Você está na página 1de 9

Suicídio Por Policial

Um Tema de alta complexidade e baixa publicidade

Valmor Saraiva Racorti

São Paulo

2018
Valmor Saraiva Racorti é Major da Policia Militar do Estado de São Paulo atualmente
comanda o Grupo de Ações Táticas Especiais.

1 CURRÍCULO DO AUTOR

Valmor Saraiva Racorti, 45 anos, é Major de Polícia Militar, atualmente classificado no 4º


BPChq - GATE, exercendo a função de Coordenador Operacional do 1BPCHQ desde setembro
de 2019.

Experiência profissional

Foi Comandante de Pelotão de ROTA no 1º BPChq “Tobias de Aguiar” (1994 a 2006);

Chefe Operações do Copom (2006);

Oficial de Segurança e Ajudante de Ordens do Governador do Estado (2007 - 2014);

Comandante de Companhia de ROTA no 1º BPChq “Tobias de Aguiar” (2014-2016);

Comandante do GATE (2016-2019l).

Coordenador Operacional (2019 – atual)

Formação acadêmica

Curso Preparatório de Formação de Oficiais (1990-1991);

Curso de formação de Oficiais - Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem


Pública (1992-1994);

Curso aperfeiçoamento Oficiais - Mestrado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem


Publica. (2012);

Possui graduação em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul (2004);

Publicações

A atuação das forças policiais no combate às drogas. Jus Navigandi ISSN 1518-4862 e
Jusmilitaris ISSN: 2177-9945 (2012). Disponível em: <https:// jus.com.br/artigos/22906/a-
atuacao-das-forcas-policiais-no-combate-as-drogas>;

A Polícia Militar e a proteção de autoridades durante a Copa do Mundo. Jus Navigandi ISSN
1518-4862 e Jusmilitaris ISSN: 2177-9945 (2012). Disponível em:
https://jus.com.br/artigos/22722/a-policia-militar-e-a-protecao-de-autoridades-durante -a-
copa-do-mundo.
INTRODUÇÃO

Os profissionais imbuídos da missão de manutenção e preservação da Ordem


Pública jamais estarão preparados para todas as situações caso se mantenham inertes às
evoluções do crime e das modalidades criminosas. Assim sendo, os agentes de segurança
pública devem buscar constante atualização das técnicas, táticas e procedimentos
empregados nas diversas ocorrências policiais. Entretanto existem situações limites em
que a força letal da polícia é desejada por parte do próprio causador da crise.

No Estado de São Paulo, a Policia Militar conta com unidades especializadas para
o apoio à Sociedade Paulista em situações extremas, atualmente o Grupo de Ações Táticas
Especiais (GATE) se destaca na intervenção em crises complexas de Segurança Pública
como: criminosos com reféns, sequestradores escondidos em locais de difícil
acesso, ações de terrorismo , suicidas armados, ações antibomba e contrabomba – como
desativações, remoções e detonações controladas de artefatos explosivos –, rebeliões em
presídios e outras missões que o Comando da Instituição julgue cabível o apoio desta
tropa especializada.

Ocorre que o GATE possui grande investimento em equipamentos específicos, a


exemplo de: fuzis de precisão para a missão de sniper, trajes antibombas, robôs com
câmeras e braços manipuladores, escudos, capacetes balísticos, entre outros. Além de
contar com um altíssimo investimento intelectual como: conhecimento de psicologia e
neolinguística (principalmente para aplicação por parte da equipe de negociação), cursos
nacionais e internacionais para aprimorar as técnicas e táticas empregadas, entre outros.

A possiblidade de maior especialização tem como consequência direta dois aspectos:

1. Grande número de ocorrências por parte do Grupo, sendo mais de 430 em crises
com reféns, em presídios rebelados e suicidas armados e mais de 1000 em crises
atinentes ao esquadrão de bombas. Gerando “know-how” e obrigatoriedade em
realizar estudos de casos e treinamentos não rotineiros.
2. Contato com diferentes tropas do mundo dialogando sobre diversas matérias,
gerando, consequentemente, uma missão inerente às tropas especializadas: ser um
polo difusor de conhecimento interna e externa corporis.
Por estes motivos o Grupo busca constante contato com diversas tropas do mundo
a fim de entender quais ocorrências podem causar maiores impactos na sociedade e
prejudicar o “bem comum” tão almejado pela Legislação nacional. Atualmente o GATE
estuda, discute e treina à exaustão um assunto pouco discutido no métier policial:
“Suicídio por policial” e justamente é este o foco deste trabalho. Busca-se por meio deste
artigo disseminar o conhecimento aprendido na teoria e na prática a fim de colaborar com
as diversas Instituições Policiais.

