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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 31-43 NOV.

2007

GRAMSCI E O ESTADO:
PARA UMA RELEITURA DO PROBLEMA

Rita Medici

RESUMO

Pretende-se reler o problema do Estado no pensamento de Gramsci, analisado em seu tempo de forma já
clássica por Massimo Salvadori e Christine Buci-Gluksmann, na convicção de que, na realidade, o perfeito
alinhamento de Gramsci à tradição marxista da “extinção” do Estado, sustentado quase unanimemente
pela crítica gramsciana contemporânea, deva ser reavaliado e até mesmo revogado. A exegese do texto de
Gramsci será também levada avante valendo-se de instrumentos de análise lexical, destacando a presença,
nos Quaderni del carcere, da expressão “vida estatal”, da qual Gramsci faz amplo uso. Dessa expressão,
podem decorrer elementos esclarecedores da concepção gramsciana de Estado, úteis para uma
reconsideração da complexa reflexão sobre o problema “histórico” da democracia, com seu difícil equilí-
brio entre crítica, renovação e exclusão das formas tradicionais da democracia moderna.
PALAVRAS-CHAVE: Antonio Gramsci; Estado; filosofia; marxismo; política; sociedade civil.

I. INTRODUÇÃO sadores, e em particular com Rousseau, algum


tipo de afinidade, como julgou Carlos Nelson
Sem dúvida, examinar com profundidade o
Coutinho e como também demonstrei
problema do Estado no pensamento de Antonio
(COUTINHO, 2006, p. 152-157; MEDICI, 2000,
Gramsci é algo que não se pode enfrentar no es-
p. 70-77). Sua inserção no sulco daquela tradição
paço de um ensaio. De fato, para tratar a questão,
vem, de fato, em primeiro lugar, por meio da me-
dever-se-iam aprofundar todos os aspectos de uma
diação fundamental de Hegel e sobretudo de Marx.
problemática que comportaria uma pesquisa so-
Por isso, seu pertencimento ao marxismo torna-
bre os próprios fundamentos do pensamento filo-
se um elemento indispensável de sua reflexão e
sófico-político gramsciano. Considero algo esta-
influencia de modo substancial seu perfil filosófi-
belecido que se possa falar de Gramsci como um
co, aquele de uma filosofia “política” (que se ocu-
filósofo político e também, seguramente, um filó-
pa, pois, de alguns de seus temas clássicos, como
sofo, não tendo aqui a possibilidade de demonstrá-
o nexo entre Estado e sociedade civil), mas tam-
lo; para isso, remeto ao meu livro, intitulado Giobbe
bém de uma filosofia compreendida de modo mais
e Prometeo, no qual descrevi por que podemos,
geral. Creio, portanto, que não podemos mais
sem dúvida, pensar que Gramsci seja um pensa-
duvidar de uma “filosofia” dos Quaderni e nos
dor com perfil filosófico e não simplesmente um
Quaderni, que, contudo, não sendo de tipo tradi-
teórico da política (MEDICI, 2000, p. 61-109).
cional, é todavia inegavelmente uma filosofia1.
Um pensador que se insere de modo original na
Pelo contrário, penso que Gramsci, sob um olhar
tradição de pensamento da filosofia política mo-
mais atento e visto em uma perspectiva histórica
derna e contemporânea, naquele “ius publicum
adequada, pode, a esse propósito, revelar-se um
europaeum” do qual, na mesma época em que
dos mais inovadores filósofos italianos da primei-
este pensava e trabalhava, alguém tinha decretado
ra metade do século XX.
a crise irreversível. Tratava-se, pelo contrário, de
uma tradição de pensamento que tinha ainda mui- Das vertentes teóricas, filosoficamente rele-
to a dar, como a própria obra de Gramsci e sua vantes, que foram até aqui individualizadas, cer-
fortuna crítica sucessivamente e largamente de- tamente o tema do Estado, em primeira instância,
monstraram. coloca-se sobre a vertente filosófico-política, e
Aquilo que pretendo afirmar não é que Gramsci
seja simplesmente um epígono de Hobbes, Locke 1 Como já reconhecem alguns dos estudos mais recentes:
e Rousseau, muito embora tenha com esses pen- conferir, entre outros, Baratta (2003, p. 77-117).

Recebido em 15 de agosto de 2007.


Aprovado em 25 de agosto de 2007.
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 29, p. 31-43, nov. 2007
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naturalmente é deste que, acima de tudo, quero der se, para Marx, o desaparecimento (ou aboli-
ocupar-me. Conservo (e procurarei demonstrá- ção) do Estado coincidiria ou não com o desapa-
lo) que, por uma série de razões muito precisas, o recimento do “político” enquanto função separa-
tema nos conduz inevitavelmente a uma dimen- da e específica; se sua concepção do comunismo
são mais ampla, filosófica no sentido mais geral, prevê aqui uma sobrevivência qualquer da dimen-
da pesquisa gramsciana dos Quaderni. são política enquanto tal, uma vez superada, para
usar as palavras de Marx, “a limitada forma bur-
II. GRAMSCI (MARX) E O ESTADO guesa” – essa é uma bela expressão que se en-
A doutrina oficial do marxismo sobre o tema contra nos Grundrisse (MARX, 1970, v. II, p.
do Estado, como é sabido, foi formulada por 112-113)4 – ou auspicia sem condescendência o
Friedrich Engels, retomando a temática saint- total desaparecimento.
simoniana do desaparecimento do Estado como De todo modo, o que aqui importa é que a
anulação da dimensão do político como tal e do tradição marxista do século XIX se referirá prin-
governo da sociedade como simples “administra- cipalmente a Engels, tanto ao Anti-Dühring, no
ção das coisas”2. Se isso respondia plenamente à qual retomava recapitulando as análises de Marx
visão que Marx tinha do problema, permanece ainda sobre a gênese do Estado, quanto à Origem da
hoje um ponto problemático. Mas, certamente, família, da propriedade privada e do Estado5,
Marx, ao final de 1845, tinha ligado a existência em que se fala da “extinção” do Estado como de
do Estado ao domínio de classe, sem posterior- um ponto firme sobre o qual nenhum entre os
mente colocar em dúvida essa análise: o comu- teóricos marxistas mais importantes (com exce-
nismo como superação da alienação capitalista ção dos social-democratas alemães) colocará em
previa o desaparecimento de tal domínio conjun- discussão, nem mesmo Lenin. É essa concepção
tamente com as classes. Isso deveria ser acom- “ortodoxa” que Gramsci encontra no arsenal teó-
panhado pela abolição da propriedade privada e da
divisão do trabalho, com o fim de obter a supera-
ção de todos os fenômenos alienantes conectados cado “se é realmente verdade” que as obras de Marx “docu-
à produção de mercadorias. Era prevista, também, mentam uma completa adesão [...] à teoria da extinção do
a abolição do Estado considerado orgânico ao Estado não apenas em sua fase juvenil, como também na
domínio de classe, sobre a qual Marx fala, sem maturidade” (ZOLO, 1977, p. IX-LIV, XXIV).
lugar a dúvidas, no Manifesto de 1848. Em um 4 Comparando o mundo antigo, no qual o homem “é sem-
texto mais tardio, entretanto, Crítica ao Progra- pre o fim da produção”, ao mundo moderno, no qual “a
ma de Gotha, a fórmula que Marx adota é a da produção se apresenta como fim do homem e a riqueza
como a finalidade da produção”, Marx observa: “in fact,
“transformação” do Estado “de um órgão sobre-
uma vez cancelada a limitada forma burguesa, o que é a
posto à sociedade em um órgão totalmente su- riqueza senão a universalidade das necessidades, das capa-
bordinado a ela”3. Sem fazer uma inútil guerra de cidades, dos gozos [...] criada no intercâmbio universal? O
citações, tratar-se-ia, na realidade, de compreen- que é senão o pleno desenvolvimento do domínio do ho-
mem sobre as forças da natureza [...]? O que é senão a
exteriorização absoluta de seus dotes criativos [...] na qual
2 Na terceira parte de seu Antidühring, Engels escrevia: “O o homem não se reproduz em uma dimensão determinada,
proletariado apodera-se do poder do Estado e antes de mas produz a própria totalidade?” Por isso, também, se o
tudo transforma os meios de produção em propriedade do “infantil mundo antigo” se apresenta como uma coisa mais
Estado”. Dessa forma, suprime toda diferença de classe e, elevada, isso “é satisfatório de um ponto de vista limitado”
para isso, suprime também o Estado. De fato, não apenas (MARX, 1970, v. II, p. 112-113).
não existiriam mais classes sociais mantidas na opressão, 5 “O Estado não existe desde a eternidade. Existiram socie-
como também não seria mais necessária a força repressiva
dades que o ignoraram e que não tiveram nenhuma idéia do
do Estado. A intervenção do Estado nas relações sociais
Estado ou do poder estatal. Em um determinado grau do
torna-se supérflua em todos os campos: “no lugar do go-
desenvolvimento econômico [...] ligado à divisão da socieda-
verno sobre as pessoas surge a administração das coisas e a
de em classes, [...] o Estado tornou-se uma necessidade”.
direção dos processos produtivos. O Estado não é ‘aboli-
Avizinha-se, entretanto, a passos rápidos, um estágio da
do’: se extingue” (ENGELS, 1950, p. 305, sem grifos no
produção no qual as classes, tornadas obstáculo à produção,
original).
cairão; com elas cairá também o Estado. A sociedade reorga-
3 Sobre a complexidade do problema e também de algumas nizada como uma associação livre dos produtores relegará o
discrepâncias entre as concepções de Marx e Engels a res- conjunto da máquina estatal ao posto que merece, “isto é, ao
peito, ver Danilo Dolo em sua “Introdução” a I marxisti e museu das antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado
lo Stato, o qual observa que precisaria ser mais bem verifi- de bronze” (ENGELS, 1963, p. 203-204).

