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Nova oportunidade

Agressores podem ser reintegrados


à sociedade com menor risco de
cometer o mesmo crime

Um passo à frente
Adote medidas
para proteger

39305 – Quebrando Silêncio 2019


as crianças nos
ambientes
religiosos

VOLTA POR CIMA


Bruna
Designer

Editor

C.Qualidade

Embora deixe marcas profundas, é possível superar


o trauma causado pelo abuso sexual infantil
Depto. Arte

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EDITORIAL
marcadas por dor e sofrimento, e colhendo
S
2 ED
inúmeros problemas, como baixa auto-

GRITOS SILENCIOSOS
estima, depressão, ansiedade, pânico e iso-
lamento social.
Para que esses índices diminuam e os
direitos das crianças e adolescentes sejam
garantidos, é preciso educar a população. E 4 E N
isso poderá ocorrer se famílias e instituições A
religiosas, educacionais e sociais se unirem ca
com o objetivo de instruir as novas gera-
ções a se protegerem e mostrar onde buscar
ajuda. Esse apoio pode ser oferecido, por
exemplo, por meio da realização de pales- 6 A T
tras e debates sobre a temática, além da Sa
distribuição de revistas como esta. o
Com o objetivo de descobrir se as crian-
ças e adolescentes se tornaram vítimas,
é necessário observar mudanças de com-

14 A
portamento e verificar se eles apresentam
algum atraso no desenvolvimento físico,
emocional ou intelectual. O pedido de
POR MARLI PEYERL
ajuda deles pode vir também por meio A
de um familiar, colega ou mesmo professor. O
Acima de tudo, é preciso estar atento, pois d

E
os agressores costumam ser pessoas conhe- r
scuto com frequência os relatos de cidas da vítima e, muitas vezes, pertencer h
pessoas que, durante a infância, ao núcleo familiar. Tudo isso aumenta o
d
sofreram algum tipo de abuso, drama da pessoa violentada, pois ela sofre
seja na escola, igreja ou dentro do sem saber onde pedir ajuda. Ela tem medo

16 O
próprio círculo familiar, ambien- de as consequências de sua história se tor-
tes em que as crianças e adolescentes narem conhecidas.
O ASSUNTO É deveriam estar protegidos. Os índices
relacionados a esse tipo de violência
Diante desse cenário, o projeto Que-
brando o Silêncio não poderia deixar de
O
SENSÍVEL, MAS têm aumentado de maneira assusta- debater sobre um assunto tão sensível, mas A
PRECISA SER dora, e não podemos ficar indiferentes urgente. Por isso, preparamos uma edição o
DEBATIDO, POIS a eles. Segundo uma pesquisa divul- especial para não apenas falar do problema, a
gada pelo Fundo das Nações Unidas mas principalmente apresentar ações de pre- r
É URGENTE
Fotos: © Nichizhenova Elena | Adobe Stock / Victor Trivelato

para a Infância (Unicef) em novembro venção, evitar o aumento do número de víti-


de 2017, 15 milhões de garotas de 15 a mas e dar acolhimento
19 anos haviam sido forçadas a fazer a fim de prestar suporte
sexo, sendo que 60% delas tinham àqueles que carregam
passado por isso no ano anterior à feridas ainda não cica-
pesquisa. trizadas.
Quando nos deparamos com esse
quadro, o grande drama é saber que MARLI PEYERL é educadora e coorde- Editores
por trás desses números encontram- nadora da campanha Quebrando o Projeto
Designe
se vítimas indefesas que estão sendo Silêncio na América do Sul Foto de

2 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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hendo
SUMÁRIO 8 RESGATE DE SI MESMO
O psicólogo que superou um trauma
de violência na infância e hoje ajuda

2 EDITORIAL
auto-
e iso-
outras vítimas

e os
sejam
ão. E 4 ENTREVISTA
uições Advogada explica como denunciar
nirem casos de violência contra crianças
gera-
uscar
, por
pales- 6 ATIVE SEU SISTEMA DE ALARME
m da Saiba como identificar
o abuso infantil
rian-
mas,
com-

14 ALÍVIO PARA 20 QUADRO SOMBRIO


ntam
ísico,
do de
A DOR Como as escolas
23 FELIZES PARA SEMPRE?
meio
essor. O trabalho devem lidar com
a violência sexual

39305 – Quebrando Silêncio 2019


, pois de ONGs que Livro ajuda famílias
onhe- restauram quando ela bate à
em crise a restaurar o
encer histórias porta
casamento
nta o
de vida
sofre
medo

16 O MAL QUE RONDA


e tor-

Que-
O SAGRADO
24 A HISTÓRIA QUE
ar de
Abusos também
NINGUÉM CONTA
, mas O que pode ser
dição ocorrem em
feito para recuperar
lema, ambientes
agressores e evitar a
e pre- religiosos
reincidência?
Fotos: © Nichizhenova Elena | Adobe Stock / Victor Trivelato

e víti-

Bruna
Designer

Editor

Casa Publicadora Brasileira Diretor-geral: José Carlos de Lima


Sinais dos Tempos é Marca Registrada no
Edição Especial • 2019 Diretor financeiro: Uilson Garcia Instituto Nacional de Propriedade Industrial.
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PROTEÇÃO COMEÇA EM CASA


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O
a tem
A MAIORIA lar deveria ser um local de Diante desse cenário, a advogada Luíza famil
DOS CASOS DE referência em segurança Teixeira, chefe do escritório do Fundo das escola
e cuidado para crianças e Nações Unidas para a Infância (Unicef)
VIOLÊNCIA adolescentes. Porém, nos casos na cidade de Manaus, no Norte do Brasil, Op
SEXUAL de violência sexual é geralmente explica como esse tipo de violência pode resolv
ACONTECE na privacidade do ambiente doméstico ser denunciado. Sim
que ocorre o abuso. atribu
NO AMBIENTE Um balanço realizado a partir O que caracteriza o abuso sexual cultu
FAMILIAR. de ligações efetuadas em 2017 para infantil? comb
REPRESENTANTE o Disque 100, serviço brasileiro de É a violência sexual em que menores que le
recebimento de denúncias, constatou são usados para estimular ou satisfazer crime
DO UNICEF que 62% dos atos de violência sexualmente um adulto, com ou sem o uso Par
NO NORTE contra menores foram praticados por de violência, e com ou sem contato físico. abord
DO BRASIL familiares, na residência da vítima ou Diferentemente da exploração sexual, públi
na dos acusados. o abuso sexual não tem gratificação a idei
EXPLICA COMO Em outros países sul-americanos, (monetária ou não) do abusador para a e dos
DENUNCIAR O a situação se repete. Na Argentina, vítima. Contudo, esse crime configura priori
Foto: Divulgação | UNICEF Brasil

ABUSO por exemplo, dados do governo uma grave invasão à sexualidade e à o gov
coletados em 2016 revelaram que integridade física e mental da criança reque
75% dos abusos sexuais contra ou adolescente, violando assim o direito comp
crianças e adolescentes foram deles a um sadio desenvolvimento físico, diagn
cometidos por um familiar. mental, moral, espiritual e social.

