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Exu nas escolas, Exu na

ciência, Exu na política


PAI RODNEY

29 DE NOVEMBRO DE 2019

Ao aprofundar o aprendizado sobre Exu,


expandimos a compreensão do universo e as
forças da natureza para transformar nossas
vidas
É preciso expor e dividir saberes ancestrais. Os caminhos, os mistérios, as
histórias, as experiências, os ritos. Desmistificar, decodificar, compreender. Ler
além do que está escrito, enxergar além do que se vê, escutar o que não se
ouve, sentir o intangível. É preciso ter Exu como grande condutor e transmissor
de aprendizado. O orixá da comunicação, que detém o poder de realizar, vem
pra romper com um modo de pensar e de fazer que só contempla a lógica do
colonizador.
Um trecho da música “Exu nas Escolas”, composta por Kiko Dinucci e Edgar e
cantada num tom político e revolucionário pela inigualável Elza Soares, ilustra
bem as propostas de uma epistemologia negra, de resistência, que resgate a
filosofia, a visão de mundo e a dignidade dos povos escravizados.
Estou vivendo como um mero mortal profissional
Percebendo que às vezes não dá pra ser didático
Tendo que quebrar o tabu e os costumes frágeis das crenças limitantes
Mesmo pisando firme em chão de giz
De dentro pra fora da escola é fácil aderir a uma ética e uma ótica
Presa em uma enciclopédia de ilusões bem selecionadas
E contadas só por quem vence
O mundo precisa conhecer o poder de Exu. Exu é movimento, é vida. Exu nos
proporciona uma vida plena, com muitos desafios, mas cheia de motivos para
festejar e ser feliz. Ao receber pedidos e agradecimentos, Exu vai
transformando e abrindo caminhos e mentes. Quando se aprende sobre a
dádiva e se pratica o ato de retribuir, amplia-se a proximidade com Exu. A
comunicação plena com Exu é um ato de amor e conquista.
Ao aprofundar o aprendizado sobre Exu, conseguimos expandir a
compreensão do universo e movimentar as forças da natureza para transformar
nossas vidas. Exu é o poder de realizar em toda sua plenitude. Exu é solução,
é caminho. Exu é a felicidade, a prosperidade, que para o povo negro são
obrigações ancestrais. Exu é a síntese de um modo de pensar que se afasta
completamente de visões eurocêntricas e limitantes. Exu é expansão, é
transformação, é movimento.
Estabelecer uma relação perfeita com Exu depende de um intenso
aprendizado, de uma compreensão profunda de suas dimensões e de um
entendimento das múltiplas significações que encerra. O estudo sobre Exu é
algo que começa e jamais termina, mas uma vez inseridos em seu universo de
conhecimento, nossa visão do mundo e da vida nunca mais serão as mesmas.
Quando Mauss formatou o conceito de dádiva, nomeando a prática desse
exercício diário de relação com o sagrado, lançou aos céticos o desafio de
entender as dimensões simbólicas que tornam a fé real e eficaz. Lévi-Strauss
avançou em interpretações que davam conta das estruturas mais humanas,
que simplesmente faziam a magia acontecer. Na complexidade das brechas
que os enigmas dissipam, Morin encontrou nos mitos e ritos o sentido de tudo
que ao homem parecia intangível. Exu sentou-se com todos eles, porque Exu
fala todas as línguas. Exu sentenciou: Axé para expandir, Axé para
movimentar, Axé para transformar. Exu é Axé. Axé é Exu. O poder que realiza,
a força, a vida.
Quando propomos uma imersão na epistemologia da resistência, estamos
falando da forma como Exu conduz não só o aprendizado, mas a própria
ciência e também a política. Trata-se de expandir, movimentar e transformar
com base num saber ancestral que indica o caminho da felicidade e utiliza o
poder de realizar, isto é, o axé, em sua potência máxima. História, ritual e
significados de Exu conduzem às múltiplas interpretações do orixá que
desconhece o impossível. Pensar, sentir, agir para alcançar objetivos e mudar
completamente o sentido da vida e a construção dos saberes.
Conhecer Eleguá, Alajê e Olojá, saber como expandir e transformar, entender o
verdadeiro sentido da prosperidade, exercitar as trocas, a reciprocidade,
promover a circulação dos bens materiais e simbólicos. Aperfeiçoar a
comunicação com o universo é a grande prerrogativa de Exu. E todos podem
aprender. Aliás, todos deveriam aprender nas escolas, desde a mais tenra
idade. Exu deveria ser assumido como base da cultura brasileira na mesma
proporção das políticas de inclusão do povo negro.
Epistemologia significa ciência e conhecimento, certo? É o estudo científico
que trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento, sua
natureza e limitações. É o grande mister de Exu. Ao estudar a origem, a
estrutura e os métodos do saber, a teoria do conhecimento vai se relacionando
com a metafísica, a lógica e a hermenêutica.
Pode o ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno? Sem Exu me
parece impossível. Se a epistemologia trata da natureza, da origem e da
validade do conhecimento, e estuda também o grau de certeza do
conhecimento científico nas suas diferentes áreas, com o objetivo principal de
estimar a sua importância para o espírito humano, ao desconsiderar os saberes
construídos pelas civilizações africanas perde-se em essência e conteúdo,
porque Exu é um saber ampliado, que vai além da racionalidade que limita e
não compreende a dimensão do que somos.
Quando trabalhamos com ações humanas dotadas de significado e com os
produtos dessas ações, ou seja, com métodos e interpretações, precisamos de
instrumentos para tratar essas questões de forma eficiente. A hermenêutica
ajuda a tornar os saberes compreensíveis. Mas de onde vem essa expressão?
O termo deriva do nome Hermes, um deus da mitologia grega, ou, mais
especificamente, o mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam a
origem da linguagem e da escrita, considerado o patrono da comunicação e do
entendimento humano. As semelhanças entre Hermes e Exu já foram
estudadas, trata-se do mesmo arquétipo, o que tem nos permitido brincar com
as palavras e falar numa “Exunêutica”. A rigor, como estamos falando de
compreensão e exposição de uma determinação divina, é necessário que haja
interpretação para que entendamos corretamente. Exu traduz a vontade de
Olodumare e de todos os orixás.
Se Hermes é o patrono da hermenêutica por ser considerado o senhor da
comunicação e do entendimento humano, Exu, com sua “exunêutica”, pode nos
levar a um tempo de ruptura por meio da expansão, da movimentação e da
transformação do conhecimento. Exu nas escolas me faz pensar na
possibilidade de reconstruir uma civilização. É redimensionar o aprendizado
para construir um tempo de respeito pela diversidade, inclusão e justiça. Viva
Exu! Laroiê!

Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências


Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e
religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste
espaço às sextas-feiras.