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rico do marxismo e é com ela que sua pesquisa nuação do leninismo” em condições históricas di-
deve acertar as contas. Na reconstrução dessa versas e com novas conclusões políticas (BUCI-
problemática do Estado em Gramsci e do tema GLUCKSMANN, 1976, p. 23). Do mesmo modo,
relacionado de sua crítica à democracia, pretendo estou em desacordo também com outra tese, mais
apoiar-me na leitura que fizeram, em um momen- de uma vez repetida por ela: a de que se poderia
to anterior dos estudos gramscianos, dois estudi- encontrar em Gramsci um ponto de vista filosófi-
osos cujas obras permanecem pequenos “clássi- co “materialista”, o que não surpreende, na medi-
cos”. Falo de Massimo Salvadori, com Gramsci e da em que a autora reivindica abertamente, ainda
il problema storico della democrazia, de 1970, e que em chave crítica, a leitura do marxismo pro-
de Christine Buci-Gluksmann, com seu Gramsci posta por Louis Althusser. Sobre esse tema, te-
et l’État, de 1975. nho a opinião contrária e destaco que, na reflexão
filosófica dos Quaderni, são repelidas exatamen-
III. O TEMA DO ESTADO NA CRÍTICA
te as versões materialista e economicista da teoria
GRAMSCIANA: LENINISMO ORTODOXO
marxista. Em particular sobre a questão filosófi-
OU CRÍTICA ORIGINAL DA DEMOCRA-
ca, o distanciamento entre Gramsci e Lenin é, a
CIA BURGUESA?
meu ver, evidente, seja pelos acenos diretos – ele
No início de seu livro, Buci-Glucksamann ob- define a filosofia de Lenin como “ocasional”
servou justamente que, colocando o centro da (MEDICI, 2000, p. 9-37; GRAMSCI, 2001, p.
pesquisa gramsciana no tema do Estado, são re- 886) –, seja indiretamente, com a demolição críti-
tomadas todas as grandes questões que estavam ca que Gramsci faz, no Quaderno 11, da
postas nas primeiras três décadas do século XIX: impostação dada por Bukharin às questões filosó-
crise do Estado liberal, natureza do Estado fascis- ficas em seu Manual popular de sociologia mar-
ta, problemas do Estado socialista soviético. Sua xista, impostação coerente com a tradição do
convicção é que a questão do Estado é funda- marxismo russo, da qual Lenin, com seu Materia-
mental, principalmente nos Quaderni del carcere, lismo e empirocriticismo, de 1908, forneceu, ao
na medida em que, segundo ela, Gramsci passou mesmo tempo, um complemento e uma síntese6.
de uma concepção da hegemonia em termos de
Prescindindo dessa questão da presumida “or-
classe, típica de sua elaboração juvenil, para uma
todoxia leninista” de Gramsci, não se pode es-
concepção de hegemonia “em termos do Estado”
conder que a pesquisa de Buci-Glucksmann so-
(BUCI-GLUCKSMANN, 1976, p. 17). A seguir,
bre o tema do Estado teve uma importância fun-
como Buci-Glucksmann admite, o ponto de vista
damental para uma melhor compreensão do pen-
gramsciano sobre o tema do Estado muda com
samento gramsciano. A estudiosa francesa, pela
relação às análises formuladas na década de 1920,
primeira vez, colheu a importância desse concei-
em um momento no qual a revolução parecia imi-
to de “Estado ampliado”, o fato de que existam
nente e Gramsci lutava para fundar também na
em Gramsci dois momentos diversos nos quais
Itália um Estado de tipo soviético. Partilho dessa
se articula o “campo estatal” – o Estado em senti-
afirmação, assim como também estou de acordo
do estrito, que se identifica com o governo e seu
com Buci-Glucksmann quando sublinha que, ar-
aparelho coercitivo, e o Estado em sentido ampli-
ticulando de uma maneira nova o conceito de Es-
ado, que é composto pelo conjunto de meios de
tado com relação à sociedade, Gramsci soube evitar
direção intelectual e moral, isto é, pelos aparelhos
tanto as velhas concepções socialdemocráticas
hegemônicos (BUCI-GLUCKSMANN, 1976, p.
quanto à teoria stalinista do Estado como pura
89-140). Concordo com a análise de Buci-
Força. Essa reflexão original de Gramsci desem-
Glucksmann e com sua tese central sobre a exis-
boca naquela que ficou conhecida como a “con-
tência, em Gramsci, de uma nova concepção do
cepção ampliada” do Estado, com a inclusão, den-
Estado. Parece-me, entretanto, que esse conceito
tro do próprio Estado, dos aparelhos hegemônicos.
de “Estado ampliado” permanece, ainda, como algo
Por outro lado, parece-me menos convincen-
te a tese que, a partir daí, Buci-Glucksmann pre-
tende demonstrar, de que isso antecipa uma “re- 6 Aqui, considero que, confutando e rejeitando o ponto de
tomada leninista” da idéia da “extinção” do Estado vista teórico de Bukharin, Gramsci implicitamente rejei-
na sociedade comunista e que os Quaderni, em tasse também a impostação dada aos problemas filosóficos
seu conjunto, devam ser lidos como uma “conti- pelo próprio Lenin.