4 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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Existem políticas públicas com o E o que pode ser feito quanto à
objetivo de prevenir esse tipo de crime? prevenção?
O Brasil foi pioneiro ao elaborar um É preciso divulgar informações
importante instrumento legal voltado qualificadas sobre o abuso sexual contra
à garantia dos direitos das crianças e meninas e meninos, a fim de educar e
adolescentes: o Estatuto da Criança e do sensibilizar a sociedade sobre a necessidade
Adolescente (ECA), em 1990. É um marco de combater esse crime. Além disso, é
legal histórico e o ponto de partida para necessário trabalhar pela mobilização de
a promoção, elaboração e execução de diversos setores do governo e sociedade a fim
políticas públicas voltadas à prevenção de que os direitos das crianças e adolescentes
de crimes como o abuso sexual contra sejam garantidos e protegidos de qualquer
crianças e adolescentes. violação. E, ainda, é preciso fortalecer o
Por sua vez, o Conselho Nacional dos sistema de responsabilização para combater
Direitos da Criança e do Adolescente a impunidade e garantir o atendimento
(Conanda), criado pela Lei 8.242/1991, é adequado às vítimas. No entanto, para que a
o principal órgão do sistema de garantia prevenção seja bem-sucedida, é fundamental
de direitos previsto pelo ECA. Cabe a que os menores participem de todas as
ele aprovar documentos que norteiem etapas do processo, para que conheçam seus
as políticas públicas nessa área, como direitos e possam reivindicá-los.
o Plano Nacional de Enfrentamento
da Violência Sexual contra Crianças e Quais autoridades devem ser
Adolescentes, de 2014. informadas quando o abuso ocorrer?
A prevenção é um dos eixos do plano, As entidades de proteção à criança
que preconiza o envolvimento das ou a polícia devem ser imediatamente

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diferentes mídias em campanhas sobre informadas. São elas que darão
a temática, o fortalecimento da rede o encaminhamento para efetivar
Luíza familiar e comunitária e a inserção das a denúncia. Vale lembrar que
o das escolas nessas mobilizações. qualquer pessoa que suspeite ou tome
ef) conhecimento de um caso de violência
rasil, O problema parece complexo para se sexual tem a obrigação de acionar
ode resolver. esses órgãos. Isso vale, inclusive,
Sim. O abuso sexual tem causas diversas para educadores, líderes religiosos,
atribuídas a uma série de fatores sociais, profissionais de saúde e familiares.
culturais e econômicos. Por isso, o
combate requer uma resposta abrangente PRINCIPAIS CANAIS DE DENÚNCIA
s que leve em conta a complexidade desse Brasil: Disque 100 e aplicativo Proteja Brasil
er crime. (gratuito, 24 h, todos os dias)
o uso Para tanto, é preciso ter uma A rgentina: 0800-222-1717 (gratuito, 24 h,
sico. abordagem que envolva outros órgãos todos os dias)
, públicos e atores sociais e que promova Chile: 800 730 800 (de segunda a sexta-feira,
Bruna
a ideia de que os direitos das crianças das 9h às 18h)
Designer
a e dos adolescentes devem ter absoluta Paraguai: telefone (147) e aplicativo Fono
a prioridade para a família, a sociedade e Ayuda (gratuito, 24 h, todos os dias)
Foto: Divulgação | UNICEF Brasil

Editor
o governo. Nesse sentido, a prevenção Uruguai: Línea Azul 0800 5050 (gratuito)
requer, primeiramente, a correta Bolívia: Línea 156 (gratuito, 24 h, todos os dias)
C.Qualidade
ito compreensão desse problema, por meio de Peru: Línea 100 (gratuito, 24 h, todos os dias)
co, diagnósticos, pesquisas e dados. Equador: 1800 DELITO (opção 4) ou ECU 911
Depto. Arte

QUEBRANDO O SILÊNCIO 5

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GUIA

Ative seu sistema


de alarme
1 Saiba com quem a criança está e o que
fazem enquanto estão juntos
O MEDO PODE LEVAR UMA
CRIANÇA A SOFRER CALADA
DENTRO DE CASA. ENTENDA
COMO IDENTIFICAR SE ELA É
VÍTIMA DE ABUSO SEXUAL
PA B L O CA N A L I S

P
ode ser que a infância, uma das fases
mais belas da vida, esteja sendo roubada
pela violência sexual contra alguma
criança que você conhece. Trata-se de
uma situação complexa de identificar:
há aquelas que falam, demonstram ou ten- 2 Desconfi e se ela repentinamente não quer
estar perto de alguém conhecido
tam dizer, de alguma forma, o que vivenciam.
Outras, no entanto, calam-se diante do medo
das consequências que podem se tornar reais
caso seu sofrimento seja exposto.
O abuso sexual infantil é um fator de risco
que pode levar à depressão, ansiedade, pânico,
isolamento social ou transtorno da personali-
dade. Por isso, é preciso ter um diálogo aberto
com as crianças, manter-se atento a esses sin-
tomas e pronto para agir rapidamente, sempre
com amor e cuidado. Atente para as orienta-
ções a seguir.

PABLO CANALIS é psiquiatra com especialização em Medicina


da Família 3comportamento,
Observe se há uma mudança repentina de
Ilustrações: Paulo Vieira

sem causa aparente, como


irritação e choro

6 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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8 Se o abuso for confirmado, não se desespere. 7 Marque uma consulta com um psicólogo infantil.
Pode ser que a criança esteja com medo de lhe
Com um tratamento adequado, ela tem muitas contar o que está vivendo
o que chances de superar o trauma
os

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6 Em caso de suspeita, investigue a situação

9 Ame, proteja, escute e se coloque


ao lado da criança

Bruna
Designer

Editor

a de
Ilustrações: Paulo Vieira

como C.Qualidade

4 Perceba se a criança se isola, se alimenta de 5 Nunca desconsidere o que ela compartilha com Depto. Arte
você, ainda que por meio de desenhos
maneira diferente, tem pesadelos e passa a
urinar e defecar na cama à noite QUEBRANDO O SILÊNCIO 7

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C O M P O RTA M E N T O

O ABUSO SEXUAL APRISIONA E AFETA A


AUTOESTIMA E A IDENTIDADE DA VÍTIMA.
CONHEÇA A HISTÓRIA DE UM PSICÓLOGO
P
uma h
cristal
que di
QUE SUPEROU ESSE DRAMA E HOJE AJUDA SEUS muito
Qu
PACIENTES A FAZER O MESMO mais
relato
PA B L O A L E abusa
por u
lescên
Foto: © Kevin Carden | Adobe Stock

vida f
nenhu
todos
garot
nem
desab

8 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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39305 – Quebrando Silêncio 2019
P
ablo (nome fictício) me olha fixa-
mente e fala com a segurança de
quem conhece o assunto. Poucos
imaginam que por trás de seus olhos
azuis, intensos e inquietos, se esconde
uma história tão terrível. Suas palavras fluem,
cristalinas, rápidas, numa enxurrada de letras
que disputam entre si para serem ouvidas. Há
muito a ser dito.
Quando gesticula, tenta tornar as ideias
mais claras. Mas isso não é necessário. O
relato é real e contundente por si só: “Fui
abusado sexualmente desde os quatro anos
Bruna
por um amigo da minha família. Na ado- Designer
lescência, outra pessoa fez o mesmo. Minha
Foto: © Kevin Carden | Adobe Stock

vida foi um inferno. Não tinha paz em lugar Editor


nenhum. Na escola, eu sofria bullying de
todos por ter um jeito diferente dos demais
C.Qualidade
garotos. Apanhava e minhas professoras
nem percebiam. E eu não me defendia”, Depto. Arte
desabafa.

QUEBRANDO O SILÊNCIO 9

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ESTATÍSTICAS PREOCUPANTES “Isso é outro dos motivos que geram abuso: você não
se sente digno. E esse sentimento de indignidade o leva a
É um
você s
pensar: ‘Se alguém abusa de mim, e os demais me batem, com v
Os números assustam. Cerca de é porque eu mereço.’ E isso acaba crescendo: ‘Se alguém porqu
próximo, que supostamente deveria me cuidar, abusou de vítima
300 milhões de crianças no mim, então por que um estranho na escola não faria o
mesmo?’ E foi isso que aconteceu comigo. Cresci com uma
culpa

autoimagem totalmente distorcida, e também não tinha ♦ En


mundo vivem em situação de violência clara a minha orientação sexual. Isso era muito notável, ♦ Sim

e 15 milhões de mulheres e assim foi até o início da vida adulta.”


