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PSICOLOGIA B - 12º Ano

A MENTE E OS PROCESSOS MENTAIS

Mente

 No final do século XIX, a conceção de ‘Mente’ é revista.

 A mente era perspetivada como uma série de componentes cognitivas ou intelectuais, independentes
umas das outras.

 Havia uma conceção muito restrita da mente, associando-a a funções meramente cognitivas, nada tendo
a ver com o corpo, com a sensibilidade e com as emoções.

 As conclusões dos estudos feitos pelos neurocientistas atestam que a mente é um sistema integrado de
processos cognitivos, emocionais e conativos. É através destes processos que nos relacionamos com o
mundo.

 O funcionamento mental não se reduz à cognição, mas engloba ainda a emoção, os sentimentos, a
afetividade, a ação.

 A Mente é um conjunto dinâmico de processos e cognitivos, emocionais e conativos, onde se conjugam


fenómenos conscientes e inconscientes. É na mente que se dá a atividade psíquica e onde se constrói a
noção de ‘EU’. Não se limita a captar informação do exterior, mas atribui um significado a essa mesma
informação em função da qualidade da rede neuronal e das influências sociais e culturais. Isto confere à
mente um caráter único, subjetivo e pessoal.

 A vida psíquica é intencional porque a mente visa sempre algo diferente dela própria. Reconstrói-se
permanentemente, através da integração de processos cognitivos, emocionais e conativos.

 Através da articulação integrada entre estes processos, a mente estrutura o mundo e estruturando-se,
simultaneamente, a si mesma. Esta atividade integrada é o pensamento.

 Os seres humanos reconhecem-se como espécie com características distintivas em relação aos outros
animais, afirmando a sua unidade. Portadores de um património genético único, são também seres
sociais e culturais.

 A partilha de semelhanças e diferenças, nos vários grupos sociais aos quais pertencemos, acresce a
unicidade da nossa história de vida.

 Todos vamos construindo a identidade pessoal, no conjunto das interações e relações com os outros:
somos únicos (subjectividade) e diferentes.

 Identidade é a noção que o indivíduo tem de si próprio, o seu autoconceito, e que lhe permite conceber
a existência individual como uma progressão contínua no tempo: somos diferentes do que fomos no
passado e, não obstante, possuímos uma identidade própria: a identidade pessoal.

 Associados à identidade pessoal estão conceitos como continuidade, estabilidade, autoestima,


unicidade.

 A identidade pessoal constrói-se ao longo do tempo, na relação que se estabelece com os progenitores,
com os cuidadores e com outros adultos próximos e significativos.

 As relações pessoais vão-se alargando a outros grupos e contextos sociais à medida que vamos
crescendo, desde a escola, aos grupos de amigos ou colegas de profissão, por exemplo.

 Nestes grupos de referência, o sujeito reconhece os modelos para as suas atitudes e comportamentos e a
importância destes grupos e influências não são estáveis, mas variam ao longo do tempo.

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 A identidade pessoal constrói-se nas interações sociais. Não termina na adolescência, mas é processual e
contínua, durante toda a vida. Engloba e integra todas as experiências do sujeito, todos os
acontecimentos, toda a sua história de vida. Por isso, cada indivíduo é único.

 A identidade pessoal é inseparável da identidade social e da identidade cultural. A identidade social é a


consciência social que temos de nós próprios e resulta da interação constante com o meio onde estamos
inseridos. É uma identidade estatutária, porque os estatutos sociais e os papéis que lhe correspondem
afetam a maneira de ser de cada um e o modo de se comportar.

 A identidade cultural remete para um conjunto de valores que o sujeito partilha com a comunidade a
que pertence e que integra na sua identidade pessoal.

 A identidade pessoal é uma totalidade dinâmica, é o conjunto de todas as identidades com as quais nos
definimos, em construção permanente, tal como a nossa história de vida. É no contexto da sua vida, no
decurso do tempo, que se desenrolam os acontecimentos, os encontros e desencontros, que o indivíduo
se constrói como único.

 Os problemas que vamos enfrentando, quer sejam muito ou pouco estruturados, remetem para os
conceitos de ‘criatividade’ e ‘fixidez funcional’ (exemplo de problema da vela, do psicólogo gestaltista
Karl Duncker). Pensar dentro dos parâmetros mais comuns indica um pensamento convergente, pensar e
resolver problemas de forma atípica indica um pensamento divergente.

