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ALFREDO BATISTA

A QUESTÃO SOCIAL E AS REFRAÇÕES NO SERVIÇO SOCIAL


BRASILEIRO NA DÉCADA DE 1990

DOUTORADO – SERVIÇO SOCIAL


PUC – SÃO PAULO
2002
ALFREDO BATISTA

A QUESTÃO SOCIAL E AS REFRAÇÕES NO SERVIÇO SOCIAL


BRASILEIRO NA DÉCADA DE 1990

Tese apresentada ao Programa de


Estudos Pós-Graduados em Serviço
Social da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, sob a orientação da
Professora Dra. Maria Lúcia Carvalho da
Silva, como requisito parcial para a
obtenção do título de Doutor em Serviço
Social.

SÃO PAULO
2002
DEDICATÓRIA

Rose e Gabriela.

O tempo passou.
Agora quero viver
intensamente
os momentos
humanos
que deixamos para trás.

Amo muito vocês.


AGRADECIMENTOS

À professora Dra. Maria Lúcia Carvalho da Silva, orientadora deste estudo, pela
dedicação e por acreditar e respeitar o movimento que construímos juntos.
Aos professores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus de
Toledo, Curso de Serviço Social, pelo apoio constante durante o processo de capacitação
continuada.
Ao colegiado do Curso de Pós – graduação em Serviço Social, da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC -, em nome da Professora Dra. Carmelita
Yasbec, agradeço a oportunidade em cursar o mestrado e o doutorado, contribuindo
decisivamente na formação pessoal e profissional.
Aos professores Doutores, José Paulo Netto e Evaldo Vieira, agradeço pela
oportunidade oferecida em seus cursos e particularmente pelo exame de qualificação. Não
poderia deixar de reconhecer que a contribuição dos conteúdos apresentados e discutidos,
demarcaram em mim, um novo direcionamento cívico e intelectual.
Aos colegas de trabalho da Pró–Reitoria de Extensão da UNIOESTE, pela
oportunidade de dividirmos juntos um momento singular na minha trajetória pessoal e
profissional. Confesso que aprendi muito com vocês.
Às minhas amigas Yolanda Guerra, Sandra de Faria, Izabel Cristina Dias Lira e
Ana Cartaxo, pelo carinho e pela troca teórica, constante, antes e durante este processo
de estudo.
Ao meu amigo- vagabundo – Maggiar Villar, um poeta sonhador, que conheceu
muito cedo a lâmina cortante do projeto burguês.
Aos professores Doutores, Ariovaldo de Oliveira e Marcelo Redenti, educadores
que ensinaram os primeiros passos na aproximação da teoria social de Marx.
Aos colegas do Núcleo de Estudo e Aprofundamento Marxista – NEAM -, pela
dedicação e companheirismo no processo de aproximação, análise e compreensão do
legado marxista e marxiano. Com certeza, ao banhar-me pela água deste rio, tudo mudou.
À Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE -, pela oportunidade
oferecida ao liberar-me em regime de PICDT, durante 30 meses.
A CAPES, por ter propiciado as condições financeiras para a realização do
presente estudo.
À família GASS e RITTER pelo apoio ... momentos de lazer que vivemos juntos.
À minha família de origem. Ao meu pai Sergio (in memorium), à minha mãe
Antonia (in memorium) e aos meus irmãos, José Gilberto, Wilson (in memorium), Ademir,
Sergio, Paulo Roberto (in memorium), Claudinei e Evanete, por tudo.
Nossa História

O meu pai foi operário


Nasceu, cresceu e morreu
No interior do engenho.

Aos sons afinados das turbinas


E das engrenagens das máquinas
Lambuzava-se, todos os dias,
Do mel da cana

Para dizer que não


Tinha recompensas
Era presenteado
Todos os meses pelo doce do açúcar

Não era muito, mas


Serviu para que seus familiares
Não perecessem

Se o doce do açúcar
Alegrava o dono do engenho
Para o meu pai e seus familiares
O doce do açúcar tinha gosto de fel.

(A . B.)

Inverno de 2001.
SUMÁRIO

LISTA DE SIGLAS........................................................................................................7
RESUMO.......................................................................................................................9
ABSTRACT.................................................................................................................10
RÉSUMÉ......................................................................................................................11
INTRODUÇÃO............................................................................................................12
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO 1 - “QUESTÃO SOCIAL”: CONFIGURAÇÕES NO CAPITALISMO....28
1.1 A FORÇA DE TRABALHO EM MOVIMENTO: UMA CONQUISTA
HISTÓRICA...........................................................................................................29
1.2 AS MÁQUINAS INAUGURAM A IDADE MODERNA NA PRODUÇÃO................46
1.2.1 A Produção Familiar.........................................................................................46
1.2.2 O Desenvolvimento das Patentes e as Necessidades Práticas em Nome
do Progresso....................................................................................................50
1.2.3 A Manufatura e a Maquinaria...........................................................................58
1.2.4 As Crises do Modo de Produção Capitalista: a Contradição em Movimento..69
1.3 O CAPITALISMO MONOPOLISTA E TARDIO EM MOVIMENTO........................74
1.3.1 A Inflexão do Projeto Capitalista na Década de 1970.....................................94
1.4 O AJUSTE NEOLIBERAL MUNDIAL....................................................................97
CAPÍTULO 2 - “QUESTÃO SOCIAL”: PERSPECTIVAS ANALÍTICAS................104
2.1 A CIÊNCIA DA DECADÊNCIA............................................................................108
2.2 A CRÍTICA MARXIANA.......................................................................................116
2.2.1 A Centralidade da Categoria Trabalho...........................................................124
2.2.2 O Processo de Trabalho em Mutação: Conceitos e Categorias...................127
2.2.2.1 O processo de trabalho, forma técnica e organizacional: do Artesanato
ao Toyotismo.................................................................................................145
2.3 AS DIMENSÕES: RESTAURADORA E REFORMISTA....................................168
2.3.1 A Proposta Restauradora de Pierre Rosanvallon..........................................176
2.3.2 O Reformismo Social-Democrata de Robert Castel......................................188
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO 3 – RECEITUÁRIO NEOLIBERAL E A “QUESTÃO SOCIAL” NO
BRASIL NA DÉCADA DE 1990......................................................207
6

3.1 O PROJETO NACIONAL-DESENVOLVIMENTISTA..........................................208


3.2 BRASIL, UM PAÍS “EMERGENTE”....................................................................223
3.3 FERNANDO COLLOR DE MELLO: O “DESMONTE DA NAÇÃO” I..................227
3.4 FHC E O “DESMONTE DA NAÇÃO" II...............................................................236
3.5 A REFORMA DO ESTADO NO BRASIL: O FUNDAMENTO DO PROJETO
NEOLIBERAL......................................................................................................240
3.5.1 Administração Pública Patrimonialista...........................................................241
3.5.2 Administração Pública Burocrática................................................................244
3.5.3 Administração Pública Gerencial...................................................................247
3.6 A REFORMA DO ESTADO E O “DESMONTE DA NAÇÃO” III..........................254
CAPÍTULO 4 - A “QUESTÃO SOCIA” E SUAS REFRAÇÕES NO SERVIÇO
SOCIAL...........................................................................................273
4.1 O PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA............................................274
4.2 AS REFERÊNCIAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS NA PRODUÇÃO
ANALISADA PELOS ASSISTENTES SOCIAIS..................................................279
4.3 MUDANÇA HISTÓRICA NA FORÇA DE TRABALHO E SUA REFRAÇÃO
NO SERVIÇO SOCIAL.......................................................................................284
4.3.1 O Setor de Serviços, Espaço Sócio-Ocupacional e do Trabalho dos
Assistentes Sociais........................................................................................287
4.3.2 As Metamorfoses Provocadas no Setor de Serviços nas Instituições
Privadas e suas Refrações nas Particularidades do Trabalho Profissional
dos Assistentes Sociais..................................................................................289
4.3.3 As Metamorfoses Provocadas no Setor de Serviços nas Instituições
Públicas Estatais e Privadas Filantrópicas e suas Refrações no Serviço
Social..............................................................................................................301
4.4 AS REFRAÇÕES NO PERFIL PROFISSIONAL DOS ASSISTENTES
SOCIAIS..............................................................................................................304
4.5 AS REFRAÇÕES NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL, A “QUESTÃO SOCIAL”
E O SERVIÇO SOCIAL: AS CATEGORIAS TRABALHO E PROCESSO DE
TRABALHO EM DEBATE...................................................................................311
4.6 OS CAMINHOS APONTADOS PARA O FUTURO.............................................329
CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................342
NOTAS............................................................................................................................
352
REFERÊNCIAS.........................................................................................................358
ANEXOS....................................................................................................................375
LISTA DE SIGLAS

ABEPSS - Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em serviço Social


ABESS - Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social
ABI - Associação Brasileira de Imprensa
AL - América latina
ANAS - Associação Nacional de Assistentes Sociais
BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento
BIRD - Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CBAS - Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais
CEBs - Comunidades Eclesiais de Bases
CEDEPSS - Centro de Documentação e Pesquisa em Políticas Sociais e Serviço
Social
CFESS - Conselho Federal de Serviço Social
CLT - Consolidação das Leis Trabalhistas
CNE - Conselho Nacional de Educação
CNPQ - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito
CRESS - Conselho Regional de Serviço Social
CSE - Conselho Superior de Educação
CUT - Central Única dos Trabalhadores
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-
econômicos
DOU - Diário Oficial da União
ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente
ENESSO - Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social
EUA - Estados Unidos das Américas
FGV - Fundação Getúlio Vargas
FMI - Fundo Monetário Internacional
FSS - Faculdade de Serviço Social
G7 - Grupo dos Sete Países Mais Ricos do Mundo
GATT - General Agreement on Tariffs and Trade
GIFE - Grupo de Institutos Fundações e Empresas
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDE - Investimento Direto do Exterior
IDH - Índice de Desenvolvimento Humano
IGP - Índice Geral de Preços
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
LOAS - Lei orgânica da Assistência Social
MARE - Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado
MDB - Movimento Democrático Brasileiro
ME - Movimento Estudantil
MEC - Ministério da Educação e dos Desportos
8

MERCOSUL - Mercado Comum do Sul


MESS - Movi7mento dos Estudantes do Serviço Social
MOG - Ministério do Orçamento e Gestão
MP - Medida Provisória
MST - Movimento dos Sem Terra
NEAM - Núcleo de Estudos e Aprofundamento Marxista
OAB - Ordem dos Advogados do Brasil
OCDE - Organização de Cooperação de Desenvolvimento Econômico
OMC - Organização Mundial do Comércio
ONU - Organização das Nações Unidas
PDT - Partido Democrático Brasileiro
PDV - Plano de Demissão Voluntária
PED - Pesquisa de Emprego e Desemprego
PETRES - Programa de Estudos do Trabalho e Reprodução Social
PFL - Partido da Frente Liberal
PIB - Produto Interno Bruto
PNB - Produto Nacional Bruto
PNDA - Pesquisa Nacional a Domicílio
PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PPP -
PROER - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do
Serviço Financeiro
PSDB - Partido Social Democrático Brasileiro
PT - Partido dos Trabalhadores
PUC - Pontifícia Universidade Católica
RMI - Renda Mínima da Inserção
SEADE - Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos
SEASSUNE - Subsecretaria de Serviço Social da União Nacional dos Estudantes
SEMOR - Secretaria da Modernização
SIAF - Sistema de Administração Financeira
TCC - Trabalho de Conclusão de Curso
UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro
UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro
UNE - União Nacional dos Estudantes
URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
RESUMO

Esta tese de doutorado analisa, como e em que instâncias, as


transformações societárias no período após 1970, vêm metamorfoseando a
“questão social” e se refratando no Serviço Social brasileiro, na década de 1990. A
pertinência da realização deste estudo tem relação direta com a necessidade
pessoal e profissional em compreender e analisar este movimento e suas
determinações, possibilitando contribuir com o debate presente e futuro sobre o
Serviço Social por meio da categoria dos assistentes sociais. Historicamente foram
explicitadas as relações estabelecidas entre o desenvolvimento do capitalismo e as
expressões da “questão social” no século XIX e após 1970, possibilitando expor as
ações que os governos, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso,
desenvolveram frente às transformações societárias e suas implicações na “questão
social”. A apropriação destes conteúdos vêm refletindo - se na discussão das
objetivações do Serviço Social. A utilização de bibliografias, artigos e livros
específicos, produzidos por assistentes sociais, permitiu abordar o movimento das
transformações societárias, o impacto na “questão social” e suas refrações no
Serviço Social brasileiro na década de 1990. A fundamentação geral, teórico-
metodológica, pautou-se em fontes documentais e bibliográficas de procedência
clássica e contemporânea crítica. A apreensão e análise deste movimento
evidenciaram a existência de tendências, no período após 1980, de que os
assistentes sociais em seus espaços sócio-ocupacionais e no trabalho profissional
vêm restaurando práticas conservadoras, bem como apontaram para mudanças no
contrato de trabalho, na remuneração salarial, na formação profissional continuada,
na relação com as exigências técnico-operativas em relação ao atendimento da
demanda usuária dos serviços privados e públicos. Estas mudanças nas esferas do
mercado e da formação profissional estão alterando o perfil profissional dos
assistentes sociais.
ABSTRACT

This doctoring thesis analyses how and in what situation were the society
transformations in the period after 70’s, how it comes changing the “Social
Question”, and reflecting on the social service in Brazil in 1990’s. The pertinence of
this study realization is directly related through the personal and professional
necessity in understanding and analyzing this movement and it’s determinations,
contributing with the present and future debate about the social service through the
social worker category. Historically were explained the established relations among
capitalism development and the expressions from the “Social Question” in the XIX
century and after 70’s making possible the expose of the actions that the governs
from Fernando Collor de Mello and Fernando Henrique Cardoso developed between
the society transformations and its implications in the “Social Question”. The
Appropriation of these contents is coming reflecting in a discussion of objectivity
from social service. The utilization of bibliographies, articles and specific books
produced by social workers permitted dealing with the movement of society
transformations, the impact of the ”Social Question” and its reflections in Brazilian
social service in 90’s and the general fundamental theory and methodology is based
in documental and bibliographic sources from classic and contemporary critics. The
analyses and apprehension from this movement showed the tendency in the period
after 8o’s, which the social workers in their special occupational spaces and in the
professional worker come restoring conservatory practices, as well showed, the
changes in the work contract, in money payment and in the professional formation
continuous in relation to the technical operational requirements related to the
attendance of usage needs in the private and public services. These changes are
modifying the professional profile from the social assistance. These changes are in
the business circuits and professional formation.
RÉSUMÉ

Cette thèse doctorat analyse, comme et en quelles instances, les


transformations de la société dans le periode aprés 1970, il viens en train de
métamorphoser la «question sociel» et en train de se réfracter dans le Service
Sociel Brèsilien, dans la décade de 1990. La pertinacité de la réalisation de cet
étude a rélation directe avec la nécessité personnel e et profissionel en
comprendre et analyser ce mouvement e leurs déterminations en train de rendre
possible contribuer avec le débat á présente e futur sur le Service Sociel au milieu
de la catégorie de les assistentes sociels. En travers l´histoire ont été explicitas les
rapportes établies entre le développement du Capitalisme et les expressions de la
« question sociel » dams le siècle XIX e dans l´aprés 1970, en train de rendre
possible exposer les actions que les gouvernements Fernando Collor de Mello e
Fernando Henrique Cardoso, ont developpé devant à transformations de la société
e vos implications dans la « question sociel ». L´appropriation de ces contenus viens
en train de se réfléchir dans la discussion de les objectifs du service sociel. La
utilisation des bibliographies, des articles e des livres spécifiques, qui sont élaborés
por les assitentes socieles, a permu aborder le mouvement de les transformations
de la societé, l´impacts dans la « question sociel » e vos réfractions dans le Service
Sociel Brèsilien dans la décade de 1990. La fondamentation gérale, théorique et
méthodologique s´a réglé en sources documentaires et blibliographiques de
provenance classique et contemporaine critique. L´appréhension e analyse de ce
mouvement ont rendu évident l´existence de tendances, dans le periode aprés 1980,
de que les assistentes socieles dans leurs places d´occupation dans la societé et
dans le travaille profissionel viens en train de restaurer des pratiques conservateurs,
bien comme ils ont montré quelques changementes dans le contrat de travaille,
dans la rémunération du salarial, dans la formations profissionel continueé, dans la
relation avec l´exigences técniques et oppérationnel que peut attedre la demande
des usagers des services privés et publiques. Cettes changementes sont ant train
de altérer le profil profissionel de tous les assistentes sociels
INTRODUÇÃO

A crítica não arranca as flores


imaginárias dos grilhões
para que o homem suporte os grilhões
sem fantasias e consolo,
mas para que se livre delas
e possam brotar as flores vivas.

Karl Marx
INTRODUÇÃO

A aproximação com a temática – “questão social” – tem sua raiz nascente,


na [minha] origem de classe operária e na convivência diária no interior de uma
usina de cana-de-açucar. Nesta, a força de trabalho era apropriada pelo capital e
suas manifestações ocorriam nas instâncias da produção material e da reprodução
social. Assim, entendi que [meu] projeto pessoal e profissional esteve sempre
relacionado, conscientemente ou não, à necessidade de estar presente no
movimento da história contrário aos pressupostos do projeto societário burguês e,
em um dado momento da [minha] trajetória, esse projeto pessoal e profissional
ganhou forma, conteúdo e direção teórico-metodológica e ético-política.

Esse processo, marcado por momentos de rupturas e continuidades, vem


sedimentando, nos últimos dez anos, expressões de maturidade pessoal e
intelectual. A partir do momento em que o referencial teórico-metodológico crítico
ganhou vivacidade em [minha] formação, as relações que, a princípio, eram
naturais, apropriaram-se de materialidade histórica, dando sustentação para
compreender esse processo em suas singularidades e particularidades, conectados
às categorias de totalidade. Este balanço pessoal e profissional vem permitindo
entender a necessidade histórica de superar e negar as formulações
compreendidas como sendo absolutas e eternas.

Durante a formação acadêmica, na graduação de Serviço Social, vivenciei


o debate que estava ocorrendo na categoria profissional com a implantação do
currículo mínimo, aprovado em 1982. O debate e a concretização do projeto
aprovado nas instâncias deliberativas da categoria contribuíram, decisivamente,
para entender o movimento desse processo que a categoria profissional estava
trilhando – o rompimento com o projeto conservador. Vivenciei esse momento rico
de determinações, porém, não tinha clareza, enquanto estudante graduando, das
determinações históricas, do significado do movimento e da intenção de ruptura.
Este horizonte ganhou dinamicidade e concreticidade quando realizei o curso de
Mestrado na Pontifícia Universidade Católica – PUC - de São Paulo, 1992-1994,
apresentando a dissertação intitulada - “O projeto das indústrias comunitárias em
Toledo-Pr: uma resposta à crise local”, nesse momento a categoria dos assistentes
sociais efetivava um projeto profissional comprometido com o referencial teórico-
metodológico-crítico e com o Código de Ética aprovado em 1993 - base fundamental
que indica qual é o projeto em construção da categoria -, compromissada com os
valores democráticos, tão caros à classe operária e demais frações da classe
trabalhadora.

Com o término do curso de mestrado, retornei para a UNIOESTE –


campus de Toledo-Pr, curso de Serviço Social. Nesse momento, iniciei em nosso
colegiado de curso o processo que fora instaurado nacionalmente pela ABESS –
CEDEPSS, da nova revisão do Currículo Mínimo do curso de Graduação em
Serviço Social. Por meio da contratação de assessoria, grupos de estudo e
participação direta e contínua nas oficinas da ABESS, regional e nacional,
estudamos e debatemos os documentos elaborados pela própria ABESS-CEDEPSS,
os quais culminaram na aprovação das Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço
Social com base no Currículo Mínimo aprovado em Assembléia Geral Extraordinária,
em 8 de novembro de 1996. Foi durante esse processo de revisão curricular que me
14

aproximei academicamente das leituras que estavam colocando, na ordem do dia, a


importância histórica e determinante da “questão social”, expressão da forma de ser
da profissão Serviço Social.

Enquanto que, a centralidade da categoria trabalho, dimensão da força de


trabalho, acompanha-me desde o período pré-universitário por meio de perguntas
referentes às condições objetivas e subjetivas presentes na relação cotidiana,
antagônica e contraditória, entre capital-trabalho.

Ao direcionar essas inquietações para a elaboração do projeto de tese,


com a intenção de concorrer a uma vaga para ingressar no curso de doutorado na
PUC - São Paulo, a preocupação central retornou à cena principal e desembocou
na expressão mais crônica na relação capital-trabalho no após 1970: a “questão
social” do desemprego.

Durante o desenvolvimento do curso de doutorado, as disciplinas


cursadas, a participação no Núcleo de Política Social, no Núcleo de Estudos e
Aprofundamento Marxista e a realização do estágio no SEADE-DIEESE, permitiram-
me colocar a temática “questão social” – desemprego – em evidência, o que
possibilitou rever o projeto inicial e, por meio do acompanhamento sistemático da
orientação da tese, conduziu-me à banca de qualificação. Este momento criou as
condições básicas necessárias para indagar sobre o caminho que estava trilhando e
para a aproximação com a temática, momento diferencial que o Serviço Social tem
vivenciado a partir do primeiro lustro da década de 1990. A viagem por meio da
pesquisa documental e bibliográfica possibilitou-me realizar o processo investigativo
com aproximações sucessivas para apropriar-me de algumas determinações e
indagar outras, permitindo a delimitação do objeto em estudo.

Nessas indagações foi possível perceber que atar os homens à condição


de gênero humano só é possível por meio do próprio trabalho humano. No período
após 1970 houve um estágio produtivo de mercadorias que ampliaram as
possibilidades para avançarmos na construção do projeto para além do capital. No
entanto, a produção e reprodução das relações sociais na esfera produtiva e fora
dela, atingiram graus de sociabilidades que vêm impondo dificuldades à criação de
um projeto societário que conduza à emancipação humana. Neste contexto, como
conviver com o dilema: apropriação da natureza, das potencialidades em graus
exponenciais e, no mesmo espaço de sociabilidade, com a destruição da força física
e psíquica da classe operária e demais frações da classe trabalhadora?

Este dilema não é novo porém, o período pós-1970, principalmente


durante a década de 1990, coloca determinações que merecem ser investigadas.
Dentre elas destaca-se o processo das transformações societárias em movimento,
seus impactos na “questão social” e suas refrações no Serviço Social brasileiro, na
década de 1990. Isto porque, o último quartel do século XX foi marcado por
transformações no tecido societário na esfera da produção e da reprodução social.
É neste cenário que homens e mulheres foram construindo suas histórias ou, a
maioria, sofrendo-as.

Como resultado da relação conflituosa entre capital-trabalho, o projeto


societário burguês deparou-se com uma crise de acumulação do capital que atingiu
a base estrutural das premissas que o fundamenta. A resposta do capital foi
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imediata: (1) a apropriação dos resultados apresentados pela revolução tecnológica


e científica após 1945 colocou em movimento uma nova reestruturação produtiva;
(2) a implementação do receituário neoliberal com medidas que mudaram a relação
na esfera da produção material e da reprodução social; (3) ampliação e
redimensionamento do lócus de investimento com o propósito de aumentar a
lucratividade. E o resultado foi o desenvolvimentismo, a prioridade mundial do setor
do capital financeiro.

Reestruturação produtiva, receituário neoliberal e mundialização financeira


foram medidas que (re)configuraram a relação capital-trabalho. E o resultado para
a classe operária e demais frações da classe trabalhadora foi destruidor. O social e
demais instâncias dos direitos foram ceifados cotidianamente. Esse movimento
coloca, em seus extremos, os resquícios das premissas conquistadas pelo projeto
progressista no final de século XVIII. É nesse cenário que, nos países centrais, e
principalmente, periféricos, vivencia-se um aumento exponencial da pobreza e da
miséria atingindo índices estatísticos que colocam em dúvida as possibilidades
concretas da continuidade da sociedade progressista, mesmo nos parâmetros
delimitados pelo projeto burguês em sua origem.

A crise estrutural instaurada e as respostas efetivadas à mesma ampliaram


as manifestações da “questão social” e encontraram no desemprego, no emprego
Instável e no trabalho realizado em condições precárias a centralidade do espectro
que vem colocando em questionamento o projeto burguês e destruindo a vida da
classe operária e demais frações da classe trabalhadora.

Dizer que a “questão social” encontra no desemprego uma novidade, não


é verdade. Esta dimensão da “questão social” é um elemento intrínseco à lógica de
produção e reprodução burguesa. Porém, as determinações que põem essa
questão em destaque no último quartel do século XX, apresentam-se em um novo
movimento. E o fator determinante é que os trabalhadores estão convivendo com
uma crise estrutural do capital que põe a força de trabalho – enquanto uma
mercadoria – em situação mais vulnerável, subordinando suas dimensões objetivas
e subjetivas às respostas do próprio capital. Esta relação tem demonstrado o grau
ampliado das manifestações bárbaras da “questão social” nas diferentes instâncias
da sociedade capitalista.

Os intelectuais atrelados ao projeto burguês têm tratado historicamente a


“questão social”, nas suas diferentes manifestações, como um mal social. A
“questão social”, e o desemprego apresentados após 1970 não têm sido entendidos
e tratados, na esfera da perspectiva conservadora e especulativa, diferencialmente,
pelos autores conservadores. A obra de Pierre Rosanvallon (1998) é uma das
expressões na atualidade. Para este autor, para que o bem retorne, necessitamos
resgatar o sentido cívico presente em cada país, pois o espírito de nação precisa
ser reconstruído. Por meio da propaganda nos meios de comunicação e com a
criação de programas na esfera estatal e privada, convoca-se a sociedade em geral
para praticar atos de solidariedade. Esta alternativa restauradora é cristã e ceifa
qualquer possibilidade de construir e efetivar a solidariedade de classe. A
solidariedade, o bem que acabará com o mal, o desemprego e demais expressões
da “questão social”, são a manifestação concreta da criação, desenvolvimento e
efetivação de uma cultura política que apreende a contradição sob a lógica e a
forma da solidariedade transclassista.
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Porém, quando o crivo teórico-metodológico crítico é o referencial de


análise e interpretação, o desemprego e as decorrências da sua manifestação são
apreendidos de forma diferencial: a base material concreta, periodicizada
historicamente encontra no próprio movimento contraditório entre capital-trabalho a
essência manifesta, bem como o porquê da sua existência.

Na perspectiva da teoria social de Marx e da tradição marxista, o


desemprego é: (1) uma manifestação econômica, política e social, intrínseca à
lógica do projeto societário burguês. A força de trabalho é uma mercadoria igual às
demais mercadorias na relação de troca. Assim, ao obedecer às regras do mercado,
a garantia da força de trabalho coloca-se em movimento, empregada e com
remuneração, torna-se uma incógnita para os trabalhadores todos os dias; (2)
utilizado como argumento prático, o desemprego é uma “arma” que o próprio
capitalista usa para aplicá-la contra o próprio trabalhador, pressionando o mercado
a reduzir salários; (3) um mecanismo político que obriga os trabalhadores a
realizarem atividades que colocam a segurança física e a estabilidade emocional
em risco, dificultando a organização dos mesmos em entidades categoriais; (4)
fragilizam-se os trabalhadores obrigando-os a desenvolverem atividades eventuais,
pois o emprego formal tem-se reduzido diariamente. Esta situação leva-os a
realizarem atividades que não condizem com sua formação profissional e, na
maioria das vezes, recebem remuneração menor; (5) uma “munição” que oprime os
trabalhadores criando o sentimento individual e coletivo da incerteza em
permanecer no dia seguinte empregado e os desempregados não sabem quando
retornam ao mercado através do vínculo empregatício formal.

As transformações na base econômica da sociedade civil e na esfera do


Estado aprofundaram o grau de instabilidade no interior das profissões. Estas, para
permanecerem no mercado estão sendo obrigadas a redimensionarem-se, pois a
lógica instrumental, presente na base do mercado, define qual é a meta a ser
atingida. As profissões que não se adequarem encontrarão dificuldades em
sustentar seus propósitos. Os espaços sócio-ocupacionais, o trabalho profissional e
as relações de trabalho – contrato de trabalho, condições de trabalho e salário -
estão sendo alvo das transformações macro-societárias. É o mercado que define a
profissão, não é a profissão que define o mercado, o que não significa que esta
relação seja compreendida como natural. Há elementos concretos que possibilitam
aos profissionais – que vivem da venda da sua força de trabalho – caminharem em
sentido contrário ao projeto societário burguês, construindo suas bases curriculares
e a efetivação destas, voltadas para o projeto societário que tem como fundamento
os interesses de classe dos operários e demais frações da classe trabalhadora. É
possível, portanto, colocar em movimento, de forma radical, uma direção que
combata e negue a cultura política instaurada.

No entanto, sabemos que, no presente materializado, o que condiciona a


existência de uma profissão é a situação e a exigência do projeto societário
dominante, isto é, quais os seus interesses de mercado, por um lado, mas também,
quais as necessidades concretas para que este projeto não seja surpreendido. É
nesta segunda dimensão que o Serviço Social é criado. Uma profissão inserida na
divisão social e técnica enquanto uma especialização do trabalho coletivo que tem
como objetivo, controlar as conseqüências da relação conflituosa entre capital-
trabalho. É no princípio da estruturação do capitalismo – fase monopolista – que o
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Serviço Social, ao intervir através das políticas sociais criadas pelo Estado - espaço
estratégico de governo, é reconhecido enquanto profissão.

É neste ponto que há uma relação direta com a relevância do tema-tese.


As transformações macro - societárias atingiram, no período após 1970, diretamente
os trabalhadores que, enquanto usuários dos serviços sociais, são atendidos pelos
assistentes sociais, ou seja, as demandas que são alvo direto do trabalho realizado
pelos assistentes sociais têm explicitado duas variáveis: (1) exigindo atendimentos
com maior frequência – ampliando a demanda usuária dos serviços sociais da rede
pública; (1.1) a situação dos trabalhadores tem piorado suas condições de
existência, exigindo novos serviços; e, (1.2) os trabalhadores têm conquistado
direitos que, ao serem efetivados, estão ampliando a rede de serviços, alterando as
exigências dos profissionais no campo teórico-metodológico, ético-político e
técnico-operacional; (2) os profissionais e a própria profissão são alvos das
transformações societárias na esfera privada e pública (estatal e filantrópica). Os
espaços sócio-ocupacionais, o trabalho profissional e as relações de trabalho –
contrato de trabalho, condições de trabalho e salário – estão sendo atingidos em
suas centralidades. Essas mudanças na base do mercado têm exigido a formação
de um novo perfil do assistente social que apresente características generalistas em
condições de executar atividades em dimensões multifuncionais e polivalentes.

Preocupado em entender as condições objetivas e subjetivas da força de


trabalho após – 1970, reaproximamo-nos da temática “questão social” que nos
levou à delimitação do objeto da tese, a qual se compõe de três determinações
imbricadas em seu movimento na seguinte proposição: “as transformações
societárias, no período após 1970, os impactos causados na ‘questão social’ e suas
refrações no Serviço Social brasileiro na década de 1990”.

Após delimitarmos o objeto, apresentamos como objetivo geral, “a


preocupação em analisar como e em que instâncias, as transformações societárias,
no período após 1970, vêm metamorfoseando a ‘questão social’ e se refratando no
Serviço Social brasileiro na década de 1990”. E, como objetivo específico
propusemos apreender e analisar este movimento por meio “da literatura produzida
e publicada pelos próprios assistentes sociais e profissionais de áreas afins que
dialogam com a profissão Serviço Social.”

Durante a década de 1990, dois movimentos têm colocaram os assistentes


sociais em situação diferenciada: o primeiro, diz respeito, ao amadurecimento e
aprofundamento do referencial teórico-metodológico e ético-político que dá
sustentação ao projeto hegemônico em construção no interior da categoria. O
segundo, em outra dimensão, é a refração que o Serviço Social vem sofrendo
devido às transformações societárias implantadas nas esferas da produção material
e da reprodução social. Este segundo movimento levou-nos a construir o conjunto
deste estudo evidenciando a tese de que “os assistentes sociais, crescentemente,
vêm incorporando as manifestações das transformações societárias, no período
após 1980, embora com ações incipientes no campo da resistência.”

Os argumentos que permitem demonstrar esta tese encontram sua


pertinência na hipótese de que: “os assistentes sociais, em seus espaços sócio-
ocupacionais e no trabalho profissional, face às dificuldades encontradas em
colocar em movimento procedimentos teórico-metodológicos, ético-políticos e
18

técnico-operativos que conduzam a uma intervenção inclusiva, ontológica e crítica


estão restaurando práticas conservadoras”.

O estudo, realizado com o compromisso de responder à tese em questão,


pautou-se metodologicamente em fontes documentais e bibliográficas. A fonte
documental, dados gerais e específicos contribuiu para fundamentar as premissas
argumentativas teórico-metodológicas da tese em seu conjunto. Os dados foram
pesquisados em relatórios estatísticos sobre a realidade sócio-econômica e política
nacional e internacional, publicações divulgadas pelos órgãos oficiais
governamentais e não governamentais, públicos e privados. Os documentos foram
pesquisados em bibliotecas públicas e particulares, bem como por meio do
computador. Este permitiu, via internet, encontrar documentos decisivos para a
comprovação empírica. Esse processo de pesquisa das fontes de alcance estadual,
nacional e internacional foi realizado por iniciativa própria e tiveram como ponto de
partida informações contidas em jornais de circulação nacional; indicações de
outros pesquisadores; textos e revistas pesquisadas durante o curso de doutorado,
em específico, no momento da elaboração da tese.

Mas, a linha mestra que conduziu a pesquisa bibliográfica para a


construção dos três primeiros capítulos apresentou uma particularidade: o método
de pesquisa - exposição dos conteúdos e análise - contribuiu significativamente,
nas decisões em relação aos passos a serem seguidos. Em um primeiro momento,
partimos da premissa de que nenhuma intenção é inocente. Por isso, a decisão em
trazer o tema para a atualidade levou-nos a periodicizar, historicamente, a origem e
o movimento da “questão social”. Assim, colocar a discussão a partir dos séculos
XVIII e XIX não foi arbitrária. E, nesse ínterim aproprio-me de algumas literaturas
clássicas em sua dimensão crítica. Este procedimento permiti aproximar da temática
com maior rigor. Num segundo momento, a utilização da bibliografia clássica crítica
possibilitou trazer a discussão para a última década do século XX, sem perder a
totalidade do objeto em discussão e, ao mesmo tempo, apresentar o objeto pleno de
determinações, as quais não surpreenderam porém, trouxeram maior grau de
segurança em tratar e compreender a problemática da pesquisa em sua raiz.

Os livros e os textos receberam tratamento classificatório priorizando-se a


bibliografia clássica crítica. Em seguida, o processo de apreender o conteúdo e
tratá-lo em direção ao caminho a ser percorrido, possibilitou relacionar-se leituras,
bem como entender a atualidade das leituras clássicas. O novo, mesmo
apresentando determinações atualizadas é permeado de determinações velhas
porém, não envelhecidas (no sentido da anterioridade). Desvendar este universo
foi o propósito dos três primeiros capítulos.

Para dar conta deste estudo-investigação, apresento a estrutura deste


estudo em duas partes e quatro capítulos.

Primeira parte: o capítulo primeiro, intitulado “QUESTÃO SOCIAL:


CONFIGURAÇÕES NO CAPITALISMO” – aborda o fato de que, com a queda do
modelo feudal de produção e de reprodução social, em especial, a Inglaterra e a
França, assumem o protagonismo do processo histórico na esfera da economia, da
política e da cultura. Este novo cenário põe em movimento o modo de produção
capitalista, e propicia o nascimento e o desenvolvimento das classes burguesa e
proletária. Possuidores de projetos diferenciados, de um lado, a classe burguesa
19

efetivou, desde a sua origem, a busca diária e contínua da acumulação do capital,


enquanto a classe proletária, possuidora da mercadoria força de trabalho,
vivenciava momentos diferenciados de enfrentamento ao projeto burguês e, ao
mesmo tempo, tinha a responsabilidade de construir seu próprio projeto societário.
O resultado dessas relações estabelecidas entre as classes evidenciou, no final da
primeira metade do século XIX, sob a lógica do projeto societário burguês, uma
irreversível “questão social” – o pauperismo – encontrando na vida dos homens e
mulheres proletárias a sua verdadeira expressão.

Num segundo momento, apresentamos como o capitalismo transita da fase


concorrencial para a monopolista e desta para o monopolismo em sua fase tardia.
É, nesta última fase, que o capital depara-se com uma crise estrutural causando
amálgamas em sua base econômica e política, contribuindo, decisivamente, para
que a “questão social” ganhasse graus de profundidade e redimensionasse suas
manifestações mais graves. Para não perecer, o capital obrigou-se e fez uma
inflexão, durante a década de 1970, reestruturando a produção, implementando o
receituário neoliberal e a investida prioritária no capital financeiro colocando as
dimensões econômica, política, social e cultural em processo decadente. Para a
maioria da sociedade, a queda da taxa média tendencial do lucro caiu, ao mesmo
tempo, que a tecnologia e a ciência alcançaram o apogeu na história. O capital
financeiro passou a acumular valores exorbitantes sufocando a produção e
colocando a maioria dos capitalistas pertencentes a esta esfera em situação de
falência contribuindo, decisivamente, para ampliar os oligopólios e a concentração
do capital. Como conseqüência, a força de trabalho encontrava-se sem
oportunidade de ser colocada em movimento, passando a conviver diariamente com
o desemprego - maior expressão da “questão social” - no último quartel do século
XX. Uma chaga que o modelo societário em voga ainda não tem mostrado sinais de
enfrentamento contundentes, ao contrário, os dados estatísticos mostram que a
“questão social” ganhou manifestações em diferentes dimensões colocando a
sociedade em situação de “risco” permanente. A situação de sociabilidade
apresentada pela modernidade não tem mostrado sinais de estarmos caminhando
no sentido de realizarmos o projeto progressista burguês e distante de caminharmos
para além dele.

No segundo capítulo da primeira parte, apresentamos “QUESTÃO


SOCIAL: PERSPECTIVAS ANALÍTICAS”, estruturado em dois movimentos: (1) Em
um primeiro momento, salientamos como a expressão mais contundente, na
perspectiva conservadora, que tratava os fenômenos sociais na esfera da economia
e da história com rigor científico foi sucumbida por meio dos sacerdotes da
pseudociência. Estes, preocupados em convencer a maioria das pessoas de que a
“questão social”, em evidência pública no século XIX, – o pauperismo – era uma
manifestação natural e passageira. Por isso, elegeram o projeto societário burguês
como único e verdadeiro. Este projeto representava a consagração da sociedade,
prometendo que, aos poucos, com o desenvolvimento do modo de produção
capitalista, todos iriam compartilhar dos resultados da produção. Para garantir a
presença da pseudociência, a manipulação foi uns dos instrumentos preferenciais
destes sacerdotes. Embasado na leitura dos autores que fazem a crítica às ilusões
divulgadas, explicitamos o que este momento representou e quais foram suas
premissas. Num segundo momento, utilizamo-nos do referencial da teoria social de
Marx e da tradição marxista e buscamos atacar o problema em sua raiz. Neste
20

sentido, por meio da pesquisa, da exposição e da crítica explicitamos a origem da


“questão social” no interior do modo de produção capitalista e qual o caminho
seguido para negá-la e irmos para além do projeto societário burguês.

No final do século XIX, passagem do capitalismo concorrencial para o


monopolista, os intelectuais a serviço do projeto societário burguês não
conseguiram enganar o tempo todo e a todos. Pressionados pelos movimentos
sociais criaram na esfera do Estado a instância providencial e exigindo dele, o papel
de criar e implementar políticas sociais. É nesta esfera que o Serviço Social, ao
vincular-se, enquanto profissão, na elaboração e execução das políticas sociais,
responde às demandas oriundas da “questão social” nas suas mais diversificadas
manifestações. E ressaltamos ainda que as políticas sociais, em sua maioria,
possuem vínculo direto com a força de trabalho empregada e a dos familiares dos
trabalhadores colocando limites às reais necessidades da classe operária e demais
frações da classe. No entanto, no último quartel do século XX, a “questão social”
encontrou no desemprego sua maior expressão.

Hoje, início do século XXI, esta situação tem piorado. Para explicitar e dar
respostas à “questão social” e suas metamorfoses, Pierre Rosanvallon e Robert
Castel tratam da questão de forma teórica diferenciada: o primeiro, seguindo as
mesmas bases especulativas dos sacerdotes do século XIX, em vez de explicar o
fenômeno, admite-o como natural, pois, para ele é só mudar os conceitos que a
situação é resolvida já que o problema encontra-se na esfera conceitual filosófica.
Rosanvallon tem uma proposta restauradora para o problema, já Castel faz um
estudo histórico da força de trabalho assalariada e encontra no período do Welfare
State o ápice da relação capital-trabalho, momento em que os trabalhadores
avançaram nas conquistas de seus direitos e o capital avançou em sua acumulação.
Considerando que medidas paliativas não resolveram os problemas crônicos
presentes no último quartel do século XX, Castel vê na retomada do Welfare State a
única saída. É necessário garantir ao trabalhador o direito ao emprego e à
seguridade social e, aos demais trabalhadores, sem vínculo, os direitos primários.
Para Castel, a situação da coesão social é de risco, pois a vulnerabilidade tornou-
se universal para os trabalhadores e seus familiares. A única saída é um Estado
forte na esfera dos direitos. O mercado não responde a essas necessidades. A
resposta de Castel coloca-o no campo do reformismo social-democrata.

Na segunda parte, no primeiro capítulo – “RECEITUÁRIO NEOLIBERAL E


A ‘QUESTÃO SOCIAL’ NO BRASIL: DÉCADA DE 1990” – apresentamos o projeto
nacional desenvolvimentista, seu significado histórico e sua negação por meio da
implantação do projeto neoliberal no Brasil durante os governos de Collor de Mello
e de Fernando Henrique Cardoso. Cardoso seguiu todos os receituários que foram
oferecidos pelo capital nacional e associado. Entre os propósitos do capital
associado e efetivado pelo governo de FHC, a reforma do Estado expressou, com
efetividade, a “opção brasileira” realizada pela elite. Este projeto, com raízes no
governo Sarney, dá seus primeiros passos efetivos no governo de Collor de Mello e
é implementado, totalmente, no governo FHC. Um verdadeiro “desmonte da Nação”.
Cumprindo a ordem do capital associado, presenciamos, após oito anos de
governo, um déficit social jamais vivenciado na história no país. O governo de FHC
desestruturou a economia interna, criou e incentivou o desenvolvimento das
características patrimonialistas, principalmente, na relação estabelecida com o
21

legislativo, retrocedeu no enfrentamento à “questão social” e suas metamorfoses,


quando comparamos com os avanços conquistados pela Constituição de 1988.
Esse governo administra por meio de Medidas Provisórias e com distanciamento da
população, cujos índices oficiais mostram o resultado catastrófico da década de
1990, no Brasil. É neste cenário que o Serviço Social é convocado a responder e a
resposta dá-se, tanto pela incorporação como por ações de resistências
(incipientes) consubstanciadas no projeto da categoria, vinculado a um projeto
societário que tem como prioridade as reais necessidades da classe operária e das
demais frações de classe trabalhadora. Caminha na contra-mão da lógica imposta
pelo projeto burguês, mas não caminha na contra –mão da história. É uma
categoria, que tem mostrado que a história é construída pelos homens, mesmo em
condições adversas.

O capítulo quarto – “QUESTÃO SOCIAL E SUAS REFRAÇÕES NO


SERVIÇO SOCIAL” – é a base empírica da pesquisa realizada. Apresenta em seus
conteúdos, dois eixos: o primeiro, explicita quais foram as mudanças ocorridas no
espaço sócio-profissional, no trabalho profissional e no perfil profissional – no
contrato de trabalho, nas condições concretas do próprio trabalho e na situação
salarial. O segundo eixo, evidencia as mudanças que vêm ocorrendo na estrutura
da formação profissional. Neste, é presente o papel da categoria na busca de
construir um currículo mínimo para a graduação preocupada em garantir o projeto
hegemônico em construção e, ao mesmo tempo, que busque responder às
necessidades que a própria categoria necessita para manter-se atualizada e
preparada para conduzir um projeto profissional que se proponha a romper com o
arcabouço teórico-metodológico conservador presente na profissão desde sua
formação. Para isso, buscamos nos textos produzidos pelos próprios assistentes
sociais e/ou profissionais com ligação direta com a categoria identificar as
transformações societárias sob o olhar dos próprios profissionais e quais as
implicações na “questão social” em suas metamorfoses, buscando compreender o
que este movimento vem refratando no Serviço Social. Ressaltamos que os
procedimentos metodológicos utilizados para dar conta dos propósitos deste
capítulo são nele enunciados.

Nas considerações finais, apontei alguns resultados revelados deste


processo de estudo, com determinações que permitem entendermos o movimento
da lógica do objeto e, no marco espacial (Brasil) e temporal (década de 1990)
analisamos como a profissão Serviço Social vem definindo-se no presente e que
indicações projetam-se para o futuro.
PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO 1
“QUESTÃO SOCIAL”:
CONFIGURAÇÕES NO CAPITALISMO

Isso é tudo que eu queria dizer sobre o dever dos historiadores. Porém,
antes de terminar, quero lembrar mais uma coisa. Como estudante desta
universidade, vocês são pessoas privilegiadas. As perspectivas são as de
que, como bacharéis de um instituto conhecido e prestigiado, irão obter, se
assim escolherem, uma ótima condição na sociedade, carreiras melhores e
ganhos maiores que os de outras pessoas, embora não tanto quanto os de
prósperos homens de negócios. O que eu quero lembrar a vocês é algo
que me disseram quando comecei a lecionar em uma universidade. “As
pessoas em função das quais você está lá”, disse meu próprio professor,
não são estudantes como você. São estudantes comuns com opiniões
maçantes, que obtêm graus medíocres na faixa inferior das notas baixas, e
cujas respostas nos exames são quase iguais. Os que obtêm as melhores
notas cuidarão de si mesmos, ainda que seja para eles que você gostará
de lecionar. Os outros, são os únicos que precisam de você.
Isso não vale apenas para a universidade mas para o mundo. Os
governos, o sistema econômico, as escolas, tudo na sociedade, não se
destina ao benefício das minorias privilegiadas. Nós podemos cuidar de
nós mesmos. É para o benefício da grande maioria das pessoas, que não
são particularmente inteligentes ou interessantes (a menos que,
naturalmente, nos apaixonemos por uma delas), não têm um grau elevado
de instrução, não são prósperas ou realmente fadadas ao sucesso, não
são nada de muito especial. É para as pessoas que, ao longo da história,
fora do seu bairro, apenas têm entrado para a história como indivíduos nos
registros de nascimento, casamento e morte. Toda sociedade na qual
valha a pena viver é uma sociedade que se destina a elas, e não aos ricos,
inteligentes e excepcionais, embora toda sociedade em que valha a pena
viver deva garantir espaço e propósito para tais minorias. Mas o mundo
não é feito para o nosso benefício pessoal, e tampouco estamos no mundo
para o nosso benefício pessoal. Um mundo que afirme ser esse o
propósito não é bom e não deve ser duradouro (HOBSBAWM, 1988).
CAPÍTULO 1

“QUESTÃO SOCIAL”: CONFIGURAÇÕES NO CAPITALISMO

1.1 A FORÇA DE TRABALHO EM MOVIMENTO: UMA CONQUISTA HISTÓRICA

O modo de produção capitalista, resultado das lutas travadas no interior


da sociedade feudal, consolidou suas bases materiais e intelectuais durante o
século XIX e XX. No entanto, foi a partir do século X e XI, que a produção artesanal
lançou seus propósitos, momento em que as cidades e o comércio cresciam e
estruturavam-se.

Esse movimento ganhou intensidade no interior da sociedade feudal,


porém não conseguiu galgar espaços suficientes para impor-se enquanto um novo
projeto societário. Os fatores limitantes que envolviam as corporações determinaram
suas ações, que aos poucos se desestruturaram e, com o advento da pré-revolução
industrial não suportaram as novas regras estabelecidas na esfera da produção e
da valorização. Fragilizados foram incorporados aos novos mecanismos de
produção.

Em outra esfera da produção, durante o período em que o modo de


produção feudal prevaleceu, enquanto dominante, as relações estabelecidas entre
os homens estavam quase em sua totalidade vinculadas à terra. A terra era o motor
que impulsionava e garantia a vida material, enquanto a religião responsabilizava-
se por manter o equilíbrio espiritual e social.

Nesse período, problemas econômicos, políticos, sociais e religiosos


presentes no interior do modo de produção feudal contribuíram para o
enfraquecimento das premissas que o sustentavam. As guerras locais, regionais e
as doenças epidêmicas interferiram e determinaram a realização de profundas
transformações na estrutura fundiária e também nas relações de trabalho e de
poder.

Insatisfeitos, os homens que viviam nos séculos XIV e XV, questionavam


as verdades que garantiam a vida nesse período. Com o espírito aventureiro e
cético das certezas presentes saíram em busca de novas terras e novas gentes.
Instaurou-se o período das grandes navegações. Um projeto ousado, para alguns,
porém, temido por outros.

Novas relações foram estabelecidas, cuja intensidade e resultados


imediatos alteraram profundamente o modo de ser e de fazer dessa época. O
contato direto com o oriente criou, no mercado, possibilidades concretas para
instaurar e movimentar transações comerciais, fator determinante para estimular o
comércio, intensificando e aumentando a circulação de dinheiro. Alguns
comerciantes conseguiram acumular um montante significativo de dinheiro e
empregá-lo na produção artesanal principalmente de manufaturados, bem como, na
compra de terras. Novos capitalistas entraram em cena.
24

Em outra direção porém, com o mesmo espírito capitalista, alguns utópicos


conseguiram ancorar suas embarcações em continentes desconhecidos pelos
europeus. Por meio de ações violentas dizimaram e/ou escravizaram os povos que
habitavam nesses oásis e, em pouco tempo, transformaram essas terras em
colônias da metrópole e seus habitantes colonizados. Em seguida, colonizadores e
colonizados iniciaram a expropriação das matérias-primas oferecidas pelas novas
terras. Estes componentes primários tornaram-se determinantes para a
transformação em produtos manufaturados sendo, posteriormente, industrializados.
Os produtos transformados, acolhidos pelo mercado em formação sob a lógica e a
forma burguesa de ser, começaram a avivar as relações de produção,
distribuição,circulação e consumo.

O período das grandes navegações, ao mesmo tempo, serviu de


estandarte para que uma nova classe social – os comerciantes - estruturasse suas
bases e registrasse seu próprio estatuto no interior do modo de produção
capitalista 1 bem como contribuiu para que as transações comerciais e financeiras
realizadas nesse período acelerassem a derrocada do modo de produção feudal.
Conforme SOBOUL (1989, p. 9), quando atingiu o século XVIII, a burguesia, que
preparava o golpe fatal na aristocracia decadente, já liderava as finanças, o
comércio e a indústria.

As transformações ocorridas na base material e espiritual da sociedade,


no século XVIII, delinearam os contornos do presente que se encontrava em
constante decadência. Esses novos desenhos que coloriam e, ao mesmo tempo
horrorizavam a sociedade das luzes, culminaram com a efetivação das duas
históricas revoluções.

Este duplo movimento diferenciado, porém, intimamente interligado,


eliminou os últimos suspiros ilusórios que mantinham o feudalismo com vida. A
forma de produzir e de pensar que sustentava juridicamente as próprias relações
sociais e de produção exauriram-se, foram banidas pela classe burguesa emergente
que aceitou a aliança na França. Enquanto isso, a Inglaterra realizou sua missão de
classe de forma autônoma, e, sem necessitar de qualquer contribuição dos
trabalhadores, efetivou sua revolução eminentemente na esfera produtiva.

Esse momento pré-revolução industrial, na Inglaterra, era mediado por


situações que colocavam as realizações humanas em condições pré-históricas na
possível construção de uma sociedade emancipada.

...Em resumo, os trabalhadores industriais ingleses desta época viviam e


pensavam como se vive ainda em certas regiões da Alemanha, contando apenas
consigo mesmo, à margem, sem atividade intelectual e levando uma existência
sem sobressaltos. Raramente sabiam ler e muito menos escrever, iam
regularmente à igreja, não faziam política, não conspiravam, não pensavam,
gostavam dos exercícios físicos, escutavam a leitura da Bíblia com um
recolhimento tradicional, e estavam bem de acordo, humildes e sem
necessidades, com as classes sociais mais elevadas. Mas, por outro lado,
1
Os comerciantes também cumpriam um papel importante para que as
monarquias mantivessem, sob o seu controle, o poder político e econômico. Estas, com
dificuldades financeiras necessitavam do dinheiro que era gerado pelos comerciantes.
25

estavam intelectualmente mortos; só viviam para os seus interesses privados,


mesquinhos, para o tear e para o jardim, e ignoravam tudo do forte movimento
que, no exterior, sacudia a humanidade. Sentiam-se à vontade na sua pacífica
existência vegetativa e, sem a revolução industrial, nunca teriam abandonado
esta existência de um romantismo patriarcal, mas apesar de tudo indigna de um
ser humano (ENGELS, 1985a, p. 13). 2

A revolução industrial i e a revolução francesa ii marcaram o vislumbrar de


uma nova era. A Europa, século XVIII, mostrou ao mundo dois significativos
acontecimentos históricos: na base estrutural da anatomia da sociedade civil,
espaço de produções materiais e de relações sociais, o véu que encobria o fazer e
o pensar medieval foi sucumbido pela revolução industrial na Inglaterra; ao mesmo
tempo, na esfera política, engendrava-se a transformação mais profunda da história
da França. A revolução francesa chegava às vias de fato em 1789 3 e “...três
semanas após o 14 de julho, a estrutura social do feudalismo rural Francês e a
máquina Estatal da França Real ruíam em pedaços” (HOBSBAWM, 1977, p. 80). 4
Esses fatos históricos, conforme LUKÁCS (1968a, p. 37), assinalaram a direção em
que a sociedade emergente – a burguesia – deveria traçar suas regras, sua forma
de pensar e agir sob um cenário repleto de rupturas e continuidades. “Se a
economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência
britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução
Francesa” (HOBSBAWM, 1977, p. 71).

Os espaços, palco de disputas política, econômica e social foram


ocupados por setores da sociedade que clamavam por liberdades: em primeiro
lugar, colocaram em prática os princípios que fundamentavam a liberdade
econômica, concretizando, no campo dos direitos, o liberalismo burguês. Este
queria e efetivou a liberdade da propriedade, da cultura, da produção, do comércio
e do trabalho (era proibido o direito de associação, de realizarem-se reuniões, de
efetivarem colisão e manifestarem o descontentamento através das greves); em
segundo lugar, traçaram seus planos para conquistar as liberdades públicas e
políticas. No plano político esta meta foi consolidada em 1791. Mas o liberalismo
burguês também almejava a igualdade civil. 5 Este projeto, que objetivava libertar os
homens do ostracismo, encontrou, no movimento iluminista, as ferramentas teórico-
práticas que sacudiram o modo de produção feudal. 6
2
Prólogo à edição brasileira de José Paulo Netto.
3
A aliança feita pela classe burguesa com a classe proletária em formação não
ocorreu espontaneamente, mas “...a burguesia só aceitou a aliança popular contra a
aristocracia porque as massas a ela subordinaram-se” (SOBOUL, 1989, p. 18).
4
O mundo feudal, a velha forma de pensar e fazer o mundo na França só foi
eliminado definitivamente em 1793, no entanto, “...a feudalidade foi destruída em sua
forma institucional e jurídica, mas foi mantida na sua realidade econômica“ (SOBOUL,
1989, p. 42).
5
É inquestionável o avanço histórico na esfera dos direitos, destacando neste
momento a conquista de direitos civis. No entanto, constata-se que, em particular na
França, berço da revolução política, os direitos civis expressaram contradições em sua
efetivação, pois nas colônias onde a França tinha domínio, a escravidão não foi abolida
(SOBOUL, 1989, p. 46).
6
Destaca-se que “...a grande Enciclopédia de Diderot e d’ Alambert não era
simplesmente um compêndio do pensamento político e social progressista, mas do
progresso científico e tecnológico. Pois, de fato, o ‘iluminismo’, a convicção do progresso
26

Porém, ao mesmo tempo e nos mesmos espaços, a aristocracia,


representante do verdadeiro grilhão que tentava impedir o avanço do mundo
moderno, movimentava-se. Para a aristocracia, o deus do feudalismo sustentava os
nobres7 e os eclesiásticos, homens que, conforme as oportunidades que lhes eram
oferecidas, lutavam para manter uma situação que os alimentava e garantia-lhes,
sob os seus comandos, o poder econômico e político em decadência. Para estes
homens e seus aduladores a terra era a única e a verdadeira fonte de riqueza e de
estabilidade social.

Mas, o modo de produção feudal cindiu-se; as premissas teórico-práticas,


que o sustentava sofreram inúmeros e significativos amálgamas, os quais
romperam, em diferentes pontos, as estruturas que edificavam o antigo regime. 8
Este não calou e, por meio de diferentes formas de resistência, lutava para retornar
às premissas que garantiam a base estrutural das velhas instituições.

Nesse espaço de transformações econômicas e políticas, a sociedade


burguesa emergente, paulatinamente, ruía as últimas resistências da aristocracia
feudal. Concomitantemente, representantes aliados da burguesia industrial,
comercial e da massa dos trabalhadores proletários em formação apostavam todas
as suas convicções na derrocada do modo de produção feudal em definitivo. 9

Enquanto isso na França o processo revolucionário consolidava sua


primeira fase. Era, na Inglaterra, por meio da revolução industrial que a história
entrava na idade moderna. iii A produção de bens de consumo em escala industrial
substituía a produção eminentemente primária para o consumo de subsistência. A
indústria do algodão, criada pelo comércio colonial e alimentada pelos novos
empreendedores capitalistas emergentes ganhava novos artefatos, o que
impulsionava as engrenagens das máquinas com maior velocidade. O novo mundo,
sob a flâmula de moderno, através dos resultados quantitativos alcançados na
esfera da produção, assustava os desavisados e desatentos em perceber o
movimento revolucionário em processo. “...De 1771 a 1775, importava-se em média
menos de 5 milhões de libras de algodão bruto por ano; em 1841, 528 milhões, e a
importação em 1844 atingira pelo menos 600 milhões. Em 1834, a Inglaterra
do conhecimento humano, na racionalidade, na riqueza e no controle sobre a natureza –
de que estava profundamente imbuído o século XVIII – derivou sua força do
primordialmente do evidente progresso da produção. Do comércio e da racionalidade
econômica e científica que se acreditava estar associada a ambos” (HOBSBAWM, 1977, p.
36-37).
7
Aos poucos, “...uma espécie de espírito de confraternidade fez com que os
nobres se dêem preferência entre si, e para tudo, em detrimento do resto da nação”
(SOBOUL, 1989, p. 12).
8
Quando falamos do mundo feudal durante o período revolucionário,
salientamos que neste momento histórico, o mundo geográfico era pouco conhecido
quando comparado com o final do século XIX, e a população também apresentava
números relativamente baixos.
9
Neste momento, o fazer da revolução francesa a partir de 1789, colocava para
os burgueses uma necessidade imediata: precisavam, concretamente, da presença da
classe proletária em formação para acabar com a aristocracia. Até um certo momento este
propósito foi almejado, pois a classe proletária em formação era eminentemente composta
por homens, mulheres, crianças e idosos que “...tinham fome, faziam agitações e talvez
sonhassem, mas por motivos práticos seguiam os líderes não proletários“ (HOBSBAWM,
1977, p. 81). Este cenário mudou a partir de 1830.
27

exportou 556 milhões de jardas de tecidos de algodão, 76,5 milhões de libras de fio
de algodão e aproximadamente 1.200.000 libras esterlinas de artigos de algodão”
(ENGELS, 1985a, p. 17)10.

Esse resultado, favorável para a classe burguesa em ascensão, só foi


possível de ser alcançado e demonstrado devido ao processo de transformação que
ocorria na base material produtiva.

Neste mesmo ano -1834 -, a indústria algodoeira dispunha de mais de 8 milhões


de agulhas, 110.000 teares mecânicos e 250.000 teares manuais, sem contar
com as agulhas dos teares de correntes, e, segundo os cálculos de MacCulloch,
este setor fazia viver direta ou indiretamente cerca de um milhão e meio de seres
humanos nos 3 reinos, dos quais só 220.000 trabalhavam em fábricas; a força
utilizada por estas fábricas estimava-se em 33.000 CV de força motriz,
acionadas por vapor, e 11.000 CV de força hidráulica. Atualmente estes números
estão ultrapassados, e podemos admitir tranquilamente que em 1845 a potência
e o número de máquinas, bem como o número de operários, ultrapassam em
meados os de 1834 (ENGELS, 1985a, p. 17-18).

Assim, aos poucos a esfera urbana conseguia galgar o estatuto de sede


da produção e da valorização, mesmo estando a população ainda concentrada no
meio rural, pois “...fora algumas áreas comerciais e industriais bastante
desenvolvidas, seria muito difícil encontrar um grande Estado europeu no qual ao
menos quatro de cada cinco habitantes não fossem camponeses” (HOBSBAWM,
1977, p. 27). Enquanto isso, as fábricas, os bancos (destacando-se o banco da
Inglaterra), as lojas comerciais, o transporte, e os meios de comunicações
conquistavam seus espaços e propiciavam a algumas cidades, na metade do século
XIX, a condição de assumirem o estatuto de cidades metrópoles (ASHTON, 1971, p.
126-131). O urbano transformou-se em centro do projeto moderno, “com 3,5 milhões
de habitantes, Londres torna-se a capital comercial do mundo” (ENGELS, 1985a, p.
35). Ao mesmo tempo, a população trabalhadora começava a sentir e sofrer, na
prática cotidiana, o verdadeiro conteúdo do projeto burguês. Chegou o momento em
que conseguiram apreender e compreender que a aliança celebrada para derrubar
a sociedade feudal foi um passo em falso, nesse momento, o proletariado colocou
seu projeto de classe para-si.

Mas, como não se vive de lembranças do passado, é necessário saber lê-


las e aprender com o seu movimento, os trabalhadores, em processo de
constituição em classe-para-si na França, entenderam qual era a verdadeira missão
deles, naquele momento, a cumprir e, no decorrer das lutas travadas nos espaços
nacional e internacional, ao entardecer, compreenderam que era o momento de

10
“A perspectiva tradicional que viu a história da revolução industrial britânica
primordialmente em termos de algodão foi, portanto, correta. A primeira indústria a se
revolucionar foi a do algodão, e é difícil perceber que outra indústria poderia ter empurrado
um grande número de empresários particulares rumo à revolução. Até a década de 1830, o
algodão era a única indústria britânica em que predominava a fábrica ou o ‘engenho’ (o
nome derivou-se do mais difundido estabelecimento pré-industrial a empregar pesada
maquinaria a motor)” (HOBSBAWM,1977, p. 53).
28

assaltar o céu, criando condições concretas para libertar a classe proletária.


Naquele momento, na Ilha da Grã – Bretanha

havia pouca liderança ou coordenação. A tentativa mais ambiciosa de


transformar o movimento em uma organização, o ‘sindicato geral’ de 1834-5,
fracassou rápida e miseravelmente. No máximo, tanto na Grã-Bretanha quanto
no continente europeu, havia uma solidariedade espontânea de comunidade
trabalhadora local, homens que, como os empregados na indústria de seda de
Lyon, morriam tão miseravelmente como tinham vivido. O que mantinha este
movimento unido era a fome, a miséria, o ódio e a esperança, e o que derrotou
na Grã-Bretanha cartista e no revolucionário continente europeu de 1848, foi que
os pobres – famintos, bastante numerosos e suficientemente desesperados para
se insurgirem – careciam da organização e maturidade capazes de fazer de sua
rebelião mais do que um perigo momentâneo para a ordem social (HOBSBAWM,
1977, p. 237).

O movimento era frágil e tinha muito que aprender com a experiência e a


compreensão dos trabalhadores Jacobinos. No entanto, setores da classe proletária
organizada, subsidiada pelos teóricos compromissados com a causa, sabiam que
“...o destino de uma classe depende da sua capacidade em discernir com clareza e
resolver os problemas que lhes impõe a evolução histórica em todas as suas
decisões práticas” (LUKÁCS, 1989b, p. 67). Sabiam que era necessário e
indispensável criar as condições elementares para negar as classes sociais em
movimento, inclusive a própria classe proletária e, em conseqüência direta, negar
todas as estruturas de poder emanadas do Estado. As possibilidades concretas de
construir uma sociedade emancipada torna-se uma realidade, pois os proletários
apresentam-se enquanto classe social em-si e para-si. Dessa forma, um novo e
revolucionário elemento histórico passa a fazer parte do cenário no interior da
própria sociedade burguesa.

As condições materiais vigentes já não suportavam a lógica do velho modo


de produção e, com suas próprias forças e seus projetos individuais e coletivos, a
classe burguesa, movida pelo espírito teórico-prático com que realizou as duas
revoluções, assumiu a dianteira e efetivou sua lógica e sua forma técnica,
organizacional e intelectual do projeto de sociedade.

No entanto, a condição central para que os meios de produção e os


instrumentos de trabalho saíssem da condição de repouso exigia que a classe
burguesa emergente transformasse o maior número de trabalhadores à condição
de assalariado. Este passo histórico, decisivo para o projeto burguês, permitiu que
os trabalhadores – homens, mulheres e crianças –, pudessem movimentar-se e,
obedecendo às leis de mercado, estivessem à disposição dos capitalistas o tempo
todo e por inteiro.

Para entendermos o embrião deste processo, que ganhou efetividade no


século XIX, Robert CASTEL (1998), apresenta algumas determinações centrais que
permitem compreender a efetivação do movimento da força de trabalho no interior
do modo de produção capitalista. Para isso, direciona e localiza o leitor no século
XIV, pois é na segunda metade desse século, em especial, que fatos econômicos,
políticos e sociais expressaram mudanças profundas na sociedade medieval.
29

Entre 1300 e a Peste Negra, a proporção dos trabalhadores braçais cresce


perigosamente; no entanto, o grupo central dos rústicos ainda continuava
majoritário. (...) Porém, a partir da metade do século a propriedade da terra se
fragmenta e também muda freqüentemente de mãos, acentuando a
bipolarização do mundo rural. Numa extremidade, os “sedutores” começam uma
ascensão social que os levará, às vezes, até a condição burguesa e mesmo aos
ofícios (CASTEL, 1998, p. 112).

Em virtude disso, o cotidiano vivenciado alterou-se. As terras ganharam


novas estratificações e expressiva quantidade de trabalhadores, servos e vassalos
trocaram de senhor. Os que tiveram menos sorte deixaram a classe dos servos e
vassalos aumentando as fileiras dos vagabundos 11 e/ou dos mendigos ativos. 12
Estes últimos representavam uma chaga para os donos do poder entre os séculos
XIV e XVIII, embora “...qualquer que possa ter sido o número de vagabundos
condenados à morte e executados, é irrisório diante da quantidade daqueles que
continuaram a ‘infestar o reino’ ” (CASTEL, 1998, p. 124).

A condição de integração social abalou-se. O século XIV transformou-se


no berço da desintegração da Baixa Idade Média. Naquele momento, um número
alarmante de trabalhadores encontrava-se em situação de vulnerabilidade, pois a
ordem social existente e a coesão social entre os contrários fora atingida em sua
base estrutural. Os vagabundos e os mendigos válidos assumiram uma nova
condição social, a qual selou a origem dos assalariados. 13 No entanto, esse embrião
atingiu o estatuto de maturidade somente durante o século XIX.

Nesse momento histórico, entre os séculos XIV e XVIII, a maioria dos


trabalhadores obrigavam-se a fixar residência em seus próprios territórios pois, a
legislação que regulava as condições de utilização da força de trabalho impedia a
mobilidade dos trabalhadores. Mas, considerando que a demanda pela procura de
vínculo empregatício era maior que a oferta no mercado, muitos trabalhadores
migraram da categoria de vagabundos e/ou mendigos ativos para a condição de

11
“...Os vagabundos são de fato, nas sociedades pré-industriais, o equivalente
aos imigrantes: estrangeiros, porque procuram meios para sobreviver fora de sua ‘terra’ ”
(CASTEL, 1998, p. 130). “...O vagabundo vive como se tivesse deixado de habitar este
mundo" (CASTEL, 1998, p. 133). “O vagabundo era um vadio que ficava na periferia do
espaço social e seu drama decorria do fato de ser posto fora da ordem produtiva”
(CASTEL, 1998, p. 298). Com o pauperismo, manifesta-se o perigo de uma desfiliação em
massa inscrita no próprio cerne do processo de produção das riquezas. -
12
Os trabalhadores vinculados a uma determinada propriedade, não tinham a
garantia de sua situação por muito tempo. As relações não eram equilibradas, estáveis, as
relações políticas, econômicas e sociais encontram-se em permanente mudança,
principalmente nesse período histórico. Nesse sentido, a situação dos trabalhadores de
vulnerabilidade se ampliava. O servo, o camponês ou o aprendiz de ofício e seus
familiares, podiam engrossar as fileiras dos vagabundos ou mendigos ativos a qualquer
momento.
13
Os vagabundos e os mendigos válidos expressaram e representaram o
embrião da força de trabalho assalariada. Despossuídos de todos os bens materiais, a
única propriedade que possuíam, que estava à disposição para ser negociada, vendida
para poderem continuar vivendo, era o seu trabalho, o qual, na ordem capitalista, é
comprado como força de trabalho – compra-se uma determinada quantidade de trabalho
em movimento.
30

indigente. Essa situação levou-os a assumirem uma nova identidade: eram


conhecidos como pessoas inúteis para a sociedade.

Assim, sem vínculo de trabalho, esses homens e seus familiares passaram


a viver em uma situação desumana. E, a partir do século XIV, instaurou-se no
interior da sociedade feudal, em específico, uma situação de desequilíbrio, de
instabilidade política, social e econômica, pois a “questão social” 14 da pobreza
colocou a classe dominante em uma situação de dificuldade para governar.

O que fazer com essa massa de força de trabalho sem vínculo? Foi
necessário intervir nas relações estabelecidas e criar novos mecanismos de
controle. Práticas de repressão física e a instalação de programas com fundamentos
em conteúdos que explicitavam a dimensão tutelar moral foram as saídas imediatas
encontradas. Essas proposições foram direcionadas para as instâncias conflituosas
nos espaços rurais, porém a problemática manifestava-se em maior profundidade
na esfera urbana.

Essa situação fez com que os governantes, de diferentes países e


cidades, não demorassem a criar mecanismos legais para conter a “chaga” que
incomodava a classe dominante. O medo que os sobrantes provocassem revoltas
em seus reinos e colocasse em perigo a estabilidade e a preservação dos poderes
existentes, era iminente. 15 Dessa forma, para conter esse fato social, o mundo do
trabalho existente naquele período experimentou inúmeras alterações, as quais
atingiram e interferiram na vida cotidiana de todos os trabalhadores e familiares que
estavam vinculados ou não a esse processo.

Em 1349, Eduardo III, rei da Inglaterra, promulgou o decreto conhecido


como o Estatuto dos Trabalhadores. Essas disposições representaram um
verdadeiro código geral de trabalho para todos os que estavam submetidos à
obrigação de ganhar a vida trabalhando. Ao mesmo tempo, a medida também foi
efetivada em outros países.

Na península Ibérica, Afonso IV de Portugal, em 1349, as cortes de Aragão, em


1349 e 1350, e de Castela, em 1351, fixaram o valor máximo dos salários, e tais
medidas foram fortalecidas ao longo do século XIV, associadas à proibição dos
deslocamentos em busca de emprego e à repressão à vagabundagem. Ludwig
Von Wittelsbach, duque da Baviera, decretou em 1357 que, na Baviera e no

14
O uso das aspas em todo o texto, explicita a necessidade de entender em seu
movimento, porém, partimos da compreensão colocada por NETTO (2001, p. 45) “...As
vanguardas trabalhadoras acederam, no seu processo de luta, à consciência política de
que a ‘questão social’ está necessariamente colcada à sociedade burguesa: somente a
supressão desta conduz à supressão daquela. A partir dái, o pensamento revolucionário
passou a identificar, na própria expressão ‘questão social’, uma tergiversação
conservadora, e a só emprega-la indicando este traço mistificador”.
15
Os vagabundos e os mendigos ativos representavam uma ameaça para a
sociedade. Em primeiro lugar, por não estarem produzindo e, segundo, pelas ações que
perturbavam a vida daqueles que se encontravam estáveis – o roubo, as brigas, as
invasões de propriedade, as doenças, os saques, a ausência de moradia, enfim, eram
identificados como um mal social. É a partir deste período histórico que os governantes
criam leis para conter e regular a situação de anomia existente.
31

Tirol, os serviçais e os jornaleiros deveriam permanecer a serviço de seus


empregadores sem aumento de salário. Se deixassem o emprego, seus bens
seriam confiscados (...) Inglaterra, França, Portugal, Aragão, Castela, Baviera: na
maior parte dos países em que começou a se afirmar um poder central, tomou-se
simultaneamente um conjunto de medidas espontaneamente convergentes para
impor um rígido código do trabalho e reprimir a indigência ociosa e a mobilidade
da mão-de-obra. Essa era também a política de inúmeras cidades no conjunto da
Europa “civilizada” da época: Orvieto em 1350, Florença em 1355, Metz em
1356, Amiens em 1359 (...) Poderes centralizados e poderes municipais
conspiravam em sua vontade de enclausurar o trabalho em suas configurações
tradicionais, limitando ao máximo a mobilidade profissional e geográfica para os
empregados braçais (CASTEL, 1998, p. 101-102).

Por meio dessa legislação trabalhista, tentou-se manter toda a força de


trabalho em atividade, inclusive daqueles que não conseguiam encontrar uma
ocupação por conta própria. Servos e vassalos eram obrigados a vincular-se em
atividades produtivas ou não, na propriedade de um senhor ou, quando oportuno,
em atividades desenvolvidas no interior dos ofícios ou em serviços da esfera pública
burocrática. Afinal, encontrar um lugar no mercado para negociar a força de trabalho
não era nada fácil. Assim, para que a mobilidade fosse controlada, a legislação
vigente obrigava os trabalhadores a manterem vínculos com um proprietário
particular ou a trabalharem nas cooperativas do Estado. Em ambas as situações, os
trabalhadores tinham que aceitar as condições de pagamento e de trabalho
propostos. Esses homens de “menos sorte”, “...distribuídos em companhias de vinte
homens cada uma, sob a direção de um sargento que os levará todos os dias para o
trabalho (...) serão empregados nas obras de engenharia civil, ou em trabalhos
públicos e outros tipos de serviço que forem julgados convenientes...” (CASTEL,
1998, p. 184).

Apesar dessas medidas, a situação social continuava alarmante. A


resistência ocupava o cenário das cidades. A classe dominante juntamente com a
esfera Estatal necessitavam intensificar suas ações para combaterem todos os que
contribuíam para que a tentativa de integração social ampliasse suas fissuras.
Dessa forma, medidas legais repressivas são intensificadas. Era necessário
“higienizar” as cidades. Todos os pobres sem vínculos, que não pertenciam à cidade
onde estavam alojados ou perambulavam pelas ruas, eram expulsos, presos ou
mortos em nome do controle social. Esses procedimentos tinham como meta reduzir
o problema social instaurado e, ao mesmo tempo, criar condições objetivas para
atender, por meio de ações assistenciais, aos mais necessitados de cada cidade. A
ordem social estabelecida não poderia permanecer ameaçada.

Assim, nasceu o Estado protetor, responsável por garantir a defesa da


propriedade privada, bem como a integridade física de todos aqueles que se
encontravam vinculados pelo trabalho. Um dos instrumentos que passaram a fazer
parte do aparato Estatal foi a polícia. Criou-se a polícia da vagabundagem, medida
repressiva, a qual foi justificada pelos representantes das classes dominantes,
apontando que,
32

quase todas as regulamentações sobre a polícia dos pobres – e são em grande


número – começam pela constatação do crescimento, às vezes qualificado como
“prodigioso”, dessas populações perturbadoras que ameaçam submergir a ordem
estabelecida. Mas apesar de muito numerosas, são concebidas como atípicas
durante muito tempo. Os termos “mendigo” e “vagabundo” servem para marcar
essa marginalidade (CASTEL, 1998, p. 219).

As medidas adotadas: leis trabalhistas, repressão policial e ações


tutelares assistenciais não conseguiram manter a coesão estabilizada. O número de
pessoas desfiliadas mas em condições concretas para trabalhar aumentava
quantitativamente. Ao mesmo tempo, novos movimentos isolados de enfrentamentos
às leis estabelecidas nascem no interior da sociedade feudal. Constata-se que as
ações repressivas para garantir a estabilidade social foram permanentes,
encontrando-se registros estatísticos até o final do século XVIII. Os trabalhadores
que se rebelavam eram perseguidos, presos e, muitos deles, mortos.

...o Antigo Regime, em via de se acabar, é ainda caracterizado por uma intensa
caça aos vagabundos e aos mendigos válidos. A jurisdição dos prebostes é
motivada por um prêmio de três libras para cada captura. Necker estima em
50.000 o número das prisões em 1767. Entre 1768 e 1772, 111.836 pessoas
entraram nos depósitos, contra 1.132 condenações às galeras (CASTEL, 1998,
p. 127).

Os limites para controlar os desfiliados produtivos não era a única


preocupação da classe dominante. No conjunto instável que o cotidiano desse
período apresentava, os desfiliados inválidos também precisavam de medidas
concretas. Até o século XII, esses trabalhadores e seus familiares recebiam
cuidados por meio de familiares vinculados, vizinhos e religiosos. Essas ações
expressavam características de sociabilidade primária e a caridade e a filantropia,
marcada pela proximidade das pessoas, amenizava a problemática social.

No entanto, as transformações ocorridas na base econômica e política,


bem como os problemas naturais que ocorreram no século XIV, exigiram da
sociedade organizada ações de alcance maior, pois a sociabilidade primária não
conseguia responder aos desafios colocados no interior da sociedade feudal. Nesse
momento, a sociabilidade secundária substituiu a sociabilidade primária, porém não
a eliminou. O assistencialismo é institucionalizado, marcando uma nova fase de
enfrentamento às mazelas sociais.

Os centros urbanos acolheram a sociabilidade secundária criando suas


raízes: hospitais, asilos, orfanatos e cooperativas foram construídos para amenizar
a problemática e, quando possível, resolvê-la. Porém, os requisitos para ser um
assistido pela esfera privada ou pública tornaram-se mais exigentes. Para usufruir
dos benefícios assistidos pela lógica estruturada por meio da sociabilidade primária
e/ou secundária, as pessoas necessitadas deveriam encontrar-se impossibilitadas
para o trabalho e não poderiam ser estrangeiras. Dessa forma, a situação territorial
tornou-se um critério determinante. Os demais homens válidos eram obrigados a
trabalhar para os senhores feudais nos ofícios ou para o Estado. Quando estes
trabalhadores precisavam de algum tipo de assistência social, era a igreja que
33

tentava responder à problemática individualmente. Somente “a incapacidade física,


a velhice, a infância abandonada, a doença – de preferência incurável – e as
enfermidades – de preferência insuportáveis ao olhar –, sempre foram os melhores
passaportes para se tornar um assistido” (CASTEL, 1998, p. 68). Mesmo assim, as
legislações que garantiam a lógica e a forma de produzir e reproduzir mercadorias e
estabelecer relações entre as classes, não conseguiram mais dar conta das
contradições fincadas no interior da sociedade feudal. A classe burguesa emergente
conseguiu introduzir e legitimar novas regras para que os trabalhadores e seus
familiares pudessem vincular-se à sociedade e, ao mesmo tempo, conquistaram e
exerceram o poder econômico e político no decorrer dos séculos XVIII e XIX.

A partir do momento em que “todos podiam ser proprietários”, os


trabalhadores foram inseridos em uma sociedade cujo mercado “livre” passou a ser
o único e exclusivo espaço onde as relações de vínculo foram estabelecidas e
aceitas. Todos, livres para negociar suas propriedades sob as regras do mercado.
Neste sentido,

...a instituição do livre acesso ao trabalho é, sem dúvida, uma revolução jurídica
tão importante quanto a revolução industrial de que, aliás, é a contrapartida. Na
verdade, reveste-se de uma importância fundamental em relação a tudo o que
precede. Quebra as formas seculares de organização dos ofícios e faz do
trabalho forçado uma sobrevivência bárbara. A promoção do livre acesso ao
trabalho, com um longo ciclo de transformações conflitivas, pôs um fim aos
entraves que impediram o advento de uma condição salarial. Mas essa revolução
é igualmente decisiva em relação ao que se segue. É ela que reintroduz a
questão social sobre bases absolutamente novas no início do século (CASTEL,
1998, p. 44).

Nesse momento, as leis trabalhistas que regulavam o vínculo na Idade


Média não conseguiram mais responder às exigências que o modo de produção
capitalista necessitava. Com uma nova legislação em vigor os trabalhadores foram
obrigados a viver sua própria sorte. A situação de viver como vagabundo ou
mendigo foi alterada, isto é, cada indivíduo ganhou a “liberdade” de transitar e
escolher seu próprio empregador. Essa revolução na esfera da produção foi
conquistada e os trabalhadores passaram a oferecer sua força de trabalho no
mercado todos os dias. Nesse novo contexto, “...a verdadeira descoberta que o
século XVIII promove não é, pois, a da necessidade do trabalho, mas, sim, a da
necessidade da liberdade do trabalho. (...) O trabalho torna-se a fonte de toda a
riqueza e, para ser socialmente útil, deve ser repensado e reorganizado a partir dos
princípios da nova economia política” (CASTEL, 1998, p. 213 e 232).16
Com a força de trabalho livre no mercado e com o capital primitivo
acumulado em algumas ramificações iv da sociedade, é colocado em movimento o
desenvolvimento do modo de produção capitalista. É neste cenário que a força de
16
A teoria social de Marx, fundamentada na centralidade da categoria trabalho,
mostra-nos que o trabalho é o elemento mediador entre os homens e natureza e, graças a
esta mediação os homens distanciam-se diariamente do mundo natural, construindo ou
sofrendo a história dos homens. Assim, o trabalho é a mediação principal da criação de
riquezas materiais, porém, antes de tudo, é o elemento mediador central da criação e do
desenvolvimento da própria vida humana.
34

trabalho, ao relacionar-se com o capital, amplia seus potenciais (capital fixo e


variável), porém, ao mesmo tempo, os operários avançam enquanto classe social e
ganhavam autonomia para combater e negar a própria classe que a criou. E, após,
aproximadamente, 200 (duzentos) anos desta relação, as derrotas da classe
trabalhadora foram contínuas. Assim, analisar e compreender este processo é
propósito das próximas seções deste capítulo, já que o nosso objeto de estudo
move-se nesta direção.