Essa é a história de Pablo, um cristão que hoje pode
ressen
que fi
contar sobre esse capítulo de sua vida com segurança e
entre 15 e 19 anos já foram vítimas de paz. Graduado em Psicologia, exerce a profissão há mais ♦ Qu
de 20 anos. Hoje, como pai de família ele se sente feliz. abuso
abuso, segundo dados do relatório “Uma No entanto, seu caminho foi mais longo do que isso. vida a
“Como cristão, eu culpava a Deus por tudo o que acon- ♦ As
Situação Habitual: Violência na Vida de tecia comigo. Estava zangado com Ele. Minha aflição era gener
tão forte que busquei uma fuga no que, equivocadamente, rentes
Crianças e Adolescentes”, elaborado pelo achava que me traria paz. Abandonei a fé e me refugiei baixa
no álcool e nas drogas. Comecei a ter um estilo de vida blema
Fundo das Nações Unidas para a Infância totalmente livre, inclusive no aspecto sexual”, detalha. reagir
“Isso trouxe consequências. Por exemplo, fui contagiado próxi
(Unicef), em 2017. Esses números fizeram com HIV e provoquei um verdadeiro desastre em meu e o ví
corpo e minha vida.” de for
com que a questão da violência contra Quando lhe pergunto se essa fuga ajudou a conter sua com p
dor, ele responde com precisão: “Sim, momentaneamente.
a criança, incluindo a sexual, entrasse Você curte por um momento, e no outro dia se sente ♦O
vazio, sem nada... Com a mesma culpa, com o mesmo sexua
na nova Agenda Global de Objetivos ódio, pois era assim que eu vivia, com ódio de tudo e de ♦ Fal
todos: daqueles que abusaram de mim, da vida, de Deus. tamb
de Desenvolvimento Sustentável 2030, No entanto, Ele fez um milagre em mim. Não foi instan- Eles n
tâneo, mas gradual.” um la
elaborada pela ONU. Hoje Pablo está convencido de que tudo o que viveu e por o
suportou pôde ser direcionado para o bem. E reforça que algué
isso o ajuda no tratamento que oferece a seus pacientes Por
que foram vítimas de abuso. Sua triste experiência com nutrin
esse tipo de violência acabou contribuindo no seu preparo pre ab
profissional. o que
isso d
♦ O abuso que você sofreu ocorreu em um ambiente sultór
familiar. Em geral, é nesse contexto que acontece esse palav
Foto: © Photographee.eu | Adobe Stock

tipo de violência? se diz


♦ Sim, na maioria dos casos. O abusador de menores como
age dentro do círculo familiar e raramente é um estra-
nho que passa pela rua. Seja na América Latina ou em ♦ Se
outras partes do mundo, a violência ocorre no ambiente da ♦ Cu
criança. O abusador a conhece e a manipula emocionalmente. sário
No meu caso foi assim. Ele me dava coisas e prometia outras. abuso

10 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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SILÊNCIO QUE MATA


ê não É um mecanismo muito perverso, porque o agressor faz por exemplo, que sente prazer em ver uma criança
leva a você se sentir especial. Tão especial que faz o que quer nua também é um abusador, mesmo que não lhe
atem, com você. Assim, a vítima chega a pensar: “Sou especial, tenha tocado. Isso não é normal. É perverso sentir
guém porque fui escolhido entre outros.” Isso também faz a prazer tocando ou vendo o corpo de uma criança.
ou de vítima pensar que é cúmplice do abuso, como se tivesse Depois de cuidar da vítima, os pais precisam denun-
aria o culpa em ter atraído a atenção para si. ciar o abusador, por mais difícil que seja acusar um
m uma familiar ou amigo próximo. No entanto, é preciso
tinha ♦ Então há uma inversão de papéis? enfrentar o problema e afastar o abusador.
tável, ♦ Sim, e isso nos atormenta por muito tempo. Além do
ressentimento e da raiva, a culpa é o pior sentimento ♦ Como é possível superar um abuso?
pode que fica após o abuso. ♦ O importante é pensar não apenas a partir de uma
nça e perspectiva psicológica, mas espiritual. Há angústia e
mais ♦ Que consequências psicológicas decorrem de um tristeza que contaminam todas as dimensões do ser.
feliz. abuso? Como isso repercute no êxito ou fracasso na Por isso, se agregarmos o aspecto espiritual, tudo
o. vida adulta? muda. A saída é espiritual. E por onde passa? Pelo
acon- ♦ As consequências são muitas e terríveis. Não se pode perdão. Assim é possível viver uma vida cheia de paz.
ão era generalizar porque, como seres humanos, somos dife- O perdão é incompreensível e grandioso. Mais do que
mente, rentes e únicos. Porém, em geral, o abuso pode gerar uma palavra, é uma atitude; é dar-se conta de quem
fugiei baixa autoestima e distúrbios, como depressão e pro- é verdadeiramente seu inimigo.
e vida blemas sexuais. Meninos e meninas também tendem a Durante muito tempo, culpei a Deus e Lhe perguntei
talha. reagir de forma distinta. Ao crescer, o caminho mais onde Ele estava quando tudo isso me acontecia. Para
giado próximo para um garoto abusado é a homossexualidade mim, teve efeito curativo pensar que Deus sofria mais
m meu e o vício em drogas; e para uma garota é a dificuldade do que eu. E sofria mais porque Ele podia impedir, mas
de formar uma união estável ou de não conseguir viver o permitia por alguma razão que eu desconhecia. Anos

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er sua com prazer sua sexualidade. mais tarde, compreendi que estamos imersos em um
mente. grande conflito cósmico entre o bem e o mal. Quem
sente ♦ O que os pais podem fazer para prevenir o abuso me feriu não é mais que um instrumento nas mãos do
esmo sexual infantil? diabo. Sei que é difícil entender, mas meu abusador
o e de ♦ Falando sobre esse problema e a questão da culpa. Eu também necessita de ajuda e pode ser restaurado. Se
Deus. também culpei meus pais pelo que aconteceu comigo. Deus me perdoou por tudo o que fiz como pecador,
nstan- Eles não perceberam o que sofri e isso me marcou. Por também pode perdoar meu abusador. E, com a ajuda
um lado, questiono por que não cuidaram de mim, mas divina, eu também posso fazer isso.
iveu e por outro entendo que dificilmente desconfiariam de
a que alguém próximo, em quem confiavam. Pablo continua me olhando fixamente. Ele se emo-
ientes Por isso, os pais devem criar vínculos com os filhos, ciona, chora e sorri, quase tudo ao mesmo tempo. O
a com nutrindo um ambiente de confiança, para que eles sem- caminho percorrido causou-lhe marcas profundas.
eparo pre abram o coração. Muitas vezes, a criança não sabe Hoje, essas marcas são medalhas de vitórias. Graças
o que estão fazendo com ela e pode chegar a contar a elas e a Deus, podem resgatar outros desse inespe-
isso de forma indireta. Certa vez, tive um caso no con- rado e injusto abismo que é o abuso sexual infantil.
biente sultório em que uma menina dizia: “Meu tio me faz Não consigo continuar olhando para ele sem que
Bruna
e esse palavras más.” A professora a corrigiu e lhe disse: “Não uma lágrima caia. Seu relato é comovente. “Se me Designer
se diz me faz, e sim me diz.” Porém, investigaram e era perguntar se essa tragédia pode ser superada, eu digo
nores como a menina dizia: o tio fazia coisas más com ela. que sim, pode ser superada.” Seu sim é um sim pleno, Editor
estra- contundente. Parte de quem sabe o que diz.
ou em ♦ Se isso ocorre, o que fazer?
C.Qualidade
nte da ♦ Cuidar da vítima é a primeira providência. É neces- PABLO ALE é jornalista, pastor e mestre em Literatura. Ele trabalha como
mente. sário levá-la a um centro especializado, ainda que o editor de revistas na Asociación Casa Editora Sudamericana, em Buenos Aires,
Depto. Arte
utras. abuso não tenha envolvido contato físico. Um adulto, Argentina