Aprendizagem

 Em termos gerais, a aprendizagem é uma alteração relativamente estável e duradoura do


comportamento ou do conhecimento, devido à experiência, ao treino e ao estudo. As mudanças que
ocorrem devido à maturação neurofisiológica, ao cansaço, a acidentes, doenças, álcool ou drogas, não se
inscrevem na aprendizagem. Assume várias formas ou expressões. Distingue-se de vários tipos de
comportamento aprendido.

 A aprendizagem pode acontecer por habituação, e, neste caso, é não associativa porque o indivíduo
aprende as características de um só tipo de estímulos.

 A aprendizagem associativa implica a associação de estímulos ou a associação de estímulos e respostas.

 O condicionamento clássico e operante são dois tipos de aprendizagem associativa. O condicionamento


clássico ou pavloviano é uma aprendizagem que não envolve a vontade ativa do sujeito, acontece pela
associação de estímulos. O condicionamento operante é uma aprendizagem que envolve a vontade
consciente do sujeito. O comportamento é aprendido através do reforço, que pode ser positivo ou
negativo.

 Existem diferentes modalidades de aprendizagem. Esta pode ser comportamental e cognitiva. Fala-se em
aprendizagem por condicionamento (Clássico e Operante), por Insight, latente e por
observação/imitação ou aprendizagem social. Também se fala de aprendizagem por habituação,
associativa, devido à ação ou aprendizagem simbólica. A aprendizagem social, estudada por A. Bandura,
faz-se com base na observação e na imitação.

 Grande parte dos nossos comportamentos é aprendida no processo de interação social. Bandura
desenvolveu investigações experimentais que o levaram a descrever o modo como se processa a
aprendizagem social: por observação e por imitação.

 Designa-se por modelagem a aprendizagem social feita por observação e imitação de outras pessoas,
sobretudo se são modelos significativos. No contexto da aprendizagem social existem dois tipos de
reforço: o direto (recai na própria pessoa que pratica a ação) e o indireto ou vicariante.

 Quando um comportamento é reforçado porque se viu alguém a ser recompensado ou elogiado pelo
mesmo, trata-se de reforço indireto ou vicariante, o reforço não recai diretamente sobre o sujeito que
pratica a ação.

 Existem vários fatores que interferem na aprendizagem: a inteligência, a motivação, as experiências


anteriores e o meio sociocultural.

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Memória

 A memória é um processo cognitivo que consiste na retenção e na evocação das informações,


conhecimentos, acontecimentos e experiências.

 A memória é essencial para a nossa sobrevivência, sendo condição de adaptação ao meio e aquisição de
novas aprendizagens. É a memória que assegura a nossa identidade pessoal.

 O suporte da aprendizagem é a memória. Esta consiste no processo de recordar conteúdos previamente


aprendidos e armazenados para futuras utilizações.

 Existem três etapas no processo de memorização: 1-codificação; 2- armazenamento; 3- recuperação.


Além destes mecanismos, o esquecimento também desempenha um papel fundamental no processo
mnésico pois permite a aquisição de novos conteúdos.

 Existem três tipos de memória: sensorial, de curto prazo e de longo prazo. A memória sensorial regista
as impressões dos órgãos dos sentidos, sem as processar e conserva-as durante frações de segundos. Se
não se prestar atenção aos dados da memória sensorial, eles perdem-se mas se lhes prestarmos atenção,
codificam-se e passam para a memória a curto prazo.

 A memória a curto prazo é considerada o centro da consciência, pois corresponde às lembranças de que
nos servimos em cada momento.

 A memória a curto prazo é um tipo de memória que mantém a informação durante um período limitado
de tempo, podendo ser esquecida ou passar para a memória a longo prazo. Nesta, falamos de memória
imediata (capacidade de 7 itens e mantém-se por alguns segundos) e memória de trabalho (a informação
mantém-se enquanto nos é útil, permite a manutenção temporária na consciência da informação
necessária para realizar uma tarefa).

 A memória a longo prazo é o repositório dos materiais da MCP, codificados. Tem uma capacidade
ilimitada, podendo manter conteúdos até ao fim da vida. Dela fazem parte a memória declarativa ou
explícita (verbalizável, constituída pela memória episódica e semântica) e a memória não declarativa
(corresponde às informações que se utilizam nos comportamentos motores dos quais não se tem
consciência).