1.2 AS MÁQUINAS INAUGURAM A IDADE MODERNA NA PRODUÇÃO

1.2.1 A Produção Familiar

A partir da segunda metade do século XVIII, sob o controle da classe


burguesa emergente em processo de consolidação na Inglaterra, o trabalho
humano, fonte de produção de riquezas e acumulação de capital, foi transformado
em mercadoria especial e colocado à disposição no mercado. v A produção realizada
em casa, a recondução da forma e da lógica de produzir no interior dos ofícios onde
a manufatura dominava e a construção de fábricas, ensaiaram o que seria no século
XIX e XX, a grande indústria.

Foi na década de 80 do século XVIII que o cenário de explosão da revolução


industrial alegrou e assustou o mundo material e espiritual da época. No entanto,
somente na terceira e na quarta década do século XIX que a revolução industrial
conseguiu estruturar-se e comandar o novo projeto em desenvolvimento na
Inglaterra. A Inglaterra saiu na frente em relação aos demais países europeus,
não por mero acaso. É que neste país, (...) as atividades agrícolas já estavam
predominantemente dirigidas para o mercado; as manufaturas de há muito
tinham disseminado por um interior não feudal (HOBSBAWM, 1977, p. 47).

Porém, durante o período pré-industrial e até o princípio do século XIX, a


produção concentrava-se especificamente nos espaços rurais na Inglaterra. O
mundo urbano ganhava um novo estatuto, mas não conseguia instaurar-se
definitivamente como centro de produção, circulação, troca e consumo. As casas
dos trabalhadores alojavam o mundo da produção transformando-se em ofícios e
substituindo os galpões que acomodaram as grandes fábricas no momento em que
as máquinas passaram a ser movidas pela automação. 17

Antes da introdução das máquinas, a fiação e a tecelagem das matérias-primas


efetuavam-se na própria casa do trabalhador. Mulheres e crianças fiavam o fio
que o homem tecia ou que elas vendiam, quando o chefe de família não o
trabalhava. Estas famílias de tecelões viviam, geralmente, no campo, próximo
das cidades, e o que ganhavam assegurava perfeitamente a sua existência, por
17
Esta forma de produzir, no interior das próprias casas dos operários, não era
uma experiência inovadora neste momento histórico Constata-se que suas raízes foram
sedimentadas desde os primórdios da produção de manufaturados (cf. HOBSBAWM, 1977,
p. 53).
35

que o mercado inteiro consistia ainda o fator decisivo da procura de tecidos – era
quase o único mercado – o poder esmagador da concorrência que devia
aparecer mais tarde, com a conquista de mercados estrangeiros e com a
extensão do comércio, não pesavam ainda sensivelmente no salário (ENGELS,
1985a, p. 11).

O trabalho realizado na esfera domiciliar era coberto por algumas


implicações, que definiam a sua forma de ser. Entre elas, destacava-se a maneira
com que, a mercadoria, força de trabalho, era contratada, cujo pagamento seria por
peça. Essa relação celebrada entre capital e trabalho marcou uma época (ASHTON,
1971, p. 54-74), e possibilitou aos capitalistas emergentes usufruírem vantagens
significativas para a estruturação e efetivação do projeto burguês: (1) a força de
trabalho dos proletários e familiares encontrava-se à disposição do capital e
garantia a execução contínua e sem interrupção das atividades produtivas, bem
como a comercialização das mercadorias; (2) os trabalhadores, livres para produzir
sem interrupção e aproveitando-se da elasticidade da força de trabalho física e
psíquica deles, os capitalistas expropriavam-nos ao máximo, garantindo o aumento
da mais-valia-absoluta; (3) as atividades realizadas todos os dias e de forma
repetitiva contribuíam para a sua simplificação. Este fator foi decisivo como
estratégia, consciente ou não, para que a divisão técnica e social do trabalho fosse
exercitada e sedimentasse novas determinações, facilitando a relação de controle
das atividades desenvolvidas pelos trabalhadores, bem como contribuía para a
disciplina no trabalho. Chegou um momento em que os capitalistas, diretamente ou
através dos seus gerentes, conseguiram apropriar-se do conhecimento objetivo e
subjetivo presente em cada trabalhador; (4) a divisão técnica e social do trabalho
assumiu novas dimensões e contribuiu para a formação e diversificação do exército
industrial de reserva, elemento essencial que alimentava a produção todos os dias;
(5) com a simplificação acentuada das atividades e com a criação do exército
industrial de reserva, os capitalistas aumentavam o poder de negociação no
momento de estipular o preço por peça, quer dizer, paulatinamente, o valor por
unidade foi reduzido, diminuindo, algumas vezes, a renda familiar; (6) a relação de
contrato de trabalho foi um laboratório para que a forma de pensar capitalista fosse
assimilada pela classe trabalhadora, transformando o projeto burguês numa
verdade hegemônica; (7) muitos trabalhadores abandonaram as atividades ligadas
diretamente à terra. A produção realizada em regime domiciliar passou a ser o
centro das atenções, da sobrevivência e da exploração do trabalhador proletário em
formação de classe em-si e para-si.

Por outro lado, os trabalhadores conheceram e experimentaram as


conseqüências do processo contraditório existente na essência do projeto burguês.
Ao tratar dessas determinações, MARX (1975b, p. 529-530), considera: (1) as casas
dos trabalhadores não apresentavam condições apropriadas para ser um espaço de
realizações produtivas industriais, as atividades eram desenvolvidas em condições
inadequadas, muitas vezes, insalubres. Essa situação acarretava seqüelas na
saúde dos trabalhadores – principalmente doenças adquiridas provenientes do
trabalho;18 (2) apesar da remuneração aumentar, com o trabalho realizado por toda
18
Estas conseqüências na vida dos trabalhadores e de seus familiares, não
eram assumidas pelos capitalistas ou pelo Estado. Neste momento, o Estado tinha o papel
exclusivo de assegurar a ordem social, bem como de criar condições básicas para os
trabalhadores, aceitarem as propostas de trabalho oferecidas pelos capitalistas em
a família, o pagamento por peça representava uma situação instável, vulnerável.
Não garantia aos trabalhadores que, no dia seguinte, eles teriam o que fazer; (3)
com a simplificação e fragmentação das atividades, os trabalhadores também eram
fragmentados, pois cada vez mais sabiam menos do processo de produção. Este
fato, criação das especialidades, empobrecia a capacidade de pensar, a relação
com a natureza e com os próprios homens; (4) realizando as atividades em
domicílio, estes trabalhadores não formavam uma força de trabalho coletiva, mas
uma força de trabalho concentrada, considerando que o universo diário resumia-se
à própria casa e como suas relações objetivas e subjetivas encerravam-se entre os
mesmos familiares. Os trabalhadores, membros da mesma família, trabalhavam até
altas horas.19 Esta situação dificultava a formação de movimentos organizados
retardando a formação dos trabalhadores em classe-para-si; (5) a concorrência vi
acirrada entre os trabalhadores também fazia parte do cotidiano deles. A
conseqüência era imediata, isto é, a remuneração por peças ou assalariada sofria
perdas significativas.

O arrocho nos rendimentos era um mecanismo exercitado, com


propriedade, pelos capitalistas, 20 e a “...a Inglaterra, o país das máquinas, (...) o
lugar do mundo onde mais vergonhosamente se dilapida a força de trabalho em
tarefas miseravelmente pagas” (MARX, 1975b, p. 49); 6) Aos poucos, os capitalistas
terceirizavam as atividades criando mais uma nova forma de vínculo precário entre
capital-trabalho.21 Estes novos capatazes do capital tornaram-se mais um problema
crucial para a classe trabalhadora em formação. Cumprindo o papel de
intermediários contribuíram para amenizar a relação direta e contraditória existente
entre o capital e o trabalho e acabaram por incorporar esta dinâmica na divisão
técnica e social do trabalho em transformação. Vitoriosos com o projeto em
processo de desenvolvimento, os capitalistas necessitavam ampliar a produção,
bem como ganhar novos mercados, para que as mercadorias pudessem ser
transformadas em capital. Assim, o investimento natural na técnica e na ciência foi
uma meta a ser colocada em prática.

qualquer condição de vínculo. Também, cumpria o papel de garantir a segurança da


propriedade privada expropriada pelos mecanismos revolucionários, ou pela falência dos
pequenos agricultores (cf: MARX, 1977b, p. 119). As prestações dos serviços assistenciais
eram realizadas por pessoas individuais e principalmente por entidades filantrópicas da
sociedade civil, destacando “...a sociedade para Melhoramento das Condições das Classes
Pobres; a Sociedade da Marinha, que providenciava a favor da infância desamparada, e a
Sociedade Filantrópica que cuidava das crianças abandonadas e dos vagabundos e a Real
Sociedade Humanitária...“ (ASHTON, 1971, p. 164-65).
19
Ao trabalhar além do tempo socialmente necessário, o mundo dos homens
passa a ser sinônimo de mundo do trabalho assalariado ou de desempregados. Esta
conseqüência intrínseca ao modo de produção capitalista encontra seu causador maior na
máquina. Esta “...põe abaixo todos os limites morais e naturais da jornada de trabalho. Daí
o paradoxo econômico que torna mais poderoso meio de encurtar o tempo de trabalho no
meio mais infalível de transformar todo o tempo de vida do trabalhador e de sua família em
tempo de trabalho de que pode lançar mão o capital para expandir seu valor“ (MARX,
1975b, p. 465).
20
Para maior aprofundamento sobre esta prática ver: PERROT (1988, p. 23);
ENGELS (1985a, p. 95); e MARX (1975b, p. 402 e 541).
21
Cf. ASHTON (1971, p. 55) e HOBSBAWM (1977, p. 67).
37

1.2.2 O Desenvolvimento das Patentes e as Necessidades Práticas em Nome do


Progresso

Após desenvolverem atividades repetidas muitas vezes e por muitos anos,


os trabalhadores detectavam quais os problemas que impediam o desenvolvimento
das atividades em menor tempo e com qualidade. Estes trabalhadores contribuíram
para que novas descobertas fossem realizadas nos espaços em que desenvolviam
suas atividades ou fora deles.

Os trabalhadores, motor principal no processo de produção e reprodução


na base da sociedade civil, eram motivados a incorporarem o projeto burguês em
ascensão. Este mecanismo de apropriação ideológica dos trabalhadores
manifestava-se em diferentes situações. Neste primeiro momento, século XVIII, os
capitalistas, necessitando de novas tecnologias e do desenvolvimento da ciência
para coloca-las à sua disposição, ofereceram premiações para quem apresentasse
novas patentes no mercado e as liberassem para o seu desenvolvimento.

O desenvolvimento das invenções reflete-se diretamente nas tabelas dos


comissários de patentes. Antes de 1760, o número de patentes registradas num
só ano raramente excedia uma dúzia, mas, em 1766, subiu bruscamente para 31
e, em 1769, para 36. Durante alguns anos, a média manteve-se abaixo deste
número, mas em 1783, teve uma súbita, para 64. Depois o número desceu, até
que em 1792 vem um novo salto, para 85. Durante os oito anos seguintes flutuou
à volta de 67, mas desde 1798 temos um movimento ascendente até ao elevado
número de 107, em 1802. Outros números elevados surgem em 1813 e 1818,
mas não são significativos. Em 1824, porém, o número de patentes sobe, mais
uma vez, repentinamente, para 180, e no ano seguinte atinge-se a cifra, sem
precedente, de 250 (ASHTON, 1971, p. 115-116).

Quando os trabalhadores não conseguiam avançar em suas pesquisas,


seus relatórios serviam de base empírica para que outros pesquisadores pudessem
alcançar saltos significativos no campo da técnica e da ciência. Em vista disso,
muitas ferramentas foram ajustadas, máquinas foram inventadas e, paulatinamente,
estas passaram a conviver com os trabalhadores, bem como, os galpões passaram
a acomodar máquinas maiores. Esses novos instrumentos movimentavam-se por
meio da força hidráulica, seguida pela força a vapor e, posteriormente, pela
automação colocando em processo uma verdadeira revolução industrial.

A máquina a vapor, criada por James Watt, em 1764, e o tear mecânico 22


inventado pelo Dr. Cartwright, em 1804, foram as duas principais obras que a
humanidade conheceu no campo da produção no período da primeira fase da
revolução industrial. Essas invenções revolucionaram as bases materiais e, em
decorrência destas, as relações políticas, sociais e culturais ganharam novas
determinações em curto espaço de tempo.

22
Ver também: ASHTON (1971, p. 96); ENGELS (1985a, p. 16) e MARX (1975b,
p. 387).
38

Na Ilha da Grã –Bretanha, aos poucos, suas cidades foram transformadas


em verdadeiras “oficinas do mundo”. 23 “...Nada poderia detê-la. Os deuses e os reis
do passado eram impotentes diante dos homens de negócios e das máquinas a
vapor do presente” (HOBSBAWM, 1977, p. 69). Por outro lado, conforme MARX e
ENGELS (1998, p. 7 e ss), as relações de trabalho continuavam atrofiadas na área
rural, e as formas de relacionar-se entre as famílias, na esfera religiosa e na
dinâmica política, apresentavam-se em estado de decomposição, a industrialização
permitiu o nascimento de uma nova classe detentora dos meios de produção com
poderes políticos, econômicos e sociais adquiridos por meio do trabalho dos
operários. E desafiando a tudo e a todos impuseram uma nova marcha para o
futuro. O progresso era o “slogan” que marcava todos os espaços públicos e
privados, e quem negasse a percorrer este caminho era atropelado pelo próprio
movimento em construção

O progresso era, portanto, tão “natural” quanto o capitalismo. Se fossem


removidos os obstáculos artificiais que, no passado, haviam-lhe colocado, produzir-
se-ia mais e de modo inevitável pois, era evidente que o progresso da população
estava de braços dados com o progresso das artes, das ciências e da civilização em
geral. Os homens que tinham tais opiniões não eram meros advogados dos
interesses dos homens de negócios, etram homens que acreditavam, com
considerável justificativa histórica neste período, que o caminho para o avanço da
humanidade passava pelo capitalismo (HOBSBAWM, 1977, p. 259).

Com a introdução das máquinas movidas através da força hidráulica e,


posteriormente, a vapor a população, que vivia da produção vinculada à terra e/ou
da produção manufaturada através do tear manual, foi obrigada a mudar suas
formas de produzir e de reproduzir-se. Aos poucos, os trabalhadores que viviam
somente dos frutos da terra passaram a executar também atividades ligadas à
produção industrial. Não demorou para que as atividades industriais se tornassem o
centro das atenções e da sobrevivência dos trabalhadores. Neste momento
historicamente determinado pelas particularidades de cada país, o êxodo rural teve
sua conseqüência natural e induzida. No entanto, o êxodo não ocorria de maneira
explosiva em todos os lugares. Em algumas cidades, localizadas em diferentes
regiões da Inglaterra, o processo foi mais rápido que em outras.

Porém, para que a força de trabalho se concentrasse nas cidades e as


máquinas fossem colocadas em movimento e a serviço permanente dos capitalistas
modernos, necessitou-se criar mecanismos legais que trouxessem resultados
imediatos. Entre esses mecanismos, de acordo com HOBASBAWM (1977, p. 181),
está a prática da vedação das terras vii e a cobrança de impostos diferenciados –
valores maiores – para os pequenos agricultores. Essas foram ações que alteraram
e arruinaram a vida dos pequenos camponeses restando-lhes como única
alternativa imediata e rápida vender suas terras e mudar-se para as cidades. O
êxodo rural foi o caminho que a maioria dos pequenos camponeses trilharam. Em

23
Após 50 anos do início da primeira revolução industrial –1830 -, a Bélgica
despontava como sendo o o país mais industrializado no mundo. No entanto, na Inglaterra
“...entre 1830 e 1838, a potência das suas máquinas a vapor é triplicada e, entre 1830 e
1850, também se triplica a sua produção de carvão” (NETTO, 1985b, p. 11). Enquanto que,
“sabe-se que a industrialização na França foi relativamente morosa e em larga medida
manual” (PERROT, 1988, p. 20).
39

condições precárias e sob a tutela da moral burguesa uniram-se aos proletários


urbanos nas periferias das cidades.

O rápido desenvolvimento da indústria inglesa não teria sido possível se a


Inglaterra não dispusesse de uma reserva: numerosa e miserável população da
Irlanda. Na sua terra, os irlandeses não tinham nada a perder, na Inglaterra muito
a ganhar; e desde que se soube na Irlanda que na margem leste do canal St.
George qualquer homem forte tinha assegurado trabalho e bons salários, bandos
de irlandeses atravessaram-no todos os anos. Calcula-se que até agora
imigraram cerca de um milhão de irlandeses e que ainda agora há cinqüenta mil
imigrantes por ano; quase todos invadem as regiões industriais e em particular
as grandes cidades; constituindo aí a classe mais baixa da população (ENGELS,
1985a, p. 109).

A força de trabalho que se encontrava ligada diretamente à terra


transformou-se em força de trabalho livre, ou seja, “...arrancadas de suas raízes
para se mover livremente. Somente assim migrariam para as cidades e as fábricas
onde seus músculos eram cada vez mais necessários” (HOBSBAWM, 1977, p. 171).
Somente sob esta condição foi possível realizar a troca do trabalho livre por
dinheiro.

Ao separar o trabalho ligado diretamente à terra, todos os demais vínculos


que o camponês possuía na base da produção e fora dela perderam o vigor milenar
que sustentava e prendia essa massa de trabalhadores rurais. A terra, transformada
em uma mercadoria nas mãos dos homens de negócios - os capitalistas emergentes
- burgueses ou não, ganhou um novo estatuto. Estas ações romperam o véu que
encobria a maioria dos atores da sociedade, e mostraram que não existia nenhuma
ação pura, moralista neste meio, quando a questão em jogo estava sendo
comandada pela determinação de classe, isto é, pela luta de classe.

Essas medidas administrativas e políticas, por excelência, contribuíram


para que um número expressivo de braços humanos deixasse suas terras e
tentasse, enquanto assalariados, “ganhar um novo mundo” nas cidades em
processo de industrialização, ou em algumas cidades já consolidadas. Assim,
interferir na produção que estava relacionada à terra era cindir uma situação que
fora solidificada durante alguns séculos.

Mas, os aristocratas latifundiários e seus aduladores, por meio dos


poderes políticos, que provinham da propriedade da terra, utilizavam-se de
mecanismos legais para impedir que a produção industrial emergente colocasse em
perigo as regalias ostentosas que estes personagens usufruíam cotidianamente. 24
Por isso, resistentes às transformações em curso, acionaram alguns mecanismos na
esfera do controle público para dificultar o projeto burguês em movimento por meio
de medidas legais como as Leis do Trigo, viii que impediam que as fronteiras fossem
rompidas e o capital ganhasse espaço em outras nacionalidades, enquanto isso,
24
Durante o século XVIII, os nobres seculares ou representes do clero e seus
aduladores, quase em sua maioria, viviam da renda ou do aluguel da terra. Esta forma de
apropriar-se do trabalho alheio durante o modo de produção feudal foi uma das últimas
manifestações que a sociedade feudal em decadência sustentou.
40

em outra dimensão, porém também legal, as Poor Laws (lei dos pobres) dificultavam
a liberação da força de trabalho para o mercado. Se não bastassem essas duas
obstruções ao desenvolvimento capitalista, os economistas burgueses,
pertencentes à Escola Econômica dos Fisiocratas, tomaram como verdade o fato de
que a terra, e o aluguel da terra eram as únicas fontes de renda líguida. Assim, a
terra era o único e verdadeiro objeto que deveria ser manipulado e com a
responsabilidade de aumentar a riqueza social. Para eles, a industrialização e o
comércio, por não respeitarem as leis da natureza, representavam um mal social e
era necessário impedi-las de serem desenvolvidas. 25

Esses percalços, porém, foram vencidos: as regulamentações, aos


poucos, foram suprimidasix; as leis dos pobres x sofreram modificações necessárias
ao longo da explosão revolucionária, aplicando seu golpe fatal em 1834. A
modificação realizada em 1834 permitiu, definitivamente, que os trabalhadores
assalariados se movimentassem para qualquer lugar, colocando assim, todas a sua
força de trabalho a serviço do capital; as leis sobre os cereais (leis do trigo) foram
abolidas em 1846, abrindo frentes para os capitalistas avançarem em todo o globo
terrestre.xi Este golpe fatal na aristocracia latifundiária interrompeu também a
influência dos fisiocratas na economia. A fisiocracia cedeu lugar à escola clássica
liderada por Smith e Ricardo. Homens honestos, cientificamente, porém
legitimadores do projeto burguês.

Os problemas na esfera da legislação e da Ideologia foram resolvidos


quase em sua totalidade. Mas outros requisitos práticos necessitavam ainda de
medidas urgentes para que o capitalismo pudesse expandir-se e dar uma forma
cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. O modo de produção
capitalista, para não perecer, teve e ainda tem que revolucionar cotidianamente sua
forma de produzir e de organizar-se para que a produção possa chegar aos lugares
mais longínquos já conquistados ou conhecidos pelos homens. Para isso,
necessita-se que o mercado deixe de ser pensado e praticado em suas dimensões
locais e regionais, há necessidade de vender mercadorias, conseguir matéria prima
e criar uma divisão técnica e social do trabalho para que o mesmo possa
internacionalizar-se. Dessa forma, a globalização, movimento que ganhou
particularidades no interior do modo de produção capitalista, ganha novas
determinações por meio do projeto burguês em desenvolvimento.

A burguesia, pela exploração do mercado mundial, conferiu uma forma


cosmopolista à produção e ao consumo de todos os países. Para desespero
dos reacionários, retirou à indústria a base nacional em que se assentava. As
velhas indústrias nacionais foram aniquiladas e continuam a sê-lo dia-a-dia. São
suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão de vida
ou de morte para toda as nações civilizadas - indústrias que já não utilizam
matérias-primas nacionais, mas sim oriundas das regiões mais afastadas, e cujos
produtos se consomem simultaneamente tanto no próprio país como em todos
os continentes. Em lugar das velhas necessidades, atendidas pelos produtos do
próprio país, surgem necessidades novas, que exigem, para a sua satisfação,
produtos dos países mais longínquos e de climas o mais diversos. Em lugar da
25
Os Fisiocratas, representantes de um grupo de reformadores sociais
franceses, discípulos intelectuais de François Quesnay (1694-1774), eram os verdadeiros
representantes da escola econômica que inibia o avanço do capitalismo.
41

velha auto-suficiência e do velho isolamento local e nacional, surgem um


intercâmbio generalizado e uma generalizada dependência entre as nações,
(MARX; ENGELS, 1998, p. 9).

É neste momento, principalmente, que a Inglaterra e a França,


conseguiram conquistar novas colônias fazendo delas um espaço para a troca de
produtos manufaturados e industrializados por matéria prima, interferindo
diretamente nas relações comerciais com os países asiáticos. 26 A nova relação,
estabelecida entre a Inglaterra e demais países do mundo, teria que ser ampliada. E
a Inglaterra, por meio das suas condições navais desenvolvidas, colocava suas
potencialidades técnicas e suas convicções políticas e econômicas no projeto de
sociedade em marcha.

Assim, além de ampliar a área de transação comercial, a burguesia


emergente precisou resolver alguns problemas de infra-estrutura e de financiamento
para a ampliação da produção. Uma das suas atenções voltou-se para a
viabilização do transporte das mercadorias, pois estas tinham que chegar a todos
os lugares com segurança e agilidade. Neste momento, alguns empreendedores
jogaram com a sorte e investiram na construção de estradas de ferro, na abertura
de estradas de rodagem e na viabilização do transporte fluvial, além de continuarem
os investimentos no transporte marítimo.

Mas, foi com a criação da locomotiva que o processo de transporte


(ASTHON, 1971, p. 113), ganhou pujança e, em curto espaço de tempo, os números
estatísticos propiciaram, “aos donos do capital", a oportunidade de comemorarem
seus feitos em nome do progresso. 27 As descobertas territoriais e o desenvolvimento
da química, da física e da matemática, criaram as condições básicas para que a
tecnologia em desenvolvimento ganhasse novos avanços e, aos poucos, os países
que trilhavam a lógica do desenvolvimento capitalista reivindicavam a instalação
dos meios de transporte ferroviários também em seus países.

Em contrapartida, para que o capital primitivo pudesse ampliar suas cotas


e ganhar liberdade e autonomia no mercado, os capitalistas foram obrigados a
contrair empréstimos junto aos mercados de capitais, pois não tinham capital
suficiente que conseguisse atender e mobilizar a demanda.

Em 1760 nada havia que, efetivamente, se pudesse chamar <mercado de


capitais>. O empréstimo era ainda grande parte uma questão local e pessoal.
Por volta de 1830, o volume de fundos investíveis tinha crescido
extraordinariamente. Os bancos e outras instituições serviam de pontos de
fixação, donde o capital, vindo de variadas partes, seguia para se aplicar à

26
A Inglaterra importava matéria prima – seda – da Índia e da China
principalmente. Estes países não conseguiram acompanhar a revolução industrial que
ocorria na Europa e, em 1840 os mercados de Lancashire chegaram a exportar 145
milhões de jardas. A Índia passa de exportadora para importadora. Este fato foi um grande
marco na história mundial moderna.
27
Estes avanços ganharam destaque, principalmente nas minas de carvão, pois
os trabalhos puderam ser desenvolvidos com agilidade, possibilitando aumentar a
produção e, como consequência, o lucro dos proprietários.
42

indústria, dentro e fora da Inglaterra. Em vez das conjecturas, felizes ou não,


sobre a capacidade de crédito de quem solicitava o empréstimo, havia, para
guia, uma lista pública. O capitalista tornava-se impessoal - <cego>, como
alguém lhe chamou – e acentuadamente móvel (ASHTON, 1971, p. 134). 28

Em virtude disso, uma nova face do capitalismo começa a germinar: o


capital bancário 29 passa a conviver, de forma embrionária, com as demais forças
que movimentavam o modo de produção capitalista, financiando a produção
baseada na manufatura e, posteriormente, na maquinaria.

1.2.3 A Manufatura e a Maquinaria

Antes de explodir a revolução industrial a produção manufatureira era


quem dava as regras e preparava algumas condições básicas para o movimento
produtivo futuro. Com características bem definidas, “...o período manufatureiro
simplifica, aperfeiçoa e diversifica as ferramentas, adaptando-as às funções
exclusivas especiais do trabalhador parcial” (MARX, 1975b, p. 392-393). O
trabalhador, aos poucos, passou a ser caracterizado pela especialidade da função
que desenvolvia.

A simplificação, o aperfeiçoamento e a diversificação das ferramentas


tornaram-se, com o passar dos anos, uma condição concreta para aprisionar os
trabalhadores em seus postos de trabalho. Isso possibilitou que os capitalistas
obtivessem um controle maior das atividades desenvolvidas pelos trabalhadores.
Por por meio da implantação dos gerentes e dos supervisores criaram-se as
condições básicas e necessárias para que os conhecimentos legados pelos
trabalhadores, no decorrer da relação do trabalho com a natureza desde os seus
momentos mais primitivos, fossem transferidos para um corpo morto, ou seja, a
máquina. O criador e operador da máquina, passa a ser escravo da criatura. As
ações eram comandadas pela máquina, bem como a velocidade e o tempo de
operação.

A manufatura substituiu o laboratório que, por muitos séculos, encontrou


seu lócus na terra. É nesse espaço que “os donos do capital”, diretamente ou por
meio dos seus gerentes, ensaiavam suas principais peças para poderem, no futuro,
colocarem as máquinas movidas a vapor ou automáticas com seus motores em
movimento, porém, com um aprendizado já adquirido.

Mas a manufatura também foi um laboratório na esfera organizacional.


Durante este processo produtivo, a burocracia industrial foi exercitada. Cabe
lembrar que “...a burocracia é uma das primeiras armas do capitalismo contra o
sistema feudal” (LUKÁCS, 1977, p. 136). Conforme MARX (1975b, p. 401), criou-se
uma escala nas funções e nas remunerações, isto é, as hierarquias de cargos e
28
Destaca-se também que, no período entre Guerras 1793-1815, a Inglaterra foi
a grande financiadora aos países em combate. Estes empréstimos aos poucos estenderam
também para países de outros continentes.
29
Após a Segunda Guerra Mundial, o capital bancário uniu-se ao capital
industrial e formaram o grande capital do século XX, ou seja, estruturam-se de forma
dominante. Presentes em todos os países, criou-se uma aristocracia do capital financeiro.
43

salários foram colocadas em prática. As funções simples e complexas ganharam


amplitude, o que permitiu dar vazão às relações estabelecidas na esfera da
produção, isto é, a divisão técnica e social do trabalho ganhou novas determinações
históricas. “...A especificidade da função, cria a profissão” (MARX, 1975b, p. 387-
403), e trouxe ganhos qualitativos e quantitativos para a sociedade. Criaram-se,
portanto, condições concretas para a humanidade distanciar-se do seu ser singular
e a forma e a lógica de apropriar-se da natureza ampliou seu leque de
possibilidades e facilidades.

Nesse momento, a força do trabalho humano conseguiu dar maior


mobilidade aos braços e pernas possibilitando que atividades que eram executadas,
até esse momento com limites, deixassem de ser um problema para algumas
sociedades de então. Em outras palavras, além de retirar e distanciar os homens
das atividades desumanas, criaram-se as condições para que, em suas ações, a
natureza fosse dominada com maior precisão e em um tempo menor, com a
possibilidade de ser colocada a serviço da humanidade. No entanto, devido à lógica
e à forma do capitalismo apropriar-se e colocar em movimento a força de trabalho
proletária, criou-se uma divisão social do trabalho que oprimia e negava a classe
proletária. Nesse sentido, para que a missão da classe proletária fosse colocada em
prática necessitava-se, como primeira e última premissa, romper com a divisão
social do trabalho criada pelo projeto burguês em processo de consolidação. Para
cumprir este papel histórico, os proletários e demais frações da classe trabalhadora
têm que varrer da sociedade qualquer estrutura de classe social existente e,
consequentemente, com todas as formas de poderes estabelecidos.

Outra conquista histórica, resultado do processo de industrialização


ocorreu no momento em que os trabalhadores começaram a desenvolver suas
atividades no interior das fábricas. Esta nova e revolucionária situação concreta
criou possibilidades para os trabalhadores reunirem-se e organizarem-se
coletivamente.xii Esta prática, após inúmeros exercícios teóricos e práticos, construiu
os princípios fundamentais de solidariedade de classe.

Por sua vez, a tradição jacobina ganhou solidez e continuidade sem precedentes
e penetração nas massas a partir da coesiva solidariedade e da lealdade que
eram características do novo proletariado. Os proletariados não se mantinham
unidos pelo simples fato de serem pobres e estarem num mesmo lugar, mas pelo
fato de que trabalhar junto e em grande número, colaborando uns com os outros
numa mesma tarefa e apoiando-se mutualmente constituía sua própria vida. A
solidariedade inquebrantável era sua única arma, pois somente assim eles
poderiam demonstrar seu modesto, mas decisivo ser coletivo (HOBSBAWM,
1977, p. 233).

É sob estas condições que os trabalhadores ganharam experiência e, para


enfrentar quem os oprimia, tomaram posições rebeldes, como quebrar e/ou roubar
as máquinas e destruir os galpões onde elas se alojavam.xiii
44

Com o decorrer do tempo, a linguagem do trabalho organizado começou a tomar


uma feição mais aguda, e a partir de 1760, as minas de carvão, os portos e as
aldeias têxteis assistiam a frequentes cenas de violência. Em 1765, os mineiros
de Tyne, em greve contra a introdução de certificado de saúde, cortaram os
cabos dos elevadores, quebraram os engenhos e deitaram fogo ao carvão das
galerias. Por volta de 1760-1770, os tumultos em Lancashire contra as máquinas
de fiar levaram à destruição de máquinas e casas - e talvez à fuga de
Hargreaves e Arkwright para Nottingham. Em 1773, os marinheiros de Liverpool
travaram uma batalha campal, onde (como é narrado por Wadsworth) hastearan
a bandeira sangrenta, saquearam a casa dos armadores e assestaram canhões
contra a Bolsa. Nenhum destes distúrbios, no entanto, se pode considerar como
prova de existência de uniões operárias (ASHTON, 1971, p. 160).

Mas, ao esgotarem-se as possibilidades de desenvolvimento da


manufatura, a sociedade moderna foi surpreendida pelas maravilhas humanas e, ao
entardecer, novas descobertas foram realizadas garantindo a realização do
processo da revolução industrial. As máquinas foram colocadas em movimento. Em
1784, “...uma máquina motriz, um motor, pode agora impulsionar ao mesmo tempo
muitas máquinas” (MARX, 1975b, p. 431). A revolução industrial ganhava
dimensões gigantescas, produzindo e reproduzindo uma nova forma de ser e de
pensar na história dos homens. “...Contudo, o fruto mais importante desta
revolução industrial foi o proletariado” (ENGELS, 1985a, p. 25).

Portanto, chegou o momento em que os trabalhadores, que desenvolviam


suas atividades com o tear manual, não conseguiram impedir que este fosse
substituído pelo tear mecânico e a vapor. Estas duas invenções, “sem pedir licença”
começaram a fazer parte da produção de forma decisiva. Foi um impacto destruidor
para a classe operária e demais frações da classe trabalhadora em formação.
Rapidamente, os trabalhadores presenciaram e começaram a conviver com o
significado teórico-prático da revolução industrial em marcha.

A Jenny,30 criada em 1764, foi a primeira máquina que arruinou a vida dos
trabalhadores tecelões. Sua capacidade de trabalho mecânico chegava a
aproximadamente 20 vezes a de um trabalhador na máquina de costurar simples.
Com a capacidade de produzir ampliada, muitos tecelões não tiveram outra escolha
a não ser abandonar a situação de tecelão e agricultor e assumir, em conjunto com
a família, o trabalho único frente à máquina. Neste momento, “...a classe dos
tecelões agrícolas desapareceu completamente, dissolvendo-se na nova classe dos
que eram exclusivamente tecelões, que só viviam do seu salário e não possuíam
propriedades, não tendo sequer a ilusão de propriedade que o trabalho agrícola
confere” (ENGELS, 1985a, p. 14). E a escolha realizada pelo agricultor alterou sua
posição na divisão técnica e social do trabalho: a partir deste momento sua
situação, enquanto trabalhador, caracterizou-se como proletário (ENGELS, 1985a,
p. 14).
30
“...Entre 1764 e 1767, James Hargreaves, carpinteiro-tecelão em Blackburn,
inventava uma simples máquina manual chamada Jenny, por meio da qual uma mulher
podia fazer, ao mesmo tempo, seis ou sete fios; mais tarde, ia até oitenta fios” (ASHTON,
1971, p. 94). No entanto, esta descoberta revolucionária apresentou conseqüências sociais
imediatas à classe trabalhadora emergente. O desemprego foi a “questão social” de
imediato que impulsionou reações dos trabalhadores (ENGELS, 1985a, p. 14, 16, 158, 159
e 162).
45

Esses homens, mulheres e crianças passaram a pertencer à classe dos


operários em formação, fruto da contradição do próprio projeto burguês. Este passo
histórico permitiu que o germe contraditório do projeto burguês, a classe proletária,
em condições históricas determinadas, assumisse em 1848 o papel histórico de
portador em efetivar a emancipação humana (NETTO, 1988, p. XX).

Foi neste momento que MARX (1977b, p. 17), tratando da experiência


vivenciada pela classe proletária e sua derrocada frente a contra-revolução
burguesa concluiu que, “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem
como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas
com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

Frente às transformações que ocorriam na base da sociedade, a classe


burguesa ia capitulando as conquistas e ganhando novas dimensões enquanto
classe dominante. As novas criações humanas – o tear mecânico e a máquina
movida a vapor-, rompiam e libertavam, ao mesmo tempo, os homens das relações
produtivas manuais, inclusive em relação à forma de relacionar-se com a natureza
que colocava limites em explorar às potencialidades humanas e da natureza. O tear
mecânico, em substituição ao manual, possibilitou aos capitalistas produzirem
maior quantidade em menor tempo e com um número de força de trabalho reduzida.
Com estas vantagens, a lucratividade crescia, viabilizando aos capitalistas,
condições materiais concretas para acumularem certa quantidade de capital e
ampliarem a produção e construírem fábricas novas e maiores. Enquanto os
trabalhadores, os verdadeiros responsáveis pela produção e criação de valor, eram
alvo das contradições em movimento, conheceram o que significava ficar
desempregado e não estar ligado à terra, isto é, estarem desprovidos de qualquer
meio que garantisse a sua subsistência e a de seus familiares.

O tear mecânico expulsou muitos trabalhadores dos seus postos de


trabalho. Estes instrumentos executavam diferentes funções e, ao mesmo tempo,
mostravam suas potencialidades e agilidades para um novo tempo. Aperfeiçoado, o
tear mecânico eliminou postos de trabalho e criou outros; a concorrência para
ocupar um posto de trabalho aumentava, trazendo conseqüências, drásticas para a
classe trabalhadora em formação:xiv (1) a concorrência contribuía diretamente para
reduzir os salários; (2) comportava-se enquanto um mecanismo sutil – pois todos
eram livres para empregar-se -, enfraquecendo a solidariedade coletiva entre os
trabalhadores; (3) desempregados, os trabalhadores sujeitavam-se a realizar
atividades em condições precárias de trabalho. Em troca, recebiam salários ínfimos
e, muitas vezes, concordavam em trocar seu trabalho por alguns alimentos para não
morrerem de fome. “...Os salários caíram brutalmente no período pós-napoleônico.
Mas havia um limite fisiológico nessas reduções, caso contrário os trabalhadores
morriam de fome, como de fato aconteceu com 500 mil tecelões manuais”
(HOBSBAWM, 1977, p. 58); (4) Com a implantação do tear mecânico, a divisão
técnica e social do trabalho ganhou novas dimensões. Por um lado, as funções
tornavam-se cada vez mais simples, o que permitia ao capitalista substituir a força
de trabalho dos homens adultos. 31 É neste momento que as mulheres e as crianças
31
ENGELS (1985a, p. 168), relatando a conversa entre dois operários
desempregados, explicita o grau de desespero em que um trabalhador desempregado
encontra-se no momento em que não consegue encontrar alguém que compre a sua força
de trabalho e, envergonhado, confessa que passou a fazer as atividades da casa. “O pobre
Jack teve vergonha e disse-lhe: Não, eu sei bem que não é meu trabalho, mas minha
46

conheceram, em profundidade, o “maravilhoso mundo novo” implementado pelos


modernos empreendedores.

O trabalho nas máquinas eliminaram cada vez mais o operário adulto. O trabalho
nas máquinas consiste, principalmente, tanto na fiação como na tecelagem, em
reparar os fios que se partem, pois a máquina faz o resto. Este trabalho não
exige nenhuma força física, mas dedos ágeis. Então, não só os homens são
indispensáveis para isso como, por outro lado, o grande desenvolvimento dos
músculos e dos ossos das mãos os torna menos aptos para este trabalho do que
as mulheres e as crianças; por isso, eles são muito naturais e quase totalmente
afastados deste trabalho. Quando mais os gestos dos braços, os esforços
musculares, são, devido à entrada em serviço de máquinas, realizados pela
energia hidráulica ou pela força a vapor, menos se necessita de homens
(ENGELS, 1985a, p. 163-164).

As crianças, muitas vezes não completavam 5 anos de idade e já estavam


sendo requisitadas para desenvolverem atividades que fossem simples e de acesso
possível. Todos os dias, as fábricas eram repletas de crianças, enquanto seus pais
padeciam as amarguras do desemprego. Estas criaturas, desde a tenra idade já
eram tratadas como animais, não conseguiam estudar e menos ainda aproveitar os
bosques ou as ruas para brincarem com seus amigos. Se isto não bastasse, muitas
delas eram traficadas em asilos e orfanato pelos próprios capitalistas,
transformando-as em escravas nas fábricas. Muitas crianças não conseguiam
suportar a exploração diária e, precocemente, morriam. Outras eram leiloadas todos
os dias. “...Em Bethnal Green, distrito mal afamado de Londres, todas as manhãs de
segunda e terça feira, realiza-se publicamente leilão e, crianças de ambos os sexos,
a partir de 9 anos, se alugam diretamente às fábricas de seda de Londres” ( MARX,
1975b, p. 452).

As mulheres, também eram obrigadas a entrarem para este mercado


prostituído, a questão é saber qual mercado é puro e aos poucos passaram a
compor a mão de obra mais procurada pelos capitalistas. A única preocupação do
capitalista era aumentar o lucro, não importava quem estava executando as
atividades. No entanto, estes mercenários sabiam que era possível pagar salários
inferiores para as mulheres que, devido à necessidade de sobrevivência,
comportavam-se mais docilmente frente a exploração, bem como, existiam
atividades que eram melhores executadas pelas mulheres, principalmente quando
se exigia maior grau de atenção, disciplina, paciência e agilidade. Neste sentido
“...a primeira preocupação do capitalista ao empregar a maquinaria, foi a de utilizar
o trabalho das mulheres e das crianças. Assim, de poderoso meio de substituir
trabalho e trabalhadores, a maquinaria transformou-se imediatamente em meio de
aumentar o número de assalariados, colocando todos os membros da família do
trabalhador, sem distinção de sexo e de idade, sob o domínio direto do capital”
(MARX, 1975b, p. 449-450). 32

pobre mulher está na fábrica e tem de estar lá às cinco e meia e trabalha até às oito da
noite e sai tão cansada que não pode fazer nada, quando volta para casa. Tenho que fazer
tudo o que puder no lugar dela, porque eu não tenho trabalho e há três anos que não
tenho e não encontrarei em toda a minha vida, e depois deixou cair uma lágrima”.
47

A nova situação criada, demarcada entre capital-trabalho, possibilitou que


a divisão técnica e social do trabalho ganhasse novas proporções a serviço do
capital. Este fato histórico contribuiu para aumentar o poder que os capitalistas
exerciam sobre os trabalhadores e seus familiares. Aumentando seu capital fixo e
constante, ampliavam o poder de negociação e de controle no chão da fábrica e na
esfera política.

Essas transformações ganharam dimensões destruidoras e incalculáveis


para os trabalhadores e familiares. E, no momento em que a máquina movida a
vapor passou a ocupar os galpões das fábricas ofereceu-se aos trabalhadores uma
única opção: submeter-se a um mecanismo morto que o dominava e o oprimia.

Com a intensidade e a rapidez na diversificação das atividades cotidianas


realizadas pelos trabalhadores a máquina movida a vapor e, posteriormente, pela
automação, por meio de suas ferramentas acopladas e diversificadas, ampliaram e
simplificaram as operações realizadas pelos trabalhadores. Com a automação, o
modo de produção capitalista conseguiu resolver uns dos problemas que
interrompia o processo de trabalho, isto é, agora a força de trabalho podia ser
trocada, em seu posto, sem nenhum problema para a produção em movimento.

Com a substituição do tear manual pelo mecânico, com a movimentação


das máquinas movidas a vapor e automáticas, a divisão técnica e social do trabalho
transformaram o cenário produtivo e organizacional no interior das fábricas e de
classe. Estas novas determinações ampliaram e aprofundaram as relações
estabelecidas entre capital-trabalho no interior das fábricas e fora delas. Os
capitalistas não tardaram a encontrar uma nova forma de expropriarem-se da força
de trabalho. A aplicação de novas técnicas criaram condições objetivas para
construir máquinas que fazem outras máquinas, sanando o problema da baixa
produção e também da resistências dos movimentos sociais organizados que
estavam impedindo que o projeto burguês em desenvolvimento crescesse. Sob a
lógica da extração da mais-valia relativa, constata-se que a ciência foi direcionada a
serviço do Capital na esfera da produção material e da reprodução social.

...Quando a rebeldia crescente da classe trabalhadora forçou o estado a diminuir


coercitivamente o tempo de trabalho, começando por impor às fábricas
propriamente ditas um dia normal de trabalho, quando, portanto, se tornou
impossível aumentar a produção da mais-valia, prolongando o dia de trabalho,
lançou-se o capital, com plena consciência e com todas as suas forças, à
produção da mais-valia relativa, acelerando o desenvolvimento do sistema de
máquinas (MARX, 1975b, p. 467).

Assim, esse nova ofensiva do capital revolucionou os princípios básicos da


relação capital-trabalho, pois “...na manufatura o ponto de partida para revolucionar
o modo de produção era a força de trabalho, na indústria moderna, o instrumental
de trabalho” (MARX, 1975b, p. 424). O capitalista começa a ter sobre o seu
32
Para o desenvolvimento das atividades, os capitalistas preferiam as crianças e
mulheres, no entanto, quanto às mulheres procuravam contratar as casadas. Pois, quando
comparadas às mulheres solteiras, suas qualidades morais e disciplinares contribuíam
para que a produção fosse maior e sem interrupções.
48

domínio novos elementos que ampliam o poder de dominação e da expropriação da


força de trabalho, ao mesmo tempo em que também aumenta a acumulação de
capital.

Osalto conquistado pelo projeto burguês possibilitou que suas ações


avançassem em diferentes áreas de atuação em quantidade e qualidade. Um dos
propósitos e também uma das consequências visíveis e possíveis de ser
diagnosticada com o advento e o desenvolvimento das máquinas movidas a vapor,
estava ligada diretamente ao aumento populacional. 33 Fato histórico de extrema
importância para a classe dominante emergente.

Assim, o fenômeno do aumento populacional tem relação direta com as


transformações ocorridas nos meios de transportes e com o desenvolvimento de
novas tecnologias em vários campos do conhecimento, o que causou mudanças na
divisão técnica e social do trabalho e possibilitou que a ciência galgasse novos
passos a serviço do capital. Ao mesmo tempo, as novas relações urbanas
estabelecidas possibilitavam realizar algumas ações preventivas de saúde pública
impedindo que a morte prematura, principalmente das crianças, alcançasse
proporções maiores. A população aumentou não porque nasceram mais pessoas,
mas porque ações diferenciadas foram colocadas em prática, fruto da nova
realidade moderna. O aumento da população elevou a quantidade de força de
trabalho para a produção, possibilitando a criação de um exército industrial de
reserva natural, fonte principal para o processo de produção de mercadorias e
acumulação de capital e propiciou condições objetivas para que se instaurasse, na
esfera da produção e da circulação, um verdadeiro movimento concorrencial. Isto
porque, a classe burguesa capitalista teve, a partir desse momento, a possibilidade
concreta de colocar em prática um dos seus requisitos primordiais para movimentar
as máquinas em plena intensidade pois, o aumento populacional, bem como o
desencadeamento natural provocado pelo êxodo rural, criou um verdadeiro e
imprescindível exército industrial de reserva. Dessa forma, a classe trabalhadora
estava à disposição do mercado de trabalho e de todos os interessados, os quais
sabiam onde encontrá-la e que tratamento deveria ser dado.

Em conseqüência, as máquinas passaram a girar o maior número de horas


possível, pois tinha um exército industrial de reserva à sua disposição. O barulho
das engrenagens entrava em sintonia ou desafinava dia e noite. Este novo
acontecimento permitiu que a produção atingisse números jamais imaginados,
quando comparados à produção realizada no período manufatureiro. Nesse
momento histórico, os capitalistas aumentaram seus lucros, ao mesmo tempo, que o
capital concentrava-se em poucas mãos. Quanto mais as engrenagens rodavam,
crescia a dependência dos proletários em relação aos capitalistas (MARX, 1975a,
p. 90).

Mas, nem de momentos de glória e de momentos de prosperidade o modo


de produção capitalista vivenciava. Presentes à sua lógica intrínseca, esse projeto
33
Um dos aspectos “...mais saliente da história social deste período – aquilo que
acima de tudo o distingue dos anteriores – é o rápido crescimento da população. Cálculos
cuidadosos, baseados nos números de enterros e batismos, avaliam o número de
habitantes da Inglaterra e País de Gales em cerca de 5,5 milhões em 1700 e em 6,5
milhões em 1750; por altura do primeiro censo, em 1801, andava à volta de 9 milhões e
em 1831 antigira 14 milhões” (ASHTON, 1971, p. 23).
49

revolucionário moderno conheceu momentos em que os potenciais das suas


engrenagens foram impossibilitados de serem colocados em movimento. Esses
períodos, fatais para muitos capitalistas, mas, principalmente, para a maioria dos
trabalhadores, avisavam que o modo de produção capitalista entrava em crise.

1.2.4 As Crises do Modo de Produção Capitalista: a Contradição em Movimento

Intrínseco à lógica e a forma de produção e reprodução do modo de


produção capitalista, as crises periódicas alteraram e alteram xv até os dias atuais o
movimento progressivo em desenvolvimento. 34

Os impactos negativos das crises colocavam a classe burguesa em


desespero. A queda na produção alterava a lógica em movimento, instaurando
períodos de estagnação econômica. Nestes momentos a “dor do parto” era intensa
e, aos desavisados, a falência dos meios de produção que possuíam estava
decretada. Pequenos e médios empresários industriais e camponeses eram
lançados ao mercado “da mesma forma que os feirantes fazem com as frutas podres
ao término da feira.” Sem apalpar, de forma aleatória, eram jogados no “santo
mercado”, desesperados, passavam a pertencer à classe dos proletários. Sem ter
para onde ir, buscavam abrigo nas periferias da cidade, nos albergues e muitos
tinham como teto para morar as ruas da cidade. “...Em Londres levantam-se todas
as manhãs 50.000 pessoas sem saberem aonde repousarão a cabeça na noite
seguinte” (ENGELS,1985a, p. 43).

Os trabalhadores assalariados também foram os principais alvos nestes


períodos de crise. Muitas fábricas cerraram suas portas, em definitivo, outras
paralisavam temporariamente as atividades que estavam sendo realizadas pela
força de trabalho stricto senso, ou pelas máquinas que eram vigiadas pelos
trabalhadores.

Mas não era somente a produção que sofria as amarguras das crises
cíclicas com manifestações concretas de estagnação. O processo de valorização do
capital (circulação, distribuição e troca), também vivenciava as conseqüências das
crises em suas raízes, e o movimento “linear” do progresso era interrompido. O
desemprego35 batia à porta da maioria das famílias trabalhadoras; como
34
As crises que afetavam o modo de produção capitalista trazia, em sua
essência, como um dos elementos principais, a baixa nas colheitas. Neste sentido, muitas
crises recessivas que o capitalismo vivenciou ou foi provocada pela crise nas colheitas ou
estas coincidiam com a crise de amplitude maior. Assim, as crise nas colheitas nos anos de
“...1756-1757, 1767-1768, 1772-1775, 1782-1783, 1795-1789, 1799-1801, 1804-1805,
1809-1813 e 1816-1819 ” (ASHTON, 1971, p.172), abalaram a vida de toda a sociedade e
os trabalhadores eram os mais atingidos, pois desprovidos de qualquer mercadoria a não
ser a sua força de trabalho, dividiam a situação de miseráveis entre si (HOBSBAWM, 1977,
p. 56-57).
35
Diante da necessidade imediata de colocar o conhecimento teórico-prático a
serviço dos capitalistas, a classe trabalhadora acordava todos os dias mais pobre e com
condições de trabalho precário, que os levava à mutilação física e psíquica, e suas formas
de organização não conseguiam sair das lutas imediatas.Dentre os piores dividendos das
quais a classe trabalhadora era tributária, o desemprego a ser enfrentado todos os dias
transformava-lhes a vida e deixava-os, na maioria das vezes, em situação limite da
50

conseqüência, as condições de habitação, saúde, meio ambiente, saúde pública,


educação e da organização da classe operária em construção era afetada em sua
centralidade. Os trabalhadores manifestavam suas condições de forma
diferenciada. Apesar de representarem a maioria da população – serem os
verdadeiros responsáveis pela criação do valor e, ao mesmo tempo, vivendo sob os
limites da liberdade de mercado, conquista sacramentada durante o processo da
revolução francesa - não possuíam ainda as condições concretas para colocarem
em prática a liberdade política e humana enquanto um novo projeto para a
sociedade.36

A sorte estava lançada: quando não conseguiam obter sucesso na luta


diária – ser uma força de trabalho assalariada -, suas condições de sobrevivência e
a de seus familiares tornavam-se as piores possíveis e, sem chance de dias
melhores, praticavam ações que explicitavam o grau de contradição entre capital-
trabalho no interior da sociedade civil, em sua base produtiva e, principalmente, fora
dela.

Um número expressivo da força de trabalho expropriada, em todos os


sentidos, deixou de pertencer à classe proletária assalariada e, como qualquer
outro animal registrado na Inglaterra, estes homens adultos, suas mulheres e
crianças, lançavam seus nomes nos livros de registros estatísticos preenchidos pela
burocracia governamental. Sem referência, eram empurrados para o mundo da
mendicância todos os dias (ASHTON, 1971, p. 47-48; e ENGELS, 1985a, p. 104-
105).

Desempregados,

...que resta a estas pessoas, quando não encontram trabalho e não querem se
revoltar contra a sociedade, senão mendigar? Não devemos nos espantar ao
vermos esta multidão de mendigos com quem a polícia tem sempre contas a
ajustar e que, na sua maior parte, são homens em condições de trabalhar. Mas
a mendicância destes homens tem um caráter específico. Normalmente erram,
em companhia da família, cantando algumas lamúrias na rua ou então apelando
para a caridade dos vizinhos com algum pequeno discurso. E é notável que
quase só se encontrem este mendigos nos bairros operários e que vivam
somente das esmolas que lhes são dadas quase exclusivamente por operários.
Ou não, toda a família se instala silenciosamente à beira de uma rua animada e
deixa, sem dizer nada, que o seu aspecto indigente produza efeito só por si.
Neste caso também só contam com a simpatia dos operários que sabem por
experiência o que é a fome e que qualquer momento podem se encontrar na
mesma situação (ENGELS, 1985a, p. 104).

existência humana, e não restava outra alternativa, para a maioria, a não ser mergulhar
profundamente na miséria material e espiritual (HOBSBAWM, 1977, p. 228; e MARX, 1975,
p. 491-493).
36
Não podemos confundir emancipação política com emancipação humana. “Não
há dúvida que a emancipação política representa um grande progresso, Embora não seja a
última etapa da emancipação humana em geral, ela se caracteriza como a derradeira etapa
da emancipação humana dentro do contexto do mundo atual. É óbvio que nos referimos à
emancipação real, à emancipação prática” (MARX, [19-?], p. 28). Ver também ASHTON
(1971, p. 160) e ENGELS (1985a, p. 142).
51

Outros trabalhadores em situação de mendicância submetiam-se a fazer


algumas atividades das mais insalubres e desumanas possíveis. Não recebendo
remuneração em dinheiro, ofereciam a sua força de trabalho e a dos seus familiares
em troca de alimentos. Quando tinham sorte, também eram contemplados com
moradia.

Alguns desempregados rompiam com as regras legais burguesas, ou


ignoravam a sua moral. Indignados com a situação em que estavam vivendo,
praticavam roubos para dar conta das necessidades básicas, pois “...a miséria só
deixa ao operário a escolha entre estas eventualidades: morrer lentamente de fome,
suicidar-se, ou obter aquilo de que precisava onde quer que o encontre - em outras
palavras: roubar. Não causa espanto que a maioria preferia roubar a morrer de
fome” (ENGELS, 1985a, p. 135).

No entanto, nem todos conseguiam manter o equilíbrio emocional e


conviver com a miséria e a negação humana em todos os sentidos. Quando não
existiam mais saídas, o suicídio, prática comum da classe burguesa, também
passou a ser rotineira entre os operários na Inglaterra. “...Uma multidão de pobres
diabos matam-se para fugir à miséria, para a qual não encontram outro meio de
escapar” (ENGELS, 1985a, p. 136).

O cenário não terminava apenas nas manifestações acima descritas.


Quando a situação de penúria era extrema, muitos não resistiam e, em condições
extremamente indignas acabavam morrendo. 37 Somente nestes momentos é que
essas pessoas “...que, ao longo da história, fora do seu bairro, apenas têm entrado
para a história como indivíduos nos registros de nascimento, casamento e morte”
(HOBSBAWM, 1988, p. 21), eram reconhecidos como seres humanos, apesar de
sua existência ter sido igual ou pior, que a dos animais não humanos. 38

A “questão social”, presente desde o emergir do modo de produção


capitalista atinge o seu ápice. A classe trabalhadora, ao mesmo tempo, que é
portadora das mazelas produzidas pelo projeto burguês impõe-se enquanto classe
em-si e para-si no cenário Inglês e em outros países da Europa em 1830. Os
capitalistas, por meio dos seus representantes orgânicos, foram obrigados
reconhecer os dois fenômenos mais autênticos produzidos pela história em
processo: o pauperismo e a classe proletária, portadora, neste momento, de uma
consciência em-si e para-si. É nesse cenário que o modo de produção capitalista
começa a redimensionar sua prática econômica, política, social e cultural e transita,
no final do século XIX, da fase concorrencial para a monopolista e esta, após 1945
para a fase tardia.

37
Os filisteus, a serviço da classe burguesa, não podendo assumir a culpa das
mortes que ocorriam devido à situação de miserabilidade, adulteravam os relatórios em que
se acusava a causa da morte: a fome. Se não se comportassem desta forma, estariam
assinando com seus próprios punhos, a culpa destes fatos sociais, que em situação limite,
igualava-se aos animais não humanos. Porém, o que era para estes filisteus um fato social
natural, para os proletários era um crime social (ENGELS, 1985a, p. 37).
38
Enquanto a maioria da sociedade burguesa encontrava-se em situação
negadora da sua existência, as crises que condicionavam a economia a estagnar-se, não
impediam que alguns setores do mercado continuassem acumulando.
52

1.3 O CAPITALISMO MONOPOLISTA E TARDIO EM MOVIMENTO39

Os limites do modo-de-produção capitalista, sob a lógica e a forma


concorrencial, tinham os seus dias contados enquanto determinadas e comandadas
pelas regras de mercado e políticas. Isso ocorreu porque as fronteiras dos países
tornaram-se muito próximas, a produção de mercadorias movidas pela máquina
ferramenta impulsionavam a produção em série e em quantidades vultosas; os
donos das indústrias começavam a formar cartéis seguindo ramos de produção ou
de acordo com os produtos individuais. Assim, a necessidade de produzir mais, em
menor tempo, obtendo-se uma maior lucratividade, conduzia os empresários
industriais a realizarem empréstimos junto aos bancos para investirem na formação
de uma planta industrial produtiva que lhes possibilitassem, na corrida
concorrencial, levarem vantagens.

A livre concorrência constitui o traço essencial do capitalismo e da produção


mercantil em geral; o monopólio é exatamente o contrário da livre concorrência,
mas nós vimos esta última converter-se, sob os nossos olhos, em monopólio,
criando nela a grande produção, eliminando dela a pequena, substituindo a
grande por uma ainda maior, levando a concentração da produção e do capital
a um ponto tal que fez e faz surgir os monopólios (LENIN, 1982, p. 87).

Neste sentido, localizados historicamente sob a lógica e a forma das


novas determinações do capital, os empréstimos investidos na compra de novas
máquinas e na descoberta de novas técnicas somavam valores vultosos. Ao mesmo
tempo, duas determinações centrais, também representavam os poderes de
liderança na esfera da produção: a necessidade de um maior controle e domínio
das matérias-primas; e a conquista de novas regiões para o escoamento das
mercadorias produzidas. 40
39
O modo de produção capitalista é constituído de dois grandes períodos: o
primeiro, denominado de capitalismo concorrencial, tem suas raízes na Revolução
Industrial e estende-se até o final do século XIX. O segundo, o capitalismo monopolista,
tem seu embrião no final das últimas duas décadas do século XIX, amadurece na década
de 30 do século passado e, após a Segunda Guerra Mundial ganha o Estatuto de
Imperialismo. “A periodização adotada distingue uma fase do capitalismo concorrencial
(dividida em duas subfases) e uma fase de capitalismo monopolista ou imperialismo,
dividida na subfase ‘clássica’ e na subfase atual do ‘capitalismo tardio’. Ela distingue
também a Revolução Industrial original, em fins do século XVIII a qual se seguiram três
revoluções tecnológicas: a primeira iniciada em 1848, proporcionou a produção de motores
a vapor por meio de máquinas; a segunda, iniciada em 1896, levou ao desenvolvimento e
aplicação do motor elétrico e do motor a explosão; a terceira, iniciada em 1940 nos EUA e
em 1945 nos demais países capitalistas, produziu a regulagem de máquinas por aparelhos
eletrônicos (automação) e a energia nuclear” (MANDEL, 1985, p. X ).
40
As mercadorias precisavam percorrer as fases do processo produtivo em
menor tempo, pois os valores excedentes tinham que retornar à base produtiva inicial.
Neste sentido, os países que disputavam os espaços nos mercados nacionais chegaram
ao seu limite e, para não perecerem, mergulhando em uma crise intolerável de
superprodução. Tinham que, em primeiro lugar, escoar as mercadorias produzidas,
precisavam vendê-las. É neste momento que a corrida para ampliar o domínio dos países
colônias acirram-se, pois novos mercados precisavam ser descobertos. Primeiramente,
No limiar do século XIX estava "terminada" a partilha do mundo. A partir de 1876
as possessões coloniais aumentaram em proporções gigantescas: elas
passaram de 40 a 65 milhões de quilômetros quadrados, o que significa que
para as seis maiores potências se tornarem vez e meia mais importantes o
aumento é de 25 milhões de quilômetros quadrados o que significa que excede
em metade a superfície das metrópoles (16,5 milhões). Em 1876 três potências
não tinham qualquer colônia. Por volta de 1914, estas quatro potências
readquiriram 14,1 milhões de quilômetros quadrados de colônias, ou seja, uma
superfície quase uma vez e meia maior que a Europa, com uma população
aproximadamente de 100 milhões de habitantes (LÊNIN, 1982, p. 80).

Esses países (centrais), numa primeira instância, e por meio de acordos


internacionais eram "convidados" a fazerem parte deste projeto. Caso não
aceitassem e resistissem, os países centrais não vacilavam em colocar suas forças
físicas e seus arsenais bélicos para implementarem, a qualquer custo, o projeto
burguês. Este processo ocorria em dois sentidos: (1) assessorando ou municiando a
burguesia nacional dos países colônias para efetivarem tal propósito ou, (2) os
próprios países centrais faziam o movimento de invasão e dominação nos países
colônias. Criavam-se as indústrias de produção de bens duráveis e não duráveis.
E, para manterem esta situação de países dominantes, ao mesmo tempo, erguiam
a indústria cultural.

Na idéia de que o capitalismo é um modo de produção material espiritual se


contém a idéia de indústria cultural. A industria cultural do capitalismo começa
quando a produção cultural se organiza diretamente para possibilitar a reposição
das relações capitalistas de produção de forma continuada. Nessa ocasião, a
ciência ganha dimensões ideológicas, o pensamento das classes assalariadas
passa a ser informado de maneira cada vez mais intensa pelo pensamento
burguês. As idéias, as nações, os valores, os princípios e as doutrinas que
codificam a visão burguesa do mundo passam a ser produzidos e multiplicados,
em escala industrial e mundial, para atender às exigências da reprodução
ampliada do capital. O jornal, a revista, o livro, os folhetins, a música popular, o
filme, o rádio, a televisão, o teatro, a escola, todos os instrumentos e agências
de transmissão de informações e conhecimentos são envolvidos no amplo
processo de comercialização de mercadorias culturais (IANNI, 1979, p. 26).

Este momento da criação do capitalismo monopolista é gestado durante a


segunda metade do século XIX, atingindo sua maturidade sob as condições
monopolistas clássica, após a Primeira Guerra Mundial, durante as décadas de 20 e
30 do século 20. Suas premissas, já saturadas, contribuíram para que o cenário
fosse alterado. A Segunda Guerra Mundial passou a ser um fato real.

A pilhagem dos territórios chegou aos limites da civilização criando a


possibilidade de um império da barbárie em todos os sentidos: a Segunda Guerra
Mundial e seu desfecho levou, em um primeiro momento, à destruição uma parte
significativa dos países, principalmente, no que se refere ao seu habitat. E se não
bastasse o número de mortos, destruiu parte significativa dos espaços produtivos,
agiram como países receptores e consumidores de produtos manufaturados e, ao mesmo
tempo, também como fornecedores em abundância de matérias-primas.
criando um verdadeiro desarranjo social. 41 A reconstrução dos países afetados pela
guerra levou, em Bretton Woods, em 1944, à criação de dois organismos na
esfera financeira: o FMI e o BIRD.

O reordenamento do sistema monetário financeiro internacional no pós-guerra


teve como ponto de partida a Conferência de Breton Woods, pequena cidade do
Estado de New Hampshire, nos Estados Unidos, em julho de 1944. Nessa
conferência, da qual participaram delegações de 44 países, Os Estados Unidos
assumiram o papel de potência hegemônica do mundo capitalista. Além disso,
foram criadas duas organizações fundamentais destinadas a harmonizar a
economia mundial capitalista: o Banco Internacional de Reconstrução e
Desenvolvimento (BIRD), mais conhecido como Banco Mundial, e o fundo
Monetário Internacional (COSTA, 1986, p. 55).

Estes organismos, desenvolveram dinâmicas diferenciadas para


interferirem nas sociedades abaladas pela guerra. Porém, com o fim das décadas
do milagre, suas orientações sofreram modificações pois, o capitalismo, para
continuar crescendo e ampliando a taxa tendencial, média de lucro, precisou
adaptar-se a sua nova fase,isto é, a sua fase tardia.

Assim, retomando-se o ponto inicial - gestação da fase do capitalismo


monopolista clássico - ocorrem duas situações específicas: os limites postos pela
primeira revolução tecnológica e a criação do motor a vapor que chegava ao seu
término como instrumento determinante. Mas, os investimentos no campo das
ciências trouxeram ganhos significativos para o capital como, a criação e o
desenvolvimento do motor elétrico, e o motor a explosão. Do mesmo modo, na
esfera técnica, muitos avanços ocorreram possibilitando um alcance maior de
ganhos na produtividade, aumentando-se, assim, a quantidade de mercadorias
produzidas diariamente. Este movimento permitiu a apropriação, durante o processo
de produção, de um valor maior de mercadorias pois, tanto o capital morto como
vivo, foram/são aprimorados para fornecerem aos donos do capital um maior valor
excedente.

A Segunda revolução tecnológica, ocorrida no final do século XIX e início


do XX, possibilitou sedimentar os avanços significativos na base produtiva do
capital morto e vivo. Porém, exigia-se dos empresários monopolistas que
delimitassem, com maior precisão, os espaços conquistados. Essa lucratividade dos
monopólios criou condições para os mesmos ampliarem e difundiram as suas
marcas, propiciando-lhes a conquista de novos mercados equidistantes dos países

41
A pilhagem dos territórios, nos países colônia chegou nos limites da civilização.
Nestes momentos ficavam visíveis e materializava-se a lógica e a forma com que a classe
burguesa, detentora das manifestações modernas, usava para manter-se enquanto classe
dominante. A humanidade conheceu as proezas dos elementos que conduzem à barbárie,
tanto na Primeira, como na Segunda Guerra Mundial, ficou evidente que não há razão
quando a questão tem como finalidade a necessidade de manter o poder político e
econômico. O capital sempre usou desta prática. Na maioria das vezes este processo
ocorre regionalmente, em outras, alcança a esfera mundial. No campo político, saíram
vitoriosos os EUA e a URSS. E uma nova era se instaura: a reconstrução do que já estava
produzido e, ao mesmo tempo, celebra um novo contrato social entre o capital e o trabalho.
55

centrais. Dessa forma, acirram-se as lutas para se obterem maiores lucros: a


concorrência na esfera da produção e circulação leva à destruição muitas
empresas; algumas profissões são inexpressivas para atenderem à lógica de
mercado, ao mesmo tempo, outras são criadas; as forças de trabalho são obrigadas
a venderem suas habilidades e criatividades ao primeiro comprador. Com o
aumento do número de monopólios amplia-se o poder de compra dos empresários e
em locais, onde a organização operária padecia em seu "berço esplêndido", os
empresários criavam programas de arrocho salarial e aviltamento na exploração da
força de trabalho. Isso, sem dizer que o exército industrial de reserva aumentava
devido a dois movimentos: a) ampliação do êxodo rural e, b) aumento do
desemprego.

Em 1917, o movimento presente historicamente na base da sociedade,


instaurou nas U.R.S.S um projeto com dimensões emancipadoras. Este movimento
contribuiu para acirrar o grau de competição entre os monopólios, pois, a pilhagem
voltada aos países periféricos ganhava concorrência também nos países não
capitalistas. O mundo, em sua instância geopolítica, ampliava o grau de
complexidade em suas determinações. E os capitalistas sentiram-se pressionados
pelo novo, em dois sentidos: (1) pelas novas determinações geopolíticas
estabelecidas, cuja necessidade inerente do modo-de-produção capitalista era
dominar a maior quantidade e diversidade de matérias-primas para venderem seus
produtos manufaturados. Isto obrigava os "donos do capital", a revelarem seus
limites e as possibilidades enquanto países centrais; (2) devido a possibilidade
iminente de os países pobres aderirem ao projeto implantado na U.R.S.S, este
segundo movimento foi determinante para instaurar a Guerra Fria, o que levou os
E.U.A. a aperfeiçoar e incluir novos elementos nas formulações ideológicas que
sustentavam a Indústria Cultural. 42 O medo dos países capitalistas dominantes era
concreto: o projeto comunista abria caminhos para os países colônia libertarem-se
do jugo do capital.

A ameaça cultural chega à Itália e à Alemanhã. E, no interior do projeto


contra-cultural capitalista, gestou-se, na Itália, o Fascismo, e na Alemanha, o
Nazismo. A miséria da razão põe sua "cabeça para fora". O mínimo de sociabilidade
construída historicamente foi colocada em risco. A Segunda Guerra Mundial foi o
grande cenário que colocou todos os homens frente a um mesmo desfecho: o preço
pago pelos derrotados expressava o final da história da humanidade.

Esse cenário propiciou ganhos vantajosos nas esferas dos diferentes


ramos produtivos. O movimento prepara-se para melhor defender o próprio
território, povo e capital e acabou contribuindo para que a ciência e a tecnologia
alcançassem avanços expressivos. São construídos, em pleno período da Segunda
Guerra Mundial, os germes do desenvolvimento no campo das ciências voltados às
tecnologias. Conforme MANDEL (1985) a terceira revolução tecnológica ganha seu
espaço beneficiando a população mundial. O trabalho humano, simples e complexo,

42
"Para os norte-americanos, o mundo está dividido em países capitalistas e
comunistas. Toda diplomacia deve empenhar-se em evitar que cresça o número e a
influência dos comunistas sobre os outros, particularmente os dependentes do
imperialismo. Portanto, é indispensável que as teorias, os partidos políticos, os sindicatos,
as organizações e as lideranças que direta ou indiretamente possibilitam a ‘subversão
comunista’ sejam controlados e, sempre que possível, eliminados " (IANNI 1979, p. 38).
56

individual e coletivo coloca a sua centralidade mais uma vez em evidência na esfera
mundial. A microeletrônica e a energia nuclear presenteiam a sociedade com novas
descobertas. Estas contribuem para o avanço qualitativo e quantitativo da divisão
técnica do trabalho e, ao mesmo tempo, abre um leque de possibilidades para os
homens usufruírem dessas descobertas para a sua felicidade. O novo em
movimento, possibilita que o velho continue em movimento, mas o novo traz
contribuições significativas para as esferas da produção e social.

Dessa forma, com a finalidade de aprimorar os instrumentos de trabalho,


principalmente, no que tange à regulagem dos mesmos, alteraram-se, mais uma
vez na história do capitalismo, a planta produtiva. Isso possibilitou o aumento da
produção e, quando necessário, a qualidade das mercadorias. Porém, não foi no
período pós Segunda Guerra, até 1967, que os feitos da terceira Revolução
tecnológica trouxeram vantagens para o capital e para toda a humanidade. As
modificações que o modelo Fordista-Taylorista realizaram - adaptação e
implementação do controle numérico nas máquinas naquele momento -, ainda não
eram frutos das inovações propiciadas pela terceira revolução tecnológica.

O que dominou a dinâmica do período 1945/67 não foi nem uma nem outra
dessas inovações tecnológicas, mas a grande expansão das indústrias
produtoras de bens duráveis de consumo (sobretudo do automóvel), de produtos
petroquímicos, insumos industriais para a agricultura, de meios de transporte
(navios, aviões) e de armamento, além do grande crescimento da aviação
comercial, da mecanização da construção civil etc. Inegavelmente, esse período
foi dominado por notável dinamismo tecnológico, sobretudo pela criação de
novos produtos, mas nem a energia nuclear nem a automação podem ser
consideradas seus traços dominantes (MANDEL, 1985, p. XX).

O Fordismo-Taylorismo, modelo técnico e organizacional, criado no início


do século XX, atinge o seu estado de glória na produção de automóveis nas
décadas de 1950 e 1960. Os capitalistas e os trabalhadores foram presenteados
por alguns acontecimentos de extrema relevância: (1) os investimentos em bens
duráveis possibilitaram aos cofres capitalistas saudarem a boa nova, duas décadas
de glória. O capitalismo monopolista de fase tardia ganhou novas afirmações e a
lucratividade permitiu aos países centrais ampliarem a taxa tendencial média do
lucro em percentuais nunca presenciados; (2) ao mesmo tempo, o período pós -
Segunda Guerra Mundial, também foi glorioso para os trabalhadores que viviam nos
países que implantaram e implementaram o Welfare State. Os salários aumentaram,
as condições de trabalho eram plausíveis; (3) o desemprego foi controlado e tudo
parecia não chegar ao fim. A indústria cultural, fundamentada sob os referenciais
nazifacistas - darwinismo social – permitiram a apropriação de maior quantidade dos
esforços despendidos pela força de trabalho. Houve um momento em que até
permitiu-se ampliar os ganhos do capital. Ao mesmo tempo, os trabalhadores
receberam melhores salários e não ficaram, em sua maioria, fora dos postos de
trabalho. A classe trabalhadora cresceu, suas conquistas saíram da esfera
econômica e penetraram no âmbito político. 43
43
A resistência aumentou, mas a tolerância reprimida dos mandos da classe
dominante possui limites e, todos aqueles que se rebelaram, principalmente, quando
denunciavam a farsa do sistema, foram lisonjeados pela "tolerância repressiva." Em outras
57

Porém, como continuar crescendo sem a interferência da resistência da


classe trabalhadora? O mecanismo, conforme explicita FERNANDES (1989),
principalmente quando falamos de países colônia, ocorrem de duas maneiras:
através de golpe, seguido de governos ditatoriais; ou apresentando
sistematicamente planos econômicos milagrosos. Os monopólios complexificam e
chegam a almejar novas configurações: saem da esfera mais simples, que são os
cartéis e passam para as transações através das empresas Holding, formando,
assim, os grandes trustes.

Os altos índices de crescimento atingidos durante o período 1945/67, não


foram alcançados devido à naturalidade das relações estabelecidas neste período.
A classe burguesa usou, enquanto orientação micro-econômica, dois mecanismos
conhecidos pelos burocratas a serviço desta classe - a inflação e taxas de juros
elevadas: (1) criou-se mecanismos onde a taxa de inflação chegou a patamares
elevados. “De fato, a inflação é, essencialmente, uma inflação de moeda escritural,
de crédito portanto, uma expansão de dívidas...” (MANDEL, 1985, p. 275),
acompanhada das taxas altas de juros; (2) Os juros bancários também elevaram-
se a percentuais assustadores. Os países centrais e os países colônia ampliaram
suas dívidas, contribuindo com o enriquecimento maior dos países imperialistas.
“De todos os mecanismos de espoliação, o mais perverso foi o aumento da taxa de
juros. Entre 1966 e 1972 a média de taxa de juros internacional situou-se em 6,4%,
saltando para 10.5% em 1974. Esse processo de aumento avançou aceleradamente
até atingir, em 1981, 21,5%. Com essa política, foi possível ao imperialismo realizar
um dos maiores saques da história econômica moderna” (COSTA, 1986, p. 59).

Não tardou, porém, para que a taxa média de lucros caísse. O


investimento no capital fixo levou a uma superprodução que impossibilitava ganhar
novos mercados, diminuindo assim, a taxa de lucros. Os investimentos no capital
fixo - fruto da ação constante em busca de maior lucratividade - deixaram o capital
constante com maior taxa de investimento. Este fator levou ao aumento da
concorrência e à diminuição da lucratividade. Instaura-se mais uma crise no interior
do modo-de-produção capitalista monopolista, desta vez, no interior da sua subfase
tardia. Naquele momento, após 1970, uma crise recessiva ronda os segredos do
modo-de-produção capitalista, e tudo o que era sólido, desintegrou-se, porém, não
desapareceu.

A recessão generalizada expressa, portanto, de modo sintético, o esgotamento


da "onda longa expansiva" (que começou nos Estados Unidos em 1940, na
Europa Ocidental e no Japão em 1948, e durou até o final dos anos 60). (...) A
nova "onda longa" se caracteriza por uma taxa de crescimento média a longo
prazo sem dúvida inferior à metade daquela dos anos 50 e 60. Não se
encontrará antes de muito tempo a febre expansiva desses dois decênios.
Sobretudo, o que aparece na superfície, simbolizado por maio de 68 na França,
pelo maio "rastejante" na Itália, pelo processo revolucionário Português de
1974/75, pelo crescimento espetacular das lutas operárias na Grã-Bretanha e na
Espanha - fenômenos que se estenderão cedo ou tarde à RFA, ao Japão e aos
Estados Unidos -, é uma crise social do conjunto da sociedade burguesa, uma

instâncias, países periféricos, na luta cotidiana da construção de algumas premissas


básicas de humanidade, foram também apalpadas pelas estratégias militares contra-
revolucionárias.
58

crise das relações de produção capitalistas e de todas as relações sociais


burguesas, que se imbrica com a diminuição durável do crescimento econômico
capitalista, acentua e agrava os efeitos das flutuações conjunturais da economia,
e recebe por sua vez novos estímulos dessas flutuações (MANDEL, 1990, p. 13).

Os limites colocados pelas contradições, que são intrínsecas ao modo-de-


produção capitalista, alertam, periodicamente, os donos dos meios de produção e
apropriadores dos valores excedentes à necessidade de reavaliar a forma sob a
qual estão produzindo. Quando este movimento tornou-se assustador, a classe
burguesa, em conjunto com o Estado, obrigaram-se a baixar medidas que
interfirissem na centralidade das relações de produção e do social. E, algo se faz
notório, a crise é uma determinação concreta.

A crise possui um elemento central que perpassa o modo de produção


capitalista, desde os seus primórdios até os dias atuais. É a notável superprodução
de mercadorias. "A crise econômica capitalista é sempre uma crise de
superprodução de mercadorias. Essa não é nem uma simples aparência, nem o
produto de uma visão ideologicamente deformada. É uma realidade tangível que o
marxismo procura explicar, e não afogar em um palavrório pseudoteórico." 44
Produzindo, e não consumindo, instaura-se um processo de redução da massa de
mais-valia, acarretando uma queda na taxa média de lucro. 45

Na esfera da produção, o modelo técnico e organizacional fordista-


taylorista, colocado em movimento no início do século, explorou as potencialidades
presentes no trabalho vivo. A expressão um homem, uma máquina, exauriu-se em
seus limites. Ao mesmo tempo, nasce um novo embrião no oriente enquanto modelo
de relacionamento no campo da produção e nas relações sociais: o modelo
toyotista. Este novo modelo entra em cena e registra na história, mais uma vez, o
papel atribuído à classe burguesa. "A burguesia não pode existir sem revolucionar
permanentemente os instrumentos de produção - por conseguinte, as relações de
produção e, com isso, todas as relações sociais" (MARX; ENGELS, 1998, p. 8).
Este, após inúmeros ensaios e testes concretos conseguiu ganhar espaços durante
a década de 1960 e, com maior ênfase, a partir da década de 1970.

O modelo toyotista é colocado em movimento no interior do modo-de-


produção capitalista. Os princípios que fundamentam suas ações pautam-se em
conseguirem aumentar a lucratividade, ou seja, aumentar a extração da mais-valia
através do trabalho vivo. 46 Este movimento, fruto das descobertas propiciadas pela
44
É importante salientar que a superprodução de mercadorias acarreta a
superacumulação de capitais, trazendo duas consequências catastróficas para o sistema
em vigor: o subconsumo das massas e a queda da taxa média dos lucros (MANDEL, 1990,
p. 211).
45
MANDEL (1985, p. 92-93) demonstra-nos os períodos, a tonalidade principal, o
movimento dos componentes das mercadorias industriais e a origem destes movimentos.
Este quadro elucida-nos para entendermos periodicamente as ondas longas vivenciadas
no interior do modo de produção capitalista desde 1793 até 1967.
46
O movimento do modo-de-produção capitalista nas duas décadas de glória,
seja através do modelo Fordista ou Toyotista, encontrou uma determinação central, a qual
possibilitou acelerar a produção, ampliando a quantidade de produtos em menor tempo de
trabalho e, quando conveniente, aperfeiçoando a qualidade. Mostrando mais uma vez, o
domínio dos homens em relação à natureza, criando a possibilidade de apropriar-se delas
59

terceira revolução tecnológica e da energia nuclear, permitiu dar mais um salto


qualitativo e quantitativo no âmbito da produção. As máquinas ganharam ajustes
que possibilitaram revolucionar e ampliar a produção em larga escala, com maior
precisão, porém acompanhada da redução da força de trabalho nas plantas
produtivas.47

Mas, a crise que se instaurou após 1970 não permitiu que este arsenal
tecnológico e científico fosse colocado a serviço do capital em grau máximo de suas
potencialidades.