QUEBRANDO O SILÊNCIO 11

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MITO OU REALIDADE? MITO
Os agressores usam
a força física para abusar
sexualmente das
crianças. REALIDADE
Ao contrário, utilizam
MITO
REALIDADE estratégias de persuasão e
Os abusos sexuais
Aplicados de forma adequada manipulação como jogos, mentiras e
contra crianças não
para cada idade, os programas ameaças. Essas táticas podem incluir
são frequentes.
educativos, em vez de deixá-las desde a compra de presentes até
REALIDADE com medo, ajudam as crianças a mesmo a organização de
São, sim. Segundo dados da atividades especiais.
desenvolver habilidades a fim de MITO
Organização Mundial da Saúde (OMS),
se protegerem dos agressores Crianças muito
divulgados em 2016, uma em cada cinco
de maneira eficaz. pequenas não precisam
mulheres e um em cada 13 homens
declararam haver sofrido abuso saber sobre o abuso sexual
sexual na infância. porque teriam medo do MITO
assunto. As crianças
mentem e inventam
MITO quando falam que
As crianças que foram abusadas.
REALIDADE sofreram abusos sexuais REALIDADE
Isso ocorre em uma se tornam adultos Não está claro se as crianças mentem
proporção muito pequena e nos agressores. mais que os adultos. Ao contrário, as crianças
casos em que o menor não recebeu são mais transparentes e sinceras. Em verdade, elas
tratamento. Por causa desse mito, muitos aprendem a mentir quando crescem. Por outro lado, as
adultos que foram violentados temem falar crianças pequenas não têm maturidade nem habilidades
da sua experiência, pois imaginam que cognitivas necessárias para inventar e sustentar uma
possam ser vistos como possíveis mentira complexa. Menos ainda poderiam fazê-lo
abusadores. frente a profissionais de saúde mental treinados
para avaliá-los. No entanto, existe uma
porcentagem de denúncias desse tipo
que são falsas.
MITO
Os agressores têm um
perfil comportamental MITO
REALIDADE específico, geralmente são Os abusos sexuais
Qualquer pessoa pode ser pessoas mais isoladas. ocorrem contra crianças
um abusador. Tanto homens como
de famílias socialmente
mulheres, heterossexuais ou homossexuais,
vulneráveis.
pessoas neuróticas, psicóticas ou perversas. Não
existe um perfil de personalidade específico nem testes REALIDADE
que detectem quem agrediu ou tem potencial de abusar O problema atinge todos os estratos
sexualmente de uma criança. Isso dificulta a prevenção, socioculturais. O que ocorre é que os
Foto: © Photographee.eu – Fotolia

pois o abusador costuma ser uma pessoa próxima e de


Foto: © Samuel | Adobe Stock

casos de abuso em classes sociais mais


confiança da família, alguém cujo comportamento altas são subnotificados e têm menor
social (que se vê) não revela sua conduta visibilidade na mídia.
sexual (que não se vê).

cp
12 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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Viva com
as e
cluir

amor
Segredos da Vitória no Amor
ERONILDES DE NICOLAS

Mais do que apenas um livro, esta é uma valiosa orientação psicológica para ajudar
você a alcançar êxito no amor. Para o autor, as pessoas que experimentam a derrota
na vida é porque geralmente estão fracassando também nos relacionamentos.
tam Elas têm dificuldade para dar e receber afeto. Por isso, é preciso aprender a amar.
que E alguns dos segredos estão neste livro.
as.

Amores que Matam

39305 – Quebrando Silêncio 2019


s MIGUEL ÁNGEL NÚÑEZ
es
A violência contra a mulher é um problema que tem atingido praticamente todas
as classes sociais. Não importa se ela é física ou psicológica, os danos são terríveis
e podem se tornar irreversíveis se não forem tratados em tempo. Este livro surge
num momento oportuno, pois aborda questões como a violência doméstica, os
mitos sobre o agressor e a mulher agredida e o papel que a igreja deve assumir
com respeito ao assunto.

s
nças
ente
MKT CPB | Fotolia

Bruna
Designer
Foto: © Photographee.eu – Fotolia
Foto: © Samuel | Adobe Stock

Editor

C.Qualidade

Depto. Arte
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Pessoa jurídica/distribuidor 15 3205-8910 | atendimentolivrarias@cpb.com.br /casapublicadora

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S O C I E DA D E

Alívio
lizada
atend
As
receb
tes so

para a dor
res, q
famil
víncu
varia
Ou
mesm
(Defe
Adole
capita
Estab
volunt
está li
Hosp
Federa
tos di
vítima
CONHEÇA O TRABALHO DE ONGS com o
tras, p
QUE AJUDAM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA
outro
SEXUAL A SE RECUPERAREM DOS Am
coord
TRAUMAS DA INFÂNCIA que a
encam
JÉSSICA GUIDOLIN sam p
suas f
tipo d
Na
tamen
agress

A
infância é uma fase de grandes que r
descobertas, alegrias e desenvolvi- foram
mento. Entretanto, tudo isso é rou- em su
bado quando a violência impera, tamen
aproveitando-se da fragilidade e tribui
inocência das crianças, e levando-as a cole- que h
cionar amargas memórias. pais a
Por isso, os casos que são denunciados para Em
Foto: © ryanking999 | Adobe Stock

as autoridades precisam de intervenção: dos que p


órgãos públicos competentes e, muitas vezes, violên
do trabalho complementar das Organizações crian
Não Governamentais (ONGs) especializadas. res. “
Uma delas é o Centro Regional de Atenção mos d
aos Maus-Tratos na Infância (Crami), loca- sexua

14 QUEBRANDO O SILÊNCIO

39305_QuebrandoSilencio.indd 14 11/02/2019 17:18


lizada em Campinas (SP), Brasil, que NOVA HISTÓRIA Bolívia, atua em três frentes: eliminar
atende 270 famílias por ano. Contudo, memórias amargas a violência contra meninos e meninas;
As crianças abusadas sexualmente podem ser substituídas por um ciclo assegurar que estejam matriculados
recebem o acolhimento de assisten- de recomeço. É o caso de Júlia (nome em uma escola; e garantir que parti-
tes sociais, psicólogos e educado- fictício), que há alguns anos rece- cipem ativamente da sociedade. Um