 A memória episódica corresponde aos acontecimentos vividos pessoalmente.

 A memória procedimental (implícita) é uma memória de hábitos e estratégias usadas de forma


automática.

 A memória semântica (implícita) está associada à cultura geral e permite a compreensão e atribuição de
significados aos conteúdos cognitivos.

 A memória não é uma reprodução fiel do passado. As recordações estão marcadas pela experiência,
pelas emoções, pelos afetos e pelas representações. Ela reconstrói os dados que recebe ao longo do
tempo, dando relevo a uns, distorcendo ou omitindo outros.

 Se houver interferências, as informações deterioram-se e desaparecem, mas se houver repetição, as


informações mantêm-se por mais tempo, podendo passar para a memória a longo prazo. Esta é um
armazém de um grande número de informações, onde ficam retidas por tempo indeterminado.

 O esquecimento é a incapacidade de recordar um conteúdo memorizado. Existem diferentes causas do


esquecimento, de entre os quais se destacam a deturpação do traço mnésico, a interferência de novas
aprendizagens e motivações inconscientes.

 O esquecimento ocorre quando não se consegue recuperar a informação. É uma condição própria da
memória: é porque esquecemos que continuamos a reter e a evocar dados armazenados.

 O esquecimento apresenta uma dimensão positiva na medida em que filtra os conteúdos mnésicos,
eliminando os de menor interesse e permitindo novas aquisições.

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Inteligência

 Não existe uma definição unívoca de inteligência. Atualmente, o conceito tem, não só uma
interpretação sociocultural, mas também intercultural. Este processo mental engloba processos
cognitivos diversos e interliga diferentes funções mentais. De forma geral, a inteligência refere-se às
capacidades que o indivíduo possui de assimilar, recordar e relacionar informação.

 Esta informação pode ser de ordem teórica ou prática, vivencial e adaptativa.

 Globalmente, a inteligência compreende o aprender a partir da experiência, a facilidade do indivíduo se


adaptar ao seu meio ambiente, enfrentar situações novas e resolver problemas, raciocinar de forma
criativa, adequada e adaptativa e explorar conhecimentos.

 Existem diversas teorias sobre a inteligência.

 Alfred Binet (1857 - 1911) e Theodosius Simon (1872-1961), em França, criaram a Escala de Binet-Simon,
usada para identificar estudantes que pudessem precisar de ajuda extra na sua aprendizagem escolar.
Stern propôs que o QI de pessoas com menos de 16 anos fosse determinado pela divisão da idade mental
pela idade cronológica.

 Charles Spearman propõe a teoria bifatorial de Inteligência. Defende uma conceção de inteligência em
que um fator geral (FATOR G) serve de base a aptidões específicas, que designou por FATOR S. Assim,
qualquer desempenho supõe a relação entre estes dois fatores. O fator geral está sempre presente, em
igualdade de grau num mesmo indivíduo, variando as capacidades relacionadas com os fatores
específicos.

 Louis Thurstone, em oposição à teoria bifatorial, propõe uma análise alargada do conceito de
inteligência. Defende uma perspetiva mais abrangente, em que substitui o fator geral por um conjunto
de aptidões mentais primárias. Esta perspetiva designa-se por teoria multifactorial da inteligência.

 O cerne da inteligência não residia num único fator geral, mas na combinação de sete aptidões gerais,
que designou por aptidões mentais primárias. Estas aptidões, entendidas pelo autor como fatores
comuns ao desempenho de determinados grupos de tarefas, constituíram o centro da teoria multifatorial
da inteligência.

 São sete as aptidões mentais: compreensão verbal, fluência verbal, aptidão numérica, organização
espacial, velocidade perceptiva, memória e raciocínio.

 Estes autores são a referência das teorias clássicas da inteligência, fatoriais e psicométricas.

 Howard Gardner propõe uma teoria ainda mais inovadora: a teoria das inteligências múltiplas. Cada
indivíduo possui oito capacidades distintas de percecionar, interpretar, conhecer e agir sobre si próprio
e sobre o mundo. São elas: inteligência linguística, lógico-matemática, corporal-cinestésica, musical,
espacial, interpessoal, intrapessoal e naturalista. Apesar de serem complementares, funcionam cada
uma de per si, são capacidades independentes. Se houver alterações da realidade, socio-culturais ou de
caráter individual, estas inteligências (capacidades) podem alterar-se, quer em número, quer no que se
refere à sua delimitação ou configuração.