Houve uma diminuição constante dos investimentos produtivos e, por isso, uma
clara baixa da taxa de crescimento a médio e a longo prazos, o que demonstra
que nenhum ramo industrial "novo" - inclusive a microeletrônica, a robótica ou a
informática - se desenvolveu de maneira que pudesse substituir o papel de
estimuladores fundamentais da produção e do mercado que cumpriram o
automóvel, a construção civil, os eletrodomésticos e as máquinas destinadas à
semi-automação no período 1940/70 nos países anglo-saxões, e em 1948/70 na
Europa capitalista e no Japão (MANDEL,1990, p. 23).

O fato é concreto: o capital não pode colocar suas potencialidades ao seu


serviço. A contradição acena para os responsáveis pelo Projeto Burguês. Novos
desafios são colocados e os países imperialistas, para não perecerem e
continuarem acumulando, criam novos mecanismos que têm como meta atingirem
dois objetivos: (1) acabarem com a crise recessiva; (2) continuar acumulando.
Porém, esses objetivos requerem o enfrentamento ao famigerado e eterno germe da
contradição que é intrínseco ao modo-de-produção capitalista desde os anos que
registraram sua alvorada até hoje, a concorrência. "A palavra-chave desse regime
de economia internacional é ‘competitividade’. Nos mercados de bens de consumo
final, em particular, as empresas, apesar da diferenciação de produtos, estão em
situação de concorrência direta, quando não frontal" (CHESNAIS, 1996, p. 218).

Para atingirem os dois objetivos, o Projeto Burguês monopolista, no


interior da subfase tardia é obrigado a resgatar velhas táticas que, porém, ao serem
reaplicadas trazem em sua intimidade conteúdos assustadores. As táticas que são
utilizadas a partir do início do século XX, alcançaram níveis aperfeiçoados no pós -
Segunda Guerra Mundial e chegam aos seus limites a partir da década de 1970.
Dentre as táticas aplicadas, destacam-se:

(1) Necessidade de fundir o capital industrial com o financeiro. Conforme a


ciência e a tecnologia ampliam seus horizontes, os investimentos necessários a
serem aplicados na planta produtiva ganham valores vultosos. Em primeiro lugar,
devido aos valores das patentes; em segundo lugar, devido à necessidade que os
monopólios têm para continuarem no mercado, isto é, precisam investir altos
valores, inclusive na esfera não produtiva, pois a concorrência é fatal. Em outras

e de colocá-las a seu serviço.


47
. Este fato concreto ajuda-nos a entender que a crise do fordismo-taylorismo
não levou a retirar de cena o modelo em questão, ao contrário, até os dias atuais ele está
muito vivo enquanto lógica e forma do capitalismo monopolista de fase tardia, que é
continuar acumulando.
60

palavras, é necessário emprestar grandes volumes de dinheiro dos bancos,


antecipando os seus investimentos. Assim, obrigam todos os monopólios a
dirigirem-se até uma agência bancária e, a partir deste momento, formam-se
clientes especiais deste fenômeno chamado capital financeiro. "O caminho da
servidão" são os bancos. Ocorre uma complexificação entre a relação industrial e o
capital bancário. Essa nova modalidade é fruto do modo de produção capitalista
monopolista desde os seu primeiros suspiros, e alcançou graus de complexidade
após a Segunda Guerra Mundial. Os industriais entregam seus segredos, deixam
escapar o poder de sua produção e sua estrutura passa a ser dimensionada pelo
capital fixo e constante. Enfim, o que era um poder individualizado passa a ser
dividido com os donos dos bancos. Da mesma forma, os industrias também passam
a conhecer os meandros da esfera bancária. E não tardam a constituírem seus
próprios bancos.

A estreita ligação entre a indústria e o mundo financeiro restringe a liberdade de


movimentos das sociedades industriais que têm necessidade de capitais
bancários. Também a grande indústria encara com sentimentos diversos e
crescente trustificação (o agrupamento ou a transformação em trustes); com
efeito, podem observar-se frequentemente começos de acordos entre consórcios
de grandes bancos, acordos tendentes a limitar a concorrência.... Ao mesmo
tempo desenvolve-se, por assim dizer, a união pessoal dos bancos e das
grandes empresas industriais e comerciais, a fusão de uns com os outros, pela
compra de ações, pela entrada dos diretores dos bancos nos conselhos fiscais
(ou de administração) das empresas industriais e comerciais e vice-versa
(LÊNIN, 1982, p. 40).

Os monopolistas industriais também não se resignaram com um papel passivo


no processo. Começaram a investir em ações bancárias e alguns chegaram a
fundar seus próprios bancos. Nesse processo, os bancos começaram a ter
assento nas diretorias das empresas industriais e vice versa e o resultado disso
foi a fusão do capital bancário com o capital industrial e o aparecimento de nova
forma de capital: o capital financeiro que é a própria essência do imperialismo. A
partir disso, um pequeno grupo de capitalistas - a oligarquia financeira - passou a
exercer o domínio da economia mundial (COSTA, 1986, p. 15).

Ao mesmo tempo, a necessidade da união dos industriais com os bancos,


formando o capital financeiro, representa segurança para os capitalistas em
continuarem o processo de acumulação. "Num contexto de mundialização
financeira, de privatização e de desregulamentação, boa parte da capacidade de
proteger a inovação, a longo prazo, e de salvaguardar o investimento (em particular,
o investimento imaterial) está nas mãos do sistema bancário e financeiro"
(CHESNAIS, 1996, p. 122), que se torna mais poderoso e estratégico quando se
trata de mercado na fase tardia do capitalismo monopolista. Além de financiar
antecipadamente a produção, sua presença é fundamental para a aquisição de
matérias-primas, bem como na pesquisa.
61

O capital financeiro não se interessa apenas pelas fontes de matérias-primas já


conhecidas. Ele interessa-se igualmente pelas fontes possíveis; com efeito, nos
nossos dias, a técnica desenvolve-se com uma rapidez incrível e os territórios
hoje inutilizados, podem amanhã tornar-se utilizáveis graças a novos processos
(para tal efeito, um grande banco pode organizar uma expedição especial de
engenheiros, de agrônomos, etc), graças aos investimentos de capitais
importantes (LÊNIN, 1982, p. 83).

(2) Apropriarem-se em quantidade e qualidade das matérias-primas


existentes no planeta. Como as matérias-primas ocupam uma dimensão estratégica
no processo produtivo de concorrência acirrada, faz se necessário pilhar, com
maior precisão, os espaços geográficos que são ainda bolsões de riquezas de
matérias-primas. O universo que circunda a concorrência passa a conhecer com
nitidez as proezas que são usadas para se dominarem regiões inteiras. A razão
instrumental é o agente principal neste cenário. E, uma das saídas para enfrentarem
o germe da contradição foi voltarem-se mais uma vez para os países colônias e
apropriarem-se de suas potencialidades, porém em nenhum momento preocupam-
se com as consequências causadas por esta relação. “A concorrência
interimperialista tende sempre a acentuar-se quando a conjuntura econômica se
deteriora. É o momento em que o "egoísmo sagrado" destaca-se. Cada classe
capitalista "nacional" procura antes de tudo salvar-se, exportando suas dificuldades
e seu desemprego para o vizinho e para o concorrente" (MANDEL, 1990, p. 47).

(3) O capital é obrigado a reduzir a produção. Com uma base científica e


tecnológica de ponta no D1, aumentam a produção e diversificam-na. Por outro
lado, o mercado não consegue finalizar o processo produtivo: nasce a primeira
barreira, a dificuldade central que faz declarar publicamente a crise. É necessário
reduzir a produção e diminuir o potencial das máquinas e dos instrumentos de
trabalho, caso contrário, o número de falências seria exorbitante, pois a demanda
pela compra de mercadorias reduziu exponencialmente (MANDEL, 1990).

(3.1) Uma massa significativa de capital fixo não é colocada em


movimento, mas quando o tempo necessário de dormência é muito grande esta
massa de capital fixo fica obsoleta. Por isso, os capitalistas reduzem o investimento
na D1 e passam a direcionar parte destes valores na esfera da especulação. A partir
de 1967, observa-se uma tendência para a diminuição do aproveitamento da
capacidade produtiva. Em 1975 só foi utilizada 73,6% da capacidade instalada, mas
no período de maior intensidade da crise esse processo atingiu 70,9%. Que
significa isso? Antes de tudo demonstra que há um processo de enfraquecimento da
base econômico-capitalista, pois este é um fenômeno que se vem apresentando
com muita intensidade. Por outro lado, põe a nu o profundo desperdício de forças
62

produtivas na principal economia imperialista. 48 Sob esta lógica o desemprego é


automático.

Com a redução expressiva na esfera produtiva, o desemprego é automático,


chegando a alcançar índices jamais presenciados durante a existência do modo
de produção capitalista. No período pós-70 registram-se índices de desemprego
em dimensões estruturais. Durante o inverno de 1975/76, quando o desemprego
atingiu seu ponto culminante, o número total de desempregados oficialmente
reconhecidos no conjunto dos países imperialistas se aproximava de 17 milhões
(MANDEL, 1990, p. 15).

Atualmente, em primeiro lugar, o modo de produção dominante mostra à luz do


dia, de forma cotidiana, sua incapacidade de gerir a existência do trabalho
assalariado como forma predominante de inserção social e de acesso à renda.
Depois de ter destruído o campesinato e boa parte dos artesãos urbanos,
desertificando regiões inteiras, apelado para o exército industrial de reserva dos
trabalhadores imigrantes, criado concentrações urbanas desumanas e
inadministráveis, ele condena milhões de assalariados e jovens ao desemprego
estrutural, isto é, à marginalização, passando facilmente à decadência social
(CHESNAIS, 1996, p. 300-301).

(4) Flexibilizar a planta produtiva através dos modelos de intervenção


técnica e organizacional. Com as novas tecnologias em movimento, os ajustes nos
instrumentos de trabalho são realizados diretamente na máquina, sendo necessário
alterar a organização em algumas atividades. Os capitalistas aplicam novos
receituários referentes à utilização da técnica e à organização no trabalho. Mas, é
necessário flexibilizar as relações entre capital-trabalho. Para realizar tal façanha,
colocou-se em movimento o receituário neoliberal. Porém, não podemos nos
esquecer que foi interrompida umas das melhores fases de acumulação do capital
que é

...o resultado de dois movimentos conjuntos, estreitamente interligados, mas


distintos. O primeiro pode ser caracterizado como a mais longa fase de
acumulação ininterrupta do capital que o capitalismo conheceu desde 1914. O

48
A irracionalidade é fato concreto. Dentre as inúmeras formas utilizadas pelo
capital após a década de 1970, para continuar acumulando elegeu, por necessidade da
sua lógica, a fome. Para que os preços não diminuíssem e muitos capitalistas perecessem,
a saída encontrada foi causar a fome forçada. Este mecanismo mostra a essência do
Projeto Burguês (COSTA, 1986, p. 84). A coincidência da recessão e de uma grave
situação de fome na Faixa do Sahel (África) e em outras zonas do Terceiro Mundo teve
efeitos desastrosos sobre as populações envolvidas. Nada confirma melhor o caráter
irracional e desumano do sistema capitalista do que o fato de milhões de homens,
mulheres e crianças estarem gravemente subalimentados, correndo o risco de morrer de
fome, enquanto enormes recursos em máquinas, matérias-primas e mão-de-obra ficam
inutilizados. Com a ajuda dessas reservas, seria possível produzir os tratores, os adubos,
as bombas elétricas, os canais de irrigação, para aumentar rapidamente a produção de
víveres e alimentar os famintos, isso se a produção fosse regida pela satisfação das
necessidades e não pelo lucro (MANDEL,1990, p. 31).
63

segundo diz respeito às políticas de liberalização, de privatização, de


desregulamentação e de desmantelamento de conquistas sociais e
democráticas, que foram aplicadas desde o início da década de 1980, sob o
impulso dos governos Thatcher e Reagan (CHESNAIS,1996, p. 34).

(5) É necessário e determinante, conquistar novos mercados. Para vender


os produtos no mercado mundializado é necessário ter mercados atraentes. No
entanto, as pessoas precisam de poder aquisitivo para adquirirem as mercadorias.
Mas, o alto índice de desempregados acentua as dificuldades de se atingirem tal
meta. É neste momento que a classe dominante, comandada pelo capital financeiro,
entra em cena e solicita que algumas medidas sejam aplicadas nos países colônia.
É a marca da mundialização do capital.

Um número crescente de multinacionais impulsionou o deslocamento de centros


de produção para os países com salários médios ou mais baixos e/ou de preços
de matérias-primas menos elevados (entre os quais não é necessário somente
colocar os Estados mais desenvolvidos entre os países semicolônias e
dependentes, como também nações como a Espanha e algumas ditas
socialistas (MANDEL, 1990, p. 201).

(6) A lógica em acumular na esfera produtiva é invertida. Frente a situação


criada pelo próprio projeto, os valores extraídos da esfera da produção direcionam-
se, em sua maioria, para a esfera do capital financeiro. Os valores acumulados que
estão em seu poder são investidos no mercado na razão proporcional de 1 para 3.
Para cada dólar investido na planta produtiva, 3 dólares são investidos na ciranda
financeira. O mercado predominante é virtual e a materialidade presente na esfera
da produção está subordinada ao financeiro.

A esfera financeira alimenta-se da riqueza criada pelo investimento e pela


mobilização de uma força de trabalho de múltiplos níveis de qualificação. Ela
mesma não cria nada. Representa a arena onde se joga um jogo de soma zero:
o que alguém ganha dentro do circuito fechado do sistema financeiro, outro
perde, (...) o milagre da multiplicação dos pães não passa de miragem
(CHESNAIS, 1996, p. 241).

(7) Investimento volumoso na propaganda e outros mecanismos que


viabilizem escoar as mercadorias em grande quantidade e em menor tempo. Apesar
do poder que têm, não conseguem controlar a dimensão concorrencial, pois são
obrigados, a qualquer momento, na esfera produtiva ou financeira, investirem em
propagandas, em substâncias concretas de convencimento. "O grande crescimento
dos gastos de publicidade ao longo das últimas décadas, bem como a constituição,
nesse setor, de grandes companhias, expressando uma verdadeira potência
financeira, exprimem o lugar assumido pela concorrência oligopolista e pela
diferenciação de produtos, em particular no mercado de bens de consumo final"
(CHESNAIS,1996, p. 193). Essa necessidade amplia os gastos fora da esfera
criadora de valor, ou seja, enquanto produção. O investimento, para dar vazão na
64

esfera da valorização, amplia os gastos, criando uma redução na massa de mais-


valia acentuada.

(8) Mas, o mundo da política que permeia todas estas decisões também é
pensado e alterado. Durante as décadas de glória, o movimento operário ampliou,
universalizou suas ações. Enquanto embate direto, nos países centrais, suas lutas
ocorreram em duas dimensões: (8.1) reposição e aumento salarial, ao mesmo
tempo, abriu espaços para se implantarem novas formas de produzir e dimensionar-
se os resultados da produção. Embora, as conquistas tenham sido significativas, os
capitalistas ampliaram as oportunidades para cooptar uma massa de trabalhadores,
que desenvolvesse um papel importante, central, enquanto intelectuais da classe
dominante, por isso, investiu-se na indústria cultural. Nesse momento, os sindicatos
fortaleceram-se, ampliaram o número de associados, conquistaram inúmeras
vantagens sociais. Porém, muitos direcionaram suas ações para o mundo da
burocracia. Criaram entidades que, em suas particularidades, significavam uma
extensão da fábrica. Este movimento também ocorreu no Japão, principalmente
após as derrotas do movimento sindical, em 1952 e 1963, em que se instaurou o
Sindicato Empresa; (8.2) em outras localidades, como nos países periféricos em
crescimento ou totalmente dependentes, os Sindicatos foram neutralizados sob a
égide das ações concretas dos capitalistas. Como esses países representavam
espaços garantidos de produção, ou para a apropriação das matérias primas
necessárias para colocarem em movimento o grande capital, vivenciava-se, em
suas bases, um ataque constante da burguesia nacional, orientada pela
internacional para cooptá-los com a finalidade de interferirem em todas as
resistências apresentadas ao projeto dominante, fosse através dos planos
econômicos, fosse através da força.

Ocorre que a política cultural do imperialismo é elemento essencial das relações


imperialistas. Essa política produz e propicia os elementos culturais sem os quais
a apropriação imperialista não poderia funcionar; ou teria de funcionar em termos
diferentes. Quando o imperialismo possui uma política cultural flexível e
sofisticada, pode conquistar e cooptar aliados mais numerosos nos países
dependentes. Com maior facilidade as tarefas de operação das agências,
programas e empresas nesses países podem ser realizadas por nativos. Além do
mais, estes nativos podem preparar-se melhor para compreender as razões do
mundo livre, as virtudes da empresa privada, os aspectos positivos das inversões
estrangeiras, o caráter modernizante da empresa multinacional, a solidariedade
dos interesses das classes dominantes do país dependente com o dos país
hegemônico e a importância de isolar, segregar e eliminar idéias e, em muitos
casos, também as pessoas que lutam por soluções diversas para os problemas
de seu país. Na indonésia em 1963, no Brasil em 1964, na Bolívia em 1964 e
1971, na Grécia em 1967 e 1973, no Chile em 1973, para mencionar apenas
alguns exemplos,. Os golpes de Estado destinaram-se a eliminar idéias, partidos
e também pessoas, além de reformular o aparelho estatal e restaurar as
condições mais favoráveis à circulação e reprodução do capital privado,
particularmente estrangeiro (IANNI, 1979, p. 44).

Esses momentos ocorreram e continuam ocorrendo através da utilização


das milícias estatais e privadas. Ou quando o controle escapa totalmente de suas
mãos, os golpes são utilizados como armas mortíferas. Estes cenários que
65

expressam as duas determinações eram acompanhados, principalmente no pós -


Segunda Guerra Mundial, por uma avalanche contra-revolucionária e cultural
através dos aparelhos ideológicos privados e dos aparelhos de Estado e tinham a
preocupação de disseminar e tentar convencer as pessoas, pertencentes às
diferentes classes sociais, que o grande perigo que rondava as nações,
principalmente as mais pobres, era o espectro do comunismo. 49 A idéia principal era
reafirmar que o único projeto que permitia construir uma sociedade de iguais, livre e
fraterna estava sedimentada no projeto Burguês. Porém, a história registra o seu
fim, e mesmo sob esta lógica perversa de produzir e especular as diferentes formas
de organizar a prática, os movimentos operário urbano e rural marcaram suas
presenças, incessantemente, em 1949, na China, em 1959 em Cuba e em 1967 no
Chile. Os resultados desses movimentos criaram necessidades maiores ao capital.
Era necessário redimensionarem a forma e a lógica da pilhagem no mundo.

(9) O capital não tem pátria. Mas, o capital é uma expressão ontológica de
um projeto historicamente determinado. Um projeto de classe, um projeto societário
burguês. Como sua meta central e condição de existência é o lucro, o projeto
político e ético que fundamenta a sua manutenção e expansão é a concorrência.
"Todos são livres no mercado, os competentes sobreviverão."

Assim, para encurtar os caminhos íngremes que invadem o mercado,


enquanto dimensão contraditória expressa na figura da concorrência, os capitalistas
criam mecanismos que possibilitam ampliar os valores excedentes em cada
mercadoria: investem significativamente em falsas teses, abrem caminhos dentro
dos marcos democráticos para flexibilizar, para alterar na raiz as conquistas
históricas da classe trabalhadora.

Quem não ouviu repentinamente - sobretudo na França - sobre a saga da


"modernização", a importância vital de criar novos produtos, adotar "novas
tecnologias”, o que asseguraria automaticamente uma nova expansão. Tais
arautos da "economia de oferta" ( ou, se quiser, todos esses discípulos de Jean-
Baptiste Say, isto é, economistas vulgares da primeira metade do século XIX).
Esquecem um pouco depressa que, para prosperar, uma indústria capitalista
deve não somente produzir, mas também vender. Qualquer panóplia das novas
"tecnologias" não servem muito se não permitir vender a melhor preço do que o
concorrente (MANDEL, 1990, p. 252).

Mas, as leis eternas que comandam o mercado não conseguem reagir às


fissuras em suas estruturas. A década de 1970 acolhe o despertar de mais uma
crise de onda longa recessiva do capital.

1.3.1 A Inflexão do Projeto Capitalista na Década de 1970

49
“Na história do imperialismo, tomada em conjunto, o darwinismo social é
colocado em segundo plano, ganhando preeminência o anticomunismo. Sob as mais
diversas modalidades (econômica, política, militar, cultural) o anticomunismo passa a ser o
novo núcleo ideológico da indústria cultural do imperialismo" (IANNI, 1979, p. 34).
66

Os dados estatísticos pesquisados na década de 1970 apontam para


resultados que indicam que a economia deixou de crescer 50 e, ao mesmo tempo a
inflação começa a alçar vôos que inquietam os líderes mundiais representantes das
grandes potências. Neste ínterim, enquanto a estagflação aumenta a instabilidade
política e a econômica do mercado. Dois acontecimentos, no mesmo espaço
temporal, incorporaram as transformações em curso: (1) a terceira revolução
científica e tecnológica que teve sua origem durante a segunda Guerra Mundial,
apresenta alguns dos seus resultados na esfera da produção à sociedade, com
destaque à presença da robótica, da automação e da microeletrônica; (2)
isoladamente, os Estados Unidos, em 1971 rompem, autoritariamente, com o acordo
de Bretton Woods 51 que fora celebrado em 1944. A partir deste momento, tudo o que
parecia ser confiável e seguro, deixou de ser, e as potências centrais e,
principalmente, os países periféricos foram atingidos em suas bases econômicas,
trazendo conseqüências drásticas nas diferentes instâncias das relações políticas,
principalmente, social. 52

A crise na centralidade do modo de produção capitalista, somada à


reestruturação na base produtiva em movimento e as decisões política e econômica
anunciadas e efetivadas pelos Estados Unidos em 1971, e aprofundadas em 1979,
alteraram os rumos gerais e específicos do projeto burguês. Em 1971, os Estados
Unidos suspenderam a convertibilidade e desvalorizaram a moeda econômica
rompendo com o acordo de Bretton Woods; em 1979, o mesmo império liberou e
desregulamentou os mercados financeiros nacionais, principalmente com a
aplicação da medida que elevou as taxas de juros americanas. 53
50
No período entre 1950-1973, a taxa de crescimento do PIB real, nas principais
economias capitalistas (EUA, Grã-Bretanha, Japão, França e Alemanha)s médias anuais
de crescimento do produto (PIB) mundial atingiram a média o percentual de 4,9%7. No
mesmo período, o PIB real per capita foi de 3,8% e as exportações atingiram o percentual
de 7,2%. Porém, entre os anos de 1973-1990, o PIB real mundial caiu para o percentual
de 2,58%. O PIB per capita caiu para 1,9% e as exportações para 3,9%. Estes dados
mostram a contração econômica em movimento, contrariando os fundamentos da retórica
da globalização e do projeto neoliberal (GONÇALVES; POMAR, 2000, p. 43-44).
51
“...No verão boreal de 1944 e diante da iminência de uma segura vitória militar,
os aliados convocaram (na realidade, obedecendo a uma forte pressão norte-americana)
uma conferência monetária e financeira para estabelecer as orientações do ‘liberalismo
global’ que haveria de prevalecer na emergente ordem mundial do pós-guerra. A reunião
teve lugar em Bretton Woods, New Hampshire, quando as notícias triunfais do
desembarque da Normandia renovavam as esperanças de um pronto desenlace nas
frentes de batalha. Temas fundamentais da conferência – que assistiram 44 países,
incluindo a União Soviética – foram à elaboração das novas regras do jogo que deveria
reger o funcionamento da reconstituída economia mundial e a criação das instituições
encarregadas de assegurar sua vigência” (BÓRON, 1995, p. 91-92).
52
O acordo foi rompido. As mudanças das negociações que ocorreram na
década de 1970, não seguiram os mesmos procedimentos que foram efetivados em outros
momentos históricos anteriores, em que o próprio capitalismo entrou em crise em sua base
econômica e política. Os Estados Unidos mostraram ao mundo seu poder hegemônico
militar e econômico ao assumir e executar uma ação posição individual e autoritária.
53
Os EUA redimensionaram o poder hegemônico na esfera da economia e da
política através de dois elementos na década de 1970: “...O primeiro deles é o controle
sobre as finança mundial, que se tornou devastador a partir dos anos 70, quando os
Estados Unidos rasgaram unilateralmente o Tratado de Bretton Woods. Desde então, o
dinheiro mundial passa a ser emitido pelo Estado norte-americano sem a obediência a
A decisão política e econômica em 1971, foi decisiva para mudar as regras
do jogo, no entanto,

o ano de 1979 pode ser tomado como marco da construção de uma nova ordem
econômica mundial. Naquele ano, ao final do governo de Carter, o presidente do
Fed, Paul Volcker, retirou-se da reunião mundial do Fundo Monetário
Internacional anunciando que não seguiria mais a sua orientação e dos demais
países industrializados, que tendiam a manter o dólar desvalorizado frente às
demais moedas. Declarou que o dólar manteria sua condição de moeda
internacional. Para isso elevou dramaticamente a taxa interna de juros, dando
início não só à revalorização do dólar frente às demais moedas, mas também a
um processo recessivo que atingiu tanto a economia norte-americana como o
resto do mundo nos primeiros anos da década de 80 (SALLUM JUNIOR, 2000a,
p. 423).

Com esta medida, os Estados Nacionais fragilizaram-se, sendo possível


verificar na prática, durante as décadas de 1980 e 1990, o grau acentuado da
subordinação destes em relação ao mercado financeiro, hoje, comandado pelas 200
maiores empresas transnacionais instaladas nos países capitalistas e concentradas
no mercado comum Europeu, no Japão e nos Estados Unidos.

Esses acontecimentos, decisões econômicas e políticas, contribuíram


para que o capital financeiro se colocasse como o centro das deliberações,
comandando as novas regras do jogo no mercado e na política 54 e criando novas
regras de convivência entre capital-trabalho, tanto entre países centrais e
periféricos como entre o mercado internacional e nacional. Esse novo
direcionamento aprimorou-se, nas décadas de 1980 e 1990, criando situações
particularizadas. Os países periféricos renderam-se aos propósitos e exigências da
“globalização”55 ampliando o grau de subordinação e dependência.

nenhuma regra de emissão, ou seja, de forma completamente dissociada dos circuitos


produtivos reais. Com o fim da paridade fixa e da conversibilidade do dólar em ouro, os
Estados Unidos passaram a exportar para o mundo, maciçamente, moeda internacional
sem lastro. Transformam-se em um Estado rentista. O sistema de taxas de câmbio fixas e
ajustáveis se desestrutura. Começa então – por interesse do Estado nacional hegemônico
– o enlouquecido processo de financeirização da riqueza que está na raiz da ‘globalização”
(BENJAMIM, 1998, p. 132).
54
As principais economias do mundo (Alemanha Ocidental, França, Itália, Reino
Unido, Estados Unidos e Japão) tiveram um crescimento do produto per capita médio no
período 1961-1970 no valor de 4,96%, enquanto que no período 1981-1990, a média caiu
para 1,98%.
55
Com a decisão arbitrária dos Estados Unidos em relação ao acordo de Bretton
Woods, o sistema de regulação existente ganhou novas determinações. “...Esse regime de
regulação começou a desagregar-se no início dos anos 70 com a mudança do sistema
monetário internacional – desvinculação entre dólar e o ouro e introdução de taxas
flutuantes de câmbio – e uma seqüência de acontecimentos que minaram os seus
supostos. A partir dessa época começaram a aflorar com intensidade crescente os
fenômenos usualmente associados à noção de globalização, entendida em termos
econômicos: os investimentos diretos estrangeiros e os fluxos de comércio exterior. De um
lado, esses fenômenos colocaram em xeque as instituições legadas pelo antigo regime, e
de outro começaram a conformar, parcial e desigualmente, uma nova forma de
É nesse cenário que o capitalismo tardio efetivava, mundialmente, uma
verdadeira inflexão na economia e na política obrigando seus sócios diretos e seus
clientes à reordenarem suas bases de sustentação e acumulação de capital. O
caminho para colocar em prática as novas regras na esfera econômica e política,
foram apresentadas e implementadas por meio do receituário neoliberal.

1.4 O AJUSTE NEOLIBERAL MUNDIAL56

A crise que envolveu o modo de produção capitalista tardio, na década de


1970, estende-se até os dias atuais e criou um verdadeiro mal estar à classe
burguesa dos países centrais. Após conviverem com momentos “gloriosos”, desde o
pós - segunda Guerra Mundial, depararam-se com um novo fantasma produzido
pelas regras econômicas e políticas de classe manifestas no mercado: a queda da
taxa tendencial média dos lucros. 57 A crise estava instaurada. As medidas
econômicas e políticas deliberadas para alterar a base produtiva e especulativa
encontravam-se em movimento e abriram um novo cenário ao projeto burguês. Era
o embrião para o despertar da “globalização” capitalista em um novo momento
histórico.

Tais elementos exigiam que as grandes potências, através das instâncias


deliberativas, colocassem novas regras aos Estados Nacionais e às empresas que
operam no mercado. Neste momento – década de 1970 –, o neoliberalismo foi
adotado como um receituário, capaz de viabilizar ações objetivas para que a taxa
tendencial média de lucros retornasse ao cenário com valores desejados igual ou
maior, ao período “glorioso”. Esse receituário neoliberal desenvolveu suas
premissas básicas durante a década de 1940, amadureceu e ampliou o número de
adeptos durante as décadas de 1950 e 1960. Durante a década de 1970 e
seguintes, ganhou espaço e foi adotado pelos “donos do poder” mundial.

Na década de 1970, o Chile, - primeiro laboratório na América Latina -


colocou em prática a experiência. Este mesmo receituário foi aplicado na Bolívia
(1985), México (1988), Argentina e Venezuela (1989) e na década de 1990, no
Brasil. Na esteira das potências centrais, a vitrine do projeto foi implantada nos
Estados Unidos e na Inglaterra, em 1979. O governo de Reagan, nos EUA, e o
governo Thatcher, na Inglaterra, tornaram-se as âncoras do projeto neoliberal nos
países centrais.

organização do capitalismo mundial” (SALLUM, 2000b, p. 135).


56
O ajuste neoliberal “...não é apenas de natureza econômica: faz parte de uma
redefinição global do campo político –institucional e das relações sociais” (SOARES, 2000,
p. 12).
57
No período, 1960-1973, as taxas médias anuais de crescimento do PIB,
emprego, produtividade, demanda e acumulação – nos EUA e União Européia – atingiram
os índices percentuiais: 2,2; 5,4; 3,7; 5,2; e 6,3. Porém, no período, 1980-1999, os índices
apontam a crise em movimento. Os números acusaram, na mesma seqüência, 1,0; 2,6;
0,9; 2,5 e 2,9. O berço central do capitalismo deixou de acumular neste último período, 3,4,
expressando uma perda comparativa ao período anterior, de 531%. A crise está instaurada
e não mostrou ainda sinais de recuperação (OECD ECONOMIC OUTLOOK, in: MATTOSO,
1999, p. 32).
69

Os mandarins do projeto neoliberal, decisivamente, apontavam a luta e as


conquistas dos trabalhadores como responsáveis pelo desequilíbrio das relações
estabelecidas entre capital-trabalho. O poder excessivo e nefasto alcançado pelos
sindicatos; os salários altos e a ampliação dos direitos sociais causaram um grande
déficit nos cofres dos governos - gastos maiores em relação ao que recebiam -,
culminando com uma enorme crise fiscal em todo os Estados Nacionais. Conforme
Goran Therbon e Joop Roebreek, "...no final da década de l970 a renda provinda
do governo nos países de OCDE era substancialmente mais alta que o total de
lucros das empresas. É esta transferência de fundos do setor privado para o público
que é considerado a raiz do problema, da estagnação em nossas economias
ocidentais" (NAVARRO, 1991, p. 192).

Essa situação, segundo os neoliberais, inviabilizava qualquer


possibilidade de o capitalismo retomar o crescimento. Para resolver o problema em
voga, uma contra-revolução -com fundamento monetarista -, é colocada em prática
em oposição à política keynesiana. Algumas ações conjugadas foram deliberadas:
(1) realizar uma contração monetária; (2) eliminar o Estado como agente
econômico; (3) reduzir amplamente o tamanho do Estado e dos gastos sociais; e,
(4) liberar totalmente as regras dos mercados. Tanto o governo de Reagan como o
de Thatcher empregaram, em proporções diferenciadas, esta nova política.
Destaca-se que, em ambos os governos e demais países capitalistas, o discurso
mais enfatizado nessas últimas décadas esteve voltado para a "privatização das
empresas estatais". Porém, os governos, Reagan e Thatcher, para resolver os
problemas mais crônicos que os inquietavam, interferiam constantemente no
mercado, isto é, ambos resolveram seus problemas mais difíceis de ordem
econômica com instrumentos liberais clássicos e Keynesianos. A essência desta
falácia é mais visível no governo de Reagan. Este, "...tem sido um dos mais
intervencionistas do mundo capitalista ocidental, e sua política tem sido
Keynesiana" (NAVARRO, 1991, p. 205). Enquanto isso, na Inglaterra, a era Thatcher
foi marcada por uma guinada extrema de um governo de direita que conjugava
ações keynesianas e neoliberais. "A solução adotada é oferecer uma aparência de
individualismo de mercado, juntamente com a realidade de uma política de
desigualdade e a manutenção do poder de classe e da dependência familiar. A
intervenção estatal não foi cortada, mas sim redirecionada. As novas e radicais
guinadas políticas revelam ser nada mais que a velha direita com trajes modernos"
(TAYLOR-GOOBY, 1991, p. 185).

Com esse comportamento os Estados Unidos e a Inglaterra mostram que,


na esfera do mercado, o Estado continuou aperfeiçoando seu papel de controlador
das relações de trabalho como o guardião do direito da propriedade privada,
agindo, todas às vezes que solicitado, por meio de leis, medidas provisórias ou
outros mecanismos que competem à sua jurisdição, ou, como é mais usual, em
períodos de crise, com a utilização da força policial. Suas ações, para controlar as
relações estabelecidas entre capital-trabalho, são realizadas com muita eficiência
quando os beneficiados das reivindicações são os trabalhadores. No entanto,
quando as questões em debate são os preços, o Estado possui dificuldades para
controlá-los. Não é possível deixar de afirmar que, após 1970, devido às
necessidades especiais do Estado em ampliar o grau de intervenção na economia,
explicita-se com maior transparência a sua figura enquanto um Estado de classe.
70

No capitalismo de hoje, diga-se de passagem, as finanças do Estado constituem


elemento fundamental para a redistribuição de renda em favor dos monopólios.
Desde o aparecimento do capitalismo monopolista de Estado que este vem
aumentando em ritmo acelerado sua participação no conjunto da renda nacional.
Se no período da Primeira Guerra Mundial essa participação se situava, nos
principais países capitalistas, em torno de 15%, no início da década de 70 esse
percentual aumentou extraordinariamente: na Inglaterra representa 50%, na
França cerca de 45%, na Alemanha 35% e nos Estados Unidos e Japão cerca de
20% (COSTA, 1986, p. 35).

Essa nova perspectiva de governo e de viabilidade para desenvolver o


capitalismo monopolista tardio e, ao mesmo tempo, dar uma resposta à crise que os
inquietavam, trouxe perdas significativas para a classe trabalhadora e outras
frações de classe. O resultado não tardou a apresentar-se: neste novo contexto, na
Grã-Bretanha, a composição clássica de classes foi alterada, e novas subclasses
foram sendo constituídas dentro do proletariado e da burguesia contribuindo
decisivamente para a diminuição e redestribuição dos lucros que, em conseqüência,
aumentou a concentração de capital entre os ricos. 58 Além desse resultado negativo
para a classe trabalhadora, ao reduzirem-se os gastos públicos na esfera social,
parte dos investimentos transferiu-se para o setor privado.

Após duas décadas de neoliberalismo, os resultados já mostram um grau


significativo da falência da proposta. De um lado, encontram-se os países
imperialistas cada vez mais ricos e, dentro destes próprios países, constata-se o
aumento da desigualdade social entre classes. “...Os EUA não são o único entre os
integrantes do G-7 (sete países mais ricos do mundo) que ocupa posições inferiores
no ranking do IDH. O Reino Unido que antes estava em 10º agora está em 14º
lugar, a França estava em 12º e agora consta em 13º, a Alemanha, que ficava em
14º agora fica em 17º, e a Itália, passou de 19º para 20º ” (PNUD, 2001).

Além disso, de acordo com GONÇALVES e POMAR (2000), a dívida


externa total dos países da América Latina em 1980 era de US$ 257,3 bilhões, em
1997 estes valores atingiram os valores de US$ 644,6 bilhões e o crescimento
atingiu a casa dos 250%. Estes dados mostram o distanciamento dos países
periféricos em relação aos países centrais quando medimos e comparamos o
resultado final do Produto Interno Bruto:

Como conseqüência de crescimentos desiguais, as defasagens brutas de renda


entre as regiões aumentaram. Se em 1960 o PIB per capita dos países
desenvolvidos era PPP US$ 6.000,00 maior do que o do extremo oriente e
Pacífico, em 1998 essa diferença chegava a PPP US$ 13.000,00, a despeito de
um crescimento percentual mais rápido dos países orientais (PNUD, 2001).

Em contrapartida o aumento do desemprego, da pobreza, da


desumanização em todos os sentidos, é alarmante:

58
OECD ECONOMIC OUTLOOK. In: DIEESE (2000-2001, tabela 67). Taxa de
desemprego na OCDE. Países selecionados 1990-1198. O desemprego, nos países ricos,
atingiu a média de 7% em 1990, porém em 1998, o índice médio elevou-se para 8%.
71

A região do Pacífico e do extremo oriente, onde destaca Japão, Coréia do Sul e


Austrália, teve um progresso rápido e sustentado em quase todas as dimensões,
enquanto o sul da Ásia e a região sub-saariana da África permanecem muito
atrás das demais áreas do planeta. O analfabetismo nessas regiões ainda é de
45% e 40%, respectivamente, muito acima da média dos países em
desenvolvimento. A expectativa de vida nos países africanos ao sul do deserto
do Saara ainda é de apenas 48,8 anos, enquanto é maior de 60 anos em todas
as demais regiões do mundo. E o percentual de pessoas vivendo com menos de
PPP US$ 1,00 por dia chega a 46%, contra 15%, por exemplo, na América
Latina.

Ao mesmo tempo, os países periféricos, distanciam-se cada vez mais dos


países centrais quando comparados à situação de crescimento do PIB e do PNB e
do aumento de dependência quando se fala em dívida externa.

O modelo neoliberal, além de não resolver os problemas colocados pelo


próprio modo de produção capitalista, expressa sinais concretos de regressão
social. Segundo José Paulo NETTO (1993), em seu ensaio "Crise global
contemporânea e barbárie", a situação em que a sociedade humana se encontra
hoje é dramática, pois,

...a crise global que marca peculiarmente as três últimas décadas deste século
revela-se, plena, na crise do Estado de bem-estar e na crise do "socialismo real",
as duas conformações societárias que, cada uma ao seu modo, procura
soluções para os antagonismos próprios à ordem do capital. Nestas duas crises,
elas mesmas muito distintas, a crise global mostra a sua dramaticidade - que se
expressa com possibilidade de regressão social, de que o chamado
neoliberalismo é sintomática.

Nesse contexto, início de século XXI, as perspectivas não são promissoras


dentro da ordem que está estabelecida e a sociedade sofre conseqüências
drásticas do modelo econômico capitalista e com a falência do modelo "socialista
real".

Por isso, pode-se dizer que: ‘como as pessoas trocam de roupa todos os
dias’, a retórica econômica e a política do receituário neoliberal cumprem o mesmo
ato. Isto porque, distante de qualquer construção científica seus fundamentos são
evasivos, embora se utilizem dos meios de comunicação para mostrar que uma
verdade hoje, pode não ser amanhã, pois são alteradas conforme a vontade
especulativa do momento e atendendo aos interesses do projeto burguês,
principalmente do capital financeiro. E, nesses momentos, é nítida a eliminação dos
fundamentos científicos, porque prevalecem os argumentos especulativos. Portanto,
contradições, que possuem raiz histórica, e que explicitam o resultado das opções
realizadas por um projeto de classe, são resolvidas por meio de modelos
microeconômicos, cujas fórmulas são construídas em laboratórios e que se
deslocam segundo as relações materiais, ganham vida e decidem o destino da
humanidade.
72

Embora os ajustes tenham sido feitos conforme o país ou região


continental de forma a responder aos anseios do projeto maior, o burguês, depois
de duas décadas de vigência, o receituário neoliberal foi um fracasso na esfera
econômica e social – no entanto, na política o sucesso foi surpreendente. O
neoliberalismo conseguiu entrar, ficar e causar transformações nas mentes e nos
corações dos homens e mulheres em todas as sociedades capitalistas que o
adotaram. Conscientes ou não, por opção ou obrigados, o projeto neoliberal
consolidou-se enquanto uma ideologia viável, verdadeira, única, soberana e última,
de forma homogênea. Apesar dos dados materiais, reais e concretos, apontarem as
conseqüências destruidoras que este projeto está causando para a sociedade, em
específico à classe operária e demais frações da classe trabalhadora, esta não
conseguiu, ainda, apresentar um projeto alternativo que destrua o projeto burguês e
consolide um novo projeto e uma nova sociabilidade. Não é possível negar que a
realidade e o real apresentam, ao mesmo tempo, horizontes que o homem não
consegue enxergar porque, não possui soluções imediatas para resolver a
problemática que inquieta o mundo: desigualdades em todas as esferas da vida.
Segundo GORENDER (1993), a saída, “encontra-se na elaboração e
desenvolvimento de uma proposta alternativa, que só será possível de ser realizada
se os homens neste final de século e inicio do próximo, colocarem em prática os
princípios que fundamentam a construção de uma sociedade democrática.”

Tratou-se até aqui dos pontos fundantes da construção e do


desenvolvimento do projeto burguês de produção material e reprodução social com
seus eixos antagônicos e contraditórios na relação estabelecida entre capital-
trabalho. No próximo capítulo, tentar-se-á encontrar respostas para a “questão
social” que teve sua origem no século XIX, no interior das relações estabelecidas
entre capital-trabalho.
CAPÍTULO 2
“QUESTÃO SOCIAL” :
PERSPECTIVAS ANALÍTICAS

As categorias são formas de ser,


determinações da existência.

Karl Marx
CAPÍTULO 2

“QUESTÃO SOCIAL”: PERSPECTIVAS ANALÍTICAS

A “questão social”, fruto da contradição intrínseca da relação capital-


trabalho, foi estabelecida e intensificada no interior da sociedade capitalista,
principalmente nas principais cidades da Inglaterra e da França xvi e de outros países
capitalistas em desenvolvimento. Essa manifestação causou angústia e insegurança
econômica, política e social nas diferentes relações entre classes e, se não
bastasse o fantasma das expressões da “questão social” a classe burguesa
deparou-se ao mesmo tempo, com outra contradição em movimento. Após 1830,
em virtude dos interesses diferenciados em relação às demais classes sociais
estruturadas, “...o proletariado surge na história como classe autônoma, em-si e
para-si, capaz de resolver em sentido progressista as novas contradições geradas
pelo próprio capitalista triunfante” (COUTINHO, 1972, p. 8). 59

O protesto operário descreve uma curva ascendente até os anos quarenta.


Conquistada a legalidade da organização sindical na Inglaterra (1824),
manifesta-se na ilha a tendência operária à associação: multiplicam-se as
uniões, federações, etc., que serão catalizadas, entre 1838 (data da publicação
da Carta do Povo) e meados da década seguinte, pelo movimento cartista, cuja
experiência constitui o primeiro legado para os futuros partidos políticos
operários. No continente, em troca, respira-se, desde o Congresso de Viena
(1815), a era Metternich: repressão e censura. É isto o que, acrescido à
defasagem dos ritmos de crescimento industrial na ilha e no continente, explica o
baixo nível de organização do protesto operário. A única exceção é a França,
especialmente Paris, onde eram mais amplos, comparativamente, os espaços
para a tematização política. Mas o controle rigoroso da movimentação operária,
somado à tradição jacobina, dão ao protesto operário francês – cuja
combatividade demonstra tanto em julho de 1830 quanto, especialmente, nas
revoltas lionesas em 1831 e 1834 -, contudo, a configuração conspirativa: o veio
carbonário permanece , as ‘sociedades secretas’ se generalizam e tenta-se o
golpismo (1839). Na Alemanha, a repressão mais brutal reduz o protesto operário
a níveis mínimos (a sua organização se efetivará, realmente, no exílio), mas não
consegue impedir a eclosão de choques violentos (Silésia, 1844) (NETTO,
1985a, p. 13).

A situação tornou-se generalizada devido ao como resultado da


contradição existente entre a relação capital-trabalho. Em vista disso, a classe
burguesa, em processo de consolidação, foi obrigada a reconhecer a existência dos
novos atores – os operários – sofrendo as conseqüências da realidade social e
obrigou-se a tomar medidas repressivas para atenuar a explosão social em
movimento conforme ENGELS (1985a, p. 134). Assim, para garantir-lhes a
segurança física, bem como para salvaguardar as suas propriedades, os Estados,
por meio da representação dos seus governantes, foram convocados a criarem
ações que respondessem às mazelas que incomodavam e ameaçavam a vida

59
Ver também HOBSBAWM (1977, p. 234-235)
75

cotidiana das pessoas, em especial, dos proprietários e familiares que se


apropriavam dos meios de produção.

A saída foi criar mecanismos institucionais que garantissem a segurança


nas esferas pública e privada, pois as ruas das cidades eram freqüentadas por
homens, mulheres, jovens, adultos e idosos que perturbavam a ordem e colocavam
em risco a saúde da classe burguesa. A orientação seguia alguns procedimentos:
reprimir, prender ou matar todos os infratores da ordem estabelecida; retirar os
idosos, adultos e crianças que ficavam mendigando pelas principais ruas das
cidades; impedir que a prostituição continuasse ferindo a moralidade das famílias
cristãs dos capitalistas. Quando a ordem estava correndo perigo, o único diálogo
era a repressão praticada pelos representantes orgânicos da classe capitalista em
processo final de consolidação, conforme ASHTON (1971, p. 163-168).

Porém, havia situações em que era impossível calar-se frente às


contradições presentes na materialidade cotidiana, e isto possibilitou que “novos e
velhos atores” entrassem em cena. Nesses momentos, a classe burguesa não tinha
dúvidas, substituía os mecanismos diplomáticos pelos repressivos colocando em
prática a sensibilidade de uma classe egoísta, cuja única e verdadeira meta era a
extração da mais-valia. Esse Estado de classe, foi convocado para atuar por meio
da força repressiva, fora cunhado como agente moralizador e garantidor da ordem
social colocando, portanto, sua irracionalidade a favor da classe que representava
ignorando os valores liberais, resultados da cultura e legitimados na carta dos
direitos humanos como “...fruto da luta contra o acaso do nascimento, contra os
privilégios que a história, até então, vinha transmitindo hereditariamente de geração
em geração“ (MARX, [19-?], p. 38).

Na França e na Inglaterra, logo em seguida aos festejos da conquista


histórica da carta dos direitos humanos, a classe burguesa não vacilou e explicitou,
nos dois países, quais eram seus interesses de classe. 60 “...A lei de 1799 dispunha
que qualquer pessoa que se reunisse a outra para obter um aumento de salários ou
redução de horas de trabalho fosse levada a juízo e, sendo provada a culpa
consciente, condenada a três meses de prisão” (ASHTON, 1971, p. 161). 61

Nesse momento, todos os que se rebelaram conheceram os atos bárbaros


presentes nos instrumentos de repressão manejados por trabalhadores fardados,
porém, a serviço da classe dominante. Muitos trabalhadores pagaram um preço alto,
pois suas vidas foram ceifadas em nome da ordem e do progresso da sociedade
moderna. A contradição presente, intrínseca em qualquer objeto, levou a própria

60
“...Mais especificamente, as exigências do burguês foram delineadas na
famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Este documento é um
manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a
favor de uma sociedade democrática e igualitária” (HOBSBAWM, 1977, p. 77).
61
“Temerosos, com os movimentos reivindicatórios dos trabalhadores por
melhores salários, redução de carga horária ou condições melhores de trabalho, a única e
exclusiva regra moral que era ensinada aos trabalhadores pautava-se no emprego do
chicote. Esta prática era a mesma utilizada para os animais não humanos. Um homem que
é tratado como animal, somente com a mesma ação instintiva pode reagir frente às
questões que o oprime em seu cotidiano” (ENGELS, 1985a, p. 134-135). Ao mesmo tempo,
para conter a mendicância que crescia, “...no dia cinco de julho de 1808, foi promulgada a
lei que reprime a mendicância” (MARX, 1995, p. 78).
76

ordem burguesa a ensinar aos trabalhadores como produzir as suas próprias armas,
também ensinou-lhes como manuseá-las e com que propósito: aniquilar o
opressor. Este princípio foi colocado em prática na França no século XIX, em 1848,
e 1871. A classe burguesa não teve dúvida em reprimir e aniquilar os processos
revolucionários em marcha,62 as revoluções de 1830, e ainda mais a de 1848,

...atestam que a burguesia perdeu seu lugar à frente do progresso social. Em


1830 começa o processo de decomposição da filosofia burguesa clássica, que
termina com a revolução 1848. Esta data forma, na evolução da filosofia, o limiar
de um novo período que termina mais ou menos no início do período imperialista.
O combate ofensivo da burguesia contra as sobrevivências do feudalismo está
então acabado: sucede-lhe a defensiva contra o proletariado ascendente
(LUKÁCS, 1979a, p. 32-33).

O colocar-se na história como opção de projeto societário em 1815 pela


aristocracia latifundiária (restauração do projeto feudal com novas configurações),
bem como pelo proletariado em 1830, põe o controle de domínio ideológico burguês
em risco. A ideologia burguesa sentia suas primeiras fraturas após 1789. Novos
tempos, porém os atores eram os mesmos da época da revolução de 1789, agora
em posições e com capacidades de classe diferenciadas tanto na França como na
Inglaterra e em outros países europeus.

2.1 A CIÊNCIA DA DECADÊNCIA

Juntamente ao pôr-se da classe proletária em para-si a partir de 1830; sua


posição de classe era alvo de uma determinação histórica impossível de ser
ignorada. Neste mesmo marco histórico, a questão social - o pauperismo -
assolava violentamente a vida cotidiana dos trabalhadores. Não conseguindo
esconder as mazelas que o próprio projeto burguês criara, pois também já sofria
conseqüências das suas contradições, a classe burguesa em consolidação foi
obrigada a reconhecer e responder ao espectro que abalava e assustava-a e
com ela, os princípios conquistados no decorrer das lutas travadas da Revolução
Francesa. Falseando a realidade, (...) a filosofia da decadência torna-se cada
vez mais, um pensamento imediatista, centrado nas aparências fetichizadas da
realidade (COUTINHO, 1972, p. 22).

Os abalos sofridos pelo capitalismo em período de crise marcaram a


trajetória da classe burguesa em processo de consolidação na Inglaterra. No
capítulo primeiro viu-se que o modo de produção capitalista, durante o período
concorrencial e monopolista, foi marcado por crises cíclicas de estagnação e de
crescimento em períodos aproximados entre cinco e dez anos. Estes momentos
62
Quando os trabalhadores conseguiram colocar qual era o problema que
sustentava a sua forma de ser e de pensar no interior do modo de produção capitalista,
estes protagonistas da história traziam, em suas cabeças, as respostas concretas para
enfrentá-lo e resolvê-lo.
77

eram tratados com cinismo, frieza, recheados nos momentos de enfrentamento de


classe, com muita violência. Mas, o desenvolvimento tecnológico e científico,
conseguiu aprimorar os mecanismos da maquinaria, bem como criar novas. Este
fenômeno histórico trouxe conseqüências devastadoras para a classe proletária,
pois

...as contradições e antagonismos inseparáveis da aplicação capitalista da


maquinaria não existem, simplesmente porque não decorrem da maquinaria,
mas da sua aplicação capitalista. A maquinaria, como instrumental que é, encurta
o tempo de trabalho, facilita o trabalho, é uma vitória do homem sobre as forças
naturais, aumenta a riqueza dos que realmente produzem, mas, com sua
aplicação capitalista, gera resultados opostos: prolonga o tempo de trabalho,
aumenta sua intensidade, escraviza o homem por meio das forças naturais,
pauperiza os verdadeiros produtores. O economista burguês explica, então, que
a observação da maquinaria em si demonstra, sem a menor sombra de dúvida,
que todas essas contradições palpáveis são aparências vulgares da realidade,
mas que não tem nem existência real nem teórica. Assim, evita quebrar a cabeça
com o assunto e, por cima, imputa a seu opositor a estupidez de combater não o
desemprego capitalista da maquinaria, mas a própria maquinaria (MARX, 1975b,
p. 506).

Dessa forma a divisão do trabalho, conseqüência direta das


transformações que ocorrem na esfera da produção, fragmentou as atividades em
especificidades e em grau de simplicidade, dividindo os trabalhadores em peças
insignificantes para o capitalista, fáceis de trocar e de baixo custo. Este fator central
na esfera da produção contribuiu para que os trabalhadores empregados vivessem
em processo de incerteza todos os dias. Vulneráveis, o desemprego transformou-se
num verdadeiro fantasma na vida dos proletários.

Desempregados, as conseqüências atingiam dimensões negadoras para


os proletários enquanto indivíduos e como classe. A maioria, desprovida de todas as
necessidades básicas para continuarem sobrevivendo, passou a conviver com a
miséria em amplos sentidos. O pauperismo passou ser conhecido como a nova
“questão social” da sociedade assalariada. Como explicar que o “santo mercado”
não conseguia responder a “este mal” social que assolava a classe trabalhadora e
deixava a burguesia sem segurança e, portanto, instável? Como explicar que este
fenômeno, fruto da contradição da relação capital-trabalho, seria superado através
da lógica e forma do projeto societário burguês?

Chegou o momento em que as formas de enfrentamento aos problemas


sociais, oriundos do processo contraditório entre capital-trabalho, passaram a ter
contornos diferenciados, e a burguesia, detentora do projeto do progresso,
abandonou suas premissas básicas e, cinicamente, mostrou quais eram suas
intenções, seus propósitos. A racionalidade perdeu espaço e as práticas irracionais
defensivas entraram em todas as fissuras do fazer e do pensar cotidiano. O
proletariado, em processo de consolidação de classe-em-si e para-si foi o grande
alvo.

As crises de 1815, 1818 e 1819 atingiram as bases produtivas capitalistas


em movimento. Ao mesmo tempo, na Inglaterra e na França a aristocracia
78

latifundiária colocava-se novamente no cenário como força viva e, com a


complacência de outras forças sociais, tinha a intenção de retornar ao poder. Quer
dizer, a monarquia constitucional corria o risco de ser substituída pela monarquia
absolutista. No entanto, em 1830, este cenário ganhou outras configurações. A
classe operária em-si e para-si, diferente da classe burguesa, apresentou para
resolver a “questão social”, um projeto com conteúdo progressista da História. E a
Filosofia e a Economia política, sem saída, foram obrigadas a responder às novas
determinações colocadas na ordem do dia.

Até este momento, os representantes da burguesia não se intimidavam em


tratar as manifestações materiais e espirituais sob o crivo científico. Os economistas
clássicos, principalmente Ricardo e Smith, apesar dos limites de classe presente em
ambos, não faltavam com a verdade. A busca constante em fazer ciência era o
propósito principal que tomava conta destes homens. Agora, com a manifestação
incontrolável das conseqüências que o modo de produção capitalista apresentava –
o pauperismo – e junto a ele, o proletariado enquanto classe em-si e para-si,
exigiram que a classe burguesa respondesse à sociedade sobre o porquê desse
novo fato social de dimensões incontroláveis, mas, ao mesmo tempo, teriam que
garantir a continuidade da lógica e da forma de produzir capitalista, pois, para estes
sacerdotes da burguesia a história, com a consolidação do modo de produção
capitalista, chegava ao seu final. xvii

É nesse momento que a burguesia, para não deixar de continuar


dominando politicamente e economicamente, cria novos mecanismos que ampliam o
grau de manipulação da realidade 63 e, através de dados estatísticos e de fórmulas,
mostra que era possível resolver e eliminar o espectro que assustava a Europa
moderna. Neste momento ocorre “...uma cisão entre a essência (práxis criadora) e a
existência (a vida social) dos homens” (COUTINHO, 1972, p. 24). O resultado foi
imediato e contínuo:

...a práxis aparece agora como uma mera atividade técnica de manipulação; a
objetividade fragmenta-se numa coleção de ‘dados’ a serem homogeneizados; e,
finalmente, a razão reduz-se a um conjunto de regras formais subjetivas,
desligadas do conteúdo objetivo daquilo a que se aplicam. Essa ‘miséria da
Razão’ transforma em algo irracional todos os momentos significativos da vida
humana (COUTINHO, 1972, p. 29).

63
A manipulação da realidade é uma arma poderosa que os representes
ideológicos da classe burguesa utilizam todos os dias para continuar controlando e
mantendo a existência do projeto burguês. No entanto, a manipulação não é um
instrumento construído com os poderes onipotentes. Desta forma, temos o papel de
mostrar no campo teórico-prático como que esta arma perigosa e destruidora de gerações
de trabalhadores pode ser combatida e ‘destruída’. É necessário “...mostrar teoricamente
que não estamos diante de um curso inexorável do processo econômico ou tecnológico. Ao
contrário, é preciso mostrar que o que está em desenvolvimento é um processo
manipulatório por uma classe determinada, de um modo bastante preciso, e que a
manipulação parte de certos pretensos axiomas que são incapazes de resistir a uma
observação mais atenta “ (LUKÁCS, apud KOFLER, 1969, p. 112).
79

Obrigada a falsear a realidade, a burguesia, de forma covarde e episódica criou,


através dos seus filisteus, explicações que reduziram cada vez mais a apreensão
objetiva e de totalidade da realidade. Para estes homens legitimadores da
ordem, (...) já não se tratava agora se tal ou qual teorema era ou não verdadeiro,
mas se era útil ou prejudicial, cômodo ou incômodo para o capital, de saber se
estava ou não permitido pela polícia. No lugar da investigação desinteressada
introduziu-se o matonismo pagado e, no lugar do exame científico sem prejuízos,
a má (falsa) consciência e a má intenção da apologética (LUKÁCS, [19-?], p.55).

Em vista disso, conforme LUKÁCS (1977, p. 138), o universo da


especulação tomou conta da vida real transformando o mundo em categorias
lógicas, momento em que a razão pura engendrava os pensamentos. O movimento
histórico das relações de produção perde sua posição ontológica, retirando de cena
a ciência. Assim, a filosofia da decadência substitui o estatuto da ciência pela
ideologia, ocupando todos os espaços da produção material, bem como da
reprodução social. E, embora o humanismo, o historicismo e a razão dialética sejam
elementos que dêem base para a construção científica, estes deixam de ser
preponderantes e abrem espaço para o imediatismo e o espontaneismo. Assim,

...em lugar do humanismo, surge ou um individualismo exacerbado que nega a


sociabilidade do homem, ou a afirmação de que o homem é uma ‘coisa’, ambas
as posições, levando a uma negação do momento (relativamente) criador da
práxis humana; em lugar do historicismo, surge uma pseudo-historicidade
subjetivista e abstrata ou uma apologia da positividade, que transformam a
história real (o processo do surgimento do novo) em algo ‘superficial’ ou
irracional; em lugar da Razão dialética, que afirma a cognoscibilidade da
essência contraditória do real, vemos o nascimento de um irracionalismo fundado
na intuição arbitrária, ou um profundo agnosticismo decorrente da limitação da
racionalidade das suas formas puramente intelectivas (COUTINHO, 1972, p.
17).

Em vista disso, os indivíduos 64 passaram a ser produtos da natureza e


não da história. Assim, os indivíduos, para estes falsos teóricos, possuíam um
destino eterno já traçado. Esta prática impossibilitava que a ética e a ontologia
fossem fundadas sob a perspectiva científica. O que deveria ser apresentado como
crítica foi realizado enquanto mera justificativa, apresentando um conteúdo centrado
nas aparências, portanto, fetichizado.

Esse foi um momento propício para que a burocracia ganhasse novas


expressões e servisse servindo de elemento instrumental principal para conter a
força revolucionária proletária em movimento e, ao mesmo tempo, justificava a
“questão social” a céu aberto. O discurso do consolo ganhou justificativa para a
sociedade moderna em processo de consolidação na primeira fase da
industrialização capitalista. Todas as contradições presentes seriam resolvidas, era
64
A burguesia, enquanto classe revolucionária, construiu, no momento dos
embates travados contra as classes do antigo regime uma nova compreensão da categoria
da individualidade. No entanto, ao mesmo tempo durante o processo de seu
desenvolvimento, “...suprime a individualidade através das condições econômicas deste
individualismo, da reificação criada pela produção mercantil” (LUKÁCS, 1989b, p. 76).
80

necessário ter paciência e espírito positivo, pois o momento era passageiro. xviii Para
os pessimistas, bastava lembrar como era o sofrimento das mulheres no momento
do parto; a dor era intensa, porém, em seguida a felicidade tomava conta de todos.
No período da decadência, a “questão social” posta e materializada seguia a
mesma trajetória por meio das ações burocráticas, em que “...o conteúdo se
sacrifica à forma, o real ao ideal, o particular ao universal abstrato”
(COUTINHO,1972, p. 27). A racionalidade, portanto, foi sucumbida e a
irracionalidade espraiou-se em todas as dimensões da sociedade.

Os ideólogos da ciência nesse período de decadência, manipuladores da


ciência da história, de acordo com MARX (1977, p. 12-13), apontavam as causas
dos problemas emergentes – a “questão social” – a qual estava presente nos
problemas de gerenciamento administrativo, na prática assistencial, nas práticas
descuidadas na esfera da política ou ainda, na ausência de praticar os princípios
que fundamentavam a solidariedade individual entre as pessoas nas diferentes
esferas da sociedade. Essas fontes explicativas eram as respostas que os
sacerdotes, a serviço do projeto burguês, davam para tentar justificar a nova
“questão social” que se manifestava em suas diferentes faces.

Porém, conforme expõe LUKÁCS, apud KOFLER (1969, p. 40),

...o homem constrói seus problemas a serem resolvidos e lhes dá resposta com
base na sua realidade. Mas uma consciência pretensamente livre de liames
sociais, que trabalha por si mesma, puramente a partir do interior, não existe e
ninguém jamais conseguiu demonstrar sua existência. Creio que os chamados
intelectuais, desprovidos de vinculações sociais, como também o slogan, hoje
em moda, do fim da ideologia, seja uma pura ficção, que não tem propriamente
nada a ver com a efetiva situação dos homens reais na sociedade real.

Essa realidade social tornou-se Insustentável mas, “...só depois de 1848,


quando as novas epidemias nascidas nos cortiços começaram a matar também os
ricos e as massas desesperadas que aí cresciam tinham assustado os poderosos
com a revolução social, foram tomadas providências para um aperfeiçoamento e
uma construção\ urbana sistemática” (HOBSBAWM, 1977, p. 225). 65 Porém,
convencidos de que o problema – a nova configuração da “questão social” - bem
como a resolução deste não seria compreendido e, muito menos resolvido por meio
das ações teóricas e práticas fundamentadas na perspectiva ontológica, coube a
estes sacerdotes da burguesia apelar aos corações humanitários e à repressão.

O rei da Prússia ao tratar da reforma social, indagou e respondeu:


“...miséria e crime são duas grandes calamidades: quem poderá repará-las? O
Estado e as autoridades? Não, mas, ao contrário, a união de todos os corações
cristãos, pois, (...) a Inglaterra acha que a miséria tem o seu fundamento na lei da
natureza, segundo a qual a população supera necessariamente os meios de
subsistência” (MARX, 1995, p. 69 e 80) 66
65
Ver também: ENGELS (1985a, p. 78) e MARX (1995, p. 69-75).
66
A discussão não era tratada na esfera da produção. Neste sentido, a única
saída encontrada pelos burgueses filisteus, legitimadores do projeto burguês, só poderia
encontrar sustentação, estreita e falseada na esfera da circulação. Porém, por mais
81

E a burguesia, em processo de consolidação, abandonou e destruiu as


premissas das conquistas liberais escritas com muito ‘sangue’ e colocou em seu
lugar o chicote, o espírito moral cristão da solidariedade e os princípios
administrativos da reforma enquanto dimensão restauradora. Buscou nas ações
individualistas a resposta para a “questão social”, no entanto, suas ações, na esfera
econômica e política, eram de classe.

Porém, ameaçados pela classe proletária em 1848, já que o projeto


burguês encontrava-se na França prestes a assistir ao assalto ao céu dos
trabalhadores, não tiveram dúvida: somaram suas forças às diferentes frações da
classe burguesa e mostraram que tipo de solidariedade se exerce na luta pela
hegemonia do poder. O irracionalismo empregado pela burguesia na luta contra o
feudalismo em 1789, ganhou novas proporções na luta defensiva e reacionária
contra o proletariado em 1848 e 1871.

Para responder também à “questão social” que assolava todas as


instâncias da sociedade, em particular e com proporções diferenciadas, a classe
operária e seus familiares, Marx toma a problemática pela raiz.

2.2 A CRÍTICA MARXIANA

O homem, a princípio, começou a relacionar-se com a natureza com a


finalidade de encontrar um meio para a sua sobrevivência. E, num segundo
momento, almejou suprir ao máximo suas necessidades porque é um ser que
busca a realização e emancipação no meio natural. utilizando-se do trabalho para
produzir e reproduzir sua existência, 67 porque por meio dele os homens
conseguiram, no decorrer da formação das sociedades, diferenciar-se do ser
inorgânico e, ao mesmo tempo, distanciar-se do ser orgânico natural, para
desenvolver-se enquanto ser social. A sociabilidade humana funda-se, portanto, no
momento em que os homens buscam uma direção, planejam suas ações e
registram suas identidades. Mas, uma identidade se constrói, não como uma
igualdade, mas como uma unidade. “É uma unidade que surge como resultado
último da interação entre inúmeros processos heterogêneos” (LUKÀCS, 1979, p.
67).

O trabalho constitui, e é constituído historicamente como categoria


mediadora no cotidiano dos homens. É o trabalho humano, enquanto elemento
central, que cria possibilidades e efetiva a construção de sociedades inteiras, desde
capazes que sejamos, é impossível e enganoso acreditar que é possível resolver a
problemática da miserabilidade na esfera da valorização.
67
A categoria trabalho tem uma nova e diferente conotação na compreensão
Marxiana e na tradição marxista, pois é através do trabalho que o homem torna-se criatura
e criador. É uma relação material que se estabelece entre o homem e a natureza. “Antes
de tudo o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em
que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio
material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em
movimento as forças naturais de seu corpo, braços, pernas e mãos a fim de apropriar-se
dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana” (MARX,1975b, p.
2002).
82

as mais religiosas até as mais atéias. Foi por meio dele que os homens
diversificaram seus relacionamentos no cotidiano e chegaram, no final do século
XX, a construir e a desenvolver uma sociedade em que tanto as relações de
produção como as sociais materializaram-se globalmente. 68 “As características da
marcha da globalização incluem a internacionalização da produção, a globalização
das finanças e seguros comerciais, a mudança da divisão internacional do trabalho,
o vasto movimento migratório do sul para o norte e a competição ambiental, que
acelera esses processos” (IANNI, 1992, p. 23-24).

Portanto, a formação humana, desde os períodos não civilizados até hoje,


não é produto e resultado de ações lineares ou circulares, mas é o resultado da
produção e reprodução da existência humana num determinado tempo e espaço, e
que envolvem ações e reações contraditórias. E nesse universo da produção
material dos homens há 3 (três) períodos produtivos predominantes: o antigo, o
feudal e o capitalista. 69 Estas construções dos sistemas humanos estruturaram-se,
na sua duração, de elementos constitutivos e constituintes que os fizeram manter-
se, se não intactos, pelo menos com seus pilares centrais.

Esses períodos, cada qual em seu determinado momento, registraram sua


predominância enquanto que, no interior dos mesmos, encontram-se momentos de
superação, de negação ou momentos isolados de experiências já esgotados em sua
totalidade, mas que registram ações determinantes e determinadas
economicamente, politicamente e socialmente.

No decorrer do modo de produção feudal, as relações sociais produzidas


colocaram novos desafios que, paulatinamente, criaram fissuras nas relações
econômicas, políticas, sociais e culturais, as quais, a classe dominante, no interior
do feudalismo, não conseguiu resolver. É neste movimento, a partir do século XV,
que as grandes navegações possibilitaram aos homens maior abrangência de
informações e a socialização das produções humanas destacando-se as
descobertas em diferentes dimensões, além da fronteira terrestre, pois
ultrapassaram as barreiras dos labirintos da via marítima. Este passo decisivo na
história contribuiu para o desenvolvimento e aprimoramento do comércio e, para a
68
A globalização é uma característica intrínseca à produção capitalista, no
entanto, suas primeiras manifestações ocorrem no interior do modo de produção feudal.
Vivenciamos o fenômeno da globalização no momento em que ocorreram as grandes
navegações. Um segundo momento, esta característica determinada historicamente, volta
a apresentar-se com o desenvolvimento e maturação do capitalismo concorrencial, em um
movimento para a fase monopolística clássica. O elemento central que impulsionou esta
determinação encontra sua referência na Revolução Industrial, e suas transformações
após a Primeira Revolução Tecnológica. O terceiro momento que a globalização apresenta
enquanto uma determinação histórica, portanto delimitada temporalmente e espacialmente,
é na fase do capitalismo monopolista, subfase tardia. O movimento que propiciou a união
do capital industrial com o bancário possibilitou a criação do capital financeiro. Este,
superou a velocidade de circulação. Não de mercadorias, mas sim, de papéis. Criando,
no final do século passado, uma verdadeira ciranda financeira. Esta última determinação
alcançou seu auge no período pós - Segunda Guerra Mundial e no período pós - década
de 1970 em que atingiu seu momento de saturação.
69
A passagem em que ocorre a mudança do modo de produção feudal para o
capitalista é posível de ser apreendida com maior rigor nas obras de Maurice DOBB (1976);
em Karl MARX (1981); em Paul SWEEZY (1977); compõe-se de um debate sobre a
temática, abordando diferentes interpretações e críticas e Jaime PINSKE (1984).
83

criação de uma nova classe social : os comerciantes. Aproximadamente, neste


mesmo período histórico, ganham dinamicidade o desenvolvimento das cidades
cooperativas que já alojavam o embrião produtivo do modo de produção capitalista.
Este fato concreto contribuiu para ampliar as fendas nas bases dos pilares que
sustentavam o modo de produção feudal.

Nessa nova configuração mostra-se o urbano sobrepondo-se às relações


rurais, provocando lesões profundas e desintegrando as relações de dominação da
força de trabalho entre senhor e servo. Com o surgimento das cidades corporativas
inicia-se um novo modo de produção no interior do antigo sistema. É o capitalismo
emergindo e, ao mesmo tempo, suplantando o modo de produção feudal em todas
as suas relações. Nesse novo processo histórico as relações de trabalho tomam
uma direção diferenciada: o trabalhador deixa de pertencer ao senhor no âmbito da
legalidade, enquanto posse total, para tornar-se um assalariado no mercado
emergente e vender sua força de trabalho.

É nesse cenário que se inscreve na história uma nova forma de conceber


as relações, tanto de produção como sociais, isto é, a razão passa a dar direção às
ações cotidianas. Tudo o que era “místico” foi profanado, tudo que prendia o homem
a uma relação do ser criado e não criador foi questionado e negado. Os homens
atribuem uma nova interpretação ao agir e pensar. O velho - modo de produção
feudal - esgota todas as possibilidades de sua sobrevivência, e ao entardecer
“...tudo o que era sólido e estável se dissolve, tudo o que era sagrado é profanado,
e os homens são enfim obrigados a encarar, sem ilusões, a sua posição social e
suas relações recíprocas” (MARX; ENGELS, 1998, p. 8).

Nesse momento, novos personagens transitam como pioneiros na busca


da acumulação. Trazem diferentes raízes de procedência e de vinculação com o
trabalho e, ao mesmo tempo, utilizam-se de métodos que os colocam, desde o
início, voltados para os mesmos objetivos. Embora estejam posicionados
diferencialmente, trilham os caminhos que criaram as condições básicas para a
realização de suas acumulações primitivas. Esses homens,

...camponeses, lojistas, artesãos, por vezes até mesmo empregados,


funcionários públicos e operários altamente qualificados que tentam tornar-se
capitalistas e explorar força de trabalho, e ao conseguirem de uma maneira ou
de outra (consumo excepcionalmente baixo; usura; roubo; fraude; herança;
prêmios de loteria) apropriam-se de um volume inicial de capital. (MANDEL,
1985, p. 30).

Todos os homens, nesse mesmo cenário, passam a ter interesses iguais e


formas diferentes de apropriação de valores. Conseguem dar um passo histórico
fundamental para que o modo de produção capitalista crie um dos pilares
necessários enquanto condição primeira para realizar a acumulação do capital
primitivo. Esse é um dos pressupostos fundamentais, mas não é o todo.
Isoladamente, o capital primitivo não consegue multiplicar-se. É necessário, para
que este capital inicial entre em movimento e produza valor excedente ter, inerente
a ele, uma certa quantidade significativa de força de trabalho disponível no
84

mercado.70 Esta nova conjugação põe em movimento a produção e a reprodução de


novas mercadorias, as quais, ao término do processo (circulação, distribuição e
consumo), devem propiciar aos proprietários dos meios de produção, valores
excedentes, isto é, uma mais-valia.

A conquista destas duas condições básicas (acumulação de capital


primitivo e apropriação da força de trabalho) marca os passos decisivos para
colocar em movimento o modo de produção capitalista. Não se encontra
historicamente uma data específica para o início desse processo. Esse período foi
sendo construído e alcançou seu ponto de fusão e de superação por meio do
processo das revoluções tecnológicas. A revolução industrial e a primeira revolução
tecnológica, representaram, neste cenário, um papel definidor para que se
instaurasse e se efetivasse um novo modo de produção e de relações sociais. As
revoluções industrial e tecnológica colocaram fim, num primeiro momento, ao que
restava da velha sociedade e, ao mesmo tempo, ao processo de desenvolvimento
do capitalismo mercantil e, no decorrer, acabaram com todos os negócios arcaicos
que ainda restavam enquanto saudosismo no interior da nova sociedade.

“O novo suplantou o velho”. Nessa perspectiva uma nova forma de os


homens relacionarem-se com a produção e entre si começa a estruturar-se em
diferentes pontos do continente, cujos passos iniciais encontram-se na Europa,
pioneira do processo, tendo por pólo mais "avançado", naquele momento, a
Inglaterra. Uma nova era ronda a Europa, a Era do Capital. O espectro em
movimento percorre o caminho da manufatura para fundar-se no capitalismo
industrial movido pela maquinaria.

Esta forma específica de produzir, isto é, de interação de homem e


natureza, criou novas relações sociais fundando no interior da sociedade, o
antagonismo entre capital-trabalho e, ao mesmo tempo propicia o surgimento de
duas classes sociais definidas ontologicamente: a burguesia e o proletariado. A
burguesia, representada por um número reduzido de homens que se apropriava dos
meios de produção e do valor excedente, e a classe operária, composta por uma
grande massa de homens que operavam os instrumentos de trabalho. Fazia-se o
contraponto, os operários, proprietários da força de trabalho, representavam todos
os trabalhadores que foram expulsos de suas terras e de suas corporações, os
quais perderam a posse dos seus meios de produção e de seus instrumentos de
trabalho. Transformados em operários, entram todos os dias no mercado para
vender a única mercadoria que possuem, - a sua força de trabalho - em troca
recebem um salário. 71 Na sociedade capitalista, as relações de trabalho expressam

70
“Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto
das faculdades físicas e mentais, existentes no corpo e na personalidade viva de um ser
humano, as quais ele põe em ação toda as vezes que produz valores-de-uso de qualquer
espécie. (...) Assim, a força de trabalho só pode aparecer como mercadoria pelo seu
próprio possuidor, pela pessoa da qual ela é a força de trabalho” (MARX,1975b, p. 187). A
força de trabalho assalariada, criadora de valor, é característica básica de uma forma
determinada do modo de produção capitalista. Sob esta lógica, os homens, trabalhadores
assalariados, produzem sua existência e também a de outros, quando vendem sua força
de trabalho no mercado.
71
O processo de constituição e desenvolvimento do capitalismo, mostra-nos que
a classe dos proprietários dos meios de produção, ao comprar a força de trabalho, paga
um determinado salário. “O valor do salário médio é determinado pelo que o trabalhador
85

através de um contrato legal, a existência das classes: os burgueses e os


proletariados.

Nesse momento, a sociedade humana conhece uma nova forma de


produzir e de relacionar-se socialmente, instaurando novas relações entre homens
e entre os homens e a natureza não humana. Este novo modo de produção
estrutura-se também sob uma nova forma de direito social do trabalho em que se
enriquece a relação homem-natureza, aprofundando-se e criando formas legais
para as classes sociais relacionarem-se em torno do trabalho, de forma a quebrar
todas as fronteiras existentes. As sociedades, inclusive as mais arcaicas, começam
a conhecer “as proezas” do modo de produção emergente.

O capitalismo encontra as várias porções da humanidade em diferentes estágios


de desenvolvimento, cada uma com as suas próprias e profundas contradições
internas. A extrema diversidade no ritmo de desenvolvimento das diferentes
parcelas do gênero humano ao longo de várias épocas servem de ponto de
partida ao capitalismo. Só gradativamente é que este conquista a supremacia
em relação à desigualdade herdada, quebrando-a e alternando-a passando a
empregar seus próprios recursos e métodos (MANDEL, 1985, p. 102).

Ao empregar seus próprios recursos e métodos, como proprietários dos


meios de produção, os capitalistas emergentes estabelecem novas regras nas
relações tanto de produção como sociais e no decorrer do seu desenvolvimento os
resultados são assustadores. Conforme avança a produção de mercadorias em
quantidade e qualidade, esses novos proprietários apropriam-se do acúmulo
gigantesco de trabalho excedente em forma de lucro. Em contrapartida, a miséria
material e espiritual ganha espaços. Ao relatar a situação da classe trabalhadora na
Inglaterra, ENGELS (1985), com maestria, aponta estatisticamente os índices da
fome, do desemprego, da ausência de moradias, dos cuidados com a saúde, da
deficiência na rede escolar e outras questões originadas no campo das práticas
sociais.

Para responder a essa problemática, os sacerdotes da burguesia


comprometidos com o projeto societário burguês e convencidos de que a história
chegara ao seu final propunham modos de enfrentamento à “questão social” – com
a utilização da burocracia e da ideologia como armas para combaterem o espectro
que assustava a burguesia. Porém, quando estes mecanismos não conseguiram dar
conta de seus propósitos, utilizavam-se de mecanismos repressivos. Estes
conteúdos, ao serem combatidos por Marx, revelaram a decadência da sociedade
burguesa no período após 1830. Ao mesmo tempo, Marx ao tratar do modo de
produção capitalista em sua raiz, apresenta como superá-lo e qual o papel central
da classe operária nesse processo.

Sob a perspectiva ontológica, Marx apropria-se das múltiplas


determinações que expressam a forma de ser do projeto burguês, explicitando suas
conquistas revolucionárias e suas premissas negadoras da existência humana.

precisa para viver, trabalhar e reproduzir-se” (MARX, 1975b, p. 364). Esta definição na
prática é assumida como correta pelos defensores de modo do produção capitalista, os
quais têm, como fundamento teórico, as formulações dos economistas burgueses.
86

Marx, faz o estudo e a crítica e, por entender que todo e qualquer objeto está em
constante movimento, repleto intrinsicamente de contradições, propõe a possível
necessidade histórica de um novo projeto societário emancipatório humano. A
perspectiva central da revolução é o tempo presente em Marx.

No item 2.2.2, será apresentado o movimento da lógica do processo


produtivo: constituição, desenvolvimento e consolidação, explicitando-se a
verdadeira forma de ser deste objeto. E também, como a objetividade – força de
trabalho -, e a subjetividade – do trabalhador como um todo – no interior do mesmo
movimento foi apreendida durante o processo de produção na instância do
processo de trabalho. Este caminho, pode mostrar uma resposta crítica do que é a
“questão social”. Pois, foi a partir desse novo quadro presente no cotidiano da
sociedade capitalista, que o Estado foi chamado a interferir nas relações que se
travavam na sociedade civil e, neste contexto controlar e amenizar as relações
antagônicas e contraditórias estabelecidas entre capital-trabalho. 72 Essa
preocupação da classe dominante leva o Estado a exercer novas atribuições,
principalmente, a do papel coercitivo e integrador com ações que expressam a
necessidade de o capitalismo garantir a dominação da classe burguesa e de
continuar acumulando capital.