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GRAMSCI E O ESTADO: PARA UMA RELEITURA DO PROBLEMA

a ser esclarecido – uma vez que seja verdade, de de dirigentes. A superação da divisão entre
como acredito, que isso não conduza de fato governantes e governados, que é um processo
Gramsci a simplesmente aderir à clássica teoria destinado a ocupar toda uma época histórica, de-
marxista da “extinção” do Estado7 – sobretudo verá, por isso, ser preparada por um tipo particu-
naquilo que diz respeito, nessa concepção “ampli- lar de direção política. O partido revolucionário,
ada”, ao modo em que se deverá compreender a segundo Gramsci, deve pretender a transforma-
relação de distinção entre “sociedade política” (o ção de todos os filiados em dirigentes, preparan-
Estado em sentido estrito) e “sociedade civil”, dis- do assim as condições para que a divisão entre
tinção que, como Gramsci adverte, é governantes-governados seja superada
“metodológica” e não “orgânica” (GRAMSCI, (SALVADORI, 1970, p. 55-56). Essa idéia do de-
2001, p. 1590). Esse problema da relação entre saparecimento da divisão entre dirigentes e dirigi-
sociedade civil e Estado tem se revelado sempre dos deve ser aproximada da proposta gramsciana
uma vexata quaestio dos estudos gramscianos presente no Quaderno 11, no qual, refletindo so-
contemporâneos8. bre o relativo “infortúnio” do pensamento mar-
xista (tornando-se patrimônio das massas apenas
IV. GRAMSCI E O PROBLEMA DA DEMOCRA-
em sua forma mais pobre e dogmática) e pergun-
CIA
tando-se “como se tornam populares as novas
Em seu livro, Salvadori tenta reconstruir a re- concepções de mundo”, Gramsci indica, na filo-
flexão em torno do problema da democracia como sofia marxista, em sua versão filosoficamente mais
apresentada em Gramsci. Em um capítulo funda- “elevada” de “filosofia da práxis”, o instrumento
mental, intitulado Centralismo e democrazia nel para promover um “progresso intelectual de mas-
“moderno Principe”, Salvadori destaca, com for- sa” (GRAMSCI, 2001, p. 1384-1385). São pro-
ça, a importância da idéia de “reforma intelectual postas de fundamental importância que, no perío-
e moral” para a concepção gramsciana. Essa “re- do transcorrido desde a redação dos Quaderni,
forma” comporta uma maturação das massas e é não foram realizadas senão minimamente, consti-
o elemento que “propriamente impede a tuindo aquilo que, sem hesitar, chamarei de a par-
instrumentalização das massas por parte dos diri- te “utópica” (no sentido positivo do termo) da
gentes” (SALVADORI, 1970, p. 54). Salvadori proposta política e estratégica gramsciana9.
coloca, de modo justo, no centro dessa proble-
Continuando com seu exame, Salvadori justa-
mática, a convicção de que Gramsci acredita que
mente insiste sobre a importância que Gramsci
seja possível superar historicamente a divisão en-
atribui ao funcionamento do partido em dois mo-
tre dirigentes e dirigidos, governantes e governa-
dos diversos, segundo um centralismo que pode
dos. É evidente que apenas é possível superar essa
ser “democrático” ou “burocrático”. Com pala-
divisão criando as premissas de ordem intelectual
vras muito duras, Gramsci critica o segundo modo,
para que as massas possam adquirir a mentalida-
o burocrático, com base no qual um partido se
revela “puro executor, não deliberante”, “tecnica-
7 Sobre isso, concordo com as opiniões expressas por mente um órgão de polícia”. Tais afirmações são
Domenico Losurdo, que observa que Gramsci é o autor acompanhadas por uma crítica mais geral da bu-
marxista que se demonstra mais crítico às tendências anár- rocracia, segundo Gramsci, “a força consuetudi-
quicas e a coisa “se compreende bem”: de fato, “fazer coin-
cidir o fim o domínio burguês com o fim do Estado” com-
nária e conservadora mais perigosa” (GRAMSCI,
porta uma forma de mecanicismo “que faz das instituições 1953, p. 26, 51). Para completar seu raciocínio,
políticas uma simples superestrutura da economia”; não é, Salvadori ressalta a reivindicação (motivo cons-
pois, de surpreender-se que, entre oscilações e contradi- tante do pensamento gramsciano) do valor políti-
ções, Gramsci “se tenha esforçado por redimensionar, co revolucionário da verdade: “na política de mas-
reinterpretar ou colocar em discussão a tese da extinção do sa – escreve Gramsci – dizer a verdade é uma
Estado” (LOSURDO, 1997, p. 181, 198, 190).
necessidade política”. Sem verdade, sem “assu-
8 Sobre esse problema, remeto à boa reconstrução textual
mir coletivamente as responsabilidades” que des-
feita por Guido Liguori, da qual, entretanto, não partilho as
conclusões, que reportam, mais uma vez, toda a problemáti-
ca gramsciana do Estado à clássica concepção marxista, de
derivação engelsiana, sobre a “extinção” (LIGUORI, 2004, 9 Para o caráter particular da “utopia” gramsciana, remeto
p. 208-226). Uma reproposição dos termos dessa questão a meu ensaio “L’‘utopia’ gramsciana ta antropologia e
encontra-se ainda em Dore Soares (2000, p. 55-112). politica” (MEDICI, 2006, p. 193-205).