 Robert Sternberg propõe uma conceção nova de inteligência: o modelo triárquico. Para este autor, a
inteligência é um conjunto de capacidades, existem três formas diferentes de se ser inteligente.
Inteligência criativa (planear, inventar para além do comum, pensamento divergente), inteligência
analítica (analisar, comparar, avaliar) e inteligência prática (capacidade de transformar a teoria
abstrata em ações práticas e concretas).

 Para Sternberg, um indivíduo pode destacar-se mais num domínio e menos noutros, o que é importante é
que tenha consciência das suas capacidades e fraquezas.

 Sternberg tem uma perspetiva integradora de inteligência. O indivíduo tem que interligar e
interrelacionar o seu mundo interno (mecanismos mentais subentendidos no comportamento inteligente)
com o mundo externo (o indivíduo faz a utilização destes mecanismos mentais na vida quotidiana no
sentido de se ajustar ao meio).

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 Nesta perspetiva, é importante a relação da inteligência do indivíduo com a sua experiência/vivências. É
a partir das vivências entre os mundos interno e externo do indivíduo, integradas e vivenciadas n a
dinâmica triárquica da inteligência, que Sternberg valoriza o papel ativo do sujeito na compreensão do
mundo que o rodeia, construindo-o e construindo-se.

 H. Gardner e R. Sternberg são a referência das teorias contemporâneas da inteligência.

 Atualmente, utiliza-se a expressão de inteligência emocional. Este conceito relativamente recente na


Psicologia está relacionado com um conjunto de habilidades como a perceção, a expressão e a regulação
das emoções em si e nos outros. Permite-nos utilizar as emoções para motivar, planear, atingir
determinados objetivos, resolvermos problemas e também para regularmos os nossos comportamentos. A
expressão e avaliação das emoções são uma parte muito significativa da inteligência emocional. As
pessoas emocionalmente mais inteligentes tendem a controlar melhor as suas emoções e as dos outros,
motivando-os De forma geral resolvem (sem ansiedade perturbadora) de forma mais eficaz os problemas.

Perceção

 A perceção liga-nos ao mundo, organiza e interpreta as sensações de modo a reconhecermos e


identificarmos o que se passa à nossa volta.

 A sensação corresponde à pura captação de estímulos pelos órgãos dos sentidos e dão conta de que algo
exterior nos impressionou através dos órgãos sensoriais.

 A perceção é um processo cognitivo que envolve a participação de áreas específicas do córtex cerebral.
Interpreta as sensações.

 A perceção é um processo cognitivo através do qual contactamos com o mundo a partir dos órgãos
sensoriais.

 Os estímulos recebidos pelos órgãos recetores são transformados em impulsos nervosos, que são
conduzidos ao sistema nervoso central e pro cessados pelo cérebro.

 A perceção não reproduz o mundo tal como ele é: este é representado no cérebro como imagem. A
perceção é sempre uma representação do/no sujeito.

 A imagem que temos do mundo está condicionada por um conjunto de circunstâncias fisiológicas
relativas aos órgãos recetores e às estruturas do sistema nervoso.

 Ao percecionar o mundo, o sujeito seleciona, de entre os múltiplos estímulos apenas alguns, os que são
significativos, os que lhe interessam.

 Não percecionamos todos os estímulos e isso é importante, porque evitamos um estado de sobrecarga e
confusão mental. A atenção é um filtro selecionador e é condicionada por fatores externos (do meio) e
internos (do sujeito).

 Os fatores externos variam desde a intensidade do estímulo, até à luminosidade e ao movimento.

 Os fatores internos implicam a motivação, os hábitos, expetativas, profissão e até o estatuto social.

 A perceção é uma construção cerebral de cada sujeito e, assim, a objetividade do mundo é interpretada
subjetivamente em função dos significados que cada um atribui a tudo o que o rodeia. Para isso
contribui a idade, o sexo, a profissão, as experiências anteriores, estatuto social, entre outros.

 Ao percecionar, cada sujeito projeta significações pessoais no que o rodeia e, por isso, a perceção não é
uma simples cópia do mundo, mas uma construção recriada, plena de significados.

Cognição
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 Os processos cognitivos estão relacionados com o saber, reportam-se à criação, transformação e
utilização da informação do meio interior e exterior.

 A cognição refere-se aos processos mentais, ligados ao pensamento, ou seja, à compreensão, ao


processamento e à comunicação do saber.

