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SBQP 2009

Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído


IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios
18 a 20 de Novembro de 2009 – São Carlos, SP – Brasil
Universidade de São Paulo

Considerações sobre a Arquitetura e suas relações


com a Qualidade do Ambiente Construído e a
Gestão do Processo de Projeto
Issues on Architecture and its relations with the Quality of the Built Environment and the
Management of the Process of Design

Artur Simões ROZESTRATEN


Arquiteto e Urbanista, Professor Doutor RDIDP junto ao Departamento de Tecnologia da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU – USP.
| e-mail: artur.rozestraten@usp.br | CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9297674836039953 |

Mario Lasar SEGALL


Arquiteto e Urbanista, Mestre pela University of London, Professor junto ao curso de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor superintendente da SQ Maquetes Ltda.
| e-mail: mario@sqmaquetes.com.br | CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8206434571379674 |

RESUMO

Proposta: Elaborar considerações epistemológicas que buscam fundamentar uma revisão crítica do
conceito de Qualidade do Ambiente Construído e de aspectos da Gestão do Processo de Projeto
Arquitetônico. Essa proposta reflete sobre a técnica, sobre a construção, com base nas
características específicas e na natureza da arquitetura. Método de pesquisa/Abordagens: A partir
de uma proposta de uma aproximação à natureza da arquitetura, questiona-se o entendimento
corrente que qualifica o espaço construído como padronização de soluções eficientes, bem como
sugere uma rediscussão do processo de gestão nesta área. A arquitetura é um campo de atuação
criativo. Por isso as opiniões e decisões que a compõem são tão diferentes, por vezes díspares, e
não se prendem a padrões. E também por isso, se aproxima da heterogeneidade que caracteriza a
sociedade humana, da relação interativa entre as pessoas e o mundo que as rodeia, algo que pode
ser ameaçado pelo foco exclusivo da gestão eficiente e objetiva no desempenho, na construção, no
invólucro, no espaço vendável. Significa o exercício da subjetividade que comporta a prática artística.
Resultados: Os princípios técnicos e da construção são partes intrínsecas do processo, pois estão
intima e umbilicalmente integrados à concepção arquitetônica propriamente dita, coordenada e
elaborada pelo arquiteto em um exercício multidisciplinar. Contribuições/Originalidade: Enfoque
crítico sobre os fundamentos dos modelos de Qualidade e Gestão contemporâneos.

Palavras-chave: Qualidade. Gestão. Arquitetura. Arte.

10.4237/sbqp.09.068 190
ABSTRACT

Proposal: To develop epistemological considerations aiming at a critical review of the concept of


Quality of the Built Environment and of aspects of the Management of the Process of Design in
Architecture. It reflects on its technical sphere, on building, on the basis of the specific characteristics
and nature of architecture. Methods: From a proposal of architecture’s own nature, it questions the
current understanding that qualifies built space as patterned efficient solutions, as well as suggests a
re-discussion of the process of management in this area. Architecture is a field of creative action.
Opinions and decisions that make it up are very different and are not held by types. It is close to the
heterogeneity that characterises human societies, to the interactive relation between people and the
world around, something that can be threatened by the exclusive focus of efficient and objective
management on performance, on construction, on shell, on selling spaces. It means the exercise of
subjectivity of artistic praxis. Findings: Its technical and building principles are an intrinsic part of the
process, for they are closely integrated into the architectural conception itself, coordinated and
envisaged by the architect in a multidisciplinary exercise. Originality/value: A critical approach to the
basis of the contemporary models of Quality and Management.

Key-words: Quality. Management. Architecture. Art.

1 PRELIMINARES: SOBRE A NATUREZA DA ARQUITETURA

Se, por um lado, toda arquitetura é construção, por outro lado, nem toda atividade de
construção civil é arquitetura. A arquitetura é apenas uma pequena parcela da produção de
edificações, como formulou Lucio Costa (2007). De fato, especialmente nos últimos 30 anos,
muito se tem construído e muito pouca arquitetura tem sido feita nas grandes cidades.
Mesmo dentre aquilo que é projetado por arquitetos, só uma pequena parte é arquitetura.
Justamente aquela parte de melhor qualidade 1.