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ta derivam, as classes subalternas, ainda que se- temente na União Soviética e pronunciando-se por
jam uma nova força dirigente, tornar-se-ão ape- um tipo alternativo de formação escolar (que de-
nas “um novo suporte para uma nova casta de nomina de “escola unitária”), capaz de articular o
governantes” (SALVADORI, 1970, p. 56-57; saber técnico e a formação cultural de tipo
GRAMSCI, 1952, p. 168). Salvadori prossegue humanista com base no ideal pedagógico daquilo
em sua investigação ressaltando como na concep- que chama de um “moderno Leonardo” (MEDICI,
ção gramsciana é abertamente afirmado o caráter 2000, p. 95; DORE SOARES, 2006, p. 99-122).
“totalitário” (no significado positivo que esse ter- Não se deve evitar a importância dessa questão
mo tem para Gramsci) que deve ter a política le- devido à estreita correlação existente em Gramsci
vada avante pelo partido “moderno Príncipe”; entre processos formativos e processos
Salvadori se limita a observar que esse caráter hegemônicos, entre pedagogia e política; assim
totalitário é uma necessidade e está relacionado como não deve ser subvalorizada a função
com a teoria gramsciana da hegemonia. educativa que Gramsci reconhece ao Estado en-
quanto tal, quando, por exemplo, escreve que “o
Salvadori não comenta de nenhuma maneira
direito é o aspecto repressivo e negativo de toda a
essa afirmação e passa a examinar a crítica
atividade positiva de deseducação promovida pelo
gramsciana ao parlamentarismo, visto por Gramsci
Estado” (GRAMSCI, 2001, p. 1571, sem grifos
em termos negativos tanto no partido como no
no original).
Estado. Como conclusão de sua pesquisa, o estu-
dioso afirma peremptoriamente que a concepção Geralmente, no que diz respeito ao giro nas
de democracia de Gramsci é plenamente direções burocrática e totalitária do regime
“antiparlamentar e antiliberal” e se situa no interi- stalinista, tem-se, em Gramsci, se não claras afir-
or de uma problemática de tipo “sovietista” mações, indícios claríssimos: uma crítica, embo-
(SALVADORI, 1970, p. 58-60). Sobre esse con- ra indireta (na medida em que o nome de Stalin
junto de questões, algumas considerações se fa- não comparece), no parágrafo 130 do Quaderno
zem necessárias. Para nós, já habituados a consi- 8, intitulado Statolatria; ou ainda uma considera-
derar o totalitarismo segundo a ótica de Hanna ção mínima sobre uma questão secundária na qual,
Arendt, é difícil aceitar de modo simples o uso em poucas linhas, livra-se daquele que já era o
positivo que Gramsci faz do adjetivo correspon- chefe indiscutível do comunismo internacional
dente. Existe também o problema de estabelecer (GRAMSCI, 2001, p. 1728-1730). Enfim, o mais
que coisa exatamente Gramsci pensava, depois significativo de tudo: há, nos Quaderni, um signi-
de 1930, da democracia “sovietista” e, em parti- ficativo e pesadíssimo silêncio sobre Stalin, o que,
cular, de seu grau efetivo de realização prática na a meu ver, não deixa dúvidas sobre o quão efeti-
União Soviética daqueles anos. Sabemos muito da vamente distante Gramsci estava de aprovar a te-
opinião de Gramsci sobre a realização do socialis- oria e a prática do stalinismo, colocando-se em
mo na União Soviética no período no qual escre- forte oposição com este10.
ve nos Quaderni; mas nada se sabe do que Gramsci
V. DA FILOSOFIA POLÍTICA À ANTROPOLO-
pensava no último período de sua vida, da metade
GIA: POVO, AÇÃO, “VIDA ESTATAL” NOS
de 1935 até abril de 1937, quando interrompida a
QUADERNI DEL CARCERE
redação dos Quaderni, em função de suas condi-
ções de saúde, cada vez mais precárias, permane- Irei agora examinar rapidamente a modalidade
cendo em um silêncio que duraria até sua morte. de reflexão que Gramsci, já nos anos vividos em
Turim, desenvolvia a respeito do tema da nacio-
Temos, entretanto, para o período de 1929 a
nalidade, em relação aos vários povos do planeta,
1935, a possibilidade de encontrar quais eram al-
tanto os capitalistas como os coloniais. Trata-se
guns de seus pontos de vista sobre o socialismo e
de uma reflexão complexa, já capaz, com os ins-
a democracia na União Soviética por meio de uma
leitura atenta e também de uma certa decodificação
daquilo que escreveu em certas notas dos
Quaderni sobre algumas questões. Em primeiro 10 A importância dessa noção de “estatolatria” foi assina-
lada também por Coutinho, que a reivindica analiticamente
lugar, deve ser assinalada aquela sobre a instrução em sua reconstrução da concepção gramsciana do “Estado
e a organização escolar na qual Gramsci expressa ampliado”, destacando também a distância das posições
opinião precisa, criticando abertamente a “escola gramscianas do modo de pensar de Stalin sobre essa ques-
única” de impostação tecnológica adotada recen- tão (COUTINHO, 2006, p. 106-112).

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GRAMSCI E O ESTADO: PARA UMA RELEITURA DO PROBLEMA

trumentos de pesquisa ainda imperfeitos que superação daquilo que chamava o “idiotismo” tí-
Gramsci possuía nessa fase, de dar conta da dife- pico do homem do medievo, aquela limitação que
rença entre as ribombantes palavras da ideologia e resultava, no sistema social feudal, nos vínculos
os duros fatos da realidade do domínio e da ex- exclusivos que duravam para cada um toda a vida,
ploração colonial. Veja-se, por exemplo, o que es- com um mesmo lugar, com uma mesma realidade
creve em um artigo de 15 de abril de 1916 – La social e com um exclusivo ramo de trabalho.
guerra e le colonie –, no qual se encontra uma
É evidente que, sobre isso, o ponto de vista de
crua descrição das conseqüências da colonização
Gramsci será completamente diverso e a prova
francesa na Argélia (a mais importante das colô-
pode ser, por exemplo, sua opinião sobre as lín-
nias francesas de fato “tem uma administração
guas populares e seus dialetos, que não são um
anárquica e arbitrária, um sistema de justiça penal
valor absoluto, mas uma etapa – que deve ser
inqualificável, enormes arbítrios policialescos, tor-
conservada e ao mesmo tempo superada – do
turas medievais”); isso porque a França predicou,
desenvolvimento social e individual. Veja-se, por
acima de tudo, os princípios democráticos da igual-
exemplo, como, escrevendo a sua irmã Teresina,
dade, da liberdade e da fraternidade, superiores às
falando do filho dela, exorta-a a não cometer o
raças e às cores, mas esses princípios não foram
mesmo erro feito com a pequena Edmea, filha do
transportados dos confins da mãe pátria às colô-
irmão Gennaro, sobre cuja educação Gramsci em
nias (GRAMSCI, 1980, p. 257).
sua letra demonstra preocupação. Ele recomenda
Trata-se de uma reflexão que vê o entrelaça- que não se cometa a tolice de impedir o menino
mento do tema da nacionalidade com aquele, para de falar livremente o sardo, que além de tudo não
Gramsci tão importante quanto, de seu “tornar-se é sequer um dialeto, mas uma língua em si: de
Estado”, e que deve prestar contas às realidades outro modo, o menino “não terá contato com o
sociais, políticas e culturais que cada povo repre- ambiente geral e terminará por aprender dois jar-
senta e com suas aspirações à independência na- gões, nenhuma língua” (GRAMSCI, 1996, v. 1,
cional, a principal, complicada (e irresolvida), p. 61)12. Aqui, o ponto de vista de Gramsci se
questão da política européia do século XIX, nó revela muito distante do de Marx, salvo sobre um
górdio que apenas a espada da guerra mundial ponto: aquele no qual saúda positivamente a perda
saberá cortar. Existia, em Gramsci, e não deixará daquilo que, em sua linguagem, Marx definia jus-
de existir com o passar dos anos, uma atenção tamente como o “idiotismo do ofício”. A propósi-
forte à particularidade, compreendida também to daquele processo de esvaziamento progressivo
como riqueza e variedade das expressões cultu- do conteúdo do trabalho humano que caracteriza
rais, sociais, lingüísticas11. Uma sensibilidade tes- o desenvolvimento capitalista e que se torna parti-
temunhada pela própria simpatia que nutria, em cularmente evidente no taylorismo fordista,
sua juventude, pela questão da autonomia de sua Gramsci parece seguir pontualmente as análises
Sardenha, apesar de o autonomismo ter sido rapi- marxianas e parece ter quase debaixo dos olhos
damente superado com sua adesão ao socialismo. os capítulos 12 e 13 de O capital (“Divisão do
Não há no sardo, filho da pequeníssima burgue- trabalho e manufatura” e “Maquinismo e grande
sia, aquela atitude presente no grande burguês ale- indústria”) quando escreve certas notas do
mão deraciné, o qual, como intelectual cosmopo- Quaderno 22.
lita – alimentado em seus anos juvenis por aqueles
De todo modo, é possível individualizar, a par-
ideais iluministas que eram muito vivos em sua
tir dos anos de L’Ordine Nuovo, um itinerário de
Renânia –, saudava como um fato absolutamente
maturação e aprofundamento percorrido pela re-
positivo do desenvolvimento capitalista a perda, a
flexão de Gramsci sobre este tema das nações e
dos povos em relação ao Estado, itinerário que se
11 Sobre a complexidade da concepção que Gramsci faz da
torna evidente nos escritos do cárcere, quando a
questão da linguagem como veículo de comunicação e sobre “geopolítica” gramsciana se torna complexa e se
a dificuldade proposta pela necessidade de uma comunica-
ção ao nível do movimento comunista internacional, fato
de realidade e línguas nacionais, considerações sugestivas 12 Gramsci prossegue escrevendo “Recomendo-te, de todo
são formuladas por Francisco Fernández Buey, que obser- coração, não cometer tal erro e deixar que teus filhos absor-
va, por outro lado, como está presente em Gramsci um vam todo o sardismo que quiserem e se desenvolvam es-
tipo de “obsessão” pela linguagem da comunicação pontaneamente no ambiente natural no qual nasceram” (car-
interpessoal (BUEY, 2001, p. 194-203). ta a Teresina Gramsci, de 26 de março de 1927).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 31-43 NOV. 2007