2.2.1 A Centralidade da Categoria Trabalho

A relação de intercâmbio material existente historicamente entre o homem


e a natureza é uma batalha interminável. Cada ação que o ser social realiza e cada
ação que sofre, transforma-o, e cria um campo de possibilidades para ultrapassar
os limites do ser singular em direção ao genérico. “O ser social é um complexo cuja
reprodução se encontra em múltiplas e variadas inter-relações com o processo
reprodutivo dos complexos parciais relativamente autônomos, porém onde a
totalidade exerce sempre uma influência predominante no interior dessas relações”
(LUKÁCS, apud LESSA, 1995). Nesse sentido, os homens, historicamente, atuando
"...sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modificam sua
própria natureza. Desenvolvem as potencialidades nelas adormecidas e submetem
ao seu domínio o jogo das forças naturais” (MARX,1975b, p. 202).

Esse movimento, determinado historicamente em seu tempo e espaço, cria


condições simples e complexas para que os homens, paulatinamente, diferenciem-
se dos animais e os resultados possibilitam aos homens afastarem-se,
distanciarem-se do seu ser natural. Esse processo diferencial é que traz como
elemento central o trabalho humano pois, o "...trabalho é a única forma existente de
um ser finalisticamente produzido que funda, pela primeira vez, a especificidade do

72
O Estado (enquanto parte da superestrutura na sociedade), nunca esteve
ausente no interior das relações de produção e sociais travadas na sociedade civil, porém,
o que ocorre é que seu papel é de maior ou menor importância conforme a momento que é
solicitado pela classe dominante e pressionado pela classe proletária e demais frações de
classe. Neste sentido, o Estado historicamente tem recebido definições diferentes. A
solicitação do Estado pela classe dominante está vinculada à correlação de forças e de
poder que estão estabelecidas entre as próprias classes dominantes e sua relação com as
das classes dominadas. Essas relações estão vinculadas diretamente com a produção,
reprodução e com acumulação do capital.
87

ser social" (LUKÁCS, [19-?], p. 3). 73 Os homens, a partir desta determinação


primeira, criam relações sociais. 74 “...Quando uma relação existe, ela existe para
mim; o animal não ‘tem relações’ com algo ou, mesmo dizendo não tem
absolutamente nenhuma relação. Para o animal suas relações com outros não
existem como relações” (LUKÁCS, 1979a, p. 141)

Ao relacionar-se com a natureza, a relação mais natural, direta, é do


homem com o homem, e quando o homem relaciona-se com a mulher. “...Nesta
relação aparece, pois, de maneira sensível, reduzida a um fato visível, em que
medida a essência humana se converteu para o homem em natureza ou a natureza
tornou-se a essência do homem” (MARX, 1985b, p. 7). Nesse momento abrem-se as
possibilidades dos homens iniciarem o processo de humanização do mundo. Tal
processo cria condições concretas aos homens de se colocarem desafios e
necessidades, aos quais o cotidiano exige que sejam resolvidos.

Assim, os homens, repletos de possibilidades são materializados


historicamente sob a estrutura de uma determinada base produtiva, cujas ações
humanas objetivam-se numa determinação lógica e histórica, presente nos
diferentes momentos da construção humana e também no interior dos diferentes
modos de produção. Essa relação que não se manifesta de forma mágica, para ser
colocada em movimento necessita de que algo a impulsione.

Direta e indiretamente, é o trabalho humano que possibilita o processo de


produção no momento em que se age sobre um determinado objeto de trabalho.
Marx, partindo de pressupostos ontológicos, nos coloca diretamente em relação
a categoria social trabalho. Mas, não é qualquer trabalho, é trabalho humano
dotado de consciência e força. (...) O trabalho humano é consciente e proposital,
ao passo que o trabalho dos outros animais é instintivo. (BRAVERMAN, 1981, p.
50)

“O trabalho dos animais é realizado por instinto e não apreendidos,


enquanto que o homem age com consciência. O homem, ao agir com consciência,
(...) reflete a realidade e adquire um certo grau de possibilidade” (LUKÁCS,1989b,
p. 16). O trabalho permite dar finalidade a sua ação antes de iniciá-la. “A
teleologia, (...) por sua própria natureza, é uma categoria posta: todo processo
teleológico implica uma finalidade e, portanto, numa consciência que estabelece um
fim” (LUKÁCS,1989b, p. 5).

É o trabalho humano que possibilita o processo de produzir, pois, ao


realizar tal façanha, ocorre o movimento de objetivação sob determinado objeto que
está presente em qualquer matéria, e “...todas as coisas que o trabalho apenas
separa de sua conexão imediata com seu meio natural constituem objetos de
trabalho, fornecidos pela natureza” (MARX,1975b, p. 203). Essa relação
estabelecida entre os homens e a natureza, somente o trabalho humano, num
73
Para Lukács, a história é um campo de batalha, um campo que põe
possibilidades. Desta forma, o trabalho não é percebido e entendido como a categoria
primeira que se põe no movimento da história.
74
Este momento é diferencial na constituição do homem enquanto ser social,
pois marca, desde o início, a sua diferenciação com os animais, não humano.
88

primeiro momento, pode colocar em movimento e retirar o objeto da sua situação


estagnada e transformá-lo, e ao mesmo tempo, ser transformado por ele. Mas, para
realizar o processo de intervenção e transformação é necessário que algo
mediador interfira neste universo, 75 e o instrumento de trabalho “...é uma coisa ou
um complexo de coisas que o trabalhador insere entre si mesmo e o objeto de
trabalho e lhe serve para dirigir sua atividade sobre o objeto" (MARX, 1975b, p.
203). Isso significa que o homem, por meio do trabalho individual ou coletivo, utiliza-
se da ferramenta para cortar a árvore. A ferramenta, instrumento de trabalho, é aqui
nominada como meio de trabalho e este é o conduto, a mediação entre o homem
que trabalha e o objeto. O grau de determinações simples ou complexas de um
instrumento de trabalho “...indicam o grau de desenvolvimento das forças produtivas
e as condições sociais sobre as quais o trabalho se realiza" (MARX, 1975b, p. 203;
e LUKÁCS, 1989, p. 26), e Marx, ainda afirma, que “...o homem foi definido como o
animal que constrói os seus próprios utensílios. É correto, mas é preciso
acrescentar que construir e usar instrumento implica necessariamente, como
pressuposto imprescindível para o sucesso do trabalho, que o homem tenha
domínio sobre si mesmo."

Mas, o domínio dos homens sobre si mesmos, só é possível se tiverem


condições concretas para exercer o livre arbítrio o que não ocorreu com o
desenvolvimento e efetivação do modo de produção capitalista em que os homens,
mulheres e crianças, pertencentes à classe proletária, agiam cotidianamente sob a
arbitrariedade do mercado. As suas escolhas não são possíveis de serem
explicitadas no campo das alternativas, pois, são escolhas determinadas
socialmente por meio dos princípios racionais e irracionais do projeto societário
burguês. Para a verificação de como ocorre esta lógica é necessário entender-se
como força de trabalho movimenta-se, e como sua objetividade e subjetividade são
construídas e/ou negadas.

2.2.2 O Processo de Trabalho em Mutação: Conceitos e Categorias

Resgatando as imbricações que envolvem os elementos que fazem parte


do processo de trabalho, identifica-se que na produção de qualquer produto há a
participação de 3 (três) componentes centrais: a matéria-prima, os instrumentos de

75
Historicamente, os homens foram percebendo e vivenciando em suas ações
cotidianas que o trabalho, na forma natural, possuía limites. O corpo humano, ao expressar
em suas dimensões físicas e psíquicas como uma máquina que se move pela motricidade,
apresentou, historicamente, o esgotamento de suas dinamicidades. Os instrumentos de
trabalho operacional presente no corpo humano, eram limitados. Assim, os homens
precisam continuamente, para que dominem a natureza e coloque-a ao seu serviço,
objetivar-se construindo instrumentos de trabalho que vão além da elasticidade do trabalho
humano. Este processo ocorre historicamente enquanto dimensão emancipadora ou
negadora do homem conforme ele se põe enquanto homem na sociedade.
89

trabalho e o trabalho. 76 Os dois primeiros componentes são denominados meios de


produção, os quais, no sistema capitalista, estão sob os seus domínios.

Enquanto meios de produção, a matéria-prima e os instrumentos de


trabalho, participam na produção das mercadorias, no entanto, desempenham
papéis diferenciados na composição do produto final. Isto porque, a partir do
momento em que se inicia a produção de uma determinada mercadoria, até o final
de sua produção, tanto a matéria-prima como o instrumento de trabalho, participam
da sua construção. Esta relação realizada pelo homem, através de determinada
força de trabalho, implica o processo de realizar uma certa transformação nas
relações, isto é, sujeito e objeto são transformados.

De um lado, a matéria-prima em sua forma inicial, sofre transformações. E


ao transformar-se, incorpora-se na mercadoria, no produto final e assume uma outra
forma. “...A matéria-prima constitui a substância do produto, mas muda sua forma.
Matéria-prima e materiais acessórios perdem a figura com que entraram no
processo de trabalho como valores-de-uso" (MARX, 1975b, p. 228). Porém,
adquirem uma nova forma enquanto valor agregado. Por outro lado e, ao mesmo
tempo, no processo, o instrumental de trabalho, ou meio de trabalho, não se
incorpora ao produto e, além de não se incorporar, desgasta-se em sua utilização.
“...Uma ferramenta, uma máquina, um edifício de fábrica, um recipiente só são úteis
ao processo de trabalho Trazendo nossa reflexão para o cotidiano, tomemos como
exemplo a construção de cadeiras no processo de trabalho. No momento em que a
madeira é transformada pelo e através do trabalho vivo em cadeira, enquanto
conserva seu feitio original, entrando cada dia no processo com a mesma forma"
(MARX, 1975b, p. 228). Esta perdeu/perde a forma com a qual iniciou o processo
de produção.

A cadeira, enquanto produto, expressa uma nova forma de madeira. Ou


seja, o produto cadeira incorporou a matéria-prima, enquanto os instrumentos de
trabalho que agiram sobre a matéria-prima, madeira, não adquiriram uma nova
forma no produto final cadeira, mas, todos os dias entram e saem com a mesma
forma. O que ocorre com os instrumentos de trabalho não é a transformação da
forma inicial e sua incorporação no produto final. Mas, ocorre um desgaste dos
instrumentos de trabalho. Tanto a matéria-prima como os instrumentos de trabalho,
apesar de se diferenciarem no processo de produção, trazem algo em comum no
processo de valorização do produto, isto é, ambos transferem valor.

Dessa forma, pode-se dizer que os meios de produção não criam valor,
mas transferem valor ao produto, pela incorporação da matéria-prima e pelo
desgaste dos instrumentos. É a utilização da força de trabalho na produção de
mercadorias, que possibilita aos meios de produção transferirem valores ao produto
final. Isso ocorre porque, durante o processo de trabalho, os meios de produção
apresentam em sua forma original um valor de uso que é de propriedade do
capitalista. Para que os meios de produção possam realizar-se, é necessário que os
76
O trabalho é o componente principal na materialização do processo de
trabalho, pois “...ao converter o trabalho, por meio da troca, em um de seus elementos
materiais, somente se aprecia uma diferença substancial entre o trabalho e os demais
elementos objetivos do capital, é que o trabalho reveste uma forma de atividade ,
enquanto que os outros elementos aparecem em estado de repouso." (MARX, 1985b, v.1,
p. 344.
90

capitalista adquiram uma determinada quantidade de trabalho no mercado, e


coloquem a mesma em movimento todos os dias. Este ritual permite que os meios
de produção ganhem outras dimensões durante o processo de trabalho e o
capitalista obtenha, no final do processo, um produto. No decorrer do processo de
produção, ocorre uma transformação da forma inicial da matéria-prima que será
incorporada ao produto final enquanto um valor agregado. Ao mesmo tempo, os
instrumentos de trabalho terminam o processo final de produção de forma
diferenciada de como entraram no produto, isto é, não o instrumento, mas o seu
desgaste. Assim, o desgaste provocado no instrumento não é agregado ao produto,
mas transferido.

Nesse mesmo processo, como parte determinante, é fundamental que se


ressalte a centralidade do trabalho humano. Este possui uma dupla natureza em um
mesmo tempo: é a fonte principal - enquanto força de trabalho – que, através do
desgaste de energia, músculos e cérebros produzem uma certa quantidade de
produtos. Ao atingir o estatuto de produto final incorpora, por meio do trabalho,
valor. Isto é, os homens com sua força de trabalho criam valor para o capitalista,
como trabalho excedente. Ao mesmo tempo, uma segunda determinação está
presente, o mesmo trabalho que cria excedente agrega, no produto final, valores
advindos dos meios de produção. “...O valor dos meios de produção se conserva
através de sua transferência ao produto. Ocorre esta transferência durante a
transformação dos meios de produção em produto, no processo de trabalho”
(MARX, 1975b, p. 224).

Dessa forma, os meios de produção comportam-se no processo como


sendo a parte que não produz valor. O máximo que se realiza é a agregação de
valores. É a parte do processo que não muda, isto é, sua incorporação e seu
desgaste são expressos no produto final, não como valor criado, mas como valor
transferido. A esta parte do processo Marx denominou de Capital Constante. “A
parte do capital, portanto, que se converte em meios de produção, isto é, em
matéria-prima, materiais e acessórios e meios de trabalho, não muda a magnitude
de seu valor no processo de produção” (MARX, 1975b, p. 224).

Mas o capital fixo somente é retirado da sua condição de repouso se o


trabalho for acionado. É neste momento que o capitalista vai ao mercado e adquire
por um tempo determinado a mercadoria força de trabalho ou capacidade de
trabalho que, para MARX (1975b, p. 187), é o “...conjunto das capacidades físicas e
mentais, existente no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais
ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie”. Sem a
presença da força de trabalho, o Capital Constante permaneceria em sua forma
inicial, não criaria campos de possibilidades para que a relação homem/natureza
saísse do estágio natural. “A parte do Capital convertida em força de trabalho, ao
contrário, muda de valor no processo de produção. Reproduz o próprio equivalente
e, além disso, proporciona um excedente, a mais-valia que pode variar, ser maior ou
menor.”77

77
A variação de onde a mais-valia é extraída, margem menor ou maior de capital
excedente, depende dos mecanismos que são criadas para acrescentar valor. Estes
mecanismos (aprimoramento ou diversificação dos meios de produção) são frutos de
determinadas formas dos homens relacionarem-se historicamente (MARX, 1975b, p. 234-
235).
91

Durante o processo de produção, toda mercadoria ao expressar seu valor-


de-uso, possui uma vinculação relacional entre o homem e a coisa. Neste sentido
“...o valor-de-uso de cada mercadoria representa determinada atividade produtiva
subordinada a um fim, isto é, um trabalho útil particular" (MARX,1975b, p. 49). Esta
subordinação teleológica do trabalho é que faz o homem diferenciar-se dos animais
e distanciar-se destes a cada ato que realiza do estágio do homem natural. Os
homens são únicos sob está condição ontológica. Somente os homens colocam o
pôr teleológico. “...Uma aranha executa operações semelhantes à do tecelão, e a
abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o
pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de
transformá-la em realidade” (MARX,1975b, p. 202). Mas, somente os homens
podem emancipar-se individualmente e coletivamente, por isso, toda e qualquer
produção humana é social. Portanto, a saída histórica na construção,
desenvolvimento e efetivação de uma nova sociedade emancipada só é possível,
coletivamente e é esta particularidade que o trabalho possui, pois, só ele cria a
possibilidade de os homens emanciparem-se enquanto seres genéricos.

Porém, para o capitalista, os valores-de-uso produzidos só representam


algum significado se forem direcionados para o mundo do mercado, quer dizer, se
forem trocados por outras mercadorias. É necessário adquirirem forma social. Caso
este caminho seja interrompido, esta construção esgota-se em si mesma. Neste
sentido, os valores-de-uso são veículos materiais de valores-de-troca, isto é, ao
tornarem-se sociais possibilitam que ocorram as trocas por outras mercadorias.
“Para criar mercadoria, é mister não só produzir valor-de-uso, mas produzir para
outros, dar origem a valor-de-uso social " (MARX,1975b, p. 48).

Adquirindo origem social, as mercadorias expressam-se no mercado com


determinadas características que as colocarão em condições de troca. Na troca, as
mercadorias (enquanto valores equivalentes ou valores relativos), possuem certas
qualidades de valores-de-uso que desaparecem no momento da troca, ficando
somente na relação com a quantidade produtiva nelas presente. Esta quantidade
não possui uma determinação horizontal e eterna, ela varia no tempo e no espaço
conforme o desenvolvimento dos meios de produção e das forças produtivas.

Desaparecendo as qualidades das mercadorias, trabalho concreto, estas,


enquanto valores-de-troca expressam, no mercado, suas quantidades. Isto é,
trabalho humano abstrato, materializado no produto. E, por apresentarem-se
enquanto valores-de-troca na dimensão de trabalho social abstrato, as mercadorias
podem ser trocadas umas pelas outras quantas vezes forem necessário em um
determinado momento, com valores equivalentes, em outro, com valores relativos.
Isto, enquanto o mercado apresentar mercadorias com propriedades de valores-de-
uso. Uma mercadoria A relaciona-se com uma mercadoria B efetivando-se uma
troca simples. Mas, uma mercadoria para ser lançada no mercado deve relacionar-
se, enquanto troca, com infinitas outras mercadorias oferecidas, independentes da
sua espécie, pois, “...nenhuma mercadoria se relaciona consigo mesma como
equivalente, não podendo transformar seu próprio corpo em expressão de seu
próprio valor, tem ela de relacionar-se com outra mercadoria, considerada
equivalente, ou seja, fazer da figura física de outra mercadoria sua própria forma de
valor” (MARX,1975b, p. 65).
92

Todo esse processo ocorre com todos os homens em suas ações


cotidianas, mas, não aparece de forma transparente. Pois, no momento da troca, os
homens não percebem que estão trocando trabalho concreto: trabalho que
apresenta qualidade, imbuído de criatividade humana. Nesse sentido, o que os
homens trocam aparece como coisas, e estas, assumem o papel determinante,
escondendo assim, as relações sociais existentes na transação. A relação entre as
coisas passa a ser reconhecida como relações sociais, e as relações sociais,
aparecem como coisas.

É no momento da troca que o valor se expressa. É neste momento, que


certa quantidade de trabalho abstrato, enquanto excedente, aparece em sua
liquidez e vai para as mãos de um determinado capitalista. Este valor, que só
aparece no momento da troca das mercadorias, esconde, no decorrer da transação,
a sua substancialidade, sua magnitude e sua forma. Estas propriedades não
aparecem claramente para quem está trocando, ganham outras dimensões,
aparecem enquanto uma relação fetichizada.

A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais


do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais
e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto,
a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total,
ao refleti-la com relação social existente, à margem deles, entre os produtos do
seu próprio trabalho (MARX,1975b, p. 81).

Enquanto relação fetichizada, os homens realizam-na entre si, sem tal


discernimento. Apesar de estarem trocando seus produtos "sem saberem o que
estão fazendo," há uma relação entre os homens. Pois, sabendo ou não, querendo
ou não, no processo de troca, algo comum está presente na mercadoria enquanto
expressão de valor equivalente ou valor relativo, ou seja, a presença de trabalho
humano. Mesmo “se prescindirmos do valor-de-uso da mercadoria, só lhe resta
ainda uma propriedade: a de ser produto do trabalho” (MARX,1975b, p. 44).

Por apresentar trabalho humano, o valor é intrínseco a toda mercadoria,


porque toda mercadoria é fruto do produto do trabalho humano que, na troca,
coloca-se enquanto trabalho humano abstrato. “O valor ao contrário do valor-de-
troca é uma propriedade inerente à mercadoria porque, nesta está contida trabalho
humano abstrato, e este por sua vez uma propriedade comum a todas as
mercadorias” (MARX, 1975b, p. 451).

Assim, o valor é comum a todas as mercadorias, porque para que haja


trocas é necessário que o valor de uso apresente-se em quantidades diferentes no
mercado e esta designação revela, em seu conteúdo, uma quantidade determinada
de trabalho socialmente necessário, quer dizer: “...o tempo de trabalho requerido
para produzir-se um valor-de-uso qualquer, nas condições de produção socialmente
normais existentes e com o grau social médio de destrezas em intensidade de
trabalho” (MARX,1975b, p. 46). Esse trabalho socialmente necessário, na troca,
apresenta-se enquanto trabalho socialmente abstrato. E, por ser abstrato, parte do
trabalho é utilizado para pagar a força de trabalho (trabalho necessário), e parte é
93

apropriada pelo capitalista (trabalho excedente), fator que lhe possibilita acumular
capital. O trabalho excedente é uma quantidade de trabalho não pago.

Este recurso - produção de trabalho necessário e excedente - é um


processo realizado por diferentes forças de trabalho que se expressam no decorrer
do processo de trabalho e de produção das relações sociais. No entanto, algo
místico paira sobre esta relação: o fetichismo da mercadoria que ao apresentar-se
no mercado está imbuída de uma certa quantidade de trabalho humano abstrato
para ser trocada. Por que ela aparece sob a forma de trabalho abstrato e não
enquanto trabalho concreto? Por uma razão muito concreta: no momento da
transação, a relação existente apresenta-se de forma fetichizada, e por apresentar-
se desta forma, o comprador e o vendedor abstraem todas as qualidades que
existem no conteúdo das mercadorias celebrando uma relação entre coisas. O que
prevalece, enquanto possibilidade de troca no mercado, não é quem produz
acompanhado de suas qualidades criativas, mas, o que se produz. E no ato da
troca, o que se produz resume-se a quantidades de valores. As coisas assenhoram-
se e tornam-se sujeitos enquanto as pessoas escravizam-se, subordinam-se e são
reconhecidas como predicado em todos os sentidos. "Este salto é mortal." Aparece
uma dada relação que, fetichizada, esconde as relações sociais que estão
presentes em cada mercadoria. Isto é, trabalho humano concreto. Aparecem os
homens relacionando-se entre si, não enquanto pessoas, mas homens
relacionando-se como propriedades das coisas. Desaparece todo o processo da
construção entre homens, e aparece o mundo das coisas. As coisas aparecem
enquanto relações sociais, e as relações sociais aparecem como relações entre
coisas. Sob a lógica da razão instrumental, as relações de produção atribuem uma
forma social às coisas. “...pelas quais e através das quais as pessoas mantém essa
dada relação" (RUBIN,1987, p. 38) e, mesmo que ela seja interrompida, “...as coisas
se apresentam como uma forma social determinada, fixada, começam por sua vez a
influenciar as pessoas, moldando sua motivação e induzindo-as a estabelecer
relações de produção concretas uma com as outras” (RUBIN,1987, p. 38).

Essa forma social determinada, fixada na produção e na circulação, põe-


se enquanto a materialização das relações de produção. Os homens relacionam-se
uns com os outros e o produto desta relação final é a sua materialização específica.
“Por materialização das relações de produção entre as pessoas, Marx entendia o
processo através do qual determinadas relações de produção entre pessoas (por
exemplo, entre capitalistas e operários) conferem uma determinada forma social ou
características sociais, as coisas através das quais as pessoas se relacionam uma
com as outras (por exemplo, a forma social do capital)" (RUBIN, 1987, p. 35). E, no
capitalismo, ao materializar-se em relação, confere-lhe uma determinada forma
social. É neste momento que as coisas ganham uma dada personificação. Os
homens reconhecem os outros não pelo que são, mas, pelo que eles possuem ou
fazem. As relações sociais aparecem como coisas, fetichizadas, e ao realizarem-se
enquanto fetiche, elas se apresentam em todo o processo, estranhas aos
produtores. E, ao personificar as relações, ocorre uma reificação das pessoas
criando-se uma aparente contradição entre a "reificação das pessoas” e a
"personificação das coisas”. “...Dos dois aspectos mencionados do processo de
produção, apenas o segundo – ‘personificação das coisas’ – permanece na
superfície da vida econômica e pode ser diretamente observado" (RUBIN,1987, p.
39).
94

Porém, para que este universo pudesse ser construído no cotidiano,


necessitou-se que a força de trabalho estivesse à disposição no mercado. 78 Assim,

...quando os grandes donos das terras Inglesas permitiram a seus serventes que
antes consumiam uma parte da produção excedente arrancando da terra, ao par
que seus arrendatários expulsavam das suas terras os campesinos, lançando no
mercado de trabalho uma massa de forças de trabalho que ficavam livres em
dois sentidos: livres das velhas relações de clientela, servas e dependentes, e
livres também de todos os seus bens, de toda forma de existência objetiva e
material, livres de toda propriedade e, portanto, obrigados a vender sua
capacidade de trabalho ou a dedicar-se na mendicância, à vagabundagem ou
ao roubo, para poder subsistir (MARX,1985b, p. 363).

Essa conquista foi fundamental para os donos do capital e representou


um fator determinante no processo de produção. Pois, a força de trabalho é o único
elemento no processo de produção que cria valor. 79 "O trabalho, é certo, apresenta
primeiramente uma relação de negatividade com respeito a si mesmo, é o trabalho
ainda não objetivado, quer dizer, carente de objeto e que possui, portanto, uma
existência meramente subjetiva. Portanto, ainda que o trabalho careça de objeto, é
uma atividade; pode não ter um valor por si mesmo, porém é a fonte viva do valor"
(MARX,1975b, p. 369).

Sob esta forma de se relacionar e da necessidade imediata o modo de


produção capitalista traz uma peculiaridade que o diferencia radicalmente dos
modos de produção anteriores. É necessário que exista um determinado número de
pessoas “livres” e despossuídas para oferecerem seus trabalhos. A Subsunção
formal inicia-se neste momento. A partir daí, os homens colocam-se no mercado
para venderem sua força de trabalho, suas energias, registrando sua dependência
enquanto operários.

Ao vender seu trabalho ao capitalista, o operário adquire somente o direito em


obter o preço do trabalho, porém não o produto deste trabalho nele acrescentado
por ele. (...) Vender o trabalho é igual a renunciar a todos os frutos do trabalho.
Portanto, todos os progressos da civilização ou, dito de outro modo, todo o
incremento das forças produtivas sociais, que são, se você querer, as forças
produtivas do trabalho mesmo, os resultados da ciência, dos inventos, da divisão
e combinação do trabalho, os avanços dos meios de comunicação, da criação do
mercado mundial, da maquinaria, etc., não enriquecem, consequentemente, aos
operários senão ao capital; somente servem para acrescentar mais e mais o
poder que domina o trabalho; potenciam somente a força produtiva do capital
(MARX,1985b, p. 363).

78
Verificar as páginas 18-30.
79
"O trabalho, é certo, apresenta primeiramente uma relação de negatividade
com respeito a si mesmo, é o trabalho ainda não objetivado, quer dizer, carente de objeto e
que possui, portanto, uma existência meramente subjetiva. Portanto, ainda que o trabalho
careça de objeto, é uma atividade; pode não ter um valor por si mesmo, porém é a fonte
viva do valor." (MARX, 1975b)
Por outro lado, não basta ao operário querer vender sua força de trabalho,
é necessário que exista no mercado pessoas que queiram comprá-la, e colocá-la
em movimento, necessita-se da existência dos capitalistas. 80

Os operários vendem sua força de trabalho para o capitalista, recebendo


em troca um salário. Portanto, a apropriação do trabalho alheio marca a
dependência do operário em relação ao capitalista por um determinado período,
mas essa apropriação ocorre não só em relação ao trabalho, mas também da
vontade do operário, retirando-lhe sua liberdade, a liberdade de decidir sobre sua
vontade. "Naturalmente, o reflexo correto da realidade é a condição inevitável para
que um dever-ser funcione de maneira correta; no entanto o reflexo, correto, só se
torna efetivo quando conduz realmente à realização daquilo que deve ser"
(LUKÁCS, 1989b, p. 37). Assim, o operário é expropriado, definhado de todas as
determinações que lhe possibilitem perceber o reflexo correto da realidade e, sob o
jugo do capital, transforma-se em nada.

Este mecanismo vivo, porém, não é percebido pelo trabalhador, mas


materializa-se a partir da passagem da cooperação simples para a manufatura e
nesta efetiva-se. A subordinação do trabalho em relação ao capital explicita-se
concretamente. Mesmo no interior na velha produção feudal, cooperação simples, já
ensaiavam-se as formas de se colocar o trabalhador subordinado ao capital.
Porém, quando o processo de trabalho materializa-se, no período manufatureiro, o
que eram ensaios, tentativas, tornou-se realidade. A manufatura dominava o
universo produtivo e social, impondo, naquele momento histórico determinado,
como a relação capital-trabalho deve ser.

A manufatura foi o passo inicial e o capitalista se aproveitou-se das


condições existentes, pois não nasce do nada uma nova forma de subsunção.
Existe uma construção anterior que determina a forma de se relacionar na
produção. Há uma separação dos meios de produção, mas também de
decomposição deste, o que leva o trabalhador, aos poucos, perder a dimensão do
todo e apreender apenas uma parte do ofício. “...A manufatura, entretanto, não se
limita a aproveitar as condições para cooperação como as encontra, ela as cria, até
certo ponto, decompondo a atividade do artesão. Por outro lado, consegue esta
organização social do processo de trabalho apenas aprisionando cada trabalhador
a uma única fração do ofício” (MARX,1975b, p. 396).

Nessa fase da subordinação, a relação capital-trabalho ocorre por meio da


produção de valor excedente, por meio da mais-valia absoluta, quando o capitalista
passa a utilizar-se da força de trabalho do operário o maior tempo possível. Isso lhe
possibilita aumentar constantemente o trabalho excedente. Embora, os meios de
trabalho mantenham uma certa rotatividade, o aumento da mais-valia dá-se na
ampliação das horas de trabalho, inclusive reduzindo os horários de refeições, e do
não cumprimento dos feriados e dos dias santos.

80
Neste primeiro momento, os capitalistas utilizavam não somente da força de
trabalho do operário, mas utilizavam também de seus instrumentos (muitos operários não
conseguiam colocá-los em movimento devido à concorrência que já existia no mercado).
Num segundo momento os operários, despossuídos de todos os bens, inclusive de seus
instrumentos de trabalho, resumem-se em uma única mercadoria: a força de trabalho.
96

Os operários não assistiram a essa relação de braços cruzados.


Posicionaram-se contrários e lutaram bravamente em vários momentos da história
por meio dos movimentos reivindicatórios.

A luta entre o capitalista e o trabalhador remonta à própria origem do capital.


Ressoa durante todo o período manufatureiro. Mas, só a partir da introdução da
máquina, passa o trabalhador a combater o próprio instrumental de trabalho, a
configuração material do capital. Revolta-se contra essa forma determinada dos
meios de produção, vendo nela o fundamento material do modo capitalista de
produção (MARX,1975b, p. 489).

Essa postura do trabalhador em relação ao capital foi-se complexificando.


E os trabalhadores conseguiram, em alguns países, a redução da jornada de
trabalho, dificultando a ação dos capitalistas na correlação de força, porém não
conseguiram impedir o movimento da classe capitalista. Estes, colocando a
dinamicidade presente em sua lógica, continuaram extraindo trabalho excedente e,
se não bastasse isso, colocando em movimento a mais-valia relativa. Porém, os
capitalistas foram, aos poucos, sentindo a necessidade de criarem mecanismos
para alterarem esta relação de desvantagem. Era necessário dar um salto
qualitativo na forma de produzir, ou o modo de produção capitalista corria o risco de
entrar num processo de estagnação profunda. E a resposta não tardou a ser
anunciada por meio de ações individuais e coletivas, houve a revolução tecnológica
que, acompanhada pela racionalização e burocratização das relações de produção
e social, possibilitou a superação da mais-valia absoluta, mas não a extinguiu, pois
esta é parte constitutiva de toda produção social mercantil.

Assim, aumentar a jornada de trabalho e criar leis que beneficiassem os


capitalistas, colocou em movimento um processo de extração de valor através da
maquinaria. Com o motor a vapor, fruto da primeira revolução tecnológica, este
mecanismo "morto" contribui para ampliar a apropriação do trabalho vivo e
acumular maior valor excedente. Dessa forma, as máquinas passaram a controlar
os homens, fazendo deles um apêndice dos instrumentos de produção, pois a única
lei que se preservava era a da produtividade, e de como produzir em um menor
espaço de tempo uma quantidade maior de mercadorias. Esta posição capitalista foi
alcançada devido à primeira revolução tecnológica que permitiu reestruturar a
forma de produzir exigindo que os operários aumentassem a intensidade e a
elasticidade das suas atividades. É a máquina que diz para o operário quanto tempo
é necessário para produzir uma determinada mercadoria. Ao colocar as
potencialidades descobertas a serviço do capital constante, obtendo uma maior
lucratividade, o capitalista não só ampliou o ritmo das atividades, como também, as
indústrias começaram a ser movidas em turnos alternados. A verdadeira subsunção
real estava posta em prática. “Na subordinação real do trabalho no capital efetua-se
uma revolução total (que prossegue e se repete continuamente) no próprio modo de
produção, na produtividade do trabalho e na relação entre capitalista e operário"
(MARX, 1975b, p. 89).

O trabalhador, definitivamente, além de perder seus meios de produção,


perde a liberdade de construir seu produto. Há uma inversão de papéis. O
trabalhador é dominado pelo instrumento que ele mesmo produziu: as dimensões
97

criativas e suas habilidades são impedidas de serem desenvolvidas. Amplia-se o


grau de embrutecimento dos homens em relação aos próprios homens. Formata-se
nas relações cotidianas, nos diferentes processos de trabalho o domínio dos
capitalistas no âmbito do capital constante, ampliando a acumulação e
concentração do capital fixo.

A subsunção real é o marco de uma nova forma no interior do processo de


trabalho, dentro de um mesmo modo de produção. Na subsunção formal, o domínio
do capitalista é relativizado; uma grande parte dos operários vende sua força de
trabalho para aquele, mas possuem ainda a possibilidade de manejar instrumentos
que são do seu domínio, permanecendo o processo de trabalho que antes procedia.
Porém, na subsunção real, o trabalhador perde a liberdade total, relativizando a
sua vontade individual e coletiva. A preocupação dos capitalistas, em nenhum
momento, foi com o homem enquanto ser social, humano que, através do trabalho,
tivesse a possibilidade de libertar-se em direção à emancipação do meio natural. Os
capitalistas, somente se preocuparam em extrair a maior quantidade da mais-valia
possível. Este objetivo central é o que determina a sua forma de ser.

Para atingir este objetivo “promissor”, os capitalistas, por meio da


apropriação do conhecimento científico e tecnológico, começaram a criar e fabricar
máquinas revolucionárias. Com a introdução das máquinas ocorreu uma
transformação significativa no processo de trabalho e dos instrumentos de trabalho.
Esta transformação não poderia ocorrer se, ao mesmo tempo, o trabalho não
passasse por uma divisão pormenorizada, que “...tem a ver, em princípio, com a
mudança no método de trabalho, mas é afetada, como também afeta as alterações
no instrumental do trabalho” (PARO, 1991, p. 49). Mas, a esfera da organização do
trabalho é também atingida em suas determinações centrais.

Dividir o trabalho em funções pormenorizadas foi um avanço para os


capitalistas e uma “desgraça” para o operário. O capitalista deixou de se preocupar,
em parte, com o trabalho individualizado. E conseguiu, por meio de treinamentos,
adequar o trabalho a diferentes funções dentro da fábrica. Com esta possibilidade
posta na ordem do dia, o capitalista adquiriu vantagens desde o momento da
compra da força de trabalho. Assim, foi necessário comprar apenas uma força de
trabalho que tivesse o conhecimento de todo o processo de produção.
Considerando que o mercado dispõe de um grande e qualificado exército de
trabalhadores “...com a divisão pormenorizada do trabalho, torna-se possível
comprar separadamente, de diferentes possuidores, o tipo de capacidade de
trabalho requerida para cada elemento do processo” (PARO,1991, p. 53). Sob estas
condições materializadas no mercado, o resultado para o capitalista é certo:
aumento exponencial do lucro. 81 E realizar esta imposição sobre a força de trabalho,
não só é possível porque o capitalista se apropria da força de trabalho do operário,
mas também porque exerce sobre esta um determinado controle. “...A divisão
manufatureira do trabalho pressupõe a autoridade incondicional do capitalista sobre
seres humanos transformados em simples membros de um mecanismo que a ele
pertence" (MARX,1975b, p. 480).

81
Por apresentar uma maior redistribuição do trabalho, é possível encontrar a
qualquer momento o tipo de capacidade do trabalho de que necessita o capitalista. Para
conseguir aumentar a intensidade deste capital, o capitalista propõe “sugar” a maior
quantidade de potencialidade que cada trabalhador possui.
98

Ao controlar o trabalho dos operários, o capitalista, no período da


manufatura, exercia o domínio da força sobre o trabalho individual. Para isso
buscava dominar e controlar a ponto de “apoderar-se de suas raízes”, isto é, da
potencialidade de cada operário. Ocorre, portanto, mais uma reestruturação da
organização das formas de trabalho. Concomitante a essa reestruturação ocorre na
manufatura, um processo de racionalização e burocratização que leva à criação de
uma hierarquia entre os próprios trabalhadores. “A manufatura propriamente dita
não só submete ao comando e a disciplina do capital antes independente, mas
também cria uma graduação hierárquica entre os próprios trabalhadores"
(MARX,1975b, p. 412).

Todas as “grandezas revolucionárias” criadas pelo capitalismo, colocando


o operário diretamente e sob as regras da subsunção real, atingiram o grau mais
perverso que até este momento a humanidade presenciou. Ocorreu uma
transformação radical nos meios de produção, o que propiciou ao capitalismo atingir
um grau de acumulação de excedente até então nunca visto. E, ao mesmo tempo,
levou o operário e seus familiares a atingirem graus máximos de miséria humana.
Essa gradação revela o seu nada, pois o trabalhador, no decorrer do processo,
apresenta-se enquanto um ser desqualificado, humano e profissionalmente. “...O
homem necessitado, cheio de preocupações, não pode admirar nem o mais belo
espetáculo" (MARX, 1975a, p. 40).

Profissionalmente, o operário ao se entregar sobre dado objeto tem a


finalidade de, por meio dos seus conhecimentos com base técnica e/ou científica,
apropriar-se das determinações singulares, particulares e da totalidade que o objeto
é. No entanto, devido à situação em que o operário se encontra neste estágio do
desenvolvimento produtivo, o máximo que consegue atingir é parte insignificante da
riqueza do que é o objeto, mesmo quando há um domínio da parte mais complexa.
Este fato ocorre porque os operários são treinados e organizados na base produtiva
para saber o máximo do mínimo, tornando-se especialistas. 82 No modo de produção
capitalista, esta dimensão é criada e desenvolvida para estar sempre a serviço do
capital e, jamais, reverter-se contrariamente à lógica. “A especialização de manejar
uma ferramenta parcial, uma vida inteira, se transforma na especialização de servir
sempre a uma máquina parcial" (MARX,1975b, p. 482).

Enquanto força de trabalho especializada, a subsunção real ao capital


torna-se mais nítida possibilitando o reconhecimento social. O capitalista enquadra
o operário como apêndice da máquina, e utiliza-se da sua especialidade o máximo
possível, transformando-a em um instrumento que domina o próprio operário. "O
Feitiço vira contra o Feiticeiro", a máquina construída pelo próprio homem, apodera-
se das suas potencialidades, e de todo o seu tempo disponível. É importante
lembrar que, para o capitalista, não existe tempo livre. 83
82
Tornar-se especialista é uma condição posta pelo próprio modo de produção
estabelecido, pois quanto mais se desenvolvem as forças produtivas, mais se necessita de
especialistas. No entanto, no momento em que o especialista não consegue dimensionar a
parte - complexos de complexos - no todo complexo, torna-se um ser parcelado,
fragmentado e, portanto, fragilizado em sua individualidade.
83
Para o capitalista, não existe tempo disponível para criar valor de uso (para
construir uma sociedade com vida). Se hoje há um desmoronamento do trabalho humano
e livre: como pensar uma sociedade de tempo "livre". Hoje, o shopping center é o espaço
para o tempo livre.
99

... Fica desde logo claro que o trabalhador durante toda a sua existência nada
mais é que força de trabalho, que todo o seu tempo disponível é por natureza e
por lei tempo de trabalho, a ser empregado no aumento do próprio capital. Não
tem qualquer sentido o tempo para a educação, para o desenvolvimento
intelectual, para preencher funções sociais, para o convívio social, para o livre
exercício das forças físicas e espirituais, para o descanso dominical mesmo no
país dos santificados de Domingo (MARX,1975b, p. 300).

Essa perda da amplitude do que representa realmente as dimensões do


trabalho social é prolongada com maior evidência no momento em que os
trabalhadores perdem o ritmo de seus trabalhos e são colocados à vontade do ritmo
da máquina. É a máquina que diz a hora de iniciar e a hora de parar. É a máquina
que diz como iniciar e como parar. Há uma “inversão” na relação homem/natureza.
“...Não é mais o trabalhador que utiliza os instrumentos de produção para
transformar a matéria-prima em objeto útil; pelo contrário, é a máquina que utiliza o
trabalhador, determinando-lhe o movimento e o ritmo de trabalho" (PARO, 1991, p.
53). Há, dessa forma, o domínio de um mecanismo morto em relação a um
mecanismo vivo – é a máquina dominando e impondo o ritmo ao trabalhador. “Na
manufatura, os trabalhadores são membros de um mecanismo vivo. Na fábrica eles
se tornam complementos vivos de um mecanismo morto que existe independente
deles" (MARX,1975b, p. 353).

Ao dominarem os membros de um mecanismo vivo, a máquina


(mecanismo morto) consegue levar os homens a um certo grau de monstruosidade,
até então, nunca visto. Eles, atingem um alto grau de negação das próprias
atividades humanas. As ações bárbaras realizadas pelos homens em seu cotidiano
são delegadas como sendo obras do demônio, ou numa visão mais moralista, em
casos de vadiagem, de descompromisso social. Essas ações nunca são entendidas
como fruto da relação conflituosa entre capital-trabalho em seu cotidiano porque

...deformam o trabalhador monstruosamente levando-o artificialmente a


desenvolver uma atividade parcial, à custa da repressão de um mundo de
instintos e de capacidades produtivas, lembrando aquela prática das regiões
platinas onde se mata um animal apenas para tirar-lhe a pele e o sebo. Não só o
trabalho é dividido e suas diferentes frações distribuídas entre os indivíduos, mas
o próprio indivíduo é mutilado e transformado no aparelho automático de um
trabalho parcial, tornando-se assim, realidade à fábula absurda de Menennius
Agrippa que representa o ser humano como simples fragmento do seu próprio
corpo (MARX,1975b, p. 413).

A desumanização dos operários atinge outros limites. No decorrer do


processo de produção capitalista o trabalhador vai chegando a uma dada situação
em que, para manter-se em pé e propiciar condições mínimas de vida, não como
sujeito, mas como um ser insignificante, chega ao extremo, para suprir suas
necessidades, e enquanto um operário escravo, torna-se, ao mesmo tempo, um
traficante de escravos, porque não basta ao operário perder sua dimensão de
homem enquanto sujeito, o capitalismo exige que seus filhos e sua mulher também
100

cheguem à mesma condição. 84 E, com essa dimensão destruidora do ser social


colocada em prática, a classe-que-vive do trabalho excedente consegue abstrair e
materializar “da desgraça dos outros”, a sua felicidade.

Esse é um movimento realizado pelo capitalismo todos os dias e,


encontra, no interior do processo, o local central para efetivar seus propósitos.
Porém, é na instância onde ocorre o processo de trabalho que a lógica e a forma
de ser do modo de produção capitalista encontra sua fecundidade.

2.2.2.1 O processo de trabalho, forma técnica e organizacional: do Artesanato ao


Toyotismo

A categoria ontológica trabalho no momento em que ganhou liberdade no


interior do mercado, expressando, essencialmente, a sua dimensão mercadológica
abriu um campo de possibilidades para que o modo de produção capitalista
colocasse em movimento seu projeto em escala produtiva jamais conhecida e
vivenciada. A apropriação objetiva e subjetiva da força de trabalho ganhou
proporções diferenciadas historicamente. No momento em que as contradições
entre capital-trabalho foram sendo dimensionadas pelos trabalhadores-operários, a
relação estabelecida ganhou determinadas particularidades tanto por parte dos
capitalistas, como pelos trabalhadores. Neste sentido, em relação à esfera da
produção, vários momentos ocorreram para a construção e efetivação dos
processos de trabalho, pois é no espaço do trabalho que os homens, coletivamente,
preparam-se para efetivarem e criarem possibilidades de negarem o projeto
societário existente e construírem condições materiais para dar o salto ontológico
na construção de um projeto societário emancipatório.

Um dos momentos ocorreu na passagem do modo de produção feudal


para o capitalista e, durante o desenvolvimento deste, o processo de trabalho
estabelecido em cada período, determinado pela lógica da produção em movimento,
ganhou um registro particular. Nessa relação homem-natureza, algumas
determinações concretas foram realizadas pelos homens por meio da centralidade
do trabalho humano. Estas relações podem ser compreendidas como o processo de
trabalho que se efetivou durante o período do artesanato com a cooperação
simples e, mais tarde com a manufatura, maquinaria, fordismo-taylorismo, toytismo e
processos contínuos.

Mas, é no interior do modo de produção feudal que as experiências


produtivas pré-capitalistas entram em cena. O ponto culminante ocorre com a
implantação e o desenvolvimento da lógica e forma produtiva fundada no artesanato
que apresentou características próprias, pois o processo de trabalho no artesanato
possuia uma singularidade na constituição da sua forma social e técnica. Enquanto
forma social, a produção artesanal colocava o modo de produção feudal em
questionamento, porém, não possuía elementos necessários concretos, para
superá-lo. No campo da forma técnica-organizacional, a produção artesanal
84
A revolução ocorrida na ciência, principalmente após 1870, levou a divisão do
trabalho ao seu limite, criando e ampliando novas profissões e novos postos de trabalho,
em que a força de trabalho das crianças e das mulheres ganham espaço. Esta ação não é
inocente, contribui para fragilizar a relação dos trabalhadores em relação ao capital.
101

apresenta algumas características que legitimam esse período produtivo: (1) a


produção ocorria no interior dos ofícios; (2) as atividades eram desenvolvidas pelo
mestre-artesão (proprietário do ofício e pelos seus aprendizes); (3) a divisão
técnica do trabalho foi colocada em movimento, porém não ocorria o parcelamento
das tarefas e; (4) a força de trabalho em movimento era impregnada de habilidades
e de conhecimento técnico. O trabalho humano individual predominava, de forma a
garantir que as ações em todo o percurso do processo de trabalho, e do produto
final resultado das objetivações dadas, apresentassem ricas determinações e
imprimissem em cada gesto um conjunto de habilidades e ao mesmo tempo
registrava sua marca num determinado momento produtivo na sociedade pré-
industrial. No entanto, chegou-se a um determinado momento histórico em que esta
forma de objetivação produtiva artesanal e as ligadas à terra não suportaram as
exigências que a sociedade em movimento colocava e,

...tudo que era sólido e estável se dissolve no ar (...) e as forças contraditórias


presentes no interior do modo de produção feudal não suportaram a jovialidade e
a força revolucionária da classe burguesa emergente. A burguesia, onde
conquistou o poder, destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas.
Rasgou sem compunção todos os diversos laços feudais que prendiam o homem
aos seus "superiores naturais" e não deixou entre homem e homem outro vínculo
que não o do frio interesse, o do insensível pagamento em dinheiro (MARX;
ENGELS, 1998, p. 7-8).

Dessa forma, as necessidades humanas impuseram sua força e por meio


de ações revolucionárias transformaram as relações feudais pré-capitalistas em
capitalistas embrionárias. A forma social do modo de produção é transformada e traz
novas determinações para o interior do movimento do processo de trabalho. Nesse
cenário, impera o modo de produção capitalista. No entanto, a forma técnica não é
atingida em sua essência. De forma anárquica, o processo de trabalho pautado no
artesanato, ao ser suplantado, não permite a passagem direta para a manufatura.
Nesse horizonte histórico determinado, entra em cena a cooperação. “...Uma forma
de trabalho em que muitos trabalham juntos, de acordo com um plano, no mesmo
processo de produção ou em processos de produção diferentes mais conexos"
(MARX,1975b, p. 374).

Concebido como cooperação simples, sua permanência é passageira, e


enquanto processo de trabalho determinado é difícil de ser localizado
geograficamente. No entanto, sua materialização estabelece-se por meio de uma
relação mediada por interesses de corporações que, nesse momento, expressa uma
particularidade embrionária do modo de produção capitalista, o início e a
estruturação da divisão técnica e social do trabalho.

Essa cooperação simples traz um traço novo: o exercício e a efetivação


na construção da força de trabalho coletiva. 85 Devido às novas configurações que o
modo de produção capitalista impõe, a produção individual, ou seja, a produção

85
Estabelece-se, a partir deste momento a força produtiva social do trabalho.
Toda a jornada de trabalho coletiva passa pelas determinações técnicas e organizacionais
da força produtiva do trabalho social.
102

realizada em ofícios individuais, não dá conta da quantidade e diversidade da


produção de mercadorias necessárias. Ao criar a força coletiva de trabalho,
ampliam-se também os espaços de trabalho. Estas duas novas dimensões (força
produtiva coletiva e ampliação dos espaços de trabalho) tiveram como resultado
imediato o aumento, a eficácia da produção, a ampliação e a concentração de
trabalhadores. Ao mesmo tempo, a classe dominante emergente, utilizando-se de
sutilezas, realiza as primeiras tentativas de parcelamento do trabalho, porém, não
consegue retirar as habilidades do trabalhador. O trabalhador ainda controlava
todas as habilidades em sua atividade, mas o capitalista exercia a direção das
atividades e apropriava-se da produção excedente. O trabalho coletivo criava
resistências e de fora da redoma de vidro, o capitalista emergente não conseguia
alterar a nova relação estabelecida.

E, ao combinarem-se diferentes ofícios, nascem as operacões


especializadas. Com esta nova transformação organizacional, as tarefas tornam-se
fragmentadas; o trabalho deixa de ser individual e assume a categoria de
socialmente determinado; realizam-se os primeiros passos na implementação do
pensar e do fazer. Apesar dessas transformações na organização do trabalho, a
dimensão da forma técnica ainda é lastreada no trabalho vivo. "Complexa ou
simples, a operação continua manual, artesanal, dependendo, portanto da força, da
habilidade, rapidez e segurança do trabalhador individual, ao manejar seu
instrumento" (MARX,1975b, p. 389).

E, por estar lastreada no trabalho vivo, o trabalho profissional do artesão é que


dá o tom da produção. Devido a empiria ainda estar centrada na mesma lógica,
as transformações técnicas nesse momento ainda estão amadurecendo
enquanto elementos científicos. O oficio continua sendo a base. Essa estreita
base técnica exclui realmente a análise científica do processo de produção, pois
cada processo parcial percorrido pelo produto tem de ser realizável como
trabalho parcial profissional de um artesão (MARX,1975b, p. 389).

O grande desafio colocado pela manufatura era retirararem os


trabalhadores do interior da redoma de vidro, apropriando-se de suas habilidades e
de seus conhecimentos técnicos. Essa meta foi alcançada, apesar de toda a
resistência apresentada pelos trabalhadores. O ponto central em que os donos do
capital industrial irão pautar-se é nocivo, porém com resultados significativos para a
classe capitalista emergente.

Registra-se, nesse momento histórico, uma nova forma organizacional de


relacionar capital-trabalho. O capitalista entra no interior da redoma de vidro e retira
o trabalhador do seu interior transformando-o em parte do processo,
impossibilitando-lhe conhecer a totalidade do mesmo. As possibilidades concretas
da apropriação da habilidade e de sua efetivação em seu fazer cotidiano na esfera
da produção é arrancada do trabalhador e apropriado pelos gerentes das fábricas.
O trabalho parcelado é sedimentado. O pensar e o fazer são separados no interior
dos espaços produtivos. 86 Este ato possibilitou aos capitalistas industriais
86
Neste momento, a divisão social do trabalho, explicita-se a sua particularidade
no interior do modo de produção capitalista. É neste momento que o fazer e o pensar tem
direção de projeto, consciente ou não. E na sociedade capitalista esta dimensão orgânica,
emergentes apropriarem-se da habilidade que estava sob o controle do trabalhador
e, num passe de mágica, destituí-lo de parte seu instrumento de trabalho,
transformando-o em uma mercadoria vulnerável e de fácil controle, expropriando a
sua força de trabalho no limite. Esse domínio permitiu reduzir o tempo socialmente
necessário para produzir uma mercadoria, abrindo espaço para o capitalista
aumentar a apropriação do trabalho excedente, obtendo maior acumulação de valor.

Com esta nova dinâmica, sob a lógica da produção manufatureira


capitalista, acentuou-se o despotismo da divisão do trabalho. Esse comportamento
tirano é o registro histórico da façanha do capitalista por ter conseguido expropriar
o trabalhador dos seus meios de produção, dos seus instrumentos de trabalho,
controlando todos os seus movimentos, simples ou complexos. Este é o registro
essencial da forma de produzir na manufatura. E quando comparamos a cooperação
simples com a manufatura, uma questão merece destaque: na primeira, existe uma
divisão do trabalho, mas, não do indivíduo; na segunda, ocorre uma divisão do
trabalho e também do indivíduo. Não tardou, porém, para que a forma técnica, da
qual se apropriaram os capitalistas, nesse período, fosse atingida em seu núcleo
central. A partir daí, a produção manufatureira perdeu terreno e entrou em cena a
maquinaria, criando assim a indústria moderna.

No período em que predominou o processo de trabalho sob a lógica


manufatureira, a força de trabalho foi o elemento central responsável pelo processo
revolucionário, pois as transformações que ocorreram no âmbito organizacional na
produção e da reprodução era lastreado no trabalho vivo. No entanto, na indústria
de trabalho, que revolucionou a esfera da produção de mercadorias e da
reprodução social, as transformações ocorreram na forma técnica de produzir,
atingindo também, como conseqüência, o espaço organizacional. Este novo cenário
interferiu diretamente para que a forma social de produção até então, sofresse
mudanças em sua raiz.

Com a maquinaria, os limites do trabalho para realizar operações


combinadas foram superados por mecanismo morto. E, ao realizar diferentes
funções, pormenoriza o trabalho em seu limite por meio da combinação de
máquinas e ferramentas com diferentes funções. A manufatura é superada. E se
não bastasse este novo fato revolucionário, os capitalistas conseguem colocar
também, em movimento, máquinas que constroem outras máquinas.

A maquinaria - capital fixo - representou a superação das barreiras


orgânica do capital constante. A ferramenta que é utilizada pela força de trabalho
vivo é acoplada em um mecanismo morto. Este, além de possibilitar aumentar o
ritmo, a quantidade, possibilita também, intercambiar com diferentes ferramentas.
No início, este mecanismo era possível de ser visualizado pelos homens, no
entanto, com o passar do tempo, essa visualização tornou-se impossível. Este
avanço trouxe a público o início da ciência na produção, aos poucos, alcançando
graus cada vez mais complexos na relação homem-natureza e possibilitando maior
domínio daquele sobre esta.

Nesse mesmo complexo relacional, aumenta-se o grau de presença de


elementos subjetivos, e a ciência obriga os elementos mortos a tornarem-se vivos.
vinculada, é uma decisão de classe. A divisão social do trabalho decide a posição que o
sujeito tem no conjunto do processo produtivo.
104

Para a força de trabalho vivo, coube-lhe o papel de “vigiar a máquina com as vistas,
e corrigir os erros com a mão." Na manufatura, o trabalho vivo, apesar de
expropriado da sua subjetividade, de suas destrezas, colocava-se como parte
central, enquanto na maquinaria, o ponto central passou a ser os instrumentos de
trabalho. A força de trabalho é descartada na sua totalidade enquanto elemento
principal. Essa diferença resulta em duas novas determinações no interior do
processo de trabalho, inaugurando uma nova particularidade histórica do modo de
produção capitalista: (1) o trabalhador torna-se apêndice da máquina; (2) o
processo deixa de ser totalmente lastreado no trabalho vivo.

Dessa forma, a indústria moderna ampliou a possibilidade de o capitalista


apropriar-se de uma maior quantidade de trabalho excedente, pois, colocou-se fim
ao trabalho socialmente necessário para produzir uma determinada mercadoria, e
sob a lógica de mecanismos mortos, a produção alcançou proporções jamais
atingidas. E o trabalho vivo, trabalho que se expressa como socialmente necessário
para produzir uma mercadoria, não sai de cena, mas, é excluído durante o processo
de trabalho. Torna-se apêndice da máquina. 87 Com a maquinaria, a divisão social e
a divisão técnica do trabalho sofrem transformações profundas. A concepção e a
execução saturaram-se em determinações o que possibilita diferenciar-se as
particularidades imbricadas nas duas dimensões da divisão. 88

Por um lado, criam historicamente uma casta de intelectuais que se


apropriam da concepção de trabalho, aumentando o número de trabalhadores
desapropriados do saber-fazer, ou seja, da habilidade, para abrirem outros espaços,
devido à simplicidade das operações, para o trabalho feminino e infantil. Como
conseqüência, a organização do trabalho é atingida diretamente, fragilizando-se o
poder de negociação e de suas bandeiras de luta; o trabalho feminino e infantil
ganharam espaços no mercado de trabalho; o arrocho salarial aumenta; o
desemprego alcança números assustadores, ampliando as condições de trabalhos

87
Este resultado em movimento não coloca em questionamento a centralidade
da categoria trabalho em sua dimensão protogênica.
88
Desde o início do modo de produção capitalista, em específico a partir da
produção centralizada na maquinaria, as diferenças entre divisão social e divisão técnica
do trabalho ganharam maior grau de saturação. No que se refere à divisão técnica do
trabalho evidenciou-se: (1)ampliação em proporções geométricas. Cria-se novas profissões
e, ao mesmo tempo, destrói-se outras; (2) reduz-se o número de trabalhadores na
execução de determinadas atividades; (3) com as especialidades, amplia-se o
conhecimento sobre a natureza, obtendo um maior domínio da mesma. Essas dimensões
estão permitindo: (1) viabilizar-se com maior rapidez e qualidade a universalização da
produção, apesar de um número muito reduzido de pessoas apropriam-se dos produtos e
das mercadorias criadas; (2) cria-se um campo de possibilidades de os homens
trabalharem (na produção industrial) menos e desenvolverem outras objetivações que
permita-lhes participar das possibilidades de sair do mundo da singularidade e viver
determinações genéricas. Assim, a divisão técnica do trabalho tornou-se uma determinação
que mostra o grau de saturação e potencialidade que os homens, através do trabalho, já
conseguiram alcançar. Por outro lado, encontra-se a divisão social do trabalho. Esta se põe
na dimensão de decisão, isto é, quem manda e quem obedece, ou seja, quem cria, elabora
e quem executa. A divisão social está vinculada a mecanismos de poder que expressam
relações jurídicas de propriedade em vez de exigências técnicas". A divisão social do
trabalho é uma determinação de classe." Por isso, promovendo uma identificação entre
divisão técnica e divisão social do trabalho, nós naturalizamos a divisão social do trabalho".
105

precarizados.89 As condições favoráveis que as máquinas automáticas vislumbram


não retornam para a vida do trabalhador e dos seus familiares. O que ocorre é o
distanciamento da maioria da população em usufruir das conquistas que o próprio
homem realizou.

Para Marx, o capitalismo representava uma revolução no âmbito das


forças produtivas. O horizonte que se iniciava era um caminho que, a passos
longos, oferecia as condições necessárias para que os trabalhadores se
distanciassem da natureza, dando condições para os trabalhadores apropriarem-se
das suas potencialidades, dando finalidade para a humanidade dos frutos desta
relação. Dessa forma, abre-se a possibilidade de os homens trabalharem o mínimo
necessário para a sobrevivência material, e num passo de mágica, desenvolverem
as dimensões espirituais, e apropriarem-se da produção material em prol da
humanidade, bem como de avançarem historicamente do “ser singular para o ser
genérico”, construindo e praticando ações que caminhavam em direção a um projeto
emancipador.

Porém, o que se presenciava não era a busca da implementação desse


horizonte concretamente fundamentado na perspectiva da razão ontológica. Ao
contrário, ampliava-se a exploração da força de trabalho por meio da realização de
horas extras que, além de aumentar a concorrência pelos postos de trabalhos
individuais, devido à simplicidade das operações realizadas pelo trabalhador em
sua relação com a máquina, o trabalhador estava sempre ameaçado por outro
trabalhador, seja do sexo masculino ou feminino, adulto ou criança. Aumentava a
tirania do capital em relação ao trabalhador. A situação de vulnerabilidade do
trabalhador tornava-se constante.

O cenário apresentado até esse momento teve, como palco central, a


Europa, e em particular a Inglaterra. Essa discussão transitou do século XV ao XIX.
No entanto, ao final do século XIX e na virada para o século XX, parece que a roda
da história girou para trás. A construção marxiana apresentada, apontando a
maquinaria aplicada no ramo têxtil como sendo o estágio mais aprofundado da
negação da força do trabalho vivo, trabalho humano, através da relação capital-
trabalho e, ao mesmo tempo, apontando a possibilidade de a indústria moderna
colocar os homens no caminho da emancipação, caí por terra.

Isso pode ser verificado mudando-se o cenário geográfico, da Europa para


os E.U.A., onde o método taylorista aparece como figura central dessa nova

89
Os trabalhadores passam a conhecer as nuanças da frieza dos donos do
capital os quais assessorados por todos aqueles que agem por meio de ações calculistas,
demitem quantos trabalhadores forem necessários; neste momento instauram-se
processos de profunda penúria para os trabalhadores e seus familiares. Para não
perecerem, os trabalhadores iniciam todos os dias a busca para ocuparem um novo posto
de trabalho em qualquer ramo da produção. Disponíveis no mercado, os trabalhadores
aceitam qualquer proposta de pagamento pela sua força de trabalho ou de seus familiares.
Quanto maior o período recessivo (em evidência o período após1970), sua sorte lançada
no mercado não tem respostas. Neste momento sua força de trabalho fica à disposição de
qualquer capitalista para executar as atividades com maior grau de precaridade e, o pior,
com salários baixos e condições de trabalho insalubres. Ricardo Antunes chama a atenção
para o termo trabalho precário, pois no capitalismo, a própria lógica do assalariamento já
condiz com a dimensão precária.
106

investida do capitalismo. De acordo com os enunciados de Taylor, parece que a


maquinaria não existiu. Por isso, é necessário retornar-se à passagem da
cooperação simples para a manufatura. Em primeiro lugar, na Europa, a indústria
moderna chegou ao seu auge através da maquinaria desenvolvida, principalmente,
no ramo da produção têxtil. Nos E.U.A., há duas diferenças em relação à Inglaterra.
(1) a produção não é centrada na produção têxtil, mas no ramo metal-mecânico; (2)
e, a produção estava lastreada no trabalho vivo. Será que a maquinaria implantada
e implementada na Europa deixou de existir?

Esta discussão não se propõe ater-se à história de Taylor, mas é


importante enfatizar suas preocupações centrais. Taylor assumiu o propósito de
expropriar ao máximo o trabalho vivo. Em primeiro lugar, ele deixou definido e
explícito que o problema central enfrentado pela acumulação capitalista, nos
E.U.A., situava-se na liberdade em que se encontrava o trabalho vivo,
principalmente aquele lastreado de habilidades. Era necessário, portanto, retirar do
operário o saber legado e conquistado socialmente. Para dar conta dessa tarefa,
Taylor cria o papel da gerência científica, a qual tem a responsabilidade de entrar
na redoma de vidro e cumprir com a tarefa de expropriação daqueles.

Como podemos identificar, não é Taylor o responsável por retirar do


operário o saber, pois este fato já ocorrera com a manufatura e, principalmente, com
a maquinaria no ramo da produção têxtil. O que se vivencia é uma situação nova na
relação conflituosa entre capital-trabalho na produção desenvolvida no ramo metal-
mecânico. Com essa nova dimensão da produção, o problema reaparece, porém,
agora em determinada situação histórica diferenciada, isto é, no interior do
capitalismo monopolista clássico, nos E.U.A.

Taylor não está preocupado em acabar com o trabalho vivo, substituindo-o,


por mecanismos mortos. Sua meta é expropriar a força de trabalho humano em suas
últimas conseqüências, buscando a apropriação de toda a habilidade presente em
cada trabalhador. Assim, é necessário controlar o trabalhador em sua totalidade.
Porém, neste momento, Taylor apenas dá vazão à força motriz do trabalhador. Após
estudos minuciosos, teóricos-práticos, Taylor cria o método de expropriação da
força de trabalho fundamentado no tempo e nos movimentos que cada trabalhador
se utiliza ao objetivar-se sobre um dado objeto. Nesse sentido, três princípios
fundamentam suas premissas: (1) dissociar o processo de trabalho das
especialidades dos trabalhadores; (2) separar a execução da concepção; (3)
apropriar-se de todo o conhecimento técnico que é produzido para controlar cada
fase do processo de trabalho e seu modo de produção.

Pautado nestes princípios, Taylor propõe transformar os homens em


máquinas. Sua máxima era extrair da força de trabalho a maior quantidade e
qualidade de suas destrezas. Isto é, expropriar a força de trabalho dominando seus
tempos e movimentos, buscando transformá-la em ações homogeneizadas dos
homens. Ao transformar os homens em máquinas, Taylor retira o cérebro do
trabalhador, cria as condições para que, em suas mãos, as ferramentas sejam
manipuladas.

Na maquinaria, a racionalidade é a máquina, para o taylorismo, a


racionalidade é retirar o saber do operário. Neste sentido não é verdade que o
método racional taylorista é continuidade da maquinaria, enquanto elemento do
107

processo de trabalho. Isto é, não é verdade que o taylorismo leva a maquinaria da


produção têxtil, desenvolvida no século XIX, às últimas conseqüências. Ao contrário,
o taylorismo é um método particular no interior do processo de trabalho que
necessita ser analisado em sua complexidade particular porém, sem perder a
dimensão da totalidade que envolve o modo de produção capitalista universal.
Marx, ao analisar a maquinaria, mostra-nos que esta supera os limites orgânicos,
enquanto o método aplicado por Taylor busca transformar o ser humano, sua força
de trabalho, em máquina, o que representa um atraso histórico, pois busca
transformar o homem em máquina, independente das conseqüências ocorridas,
Taylor não está preocupado com a questão do trabalho humano enquanto uma
categoria mediadora que possibilite emancipar a humanidade. Ao contrário,
preocupa-se em como criar condições necessárias para que os capitalistas
acumulem, em proporções maiores, o excedente do trabalho vivo. É uma proposta
destruidora da força de trabalho, pois, além de não desenvolver as forças
produtivas, leva a força de trabalho à "imbecilidade extrema.”

Centrando suas ações teórico-práticas sobre o trabalho vivo, Taylor irá


recuperar elementos já desenvolvidos deste o artesanato até a maquinaria. Separa
o trabalho em concepção e execução, isto é, busca incessantemente retirar a
habilidade de cada trabalhador. Sua intenção é retirar o trabalhador da redoma de
vidro e transformá-lo em uma força de trabalho “medíocre”. Força de trabalho, para
Taylor, resume-se ao trabalhador ser capaz de operar as atividades mais simples
possíveis, com eficiência, e no menor tempo possível. Recebendo pelo desgaste
físico e psíquico, um baixo salário.

São os avanços conquistados pelo método taylorista que permitirão que


Ford aproxime-se de Taylor e adote suas idéias em sua produção de automóveis.
Em pouco tempo a produção e a lucratividade aumentaram. Por isso, ao analisar-se
historicamente a produção de automóveis percebe-se que esta não ocorreu
inicialmente por meio da produção fordista. Tal façanha ocorreu primeiramente nos
E.U.A. e na Europa através da produção Craft que retomava algumas
características do processo de trabalho desenvolvido no período artesanal: 1)os
automóveis eram produzidos de forma individual, por meio de encomenda; 2) os
trabalhos eram realizados em equipe; 3) as fábricas eram construídas em espaços
pequenos, lembrando os ofícios; 4)os trabalhadores dominavam toda a produção,
isto é, desenvolviam suas atividades no interior da redoma de vidro; 5) a máquina
utilizada no processo de usinagem e estamparia era a máquina ferramenta
universal; 6) a produção era lastreada no trabalho vivo, portanto, repleta de
flexibilidade. Mas, nesse momento, passagem do século XIX para o XX, as relações
de mercado estavam se expandindo, havia uma agressividade no campo da
competição,o que levou a produção de automóveis Craft a não resistir à lógica do
mercado e, num passo de mágica, outros empresários começam a produzir
automóveis através da lógica e forma capitalista monopolista. Dentre estes
empresários destaca-se Henry Ford.

Ford aparece para enfrentar o desafio na produção de automóveis, ou


seja, transformar a produção artesanal em produção em massa. Dentre os diversos
problemas a serem superados, destaca-se a necessidade de realizar o intercâmbio
das peças, tendo como meta o aumento da produção. Realizar tal intercâmbio de
peças significava obter maior precisão mecânica e padronização. Neste sentido, por
meio da produção rígida ou dedicada, buscou-se produzir um modelo especializado.
108

É fundamental observar que Ford não tinha sob seu poder condições históricas para
produzir vários modelos de automóveis. A produção Craft, calçada na máquina,
ferramenta universal, e trabalho em equipe, coberta de habilidades, apresentava
como ponto central a flexibilidade. Ford, com o método taylorista, retira da força de
trabalho vivo as suas habilidades transformando a produção de automóveis
individual ou aquela em pequenos lotes, na lógica produtiva em massa. No entanto,
NETO (1991) chama a atenção para o fato de que não ocorreu uma produção em
massa (como ocorreu durante as décadas de 1950 e 1960 do século passado) sob
o comando da máquina rígida (antes da Segunda Guerra Mundial), mas, ocorreu no
período de 1906-1940, em que a produção foi rigidificada, isto é, semi-rígida. A
rigidificação, entendida como sendo a utilização de uma estrutura técnica potencial,
ou seja, aquela com a presença de máquinas ferramentas universais e a presença
da linha de montagem lastreada pelo trabalho vivo. Isto é, a planta de uma
produção automobilística é marcada pela produção mecânica e pela linha de
montagem. A parte da planta constituída pela linha de montagem somente entrou
em cena em 1913, com a qual Ford inaugura a produção em massa lastreada no
trabalho vivo. Esta relação, prescinde da qualificação, as habilidades tornam-se
desnecessárias. Com a introdução da linha de montagem, Ford inaugura a esteira.
Este passo traz em cena Taylor, cujas descobertas Ford não poupou esforços para
utilizar. E a principal delas foi a utilização da linha de montagem do método de
Taylor denominado de tempo-movimento, isto é, o movimento da esteira teria que
se ajustar ao movimento do trabalhador.

Em 1913, antes da implementação da linha de montagem, a montagem de


magnéticos tinha uma relação de 1-29. Com o funcionamento desta linha, a
proporção sobe para 1-84. Neste momento, ocorrem os seguintes fatos: (1) a
elevação da produção só é possível com o parcelamento das tarefas; (2) os
experimentos ocorrem no chão da fábrica; (3) a esteira resolve o problema do
transporte. A idéia de transformar o homem em máquina, por Taylor, é levada ao
extremo por Ford.

Frente a essas mudanças é possível afirmar: na linha de montagem não


há maquinaria, mas trabalho humano, força de trabalho vivo. Ao centrar a
expropriação no trabalho vivo, o fordismo não reinventa a manufatura, pois ao
retirar as habilidades do trabalhador, faz com que a execução das tarefas ocorram
de modo mais simples. Porém, esta reinvenção não é uma superação da
manufatura, esta já era realizada pela máquina têxtil, o que representou um atraso
histórico. “...A recriação da manufatura no século XX, o fordismo, apresenta caráter
radicalmente diverso. A forma manufatureira já estava superada historicamente;
consequentemente, o fordismo não representa uma etapa necessária do trabalho
humano; muito pelo contrário, caracteriza-se, isto sim, como o desenvolvimento, até
o paroxismo, da forma historicamente menos desenvolvida” (NETO,1991).

Não obstante, esse período foi marcado por transformações na forma


organizacional do trabalho e por alguns aperfeiçoamentos nas técnicas, porém, em
nenhum momento, ocorreram transformações tecnológicas. Nesse sentido, na
produção metal-mecânica não é possível apreender o processo, enquanto
presente, de transformações científicas. Mas, com a nova revolução tecnológica,
durante a Segunda Guerra Mundial, a automação realiza um novo salto qualitativo e
o fordismo passa a implementar a máquina transfer que marcou o início do
fordismo-rígido. Com a produção rígida, a produção fordista-taylorista aplica um
109

golpe na presença do trabalho vivo. O princípio da continuidade elimina a


predominância da interferência humana. A rigidez que se opõe à flexibilidade, opera
com máquinas transfer, ou seja, não reprogramadas. Alteram-se os setores de
usinagem e da estofaria, porém, a linha de montagem permanece igual. A
eletromecânica congela as informações na máquina, tornando-a rígida.

Com a passagem do processo produtivo fordismo-taylorismo da primeira


fase (rigidificação), para a segunda fase (rigidez), na esfera da fabricação, impera o
princípio da continuidade. Essa característica, principal qualidade das indústrias de
processos contínuos, passa a fazer parte de uma das dimensões da produção
fordismo-taylorismo. E como conseqüência, elimina-se um número significativo da
força de trabalho vivo com a presença imperativa das máquinas transfer (máquinas
integradas) no setor de usinagem e estamparia. No entanto, a presença das
máquinas transfer representam a fase tradicional da automação eletromecânica. A
denominação de máquina tradicional é devido ao caráter imperativo da rigidez
tecnológica. Caso o capitalista necessitasse mudar a produção, a máquina não
permitiria. Assim seu destino era o lixo. Em outras palavras, a máquina Transfer não
possuía o mínimo de flexibilidade, era impossível ser reprogramada. Porém, no
campo organizacional, a linha de montagem permanecia a mesma. Eis a
contradição.

A rigidez do fordismo é atingida. No primeiro momento, pós - Segunda


Guerra Mundial, as máquinas recebem ajustes através da aclopagem da tecnologia
- controle numérico. Com esta nova implementação, a rigidez das máquinas perde
terreno, e a flexibilidade passa a ocupar novos espaços. A máquina – de controle
numérico, computadorizada - reúne o papel do operador, do supervisor e do
programador. Quer dizer, o programador tem que ser o próprio operador. Esta
necessidade flexibiliza as atividades do trabalho.

Num segundo momento, década de 1970-1980, outra ameaça recebe as


máquinas transfer e as de Controle Numérico Computadorizadas. Ambas são
atingidas em suas essências e a elas implementam-se a microeletrônica. Esta
revolução, além de flexibilizar o trabalho, também inova a máquina rígida com a
criação dos robôs. Esta é a mais avançada tecnologia do século XX. Com a
microeletrônica, duas questões podem ser afirmadas: (1) a microeletrônica supera a
tecnologia, até então desenvolvida, levando-a em sua extremidade; (2) através da
microeletrônica, aumentam as possibilidades de os homens produzirem em menor
tempo, permanecendo também um menor tempo no interior da fábrica,
possibilitando ampliar o tempo livre. Abrem-se possibilidades para retirarem-se os
homens deste mundo miserável, materialmente e espiritualmente.

Ao mesmo tempo em que a indústria têxtil ocorre na Europa, no século


XIX, e o fordismo-taylorismo nos E.U.A. século XX e, posteriormente, em todo o
mundo, as indústrias de processos contínuos tiveram seu berço embrionário no
século XIX, na Europa. No entanto, é no século XX, que esta se constitui enquanto
um ramo da produção industrial, isto é, que no seu significado recebem
considerações plausíveis. E é nesse ramo da produção que se encontra o pólo mais
avançado da automação industrial. Ramo em que outras indústrias irão centralizar
sua forma de produzir no final do século passado. Essa observação torna-se
possível de ser percebida no interior de algumas máquinas transfer.
110

Na produção de processos contínuos, há um distanciamento entre o


homem e o resultado do seu trabalho - o produto. A relação é dada entre o homem e
a máquina produto. Com essa nova forma organizacional de produção, o
trabalhador principal passa a ser o operador da produção: (1) ele é o trabalhador
que se coloca na frente do painel de controle; (2) o controle da produção é
realizado a distância, criando assim o gabinete de controle; (3) enquanto conteúdo
do seu trabalho, suas destrezas limitam-se a observar, ler e descrever os dados que
são necessários. Porém, para responder às exigências desta atividade específica, o
operador obriga-se a possuir habilidades de formação técnica em nível médio e,
muitas vezes, universitário. Ao mesmo tempo, o trabalhador que opera o painel
necessita ser acompanhado por outro trabalhador supervisor. Neste momento há
uma dependência especial do capital em relação a um trabalho especial. Frente à
situação concreta, é necessário realizar as seguintes reflexões: o operador que se
coloca à frente do painel possui uma qualificação impregnada de habilidades e/ou
conhecimentos? Não é habilidade, pois não era necessário ao operário a destreza,
a criatividade, a sensibilidade para desenvolver tal tarefa. Ao contrário, devido à
complexidade do trabalho e, principalmente, à flexibilidade contínua incorporada
aos equipamentos, o operário necessita de conhecimento técnico-científico.

Nesse mesmo campo de reflexão, Marx observa que a automação


desqualifica o trabalhador. E na indústria de processo contínuo tem-se a mesma
compreensão? Sabe-se que o grau de desqualificação diminui, porém, não é
possível afirmar que esse operário tenha a compreensão da totalidade. A totalidade
de seu conhecimento situa-se sobre o complexo de complexos, que é uma parte da
sua atuação. Essa apropriação do saber e do fazer não se dá na perspectiva da
razão ontológica, mas sim, da razão instrumental.

Como podemos notar, na indústria de processos contínuos, está ausente a


presença do taylorismo. O tempo e o movimento direcionado sobre o trabalho vivo é
inexistente. O próprio operador do painel não pode interferir nas máquinas de
processos contínuos, são elas que dizem como devem ser colocadas em
movimento. A diferença do operário da máquina têxtil encontra-se na simplicidade
das operações. Nas máquinas de processos contínuos, o ritmo já está programado
pela própria máquina, e cabe ao operador observar, ler e descrever o que o painel
apresenta. No entanto, esta atividade necessita de conhecimentos técnicos e
científicos. É possível então, que: na relação estabelecida entre o homem e a
máquina na indústria de processos contínuos, o operário não é um apêndice da
máquina?

Considerando que a abrangência do conhecimento da atividade, que é


realizada pelo operário e separa-se da totalidade do processo produtivo, entende-
se que o trabalhador que opera a máquina na indústria de processos contínuos é,
sim, um apêndice da máquina. O operário está a serviço da lógica produtiva que é
programada no próprio processo integrado. É a máquina que diz como deve ser e
não o operário. Por outro lado, há a possibilidade de o operário apreender, ao
mesmo tempo, determinações que vão além do simples fato de operar, pois é
necessário saber alguns procedimentos que vão além de simplesmente apertar
botões. Mas, isso não significa que o operário passa a apropriar-se de todo
processo. Continua sendo um operário que sofre o parcelamento da atividade e do
indivíduo.
111

Após a apresentação desse movimento, é possível fazer-se algumas


considerações comparando algumas características das máquinas das indústrias
têxteis, dos processos contínuos e das metal-mecânica: (1) o fordismo, ramo do
metal-mecânica produz automóveis, o que a caracteriza como indústria de
montagem, enquanto as de processos contínuos e têxteis, não; (2) no fordismo, o
trabalho é lastreado no trabalho vivo, enquanto que no processo contínuo e têxtil é
lastreado no trabalho presente nas máquinas; (3) na segunda fase do fordismo, a
produção têxtil e a do processo contínuo, são instrumentalizadas através de
máquinas rígidas; (4) a produção nos três ramos é em massa.

Mas, paralelamente ao desenvolvimento do fordismo-taylorismo, mais


precisamente pós - Segunda Guerra Mundial, momento em que a máquina Transfer
entra em cena, encontramos no Oriente, precisamente no Japão, o embrião de uma
“outra” forma de produzir automóveis. A produção onhista, ou como é mundialmente
conhecida, toyotista.

Onho, após visitar a produção rígida da Ford, irá revolucionar a produção


no Japão. Na realidade, o “novo” apresentado encontra-se na retomada de
experiências já vivenciadas em processos de trabalhos de outras fases do
desenvolvimento do capitalismo. A primeira mudança significativa encontra-se na
forma de produção. Ford produzia em massa, e na segunda fase de sua produção
(após 1945) utilizava-se das máquinas rígidas. Onho propõe a produção em lotes
menores e, utilizando-se da produção flexível, investe no melhoramento das
máquinas rígidas, transformando-as em flexíveis, isto é, reprogramáveis a qualquer
momento. Essa atitude era impossível de ser realizada com as máquinas transfer.
Estes dois passos não são novos. O primeiro, iremos encontrar no pré-fordismo,
momento em que a produção ocorria de forma artesanal, por encomenda. O
segundo, é característica da primeira fase do fordismo-taylorismo, ou seja, fase da
rigidificação. Enquanto a produção rígida centra seus esforços nos mecanismos
mortos, a produção flexível direciona-se ao trabalho vivo, reintroduzindo o trabalho
em equipe. b

Para Onho, a produção em massa inviabilizava o controle de qualidade,


pois, ao avaliar-se por lote, criava-se uma fábrica paralela, enquanto a produção de
pequenos lotes, permitia o controle da qualidade constantemente. A produção
fordista, por ser uma produção descontínua, necessitava da criação de estoques de
todos os produtos, desde o início ao final da produção e comercialização. Para a
produção não parar, era necessário construírem estoques entre uma máquina e
outra.

Onho parte da premissa contrária. Produzir em lotes pequenos para atingir


a massa. A produção deixa de ser "empurrada" para ser determinada pela demanda.
O ponto de partida é a encomenda, ocorre, portanto, uma mudança na lógica da
informação e não na produção. É nesse ponto central que Onho cria dois pilares: na
produção irá estabelecer o Just-in-Time e, na organização, a auto-ativação.

