas esta mantém o seu poder
probatório fazendo o processo aguardar.
➢ Não sendo exibida ou faltando, juiz conclui que não houve deliberação e decreta-o.

A ata registada goza ainda da proteção conferida pelo registo comercial: positiva e negativa.

Uma deliberação efetivamente tomada mas não documentada em ata (porque esta não foi lavrada
ou, tendo-o sido, não faz menção à deliberação) sofre por isso em termos de validade ou
ineficácia?
Coutinho de Abreu: uma deliberação adotada pelos sócios em forma apropriada é, apesar da
falta de ata, de facto, juridicamente existente.
• A ata é a forma de expressão da vontade deliberativa, não sendo forma nem
formalidade ad substantiam, por isso não é nula a deliberação sem ata.
• A falta de ata não inquina o conteúdo da deliberação e também não vicia o
procedimento deliberativo.
• A ata não é condição de eficácia da deliberação.
• Acarreta consequências negativas, mas diferente da ineficácia das deliberações.
• Função das ata é certificativa, atestando o que mais releva da atividade deliberativa,
promovendo assim maior segurança no funcionamento societário e informação mais
certa dos sócios.
• A ata é meio de prova, não condição de eficácia das deliberações.

Ineficácia e Invalidades
Invalidade das deliberações sociais é um tema de ineficácia de atos jurídicos.
➢ As deliberações podem ser inválidas (nulas ou anuláveis) mas também ineficazes (em
sentido estrito – art. 55º).

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O que o CSC não prevê são deliberações juridicamente inexistentes. Há lugar para elas?
• SIM: quando os factos não correspondam a qualquer forma de deliberação dos sócios (ex:
decisões de trabalhadores são invocadas pela administração como deliberações sociais)
e/ou quando os factos não correspondem à forma de deliberação invocada (ex: há ata de
assembleia geral que fez x, y, z mas essa assembleia nunca existiu).
o Estas deliberações não produzem quaisquer efeitos – nem sequer efeitos laterais
ou secundários (como os produzíveis por deliberações nulas ou anuladas: art.
61º/2 e 62º).
o A inexistência pode ser invocada a todo o tempo por qualquer pessoa, não
carecendo de declaração judicial.

A introdução de uma doutrina da invalidade no domínio das deliberações sociais foi complexa e
demorada, sendo que os Códigos Comerciais de primeira geração nada diziam sobre o assunto.

A invalidação de uma deliberação social põe em crise as deliberações conexas e os atos


jurídicos dela dependentes – incerteza jurídica que levava a que as primeiras leis apenas
consagrassem a anulabilidade.

Quadro das Ineficácias


• Vícios Formais – a deliberação, em si, é possível mas não foi respeitado o processo
previsto para a sua emissão45. Ex: art. 56º/1/a, b
• Vícios Substanciais – procedimento prescrito foi seguido, mas a própria deliberação
defronta a lei ou os estatutos.

Consequências:
• Deliberações Aparentes – deliberações que sejam levada ao registo comercial e na base
das quais certos terceiros tenham adquirido direitos, de boa-fé.
o Mesmo quando não correspondam a qualquer materialidade, elas produzirão
efeitos, de acordo com as regras do registo.

Deliberações Ineficazes – art. 55º


Não produzem efeitos até certa eventualidade
➢ MC: Aquelas que, por razões extrínsecas, não produzam efeitos ou, pelo menos, todos
os efeitos que se destinariam a comportar.

Regra absoluta e total – faltando o consentimento de sócio(s) exigido por lei, as deliberações não
produzem, perante todos (sócios ou não), qualquer dos efeitos a que tendiam.
➢ Esse consentimento pode ser dado nas respetivas deliberações (mediante a emissão de
votos positivos) ou fora delas.
➢ Consentimento não tem de ser de determinado sócio (art. 55º).
o Pode ter de ser de sócios determinados (ou determináveis) – sendo suficiente o
não consentimento de um deles para a ineficácia; e pode em alguns casos ser
um consentimento formado colegial-maioritariamente (art. 24º/6)

45
Vício que afeta o iter deliberativo e não diz respeito ao objeto/matéria da deliberação

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Ex: deliberações que coartam direitos especiais dos sócios (art. 24º/5, 6); deliberações de
transformação da sociedade (art. 133º/2, 136º/1); deliberações de alteração dos estatutos da
sociedade por quotas (art. 221º/7) e etc.

CSC prevê outras hipóteses de ineficácia das deliberações, igualmente por falta de
consentimento de “determinado sócio” exigido por lei – mas essa ineficácia não é absoluta e
tão-só relativa ao sócio ou sócios que não prestem o consentimento.
➢ Ex: art. 86º/2; deliberação de efetuar suprimentos (é eficaz para os sócios que a votem
favoravelmente e assumam a obrigação, é ineficaz para os sócios que não votem
positivamente – art. 244º/2)

Deliberações ineficazes não produzem os efeitos a que tendiam.

Não obstante, pode suceder que órgãos societários (indevidamente) atuem em conformidade
com elas.
➢ Justifica-se então a admissibilidade de ações de simples apreciação com o fim de obter
a declaração judicial de ineficácia das deliberações.
➢ Aplica-se analogicamente art. 57º
➢ Ações propostas contra a sociedade (analogicamente, art. 60º)

Deliberações Nulas – art. 56º


Existe sendo declarada pelo tribunal, a pedido de qualquer interessado.
➢ Têm um vício em si que as afeta.

Só ocorre nos casos previstos na lei – são casos taxativos que abrangem situações de grande
amplitude.
➢ MC: portanto não é viável considerar aqui uma verdadeira tipicidade taxativa.

Atende-se à espécie do vício que enferma a deliberação e à natureza do normativo ofendido. Os


vícios relevantes aqui são os de
• procedimento (relativos ao modo ou processo pelo qual se formou a deliberação, i.e.,
ao “como” se decidiu);
• conteúdo (atinentes à regulamentação ou disciplina estabelecida pela deliberação, i.e.,
ao “que” foi decidido).

Quanto ao normativo desrespeitado (pelo procedimento ou pelo conteúdo da deliberação),


relevam, por um lado, as normas e princípios legais, bem como o seu caráter imperativo ou não,
e, por outro lado, as normas estatutárias.

Em regra, só a violação de normas legais imperativas pelo conteúdo das deliberações provoca a
nulidade destas (art. 56º/1/d).
➢ Tais normas fixam regime não derrogável pelos sócios. Isto porque tutelam interesses
outros que não os dos sócios, ou interesses destes não disponíveis por eles.

Quanto à violação de normas legais imperativas pelo procedimento deliberativo, só vale a


nulidade nos casos do art. 56º/1/a, b. Geralmente, os vícios de procedimento causam não a
nulidade, mas, em princípio, anulabilidade (art. 58º/1/a, c).

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Deliberações Nulas por Vícios de Procedimento


Art. 56º/1/a + 56º/2
Não foram observadas formalidades essenciais
A falta de convocação é um vício muito grave, na medida em que afasta sócios do exercício de
direitos fundamentais da socialidade, como direito de participar nas deliberações e obter
informações sobre a vida da sociedade.
➢ MC: Mesmo se determinado sócio tivesse sido convocado e tal não alterasse o sentido
da deliberação a deliberação era nula, devido à necessidade de respeitar um ritual
legitimador, sem o qual todo o edifício societário ficaria descaracterizado.

Considera-se como não convocada, a Assembleia realizada sem a presença de um ou mais sócios
que não foram convocados (ou seja, só alguns foram convocados).
➢ Também não se consideram convocadas as do art. 56º/2

Esta nulidade é atípica pois o vício da falta de convocação pode ser sanado posteriormente por
vontade de todos os sócios que não participaram nas deliberações – art. 56º/3 permite a
convalidação.

A deliberação não é nula se, mesmo tomada em assembleia geral não convocada, todos os
sócios ou seus representantes estiveram presentes (art. 56º/1/a, 2º parte)
➢ Mesmo que nem todos os sócios dessem o seu consentimento para a formação da
assembleia e sua deliberação, todos os sócios compareceram, o que significa que a
finalidade da convocatória foi conseguida e a deliberação não é nula.
➢ No entanto, não respeitou um dos requisitos da assembleia universal pelo que pode ser
anulável (art. 58º/1/a)

Se todos os sócios se reúnem e acordam em que a assembleia se constitua e delibere sobre


determinado assunto, temos uma assembleia universal que pode deliberar validamente nos
termos aplicáveis às assembleias (bem) convocadas – art. 54º
➢ Não basta somente a presença real ou virtual de todos quantos têm de participar.
o É ainda necessário que todos eles manifestem vontade de que a Assembleia se
constitua e delibere sobre determinado assunto – essa manifestação de
vontade tem de ser de todos eles (mesmo aqueles que não têm direito de votar
na assembleia, têm o direito de, antes da assembleia, aceitar ou não que ela se
constitua para deliberar sobre certos assuntos).

Esta deliberação é também renovável por outra deliberação que pode ter eficácia retroativa (art.
62º/1).

Art. 56º/1/b
Em geral permitidas nas Sociedades por Quotas, cujo artigo explicita o procedimento: art. 247º
CSC

As deliberações por escrito são afetadas quando nem todos os sócios foram convidados a votar
por escrito, pois é o que melhor se encaixa neste artigo e do paralelismo desta alínea b com a
alínea a.

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Nulidade atípica e sanável pelo art. 56º/3

Não há nulidade quando, apesar de um ou mais sócios não terem sido convidados46 a exercer o
direito de votar por escrito, afinal também eles (informalmente informados da votação) deram
por escrito o seu voto.

Deliberações Nulas por Vícios de Conteúdo/Substância


Vícios não sanáveis – haverá que repetir a deliberação sem o vício de conteúdo que a aflija

Art. 56º/1/c – Deliberações cujo conteúdo não esteja, por natureza, sujeito a deliberações dos
sócios
CA: enigma sem chave

Que deliberações poderão ter conteúdo que não esteja, por natureza, sujeito a deliberação dos
sócios?
• Incompetência: teoria tradicional que invalida os atos estranhos à competência da
Assembleia Geral, ainda que interfira com terceiros (Lobo Xavier, Carneiro da Frada, Raúl
Ventura, Pedro Maia).
• Impossibilidade: teoria que postula que a mera inobservância de regras internas de
competência não poderia ser tão grave que justifique a nulidade (Pinto Furtado).
Doutrina alemã avança que esta é norma residual destinada a acolher situações nas quais
a deliberação não possa subsistir mas em que não se reconduz a outros fundamentos.
o MC: esta teoria cinde as impossibilidades (física – c); legal – d)); causa embaraços
com a figura da impossibilidade superveniente. Uma deliberação cujo conteúdo
não esteja, por natureza, sujeito a deliberação dos sócios não pode ser uma
deliberação de conteúdo fisicamente impossível.

Muitas das propostas de densificação do preceito são explicadas por outros:


1. Deliberações de objeto física ou legalmente impossível são nulas pelo art. 56º/1/d – o
seu conteúdo é ofensivo do preceito legal imperativo do art. 280º CC
2. Deliberações sobre assunto fora da capacidade jurídica da sociedade são nulas pelo art.
56º/1/d – o seu conteúdo é ofensivo do preceito legal imperativo do art. 6º CSC7
3. Deliberações sobre supressão ou modificação (unilateral) de direitos de terceiros são
nulas pelo art. 56º/1/d – o seu conteúdo é ofensivo do preceito legal imperativo do art.
406º CSC e art. 863º/1 CC
4. Deliberações sobre regras legais de atribuições de competências aos órgãos da
sociedade são nulas pelo art. 56º/1/d – o seu conteúdo é ofensivo de preceitos legais
imperativos

Coutinho de Abreu: Esta disposição é supérflua.

Art. 56º/1/d – Deliberações contrárias a preceitos legais imperativos


A imperatividade das normas é compreendida através da interpretação da mesma.
➢ A tarefa é facilitada quando a lei marcar o caráter dispositivo da norma – não sendo,
portanto, enunciado normativo imperativo.

46
Têm que atender ao que está na lei: formalidade ad substantiam

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Algumas normas imperativas:

Art. 56º/1/d, 1ª parte – Deliberações ofensivas dos bons costumes


MC: bons costumes abrangem regras de conduta familiar e sexual e, ainda, códigos
deontológicos próprios de certos setores
➢ Janu: entendimento MC sobre Bons Costumes é demasiado limitado. Tem de ser mais
amplo e não é só de moral sexual e relacionado com a família. Tem margem de
potenciação maior do que a que aponta MC.

Coutinho de Abreu: O conceito de bons costumes é fluido e a sua interpretação varia consoante
o espaço e o tempo. E, num determinado espaço e tempo, é tarefa complicada delimitar as
regras de conduta aceites como boas pela consciência geral dominante.

