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ANÁLISE DE DiSCURSO - MiCHEL PÊCHEUX

LÍNGUA, "LINGUAGENS", DISCURSO1

A Linguística hoje está na moda. Ela desempenha, para


muitos pesquisadores das mais diferentes disciplinas, o papel am-
bíguo de "cÍência-piloto". Buscaremos analisar esta ambiguidade
nas ciências sociais, na história e na literatura , dísíinguindo o
que, neste papel, resulta de uma intervenção científica de outras
ciências e o que decorre da exploração ideológica de suas dífícul-
dades, sob a desculpa de trazer-lhes uma "solução".

Linguística e para-linguístka

Após apontar rapidamente as principais sub-disciplinas


que constituem atualmeme a área da linguística, ofereceremos
ao leitor uma visão panorâmica do extenso campo de conhecÍ-
mento que ficou fora da linguística, a "descoberto", e sobre o
qual se desenvolveram pesquisas para-linguístÍcas das quais nu-
merosos pesquisadores, linguistas ou não, pressentem o caráter
fraudulento ou pseudo-linguístico do ponto de vista teórico3.
Por conseguinte, a questão será saber se a própria natureza deste
campo (considerada do ponto de vista marxista-leninísta) não
impõe que as relações que ele estabelece com a linguística sejam
redefinidas em seus princípios: se tornarmos, a título de exem-

Ï Texro publicado no "Spéciale Idccs" do L 'Humanité, em 15/10/1971.


2 Seria iguaJEmente possível examinar o lado das ciências da natureza (a biologia,
por exemplo).
3 Embora isto seja evidente, sublinhamos que esta questão, por dizer respeito à luta
teórica, não poderia evidentemente ser regulada por medidas adminisErativas que
visassem a contrariar este rumo de pesquisa.

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pio, o domínio à-a.poiítica e o ^produção cientifica, constata-se como o resultado da adjunção de três sufixos (-amos, -emos,

que, nestes dois domínios, as palavras podem mudar de sentido -ávamos) ao radical fal do verbo falar5. Consideremos, além

de acordo com as posições sustentadas por aqueles que as empregam. disso, o termo intercalado — ar . Percebe-se que apenas um dos

Nestas condições, cabe perguntar: trata-se ainda de um problema três sufixos assinalados pode ser combinado com fal-ar, pois as

puramente linguístico? Em caso contrário, como redefinir, a pro- formas fa-lar-amos e fa-lâr-vamos7 \ não realizadas em português,

pósito de exemplos deste tipo, a relação entre a ciência linguística constituem um "bârbarismo", isto é, um erro que conduz a uma

e o domínio da História, tal como concebida por Marx, e cuja forma inexistente na língua.

exploração teórica e prática continua nos dias de hoje? O nível sintatico, enfim, remete às regras que, em. urna língua
determinada, regem a construção das frases pelo encadeamento
Fonologia, morfologia, sintaxe, semântica das palavras. Trata-se, neste caso, de evitar erros na construção

da frase ("solecÍsmos"), Note-se que a gramaticalidade de uma


frase e seu caráter compreensível não coincidem necessariamente:
De acordo com os dicionários, a linguística constitui o
uma frase como "Íncolores ideias verdes dormem furiosamente
estudo científico da linguagem, entendida como o conjunto de
ë gramaticalmente correra, mas não apresenta um sentido que
línguas faladas ou escritas. Para atender às necessidades específicas
possa ser dela depreendido de imediato, muito embora seja pos-
de um estudo desta natureza, a linguística precisou elaborar uma
sível imaginar e atribuír-lhe um significado. Por outro lado, uma
teoria geral da língua que possibilite a interpretação de fenôme-
frase como você fazer mim rir"8 é agramatÍcal, mas diretamente
nos linguísticos próprios desta ou daquela língua: a fonologÍa
compreensível para os leitores do romance de Peter Cheyney
(literalmente: estudo dos sons), a morfologia (literalmente:
onde um locutor estrangeiro produz esta frase,
estudo das formas) e a sintaxe (literalmente: modo de combinar
as palavras). Estes conhecimentos, a um só tempo pertencem Como acabamos de ver, nenhum dos níveis que caracteri-
a esta teoria geral, enquanto partes específicas da mesma, e se zamos pode ser definido isoladamente; cada um deles se apoia
aplicam à descrição específica do francês, do inglês, do árabe, etc. necessariamente sobre o nível de ordem inferior. E tentador
pensar que o mesmo sucede quando nos deparamos com o
Assim, nessa teoria geral, o nível fonológico tem por tarefa
problema da produção e da interpretação do sentido de uma
definir os elementos fônicos característicos de uma língua e as
frase, isto é, quando passamos para a teoria semântica. Nestas
regras de combinação segundo as quais tais elementos formam as
palavras da referida língua. Por exemplo: a oposição dos fonemas
No exemplo de Pêcheux, foram mobilizadas as formas 'ons', 'ames', 'ions'eo
ler, pela qual se opõem as palavras lodo e rodo . A esta descrição radical 'par!' ao verbo 'parler'. Para a tradução, foram seledonadas desinêndas

