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362 Outros Materiais  ·  Textos informativos complementares

6. Cesário Verde   Manual · pp. 324-328

Num bairro moderno


O poema “Num Bairro Moderno”, que dramatiza uma invasão simbólica da cidade pelo

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campo, está funcionalmente relacionado com “A Débil” pela semelhança entre os efeitos psicoló-
gicos causados no narrador de cada poema pela aparição inesperada na cidade de alguém que
lhe faz lembrar valores existenciais diferentes: a vendedeira de frutas e legumes nas ruas maca-
5 damizadas de um bairro moderno e a inocente “débil” caminhando timidamente no ambiente
hostil da “Babel tão velha e corruptora”. [...]
O “campo”, usado funcionalmente na poesia mais jovem de Cesário como o oposto metafó-
rico de uma “cidade” que era o tempo e o espaço presentes das ações, lembranças e projetos do
narrador, está representado neste poema pela imagem concreta do cabaz de frutas e legumes
10 que a vendedeira deposita “como um retalho de horta aglomerada” na escada de mármore de uma
casa citadina.
A presença factual do cabaz de verdura nas ruas do bairro moderno torna-se no significante
de uma intrusão do campo na cidade [...].
A transformação do objeto real (o cabaz) numa imagem (o símile do retalho de horta) e dessa
15 imagem numa metáfora (o retalho de horta como representação dos valores associados com o
campo) é o ponto de partida para a extraordinária transfiguração surrealística dos frutos e legu-
mes num vital “ser humano”, uma transfiguração que, implicando um juízo de valor, foi tornada
possível, esteticamente, pelo poder de uma “visão de artista” (estrofe 7). Esta transfiguração traz
à metáfora um valor simbólico mais amplo: foi a própria vida orgânica do campo que invadiu a
20 cidade. [...]
Em contraste com o seu complexo jogo de imagens, a linha narrativa do poema é simples.
O narrador, a caminho do emprego às dez horas de uma quente manhã de agosto, pelas largas
ruas macadamizadas de um bairro moderno da cidade, vê uma vendedeira ambulante, uma
jovem camponesa pobre, a depositar o seu pesado cabaz de frutas e legumes nas escadas de
25 mármore de uma “casa apalaçada”. Esta cena inspira nele a “visão de artista” que é o foco semân-
tico do poema.
O narrador, como noutros monólogos dramáticos de Cesário, é um “eu” fictício, caracterizado
como um pequeno-burguês, porventura empregado no comércio ou funcionário público, cuja ro-
tina de frustração se tem vindo a traduzir em frequentes ataques de tonturas que o levam a co-
30 mentar ironicamente sobre “como é saudável” ter o “conchego” e a “vida fácil” representados pelas
casas apalaçadas que avultam nas largas ruas modernas por onde vai a pé para o trabalho (es-
trofe 3).
Enquanto caminha, vai observando o que o rodeia com uma particularidade de detalhes que
constituem o seu próprio comentário seletivo. As casas grandiosas têm fontes e jardins; os seus
35 interiores, vislumbrados através das janelas quando se abrem as persianas, revelam a folhagem
pintada dos papéis de parede – o jardim capturado e enclausurado como um tema decorativo – e
o reluzir reconfortante das porcelanas finas (estrofe 2).
O luxo da vida confortável na sombra fresca das ilhas privativas de verdura, que são as casas
apalaçadas, contrasta com a crua hostilidade da luz e do calor na larga rua desabrigada (v. 4-5,
40 estrofe 1).
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No ambiente hostil onde caminha, a atenção do narrador é atraída pela presença da vende-
deira de hortaliça numa escada de mármore (estrofe 4).
A rapariga é socialmente inferior ao narrador. No entanto, tem mais em comum com as ilhas
de verdura do bairro moderno do que ele: pertence ao mundo natural da vegetação que, na forma
45 do jardim ou da sua representação no forro das paredes, circunda e invade a casa apalaçada, da
mesma maneira que ela invadiu a cidade com o seu “retalho de horta aglomerada” (estrofe 5). […]
Mas o seu cabaz é como um pedaço opulento do campo, um repositório transbordante de
riquezas naturais suscetíveis de serem transformadas pela “visão de artista” num belo e pujante
“ser humano”. Com efeito, enquanto o resto da cidade prossegue na sua rotina diária – (estrofe 8)
50 –, o narrador fica imerso na visão que o leva a recompor gradualmente um “novo corpo orgânico”
(como um quadro à maneira de Arcimboldo) com os produtos do campo contidos no cabaz da
vendedeira (estrofes 9-12).
O ser humano vegetal que emerge da cornucópia trazida para a cidade pela frágil mensa-
geira do campo é uma mulher gigantesca com grandes seios maternais (“seios injetados”) e opu-
55 lentas “carnes tentadoras”; uma Deusa-Mãe arquetipal, uma personificação da Natureza.
Este exuberante corpo vegetal é a antítese do corpo da vendedeira que o transporta: caracte-
rizada inicialmente como “rota, pequenina, azafamada”, a rapariga é também “esguedelhada, feia”
(estrofe 5), “magra, enfezadita” (estrofe 19), “descolorida nas maçãs do rosto, / E sem quadris na
saia de ramagens” (estrofe 16). [...]
60 O facto irónico de esta rapariga magra e enfezadita ser a transportadora dos elementos vitais
do “corpo orgânico” que o narrador, adoentado e frustrado, vai organizar, dando-lhes significado
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metafórico, acentua a relação dinâmica estabelecida entre eles pela metamorfose dos frutos e
legumes reais que ela transporta no ser simbólico que ele recompõe. [...]
A metamorfose dos frutos e dos legumes tem [...] um equivalente psicológico na transforma-
65 ção subjetiva que ocorre no narrador. [...] É no seu contacto humano com a vendedeira que
recebe as forças, a alegria e a plenitude que lhe faltavam. A ajuda que oferece “sem desprezo”, em
contraste dramático com o desprezo do criado alienado, sendo uma recusa das hierarquias so-
ciais em que ele próprio, a caminho do emprego, está relutantemente integrado, é o prelúdio da
sua compadecida visão final da “pobre caminhante”.
MACEDO, Helder, 1986. Nós – Uma leitura de Cesário Verde. 3.ª ed.
Lisboa: Dom Quixote (pp. 113-124) (1.ª ed.: 1975)
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