O artigo não se basta com os motivos ou fins da deliberação serem contrários aos bons
costumes, o próprio conteúdo da deliberação tem de o ser.
Ex: contratação de prostitutas para acompanharem clientes fora das instalações da sede é
contra os bons costumes; não é contra os bons costumes a deliberação que autorize
arrendamento de apartamento (também) para colocar as tais prostitutas pois o conteúdo da
deliberação é só arrendamento do apartamento.

Jurisprudência portuguesa tem densificado este conceito de forma criticável pois muitas das
decisões em que lançam mão deste conceito podem ser apreciadas à luz de outros preceitos
onde melhor se enquadram.

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Art. 56º/1/d, 2ª parte - Deliberações sociais contrárias a normas legais imperativas


MC: uma regra societária é imperativa quando: integra a ordem pública; concretize princípios
injuntivos; institua ou defenda posições de terceiros.
Jurisprudência confirma estas asserções mas recorre, em alguns casos, a outras terminologias.

Pode ser por “atos de outros órgãos que determine ou permitam” – a deliberação que determine
ou permita que outro órgão atente contra os bons costumes ou viole normas injuntivas é
diretamente nula.
➢ Quando um contrato de sociedade reproduza, particularmente nos estatutos, regras
legais injuntivas, a violação de tais regras leva a consequência de se aplicar a nulidade e
não a anulabilidade (art. 58º/2).

Ação de Declaração de Nulidade (art. 57º)


Nem todo o regime da ação de nulidade está neste artigo – o art. 57º prevê somente algumas
especialidades.
➢ À nulidade das deliberações, enquanto negócios jurídicos, é aplicável o regime comum
dos negócios jurídicos nulos.

Faculta a iniciativa de pedir a declaração de nulidade ao órgão de fiscalização, sendo do interesse


da própria sociedade e dos seus sócios o não deixar pendentes situações de nulidade que
poderão, depois e em qualquer altura, ser invocadas, com danos para todos.
➢ Entre os “interessados” consideram-se, além dos especialmente mencionados no art.
57º, os administradores das sociedades por ações, qualquer sócios e alguns terceiros
(credores e trabalhadores da sociedade quando esteja em causa deliberação de
distribuição de lucros fictícios ou destituição sem justa causa e etc.)

Conjuga-se com o regime do art. 61º

Deliberações Anuláveis – art. 58º


Opção de princípio que violação da lei gera anulabilidade e não nulidade é devido ao favor
societas
➢ Traduz um direito potestativo na esfera de determinados interessados – é atuada pelo
tribunal, quando devidamente instada.

Regra no Direito das Sociedades, cabendo sempre que a lei não determinar a nulidade (art.
58º/1/a).
➢ Relação com a nulidade é resolvida através da consumpção desta: quando ocorra,
prevalece a nulidade.

Art. 58º/1/a – Deliberações Ilegais


Anulabilidade por Violação de Lei (não geradora de Nulidade)

Move-se entre dois valores aparentemente contraditórios: necessidade de segurança jurídica


(que leva a restringir quanto possível a invalidade das deliberações sociais) e a justiça (que
permite aos sócios vítimas de ilegalidades perpetradas pela Assembleia Geral fazer valer as suas
posições).

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Só haverá anulabilidade quando a falha verificada possa influenciar o sentido da deliberação.


Ex: convocação sem antecedência suficiente, sócio minoritário impedido de participar e etc.

Acontece quando as normas são dispositivas ou supletivas – significando que pode ser afastada
pelo contrato de sociedade, não por mera deliberação dos sócios (art. 9º/3).
➢ Quando a norma pode ser afastada por unanimidade dos sócios (como resulta do art.
56º/1/d, 2º parte) há supletividade, sendo uma deliberação impugnável, não nula.

Referência a lei deve ser entendida em termos amplos: violação do Direito (inclui princípios,
costume e etc.)

Quando a “violação” do contrato de sociedade é decidida por unanimidade, nenhum dos sócios
a poderá impugnar, devendo-se então entender que o órgão de fiscalização também não o pode
fazer.
• Deve entender-se que houve uma modificação informal dos estatutos pela unanimidade
dos sócios.
• Só não é assim quando nos depararmos com uma norma imperativa (em que funciona
a nulidade).

Deliberações que CONTRARIAM O DISPOSTO NA LEI MAS QUE NÃO SÃO NULAS.
➢ Aqui enquadra-se as deliberações não precedida por elementos mínimos de informação
(art. 58º/1/c + 58º/4).

Importa atender aos:


1) Vícios de Procedimento
➢ Com exceção do art. 56º/1/a, b e 56º/2, os vícios do procedimento deliberativo
provocam, em princípio, a anulabilidade das respetivas deliberações.

Exemplos:

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Nos vícios de procedimento há vícios irrelevantes para efeitos de anulação das deliberações.
Vícios irrelevantes são, por exemplo, a contagem indevida de votos, a falta de registo das cartas
pelas quais são convocados os sócios e etc.

Os vícios de procedimento relevantes, e que levam à anulação, são os que determinam um


apuramento irregular ou inexato do resultado da votação e, consequentemente, uma
deliberação não correspondente à maioria de votos exigida, quer os ocorridos antes ou no
decurso da assembleia que ofendem de modo essencial o direito de participação livre e
informada de sócios nas deliberações..

2) Vícios de Conteúdo
Estão em causa preceitos legais dispositivos, mas não todos.
➢ Os preceitos legais dispositivos podem ser derrogados pelo estatuto social ou, quando
este ou a lei permitam, por deliberação dos sócios.
o Portanto só quando falte essa permissão são anuláveis as deliberações cujo
conteúdo seja ofensivo de normas legais dispositivas.

Também se aplica a princípios jurídicos com força equivalente ao das leis – nomeadamente os
princípios da igualdade e da atuação compatível com o interesse social (ou da lealdade).
• Pode ser o caso da violação do princípio da igualdade de tratamento dos sócios quando
dela resulta um tratamento desigual sem justificação objetiva.
o Este princípio não é imperativo pois o estatuto social pode consagrar direitos
especiais e etc.
• O dever de lealdade dos sócios impõe que cada um deles não atue de modo
incompatível com o interesse social ou com interesses de outros sócios relacionados
com a sociedade.

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o Deliberação que resulte a violação de tal dever é anulável

Art. 58º/1/a, in fine – Deliberações anti-estatutárias

Art. 58º/1/b – Deliberações Abusivas


Deriva da lei alemã e vem em linha de conta com a lei anterior ao CSC que permitia que
se invalidassem as deliberações sociais por abuso do direito.

Quando, sem violar disposições específicas da lei ou do estatuto de sociedade, e apropriada para
satisfazer o propósito de sócios conseguirem vantagens especiais para si ou para outrem em
prejuízo da sociedade ou de outros sócios, ou com o propósito de prejudicarem aquela ou
estes, salvo se se provar que a mesma deliberação teria sido adotada sem os votos abusivos.47

Decompõe-se em:
1) propósito de um dos sócios conseguir,
2) através do exercício do direito de voto,
3) vantagens especiais para si ou para terceiros,
4) em prejuízo da sociedade. Isto
5) menos que se prove que as deliberações seriam tomadas mesmo sem os votos
abusivos.

Duas espécies
i. As apropriadas para satisfazer o propósito de alcançar vantagens especiais em prejuízo da
sociedade ou de sócios;
➢ Propósito de alcançar vantagens especiais = proveitos patrimoniais
concedidos/possibilitados por deliberações e que aproveitam só a uns e não todos os
sócios.

47
Aqui também se enquadram os votos de natureza emulativa, visando prejudicar a sociedade ou outros
sócios.

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o As vantagens especiais dos votos abusivos traduzem uma atuação fora da


permissão jurídica em jogo, não se tratando de abuso de direito, mas, sim, falta
de direito.
➢ Não é necessário que abarque o prejuízo.

ii. As apropriadas para satisfazer o propósito tão-só de prejudicar a sociedade ou sócios48 –


deliberações emulativas.
➢ Propósito de causar prejuízos, indiferente de vantagens ou desvantagens dos votantes
com propósito emulativo.
➢ Limita-se à inflição de prejuízo.
o Este é um elemento subjetivo e atual (não virtual) que tem de ser provado por
quem impugna a deliberação.
▪ Basta o dolo eventual – bastando provar que, um ou mais sócios, ao
votarem, previram como possível a vantagem especial para si ou para
outrem (ou o prejuízo da sociedade ou de outros sócios) e não
confiaram que tal efeito eventual se não verificaria.

Coutinho de Abreu: dever-se-ia omitir o elemento subjetivo, pois sociedade é mecanismo para
todos os sócios obterem vantagens comuns e se tal mecanismo é utilizado para uns ficarem
especialmente avantajados, há objetivamente uma disfunção.
➢ O juízo do caráter abusivo deveria incidir na deliberação unitária ou globalmente
considerada e não nos votos (e propósitos) de cada um dos sócios.

Art. 58º/3: o preceito não prescreve a responsabilidade de todos os sócios cujos votos
formaram a maioria.
➢ Prescreve a solidariedade entre os votantes em abuso.
o Atendendo ao art. 58º/1/b, distingue-se dos votos da maioria os abusivos e os
não abusivos, pelo que apenas os votantes abusivamente devem ser
responsabilizados.
▪ O emitente de votos não abusivos não pratica factos ilícitos.

Art. 58º/1/c – Anulabilidade por Falta de Informação


Art. 58º/4 vem esclarecer quais são os elementos mínimos de informação de que o sócio tem
de dispor.
➢ MC: em rigor isto tem a ver com a inobservância das normas de processo, caindo no art.
58º/1/a.
o CA: anulabilidade prevista no art. 58º/1/c já resultava do art. 58º/1/a
o A jurisprudência tem entendido que aqui se pode enquadrar situações de
inobservância do direito à informação que não se enquadrem, precisamente, no
art. 58º/1/c e 58º/4 devido a entenderem uma unificação sistemática desta
matéria.

Podem viciar a própria deliberação na medida em que um sócio fica impedido de aceder à plena
informação, que é algo que tem direito enquanto sócio.

48
Questiona-se o disjuntivo sociedade/sócios pois o prejuízo da sociedade é sempre prejuízo, ao menos
indireto, dos sócios. Porém, o dano relevante não é o de todo e qualquer sócio, é dos que não votaram
com propósito emulativo

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➢ No entanto, é vício irrelevante quando a recusa (mesmo que injustificada) de


informações nos casos em que elas não são essenciais para que um sócio razoável possa
participar nas deliberações defendendo os seus legítimos interesses.
Art. 58º/4 não esgota os elementos informativos (mínimos ou não) cuja falta (antes da
assembleia) pode originar a anulabilidade.
➢ Tem de se ter conta os artigos: 94º, 100º/3, 120º, 214º/2, in fine e etc.

Ação de Anulação (art. 59º)


Com situação de anulabilidade e nulidade, como se passam as coisas a nível processual?
Órgão de fiscalização deve promover sem demora a declaração judicial de
nulidade/anulabilidade que impede sobre a deliberação.

Nº1: legitimidade para interpor a ação


• Só se permite a intervenção do órgão de fiscalização quando a deliberação não tenha
sido integralmente adota ou confirmada.
• MC: há erro legislativo e, dogmaticamente, a anulabilidade fica na disponibilidade dos
sócios, não se entendendo a concessão, aos fiscalizadores, de poderes funcionais nesse
domínio.

Previne o venire contra factum proprium pois não permite a impugnação pelo sócio que votou
no sentido da mesma.
➢ Art. 59º/6 ocupa-se dos casos de voto secreto, que se torna impugnável se não tiver
sido, por algum sócio, seguido o apontado procedimento.
Nº2: prazo
• Com a precisão do art. 59º/3
o Se uma deliberação é adotada em certo dia e os trabalhos da assembleia são
concluídos mais de quinze dias depois, o prazo para a ação anulatória conta-se
a partir da data em que a deliberação foi adotada, não da data do encerramento
da assembleia
• Aplica-se o regime da caducidade: art. 298º/2 CC

Proposta ação anulatória por sócio para tal legitimado, mas que depois aliena toda a sua
participação social, pode a ação continuar com ele como autor, ou extingue-se a instância por
superveniente inutilidade da lide (ou superveniente ilegitimidade do mesmo)?
➢ Se ele mantiver interesse não perde legitimidade e a ação pode prosseguir com ele.
➢ O adquirente da participação social pode também substituir o alienante na ação
anulatória.

Nas sociedades que não tenham órgão de fiscalização pode a anulabilidade de deliberação dos
sócios ser arguida pelos gerentes?
➢ Tem-se admitido que sim, apesar do art. 59º não o prever, com base na aplicação
analógica do art. 57º/4

Disposições comuns à Nulidade e à Anulabilidade – art. 60º


são propostas contra a Sociedade
Qualquer sociedade, só por o ser, corre o risco de ser demandada em ações relativas às
deliberações tomadas pelos seus sócios.