Na produção Just-in-Time, a preocupação é em como será organizada a


produção, destacando-se o papel do trabalho em equipe e do gerenciamento. Os
trabalhadores são orientados para trabalharem com estoque zero. Assim, produzir o
que é necessário, no tempo necessário, atendendo à necessidade da demanda.
112

Essa forma de produzir cria um fluxo de informações invertidas, o planejamento dá-


se de fora para dentro, a inovação como se vê é puramente organizacional e
conceitual, nada de científico e tecnológico interfere (CORIAT, 1994). Esta
afirmação de Coriat desmistifica duas questões: (1) O toyotismo na sua origem não
implementou o robô, fazendo uso da microeletrônica, já que esta revolução
tecnológica começou a ser aplicada nas indústrias de automóveis na década de
1980; (2) não há nada de tecnológico inovado, Onho irá transpor o trabalho em
equipe e a produção por encomenda do período do artesanato e da produção pré-
fordista, e da produção fordista-taylorista para a produção lastreada no trabalho
vivo. Essa dimensão também é decisiva, pois ao negar a rigidificação fordista,
abre-se a possibilidade de retomar a produção de forma elástica, isto é, o trabalho
passa a ser realizado em equipes. Não mais sobre a máquina rígida, mas por meio
da máquina reprogramável. É nessa nova dimensão, que se diferencia da produção
têxtil, que se abre a possibilidade de os trabalhadores serem apêndices das
máquinas. A produção em lotes menores deixou para trás a lógica da produção em
massa, e coloca-se no cenário a produção enxuta.

Com a presença do onhoismo, o coração da produção tem como meta a


produção enxuta. Para realizar este projeto, enquanto mudança organizacional,
Onho iimplanta o Just-in-Time. Essa exigência de mudança de comportamento,
quando comparado com a produção fordista, consiste em manter o estoque zero.
Este é um instrumento metodológico de racionalização. Esta proposição só é
possível de ser realizada com maior grau de sucesso, no momento em que outros
instrumentos são aclopados ao mesmo tempo. Onho ataca a racionalidade,
interferindo constantemente na subjetividade do trabalhador. Este objetivo é
alcançado com o KAIZEN, um propósito de auto-ativação em cada operário, isto é,
todos são criativos. Neste sentido, todos se encontram na possibilidade de
inovarem os instrumentos e técnicas de trabalho, buscando sempre evitar o erro,
isto é, evitar ao máximo que a linha de montagem seja interrompida. Ao mesmo
tempo, essas inovações buscam reduzir o tempo de trabalho necessário para se
realizar uma atividade acompanhada de maior grau de qualidade frente ao produto
final.

Implementar essa lógica só foi possível por meio da produção lastreada no


trabalho vivo, realizado em equipe, explorando ao máximo o saber individual. Alguns
autores atribuem o sucesso dessa meta à questão cultural existente no Japão. É
uma tese que merece estudos específicos e credibilidade, porém não se pode tê-la
como determinante. Porém, as condições objetivas criadas neste momento histórico,
tais como: desemprego, organização sindical desestrutrurada, incentivo salarial
acompanhado de premiação, garantia de emprego vitalício, determinaram o grande
sucesso dessa nova metodologia de produção. O trabalhador é transformado em
produtor e gestor. Neste sentido, começam a aparecer as denominações de
qualidade total. NETO (1991) chama a atenção: "existe qualidade pela metade?"
Na realidade, o que se propõe é que se atinja a produção em massa através de
pequenos lotes, com baixo custo e alta lucratividade. Isso é concretizado
expropriando-se a criação humana, justamente nas esferas em que há a
possibilidade de ampliar as dimensões emancipatórias do homem e de fortalecer-se
da criatividade do mercado, isto é, ao desenvolverem-se as forças de trabalho
físicas e intelectuais, em prol de uma classe determinada historicamente, isto é, a
burguesia industrial e financeira. Dessa forma, as possibilidades verdadeiramente
113

emancipatórias dormem em paz, principalmente, devido às ações de alcance


destruidor que acabam inviabilizando o desenvolvimento da criatividade humana
para a construção de um novo projeto.

Após fundamentar a construção do ser social através da categoria


ontológica do trabalho e, ao mesmo tempo, demonstrar, na esfera teórica-prática
como o modo de produção capitalista nega o trabalho, Marx desnuda toda a lógica
e a forma do projeto societário burguês. No entanto, a teleologia capitalista,
consciente ou não, é uma construção que cria um campo de possibilidades, muitas
materializadas para que o ser social amplie o grau de distanciamento das condições
objetivas postas pela natureza. Não tardou, porém, como apresentado no capítulo
primeiro, para que o projeto societário burguês, no momento em que se depara com
as manifestações relativas à “questão social”, impeça que essas contradições
sejam enfrentadas e superadas com os fundamentos já conquistados e construídos
durante os processos revolucionários econômicos e políticos, historicamente
determinados, pela classe em consolidação hegemônica: a burguesia

Mas, é necessário retomar-se a contradição – “questão social” e como ela


foi encarada pela sociedade que remonta ao período pós revolucionário de 1848 em
que os proletários colocam-se em classe em-si e para-si. Nesse período, as
contradições entre capital-trabalho ampliaram-se, tornando-se a situação
incontrolável e exigia-se uma resposta dos sacerdotes da burguesia, bem como
ações realizadas por instituições privadas de assistência e também
individuais.Tendo em vista, a necessidade de o projeto burguês continuar
acumulando, obrigou-se o Estado a participar da sociedade em outra dimensão, ser
o portador também dos direitos sociais. Pressionados constantemente pelo
movimento dos trabalhadores que solicitavam respostas às metamorfoses da
“questão social”, alguns trabalhadores passam a ser beneficiados por atendimentos
relacionados diretamente ao espaço da produção. Neste momento, cria-se a
dimensão Providencial no interior do Estado. Com estas resposta aos movimentos
sociais, o Estado foi ampliando os direitos dos trabalhadores e, alguns foram
transformados em Políticas Sociais. O período de maior expressão ocorre entre os
anos de 1950 e 1960, em alguns países europeus. Essa nova expressão, o Estado
de Bem-Estar-Social, passa a ser referência na relação capital-trabalho mas, não
tardou para que os pilares que sustentavam este novo contrato social entre o capital
e trabalhadores, sofresse algumas fissuras. É neste contexto, década de 1970, que
o projeto burguês solicita a redução dos direitos dos trabalhadores que, somado à
crise estrutural que o modo de produção capitalista vinha sofrendo, a “questão
social” ganha novas determinações.

A este processo recessivo e de perdas sociais significativas, e ao


agravamento do desemprego, que Pierre ROSANVALLON (1998) e Robert
CASTELL (1998 e 2000) , ambos pesquisadores na França, embora apresentando
diferentes visões sobre o objeto em análise, buscam explicar e sugerir saídas para o
enfrentamento da “nova questão social” que assola a classe trabalhadora em suas
diferentes determinações.

2.3 AS DIMENSÕES: RESTAURADORA E REFORMISTA


114

O Estado moderno, construído durante o período que compreende os


séculos XIV e XVII, no que tange aos direitos sociais, ganha estatuto próprio.
Conhecido enquanto "Estado-protetor", diferencia-se das estruturas criadas e
desenvolvidas no campo político pelas soberanias.

O Estado-protetor traz, junto de si o indivíduo e, ao mesmo tempo,


fortalece-o, instaurando uma nova relação entre o Estado e a sociedade civil. O
Estado-protetor, como premissa central da sua formação, preocupa-se em defender
o direito à vida dos indivíduos e, ao mesmo tempo, o direito à propriedade.
Indivíduo, Propriedade e Estado, passam a ocupar na sociedade um papel
indissociável. “...É o Estado que faz o indivíduo existir como sujeito e, portanto, com
direitos, pois tem como objetivo protegê-los: não há Estado-protetor sem indivíduo
portador de direitos, não há indivíduo que realize estes direitos sem Estado-
protetor" (ROSANVALLON, 1981, p.18-19).

Mas, com as transformações que ocorreram no campo econômico e


político, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, os direitos
sociais ganham também avanços, apesar de serem ainda tímidos, foram
importantes para que as esferas –pública e privada -, começassem a ganhar novas
configurações. E somente no século XIX, após a década de 1970, que o Estado de
direito concretiza algumas ações decorrentes da relação conflituosa entre capital-
trabalho.

As novas relações que se estabeleceram nas últimas décadas do século


XIX, nas estruturas do modo de produção capitalista mundial colocou, na ordem do
dia, um novo direcionamento no fazer e no pensar entre o público e o privado. Por
um lado, o capitalismo concorrencial é superado, e as relações econômica, social e
política são conduzidas e determinadas pelo capitalismo monopolista, isto é;

a essa altura, o monopólio tomou o lugar da livre concorrência e a produção


desordenada na sociedade capitalista cedeu à produção planejada e organizada,
em benefício do empresariado. O capitalismo monopolista evidenciou a
acumulação do capital, agora ampliada em escala mundial, com a supremacia
dos trustes e dos cartéis. As últimas décadas do século XIX assinalaram o
interesse por zonas privilegiadas de investimento no exterior, a ponto de, após
1880, conferir-se às colônias maior valor econômico. Perseguindo outros
campos de investimento, o capitalismo monopolista dirigiu-se à exportação de
capital e bens de serviço (VIEIRA, 1992, p. 18-19).

Esta nova postura do capital provocou uma conotação diferenciada no


campo privado.

Um novo quadro econômico, político e social estava delineado. A relação


capital-trabalho explicitava com maior fecundidade as contradições de classe. Se
por um lado a classe burguesa ampliava o volume da acumulação de capital, a
classe trabalhadora, por meio dos movimentos sociais organizados, intensificava
suas lutas na busca de melhores condições de salário e de vida.

A classe burguesa, pressionada pela classe operária em movimento e


também sendo “vítima” das metamorfoses da “questão social”, não consegue, ou
115

melhor, não se dispõe e não pode enfrentar as problemáticas pela raiz, pois optar
por este caminho é negar a sua própria existência. No entanto, não era possível
continuar atribuindo a instâncias civis o papel de responder e amenizar a
miserabilidade. Neste momento, o Estado de Direito abre pequenos espaços para o
social. O fato de maior relevância e conquista histórica neste momento foi a criação
de políticas sociais. Estas, entendidas como estratégias de governo. VIEIRA (1992,
p. 19) enfatiza que “...a política social, compreendida como estratégia
governamental de intervenção nas relações sociais, unicamente pôde existir com o
surgimento dos movimentos populares do século XIX”. A esfera pública é solicitada
a ampliar sua interferência no campo dos direitos sociais. O Estado-protetor, não
conseguindo responder às demandas sociais que se encontravam patentes em
todos os cantos das cidades, é obrigado a reestruturar-se.

Nasce o Estado-Providencial. “...Em 1871, no ano da unificação Alemã e


do surgimento do Primeiro Império, Otto Von Bismark inaugura o pioneiro sistema
previdenciário estatal na Alemanha, ao fixar o princípio de responsabilidade limitada
dos industriais em matéria de acidente do trabalho, em caso de culpa destes"
(VIEIRA, 1992, p. 80-82). Este novo horizonte que se abre nas relações entre a
esfera pública e privada no final do século passado XIX, sofreu várias modificações
até o final século XX. As mudanças ocorridas neste período, não aconteceram
apenas na esfera formal, mas também em seu conteúdo.

Com o desenvolvimento da segunda revolução tecnológica, 90 a sociedade


capitalista trouxe para a ordem do dia uma nova forma de colocar o modo de
produção capitalista em desenvolvimento. Criou-se, em alguns países, o domínio
da tecnologia e de sua aplicabilidade, o que levou ao domínio do mercado da
produção e do consumo. Este novo mundo do domínio econômico, aos poucos,
estendeu-se também para o domínio político internacional. Esta façanha foi
concretizada no início da década de 1930, do século passado, momento registrado
nos documentos estatísticos internacionais com a presença de um rol de países
denominados de monopolistas ou imperialistas. Este momento coincidia com a
estruturação e desenvolvimento do nazismo e do fascismo. Mas, ao mesmo tempo
que, algumas nações entraram no cenário mundial, o modelo de desenvolvimento
capitalista inviabilizava a maioria dos países que aderiram ao projeto burguês de
atingirem os mesmos êxitos. Por isso, pressionados pelos movimentos sociais dos
países, cujas bases da estrutura do capital sofrera algumas fissuras, como o que
ocorreu em 19l7, com a Revolução Russa, e associadas às situações, econômica,
social e política pressionava-se e obrigava-se o Estado Providência a ampliar sua
rede de prestações de serviços em alguns desses países. Segundo
ROSANVALLON (1981), o Estado-Providêncial, “...visa igualmente ações positivas
(de redistribuição) de rendimentos, de regulamentação das relações sociais, de
direção de certos serviços coletivos, etc.". Algumas ações concretas praticadas
pelo Estado-previdêncial apresentam alguns saldos significativos próximos á
década de 1930 (KING, 1988, p. 59). 91
90
A segunda revolução tecnológica, marca o início do capitalismo monopolista
clássico em 1896 estendendo-se até 1940. Esta revolução é caracterizada pelo
desenvolvimento e aplicação do motor elétrico e do motor a explosão.
91
Ao tratar do Estado e as estruturas sociais de Bem-Estar em democracias
avançadas, mostra-nos que "Por volta de 1930, doze importantes países europeus já
haviam implementado os elementos centrais do sistema de seguridade social: seguro
contra acidente, auxílio-doença, previdências aos idosos e seguro desemprego; essas
116

No entanto, nos anos de 1929 e 1931, o desequilíbrio ocorrido no


mercado, dá início a uma nova crise econômica. O próprio EUA, que apresentara
resultados prósperos na década de 20, é, ao mesmo tempo, quem produz um
verdadeiro desequilíbrio na economia de mercado. São medidas tomadas pelo EUA
que fazem emergir uma nova crise mundial do capitalismo. “...Os Estados Unidos
edificaram naquela década um desarranjo no crescimento industrial, gerador de
superprodução, de saturação do mercado, de consumo elitista, de ampliação
excessiva do crédito bancário, de protecionismo exagerado e de desequilíbrio
acentuado entre agricultura e a indústria" (VIEIRA, 1992, p. 84).

O enfrentamento desse espectro que rondava os países capitalistas - a


crise de acumulação - tem sua origem no próprio Estados Unidos durante o
governo de Roosevelt, em 1933, momento em que implantou o "NEW DEAL". No
comando, à frente da grande potência, Estados Unidos, Roosevelt solicita a uma
equipe de cientistas e técnicos do governo que planejem medidas práticas para dar
conta do monstro que os inquietava. Atendendo à solicitação de Roosevelt, o
economista e líder da equipe, Keynes, apresentou algumas propostas:

Na linha de raciocínio de Keynes, a desgraça econômica do capitalismo nos


Estados Unidos e nos demais países industriais nasce de insuficiente
investimento por parte dos empresários. Se as empresas não crescem, o
governo precisa criar as condições para tal crescimento. Keynes propõe
atividade deliberada de investimento governamental temporariamente, até que a
economia volte à sua posição regular. O investimento constitui elemento aleatório
da economia, não reclamando permanente interferência governamental e sim
transitória. Para Keynes, se assim é o investimento, o consumo representa o
grande sustentáculo da atividade econômica (VIEIRA, 1992, p. 86).

Ao pôr em prática estas medidas, algumas aproximam-se dos


pressupostos que fundamentam o Estado-Providência, isto é, ocorre um saldo
qualitativo na relação capital-trabalho e, pode-se dizer que a proposta Keynesiana
possibilitou dar novo conteúdo ao Estado-Providencial.

...A concepção do "Estado-providencial" evoluíra desde os últimos anos do


século XIX; não se cogita apenas de aproximar indivíduo e Estado, de socializar
as consciências individuais, de conceder ao Estado o mesmo tamanho e a
mesma complexidade da sociedade. Cogita-se muito mais. O "Estado-
providencial" ainda deve cuidar do planejamento econômico e social, de tal

medidas foram introduzidas aproximadamente em 1922, 1923, 1924 e 1930,


respectivamente. Assim, por volta dos anos 30, passos fundamentais rumo à perspectiva e
aplicação do Estado de bem-estar moderno estava estabelecidos. Mas essas políticas não
refletiam a influência de partidos socialistas ou sociais-democratas, nem constituíam uma
formulação coerente da natureza do Estado de Bem-Estar. Tal coerência é fenômeno mais
moderno". PEREIRA (39/2000, p. 121) enfatiza que “...o gasto público na área social, o
qual no século XIX, representava um montante de cerca de 3% do produto nacional Bruto
(PNB) de países capitalistas industrializados, passando,no início dos anos 50 do século
XX, a consumir entre 10% a 20% do PNB”.
117

maneira que se torne certo o emprego dos trabalhadores e seja distribuída


eqüitativamente a renda gerada na sociedade (VIEIRA, 1992, p. 86-87).

As medidas centrais da Escola Keynesiana tomam corpo e avançam nos


países industrializados durante a Segunda Guerra Mundial, e no pós-guerra, mas
estas medidas não atingem os países periféricos. É fundamental ressaltar que, o
avanço na ampliação do "Estado-Providencial" não é natural, seus avanços e
retrocessos estão ligados diretamente ao poder reivindicatório dos movimentos
sociais conforme VIEIRA (1992).

Porém, no final da década de 1930 e na primeira metade da década de


1940, o mundo enfrenta um novo desafio. As grandes potências trazem à ordem do
dia a segunda Guerra Mundial. A nova ordem que se estabeleceu com os
enfrentamentos entre as grandes potências resultou em um saldo arrasador: uma
baixa significativa de homens que participaram do processo, bem como, das
populações que sofreram os efeitos diretos e indiretos; registrou-se historicamente
um dos episódios mais cruéis da ação humana na sociedade. Com o término da
guerra, o mundo ficou dividido sob o domínio de duas grandes potências: Estados
Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Instaura-se a guerra fria. De um lado, o modelo econômico liberal,


fundamentado nas proposições clássicas e Keynesianas abre um novo horizonte
para sustentar o modo de produção capitalista, no outro lado, o modelo socialista de
economia de Estado, continuava procurando impor uma nova forma alternativa de
relação com a sociedade civil, "esgotando" este último, no final da década de 80
com a "queda do muro de Berlim e de todo o leste europeu".

No decorrer das lutas travadas entre as grandes potências imperialistas na


segunda Guerra Mundial, a ciência ganhou novos personagens e, ao mesmo tempo,
novas investigações foram realizadas resultando em grandes descobertas, entre
elas destacou-se a energia nuclear e a micro-eletrônica, registrando com este novo
fenômeno a presença da terceira revolução tecnológica. Segundo Mandel, com este
novo acontecimento, o modo de produção capitalista iniciou uma nova fase do
período monopolista, passando da fase clássica para a tardia. 92 Esta nova fase de
descobertas e avanços tecnológicos caminhou rápida nos países capitalistas, o
mesmo não ocorrendo nos países socialistas. Esta diferença, que se estabelece
entre as grandes potências, apresentou resultados positivos para o capitalismo -
enquanto modelo de desenvolvimento - quando comparado com os países
socialistas. Apesar de todas as fissuras e contradições que se apresentaram no
interior do modo de produção capitalista, este impôs à sociedade no final de século
passado uma única proposta viável de sociedade, o que não significa que a
proposta esteja sendo aceita pela própria sociedade como um todo.

92
Na exposição realizada por MANDEL (1985, p. 5), "A era do capitalismo tardio
não é uma nova época do desenvolvimento do capitalismo; constitui unicamente um
desenvolvimento ulterior da época imperialista, de capitalismo monopolista. (...) O
capitalismo Tardio tenta esclarecer a história do modo de produção capitalista no pós-
guerra de acordo com as leis básicas de movimento do capitalismo, reveladas por Marx em
O Capital".
118

Com o desenvolvimento dos avanços tecnológicos, fruto da terceira


revolução tecnológica, há um crescimento significativo de capital e as propostas de
Keynes avançam, alcançado seus maiores êxitos nas décadas de 1950 e 1960. Na
década de 1960 são registrados índices maiores de aplicações dos direitos sociais.

Porém, o Estado, que fora chamado para financiar o capitalismo e abrir


caminhos para seu desenvolvimento, ocupa também o papel de difusor do consumo.

...Para este fim foi amoldada a máquina do Estado. As suas funções se


estenderam. Nasceram o Banco Central e o papel-moeda, instrumentos
indispensáveis para concentrar nas mãos dos governos a direção dos capitais
necessários para sustentar os investimentos e para regular o ciclo econômico.
Desenvolveram-se os gastos públicos, os aparelhos de reprodução, políticas de
plena ocupação, o consumo individual (VACCA, 1991, p. 153). Um Estado a
serviço da classe burguesa.

Esta nova situação explicita os limites da teoria clássica liberal,


principalmente nas elaborações de Adam Smith, pois, com o novo papel que o
Estado começa assumir no pós-segunda Guerra Mundial, o mercado já não garante
automaticamente (por meio da livre concorrência) a reprodução ampliada do capital,
nem a desorganização e a fragmentação atomista dos produtores.

Nesse contexto histórico, a burguesia redireciona suas proposições


clássicas, colocando em prática a construção teórico-metodológica Keynesiana.
Este novo marco no campo da economia e da política direcionou-se para a
celebração de um novo contrato social diferenciado entre capital-trabalho, o que
possibilitou o crescimento econômico a atingir a taxa média tendencial de lucro
próxima a 10%. Parecia que o modo de produção capitalista tinha encontrado o seu
verdadeiro caminho. Neste sentido crescente, inicia-se a década de 1970
aumentando o número de países considerados imperialistas. Enquanto isso, na
esfera social, nos países em que este contrato foi celebrado, a classe trabalhadora
ampliou suas conquistas nas diferentes esferas dos direitos.

Mas, se por um lado a acumulação do capital passa a fazer parte de um


número maior de países, no outro lado, a crise, elemento constante do modo de
produção capitalista, aponta para mais um período de crise dentro da "onda
longa"93. Já no final da década de 1960, o capitalismo começa a apresentar seus
primeiros desencontros, iniciando a década de 1970 num período de verdadeira
crise. Por um lado, a crise econômica atinge toda a sociedade e, como
conseqüência o social experimenta novos momentos de deterioração. Por outro
lado, quer dizer, nas instâncias superestruturais, segundo VACCA (1991),

93
As ondas longas conforme compreendidas por MANDEL (1985), têm
encontrado no capitalismo um período de aproximadamente de 50 anos. No início de uma
onda longa, presencia-se um período de crescimento na economia, isto é, período de
prosperidade para o capital, apropriação de uma grande quantidade de mais-valia. Por
outro lado, há períodos que apresentam elementos de recessão, isto é, há momentos em
que o capitalismo não consegue responder às suas próprias necessidades, neste período
recessivo, instauram-se verdadeiras crises no modelo econômico capitalista.
119

manifestam-se formas de crise que parecem específicas deste tipo de Estado: a


crise fiscal, a crise de legitimação, a crise de governabilidade.

É um verdadeiro sintoma do modo de produção capitalista tardio, isto é, a


forma com que a produção se organiza no mercado produz, como conseqüência,
contradições que não são possíveis de serem superadas. Para que a composição
de classes não seja alterada, é necessário alimentar as contradições. De um lado,
necessita-se apoiar o consumo de mercado para que as grandes potências não
deixem de acumular capital, por outro lado investe-se individualmente e, através do
Estado, em gastos sociais.

Porém, o período recessivo, não tardou a chegar. E, foi necessário


apresentar-se novas propostas para conseguir equilibrar os desencontros na
economia. As grandes potências são obrigadas a redimensionar as suas relações,
econômica e política. É neste universo recessivo que o período após 1970
descortina uma nova fase de objetivação do modo de produção capitalista. Por um
lado, há a crise com a redução da taxa média relativa da mais-valia, por outro lado
há: (1) um novo processo conhecido como reestruturação produtiva; (2) um novo
momento do processo de globalização, tendo como sua maior expressão no
mercado financeiro e; (3) para responder à crise do projeto keynesiano, instaura-se,
desenvolve-se e consolida-se o projeto neoliberal. Estes pontos centrais trazem
uma nova configuração entre capital-trabalho. Pierre Rosanvallon e Robert Castel
fundamentam seus estudos nesse movimento. O primeiro, propõe um arcabouço
teórico restaurador e o segundo, transita no campo da social-democracia européia,
porém com mais propriedade teórica, dá uma resposta reformista, enfatizando a
necessidade de retornar o Estado Providência.

2.3.1 A Proposta Restauradora de Pierre Rosanvallon

O desenvolvimento do Estado Providência quase chegou a vencer a antiga


insegurança social e a eliminar o medo do futuro. Ao fim dos "Trente Glorieuses",
terminada a década de 1970, a utopia de uma sociedade livre das necessidades, de
um indivíduo protegido contra os principais riscos da existência, parecia estar ao
alcance de todos. No entanto, já no início da década seguinte, o crescimento do
desemprego e o surgimento de novas formas de pobreza pareciam, ao contrário,
afastar-nos desse ideal. Ao mesmo tempo, percebe-se que não há um simples
retorno aos problemas do passado. Os fenômenos atuais da exclusão não se
enquadram nas antigas categorias da exploração do homem. Assim, surgiu uma
nova questão social (ROSANVALLON, 1998, p. 23).

A nova “questão social”, expressão máxima do espectro que ronda o


interior das sociedades capitalistas a partir do último quartel do século passado,
centraliza a preocupação de Pierre Rosanvallon e, ao ilustrar as mazelas
registradas nas sociedades capitalistas, em específico na França, no período pós-
70, ROSANVALLON (1998, p. 95) conclui que: o "...desemprego em massa
radicaliza o corte entre a atividade econômica e o Estado Providência passivo, no
qual se resumem as contradições do capitalismo moderno e da sociedade
individualista". Este novo desafio a ser enfrentado por todos os indivíduos é
colocado em cena.
120

Para responder a esta questão, Rosanvallon argumenta que o Estado


Providência, implementado durante o pós - Segunda Guerra Mundial, é o
responsável pela situação atual no campo econômico e social. Sua primeira
argumentação é lógica, porém, não é histórica, pois refere-se à passividade que
determina o modo de ser do Estado Providência. Para ele, a característica da
universalidade dos direitos traz elementos negativos em seu conteúdo. No momento
em que os direitos passam a possuir características universais, “...a doença e o
desemprego podiam ser tratados igualmente como os acidentes" (ROSANVALLON,
1998, p. 34), perde-se a racionalidade das diferenças existentes entre os direitos
no interior de uma sociedade. Diante disso, os indivíduos são contemplados em
qualquer posição social em que se encontram: crianças, jovens e adultos em
condição formal de emprego ou não, proprietários ou não de bens. Se o direito é
universal, tem-se como medida a situação de risco em que cada indivíduo se
encontra. Para Rosanvallon, a universalidade dos direitos (conquistas que
ganharam expressividade na década de 1960) possibilitou o coletivo sobrepor-se ao
individual. E, este novo fato social criou as bases negativas para que se inibissem
os sentimentos de solidariedade presentes em cada pessoa.

O problema estava colocado. Era necessário repensar os fundamentos


que garantiam a prática contratual até aquele momento exercitada. A passividade
presente no Contrato Social garantindo a universalidade dos direitos não respondia
mais às condições objetivas materializadas no interior da sociedade burguesa. A
compreensão do direito social mediatizado pela situação de risco em que as
pessoas se encontram tem seus dias contados, pois “...o social não pode mais ser
percebido exclusivamente em termos de risco. Os fenômenos de exclusão e o
desemprego de longo prazo definem muitas vezes situações estáveis”,
(ROSANVALLON, 1998, p. 38). Porém, o Estado Providência comete ainda a
injustiça de continuar celebrando o Contrato Social em vigência. Mas, o
esgotamento desse tipo de Contrato Social é real. Após 1970, o Estado Providência
arrecadou menos do que gastou; a forma de proceder passiva contribuiu para que
os indivíduos perdessem suas responsabilidades, ao mesmo tempo, os
trabalhadores e seus familiares, que não contribuíam com a arrecadação,
usufruíam dos direitos sociais conquistados pela classe trabalhadora. Estas
questões causaram um problema moral para a sociedade e levam o autor a concluir
que “...o paradigma securitário, substrato indissociavelmente técnico e filosófico do
Estado Providência, está atualmente em vias de se esgotar" (ROSANVALLON,
1998, p. 34).

Rosavallon é categórico ao afirmar que a crise enfrentada pelo Estado


Providência após 1970 é de ordem financeira. Por meio de dados estatísticos
oficiais da França, país em que Rosavallon está sediado e desenvolve suas
pesquisas, ele aponta que, desde os anos de 1970, os dispêndios crescem
anualmente em torno de 8%, enquanto as receitas elevam-se entre 1 e 3%. Os
efeitos negativos possuem relação direta com o desemprego que apavora a
sociedade capitalista: a massa total da força de trabalho começa a ser reduzida,
pois os postos de trabalho são fechados e alguns são até extintos, reflexo direto da
crise que assola o modo de produção. Esse desequilíbrio financeiro revela o
problema que faz parte do Estado Providência. Mas, a resposta é imediata: é
necessário aumentar as receitas e diminuir as despesas. Para isso, a primeira
medida foi retirar dos sindicatos o poder que tinham no controle dos valores que
recebiam das contribuições dos trabalhadores, delegando ao Congresso Nacional o
121

papel de arrecadação e controle financeiro. A providência trouxe dois resultados


positivos: ampliou a confiabilidade dos contribuintes ao saber que é o Congresso
Nacional que manipularia o montante arrecadado, e a confiança adquirida pela
população possibilitou aumentar os valores arrecadados. Mas o problema de ordem
financeira não seria resolvido isoladamente, necessitava-se mudar as regras do
jogo. Era necessário mudar elementos culturais que faziam parte da vida cotidiana
dos homens, principalmente dos trabalhadores no que se refere aos direitos sociais
e cívicos.

Para Rosanvallon, quando o Contrato Social foi celebrado no pós-segunda


Guerra Mundial, a essência de seu conteúdo fundamentava-se em um direito cívico.
Os países destruídos após a guerra precisavam responder à situação de forma
concreta. Estes, explicita Rosanvallon, criaram direitos sociais, e também
ampliaram, naquele momento, o espírito de solidariedade. Desta forma, “...depois da
segunda Guerra Mundial, era muito forte o traço de união entre a instalação do
Estado Providência e a reformulação do contrato social" (ROSANVALLON, 1998, p.
55).

As décadas de 1950 e 1960 foram expressões diferenciadas, pois o


Contrato Social que fundamentou a relação capital-trabalho mediado pelo Estado,
possuía significativa dosagem teórico-prática de solidariedade. Os sindicatos
abandonaram a tese de acabar com a propriedade privada enquanto o Estado
cobria o mais possível as necessidades, ou seja, os direitos sociais conquistados
pela sociedade como um todo. 94

Assim, para responder à nova “questão social” que se põe, era preciso
recuperar os fundamentos técnicos e morais 95 que subsidiaram o Estado
Providencial em sua gênese e trazê-los para a nova realidade histórica em que a
sociedade passa a viver no pós-70. O problema era, portanto, de ordem filosófica,
e, para resolvê-lo é necessário revisitar os princípios fundamentais de
solidariedade, e

...modificar globalmente o exercício da solidariedade social. No esquema em


vigor, estabeleceu-se que todos recebem benefícios proporcionais à contribuição,
no tocante à aposentadoria. Mas, ao mesmo tempo, o Estado deve assegurar o
mínimo vital. No primeiro caso, o enfoque recai sobre a assistência e, no
segundo, sobre a solidariedade. Essa distinção, segundo Rosanvallon é
improcedente. O novo modelo precisa quebrar essa dissociação entre os dois
aspectos e modificar inteiramente o exercício da solidariedade; ao mesmo

94
É sempre importante frisar que Rosanvallon está falando para a Europa e
E.U.A, no entanto, nos EUA não foi implantado o Welfare State.
95
Os conceitos de assistência e solidariedade não se anulam, ao contrário, são
os pilares centrais para resolver o problema de ordem filosófica. A resolução da “questão
social” passa ser de base filosófica. Quer dizer: mudando os conceitos, muda-se a
sociedade. A assistência é uma técnica, enquanto a solidariedade é um valor. Contudo,
não são de modo algum opostos: a assistência é também um modo de produção de
solidariedade. Por outro lado, o financiamento da assistência social pode inscrever-se em
dispositivos valorativos: pode ser estritamente contributivo ou fortemente solidarista. Desde
que se considerem as coisas mais de perto, percebe-se igualmente que a distinção
assistência-solidariedade não é operativa.
122

tempo, colocarmos nas esferas do debate, a concepção de direitos presente na


lógica e forma desenvolvida pelo Estado Providência passivo, pois (...) hoje é
impossível preservar o Estado Providência sem de certo modo refazer a nação,
isto é, sem recolocar o pedestal cívico sobre o qual enraíza o reconhecimento de
uma dívida social mútua (ROSANVALLON, 1998, p. 66).

Cabe, portanto, à sociedade entender que o Contrato Social presente nas


formulações do Estado Providência no período pós - Guerra, traz como categoria
unificadora de direitos sociais, o risco. O desemprego, o acidente de trabalho, a
velhice e outros unificam-se enquanto uma categoria denominada de risco. Porém,
conforme as relações de produção e social foram ganhando terreno, o autor afirma
que a compreensão dos direitos garantidos sob a compreensão de risco não
detinha mais legitimidade, perdera sua pertinência. "Durante os Trinta Anos
Gloriosos, o risco de perda da renda representava a matriz referencial. O que não
acontece hoje, embora a insegurança econômica, associada à situação de
emprego, seja ainda importante pelos seus efeitos" (ROSANVALLON, 1998, p. 40).

O que era entendido como riscos sociais perdem seus significados a partir
da década de 1970. Os riscos são situações que não possuem intencionalidade, ao
contrário, permanecem na esfera do natural ou do acaso.

É certo que a noção de risco continua a ser relevante, mas ela mudou de escala,
(...) hoje, o que representa um problema cada vez maior é o risco catastrófico:
perigos naturais (inundações, terremotos), acidentes tecnológicos importantes,
agressões de grande amplitude ao meio ambiente. São ameaças que não
afetam mais indivíduos isolados, e sim populações inteiras, talvez mesmo
nações (ROSANVALLON, 1998, p. 38).

Com a mudança do conceito, o que se apresentava como situação de risco


passou a ser compreendida, como situações precárias ou vulneráveis.

O fator principal desta alteração de compreensão, segundo Rosanvallon,


leva a ampliar o grau de solidariedade e a “...seguridade social não parece mais o
centro agregador do progresso social e passou a cobrir só uma parte do chamado
‘campo social’ ” (ROSANVALLON, 1998, p. 41).

Outro fator que direciona o autor a enfatizar a necessidade de questionar


e apresentar o esgotamento do contrato social, que tem por base a seguridade, ou
seja, o Estado Providência passivo, é o progresso da genética médica. Este
desenvolvimento permite que cada indivíduo possa prever quais doenças poderiam
ser desenvolvidas em seu corpo e, através de um mapeamento genético, impedi-las.

O caminho não tem volta. O aumento do desemprego e a inversão entre


maior gasto e menor arrecadação levou o Estado Providência a colocar-se em
situação defensiva. A saída foi a única possível: nas décadas de 1970 e 1980, a
lógica da seguridade passa para a lógica da solidariedade. Este conceito é
reconstruído, e por meio de novas estruturações teórico-práticas chegou-se a falar
no "mito do seguro". Pois, a primeira questão é quem paga a conta. Veja que
Rosanvallon aponta que não é apenas passar dos princípios contributivos para
123

sociais, que até este momento foram a base de financiamento do Estado


Providencial para o financiamento via aumento de impostos. Para ele, a solução é
outra: “...construir socialmente a ordem da justiça na correção das inferioridades
naturais”. ROSANVALLON (1998, p. 63-64), ainda exemplifica comparando com
procedimentos que ocorreram nos EUA, em que: “...o indivíduo pode pretender uma
compensação ao se fazer conhecer como vítima. (...) Não é mais o imperativo de
igualdade ou fraternidade que se propunha, mas uma exigência de reparação civil,
onde (...) a questão da justiça social é decidida pela corte suprema, e não no campo
da luta de classes".96

Rosanvallon insiste em que a mudança cultural precisa ser reconstruída e


para fortalecer os fundamentos de seus argumentos procura mostrar a necessidade
primeira de resgatar o espírito cívico adotado e desenvolvido nos EUA, no período
pós-Guerra. Para ROSANVALLON (1998, p. 68), “...não poderá haver um Estado
Providência solidarista sem reconstruir o sentido cívico, entendido como a
percepção de que pertencemos a um mundo comum. Não é só a mobilização que
falta, mas o seu substrato, isto é, o sentimento de nação".

Porém, para aplicar e viver ações solidárias, necessita-se resgatar a


forma de inserção social por meio do trabalho.

...A tentativa de encontrar um novo relacionamento entre o emprego e o Estado


Providência manifesta-se em torno dessa palavra e idéia que ela representa. É
uma tentativa feita em muitas dimensões: a emergência de vínculos inéditos
entre direitos sociais e obrigações morais; a experimentação de novas formas de
oferta pública de trabalho; a tendência a juntar indenização e remuneração; a
criação de um espaço intermediário entre emprego assalariado e atividade social
(ROSANVALLON, 1998, p. 130).

Assim, coloca-se uma nova tipologia de contrato social: da indenização


universal pela inserção através do trabalho (ROSANVALLON, 1998, p. 105). Se a
saída é via trabalho, o que cabe ao Estado? Cabe ao Estado investir na economia.

Se o processo novo é a inserção por meio do trabalho, a nova


determinação coloca, na ordem do dia, o direito ao trabalho. "Todo homem tem
direito à sua subsistência pelo trabalho, se é válido; pela assistência gratuita, se
não tem condições de trabalhar” (ROSANVALLON, 1998, p. 110). A questão é como
institucionalizar este princípio, convivendo com a crise estrutural do capital. A
resposta de Rosanvallon é insuficiente. Por isso, abre-se um espaço com lacunas
grandes e de difíceis acomodações. Quem deve resolvê-las? Como resolver "a zona
intermediária entre a lógica da indenização e a garantia de emprego"
(ROSANVALLON, 1998, p. 130).

A inserção social está entre a necessidade do emprego e o papel do


Estado para quem não consegue estar empregado. Como vincular direitos sociais e
96
Há uma diferença significativa entre o Contrato Social efetivado na Europa em
relação aos Estados Unidos, pois “...na Europa efetivou a sociedade securitária - a questão
dos riscos, nos E.U.A. a busca é pela expansão dos direitos civis" (ROSANVALLON, 1998,
p. 65).
124

obrigações morais? A saída é criar um espaço intermediário entre emprego


assalariado e atividade social.

Rosanvallon coloca a seguinte questão chave: não há obrigações


positivas sem empregos correspondentes. Assim, a saída é administrar situações
particulares e não selecionar indivíduos, pois “...para analisar o social é necessário
recorrer cada vez mais à história individual, e não à sociologia e, (...) se os novos
sujeitos da ação social não são mais as classes, porém os indivíduos abordados em
determinadas situações, essa ação deve necessariamente propor uma assistência
diferenciada” (ROSANVALLON, 1998, p 155, 157 e 164). Estes são os argumentos
que fundamentam a proposição de Pierre Rosanvallon para resolver a nova
“questão social” que assusta a sociedade capitalista no período após 1970. Alterar
as bases técnicas e filosóficas que fundamentam o Estado Providência é o caminho
certo a seguir.

Por que a tese apresentada por Pierre Rosanvallon é restauradora? O que


leva um demiurgo liberal a encontrar no velho e concreto problema social - o
desemprego - um álibi para explicitar que o mundo capitalista no período após 1970
depara com o problema da nova “questão social”?.

Os intelectuais orgânicos, alinhados e atrelados à lógica propositiva ao


modo de produção capitalista insistem em apresentar os fatos, porém não o
explicam, conforme MARX (1975b). Este mecanismo utilizado não é inocente.
Consciente ou não, o abismo teórico-prático, presente na obra de Rosanvallon é
uma munição de alto calibre, de poder destruidor das consciências humanas
individuais ou coletivas organizadas ou não. Isto porque seus argumentos
procuram, em diferentes momentos da interlocução, reafirmar que a sociedade
capitalista é o espírito absoluto que atingiu sua perfeição. Distante, ao apresentar e
mostrar o movimento do modo de produção capitalista, Rosanvallon expressa sua
construção por meio de notas isoladas, filosóficas e estatísticas e com experiências
vivenciadas, em específico, na França e com algumas pontuações referentes ao
Estados Unidos. Sua exposição é marcada pelo esvaziamento dos conteúdos
lógicos e históricos das categorias em discussão.

Mas por que Rosanvallon esvazia os conteúdos das categorias centrais


apresentadas? Porque sua opção teórico-metodológica é deslocada das análises
sobre a sociedade que possuem como ponto de partida a materialidade. O autor, em
nenhum momento, explicita que a sociedade capitalista estruturou-se e
desenvolveu-se de forma exponencial através de princípios materiais, conscientes
ou não. E, ao distanciar-se deste veio de análise, Rosanvallon - "cavaleiro da
esperança e restaurador da ordem"- não sabe que este projeto burguês estabelece
regras que expressam, na esfera da materialidade, um campo de batalha que é a
história produzida e reproduzida pelos homens.

Dessa forma, a relação reformadora proposta por Rosanvallon não é


inocente. A meta a ser atingida é única: apropriar-se da natureza e de suas
potencialidades colocando-a a serviço, tanto da produção material - valor de uso -,
como dos valores excedentes, de uma classe social determinada - a classe
burguesa. Rosanvallon, em nenhum momento, explicita que há duas classes que,
por meio de seus projetos antagônicos e contraditórios, constroem a história dos
homens. Para o apologista do fim da história, quando se trata de explicar os fatos,
125

sua argumentação é direta: não vivemos mais numa sociedade de classe. A


sociedade move-se sob a lógica de ações individuais que produzem e reproduzem
situações particulares.

Sob esta premissa, ausente de conteúdos críticos, Rosanvallon comete


distorções substantivas quando irá tratar da nova “questão social”, porque o
problema apresentado pelo autor é colocado de forma a-histórica, pois o
desemprego e as conseqüências sociais que derivam deste problema central não é
novo, e nem foi apresentado à sociedade no século XX, em específico após 1970.
Além disso, o emprego, categoria intrínseca ao modo de produção capitalista, traz
junto da sua regulamentação legal a sua posição contrária, quer dizer, encontrar-se
na situação de desemprego, à disposição da classe burguesa para ser vinculada a
ela é uma das condições centrais da existência do próprio modo de produção
capitalista. Esta condição legal é moralmente legitimada pela sociedade burguesa e
convive, desde o seu início, em constante processo de conflito entre as classes.

Já a mercadoria, força de trabalho, no século XIX, encontrava-se em


situação precária em dois sentidos: quando vinculada à lógica produtiva, suas
condições de remuneração e as condições de trabalho presentes deixavam os
trabalhadores e seus familiares em situação de pobreza assustadora; ao mesmo
tempo, no decorrer do século XIX, principalmente nos períodos de crise econômica
recessiva, a força de trabalho não conseguia vincular-se ao mercado e o
desemprego atingiu números alarmantes. A pobreza e a miséria denunciavam,
portanto, a situação da classe trabalhadora. Neste momento, a “questão social” era
uma situação real. Por que Rosanvallon diz que, após 1970, uma nova “questão
social” assaltou ao céu? Com certeza, afirmar que este fenômeno é novo, não
explica nada. O novo encontra-se na particularidade com que o objeto se manifesta.

Mas, para Rosanvallon, a nova “questão social” - o desemprego estrutural


-, colocou o Estado Providencial em crise, esgotando suas formas de financiamento
e este problema central, que abala as estruturas da sociedade capitalista, precisa
ser solucionado. Mas, em que instância o problema, causador da crise do Estado
Providência, situa-se? Segundo o autor, a crise instaurada é calçada por dois
problemas de ordem maior: (1) na crise de financiamento em que se encontra o
Estado Providência e; (2) na ausência de sentimento cívico na sociedade civil e
política. Para ele, o tecido social está doente e "os recursos que politicamente estão
destinados ao financiamento dos direitos e garantias sociais, são limitados, pois não
há vontade política para financiar aqueles que estão inativos do ponto de vista da
produção imediata. Há um problema político da alocação de recursos." 97 Por isso,
a resolução do problema encontra-se na esfera das decisões políticas,
principalmente, no momento de decidir em que o governo, prioritariamente, irá
investir na sociedade.

No entanto, Rosanvallon em nenhum momento dirige seus


questionamentos e direcionamento teórico-prático para a esfera da tributação.
Quando esta situação é levantada, o autor é categórico: a arrecadação através do

97
A discussão aqui travada sobre a forma que Rosanvallon buscou para resolver
o problema de financiamento do Estado Providencial está fundamentada nas discussões
realizadas pelo Núcleo de Estudo e Aprofundamento Marxista - NEAM.
126

...imposto sobre a renda sempre esteve no centro do imaginário político da


esquerda. Porém, esta medida não é simpática para a esfera política na França.
A classe média reclama: pagamos além do que usufruímos, assim não é justo
ampliar a nossa contribuição em particular. A proposição em tributar quem ganha
mais criaria um problema político difícil de resolver - A saída do autor é adotar
uma seletividade moderada (ROSANVALLON, 1998, p. 87).

Também, para justificar a não utilização da cobrança de tributos conforme


a renda, Rosanvallon explicita que a cobrança de impostos retiraria o sentimento da
responsabilidade individual, inibindo o crescimento do capital.

Assim, ao desviar-se das possibilidades efetivas de resolver o problema


de financiamento do Estado Providência através da tributação, Rosanvallon
descarta qualquer encaminhamento da criação de uma nova reforma fiscal.
Aumentar a carga tributária dos ricos, penalizando o capital está distante da
proposta de Rosanvallon. Porém, percebe-se que este procedimento está
intimamente ligado à necessidade de recuperar-se os sentimentos cívicos. Neste
momento, o autor faz alusão aos sentimentos cívicos existentes no período do pós-
Segunda Guerra Mundial e aos sentimentos cívicos cultivados e praticados, até os
dias atuais, nos Estados Unidos.

A solidariedade é o elemento central que fundamenta os sentimentos


cívicos e encontrou substancialidade nos gestos praticados pelos próprios homens,
“...a solidariedade entre pessoas com defeitos físicos e pessoas saudáveis, jovens e
velhos, indivíduos com emprego protegido ou não, é mais fácil de legitimar do que a
solidariedade entre categorias e renda” (ROSANVALLON,1998, p. 87). E é essa
solidariedade que poderá resolver o problema ético-moral que assola as bases do
Estado Providencial.

Dessa forma, os conflitos sociais, intrínsecos à lógica burguesa são


deslocados para a responsabilidade dos indivíduos sociais. Os direitos coletivos
perdem suas legitimidades. E, a solidariedade realizada por meio de ações, desloca
a nova questão que passa a ser enfrentada e resolvida também por meio das
relações transclassistas (o termo é de José Paulo Netto) . Os antagonismos e
contradições existentes entre as classes sociais, determinadas no interior da
sociedade capitalista, são coisas do passado.

Essa saída, a criação de novos princípios éticos e morais que


fundamentem nossas ações para efetivarmos a solidariedade ativa no interior da
sociedade, precisa ser refutada. Negar essas proposições é uma necessidade
teórica e de prática política que precisa ser ampliada na esfera da classe
trabalhadora e no interior das universidades, porque a crise do Estado Providência
não é de viés filosófico. A crise estabelecida está centralizada na crise do capital
instaurada durante a década de 1970 e continua até os dias atuais. Rosanvallon é
um intelectual a serviço da classe burguesa, e está convicto que é possível, que eu
mantendo as estruturas fundamentais da relação capital-trabalho, enfrentar toda
uma série de seqüelas, toda uma série de expressões, de manifestações deletérias,
mas que podem ser objeto de intervenção e de intervenção eficiente sem que se
toque na estrutura na estrutura social fundamental. Esta forma de entender e
127

materializar as ações econômicas, políticas, sociais e culturais é base fundante do


governo de FHC.

2.3.2 O Reformismo Social-Democrata de Robert Castel

A sociedade salarial entrou em crise, desagregou-se. A centralidade que


fundamenta sua existência – exploração da força de trabalho assalariada e a
garantia de direitos sociais – conquistados e usufruídos pelos trabalhadores e seus
familiares, apresentam fraturas profundas. As fissuras evidenciadas põem à
sociedade salarial, após a década de 1970, uma nova questão social: homens,
mulheres, crianças, jovens e adultos, encontram-se desintegrados na sociedade. Na
condição de vulneráveis, vêm colocando em risco a coesão social.

Com a atenção direcionada para o continente europeu, especificamente a


França, Castel apresenta em sua obra As Metamorfoses da Questão Social: uma
Crônica do Salário 98 o movimento em que a força de trabalho, vinculada socialmente
ou não, delineia a lógica, a forma de produzir e reproduzir riquezas e vidas
humanas. Esse movimento tratado por Castel, a partir do século XII, cristalizou-se e
entrou em crise no século XX.

Ao realizar um corte transversal nesse período histórico – século XII ao


XX-, Castel mostra que os homens e mulheres integram-se e desintegram-se na
sociedade. Como enfrentaram e continuam enfrentando situações de risco em
diferentes momentos da produção e da reprodução humana. É nesse contexto que a
própria sociedade, em um momento histórico definido, criou o Estado social como
forma de responder aos membros das classes sociais que, afirmando ou negando,
produzem e reproduzem suas maneiras de ser.

Ao realizar esse percurso, o fio condutor que atravessa sua obra, ganha
pujança, concreticidade, e em suas diferentes configurações, discute o que é velho
e o que é novo, suas similitudes e as diferenças existentes. Além disso, Castel
apresenta, enfaticamente, a crise que a sociedade salarial vem enfrentando.
Fundamenta-se, teórico e empiricamente, em materiais primários e secundários
oriundos da experiência vivenciada na França. Porém, em alguns momentos, suas
conclusões são passíveis de comparação a situações concretas ocorridas em outros
países, principalmente europeus.

A crise da sociedade salarial apresentou seus primeiros anúncios no pós-


70 e, com maior intensidade a partir da década de 80, estendendo seu crescimento
violentamente até os dias atuais. Segundo Castel, não é uma crise comum,
passageira, mas o autor se reserva em anunciar uma previsão para o futuro.Pois,
para ele, a crise coloca para a sociedade seus nexos contraditórios. Castel não
propõe explicitar as determinações econômicas e políticas que se instauraram
porém, é enfático ao abominar o uso do termo exclusão social. Sua decisão é
abortar todas as análises que banalizam o social quando se atribui aos fatos sociais
uma negação aos direitos humanos, o que se torna um fator de exclusão. Castel é

98
Para subsidiar a leitura, bem como para se apropriar da análise de Castel,
utilizamos também os textos “As armadilhas da exclusão” e “As transformações da questão
social”, do próprio autor. Esses documentos estão publicados na obra de BÓGUS (2000).
128

categórico: é necessário dar historicidade aos fatos, colocá-los em seu movimento,


ou ainda, “apanhá-los” dentro do processo.

Para desmistificar a banalização que muitos fazem com o conceito


exclusão social, 99 Castel preferiu referir-se às situações limites em que vivem,
homens e mulheres, jovens, adultos e idosos, no interior da sociedade salarial,
como desfiliados. Porém, a pergunta é necessária: o trabalhador esta desfiliado em
relação a quê? Ou a quem? O trabalhador está desfiliado da sociedade, do salário.
“...Em contrapartida, falar de desfiliação não é ratificar uma ruptura, mas reconstruir
um percurso. A noção pertence ao mesmo campo semântico que a dissociação, a
desqualificação ou a invalidação social” (CASTEL, 1998, p. 26).100 Esse fato é
crucial, pois no momento em que ocorre o desligamento ou mesmo a não entrada
nessa sociedade salarial, a situação de segurança e de proteção social, que
legitima o modo de ser e de viver dos filiados, deixa de existir.

Para ele, homens e mulheres encontram-se em situação de impotência. A


identidade que dá a condição de existência no interior da sociedade salarial fica
comprometida. São identificados e tratados como coisas. As pessoas
descaracterizam-se, expressando o nada, aos poucos, inúmeros trabalhadores –
supranumerários – entram na sociedade na categoria dos sobrantes. 101

Essa contradição é explicitada e concretizada no momento em que


somente a classe burguesa existia, em relação à ampliação e acumulação de
capital. A classe proletária produz, mas não participa da produção final. A
contradição intrínseca à própria origem dessa relação colocou as duas classes em
posições antagônicas em seus interesses. Enquanto a classe burguesa ampliava
sua acumulação de capital e criava mecanismos para manter-se dominante; a
classe proletária amargava as injustiças sociais, produto da relação estabelecida de
forma desigual. “...Calculou-se que à véspera da Revolução, 88% do orçamento dos
operários parisienses mais pobres ainda eram destinados à compra do pão”
(CASTEL, 1998, p. 218).

Mas as condições efetivadas no campo da economia e da política, não


tardaram a apresentar e explicitar conseqüências desastrosas na esfera social.
Famintos, desempregados, sem tetos e sem referências, homens e mulheres,
crianças e idosos, colocaram em situação de perigo e de instabilidade o projeto
burguês. Conquistas consagradas na esfera da legislação, leia-se - Revolução
Francesa - mostraram os limites de suas premissas quando comparada com a
lógica e a forma estabelecida no interior do “santo mercado capitalista”. Uma nova
“questão social” explicitava e escancarava o projeto da modernidade. O pauperismo

99
CASTEL (1998, p. 26) é categórico: “...Não se trata de uma vaidade de
vocabulário. A exclusão é estanque.”
100
“...Por sociedade salarial, o autor designa a sociedade que se construiu com
base no trabalho e suas proteções. Em sua ótica, é do trabalho e de sua proteção que se
organizam o direito social, a seguridade social, a sociedade moderna, enfim” (CASTEL,
2000, p. 11-12).
101
Sobrantes são “...pessoas que não têm lugar na sociedade, que não são
integrados, e talvez não sejam integráveis no sentido forte da palavra, atribuído por
exemplo por Durkheim, ou seja, estar integrado é estar inserido em relações de utilidade
social, relações de interdependência com o conjunto da sociedade” (CASTEL, 2000, p.
254).
129

expressou simbolicamente e materialmente a conquista social que a burguesia


legitimou como um compromisso com a classe proletária.

O que foi proposto quando da queda do Antigo Regime como resposta moderna
à questão social não vai poder instituir-se enquanto tal. O princípio do livre
acesso ao trabalho abre uma era de turbulências e de conflitos. A questão social
é reformulada a partir de novos núcleos de instabilidade que são como a sombra
do desenvolvimento econômico. Entregue a si mesmo, o processo de
industrialização engendra um monstro – o pauperismo (CASTEL, 1998, p. 277).

Desse modo, pode compreender que o pauperismo seja o ponto de cristalização


da nova questão social. O pauperismo é, antes de tudo, uma imensa decepção
que sanciona o fracasso do otimismo liberal do modelo século XVIII (CASTEL,
1998, p. 297).

Mas, o pauperismo produzido no interior da sociedade capitalista, no


século XIX, trouxe em suas entranhas, determinações objetivas e subjetivas que o
fez diferenciar-se do pauperismo vivenciado pelos trabalhadores, no século XIV,
prolongando-se até o século XVIII. Na Idade Média não existia um mercado livre
para que a força de trabalho pudesse expressar-se de forma independente, o que
permitiria que a pobreza crescesse frente à impossibilidade das classes dominantes
responderem aos limites em que o projeto de sociedade pautava-se. Agora, na
primeira metade do século XIX, a lógica e a forma de produzir mercadorias e as
sedimentações das relações sociais no âmbito individual e coletivo, criaram uma
nova pobreza. Uma pobreza que se originou, desenvolveu-se e efetivou-se em uma
sociedade em que a liberdade de vender a força de trabalho foi legalizada e
determinante. Essa “questão social”, por volta de 1830,

...foi a ameaça de fratura representada pelos proletários das primeiras


concentrações industriais que, como dizia Augusto Comte, acampam na
sociedade industrial sem estarem nela encaixados, integrados. São essas
populações flutuantes, miseráveis, não socializadas, cortadas de seus vínculos
rurais e que ameaçam a ordem social, seja pela violência revolucionária, seja
como uma gangrena. Aliás, essa é uma palavra utilizada no vocabulário da
época, uma espécie de contaminação da miséria, da desgraça que infectaria
progressivamente todo o corpo social. Então, é essa a questão social na primeira
metade do século XIX, descrita pela maior parte dos observadores sociais da
época, sob a forma de pauperismo (CASTEL, 1998, p. 238-239).

Mas enquanto as relações de dominação encontravam-se nos patamares


existentes, a classe proletária deparava-se com duas situações. A primeira, de
desespero; a segunda, de organização. O desespero é fruto da situação de
vulnerabilidade, de negação que, desde a primeira fase de sedimentação do
capitalismo, os trabalhadores e seus familiares viviam. Arruinados pela situação de
pauperidade, recebendo um salário inferior ao custo das necessidades básicas, ou
por encontrarem-se em situação de sobrantes, inúteis para desenvolver qualquer
atividade no mercado, os operários e seus familiares foram colocados à margem da
130

sociedade. É nesse cenário que a classe trabalhadora amadureceu e, no campo da


política, conseguiu organizar-se e colocar-se como classe.

O movimento realizado pelos trabalhadores proletários obrigou a classe


burguesa a rever seus mecanismos de enfrentamento ao pauperismo. Temerosa em
ser surpreendida pelos trabalhadores, aperfeiçoou seus mecanismos de controle
social. O Estado protetor incorporou algumas conquistas sociais, transformando-se
de forma superficial, porém significativa, em Estado social. 102 Porém, assustada pelo
espectro que ameaçava o processo de desenvolvimento e consolidação de seu
projeto, a classe burguesa não vacilou, e através de seus intelectuais orgânicos,
implantou um projeto de política social pautada na tutela moral.

Tutela, proteção, “capacidades” (Guizot) ou “autoridade social” (Le Play): noções


fundadoras de um plano de governabilidade referentes às classes inferiores.
Uma resposta, ao mesmo tempo política e não estatal, à questão social só é
possível desde que se consiga instrumentalizar, a partir dessas noções, uma
ordem de relações bastante forte para afastar o risco de dissociação que
persegue a sociedade no início do século XIX (CASTEL, 1998, p. 306).

Os formuladores e os executores da proposta liberal tinham medo que a


interferência do Estado social nas relações cotidianas, com o intuito de amenizar as
desigualdades e/ou resolvê-las, colocasse em movimento a construção de um
projeto que fosse pautado em princípios socialistas, enquanto novo modelo
societário. Nesse jogo consciente de classe, o liberalismo assumiu uma posição
conservadora, após as primeiras décadas, que se distanciaram da Revolução
Francesa.

...Entre o liberalismo “utópico” do século XVIII e o que impôs sua marca à


sociedade industrial, produziu-se um deslocamento considerável. O primeiro era
conquistador, iconoclasta e propriamente revolucionário em sua concepção da
sociedade: era necessário destruir os obstáculos ao advento da liberdade. Sem
necessariamente mudar de valores, o liberalismo que prevalece no século XIX
tornou-se conservador, ou melhor, restaurador da ordem social. Sua posição é
que mudou. Trata-se agora de enfrentar não mais sistemas de privilégios, mas
fatores de desordem; não mais um excesso de regulações pesadas e arcaicas,
mais riscos de desintegração social (CASTEL, 1998, p. 314).

Um novo cenário estava montado. Os trabalhadores operários, vivendo em


em situação de vulnerabilidade, colocavam em risco a integração da sociedade. Se
por um lado, a classe burguesa respondia ao problema por meio da criação do
Estado social, pautado em uma política social tutelar moralista; na outra
extremidade, os trabalhadores operários e seus familiares, exigiam uma situação de
estabilidade. Para os trabalhadores, somente o direito ao trabalho, “no sentido de
viver trabalhando”, era o que garantiria uma política social universal. Nesse
102
“...É preciso um ator central para conduzir tais estratégias, obrigar os
parceiros a aceitarem objetivos sensatos e zelar pelo respeito dos compromissos. O Estado
Social é esse ator” (CASTEL, 1998, p. 498).
131

momento, os operários com consciência de classe, enfrentaram o projeto burguês


em processo de consolidação, propondo a efetivação de um novo projeto de
sociedade.

O desemprego aumentava em escala geométrica, bem como as ínfimas


remunerações, acompanhadas pela carga horária de trabalho elevada e as
péssimas condições no local de trabalho. Essas eram questões que contribuíam
concretamente para aumentar a pobreza nos espaços onde a classe trabalhadora
produzia e vivia. É nesse processo, concreto, que o pauperismo tornou-se um
perigo para a classe burguesa, ameaçando a legitimidade do projeto dominante,
“...à véspera do Natal de 1871, a Sociedade de Economia Caridosa, sempre
presidida por Armand de Melun, cobre os muros de Paris com cartazes com um
‘Apelo aos homens de boa vontade’: A ‘questão social’ na hora atual não é mais um
objeto a discutir. Apresenta-se diante de nós como uma ameaça, como um perigo
permanente” (CASTEL,1998, p. 351).

Com o passar do tempo, já na segunda ou terceira geração de operários,


os enfrentamentos caminhavam em outra direção, isto é, os trabalhadores tentaram
negar a lógica burguesa e, em alguns momentos, viveram experiências de poder,
como uma classe operária. Essas situações concretas aliado às inúmeras
manifestações no interior das fábricas e fora delas, fizeram com que a classe
burguesa mudasse a sua forma de tratar a esfera social, política e econômica.

Assim, com medo de serem surpreendidas e perderem o poder de controle


do projeto de sociedade, os capitalistas atribuíram ao Estado o papel de mediador
dos conflitos, ou seja, coube ao Estado, na figura de guardião da estabilidade
social, mediar as diferenças. O controle social, por meio da tutela moral construída
pelo liberalismo clássico, esgotou-se como princípio de integração social. 103 A partir
desse momento histórico, no final do século XIX, tem-se de forma clara uma luta
contínua por interesses de classe. E o Estado, além de mediar esse jogo de
interesses teria que garantir a defesa da propriedade jurídica e física da sociedade.
Além disso, teria que implantar políticas sociais que ampliassem a qualidade de
vida dos operários e de seus familiares. Mas, foi por meio do seguro obrigatório
que a sociedade conseguiu se organizar. 104 O seguro “...dá uma certa estabilidade à
classe operária, respeitando sua autonomia, diferentemente da proteção”
(CASTEL,1998, p. 381).

103
A Tutela Moral, princípio básico utilizado pelo Estado social para manter a
integração social, deixa de ser imperativo, porém esta prática é utilizada até os dias atuais
adequando suas ações conforme as situações determinadas em jogo. A prática da tutela
moral é expressão significativa e determinante na lógica e na forma de consolidação da
sociedade salarial, bem como no momento de responder às suas fraturas.
104
Evidentemente, o seguro pode ser uma prática “privada” com suas origens na
iniciativa privada. É o caso do seguro marítimo desde a Idade Média: os enormes riscos da
navegação marítima na época faziam com que se tornasse necessário dividi-los entre os
diferentes comandatários das expedições mercantis. A Comagnie Royale d'Assurance,
primeira companhia francesa de seguro de Vida, foi fundada em 1797, mas era privada, a
despeito de seu nome. Também as diferentes associações de socorros mútuos foram
instituições que funcionavam com base no princípio do seguro, mas sem a garantia do
Estado (CASTEL, 1998, p. 383).
132

Com o seguro obrigatório, instaurou-se no interior da sociedade capitalista


um novo tipo de propriedade: a propriedade social. A relação entre o patrimônio e o
trabalho foi inovado, pois permitiu-se que os operários tivessem direitos durante e
depois de sua trajetória de vida em uma empresa. Em relação à propriedade social
redimensionou-se os termos de conflito secular entre o patrimônio e o trabalho.

Essa nova política implementada foi lenta. Em um primeiro momento, não


se conseguiu atingir a grande maioria dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, os
representantes legisladores e executores da classe burguesa, inviabilizaram a
aprovação da ampliação de direitos que seriam incorporados na política de seguros.
Apesar de novas transformações na base produtiva e no campo da circulação de
mercadorias, criando novos postos de trabalho, a mobilidade existente no interior da
classe trabalhadora foi ampliada. No decorrer do século XX, em particular, durante o
pós-Segunda Guerra Mundial, foi que os seguros ampliaram-se em quantidade e
qualidade. “...O seguro obrigatório vai realizar uma revolução tranqüila na condição
do assalariado” (CASTEL,1998, p. 373). As mudanças realizadas pelo Estado social
no tratamento da “questão social”, em específico à política do emprego e do
desemprego e dos desfiliados vulneráveis, possibilitou o avanço nos propósitos de
construção efetiva de uma sociedade salarial. 105 Havia a possibilidade de colocar a
propriedade em segundo plano. Uma mera ilusão, pois “...não irá abolir a relação
proprietários e não proprietários, mas redefini-los” (CASTEL, 1998, p. 386-388).

É nessa esfera que a classe trabalhadora, no ocidente, fez com que


crescessem as suas franjas e, por meio da proposição da política social-
democrática, definida após 1940, impôs suas exigências de classe na esfera da
reforma, ampliando os direitos sociais.

O Estado social, de tipo social-democrata, havia conservado uma versão


edulcorada dessa utopia: não era mais necessário subverter a sociedade pela
revolução para promover a dignidade do trabalho, que continuava a ocupar um
lugar central como base do reconhecimento social e como alicerce que se
prendiam as proteções contra a insegurança e o infortúnio. Ainda que a
penosidade e a dependência do trabalho assalariado não estivessem
completamente abolidas, o trabalhador recebia uma compensação para elas,
tornando-se um cidadão em um sistema de direitos sociais, um beneficiário das
subvenções distribuídas pela burocracia do Estado e, também, bem como um
consumidor reconhecido das mercadorias produzidas pelo mercado. Esse modo
de domesticação do capitalismo tinha, assim, reestruturado as formas modernas
da solidariedade e da troca em torno do trabalho, sob a garantia do Estado
(CASTEL,1998, p. 513).

105
Tudo parecia estar em harmonia. A sociedade salarial estava arrebatada por
um irresistível movimento de promoção: acumulação de bens e de riquezas, criação de
novas posições e de oportunidades inéditas, ampliação dos direitos e das garantias,
multiplicação das seguridades e das proteções. A sociedade salarial é também uma
sociedade cujo cerne se instalou o Estado social (CASTEL, 1998, p. 480-481). “...garantia
de uma proteção social generalizada, manutenção do grande equilíbrio e condução da
economia, buscava um compromisso entre os diferentes parceiros implicados no processo
de crescimento” (CASTEL, 1998, p. 417).
133

Assim, a classe trabalhadora na Europa conquistou sua estabilidade. Aos


poucos os trabalhadores, em geral, foram integrados ao mercado. A sociedade
salarial começou a sedimentar suas bases garantindo, aos filiados, a certeza de não
permanecerem mais na área de risco, isto é, em situação de vulnerabilidade. A
política do pleno emprego, acompanhada pelo seguro obrigatório e proteção social
universalizada, deixou a classe trabalhadora e seus familiares em situação estável.
A renda mensal garantida, o status social adquirido e o direito à proteção social
colocaram os trabalhadores em condição de inseridos socialmente. A identidade de
trabalhador vinculado à sociedade salarial ganhou legitimidade.

Nesse contexto, a social-democracia sentia-se satisfeita com os resultados


alcançados. A partir desse momento, até o final da década de 60, o projeto político
reformista imperou na relação cotidiana entre capital-trabalho.

...Abre-se um espaço de mediações que dá um novo sentido ao “social”: não


mais dissolver os conflitos de interesses pelo gerenciamento moral nem
subverter a sociedade pela violência revolucionária, mas negociar compromissos
entre posições diferentes, superar o moralismo dos filantropos e evitar o
socialismo dos “distributivistas” (CASTEL, 1998, p. 345).

Um Estado liberal pode ser obrigado a “fazer social” contra a sua vontade, mas
deve-se fazer o mínimo possível. Um Estado socialista o faria por falta, falta de
poder promover transformações radicais imediatamente. É para um Estado
social-democrata que as reformas são, em si mesmas, um bem, porque marcam
as etapas da realização de seu próprio ideal. O reformismo assume aqui sua
acepção plena: as reformas são os meios de realização da finalidade da política
(CASTEL, 1998, p. 498-499).

É nessa realidade que o Estado social, securitário, solidifica-se, 106 e com o


fundamento da homogeneidade de direitos, responde às inquietações da sociedade
até meados da década de 70. Se essa política foi o caminho encontrado pela classe
trabalhadora européia, não ocorreu o mesmo com a classe trabalhadora situada na
periferia dos países centrais. No Brasil, a discussão do Estado balizou os debates,
timidamente, na esfera governamental e, menos ainda, no corpo teórico que
expressavam as políticas sociais.

Mas, o contrato social celebrado entre os capitalistas e trabalhadores não


conseguiu sustentar suas premissas, isto é, o vínculo permanente dos
trabalhadores, bem como os direitos sociais conquistados, ou como assegurados ou
por meio das políticas protecionistas generalizadas, perderam parte de sua
substância no decorrer da década de 1970. E, a sociedade salarial deixou de ser o
espaço de segurança e de integração dos trabalhadores e de seus familiares que
voltavam a estar imersos em um cenário repleto de incertezas. Para Castel há três
situações concretas, como conseqüências da crise instaurada:

106
De fato, o seguro levou muito tempo para decolar verdadeiramente da velha
base da assistência. Somente em 1945 é que, num contexto profundamente transformado,
o seguro obrigatório assumiu a ambição de se tornar o princípio de uma cobertura
generalizada contra os riscos sociais (CASTEL, 1998, p. 410).
134

(1) os avanços que ocorreram na esfera da ciência e da tecnologia, bem


como a crise de produção, consumo e acumulação presentes no decorrer da
década de 1970 e seguintes, obrigaram os empresários a reorganizarem a lógica na
forma de produzir suas mercadorias. A meta produtiva a ser atingida, bem como a
disputa acirrada na competição do mercado, obrigou os capitalistas a reduzirem
seus custos. A saída encontrada foi retirar dos postos de trabalho os operários
remunerados, com salários elevados, que apresentavam maiores riscos de saúde e
menor produtividade. Essas características foram identificadas nos trabalhadores
que se encontravam na faixa etária acima dos 40 anos. Colocados à margem da
esfera produtiva, pois não conseguiam mais voltar ao mesmo posto de trabalho ou
equivalente, obrigavam-se a assumir outras atividades e, quando conseguiam,
recebiam remuneração inferior. Com certeza, em pouco tempo, esses homens e
mulheres, tornaram-se inúteis para os capitalistas. A identidade de trabalhador
assalariado com vínculo permanente e gozando de direitos sociais adquiridos,
tornou-se lembrança do passado;

(2) outra característica que o mercado adquiriu após 1970 foi a situação de
vínculo empregatício pautado nas condições de precariedade. Essa característica
perpassou em todas as idades dos trabalhadores, ou seja, ninguém estava isento
de vivenciar essa situação concreta. Porém, segundo Castel, na França, como em
toda a Europa, os jovens foram os mais atingidos. Em primeiro lugar, com a
“flexibilização” das leis que regulam as relações entre capital-trabalho, muitos
direitos conquistados durante a consolidação da sociedade salarial deixaram de
existir. Essa nova situação colocou os jovens à disposição do empregador em
situação de precariedade: primeiramente com empregos de curta duração,
atividades insalubres, baixos salários e ausência de direitos sociais; em segundo
lugar, a maioria da juventude estava sendo obrigada a conviver com o fantasma do
desemprego. E, não conseguindo negociar sua força de trabalho, mesmo para
executar atividades em condições precárias tornou-se uma juventude sem
esperança, sem projeto para o futuro, pois o presente tornou-se incerto. Essas
forças de trabalho enquadraram e ampliaram a lista dos vulneráveis do mercado de
trabalho. Jovens que, em sua maioria, passaram ser identificados como
trabalhadores desfiliados; 107

(3) os Sobrantes: não tardou para que a França apresentasse ao mundo


todo seu índice de trabalhadores sobrantes. Esse fato obteve maior repercussão a
partir dos meados da década de 1990. Trabalhadores que não conseguiam
empregar-se, aos poucos colocaram-se em situação de miserabilidade. Homens e
mulheres passaram a fazer parte do contingente dos supranumerários,

...nem sequer são explorados, pois para isso, é preciso possuir competências
conversíveis em valores sociais. São supérfluos. Também é difícil ver como
poderiam representar uma força de pressão, um potencial de luta, se não atuam
diretamente sobre nenhum setor nevrálgico da vida social. Assim inauguram,
107
Igualmente, o que chamei de desfiliação poderia ser trabalhado para mostrar
que não eqüivale necessariamente a uma ausência completa de vínculos, mas também à
ausência de inscrição do sujeito em estruturas portadoras de um sentido. Hipótese de
novas sociabilidades flutuantes que não se inscrevem mais em disputas coletivas,
andanças imóveis de que a falta de objetivos precisos dos jovens desocupados propõe
uma ilustração (CASTEL, 1998, p. 536).
135

sem dúvida, uma nova problemática teórica e prática. Se, no sentido do próprio
termo, não são mais atores porque não fazem nada de socialmente útil, como
poderiam existir socialmente? No sentido, é claro, de que existir socialmente
eqüivaleria a ter, efetivamente, um lugar na sociedade. Porque, ao mesmo
tempo, eles estão bem presentes – e isso é o problema, pois são numerosos
demais (CASTEL, 1998, p. 33).

Instaurou-se, então, uma crise estrutural, uma crise que ocorreu na base
econômica do capital, levando os trabalhadores a perderem o grau de
confiabilidade do vínculo trabalhista vitalício. Alteraram-se as relações de trabalho.
A flexibilidade transformou-se em palavra de ordem para os capitalistas.

É a própria estrutura da relação salarial que está ameaçada de ser novamente


questionada. A consolidação da condição salarial, como já foi sublinhado, deveu-
se ao fato de que assalariar uma pessoa tinha, cada vez mais, consistido em
prender sua disponibilidade em suas competências a longo prazo – isto contra
uma concepção mais rude da condição de assalariado que consistia em alugar
um indivíduo para executar uma tarefa pontual. A durabilidade do vínculo de
emprego implica, com efeito, que não se sabia antecipadamente que tarefas
concretas precedentemente definidas o assalariado seria levado a realizar. As
novas formas “particulares” de emprego se parecem mais com antigas formas de
contratação, quando o status do trabalhador se diluía diante das pressões do
trabalho. A flexibilidade é uma maneira de nomear essa necessidade do
ajustamento do trabalhador moderno à sua tarefa (CASTEL, 1998, p. 517). (...)
As situações intermediárias entre emprego e não-emprego também constituem
objeto de novas formas de contratualização: contratos de volta ao emprego,
contratos emprego-solidariedade, contratos de reinserção em alternância (...)
Essas últimas medidas são particularmente significativas da ambigüidade dos
processos de individualização do direito e das proteções (CASTEL, 1998, p.
607).

Eis a nova “questão social”. Nova no que se refere às determinações que


se apresentaram. Observa-se que a sociedade salarial perdeu terreno, isto é, a
carga horária/dia de trabalho com vínculo tende a se reduzir; muitas atividades
foram substituídas pela robótica e pela informática que, através de ajustes mais
minuciosos e precisos nas máquinas, possibilitou aos capitalistas reduzirem
significativamente o número de trabalhadores nas empresas.

...No início dos anos 70, no momento mais abundante da sociedade salarial, o
contrato de tempo indeterminado era praticamente hegemônico, ou seja, um tipo
de contrato que em situações de pleno emprego assegurava a estabilidade das
condições de trabalho. Hoje, em termos de “estoque”, como dizem os
economistas, ele é ainda majoritário. Mas, por outro lado, aproximadamente 70%
das novas admissões na França se fazem sob formas ditas atípicas, ou seja,
contratos de tempo determinado, contratos de interinos, tempo parcial, diferentes
formas de empregabilidade, o que quer dizer, no fundo, que a médio prazo,
nesse ritmo, em 10 anos talvez, a instabilidade do emprego será substituída pela
136

estabilidade no trabalho como regime dominante da organização do trabalho. Na


minha opinião este é, sem dúvida, o desafio mais grave que se apresenta hoje.
Talvez mais grave que o desemprego (CASTEL, 2000, p. 249-250).

Nesse novo cenário Francês e europeu após 1970, Castel perguntou: Será
que a sociedade salarial chegou ao seu final? Ele é categórico: não. Mas sua
situação atual é crítica. Os trabalhadores situam-se na faixa de uma nova condição
social: encontram-se em situação de vulnerabilidade. 108 O nível de estabilidade
diária e de vulnerabilidade, tornam-se tênues. Este fato significa que após 1970
instaurou-se uma nova “questão social”. Esse novo encontrava-se no interior da
crise em que vivia a sociedade salarial.

Com a crise instaurada no interior da sociedade salarial, o desemprego foi


o fator principal que atingiu diretamente as condições dos trabalhadores, pois é
através da venda da força de trabalho que suas condições essenciais de vida são
mantidas. Mas, o desemprego também colocou o Estado social em situação
desesperadora. A arrecadação das contribuições realizadas pelos trabalhadores
reduziu, exigindo do Estado social maior gasto do que arrecadação. Esse novo fato
concreto pôs o Estado social em situação de risco, causando uma erosão nos
sistemas de proteção social. Neste momento os “donos do capital” atribuíram à
esfera Estatal a responsabilidade da crise fiscal que a economia estava
enfrentando.

A base da sociedade moderna entrou em crise, ou seja, as duas âncoras


de sustentação entraram em crise: o trabalho, pois não havia emprego suficiente e
estável para atender à demanda; e a proteção social perdeu o poder de
“universalidade no atendimento”.

Castel enfatiza que a nova “questão social” instaurada centralizou suas


raízes no desemprego, algo preocupante, grave. Mas, pior que essa situação, foi a
condição cotidiana de vulnerabilidade em que se encontravam os trabalhadores.
Mas, quais foram os mecanismos que o Estado social criou para enfrentar o
espectro que está assustando a classe burguesa e oprimindo a classe trabalhadora
após 1970?

Para enfrentar a situação de vulnerabilidade, projetos de inserção social


foram criados.109 O encaminhamento teórico-prático proposto enfatiza que as
responsabilidades precisam ser compartilhadas. O Estado social não consegue e

108
“...A vulnerabilidade social é uma zona intermediária, instável, que conjuga a
precariedade do trabalho e a fragilidade dos suportes de proximidade. (...) A vulnerabilidade
é um vagalhão secular que marcou a condição popular com o selo da incerteza e, mais
amiúde, com o do individualismo” (CASTEL, 1998, p. 24 e 27).
109
Nesse momento de crise, a política social perdeu terreno. A questão foi inserir
os vulneráveis na sociedade. A política de integração através do seguro obrigatório foi um
sonho que acabou. “ironia da história ou astúcia da razão”, esse momento milagroso
mostrou suas fissuras para toda a sociedade. O que parecia eterno, passou a evidenciar
suas determinações efêmeras. O casamento celebrado entre a liberdade do mercado e o
usufruto dos direitos sociais – seguro e proteção social –, rompeu-se. Um novo projeto foi
apresentado à sociedade.
137

não pode manter a coesão social isoladamente. O lema principal, para colocar em
movimento essa nova premissa, é a solidariedade. 110

Dessa forma, o Estado social foi redefinido. Uma reforma em sua estrutura
buscou reinterpretar suas funções. Em outras palavras, coube ao Estado diminuir
suas intervenções na esfera social como um mediador dos seguros obrigatórios,
bem como na manutenção de direitos sociais adquiridos pela classe trabalhadora. A
responsabilidade da integração social foi substituída pela política de inserção
social. Na década de 80, a França criou a Renda Mínima da Inserção (RMI). 111

Como uma política de inserção, duas características positivas foram


apresentadas: (1) Pela primeira vez na história da proteção social, recusou-se o
corte entre as populações aptas para o trabalho, e as que não podiam trabalhar; (2)
esse direito de obter “meios adequados de existência” não foi considerado como
um simples direito à assistência.

Com o passar dos anos, as estatísticas indicam que a RMI foi paliativa e,
para a maioria, uma situação que deveria ser provisória, passageira, transformou-se
em permanente. “...Para uma grande parte dos beneficiários, essas ações os
conduzem para um estado transitório-durável: em situação de inserção, essas
pessoas têm um status intermediário entre a exclusão e a inserção definitiva”
(CASTEL, 1998, p. 536).

O fato é concreto: tanto a política social de inserção, como as práticas de


solidariedade, não têm conseguido responder aos supranumerários. Castel relata
que a situação de inserção social ficou cada vez mais difícil, pois os índices
estatísticos do desemprego aumentaram, dificultando a efetivação da política de
RMI. Os trabalhadores, mergulhados no labirinto das incertezas, engrossaram as
fileiras dos vulneráveis. Para Roberto Castel, a saída é única: reconstruir a
sociedade salarial, pois, “...é no coração da condição salarial que aparecem as
fissuras responsáveis pela exclusão; é sobretudo sobre as regulações do trabalho e
dos sistemas de proteções ligadas ao trabalho que seria preciso intervir para lutar
contra a exclusão” (CASTEL, 2000, p. 36). “...Parece-me que o caminho é o direito
do trabalho, esse foi sempre o papel do direito do trabalho, conseguindo estabilizar
um certo número de situações de trabalho. São essas algumas das eventualidades
que podemos pensar e discutir” (CASTEL, 2000, p. 264).

Para garantir a situação de permanência da sociedade salarial, Castel


entende que o sistema de proteção social precisa ser resgatado para retornar às
suas formas concretas anteriores. “...Se o Estado se retira, há o risco do quase
vazio, da anomia generalizada do mercado, pois este não comporta nenhum dos

110
“...Na aurora do século XXI, quando as regulações implementadas no contexto
da sociedade industrial estão, por sua vez, profundamente abaladas, é o mesmo contrato
social que, sem dúvida, deve ser redefinido a novas expensas. Pacto de solidariedade,
pacto de trabalho, pacto de cidadania: pensar as condições da inclusão de todos para que
possam comerciar juntos, como se dizia na época do Iluminismo, isto é, ‘fazer sociedade’ ”
(CASTEL, 1998, p. 35).
111
“...A RMI generalizou a problemática da inserção, pois concerniu ao conjunto
da população com mais de 25 anos e cuja renda se situava abaixo de um certo patamar”
(CASTEL, 1998, p. 562).
138

elementos necessários à coesão social, muito pelo contrário, funciona pela


concorrência, não faz sociedade” (CASTEL, 2000, p. 257).