finológica correspondem regras que autorizam ou interditam esta verbais que, em português, correspondem a tempos diferences e que não corres-
pondem aos tempos do exemplo dado em francês. [NT]
ou aquela combinação de fonemds. Vou limitar-me a traduzir da mesma forma como foi produzida a análise em francês,
isto é, sem recorrer a terminologia teórica, pois o texto originai é mn artigo de
O nível morfológico tem por objeto o estudo das formas de divulgação cientifica, publicado em jornal e, em função disso, a análise feita não
que as palavras de uma dada língua se revestem. Seja, por exem- visava a especialistas e sim a. sujeitos leigos. O objetívo do exemplo é mostrar da
forma mais simples possível o funcionamento morfológico da língua. [NT]
pio, as três íoïm^s - falamos, falemos, falávamos - consideradas
Em francês, a forma não realizada é par-ler-âmes. [NT]
Em francês, "Vous faire moi rigoIer"[NT
4 Em francês o par opositívo é kmpe / rampe[NT],

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condições, a semântica seria o prolongamento e o coroamento dições sócio-históricas não é, de forma alguma, secundário, mas
dos níveis inferiores da linguística. constitutivo das próprias significações: como se observou com
toda a propriedade, falar é totalmente diferente do que produzir
A linguística e as outras ciências humanas um exemplo de gramática. Por conseguinte, pode-se esperar "am-
pliar" a teoria linguística pelo viés de uma semântica geral (ciência
geral das significações), que liberaria a linguística do "grilhão10
Há, entretanto, um índice que mostra que a questão não é formal" da gramática? Veremos agora como se tentou realizar esta
tão simples, pois enquanto a fonologia geral aplica-se ao estudo tarefa e examinaremos as consequências daí resultantes.
d-a fonologia do francês, do inglês, do árabe, etc. (o mesmo
ocorrendo com a morfologia e a sintaxe), é difícil conceber o
Linguística e estudo das linguagens
que seria a semântica do francês, do inglês, do árabe, etc: tudo
Notemos, para começar, que é absurdo recriminar a
ocorre como se a correspondência entre teoria geral e o estudo
linguística por se restringir a seu objeto: toda disciplina cÍen-
particular de uma dada língua desaparecesse no nível da se-
tífica se constituí pela exclusão de seu campo daquilo que, até
mântica. Entretanto, ela não se libera de todo dado concreto :
então, a obcecava, no sentido literal do termo. Desta forma,
simplesmente, ela vai buscá-los em outro lugar; por exemplo, na
a linguística excluiu de seu campo as questões do sentido,
sociologia, na psicologia, na história, na literatura, etc-, que lhe
da expressão das significações contidas nos textos. Ora, estas
fornecem o concreto, mas recortado diferentemente do concreto
questões, que não deixam de ser formuladas (atualmente são
linguístico de uma dada língua nacional. Observar-se-á, sem
sobretudo as diferentes "ciências sociais", citadas acima, que,
dúvida, que estes componentes "sociais" e literários não estão
direta ou ind-iretamente, delas se ocupam), insistem junto à
ausentes dos domínios fonológico (r guturaT' dos meios urbanos
linguística para serem resolvidas com os meios teóricos de que
/ r "vibrante" ainda presente no interior9), morfológico (variações
esta última dispõe; e o modo como a linguística resiste ou cede
históricas de prefixos e sufíxos, criação de palavras novas ligadas
a esta demanda se traduz definitivamente na relação que esta
ao aparecimento das estradas de ferro..-ou do socialismo) e sín-
ciência mantém com seu exterior específico e que ela mesma
tático (será que a gramaticalidade não varia, pelo menos nestas
expressa pela oposição língua-fala. Ao conceito (científico) de
zonas de fronteira, em função de dados sócio-históricos?). Trata-
língua se opõe, pois, a noção de fala, representando o modo
se apenas (salvo, talvez, para o último ponto), de propriedades
como cada indivíduo usa a língua, maneira única pela qual
secundárias do ponto de vista. linguístico, das quais não compete
ccada sujeito falante" manifesta sua liberdade dizendo aquilo
à teoria gerai dar conta.
que nunca será ouvido uma segunda vez". Entretanto, esta
O caso é compieramente diferente para a semântica. Com liberdade aparece, de imediato, submetida a leis, não apenas
efeito, o laço que liga as "significações" de um texto a suas con- no sentido de coerções Jurídicas (que limitam a liberdade de
expressão), mas também no sentido de determinações sócio-
Esta oposição entre o "r" urbano e o "r" interiorano, própria do francês, também
históricas desta liberdade da fala: é-se, assim, levado a pensar
pode ser verificada no Português do Brasil. Só que, no nosso caso, não se trata da
oposição "gurural / vibrante". No Brasil, teremos o "r" gutural", urbano,e o r
retrofiexo, típico da fala caipira, tal como praticada no interior de S.Paulo e de Ï O Em francês, o termo usado foi "cancre" que significa colar de ferro utilizado para
Minas, por exemplo.[NT] prender um criminoso. [NT]