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➢ MC: também às ações de ineficácia ou de inexistência de deliberações sociais também


são intentadas contra a sociedade, por interpretação extensiva ou aplicação analógica
do art. 59º/1

Em qualquer caso impugnam-se deliberações e não (simples) votações. O voto, só por si, não
representa nenhuma posição da sociedade e não tem relevância societária quando
desinserido da deliberação que origine.

Estas ações podem ser abusivas quando, nos termos gerais, tal defronta a confiança ou a
materialidade subjacente e se apresentam contrárias à boa-fé.
• Jurisprudência tem vindo a estabelecer um critério, resultante da boa fé, sobre quais as
violações que são relevantes ou não.
• São relevantes aquelas que contribuíram para a formação da vontade do sócio.

Ações Abusivas: autor intenta ação abusando do direito de ação – neste caso os tribunais têm
identificado alguns sócios que gostam demais da litigância.

Eficácia do Caso Julgado – art. 61º


Sentença tem eficácia a favor e contra todos os órgãos e sócios da sociedade.
➢ Janu: pode ler-se que é a favor e contra a sociedade na sua complexidade

Nº1: eficácia interna


Nº2: eficácia externa

Juiz tem de concretizar os seguintes conceitos: própria ação de invalidação ser abusiva; estar em
causa a violação da boa fé; estarem em causa votos abusivos.

Temos um contencioso de legalidade, mas no qual o mérito pode fazer a sua aparição.

Renovação da Deliberação – art. 62º


Permite-se que seja tomada uma segunda deliberação, com o mesmo conteúdo, mas que corrija
o óbice antes verificado.
➢ Pode ter eficácia retroativa se os direitos de terceiro ficarem assegurados.

Não é convalidação ou sanação da primeira deliberação, apenas ocorre uma segunda


deliberação que visa produzir os mesmos efeitos jurídicos da anterior, mas agora sem a
pendencia da invalidação.

Art. 62º/1 não permite renovar no âmbito do art. 56º/1/c, d pois o vício é substantivo – a nova
deliberação para ser válida teria, forçosamente, de ser diferente da anterior.

Art. 62º/2 não distingue vícios procedimentais ou substanciais


➢ Essa indistinção pode ser proveitosa: pode haver vícios substanciais que, em nova
deliberação, não mais possam ser invocados, bastando a aprovação unânime dos sócios.

Renovação – outra deliberação com o mesmo objeto


• Se não tiver vício, tal corresponde a uma sanação com eficácia retroativa – substitui
deliberação anterior por uma nova.

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• O órgão pode escolher se tem mesmo eficácia retroativa ou não. Se atribuir eficácia
retroativa, não pode deixar de acautelar os direitos de terceiro.

Paralisa a hipótese de invocar a nulidade ou a anulabilidade – art. 62º


Apesar da renovação, um sócio pode ter interesse atendível em manter pedido de anulação em
relação à primeira deliberação

Outra manifestação de favor societatis – art. 62º/3


➢ Há prazo adicional para nova possibilidade da sociedade sanear a situação

Suspensão judicial de deliberações sociais – prevenção/providência cautelar (art. 380º e ss. CPC)

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ADMINISTRAÇÃO E FISCALIZAÇÃO
Não faz sentido falar de administração sem saber o que é Governo das Sociedades.
➢ Matéria tão antiga quanto as Sociedades Comerciais, mas, ganhou relevância nos anos
70.

Governo das Sociedades = Corporate Governance


Conceito anglo-americano que postula quadros jurídicos e conceituais quanto à
organização da sociedade e às regras aplicáveis ao funcionamento da sociedade.

Definição do Relatório (inglês) Cadbury (1992): sistema no qual as sociedades são controladas
e geridas (corporate governance is the system by which companies are directed and controlled) 49.

Governo das Sociedades trata de:


• Relações – relações entre diversos sujeitos que integram as Sociedades; sujeitos que
têm interesse no desenvolvimento da sociedade.
• Estruturas – pelas quais a sociedade desenvolve os seus objetivos, escolhendo os meios
para os obter.
o Dimensão institucional de estruturação para desenvolver a sua atividade e
controlo dessa atividade.

Não confundir com o “movimento do governo das sociedades” – esse é um movimento inter-
científico para estudar o sistema em como as sociedades são dirigidas e controladas.
Surgiu nos anos 70.
➢ Financiamento ilegal de campanhas políticas e corrupção (associado ao escândalo watergate e
etc.).
➢ Gerou sensibilidade para se estudar como é que efetivamente as sociedades são dirigidas.

Modelos de Governo
Termo que se utiliza tipicamente para as Sociedades Anónimas.
Mas a discussão dos modelos de governo tem uma dimensão mais vasta. É um tema que se
discute ao nível de todos os tipos de sociedades (na estrutura organizatória da mesma50).

Conceito de Órgão Social


Na base está a pessoa coletiva – estamos a discutir uma parte da pessoa coletiva.
➢ Conceção normativista/analítica da pessoa coletiva: é um regime jurídico através do
qual se determina a conduta de pessoas singulares

49 Corporate governance constitutes a set of relationships among a company’s management, its board, its
shareholders, and other stakeholders.
Those relationships define, among other things, the property rights of shareholders, the mechanisms of exercising
and protecting those rights, and the path of ensuring a fair return.
Corporate governance also sets the structure through which a firm sets its objectives, as well as determining the
means of attaining those objectives and monitoring performance.
50
O conteúdo de cada tipo legal resulta da conjugação de três elementos:
• Tipo de responsabilidade assumida pelos sócios
• Limites à transmissibilidade das participações sociais
• Estrutura organizatória

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Órgãos sociais são centros de imputação de normas jurídicas, correspondentes a estruturas de


organização humana permanentes, funcionalmente ordenadas à prossecução dos interesses
da pessoa coletiva, nos termos das competências atribuídas a cada um, e que, em conjugação
entre si, permitem a autodeterminação da mesma.
• Centros têm por detrás pessoas
• Estruturas têm de ter uma função
• Funcionalização dos órgãos aos interesses da sociedade.
o JFG: Interesses da sociedade = fim da sociedade
• Articulação dos diferentes órgãos para que a pessoa coletiva se autodetermine

Que tipos de órgãos temos?


A. Coletividade de sócios – sócios que operam em dimensão coletiva; posição institucional
dos sócios em modo coletivo
B. Órgão de administração – plural ou singular com regras específicas
C. Órgão de fiscalização – global (sociedade como um todo), contabilístico (as contas) –
sociedades podem ter ou não.

Equilíbrio entre sócios e órgãos não é igual entre os diferentes tipos de sociedades
➢ Cada sociedade tem o seu específico equilíbrio interorgânico.

As SA estruturam-se segundo um de três modelos de governo


• Subtipos de sociedade anónima
o Paulo Câmara – fórmulas matriciais de organização da administração e
fiscalização das sociedades anónimas.

Art. 278º
a) Tradicional português (clássico, latino)
b) Anglo-saxónica (monista)
c) Germânica (dualista)

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Qual o equilíbrio interorgânico subjacente a cada um destes regimes?


• É o que significa a composição de cada modelo.
• Temos de analisar o que resulta da lei.

JFG: Todos os modelos são dualistas


• Todos os modelos compreendem um órgão de administração e um órgão de fiscalização
(global)
• Aos quais acresce um ROC/SROC
• Eleitos pela coletividade de sócios
• Com competências próprias definidas por lei
o Competências não podem ser derrogadas

JFG: art. 278º/b parece que é monista.


➢ Mas essa alínea não tem conteúdo útil em termos normativos.
➢ A Comissão de Auditoria não surge no seio do Conselho e é designada pelos sócios.
➢ A única questão é que eles têm de ser administradores – mas o órgão que eles compõe
é plenamente autónomo.

O que diferencia os modelos são os poderes do órgão de fiscalização e a relação que se


estabelece entre ele e o órgão de administração.
• Mais poderes do órgão fiscalizador, menos para os sócios.
• Muito no modelo germânico (designar administradores e etc.). Problema é que acesso
à informação é mediado (art. 432º).

O modelo tradicional português tem um órgão de fiscalização que tem pouco poder e só pode
“fazer queixinhas”.
➢ Poderes de informação próprio para ficarem esclarecidos com a atuação da sociedade.
➢ Informação é o ativo mais importante de uma sociedade.

Administração
Sociedade corresponde a um modo coletivo de funcionamento do Direito.
Dirigir uma regra a uma pessoa coletiva implica depois, através desta, o acionamento de
muitas outras regras que irão, mais ou menos imediatamente, desembocar em
incumbências que recaem sobre pessoas singulares.

MC: Administração Societária traduz-se em:


• Ato ou efeito de administrar essa mesma sociedade – administração objetiva
• Conjunto de pessoas que têm a seu cargo a função de administrar uma sociedade –
administração subjetiva.
o Expressão “administrador” cobre as figuras dos gerentes, dos administradores
stricto sensu e dos administradores executivos, em função do concreto tipo
societário em jogo.

Centralidade da Administração – órgão mais central para se compreender tudo o que se passa
dentro de uma sociedade
➢ No centro do governo das sociedades é o órgão de administração quem comanda
os destinos da sociedade e o primeiro fiscalizador da mesma.

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A obrigação de administração como conceito-síntese


• Fonte: as normas de competência
• Obrigação parcialmente indeterminada
• Deveres legais específicos
• Concretização casuística de acordo com a bitola de diligência normativa

Quando se discute a competência do órgão de administração discute-se uma Obrigação da


Administração – o órgão de administração administra.
• Ele tem de administrar – situação jurídica da administração é passiva, não há liberdade
para administrar ou não, têm de administrar.
• Há liberdade em como como se concretiza essa administração – concretização da
Obrigação de Administração tem conteúdo indeterminado, tendo de perceber qual o
grau de esforço que o direito exige para se cumprir essa obrigação: bitola de diligência
normativa.

A bitola de diligência é do gestor criterioso e ordenado.


➢ Mais exigente que o bónus pater famílias: o que faria um gestor desta natureza para
melhor assegurar os interesses da sociedade? Como faria perante essas determinadas
circunstâncias?
o Obrigados a administrar diligentemente.

Administradores têm 2 poderes, de conteúdo muito vasto. Apesar da natureza básica desta
matéria, o CSC não a considerou na sua parte geral e recorreu aos diversos tipos societários
para explicitar como se efetivam estes poderes (art. 192º; 252º; 405º/1,2)
1. PODER DE GESTÃO: direito funcional potestativo que traduz a permissão
normativa que os administradores têm de decidir e de agir, em termos materiais
e jurídicos, no âmbito dos direitos e deveres da sociedade.
• Poder para a sociedade decidir (alguém dentro da sociedade tem de decidir
sobre os destinos da sociedade, os meios para alcançar os objetivos e etc.)
dentro do equilíbrio interorgânico de até onde o órgão pode atuar.
2. PODER DE REPRESENTAR: vínculo jurídico de base legal que permite imputar à
pessoa coletiva os atos dos seus órgãos -> imputa-se à sociedade a atuação dos
administradores.
• Modelo que exprime os nexos de organicidade. Representação orgânica
(própria dos nexos de organicidade que ligam esses sujeitos à sociedade)
• Também é um direito funcional potestativo, pois envolve a permissão de,
agindo em nome e por conta da sociedade, produzir efeitos jurídicos que se
projetam imediata e automaticamente na esfera desta.
• Poder para vincular externamente a sociedade perante terceiros, quando se
relaciona com outros no comércio jurídico.

Poderes-deveres (ou funcionais) que é conteúdo essencial da obrigação de administrar

Art. 64º CSC – Deveres Fundamentais dos Administradores


Entrou com a reforma do CSC de 2006

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Este artigo não corresponde a quaisquer desenvolvimentos nacionais doutrinários ou


jurisprudenciais. Ele traduz uma série de aportações retiradas de fontes exteriores,
desinseridas dos sistemas que as originaram.
Para encontrar um equilíbrio e um sentido de conjunto e coerente temos de estudar as
parcelas que o compõe.

1. Diligência de um gestor criterioso


Bitola de inspiração alemã onde fundamentalmente está em causa a compatibilização entre a
discricionariedade empresarial e as restrições impostas, quer pelo ordenamento, quer pelas
realidades da sociedade.
Em sentido normativo, a diligência equivale ao grau de esforço exigível para determinar e
executar a conduta que integra o cumprimento de um dever – parte de uma regra de conduta
que deve ser determinada independentemente de qualquer responsabilidade (logo, de culpa).
➢ A violação do dever de diligência dá azo a ilicitude (não a mera medida de culpa).

Temos uma bitola de esforço reportada a um modelo objetivo e abstrato.

2. Interesses da sociedade, dos sócios e dos trabalhadores


Termo interesse é ambíguo
Noção objetiva e normativa: interesse representa a porção de realidade protegida e que,
quando violada, dá lugar a um dano.

O papel útil da referência a interesses da sociedade cifra-se em determinar que os


administradores, ao agir no âmbito das suas funções, o façam em prol dos sócios, mas, em modo
coletivo.
➢ Não se trata de propugnar vantagens caso a caso, mas, antes, numa panorâmica
possibilitada pelo conhecimento do cenário global, de defender, societariamente, as
saídas mais promissoras.
➢ No fundo, a maioria da doutrina portuguesa reconduz o interesse da sociedade aos
interesses dos sócios.

