Você está na página 1de 14

O PODER PÚBLICO E O DESCARTE DE RESÍDUOS

RECICLÁVEIS - O PAPEL DAS COOPERATIVAS NO MUNICÍPIO


DE LONDRINA-PR
1
Eduardo Biondo
Universidade Estadual de Londrina
eduardobiondo@hotmail.com
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo abordar as políticas públicas voltadas ao descarte de
resíduos sólidos urbanos destinado à reciclagem, bem como a atuação do poder público do
município de Londrina-PR nesta área. Tendo como foco de análise o desempenho e a dinâmica
das cooperativas de reciclagem existente em Londrina. Para atingir o intuito da investigação os
procedimentos metodológicos constituíram-se: a) no estudo de campo com a realização de
entrevista com fiscal da CMTU; b) análise dos contratos municipais junto às cooperativas; c)
verificação dos principais problemas enfrentados pelas cooperativas para seu funcionamento.
Dessa forma, mediante os dados obtidos foi possível realizar a discussão do papel das
cooperativas na dinâmica de reciclagem e identificar a função dos catadores irregulares e como
afetam o funcionamento da coleta de recicláveis.
Palavras-chave: ​cooperativas, descartes, resíduos, prefeitura.

Introdução

A coleta seletiva é um dos braços do eixo de resíduos sólidos, que faz parte dos
quatros eixos do saneamento básico: água, esgoto, resíduos e drenagem. O poder
público é titular do serviço de coletas de resíduos reciclagem assim como coletas de
resíduos orgânicos domiciliares, sendo o titular dos serviços ele pode delegar para
terceiros a prestação de serviços, sendo assim, a prefeitura de Londrina e a CMTU -
Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização de Londrina fecha contrato com 7
cooperativas de reciclagem, no formato de uma terceirização da coleta.

A coleta domiciliar de resíduos orgânicos é feita mediante licitação, e as


empresas responsáveis são as que ganham o processo licitatório, já as coletas recicláveis
realizadas pelas cooperativas são firmadas mediante contratos diretos entre elas e poder
público municipal. Conforme a lei nacional do saneamento básico federal 11.445/2007,
que define que a prestação de serviços públicos de saneamento básico por entidade que
não integre a administração do titular depende da celebração de contrato, sendo vedada

1
Bolsista IC/CNPq e discente do Curso de Geografia/UEL – Bacharelado.
a sua disciplina mediante convênios, termos de parceria ou outros instrumentos de
natureza precária.

A ​regulação, um dos principais instrumentos, deve ser realizada com


independência e com autonomia administrativa, orçamentária e financeira da entidade
reguladora, além de contemplar os aspectos de transparência, tecnicidade, celeridade e
objetividade das decisões.

A própria lei estabelece que preferencialmente tem que ser firmado o contrato
com associação ou então cooperativas que já realizam este tipo de trabalhos, formadas
exclusivamente por pessoas físicas de baixa renda reconhecidas pelo poder público
como catadores de materiais recicláveis, com o uso de equipamentos compatíveis com
as normas técnicas, ambientais e de saúde pública, priorizando pessoas que já tenham
um histórico de trabalho com resíduos recicláveis, por uma questão social.

A Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) por meio de


fiscalização é responsável por averiguar se as cooperativas estão realizando as
atividades de acordo com o contrato, se caso não estiverem o fiscal deve notificar, e as
cooperativas têm um prazo para a defesa para solucionar esses problemas, caso a
justificativa apresentada não seja acolhida pelo diretor é emitido uma multa.

O município avalia a capacidade técnica das cooperativas para destinar a área


de abrangência de cada uma, sendo o pagamento de acordo com o número de domicílios
(LONDRINA, 2018), assim cooperativas mais estruturadas ganham mais do poder
público e tem possibilidade maiores de gerar ganhos próprios, enquanto ao contrário
disso, cooperativas com menor estrutura sofrem com as penalidades imposta pela
prefeitura, acarretando no descontentamento dos cooperados destas pequenas
cooperativas e incentivando os mesmo ao trabalho de coletor informal.