Aparentemente, a arquitetura sucumbiu às modas e padrões gerenciados por uma lógica


hegemônica do mercado global da construção civil.

“Nota-se, neste cenário da produção de apartamentos, que o arquiteto é o que menos opina
sobre o desenho das unidades. Tudo é decidido pela dupla incorporador-vendedor. O
apartamento metropolitano, especialmente aquele produzido no mercado efervescente e
selvagem da metrópole paulista, é, hoje, muito mais um produto de estratégias de marketing
do que um problema de arquitetura.” (Villa, 2006).

Trata-se muito mais da produção de imagem do que de espaço; muito mais de impacto
visual imediato para um consumidor passivo do que de cultura espacial na acepção mais
profunda e rica da palavra (não apenas conhecimento, mas humanização deste
conhecimento); muito mais de quantidade do que de qualidade. Tal interpretação sugere
que vivemos em um sistema de relações produtivas cuja lógica exige obsolescências
aceleradas, que desvalorizam a criação original, assim como a manutenção e longevidade
do que se cria. Essa seria a natureza massificada, vulgar e empobrecida da chamada
“Indústria Cultural”, no sentido dado por Adorno e Horkheimer (1985).

Mas a arquitetura, ao contrário, deve ser expressão de fantasia e imaginação, entendidas


em um contexto de máxima liberdade possível de escolha, de possibilidades, de descoberta.
Sem isso, só nos resta a mediocridade da sociedade de consumo globalizada e superficial,
que é, por essência, “(...) uma sociedade afirmativa (que): depois de sujeitar os gostos ao
menu de escolhas que oferece (os padrões), naturalmente tem um menu para todos os
gostos.” (Santos, 2001, p.19).

No menu de opções há distintas qualidades, a ponto de um empreendedor afirmar


recentemente em entrevista que uma nova linha de edifícios “de design”, como são definidos
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em um pequeno segmento do mercado os projetos assinados por arquitetos de renome,
requer maior reflexão e investimento: “Esse tipo de arquitetura é mais complexo e envolve
tempo, envolve planejamento. Mas todos saem ganhando com isso, a começar pela cidade.”
(Zarvos apud Piza, 2009, p. C8).

Será verdade que todos saem mesmo ganhando com o aumento da qualidade do ambiente
construído? Essa melhora é compatível com a busca desenfreada do lucro e a preocupação
com a redução do tempo de retorno financeiro que regem o mundo corporativo? Como
enfrentar a questão da qualidade sem aumentar custos e reduzir as margens de lucro?

Em que medida os esforços em prol da qualidade estão na contramão da lógica do sistema


produtivo contemporâneo? Em que medida tais esforços, paradoxalmente, não se valem do
aparato tecnológico para, cientificamente, em desfesa dos interesses financeiros, reduzir a
qualidade dos ambientes construídos ao invés de aumentá-la?

Como já apontou Milton Santos (2008), nos idos dos anos 80:

“Quando a ciência se deixa claramente cooptar por uma tecnologia cujos objetivos são mais
econômicos que sociais, ela se torna tributária dos interesses da produção e dos produtores
hegemônicos, e renuncia a toda vocação de servir à sociedade.” (p.19)

A perspectiva histórica sobre a produção do mercado imobiliário nas últimas décadas não
aponta um aumento, mas uma clara redução da qualidade do ambiente construído: “... a
grande maioria de edifícios do gênero é medíocre...” (Segawa, 1991, p.63). O que tornou
indispensável o uso de artifícios comerciais sedutores como, por exemplo, as gigantescas
maquetes descartáveis dos estandes de venda, expostas como monumentos a uma ilusão:
“(...) o que se vende é o desejo de adquirir e viver num determinado estilo de vida, mas o
que se compra é um sonho.” (Loureiro & Amorim, 2005). Muitas vezes um pesadelo.