 Os processos cognitivos correspondem aos processos de criação, de transformação e de utilização da


informação do meios interno e externo. Estão associados à questão ‘O quê?’, neles se inserem a
perceção, a memória e a aprendizagem.

 A cognição representa o conjunto de mecanismos que um organismo ativa para adquirir, conservar e
explorar informação.

 Através da cognição percecionamos o mundo criando uma representação daquilo que nos rodeia e
aprendemos a agir sobre o mundo para alcançarmos determinados objetivos. Através da memória
recordamos aquilo que aprendemos e isso é importante para mantermos a integridade da nossa
identidade

Emoção

 Pode definir-se a emoção como o conjunto de experiências subjectivas desencadeadas por um


acontecimento, pessoa, situação e que, de forma geral, é acompanhada por reacções orgânicas, gestos,
movimentos, e expressões faciais e vocais.

 Os processos emotivos estão relacionados com o sentir, são estados vividos pelo sujeito e caracterizados
pela subjetividade. Correspondem às vivências de prazer e desprazer e à interpretação das relações que
temos com as pessoas, objetos e ideias.

 A emoção refere-se a aspetos afetivos, agradáveis ou desagradáveis, que acompanham as novas


vivências.

 Os processos emocionais correspondem às vivências de prazer e de desprazer e à interpretação das


relações que temos com as pessoas, os objectos e as ideias. Estão associados à questão ‘Como?’, neles se
inserem a emoção, os afetos, os sentimentos e também os marcadores somáticos.

 A afetividade faz parte da essência do ser humano, naturalmente predisposto para criar relações
vinculativas mais ou menos fortes com os outros e com tudo o que o rodeia.

 Os processos emocionais mostram que, além de percebermos o mundo, também somos afetados por ele.
A forma como somos afetados irá despertar em nós determinadas reações que influenciam as nossas
decisões.

Distinção entre emoções, afetos e sentimentos

 A afetividade faz parte da essência do ser humano, naturalmente predisposto para criar relações
vinculativas mais ou menos fortes com as pessoas e com tudo o que as rodeia.

 As predisposições inatas do ser humano para reagir de modo agradável ou desagradável nas relações
vinculativas que estabelece designam-se por afetos.

 Os afetos são invisíveis, são simples predisposições que se podem concretizar em sentimentos e
emoções.

 Os afetos exprimem-se através das emoções e são organizados pelas experiências emocionais que se
repetem. Constroem-se ao longo do tempo e estruturam a nossa vida mental.

 Sentimentos são estados afetivos agradáveis ou desagradáveis, de média intensidade e grande


estabilidade, com papel moderador nas relações que o sujeito estabelece com os outros.

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 Diferentemente das emoções, reportam-se ao nosso interior, são privados e prolongam-se no tempo,
não estão relacionados a uma causa imediata.

 Emoções são reações agradáveis ou desagradáveis do organismo, geralmente de curta duração e


grande intensidade, perante o m undo que nos rodeia. As emoções são uma espécie de defesa do
organismo quando este necessita, repentinamente, de mobilizar energias para reagir com eficácia.
Dirigem-se para o exterior. Têm duração breve, caracterizam-se pela intensidade e expressão.

 Quaisquer que sejam os estados emocionais, encontramos sempre neles reações fisiológicas e
manifestações expressivas. Nas reações fisiológicas destacam-se a respiração ofegante, as tremuras
musculares, a palidez do rosto, sudação das mãos, alterações na resistência elétrica da pele e na
composição química do sangue. As reações fisiológicas são involuntárias, dependendo do sistema
nervoso autónomo, em colaboração com o sistema nervoso central.

 O sistema nervoso autónomo dispõe da secção simpática para atuar nas situações de emergência e,
para contrabalançar a sua ação, da secção parassimpática, que atua em situações de tranquilidade.
O sistema nervoso central dispõe do sistema límbico, que ativa o sistema simpático para reagir de
modo urgente e do sistema ativador reticular, que desperta o córtex para intervir nas respostas a
efetuar.

 As reações expressivas dizem respeito a um conjunto de sinais, como lágrimas, sorrisos, gestos,
olhares, vozes e outros indicativos do rosto que acompanham a atitude corporal no decorrer dos
estados emocionais. As reações expressivas são úteis para que as outras pessoas possam adaptar o
seu comportamento ao sujeito que está a passar por determinado estado emocional.