O aumento do número de coletores informais impactam na atuação das


cooperativas e consequentemente no trabalho da prefeitura, ocasionando problemas na
gestão urbana de coletas de resíduos urbanos recicláveis, obrigando o poder público e
repensar o sistema atual para propor um novo sistema que possa solucionar os
problemas tantos das cooperativas, quanto destes coletores informais.
Nesse contexto de atuação do poder público e das cooperativas na reciclagem
dos resíduos sólidos urbanos em Londrina, esta pesquisa tem como objetivo abordar as
políticas públicas voltadas ao descarte de resíduos sólidos urbanos destinados a
reciclagem, bem como a atuação do poder público do município de Londrina-PR nesta
área. Tendo como foco de análise o desempenho e a dinâmica das cooperativas de
reciclagem existente em Londrina. Assim, realizou-se uma análise dos contratos
municipais como as cooperativas para verificar se estão sendo cumpridos e buscou-se
identificar os principais problemas enfrentados pelas cooperativas para seu
funcionamento, além de realizar uma discussão do papel dos catadores irregulares e
como afetam o funcionamento da coleta de recicláveis.

A PNRS e a Gestão Integrada de Resíduos Sólidos

Devido a maior concentração de pessoas em áreas urbanas, maior a produção e o


acúmulo de resíduos sólidos. Essa é uma característica da sociedade moderna, que está
atrelada ao manejo inadequado desses resíduos, gerando problemas socioambientais,
econômicos e de saúde pública. A busca de soluções para a destinação final dos
resíduos tem constituído expressivo desafio, sobretudo no que se refere à prevenção à
poluição do solo, do ar e dos recursos hídricos (OLIVEIRA, 2016).

Até 2010 o Poder Público era responsável pelo papel de fiscalizar e controlar os
diversos agentes envolvidos na geração e coleta dos resíduos sólidos, ele ditava as
regras e arcava com os custos com a reciclagem, coleta e destinação dos resíduos.
Porém, com o aumento de problemas com resíduos e falta de resolução destes acarretou
na criação da Lei Federal brasileira nº 12.305/2010, onde algumas mudanças
aconteceram com o propósito de descentralizar o poder da iniciativa pública.

Cabe ao poder público atuar, subsidiariamente, com vistas a minimizar


ou cessar o dano, logo que tome conhecimento de evento lesivo ao
meio ambiente ou à saúde pública relacionado ao gerenciamento de
resíduos sólidos. Os responsáveis pelo dano ressarcirão integralmente
o poder público pelos gastos decorrentes das ações voltadas para
assegurar a observância da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o
cumprimento de suas respectivas diretrizes. (Brasil, 2010)
A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece princípios, objetivos,
instrumentos e diretrizes para a gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos, as
responsabilidades dos geradores, do poder público, e dos consumidores, bem como os
instrumentos econômicos aplicáveis.

Metodologia

Os procedimentos metodológicos constituíram-se: a) levantamentos


bibliográficos com o histórico das coletas seletivas do município de Londrina para
entender a dinâmica e a atuação destes trabalhadores; b) o estudo de campo com a
realização de entrevista com fiscal da CMTU; c) levantamento e análise dos contratos
municipais junto às cooperativas; d) verificação ​in loco ​dos principais problemas
enfrentados pelas cooperativas para seu funcionamento. Na entrevista realizada com o
técnico teve como objetivo compreender como é estabelecido os contratos entre a
prefeitura e as cooperativas, como se dá a divisão territorial dos setores de cada
cooperativa, o nível de eficiência do trabalho realizado, dentro das condições dada, além
de refletir a relação entre o poder público e as cooperativas, como as influências da
PNRS.