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que, em uma determinada época e em um "meio social dado , A linguística serve, desta forma, de caução a um empre-
a "fala", sob suas formas políticas, literárias, académicas, etc. endimento "de análise geral do inteligível humano"12, isto é, a
se organiza necessariamente em "sistemas" regidos por leis. E uma impossível ciência da realidade, ao lado ou melhor acima das
é, definitivamente, este par ideológico liberdade + sistema que ciências existentes. Para caracterizar rapidamente a natureza impos-
recobre o termo fala; o segundo sentido da palavra linguagens sível desta nova ciência das ciências, diremos que ela decorre da
(no plural)11, ao designar a existência de uma pluralidade de relação que é aqui estabelecida entre o dado concreto, empírico,
sistemas (sistema da narrativa, do drama, etc.), constitui, por extraído do que os anglo-saxões chamam de vida quotidiana, e
conseguinte, uma tentativa de resolver esta contradição, rea- os conceitos supostamente capazes de descrevê-lo.

plicando à "fala" os conceitos e operações de análise definidos


para o estudo da língua. Língua e discurso

Uma aplicação metafórica da linguística


Ê necessário, agora, dissipar um possível equívoco. Não se
deve ver, na crítica que acaba de ser feita, a marca de uma espé-
De todo este leque, resultou um número bastante consi- cie de integrismo linguístico, cuja palavra de ordem seria: não
derável de pesquisas, de natureza e de qualidade muito varia- há salvação para além da sintaxe ; as regiões que acabamos de
das. Viu-se, assim, aparecer, na análise literária, "sistemas de evocar não estão destinadas, por sua natureza, a permanecer dês-
oposição", característicos de um romance ou de uma família conhecidas, mas seu conhecimento pressupõe, como indicávamos
de romances, "sintaxes" do drama ou da narrativa, etc. No logo no início, uma mudança de terreno de cuja possibilidade
domínio sócio-histórico, certos estudos dos léxicos ou das e necessidade os pesquisadores se apercebem cada vez mais. Em
'linguagens" permitiram que as mais diversas preocupações seu princípio, esta. mudança de terreno consiste em se desvencílhar
ideológicas se desenvolvessem, ratificando desse modo a da problemática subjetivista centrada no indivíduo - fonte de
concepção idealista segundo a qual a infelicidade essencial de gestos e de palavras, ponto de vista sobre os objetos e sobre o
nossa sociedade reside na separação das linguagens, reduzindo mundo — e compreender que o tipo de concreto com que lida-
assim a luta de classes à velha ideia de um "conflito entre mos e em relação ao qual é preciso pensar, é precisamente o que
dialetos ou Jargões de classe. o materialismo histórico designa pela expressão relações sociais,
que resulta de relações de classe características de uma formação
Esta aplicação metafórica da linguística pode, além disso,
social dada (através do modo de produção que a domina, a hle-
ultrapassar o domínio do estudo de textos e esrender-se ao con-
rarquÍa das práticas de que este modo de produção necessita, os
junto de objetos e comportamentos que, todos, sem exceçâo, são
aparelhos através dos quais se realizam estas práticas, as posições
suscetíveis de revestirem uma "estrutura" (linguagem musical,