Referência aos outros interesses significa que na concretização do esforço exigível haverá que
ter em conta as dimensões sociais da sociedade.

MC: muito crítico do atual art. 64º

JFG: Interesses de sociedade relevam para a modelação da obrigação de administração


Vetor essencial é que o órgão de administração tem a iniciativa na promoção dos melhores
interesses da sociedade. Iniciativa é o fundamental e que o distingue de outros órgãos.

3. Deveres de Cuidado
Surge por influência do Direito anglo-saxónico
➢ No entanto, no Direito da Common Law, o dever de cuidado apresenta-se como uma
medida de diligência requerida para o exercício regular das suas funções

Sob a especial técnica anglo-saxónica – que não separa a ilicitude da culpa – o dever de cuidado
exprime as regras de conduta e a carga de não-censura necessárias no exercício das funções de
administrador, para que ele não incorra em responsabilidade negligente.

99
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

➢ Não é possível transpor a técnica anglo-saxónica de decisão para um Direito continental.

Ao referir-se a deveres de cuidado, o legislador especificou: disponibilidade, competência


técnica e conhecimento da atividade da sociedade.

MC critica: aparentemente a diligência do gestor criterioso e os deveres de cuidado dizem o


mesmo, um em linguagem continental e outro em linguagem anglo-saxónica.
➢ Não se entende a inserção de um elemento de responsabilidade civil aqui (que a ser
necessária deveria estar no art. 72º); a bitola de diligência antes acompanhava todos os
deveres dos administradores e agora parece confinada aos deveres de cuidado.
o O artigo deve ser interpretado no seu conjunto, exprimindo a boa velha
(sempre útil) bitola de diligência, acompanhada por algumas precisões.

O que se entende verdadeiramente por deveres de cuidado no art. 64º/1/a?


Coutinho de Abreu: dever geral de cuidado; situação jurídica fundamental dos administradores
seria esse cuidado.
JFG: a situação jurídica fundamental é a obrigação de administrar e a terminologia de atuar
com “cuidado” é problemática, pois isso é de responsabilidade delitual ou deveres acessórios
de conduta (deveres de proteção).
➢ Cuidado não se confunde com a diligência.

Problema de tradução.
• CMVM queria trazer os duties of care americanos para a nossa lei.
• Mas isso são concretizações do duty to act with care, ou seja, concretizações de atuar
com diligência.
o Significa que os administradores estão obrigados a administrar diligentemente.

Fala no geral de deveres de cuidado e depois no final fala da diligência.


➢ JFG: temos de tentar perceber onde o legislador queria chegar. Não era alterar o nosso
sistema obrigacional, o direito societário constrói-se sobre o sistema obrigacional civil.
o Dessa concretização identificam-se algumas situações: informado da sociedade,
disponibilidade para o desempenho, desenvolver conhecimentos técnicos para
a função

4. Deveres de Lealdade
Conjunto de exigências valorativas básicas do sistema em cada situação concreta
Vínculos dos administradores às sociedades implicam deveres acessórios onde se enquadra a
boa fé.

A lealdade ganha conteúdo positivo mecê da própria aproximação do sistema e à boa


fé na vertente da primazia da materialidade subjacente – dever de lealdade implica a
prossecução efetiva de um escopo e não meras atuações formais

A lealdade no art. 64º/1/b tem duas formulações


• Negativa – não fazer algo que prejudique a sociedade.
• Positiva – é consumida pela obrigação principal, de onde resulta o tal fazer tudo para
promover os interesses da sociedade.

100
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

o No fundo é o dever de sobreordenar o interesse da sociedade sobre os outros


interesses em presença (Carneiro da Frada mas com influência alemã dos anos
50).
▪ O que a lealdade exige é que ele ordene o interesse da sociedade
primeiro que os seus interesses.
▪ Não é não perseguir mais interesses, é sobreordenar o interesse da
sociedade.

Tem concretizações no CSC


• Deveres a observar na celebração de contratos com a sociedade
• Deveres de não aproveitamento de propriedade, informação ou “oportunidades de negócio” da
sociedade
• Dever de não concorrência com a sociedade
• Deveres a observar na transferência de domínio da sociedade e, em particular, na pendência de
OPA

Síntese MC:
a) Art. 64º tem normas de conduta, pretendendo reger a atuação dos administradores.
Sistematicamente, o art. 64º está desligado dos preceitos relativos à responsabilidade dos
administradores.
Quando violadas estas normas de conduta, temos de apelar a outras regras para determinar
uma eventual responsabilidade civil.
Os deveres de cuidado reportam-se a elementos que constituem, em moldes não taxativos, o
teor do “cuidado”.

Referência à bitola da diligência reporta-se às funções do administrador e não apenas aos


deveres de cuidado. Obviamente, o administrador deve ser diligente na execução de todos os
seus deveres e não, apenas, nos de cuidado.
A diligência, enquanto medida objetiva e normativa do esforço exigível mantém-se, tudo visto,
como uma regra de conduta incompleta: mas regra que dobra todas as outras, de modo a
permitir apurar a efetiva atuação exigida aos administradores.

b) Deveres de lealdade são deveres fiduciários que recordam estar em causa a gestão de bens
alheios.
Administradores são leais na medida em que honrem a confiança neles depositada.
Ficam envolvidas as clássicas proibições já examinadas: de concorrência, de aproveitamento dos
negócios, de utilização de informações, de parcialidade e etc.
A lealdade ainda exige condutas materialmente conformes com o pretendido e não meras
conformações formais.
Há um apelo aos códigos de corporate governance.

Situação Jurídica dos Administradores


Caracterização da situação jurídica dos administradores no contexto dos administradores na sociedade

Januário: Administradores são mandatários.


➢ E o mandatário é um gestor, um gestor de negócios.

101
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Mandato é o paradigma dos contratos de gestão -> referência a boa gestão assenta no regime
do mandato.

Essa situação, para ser caracterizada, tem de ter uma primeira referência contratual.
• Administradores estão adstritos a deveres de administração. Mas administração de
bens alheios (da sociedade).
• Tendencialmente o CSC identifica o interesse da sociedade como sendo diferente do
interesse dos sócios.
• O administrador não tem só em mente os interesses próprios e tem de garantir o
interesse da sociedade.
o Assim enquadra-se como um mandatário – ele gere a sociedade.

Opção pela lógica do mandato faz com que o gestor deva curar sob os interesses que estão
sob a sua gestão.

Administradores das sociedades estão cada vez mais sujeitos a deveres que resultam da lei –
não se compreendem plenamente com uma lógica de mandato tout cour.
• Dificuldades resultam da lógica da representação.
• Duas realidades incompatíveis da situação do administrador como correspondente a um
contrato de mandato.
o Janu: por facilidade designativa ainda se diz que o administrador é mandatário.

No entanto, há várias orientações acerca da figura do Administrador


1. Orientação contratual – apelo ao Mandado
Por influência do Code de Commerce francês (de 1807) e cumpria objetivos políticos (administradores
eram colocados ao serviço dos sócios, sem veleidades de intervenção de poderes políticos) e técnico-
jurídicos (enquadrava-se a problemática da festão de bens alheios como a da representação).

Criticado pela doutrina alemã e italiana


• Crítica interna (alemã) – mandato não envolve necessariamente a representação e ter-se-ia de
conceber outra fonte para os incontornáveis poderes de representação assumidos pelos
administradores.
• Crítica externa (italiana) – há deveres dos administradores que são retirados da lei e não se
conectam com um mandato comum

Relação de administração é contratual – relação de trabalho em sentido amplo envolvendo uma prestação
de serviços por conta de outrem

2. Orientações unilaterais
Contrapõe-se às contratuais
Desde o momento em que a escolha de um administrador assenta numa deliberação, a situação já não
pode ser considerada contratual – ao ato deliberativo não podem ser aplicadas as regras do negócio
jurídico.
A deliberação não é negociável com o exterior e é encontrada no seio do órgão deliberativo, ficando logo
perfeita nesse nível.
Construção institucionalista.

3. Construções analíticas
Posição jurídica dos administradores tem a sua génese num ato duplo: nomeação pela sociedade e
celebração de contrato de emprego com essa pessoa.

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4. Construção laboral
MC: não é viável, por incompatibilidade valorativa, no Direito positivo português vigente, laboralizar a
situação jurídica dos administradores.

Fator juslaboral também tem de ser considerado


Nos casos em que trabalhador da sociedade é nomeado administrador da sociedade o contrato de
trabalho suspende-se.
Janu: situação esdruxula se ele continuasse a ser trabalhador.
Na lógica do trabalho subordinado a alteridade é essencial, e aqui não existiria.

Aproximação ao quadro juslaboral do administrador é complicado. 51


Mas isso não significa que para certos casos (segurança social e etc.) não haja uma equiparação.

O princípio é o da livre possibilidade de destituição dos administradores e essa pouca proteção está nos
antípodas do direito do trabalho.

5. Doutrina Portuguesa
Reconduz a situação jurídica de administração a um Contrato de Administração (Ferrer Correia).
➢ MC: discorda.
o A situação jurídica de administração não pode ser definida com recurso à via da
sua constituição

A situação jurídica de administração tem de ser fixada pelo seu conteúdo (que deriva da lei,
dos estatutos e deliberações sociais) e não pela forma da sua constituição.
• É uma realidade autónoma, de cariz societário, com factos constitutivos múltiplos,
privada, patrimonial, complexa, compreensiva e nuclearmente absoluta.
• É um status – qualidade ou prerrogativa que implica e condiciona a atribuição de uma
massa prévia de elementos juridicamente relevantes, incluindo deveres, direitos
funcionais e obrigações.
o Direito do Administrador: remuneração (art. 195º/5, 255º, 399º)
o Remuneração dos administradores tem estado na ordem do dia após a crise do
subprime.
o Há remuneração fixa e variável. Uma das situações nefastas que foi identificada foi em
relação à remuneração variável (que variava em função de resultados) o que levava a
uma gestão das sociedades para resultados imediatos (e ter logo a remuneração),
podendo tal não equivaler aos melhores interesses da sociedade.

O facto dos administradores das sociedades em geral, à luz do CSC, terem uma situação jurídica
peculiar é o que justifica que essas pessoas tenham alguns traços que são típicos da proteção
dos trabalhadores.

Janu: contrato de trabalho supõe subordinação jurídica e neste caso não há alteridade para que
tal se possa estabelecer.

51
Há outro aspeto, mais ligado às SA, em que os administradores não se identificam com os trabalhadores.
Não há uma equiparação de classe entre trabalhadores e administradores, apesar de não serem os
capitalistas (problema político).
Administradores aparecem como especialistas da gestão, que compreendem do negócio e da atividade
da sociedade.

103
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Pode haver administradores que tenham direito especial à gestão – no âmbito da sociedade
por quotas. O que se pode repercutir na exigência de justa causa para destituir o administrador.
• Mas estas são exceções.
• A regra é livre possibilidade de destituição dos administradores.

Situação jurídica dos administradores pode ter vários fundamentos


• Qualidade de administrador inerente à qualidade se sócio
• Administração designada no contrato de sociedade
• Administração designada pelo Estado
• Situação de substituição

Tendo isto tudo em mente, é forçado/artificioso ver um contrato como uma forma de
estabelecimento de administradores.
➢ Por isso, é que tem de se qualificar como situação jurídica.
o Não é relacional pois não há contrato.
o Mas pode haver obrigações que derivam de uma relação contratual (do
contrato de sociedade)

Constituição e Termo da situação de administrador


CONSTITUIÇÃO
• SNC: art. 191º - posição de gerente é decorrência da posição de sócio.
o Facto constitutivo essencial é o contrato de sociedade e a lei não prevê um
contrato de “gerência” autónomo.
o Quando a gerência recai sobre um não-sócio o facto constitutivo é a própria
deliberação dos sócios.
o Pode haver uma 3ª situação de eficácia conjunta do pacto social e de
deliberação de entidade terceira, na hipótese de pessoa coletiva sócia.
• Sociedade por Quotas: art. 252º, 253º
• SA: art. 391º a 394º

TERMO
Situação jurídica de administração não é, por natureza, perpétua.
Diversas formas de cessação das situações jurídicas têm aqui aplicação com alguns processos de
adaptação: caducidade, revogação, resolução e denúncia.
• SNC: art. 191º
• Lda: art. 257º
• SA: art. 403º

Livre destituibilidade e exigência de justa causa


Princípio da livre destituibilidade consagrado no CSC, em que a justa causa apenas serve
para decidir se a destituição opera ou não com indemnização.
• Lda: art. 257º/6 + 254º/5
• SA: art. 403º/4 e 430º/2

Conceito laboral ou civilista?