Esse caminho é o nosso futuro, afirma Castel, e somente com essas


premissas é que se pode reverter a situação de desagregação que se está vivendo.
Será possível retomar as certezas do dia-a-dia e, neste contexto, possibilitar a
integração da sociedade retomando momentos de glória. Ao contrário disso, se a
anomia se instalasse, sem dúvida, tomaria conta de toda a sociedade. Exigir o
direito ao trabalho como no período do Welfare State possibilitaria aos países que
vivenciaram este modelo buscar restaurar o projeto do capitalismo em movimento.
Este procedimento é um caminho aberto para reforça-se os princípios
conservadores presentes no interior do projeto social burguês.

Após a apresentação da “questão social” em movimento no século XIX – o


pauperismo – e no século XX – o desemprego com características estruturais -, é
possível entender-se que as respostas especulativa, restauradora e reformista
apresentada pelos economistas políticos, Rosanvallon e Castel esgotam suas
possibilidades no interior da própria lógica capitalista. No entanto, ao centrar-se a
atenção para a análise fundamentada na teoria social de Marx, a resposta indica
que a saída é para além do capital.

Marx mostra que os limites apresentados pelo projeto burguês apontam


sua contradição central, ou seja, como essa a contradição principal é construída
historicamente e com alcança sua efetividade no interior da sociedade capitalista.
Marx é direto: a propriedade privada tem que ser destruída. Para ele esse
entendimento é central, pois a única forma de pensar e construir o projeto societário
emancipatório passa pela teleologia última da não existência das classes sociais e,
portanto, do Estado.

Neste sentido, Marx coloca-nos que o enfrentamento da “questão social”


colocada ao “céu aberto” no período após-1830, explicitava materialmente o limite e
a contradição do projeto societário burguês. O outro projeto em construção
encontraria, naquele momento, no proletariado a chave concreta para enfrentar e
destruir um projeto societário vigente. Mas não só isto: é também esta classe que
congrega as condições concretas possíveis de construir outro projeto. Por isso é
necessário na compreensão de Marx, “...tomar as coisas pela raiz. Mas a raiz para o
homem, é o próprio homem” (MARX, 1977b, p. 8). Sob esta determinação
ontológica, Marx irá, no campo teórico-prático, construir e materializar mediações
simples e complexas que permitam responder e consolidar o projeto emancipatório.
Assim, as construções teórico-metodológicas conduzem para a efetivação de três
movimentos que, imbricados, fundamentam o projeto: a compreensão da
apropriação do real por meio do método materialista histórico-dialético; a teoria do
valor trabalho e a materialização da teoria da revolução. Nesses movimentos, os
trabalhadores, operários e demais assalariados e/ou desempregados, só têm o
mundo a ganhar, pois já perderam tudo, já que a objetividade humana no início do
século XXI, encontra-se muito próxima à barbárie humana.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO 3
RECEITUÁRIO NEOLIBERAL E A “QUESTÃO SOCIAL”
NO BRASIL NA DÉCADA DE 1990

É incrível que se venha a discorrer sobre o Estado de Direito em pleno fim


do século XX, quando tantos e tais, no curso dos últimos três séculos, com
algumas variações, já o expuseram e o defenderam com ardor.
Originalidade não há nisso tudo. Sobre tal fato não existe ilusão ou
pretensão alguma. Mas em terras brasileiras, e ainda nas sul-americanas,
o processo histórico converteu o Estado de Direito em ave rara (VIEIRA,
1992).
SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO 3 – RECEITUÁRIO NEOLIBERAL E A “QUESTÃO SOCIAL” NO


BRASIL NA DÉCADA DE 1990

3.1 O PROJETO NACIONAL-DESENVOLVIMENTISTA

A trajetória que o Brasil percorreu – 1500 a 1930 –, pautou-se


eminentemente na lógica agro-exportadora. O país, numa primeira fase,
comportando-se assiduamente enquanto colônia de Portugal, e num segundo
momento, subordinado à Inglaterra, não conseguiu emancipar-se. Porém, em 1822,
a independência jurídica e política do país alteraram as regras internas. Este fato,
concreto, permitiu que os direitos civis, políticos e sociais ganhassem espaços
lentamente, abrindo possibilidades para avançar na construção de um país livre. No
entanto, o desdobramento histórico foi trágico. No Brasil, conquistar e ampliar
direitos tem sido uma batalha constante, cujos resultados, são ínfimos. O que é pior:
em alguns momentos houve retrocesso nos avanços já materializados. O
esvaziamento da Constituição de 1988 – é um dos exemplos mais fiéis e mais
próximos da prática realizada pelos intelectuais a serviço da medíocre e violenta
elite brasileira.

É no governo de Getúlio Vargas (1930), que as relações econômicas,


políticas e sociais ganharam uma nova inflexão. Vargas, ao assumir o poder, realiza
um corte no projeto burguês nacional e associado, ao romper parcialmente com a
política dos coronéis. As relações de poder passaram a estruturar-se sob a lógica e
a forma de novos personagens, o que não significa dizer que a oligarquia que
estava no poder, até o momento, deixara de existir, de fazer-se presente na esfera
governamental. Este momento histórico levou o Brasil, na figura de Vargas, a traçar
novas estratégias para a execução do projeto econômico e social. 112

Na área econômica, o país assentou sua pedra inaugural na política de


industrialização, instaurando uma nova era, momento em que a dinâmica do
crescimento econômico ficou conhecida como período nacional-
desenvolvimentista. Este fato histórico permite afirmar que o Estado, é o ‘parteiro’
do modelo de acumulação industrial no Brasil.
112
O Brasil passou a adquirir um novo desenho econômico, político e social a
partir de 1930. O Estado, assumiu, enquanto núcleo centralizador e responsável direto, o
papel de organizador da sociedade, e tornou-se a figura central ao adotar um novo modelo
de desenvolvimento econômico. É a partir desta década que o capitalismo, com
determinação industrial, assenta seus princípios e garante o projeto nacional-
desenvolvimentista. No entanto, até 1980, o capital nacional privado comportou-se mais na
retórica que como co-responsável pela implementação das políticas desenvolvimentistas.
Assumindo o papel de comando, o Estado, transformou-se no principal financiador e
responsável pela criação de um parque industrial nacional, pela preparação e organização
da força de trabalho e pela criação da infra- estrutura e insumos básicos necessários.
141

O modelo avançou, desenvolveu suas teses até 1980, atingindo índices de


crescimento expressivo. “...Entre 1938 e 1980, nossa produção industrial foi
multiplicada 27 vezes, em um ritmo não igualado por nenhum outro país”
(BENJAMIN, 1998, p. 25). Devido às transformações na esfera política e econômica
mundial, o Estado nacional-desenvolvimentista encontrou dificuldades para
continuar cumprindo seu papel histórico. Sofrendo pressão direta e indireta nacional
e, principalmente, internacional, o Estado foi obrigado reduzir seu papel
interventivo.
142

Com a opção do plano de desenvolvimento econômico, político e social –


nacional-desenvolvimentista 113 -, o país obrigou-se a formar um parque industrial,
fato que se concretizou na década de 1950 e, ao mesmo tempo, criou uma
estrutura burocrática Ministerial para responder às questões trabalhistas e de
seguridade social. Neste mesmo ínterim, permitiu-se a criação da estrutura sindical,
porém atrelada ao Estado.

Vargas conseguiu implementar um projeto nacional-desenvolvimentista e,


por meio da legislação trabalhista, previdenciária e sindical, trouxe para as esferas
deliberativas públicas uma forma populista de governar. Atendendo às necessidades
da burguesia emergente e, ao mesmo tempo, equilibrando as necessidades e
exigências demandadas pela oligarquia ruralista, o Brasil continuou atrelado às
regras dos países centrais que surgiram com, o fim da segunda Guerra Mundial,

...frente a um conjunto de sociedades semidestruídas pela guerra, os EUA


emergiram como potência dominante do ‘Ocidente’ responsável por 50% do
produto mundial, três quartos das reservas de ouro, liderança tecnológica na
maioria dos ramos industriais, e detentora de um poderio militar, nuclear e
convencional que só encontrava desafio na potência líder o ‘mundo comunista’, a
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) (SALLUM, 2000a, p. 412-
413).

Portanto, o Brasil, subordinado ao capital associado, amplia seus laços de


dependência, porém não redireciona a política desenvolvimentista-nacionalista para
a abertura do mercado internacional.

O Estado Varguista passou a financiar as políticas sociais que originaram


e desenvolveram a relação existente entre capital-trabalho atribuindo à sociedade a
responsabilidade das demandas assistenciais. Porém, mesmo as políticas sociais
sendo financiadas e executadas pelo Estado, não ganharam a dimensão de
universalidade, mas uma expressão verticalizada e setorializada.

A era Vargas, enquanto governo, chega ao seu final em 1954. Os


personagens que o substituíram e governaram o país até 1964 – Juscelino, Jânio e
Goulart -, continuaram praticando a tese desenvolvimentista-nacionalista, apesar da
abertura sem medida, ao capital associado.
113
“Durante as décadas de 30 e 40 do século XX, no Brasil, mesmo os
investimentos sendo garantidos pelo Estado, o mercado nacional era muito tímido, apesar
de ter (...) ocorrido neste período um importante crescimento interno, (...) ainda não havia
no Brasil um mercado nacional, ‘apenas um arquipélago de regiões econ ômicas,
precariamente ligadas uma às outras” (SALLUM, 2000a, p. 411). Apesar da continuidade
do projeto nacional-desenvolvimentista até o final da década de 1970, a partir da década
de 1950, o Estado brasileiro precisou aumentar os empréstimos internacionais. Neste
sentido, mesmo com juros baixos, a dívida externa começou a crescer assumindo valores
impagáveis na década de 1980. Com a mudança de juros realizada pelo EUA em 1979, a
dívida externa brasileira crewsceu. A dívida externa líquida em 1970 era de US$ 4.108
milhões, porém em 1980 os números apontaram US$ 47.995 milhões. Em dez anos a
dívida cresceu US$ 43.887 milhões, ou seja, 10.7 vezes, o equivalente a 1168%. (Cf.
DÍVIDA EXTERNA LÍGUIDA BRASILEIRA – US$ milhões – 1968/1976) (IPEA, 2002).
143

A burguesia não suportou as reivindicações das massas e, com medo do


projeto comunista instalar-se no país, colocou o exército nas ruas, instaurando em
1964 a contra-revolução. Os militares frearam e o processo de construção
democrática que estava em movimento ascendente, retrocedeu porém, não
abandonaram a tese nacional-desenvolvimentista. O Estado continuou cumprindo o
papel de financiador da economia nacional. Mas, na esfera social, quando
comparado com o período – 1930-1964 –, constata-se que ocorreu um grande
retrocesso.

Conforme as relações na esfera urbana foram se complexificando a partir


da década de 1950, momento em que a industrialização ampliava suas bases, há
um aumento do êxodo rural. Este acontecimento respondia à lógica capitalista:
atrair mão-de-obra para o espaço urbano em grande quantidade e preço baixo. 114 A
partir deste novo contexto a “questão social” no Brasil desenha novas
configurações, criando manifestações diversificadas em diferentes frentes. Esta
situação espelha a contradição entre capital-trabalho mostrando sua verdadeira
face, apontando a simetria existente entre os projetos dos trabalhadores e dos
burgueses . Enquanto a pobreza aumentava assustadoramente, a riqueza crescia e
concentrava-se em algumas famílias. A resposta foi imediata: golpe militar.

O Brasil, em 1964, explicitou, mais uma vez, o grau de debilidade


existente da classe burguesa ao tratar das necessidades históricas que precisam
ser efetivadas, conforme os países centrais já realizaram. Para que a classe
burguesa mantivesse a hegemonia de classe, utilizou-se da violência, pois o
consenso da população estava tomando uma outra direção.

Porém, em qualquer modalidade social, a história mostrou que esta


metodologia utilizada não consegue manter-se eternamente. FERNANDES (1986, p.
80) chama a atenção para o limite da prática ditatorial, isto é: “...o opressor pode
retardar a emancipação coletiva dos oprimidos. Mas não pode suprimi-la.” Neste
sentido, para conter as manifestações sociais em movimento, os militares, em 1968,
aplicaram outro golpe dentro do golpe, retirando os direitos civis e políticos dos
brasileiros, quase que em sua totalidade. Somado à forma violenta para manter a
dominação, inúmeras manobras também autoritárias foram realizadas,
principalmente no campo dos direitos políticos. A repressão física e psicológica era
parte constitutiva da maneira de governar.

Isso é uma conseqüência da forma com que se faz política no Brasil. As


decisões têm como ponto de encontro o espaço privado, mesmo quando se tratam
de processos eleitorais ou da execução de projetos tanto na esfera executiva como
legislativa. O espaço público nunca foi e não é a arena em que a classe dominante
realizou e realiza seus embates e combates na esfera programática e ideológica. É
no labirinto do privado que as negociações são costuradas, na calada da noite ou
durante a madrugada, que suas decisões são apresentadas com o estatuto de
legalidade e legitimidade de classe.

114
No momento em que o Brasil inicia o modelo nacional desenvolvimentista,
1930, a população brasileira era de 35.452,652 milhões. Após 30 anos de implantação
deste modelo, a população chegou a 69.716,943 milhões de brasileiros em 1960 (IBGE,
2002b).
144

No entanto, “os de baixo”, no Brasil, foram os que sempre tentaram e


tentam mudar esta prática. Trazem para a esfera pública o debate e as decisões,
bem como sua implantação. É a classe que cumpre seu papel histórico em construir
um outro modelo de sociedade. E, ao denunciar as manobras que os representantes
da classe burguesa realizam, verifica-se que, na história do Brasil, a esfera pública
sempre foi confundida com a esfera estatal, pois o palco de decisões e de
sustentação do público é decidido na esfera do poder privado. O maior exemplo
desta prática encontra-se nas ações patrimonialistas que cortam nossas
experiências desde a formação do Estado nacional brasileiro.

Mas, “os de baixo”, mais uma vez na história do Brasil, trouxeram para os
espaços públicos o debate dos problemas nacionais, bem como a permanente
resistência e denúncias ao regime militar. No início da década de 1970, período de
efervescência e delírio da classe dominante - ao medir os índices elevados do PIB
entre 1968-1973, média de 11,% -, a classe trabalhadora, em diferentes instâncias,
trouxe para a esfera pública a realidade brasileira. Por meio de passeatas,
comícios, abaixo-assinados e outras formas de representações, as ruas de algumas
capitais brasileiras denunciavam a situação de pobreza e miserabilidade em que a
população estava vivendo, 115 bem como o desemprego em ascensão; o Movimento
Democrático Brasileiro –MDB -, denunciava as manobras realizadas pelos militares,
bem como os atos violentos contra os direitos humanos; os trabalhadores urbanos
reivindicavam aumento de salário e ampliação dos direitos sociais; a igreja, por
meio das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, engrossavam as manifestações
denunciando as atrocidades cotidianas e, ao mesmo tempo exigiam justiça social.
Foram anos consagrados para a burguesia, um verdadeiro milagre econômico. No
entanto, os direitos em suas diferentes instâncias não obtiveram os mesmos
resultados. Ao contrário, o custo social era altíssimo, e a democracia estava
estraçalhada.

Essa situação, criada com a crise econômica e política mundial, instaurada


na década de 1970, atingiu todos os países centrais e periféricos. Porém seus
resultados foram desproporcionais, dependendo de determinações específicas de
cada país.116 No Brasil, as condições objetivas, particulares, em movimento,
demarcaram os passos realizados nessa década e nas posteriores. “...O Brasil, que
naquele momento tinha muitos projetos de investimento, foi levado a adotar uma
política de captação desses recursos, elevando sua dívida externa de US$ 12
bilhões em 1973 para US$ 54 bilhões em 1979” (BENJAMIM, 1998, p. 37).117

115
No ano de 1970, no Brasil, 68,33% da população viviam em situação de
pobreza e indigência (IBGE – Censo demográfico e PNDA).
116
NETTO (1999b), chama a atenção para os países burocratizados que, no
mesmo período, a Europa e os Estados Unidos, também estavam mergulhados na crise
na década de 1970, estes países estavam crescendo e com taxa de desemprego baixo.
117
No Brasil, durante a década de 1970, o PIB atingiu a média de 8,7%. Este
valor expressou uma mudança significativa na diminuição da pobreza absoluta que o país
possuía. No ano de 1970, 68,3% da população brasileira eram pobres, no entanto, este
percentual reduziu para 35,33% em 1980. Porém, a simetria existente entre os pobres e os
ricos não diminuiu. Enquanto a renda per capita aumentou, reduzindo em uma década
32,97% da população pobre no Brasil, a concentração de riqueza aumentava. Em 1970, a
riqueza privada correspondia a R$ 418,8 bilhões de reais, correspondendo a 1,97% do PIB
anual. No entanto, em 1980, os valores saltaram pra R$ 1.025,2 bilhões, correspondendo a
2,09 % do PIB anual. (MORANDI, 1999, p. 197).
145

A situação instaurada era simétrica: por um lado o crescimento econômico


era festejado pela burguesia, e na mesma base estrutural da sociedade, os
trabalhadores amargavam o aumento da pobreza e de outras mazelas sociais. É
neste cenário que a ditadura mudou o Presidente, colocando no Planalto o
General Ernesto Geisel. Durante este governo, o regime militar explicitava que era
necessário colocar um ponto final na forma com que a dominação hegemônica
estava sendo mantida, porém, seu término não poderia acorrer por meio de um ato
executivo do Presidente da República. Ciente deste fato, Geisel anuncia um projeto
de abertura para ser implementado de forma lenta, gradual e com segurança.
Devido à perda de autoridade e de poder, os militares não conseguiram realizar a
transição pensada e arquitetada por Geisel e seus assessores. Este projeto também
foi desejado, posteriormente, por Figueiredo. Mas, foi necessário que o partido de
oposição, em conjunto com os liberais, abraçassem o caminho da conciliação e
criassem condições básicas, necessárias para que a transição ocorresse sem
turbulências. No momento em que não era mais possível tolerar a pressão que
estava sendo realizada pela sociedade civil organizada e não organizada, os
militares, em conjunto com partidários democráticos e liberais, efetivaram o
“acordo pelo alto” . Em 1995, nasce a “Nova República”. “...Os de baixo viram-se
apanhados nas tenazes de um movimento contra-revolucionário do tope da
sociedade (incluindo-se aí os setores mais expressivos e poderosos da burguesia
nacional e quase todo o conjunto dos interesses diretos e indiretos da burguesia
internacional)” (FERNANDES, 1986, p. 38).

Ao mesmo tempo em que o planalto articulava a mudança de Presidente,


no início da década de 1970, os trabalhadores também continuavam suas
movimentações contra o regime militar, buscando garantir maior espaço nas
instâncias legislativas, em todo o Brasil, e nas diferentes instâncias de Governo.
Porém, não era em todos os cargos do executivo e legislativo que a eleição era
direta. Surpreendidos com resultados negativos em vários momentos eleitorais, os
militares realizaram manobras políticas, econômicas e atos ilegais, isto é,
inconstitucionais, retornando no mesmo palco, momentos de forte repressão para
não perder o controle da situação.

Mas, o germe da contradição -a classe operária e demais frações da


classe trabalhadora-, por meio de manifestações públicas, ocuparam as ruas em
algumas regiões metropolitanas do país, locais em que a relação capital-trabalho
eram mais saturadas. A expressão de maior confronto ocorreu no ABC paulista em
que vários sindicatos conseguiram convencer seus associados sindicalizados a
pararem as máquinas. Estas ações ganharam expressividade pois, os
trabalhadores, contrariando a legislação que não lhes garantia o direito de greve,
colocaram nas ruas suas reivindicações econômicas, políticas e sociais. Os anos de
1978, 1979 e 1980, foram repletos de mobilizações, 118 momento em que a
democracia começou a germinar novamente, porém em doses homeopáticas. Nesse
processo, os trabalhadores, em conjunto com a Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), avançaram em seus propósitos
e, na passagem da década de 1970 para 1980, os trabalhadores criaram o Partido
dos Trabalhadores – PT, em seguida, explicitando posições diferenciadas, foram
118
De 1978 a 1980, no Brasil, os trabalhadores realizaram 484 greves, sendo
que 74 foram no setor público e 386 no setor privado e 24 em empresas de economia
mista (NORONHA, 1994, p.331). Projeto MTb / PNUD, Mercado de Trabalho, Sindicatos e
Contrato Coletivo.
146

organizadas e fundadas quatro centrais sindicais. Em 1979, os movimentos dos


trabalhadores rurais retomaram a discussão das políticas agrária e agrícola.

Geisel deixa a presidência, sendo substituído pelo General João


Figueiredo, responsável pela continuidade do projeto de Geisel, o qual manteve-se
firme em suas proposições, no entanto, as conseqüências da crise econômica e
política119 mundial atingiram diretamente o país e criaram condições objetivas para
que a crise recessiva tomasse conta. Ao mesmo tempo, a perda do controle sobre a
inflação, a crise fiscal do Estado e a retração do capital financeiro mundial,
culminaram com a crise política que o país estava enfrentando. É nesse contexto
que o Presidente João Figueiredo tenta garantir o fim da ditadura - sem nenhum
prejuízo para os militares -, e também, responder à crise cujas raízes eram
mundiais e, que, portanto, alteraram a relação entre o Estado e economia.
Pressionado e temeroso de novas manifestações que atrapalhassem e impedissem
a realização do “acordo pelo alto” que estava sendo construído, o Presidente João
Figueiredo concedeu o direito de anistia para todos os que se encontravam no
exílio.

Porém, a crise fiscal que o Estado Brasileiro contraiu de forma direta e


indireta, somada à elevação da inflação, elevou a dívida externa- pública e privada
– e a interna, a valores altíssimos, impossíveis de serem quitados. 120 Neste período,
o receituário neoliberal tenta ganhar espaço no Brasil, porém as condições objetivas
(principalmente a resistência dos movimentos organizados) não permitiram que o
projeto fosse implantado durante a década de 80. Ao iniciar a década de 90, os
diques que seguravam o receituário neoliberal não suportaram a pressão nacional e
internacional, atestando, mais uma vez, a dependência e a subordinação aos países
centrais. O país entra em uma nova fase histórica de (re) colonização. A resistência
da classe trabalhadora cedeu.

Ao mesmo tempo, os movimentos sociais ocuparam as ruas e, em 1984, o


movimento pelas “Diretas Já” , ampliavam adesões e pedirem o fim do regime
militar e a realização da eleição direta para Presidente. Apesar da movimentação
nacional, as eleições ocorreram no interior do Congresso e o resultado foi contrário
ao desejado pela sociedade brasileira trabalhadora. Após inúmeras manobras
realizadas pelos militares e aceitas pela cúpula representativa da classe burguesa,
nasce a “nova República”. “...Nascida de uma costela da ditadura, não tem nada a
ver com a República Democrática que está sendo construída como uma resposta
dos oprimidos aos nossos problemas históricos” (FERNANDES, 1986, p. 7).

Mais uma etapa da história do Brasil é anunciada como nova, porém a


mudança é tão superficial que não é possível falar, nem mesmo, em reforma.
Conforme Florestan FERNANDES (1986), no Brasil, o que tem prevalecido
historicamente é o fenômeno conhecido como “mudancismo”. Após 20 anos de
ditadura, momentos em que a cidadania ausentou-se da cena pública e/ou privada,
e os direitos civis, políticos e sociais foram varridos, os personagens, da política,
119
NETTO (1993) aponta que a crise global contemporânea explicitou suas
raízes no projeto do Estado de Bem-Estar social e na crise da social-democracia.
120
A dívida externa total (Médio e longo prazo e curto prazo) do Brasil, em
milhões de dólares, passou de 55,803 em 1979 para 102,040 em 1984, correspondendo a
um aumento de 46,237, isto é, 120%, (CONJUNTURA ECONÔMICA, 2000; GONÇALVES
e POMAR, 2000, p. 40).
147

militares a serviço da classe burguesa nacional e internacional associada,


conseguiram mudar o regime de governo, livres de qualquer penalidade pelas
atrocidades cometidas na sociedade como um todo, em diferentes dimensões.
Deixaram o governo institucionalmente, porém não perderam o poder. “...o
‘desengajamento’ dos militares do comando do governo e da chefia do Estado
processou-se da pior maneira possível. Eles não foram derrubados: preparam uma
retirada estratégica da qual e sobre a qual mantêm um controle direto e quase
intocável até hoje” (FERNANDES, 1986, p. 21-22).

Mas a luta não parou. O “acordo pelo alto” representou mais uma traição
aos interesses da classe trabalhadora, pois, “...o atual governo não é o oposto da
ditadura, mas a sua reprodução fragmentada e compartimentada” (FERNANDES,
1986, p. 29). No entanto, as manifestações para manter e/ou ampliar os direitos
continuaram. O movimento pelas “Diretas Já”, em conjunto com as entidades
sindicais, partidos de esquerda, igreja, AOB, ABI e inúmeras organizações
populares exigiram e conseguiram avançar em suas reivindicações. Em 1987, o
debate ocorrido na constituinte, que culminou com a promulgação da constituição
em 1988, conseguiu ampliar a pauta que contemplava os direitos nas diferentes
instâncias,121 e apresentou um resultado de extremo avanço para a classe
trabalhadora e para o capital nacional, a Carta Magna foi batizada de Constituição
Cidadã.122 Paralelamente, em 1999, o Brasil vai às urnas e depois de quase 30
anos, elege o Presidente da República por meio do voto direto. O “Bismark das
Alagoas” (o termo é de Francisco de Oliveira) é eleito Presidente do Brasil. Apesar
do retrocesso ocorrido com a eleição de Collor de Mello, a década de 80 foi um
marco histórico para o movimento de luta e resistência da classe trabalhadora em
relação ao receituário neoliberal.

O cenário que vivenciamos no campo político na década de 1980 não foi


um ato isolado. As condições materiais e econômicas que abalaram o mercado
mundial refletiram diretamente e negativamente na sociedade brasileira. “...A
década de 80 foi marcada pela interrupção dos fluxos voluntários de capitais para o
Brasil (e para a América Latina) e pela crise do Estado desenvolvimentista”
(SALLUM, 2000a, p. 427).123 Este momento histórico – conhecido como a década
121
Dois fatos concretos representaram o avanço da sociedade brasileira no que
se refere aos direitos civis e políticos: Durante o processo de realização da constituinte, os
trabalhadores conseguiram exercitar a cidadania civil e política, praticando em todo o país,
audiências públicas e abaixo-assinados. Estas manifestações contribuíram para ampliar os
direitos e, garantir no texto constitucional aprovado uma gama de direitos de interesses da
sociedade brasileira, em especial, dos trabalhadores.
122
Mas, apesar da crise política, instaurada com maior veemência na esfera
econômica e política no início da década de 1980, prolongar-se e acentuar-se até os dias
atuais - aumentando a dívida externa e a situação da “questão social” -, a constituição de
1988, além de avançar na esfera das conquistas sociais e políticas (justiça social, equidade
e universalidade dos direitos), conseguiu manter o Estado enquanto guardião e
responsável pela construção do desenvolvimento econômico e social. Porém, estes
resultados positivos conquistados pela sociedade brasileira representada por amplos
setores da classe trabalhadora, caminhavam na contra-mão do movimento capitalista
mundial. Collor e Cardoso não mediram esforços para “desfazer este mal entendido”.
123
Em 1980, o Investimento Direto do Exterior – IDE investido no Brasil
correspondeu a US$ 1.380,5 milhões. Este valor representava 23,6% do PIB brasileiro
deste ano. Em 1989, o IDE atingiu o valor de 339,8 bilhões (negativo), o equivalente a
16,7% do PIB anual. A média do IDE, entre 1980-1989, atingiu o montante de US$ 412,7
148

perdida – sofreu seus primeiros abalos em 1979, com a política desregulacionista


imposta pelo Estados Unidos. As fronteiras econômicas foram derrubadas –
permitindo a ampliação e a integração entre os mercados de forma a criar, as
condições legais e operacionais para o avanço e consolidação da globalização
financeira mas, ao mesmo tempo, os juros foram liberados.

Estas duas novas determinações – liberação das fronteiras comerciais e


liberação dos juros -, contribuiram decisivamente para que os países periféricos
passassem a dificuldades para conseguir divisas de forma a garantir a balança
comercial equilibrada. Ao mesmo tempo, com juros altos, a dívida brasileira externa
cresce assustadoramente.124 Para equilibrar a balança comercial brasileira, o
governo foi obrigado a ampliar os valores de exportação. 125

Abertura, desregulamentação das fronteiras e juros altos não foram às


únicas medidas anunciadas pelo império americano. Os bancos, responsáveis em
socorrer as economias em desenvolvimento, saíram de cena, contribuindo para a
retração da poupança e causando perdas irreparáveis na produção econômica e
social. “...O investimento externo, componente essencial do padrão brasileiro de
desenvolvimento, converteu-se, na década de 1980, em desinvestimento. Não só os
empréstimos privados estrangeiros cessaram como ocorreu, ao longo desses anos,
uma enorme transferência líguida de recursos para o exterior, principalmente em
função da dívida externa” (SALLUM, 2000c, p. 25).126

Se não bastasse essa política de distanciamento, os investidores


internacionais, ao deixarem de investir no Brasil, durante a década de 1980,
ampliaram e sedimentaram a prática especulativa da ciranda financeira, regra geral
em toda a década de 1990. Como conseqüência, a dívida externa atingiu valores
altíssimos em 1982, dentro de um cenário de crise econômica e política nacional e
internacional, obrigando o então Presidente, João Figueiredo, a propor a
moratória.”...A moratória da dívida externa, anunciada em dezembro de 1982, foi
apenas o reconhecimento político oficial da impossibilidade de continuar a
desenvolver o capitalismo industrial nas velhas bases, sob a liderança do Estado
desenvolvimentista” (SALLUM, 2000a, p. 421-422). Neste momento, início da
década de 1980, a sociedade capitalista vivenciava mais um abalo profundo

milhões, explicitando 14,8% da média do PIB no mesmo período (MATTOSO,1999, p. 27).


124
Para que os países “emergentes” conseguissem cumprir o receituário
neoliberal, era necessário manter os juros altos. Esta era a única forma de captar dinheiro
(dólar) e manter o fundo de reservas, equilibrado. Este mecanismo obrigou os Estados a
dependerem e subordinarem-se às regras do jogo, respondendo às medidas pré-
estabelecidas pelo FMI e BIRD. Ressaltamos que, na década de 1980, mesmo com juros
altos, o índicie de investimentos externos no Brasil e na América Latina foi tímido.
125
- O Brasil exportou US$ 14.244,0 milhões em 1979, 20.132 em 1980, 23.293
em 1981, 20.175,0 em 1982, 21.899 em 1983 e 27.005,0 em 1984. O que correspondeu a
177,5% de aumento entre 1979 e 1984 (BANCO CENTRAL, 2000).
126
Entre 1979 e 1984, o Brasil enviou aos credores internacionais o valor de
37.9 milhões de dólares, correspondente a amortizações (pagas e refinanciadas) e 50.9
milhões de dólares de juros líquidos. Estes montantes corresponderam a 88.8 milhões de
dólares (GONÇALVES; POMAR, 2000). Este valor total foi equivalente a 64 vezes o
Investimento Direto Externo –IDE- investido, em toda a década de 80 no Brasil
(CONJUNTURA ECONÔMICA, 2000; GONÇALVES e POMAR, 2000, p. 46).
149

causado pela crise econômica mundial. 127 E, com medidas paliativas, a economia
brasileira sofria as conseqüências internacionais mas, o fantasma da inflação, ‘igual
ao despertar de um furacão’, colocou o país em risco. O remédio adotado durante a
década de 1980 pautou-se em controlar a inflação por meio de planos econômicos e
da ampliação do custo social pago pela própria população. As manobras foram
inúmeras, e o resultado foi catastrófico.

As medidas tomadas pelos Presidentes – João Figueiredo e José Sarney


-, contribuíram para aumentar a falência declarada da sociedade brasileira. Em
1986, 23,69% da população brasileira eram pobres, chegando em 1990 ao
percentual de 30,25%, o que representou um aumento de 6,58%; o crescimento do
PIB real, durante a década de 80, atingiu o percentual de 1,5; a concentração de
renda em 1980 foi de R$ 1.025,2 bilhões, o correspondente a 2,09% do PIB anual.
Em 1990, a concentração aumentou para R$ 1.577,8 bilhões, ou seja, 2,75 do PIB
anual. O abalo nas potências centrais foi expressivo, porém o verdadeiro desarranjo
ocorreu na periferia. A dívida externa total brasileira pública e privada cresceu de
US$ 55.803 milhões, em 1979, para US$ 85,304 milhões, em 1982, atingindo US$
115,506 milhões em 1989 (BANCO CENTRAL, 2000). Sem condições concretas
para amortizar a dívida e cumprir com os pagamentos acordados dos juros, o
governo brasileiro não teve saída a não ser solicitar a moratória. “...Depois da
moratória de dezembro de 1982, isso ocorreu duas vezes mais, uma no início de
1987 e outra em 1988” (SALLUM, 2000a, p. 427). Fragilizado, o país conviveu com
situações limite, ampliando as desigualdades sociais.

Enquanto, no Brasil, encerrava-se uma década perdida, com índices


econômicos e sociais catastróficos, a burguesia nacional e associada festejava os
acontecimentos históricos mundiais em movimento. O momento foi de comemoração
para os conservadores, protagonistas do projeto burguês. O sabor de vitória que os
envolvia, convidava-os a irradiarem as conquistas na esfera econômica e política.
Os meios de comunicação cumpriram, perfeitamente, o papel de escancarar ao
mundo, a notícia da condecoração do projeto societário, vencedor – o capitalista –.
O discurso tornou-se: o modo de produção capitalista veio para ficar e ser eterno,
pois vencera a última batalha, derrotando os defensores do mal – os projetos
nacionalistas e socialistas –. Estes não tardaram a renderem-se ao projeto
societário responsável pelo desenvolvimento e efetivação da modernidade. A partir
deste momento universalizado, coube a todos entenderem e praticarem louvor ao
mercado, centro do palco sagrado central das relações econômicas e sociais.

A partir desse momento, as revoluções que ocorreram na base do próprio


modo de produção capitalista em toda a sua história, podem ser entendidas como
sendo lembranças e pesadelos do passado. Agora, o projeto vencedor será ajustado
quando for necessário ou, em situações mais delicadas, algumas mudanças
poderão ser realizadas, porém a essência do objeto é intocável. Estes
procedimentos – ajustes e/ou mudanças –, sempre serão mediados pelas
instituições financeiras internacionais.

Todo este processo está pautado na lógica e na forma da globalização.


Este conceito supranacional, que, apesar de não ser novo, pois pertence à essência
127
SALLUM (2000c, p. 25), diz que, apesar de transformarem a crise de 1983,
em uma crise de caráter fiscal, no Brasil, ela é uma crise, em primeiro momento, política,
pois é a expressão máxima da desagregação do Estado desenvolvimentista-nacionalista.
150

do projeto do capitalismo, ganha autoridade e dá segurança aos países centrais e


periféricos. Com a globalização algumas medidas tomadas garantem a execução da
sua própria lógica: globalização significa que as fronteiras nacionais e regionais
foram superadas, o comércio, nos diferentes extratos do ramo produtivo, permitirá a
distribuição e o consumo da produção, dos investimentos e da riqueza mundial de
forma mais eqüitativa, o que favorecerá aos países periféricos. A partir deste
referencial, o Brasil começou a trilhar os caminhos do mito da globalização.

3.2 BRASIL, UM PAÍS “EMERGENTE”

A década de 1990 foi um marco singular na história do capitalismo.


Enquanto projeto hegemônico, a retórica sinalizava e induzia a compreender e
vivenciar um processo global onde o lema da universalidade, inclusa, e o da
homogeneização das mercadorias e das pessoas era algo concreto e certo. Como
blasfemou Fukuyama (ANDERSON128, apud SADER; GENTILI, 1995, p. 81-117), a
globalização e seu projeto político teórico-prático neoliberal venceram, e todos os
que apostaram no poder e no resultado do mercado, também. Todos e tudo
receberam o selo da globalização. O que é intrínseco à lógica capitalista, passou a
ser compreendido como algo do além, divinizado. Qualquer acerto ou erro no
projeto capitalista atribui-se à globalização.

Com a determinação e os argumentos direcionados para manter a


globalização em condições tanto auto-explicativa, como resolutiva de todos os
problemas, o resultado desse movimento é um processo natural das forças do
mercado. Todos os que aderirem ao projeto global conseguirão, em pouco tempo,
livrar-se das crises periódicas que assolam a sociedade em suas diferentes
instâncias e, no final, todos serão incluídos e provarão o ‘sabor’ de viver enquanto
homens universais, usufruidores dos produtos materiais e espirituais em condições
hegemônicas.

Porém, quando se confrontam os dados estatísticos de como se encontra


o desenho mundial da distribuição e concentração das empresas transnacionais e
suas filiais no mundo, percebe-se que a globalização que estamos vivenciando, na
prática, não condiz com a retórica apresentada pelos “donos do poder” mundial em
todos os espaços públicos e privados.

No começo dos anos 90, cerca de 37 mil empresas transnacionais, com suas
170 mil filiais, abrangiam a economia nacional em seus tentáculos. As 200
primeiras são conglomerados, cujas atividades planetárias compreendem sem
distinção os setores primários, secundário e terciário: grandes culturas agrícolas,
produção manufatureira, serviços financeiros, comércio etc.; geograficamente,
elas se repartem entre nove países: Japão, Estados Unidos, Alemanha, França,
Reino Unido, Suíça, Coréia do Sul, Itália e Holanda. O volume de negócios da
General Motors é maior do que o produto nacional bruto (PNB) da Dinamarca; o

128
ANDERSON, Perry. O fim da história. De Hegel a Fukuyama. Trad. Álvaro
Cabral. Rio de janeiro: Zahar, 1992.
151

da Ford supera o PNB da África do Sul, e o da Toyota ultrapassa o PNB da


Noruega (RAMONET, 1998, p. 61).129

Mas, após alguns anos dessa retórica, a classe burguesa, detentora dos
meios de produção, dos instrumentos de trabalho e compradora da força de
trabalho, percebeu que havia um fantasma que os assustava todos os dias. Este
espectro também invadiu a esfera pública e pública estatal. Foi possível perceber-
se que a globalização, que ganhou força nos mercados do mundo inteiro, não era a
expressão das esferas produtivas e/ou tecnológicas, mas sim financeira
(CHESNAIS, 1998).

Embora a globalização tenha se caracterizado como um fenômeno que foi


extremamente restrito a países, regiões, a determinadas empresas, bancos e
outros, tornou-se um fenômeno excludente: “...atualmente, entre as 200 primeiras
economias do mundo mais da metade não são países, mas empresas” (RAMONET,
1998, p. 61). Destas, poucas empresas transcendem de fato suas nações de origem
de acordo com BENJAMIM (1998, p. 30). A concentração e controle das patentes
ilustram o quanto o poder econômico está concentrado, o que denuncia a falsa
retórica da globalização enquanto uma expressão mundial homogênea. “...As
empresas norte-americanas geram fora dos Estados Unidos apenas 3,1% de suas
patentes; as Japonesas geram fora do Japão apenas 1,2% e quase todas as
patentes de empresas européias, por sua vez, nascem dentro da própria Europa”
(BENJAMIM, 1998, p. 104).

Essa globalização, para alguns, é um fenômeno que não caminha para


garantir a igualdade de direitos e divisão de riquezas, ao contrário, sua ação até o
momento, somente proporcionou a ampliação da polarização entre, ricos e pobres.

Por fim, é possível ter uma grave advertência nos informes anuais (de 1999) do
BIRD,BID,ONU e até FMI: a globalização está concentrando a riqueza e a renda
pessoal em todo o mundo, mesmo nos países desenvolvidos. Além disso, está
criando uma massa crescente de ‘excluídos’, sem nenhum tipo de perspectiva ou
horizonte de melhoria de suas vidas. Em síntese, pelo menos nesses seus
primeiros trinta anos de idade, a globalização não foi global e vem apresentando
sinais evidentes de ser cada vez mais menos inclusiva e convergente, do ponto
de vista das classes sociais e das nações (FIORI, 2001, p. 27).130

Em vista disso, um pensamento único passou a reinar na sociedade e o


palco que suportava este novo mito colocou o político em segundo plano, no sentido
129
“A globalização fortalece um mercado que é, ao mesmo tempo, internacional
e interno. Internacional porque um número crescente de transações ultrapassa as
fronteiras dos países. Interno por se inserir na estrutura das decisões das empresas: 2/3
das exportações mundiais já são realizadas entre filiais das mesmas multinacionais, cujo
compromisso, evidentemente, é com sua rentabilidade em escala global” (BENJAMIM,
1998, p. 30).
130
Entre 1950-1973, a média de crescimento do PIB real nas principais
economias capitalistas foi de 4,9%, no entanto, entre 1973-2000, o índice de crescimento
caiu para 2,5%. A taxa de crescimento do PIB real per capita reduziu, nos mesmos
períodos de 3,8% para 1,9% (GONÇALVES; POMAR, 2000, p. 43).
152

de garantias civis, políticas e sociais, atribuindo ao mercado, uma ação mágica e


natural. “Globalização constitui, no entanto, a finalidade última do economicismo;
construir um homem ‘global’, esvaziado de cultura, de sentido e de consciência do
outro. E impor um pensamento único ao planeta” (RAMONET, 1998, p. 57). Assim,
ao retirar a política dos espaços públicos e privados, e eleger o mercado como o
verdadeiro ator principal, o receituário das potências centrais, precisavam ganhar
dimensão global, pois um pensamento único, soberano e último só consegue
manter sua hegemonia se suas premissas forem hegemônicas. Para cumprir este
papel, as grandes potências colocaram em movimento um novo receituário para ser
ingerido: o projeto neoliberal.

Diferente da trajetória que os países centrais percorreram, o Brasil e


demais países periféricos não tiveram a experiência do Welfare State para
comemorar. O modelo keynesiano não fez parte da história brasileira. Este fator,
central, direciona o projeto neoliberal para uma outra ótica ao ser implementado no
Brasil, pois a crise fiscal brasileira não possui a mesma raiz que a dos países
centrais. Mas, aqui, o interesse direcionou-se para implementar um projeto de (re)
colonização do país. A primeira ação concreta foi acabar com as conquistas que
tivemos na esfera econômica durante o modelo nacional-desenvolvimentista. E, ao
mesmo tempo, acabar e/ou reduzir com os direitos sociais que a classe
trabalhadora conquistou durante os anos de –1930-1990 –, transferindo para a
lógica do mercado sua operacionalização.

Durante a década de 80, a sociedade civil brasileira, vivenciando um


momento diferenciado e rico de determinações, conseguiu enfrentar os propósitos
neoliberais e resistir ao modelo criado, implementado e controlado pelos países
centrais. A resistência direta e indireta ganhou força com os movimentos
organizados ou não que foram construídos e/ou reconstruídos durante a década de
1970 e 1980. No entanto, no final da década de 80, precisamente em 1989, os
países que comandavam a economia mundial, reuniram-se nos EUA – encontro que
foi batizado pelo nome de Consenso de Washington –, para avaliar e redefinir
quais ajustes deveriam ocorrer para que o projeto neoliberal ampliasse sua base de
aceitação e, ao mesmo tempo, direcionasse o processo de implantação do projeto
em países importantes no jogo internacional.

Esse consenso pautou-se em três grandes medidas de políticas


macroeconômicas de estabilização e de reformas estruturais liberalizantes: 1)
exigiu-se a desregulamentação dos mercados; 2) a abertura ampla e irrestrita
comercial e financeira, e 3) a privatização e redução do Estado. Com a assinatura
do Consenso, os países que desejassem obter empréstimos do FMI, tinham que se
adequar às novas regras discutidas e aprovadas (NEGRÃO, 1988, p. 41-42). No
Brasil, as medidas neoliberais demoraram a ser implantadas, quando comparadas a
outros países no entanto, como subordinado e obediente às regras internacionais,
conseguiu em prazo recorde, implementar, com eficiência e eficácia, o receituário
neoliberal para os países periféricos. Os governos de Collor e Cardoso cumpriram
com maestria as exigências do Consenso de Washington.

3.3 FERNANDO COLLOR DE MELLO: O “DESMONTE DA NAÇÃO” I


153

Porta voz da burguesia brasileira e associada, Fernando Collor de Melo


foi a opção encontrada para barrar a possibilidade da classe trabalhadora –
representada pelo Partido dos Trabalhadores – a assumir a Presidência da
República. As eleições de 1989 marcaram, nos anais da história do Brasil, o grau de
tolerância que “os de cima” possuem. Sempre que os momentos históricos apontam
para a possibilidade de colocarmos em movimento e efetivarmos a reforma, a classe
burguesa e associada, tem conseguido interromper o processo “dos de baixo”. Para
os conservadores,

...a reforma, possui o curso de uma moeda má: ela é símbolo destituído de
valor, uma máscara sobreposta às aparências; mesmos os estratos burgueses
radicais temem a reforma e, se são arrastados a praticá-la, logo procuram um
modo de refreá-la ou fazé-la retroagir. Os estratos mais conservadores e
propriamente ‘liberais’ da burguesia lidam livremente com a reforma, enquanto
ela é uma hipótese longínqua ou um símbolo de despotismo esclarecido. Se ela
se torna uma ameaça, e tende a se concretizar, esses estratos resistem
claramente ao ‘clamor pela reforma’ ou a solapam discretamente, por baixo do
pano, retirando-lhe todas as bases de sustentação possíveis (FERNANDES,
1986, p. 60-61).

Frente à situação concreta de risco do projeto hegemônico sofrer fraturas


e, encontrando dificuldades em manter a dominação política através de mecanismos
violentos, novamente, a classe burguesa, utilizou-se de outros recursos possíveis,
principalmente a imprensa, para continuar governando. E, com a vitória de
Fernando Collor de Melo, a burguesia saudou a entrada em um novo cenário
histórico. O modelo nacional-desenvolvimentista, símbolo do atraso, cedera espaço
para o projeto moderno neoliberal em curso em países centrais e periféricos. As
elites brasileira e associada, encontraram em Collor a possibilidade concreta de
re(atualizar) o mito fundador. Mais uma vez, “...as elites das classes burguesas
preferem descarregar um golpe fulminante que interrompe e pretende anular o
crescimento gradual independente da classe trabalhadora” (FERNANDES, 1986, p.
45).

Com a derrota nas urnas de Luiz Inácio Lula da Silva – candidato à


Presidência pelo Partido dos Trabalhadores –, o quadro objetivo e subjetivo de
resistência ao projeto neoliberal perdeu consistência. Ao mesmo tempo, que: (1) a
queda do muro de Berlim; (2) a vitória do EUA na guerra do golfo, que colocou o
ocidente em vantagem em relação ao oriente, e (3) o fim da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas – URSS, contribuíram para que Collor de Mello colocasse em
movimento o projeto neoliberal. Este, ao assumir o poder central, implementou
duas medidas econômicas, com representatividade política expressiva e
determinante, mudando as relações existentes entre o mercado nacional brasileiro e
os demais mercados. Implementou no país uma das exigências do projeto
econômico e político neoliberal, isto é,

...suspendeu as barreiras não tarifárias às compras no exterior e implementou


um programa de redução progressiva das tarifas de importação ao longo de 4
anos, (...) as tarifas alfandegárias médias passaram de 31,6%, em 1989, para
30% em setembro de 1990, 23,3% em 1991, 19,2% em janeiro de 1992, 15% em
154

outubro de 1992 e 13,2% em julho de 1993, seis meses antes do cronograma


inicialmente fixado (SALLUM, 2000b, p. 141).

Acompanhada desta medida, outro passo decisivo, porém ainda tímido,


foram as ações direcionadas ao projeto de privatização e, para mostrar que o país
era atrasado e precisava dialogar com o mundo moderno, elaborou políticas de
integração regional – criando com os demais países os primeiros passos concretos
do MERCOSUL .131

Com muita disposição, Collor não mediu esforços para que os objetivos
traçados fossem implementados. Algumas deliberações assinadas no Consenso de
Washington tinham que ser implementadas. O lema era: (1) gerar a estabilidade
macroeconômica mediante o controle dos gastos das dívidas do setor público; (2)
abrir a economia para a competição estrangeira; (3) reduzir o papel do Estado no
processo produtivo 132 por meio de ambiciosos programas de privatização e
desregulamentação de atividades essenciais, a fim de evitar abusos nas atividades
econômicas e sociais, assegurando a competitividade. Estas medidas tinham a
preocupação primeira, de reduzir a inflação e fazer o país crescer. Collor buscou
acabar com a inflação, retirar o Estado da economia e eliminar a resistência da
classe trabalhadora, apesar de estar vivendo, neste momento, um período de
inflexão.

Com a eleição e a vitória de Fernando Collor de Melo, a burguesia


brasileira, mais uma vez, explicitou o seu atraso cultural, seus preconceitos e seu
ódio ao povo e, ao assumir o poder e subir à rampa do planalto em Brasília, a
classe trabalhadora foi alvo dos governos Collor e de Cardoso. Ambos atacaram a
organização da classe trabalhadora buscando efetivar, com qualidade, os
propósitos fascistas neoliberais.

Assim, ao eleger o Estado como o responsável pela tragédia que estava


ocorrendo no plano econômico durante a década de 80, com ampliação durante a
década subseqüente, o projeto incorporado por Collor propõe a retirada do Estado
do mercado – “...o neoliberalismo, aqui, se apresenta como inimigo do
nacionalismo, diferentemente do que ocorre na Europa e nos Estados Unidos”
(FERNANDES, 1995, p. 57). porém, ele não descarta em sua retórica a eliminação
131
A integração regional, discussão iniciada no Governo Sarney, “...ganhou
forma com o Tratado de Assunção, de 1991, que estabeleceu uma associação de livre
comércio entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o Mercado Comum do Cone Sul,
destinada a converter-se, ao longo do tempo, em mercado comum efetivo. Passo
fundamental nesse sentido foi a transformação, em 1994, da associação em União
Alfandegária, quer dizer, em bloco regional sem tarifas entre os membros (salvo as
exceções) e com barreiras alfandegárias comuns em relação a terceiros países” (SALLUM,
2000a, p. 434).
132
A retórica da redução do Estado é uma posição teórica que na prática é
comprovado, ou seu contrário. Na década de 70 os Estados expandiram-se e,
conseqüentemente, os mercados também, isto quer dizer que o capitalismo não consegue
sobreviver sem ter o controle desta combinação – Estado-mercado. Sabe-se que a única
instância do mercado que se expandiu e globalizou-se foram os mercados financeiros.
Este resultado fortaleceu o poder dos EUA que, por meio das políticas implementadas
através dos bancos – FMI e BIRD –, arquitetaram uma dependência ampliada e nociva dos
Estados em relação aos mercados.
155

definitiva do Estado, entendendo que o mesmo precisa fortalecer-se, mas em sua


instância repressiva, isto é, estar preparado permanentemente para desestabilizar e
controlar o movimento da classe trabalhadora. O poder adquirido historicamente
pelos trabalhadores tem que ser retirado e destruído. Somente o mercado é a
instância em que o poder precisa ser desenvolvido e efetivado. A tese é única: todos
os obstáculos que inibem o crescimento da economia têm que ser superados e
aniquilados, se necessário.

Com objetivos de classe definidos, Collor e, posteriormente, Cardoso,


procuraram, “...destruir a capacidade de luta e de organização que uma parte
importante do sindicalismo brasileiro mostrou. É este o programa neoliberal em sua
maior letalidade: a destruição da esperança e a destruição das organizações
sindicais populares e de movimentos sociais que tiveram a capacidade de dar uma
resposta à ideologia neoliberal no Brasil” (OLIVEIRA, 1995, p. 28).133

Dentre as explicações mais contundentes dos economistas vulgares,


chefes de governo e especuladores da imprensa mundial, o problema central existia
devido à crise fiscal que envolvia o Estado 134 e seus limites legais - princípios que
estavam presentes na Constituição de 1988, e que eram os verdadeiros problemas
para a economia brasileira. Por isso, o crescimento econômico, seria retomado na
década de 1990, se as medidas indicadas pelos protagonistas do projeto neoliberal
fossem implementadas. Esses passos só poderiam efetivar-se, caso as medidas
econômicas e políticas ganhassem força ideológica hegemônica.

No entanto, a política pessoal de Collor ganhou um certo tom de


dramaticidade. A força física e o voluntarismo ganharam espaço, fechando o diálogo
no campo racional. As soluções trouxeram resultados não satisfatórios o que levou
a diluir as fronteiras entre o público e o privado. Neste sentido, as mediações no
campo institucional, foram colocadas em segundo plano e o mega presidente
assumiu isoladamente a direção do país. O resultado foi catastrófico porque ao
assumir a postura de líder maior da nação, colocou-se acima do bem e do mal.
Collor não dialogou com as organizações sociais, ao contrário, quis construir no
imaginário da população que os funcionários públicos eram marajás e que a forma e
a lógica com que as centrais sindicais conduziam a relação capital-trabalho era
elitista. Quanto ao Movimento Sem-Terra, além de não dialogar, conseguiu reprimir,
pois apropriar-se do manto sagrado dos latifundiários seria um pecado mortal e obra
do atraso. Para o país ganhar estabilidade e crescimento econômico, só por meio
das medidas neoliberais em processo, pois o moderno encontrava-se no mercado.

133
A opção neoliberal de Collor e Cardoso, permitia que o capital financeiro
público e privado, desestruturasse a organização dos trabalhadores que trabalham no setor
financeiro. No período 1989-1996, o número estimado de empregados no setor financeiro
no Brasil reduziu em 40,8%. Em 1989, possuíam vínculo empregatício no setor financeiro,
811.892 mil trabalhadores. Em 1996, esse número chegou a 497.108 mil trabalhadores.
Ocasionando o desemprego de 328.45 mil trabalhadores. Fonte: Cadastro Geral dos
Empregados e Desempregados (Lei 4.923/65); Número estimado de empregados no setor
financeiro no Brasil. 1989-1996. Dieese-Seeb-Rio.
134
Com a centralização da economia sob as regras elaboradas e desenvolvidas
pelo Estado, um dos vetores mais importante durante o processo de produção, circulação,
distribuição e consumo, conquistaram estabilidade e poder. A classe trabalhadora, através
das suas organizações sindicais avançou em suas proposições o que garantiu a efetivação
de muitas conquistas na esfera dos salários, bem como no usufruto de políticas sociais.
156

O projeto neoliberal estava em pleno andamento, quando a população


brasileira, após inúmeras denúncias de atitudes ilegais praticadas pelo Presidente e
membros da sua administração, interrompeu e encerrou o mandato presidencial.

Nesse momento, o vice Presidente, Itamar Franco, assume em seu lugar,


porém não deu continuidade ao projeto de Collor, afirmando que o desenvolvimento
em andamento estava ampliando a pobreza e a miséria do povo brasileiro. No
entanto, Itamar foi o responsável pela elaboração e implementação do programa de
estabilização da economia – O Plano Real – em 1994.

Enquanto articulador, técnico e político, o então Ministro da Fazenda,


Fernando Henrique Cardoso, conseguiu manter os propósitos do Plano Real, o que
lhe deu um passaporte carimbado para vencer as eleições presidenciais em 1994
em conjunto com o Partido da Frente Liberal –PFL. 135 Eleito, a burguesia brasileira e
associada, conseguiu colocar no Planalto um representante exemplar dos negócios
da classe burguesa. Um personagem que explicitou em sua totalidade, um
verdadeiro semióforo.136

Parte constitutiva da construção histórica do Brasil – o mito da


modernização –, fez-se presente nas relações existentes na esfera da economia,
política e social desde sua fundação. O Brasil, relegado à posição de subordinado
às potências centrais – Portugal, Inglaterra e Estados Unidos –, em momentos
diferenciados e, portanto, historicamente periodicizado, acolheu o que lhe disseram,
ou seja, qual o melhor comportamento para que, num determinado momento futuro,
pudesse atingir o ápice do mito fundador. E, também historicamente, por meio de
ações diferenciadas – golpes militares e/ou planos econômicos –, o Brasil envolveu-
se numa ciranda de representações que, expressavam o verdadeiro Brasil com
uma subordinação consentida às classes que comandam economicamente e
politicamente este país.

Por isso, para manter sólido o domínio de classe, no momento em que a


força física e a das armas encontraram dificuldades de serem colocadas em
movimento, houve a utilização de conteúdos teórico-práticos, de fórmulas
especulativas que expressassem o mágico, o efêmero, o imaginável, sempre com a
forma e a lógica dos outros. As questões concretas que envolvem o Brasil, hoje, e
têm como ponto de partida o material, o concreto, é coisa de países e de pessoas
atrasadas, que pensam e vivem como se estivessem na era dos dinossauros.

135
A “social-democracia” alia-se ao PFL, unem-se em uma conciliação de
interesses. “...Os vários estratos das classes burguesas entendem-se por conciliação de
interesses: à falta de uma coalescência social de classe suficientemente forte e elástica, na
ausência de uma verdadeira solidariedade de classe, esses estratos apelam para arranjos
momentâneos, esporádicos, mais ou menos superficiais, mas por isso mesmo duros para a
Nação como um todo, estreitamente egoísta e invariavelmente oportunista” (FERNANDES,
1986, p. 69). Para derrubar os partidos de esquerda, a burguesia nacional e associada
conseguiu produzir, historicamente, um personagem que se dispôs a cumprir o papel
histórico de impedir que “os de baixo” chegassem ao poder e, tivessem a possibilidade de
realizarem reformas.
136
“...um semióforo é um signo trazido à frente ou empunhado para indicar algo
que significa alguma outra coisa e cujo valor não é medido por sua materialidade e sim
pela sua força simbólica (...) um semióforo é fecundo porque dele não cessam de brotar
efeitos de significação” (FERNANDES, 1986, p. 12).
157

E, representando o novo, o moderno, “...isto é, uma economia avançada,


com tecnologia de ponta e moeda forte -, com a qual sentar-se-á à mesa dos donos
do mundo” (CHAUI, 2000, p. 8.), coube a Fernando Henrique Cardoso, a missão de
realizar o propósito do mito fundador. Esta Crença foi reconduzida num momento
oportuno, histórico, para alavancar o país que, com a implantação do projeto
neoliberal, deixou de ser “o país do futuro”, “em desenvolvimento”, mas sim,
“emergente”.

Ao eleger as medidas neoliberais como solução efetiva para reduzir a


inflação e estabilizar a moeda, possibilitando o equilíbrio nos preços das
mercadorias, o “santo” Plano Real, criou um estado material, concreto e, ao mesmo
tempo, vulnerável e efêmero, que conduziu a sociedade brasileira a acreditar que
tínhamos encontrado a verdadeira e última, saída para a crise econômica, política,
social e cultural que nos oprime desde o princípio da nossa fundação. Realizados
os passos propostos pelo “plano tucano”, viveríamos em situação eterna de
estabilidade econômica, política e social. A sociedade brasileira acordou alucinada,
envolvida pelo milagre da estabilidade econômica. O fato foi real, presente, porém
constituíu-se em mais uma farsa histórica.

No entanto, no Brasil, pós Plano Real, a classe dominante alcançou um


grau de legitimidade singular na história do país: hoje, o processo de dominação
hegemônica, na compreensão gramsciana é real. O que não quer dizer que o
projeto seja intocável e irreversível, pois a classe trabalhadora, embora esteja
imobilizada por encontrar-se num momento histórico de profunda inflexão resiste,
mas a resistência ainda é frágil e, isto está contribuindo para que o discurso e a
propaganda de intelectuais de direita e esquerda, que optaram por embarcar na
Caravela – NAU – símbolo em comemoração aos 500 (quinhentos) anos do
(des)cobrimento do Brasil se fortaleça, universalizando a tese de que a
contradição entre capital-trabalho deixou de existir, pois a luta de classe assinou
seu atestado de óbito em 1989. A partir deste momento, a categoria ontológica –
contradição – foi substituída, em diferentes retóricas, pelas palavras: parceria,
solidariedade ou cooperação. É a retomada das expressões que legitimam o mito do
“verdeamarelismo” brasileiro.

É sob este conteúdo alegórico, construído ideologicamente em nosso país,


que o receituário neoliberal –durante a década de 90 – sob o comando de Fernando
Henrique Cardoso, com baixa resistência da sociedade civil, foi implantado no país.
O resultado é visível e vivenciado pela sociedade brasileira: privatização das
empresas estatais estratégicas; flexibilização dos direitos sociais trabalhistas;
redução drástica dos investimentos do Estado na área social e cultural; ampliação
escandalosa da dívida pública estatal externa e interna; desnacionalização do
parque industrial; 137 crescimento horizontal e vertical da pobreza; aumento das
137
Dois fatores marcaram a década de 1990, quando nos referimos ao novo
modelo de desenvolvimento. O primeiro fator está diretamente ligado à redução do papel
do Estado na economia, ou seja, fim do modelo padrão nacional-desenvolvimentista; o
segundo fator, mostra a opção de Fernando Henrique Cardoso, representante maior da
burguesia internacional associada, ao decidir priorizar e facilitar os investimentos
internacionais. Este procedimento é percebido materialmente quando constatamos que o
Brasil foi o país que recebeu, na década de 1990 o segundo maior volume de
investimentos diretos estrangeiros (IDE). A opção brasileira, caracterizou-se pela
desnacionalização das nossas empresas, bem como, a entrega de empresas públicas
158

famílias que ultrapassaram a linha que separa a pobreza da miséria, vivendo em


condições desumanas extremas; aumento da taxa de desemprego formal. O Brasil
apresenta, hoje, o terceiro maior índice de desemprego formal do mundo. Este
cenário tornou-se crônico: (1) o país entrou num processo de instabilidade
macroeconômica; (2) instabilidade dos mercados; 3) instabilidade de crescimento, e
4) instabilidade das políticas públicas.

Todos os que estão denunciando a farsa hegemônica construída sob a


implantação do plano real são violentados fisicamente ou psicologicamente através
dos aparelhos repressivos de Estado ou pelos aparelhos ideológicos privados,
destacando-se o papel dos meios de comunicação. Se isso não bastasse, “o próprio
príncipe”, constantemente, dá o tom da agressividade ao tratar das manifestações
públicas, coletivas ou individuais. Sua especialidade concentrou em ridicularizar a
crítica.138

Com o econômico deslocado do social, a democracia em construção, com


certeza, está fragilizada, correndo grandes riscos de desintegrar-se. Os governos
eleitos em todos os países em que o neoliberalismo faz-se presente ou estão em
processo, após serem eleitos têm mostrado ao mundo o não compromisso com a
população que os elegem, mas sim, fiéis aos receituários do BID, FMI, OCDE, OMC
e outras agências. A prática do moderno tem revelado, historicamente, no Brasil e
no mundo, ser uma fábula com final trágico.

3.4 FHC E O “DESMONTE DA NAÇÃO" II

Ministro da Fazenda do Presidente Itamar Franco, FHC, responsável pela


implantação do plano real, conseguiu realizar a façanha de interromper a onda
inflacionária. A valorização cambial (real frente ao dólar) promoveu o aumento das

estratégicas aos países centrais. O projeto neoliberal foi um sucesso com FHC. Mesmo
com a direção dada ao capital externo. FIORI (2001, p. 26), explicita e desmistifica esta
falsa e destruidora opção de Cardoso, no momento em que “...existem no mundo cerca de
180 países independentes, e 100 deles só receberam em conjunto – no período –(década
de 1990) cerca de 1% do total dos IDE”. O que significa dizer que os investimentos maiores
são realizados nos próprios países centrais.
138
“A ridicularização da crítica, como atitude anacrônica, ou resultado de
interesses meramente corporativos ou atrasados, ou fruto de uma mentalidade de
patrulhamento estalinista, ou da mera ignorância foi um dos pilares do sistema dogmático
de FHC, uma das características mais desagradáveis da sua fala, sintetizada na sua
famosa referência ao ‘nhe-nhe-nhem’. Em 22 de agosto de 98, acusou o sem-terra de
cooperar com produtores de maconha do Nordeste. Agricultores foram chamados de
‘caloteiros’; empresários afetados pelos juros anômalos e a abertura comercial
indiscriminada, de ‘ineficientes e atrasados’; funcionários públicos de ‘vagabundos’e os
críticos do real, de ‘catastrofistas e/ou impatrióticos’; minimizou o problema das crianças
abandonadas, dizendo que em São Paulo ‘não havia nem mil meninos de rua” (KUCINSKI,
1999, p. 197). Mas FHC quis mais: chamou todos os brasileiros de caipiras; para os que
sempre acharam que esse modelo econômico não era o melhor caminho tratou-os de
fracassomaníacos e de bateteiros, os que eram prematuro confiar em chuvas futuras e no
dia 12 de outubro de 2001, disse para Itamar Franco, em minas, ‘não gosto de político que
faz biquinho’ (O PASQUIM 21, 2002).
159

importações e, portanto, a concorrência com os produtos nacionais aumentou. Este


procedimento contribuiu decisivamente para conter a subida dos preços. Ao mesmo
tempo, as taxas de juros ganharam índices elevados, garantindo a entrada de
dólares no país, o que facilitou manter equilibrada a balança comercial. Como
conseqüência direta, os empréstimos realizados pelo Estado, em suas três
dimensões, indexados à moeda americana, elevaram assustadoramente a dívida
pública interna e externa.

O projeto neoliberal tinha dado o tiro certeiro – conteve a onda


inflacionária brasileira. Uma ação política prática, necessária para que a população
legitimasse as medidas antipopulares, principalmente autoritárias, implementadas
por Cardoso, em seus mandatos – 1995-2002 – 139.

SALLUM (2000c, p. 33), enfatiza que:

para a corrente neoliberal dominante a prioridade era a estabilização rápida dos


preços por meio das seguintes medidas complementares: a) manutenção do
câmbio sobrevalorizado frente ao dólar e outras moedas, de forma a estabilizar
os preços internos e pressioná-los para baixo pelo estímulo à concorrência
derivada do barateamento das importações; b) preservação e, se possível,
ampliação, da ‘abertura comercial’ para reforçar o papel do câmbio apreciado na
redução dos preços das importações; c) o barateamento das divisas e ‘abertura
comercial’ permitiriam a renovação rápida do parque industrial instalado e maior
competitividade nas exportações; d) política de juros altos, tanto para atrair
capital estrangeiro – que mantivesse um bom nível de reservas cambiais e
financiasse o déficit nas transações do Brasil com o exterior, como para reduzir
o nível de atividade econômica interna – evitando assim que o crescimento das
importações provocasse maior desequilíbrio nas contas externas; e) realização
de um ajuste fiscal progressivo, de médio prazo, baseado na recuperação da
carga tributária, no controle progressivo de gastos públicos e em reformas
estruturais (previdência, administrativa e tributária) que equilibrassem ‘em
definitivo’ as contas públicas; f) não oferecer estímulos diretos à atividades
econômicas específicas, o que significa condenar as políticas industriais setoriais
e, quanto muito, permitir estímulos horizontais à atividade econômica –
exportações, pequenas empresas, etc., devendo o Estado concentrar-se na
preservação da concorrência, através da regulação e fiscalização das atividades
produtivas, principalmente dos serviços públicos, mas não estatais.

As medidas, acima explicitadas encontraram a sua frente um grande


obstáculo os resquícios da era Vargas 140 encontrado na Constituição de 1988. Para

139
Fernando Henrique Cardoso foi reeleito para o Cargo da Presidência da
República em 1998, no primeiro turno das eleições. Num total de 106.101,067 milhões de
eleitores, a eleição de 1998 para Presidente da República foi contemplada por 82.297,737
milhões de eleitores, correspondendo a 78,51% do total. Deste, FHC (PSDB) foi eleito no
primeiro turno com 35.936,540 milhões, o que representou 53,06% dos votantes. Luis
Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu 21.475,218 votos, o equivalente a 31,71% do total
(BRASIL, 2002)
140
O que significa afirmar que o Estado Varguista chegou ao final? Significa
dizer que a partir deste momento o Estado nacional-desenvolvimentista sai definitivamente
de campo e o mercado ganha a titulação de espaço principal, sagrado, instância em que o
160

os “donos dom poder” essa Constituição apresentou como resultado final uma
grande ambigüidade: ao mesmo tempo, que ampliava a iniciativa privada, o Estado
participava ostensivamente da esfera econômica e social. Os conservadores não
tiveram dúvidas, a Constituição tinha que ser revisada, pois era imprescindível
reduzir o papel do Estado e criar canais possíveis para ampliar a relação do Brasil
com a economia internacional, quer dizer, com o capital financeiro internacional. É
sob estes dois pontos basilares que a classe burguesa buscou estabilizar a moeda,
liberar a economia e a integração do país ao comércio internacional.

Assim, para abrir caminho e efetivar o receituário neoliberal, Cardoso


encaminhou, junto com as bancadas governistas, um projeto ao Congresso Nacional
que propunha reformar a Constituição. O sucesso foi decisivo para um governo
que estava iniciando e precisava agradar aos “donos do poder”, mostrando sua
competência técnica e política.

...O governo Cardoso conseguiu isso através da aprovação quase integral de


projetos de reforma constitucional e infra-constitucional que submeteu ao
Congresso Nacional. Os mais relevantes foram: a) o fim da discriminação
constitucional em relação a empresas de capital estrangeiro; b) transferência
para a União do monopólio da exploração , refino e transporte de petróleo e gás,
antes detido pela PETROBRÁS, que tornou concessionária do Estado (com
pequenas regalias em relação a outras concessionárias privadas); c) autorização
para o Estado conceder o direito de exploração de todos os serviços de
telecomunicações (telefone fixo e móvel, exploração de satélite, etc.) a empresas
privadas (antes empresas públicas tinham o monopólio das concessões). Além
de desencadear este conjunto de reformas constitucionais, o governo Fernando
Henrique estimulou fortemente o Congresso a aprovar lei complementar
regulando as concessões de serviços públicos para a iniciativa privada
autorizadas pela Constituição (eletricidade, rodovias, ferrovias, etc.) conseguiu a
aprovação de uma lei de proteção à propriedade industrial e aos direitos autorais
nos modelos recomendados pelo GATT e preservou o programa de abertura
comercial que já havia sido implementado. Sustentado pela legislação que
permitia e regulava a venda de empresas estatais desde o período Collor e pelas
reformas constitucionais promovidas desde 1995, executou um enorme
programa de privatizações e de venda de concessões tanto no âmbito federal
como no estadual (SALLUM, 2000c, p. 32).

Essas ações preliminares de Cardoso tinham o respaldo e a exigência da


elite burguesa brasileira e associada – industrial e financeira. O governo Cardoso,
em conjunto com partidários, aliados do PFL, fez uma opção de classe sem
precedentes: a classe burguesa internacional, suas frações de classe e consortes,
foram priorizadas em seu governo, enquanto o capital nacional foi colocado em
segundo plano.

Não era uma formulação natural esse receituário matemático. Ao contrário,


enquanto representante dos negócios da classe burguesa nacional e associada
internacional, FHC fez uma opção, isto é, abandonou o projeto “nacional-
desenvolvimentista” e assumiu a política de crescimento econômico proposto pelo
econômico e o social serão tratados e atingirão o equilíbrio necessário para que a vida
entre os homens alcance maior grau de equilíbrio.
161

projeto neoliberal. Este acordo foi revisado e renovado em 1998. “...Após o


estelionato eleitoral de 1998, FHC e seu governo assinaram um acordo com o
Fundo Monetário Internacional que mantinha a abertura indiscriminada, a política
cambial e os elevados juros” (MATTOSO, 1995, p. 116). Para garantir esta
disparidade, Cardoso subiu a taxa de juros para captação de dólares o que levou à
sobrevalorização do real. Os resultados são possíveis de serem apreciados por
meio das pesquisas públicas estatal e/ou privada, divulgadas diariamente nos
meios de comunicação.

Com a implantação do plano Real em 1994, Cardoso, em 1995 inicia uma


longa caminhada a serviço do capital. Em um primeiro momento, aprovado pela
sociedade brasileira nas urnas, teve a capacidade de colocar em prática e
implementar a reforma Constitucional. No entanto, foi a partir do plano de reforma
do Estado,141 ampla e irrestrita, implantada em 1995, que a nação brasileira
conheceu a opção que a elite brasileira e seus associados fizeram. As conquistas
sociais garantidas historicamente, foram saqueadas, saindo da esfera do direito
para serem adquiridas por meio das regras do mercado. A nação foi desmontada.

3.5 A REFORMA DO ESTADO142 NO BRASIL: O FUNDAMENTO DO PROJETO


NEOLIBERAL143

A retórica que tomou conta do governo Cardoso, principalmente por meio


do Ministro Bresser Pereira, responsável por colocar em prática o projeto da
reforma do Estado, pautava-se na necessidade de banir a herança do Estado
burocrático, pois suas premissas dificultavam e impediam que se retirasse o país
do atraso. Isto porque, os países modernos, aqueles que já haviam feito “seu dever
de casa” ao implementarem a política neoliberal, tiveram sucesso, pois o Estado
gerencial foi quem comandou o processo de reforma. Com a implantação da
reforma do Estado no Brasil, percebe-se o quanto é atualizado, em sua execução e
em seus resultados, a presença do mito fundador.

Para compreender-se a reforma do Estado, no governo de Fernando


Henrique Cardoso, é necessário verificar-se quais foram as construções básicas,
constitutivas da administração pública patrimonialista e burocrática, isto é, para
141
A opção de Cardoso foi e é consciente. Ao tratar do Estado brasileiro, afirma:
o Estado assumiu compromissos que precisam ser rompidos. Esta exigência neoliberal
volta suas atenções para o patrimônio público investidos nas empresas estatais. Quer
dizer: é necessário desnacionalizar nosso Parque Industrial Público Estatal. A saída foi
direta, plano de Privatização. Essa medida não é universal, ou seja, somente nos países
“emergentes” esta política é adotada em sua totalidade. Este procedimento nega o
comportamento histórico da direita no Brasil. Desde os anos de 1930, a defesa do
patrimônio nacional era sagrado, pois era o Estado o grande financiador e, ao mesmo
tempo, responsável pela infraestrutura e produção industrial. Agora, década de 1990 -, a
defesa do Estado nacional-desenvolvimentista saiu do campo da direita e ficou somente
com a esquerda.
142
A apresentação dos momentos em que o Estado criou e desenvolveu suas
formas de administrar o Brasil.
143
O conteúdo presente no item 3.5.1 ao 3.6, incorpora estrato do texto da minha
autoria, Reforma do estado: uma prática histórica de controle social, publicado em 1999.
162

entender-se que o novo é sempre construído com elementos centrais do velho.


Embora esta visão seja negada na formulação teórico-metodológica, quase em sua
totalidade, pelos propositores da reforma do Estado.

3.5.1 Administração Pública Patrimonialista

A Administração pública, no Brasil, tem seu marco espacial e temporal a


partir da Independência, em 1822, momento em que finda o Estatuto Colonial e, em
seu lugar estrutura-se, embrionariamente, o Estado Nacional. Neste primeiro
momento instaura-se, a estrutura do Estado, com uma administração pública
patrimonialista envolvida por um conjunto de princípios teóricos e práticos que
perduraram, enquanto estrutura determinante, até o final da década de 20 deste
século. Em seguida, o Estado nacional brasileiro foi marcado pela Administração
pública burocrática e, na atualidade, a Gerencial.

A Administração pública patrimonialista é protagonista de algumas


características que marcam, a forma de ser de um determinado período histórico. 144
Dentre as principais características destacam-se: a presença do clientelismo, do
apadrinhamento, do afilhadismo e do genrismo, criando práticas despóticas. O que
explicita, desde a origem, o tratamento com a coisa pública. Sob a égide destes
princípios, os representantes da administração pública patrimonialista incorporam,
na esfera pública estatal, o espaço privado. 145

Mas, com o rompimento do Estatuto Colonial, o espírito burguês consegue


aflorar, e este espírito nasce num período em que, no Brasil, não existia a formação
de classes sociais, mas do estamento social. Esta questão é eminentemente
decisiva porque o estamento é constituído por camadas sociais estruturadas numa
hierarquia e regida por algumas características singulares: (1)quem manda mais;
(2)através do código de normas (homem bom) é aquele que tem escravos, terra e
voto. E, sob a égide destas duas características é que se estrutura o mandonismo

144
As três formas de Administração pública anunciada (patrimonialista,
burocrática e a gerencial), tornaram-se realidade em quase todos os países onde a
Democracia Liberal ou a Liberal Democracia se fez presente, porém, em países que
vivenciaram períodos de governos ditatoriais, esteve presente, com maior ênfase, a
administração pública burocrática. Neste universo, o Brasil é um país exemplo.
145
Em qualquer sociedade, o que põe em questão a superação ou “reforma” do
Estado, são as relações estabelecidas na esfera da produção material determinada. É
neste espaço – sociedade civil – que as questões são colocadaColoca em questãos,
expressando qual o Estado que, historicamente – tempo-espaço – vai se gestando e
efetivando um determinado “tipo” de Estado.
163

local.146 As relações estabelecidas, no interior do estamento, não eram lineares nem


circulares. Havia uma dialeticidade no poder político instituído, ou seja:

1) o estamento só existia para aqueles que tinham condições de


manifestar o poder;

2) a revolução (que se instaura na esfera do Estado) é realizada no


campo jurídico-político, mas não ocorrem nas demais instâncias da
sociedade;

3) como conseqüência, dentro do limite possível, a sociedade vai se


compondo em cima do patrimonialismo, isto é, (renova-se o Estado,
mas não se renova a sociedade);

4) as contradições presentes, conforme os itens anteriores, abriram


algumas possibilidades para que ocorressem rebeliões dentro da
ordem.

Apesar dessas debilidades, que foram sendo construídas e sedimentadas


no interior do Estado nacional, pode-se afirmar que, no Brasil, do período Imperial,
a Constituição de 1824, passa a constituir em âmbito de legalidade, a presença do
senhor cidadão. 147 Este ato possibilitou instituir a prática da solidariedade social e
também a da associação política. Cria os sujeitos de direitos, civis e políticos. Em
vista disso, ocorre uma revolução no interior do Estado, especificamente, na
instância jurídica-política. Esta transformação unilateral, explicitou duas questões
centrais determinantes:
1) a questão não era de reforma nem de revolução no sentido clássico,
mas de adaptação;
2) ocorreu uma revolução dentro da ordem, isto é, realizou-se uma política
do possível e não utópica. 148

146
O mandonismo local estrutura-se no período patrimonialista e, devido sua
perversidade construída e desenvolvida historicamente, mantém-se vivo até os dias atuais,
com presença garantida nas formas despóticas na política brasileira e nas relações de
dominação existente na sociedade civil. É uma estrutura dominante, decisiva em
diferentes momentos da história do Brasil. Para ilustrar esta prática na atualidade, período
de implementação do projeto de reforma do Estado, basta acompanhar o comportamento
da maioria dos Deputados e Senadores Federais com o Poder Executivo no momento da
votação de projetos como: reeleição para Presidente da República; reforma Administrativa
e Previdenciária, Projeto de Privatização e, de forma escandalosa, a aprovação dos
empréstimos aos Bancos Privados, através do Programa de Estímulo à Reestruturação e
ao Fortalecimento do Serviço Financeiro (PROER). E, em janeiro de 1999, o
enriquecimento dos bancos, em um dia, com a desvalorização do câmbio.
147
Neste horizonte, o papel do Estado patrimonialista estava estruturado para
atender o senhor-cidadão (a aqueles que tinham escravo, terra e voto), isto é, dar guarda
ao que era constitucional. Aqueles que não se enquadravam na legislação constitucional,
ou seja, todos que não eram cidadãos, viviam sob o controle, a desmobilização e a
repressão Estatal.
148
Este quadro, de adaptação e realização da política do possível, só ocorreu
devido à conjugação do liberalismo político com a escravidão. Ambas traziam, como
característica central, a inércia social e o tradicionalismo.
164

Portanto, com a desintegração das bases que solidificaram o Império,


“emerge” a República. Edificada, dentro do Estado, trocam-se os mandantes, mas
não a lógica burguesa de origem colonial. É no interior do Estado que ocorre a
passagem do poder oligárquico burguês para o poder industrial burguês. Neste
momento, o Estado autocrático burguês aparece no cenário com mais nitidez. O
governo autocrata é marcado por uma abertura lenta, gradual e com distensão.
Qualquer perspectiva vinda “dos de baixo” era reprimida, desmobilizada ou
controlada. As relações estabelecidas entre Estado-Sociedade Civil eram tensas: 1)
qualquer enunciado que se inspirasse em reforma ou revolução teria que ser
interrompido; ou seja, estancam-se as possibilidades de realizar transformações
no âmbito político, econômico e social. Qualquer atitude de oposição estava sob o
controle da ordem; 2) cria-se situações concretas para a realização de práticas
golpistas e, simultaneamente, para a implantação de um constitucionalismo
precário.

Já no decorrer do período republicano, a prática Administrativa pública


patrimonialista ganhou espaço e, ao mesmo tempo, expôs suas contradições. Sua
lógica era, em todo momento, colocada em questionamento. Somente com a
revolução de 1930 é que uma nova forma de administrar conquista espaços: institui-
se a administração pública burocrática.

Mas, é com a burguesia industrial, em formação, emergente, que a


administração pública burocrática é criada. Este marco histórico representa a
possibilidade de colocar fim às características presentes na administração pública
patrimonialista. A intenção era acabar com as práticas de corrupção e nepotismo.