“Nossa profissão somente é mesquinha quando não alteramos o programa. (...) O que
satisfaz a sociedade é nossa intervenção no programa, e não um edifício medíocre. (...) todo
programa escrito por um não-arquiteto está condenado a ser a cópia de uma outra
construção ou de algum outro edifício.” (Kahn, 2002, p. 45 e 58).

Da reflexão de Louis Kahn apreende-se o sentido do “projetar contra” expresso por Argan
(2000):

“Não se projeta nunca para mas sempre contra alguém ou alguma coisa: contra a
especulação imobiliária e as leis ou as autoridades que a protegem, contra a exploração do
homem pelo homem, contra a mecanização da existência, contra a inércia do hábito e do
costume...”

O projeto é um caminho para dar forma a algo ainda incerto. Conforme Lucio Costa, é a
intenção de expressar um sentido que tem raiz no desejo. Projetar é desejar e elaborar a
presença material dessa coisa desejada. Mas o processo projetual está além do que se vê e
não se encerra em si mesmo. Este processo tem, portanto, um caráter eminentemente
polissêmico. Não tem como objetivo otimizar, mas satisfazer (Piñon, 2006). O projeto deve
ser entendido, portanto, como “(...) modo sintético de alcançar a forma (...); não como mera
estratégia de gestão de soluções homologadas, que dêem verisimilitude ao produto
resultante.” (Piñon, 2006, p.14).

Sendo assim, o mercado contemporâneo, massificado e padronizado, é sua antítese.

Em um contexto de superficialidades, de supervalorização de imagens, os materiais


construtivos e de acabamento, por exemplo, tornam-se meros simulacros do que seja
qualidade e arte. Pois os “materiais em si mesmos não são poéticos” (Zumthor, 2006, p.10).

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Poética é a atividade artística capaz de elaborar transformações a ponto de extrair de um
material particular um significado específico para aquela obra singular, de uma maneira
única, insubstituível.

Enfim, a arquitetura é uma atividade social, uma equalização de desejos sociais como
colocava Vilanova Artigas (1986). Envolve, portanto, todos os âmbitos da vida em
sociedade. Deve, assim, ser vista como uma atividade integradora e não especializada. São
os arquitetos que, por definição, organizam o mundo em lugares para viver e trabalhar. É
este profissional que, pelo desenvolvimento de sua capacidade criadora e por sua formação
abrangente, garante que sistemas como, por exemplo, o econômico, o social, o tecnológico,
o artístico e outros mais, encontrem no sistema espacial uma representação formal e uma
implementação espacial próprias, a passagem de idéias abstratas para intenções
formuladas (Ginoulhiac, 2009).

Mas tais sentidos são de difícil conciliação com o ideal da Gestão de um objeto cuja
totalidade das partes e relações deveriam estar controladas a priori (próximo da produção
industrial). Tal nível de “pré-visão” está bem longe da realidade contemporânea da produção
de arquitetura no Brasil (Martinez, 2000). E, além do mais, tal controle agiria sobre os efeitos
imponderáveis do processo e poderia eliminar os elementos inesperados, próprios da arte e
do processo projetual, que, em essência, definem essa manifestação artística própria da
arquitetura.

Como fazer, então, a Gestão desse processo de criação?

Gestão é um termo baseado na noção de progresso, de avanço linear, gradual e


ascendente em direção a algo melhor. Obviamente, seu viés positivista encontra limites
claros na natureza do fazer arquitetônico.

Portanto, a Gestão será inelutavelmente parcial se estiver restrita apenas aos fatores
técnicos (Melhado, 2009), excluindo os valores artístico-arquitetônicos. A Gestão plena do
processo de projeto não deve ser um instrumento de cerceamento, pois o sentido técnico,
não determina e não pode determinar o resultado de uma obra como arquitetura.