afina com relação à simplista oposição Oriente/ empírico e muito próximo do mais vulgar
Ocidente que teve lugar, pela primeira vez, nos evolucionismo” e conclui que o modo de pensar
escritos juvenis com base na entusiástica adesão implícito na resposta de Labriola “não parece, por-
ao outubro soviético. Nos anos vividos em Tu- tanto, dialético e progressivo, mas acima de tudo
rim, a atenção ao horizonte internacional é quase mecânico e reacionário” (GRAMSCI, 2001, p.
completamente absorvida por essa polaridade, 1366).
enquanto, ao invés, o problema colonial permane-
Essa severa réplica ao próprio Labriola, ao qual
ce no fundo. Com relação a isso, é também pos-
Gramsci, em outra passagem dos Quaderni, ti-
sível encontrar no jovem Gramsci traços débeis
nha atribuído um importante reconhecimento re-
da concepção que desse problema tinha o socia-
lativo a sua afirmação sobre a autonomia filosófi-
lismo, o qual, em alguns momentos, não deixou
ca do marxismo – o qual não teria necessidade de
de justificar o empreendimento colonial com a
ser ecleticamente completado com outras filoso-
dúbia tese da “civilização” dos povos até então
fias, possuindo já todos os conteúdos teóricos
primitivos. No já citado artigo de 1916, Gramsci
necessários (idem, p. 1507-1508) –, assinala o
acena em um certo ponto à “benéfica função do
caminho percorrido para diferenciar-se claramente
capital”, que seria, entretanto, “anulada pelo fato
daquelas posições “filocoloniais” do velho socia-
de que os interesses industriais franceses recaem
lismo. Depois de ter colocado em discussão a
pesadamente sobre os indígenas”. Por outro lado,
“necessidade” da escravidão dos povos historica-
observava que, por toda parte, a civilização capi-
mente imaturos, conclui observando que “um povo
talista “lançou suas sementes para a germinação
ou um grupo social atrasado tenha necessidade
das raças e dos povos atrasados” e prevê que “a
de uma disciplina exterior coercitiva [...] não sig-
guerra européia rapidamente dará lugar à guerra
nifica que deva ser escravizado, a menos que se
das colônias” (GRAMSCI, 1980, p. 257-258).
pense que toda coerção estatal é escravidão”
Trata-se, de todo modo, de uma linguagem (idem, p. 1368, sem grifos no original). Gramsci
muito difundida em uma parte do socialismo mar- unificará depois sua concepção do domínio com
xista que atribui ao capital uma “função civilizatória” a categoria compreensiva dos “subalternos”, um
e que era certamente favorável a posições livre- conceito extremamente inovador sobre o qual ape-
cambistas e fortemente contrária ao protecionis- nas recentemente tem sido apreciada plenamente
mo. Ecos desse ponto de vista são perceptíveis toda a sua importância teórica. O que importa
nos escritos gramscianos redigidos durante seus observar é que a questão dos povos e das nacio-
primeiros anos em Turim. Um ponto de vista e uma nalidades se encontra, já nos anos juvenis, direta-
linguagem, entretanto, que Gramsci rejeita com mente entrelaçada com sua conclusão política,
força poucos anos depois, como se torna evidente com o “fazer-se Estado”. A importância em
no artigo de 7 de junho de 1919, La guerre delle Gramsci da temática relativa ao Estado é particu-
colonie, em que a análise e o ponto de vista larmente evidente na dura polêmica com os anar-
gramsciano são agora claramente de estampa quistas, conduzida por ele e por outros nas colu-
leninista e internacionalista: “Hoje a revolta arde no nas de L’Ordine Nuovo e, de modo mais geral, na
mundo colonial: é a luta de classe dos homens de inovadora reflexão que leva a cabo sobre a
cor contra os brancos exploradores e traidores” temática dos conselhos de fábrica como crítica
(GRAMSCI, 1987, p. 69). Assim, nos Quaderni, da democracia parlamentar burguesa, que lhe pa-
resulta evidente que Gramsci tomou uma clara dis- rece em estado falimentar e, conjuntamente, como
tância daquele modo de pensar, no qual, por exem- tentativa de delinear uma democracia operária de
plo, com observações que ficaram famosas, rejeita tipo sovietista.
e critica as palavras que o filósofo socialista italia-
Esse problema da nacionalidade se conecta,
no Antonio Labriola pronunciou a propósito de hi-
portanto, de modo direto com o tema do Estado,
potético habitante da Papua. À pergunta feita há
com relação ao qual, como disse, não há acordo
muitos anos por um aluno – “Como faria para edu-
entre os intérpretes de Gramsci. Como ilustrei
car moralmente um papuano?” –, Antonio Labriola
acima, alinho-me com aqueles estudiosos que acre-
teria respondido: “Provisoriamente o faria escra-
ditam não se encontrar nos Quaderni gramscianos
vo”. A réplica de Gramsci é fortemente crítica.
a clássica proposta marxiana relativa à “extinção”
Sublinha que, naquela posição, especifica-se “um
do Estado. O Estado, para ele, permanece, por-
pseudo-historicismo, um mecanismo extremamente
que, em primeiro lugar, Gramsci não adere à con-