r
res, que também dão suporte aos beu suporte do Dedica. Entretanto, de seus projetos está ligado à preven-
familiares para a restauração dos seu sofrimento não foi denunciado, ção da gravidez na adolescência. Em
vínculos. A duração do tratamento e sim observado até chegar ao tra- outra região do território peruano, a
varia entre um e cinco anos. tamento. Na época, a jovem de 25 ênfase está na prevenção da violên-
Outra entidade que compartilha o anos de idade tinha dois filhos – um cia sexual, por meio de conscientiza-
mesmo objetivo é o programa Dedica de 14 e outro de 12 –, o que revela ção quanto aos riscos para crianças
(Defesa dos Direitos da Criança e do que ela engravidou pela primeira vez e adolescentes tanto no mundo real
Adolescente), localizado em Curitiba, aos 11 anos. quanto no virtual.
capital do Paraná, no Sul do Brasil. Sua história veio à tona porque um “Trabalhamos muito com as
Estabelecida em 2004 por uma equipe de seus filhos foi internado no Hospi- famílias e a comunidade. Nosso
voluntária de médicos, hoje a entidade tal de Clínicas. Porém, no momento objetivo é chegar a eles antes que
está ligada à Associação de Amigos do da alta, Júlia entrou em desespero e o abuso seja cometido. Em nossa
Hospital de Clínicas da Universidade não parava de chorar. A reação dela experiência, se os adultos são infor-
Federal do Paraná, oferece atendimen- chamou a atenção da equipe médica, mados sobre os riscos de deixar as
tos diários e interdisciplinares para que solicitou uma avaliação. Os pro- crianças sozinhas durante todo o dia
vítimas de violência grave/gravíssima, fissionais descobriram que desde os ou de deixá-las ter acesso à inter-
ONGS com o apoio de psicólogos, psiquia- sete anos de idade Júlia era violen- net sem falar dos riscos de alguém
tras, pediatras, assistentes sociais e tada pelo padrasto. tentar seduzi-las, isso minimiza
ÊNCIA
outros especialistas. Seu desespero era o pedido de os resultados negativos”, assegura

39305 – Quebrando Silêncio 2019


M DOS A médica Luci Pfeiffer, criadora e ajuda de alguém que era escravizada Maria Villalobos, diretora da Save
coordenadora da iniciativa, explica sexualmente e com o consentimento the Children no Peru.
NCIA que as crianças e adolescentes são da própria mãe. Sem poder frequen- A maioria dos casos atendidos
encaminhados ao ambulatório e pas- tar a escola, Júlia não foi alfabetizada pela ONG é de meninas e garotas
DOLIN sam por uma avaliação, assim como e seus filhos também sofriam vio- adolescentes que não receberam
suas famílias, a fim de diagnosticar o lência psíquica e física. Mesmo sub- orientação preventiva a respeito de
tipo de violência e o nível de gravidade. metidos a tamanha crueldade, eles abuso sexual na escola, em casa ou
Na sequência, é determinado o tra- conseguiram reconstruir a própria na comunidade. É a partir desse
tamento a ser aplicado à vítima e ao vida com a ajuda da Dedica. perfil de vítimas em potencial que
agressor. “Em mais de 80% dos casos “Esse caso foi muito especial por- a entidade desenvolve metodologias
andes que recebemos aqui, os agressores que, desde a primeira conversa que de prevenção.
volvi- foram vítimas de violência gravíssima tivemos, ela entendeu toda a situação, “Independentemente do tipo de
é rou- em sua infância, e não receberam tra- e a partir daí fez todas as denúncias projeto que façamos, queremos
mpera, tamento adequado. Nossa maior con- que eram possíveis. Foi uma história que as crianças tenham protago-
ade e tribuição é impedir que essas crianças muito emocionante para nós. Hoje nismo e conheçam seus direitos.
cole- que hoje são vítimas, amanhã sejam ela tem uma vida digna”, pontua a Quando não se sabe quais são seus
Bruna
pais agressores também”, sublinha. médica Luci Pfeiffer. direitos, é mais fácil que pisem Designer
s para Em 2017, mais de 93% dos casos em você e o manipulem. Porém,
Foto: © ryanking999 | Adobe Stock

o: dos que passaram pela equipe eram de PREVENÇÃO NECESSÁRIA se você conhece seus direitos, terá Editor
vezes, violência intrafamiliar, em que a Por outro lado, há entidades que ferramentas para se proteger”,
ações criança foi refém de seus agresso- investem em medidas para evitar que o garante Maria.
C.Qualidade
zadas. res. “Desse tipo de abuso, atende- abuso aconteça. No Peru, a Save
enção mos desde violência psíquica até a the Children, organização presente JÉSSICA GUIDOLIN é jornalista (com colaboração Depto. Arte
loca- sexual”, informa a pediatra. em mais de 120 países, incluindo a do jornalista Deyler Vásquez)

QUEBRANDO O SILÊNCIO 15

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R E L I G I ÃO

O mal
que ronda o
sagrado
A violência sexual também
ocorre em ambientes religiosos.
Saiba como as comunidades
de fé podem se envolver na
proteção das crianças

HE R ON S A N TA N A
Foto: © yupachingping | Adobe Stock

16 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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O mal que os homens praticam sobrevive
a eles. O bem quase sempre é sepultado com

39305 – Quebrando Silêncio 2019


eles.” No texto da peça teatral Júlio César, do
poeta e dramaturgo inglês William Shakes-
peare, a frase acima faz parte do discurso
do imperador Marco Antônio, nas escadarias do Senado
bém Romano, em frente ao corpo de Júlio César, assassi-
nado a facadas pela conspiração de Brutus e Cassius.
osos. A máxima parece extrapolar a ficção e se personificar
na realidade deste mundo em que a violência e o mal
ades são expressões de que algo de errado e muito grave está
enraizado na vida humana.
er na É o caso dos indicadores de violência sexual. Os dados
mostram que as crianças estão no epicentro dessa tor-
nças menta. Por exemplo, o estudo “Violência contra Crian-
ças e Adolescentes – Percepções Públicas no Brasil”, da
ONG cristã Visão Mundial, em parceria com a empresa
ANA de pesquisa Ipsos, apontou o Brasil como o país mais
Bruna
violento contra crianças e adolescentes, em comparação Designer
com outras 13 nações da América Latina.
Foto: © yupachingping | Adobe Stock

A pesquisa foi realizada em 2017 e ouviu mais de Editor


6 mil pessoas. Abuso físico e psicológico, trabalho
infantil, casamento precoce, ameaça on-line e violência
C.Qualidade
sexual fazem parte de uma lista trágica que corrompe
a infância nessa região do mundo. Depto. Arte