Projetar em arquitetura, então, significa elaborar um processo de gestação criativa que


instigue a capacidade humana a propor soluções para desafios concretos não antecipados,
em meio à incerteza, ao não-saber. Não significa apenas responder objetivamente a uma
hipótese pré-formulada, mas compreender e explicar a pergunta (reformulando-a, muitas
vezes) e a resposta projetual. “A incerteza, a imprecisão ou a não definição são, neste
contexto, importantes espaços de negociação onde o processo projetual pode avançar.”
(Ginoulhiac, 2009) A definição de problemas, a pesquisa, o teste e a descoberta estão
implícitos nele, iniciando pelas primeiras visitas ao local, o registro em fotos do terreno e seu
entorno, esboços, comentários, notas, modelos de estudo, construções virtuais, e
permanecendo nos longos movimentos de idas e vindas de reflexão e definição: “envolve a
participação constante do sentimento no exercício continuado de escolher (...).” (Costa,
2000, p.54)

Como gerir sem deturpar essa natureza da arquitetura?

2 CONSIDERAÇÕES QUANTO À QUALIDADE DO AMBIENTE CONSTRUÍDO

Na alegoria de Paul Valéry (1996:53-54), há nas cidades edifícios que “são mudos, outros
falam; e outros enfim, mais raros, cantam.” Se esses poucos edifícios que cantam são
arquiteturas, os demais são construções, de pior, ou melhor, qualidade. Se esta alegoria for
aceita por aqueles que circulam pelas cidades, e supondo que fosse possível atingir a
máxima qualidade em todos os projetos de edificações, estes centros urbanos contariam
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com uma maior proporção de arquiteturas. Logo, a arquitetura, em seu sentido pleno e
abrangente, como proposto na seção anterior deste artigo, deve ser o objetivo final de todo
o esforço em prol da qualidade do projeto.

Mantendo a alegoria, para um edifício cantar, é preciso ir além dos requisitos técnicos e
adentrar o enigmático (e incontrolável, por natureza) território da arte, da comoção, do
desconforto e do prazer ou do repúdio estético. Entre dois edifícios de mesma qualidade
técnica, a diferença se estabelecerá necessariamente por suas valorações artísticas,
eminentemente arquitetônicas. A máxima qualidade de uma edificação não pode ser
atingida, nem mesmo preconizada, por seus valores técnicos, passíveis de serem
mensurados, ordenados logicamente e comparados objetivamente. Os desafios
tecnológicos de melhoria qualitativa na construção civil só podem, assim, ser enfrentados
plenamente considerando-se valores artístico-arquitetônicos. Por mais paradoxal que
pareça, a principal questão tecnológica que se coloca hoje é estética, não no sentido
superficial ou cosmético, mas ambiental. Em outras palavras, a crítica aos modelos de
Qualidade deve adentrar o território próprio da arquitetura, da estética e, consequentemente,
da ética.

Mas o que faz um edifício cantar? Suas qualidades formais, espaciais, ambientais que
percebemos por estesia, por nossa capacidade de perceber sensorialmente, bem como de
nos relacionarmos emocionalmente com o mundo. Qualidades que nos perturbam e nos
assombram, nos provocam, e nos co-movem, deslocando, expondo e desorganizando
nossos sentimentos e pensamentos, permitindo uma percepção do que nos cerca sob novas
luzes. Qualidades que promovem o que os antigos gregos denominavam thaumatzein: o
admirar-se, o surpreender-se (Bailly, 1901).

Qualidades estas difíceis de mensurar ou quantificar, pois estão além dos aspectos lógicos,
técnicos e científicos, mas que são indissociáveis desses, e a eles se relacionam
intimamente, pois não podem existir sem a conformação da matéria em formas
arquitetônicas, construídas na realidade física das cidades. Ser útil, funcional e bem
construída, econômica, confortável e durável são qualidades indispensáveis à arquitetura.
Mas não suficientes (Polião, 1999, Primeiro Livro, II:54-56). Além dessa qualidades é
preciso cantar.

Como negar que o edifício Louveira, a marquise do Parque do Ibirapuera e o complexo do


SESC Pompéia, em São Paulo, cantam, que o aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro,
canta, que a edifícios da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte também cantam, assim
como cantam certas esquinas, largos, praças, parques, capelas e casas anônimas?

A arquitetura canta para todos os sentidos e para o intelecto. É possível perceber a música
da arquitetura soar em meio a um mundo de construções enquanto movemos nossos corpos
na cidade, de olhos abertos, mergulhados nesse mar de ar que habitamos, tomados por
imagens e formas materiais que impedem ou facultam o deslocamento, ao sabor de nosso
desejo de ir e vir.