3.5.2 Administração Pública Burocrática

Fundamentada sob a lógica instrumental do poder racional legal, a


Administração pública burocrática, propõe construir e implementar na Administração
pública estatal, algumas características centrais: profissionalizar o quadro de
trabalhadores públicos; criar a idéia e implementar o quadro de carreira; constituir
uma hierarquia funcional e implementar a impessoalidade. Os elaboradores desta
proposição acreditavam que estes princípios básicos continham um dado
qualitativo: criar possibilidades para que a administração pública burocrática
controlasse os abusos gestados historicamente no interior da administração pública
patrimonialista e, no processo, devolver ao Estado o estatuto de coisa pública.Para
cumprir esta meta, coube ao Estado efetivar os seguintes papéis: (1) manter a
ordem e administrar a justiça; (2) e garantir os contratos de propriedade. E, em
1936, a Administração pública foi profissionalizada. Implantou-se no Brasil, os
primeiros princípios de uma burocracia moderna.

Para Bresser, passados 30 anos, elementos nocivos à administração


pública foram presenciados. Destaca-se a incapacidade da administração pública
burocrática voltar-se para seus cidadãos como clientes. Esta marca, construída
historicamente, permitiu que características engendradas na administração pública
patrimonialista permanecessem presentes, contribuindo para que o poder se
centralizasse na cúpula governante. Os limites apresentados pela administração
pública burocrática começaram a ser superados no interior do regime militar,
165

momento em que, algumas mudanças legais possibilitaram a realização dos


primeiros passos para a implementação da administração pública gerencial. “A
reforma, operada em 1967, pelo Decreto Lei 200/67, entretanto, constituiu um
marco na tentativa de superação da rigidez burocrática, podendo ser considerada
como um primeiro momento da administração gerencial no Brasil” (BRASIL, 1995b,
p. 26).

Esta tentativa de romper com a administração pública burocrática, é


ampliada com a criação da Secretaria da Modernização -SEMOR-, na década de
1970, e na de 1980, com a criação do Ministério da Desburocratização e do
Programa Nacional de Desburocratização. Mas, não tardou para que os passos
trilhados rumo à Administração pública gerencial fossem interrompidos. Em 1988,
com a aprovação da nova Constituição Federal, ocorre um retrocesso legal,
inviabilizando as reformas legais já efetivadas.

Um novo populismo patrimonialista surgia no país. De outra parte, a alta


burocracia passava a ser acusada, principalmente pelas forças conservadoras,
de ser a culpada da crise do Estado, na medida em que favorecera seu
crescimento excessivo. A conjunção desses dois fatores leva, na Constituição de
1988, a um retrocesso burocrático sem precedentes. Sem que houvesse maior
debate público, o Congresso Constituinte promoveu um surpreendente
engessamento do aparelho estatal (BRASIL, 1995b, p. 27).

Para Bresser, o Estado gerencial fora interrompido no processo do debate


e na consolidação da Constituição. Mas essas mudanças não constavam no
debate e nas ações presentes no cotidiano da sociedade nos anos oitenta. Eram
mudanças que partiram de dentro do Estado. Este procedimento teve reflexos
negativos na compreensão dos governantes.

A década de 1980, foi singular porque velhas e novas questões foram


apresentadas, avançando-se alguns passos no campo da legalidade. Destacam-se,
as vitórias alcançadas pelos movimentos sociais na luta pela abertura política, que
ampliou o espaço do debate democrático e propiciou a participação efetiva nos
debates da constituição de 1988. Ao mesmo tempo, foi uma década em que as
revoluções e contra-revoluções na América Latina foram interrompidas. No entanto,
o novo que se apresentava, figurava-se enquanto uma estratégia para encobrir os
estragos realizados, principalmente, no período militar e, no limite, dizer que era
necessário repensar a proposta de abertura.

Neste cenário, afirma FERNANDES (1986): "o novo que se apresenta


realiza o pacto da conciliação. Ocorre uma fusão entre o conservador e o liberal.
Este movimento, por se estruturar no campo do possível, acaba por negar a política.
‘Eu aceito a reforma agrária,’ desde que não seja política.” Inaugura-se a “Nova
República.” Formulou-se uma construção conciliadora "pelo alto” entre os
enunciados dos protagonistas conservadores e liberais, inviabilizando qualquer
proposta de debate sobre a construção de um projeto nacional. Fernandes batizou
este processo de “mudancismo” e enfatizou que o Império da revolução era no
Estado. Na Nova República ela vem de cima. O Estado, neste contexto de
adaptações, elabora suas metas administrativas de reforma mas, é na década de
166

1990, administração do Presidente Fernando Collor e, principalmente, na gestão do


atual Presidente, Fernando Henrique Cardoso, que a temática passou a ser
discutida, conquistando novos espaços concretos para a sua efetivação. 149

3.5.3 Administração Pública Gerencial 150

Para a equipe do Ministério da Administração e Reforma do Estado –


MARE – reformar o Estado requer também reformar a gestão pública. O Estado
gerencial ou a administração pública gerencial tem como pressuposto romper com
a administração pública burocrática, ‘em vez da gestão burocrática, uma gestão
mais gerencial,’ mas em nenhum momento negá-la, em sua totalidade. A diferença
entre uma forma de administrar e outra, fundamenta-se em dois princípios:

1) a Administração pública burocrática busca o controle dos processos,


enquanto a gerencial, o controle dos resultados (BRASIL, 1995b, p.
10);

2) para a Administração pública gerencial, o interesse público não pode


ser confundido com o interesse do próprio Estado, como ocorre com a
administração pública burocrática.

Por isso, preocupados em convencer a sociedade civil e política da


necessidade de implementar o projeto da reforma do Estado, a equipe responsável
por atingir esta meta (Ministério da Reforma do Estado), realizou um diagnóstico da
esfera estatal em suas diferentes abrangências. Este procedimento possibilitou, na
compreensão do MARE, por meio do Ministro Bresser Pereira, formalizar algumas
premissas básicas que fundamentariam o projeto para reformar o Estado:

(1) crítica ao projeto Neoliberal: a coordenação da política econômica é da


responsabilidade do mercado e, com o mesmo grau de importância, também do
Estado. Segundo os representantes do projeto neoliberal, somente e,
exclusivamente o mercado, responde pela coordenação;

Está implícito que a coordenação do sistema econômico no capitalismo


contemporâneo é, de fato, realizada não apenas pelo mercado, como quer o
neoliberalismo conservador de alguns notáveis economistas neoclássicos, mas
também pelo Estado: o primeiro coordena a economia através de trocas de
equivalentes, o segundo, através de transferências para os setores que o
149
Apesar da discussão estar sendo colocada no interior da sociedade civil,
pode-se afirmar que o espaço do debate reduziu-seestá ocorrendo, na sua amplitude,
somente, ao interior do Congresso Nacional. Esta forma de encaminhamento não é
involuntária, isto é, o governo de FHC, em comum com seus representantes partidários e
coligados, agem com interesses de classe, e. Empenhados em aprovar os textos originais
ou projetos de emendas que beneficiem a lógica do capital. Esta atitude contribui para
reduzir ao máximo, as conquistas historicamente alcançadas pelos movimentos sociais.
150
Reformar a administração pública, implementando um governo gerencial, é
uma meta difundida mundialmente pelos defensores do projeto neoliberal. Representantes
diretos na difusão deste enunciado e formuladores de receitas neoliberais (OSBORNE;
GAEBLER, 1997).
167

mercado não logra remunerar adequadamente segundo o julgamento político da


sociedade. Assim, quando há uma crise importante no sistema, sua origem
deverá ser encontrada ou no mercado, ou no Estado. A Grande Depressão dos
anos 30 decorreu do mau funcionamento do mercado, a Grande Crise dos anos
80, do colapso do Estado Social do século vinte (PEREIRA, 1997b, p. 9).

(2) Há uma crise na estrutura do Estado. Enfatiza-se, com maior grau de


importância, a crise fiscal, gestada a partir da década de 1970 na América Latina,
com desdobramentos nocivos nas décadas de 1980 e 1990.
A crise do Estado a que estou me referindo não é um conceito vago. Pelo
contrário, tem um sentido muito específico. O Estado entra em crise fiscal, perde em
graus variados o crédito público, ao mesmo tempo, que vê sua capacidade de gerar
poupança forçada a diminuir, senão a desaparecer, à medida que a poupança
pública, que era positiva, vai se tornando negativa. Em consequência, a capacidade
de intervenção do Estado diminui dramaticamente. O Estado se imobiliza
(PEREIRA, 1997b, p. 12).
(3) O Estado cresceu demasiadamente, suas funções precisam ser
delimitadas, reduzindo seu tamanho, principalmente de pessoal, através de
programas de privatização, terceirização e publicização, este último processo
implicando transferência para o setor público não-estatal dos serviços sociais e
científicos que hoje o Estado presta, “...bem como é necessário reduzir o grau de
sua interferência, através de programas de desregulamentação que aumentem o
recurso aos mecanismos de controle via mercado, transformando o Estado em um
promotor da capacidade de competição do país em nível internacional ao invés de
protetor da economia nacional contra a competição internacional" (PEREIRA,
1997b, p. 18-20).
(4) Admite-se uma governabilidade estável na década de 1990, porém, a
crise existente desde a década de 1970 na administração pública, trouxe um
problema de governança; um governo pode ter governabilidade, na medida em que
seus dirigentes contem com os necessários apoios políticos para governar e, no
entanto, pode governar mal por lhe faltar a qualidade da governança. Existe
governança em um Estado quando seu governo tem as condições financeiras e
administrativas para transformar em realidade as decisões que toma. Um Estado em
crise fiscal, com poupança pública negativa, sem recursos para realizar
investimentos e manter em bom funcionamento as políticas públicas existentes
muito menos para introduzir novas políticas públicas, é um Estado imobilizado. A
crise do Estado dos anos 1980 foi, antes de mais nada, uma crise de governança,
porque manifestou-se, primeiramente, como uma crise fiscal. Por isso, as políticas
de ajuste fiscal foram colocadas em primeiro plano nesta década. Nos anos 1990, o
problema continua fundamental, na verdade este é um problema permanente de
todos os países, mas foi necessário combiná-lo com uma visão mais ampla da
reforma do Estado (PEREIRA, 1997b, p. 40).
(5) o Estado, entendendo-se, a Administração pública burocrática existente
anteriormente, não conseguiu transpor seus limites, o que colocou inúmeros
problemas na gestão pública. Para responder à inércia que a administração pública
estava enfrentando, era necessário encontrar mecanismos que conseguissem
conjugar com eficiência e eficácia a governabilidade com a governança,
168

implementando-se, em caráter de urgência, urgentíssima a estrutura da


administração pública gerencial.
Hoje, a Administração requer também uma visão digamos, gerencial, na
medida em que incorpore o que foi gerado pelo setor privado como forma de
organização, que quer ver o resultado e que confia no administrador, desde que ele
preste contas depois dos seus resultados. Hoje é assim no Brasil: há um inferno de
pequenos controles burocráticos, que não controlam nada, mas que emperram a
Administração, sejam os indivíduos, sejam as outras agências da sociedade
(CARDOSO, 1995, p. 2).
Para efetivar medidas concretas, após ter concluído o diagnóstico, era
necessário criar diretrizes básicas para viabilizar uma resposta à sociedade. Para
atingir esta meta elaborou-se e implementou-se - O Plano Diretor de Reforma do
Aparelho do Estado .151

A partir de 1995, porém, o país voltou à fronteira mundial das reformas


administrativas, quando o novo presidente aprovou e decidiu implementar o
Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, que visa estabelecer no país
uma "administração pública gerencial" de caráter social-democrático. Gerencial
porque busca inspiração na administração das empresas privadas, cujo
desenvolvimento teórico e prático foi imenso neste século. Social-democrático
porque: (a) afirma o caráter específico da administração pública, que não pode
ser reduzida à administração de empresas; (b) reafirma o papel estratégico de
uma burocracia profissional e procura fortalecê-la, ao mesmo tempo, que propõe
mudar seus métodos de gestão e principalmente as instituições em que opera;
(c) combina o controle por resultados e controle por competição administrada,
desenvolvidos na área privada, a mecanismos de controle social inspirados na
democracia participativa direta; e (d) estabelece como prioridade a introdução de
sistemas descentralizados e técnicas de gestão moderna na área social,
aumentando sua eficiência. Esta última característica da reforma é essencial.
Para a social-democracia, o Estado tem a obrigação moral de garantir os direitos
sociais; deve e pode ser mais eficiente do que o setor privado no fornecimento
desses serviços, com qualidade e o custo necessário (PEREIRA, 1997a, p. 7).

Preocupados, em fortalecer estrategicamente o Estado, em um primeiro


momento, o Plano Diretor preocupa-se em delimitar, com clareza, as funções do
Estado, conceituando suas áreas de atuação:

1) Núcleo Estratégico: formado pelo Poder Executivo, Legislativo,


Judiciário e Ministério Público. No interior do Poder Executivo, além
151
O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, após ser elaborado pelo
Ministério da Administração Federal e da Reforma do Estado, foi debatido na Câmara da
Reforma do Estado em sua reunião de setembro de 1995. Em seguida, novembro de 1995,
foi aprovado pelo Presidente da República, FHC. O plano, de caráter e conteúdo politicista,
desloca o problema central da sociedade – lógica do projeto capitalista de sociabilidade, e
através de mecanismos instrumentais operacionais, tentam e estão conseguindo, repassar
para a classe burguesa o patrimônio estatal, ao mesmo tempo, que os serviços sociais são
reduzidos e/ou precarizados. Parcialmente, enterram o plano nacional-desenvolvimentista
e elegem o projeto neoliberal como projeto último e único, para que o país alcance espaço
juntos aos países “modernos”.
169

das atividades que são inerentes a este poder, incluiu-se as Secretarias


formuladoras de políticas públicas, as agências executivas e as
agências reguladoras;

2) Núcleo de Atividades Exclusivas: como atribuição, estes núcleos têm o


poder de regulamentar, fiscalizar e fomentar. É neste âmbito que se
criou as Agências Autônomas;

3) Núcleo de Serviços não Exclusivos. Atribuídos às Universidades,


Hospitais, Centros de Pesquisas, Museus, creches, ambulatórios,
entidades de assistência aos carentes, principalmente aos menores e
velhos, às orquestras sinfônicas e outros;

4) produção de bens e serviços para o mercado: que compreende as


empresas voltadas para o lucro que ainda permanecem no Estado.

Delimitadas as áreas de abrangência da esfera estatal, a reforma do


Estado passou a ser executada. O governo, por meio de diferentes instâncias dos
núcleos Estratégicos, principalmente do poder Legislativo e do MARE, pautados sob
os princípios que fundamentam a administração pública gerencial, elaborou e
encaminhou aos órgãos competentes (Câmara dos Deputados e Senado Federal),
os quais aprovaram a reforma administrativa, a reforma previdenciária; a
implementação de programas de privatização e o programa de publicização. 152

Essa reforma administrativa tocou diretamente na estrutura funcional dos


servidores públicos. Dentre as mudanças ocorridas destacam-se: (1) a perda da
estabilidade funcional; (2) devido à nova configuração nas áreas de atuação do
governo, desregulamentou-se o Plano de Cargos e Salários existentes, isto é,
reduziu-se o quadro de servidores estatutários e aumentou-se o número de
empregados celetistas e colocou-se fim no Regime Jurídico Único. Na reforma da
Previdência, as mudanças que alteraram profundamente os servidores foram: (1) o
aumento da tributação dos servidores que estão na ativa; (2) a tributação dos
servidores que estão aposentados e a alteração no tempo de serviço para
aposentar-se.

Com a criação do Núcleo de Serviços não Exclusivos, foi necessário que o


governo encaminhasse e alterasse a legislação que regulamenta as formas de
propriedade no país. Assim, além da propriedade pública e da propriedade privada,
criou-se uma terceira forma de propriedade: a propriedade pública não estatal. Para
os países envolvidos no processo de “globalização”, era o espaço de que se
necessitava para se legalizar e estruturar o denominado Terceiro Setor (BRASIL,
1999f).153 Dois argumentos sedimentam esta lógica: torna-se mais fácil e direto o

152
“...A palavra ‘publicização’ foi criada para distinguir este processo de reforma
do de privatização" (PEREIRARESSER PEREIRA, 1997a, p. , p.25).
153
Conhecida como a nova lei do Terceiro Setor, foi sancionada pelo Presidente
da República no dia 23 de março de 1999. Esta Augusto de Franco, Conselheiro da
Comunidade Solidária, em 29/03/99 ao comentar o conteúdo da Nova Lei do Terceiro
Setor, enfatizou a sua importância através da mensagem proferida por FHC, na cerimônia
de sanção da chamada Lei do Voluntariado (Lei 9.608/98) em 18/02/98. Cardoso
explicitou: “...O que há de novo (...) é que existem formas dinâmicas de controle social, de
organização de objetivos, e até mesmo de generosidade e de solidariedade, que não
170

controle social dos investimentos realizados pelo setor público e amplia as


possibilidades do exercício da comunidade nas decisões das suas necessidades,
conforme CARDOSO (1998, p. 8); (2) abre-se a possibilidade efetiva para a criação
e efetivação da ‘parceria’ entre o Estado e a Sociedade Civil. Após esta alteração no
campo legal, foi possível colocar em movimento os programas de publicização. Para
executá-los, criaram-se as "Organizações Sociais", 154 responsáveis pela celebração
dos contratos de gestão com o Estado. Estas reformas são subsidiadas, durante o
processo de implementação, por meio de empresas privadas que as estruturam e
colocam-nas em prática, no interior dos órgãos públicos; e também criam-se os
serviços terceirizados. 155 Estes encaminhamento foram necessários, no
entendimento dos formuladores do projeto de reforma, para que as atividades
essenciais funcionassem com mais eficiência e eficácia.

Nessa reforma, a produção de bens e serviços para o mercado, outro setor


central no Aparelho de estado, que foi contemplado no Plano Diretor, também
concretizou-se por meio dos Programas de Privatizações que, segundo Bresser, foi
uma das alavancas essenciais para “restaurar” os cofres Públicos.

3.6 A REFORMA DO ESTADO E O “DESMONTE DA NAÇÃO” III

A reforma do Estado no Brasil completou seis anos de efetividade legal e


prática. No entanto, pautados em premissas falsas, apesar de algumas ilusões
estatísticas apontarem para um diagnóstico positivo (CONJUNTURA ECONÔMICA.
1999, p. 29-31), é possível apresentar os impactos negativos que este projeto já
deixou registrado na vida da população brasileira:

(1) Para responder à crise fiscal, na qual o país enveredou após 1970 e,
ao mesmo tempo, justificar o tamanho do Estado na apropriação de bens duráveis e
de serviços, a reforma aprovou inúmeras medidas para transformar a poupança
pública, que se encontrava e continua negativa, em positiva. Estas determinações
atingiram as empresas Estatais em suas centralidades: o lema passou a ser
privatizar. "Privatizou-se empresas federais e estaduais que tinham um vínculo
direto com a produção de bens materiais e de serviços. Destacando os seguintes
setores: Siderúrgico, Elétrico, Mineração, Petroquímico, Ferroviário, Fertilizantes,
decorrem nem do princípio racionalizador do mercado, nem do princípio autoritário de
distribuição do Estado.” FHC e seus assessores intelectuais, comprometidos com o projeto
societário burguês, ao depararem-se com os problemas de ordem social, e impossibilitados
de responderem às necessidades imediatas e reais da classe operária e demais frações
de classe devido à “opção brasileira” em curso em seu governo, manipulam as informações
e quando a proposição teórico-prática recupera dimensões centrais da construção humana,
como são as ações de solidariedade, direcionam a sociedade a aderirem à compreensão
das ações solidárias para a esfera transclassistas, distanciando a concreticidade
revolucionária presente na solidariedade humana e de classe.
154
As organizações sociais foram criadas pela Lei Nº 9.637, de 15 de maio de
1998.
155
São atividades auxiliares ou de apoio: limpeza, vigilância, transporte,
coperagem, serviços técnicos de informática e processamentos de dados, etc. “...Estes
serviços devem ser submetidos à licitação pública e contratados por terceiros" (PEREIRA,
1997a, p. , p.29).
171

Portuários e Financeiro" (BIONDI, 1999, p. 48). Hoje, 2002, além dos setores
mencionados, estão em fase de negociação a Petrobrás, os Correios, o Banco do
Brasil e as Universidades Públicas. Um verdadeiro desmonte da coisa pública.

O programa de privatizações constitui-se em um verdadeiro "comitê


gerenciador", responsável em transferir para o setor privado, os bens e serviços
públicos. O processo de privatização, comandado pelas agências de controle,
criadas para impedirem os interesses particularistas de clientes patrimonialistas,
não estão conseguindo impedir a presença destas características durante o
processo. Ao fazer o balanço das privatizações, o governo apresentou um saldo
positivo, quer dizer: somando o dinheiro arrecadado com os valores das dívidas
transferidas, o governo aumentou a poupança pública em 85,2 bilhões de reais no
final de 1988. Se este resultado fosse verdadeiro, podia-se dizer que a meta
instrumental adotada no plano da reforma do Estado teria alcançado seu objetivo.
No entanto, segundo Aloysio BIONDI (1999), o resultado não é verdadeiro. O
processo de privatização, além de causar aos serviços públicos, perdas irreparáveis
(arrocho salarial, demissão em todos os setores públicos, redução da prestação de
serviços essenciais para a população e outros), contribuiu com a perda de 87,6
bilhões de reais. Ou seja, o programa de privatizações trouxe um dividendo negativo
para a poupança pública. 156

O impacto social direto e indireto deste programa é irreparável. Seguindo


os procedimentos acordados com o FMI e o BIRD o programa de privatizações,
além de não cumprir sua meta, aumentar a poupança pública, tornou-se um dos
responsáveis pelo sucateamento das coisas públicas. Além de perdermos o controle
público de serviços essenciais para a população, passamos a pagar mais pelo seu
uso.157

Sob esta lógica, desmonte da coisa pública, a reforma do Estado propôs


flexibilizar os serviços sociais e científicos da responsabilidade do Estado. A
reforma, entendida como acomodação e transferência dos bens públicos para a
esfera privada, também abriu espaço para alguns setores de mercado por meio de
concessões de serviços públicos. No entanto, aqueles serviços em que o mercado
não consegue obter lucro, o Estado propôs-se a publicizá-los.
Esse desmonte do Estado, atingiu diretamente as conquistas sociais,
"fonte histórica do reconhecimento dos direitos humanos" (CARDOSO, 1998, p. 12),
e amplia-se por meio da "flexibilização" do papel do Estado no tratamento das
políticas sociais. O governo está transferindo para a sociedade serviços em que ele
156
"E note-se: esse levantamento é apenas parcial, faltando ainda calcular itens
importantes,(...) como gastos com demissões, perdas de IR, perdas dos lucros das estatais
privatizadas etc. (...). O balanço geral mostra que o Brasil ‘torrou’ suas estatais, e não
houve redução alguma na dívida interna, até o final do ano passado." (BIONDIIONDI,1999,
p. , p.43)
157
Este, e outros encaminhamentos assumidos pelo governo gerencial
(empresarial, empreendedor) mostra-nos a presença do Estado enquanto gerenciador das
coisas públicas para a classe burguesa. Não há imparcialidade no trato com a coisa
pública. Antes do encaminhamento final das privatizações, ocorreram aumentos
escandalosos das tarifas e preços. " os reajustes de 100%, 300%, 500% antes da
privatização garantem lucros aos novos donos. E há aumentos até de última hora, como o
reajuste de 58% para as contas de energia no Rio poucos dias antes do leilão da Light"
(BIONDIIONDI,1999, p. , p.9).
172

próprio deveria ser o protagonista e responsável pela implantação e execução. No


entanto, com a reforma, o Estado “responsabiliza-se” em fomentar, fiscalizar e
controlar, atribuindo a setores do mercado executar. (2) A flexibilização 158 dos
serviços públicos no campo social. O projeto de reforma do Estado criou também o
princípio da publicização, que seria a transferência dos serviços públicos no campo
social para o setor público não-estatal. Para operacionalizar esses serviços
publicizados, criaram-se as Organizações Sociais, que são "entidades públicas de
direito privado, mas que celebram um contrato de gestão com o Estado e são
financiadas parcial, ou mesmo totalmente, pelo orçamento público. Estas são
constituídas juridicamente enquanto instituições públicas não-estatais, embora
pertençam ao terceiro setor” (RIFKIN, 1995), 159 ou seja, são entidades sem fins
lucrativos, organizações não governamentais e organizações voluntárias que têm a
finalidade de desobstruir os caminhos que estavam impedindo o Estado de
ausentar-se, pois tinha que cumprir suas obrigações com a sociedade. Assim,
sutilmente, “...a sociedade é chamada a participar destas atividades” (CARDOSO,
1998, p. 7-8), e é convidada a realizar "parcerias" com o Estado no cumprimento
158
Flexibilização para desmontar, esta é a lógica da reforma do Estado. Marilena
Chaui ilustra-nos esta dimensão da flexibilização na área da educação universitária.
Analisando a reforma do Estado em movimento no interior do Setor de Serviços não-
Exclusivos, em específico o caso das Universidades, Enfatiza: “...‘A flexibilização’ é o
corolário da ‘autonomia’. Na linguagem do Ministério da Educação, ‘flexibilizar’ significa: 1)
eliminar o regime único de trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva,
substituindo-os por ‘contratos flexíveis’, isto é, temporários e precários; 2) simplificar os
processos de compras (as licitações), a gestão financeira e a prestação de contas
(sobretudo para proteção das chamadas ‘outras fontes de financiamento’, que não
pretendem se ver publicamente expostas e controladas); 3) adaptar os currículos de
graduação e pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes regiões do país,
isto é, às demandas das empresas locais (aliás, é sistemática nos textos da Reforma
referentes aos serviços a identificação entre ‘social’ e ‘empresarial’); 4) separar docência e
pesquisa, deixando a primeira na universidade e deslocando a segunda para centros
autônomos" (CHAUI, 1999). Quanto ao item 3 apontado por Chauí, a flexibilização na
esfera da Formação Educacional Universitária explicitou mais uma das suas determinações
fundadas na lógica operacional em 2001-2002. Ao tratar sobre a Carga Horária dos Cursos
de Graduação, o Conselho Nacional de Educação-Câmara Superior de Educação, através
do Parecer CNE-CES, aprovado em 13/03/2002, determinou os seguintes parâmetros: a)
tempo mínimo de formação em três anos letivos; b) percentual máximo de 15% de
atividades prática, sob a forma pesquisa, de estágio ou intervenção supervisionada;
percentual máximo de 15% de atividades acadêmico – culturais. Este parecer reafirma a
lógica de mercado assumida pelo governo FHC, cuja máxima em seu governo é o
resultado e não o processo. Esta “opção brasileira”, amplia e aprofunda a privatização do
Ensino Superior de forma direita e indireta. Esta resolução quando aplicada, em específico,
ao Curso de Serviço Social nega a deliberação aprovada das “...Diretrizes Curriculares
construídas coletivamente e referenciadas pela Comissão de Especialistas em 1999. Nela
esta definido e um semestre letivo de (2700 horas) como tempo mínimo necessário para a
formação do assistente social com o perfil estabelecido” (IAMAMOTO, 2002a).
159
, Divulgador do modo de pensar dominante burguês, propõe para solucionar a
crise estrutural, ações governamentais em parceria com o Terceiro Setor. É a saída para
acabar com o desemprego e aumentar a arrecadação fiscal, fortalecendo o Estado e
reduzindo os problemas sociais. Elabora-se uma saída moralista para a crise. Faz-se
necessário salientar que esta proposta está sendo divulgada e assimilada em diferentes
países, principalmente pelos governos que implementaram ou estão implementando um
"projeto" econômico, político e principalmente social, sob a ótica neoliberal, quer dizer, do
mercado.
173

dos direitos conquistados e, no embate cotidiano, assumir uma nova concepção


para manter e ampliar suas conquistas, isto é, os espaço de discussão,
implementação e usufruto dos benefícios sociais são determinados pela lógica do
mercado. A questão a que se indaga é: quais são as condições para que as pessoas
participem das regras de mercado? É importante salientar que o mercado
globalizado restringe-se àqueles que controlam o próprio mercado. Segundo o
relatório da ONU-1999, "a quinta parte da população mundial que vive nos países
de maior renda detém 86% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, 82% dos
mercados de exportações mundiais, 68% do investimento direto estrangeiro e 74%
das linhas telefônicas; a quinta parte da população que vive nos países mais
pobres, detém cerca de 1% de cada um desses".

Conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano – 2001,

...entre 1975 e 1999, os países do extremo oriente e Pacífico cresceram em


média 6% ao ano, com destaque para a China (8%). No sul da Ásia essa taxa
ficou acima de 2%, pouco mais do que cresceram os países desenvolvidos.
Porém a renda cresceu muito abaixo de 1% ao ano na América Latina e nos
países árabes. A pior situação é dos africanos ao sul de Saara, onde houve uma
involução da renda de praticamente 1% ao ano. Em 18 dos 42 países dessa
região, o PIB per capita era menor em 1999 do que em 1975 (PNUD, 2001).

Por outro lado, ao criar as Organizações Sociais 160 e os mecanismos


legais para a composição da diretoria administrativa, bem como os procedimentos
necessários para colocar em prática as ações específicas de cada entidade, abre-
se um campo favorável para a retomada das características patrimonialistas, pois:

a) na constituição do Conselho Administrativo, 40% dos membros deste,


poderão ser nomeados pelo Poder Público e, somados aos até 30% de
membros eleitos dentre pessoas de " notória capacidade profissional e
reconhecida idoneidade moral;”

b) a forma de contratação de pessoal permite ser tramitada sem a


denominação legal de concursos públicos ou testes seletivos, com o
argumento de que é necessário diminuir a burocracia;

c) as compras de materiais e outros podem ser realizadas sem a licitação


pública;

d) "procura-se, sem se afastar do Estado de direito, adequar as


organizações públicas às contingências específicas de lugar e

160
Entendendo que a criação das "organizações Sociais", por se tratar de mais
uma ação para privatizar os serviços sociais, levaram os representantes dos partidos de
esquerda no Congresso Nacional, a solicitar o pedido de inconstitucionalidade da
aprovação da Lei Nº 9637/98,de 15 de maio de 1998. Organizações Sociais e do Programa
Nacional de Publicização. A Ação Direta de Inconstitucionalidade foi impetrada em 1º de
dezembro de 1998 pelo Partido dos Trabalhadores e pelo Partido Democrático Trabalhista
(Esta informação foi retirada da home page: www.pt.org.br).
174

momento, emprestando-lhes sobretudo maior agilidade e eficiência;


prioriza, portanto, os resultados" e não os processos;

e) nesse mesmo caminho, na área de serviços, enfatiza-se a necessidade


de contratar pessoas voluntárias, 161 implementando uma ação pública
mais ampla e mais eficaz fundamentada na solidariedade
transclassista.

(3) A reforma também tem seu eixo central na previdência (BRASIL, 1998a)
e na administração.162 A reforma da previdência, por meio das novas regras
aprovadas e algumas já regulamentadas, atinge diretamente o funcionalismo
público Federal que está na ativa e fora dela.

Na previdência, a reforma:

a) transforma o tempo de serviço em tempo de contribuição;

b) institui a idade mínima de 55 anos para mulher, e 60 anos para o


homem que ingressar no sistema após a promulgação da reforma e,
respectivamente, 48 anos e 53 anos para os atuais segurados que
ainda não dispõem de tempo para requerer aposentadoria;

c) privatiza o seguro por acidente de trabalho;

d) acaba com as aposentadorias especiais, só admitindo a dos


professores do 1º e 2º graus e a dos trabalhadores expostos a agentes
nocivos à saúde;

e) aumento das alíquotas de contribuição, o que significa um verdadeiro


confisco no salário dos trabalhadores;

f) alteram-se os valores (teto máximo) a serem recebidos quando o


funcionário aposentar-se;

g) aqueles que não estão na ativa, os aposentados, passaram a pagar


alíquotas de contribuição (BRASIL, 1999a).

Na reforma administrativa, o funcionalismo recebe diretamente outro


impacto:

1) fim da estabilidade no emprego. O processo de privatização na esfera


federal atingiu, até o final de 1998, aproximadamente 8% do seu
161
A Lei nº 9.608, de 18 de fevereiro de 1998, que dispõe sobre o serviço
voluntário e dá outras providências, em seu Art 1- “ Considera-se serviço voluntário, para
fins desta lei, a atividade não remunerada, prestada por pessoa física e entidade pública
de qualquer natureza ou instituição privada sem fins lucrativos, que tenha objetivos
cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive,
mutualidade” (BRASIL, 1998b).
162
A Câmara dos Deputados e o Senado Federal aprovaram, após 34 meses de
tramitação, a proposta Constitucional Nº 173/95 e Nº 41/97 no Senado (BRASIL, 1998c).
Os efeitos da Emenda Constitucional nº 19/98, a partir dessa data, começam a produzir
seus efeitos.
175

quadro ativo. Somando-se às solicitações de demissão voluntária e


fechamento de postos de trabalho, aposentadoria e óbito, a reforma já
reduziu seu quadro efetivo em 10%. Em 1995, o quantitativo de
Servidores Civis e Federais da União era de 1.022.118 mil, com o
processo de privatização este número chegou no final de 1998 em
925.174 mil (BRASIL, 1999c, p. 40);

2) o salário do funcionalismo público federal está sem reposição desde


1994, atingindo no período (janeiro de 94 a abril de 1999) a perda de
43%;

3) criou-se o Programa de Demissões Voluntárias e flexibilização no


trabalho (BRASIL, 1999b), ampliando-se a redução do número de
servidores, a precarização do trabalho e a redução salarial;

4) fim da isonomia de remunerações, alterando o Plano de Cargos e


Salários;163

5) alteração nas regras para os concursos públicos;

6) criação do Contrato de Gestão.

Estas medidas estão atingindo diretamente a organização da categoria,


fragilizando suas ações políticas, dificultando qualquer avanço no campo do direito.
Hoje as ações estão direcionadas para não se perderem direitos conquistados.

No tecido social mais amplo, isto é, para além dos funcionários públicos,
reféns diretos desta reforma despótica, a população é alvo imediato da política
implementada. Conforme apontam os órgãos oficiais e também os órgãos não
oficiais reconhecidos publicamente, a população padece, na sua totalidade, dos
efeitos imediatos de um projeto de governo direcionado para a classe e frações de
classes que detêm, neste momento histórico, o controle das relações de produção
e acumulação de valor, em âmbito nacional e, principalmente, internacional. O
governo FHC, cumpre os acordos firmados com o FMI e com o BIRD, 164 que são os
representantes diretos do capital global, e é o responsável principal pela situação
de penúria em que se encontra a população brasileira:

a) no período, 1979-1999, o Brasil amortizou US$ 315.52 bilhões e pagou


juros líquidos, US$ 193.7 bilhões da dívida externa brasileira somando
um total de US$ 509.22 bilhões. No período, 1994 e 1999, foram
amortizados US$ 189,5 bilhões. Ao mesmo tempo, em que foram
pagos de juros líquidos, US$ 61,8 bilhões. A somatória destes valores
últimos (amortização mais juros) chegou a US$ 251.3 bilhões. Do total

163
Buscando no campo legal reverter a perda da isonomia salarial, os Partidos
de esquerda no Congresso, usaram dos meios legais para impedir que este iítem da
Reforma fosse efetivado. Impetrada pelo Partido dos Trabalhadores, cuja liminar foi
deferida pelo STF em 22 de maio de 1999 por unanimidade para suspender o art. 3º da MP
1815, em vista de ofensa ao princípio da isonomia.
164
Em apenas quatro anos de Real (94-97), os juros custaram ao Estado
brasileiro cerca de 120 bilhões de dólares. É mais do que o volume enviado aos credores
externos durante toda a “década perdida” dos anos 80.
176

entregue aos credores em 20 anos – o governo de FHC (em seis anos)


foi responsável por 49% do total (CONJUNTURA ECONÔMICA,
2000);

b) a renda diminui a cada ano. O Relatório do Desenvolvimento Humano,


divulgado em julho/99, informa que, “...a diferença da renda entre a
quinta parte mais rica da população mundial e a quinta mais pobre,
medida pela renda média nacional per capita, aumentou de 30 para 1
em 1960 e 74 para 1 em 1997” (PNUD, 1999). E no relatório de
julho/2001, “...em um panorama mais global, destaca-se o fato de que
1% mais rico da população mundial tem uma renda equivalente a dos
57% mais pobres. Apenas os 25 milhões de norte-americanos mais
ricos têm uma renda conjunta maior do que a soma dos rendimentos
dos 2 bilhões de pessoas mais pobres do planeta” (PNUD, 2001). No
Brasil, após uma década de ‘reformas neoliberais’, iniciada por Collor e
implementada por FHC, constamos que a concentração de renda e a
ampliação da desigualdade social foi maior do que no período nacional-
desenvolvimentista. “...1% da população mais rica concentra uma renda
igual a dos 50% mais pobres, sem considerar as rendas financeiras. De
forma que também aqui se pode dizer que a década neoliberal foi tão
ou mais anti-social e antipopular do que havia sido o período
desenvolvimentista” (FIORI, 2001, p. 212);

c) em 1999, os trabalhadores em idade ativa representavam 42.140.273


milhões. Destes, 20.984,263 possuíam carteira de trabalho assinada;
4.732,949 eram militares e estatutários e 16.414,250 encontravam-se
sem carteira de trabalho assinada. Do contingente total dos
trabalhadores, 11.840,455 eram sindicalizados, expressando 28,1%
(DIEESE, 2000-2001). O percentual de sindicalizados mostra quanto
os trabalhadores estão fragilizados no processo de organização da
classe;

d) a taxa de desemprego na grande São Paulo, acusava 12,1% em janeiro


de 1995. Este percentual chegou a 20,4% em maio de 2002. A
diferença de 7% durante o período mostra que durante o governo de
FHC, 3,7% da população economicamente ativa perderam seus postos
de trabalho, sendo que, dos 7%, 4,2% eram trabalhadores que tinham
carteira de trabalho assinada (DIEESE, 2000-2001). Para enfatizar o
descaso de FHC em relação à “questão social” desemprego,

...o número médio de desempregados nas 10 regiões metropolitanas, que


era 824 mil no 2º semestre de 1994, passou para 1,253 milhão no 1º
semestre de 2001. E o tempo que o trabalhador leva para conseguir um
novo emprego, que era de 16 semanas em dezembro de 1994, em
dezembro de 2001, é de 32 semanas (IBGE, 2002).

Para o SEAD-DIEESE, os números apresentados são aviltantes,


mostrando e denunciando a gravidade da “questão social” no governo
FHC. Em 1995, na Região Metropolitana de São Paulo, a taxa anual
177

média de desempregos foi de 540 mil pessoas, enquanto que, em


2001, este número chegou a 1.622,000 milhões de trabalhadores
(SEADE, 2002);

e) em 1999, 2.908,341 crianças de 5 a 14 anos estavam trabalhando.


Deste total, 932,717 estavam vinculadas à atividades não-agrícola,
enquanto 1.600,248, prestavam e executavam suas atividades na área
agrícola (DIEESE, 2000-2001);

f) a política de FHC, quando se trata de trabalhadores, possui


encaminhamentos de corte fascista que vão além do cumprimento do
projeto neoliberal. Se não bastassem as conseqüências drásticas que
estão acontecendo no mundo do trabalho – desemprego estrutural-,
FHC resolveu ampliar as condições que regulamentam a vida dos
trabalhadores. Atendendo ao projeto neoliberal, mais uma vez, FHC
demonstra qual é a sua compreensão a respeito dos direitos dos
trabalhadores e sobrepondo-se, mais uma vez ao poder legislativo, o
representante dos negócios da classe burguesa nacional e associada
no Brasil, teve a iniciativa e encaminhou para o Congresso Nacional e
à Câmara dos Deputados, em outubro de 2001, em regime de urgência
constitucional, o texto do Projeto Lei 5.483/2001, que altera o disposto
no art. 618 da CLT. O projeto Lei foi aprovado em 14/12/2001 na
Câmara dos Deputados. Conforme MELO FILHO (2002, p. 22),
“...objetiva a ampliação da precarização do trabalho no Brasil,
admitindo a imposição, pelas grandes empresas, de condições
desfavoráveis ao trabalhador impotente e desorganizado”. Lembre-se
que no Brasil, dos 100% dos trabalhadores empregados com carteira
assinada, somente 30% aproximadamente são sindicalizados, ou seja,
se o PLC nº 134/2001, for aprovado no Senado, na Câmara e for
colocado em prática, este ampliará o retaliação à classe operária e
demais frações de classe dos trabalhadores. Como conseqüência,as
conquistas históricas dos trabalhadores sofrerão um grande retrocesso
histórico;

g) o acesso, aos serviços públicos essenciais, sofreu cortes


orçamentários. Na área da saúde, em 1995, a lei orçamentária previu o
valor de R$ 15.026,5 milhões, porém, após os vetos, somados aos
créditos adicionais, deduzidos os remanejamentos, o valor reduziu-se
para R$ 13.975,1 milhões. Em 1998, os valores aprovados pela lei
orçamentária foram inferiores aos de 1995, isto é, o Congresso
aprovou, enquanto previsão orçamentária, apenas R$ 14.976,9
milhões. Após, procedimentos iguais aos de 1994, os gastos em 1998,
chegaram a R$ 13.959,6 milhões (BRASIL, 1999d). Em 2001, foram
autorizados R$ 27.211.000, 837, no entanto, foram pagos R$
23.235.182,989, o que significou uma perda para a população de
14,61%. Na área da Educação e cultura o corte foi maior. Em 1995 a lei
orçamentária aprovou R$ 13.940,8 milhões e o gasto permitido chegou
a R$11.520,7 milhões. Em 1998 - a previsão era de R$ 13.150,5
178

milhões, porém, autorizou-se apenas o gasto de R$ 10.089,6 milhões


(BRASIL, 1999d);165

h) a dívida externa total aumentou de US$ 148,3 bilhões de dólares em


1994, para US$ 240,0 bilhões de dólares em 2001, enquanto que a
dívida interna cresceu de R$ 62,0 milhões de reais em 1994, para R$
604,0 milhões em 2001. A dívida externa total teve um crescimento real
no período, 94-2001, de US$ 91,7 bilhões, e a dívida interna, no
mesmo período, cresceu R$ 542,0 milhões (BANCO CENTRAL,
2002);166

i) os indicadores do setor externo também denunciam o desmonte da


nação . A Balança Comercial fechou no período, 1981-1990, com um
saldo de US$ 99.562 milhões. No período 1991-2000, o saldo reduziu-
se para US$ 23.957 milhões (BANCO CENTRAL, 2002). A diferença
negativa na década de 90, correspondeu a US$ 75.605 milhões,
significando 76% de perda em relação à década de 1980. “...Segundo a
Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1989 as exportações
brasileiras de US$ 34,4 bilhões correspondiam a 1,1% do volume do
comércio global. Em 1998, com exportações de US$ 51,1 bilhões, o
Brasil viu cair sua participação no comércio mundial para 0,95%”
(MATTOSO, 1999, p. 31);

j) na área rural as questões sociais alcançaram proporções


incontroláveis: em 1991 o movimento dos Sem Terras, realizou 71
ocupações. Em 2001, chegou-se a 390. Entre 1991 e 1998, 1763
ocupações foram efetivadas. No confronto com policiais e/ou jagunços
foram assassinados no campo, entre 1990 e 2001, 528 trabalhadores,
destacando-se que no período, 1995-2001, foram 250 assassinatos e
5.748 conflitos, envolvendo 4.770.076 milhões de pessoas (COMISSÃO
PASTORAL DA TERRA, 2002);

k) os investimentos na área da produção, também reduziram-se. 167 Esta


atitude atingiu principalmente os pequenos agricultores;

165
Detalhando o descaso com a área da educação, quando analisamos os
gastos de alguns sub-programas, constatamos que: No Programa Educação de crianças
de 0 a 6 anos de idade, gastou-se em 1995, R$ 64,8 milhões, reduzindo-se para R$ 54,7
em 1998; No Ensino médio gastou-se R$ 677,8 milhões, em 1995, reduzindo para R$ 483
em 1998. No Ensino Superior gastou-se R$ 5.531,2 milhões em 1995, reduzindo-se para
R$ 4.3444,2 em 1998. Na Educação Pré-Escolar gastou-se R$ 64,8 milhões em 1995,
reduzindo-se para R$ 54,7 em 1998. No Ensino Regular gastou-se R$ 738,6 milhões em
1995, reduzindo-se para R$ 615,0 em 1998. No Ensino de Graduação gastou-se R$
4.273,0 milhões em 1995, reduzindo-se para 3.556,6 em 1998 e no Ensino de Pós-
Graduação gastou-se R$ 891,8 milhões em 1995, reduzindo-se para R$ 617,0 em 1998.
166
Estimativa1999
167
Os dados apresentados, da área plantada e da produção de grãos, entre
1980 a 1998, também denuncia o desgoverno de FHC. Em 1994 a área plantada (mil
hectares) foi de 39.093.4 reduzindo para 35.045.7 em 1998. A produção (mil toneladas)
chegou em 76.034.4 subindo minimamente para 77.347.9 em 1998 (BANCO CENTRAL,
1999).
179

l) o Produto Interno Bruto total atingiu o patamar de US$ 543,1 bilhões


em 1994, porém em 2001, não passou dos US$ 519,1 bilhões. O Brasil
não cresceu, mas as dívidas e a pobreza aumentaram. Ao mesmo
tempo, quando medimos o PIB per capita, os resultados são piores: em
1994, o valor alcançado que era de US$ 3.569 dólares, retrocedeu em
2001, para US$ 3,022. A riqueza per capita diminuiu (BANCO
CENTRAL, 2001);

m) o rendimento médio – real – dos assalariados em seu trabalho


principal, no Brasil, regrediu. Com índice (média 1985=100) mensal, os
trabalhadores em janeiro/95, primeiro mês do governo de Cardoso,
receberam um rendimento médio de 67,4. Em janeiro de 2002, os
trabalhadores receberam 56,0 (FUNDAÇÃO SEADE, 2002);

n) a renda média dos trabalhadores na grande São Paulo, em reais,


corrigidos pelo IPCA também retrocedeu. Em 1995, o valor chegou ao
patamar de R$ 1.127,00, no entanto, em 2001, não passou de R$
880,00. A diferença de R$ 247,00, significou uma perda de 22%; 168

o) em 1998, no Brasil, 29.267,955 milhões dos trabalhadores ocupados,


recebiam até 2 (dosi) salários mínimos, o que correspondia a 41,8% do
total dos ocupados. Este percentual denuncia que quase metade da
população ativa empregada encontrava-se na faixa de pobreza (IBGE,
1988). Isto mostra o porquê de o salário mínimo no Brasil ser um dos
menores do mundo;

p) em 2000, ao analisar-se a situação dos trabalhadores que recebiam


benéficios da Previdência Social, das 18.862,883 bilhões de pessoas,
14.509,854 recebiam benefícios de até 2 salários mínimos. Este
número de pobres representa 76,9% do total dos beneficiários
(BOLETIM ESTATÍSTICO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL, 2000);

q) em 1995, 21,59 milhões de brasileiros estavam vivendo abaixo da linha


da indigência e 50,23 milhões estavam vivendo abaixo da linha da
pobreza. Estes números denunciam que 71,82 milhões de brasileiros
encontravam-se em situação limite, desumanas, o que representava
48,49% da população total. Em 1999, os números indicaram 22,60
milhões de indigentes e 53,11 milhões de pobres, somando 75,71
milhões de brasileiros, ou seja, 48,06% da população total. O número
de pobres e indigentes aumentou. Durante o governo de FHC, a
“questão social”, piorou. As políticas sociais, neste governo neoliberal,
tiveram um investimento negativo (IBGE, 2002). A linha que separa a
pobreza da miserabilidade foi rompida, pois o grau de vulnerabilidade
cotidiana impede de garantir a estatística fixa por muito tempo. A
“questão social” ampliou seu grau de complexidade e invadiu todos os
níveis dos estratos sociais no Brasil. A situação cotidiana de
vulnerabilidade é presente na maioria da classe trabalhadora;

r) o Ensino superior brasileiro encontra-se em ruínas. Em 1995, os


investimentos nestas instituições foram de R$ 831.496.4 milhões,
168
IBGE-2001.
180

correspondendo a 0,57% do PIB deste ano. No entanto, em 1999 a


situação piorou. O investimento não ultrapassou os valores de R$
900.475,8 milhões, reduzindo para 0,40% do PIB de 99. FHC, retirou
do ensino superior 0,17% durante o período 1995-1999 (FGV, 1999);

s) a participação e legitimação exercitada nos espaços públicos


historicamente conquistados estão sendo tratados sob a vontade
despótica do Presidente da República. Exemplos não faltam: a não
nomeação dos candidatos eleitos a assumirem o cargo de reitor nas
Universidades Federais, exemplificando o caso da UFRJ; repressão
policial nas manifestações de categorias profissionais; aprovação do
projeto de reeleição para Presidente da República; tratamento de
choque aos manifestantes que denunciavam as falcatruas do processo
de privatização; aumento das tarifas públicas e outros;

t) a prática anti-democracia e presente na história do Brasil. O papel do


Executivo sempre ocupou o cenário. No entanto, no governo de FHC, é
nítido o uso do poder negando as práticas democráticas. A
materialidade desta prática é presente em vários momentos de seu
governo, porém o uso das Medidas Provisórias ganhou expressão e
mostro efetivamente qual é a sua opção quando se fala em processo
democrático. Quando comparamos os governos após 1984, de Sarney
a FHC, iremos constatar que neste período- 6/10/1998 até 31/08/2001,
foram emitidas 6088 (seis mil e oitenta e oito medidas provisórias).
Destas, Sarney assinou 147; Collor 160; Itamar Franco 505; FHC
(1/1/95 a 31/12/98) 2609 e FHC (1/1/99 a 31/8/01) 2667. Das 6088 MP
assinadas, FHC é o responsável por 5276. Este número equivale a
87% do total de Medidas Provisórias aprovadas no período Sarney-
FHC (CASA CIVIL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2001).

Outra inversão do projeto social imposto ocorreu com a criação do órgão


intitulado – Programa Comunidade Solidária (BRASIL, 1995a) 169 – o qual tem como
"objeto coordenar as ações governamentais voltadas para o atendimento da parcela
da população que não dispõe de meios para prover suas necessidades básicas e,
em especial, o combate à fome e à pobreza." Os objetivos destas atividades
colidem, em sua total abrangência, com a Lei Orgânica da Assistência Social,
conquista das entidades organizadas e não organizadas presentes na sociedade
civil.

O governo federal também reduziu o papel dos Conselhos. Em suas


diferentes instâncias cumprem o papel de instância legitimadora das entregas dos
"benefícios carimbados", inviabilizando a proposta inicial, isto é, ter dotação
orçamentária para poder projetar e desenvolver uma política social para o país. Esta
prática, desenvolvida no governo de FHC, demonstra a inexistência de uma vontade
169
Criado pelo Presidente FHC através do Decreto nº 1.366, de 12 de janeiro de
1995. IAMMAMOTO (I/2002b, p. 11) chama a atenção da lógica implementada, ou seja da
despolitização da “questão social”. “...a questão social é abordada de uma forma
despolitizada, fora do mundo público e que deixa de ser uma questão pública, uma
questão política, uma questão nacional (...) além de debitar aos indivíduos a
responsabilidade pela sua situação, pela sua pobreza, ou seja, pelas condições sociais que
ele vive, desresponsabilizando a sociedade nesse processo”.
181

política para erradicar a miséria. O projeto Comunidade Solidária, um exemplo


concreto da presença das características patrimonialistas, hoje, explicita
abertamente a retomada e o aprofundamento das ações "pelo alto", distanciando-se
de qualquer possibilidade concreta de acabar com a fome e a miséria no país.
Portanto, as possibilidades de elaborar-se um projeto político, econômico e social
que viabilize o desenvolvimento de uma economia sustentável 170 estão distantes
pois, medidas desse tipo expressariam, na arena política cotidiana, verdadeiros
arranjos para acomodar-se. Assim, se a ação teórica-prática do governo FHC
efetiva uma política de acomodação, de arranjo, reformar seria uma afronta à
sociedade e revolucionar, na perspectiva deste governante, "neobobos", uma peça
de museu.

Porém, quando se trata de manobras milionárias, o patrimonialismo,


característica presente nos governos protagonistas do projeto neoliberal, é quase
perfeito. Um fato concreto merece destaque: a mudança cambial em 12/01/99
executada pelo capital financeiro e legalizada pelo governo federal por meio de
uma das instâncias do comitê organizador do Estado: o Banco central. O deputado
Aloízio Mercadante denunciou esta gatunagem (atitudes centrais de governos que
tratam a coisa pública como sendo privada) e, em seu relatório, peça central da CPI
dos Bancos, Aluízio demonstra que, no dia 11/01/99, alguns bancos privados
obtiveram informações oficiais (vazamento de informações) da mudança cambial.
Estes dados possibilitaram operar, no mercado, a partir de 12/01/99, de forma
inversa, isto é, passaram de vendedores de dólares para compradores, obtendo
uma lucratividade de aproximadamente US$ 1.1bilhão 171 em um dia.

Dessa forma, esse projeto de reforma neoliberal implantado e em processo


de implantação trouxe inúmeros impactos sociais, como vistos anteriormente. Isto
porque a opção adotada pelo governo Cardoso e equipe, legitimada pela elite
nacional e associada, para manter a “estabilização”, foi o caminho de empréstimos
de recursos externos para financiar nossos déficits e garantir o crescimento
econômico mas foi um fracasso na área social. Os dados mostram que a década de
1990 encerrou-se com uma única certeza: o país piorou, a média do nosso
crescimento foi medíocre e o grau de dependência aumentou. Como resultado
social, nossos maiores índices somente ocorrem quando falamos do número de
brasileiros que estão vivendo em situação de pobreza e de miserabilidade. “De fato,
a gestão econômica governamental produziu um quadro de recessão econômica e

170
À discussão em defesa da elaboração de um projeto econômico sustentável
no Brasil, é retomado na obra de FURTADO (1988).
171
Pergunta Aluízio: "O que acontece com o fluxo cambial? Em 4 de janeiro, há
uma saída de US$ 79 milhões; US$ 200 milhões no dia 5; US$ 197 milhões no dia 6; US$
256 milhões no dia 7. Na sexta feira do dia 8, há uma saída de capital de US$ 137 milhões.
Ainda há um quadro de instabilidade, de vulnerabilidade cambial, mas nada que represente
uma alteração no comportamento do que vinha ocorrendo. Na segunda-feira, dia 11, há
ainda um saldo relativamente pequeno de US$ 112 milhões. No dia 12, pula para USS
1,215 bilhão.[(...) .....] Só um fato aconteceu: no dia seguinte haveria mudança na banda
cambial e quem tivesse informações e saísse antes, ganharia no processo de
desvalorização que ocorreria logo a seguir” (MERCADANTE, 1999). A presença do ação
patrimonialista é presente juntamente com o privilégio de informações para representantes
da classe burguesa que opera na ciranda financeira. ( Estas informações foram retiradas
do documento "Depoimento do deputado Aloizio Mercadante(PT-SP) em 5 de maio de 1999
à CPI dos Bancos no Senado Federal.
182

rebateu a ‘questão social’ de modo dramático, havja visto o aumento da taxa de


desemprego no país” (COHN, 1999, p. 184, Dossiê FHC – 1º Governo).

Por meio deste quadro, pode-se concluir que as reformas feitas


isoladamente não bastam, embora se saiba que há necessidades delas na atual
conjuntura em que o país se encontra, mas fazê-las pautadas em outro referencial
teórico-metodológico, com um projeto de sociabilidade, mesmo que seja dentro da
ordem estabelecida. Mesmo que, para isso, seja necessário propor um projeto
radical,mas os horizontes devem mostrar que há a possibilidade de uma ruptura
com o capital, ou seja, “ir para além do capital” pra privilegiar-se o homem, pois
“...na verdade , como Marx indicou, nada menos do que uma transformação radical
de 'toda a nossa maneira de ser' pode produzir um adequado sistema de controle
social" (MÈSZÁROS, 1987, p. 58).

A explanação até aqui foi longa, porém necessária para apreender-se o


movimento do objeto deste estudo-pesquisa que, acrescido da produção teórica dos
assistentes sociais e profissionais de áreas afins com vinculação direta na
discussão da categoria, permitirão que se façam as relações relações necessárias
entre o particular e o universal e, a partir deste movimento, responder às
inquietações centrais na construção desta tese de doutoramento.
CAPÍTULO 4
A “QUESTÃO SOCIA” E SUAS
REFRAÇÕES NO SERVIÇO SOCIAL

Mas esse enfrentamento pode ser exitoso se aqueles que se contrapõem


ao conservadorismo e à maré-montante pós-moderna, na defesa
conseqüente da direção social estratégica que os fóruns da categoria vêm
referendando, revelarem um dupla coragem: cívica e intelectual”. Coragem
cívica, em primeiro lugar: ‘não ter nenhum medo de estar absolutamente
contra a corrente política do nosso tempo’ (ANDERSON, apud SADER;
GENTILI, 1995, p. 197).

Coragem intelectual: Não se trata de conduzir o debate com princípios ou


alusões a objetivos generosos, mas de assumi-lo com a análise das
transformações societárias, compreendendo-as nas suas tendências de
fundo e não vacilando em reconhecer as dificuldades teóricas que, nesse
esforço, expressam a inclonclusividade dos nossos conhecimentos; trata-
se de não capitular diante de qualquer tentação neo-irracionalista ou
agnóstica e de insistir em que, desenvolvendo as potencialidades
inesgotadas da teoria social moderna (nomeadamente com a inspiração
marxiana), é possível tornar intelegíveis e apreender o sentido das
transformações societáriasem curso... (NETTO, 1996, p. 1119)
CAPÍTULO 4

A “QUESTÃO SOCIA” E SUAS REFRAÇÕES NO SERVIÇO SOCIAL

4.1 O PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA

As considerações feitas até aqui partiram do pressuposto que o


profissional assistente social é um trabalhador assalariado, portanto, inserido na
divisão social e técnica enquanto uma especialidade do trabalho coletivo e tem,
particularmente, como objeto de intervenção teórico-prática, as manifestações da
“questão social”. Por isso, neste capítulo pretende-se apresentar, as refrações
causadas na profissão172 relacionadas às conseqüências diretas e indiretas das
transformações societárias que ocorreram na base material e ideo-política, a partir
da década de 1970.

O material empírico utilizado para a apreciação compõe-se de um conjunto


de artigos e livros escritos durante o período de 1993-2002, e que refletem em seus
conteúdos as transformações que ocorreram na sociedade, a partir de 1970, cujas
refrações causadas nos espaços sócio-ocupacionais, no trabalho profissional e na
relação contratual de trabalho vêm indicando alterações no perfil dos Assistentes
Sociais no Brasil. Destaca-se ainda que a maioria das pesquisas caracterizam-se
como estudos de caso com dados e informações do campo empírico coletados
pelos professores, acadêmicos e/ou profissionais da área, realizando “as funções
da Universidade na produção e difusão do conhecimento a serviço da coletividade”
(SERRA, 43/2001).

Para a escolha, apreciação e análise dos textos e dos dados, seguiram-se


algumas orientações e indagações que definiram qual a lógica e a forma de
conduzir a estruturação e articulação desta análise:

1) a seleção dos textos publicados e que tratam da temática em fontes de


divulgação e de circulação conhecidos pela categoria profissional
(Anexo 1);173

2) os textos selecionados trazem, em seus conteúdos, a compreensão de


que a “questão social” é um objeto que abriga, historicamente, as
manifestações resultantes do conflito entre capital-trabalho, e que vem
se transformando profundamente com o advento revolucionário, em
processo, desde o período após 1970, na esfera da produção e da
reprodução social;

172
Entendemos que a profissão “...é sempre um campo de lutas, em que os
diferentes segmentos da categoria, expressando a diferenciação ídeo-política existente na
sociedade, procuram elaborar uma direção social estratégica para a sua profissão”
(NETTO, 36/1996, p. 116).
173
Para identificar a bibliografia citada neste capítulo, utilizaremos dos eguintes
códigos: 1) artigos: números; 2) livros: letras maiúscula; 3) dissertação e/ou teses: letras
minúsculas; 4) palestras: algarismos Romanos. Os códigos serão acompanhados pelo ano
da produção.
185

3) como o impacto deste processo revolucionário atingiu o Serviço Social


nas seguintes dimensões:

3.1) no espaço sócio-ocupacional;

3.2) no trabalho profissional cotidiano;

3.3) na relação contratual do trabalho profissional (vínculo


empregatício, remuneração e nas condições concretas do próprio
trabalho);

3.4) na formação profissional acadêmica e continuada.

4) a construção do projeto profissional dos próprios Assistentes Sociais


que conseguiu respeitabilidade para defender suas premissas num
projeto legítimo e hegemônico. Embora esta certeza esteja presente, ao
mesmo tempo há uma dúvida constante, pois este é um projeto que
caminha e se efetiva em sentido contrário ao projeto societário, hoje
hegemônico no Brasil;

5) as entidades representativas da categoria, Associação Brasileira de


Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), o Conselho Federal
de Serviço Social (CEFSS) e o Movimento Estudantil (ME) através dos
Encontros Nacionais de Estudantes em Serviço Social (ENESSO) 174,
estão respondendo aos impactos causados pelas transformações
societárias, através do debate, da revisão curricular e da motivação e
viabilização de atividades que estão contribuindo para a capacitação
continuada dos profissionais;

6) os profissionais estão respondendo às demandas readequadas e


novas, por meio de ações da própria categoria, bem como em conjunto
com outras categorias profissionais e com o movimento social
organizado e não organizado;

7) as Unidades de Ensino vêm cumprindo seus papéis, conforme seus


limites e possibilidades, promovendo o debate, a reflexão, elaborando
produções teóricas e, por meio do ensino, pesquisa e extensão,
mediando e respondendo às necessidades postas pela realidade.

Após a leitura do material empírico, as questões levantadas foram


separadas e organizadas conforme a prioridade da discussão. Em seguida,
confrontaram-se as questões e suas respectivas respostas colocando-se em
174
O movimento Estudantil tem trazido à tona as discussões sobre a formação
profissional como ponto central. “No primeiro seminário, promovido pela terceira gestão da
SEASSUNE, os (as) estudantes lançaram uma Campanha Nacional pela Formação
Profissional, tendo como tema ‘A gente não quer só canudo’. Na gestão seguinte, 1992-
1993, tal campanha tomou corpo e materializou-se na elaboração de um anteprojeto sobre
a formação profissional do(a) Assistente Social no Brasil, que foi aprovado nas instâncias
do MESS, em 1992. A concepção de formação profissional é explicitada no anteprojeto,
como privilegiado campo de disputa, onde os vários projetos de sociedade se encontram
em permanente tensão, e que uma intervenção qualitativa nesse campo traduz-se como
uma necessidade real e com caráter estratégico” (RAMOS; SANTOS, 41/1997, p. 161).
186

evidência as concordâncias e discordâncias de apreensão e análise. Neste


momento, foi possível também perceber alguns vazios - limites, que o conjunto dos
textos apresentava.

Algumas referências, de ordem geral, apreendidas no conjunto das


leituras, foram cuidadosamente levadas em consideração:

1) os interlocutores que estão estudando e refletindo sobre a temática em


discussão – as transformações societárias após 1970 – em específico
na fonte central dos usuários - categoria força de trabalho - usuários
dos serviços sociais na esfera da intervenção, da reflexão e elaboração
teórica, possuem vínculo empregatício junto às Unidades de Ensino ou
nos cursos de pós-graduação;

2) os conteúdos dos textos – material empírico em estudo e fonte principal


da reflexão e análise neste capítulo, apresentam diferentes recortes do
objeto. Porém, o fio condutor – entender as transformações societárias,
a “questão social” e suas refrações na profissão Serviço Social -,
orientam as discussões em todos os textos. A partir deste ponto
central, outras questões foram diagnosticadas, refletidas e
apresentadas:

2.1) o material empírico em estudo e analisado apresenta algumas


pesquisas – estudo de caso -, principalmente de empresas de
capital privado do setor primário e terciário e alguns estudos de
reflexão crítica sobre a temática;

2.2) os fundamentos, teórico-metodológicos referenciados pelos


autores, em sua maioria – encontram em Karl Marx, Mandel,
Harvey, Lukács, Netto e Iamamoto – a base principal de
sustentação analítica e reflexiva;

2.3) as autoras e/ou autores, em sua maioria, que estão travando a


discussão em pauta, possuem vínculo histórico e decisivo na
construção do projeto ideo-político profissional, hoje, referência
hegemônica na profissão, bem como, suas formas diferenciadas
de intervenção profissional têm contribuído, em conjunto com
outros autores, aqui não referenciados, em manter viva a chama
da possibilidade concreta na construção de um novo projeto
societário que esteja vinculado aos interesses da classe
trabalhadora;

2.4) alguns textos colocaram o debate quanto ao entendimento teórico-


metodológico das categorias trabalho e processo de trabalho e sua
relação direta com o Serviço Social. Destaca-se que a
fundamentação que norteia o debate encontra na esfera da
produção da teoria social de Marx e da tradição marxista. teoria
crítica está saindo na frente neste debate. Os referenciais fora
deste campo de análise, em específico, apresentado neste estudo
– contribuições de Rosanvallon e Castel –, ainda não
187

manifestaram-se com ênfase neste debate, o que não significa que


estão distante dos assistentes sociais.

3) outra questão relevante reserva-se ao papel da Universidade Estadual


do Rio de Janeiro (UERJ) que, por meio dos docentes efetivos,
convidados ou alunos da graduação e do curso de pós-graduação, vem
a ser uma das principais responsáveis pela discussão em pauta. Em
primeiro lugar, pelo pioneirismo na discussão da temática “processo de
trabalho do Serviço Social.” Segundo ALMEIDA (2/1996, p. 30),

A iniciativa da Faculdade do Serviço Social da UERJ, nesse sentido, pode ser


tomada como pioneira, visto que inaugurou o enfrentamento dessa temática no
âmbito do processo de formação profissional, incorporando-a ao seu próprio
currículo de graduação. A criação de cinco disciplinas obrigatórias e mais cinco
eletivas – no formato mais aberto dos “Tópicos Especiais” – baseou-se na idéia
de desenvolvimento de uma linha de pesquisa nessa direção.

Num segundo momento, esta dimensão é ampliada. Criado em 1995, na


UERJ, sob a coordenação da professora Ana Elizabeth Mota, o Programa de
Estudos do Trabalho e Reprodução Social (PETRES), “...tem sido um importante
instrumento de produção e pesquisa, estudos e debates, bem como um dos
mecanismos de articulação entre os cursos de graduação e de mestrado,
ressaltando-se que este tem a temática Trabalho como uma das suas áreas de
concentração, conforme” (IAMAMOTO, 24/2001b, p. 9).

Para dar conta dos propósitos deste capítulo, sua estrutura foi dividida em
dois eixos: o primeiro, explicita quais foram as mudanças no espaço sócio-
profissional, na objetivação do trabalho profissional, na relação contratual (vínculo
empregatício, salário) e na formação profissional. O segundo eixo evidencia as
mudanças que vem ocorrendo na estrutura da formação profissional e as respostas
apresentadas.

4.2 AS REFERÊNCIAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS NA PRODUÇÃO


ANALISADA PELOS ASSISTENTES SOCIAIS

A década de 1970, sinônimo de transformações profundas no tecido


societário, atingiu as bases da economia, da política, do social e do cultural. O
pensar e o fazer dos homens experimentaram momentos de tensão, de rupturas e
de continuidades que foram comunicadas por meio de diferentes formas de
expressarem simbólicas e/ou materiais, em que o enigma do “novo” retornou à
sociedade.

Além disso, as transformações tecnológicas e científicas possibilitaram


que o modelo de produção, gestão e reprodução da força de trabalho - acumulação
flexível (HARVEY,1989), colocasse em xeque a lógica e a forma do modelo de
produção fordista-taylorista. O novo, na esfera da produção, não eliminou o velho,
mas trouxe elementos decisivos que interferiram no movimento da produção
188

material e da reprodução da força de trabalho. Nessas instâncias, as


transformações implementadas nas plantas das fábricas foram acompanhadas pelas
mudanças na esfera da organização.

Nesse mesmo cenário, o modo de produção capitalista mergulhou em mais


uma crise estrutural, ou nos dizeres de MANDEL (1985), o modo de produção
capitalista, no biênio 1974-75, passou a conviver com uma crise de onda longa
recessiva. Uma crise, marcada por uma estagflação, espectro que acompanha o
projeto burguês até os dias atuais. Imbricados, – reestruturação produtiva e crise
estrutural - criaram novas determinações que contribuíram, decisivamente, para que
o modo de produção capitalista redimensionasse a lógica e a forma de manter o
projeto societário burguês em condições concretas, hegemônico.

As transformações societárias na base material produtiva ampliaram a


complexidade das relações estabelecidas no centro e na periferia da sociedade
capitalista. A crise que assolava a base material de sustentação do modo de
produção obrigou os representantes da classe burguesa a redimensionarem as
formas de intervenção na sociedade. Manter o controle da esfera política,
econômica e social, garantindo a continuidade do crescimento da massa da mais-
valia, foi o objetivo principal almejado.

Para dar coerência e sustentação ao processo de reestruturação


produtiva, criou-se e colocou-se em prática, em todos os países desenvolvidos e/ou
em desenvolvimento, um receituário ideo-político com conteúdos restauradores.
Este redefiniu o pensar e o fazer nas décadas de 1980 e 1990, porém não obteve
aceitação passiva, ações e reações conflituosas marcaram a relação entre os
representantes das classes – burguesa e proletária -. A classe burguesa não tem
medido esforços para impedir e fragilizar o movimento em construção do projeto
societário da classe proletária e demais frações da classe trabalhadora. 175

Através de ações combinadas, a classe burguesa implantou e


implementou, em períodos e com modos diferenciados, o receituário ideo-político
neoliberal e a mundialização do capital financeiro contribuindo, decisivamente, para
que a reestruturação produtiva sedimentasse suas bases com mais facilidade e com
retorno lucrativo ampliado, porém com capital cada vez mais concentrado.
Destacando-se que “...o verdadeiro cenário político da reestruturação produtiva no
Brasil é a construção de um consentimento passivo dos trabalhadores” (COSTA
(11/1998, p. 118).

175
A classe proletária e as demais frações da classe trabalhadora vêm sofrendo
ataques em suas dimensões materiais, espirituais e organizativas. Sacerdotes da pseudo
ciência, têm apresentado propostas mirabolantes, anunciando o fim da história
(ANDERSON, apud SADER; GENTILI, 1995), e a universalização da sociedade capitalista.
Porém, os intelectuais compromissados com a construção científica rigorosa e atentos aos
seus movimentos, registram que “...todas as indicações disponíveis nas pesquisas mais
fidedignas continuam atestando que as determinações de classe prosseguem operantes –
e fundamentalmente operantes: é impossível apreender a dinâmica social contemporânea
da ordem burguesa sem referenciá-las” (NETTO, 36/1996, p. 93).
189

O receituário neoliberal, 176 por meio de ações que o sustentam, direcionou


a centralidade de suas metas para a implantação do projeto da reforma do
Estado.177 No Brasil, particularmente na década de 1990, governo Fernando
Henrique Cardoso, seus procedimentos pautaram-se em: diminuir o investimento
público em políticas sociais; aplicar de forma contínua e desregulada no mercado
financeiro e produtivo, investimentos do fundo público; reformar a área
administrativa, implementando: o plano de demissão voluntária, o programa de
terceirização de atividades essenciais, a não realização de concursos públicos em
diferentes áreas do Estado; reformar a área da previdência social; implementar o
programa de privatização das empresas Estatais lucrativas e em flexibilizar as leis
trabalhistas que regulam e controlam a relação conflituosa entre capital-trabalho. 178

Estas ações atingiram diretamente e, principalmente, a força de trabalho.


Para que se concretizassem as mudanças implantadas na base produtiva, novas
máquinas e revolucionários ajustes, acompanhados das transformações na esfera
organizacional, necessitava-se do consenso e da coerção, para dar uma nova
direção à força de trabalho individual e coletiva. Para isso, uma reestruturação na
racionalidade da organização do trabalho foi colocada em cena, causando impactos
na força de trabalho em dois sentidos: (1) na dimensão operacional-técnica e na
dimensão organizacional. Por meio do arsenal tecnológico e científico colocado ao
alcance dos capitalistas, a base, o chão da fábrica, ganhou um novo mapa: a
eletromecânica foi substituída pela eletrônica; o processo de automação ampliou
qualitativamente o ajuste nos equipamentos por meio da informática, e no campo de
produção de ponta, novos materiais são colocados à disposição da produção; (2) a
base organizacional foi atingida em sua lógica e forma de ser, possibilitando que os
princípios que fundamentavam a flexibilidade organizacional ampliassem seu campo
de convencimento, de adesão às franjas empresarias. Com as novas regras criadas
no mercado, as empresas, para permanecerem competitivas no interior do mercado
nacional e internacional, passaram a exigir dos trabalhadores dinamização em suas
ações, exigindo maior elasticidade da força de trabalho.

176
O receituário neoliberal tem conseguido, em todos os países em que foi
implementado, com graus diferenciados, causar grande erosão nas regulações sociais, ao
patrimônio e ao fundo público.
177
Verificar neste estudo os itens 3.5.3 - Administração Pública Gerencial; e 3.6 -
A reforma do Estado e o “desmonte da nação” III.
178
“As reformas” que ocorreram historicamente no Brasil, principalmente a partir
do pós-Segunda Guerra Mundial, foram justificadas através do argumento da necessidade
da reforma, pois o país somente alcançaria posição previlegiada no quadro mundial, caso
assumíssemos medidas desenvolvimentistas. No entanto, a partir da década de 1980 e
com maior ênfase na década de 1990, através das agências que representam os países
centrais (FMI e BID), tem se implementado uma nova retórica – moderna -, com a
finalidade de justificar o crescimento da dependência econômica e política que o país está
vivenciando. Agora o novo discurso enfatiza que o projeto é de um país emergente dentro
do cenário mundial. Assim, sua meta diária é manter a estabilidade econômica e política. O
discurso do crescimento, do desenvolvimentismo deixou de ser o eixo de sustentação do
projeto de dependência. Os dados sociais e as condições em que se encontram o exercício
dos direitos civis, políticos e sociais denunciam a situação em que se encontra o país. Está
ocorrendo um retrocesso histórico. Quando esta referência não consegue convencer os
trabalhadores, suas reivindicações são respondidas através de ações coercitivas, física e
moral. A imprensa brasileira é um instrumento oficial e permanente para cumprir esta última
ação.
190

Este novo desenho na planta da fábrica, aumentar a elasticidade da força


de trabalho, significou transformar cada trabalhador em uma força de trabalho
polivalente, multifuncional, colocando em suas ações qualidade técnica, criatividade
intelectual e concordância com o projeto em jogo. Exigiu-se que a força de trabalho
se movimentasse em sentido linear e crescente. Era necessário que, neste novo
arranjo, os trabalhadores desenvolvessem suas atividades sem conflito com o
capital e possibilitassem que a lucratividade fosse ampliada. As exigências feitas
aos trabalhadores vêm alterando o modo de trabalhar e de viver na sociedade.

A força de trabalho em movimento – empregada e/ou desempregada, vem


sofrendo alterações em dimensões objetivas e subjetivas, manifestando
expressivamente e diferencialmente suas particularidades em cada país atingido. As
alterações anunciadas materializaram na “questão social” o conteúdo das suas
metamorfoses. 179

Estas, estão ocorrendo na “questão social” e têm explicitado nas políticas


sociais seus limites e possibilidades, seus traços de ruptura e de continuidade,
principalmente, com o agravamento em suas determinações simples e complexas.
Considerando-se que o Serviço Social, enquanto uma profissão, tem seu maior
reconhecimento no seu caráter interventivo, também este ganhou destaque com as
transformações em curso.

Durante a década de 1990, dois movimentos têm colocaram os Assistentes


Sociais em situação diferenciada: o primeiro, diz respeito ao amadurecimento e
aprofundamento do referencial teórico-metodológico e ético-político que dá
sustentação ao projeto hegemônico em construção no interior da categoria. O
segundo, em outra dimensão, é a refração que o Serviço Social vem sofrendo
devido às transformações societárias implantadas nas esferas da produção material
e da reprodução social. Foi este segundo movimento que possibilitou a construção
do conjunto deste estudo evidenciando a tese de que “os Assistentes Sociais,
crescentemente, vêm incorporando as manifestações das transformações
societárias, no período após 1980, embora com ações incipientes no campo da
resistência” .

Os argumentos que permitem demonstrar esta tese encontram sua


pertinência na hipótese de que: “os assistentes sociais, em seus espaços sócio-
ocupacionais e no trabalho profissional, face às dificuldades encontradas em
colocar em movimento procedimentos teórico-metodológicos, ético-políticos e
técnico-operativos que conduzam a uma intervenção inclusiva, ontológica e crítica,
estão restaurando práticas conservadoras”.

4.3 MUDANÇA HISTÓRICA NA FORÇA DE TRABALHO E SUA REFRAÇÃO NO


SERVIÇO SOCIAL

179
Diferenciado em cada país, as metamorfoses da “questão social” expressam
sua particularidade (encontrando no desemprego estrutural a sua maior expressão), e tem
direcionado os autores a denominarem este movimento de “nova questão social”. Porém é,
certo, a inexistência de uma nova “questão social”, mas alterações profundas na forma
das bases da “questão social” que implicaram alterações nas políticas sociais, isto é, na
esfera onde a “questão social” manifesta seus conteúdos e suas formas.
191

Conforme visto anteriormente, a “questão social” metamorfoseou-se, no


período após 1970, em sua forma e conteúdo, manifestando-se em diferentes
expressões na esfera da reprodução social e interferindo no pensar e no fazer dos
profissionais Assistentes Sociais. As conseqüências diretas e indiretas dessas
transformações atingiram a base produtiva, (matéria bruta ou prima, os instrumentos
de trabalho e a força de trabalho). Porém, é no cerne da força de trabalho que as
transformações produziram implicações decisivas. Estas, com conteúdos e formas
particularizadas, trouxeram à luz do debate teórico-prático, indagações e respostas
que foram vinculadas nos espaços operacionais em que os assistentes sociais
realizam seus trabalhos – nas empresas, na esfera Estatal, nas entidades
filantrópicas privadas e, com expressão significativa, os assistentes sociais
passaram a ser requisitados – nos grandes centros urbanos – pelas Organizações
Não-Governamentais, as ONGs .180

Diante disso, a força de trabalho foi atingida em sua centralidade porque o


elemento principal do processo de trabalho, alvo das manifestações em mutação,
ganhou novas determinações devido a três acontecimentos concretos: a
reestruturação produtiva na base material, a mundialização financeira e a ofensiva
do receituário neoliberal. Este último inviabilizou a continuidade, nos países
centrais, do contrato social keynesiano. No entanto, nos países periféricos este
contrato nunca foi efetivado, contribuindo para que traços nefastos da exclusão
social, fossem acentuadas. No Brasil,

...não há aqui, um Welfare State a destruir; a efetividade dos direitos sociais é


residual; não há ‘gorduras’ nos gastos sociais de um país com os indicadores
sociais que temos – indicadores absurdamente assimétricos à capacidade
industrial instalada, à produtividade do trabalho, aos níveis de desenvolvimento
dos sistemas de comunicação e às efetivas demandas e possibilidades (naturais
e humanas) do Brasil. Aqui, um projeto burguês de hegemonia não pode, com a
rude franqueza da Sra. Thatcher, incorporar abertamente a programática
compatível com a ‘desregulação’ e a ‘flexibilização’ – ele deve travestir-se,
mascarar-se com uma retórica não de individualismo, mas de ‘solidariedade’, não
de rentabilidade, mas de ‘competência’, não de redução de coberturas, mas de
‘justiça’ (NETTO, 36/1996, p. 104).

O receituário neoliberal, cumprindo sua programática, está criando


condições objetivas para atingir a centralidade da força de trabalho. Este
diagnóstico é visível quando os dados estatísticos são apresentados pelos órgãos
oficiais do Governo Federal – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE-,
Instituto de planejamento de Economia Aplicada IPEA ou por meio dos órgãos
SEADE-DIEESE. Nestes órgãos é possível averiguar a redução expressiva de
empregos com carteira profissional assinada; a vinculação empregatícia crescente
por meio da contratação precária devido às modalidades de programas de
180
Duas considerações são pertinentes: 1) A contratação de profissionais
Assistentes Sociais, por meio das ONGs, tem sua referência na política antiestatização.
Com a implantação do projeto de reforma do Estado, muitos programas estão sendo
atribuídos para as ONGs, assumindo o papel de contratadas terceirizadas. Este novo
mecanismo de tratar a coisa pública tem reduzido o número de profissionais com vínculo
empregatício no Estado em suas diferentes esferas (SERRA, C/2000).
192

terceirização, atividades realizadas em casa, atividades remuneradas por peça e


contratos de trabalho formal com renúncia de direitos conquistados e redução de
carga horária de trabalho acompanhada de redução salarial. 181

O capital necessita de racionalizar a força do trabalho ao extremo. Por


isso, o trabalho vivo passa a ceder seu lugar para mecanismos mortos que são
operados por trabalho vivo em situação de precariedade contratual, mas que
contribuem consubstancialmente para acumular capital.

...As grandes unidades de capital transformaram o layout de suas estruturas


produtivas num gigantesco esqueleto mecânico, onde se pode caminhar por
suas vértebras, metros e mais metros, sem encontrar uma “viva alma”. Embora
esse esqueleto possa se automovimentar, tenha nele mesmo a fonte de seu
movimento mecânico, ele, contudo, precisa de uma fonte ‘externa’ que o
alimente. (TEIXEIRA, 1996, p. 69).