SUICIDIO POR POLICIAL

A expressão “Suicídio por Policial” advém da tradução da expressão utilizada nos


Estados Unidos da América: “Suicide by Cop”. Refere-se ao indivíduo que deseja que
sua vida tenha fim imediato, mas na ausência de coragem para cometer o suicídio – ou
outras motivações que serão explanadas adiante– , cria um cenário para que a Polícia seja
obrigada a reagir à sua agressão, e responder com força letal.

Lato sensu, existem dois tipos de suicídio por policial que as tropas policiais têm
observado. O primeiro é o indivíduo infrator que já cumpriu sanção penal em determinado
momento de sua vida e, que ao voltar a cometer um crime e ser encurralado pela Polícia,
prefere provocar um tiroteio e ser alvejado mortalmente, do que voltar para ao cárcere. O
segundo tipo são pessoas que não necessariamente possuem antecedentes criminais, mas
que por situações variadas já estão pensando no suicídio e, como no caso anterior, usam
a Polícia como ferramenta para atingir seu objetivo.

A tendência de aumento de doenças que podem levar ao pensamento no suicídio, a


exemplo da depressão, é um mal que acomete todo o mundo e não é diferente em São
Paulo, onde as ocorrências com suicidas e emocionalmente perturbados atendidas pelo
GATE apresentam uma crescente. Diversas são as ocorrências em que o causador passou
minimamente por três momentos distintos:
1) Pensamento de morte, quando o indivíduo cogitou que estar morto seria uma
opção melhor a estar vivo;

2) Ideação suicida, algumas vezes não estruturada e outras estruturada, ou seja,


ideando o modo como irá morrer e quais ferramentas utilizará para este ato;

3) A tentativa ou a execução do suicídio, quando o indivíduo de fato busca dar fim a


sua vida, ou decide agredir uma equipe policial para que esta faça isso (suicídio
por policial).

Recentemente o GATE atuou em ocorrências em que o causador demonstrava


elementos de suicídio por policial, afirmando frases do tipo: “Entra aqui e me mata! Me
pega logo! Por que vocês não fazem isso? Vocês são covardes? Vocês estão com medo?
Pode me matar! Dá logo um fim nisso tudo!”. Em crises deste porte faz-se necessário,
primeiramente observar as posturas do causador da crise, buscando ao máximo entender
suas motivações, os meios que dispõe, o cenário, entre outros elementos.

Além das análises supracitadas é de suma importância que os agentes de segurança


entendam que o objetivo primordial da polícia neste tipo de operação é preservar a vida
de todos os envolvidos, incluindo os agressores. Estes, via de regra, estão sob forte
estresse emocional e por vezes sob efeito de psicotrópicos que potencializam seu
comportamento errático e imprevisível.

Para deixar a situação ainda mais delicada, além de representar uma ameaça iminente
para si próprio, é comum que o causador coloque em risco a vida de outras pessoas,
geralmente familiares e parceiros amorosos, e obviamente os Policiais que estão no local.

Em ocorrências assim, raramente a alternativa tática de Negociação consegue criar


um clima de confiança e cooperação, já que o causador não segue padrões lógicos. Por
este motivo o processo exige continuas adaptações e uso de múltiplas de técnicas e por
vezes necessidade de emprego de outra alternativa tática, por exemplo a invasão,
majoritariamente com técnicas de menor potencial ofensivo no caso do suicida.
(membros da equipe de negociação do GATE)

HISTÓRICO

Temas deste porte exigem estudos aprofundados, incluindo o histórico e os


comportamentos de suicidas por policial em outros locais do mundo. Os primeiros artigos
documentando esses casos apareceram na Inglaterra em 1981, mas hoje já existem mais
estudos a respeito deste tema.

O termo atual, “Suicídio por Policial” foi analisado pela primeira vez pelo Policial
e Psicólogo americano Karl Harris em 1983. Um trabalho mais recente, publicado no
“Journal of Forensic Studies”, em 2009, examinou mais de 700 tiroteios nos Estados
Unidos e classificou 252 (36%) como suicídios por Policiais. O documento também
sugeriu que a frequência destes incidentes estava em alta.

Nos EUA, estudos afirmam que apenas 13% das mortes aparentes por suicídio por
policial foram planejadas, na medida em que uma carta foi deixada absolvendo os agentes
envolvidos de irregularidades. No Brasil são poucas as pesquisas ou estatísticas sobre o
assunto, pois o tema é recente e os estudos começaram a aparecer somente em 2008. No
GATE esses casos vem aumentando a cada ano, até o início de dezembro de 2018 o grupo
atuou em 22 ocorrências desse tipo, um recorde histórico.
(ocorrências reais, atendidas pelo GATE, com indivíduos com comportamento de suicídio por policial)

MOTIVAÇÕES

A literatura especializada apresenta várias situações que levam uma pessoa a


provocar sua morte através de confronto com a Polícia. Para o GATE é muito importante
estudar e entender essas motivações, pois cada uma exige uma abordagem diferente para
sua solução. Abaixo estão algumas situações descritas em manuais e artigos
internacionais que versam sobre este assunto:

1. Motivos relacionados a valores sociais: Em muitas culturas e religiões


existe um forte estigma associado ao suicídio. Se um indivíduo acredita que esse ato é um
pecado, ele pode não ser capaz de realizá-lo. Ele usa então um processo de racionalização:
se conseguir morrer através de um Policial puxando o gatilho ao aplicar a lei, então,
essencialmente, ele não foi vítima de si mesmo, mas de um homicídio feito pela Polícia,
e por isso sua morte é aceita.