QUEBRANDO O SILÊNCIO 17

39305_QuebrandoSilencio.indd 17 11/02/2019 17:18


Quanto à percepção dos entrevistados sobre a vio- denúncias envolvendo comunidades religiosas são notifi- PROT
lência, 13% dos brasileiros disseram que enxergam cadas, talvez, por causa do que ela chama de “temor reve-
como alto o risco de uma criança sofrer esses tipos rencial” (leia o quadro “Proteja as ovelhas dos lobos”).
Líde
de abuso no país; índice maior que os 11% dos mexi- Sua fala lembra a obra Microfísica do Poder, do ao deix
canos e 10% dos peruanos e bolivianos. Um recorte teórico social Michel Foucault, para quem a huma- proativ
do estudo também chama a atenção: os ambientes de nidade se tornou escrava não apenas das instituições Reju, do
risco. De acordo com os entrevistados, o espaço público políticas, mas de outras formas de poder, sem que a
(52%) oferece maior risco para crianças e adolescentes, maioria das pessoas tenha preparo para o exercício
seguido do lar (21%), da escola (13%) e dos ambientes do poder. Também transita pela teoria apresentada no
religiosos (3%). livro O Poder Simbólico, do sociólogo Pierre Bourdieu:
se o poder está em toda a parte, quando o assunto é
PROFANAÇÃO abuso de poder, é necessário saber descobri-lo onde TRE
Merece reflexão esse último dado apontado pelo ele se deixa ver menos, onde ele é mais completa-
Prep
estudo latino-americano da Visão Mundial. A explosão mente ignorado, sendo exercido com a cumplicidade
bem se
de denúncias na imprensa sobre abusos contra menores, daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos e minis
envolvendo líderes religiosos, indica que os ambientes ou mesmo que o exercem. ças é alg
de culto também precisam da atenção e vigilância de “Em qualquer templo você encontra o irmão. Por- estar cla
seus frequentadores. Quem reforça esse alerta é a advo- tanto, cria-se a ideia de que aquele seja um ambiente e os vete
gada Maíra Vida, conselheira da Ordem dos Advoga- familiar, de confiança. Contudo, podemos acabar des-
dos do Brasil (OAB), na seccional Bahia. Ela também considerando que as pessoas trazem para o ambiente
é presidente da Comissão de Combate à Intolerância religioso as experiências de vida”, reflete Maíra. “Para
Religiosa na OAB-BA. mim, parece que há até a negação veemente de que
CRIAR
Maíra pontuou que o problema deve ser maior do esse problema possa ocorrer no ambiente religioso,
POL
que o que se tem conhecimento e lamenta que exis- pois se pressupõe que haja ali a presença de Deus.
tam poucos estudos sobre esse tipo de violência no Para alguns, é difícil imaginar que nesses espaços
contexto religioso. Por sua atuação na OAB-BA, Maíra também se cogite o mal e possa haver a manifesta- São
tem recebido denúncias de mulheres que sofreram abuso ção da crueldade, do ódio e da violência que estão pela co
indicam
sexual de babalorixás, pastores e líderes religiosos de con- no indivíduo”, conclui.
teger a
fissões diversas. Para ela, o problema da violência sexual
seus cu
é interconfessional. Porém, Maíra entende que poucas HERON SANTANA é jornalista
abusos
entes “s
ou de q
podem
vulnerá
OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?

A religião ajuda ou atrapalha no combate à violência sexual, especialmente contra as mulheres? Por vezes, o discurso e as estruturas das instituições
religiosas são usados para legitimar alguns tipos de violência contra a mulher ou para, no mínimo, favorecer o silenciamento delas. Negar, por exemplo,
que abusos ocorram nos círculos religiosos, não denunciar agressores, culpar as vítimas ou tratar a violência doméstica como um problema privado, no GA
qual não “se põe a colher”, são posturas que reforçam a cultura da violência. T
Por outro lado, uma religiosidade saudável serve de impulso para quebrar o ciclo de violência, desenvolver resiliência e esperança e recuperar a pró- Pro
estar n
Foto: © highwaystarz | Adobe Stock

pria autoestima. Comunidades religiosas podem ser muito importantes também no acolhimento das vítimas, dando a elas um senso de pertencimento.
Um estudo do Instituto de Pesquisas do Senado do Brasil mostrou que, em 2015, 7% das mulheres agredidas entrevistadas buscaram apoio na igreja, comun
sério, a
sendo que, em 2017, esse número subiu para 19%. Essa demanda mostra também a necessidade de líderes religiosos serem preparados para atuar como
sos e vo
agentes de prevenção e combate à violência sexual.
dade, b
Fontes: “Violência doméstica: uma cartilha para mulheres, técnicas e técnicos do poder público e lideranças religiosas” (Umesp, 2018) e pesquisa “Violência
tocolos
doméstica e familiar contra a mulher” (DataSenado, 2017) infanti

18 QUEBRANDO O SILÊNCIO

39305_QuebrandoSilencio.indd 18 11/02/2019 17:18


notifi- PROTEJA AS OVELHAS DOS LOBOS
r reve-
bos”).
Líderes e comunidades religiosas podem ajudar a proteger as crianças na Igreja Batista de Capitol Hill, em Washington (EUA), apresenta dez suges-
er, do ao deixarem a postura meramente reativa para assumirem uma agenda tões com base em seus estudos e experiência. Apesar de essas orientações
uma- proativa de prevenção. Nessa direção, o pastor norte-americano Deepak virem de um contexto evangélico e norte-americano, sua aplicação pode
uições Reju, doutor em Teologia e líder do ministério de aconselhamento familiar ser mais ampla, servindo para outras regiões do mundo e grupos religiosos.
que a
rcício
da no
rdieu:
unto é ATENTE PARA ESPAÇOS IMPOR UM PROCESSO DE
onde TREINAR VOLUNTÁRIOS FECHAR O CERCO ISOLADOS CHECK-IN E CHECK-OUT DAS
pleta- CRIANÇAS
Preparar pessoas para fazer A maioria dos abusadores pre- Idealmente, a construção do
idade
bem seu trabalho em programas sume que não terá que prestar con- templo deve valorizar a funciona- Esse procedimento cria uma
jeitos e ministérios que envolvam crian- tas. Por isso, verificar antecedentes lidade e a segurança de seus usuá- “cerca” ao redor dos pequenos,
ças é algo muito importante. Precisa criminais de novos membros e de rios. Portanto, avalie se os espaços permitindo que eles fiquem em
. Por- estar claro para os novos voluntários voluntários pode ajudar a intimi- utilizados para as atividades infantis segurança até que sejam devol-
biente e os veteranos o que se espera deles. dar quem estiver mal-intencionado. não favorecem o isolamento. vidos aos pais.
r des-
biente
“Para
e que
CRIAR E IMPLEMENTAR UMA
gioso,
POLÍTICA DE PROTEÇÃO TER UM PLANO DE CONHECER QUEM CONHECER SUA
Deus.
INFANTIL RESPOSTA AO ABUSO FREQUENTA A IGREJA COMUNIDADE

39305 – Quebrando Silêncio 2019


paços
festa- São diretrizes autoimpostas A comunidade religiosa pre- Abusadores sexuais podem se Os líderes religiosos devem pro-
estão pela comunidade religiosa que cisa discutir previamente como valer do fato de que templos reli- curar estabelecer um relacionamento
indicam como ela pretende pro- lidar com um caso de abuso sexual giosos geralmente são espaços de próximo com profissionais, órgãos
teger as crianças que estão sob infantil, o que envolve oferecer livre acesso. Por isso, é importante públicos e ONGs que lidam com a
seus cuidados. As crenças de que acolhimento para a vítima e a que mesmo aqueles que não são questão na cidade ou bairro. Dessa
abusos não ocorrem em ambi- família, denunciar e fazer os devi- membros da comunidade rece- maneira, além de um trabalho de
entes “seguros”, como os religiosos, dos encaminhamentos em relação bam alguma espécie de acom- cooperação com essas entidades, caso
ou de que todos ali se conhecem, ao agressor e talvez responder aos panhamento, como cadastro no essas instituições precisem ser acio-
podem tornar a comunidade mais questionamentos da imprensa e registro de visitantes ou sejam nadas num eventual abuso infantil,
vulnerável. vizinhança. visitados no lar. um contato direto pode ser feito.

tuições
xemplo,
ado, no GARANTIR O APOIO DE CONSCIENTIZAR E
TODOS OS LÍDERES CAPACITAR OS PAIS
Bruna
r a pró- Proteger as crianças precisa Conscientizar os pais sobre a Designer

estar no topo das prioridades da responsabilidade que eles têm de


Foto: © highwaystarz | Adobe Stock

mento.
a igreja, comunidade. Se isso for levado a mentorear espiritualmente os filhos Editor

sério, a liderança destinará recur- e protegê-los. Orientar os pais a res-


ar como
sos e voluntários para essa finali- peito de como falar sobre sexuali- C.Qualidade
dade, bem como pensará em pro- dade e prevenção, além de estabe-
iolência
tocolos para cuidar do ministério lecer vínculos significativos com os Depto. Arte
infantil. filhos, é fundamental nesse processo.