➢ Laboral: mais protetor que assenta num comportamento culposo, que pela sua
gravidade e consequências justificam

104
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➢ Civilista: mais amplo que passa pelo conceito de inexigibilidade.

Janu: a questão não está resolvida.


➢ Numa interpretação mais favorável aos administradores aponta no sentido juslaboral
(MC), mas, há outras que vão mais no sentido civilista52.

Outra questão que se levanta é quanto à limitação indemnizatória do art. 403º/5


• MC: limitação é inconstitucional pois devia ser nos termos gerais e não pautada por
quaisquer critérios. Indemnização sem justa causa.
• Janu: compreende-se que tenha de haver uma limitação.
o Sendo os administradores agentes da sociedade, estando na lógica societária.

Responsabilidade Civil dos Administradores para com a Sociedade


Responsabilidade Obrigacional
Art. 72º/1 – concretização do art. 798ºe 799º CC em que os administradores respondem para
com a sociedade por danos ilícitos, provocados pela inobservância de deveres específicos e com
presunção de culpa.
➢ Ex: violação do art. 6º/4, 31º/2, 35º/1, 65º/1, 70º, 93º/1

Nº1: presunção de culpa


• Juízo de censurabilidade do sistema sobre o sujeito que autuou ilicitamente53 (sentido
estrito)
• Mas a culpa que é referida no art. 72º/1 é culpa em sentido amplo (MC) – presunção de
faute (que é um misto de culpa e ilicitude): só faz sentido presumir a culpa se o sujeito
tiver atuado ilicitamente (daí que se presuma a ilicitude e a culpa, sendo faute).
o Seguindo esta posição de MC o ónus da prova recai sobre o réu(administrador).
o Na posição de ML, separando claramente a ilicitude e a culpa, caberia ao autor
(sociedade) demonstrar ilicitude e se demonstrada, cabe ao réu (administrador)
demonstrar que não teve culpa.
▪ PPV: quando a ação é movida pela sociedade, tem todos os documentos
disponíveis e pode fazer prova contra o administrador.
▪ JFG: muitos atos societários não têm base documental e quando têm
ela é incompreensível (não se percebe porque se fixou o preço, por
exemplo). Torna muito difícil que a sociedade prove que aquilo foi
ilícito.

52
Com o qual Januário Costa Gomes está mais de acordo.
53
Do modo coletivo ao plano individual – pode haver atribuição de competências a um administrador
individualmente considerado ou ao órgão coletivo. Quem é responsável pelo incumprimento de deveres
são os membros, individualmente considerados, do conselho de administração. Olhando para o quadro
de deveres do órgão coletivo é que se consegue perceber como se considera individualmente cada
administrador.
O órgão coletivo tem todos os poderes conferidos, mas depois tem possibilidade de delegar esses poderes
para cada administrador em específico.
Tem de se fixar um primeiro pressuposto do que é a licitude para depois se perceber que ocorreu essa
violação.

105
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Mesmo seguindo ML e não MC, concluindo que não há inversão do ónus da prova, o facto é
complexo e pode levar à conclusão que o tipo de prova feita para cada um dos factos não tem a
mesma intensidade.

Art. 72º/2 – business judgment rule


Ilide presunção de culpa quando estão em causa apenas deveres para com a sociedade, sendo
de acentuar a observância dos “critérios de racionalidade empresarial”.
• É uma específica via de exclusão de culpa (MC: de faute, ou seja, culpa/ilicitude)
• Só opera nas relações com a sociedade e nunca pode isentar o administrador para com
os seus deveres com o fisco, segurança social, trabalhadores e etc.

Nº2: business judgment rule


O que está em causa é uma conclusão da jurisprudência americana – administradores têm
discricionariedade empresarial no seio da sua atividade.
➢ Administrador decide com base na informação que dispõe.
➢ Ideia de que o espaço de discricionariedade é apriorístico – ele tem de ter
discricionariedade.
➢ Administradores são contratados para assumir riscos

Insight bias – quando se olha depois do facto ocorrer parece muito mais provável ter ocorrido o facto no momento
em que ocorreu. Há tendência do juiz, de acordo com a psicologia cognitiva, de perceber as coisas como mais óbvias
depois de acontecerem

Quando se aplica a lei ao caso concreto chegar-se-ia à conclusão que o administrador poderia
adotar um de várias condutas.
➢ Ideia de várias condutas normativamente admissíveis que levaria ao resultado.
➢ Não é apriorístico.

JFG: o art. 72º/2 não tem presunção de ilicitude (essa vem do art. 72º/1)
Há sim
1. Um dever de obtenção de informação conjuntural [que se soma ao dever de obtenção
de informação estrutural do art. 64.º/1, a)]
2. Um dever de atuação livre de interesse pessoal [que concretiza o dever de lealdade (art.
64.º/1, b)]
3. Um dever de atuar segundo critérios de racionalidade empresarial (de forma
fundamentada, com ponderação das alternativas, dos riscos inerentes, das vantagens
e desvantagens – não basta intuição na gestão de bens alheios)

Segundo a doutrina, o art. 72.º/2 consubstancia:


1. um privilégio de limitação de responsabilidade civil que opera ao nível do dever de
indemnização;
2. um padrão de apreciação judicial;
3. uma causa de exclusão de ilicitude;
4. uma causa de exclusão de faute (ou, insistindo-se na dissociação entre ilicitude e culpa,
causa de exclusão de culpa);
5. uma presunção de ilicitude; ou
6. uma concretização do dever de administrar, contribuindo para fixar a ilicitude.

106
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Art. 72º/3
Todos esses deveres não esgotam as obrigações que decorrem da diligente administração.
➢ Diligente administração conhece diferentes concretizações. Pode ser responsabilizado
quando fique na cama a dormir e não vá à reunião para defender os interesses da
sociedade.

Art. 72º/4
Não há nenhum direito de oposição – há é dever de oposição a todos os atos que sejam
prejudiciais ao interesse da sociedade.
➢ Administrador tem de se opor aos atos prejudiciais, sendo isso uma concretização do
seu poder de administração.

Art. 72º/5
Voto é nulo e deliberação anulável.
➢ Tem de ser lido de forma restritiva – não se aplica nas SA, cuja administração é
autónoma da dos sócios e não fica sujeito.

Regime de solidariedade passiva – art. 73º CSC


Não é fonte das obrigações. A pratica ato e é responsável. Para dizer que B também é
responsável tem de se perceber o que ele deveria ter feito e não fez.
➢ Só solidariedade passiva quando há pluralidade de devedores.

Cláusulas nulas, renúncia e transação (art. 74.º CSC)


Responsabilidade dos administradores não pode ser aprioristicamente excluída

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Responsabilidade Extracontratual
É possível nos termos gerais
A responsabilidade aquiliana por violação de direitos subjetivos da sociedade deverá efetivar-
se através de outros administradores que representem a sociedade.

Violações que desencadeiam o art. 483º CC: 509º, 510º, 511º, 512º, 518º, 519º, 523º, 525º

Os deveres de cuidado, com a trilogia constante da lei (art. 64º), operam como deveres
incompletos.
➢ Só por si não são violáveis, em termos de responsabilidade civil. Em conjunto com
outras normas, a violação torna-se possível, seguindo-se um regime operacional

Os deveres de lealdade concretizam uma obrigação ainda despida do dever de prestar principal.
Perante isto, os administradores devem espeitar as situações de confiança legítima e a
materialidade subjacente.

Como se efetuam as pretensões de Responsabilidade?


AÇÃO SOCIAL UT UNIVERSI (ART. 75º-76º CSC) – universo da sociedade; a ação deliberada pelos
sócios e é a própria sociedade que move a ação contra o administrador
➢ Ação intentada pela própria sociedade contra os administradores. Art 76º prevê que
possam haver representantes especiais da sociedade, escolhidos por sócios.

Ação social ut singuili (art. 77º CSC) – um sócio individualmente considerado pode fazer valer
uma pretensão indemnizatória da sociedade.
➢ Ação movida por um sócio por ter a qualidade de sócio e na qual ele faz valer um direito
da sociedade.
o Não é sócio que sofre um dano mas sim a sociedade, sendo essa pretensão
indemnizatória da sociedade que o sócio que fazer valer.
o Identifica-se limiar de participação que o sócio tem de ter nesta sociedade para
poder fazer.

MC: A ação ut singuli faz sentido quando a própria sociedade, através da assembleia geral, não
intente a ação ut universi. Tem natureza subsidiária.

Responsabilidade dos administradores para com credores, sócios e terceiros


• Responsabilidade para com credores por violação de normas de proteção (arts. 78.º
CSC e 483.º/1 CC)
o MC: art. 78º/5 e remissão para o art. 72º só pode ser lapso pois o business
judgement rule só funciona na relação administrador/sociedade e nunca fora
desse círculo.
▪ O artigo 78.º CSC faz depender da responsabilidade dos
administradores da violação de normas de proteção, assim no caso de
violação de normas concretas não se aplica esse artigo, mas o artigo
798.º CC.
▪ Os n. º 2 e n.º 3 são inúteis.
• Responsabilidade para com sócios e terceiros: remissão (art. 79.º e quadro geral de DC)

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

o Responsabilidade é direta quando não intervêm outros eventos, ou seja,


quando há práticas dolosas dirigidas à consecução do prejuízo verificado ou há
práticas negligentes grosseiras, cujo resultado é inelutavelmente a verificação
do dano em causa.
o MC: mesmo lapso quanto ao business judgement rule pois não se entendo como
uma realidade interna, exclusiva da sociedade, pode permitir, aos
administradores, vir causar danos diretos aos sócios ou a terceiros.

Outras Responsabilidades
• Responsabilidade dos administradores de facto (art. 80.º CSC54)

54
Sendo um administrador de facto, está sujeito aos mesmos direitos e deveres dos administradores de
direito. por esta razão temos de ter cuidado quanto a afirmação de que certa pessoa é administrador de
facto. Ricardo Costa fala sobre isto:
1) quem não título bastante, ou seja, quem não foi validamente designado como administrador. Há uma
omissão de título formal;
2) atuação típica e positiva – intensidade qualificativa, ou seja, os atos que ele pratica são atos próprios e
típicos de um administrador de direito, de administração de sociedades comerciais. Por isso o que
interessa é olhar para o sujeito fez, verificando se aqueles atos configuram atuação de administrador;
3) atuação exercida com autonomia – existência de autonomia decisório – intensa conversão da esfera de
livre decisor; ricardo costa diz que a pessoa tem um poder ilimitado, atuando com o mesmo poder
atribuído ao administrador de direito;
4) é administrador de facto quem tem uma atuação diferida no tempo, não sendo uma atuação pontual.
Podemos usar aqui um lugar paralelo da qualificação de prática continuada no caso dos comerciais por
MC. Se tivermos uma atuação pontual, decidida exclusivamente por alguém, que parece ser
administrador: mas é só uma atuação, não sendo diferido no tempo, se que não temos administrador de
facto? Temos de saber qual é a dimensão e intensidade daquele ato. Se for uma decisão que onera 80%
do património da sociedade, será que esta atuação tem de ser diferida no tempo? NÃO, diz David Reis.
Mas é um ponto discutido.
5) Atuação de conhecimento da sociedade – atuação tem de ser pelo menos tolerada pela sociedade. Mas
como medir este consentimento da sociedade? Exige-se maioria dos votos, ou número de assinaturas
necessário para vinculação da sociedade? Ricardo Costa fala de maioria dos votos.

Pergunta-se então se o artigo 80.º CSC permite a aplicação direta quanto aos artigos 70.º e ss.CC? Ricardo
Costa diz que não – se assim fosse estaríamos a aligeirar os requisitos do administrador de facto. Se
permitíssemos a aplicação direta com aplicação do artigo 80.º aligeirava-se verificação dos requisitos. Por
isso, há um perigo na aplicação direta. Ma depois diz que o próprio artigo 80.º seria insuficiente, porque
diz “a quem sejam confiadas funções”, ou seja, tem de haver um ato de atribuição, tendo alguém de
conferir a outrem poderes. Vimos que isso não corresponde aos casos de alguns administradores de facto,
como os “shadow directors”. Elisabete Ramos entende contra Ricardo Costa que há uma sujeição direta,
assim como Tânia Meireles da Cunha. A posição de Fátima Ribeiro diz que a letra da lei não tranquiliza o
interprete, mas usa argumento de maioria de razão: se a lei manda aplicar o regime dos 72.º e ss. aos
sujeitos a quem foram confiadas funções de administração, aplicar-se-ão esses artigos a quem por sua
conta se arrogar poderes de administração.
David Reis diz que não é imprescindível, mas é um artigo útil. O próprio sistema optou por um sistema
funcional na alocação da repsosnabildiade dos administradores – porque entende que não interessa se
ele é ou não. Prescinde do vínculo formal, optando pelo funcional. Vale aqui o argumento usado a fortiori
pela professora Fátima. É curioso ver como o próprio artigo 80.º CSC foi tido pela CMVM, em 2006, como
abrindo a porta aos administradores de facto, sendo esta mais uma confirmação de o artigo 80.º CSC nota
uma responsabilização dos administradores de facto. Assim, não há aplicação direta do artigo 80.º, mas
por interpretação extensiva – segundo Miguel Teixeira de Sousa entende que é quando o espírito vai além
da sua letra. Da fonte permite-se inferir uma regra que estava na sua letra. Assim, salta-se por cima da
discussão de saber se o artigo 80.º CSC abrange todos os tipos de administrador de facto, ficando com a
ratio de saber se se vai responsabilizá-los.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

• Responsabilidade dos membros de órgãos de fiscalização (art. 81.º CSC)


• Responsabilidade do ROC (art. 82.º CSC)
• Responsabilidade solidária do sócio (art. 83.º CSC)
• Responsabilidade do sócio único (art. 84.º CSC)

Fiscalização
Exprime a ideia de constatar o efetivo cumprimento de determinadas regras
• Pressupõe, por parte de quem a leva a cabo, poderes de autoridade – traduz o exercício
de um direito potestativo.
• No direito privado a Fiscalização é predominantemente interna, i.e., é encabeçada por
quem, na relação, tenha uma posição mais vasta.