 Há várias perspetivas: Evolutiva/C. Darwin. Identificou seis emoções primárias e universais (alegria,
tristeza, medo, ira, nojo, espanto) e considerou que as emoções têm um papel adaptativo
fundamental na evolução e sobrevivência dos seres humanos. Também P. Ekman, depois da
investigação em várias culturas, confirmou a teoria de Darwin. A perspetiva cognitivista defende
que as emoções estão relacionadas com a interpretação que o sujeito faz da situação.

Emoções e Cultura

 As emoções podem ser primárias (SN Autónomo e S Límbico) e secundárias (córtex pré-frontal. As
primárias apresentam uma forte componente inata, que determina o seu carácter universal e a sua
ocorrência em crianças de tenra idade. As secundárias, derivam das primárias, manifestam-se quando os
indivíduos já são capazes de avaliar as situações, o que significa serem influenciadas pela aprendizagem
feita no meio social e cultural.

 Emoções primárias como a alegria, a tristeza, o medo e a raiva têm um caráter universal, sendo comuns
a todas as pessoas de todas as culturas.

 Diferentes sociedades e culturas definem o tipo de emoção e a forma de a expressar, dependendo da


situação.

 As emoções comportam um elevado grau de diversidade, sobretudo a nível das reações expressivas, dos
aspetos sensíveis e relacionados com os padrões sociais e culturais.

António Damásio: Marcadores Somáticos

 No passado a emoção era menosprezada e encarada como obstáculo às tarefas cognitivas, o seu estudo
não cabia no conceito demasiado restrito da mente. Os avanços das neurociências vêm ampliar este
conceito, de forma a incluir as emoções, como elementos essenciais na tomada das nossas decisões.

 António Damásio, neurocientista português, é um dos investigadores que salienta o papel das emoções
no bom funcionamento da mente e nas decisões que fazemos ao longo da vida. A concretização de tais
decisões deve-se ao marcador somático, uma espécie de alarme que cria automaticamente em nós uma
disposição de apetência ou repulsa relativamente às consequências previstas de diferentes cursos
possíveis de ação.

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 Os marcadores somáticos são essenciais para as tomadas de decisão em que não temos elementos para
decidir racionalmente ou cuja análise racional desses elementos seria muito demorada. A sobrevivência
do ser humano põe em jogo a sua racionalidade, constituída não apenas pelas capacidades cognitivas,
mas também pelas emoções, os modos básicos de se relacionar com o mundo.

Richard Davidson: Assimetria cerebral das Emoções

 A lateralização das emoções está ligada a mecanismos da motivação.

 O córtex pré frontal direito está mais ativado na presença de emoções negativas. Este hemisfério está
ainda mais envolvido na compreensão das emoções do que o hemisfério esquerdo.

 O córtex pré frontal esquerdo está mais ativado na presença de emoções positivas e gratificantes para o
indivíduo.

 Na presença de um estímulo, o nosso organismo sente, interpreta, avalia e responde, com a ativação da
amígdala (sistema límbico) e do córtex orbitofrontal.

Emoções na vida quotidiana

 As emoções têm um papel fundamental na nossa via: pessoal, social e cultural. As emoções são a “cola
social” que nos une aos outros ou são o “repelente social” que nos afasta daqueles com quem não
queremos interagir.

 Na década de 1990 surgiu o conceito de ‘inteligência emocional’. Esta representa capacidades e


competências pessoais e sociais, que vão da automotivação até à capacidade de adiar recompensas,
impedir o desânimo ou à relação interpessoal. Pode-se relacionar com a teoria das inteligências
múltiplas de H. Gardner.

 O modelo Mayer-Salovey remete-nos para o conceito de um ‘pensador com coração’ e integra quatro
habilidades inter-relacionadas: perceção, valorização e expressão da emoção; uso inteligente das
emoções; compreensão e aplicação prática das emoções e regulação das emoções.

 A emoção pode facilitar a resolução de problemas, com soluções mais significativas e criativas.

Conação

 O conceito de ‘conação’ foi ignorado quase todo o século XX. O interesse nestes processos mentais surge
ligado ao interesse pelo estudo da mente.

 Os processos conativos estão relacionados com o fazer, expressam-se em ações e comportamentos.


Correspondem à dimensão intencional da vida psíquica.