QUEBRANDO O SILÊNCIO 19

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E D U CAÇÃO

A VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL


TAMBÉM BATE À PORTA DAS
ESCOLAS. ENTENDA COMO AS
INSTITUIÇÕES DE ENSINO PODEM
PREVENIR ESSE PROBLEMA E
LIDAR COM ELE
Foto: © Africa Studio | Adobe Stock

ALEXIS VILLAR

20 QUEBRANDO O SILÊNCIO

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H á uma voz interior que deseja gritar aos
quatro ventos, porém não pode. Não se
sabe como fazê-lo. Sente vergonha. Sente
culpa. Ninguém a compreende. A vio-
lência sexual infantil é uma epidemia silenciosa,
como todo abuso. Alguém manda, o outro escuta.
Alguém ordena, o outro obedece. Alguém abusa,
professores e/ou colegas, se tem usado roupas
mais compridas para esconder partes do corpo
ou se os responsáveis legais dela dão indícios de
negligência no cuidado da criança.

O QUE FAZER?
É importante observar o aluno em diferentes
o outro é abusado. A história pode ter diferentes momentos e situações, como em sala de aula, na
versões. Contudo, as vítimas costumam ser as prática de esportes e no recreio. Atentar para
mais fracas, como as crianças. sua aparência e fisionomia, bem como para seu
De acordo com a psicóloga Andrea Regalado, modo de se relacionar com colegas, professores
professora da Universidade Adventista del Plata, e familiares. Se o abuso ocorrer na instituição
na Argentina, “o abuso sexual infantil é o resul- educacional, é importante ouvir o relato com
tado da conjunção de uma série de fatores. Não atenção, sem interromper nem julgar; regis-
há um fator causal único. Por isso, a melhor ferra- trar as informações para não esquecer os deta-
menta é a prevenção. Desde pequeno, respeitando lhes; se quem relata é a criança, não perguntar
a maturidade dela, deve-se falar com a criança detalhes do abuso, caso ela não compartilhe
sobre sexualidade”. mais informações; averiguar o relato e inter-
vir, tomando as medidas cabíveis; e comunicar
ATENÇÃO CONSTANTE o ocorrido para as autoridades e órgãos com-
O fato é que a violência sexual infantil tam- petentes. Na sequência, é importante prestar
bém bate à porta da escola. Ao longo dos vários auxílio à família no encaminhamento legal do

39305 – Quebrando Silêncio 2019


anos de jornada acadêmica, é no ambiente esco- caso e direcionar a criança para um atendi-
lar que crianças e adolescentes passam uma par- mento psicológico
cela significativa do dia. É nesses espaços, nos Hoje existe a necessidade concreta e inevitável
quais circulam centenas e milhares de pessoas de se estabelecer um protocolo* a ser seguido
diariamente, que educadores, gestores, pais e em caso de supostos crimes contra a integridade
alunos devem estar atentos para possíveis inci- sexual e maus tratos de crianças e adolescentes.
dências de abuso. Portanto, cada unidade escolar ou a rede da qual
Como em qualquer outra realidade, em casos ela faz parte deve elaborar isso, bem como trei-
de maus-tratos no contexto educacional, a prio- nar seus funcionários e gestores para que o apli-
ridade é a proteção integral da criança. Não quem. O delicado equilíbrio de direitos em jogo
cabe à unidade educacional determinar quem e a relevância do bem jurídico protegido exigem
são os responsáveis pelo abuso, pois essa tarefa o maior esforço da instituição para que crimes
compete aos órgãos públicos. Porém, é respon- dessa natureza sejam definitivamente erradicados
sabilidade da escola identifi car a violência e da sociedade.
solicitar a intervenção de equipes profi ssionais Para ajudar a diminuir os índices de violência
especializadas no assunto. neste ambiente, o colégio também pode oferecer
Bruna
Contudo, há diversas maneiras de identificar palestras e debates regulares sobre o assunto, a Designer
uma situação de abuso. Às vezes, é a própria fi m de conscientizar e proteger a comunidade
Foto: © Africa Studio | Adobe Stock

criança que detalha o ocorrido. Em outros casos, escolar. Editor


é necessário estar atento aos sinais de maus-
*Este artigo foi escrito com base no “Protocolo de Atuação Diante
tratos, como mudanças de comportamento, lesões de Situações de Violência, Maus-Tratos ou Abuso”, da rede educacional C.Qualidade
e atraso no desenvolvimento físico, emocional ou adventista na Argentina

intelectual da criança. É preciso observar tam- Depto. Arte


bém se a vítima não tem tentado pedir ajuda para ALEXIS VILLAR é jornalista

QUEBRANDO O SILÊNCIO 21

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Em média, 14 anos é o tempo


de duração de um casamento
no Brasil, conforme o Insti-
tuto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). De cada três
casais que prometem estar juntos na
O otimismo dos autores não é
ingenuidade de um casal imaturo.
Na verdade, é resultado de mais de
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desafios e realizações, entre eles a
educação de dois fi lhos. Além da
Livro terá distribuição gratuita e tiragem superior
a 22 milhões de exemplares. A versão digital da
obra está disponível em livro.esperanca.com.br

saúde e na doença, até que a morte experiência de vida, o casal soma Um dos pontos que se destacam
os separe, um acaba se divorciando. muitas horas de estudo dedicadas ao é a necessidade de aprimoramento
Enquanto alguns casamentos termi- tema. Willie é formado em Teologia, na comunicação. De acordo com
nam, espalhando feridas emocionais com mestrado em Aconselhamento Willie e Elaine, marido e mulher
entre cônjuges e filhos, outros con- Pastoral e doutorado em Sociolo- precisam superar os padrões rea-

39305 – Quebrando Silêncio 2019


tinuam, como se marido e mulher gia da Família. Elaine é educadora tivos de diálogo para exercer uma
insistissem em morar numa área com mestrado na área de Acon- forma de comunicação miseri-
de risco, prestes a desabar. Diante de selhamento Psicológico e cursa o cordiosa. Os autores afi rmam que
tantos casais infelizes e pessoas doutorado em Psicopedagogia. Nos diante de qualquer ofensa feita
machucadas por relacionamentos Estados Unidos, eles apresentam o por um dos cônjuges, o outro sem-
abusivos, existe alguma esperança programa Real Family Talk, na TV pre terá a oportunidade de parar,
para os casamentos, além de um fim Hope Channel, e são colunistas da pensar e escolher a resposta certa:
doloroso ou o prolongamento melan- revista Message. “Aquela que acalmará o problema,
Redação
cólico de um sofrimento suportável? Com o livro Esperança para a em vez de jogar lenha na fogueira”
Embora a vida real não se encaixe Família, Willie e Elaine desejam (p. 51).
em fórmulas prontas e soluções de compartilhar experiências pessoais Embora a comunicação seja
consultório, Willie e Elaine Oliver e de outros casais que renovaram o importante, para se sustentar o casa-
Designer

acreditam que toda família tem amor e o respeito em meio a situ- mento é preciso algo mais do que
CQ jeito. Essa é a mensagem principal ações difíceis. De acordo com a palavras. Por isso, os autores argu-
que os autores apresentam no livro Bíblia, as turbulências familiares mentam que os casais devem ser leais
Esperança Para a Família, lançado acompanham a humanidade desde ao plano divino de construir uma
Marketing
Bruna
em 2019 pela Casa Publicadora que o primeiro casal se desenten- união exclusiva de respeito e fideli- Designer
Brasileira (CPB), editora da Igreja deu (Gn 3). Porém, assim como dade (p. 31). Willie e Elaine acredi-
Adventista no Brasil. A obra terá o Criador apontou o caminho da tam que, diante das crises na vida Editor
uma tiragem que ultrapassará os restauração naquele momento, Ele a dois, a solução não é buscar um
22 milhões de exemplares em por- continua fazendo isso por meio de novo relacionamento, mas criar
C.Qualidade
tuguês e espanhol, e será distribuí- Sua Palavra. Esse é o alicerce em um casamento renovado.
da gratuitamente em oito países da que os autores sustentam as orien- Depto. Arte
América do Sul. tações práticas ao longo do livro. GUILHERME SILVA é editor de livros na CPB