Fiscalização das Sociedades Comerciais


No campo das Sociedades Anónimas, o art. 278º tem presente 3 tipos de estrutura de
fiscalização.
➢ MC: sistema dualista, com conselho de vigilância (conselho geral e de supervisão) e
direção é mais eficaz.

Os sócios percebem que há necessidade de fiscalização da sociedade, podendo ser exercida


por eles próprios através de perguntas e sindicância, ou através de outras entidades dentro
da sociedade ou fora.
➢ Após a reforma de 2006, e a crise de 2009, ficou patente a necessidade de fiscalização
mais agressiva: que fosse preventiva e repressiva, operando nestes dois planos.

Qual é ratio subjacente as regras de fiscalização?


Engrácia Antunes: tutela de interesse publico (interesse dos credores e do mercado) e a
independência do órgão de fiscalização (sendo independente, prossegue melhor as suas
funções).

Fiscalização externa: Reguladores e supervisores – ANACOM, banco de Portugal, CMVM.


Fiscalização interna: orgânica (dentro a sociedade por um órgão social) e inorgânica (levada a
cabo por sócios – pedidos de informação, ou seja, exercício de direito de informação, e
impugnação de deliberações sociais).

Mas não há confusão na fiscalização orgânica interna porque é feita por um órgão dentro da
sociedade?
Não há uma sobreposição porque, por força da imputação da personalidade das sociedades,
elas carecem de órgãos, mas a alocação da vontade da sociedade não depende da posição
apenas do órgão de fiscalização. Nessa medida, não há sobreposição.

110
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MODIFICAÇÕES DAS SOCIEDADES


As sociedades podem não se manter estáticas e dispõe de mecanismos para se adaptar,
evoluindo e modificando-se.

O CSC, após uma longa evolução, dá relevo aos temas da modificação e extinção das sociedades,
que são matérias que têm sofrido diversas alterações legislativas, muito por força do direito
europeu (mais de 10 diretivas têm sido emitidas nos últimos anos acerca desta matéria).
• Esta matéria tem alguma prolixidade, uma vez que obriga a compatibilizar os interesses
dos sócios maioritários – que decidem, em princípio, as diversas operações – dos
minoritários que se lhes oponham e dos terceiros, credores da sociedade.
• Os temas de fusões, cisões e transformações estão numa área sensível onde se
movem junto de interesses muito significativos para os quais a segurança jurídica
é decisiva – a facilidade com que seja possível realizar operações de concentração
ou de recomposição empresariais constitui um trunfo decisivo para os países que
as comportem, devido ao grande relevo económico das modificações das
sociedades.

Alterações do Contrato
Sentido estreito de modificação dos estatutos que não tem eficácia subjetiva, reduzindo (fusão)
ou ampliando (cisão) as pessoas e que não conduz à adoção, por uma sociedade de certo tipo,
de um tipo diverso.
➢ A possibilidade de proceder a alterações no pacto social que não ponham em crise a
identidade da pessoa coletiva em jogo foi alcançada ao longo de uma evolução,
legislativa e dogmática, complexa.

Alteração do contrato de sociedade pode operar por modificação, supressão ou


aditamento de cláusulas no pacto social.
• Qualquer alteração do contrato deve ser deliberada55 pelos sócios (art. 85º/1),
• tem de respeitar o tipo social em jogo56 (art. 85º/2)
• e reduzida a escrito (art. 85º/3).

Só por unanimidade pode ser atribuído efeito retroativo à alteração do contrato e, ainda então
e como é lógico, apenas nas relações entre sócios.
➢ Se a alteração impuser o aumento das prestações dos sócios, ela é ineficaz para os que,
nele, não tenham consentido (art. 86º/1, 2).
o Januário: preocupação máxima dos sócios não favoráveis à alteração e
preocupação com interesses dos credores – a alteração é possível mas não pode
desconsiderar a vontade dos sócios, os credores da sociedade e a especificidade
dos tipos.

AUMENTO DE CAPITAL
As sociedades podem deliberar abrir o capital a novos sócios.

55
Januário: é uma competência da Assembleia Geral
56
Tem de se ter em conta a especificidade dos tipos em que se move para haver esta deliberação.

111
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Requisitos do art. 87º


➢ Aplica-se aos aumentos de capital por novas entradas e não por incorporação de
reservas (que está no art. 91º a 93º).

Art. 87º/3 tem medida que se destina a prevenir a capitalização artificial das sociedades.

As modalidades de aumento do capital abrangem:


1. Novas entradas (de sócios ou de terceiros, que se tornam sócios) – art. 87º e ss.57;
• Sócios têm direito de preferência na entrada?
i. Lda. – art. 266º
ii. SA – art. 458º + 459º + 460º
2. Incorporação de reservas (aproveitando o valor real do património da sociedade para
formalizar capital) – art. 91º e ss.;
• Não há novos ativos a entrar na sociedade, há é uma operação contabilística em
que as contas que figuram como reserva passam a ser capital.
• Relevo contabilístico tem especificidade nos tipos – art. 295º, 296º/c e etc.
3. Transformação de dívidas em capital (passando os credores a sócios)58.

Art. 88º - quando se considera aumentado o capital


Art. 89º - aplica-se tendencialmente o regime das entradas aquando da constituição da
sociedade

Pode haver uma redução para posteriormente haver um aumento


➢ Efeito de Harmónio

57
Art. 87º/4 permite também a conversão de suprimentos em capital
➢ Januário: regime dos suprimentos também pode ser aplicado às Sociedades Anónimas, mas o
art. 87º/4 não se estende automaticamente às SA.
➢ Esta deliberação deve ter os elementos do art. 91º
58
Lei 7/2018
Introduz regime de conversão de créditos em capital
• Art. 2º, quer em termos positivos, quer em termos negativos, traça o âmbito de conversão desta
lei.
o Que pressupõe uma iniciativa dos credores – solução vem de fora e credores
preocupados com a sociedade (step in de credores).
o Não todos e quaisquer credores – têm de ter certas características em termos de crédito
(art. 3º)
• Art. 3º/1/a, b: enuncia requisitos
• Art. 3º/10
• Art. 7º: esta situação está na fronteira com o regime da insolvência – é situação borderline da
aplicação do CIRE.

Operação harmónio – pretende-se aumentar o capital da sociedade mas como fase preliminar há uma
redução.
Proposta tem de descrever conteúdo concreto da operação

Regime para proteger créditos em que credores não vislumbram em tempos próximos a realização dos
seus créditos, querendo assegurar a sua satisfação através deste mecanismo

Tribunal pode substituir-se à AG – suprimento judicial

112
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

REDUÇÃO DO CAPITAL
Art. 94º e ss. CSC
Operação pode pôr em crise os direitos e as expetativas de terceiros, compreendendo-se que a
lei a rodeie de cuidados vincados.

A convocatória de Assembleia Geral cuja ordem de trabalhos inclua a redução do capital deve
ter as especificações do art. 94º.
➢ Faltando a deliberação é nula.

Redução pode conduzir a um capital inferior ao mínimo legal, desde que fique expressamente
condicionada a um aumento igual ou superior a esse mínimo (art. 95º/2) – operação acordeão

Art. 96º - tutela os credores

Fusão de Sociedades – art. 97º e ss. CSC


Forma jurídica que permite dar corpo ao fenómeno da concentração económica.
➢ Duas ou mais sociedades juntam-se para formar uma só.

A Fusão e a Cisão colocam problemas bastante similares, tendo a fusão a matriz das regras a
ambas aplicáveis.
➢ A fusão é o regime subsidiário que se aplica à cisão.

Januário: Fusão = situação jurídica que ocorre quando 2 ou mais sociedades, ainda que de tipo
diferente, se reúnem numa só sociedade.

Modalidades básicas (art. 97º/4)


Por Incorporação – art. 97º/4/a – absorção de uma sociedade por outra, passando a sociedade
absorvida a fazer parte da sociedade absorvente.
• Sociedade preexistente mantém-se, absorvendo uma outra
• Não está dependente da tipicidade – pode haver absorção de sociedades de tipos
diferentes.
o SNC (responsabilidade ilimitada) pode absorver Lda. (responsabilidade limitada)
– os sócios da Lda. vão passar a ter partes da SNC pelo que seguirão o regime
da responsabilidade ilimitada. Este processo é complexo e tem de se considerar
as posições dos sócios.
▪ Pode haver casos em que há obstáculos/dificuldades à fusão devido às
posições dos sócios das sociedades envolvidas.
▪ Os credores de uma das sociedades envolvidas também podem
impugnar essa fusão devido a que com essa ação pode diminuir-se o
património da sociedade – diminuindo a garantia para os credores. Isto
coloca-se independentemente da modalidade de fusão.

Por Concentração – art. 97º/4/b – duas ou mais sociedades preexistentes transferem as suas
posições jurídicas para uma entidade nova, criada a esse propósito.

Fusão, um jogo de extinções?


MC: Fusão não pode ser entendida como um jogo de extinções (sem autonomia como
operação jurídica)

113
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• fusão-incorporação era a extinção da sociedade incorporada e à absorção do seu


património pela sociedade incorporante – extinção de uma das sociedades e a entrada
desses sócios da sociedade extinta numa outra sociedade;
• fusão-concentração era a extinção de duas ou mais entidades e a inserção do seu
património na esfera de uma nova entidade – essa extinção de uma sociedade e
alocação do património numa nova entidade.

Uma extinção verdadeira dá lugar à liquidação o que implica uma série de morosas operações.
• Januário: falar de extinção não se compagina com este regime, pois não há efetivamente
liquidação da sociedade e o que existe é um processo agilizado no sentido da
concentração.59

Figura da fusão tem autonomia conceitual e de regime – algo que já é admitido pelos Códigos
Comerciais desde os finais do séc. XIX.

O que acontece às sociedades fundidas?


Art. 112º CSC
o Sociedade incorporada continua a viver no seio da sociedade incoporante.
▪ Janu: há uma continuação de uma sociedade no seio de outra.
▪ Mas materialmente estamos numa realidade diferente, em que há uma
fusão.

Tem havido situações em que se tem discutido a aplicação em concreto do art. 112º CSC:
caso de arrendamento comercial.
o Independentemente do regime específico do trespasse, o art. 112º não
pressupõe que haja trespasse de estabelecimento.
o Mas é necessária a comunicação dessa transmissão.

Quando se fala em fusão fala-se em Concentração Empresarial – “mergers and aquisitions”


• Mas há outros processos para essa Concentração:
o Aquisição de Partes Sociais (ou em sentido amplo os próprios trespasses).
▪ Pode ser negociada ou hostil (OPA hostil).
▪ Pode ser aquisição potestativa nos termos em que o CSC o permita.

A fusão pode realizar-se mesmo entre sociedades dissolvidas – art. 97º/2

Há reflexos ao nível do capital social


➢ Por incorporação – Sociedade A (SA) absorve Sociedade B (Lda.). É necessário atribuir
ações aos sócios de B que correspondam às quotas que esses sócios tinham na
Sociedade B. A ideia é atribuir participações em função do tipo aos sócios da sociedade
que é objeto de absorção.
➢ Sócios devem ficar com participação social que corresponda ao valor real da sociedade
após fusão.

59
Obviamente que, apesar disto, não se pode dizer que a sociedade incorporada continua a ter
personalidade jurídica para o direito.
➢ Houve processo de extinção – art. 97º/1

114
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Processo de Fusão: art. 98º a 107º CSC


• Janu: dentro das várias alíneas do art. 98º/1 é importante a alínea d) quanto ao balanço.
o É depois recuperada pelo art. 98º/2.
o Lógica de disclosure – notificação à autoridade da concorrência, sob pena de ser
nula.