O que encanta, em certas arquiteturas e lugares não é apenas a matéria, a massa


construída palpável, ainda que seja o que estabelece o primeiro contato. Essa constitui
apenas o perímetro, os limites, as fronteiras sensíveis que conformam o espaço 2. O que
encanta, e de fato choca ou incomoda, é o modo como nos relacionamos com a matéria no
espaço, com aquilo que nos envolve.

Quem recusaria usufruir e habitar uma arquitetura que canta? Qual o objetivo, do ponto de
vista humano, em limitar a máxima qualidade material a preceitos estritamente técnicos e
mensuráveis? Por que restringir a Qualidade do Projeto do Ambiente Construído à eficiência
técnico-construtiva se é possível almejar a máxima qualidade arquitetônica sempre,
buscando atingir o thaumatzein, o deleite ambiental?

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Restritas aos aspectos técnicos, as pesquisas em Qualidade do ambiente construído não
estariam, contraditoriamente, limitando as possibilidades de incremento qualitativo 3?

Como aprofundar o entendimento, as pesquisas e o alcance social e cultural da Qualidade


do Projeto sem assumir que não há maior diferencial qualitativo na contrução civil do que os
valores artísticos, eminentemente arquitetônicos?

Talvez seja possível encontrar indícios de respostas no entendimento de que estas


valorações estéticas e profissionais são indissociáveis de um comportamento ético, relativo
ao contrato social e finalidades que as regem, em seus aspectos virtuosos, bem como em
seus aspectos viciosos (Munari, 2002).

3 CONSIDERAÇÕES QUANTO À GESTÃO DO PROCESSO DE PROJETO

Para a máxima qualidade do projeto, os aspectos técnicos devem ser geridos em sua real
natureza, com enfoque tecnológico, assim como aspectos arquitetônicos devem ser geridos
em sua plena natureza estética, ambiental e artística. Um projeto de qualidade só se
constituirá plenamente como tal quando esta cultura permitir a superação dos estreitos
limites atuais que distorcem e reduzem os valores artísticos da arquitetura. Pois, se se
admitir que a poesia é uma condensação de experiência vital, então a arquitetura é
essencialmente existencial e poética (Unwin, 2003). Cada vez que existem intromissões e
amputações nessa cultura, existem intromissões e amputações no aparato de legitimação
do projeto e, com ele, da arquitetura (Ginoulhiac, 2009).

O que leva a distorções como o isolamente do aspecto artístico da arquitetura – a beleza


como venustas – de outros aspectos como a utilitas e a firmitas (Polião, 1999, p.57). Como
se a poiesis da arquitetura pudesse nascer de outro lugar que não da téchne e da
superação de seus desafios (Heidegger, 2006). Dessa distorção deriva a noção
preconceituosa (e anacrônica) do arquiteto-artista, construtivamente irresponsável, o que
desmerece o trabalho profissional envolvido no processo de concepção artístico
arquitetônico, que não pretendem ficar aquém, mas além das soluções técnicas
convencionais. Há muito pouco de genuinamente inexistente a se criar, mas há uma
incontável gama de possibilidades de mudanças, releituras e interpretações. O avanço da
tecnologia do concreto armado no Brasil entre os anos 40 e 60, expressão que se tornou
referência mundial, é um exemplo histórico que revela o despropósito de tal distorção. Este
avanço não se deu por outro meio que não os desafios estruturais e ambientais lançados
por arquitetos como Oscar Niemeyer, Affonso Reidy e Vilanova Artigas entre outros, aos
engenheiros brasileiros, que não se furtaram ao desafio.

As reduções, por sua vez, pretendem restringir o caráter artístico da arquitetura à mera
aplicação de materiais de revestimento com intenções decorativas; ao tratamento “narrativo”
de superfícies e empenas; à repetição de fórmulas plásticas e espaciais comercialmente
bem sucedidas; às noções de estilo e moda vigentes no mercado imobiliário; e,
principalmente, à capacidade de dissimular com artifícios a dissociação entre espaços
privados (do empreendimento) e o espaço urbano (o lugar).