QUEBRANDO O SILÊNCIO 23

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R E C U P E R AÇÃO

A historia oue n
ALÉM DO ENCARCERAMENTO,
QUE MEDIDAS PRECISAM
SER ADOTADAS PARA QUE ROSTO
O ABUSADOR NÃO VOLTE A An
COMETER O MESMO CRIME? rar qu
tipos
e ado
o oca
ROSANA ALVES tem a
o que
de pr
pode
mas p
tais,
vítim
cia, a
nal e
dor o
crime
bilida
cresci
que p
Qu
estud

E
plicid
ntre tantos aspectos do abuso sexual que agres
precisam ser cada vez mais esclarecidos, bilida
não há como ignorar a importância de para e
se falar sobre o abusador, embora haja imagi
quem defenda que não se deve pensar trans
Foto: © EVGENIY | Adobe Stock

nele, a não ser em sua punição prevista coage


em lei. Porém, para encarar a violência, é preciso sexua
buscar respostas para algumas perguntas: qual Isso e
é o perfil do abusador? Há tratamento para ele? abusa
Sua vida pode ser restaurada? quer

24 QUEBRANDO O SILÊNCIO

39305_QuebrandoSilencio.indd 24 11/02/2019 17:18


e ninguem conta
ROSTO CONHECIDO da vítima. O fato de ser alguém tégia que costuma ser eficaz para
Antes de tudo, é preciso conside- próximo difi culta a denúncia, confrontar as justificativas dos
rar que existem, basicamente, dois prolonga a prática da violência e molestadores.
tipos de molestadores de crianças agrava as consequências emocio- Para aqueles que são abusado-
e adolescentes: o preferencial e nais da vítima. res situacionais, além da deten-
o ocasional. O primeiro é aquele que ção, é necessário verifi car se o
tem atração por menores de idade, TRATAMENTO E RECUPERAÇÃO molestamento aconteceu sob
o que é conhecido como transtorno Quando se trata dos abusadores efeito de drogas ou de forma vio-
de preferência sexual (parafilia), e preferenciais, aqueles que têm um lenta. Dessa maneira, as inter-

39305 – Quebrando Silêncio 2019


pode estar relacionado com proble- transtorno da sexualidade, apenas venções são pensadas com base
mas psicológicos, questões ambien- a detenção para cumprir pena pelo nas motivações do crime e na
tais, ao fato de a pessoa ter sido delito cometido não é suficiente forma em que ele ocorreu. Nos
vítima de abuso sexual na infân- para que não se tornem reinciden- Estados Unidos, o programa de
cia, além de imaturidade emocio- tes. A psicoterapia é indicada para recuperação de infratores do
nal e sexual. Por sua vez, o molesta- identificação dos gatilhos (situa- Havaí é considerado um dos
dor ocasional é aquele que pratica o ções que disparam o comporta- mais efi cientes do país. Uma
crime porque se aproveita da vulnera- mento abusivo) e para que inter- das técnicas utilizadas é expor
bilidade da vítima. Infelizmente, tem venções sejam feitas com o intuito os abusadores às ligações de víti-
crescido o número de adolescentes de mudança de comportamento. mas de estupro para a polícia. O
que praticam esse abuso. Dependendo do perfil psicológico objetivo é fazer com que entrem
Quanto ao perfi l psicológico, ou da existência de um transtorno em contato com o sofrimento de
estudos indicam uma grande multi- mental, a medicação adequada quem foi violentado.
plicidade de características dos também deve ser prescrita. Outro recurso empregado é
agressores, o que descarta a possi- É comum o abusador preferen- o psicodrama, técnica terapêu-
bilidade de se criar um estereótipo cial ter uma imagem distorcida tica, cuja base é a representação
Bruna
para esse tipo de abusador. Ou seja, sobre o próprio delito. Às vezes, de papéis. Nessa abordagem, Designer
imaginar que somente pessoas com ele considera que estava apenas o abusador assume o lugar da
transtorno mental ou “bandidos” dando carinho para a criança ou vítima ou de algum parente dela,
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coagem menores para obter favores adolescente ou que sua atitude é a fi m de exercitar empatia por
sexuais está distante da realidade. menos grave do que a de outros quem sofreu tamanha violência.
C.Qualidade
Isso explica por que muitas vezes o abusadores. Por isso, a terapia Experiências internacionais indi-
abusador é alguém acima de qual- em grupo, com histórias diferen- cam que os tratamentos dirigidos Depto. Arte
quer suspeita, um rosto conhecido tes sendo contadas, é uma estra- para os infratores podem diminuir

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N

significativamente a reincidência. É da família no tratamento. Como


o que mostra, por exemplo, o livro os pedófilos costumam se isolar da
Group Therapy with Sexual Abusers, convivência com outros adultos, o
de Steven Sawyer e Jerry L. Jennings envolvimento dos familiares facilita
(Safer Society Press, 2016). Assim, a o desenvolvimento das capacidades
sociedade e o governo precisam rea- relacionais e serve de “mecanismo
lizar esforço conjunto, não somente de controle” quanto ao uso de medi-
para prevenir o abuso, mas tam- camentos, consumo de internet e
bém para evitar sua repetição. Além contato com crianças.
de denunciar e prender, existe algo O uso da psicoterapia em grupo
mais a ser feito com o infrator: tentar também se mostra muito válido,
recuperá-lo. pois ajuda os pacientes a se reco-
nhecerem nas histórias uns dos
PEDOFILIA outros e, juntos, reconstruírem
Ainda no campo da recuperação a própria identidade. Contudo,
e da busca por ajuda para transtor- infelizmente, centros especializa-
nos sexuais, vale destacar que nem dos no tratamento desse tipo de
todo pedófilo é abusador de criança. transtorno são quase inexistentes.
Pedofilia tem que ver com a atração Resta, portanto, o atendimento
e o desejo pelo contato sexual com individual.
crianças, mas isso nem sempre se Por fim, sempre que existir
concretiza. Felizmente, a maioria sofrimento, deve-se pensar em
dos pedófilos mantém o desejo sob solução. Se é possível restaurar
controle, sem contato sexual com a vida do abusador, por que não
menores. Eles muitas vezes se limi- fazê-lo? Aliviar a dor, prevenir e
tam a consumir pornografia infantil, tratar deve ser o objetivo de todos
o que também é crime. que procuram ajudar em situações
Muitos dos que sentem desejo tão lamentáveis como a de um
por crianças sofrem por sentir tal abuso sexual infantil. Para tanto,
atração ilícita, mas não procuram mais agentes de esperança e res-
ajuda, pois têm medo e vergonha de tauração podem ser formados se
ser expostos. A pedofilia é um trans- trabalharmos com informações
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torno muitas vezes acompanhado de confiáveis e com a disposição de


outros, como, por exemplo, a depres- superar preconceitos.
são. Assim, é necessária uma aborda-
gem multidisciplinar para recuperar ROSANA ALVES é pós-doutora em Neurociências
esses indivíduos. pela Escola Paulista de Medicina (Brasil) e pela
Outro fator importante nesse Universidade Marshall (EUA). Ela é presidente do
processo é a participação efetiva Neurogenesis Institute, sediado na Flórida

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