Art. 101º/a oposição dos credores à fusão

O CSC prevê situações de intervenção ativa dos credores na sociedade. Como as decisões de
fiscalização dos órgãos da administração.
Mas em algumas situações os credores podem substituir-se aos sócios quando estes não fizerem
as entradas.
➢ Em matéria de fusão, há preocupações específicas e regime específico no que respeita
aos credores – pois com a fusão pode haver um prejudicar dos créditos desses credores,
o que pode levar à paralisação da fusão (art. 101º)

Os patrimónios das duas sociedades mantêm-se incólume, ou na sociedade incorporada ou na


nova.
➢ Isto parece que leva a concluir que não havia nenhum prejuízo para os credores.
o Janu: mas, os credores podem entender justificadamente que da nova situação
jurídico-patrimonial pode resultar uma diminuição da garantia dos seus
créditos.
▪ Credores podem opor-se mas tal é judicialmente (art. 101º)
▪ Consequência é que nos casos em que há oposição tal funciona como
uma pressão sobre a sociedade para se chegar a acordo com os
credores. Isto de forma a assegurar que o processo de fusão é levado a
bom porto.

Art. 101º/b
O que se vem dizer é que nada obsta à aplicação de cláusulas contratuais que atribuam ao credor
a imediata satisfação do seu crédito.
Questão é se isto não pode ser uma cláusula de simples exigibilidade antecipada.
➢ Janu: redação deste artigo parece indicar que é vencimento automático. Prevê-se que
credor possa exigir imediatamente o crédito. Mesmo que o prazo seja dilatado, perante
estas circunstâncias pode exigir-se já o pagamento. Não se trata de provocar o
vencimento.

Dentro dos credores há provisões quanto a alguns credores:


Credores obrigacionistas – sociedade emitiu obrigações para se financiar e recorre ao crédito
para tal.
➢ Gera-se situação especial (art. 101º/c)

Ver art. 101º/d

Consequências do não acatamento das exigências do art. 103º


➢ Art. 103º/2 – não resulta um princípio de que a fusão deve ser aprovada por
unanimidade dos sócios; só assim é se em função do tipo tal se exigir (como SNC – art.
194º).

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

➢ À partida não é preciso unanimidade dos sócios.

Ideia que sócios com direitos especiais têm de ter esses direitos especiais acautelados na nova
sociedade.
➢ Se esses direitos não se mantiverem, eles são afetados (art. 103º/2/b)

Podem haver situações especiais que têm suscitado dúvidas:


Caso do direito especial à gerência – não tem tradução no tipo absorvente/na nova sociedade.
Não é possível fazer correspondência direta.
➢ Interpretação pró-fusão: fusão pode ocorrer se materialmente houver uma equivalência
de posição atribuída ao sócio.
o Essa equivalência pode ser o art.97º/5.
o Não há correspondência em termos reais.
o Janu: se sócio não der assentimento a fusão é ineficaz.
➢ Tem de haver uma troca equilibrada e proporcional entre as posições sociais dos sócios
da sociedade absorvida e os da nova sociedade.

Art. 104º - situação de sobrevivência de uma sociedade extinta, para determinados efeitos
➢ Ficção jurídica em que se considera que a sociedade absorvida continua a existir.

Fusão não tem de passar necessariamente pelo acordo de todos os sócios, a não ser que os
estatutos o digam.
• Isto significa que pode haver sócios descontentes com a fusão.
• Em certas situações o sócio que tenha votado contra o projeto de fusão pode exonerar-
se – art. 105º
o Não é algo arbitrário, depende se a lei ou contrato de sociedade atribui a esse
sócio que votou contra o projeto de fusão a possibilidade de se exonerar da
sociedade – não significa abandonar a participação social, ele é compensado
pelo valor da sua participação social.

Após as deliberações, cada uma das administrações das sociedades envolvidas fica com poderes
para vincular as sociedades ao processo de fusão = assinar o ato da fusão (art. 106º)

Há especificidades em cada tipo quanto à Fusão.


• Maiorias necessárias para alteração do contrato de sociedade são diferentes consoante
o tipo.
• Independentemente desse regime e dos requisitos necessários pode haver em cada um
dos tipos provisões específicas quanto à fusão.

Art. 112º também trata a eficácia da fusão a propósito dos efeitos do seu registo, que tem
natureza constitutiva.
➢ Além de tratar os efeitos da fusão: transmissão da sociedade incorporada, a título
universal, para a sociedade incorporante

Art. 113º - constitui aplicação do regime geral da condição e do termo à fusão


• Este art. não remete para o art. 437º CC – não estamos nesse quadro; estamos numa
situação nova em que há vários stakeholders envolvidos e as próprias sociedades (há

116
Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

vários sujeitos que são atingidos), pelo que se há contrato que determina equilíbrio
objetivado de um certo quadro, se esse quadro se altera, pode haver modificação.
o Janu: código fez bem em não regular mais. A partir daqui temos direito civil a
regular a resolução do contrato. Sindicação dos fundamentos da resolução é
feita em termos civis.

Art. 114º - situações de responsabilidade emergentes da fusão


• Diz respeito às fusões eficazes, já registadas – expurgou-se dos efeitos do art. 112º/a, b
• Responsabilidade é a que decorre quando não se observa a diligência de um gestor
criterioso e ordenado.

Art. 114º/2 – consagra-se aqui uma ficção e considera-se existente a sociedade fundida
unicamente para efeitos do direito de indemnização.

Art. 115º - tem razões de economia processual

Art. 116º
Januário: quem olha para este artigo percebe que não se justifica a troca de participações
sociais.

Antes era quando sociedade tinham 100% de outra – com base no domínio total de uma
sociedade sobre outra
➢ Agora a lei fala em 90%.

Art. 116º/4 não resolve esta situação

Pode acontecer situação singular de sociedade ter 92% de outra e 8% das ações estavam
dispersas. Todos os sócios menos 1 aceitaram exonerar-se. Questão que se levantava era se o
detentor de 0,5% podia paralisar o processo de fusão ou pelo menos ter uma participação no
capital social da sociedade incorporante.
➢ Janu: sim, das duas podia fazer uma. Exoneração não era obrigatória.

Não se confunde com regime do art. 490º CSC – aqui o que está previsto é que a Sociedade possa
adquirir potestativamente as ações e quotas. O problema é que isso tem de ser feito num
determinado caso (no caso anterior já tinha passado o prazo)

Interpretação restritiva pois art. 116º não prevê uma situação semelhante ao art. 490º CC -
esse artigo tem por objetivo claro o facto de o legislador pretender agilizar as situações de
domínio total de uma sociedade por outra.
➢ Situações que suscitam menor dificuldade em que há tutela mais forte de terceiros
(designadamente o art. 501º - para os credores da sociedade, eles estão mais garantidos
pois podem satisfazer-se com património de sociedade dominada e dominante).
➢ Art. 490º permite aquisição potestativa das participações sociais.
o Sujeito a um procedimento, que em termos de tempo pode inviabilizar em
concreto a sua aplicação – uma vez decorridos os prazos que aqui estão
previstos.

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Art. 490º pode ser antecâmara do art. 116º - mas não há fusão em sentido jurídico.
➢ Juridicamente há autonomia da sociedade dominante face à sociedade dominada.
➢ É situação de aquisição potestativa através do pagamento do valor da respetiva
participação social – este artigo esteve sob o crivo da jurisprudência e chegou ao
Tribunal Constitucional.

Podem haver fusões transfronteiriças entre Estados-Membros da UE: art. 117º-A e ss.
➢ Fusão Interna vs. Fusão Transfronteiriça

Natureza Jurídica
Tese Tradicional – vê na fusão a extinção de uma sociedade e a transmissão dos seus bens para
o património de outra. Sucessão universal semelhante à mortis causa.
➢ Janu: tese em declínio, apesar de ser claro que a sociedade incorporada se extingue,
mas, dogmaticamente essa não é natureza jurídica (de ato de extinção).
➢ Menezes Cordeiro: as partes não têm qualquer interesse em extinguir a sociedade
e pretendem aproveitar o que já existe.

Tese da Transformação – transformação dos entes preexistentes (orientação dominante que surgiu
em Portugal pioneiramente por José Tavares)
➢ Há manutenção das entidades anteriores que, apenas, se transformaram.
o A fusão é, na verdade, uma transformação das sociedades comerciais: os pactos
sociais são alterados, de modo a que as diversas entidades preexistentes
passam a constituir uma só. As situações jurídicas antes encabeçadas pelas
sociedades envolvidas mantém-se ao longo da operação e vão surgir, com toda
a naturalidade, na entidade resultante da fusão, sem que qualquer alteração
nelas se possa revelar.
➢ Januário: Está de acordo com as soluções plasmadas no código.

Cisão de Sociedades – art. 118º e ss. CSC


Dá corpo à reestruturação descentralizada de uma sociedade inicial, facultando a
criação, na sua base de, pelo menos, duas sociedades.

Opera como a contraface da fusão, implicando uma fenomenologia paralela, só que inversa.
➢ Regime da fusão é subsidiário ao regime da cisão – art. 120º CSC

Modalidades de Cisão (art. 118º/1):


Art. 118º/a – Cisão Simples/Destaque
• A sociedade-mãe destaca parte do seu património e, com ele, constitui outra sociedade.
• Requisitos do art. 123º, atendendo ao valor do património da sociedade cindida e o seu
capital social, só podendo ser destacados o ativo e o passivo referidos no art. 124º.
Art. 118º/b – Cisão Dissolução
• Todo o património da sociedade a cindir é abrangido (art. 124º)
Art. 118º/c – Cisão Fusão
• Combina a figura da cisão com a da fusão

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Processo: art. 119º a 125º


Está sempre em causa a preocupação da não desconsideração dos sócios e dos credores da
sociedade.

Natureza Jurídica
A cisão implica uma continuidade com as entidades envolvidas.
➢ Deve entender-se que opera uma verdadeira transformação entre as entidades
resultantes da cisão e a sua (ou suas) antecessora(s).
o Art. 121º dá corpo a esta ideia.

Transformação de Sociedades – art. 130º e ss. CSC


Em termos técnicos, opera como uma mudança de forma: uma sociedade constituída segundo
um dos tipos legalmente permitidos adota a forma correspondente a um tipo diferente.
➢ Modificação do tipo societário sem que isso implique a dissolução da sociedade
o O importante é que não se verifique a quebra de identidade entre a sociedade
considerada antes e depois da transformação.

Afirmação que transformação de sociedade no art. 130º/1 e 2 não importa dissolução.


➢ No caso de ter sido deliberada dissolução – aplicam-se preceitos legais e contratuais quanto à
dissolução.
Transformação não importa a dissolução, salvo se assim for deliberado (art. 130º/3) – havendo
aí uma transformação imprópria.

Sociedade derivada da transformação sucede automática e globalmente à anterior (art.


130º/6).

Impedimentos à transformação: art. 131º


Cabe à administração organizar um relatório justificativo, acompanhado do balanço
mais recente e do projeto de novos estatutos (art. 132º/1).
• Têm aplicação os art. 99º e 101º.
• Exige-se o quórum deliberativo do art. 133º, devendo deliberar-se em separado
o disposto no art. 134º.
• A inobservância destes pontos gera a nulidade.

Art. 270º-A – matéria de sociedades unipessoais por quotas


➢ Regime do EIRL não foi extinto – admite-se transformação mas não é pessoa de um tipo
a transformar-se noutro tipo; é uma coisa que se transforma em pessoa.

Art. 140º - muitas vezes invocado a propósito da fusão e da cisão, embora não exista lá norma
paralela.
• Mas invoca-se porque lato sensu nessas figuras há uma transformação.

Sociedade recorre a crédito e sócios da sociedade prestam garantia. Entretanto há transformação da


sociedade, havendo uma sub-rogação real dos direitos dos sócios: mantêm-se nas novas espécies de
participações (há correspondência e penhor de quotas passa a ser penhor de ações, por exemplo).

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

GRUPOS DE SOCIEDADES
Paulo Olavo Cunha: Ideia em que uma entidade tem uma direção unitária de diversas sociedades.

CSC regula as Sociedades Coligadas a partir do art. 481º


➢ Januário: Parametrização deste regime que, em princípio, é aplicável às relações que se
estabelecem entre sociedades de capitais.
o Outro aspeto de regime a salientar é que isto só se aplica às Sociedades que
tenham sede em Portugal.

SOCIEDADES COLIGADAS – junção de duas ou mais sociedades que estejam sujeitas a uma
influência comum, porque uma participa na outra, ou nas demais, ou porque todas se
subordinam à orientação de uma delas ou de uma terceira entidade.
➢ Pode haver terceira entidade que não participa nas sociedades mas que as controla,
exercendo influência dominante na atividade de uma ou mais sociedades.