 A conação refere-se à dinamização para a ação, ou seja, aos fatores motivacionais e intencionais da
pessoa.

 A intencionalidade implica que visamos sempre algo diferente de nós próprios, mantendo-nos em tensão
e implicando-nos num esforço que visa um fim. Estão associados à questão ‘Porquê?’, neles se inserem a
intencionalidade, a tendência de esforço e de realização.

 Através dos processos conativos agimos sobre o mundo com o intuito de satisfazer as nossas necessidades
e realizar os nossos desejos.

Motivação/Conação

 Os seres humanos agem voluntariamente e deliberadamente. A tendência que manifestam para agir
desta maneira designa-se por conação. As ações humanas são voluntárias e intencionais. Enquanto
conscientes, dizem respeito a um conjunto de atos realizados por um sujeito que sabe aquilo que está a
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fazer. Enquanto voluntária refere-se a atos premeditados por um sujeito que quer fazer aquilo que faz
porque assim o decidiu.

 Enquanto intencional, a ação humana encontra-se associada a atos de um sujeito que sabe para que age,
ou seja, sabe aquilo que pretende atingir com a ação que se dispõe a realizar. Por trás da ação humana
há intenções ou motivos que nos permitem compreendê-la, fornecendo-nos as razões por que foi
realizada, isto é, o "porquê" da ação.

 A nossa ação é dinamizada pelas nossas tendências, pelas disposições motivacionais que nos impelem a
agir. O ciclo motivacional organiza-se o comportamento, numa sequência de quatro momentos: 1-
necessidade; 2-pulsão; 3-comportamento; 4-saciedade.

 Necessidade é o estado de carência ou privação, gerador de um desequilíbrio que nos impulsiona a fazer
qualquer coisa para lhe pôr fim. Impulso ou pulsão é o estado energético que desencadeia o
comportamento, orientando-o num determinado sentido. Comportamento é a atividade movida pela
pulsão, pera atingir o fim em vista. Saciedade é a reposição do equilíbrio resultante da diminuição ou
eliminação da pulsão, conseguida por meio da atividade que foi capaz de alcançar o objetivo visado.

 As tendências ou motivações são de vária ordem, podem classificar-se como primárias – inatas – ou
secundárias – aprendidas. As primárias visam a satisfação das necessidades básicas e são independentes
da aprendizagem, tais como a preservação da vida e da espécie.

 As secundárias visam a satisfação das necessidades sociais e são adquiridas por aprendizagem. É o caso
das tendências para a música, artes, desporto, etc.

 A. Maslow dispôs as necessidades humanas numa pirâmide hierárquica, que começa nas necessidades
básicas ou de sobrevivência e as necessidades de realização pessoal. Maslow defende que só são sentidas
necessidades superiores se as de nível inferior estiverem satisfeitas.

 As necessidades na base da pirâmide são comuns a todos os seres humanos, as de níveis superiores vão
surgindo num número cada vez mais reduzido de pessoas. Os níveis das necessidades, desde a base da
pirâmide ao topo, são os seguintes: fisiológicas, de segurança, de afeto e pertença, de estima e de
autorrealização.

 Os quatro níveis correspondem a necessidades de défice, o último nível corresponde à necessidade de


ser. Há uma hierarquia crescente e só quando um nível está satisfeito se pode alcançar o nível seguinte.
Só uma pequena percentagem de pessoas consegue chegar ao último nível da pirâmide.

 A construção de si mesmo implica ir subindo nos degraus da pirâmide, em que a dose de esforço e o
refinamento de competências exigidas vão sendo progressivamente superiores.

 A autorrealização exige tenacidade do sujeito, que se esforça por agir em função de objetivos ou fins
que elegeu de modo voluntário.

 O poder de escolha do sujeito é a vontade, o que existe de fundamental no ser humano, identificando-se
com o seu querer, a sua identidade e a sua perspetiva de vida.

 Atualmente há algumas críticas a esta perspetiva, nomeadamente a hierarquia das necessidades,


algumas pessoas, em nome de ideais, podem prescindir das necessidades de sobrevivência (por exemplo,
ativistas em greve de fome, que morrem a lutar pelos seus ideais).

 Algumas influências sociais podem desencadear motivação, mesmo não estando em causa a
sobrevivência.

 O sistema límbico, o hipotálamo e o córtex cerebral também estão envolvidos no comportamento


motivado.

A Professora: Maria dos Anjos Fernandes