2. Motivos de culpa: O exemplo mais comum é do indivíduo que mata outra


pessoa, muitas vezes um membro da família, intencionalmente ou não. Impossibilitado
de conviver com essa culpa e sentindo o pesado julgamento da sociedade, acredita que a
única maneira de resolver a situação é também morrer de forma violenta e para isso
recorre ao suicídio por Policial.

3. Motivos passionais: Essa pessoa precisa ser percebida como uma vítima,
e expressar suas frustrações diante de uma audiência para culpar terceiros por sentimentos
relacionados a uma situação amorosa desfavorável. Infelizmente os indivíduos que se
encaixam nessa categoria possuem maior probabilidade de matar seus reféns, para
amplificar a mensagem do seu ato. Nesses casos as negociações costumam ser longas e
com resultados positivos mais difíceis de serem atingidos.

4. Motivo de grandeza e atenção: Normalmente se encaixa nessa categoria o


criminoso narcisista que julga que, ao ser morto pela Polícia, se transformará num mito,
que será notícia e objeto de estudos. Este tipo de indivíduo apresenta grande potencial de
violência para os Policiais, e deve ser considerado entre os mais perigosos, já que está
decidido a não se entregar.

5. Retorno para a prisão: Esse motivo também está relacionado com


marginais que, ao serem pegos pela Polícia num ato criminoso, preferem ser mortos num
confronto do que retornar para um presidio. Como no caso anterior, é uma situação muito
perigosa, com baixo potencial de sucesso na negociação.

6. Motivos financeiros: As apólices de seguro de vida não incluem suicídios,


mas se o indivíduo for morto num confronto com a Polícia, a família pode receber o
dinheiro, fazendo com que ser morto por agentes de segurança passe a ser uma opção
viável. Essa situação pode acontecer com pessoas que estão fortes dificuldades
financeiras, ou até com doenças terminais, e que desejam deixar uma estabilidade para a
família.

7. Drogas e ou álcool: A intenção suicida nos casos de pessoas intoxicadas


ou drogadas é mais difícil de ser estabelecida, já que suas ações podem ser alteradas pelo
abuso dessas substâncias, aumentando seu potencial de violência, ou de suicídio. Nesses
casos há necessidade de se pesquisar antecedentes pessoais, profissionais e familiares
para classificar com segurança se o confronto com a Polícia é um desejo de ser morto ou
não.
CONCLUSÃO

Nos casos de suicídio por policial, as equipes policiais devem manter atenção
especial para o estrito cumprimento do dever legal, o objetivo principal é de preservar a
vida de todas as pessoas envolvidas, inclusive a dos causadores de crise. Uma ocorrência
com resultado óbito jamais será desejada. Deve-se, pois, possibilitar treinamos extensivos
para que o conhecimento seja amplamente divulgado, para que os protocolos e
procedimentos operacionais sejam implementados de forma rápida, correta e decisiva.

Os suicídios por policial não são necessariamente planejados com grande


antecedência, na verdade, a maioria dos suicídios por policiais era uma noção quase
conceituada pelo perpetrador. O causador pode não ter a intenção de se matar até que, por
algum motivo, a polícia seja chamada a intervir, como em casos de ocorrências com
violência doméstica, ou indivíduo mentalmente perturbado e o causador tome esta decisão
inesperada.

Majoritariamente as equipes especializadas não dão o primeiro atendimento nas


ocorrências, portanto dependendo da dinâmica de cada crise, o primeiro policial a intervir
pode ser o tomador de decisões cruciais. Por isso o trabalho de Grupos Especiais não se
limita em treinar e operar, mas primordialmente dar treinamentos, instruções e possibilitar
que os operacionais que atendem ocorrências variadas possam entender as peculiaridades
e riscos de um suicida por policial.

Atualmente a motivação para o suicídio por policial não é um tema central nas
discussões de Segurança Pública e pouco atinge o interesse dos cidadãos em geral.
Entretanto é de suma importância para o falecido, seus entes e o policial que pode puxar
o gatilho, completando o desejo suicida do indivíduo.

Grupo de Ações Táticas Especiais

Você também pode gostar