A força de trabalho no período após 1970, vem ganhando expressividade


negativa ao ampliar o contingente de desempregados no interior do exército
industrial de reserva. Essa situação concreta, desestabilizadora, anuncia e
denuncia os inúmeros riscos no tecido societário. Este cenário assusta, no entanto,
CASTEL (1998), enfatiza: que o grau de vulnerabilidade generalizada é mais
expressivo e perigoso. Estas duas expressões da “questão social”, desemprego e
situação de vulnerabilidade, imbricadas em suas determinações cotidianas, está
agravando a situação dos trabalhadores e de seus familiares, causando rupturas
profundas em alguns segmentos sociais, ampliando o grau de miserabilidade e
destruindo as manifestações humanas.

Estes trabalhadores, cujas condições materiais e espirituais foram


modificadas, bem como suas condições de existência, local de trabalho e demais
instâncias de sua convivência cotidiana, constituem os usuários dos programas,
projetos e das políticas sociais executadas, formuladas e/ou gerenciadas pelos
profissionais Assistentes Sociais. Pode-se dizer que, a partir daí, há determinação
do “novo”, pois estes profissionais buscam apropriar-se da discussão para encontrar
respostas e propor soluções para o enfrentamento dessas manifestações da
“questão social” desde o primeiro lustro da década de 1990.

4.3.1 O Setor de Serviços, Espaço Sócio-Ocupacional e do Trabalho dos


Assistentes Sociais

Com o recuo do setor produtivo e redução do lucro final, a classe


burguesa obrigou-se a redimensionar as formas tradicionais concretas de
181
Presenciamos, em períodos de crise do modo de produção capitalista, que
formas de produzir mercadorias e de reproduzir a força de trabalho, implantadas no berço
da primeira revolução industrial –fase concorrencial do capitalismo -, são recuperadas e
reatualizadas. As atitudes combinatórias teórico-práticas nas plantas produtivas e nas
esferas da valorização, não são novidades. O modo de produção capitalista possui uma
perfeita mobilidade em diversificar e conservar, ao mesmo tempo, sua forma e lógica de
acumular mais-valia.
193

investimento e acumulação de capital. Colocou-se na ordem do dia a necessidade


premente de repensar a produção, a gestão e o consumo da força de trabalho,
ajustando-os à produção primária e secundária por meio da utilização das novas
tecnologias e dos avanços da ciência. No entanto, com o novo desenho que a
ordem mundial estampou a toda a sociedade – reestruturação produtiva, receituário
neoliberal, mundialização do capital, globalização (integração vertical de grandes
empresas, reestruturação territorial e reforma na esfera do Estado), “os donos do
poder” passaram à disponibilizar de grande quantidade de capitais para serem
investidos no setor de serviços.

Essa configuração mundial provocou mudanças profundas no processo de


acumulação do capital. Se a fonte originária, dinâmica e produtora essencial de
mais-valia encontrava-se na relação entre capital-trabalho produtivo, a partir do
momento em que o capitalismo assumiu o estatuto de tardio, inauguram-se novas
formas do capital acumular a mais-valia. É na esfera da valorização que a massa da
mais-valia está conseguindo ampliar seus valores proporcionais devido à ampliação
mercantil em serviços de educação, transporte, saúde, lazer e outros que podem ser
entendidos como sendo um fato novo. Esta expansão dos serviços, ao mesmo
tempo, que imprime novas características ao trabalho humano, também expressa a
dinâmica da atual recomposição do capital que modifica demarcações
tradicionalmente reconhecidas entre os setores industriais, financeiros, comerciais e
de serviços (COSTA, 11/1998, p. 98).

Devido ao crescimento dessas atividades, ligadas aos serviços e


utilizando-se das prerrogativas determinadas pelo receituário neoliberal ou dos
avanços das reivindicações da classe trabalhadora, ocorre um rearranjo “...na
natureza dos serviços (privados ou públicos), suas vinculações com a esfera da
produção material, suas finalidades e o conjunto das mediações que conectam o
trabalhador, o usuário e a instituição provedora destes” (COSTA, 11/1998, p. 112).182

4.3.2 As Metamorfoses Provocadas no Setor de Serviços nas Instituições Privadas


e suas Refrações nas Particularidades do Trabalho Profissional dos
Assistentes Sociais

Os estudos realizados na pesquisa empírica primária e secundária,


revelaram elementos comuns que elucidaram manifestações com graus de
alteração do objeto – expressões da “questão social” na política social -, matéria
principal do trabalho dos Assistentes Sociais. “...Trata-se da reorganização das
fases do ciclo global da mercadoria, e da criação de mecanismos sócio-políticos,
culturais e institucionais, necessários à manutenção do processo de reprodução
social” (MOTA, 34/1997, p. 53). A primeira manifestação que ocorreu está
direcionada na mudança da definição das políticas sociais que as empresas estão

182
O rearranjo que ocorre na natureza dos serviços, não expressa uma crise de
materialidade do Serviço Social, conforme entende SERRA (C/2000), mas o que está
ocorrendo é um redirecionamento das políticas sociais. Ao mesmo tempo em que o Estado
reduz os investimentos nos aparelhos que dão sustentação ao funcionamento das políticas
sociais, no mesmo espaço são criadas condições para aparelhar políticas sociais
redimensionadas e também as conquistadas na base da sociedade.
194

priorizando para acompanhar as transformações manifestas na produção material e


na organização da força de trabalho.

Historicamente, as ações concretas desenvolvidas pelos Assistentes


Sociais centravam suas intervenções na implantação e implementação das políticas
sociais de recorte tradicional, vinculadas diretamente e, especificamente, na
distribuição e controle dos benefícios. Estas atividades, realizadas em conjunto com
outros profissionais, encerravam seus objetivos no momento que os trabalhadores e
familiares eram contemplados pelos benefícios correntes de corte legal ou criados
pela própria empresa. O envolvimento, do profissional com o trabalhador, reservava-
se em responder às demandas e às exigências que eram determinadas na relação
direta entre capital-trabalho.

É de conhecimento dos profissionais da área que a intervenção ampliava


ou reduzia seu alcance quantitativo e qualitativo, conforme o poder de negociação
que os trabalhadores tinham em suas instâncias de organização. Quanto maior o
poder das organizações – associações, sindicatos e centrais sindicais – maior a
possibilidade de ganhos sociais reais, diretos e indiretos.

No Brasil, a correlação de força entre capital-trabalho, durante as décadas


de 1970 e 1980 foi acirrada. Os capitalistas, com uso próprio e histórico do papel
autoritário, não pouparam esforços para conterem as manifestações da classe
trabalhadora por direitos sociais, políticos, econômicos e culturais. A repressão
física e psicológica foi e continua sendo o principal instrumento de diálogo dos
empresários com os trabalhadores, principalmente quando o assunto é manutenção
e/ou ampliação dos direitos.

Enfrentando, os mandos e desmandos da classe empresarial em seus


diferentes níveis, subsidiada e aparelhada pelo Estado repressor, os trabalhadores,
na contra mão da história conseguiram, em diferentes momentos, parar as
máquinas e, por meio de ações de cidadania, apesar de muitas vidas terem sido
ceifadas, ampliarem os direitos sociais, políticos, econômicos e culturais no interior
da fábrica e em diferentes instâncias da sociedade civil e política.

A intervenção profissional dos Assistentes Sociais, garantindo direitos


conquistados e implementando novos, definiu os conteúdos que embasavam suas
ações técnico-operacionais consagrando o padrão das políticas sociais tradicionais.
Nesse contexto, devido à participação-resistência da classe operária e demais
frações da classe trabalhadora pela conquista de direitos e implementação dos
mesmos, amadureceram-se e ampliaram-se a consciência de classe em-si e para-
si.183 No entanto, com particularidades específicas de país periférico, a

183
Porém, nos anos 1990, a retração do movimento sindical e de outros
movimentos sociais é notória. -Durante o período, 1989-1999, os trabalhadores realizaram
13.746 greves. Em 1989, foram registradas 3.934 greves, em 1999 o número reduziu para
553. A diferenças de 3.390 greves, expressando 713% de refluxo, mostra o recuo realizado
pela classe trabalhadora, bem como, a forma e a lógica que os governos, Collor e Cardoso,
trataram a força de trabalho. Os números mostram que o engodo do plano Real, bem como
a repressão articulada (física e psicológica) por estes governantes, ilustram quanto
prestaram/prestam fidelidade ao receituário neoliberal. No período 1989-1999, os anos de
1997 (630 greves), 1998 (580 greves) e 1999 (553 greves) representaram os menores
índices durante o período. (DIEESE, 2000-2001).
195

reestruturação produtiva técnica e organizacional tornou-se realidade em algumas


empresas do setor primário e terciário a partir da década de 1970, timidamente e
com maior ênfase na década de 1980. Esta pesquisa teve como enfoque o setor
empresarial produtivo químico e o setor terciário, os bancos, em que a política de
administração de recursos humanos tornou-se a nova proposição.

Esta “...nova racionalidade técnica e ideo-política, (...) perpassa as


políticas de administração de recursos humanos” (KAMEYAMA, 26/1998, p. 17),
criando um novo ethos no interior das empresas, a partir da década de 1990, tendo,
como conseqüência, a redução dos investimentos nas políticas de recorte
tradicional o redirecionamento dos recursos humanos e financeiros e ao mesmo
tempo reatualizando-conservando as Políticas Sociais com um recorte ‘moderno’.
Novas tecnologias do gerenciamento da força de trabalho foram implementadas,
juntamente com programas de qualidade total, processos de desqualificação e
qualificação dos profissionais, políticas empresariais de benefícios e novas
demandas que se colocam para o social ganharam prioridade 184 (KAMEYAMA,
26/1998, p. 7) e assumiram a dianteira.

O recorte ‘moderno’ para tratar das políticas sociais provocou alterações


que interferiram diretamente nas relações estabelecidas na esfera da produção e da
reprodução, pois exigiam dos empresários a reformulação da forma de controlar e
regular a força de trabalho. Neste marco, historicamente determinado, os
Assistentes Sociais que possuem ou pretendem possuir vínculo empregatício com a
área empresarial,

...têm sido chamados a atuar em programas de qualidade de vida no trabalho,


saúde do trabalhador, gestão de recursos humanos, prevenção de riscos sociais,
círculos de qualidade, gerenciamento participativo, clima social, sindicalismo de
empresa, reengenharia, administração de benefícios estruturados segundo
padrões meritocráticos, elaboração e acompanhamento de orçamentos sociais,
entre outros (IAMAMOTO, 22/1999, p. 124)

Se as políticas sociais foram redimensionadas no interior das empresas,


os benefícios conquistados pelos trabalhadores não saíram de cena, mas algumas
empresas sua manutenção foi reduzida, enquanto que em outras, “...não só a
manutenção, mas, também, a sua ampliação, ainda que de forma mais seletiva,
hierarquizada e meritocrática” (CARDOSO; FRANCISCO, 7/1998, p. 74)
permanecem. Essa nova dinâmica implementada pelo departamento de recursos
humanos requisitou aos Assistentes Sociais e profissionais de áreas afins, o
redimensionamento de suas ações na execução da política de benefício e
184
O modelo de produção flexível foi implantado nos países capitalistas
respeitando suas particularidades e singularidades. No Brasil, o modelo percorreu três
fases. “O terceiro e mais recente período de propagação do modelo japonês inicia-se nos
anos 90, inaugurando a década da qualidade”. Os projetos desenvolvidos nos programas
de qualidade são direcionados para os trabalhadores qualificarem-se tecnicamente
buscando implementar a noção de polivalência e multifuncionalidade. É necessário
conseguir elasticizar e controlar a força de trabalho o máximo que for permitido pela lei da
natureza ou não. Mas os cursos também procuram investir na educação formal, isto é, a
longo prazo, buscando manter a qualidade em todas as instâncias (DRUCK,14/1998).
196

incentivos. Ao reformularem-conservarem ou atualizarem as políticas de benefícios


e incentivos, os conceitos destes também foram alterados em sua essência, isto é,
até o final da década 1980, para os trabalhadores, o benefício e os incentivos eram
direitos conquistados. O usufruto e a ampliação dos mesmos tinha suas raízes nas
lutas políticas dos próprios trabalhadores. Porém, na década de 1990, os benefícios
e os incentivos que os trabalhadores usufruíam eram repassados como doação,
concessão das empresas após os trabalhadores cumprirem as metas estipuladas,
incorporando, assim novos elementos na cultura do trabalho. 185 A existência ou não
da qualidade presente no trabalho profissional e sua relação com o recebimento dos
benefícios e incentivos dependeria do resultado produtivo que os trabalhadores
atingissem conforme as exigências, antecipadamente, programadas.

Com essas medidas na política de benefícios e incentivos, os programas


de qualidade total sofisticaram-se e ganharam prioridade no departamento de
recursos humanos em relação aos demais, exigindo diversidade e flexibilidade na
dinâmica do trabalho profissional dos Assistentes Sociais. Assim,

...para o ingresso na esfera empresarial, têm sido exigidos requisitos que


extrapolam o campo de conhecimentos para abranger habilidades e qualidades
pessoais – podem ser citadas: experiência, criatividade, desembaraço,
versatilidade, iniciativa e liderança, capacidade de negociação e apresentação
em público, fluência verbal, habilidade no relacionamento e capacidade de
sintonizar-se com rápidas mudanças no mundo dos negócios. Para tanto é
indispensável o conhecimento de línguas e da informática e capacidade
operativa no exercício de funções de recrutamento, seleção, treinamento,
desenvolvimento de pessoal, administração de salários, avaliação de
desempenho e benefícios (IAMAMOTO, 22/1999, p. 124-125).

Estes requisitos têm contribuído para que a “qualidade”, exigência da nova


retórica empresarial moderna, influencie diretamente no aumento da produtividade
diária, garantindo a ampliação dos lucros. É por meio do desenvolvimento e
efetivação das políticas de administração de recursos humanos que os Assistentes
Sociais estão colocando em prática os requisitos acima explicitados, colaborando
decisivamente na moldura técnica-organizacional, causando interferências
profundas na consciência dos trabalhadores. A força de trabalho psicofísica é
metamorfoseada.

Revertendo os conceitos teórico-práticos, que garantem o contrato coletivo


celebrado entre capital-trabalho, tem-se criado mecanismos para tornar efetiva a
relação passiva entre capital-trabalho contribuindo para afastar, ignorar, fragmentar
e, quando possível, destruir a presença significativa e decisiva das entidades
representativas dos trabalhadores. É por meio de medidas como as do programas

185
Estes procedimentos foram o resultado da incorporação de uma nova cultura
empresarial e expressam uma forma concreta de retomar os princípios patrimonialistas
historicamente interiorizados na cultura brasileira, É a recuperação com cor e tonalidade
modernizadora, porém reforçando traços históricos conservadores e reacionários,
presentes em nossa sociedade e experimentado também no Serviço Social. Os direitos
deixam de ser negociados nos espaços públicos – sindicato e empresários, para serem
discutidos e acordados no interior das empresas.
197

de qualidade total que os Assistentes Sociais e profissionais de áreas afins, estão


contribuindo para mudar a cultura dos trabalhadores e incorporarem a
empresarial 186, Ao responder às novas exigências das empresas, “...o profissional
Assistente Social não foge à regra e é cada vez maior o número de profissionais
que começam a se capacitar e qualificar na área da Administração, mais
especificamente na área de gerenciamento de recursos humanos” (FRANCISCO
15/1996, p. 55).

Isto está sendo incorporado pelos Assistentes Sociais, porque o conteúdo


presente no processo de formação e/ou curso de capacitação direcionado para os
programas de qualidade total, tem o propósito de: aprimorar as ações dos
trabalhadores para que os custos de produção diminuam; imprimir conteúdos de
convencimento que garantam que as ações dos trabalhadores aumentem a
qualidade nos produtos bem como a competitividade no mercado.

Para acompanhar estas regras na esfera da produção, no que se refere à


dimensão da reprodução da força de trabalho, os Assistentes Sociais vêm
elaborando programas que trazem, em suas premissas, conceitos que motivem e
convençam os trabalhadores a pertencerem ao projeto das empresas, isto é, que
sejam parceiros. E os trabalhadores, convencidos ou não destas premissas,
executam papéis que respondem às novas exigências do capital devido ao discurso
que os convida e/ou obriga a participar e a co-participar das decisões da empresa
neste modelo de produção e de reprodução das forças de trabalho, que assume a
roupagem de “moderno”. No entanto, o que se constata é que no interior das
empresas “...a participação dos trabalhadores fica restrita à esfera da produção...”
(CÉSAR, 10/1998, p. 122) e suas estratégias para melhorar a sua eficiência na
execução do seu trabalho. Assim, ao transferir a responsabilidade por meio da
retórica da participação, o trabalhador torna-se co-responsável nesse processo,
pois para que todos sejam beneficiados, as metas precisam ser atingidas. O
sacrifício, portanto, é coletivo, mas a apropriação dos lucros não.

Nesse contexto diário e contraditório, os cursos de qualificação têm como


meta central a aquisição de ações técnicas organizacionais que os tornem capazes
de atingir aos objetivos propostos bem como de apropriar-se da subjetividade do
trabalhador. Assim,

a qualificação da força de trabalho, além de enfatizar a qualificação técnica,


busca a participação e o envolvimento dos trabalhadores através da mobilização
das subjetividades para obter o consentimento passivo na construção de um
consenso. Burawoy argumenta que a subjetividade do trabalhador é e deve ser
um ingrediente inevitável na organização do trabalho, na concretização da
produção no trabalho e, como tal, ser um elemento central nas relações de
controle (RAMALHO, 1997, p. 39)

186
A implantação dos projetos referendados pela lógica da qualidade e da
flexibilidade do trabalho, responsabiliza por fragilizarem, fragmentarem e se possível,
destruírem os canais de organização coletiva da classe trabalhadora. Com a dimensão da
adesão consentida, a visão única que se quer efetivar pauta-se na compreensão que “não
há mais sociedade, só indivíduos” (MARX, 1985b)
198

Mas como conseguir que este projeto de apropriação aproprie da


subjetividade dos trabalhadores alcance seus objetivos e se efetive?

Para isso, algumas modalidades de convencimento entram em cena por


meio das políticas compensatórias: os operários e demais trabalhadores, enquanto
‘parceiros das empresas’, são convidados a comprarem ações; a terceirizarem
atividades; trabalhar com metas que lhes permitam ser recompensados com
prêmios (bens materiais de consumo, bonificações de mérito, abonos remunerados
ou em ações, viagens e outros). Neste mesmo campo, os gerentes e diretores,
principais responsáveis em garantir a implementação de uma nova cultura
empresarial, recebem remuneração diferenciada em relação aos demais
trabalhadores.187

Essa nova cultura de convencimento – adesão-consentida –, propõe


garantir que os trabalhadores, durante a relação estabelecida entre capital-trabalho,
estejam afinados aos interesses do capital, pois

...Não se trata mais de agir somente sobre a materialidade simples, o sujeito


intenciona operar sobre o comportamento dos indivíduos, com vistas ao
prosseguimento do processo de trabalho. Do desenvolvimento social do trabalho
resulta que a interioridade do sujeito acaba também por se tornar objeto de ação
de posições teleológicas do sujeito (COSTA, a/1999, p. 47).

Esta determinação amplia suas raízes no Brasil, em específico, a partir da


década de 1990, momento em que a lógica que move as relações sociais, políticas,
econômicas e culturais, determinadas pelas regras do mercado, acentuaram-se e
redimensionaram-se.

De fato, o discurso de humanização do trabalho e do direito do cidadão,


que permeou a cultura política nos anos de 1980, vem sendo substituído por novas
palavras-chaves: o compromisso do trabalhador com o cliente – consumidor, a
qualidade total dos produtos e a produtividade e competitividade das empresas.
“Trata-se de uma cultura que indiferencia os interesses dos trabalhadores e dos
capitalistas e inflexiona os comportamentos políticos dos primeiros” (MOTA,
34/1997, p. 41).

A nova retórica, com o estatuto de moderna, elegendo o mercado como o


espaço responsável para decidir a respeito dos conflitos entre capital-trabalho, tem
tratado apenas de uma das dimensões da força de trabalho, quer dizer, da força de
trabalho em movimento e com carteira de trabalho assinada. O discurso moderno
tem direção certa e, não poderia ser diferente, suas premissas e aplicabilidades são
contraditórias.

No mesmo espaço de trabalho, local em que as empresas propõem


transformar os trabalhadores em parceiros das mesmas, elaboram-se projetos,
187
Como a participação dos trabalhadores (alguns) encerra-se na esfera da
produção, os mecanismos práticos técnicos e políticos que estruturam a hierarquia
empresarial, bem como os cargos e salários, são os mesmos aplicados pelo modelo de
produção e reprodução material e da força de trabalho fordista.
199

programas e políticas sociais que se encarregam, objetivamente, de retirar dos


próprios trabalhadores os direitos conquistados, bem como redimensionar-
conservando, a lógica e a forma de entender e apropriar-se dos benefícios ainda
vigentes.

Este duplo movimento – parceria para aumentar a produtividade e a


redução de direitos conquistados – vem ampliando sua efetividade no interior das
empresas amparado, principalmente, pelo programa de qualidade total. Mas, outros
mecanismos indiretos – com dimensões coercitivas – cumprem também o papel de
garantir a implantação de uma “nova” cultura empresarial, mantendo ou
reproduzindo a esfera econômica vigente. Destaca-se: o processo de contratação
de serviços terceirizados e externalizados; a implementação do programa de
redução de carga horária semanal, acompanhado da redução salarial; o
desemprego planejado e uma revolução na base produtiva com reajustes
permanentes nas máquinas e simplificação das ações. Estas últimas medidas
abrem espaços para a contratação do trabalho infantil e das mulheres, contribuindo
para o aumento do desemprego. Paralelo a isso, o trabalho informal, depreciado
nos anos 1970 e 1980, expressão do arcaico, é hoje incentivado e apresentado
pelas autoridades empresarias e políticas por meio da retórica do “moderno”. Esta
proposição é uma necessidade requisitada nos países “emergentes” como uma das
saídas para acabar com o desemprego (NETTO, 2002, p. 11).

Os tempos são difíceis. Não conseguindo reverter o quadro de dominação


burguesa frente as transformações em curso, com destaque para a década de 1990,
o projeto da reestruturação produtiva, um dos pilares da ofensiva do capital em
resposta à crise do projeto societário burguês em curso, vem conseguindo atenuar
os conflitos entre capital-trabalho por meio da logística “...que é fazer o movimento
dos trabalhadores – e suas forças sociais e políticas coligadas – recuar para o
terreno econômico-corporativo, abrindo mão, portanto, dos elementos ético-culturais
que permitiram dar forma e sustentação a uma nova fase expansiva da construção
das classes trabalhadoras como força autônoma e revolucionária” (SOUZA, 1994, p.
38-39).

Aproveitando-se da situação de vantagem, as empresas vêem realizando


demissões em massa. As prioridades das demissões são direcionadas para os
trabalhadores com muitos anos de atividades no mesmo local e/ou que possuíam
um grau de participação política no interior do movimento dos trabalhadores. É
neste momento que os empresários aproveitam para demitir os trabalhadores com
problemas de saúde ou com idade acima dos 40 anos. 188 O programa de demissão
voluntária deixou de ser exceção. Hoje, os empresários e os gestores públicos,
188
A lógica capitalista, apresentada para reordenar a produção material e
reprodução da força de trabalho garantindo a continuidade do processo de acumulação do
capital, tem combinado dois comportamentos contraditórios que permitem desnudar o
discurso falacioso implantado pelos programas de qualidade total ao solicitar dos
trabalhadores adesão ao projeto da empresa e ao celebrar um contrato de parceria. As
empresas buscam constantemente combinar a sofisticada continuidade de capacitação da
força de trabalho através do treinamento e da educação escolar dos funcionários, no
entanto, é necessário colocar em evidência que, o próprio projeto das empresas demitem
força de trabalho continuamente. Esta constatação empírica é possível de ser verificada
por meio dos índices de emprego-desemprego apresentados mensalmente pelo SEADE-
DIEESE.
200

utilizam o – PDV – como um instrumento legal para amenizar a responsabilidade


frente à situação da crise.

Os sindicatos, por meio das suas representações nas comissões de


fábrica e nas câmaras setoriais, são obrigados a recuarem devido ao expressivo
percentual da força de trabalho formal que se encontra desempregada e/ou em
situação de vulnerabilidade. Isto amplia as dificuldades para criarem-se novos
mecanismos de enfrentamento à lógica capitalista. Paralelamente, através das
forças políticas ligadas aos interesses do capital, novos procedimentos legais,
porém não legítimos, têm contribuído para retroceder no tempo e no espaço, direitos
conquistados historicamente pela classe proletária. 189

Esse cenário tem orientado as organizações dos trabalhadores a


encaminharem suas lutas reivindicatórias em outra direção, ou seja: em manter os
postos de trabalho em vigência; garantir a reposição salarial inflacionária; não
permitir a situação precária para desenvolver as atividades e garantir o maior tempo
possível de trabalho permanente na esfera formal; utilizar-se de recursos do Fundo
de Amparo ao Trabalhador, FAT, para ministrarem cursos de formação técnica, com
a perspectiva de contribuir para a atualização e/ou formação continuada dos
trabalhadores, permitindo que estes estejam à disposição do capital,
permanentemente. Portanto, essa mudança de direção e de intensidade da luta dos
trabalhadores, “trata-se não apenas de destruir os processos de organização dos
trabalhadores mas também de inflexionar os objetos das suas reivindicações,
dotando-as de outros significados que, originários de um projeto do capital, devem
ser assumidos como seus” (MOTA, 34/1997, p. 59).

A retração da força de trabalho organizada, nesse momento, tem


contribuído, sistematicamente, na formação de uma contra-cultura, “...neutralizando,
na prática, as questões relativas aos projetos sociais” (MOTA, 34/1997, p. 55),
porque, com o baixo nível de resistência do movimento sindical e demais
movimentos sociais em níveis diferenciados, os capitalistas começaram a criar, no
interior das fábricas o modelo do sindicato empresa. Embora a insegurança
individual e coletiva atinja a todos os trabalhadores, este tipo de sindicato dificulta-
lhes suas ações ético-políticas e também impede-os de colocarem suas aspirações
individuais e de classe na entidade que os representa. É uma fratura do projeto
social em movimento.

Diante dessa nova realidade, os assistentes sociais e outros profissionais


de áreas afins, ligados diretamente à regulação e controle da força de trabalho,
assumem outra responsabilidade no conjunto das suas obrigações: convencer os
trabalhadores a não entrarem em conflito com a cultura empresarial. É tarefa
desses profissionais, em conjunto com os gerentes, obterem o consentimento do
trabalhador ao projeto empresarial em movimento (MOTA, 33/1998, p. 36)

Esse mecanismo é realizado comumente através do consenso, porém,


ações coercitivas, direta e indiretamente, também são utilizadas. Dentre elas
destacam-se: a implantação do programa de demissão voluntária; a redução da
carga horária acompanhada da redução de salários e rotatividade na contratação; a
189
Destacam-se as medidas legais para flexibilizar as leis trabalhistas, colocando
o poder de negociação entre capital-trabalho de forma direta, isto é, sem a intermediação
do Estado.
201

terceirização das atividades produtivas e de serviços para setores periféricos e


nucleares. Dentre as medidas maléficas à classe trabalhadora, a terceirização
ganha destaque porque

...é fato que a terceirização de alguns setores, imprime mudanças em toda a


cultura organizacional, mudanças na gestão da força de trabalho, mudanças nos
instrumentos da relação legal estabelecida pela empresa, mudanças no modo de
ser moral do trabalhador, mudanças no perfil socioeconômico do conjunto dos
empregados, mudanças no perfil de morbi-mortalidade dos mesmos e nas
possibilidades de exercício dos direitos de cidadania, bem como, mudanças no
meio ambiente (MELO; ALMEIDA; MATOS, 35/1998, p. 202).

É nesse universo metamorfoseado, contraditório, porém com a hegemonia


do receituário neoliberal nos espaços da produção de bens materiais e de consumo
e da reprodução social que o assistente social depara-se com um novo desenho no
seu espaço sócio-ocupacional, nas respostas às demandas postas e na sua própria
sobrevivência para conviver e permanecer empregado. É nesse universo que o
debate do projeto profissional em construção é flexionado correndo risco de ceder
espaços não só para a renovação das práticas conservadoras, mas também dos
conteúdos teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operacionais que
acompanham o dia a dia dos Assistentes Sociais desde a origem da profissão.

4.3.3 As Metamorfoses Provocadas no Setor de Serviços nas Instituições Públicas


Estatais e Privadas Filantrópicas e suas Refrações no Serviço Social

O setor de serviços reestruturou-se. Por um lado, ampliaram-se as


estruturas na esfera pública estatal e privada filantrópica, principalmente, com a
implantação do projeto neoliberal, mas por outro lado também provocou
modificações, enquanto resultado positivo, mas conquistas alcançadas pelos
assistentes sociais e áreas profissionais afins e/ou dos ativistas e teóricos que
militam na construção de uma sociedade emancipada.

Na esfera pública, estatal e privada, o receituário neoliberal, encontrou no


Estado o verdadeiro responsável pela situação da crise fiscal consolidada após
1970 “...desenvolvendo uma cultura política anti-Estado” (NETTO, 36/1996, p. 100).
Como receita, obrigou os países capitalistas a realizarem, conforme o grau de
interesse e possibilidade, a reforma do Estado. No Brasil, a reforma reduziu
assustadoramente os investimentos nas políticas sociais; desregulamentou as leis
trabalhistas; reformou as áreas da administração e da previdência social e criou
programas de privatização das empresas públicas produtivas.

Estas medidas contribuíram decisivamente para reduzir o número de


contratação de novos profissionais; alterou a forma de executar alguns serviços,
principalmente através de serviços terceirizados, ou de transferências direta e total
para a sociedade; alterou as demandas, isto é, o tipo de usuário mudou e as suas
exigências também. Porém, nos mesmos espaços e tempo, o movimento social
conseguiu colocar na agenda do dia duas significativas conquistas para a profissão
202

Serviço Social e áreas afins e, principalmente, para a massa da classe


trabalhadora, a garantia constitucional da Assistência Social como política pública e
a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Estas conquistas trouxeram
avanços para a área social, ampliando as ações dos Assistentes Sociais,
principalmente, na ampliação da contratação de profissionais para implantarem as
políticas sociais garantidas na LOAS e no ECA.

A lei orgânica da Assistência Social – LOAS – e o Estatuto da criança e do


adolescente, ECA, juntamente com a área da saúde, ampliaram as discussões no
interior da profissão, bem como abriram possibilidades para que o projeto
profissional se articulasse com o projeto social. Essas conquistas históricas estão
alterando parte significativa do espaço sócio-ocupacional e do trabalho técnico-
operativo dos profissionais, mas não o significado social profissional, embora
estejam ocorrendo algumas ações que sinalizam o rompimento com as práticas de
administração pública construídas historicamente no Brasil.

Esse movimento, inovar-conservando, apresenta graus de saturação com


maior evidência nas ações que vêm ocorrendo na área da política e da saúde.
Assim,

Se é verdade que a luta em torno da reforma sanitarista, levada a termo pelos


movimentos sociais e por segmentos dos agentes profissionais e políticos de
saúde, cristalizou um conjunto de princípios de luta - com a descentralização, a
participação democrática da sociedade civil e a integração das ações de saúde,
entre outros -, por outro lado, a sua tradução em mecanismo legal, como a
instituição dos conselhos,não significou automaticamente uma ruptura com a
prática de administração pública no interior desta política. Destacamos,
notadamente, os aspectos orçamentários e de custeio da saúde e os
mecanismos clientelistas e populistas que permanecem embasando a cultura
política das ações do estado com a sociedade civil (CARDOSO; FRANCISCO,
7/1998, p. 77).

Ao mesmo tempo, nestes mesmos espaços, os profissionais estão


aproximando-se e enfrentando os desafios das velhas e das novas demandas com
maior grau de politização, ou no limite, posicionando-se profissionalmente frente ao
debate teórico e nas ações práticas cotidianas.

Em resposta ao avanço destes dois movimentos: implantação das políticas


sociais garantidas na LOAS e do ECA, e a descentralização da política da saúde,
o governo Federal colocou em prática um projeto paralelo de intervenção junto à
sociedade por meio da primeira dama, Ruth Cardoso que, assessorada por um
conselho consultivo, estão tratando a “questão social” no Brasil com pressupostos
teóricos e ações práticas que negam a existência das políticas sociais da
Assistência Social, da Criança e do Adolescente e da Saúde. O Programa
Comunidade Solidária, expressão concreta de uma prática de corte fascista, por
meio de ações sutis e coercitivas que consomem um percentual significativo do
orçamento Federal e, com ações isoladas, o que explicita a ausência de
profissionalismo e a presença da manipulação dos recursos usados como moeda
203

política, tem contribuído para impedir os avanços necessários na implementação


das conquistas sociais acima referenciadas.

Apesar disso, a reforma do Estado e as conquistas sociais presentes na –


LOAS e no ECA e da Saúde, conseguiram alterar diretamente o espaço sócio-
ocupacional, bem como a intervenção dos assistentes sociais. Os profissionais
depararam-se com novas determinações que exigem respostas concretas, diretas e
indiretas, imediatas ou de longo alcance. Em outra dimensão, o próprio perfil
profissional – relação profissional-mercado –, também está sofrendo alterações. As
empresas, as instituições e as entidades privadas, as entidades e/ou organizações
Estatais estão requisitando e contratando profissionais com formação específica, ou
seja, com a apropriação de saberes teórico-metodológicos e com experiência
prática que respondam às necessidades das novas demandas. As refrações que o
Serviço Social vem sofrendo nas esferas públicas e privadas sinalizam para
mudanças no perfil profissional. Nesse movimento alguns desdobramentos
requerem dos profissionais respostas imediatas.

Porém, a discussão presente nos textos traz uma particularidade que é


preocupante: há ausência de pesquisas, reflexões e análises das refrações que o
Serviço Social vem sofrendo na esfera pública estatal e privada filantrópica.

4.4 AS REFRAÇÕES NO PERFIL PROFISSIONAL DOS ASSISTENTES SOCIAIS

As pesquisas e as reflexões até aqui apresentadas apontam para as


transformações societárias que ocasionaram mutações no espaço sócio-
ocupacional e no trabalho profissional, o que indica alterações no campo funcional
da profissão principalmente, na relação com o mercado. Estas exigências exigem
resposta, as quais os profissionais estão buscando por meio de ações teórico-
práticas ou técnico- operativas que, de certa forma, sinalizam não só a direção, mas
também a situação em que eles se encontram profissionalmente. 190 Pois, o mercado
começou a requisitar a presença de características (competências) que não eram
parte constitutiva da profissão, e a principal novidade é a exigência profissional
polivalente e multifuncional dos Assistentes Sociais. Hoje, o mercado não incorpora
profissionais apenas pela titulação. Exige-se experiência vivenciada e
especificidade em outras áreas.

Com esses novos papéis, os Assistentes Sociais que desenvolvem suas


atividades no interior das empresas e adotaram o modelo organizacional flexível -
introdução de princípios que se direcionam para a construção de uma nova cultura
empresarial estão respondendo às demandas em duas dimensões: (1)
interiorizando e exercitando ações práticas tradicionais, recuperando e
reatualizando antigos conteúdos, principalmente, por atuarem junto aos
trabalhadores, cujas exigências, muitas vezes, têm origem fora do espaço de

190
Este é o grande desafio colocado para os profissionais Assistentes Sociais,
pois “...o estreitamento das fronteiras entre as profissões sociais e o acirramento das
disputas, [indica que deve] prevalecer aquelas cuja funcionalidade seja adequada à ordem
burguesa, a instituição de novas profissões, a desprofissionalização e, até mesmo, a
extinção de determinadas profissões ” (GUERRA, 20/2001, p. 10).
204

trabalho (problemas enfrentados na comunidade, na família ou na esfera pessoal-


individual); (2) por meio de uma nova retórica, esses profissionais tornaram-se, não
só executores,mas também são empreendedores e gestores de “políticas sociais
modernas”, as quais têm como suporte a interiorização das categorias vinculadas
– participação qualidade e produtividade.

Para a elaboração, desenvolvimento e efetivação das “políticas sociais


modernas” os profissionais de Serviço Social que desenvolvem atividades nas
empresas “...como um dos mediadores da construção de uma outra racionalidade
técnica e política na área de recursos humanos” (CÉSAR, 10/1998, p. 138), estão
sendo requisitados para redimensionarem o uso das informações, assessorar as
gerências, garantir a eficiência-eficácia da racionalidade técnica e ideo-política da
força de trabalho, intermediar relações entre chefia e subordinados e realizar
trabalhos de cunho assistencial e educativo junto ao empregado e sua família. Estes
novos papéis são direcionados para garantir a continuidade de exploração da força
de trabalho, a qualidade no produto final, o aumento da produtividade e a
continuidade crescente do aumento e acúmulo do capital. O assistente social,
“...mais do que humanizar a produção, ou ajudar o trabalhador a enfrentar o
‘despotismo’ da fábrica, cabe ao Serviço Social colaborar pedagogicamente na
socialização de valores e comportamentos, que deságüem na integração dos
trabalhadores às novas exigências da produtividade” (CÉSAR, 10/1998, p. 124).

Por isso, há a necessidade de uma intervenção pedagógica que busque


garantir a adesão consentida do trabalhador. E, ao implementar este “novo papel”
profissional, o assistente social busca uma resposta teórico-metodológica, técnico-
operacional e ético-política que vá ao encontro dos interesses da empresa que, ao
mesmo tempo, garanta sua permanência enquanto profissional com vínculo
empregatício. A perspectiva conservadora, com traços renovadores está avançando
e alterando, no interior da empresa, o pensar e o fazer profissional. Isto ocorre
porque o assistente social, além de ser o responsável no repasse dos benefícios,
passou a executar atividades sócio-educativas interagindo com outros profissionais
do setor de recursos humanos. A lógica interna do trabalho em equipe, interação
com outros profissionais no mesmo espaço de trabalho exercitando ações
diversificadas, é que tem causado alterações, de forma substancial, no exercício da
profissão, porque as fronteiras existentes na divisão social e técnica do trabalho
estão sendo modificadas e tornam-se muito tênues e isto interfere, diretamente, na
função dos profissionais, de acordo com FRANCISCO (15/1996, p. 55).

Com esse novo desenho nos espaços sócio-profissionais de intervenção,


as empresas conseguem, também, redimensionar-conservando a compreensão
histórica do modelo fordista-taylorista em que,

...a qualificação, correspondência entre um saber, uma responsabilidade, uma


carreira, um salário, tende a se desfazer’, na medida em que a divisão social do
trabalho se modifica. Às exigências do posto de trabalho se sucede ‘um estado
instável da distribuição de tarefas onde a colaboração, o engajamento, a
205

mobilidade, passam a ser as qualidades dominantes (HIRATA191, apud


CARDOSO; FRANCISCO, 7/1998, p. 80).

Outra mudança que vem interferindo no trabalho profissional e no espaço


sócio-ocupacional e que tem provocado alterações no próprio perfil da profissão e
encontra seu vetor na precarização da força de trabalho são os baixos salários e as
condições de contrato de trabalho devido ao arrocho salarial. Os cortes nos
direitos sociais, combinados com o alto custo de vida, têm conduzido os
profissionais, de um modo geral, a aprofundarem o grau de pobreza material e
espiritual intensivamente porque muitos Assistentes Sociais não estão conseguindo
dar conta de suas necessidades básicas, o que dificulta uma capacitação
continuada. Aos poucos, os profissionais que se enquadram em uma faixa salarial
residual encontram dificuldades para permanecerem vinculados ao mercado de
trabalho formal.

A situação destes profissionais chegou a este ponto porque era na esfera


pública que se situava o espaço sócio-ocupacional de maior relevância histórica
para a profissão – com experiências acumuladas e maior número de profissionais
contratados. Mas, com a implantação da reforma do Estado, atividades que eram
essenciais à sociedade foram alteradas, principalmente, por meio do processo de
terceirização, dos projetos de privatização e dos programas de demissão voluntária.
Este fato concreto levou à redução exponencial e ao fechamento de postos de
trabalho. Por isso, fragilizados, os profissionais estão desenvolvendo atividades em
condições precárias: vínculo empregatício sem registro em carteira; vínculo com
outra nomenclatura profissional (recebendo salário menor), carga horária reduzida e
condições de trabalho não adequadas a sua intervenção cotidiana.

Estes acontecimentos, que apresentam indícios de modificação do perfil


profissional, têm contribuído para criar especulações em dois sentidos: (1) da tese
de que a profissão é dispensável ao mercado e que, a tendência da mesma é,
paulatinamente, deixar de ser reconhecida enquanto profissão com grau
universitário. (2) contrário a esta perspectiva, há os que acham necessário que se
assumam papéis diferenciados e novos, o que possibilitará a ampliação dos
espaços de atuação, garantindo a manutenção e ampliação do mercado de trabalho
dos assistentes sociais.

Na contra mão do projeto societário burguês, hegemônico na sociedade,


os assistentes sociais não se intimidaram e estão revertendo o projeto profissional.
Esta ênfase iniciou-se desde os primeiros anos da década de 1980, quando, ao
debater em os fundamentos teórico-metodológicos e históricos da profissão
conseguiram implementar uma nova racionalidade na forma de apreender a
sociedade, isto é, o projeto profissional teórico-metodológico e ético-político vem
construindo o estatuto de hegemonia sob a orientação crítica social. Isso ocorreu
porque a perspectiva de sociedade sob as necessidades imediatas e reais da
classe proletária e demais frações da classe trabalhadora ganhou legitimidade no
interior da profissão, possibilitando e sedimentando um novo estatuto para a
formação profissional acadêmica. Esta inflexão trouxe, em sua esteira, a presença
191
HIRATA, Helena. Da polarização das qualificações ao modelo da competência.
In: FERRETTI, C. J. et.al. Novas tecnologias, trabalho e educação. um debate
multidisciplinar. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 143.
206

sólida porém, ainda tímida, da pesquisa. Essa inserção dos profissionais no campo
da pesquisa demarcou uma mudança profunda no espaço sócio-ocupacional, no
trabalho profissional e na formação profissional.

Portanto, foi a partir da década de 1980, que o Serviço Social ampliou seu
leque de pesquisas, principalmente com a abertura de cursos de pós - graduação
nos anos de 1970. No entanto, são os desafios teóricos-metodológicos articulados
com a dimensão ética e ideo-política que possibilitou que o Serviço Social
desenhasse e implementasse mudanças profundas na profissão e culminasse com
a construção de um novo código de ética profissional, com a aprovação da lei de
regulamentação da profissão e com a nova revisão curricular bem como com a
hegemonia do projeto profissional amparado em fundamentos críticos.

As pesquisas ganharam estatuto de cientificidade e foram reconhecidas


pelos órgãos institucionais na esfera nacional (CAPEs e CNPq), bem como nas
instâncias Estaduais. Este avanço propiciou as pesquisas, antes particulares das
Ciências Sociais, fossem realizadas pelos assistentes sociais. Além de contribuirem
para o conhecimento geral e específico, elas colocaram em foco novas temáticas
e/ou garantiram a permanência da continuidade de algumas discussões que
discorriam sobre as metamorfoses da “questão social” e que saíram de cena em
outras áreas. Esta forma de tratar os objetos de pesquisa alcançou reconhecimento
na academia, mas também e, principalmente, dos usuários que necessitam de uma
intervenção do serviço social no cotidiano.

O reconhecimento profissional conquistou espaços significativos na esfera


política. Através das pesquisas, o Serviço Social aproximou-se e está apropriando-
se de particularidades das manifestações expressivas da “questão social”, o que
vem garantindo a possibilidade de responder às demandas com maior grau de
profissionalismo, atingindo resultados qualitativos. Porém, é importante registrar
que este caminho ainda é muito recente e precisa-se ampliar esta particularidade
dos profissionais intervirem. Destacam-se também os avanços das pesquisas
realizadas pelos Assistentes Sociais na área da saúde (FREIRE, 17/1998).

O caminho da pesquisa foi um dos passos decisivos que vem contribuindo


para que os profissionais: (1) construam um novo projeto político pedagógico que
busque responder aos desafios demandados pelo mercado e além dele; (2)
ampliem e intensifiquem a sedimentação do projeto profissional, hoje, hegemônico
na profissão. Com estas duas determinações, articuladas com as organizações
categoriais e de classe, os profissionais estão construindo, também, alternativas
que respondem e articulam-se com o projeto societário vinculado aos anseios da
classe trabalhadora. No entanto, frente às novas exigências apresentadas pelo
mercado e da compreensão ontológica crítica da realidade em desvendar as reais
necessidades presentes no interior da sociedade civil, fruto das relações
contraditórias entre capital-trabalho, é fundamental entender que “...o
acompanhamento dos processos sociais e a da realidade social passam a ser
encarados como componentes indissociáveis do exercício profissional, e não como
atividades ‘complementares’, que podem ser eventualmente realizadas, quando se
dispõe de tempo e condições favoráveis” (IAMAMOTO, B/1998, p. 101).192
192
NETTO (2002b, p. 19) chama a atenção dos profissionais para não fazer a
pesquisa pela pesquisa pois este procedimento não possibilita que nós possamos ,”...ir
além dos dados. Se a gente não for além do dado nós não conseguiremos legitimar
207

As transformações vêm exigindo que os profissionais, enquanto categoria


profissional, no interior das Unidades de Ensino interiorizem o debate crítico e
plural. A discussão direcionada pela ABESS-CEDEPSS e depois ABEPSS 193, em
conjunto com o CEFSS-CRESS, conseguiu polemizar as questões em jogo, o que
tem permitido alterar a grade curricular e responder aos desafios postos pelas
transformações societárias em processo. É nesta relação entre a academia e a base
profissional que novos espaços de debate foram abertos, principalmente nos
eventos local, regional, estadual e nacional. Na década de 1990, entre 1994 e 2000,
o debate ganhou densidade. Algumas Unidades de Ensino ampliaram a discussão e
elaboraram uma nova grade curricular aprovada em 1996, as quais estão sendo
utilizadas como base primária de discussão. A centralidade da proposta curricular
pretende construir “...um profissional afinado com a análise dos processos sociais,
tanto em suas dimensões macroscópica quanto em suas manifestações quotidianas;
um profissional criativo e inventivo, capaz de entender o ‘tempo presente, os
homens presentes, a vida presente’e nela atuar, contribuindo, também, para moldar
os rumos de sua história” (IAMAMOTO, B/1998, p. 49).

Anteriormente à discussão desencadeada durante década de 1990 e que


continua até hoje a respeito do projeto da formação profissional – currículo mínimo
do Serviço Social –, a categoria discutiu e aprovou seu Código de Ética, o qual nos
indica

...um rumo ético-político, um horizonte para o exercício profissional. O desafio é


a materialização dos princípios éticos na cotidianidade do trabalho, evitando que
se transformem em indicativos abstratos, deslocados do processo social. Afirma,
como valor ético central, o compromisso com a nossa parceira inseparável, a
liberdade. Implica a autonomia, emancipação e a plena expansão dos indivíduos
sociais, o que tem repercussões efetivas nas formas de realização do trabalho
profissional e nos rumos a ele impresso (IAMAMOTO, B/1998, p. 77).

O que vem garantindo, em sua essência, a materialização das conquistas


históricas da década de 1980.

4.5 AS REFRAÇÕES NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL, A “QUESTÃO SOCIAL” E


O SERVIÇO SOCIAL: AS CATEGORIAS TRABALHO E PROCESSO DE
TRABALHO EM DEBATE

A compreensão de que o Serviço Social é trabalho e possui um processo


de trabalho, conforme expresso nas obras clássicas marxiana e da tradição
marxista, instaurou, no interior da categoria dos assistentes sociais, um debate no
campo, no mínimo, polêmico, o qual vem sendo referenciado nas Unidades de
Ensino, nas Oficinas da ABEPESS, nos Congressos, nos encontros dos Estudantes
e nas produções: monografias, TCC, dissertações, teses, artigos e livros. Por isso,

socialmente a nossa profissão”.


193
Na Assembléia Nacional da ABESS em dezembro de 1998 em Brasília, a
entidade deixou de ser ABESS-CEDEPSS e passou a ter a ser chamada de ABEPSS.
208

os materiais da pesquisa – base empírica da construção deste capítulo de tese, traz


o cerne desta discussão. Nesse sentido, não é possível afirmar-se que a temática
explicita um acontecimento de segunda classe, 194 porque a origem do debate está
intimamente ligada ao processo de revisão curricular, instaurada no início da
década de 1990, no interior da categoria dos assistentes sociais. Segundo
IAMAMOTO (B/1998, p. 11),

A preocupação com o tema ‘Serviço Social e Processos de Trabalho’ foi


provocada no conjunto de debates, promovidos pela Associação Brasileira de
Ensino em Serviço Social – ABESS – e pelo Centro de Documentação em
Política Social e Serviço Social – CEDEPSS -, por ocasião do processo de
revisão curricular dos cursos de graduação em Serviço Social. Essa revisão foi
sistematizada em uma Proposta de Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço
Social, conforme o preconizado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional.

Portranto, a polêmica instaurada apresenta duas questões centrais que


merecem ser apreciadas: (1) a inflexão demarcada historicamente e presente nas
posições teórico-metodológicas realizadas por Iamamoto; (2) a inflexão realizada
por Iamamoto e pela categoria tem a concordância e a crítica expressiva no
interior da profissão.195

Até o presente momento, é Iamamoto (A/1983) quem abordou a temática


com maior ênfase no que se refere à centralidade da discussão. A autora colocou
uma marca na profissão, redefiniu a compreensão da natureza do Serviço Social, e
avançou na compreensão do Serviço Social, enquanto uma profissão inserida na
divisão técnica e social da especialização do trabalho coletivo que se põe nas
ações e responde, cotidianamente, por meio da execução das políticas sociais,
enquanto estratégias de governo, e que ao mesmo tempo busca responder às
expressões da “questão social” como fruto da relação antagônica e contraditória
entre capital-trabalho. Nesse momento, IAMAMOTO (A/1983) coloca que o Serviço
Social é uma disciplina que intervém na esfera da reprodução social, seja nos
espaços públicos ou privados, onde a intervenção realizada pelos profissionais
caracteriza-se enquanto trabalho assalariado. 196 Esta compreensão trouxe para a
categoria dos assistentes sociais um salto qualitativo. Ao tratar o assistente social
194
“O debate acerca da identidade ou diferença entre trabalho e Serviço Social
expressa um momento de crescimento da produção teórica na profissão e talvez sinalize
uma nova relação com o conjunto da produção das Ciências Humanas [e da teoria social].
De forma diferente do passado, hoje os conhecimentos teórico-filosóficos de que o Serviço
Social necessita terão que ser, em parte significativa, produzidos no seu próprio interior”
(LESSA, 28/2000a, p. 56)
195
Além do documento “Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social”
presente no Cadernos Abess nº 7, 1997, bem como as contribuições de IAMAMOTO
(B/1998 e 24/2001b), outros autores estão tratando da mesma temática, apresentando
graus de compreensão próxima aos textos basilares utilizados no ítem 4.3.1.4 desta tese.
Destacam-se: ALMEIDA (2/1996); BARBOSA, CARDOSO e ALMEIDA (4/1998); CARDOSO
(8/2001); CÉSAR (10/1998); GRANEMANN (19/1999); RAMOS e GOMES (41/2000);
SERRA (C/2000). No entanto, contrariando a compreensão dos autores já citados,
encontramos a crítica em: LESSA (27/1999); LESSA (28/2000a); LESSA (29/2000b);
COSTA (a/1999); HOLANDA (21/2002).
209

enquanto um trabalhador assalariado demarcou-se a vinculação que este


profissional tem com a classe operária e demais frações da classe trabalhadora.
Neste sentido, as ações que o assistente social realiza são imbuídas de uma
intencionalidade, construída pela lógica conservadora ou crítica e explicitam
conteúdos de classe social.

Enquanto um trabalhador assalariado, o assistente social é enquadrado


nas regras criadas e negadas no espaço do mercado. Este avanço de compreensão
teórica vem contribuindo para que a categoria dê saltos qualitativos no campo da
formação profissional e nas diferentes formas interventivas cotidianas, destacando-
se a presença ampliada nos debates organizados pela categoria e fora dela, na
intervenção no âmbito da academia e da intervenção prática. Este processo,
ocorrido devido às novas construções propositivas, no interior da própria categoria,
vem efetivando: (1) a opção na esfera da formação pela teoria social de Marx e da
tradição marxista presente no Serviço Social, com maior segurança e domínio, a
partir da década de 80; (2) a presença garantida do pluralismo na agenda diária da
profissão; (3) a realização de pesquisas no âmbito da particularidade das
expressões da “questão social”, como fonte primária das nossas ações cotidianas,
e também com a exaustiva entrega nas pesquisas voltadas para a natureza da
profissão, ambas referenciadas pelo corpo teórico crítico; (4) a aproximação da
categoria em relação às demandas em dois níveis: (4.1) através das
sistematizações de informações e pesquisas com base primária e secundária,
permitindo decifrar, com maior precisão, as faces da realidade e do real sob a
compreensão articulada do universal e do particular; (4.2) a posição ético-política
demarcada nos conteúdos presentes nos Códigos de Ética de 1986 e 1993, como
também através de aproximações com o conteúdo crítico – teórico, metodológico e
histórico – desde a década de 1960, ganhando maturidade a partir da segunda
metade da década de 1980. Todas estas ações possibilitaram avançar-se na
elaboração do projeto político profissional e sua materialização no currículo mínimo
aprovado em 8/11/1996, responsável pela construção de um novo perfil profissional,
possibilitando demarcar-se posições e avançar-se no processo de ruptura com o
conservadorismo.

Porém, a reestruturação produtiva, posta pelo capital, a implantação do


receituário neoliberal e a redefinição do setor de acumulação, priorizando-se a
esfera terciária - área financeira -, tem refletido no Serviço Social, em suas
diferentes instâncias, repondo-se a construção conservadora, cujos sinais de um
certo revigorar estão sendo apontados no interior da profissão, com nova dimensão
e adornos modernos. Mesmo assim, o pensar e o fazer dos profissionais nas
instâncias imbricadas indicam que o caminho percorrido tem avançado
consideravelmente na construção de um projeto profissional comprometido com as
necessidades reais da classe proletária e demais frações da classe trabalhadora,
conferindo, na atualidade, o estatuto do projeto profissional hegemônico.

Frente ao movimento histórico que se encontra no interior da sociedade,


no período após 1970, e também no movimento da própria profissão, Serviço Social,
IAMAMOTO (B/1998, p. 11) chama a atenção para a necessidade de alargar-se a
compreensão do exercício profissional, contribuindo “...para uma releitura do
196
Entendendo que “...a condição de trabalhador assalariado não só enquadra o
Assistente Social na relação de compra e venda de trabalho, mas molda a sua inserção
sócio-institucional na sociedade brasileira” (IAMAMOTO, B/1998, p. 63).
210

exercício profissional, que permita ampliar a autoconsciência dos assistentes


sociais quanto às condições e relações de trabalho. Estas sendo mutáveis, já que
históricas, estabelecem limites e possibilidades para as ações dos sujeitos, que vão
‘esculpindo’ forma e conteúdo na realização da profissão”. Para a autora, as
ofensivas colocadas pelo capital e aplicadas com rigor após 1970, exigem um
repensar da compreensão do que seja o Serviço Social. Esta discussão ganhou
dinamicidade no momento em que a ABESS e o Centro de Documentação e
Pesquisa em políticas Sociais e Serviço Social – CEDEPSS - criaram as condições
materiais para rediscutir a revisão currícular da profissão. 197 É neste momento que
Iamamoto e outros profissionais trazem para o interior da categoria e divulgam a
compreensão de que o Serviço Social é trabalho e possui um processo de trabalho
conforme é expresso na compreensão da teoria social de Marx e pela tradição
marxista. Esta inflexão realizada por Iamamoto tem sua expressão máxima durante
os debates na construção das Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, 198
momento em que enfatiza: “...o debate sobre o Serviço Social inscrito no âmbito de
processos de trabalho, aliado à abertura de oportunidades de capacitação
permanente, poderá representar um estímulo a ampliar a auto-consciência dos
profissionais quanto ao seu próprio trabalho e as condições e relações sociais em
que é realizado...” (IAMAMOTO, B/1998, p. 106).

Para explicitar o conteúdo temático – O processo de Trabalho do Serviço


Social -, a exposição e a análise a seguir serão baseadas nos dois documentos: o
primeiro documento (CADERNOS ABESS, 1997, p. 63), quando trata das Diretrizes
Gerais para o Curso de Serviço Social com base no Currículo Mínimo aprovado em

197
“...a ‘Proposta de diretrizes gerais para O Curso de Serviço Social’, produto
de um amplo e sistemático debate realizado pelas Unidades de Ensino a partir de 1994,
quando a XXVIII Convenção Nacional da Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social
– ABESS –, ocorrida em Londrina (PR), em outubro de 1993, deliberou sobre os
encaminhamentos da revisão do currículo mínimo vigente desde 1982 (Parecer CFE nº
412, de 4/8/1982 e Resoluções nº 6, de 23.9.82). (...) Entre 1994 e 1996 foram realizadas
aproximadamente 200 (duzentas) oficinas locais, nas 67 unidades acadêmicas filiadas à
ABESS, 25 (vinte e cinco ) oficinas regionais e duas nacionais” (CADERNOS ABESS,
1997, p. 58).
198
“O documento Proposta Básica para o Projeto representou um dos produtos
deste debate, que culminou com a aprovação em Assembléia Geral da Associação, do
Documento de Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, entregue ao Conselho
Nacional de Educação do MEC em Março de 1997” (CADERNOS ABESS, 1997, p. 4). “A
elaboração desse documento teve a supervisão da Professora Marilda Vilela Iamamoto”
(CADERNOS ABESS, 1997, p. 15).
211

Assembléia Geral Extraordinária, em 8 de novembro de 1996 199, é central e inovador


na efetivação dos núcleos de fundamentação profissional.

...Entende-se que a efetivação de um projeto de formação profissional remete,


diretamente, a um conjunto de conhecimentos indissociáveis, que se traduzem
em núcleos de fundamentação constitutivos da formação profissional. São eles:
(1) núcleo de fundamentação teórico-metodológicos da vida social; (2) núcleo de
fundamentos da formação sócio-histórica da sociedade brasileira; (3) núcleo de
fundamentos do trabalho profissional.

Estes apresentam conteúdos que buscam abranger e responder às reais


necessidades da proposição presente no Projeto Político Pedagógico da Profissão,
instância norteadora da formação profissional no momento da graduação. Estes
núcleos buscam, na diferença das suas formatações, sedimentarem uma unidade.

No momento em que é explicitado o conteúdo do núcleo de fundamentos


do trabalho profissional, compreende-se que o Serviço Social é possuidor de um
processo de trabalho próprio. Assim:

O conteúdo deste núcleo considera a profissionalização do Serviço Social como


uma especialização do trabalho e sua prática como concretização de um
processo de trabalho que tem como objeto as múltiplas expressões da questão
social. Tal perspectiva permite recolocar as dimensões constitutivas do fazer
profissional, articuladas aos elementos fundamentais de todo e qualquer
processo de trabalho: o objeto ou a matéria-prima sobre a qual incide a ação
transformadora; os meios de trabalho – instrumentos, técnicas e recursos
materiais e intelectuais que propiciam uma potencialização da ação humana
sobre o objeto; e a atividade do sujeito direcionada por uma finalidade, ou seja,
o próprio trabalho. Significa, ainda, reconhecer o produto do trabalho profissional
em suas implicações materiais, ideo-políticas e econômicas. A ação profissional
assim compreendida, exige considerar as condições e relações sociais

199
As firetrizes Curriculares aprovada pela categoria dps Profissionais assistentes
Sociais em 8/11/1996, representou mais um momento da força organizada dos
profissionais. Após debater a temática em diferentes instâncias (reuniões, assembléias,
encontros e oficinas), construiu o que entendemos, naquele momento, o caminho que as
Unidades de Ensino devem seguir para responder aos desafios colocados pelas
transformações societárias após 1970. Porém, com os fundamentos assentados na lógica
de mercado, o Conselho Nacional de Educação-Câmara Superior de Educação, através do
Parecer 492/2001 de 3/4/2001, sob o processo nº 23001000126/2002-69, aprovou as
Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Filosofia, História, Geografia, Serviço
Social, Comunicação Social, Ciências Sociais, Letras, Biblioteconomia, Arquivologia e
Museologia, tendo como relatores: Eunice RibeiroDurham, Silke Weber e Vilma Mendonça
Figueiredo, e posteriormente por meio da Resolução CNE-CES 15, de 13/03/2002,
publicada em DOU de 9 de abril de 2002 o processo se efetivou no campo da legalidade.
O texto legal aprovado conforme o parecer 492/2001 e a Resolução CNE-CES 15, alterou
as Diretrizes aprovadas pela Categoria dos assistentes sociais em 8/11/1996. De acordo
com IAMAMOTO (2002b, p. 22) a alteração “...sofreu uma forte descaracterização tanto na
sua direçãosocial , quanto na base dos conhecimentos e habilidades considerados
essenciais ao desempenho profissional do assistente social”.
212

historicamente estabelecidas, que condicionam o trabalho do Assistente Social;


os organismos empregadores (públicos e privados) e usuários dos serviços
prestados; os recursos materiais, humanos e financeiros acionados para a
efetivação desse trabalho, e a articulação do Assistente Social com outros
trabalhadores, como partícipe do trabalho coletivo (CADERNOS ABESS, 1997, p.
66).

A formatação do Currículo, também composta por um leque de matérias


“...expressões de áreas de conhecimentos, necessárias à formação profissional que
se desdobram em: disciplinas, seminários temáticos, oficinas/laboratórios,
atividades complementares e outros componentes curriculares...” (CADERNOS
ABESS, 1997, p. 68), apresenta, em seu conjunto a matéria básica, o Processo de
Trabalho do Serviço Social, a qual é constituída com o seguinte conteúdo:

Processo de Trabalho do Serviço Social: o trabalho como elemento fundante do


ser social. Especificidade do trabalho na sociedade burguesa e a inserção do
Serviço Social como especialização do trabalho coletivo. O Trabalho profissional
face às mudanças no padrão de acumulação capitalista e regulação social. Os
elementos constitutivos do processo de trabalho do Assistente Social
considerando: a análise dos fenômenos e das políticas sociais; o estudo da
dinâmica institucional; os elementos teórico-metodológicos, ético-políticos e
técnico-operativos do Serviço Social na formulação de projetos de intervenção
profissional ; as demandas postas ao Serviço Social nos espaços ocupacionais
da profissão, nas esferas públicas e privadas e as respostas profissionais a
estas demandas. O Assistente Social como trabalhador e o produto do seu
trabalho. Supervisão do processo de trabalho e o estágio (CADERNOS ABESS,
1997, p. 70-71).

Deslocando-se para a compreensão presente no segundo documento –


Diretrizes gerais para o curso de Serviço Social -, IAMAMOTO (23/2001a, p. 67-
104) em seu artigo, “O Debate Contemporâneo do Serviço Social e a Ética
Profissional”, e em sua obra: “O Serviço Social na Contemporaneidade”, explicita
sua inflexão sobre a temática em discussão, deixando indícios de estar convivendo
com a discussão em condições adversas, tensas. Este fator deixa dúvidas em sua
exposição e análise da temática podendo levar, os leitores menos atentos, a um
entendimento ambíguo em relação a suas posições demarcadas na década de 1990
em relação à temática em questão.

Num primeiro momento, IAMAMOTO (23/2001a, p. 101) explicita em sua


compreensão, a existência de um processo de trabalho do Serviço Social, afirmando
que este “...é radicalmente polarizado por (...) interesses de classes, que se recriam
contraditoriamente além da intencionalidade dos sujeitos individuais, não podendo
ser ‘eliminados’ das condições de trabalho do profissional.”

E a discussão ganha densidade no momento em que IAMAMOTO (B/1998,


p. 62) pergunta: quais são os elementos constitutivos do processo de trabalho do
Serviço Social, isto é: “...qual é o objeto de trabalho do Serviço Social? Como
repensar a questão dos meios de trabalho do assistente social? Como pensar a
própria atividade e/ou o trabalho do sujeito? E qual é o produto do trabalho do
assistente social?.”
213

Em seguida, a autora define quais são os respectivos conteúdos presentes


nos elementos do processo de trabalho. Enfatizando ser o Serviço Social uma
especificidade do trabalho inserido na divisão social e técnica do trabalho coletivo,
entendendo que o Serviço Social insere-se nos diferentes processos de trabalho
presentes na esfera da produção e da reprodução. Expõe a autora:

1) “O objeto de trabalho, aqui considerado, é a ‘questão social’. É ela, em


suas múltiplas expressões, que provoca a necessidade da ação
profissional junto à criança e ao adolescente, ao idoso, a situações de
violência contra a mulher, a luta pela terra etc. Essas expressões da
‘questão social’ são a matéria-prima ou o objeto do trabalho
profissional.” (IAMAMMOTO, 1998, p. 62);

2) “...O conjunto de conhecimentos e habilidades adquiridos pelo


assistente social ao longo do seu processo formativo são parte do
acervo de seus meios de trabalho.” (IAMAMOTO, B/1998, p. 63);

3) ...o assistente social não realiza seu trabalho isoladamente, mas como parte
de um trabalho combinado ou de um trabalhador coletivo que forma uma
grande equipe de trabalho. Sua inserção na esfera do trabalho é parte de um
conjunto de especialidades que são acionadas conjuntamente para a
realização dos fins das instituições empregadoras, sejam empresas ou
instituições governamentais. (...) O trabalho é uma atividade humana exercida
por sujeitos de classes. (IAMAMOTO, B/1998, p. 63-64)

Presentes os três elementos constitutivos do processo de trabalho (objeto,


meios e o próprio trabalho) Iamamoto, conclui:

...os resultados ou produtos dos processos de trabalho em que participam os


assistentes sociais situam-se tanto no campo da reprodução da força de
trabalho, da obtenção das metas de produtividade e rentabilidade das empresas,
da viabilização de direitos e da prestação de serviços públicos de interesse da
coletividade, da educação sociopolítica, afetando hábitos, modos de pensar,
comportamentos, práticas dos indivíduos sociais em suas múltiplas relações e
dimensões da vida cotidiana na produção e reprodução social, tanto em seus
componentes de reiteração do instituído, como de criação e re-invenção da vida
em sociedade (IAMAMOTO, B/1998, p. 111-112).

No entanto, IAMAMOTO (B/1998, p. 107) chama a atenção para duas


questões, as quais mostram a tensão presente na compreensão da autora.

...A denominação de ‘processo de trabalho do Serviço Social’ nos documentos da


ABESS representou um deslize, uma vez que o trabalho é atividade do sujeito e
não da profissão, como instituição. (...) Uma segunda implicação é que o
processo de trabalho em que se insere o assistente social não é por ele
organizado e nem é exclusivamente um processo de trabalho do assistente
214

social, ainda que nele participe de forma peculiar e com autonomia ética e
técnica (IAMAMOTO, B/1998, p. 107).

A tensão, presente demonstra que Iamamoto redimensiona sua


compreensão sobre a temática, porém a centralidade do entendimento não saiu de
foco. Iamamoto quer garantir que existe um processo de trabalho na esfera da
reprodução – processo este que pode contribuir para acelerar o movimento da
metamorfose do capital. Ao admitir que as Diretrizes Curriculares cometeram um
deslize em afirmar que o Serviço Social é trabalho estrito senso e que possui um
processo de trabalho próprio, Iamamoto não deixa de compreender que o
trabalhador assistente social, ao interferir na esfera da reprodução social, é
portador e opera com os elementos que compõem o processo de trabalho
compreendido por Marx, quer dizer, o assistente social enquanto um trabalhador
profissional coletivo, objetiva-se sobre um dado objeto, possui seus meios de
trabalho e atua como um trabalhador, e no final do processo, apresenta um produto
social. Entende-se que os elementos, parte constitutiva do processo de trabalho
compreendido por Marx, e que tem no trabalho o elemento central, é quem cria as
condições objetivas concretas para transformar a natureza, não pode e não deve
ser transferido para as especializações profissionais que desenvolvem suas ações
na esfera da reprodução social.

Colocada a discussão no interior da categoria, não tardou para que se


instaurasse a polêmica. Além das publicações mencionadas 200, o debate também
ampliou-se em outros espaços, ganhando destaque no (10º Congresso Nacional
dos Assistentes Sociais – CBAS, 2001) -, momento em que dois eixos temáticos
(Trabalho e formação profissional e Relações de Trabalho e Serviço Social)
trouxeram a discussão à baila. Estes momentos singulares de produção de artigos
nos diferentes Fóruns da categoria apresentou posições teóricas que fazem a crítica
e a compreensão do documento das Diretrizes, bem como as posições assumidas
por alguns autores mencionados anteriormente.

No campo da crítica, os autores LESSA (27/1999, 28/2000a, e 29/2000b);


COSTA (a/1999) e HOLANDA (22/2002) argumentam sobre o referencial clássico
marxiano e da tradição marxista, tendo como destaque o referencial teórico-
metodológico de Lukács. Enquanto ponto de partida, LESSA (27/1999, 28/2000a e
29/2000b) entende que o Serviço Social não é trabalho e, portanto, não possui um
processo de trabalho próprio. Lessa explicita que o Serviço Social desenvolve suas
atividades na esfera da reprodução social, portanto, nas instâncias da organização
da produção e social.

Segundo LESSA (28/2000a), o equívoco presente no texto das Diretrizes


traz duas questões: (1) ser a discussão um problema meramente técnico da
instrumentalidade do Serviço Social ou, (2) um problema de identidade do Serviço
Social. A discussão passa pela segunda questão que Lessa explicita ser a negação
dos fundamentos ontológicos construídos por Marx que compreende ser a categoria
trabalho a protogênese da existência humana. Sem a existência da categoria
trabalho – mediação concreta para a realização do processo de trabalho, criando
um campo de possibilidades concretas para dominar a natureza e colocar a
produção social a serviço dos próprios homens, não existiria vida humana.
200
Verificar nota 195.
215

Para Marx, trabalho é uma atividade que somente tem seu lugar de
existência na esfera da produção. O trabalho é a mediação portadora, responsável
por colocar a pré-ideação em movimento, isto é, objetivar-se sobre um dado objeto –
matéria-prima ou bruta – que se põe enquanto uma causalidade, presentes de suas
próprias legalidades, possibilitando que a causalidade seja transformada em uma
causalidade posta, ou seja, num produto final que não é idêntico ao momento pré-
ideado, mas que expressa uma unidade nas diferenças do processo – teleologia e
causalidade – momento em que as diferenças atingem possíveis pontos de
afirmação e negação. O produto final, fruto da objetivação realizado pelas ações
humanas através do trabalho, é um resultado material, portanto, resultado que
expressa um momento ou momentos da transformação da natureza não humana. Ao
mesmo tempo, o processo do trabalho possibilita a transformação dos próprios
homens – os homens põem necessidades -, ampliando suas potencialidades em
direção ao ser genérico ou negando-as. Enfatiza Lessa: trabalho pra Marx é
somente reconhecido enquanto elemento do processo de trabalho produtivo.
Trabalho que, numa primeira instância produz valores de uso. No modo de
produção capitalista, estes valores de uso ganham dimensão universal
transformando-se em valores de uso social, ou seja, em mercadorias. Neste
momento, as categorias secundárias, explicitadas por Lukács ganham espaços e
complexidade.

Todas as relações que não se encontram na esfera da produção – fazem


parte da esfera da reprodução social. Neste espaço – mais complexo -, é que ocorre
a organização da vida social para que a produção se realize em quantidade
lucrativa, com qualidade e equilíbrio. Uma das dimensões centrais da esfera da
reprodução social é o controle. Conforme o projeto societário responsável e do
poder hegemônico, que comanda ideologicamente este espaço, podem ampliar-se
as dimensões humanas como também pode-se negá-las. LESSA (28/2000a, p. 54)
conclui problematizando: (1) há uma diferença fundamental entre organizar a vida
social para tornar possível uma dada produção material e produzir os bens
materiais; (1.1) se a produção e a organização são instâncias que não se
diferenciam, como afirmar que o trabalho é a protogênese da vida humana;? (1.2)
se todas as práxis sociais forem equiparadas, acabou a luta de classe?; (1.3)
podemos cair no idealismo, no reformismo, pós-modernismo e até no irracionalismo.
Para o autor, o Serviço Social não é trabalho, pois não transforma a natureza nos
bens necessários a reprodução social. Neste sentido:

...o Serviço Social é um complexo social da esfera da reprodução. Não é


trabalho, nem processo de trabalho, porque não efetua transformação da
natureza nos bens materiais necessários à sociedade, antes participa como uma
das mediações que, indiretamente na maior parte das vezes, organizam a
sociedade de tal modo a tornar a produção material (o trabalho) possível na sua
forma contemporânea,capitalista. Neste preciso sentido, embora seja um
assalariado, o assistente social, como todo outro assalariado não operário, vive
da riqueza produzida pela classe operária (LESSA, 29/2000b, p. 29)

Seguindo as mesmas fundamentações de LESSA (27/1999, 28/2000a e


29/2000b), COSTA (a/1999, p. 82-83) ao contestar as compreensões presentes no
texto das Diretrizes e nas afirmações postas por Iamamoto, explicita: “O problema
216

consiste em identificar-se o fato de uma profissão resultar da divisão do trabalho a


tornar um processo de trabalho”.

Para fundamentar a negação do problema levantado, COSTA (a/1999) em


sua Dissertação de Mestrado – Trabalho e Serviço Social: debate sobre a
concepção de Serviço Social como processo de trabalho com base na Ontologia de
Georg Lukács, explicita suas críticas. Costa inicia seu diálogo com o problema
levantado e explicita as bases que fundamentam suas premissas.

Assim como Marx, Lukács concebe o trabalho como uma categoria exclusiva do
ser social e, a teleologia, como um momento existente apenas no trabalho. Para
o filósofo húngaro “ o trabalho não é uma das muitas formas fenomênicas da
teleologia em geral, mas o único lugar onde se pode demonstrar
ontologicamente a presença de um verdadeiro pôr teleológico como momento
efetivo da realidade material (COSTA, a/1999, p. 19).

Neste sentido, “...o trabalho é aquela atividade humana singular que


medeia a troca orgânica do homem com a natureza, transformando objetos
materiais em objetos sociais” (COSTA, a/1999, p. 43) É neste momento que as
posições teleológicas secundárias entram em cena, provocando “...modificações
significativas no complexo do trabalho” (COSTA, a/1999, p. 47).

Neste ângulo de compreensão, Costa busca em Lukács a compreensão de


ideologia pois, para a autora, o Serviço Social tem como fundamento em suas
atividades a ideologia. “A ideologia é acima de tudo aquela forma de elaboração
ideal da realidade que serve para tornar a prática social dos homens consciente e
operativa” (LÚKACS, apud COSTA, a/1999, p. 61) “...Assim, qualquer resposta que
os homens venham a formular em relação aos problemas decorrentes do seu
ambiente econômico-social pode tornar-se ideologia ao orientar a prática social,
conscientizá-la e operacionalizá-la” (COSTA, a/1999, p. 61).

Fundamentada em Lukács, na compreensão de ideologia, categoria que é


construída e faz-se presente na esfera da teleologia secundária, Costa adverte que,
no cotidiano da vida humana, as teleologias – primárias e secundárias -, explicitam
duas diferenças significativas.

...a primeira e fundamental diferença na busca dos meios entre teleologia


primária e SECUNDÁRIA é que na segunda o objeto são os próprios homens,
suas ações e seus afetos. A segunda diferença, decorrente da primeira, consiste
na ampliação do grau de incerteza frente ao objeto nas posições teleológicas
secundárias, dificultando a captura das tendências do processo em curso e
possibilitando somente um conhecimento post festum, mas ainda assim, racional
(COSTA, a/1999, p. 56).

As diferenças apresentadas subsidiam a compreensão de Costa ao afirmar


que o Serviço Social não é trabalho e não possui um processo de trabalho.
217

No nosso entendimento, se o Serviço Social exerce uma função no âmbito dos


conflitos, a busca de dirigir-se ao comportamento dos indivíduos decorre
essencialmente dessa sua prática, enquanto manifestação da função ideológica.
Os conflitos derivados da totalidade social manifestam-se basicamente na
consciência dos indivíduos. Isso significa que o serviço social age na realidade
tendo por base um momento ideal a partir do qual opera como posição
teleológica secundária. Entendemos ainda que, por isso, a prática profissional
dos assistentes sociais é perpassada por ações muito próximas aos processos
educativos e, muitas vezes, adquirem também a dimensão política, inserindo-se
no campo das lutas por melhores condições de vida, de saúde, educação,
trabalho etc (COSTA, a/1999, p. 97-98).

COSTA (a/1999, p. 106) enfatiza:

A análise da concepção de Serviço Social com base no pensamento de Georg


Lukács leva-nos à apreensão do Serviço Social como complexo ideológico do ser
social, decorrente de sua função nos conflitos sociais. Por outro lado, um
complexo onde as generalizações produzidas pela categoria situam-se entre à
ideologia restrita, no sentido de se dirigirem aos conflitos mais imediatos da vida
social e a ideologia pura como momento ideal que se refere aos problemas do
gênero humano.

Neste sentido, Costa conclui que o Serviço Social não é trabalho e não
possui um processo de trabalho próprio, mas participa de diferentes processos de
trabalho ao colocar cotidianamente como uma especialidade inserida na divisão
social e técnica do trabalho coletivo da sociedade capitalista. E, ao intervir, o
serviço social age na realidade tendo por base um momento ideal a partir do qual
opera como posição teleológica secundária. “...Na perspectiva que aqui
defendemos, a atividade profissional do Serviço Social não se constitui processo de
trabalho no sentido estrito, a base ontológica do Serviço Social é a ideologia, como
atividade que exerce uma função nos conflitos sociais” (COSTA, a/1999, p. 107).

A polêmica é clara. Por um lado, o documento: Diretrizes Gerais para o


Curso de Serviço Social, bem como os textos produzidos por Iamamoto e outros
autores, compreendem que o Serviço Social é trabalho. Ressaltando que Iamamoto
realiza uma inflexão em relação à compreensão de 1982, diferente do conteúdo
apresentado por IAMAMOTO (B/1998). No entanto, Lessa, Costa e Holanda
entendem que o Serviço Social não é trabalho e nem possui um processo de
trabalho próprio. No entanto, o diálogo crítico apresentado por Lessa, Costa e
Holanda é estritamente voltado para o texto das Diretrizes Curriculares aprovado
pela categoria profissional, não debatendo com os autores em suas produções
individuais.

Frente à polêmica colocada em seus diferentes níveis, algumas


considerações merecem ser apontadas:

1) ao tratar o Serviço Social como trabalho estrito senso, há um grande


“equívoco” de expressões da própria categoria profissional e de alguns
218

autores que estão debatendo e teorizando a temática polemizada. Se o


referencial que fundamenta o trabalho o tem como categoria mediadora
responsável pela transformação da natureza, possibilitando a
socialização da produção, entendo que estamos tratando de duas
questões diferenciadas, pois o Serviço Social, ou melhor, as ações que
os profissionais realizam não possuem a mesma dimensão colocada
por Marx, ou seja, trabalho para Marx é trabalho produtivo, é a
mediação que objetiva a teleologia (fim e meio) em um dado objeto-
matéria-prima (causalidade) que se transforma em causalidade posta,
tendo a possibilidade, no final, esta ser socializada. Pautado no
referencial teórico-metodológico que fundamenta esta premissa, o
Serviço Social não é trabalho (estrito senso), portanto, não transforma
a natureza. Sua intervenção ocorre no interior dos espaços da
sociedade capitalista responsável pela organização da produção, ou
seja, na esfera da reprodução social. Assim, as atividades
desenvolvidas pelos Assistentes Sociais contribuem para regular e
controlar conflitos entre capital-trabalho e, ao mesmo tempo, amenizar
as catástrofes sociais, conseqüências diretas do desemprego, da fome
e da miséria social. Suas ações, no máximo, contribuem para acelerar o
movimento de acumulação da massa de mais-valia. Porém, após 1970,
este quadro ganhou outras determinações. O assistente social vem
atuando, na esfera empresarial - setor de Recursos Humanos - em
projetos que estão voltados para a dimensão do convencimento, para
que os trabalhadores aceitem as novas regras do jogo capitalista e
produzam enquanto parceiros das empresas, com o sentimento de que
as empresas também lhes pertence. Esta situação não é determinista e
nem natural. No período após 1970, não se fala em aumento da mais-
valia e acumulação do capital, mas em sua redução. Há uma crise
estrutural do capital instaurada. A esfera da produção foi colocada em
segundo plano e a esfera dos serviços ganhou prioridade,
principalmente o setor financeiro. Ao mesmo tempo, no espaço público
ampliaram-se os projetos, programas e políticas sociais de cunho
paliativo em resposta ao crescimento do número de usuários terminais.
Este quadro não alterou a compreensão do trabalho profissional
apresentado por IAMAMOTO (A/1983), mas há um agravante: as
condições sócio-ocupacionais, técnico-operacionais e contratual
(condições de trabalho e salarial) têm precarizado;

2) enquanto isso, no outro lado conclusivo da polêmica travada,


compreende-se que o trabalho profissional dos assistentes sociais
enquadram se na mesma lógica da produção, portanto, abre-se
espaços significativos para que os profissionais que estão aderindo à
lógica dos programas de qualidade total ganhem credibilidade,
encontrando, no final de cada ação do trabalho profissional, um
produto. Nesse sentido, constrói-se um espaço para o capitalismo
implementar, na esfera da reprodução, a mesma lógica da produção.

3) “...Na perspectiva que aqui defendemos, a atividade profissional do


Serviço Social não se constitui processo de trabalho no sentido estrito,
a base ontológica do Serviço Social é a ideologia, como atividade que
exerce uma função nos conflitos sociais” (COSTA, a/1999, p. 107).
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Percebe-se que os autores que apresentam a crítica ao documento