37
GRAMSCI E O ESTADO: PARA UMA RELEITURA DO PROBLEMA

vicção de que, na sociedade comunista, tornar- VI. ESTADO, SOCIEDADE CIVIL, HISTÓRIA
se-á supérflua a função do político enquanto tal. MUNDIAL
Em segundo lugar, existe em Gramsci,
Por conseguinte, torna-se problemático afir-
freqüentemente de maneira implícita, mas algu-
mar que a concepção presente nos Quaderni de
mas vezes explícita, a idéia da “vida estatal” como
uma “ampliação” do Estado (“Estado ampliado” é
vida “ética”, sem que seja fácil mais uma vez es-
a expressão tornada célebre por Buci-Gluksmann),
tabelecer a ascendência precisa desse ponto, que
em seu desenvolvimento, conduza necessariamen-
certamente se apresenta como genericamente
te a uma absorção do Estado e de suas funções na
“hegeliano”. “Vida estatal” é uma expressão da qual
sociedade civil. Por outro lado, como observa
Gramsci faz um amplo uso nos Quaderni e indica
Losurdo, deve-se ter presente que, para Gramsci,
um modo de ser autêntico de um povo em sua
a sociedade civil é também “Estado”, portanto,
expressão mais alta, precisamente a estatal. Como
resta saber “até que ponto a ‘reabsorção da soci-
emerge claramente do já citado parágrafo 130 do
edade política na sociedade civil’ comporta o ad-
Quaderno 8, intitulado Statolatria, no qual a ex-
vento de uma sociedade realmente sem Estado”
pressão é usada por Gramsci repetidamente. Cri-
(LOSURDO, 1997, p. 191-192). Penso que não
ticando como necessariamente transitória uma fase
deve ser excluído um desenvolvimento no senti-
de “estadolatria”, na qual o Estado no senso res-
do oposto, no qual o conjunto da sociedade civil
trito (ou “sociedade política”) domina sobre a “so-
seja “estatalizado”, desenvolvendo funções de tipo
ciedade civil” em uma alusão bastante transpa-
estatal “compreendido integralmente”. Nessa di-
rente à Rússia soviética, Gramsci indica a via a
reção, parecem ir algumas observações
seguir e o objetivo a alcançar na criação de uma
gramscianas sobre a necessidade de uma “nova
“complexa e bem articulada” sociedade civil e
concepção do direito”, contidas no parágrafo 11
conclui: “tornar espontânea a vida estatal”
do Quaderno 1314. Veja-se, além disso, o que es-
(GRAMSCI, 2001, p. 1020-1021, sem grifos no
creveu a propósito do “indiferente jurídico”, no
original).
parágrafo 7 do mesmo caderno: “Questões do di-
Nos escritos do cárcere, a geopolítica de reito, cujo conceito deverá ser estendido, com-
Gramsci se torna mais complexa e afinada. Derek preendendo também aquelas atividades que hoje
Boothman observou que, nos Quaderni, é alargada caem sob a fórmula do ‘indiferente jurídico’ e que
a visão para um Norte/Sul que não é estritamente são do domínio da sociedade civil, que opera sem
geográfico e uma relação cidade/campo como re- ‘sanções’ [...] mas que nem por isso deixa de exer-
lação internacional entre áreas mais ou menos de- cer uma pressão coletiva e obter resultados obje-
senvolvidas. Por outro lado, destaca ainda tivos de elaboração nos costumes, nos modos de
Boothman que os apontamentos de Gramsci so- pensar [...], na moralidade etc.” (GRAMSCI, 2001,
bre o mundo islâmico – situação fluida; tensões p. 1556). São afirmações que parecem não ape-
entre pan-arabismo e tendências nacionalistas; la- nas privilegiar as razões da sociedade com rela-
ços entre intelectuais e povo fundados sobre o ção aos indivíduos, mas, também, submeter as
fanatismo religioso –, em sua provisoriedade (es- instâncias da sociedade civil com relação à esfera
ses temas não foram reelaborados por seu autor), estatal; afirmações nas quais talvez não seja im-
são muito atuais. Falando da situação na China, possível reconhecer os traços da idéia hegeliana
Gramsci depois observava como o eixo da eco- da superioridade da esfera estatal como lugar da
nomia mundial estava se deslocando do Atlântico verdadeira “eticidade”.
ao Pacífico, com uma perda da importância da
Por outro lado, é convicção de Gramsci que
Europa na cena mundial. Interessantes são, tam-
os indivíduos singulares podem, ou ainda devam,
bém, as observações sobre a Índia, da qual
Gramsci destacava a característica de um “entor- 14 A propósito de uma concepção de direito que seja
pecimento social”, enquanto o ghandismo era visto
“essencialmente renovadora”, Gramsci escreve: “essa não
por ele como movimento antiimperialista que de- pode ser encontrada, integralmente, em nenhuma doutrina
veria ser, entretanto, compreendido no interior da precedente [...] Se todo Estado tende a criar e a manter um
categoria de “revolução passiva”13. certo tipo de civilização e de cidadão [...] tende a fazer
desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir outros,
o direito será o instrumento para esse fim [...] e deve ser
13 Utilizei, para esta reconstrução, as observações de elaborado para que seja [...] muito eficaz e produtor de
Boothman (2006). resultados positivos” (GRAMSCI, 2001, p. 1570-1571).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 31-43 NOV. 2007

tomar em suas mãos os próprios destinos indivi- da, passando por uma correta impostação do pro-
duais, reconciliando-se com a história geral e, as- blema das relações de força, será possível ter a
sim, como escreve, “participar ativamente da pro- conseqüência positiva do surgimento de uma nova
dução da história do mundo” (GRAMSCI, 2001, ordem. Isso assinala certamente o máximo da dis-
p. 1376). Aquilo que se afirma é a necessidade de tância entre o ponto de vista de Gramsci e o de
uma convergência construtiva entre “indivíduos” Sartre, um autor com o qual, a meu ver, o pensa-
e “história universal”. Para que essa convergên- mento gramsciano registra, por outro lado, signi-
cia se realizasse, seriam necessárias muitas medi- ficativas convergências na direção de uma releitura
ações que não serão aqui analisadas e que darei da teoria marxista em chave antiobjetivista e
como pressupostas: do grupo social ao partido antimaterialista (MEDICI, 2000, p. 92-102).
político, do lugar de origem à nação da qual se faz
Sartre, em sua Critique de la Raison
parte com graus diversos de consciência. Lendo
dialectique, de 1960, depois de um decênio de
aquela passagem do Quaderno 11 acima citada,
discussões críticas do marxismo materialista-
não se pode deixar de experimentar uma certa
dialético, chegou a uma releitura e interpretação
perplexidade perante aquele sentido de uma dis-
do materialismo histórico de Marx que era, ao
tância não preenchida entre o indivíduo e a histó-
mesmo tempo, um desenvolvimento e uma trans-
ria, na medida em que a afirmação de Gramsci
formação. Como é notado, a teoria sartriana da
pressupõe um conjunto de mediações muito com-
história, exposta na primeira parte da obra, deu
plexo, que resulta quase impossível de ser defini-
lugar a discussões acesas e, segundo alguns, co-
do em termos teóricos. E ainda é inegável que,
locava-se completamente fora do âmbito teórico
não apenas na passagem citada, mas de modo mais
marxista (era essa, por exemplo, a opinião de
geral nos Quaderni, é possível reencontrar um
Garaudy, que, nessa fase, era um áspero oponen-
ponto de vista que retém possível uma conver-
te de Sartre e defensor da ortodoxia)15 . Em reali-
gência positiva entre os destinos dos indivíduos e
dade, a questão era mais sutil. Não se pode negar,
a história em seu conjunto: Gramsci está conven-
de fato, que, em certos aspectos, Sartre fosse um
cido de que os indivíduos podem e devem tomar
leitor lúcido e atento de Marx, que colhia com
em suas mãos o próprio destino, reconectando-o
atenção certas características filosóficas da con-
com a história mundial, que chamei proposital-
cepção histórica marxiana; enfim, provavelmente
mente com uma terminologia de sabor hegeliano
se possa concordar com o que, em seu tempo,
de “história universal” (apesar de a idéia de uma
escreveu Pietro Chiodi, para quem, inserindo no
história universal ser muito antiga e poder ser re-
discurso marxiano sobre a história o tema da “pe-
metida aos primeiros filósofos cristãos, tendo sido
núria”, Sartre obteve “uma radicalização e uma
depois renovada pelos filósofos do século XVIII).
ampliação histórica das teses marxianas” (CHIODI,
Essa afirmação gramsciana referente à neces- 1963, p. 107-108). Sartre, examinando a história
sidade da instauração de um nexo positivo entre no âmbito do agir humano mais concreto, aquele
indivíduos e história universal postula, por outro que por meio do trabalho faz a mediação com a
lado, como coisa necessária na medida em que o materialidade, descobria que, do encontro da
discurso possua sentido, a existência de uma co- práxis humana com a matéria, com a passagem
nexão racional – e racionalmente descritível – en- através do campo do prático-inerte que se gera
tre o agir humano e as circunstâncias históricas. nesse encontro, da práxis humana brota uma
Em outras palavras, presume-se que os objetivos “antipráxis” que produz a “contrafinalidade”, en-
e a finalidade a que o agir humano se propõe (no quanto toda a dialética histórica, nesse nível da
caso, a instauração de uma ordem social e políti- história material, revela-se dominada por uma
ca radicalmente renovada em termos intelectuais “antidialética” que distorce os fins humanos, tor-
e morais) possam ser efetivamente alcançados. nando-os radicalmente “outros”. O exemplo é
Não se pensa que possa haver uma distorção das aquele dos camponeses chineses que, derruban-
finalidades a que o agir humano se propõe. O pro- do os bosques para obter um espaço cultivável
blema é apenas aquele, muito complexo e de lon-
go fôlego, de uma adequada formação das cons-
ciências que torne possível o aparecimento de uma 15 Em Questions a J.-P. Sartre, de 1960, Garaudy definiu
vontade coletiva capaz de fundar a “nova ordem”. a Critique como “ensaio sobre os fundamentos do anti-
Uma vez que tal vontade coletiva esteja já forma- marxismo”.