Sociedades Coligadas são aquelas que se encontram em relação de simples participação, de


participações recíprocas, de domínio ou de grupo (art. 482º).
➢ Paulo Olavo Cunha: Classificação das Sociedades Coligadas atende fundamentalmente
ao regime jurídico, i.e., à regulamentação que pauta, nomeadamente, a relação de
participação ou de grupo.
o Simples Participação: art. 483º
o Participações Recíprocas: art. 485º
o Domínio: art. 486º
▪ Art. 486º/2 tem presunção de domínio
o Grupo60: art. 488º

1. Sociedades em relação de simples participação: art. 483º


Situação unidirecional
Consequências: art. 484º/1
• Janu: ficam aquém das consequências que poderíamos à partida considerar
• Há efeitos de regime associados, ex: art. 490º

O caso do art. 490º não cabe no caso do art. 483º/1, o caso dos 90% do capital está abrangido
pelo art. 490º.
➢ Antes caberá no art. 486º.

2. Sociedades em relação de simples participação recíproca: art. 485º


Situação bidirecional

3. Sociedades em relação de domínio: art. 486º


Ana Perestrelo de Oliveira: Suscetibilidade de exercício de influência dominante de uma
sociedade sobre outra.

60
Sentido estrito de Sociedades Coligadas

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Januário: Pode ser total ou não total, mas não é esta a linguagem do código.
➢ Se for domínio total tem de ser expressamente dito que é domínio total (passando a ser
um Grupo: art. 488º e ss.)

Art. 486º/2 tem índices que fazem presumir uma situação de domínio.
➢ Presunções iuris tantum associadas a participação maioritária do capital + possibilidade
de designar mais de metade dos membros dos órgãos e etc.
➢ APO: traduzem a verificação empírica de que os administradores seguem as diretrizes
dos acionistas detentores de mais de 50% das participações sociais ou dos direitos de
voto.
o Essas presunções concretizam a noção de influência dominante mas não esgota
o universo.
▪ APO: influência dominante surge, em termos sintéticos, como o poder
que assiste à sociedade dominante de, imediata ou mediatamente, agir
sobre o governo da sociedade dependente, determinando a sua
vontade juridicamente relevante, seja pelo poder de diretamente
escolher administradores (art. 486º/2/c), seja pelo poder exercido
sobre a assembleia geral (art. 486º/3/b) ou ainda por meio diverso.

Situação de domínio permite também parametrizar o âmbito das participações – a partir do


momento em que há presunção de participação maioritária no capital a situação das
participações recíprocas situam-se na margem dos 10% ou 50%

Januário: Caracterização da relação de domínio não está depende de um exercício efetivo.


• Mesmo que não se consiga ilidir a presunção do art. 486º/2, não obstante não exercer
mesmo essa influência.
• Basta que seja possível essa influência
o Compreende-se esta solução pois o direito societário é um direito de ação.

Não é preciso uma relação entre 2 sociedades


Pode haver um domínio vertical e uma cadeia de várias sociedades envolvidas

Diferente do contrato do art. 493º e ss.


Que tem uma problemática diferente dos grupos e facto
➢ Não tendo 100% do capital social pode, de facto, dar instruções vinculantes a outra
sociedade.
➢ Pode estender-se o regime do art. 501º a isto, por analogia? Janu: à partida não

Contraposição entre domínio (art. 486º) e domínio qualificado (aponta para domínio entre a
simples participação maioritária e a qualificada).

Relação de domínio não pertence legalmente a um grupo de sociedades, ainda que possa, na
prática existir a unidade de direção económica e, por essa via, é um grupo de facto.

Art. 487º apenas se aplica às Sociedades por Quotas.


➢ Art. 325º-A e 325º-B regulam a matéria das Sociedades Anónimas

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Sebenta Direito Comercial II / Sociedades Comerciais – 2017/2018 DNB

Quando a relação de domínio assente em participação da dominante no capital social da


dominada, a aquisição de uma participação por esta última no capital da primeira origina
efetivamente uma relação de participações recíprocas (qualificadas).

4. Sociedades em relação de grupo: art. 488º


Paulo Olavo Cunha: relação do modo de concentração de empresas em que há um conjunto de
duas ou mais sociedades, sujeitas a influência comum.

Grupos de Direito: direção económica unitária resulta de um instrumento expressamente


previsto na lei
Grupos de Facto: direção unitária assenta em instrumento não tipificado na lei.
• No direito português, sempre que uma sociedade dispõe de influência dominante sobre
outra verifica-se uma relação de domínio (art. 486º), mas se a sociedade dominante
exercer uma direção económica unitária das sociedades envolvidas, existe um grupo de
facto.
o Ou seja, embora de jure exista apenas relação de domínio, facticamente existe
um grupo porquanto se verifica o critério da direção económica unitária.
o A situação seria evitada se o conceito de grupo fosse construído com base no
conceito de controlo.
▪ O nosso sistema jus-societário não recorre ao termo controlo.
▪ É criticável a solução do CSC, que adota como eixo central o contrato de
subordinação, preferindo o “princípio do contrato” sobre o princípio do
“facto”, de tal forma que, não só os grupos de facto não dispõem de
qualquer regime, vendo o seu espaço de atuação significativamente
limitado, como o próprio domínio total só por remissão é regulado pelo
CSC (art. 491º).

Relações de Grupo61
APO: Pode resultar da titularidade de participação totalitária no capital de uma sociedade
(relação por domínio total: art. 488º a 491º) ou da celebração de um contrato de subordinação
(art. 493º a 508º) ou ainda de um contrato paritário (art. 492º).

Contrato de Subordinação: art. 493º


Constitui objeto essencial deste contrato a sujeição global e total da gestão de uma sociedade
a outra e a inerente atribuição a esta última de um poder de direção sobre a primeira.
➢ Este contrato produz uma deslocação do poder de direção da sociedade-filha para a
sociedade-mãe, operando uma transferência de facto, embora não de jure, das
competências legais do órgão de gestão da sociedade subordinada para a sociedade
diretora.

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POC:
• Sociedades em Relação de Domínio Total: art. 488º
• Sociedades em Relação de Grupo Paritário: art. 492º
• Sociedades em Relação de Subordinação: art. 493º

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Relação de Grupo por Domínio Total


Quando uma sociedade é titular de 100% do capital social de outra – art. 488º
➢ Pode ser inicial ou superveniente.
➢ Exceção do art. 489º/4 – ainda há relação de domínio total mesmo se a sociedade
alienar até 10% do capital detido.

Forma mais intensa de coligação societária prevista no CSC: além do controlo exercido sobre o
órgão de gestão, a sociedade totalmente dominante exerce, na qualidade de sócia única, todas
as competências pertencentes à assembleia geral da dependente, o que constitui uma diferença
qualitativa relevante face à situação de grupo assente no contrato de subordinação.

Art. 501º a 509º, ex vi art. 491º: sociedade-mãe responde pelas dívidas das filiais, estando
obrigada a compensar nas perdas
• Mãe é garante do cumprimento das obrigações da filha
• Situações de grupo que estão inteiramente legitimadas (a prestação de garantias, art.
6º) pelo facto da mãe ser inteiramente responsável pelas dívidas da sociedade
dominada.

Januário: não se concebe o art. 501º sem o art. 503º


• Sociedade-dominante pode dar instruções à sociedade-dominada e tal tem de ser
acatado.
• Não faria sentido que a sociedade-dominante fosse responsável pelas dívidas se ela não
tivesse o poder de dar instruções juridicamente vinculantes.

Art. 501º aplica-se diretamente aos grupos assentes em contrato de subordinação (art. 493º e
ss.) e, por remissão do art. 491º, aos grupos constituídos por domínio total (art. 488º e ss.),
desde que regulados pelo CSC.
➢ Se a relação de domínio total tiver sido estabelecida antes da entrada em vigor do CSC,
a responsabilização da sociedade dominante pelas obrigações da sociedade só é
regulada por este se as mesmas forem posteriores à sua entrada em vigor.

Art. 501º também abrange a responsabilidade por dívidas nos grupos multinível.

Fora deste art. 501º ficam as sociedades em relação de domínio (art. 486º), mesmo quando
forme um grupo de facto.
➢ APO: Não se permite a aplicação analógica do art. 501º às relações de domínio – esta
norma assenta no reconhecimento da legitimidade do poder de direção da sociedade-
mãe sobre a sociedade-filha, suscetível de ser exercido em sentido desvantajoso para
esta última (art. 503º/2), o que não sucede na relação de domínio.

Para efeitos de cômputo das participações sociais, com vista ao apuramento da existência de
domínio total, haverá que atender tanto às participações diretas como às indiretas, relevando
umas e outras simultaneamente.

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Aquisição tendente ao domínio total (art. 490º CSC)


➢ Januário: Pode ser uma antecâmara de uma fusão, mas não necessariamente.

Quando um dos sócios concentra 90% do capital social, pode adquirir as participações dos
demais sócios mesmo sem ou contra a sua vontade e pode, por outro lado, ser obrigado por
estes sócios a comprar tais participações.
• APO: Através do mecanismo nele descrito, o art. 490º promove a transição de uma
relação de domínio qualificado (em que um só sócio detém 90% do capital) para uma
relação de grupo por domínio total superveniente e a consequente aplicação dos art.
501º a 504º (ex vi art. 491º).
• É mecanismo que permite conversão patrimonial da participação social, mediante
contrapartida equitativa, e isto como mera decorrência do estado de sócio.

Art. 490º/1 – direito de aquisição potestativa


Art. 490º/5 – direito de alienação potestativa

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Contrato de Grupo Paritário: art. 492º


POC: há uma terceira entidade que dirige unitariamente o conjunto

Modalidade de contrato de organização pelo qual duas ou mais sociedades independentes


entre si, mantendo embora formalmente as suas estruturas, se submetem a uma direção
unitária e comum.
➢ Relação de grupo (art. 482º/d) de caráter horizontal, distinta das relações de grupo
fundadas em participação totalitária ou em contrato de subordinação, as quais, por
assentarem no poder de direção de uma sociedade sobre outra, apresentam natureza
vertical.
➢ Grupos paritários de facto, não regulados pelo art. 492º, não ficam abrangidos pela lei
mas a sua validade não é afetada se forem respeitados os limites do direito societário
geral.

5. Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS)


Sociedades vocacionadas para a gestão de participações noutras sociedades, como forma
indireta do exercício da atividade económica (sendo, aliás, este o único objeto social
admissível).
➢ Podem ser Lda. ou SA, não existindo nenhuma formalidade para a sua constituição
➢ São holdings e têm como objeto social exclusivo a gestão de participações sociais de
outras sociedades, como forma indireta de exercício de atividades económicas.

Reguladas pelo DL 495/88

6. Problemática jurídica: normas pensadas para os grupos de direito podem ser aplicadas
aos grupos de facto?
➢ Casos em que a Sociedade A domina B a 90% - já permite exportar consequências e
efeitos duma eventual aquisição potestativa (art. 490º), mas, se tal não tiver acontecido
ou não tiver havido vontade.
➢ As coisas podem passar-se como se tivessem em situação de grupo de direito.

Art. 501º está pensado para as situações de domínio total e subordinação


➢ Janu: este artigo não pode ser lido sem a conexão ao art. 502º e 503º: onde é dito que
a sociedade pode dar instruções vinculantes.

Este artigo é manifestação do instituto da desconsideração da personalidade jurídica – quadro


em que se considera o levantamento da personalidade jurídica pois quem celebra o contrato
com terceiros é a sociedade dominada, que tem uma autonomia que continua a existir.
➢ Ao estabelecer (no art. 502º) a responsabilidade dominante, está a estabelecer ex lege
uma solução que ecoa a desconsideração da personalidade jurídica, devido à
responsabilidade da sociedade dominante sem prejuízo da sociedade dominada.

Art. 501º fala em garantia, que funciona em termos corporativos e que articulada com regime
das garantias tem como referência a figura da fiança.
➢ Sociedade dominante pode invocar os mesmos meios de defesa que o devedor principal
(sociedade dominada)

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7. Responsabilidade membros órgão de administração da sociedade subordinante +


Responsabilidade membros órgãos de administração da sociedade subordinada
➢ Pode apelar-se ao regime da responsabilidade dos art. 72º e 74º

Art. 504º exclui responsabilidade dos atos praticados na sequência de instruções vinculantes.
• O que se pretende veicular é uma visão de grupo – há consequências e o sistema está
estruturado de forma equilibrada.
• Há regime próprio para as sociedades abertas (no código valores mobiliários).

Recordar regime dos art. 83º e 84º CSC


• Não se situa no quadro dos grupos nem há pensamento nessa lógica.
• Art. 83º tem potencialidade aplicativa para as sociedades coligadas.
o Administradores de facto e domínios de facto – art. 83º
o Ainda continuamos na parte geral
• Previsões específicas cujo âmbito de aplicação está explicado mas é muito divergente
do âmbito de aplicação do art. 501º

Desenho normativo do CSC é rigoroso e por isso em sociedades coligadas há diversos tipos
➢ Na situação de grupo o regime é equilibrado em virtude do regime do art. 503º
o Como a sociedade dominada tem órgão próprio, não fora a situação de domínio,
esta podia tomar decisões diferentes.

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