Uma Gestão do Processo de Projeto de qualidade passa pela inclusão do caráter


eminentemente artístico do processo de concepção arquitetônico, especialmente no que
concerne à redefinição dos papéis dos profissionais envolvidos na lógica das equipes
multidisciplinares.

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“As responsabilidades de projeto são distribuídas entre diversos especialistas, incumbidos
de parcelas cada vez menores do todo, dependentes de informações de terceiros, cujas
definições provocam interferências múltiplas.” (Melhado, Aula 3, 2009).

No entanto, se de um lado há, de fato, especialistas (profissionais que se aprofundaram em


determinado ramo de seu campo de saber) 4, de outro lado, há o arquiteto que, em senso
estrito, não é um especialista, e diferente dos especialistas que desenvolvem um trabalho
analítico, centrado em aspectos parciais do edifício, o arquiteto concentra-se no todo,
inclusive e, sobretudo, nos aspectos ambientais entendidos aqui como o espaço habitável,
trabalhando com e a partir de sínteses. Sua atuação permeia, portanto, a totalidade do
projeto, das concepção volumétrica aos detalhes, do conforto à acessibilidade, dos
revestimentos à manutenção. Sobre essas sínteses produzidas pelo arquiteto é que avança
o trabalho multidisciplinar. De modo que os agentes dessa equipe não atuam
simultaneamente, como interpreta Melhado (2009), mas sequencialmente.

Considerando que a Gestão do Processo de Projeto também é um trabalho de síntese e,


para ser completa, deve gerir, além da excelência técnica, os aspectos artístico-
arquitetônicos, seu exercício cabe, preferencialmente, ao arquiteto.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS: SOBRE A ÉTICA DA TECNOLOGIA

Qual a finalidade política e social dos modelos de Qualidade e Gestão em pauta? E que
responsabilidades perante o futuro assumem tais modelos?

As reflexões empreendidas pelo geógrafo Milton Santos (1926-2001) (2007) 5, professor


emérito da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, e
pelo engenheiro Milton Vargas, professor emérito da Escola Politécnica da Universidade de
São Paulo apontam algumas possibilidades de interpretação amparadas nos conceitos de
totalitarismo econômico (Santos, 2007), ética da tecnologia e responsabilidade coletiva
(Vargas, 1995-1996).

As formas das relações econômicas do mundo contemporâneo foram postas como


realidades implacáveis, inquestionáveis, a exigir obediência irrestrita e aceitação passiva, ao
menos até a crise financeira de fins de 2008, que fez ruir a hegemonia, explicitou
perversidades e exigiu proposições urgentes de alternativas. No entanto, o totalitarismo
econômico global, que Santos denominava “Globalitarismo”, tem suas manifestações mais
graves não no mercado financeiro ou nos sistemas de produção, mas no âmbito das idéias,
na formulação de modelos conceituais hegemônicos que, pautados por uma racionalidade
técnico-científica aparentemente inabalável, promovem o pensamento único no ensino, na
pesquisa, na produção e na difusão de conhecimento.

No entanto, se tal postura pode se instalar, dificilmente poderá resistir no seio da


universidade sem contradições profundas, pois esta não pode se furtar ao debate sem negar
sua própria história de liberdade de pensamento, diversidade de opiniões e aceitação de
divergências.

É inevitável que essa dinâmica conduza ao debate sobre os propósitos éticos da tecnologia.
Tecnologia entendida aqui como reflexão filosófica sobre questões técnicas, que se vale de
“teorias, métodos e processos científicos... para servir a um certo fim” (Vargas, 1995-1996).

A que se propõe, afinal, a tecnologia que fundamenta os discursos vigentes de Qualidade e


Gestão? Que condições de vida futura almeja tal tecnologia? A quem serve tal tecnologia?
Favorece pequenos grupos ou a sociedade de modo abrangente?