39
GRAMSCI E O ESTADO: PARA UMA RELEITURA DO PROBLEMA

maior, provocam as desastrosas aluviões que lhes ções sociais caracterizadas pelo domínio do capi-
flagelam ciclicamente. tal e pela inversão fetichista entre coisas e pesso-
as. Apenas o comunismo poderá constituir a su-
Gramsci, ao invés, depois de ter rejeitado o
peração da alienação capitalista como realização
determinismo e o economicismo do velho mar-
de uma sociedade sem classes (mas também sem
xismo da Segunda Internacional, parece ainda ali-
dinheiro, nem capital, nem divisão do trabalho,
mentar, em certa medida, um otimismo racionalista
abolidos enquanto fonte da divisão da sociedade
do qual não é fácil particularizar sua gênese, mas
em classes). A idéia marxiana da sociedade co-
que indubitavelmente apresenta roupagens
munista, embora seja concepção pouco sistemá-
hegelianas no momento no qual, voltando, parece
tica que apresenta elementos contraditórios em suas
afirmar uma racionalidade unilinear do processo
variantes textuais – como fez notar Agnes Heller,
histórico. Apesar disso, o próprio Gramsci, nos
que apontou a presença em Marx de duas diver-
anos de sua formação, foi influenciado por Sorel,
sas teorias das contradições, das quais poderiam
por ele admirado devido a sua capacidade de ler
derivar duas diferentes concepções do comunis-
Marx sem preconceitos, o qual, introduzindo na
mo (HELLER, 1980, p. 81-94) –, é, seja como
processualidade histórica o fator imponderável do
for, uma concepção filosófica em sentido forte.
“hazard”, tinha quebrado o nexo determinista en-
Qualquer que seja a precisa paternidade filosófi-
tre socialismo e história moderna, decretando a
ca, trata-se de uma forma de utopia racional que
morte do “socialismo científico”16. Não há dúvi-
não está desprovida de antecedentes iluministas.
da, como vimos, de que Gramsci postula como
Uma herança iluminista que está presente ainda na
possível, e mesmo necessária, uma reconciliação
própria idéia de “história universal” que, retoman-
entre indivíduo e história universal, o que Lukács,
do de Hegel, Marx retraduz na “universalidade
com uma expressão feliz, descreveu como “uma
empírica” e na interdependência planetária que o
inseparável concomitância operativa entre o ho-
capitalismo produz na história humana que o co-
mem singular e as circunstâncias sociais de seu
munismo deverá adquirir, libertando-a de seu in-
agir” (LUKÁCS, 1976, p. 327, grifos meus). Len-
vólucro alienado. O ponto de vista de Gramsci
do integralmente a página assinalada, percebe-se
sobre essa questão parece ser caracterizado por
que o mestre húngaro colocou o problema de
um ir e vir entre Marx e Hegel e recentemente se
modo impecável. Mas, do ponto de vista de
tendeu a falar novamente de um forte influxo so-
Gramsci, isso não resolve a questão, e não é, se-
bre Gramsci da filosofia clássica alemã. Por exem-
não, um ponto de partida. Enquanto, na reflexão
plo, examinando a concepção gramsciana do co-
de Lukács, encontrará espaço – “entre os conjun-
munismo, Michele Martelli afirma que, em con-
tos problemáticos” que constituem a articulação
clusão, pode-se dizer que nela opera “a tripla lição
do “ser social” – também o momento do
de Kant, Hegel e Marx” (MARTELLI, 2001, p.
“estranhamento”, a ausência em Gramsci desta
232) 17.
fundamental problemática marxiana poderia tor-
nar possível a recaída em uma idéia da história Existe um nexo evidente entre a própria idéia
universal como grande afresco, movimento gran- de uma história como “história universal” e aque-
dioso e complexo no qual tudo, cedo ou tarde, la simplesmente iluminista de “cosmópolis”, de
termina por encontrar seu posto e uma razão sem uma cidade do mundo na qual o gênero humano
desarmonias, contrastes, contradições não resol- se reencontraria unificado para além das diferen-
vidas. ças. Sobre a questão do cosmopolitismo, todavia
parece ampliar-se posteriormente a distância en-
Em Marx, o capitalismo era visto como prota-
tre Marx e Gramsci. De fato, o cosmopolitismo
gonista de uma “universalização” empírica da his-
tória e da sociedade humana. Tinham lugar, as-
sim, pela primeira vez na história, indivíduos
17 A pesquisa que Michele Martelli conduz em seu
“empiricamente universais” (MARX, 1967, p. 25). livro aponta para a importância de Hegel (embora no âmbi-
Mas a universalidade capitalista é alienada na me- to da fundamental mediação marxiana) para a reflexão de
dida em que se realiza dentro do quadro das rela- Gramsci, esclarecendo como seu ponto de vista foi condu-
zido a revalorizar as posições do filósofo de Stuttgart,
embora fosse crítico das formas que o hegelianismo assu-
16 Ver, em particular, o ensaio de 1898, “La necessità miu nas leituras de Croce e Gentile (MARTELLI, 2001, p.
e il fatalismo nel marxismo” (SOREL, 1973, p. 96-124). 107-188).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 31-43 NOV. 2007