que lhes correspondem, e as representações ideológico-teóricas
picrórica, cinematográfica, estrutura do vestuário, do objeto e
e ídeológico-políticas que delas dependem).
do comportamento, etc.).

11 Ver acima, na definição da linguística, o primeiro sentido dado a este cermo. 12 Cf. a Apresentação do número 4 da Revista "Communicarions"
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Lugar de uma "teoria do discurso" no materialismo dialético pelo termo enunciaçao, pela qual se efetua a tornada deposição
do "sujeito falante" em relação às representações das quais ele
é o suporte14. Alguns linguistas e pesquisadores especializados
Mas é preciso, de imediato, dissipar outro possível equí-
no estudo de textos começam a trabalhar sobre este ponto15,
voco. Não devemos deduzir, do que acaba de ser exposto, que a
decisivo para o futuro das relações entre a linguística (ou teoria
língua, enquanto realidade autónoma desaparece, que a própria
da língua) e o que foi designado aqui pelo nome provisório
gramática não passa de objeto da luta de classe (!) . Na realidade, é
de "teoria do discurso", e que constitui de direito um seíor do
mais conveniente conceber a língua- (objeto da linguística) como
materialismo histórico destinado, provavelmente, a um grande
a base sobre a qual processos se constróem; a base linguística
desenvolvimento.
caracteriza, nesta perspectiva, o funcionamento da língua em re-
laçao a si própria, enquanto realidade relativamente autónoma; e
é preciso, por conseguinte, reservar a expressão processo discursivo
(processo de produção do discurso) ao funcionamento da base Tradução: Freda Indursky (UFRGS)
linguística em relação a representações (cf. exposto acima) postas
em jogo nas relações sociais. ISÈO permite compreender porque
formações ideológicas muito diversas podem se constituir sobre
uma única base (resposta ao problema: uma só língua/várias
culturas).

Sublinhemos que o termo "base" não deve ser entendido


como base económica em relação a uma superestrutura, mas,
antes, no sentido de que a existência do animal humano social e
falante constitui o pressuposto de base de todo o modo de pro-
duçao económica possível, ou, mais precisamente, o suporte das
relações sociais que correspondem a este modo de produção 3.

Além disso, o processo do discurso não deve, evidentemente,


ser confundido com o ato de fala do sujeito falante individual,
noção que se torna inútil e perigosa à medida que o estudo dos
processos (não centrados sobre um sujeito falante ) faz aparecer
o caráter empírico e respectivo desta noção.

Ë preciso, finalmente, precisar que a relação de articulação


dos processos sobre a base linguística toma-se possível pela exis- 14 O estudo destes mecanismos, que represencam no interior da base, a condição
tência, no próprio interior desta base, de mecanismos resumidos geral de possibilidade dos processos, permitirá provavelmente colocar de forma
adequada e talvez rcsoÍver o problema das "relações entre sintaxe e semântica".
15 Os trabalhos citados por L. Guespin c reunidos em Langue Française, n.9 (fevereiro
13 Náo existe um modo de produção das "sociedades" animais. de 1971) constituem um exemplo disso,

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