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Com relação a essas finalidades é que se faz necessário afirmar uma posição inequívoca de
compromisso com uma “política existencialista”, uma tecnologia existencialista, isto é, uma
reflexão, um discurso e uma ação explicitamente voltados para “a existência de todos...
(como) respostas às suas necessidades existenciais básicas” (Santos, 2007, p.184).

Não é a vida que deve se subordinar às racionalidades deterministas que pretendem reger
certas frentes tecnológicas; mas ao contrário, é a abrangência da vida humana, em todas as
suas dimensões individuais e coletivas, que deve reger a tecnologia. Frente à falta de
clareza contemporânea a esse respeito, faz-se imprescindível o desenvolvimento e o
compromisso com o que Milton Vargas (1995-1996, p.231) denominou “responsabilidade
coletiva”, ou seja, “a disposição de responder” aos seus pares e à sociedade pelas
finalidades tecnológicas.

Essa responsabilidade, entretanto, não pode brotar de um ambiente cultural no qual


predomina um entendimento limitado do que é a tecnologia, e de qual é a contribuição da
arte para a técnica. Cabe à universidade, e nesta, mais precisamente aos arquitetos e
engenheiros, estimular reflexões críticas que revejam, e proponham reformulações, quanto
ao entendimento acerca de tais aspectos estratégicos, afinal:

“Nunca houve na história sistemas tão propícios a facilitar a vida e a felicidade do homem.
Descobrimos os sistemas técnicos mais dóceis e doces que já existiram e os empregamos
no sentido da perversidade!” (Santos, 2007, p.184).

Concluindo, este artigo propôs uma interpretação do que se entende por arquitetura, seu
papel e a natureza de sua intervenção na sociedade. Como conseqüência, buscou opinar
sobre questões centrais da produção arquitetônica, quais sejam a qualidade do ambiente
construído e a gestão de sua materialização. Na base da argumentação aqui desenvolvida
está o entendimento de que o fazer arquitetônico é fundamentalmente artístico, mas não
prescinde dos aspectos técnicos que completam a realização do espaço construído, não
abre mão do caráter multidisciplinar do processo criativo projetual, nem tampouco despreza
os limites e condicionantes do cenário real no qual atua. Sendo considerações críticas em
contínuo processo de elaboração as opiniões aqui expostas estão totalmente abertas ao
debate.

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Anais do Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído
IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios 198
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Notas:
1
Há quem não diferencie arquitetura de construção. Tudo seria arquitetura, de pior ou melhor qualidade. O que
nos conduziria exatamente ao mesmo ponto.
2
Nas palavras do Prof. Luiz Américo de Souza Munari: “O perímetro do espaço é apenas o véu que limita o
espaço interior construído, e o espaço exterior também construído, porque o exterior é sempre afetado pela
arquitetura que molda a paisagem e o horizonte.”
3
Ramos de Azevedo (1851-1928), fundador da Escola Politécnica, Joaquim Cardoso (1897-1978), Pier Luigi
Nervi (1891-1979), Frei Otto (1925), Eladio Dieste (1917-2000) e Santiago Calatrava (1951), são exemplos de
engenheiros convictos de que a questão tecnológica da qualidade ambiental sempre esteve à frente da técnica,
isto é, no campo das artes. Convicção tão enraizada que o maior elogio que um técnico pode receber, pela
excelência de seu trabalho, é ser qualificado como artista, alguém que domina a técnica a tal ponto de ser capaz
de realizar uma “obra de arte”.
4
Conforme o parágrafo 2º do Artigo 4º da Resolução do Confea No 1.010 de 22 de agosto de 2005, o título de
engenheiro deve ser, obrigatoriamente, acrescido da denominação que carateriza a sua formação profissional
básica no âmbito dos respectivos campos de atuação da engenharia – civil, mecânica, elétrica, naval, etc –
podendo abranger, simultaneamente, mais de um campo. O modelo Politécnico, contraditoriamente, não forma
um engenheiro politécnico, mas engenheiros civis, engenheiros navais, engenheiros mecânicos, etc.
5
Entrevista concedida a José Corrêa Leite, publicada originalmente na revista Teoria & Debate em 1999.

Anais do Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído


IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios 199
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