como característica (negativa) da análise que consciente de si própria” tal força (GRAMSCI,
Gramsci leva adiante nos Quaderni sobre a histó- 2001, p. 1558). Essa consciência parece-me uma
ria dos intelectuais italianos, historicamente inca- das idéias-força gramscianas e um aspecto de sua
pazes de unir-se ao povo, dificilmente deixa so- pesquisa pleno de potencialidades. De fato, per-
breviver uma idéia positiva de um “outro” gunto-me até quando o “vazio” de consciência
cosmopolitismo, aquele universalismo cosmopo- caracteriza o mundo contemporâneo. A partir da
lita apresentado na idéia marxiana do comunismo. ausência de controle por parte dos homens sobre
Como já observou J. P. Diggins, a visão crítica seus próprios processos produtivos, devido àquele
que Gramsci tem do cosmopolitismo – relaciona- fenômeno real e concreto ao qual Marx se referia
da com sua particular leitura do humanismo como com o termo filosófico de “estranhamento”, o fato
movimento cultural aristocrático que continua e de um “poder estranho” dominar os homens, ao
acentua a separação entre os intelectuais e o povo invés de ser por eles dominado (e que se apresen-
– é muito original, porque antes dele prevalecia a ta em última instância como “mercado mundial”),
idéia de que uma visão cosmopolita “tivesse efei- é tal também porque falta a capacidade de tornar-
tos libertadores”, devido a muitos dos princípios se consciente do processo que o produziu, um
do Iluminismo estarem baseados na expectativa processo de separação e hipostação de forças hu-
de uma “civilização universal em evolução” e, em manas. Forças que os homens que as produziram
grande parte do pensamento ocidental, o tiveram “estranhadas” de si, deixando de estar em
cosmopolitismo era visto como um estágio mais condições de compreender a gênese e muito me-
avançado, “superior ao liberalismo e ao naciona- nos de reapropriá-las.
lismo”18.
Um vazio de consciência que caracteriza de
VII. PARA UMA NOVA CONSCIÊNCIA modo forte e trágico também os processos histó-
rico-políticos atuais, marcados pela estratégia da
Deixando de lado essas divergências entre
administração Bush da “guerra preventiva” , na
Gramsci e Marx, a efetiva realização desse nexo
qual se torna claro que o marine americano, ins-
entre indivíduo e história universal, do modo como
trumento ativo de uma máquina bélica de potên-
o primeiro a postula, apresenta-se como altamen-
cia militar esmagadora, age também como um in-
te problemática, embora permaneça estritamente
divíduo em total vazio de consciência, sem co-
no interior de seu horizonte teórico. De fato, pa-
nhecer minimamente a história do país para o qual
rece-me que, na realidade histórica de nosso tem-
foi enviado a combater com base em uma propa-
po, deva-se encontrar, ao invés, a preponderância
ganda ideológica grosseria e falsa (“levar a demo-
daqueles processos que Gramsci chama de
cracia”), nem estar sequer em condições elemen-
“moleculares”, ou seja, os processos caracteriza-
tares para apontar países como Iraque ou o Irã
dos preponderantemente pela ausência de consci-
em um mapa. A guerra, sempre constante nega-
ência. Enquanto um dos objetivos que perseguia
ção da história humana (porque, parafraseando o
“seu” marxismo, compreendido como “filosofia
Manifesto de Marx e de Engels, pode-se dizer que
da práxis”, era exatamente tornar-se consciente
“toda a história percorrida é história das guerras”),
dos processos históricos nos quais estamos
teve em seu tempo sua “lucidez”. Os espartanos
imersos. Ainda a respeito da força política – o
combatiam os atenienses, os atenienses combati-
sujeito histórico “moderno Príncipe” no qual de-
am os persas, inimigos bem visíveis e
veria encarnar-se a vontade coletiva do povo-na-
particularizáveis enquanto tal. O indivíduo e a co-
ção –, nosso esforço, segundo Gramsci, deve ser
letividade combatiam um inimigo que era tal por
o de “dedicar-se sistematicamente e pacientemen-
razões precisas, evidentes tanto ao chefe supre-
te” a tornar “sempre mais homogênea, compacta,
mo como ao último dos hoplitas. Foi a partir de
certo ponto que a guerra se tornou mais comple-
18 Prossegue Diggins: “Até mesmo Marx, um herdeiro do xa e mais difícil de explicar a si e aos outros, como
Iluminismo, pensava em termos de leis universais válidas se vê, por exemplo, no célebre diálogo entre os
para todas as sociedades em estágios símiles de desenvol- atenienses e os habitantes da ilha de Melo, que
vimento histórico. Sua famosa argumentação segundo a qual
Tucídides transmitiu em sua História da Guerra
os trabalhadores não tinham pátria expressava a esperança
de que o proletariado fosse capaz de um cosmopolitismo do Peloponeso. Estamos ainda em um mundo, o
que seria derivado [...] da experiência concreta” (DIGGINS, antigo, que não conhece nenhuma regulamenta-
1990, p. 174-177). ção pacífica das relações entre os Estados. A paz

41
GRAMSCI E O ESTADO: PARA UMA RELEITURA DO PROBLEMA

é apenas, segundo a notada expressão, “uma tré- vemente involutivo este que coloca a guerra no
gua entre uma guerra e outra”. Mas prontamente centro da estratégia das relações internacionais com
as razões, por assim dizer, “naturais” da guerra a máscara ideológica de uma dupla missão
começam a tornar-se menos claras, a turvar-se civilizadora (levar a democracia aos países que
por causa da vontade imperial de Atenas, apenas não a têm). A exigência que encontramos em
mascarada sob um verniz de racionalidade. Des- Gramsci, de uma reconciliação indispensável en-
de então, muita água passou sobre as pontes e, tre indivíduo e história universal, revela-se justa-
num processo plurissecular, os homens iniciaram mente atual porque torna evidentes aquelas con-
a compreensão de que as relações entre os Esta- tradições entre exigência de consciência e falta
dos podem e devem ser subtraídas ao Estado de dessa, que, como vimos, caracteriza ainda boa
natureza de uma guerra de todos contra todos. parte dos processos históricos e políticos con-
temporâneos.
Não podemos ocultar que é um processo gra-

Rita Medici (rita.medici@unibo.it) é Professora do Dipartimento di Filosofia na Università di Bologna


(Itália).

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Alinea.

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 227-230 NOV. 2007
ABSTRACTS

* * *
GRAMSCI AND THE STATE: TOWARD A RE-READING OF THE PROBLEM
Rita Medici
Our intention is to present a re-reading of the problem of the State in Gramsci’s thought, in the wake
of Massimo Salvadori and Christine Buci-Gluksmann now-classic analyses, guided by our conviction
that Gramsci’s supposedly perfect alignment to the Marxist perspective on the extinction of the State
– sustained almost unanimously by contemporary Gramscian criticism – should be re-evaluated and
even revoked. We work exegetically with Gramsci’s text, using tools of lexical analysis and paying
particular attention to the presence of the expression “state life” of which he makes ample use in his

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 227-230 NOV. 2007

in his Quaderni del carcere. Several elements capable of clarifying the Gramscian conception of
the State flow from this expression. They are useful in our reconsideration of his complex reflections
on the “historic” problem of democracy, with its fragile balance between critique, renovation and
exclusion of the traditional forms of modern democracy.
KEYWORDS: Antonio Gramsci; Marxism; philosophy; politics; civil society; the State.
* * *

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 233-236 NOV. 2007
RÉSUMÉS

* * *
GRAMSCI ET L’ÉTAT: POUR LA RELECTURE DU PROBLÈME
Rita Medici
Nous envisageons de relire le problème de l’État en suivant la pensée de Gramsci, déjà étudiée de
son temps de façon classique par Massimo Salvadori et Christine Buci-Gluksmann, car nous sommes
sûrs que, en réalité, le parfait alignement de Gramsci à la tradition marxiste de la « disparition » de

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 29: 233-236 NOV. 2007

l’État, soutenu quasi à l’unanimité par la critique gramscienne contemporaine, doit être réévalué
voire révoqué. Pour l’exégèse du texte de Gramsci nous nous appuyerons sur des instruments d’analyse
lexical, et mettrons en valeur la présence, dans les Quaderni del carcere, de l’expression « vie de
l’État » dont Gramsci se sert beaucoup. De cette expression découlent des éléments clarifiant la
conception gramscienne d’État, utiles à la mise en question de la complexe réflexion sur le problème
« historique » de la démocratie et son difficile équilibre entre critique, renouvellement et exclusion
des formes traditionnelles de la démocratie moderne.
MOTS-CLÉS: Antonio Gramsci; marxisme; philosophie; politique; société civil; État.
* * *

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