Entrevista com o fiscal da CMTU

● Como é pensado a divisão territorial das cooperativas e as escalas de


atuação das coletas nos bairros?

“Essa divisão já estava estabelecida, ja vem a alguns anos o mesmo setor de


polígonos, e da mesma forma as escalas de atuação... Mas a divisão dos setores
eles são estabelecidos principalmente a números de domicílios, porque de
acordo com o número de domicílios você vai ter a população dentro daquele
setor e consequentemente de acordo com a população a gente tem a quantidade
que gera de resíduos naquele setor, então, tem que ser pensado a divisão
territorial um pouco de acordo com as divisões que já existem na cidade, nos
bairros, nas ruas. A última divisão foi feita no último contrato em 2017, atual.”
● Pensa-se em uma reterritorialização do atual zoneamento de atuação das
cooperativas?

“A cmtu pensa em uma reterritorializaçao das cooperativas, é importante a


mudança de todo o sistema de cooperativas... As vezes tem alguns setores que de
um lado da rua é um dia da semana do outro lado é outro dia, com uma nova
divisão pretende-se reajustar essa divisão para não acontecer mais isso. A
divisão que é pensada atualmente em propor a companhia para tentar
implementar é principalmente em relação aos bairros da cidade, porque a gente
tem por exemplo lá no siglon, temos a base de dados e dentre elas tem a divisão
dos polígonos dos bairros, então foi pego esses polígonos dos bairros, e estamos
tentando fazer os setores de coleta meio correlacionado com a divisão dos
bairros. Por exemplo, bairro que é muito grande, a gente tá tentando dividir ele,
para não ficar um número de domicílios muito grande. Então tentamos
estabelecer mais ou menos um padrão para que não fique um número de
domicílios muito grande em um setor e também um número de domicílios muito
pequeno. Então por exemplo, um bairro muito grande como o Cinco Conjuntos,
que tinha no mesmo bairro muitos domicílios, de 20 mil domicílios a gente
tentou diminuir para 5 mil... Ou então um que era muito pequeno a gente tentou
juntar dois bairros para ficar um setor só. E em relação a escala de atuação das
coletas, nos bairros a coleta seletiva é feita uma vez por semana na cidade
inteira atualmente, mas estamos tentando propor no centro, como a densidade é
maior, e consequentemente gera mais resíduos, tem muitos prédios, então às
vezes no próprio prédio não tem lugar para armazenar estes resíduos, então
nesses locais como centro, a gleba palhano, a gente tá tentando colocar a coleta
de 2 até 3 vezes na semana. “

● Como funciona o contrato da CMTU com as cooperativas e os subsídios


para apoio administrativos e técnicos?

A CMTU paga 1,46 por domicílio no setor que a cooperativa foi responsável
para fazer a coleta destes resíduos, para pagar principalmente o custo do
motorista, o coletor e o caminhão, a CMTU paga também 46 centavos por
domicílio para aluguel de barracão e algum custo administrativo ou outro. O
número de domicílio por setor já foi estabelecido no contrato, então cada
cooperativa já tem um valor que recebe pré estabelecido. Em algumas
cooperativas acontece o caso do triador trabalhar o mês inteiro... Esse valor
que a CMTU paga é para pagar principalmente as coletas na rua, para que o
caminhão passar e fazer a coleta e levar pro barracão, então a CMTU paga a
coleta o aluguel do barracão e o INSS do cooperado (mais ou menos 100 reais
por cooperado) e o valor que cada cooperado ganha no final do mês advém só
do valor que é comercializado do resíduo no final do mês. Então por exemplo, a
cooperativa coleta e ala tria o resíduo que tem valor agregador que ela
consegue vender, e o valor recebido da venda ele tem que ser rateado por todos
os cooperados. A CMTU não consegue dar muito apoio técnico pq o trabalho
dela é fiscalizar os serviços, então não conseguimos participar da
administração dentro das cooperativas. E a cooperativa precisa de apoio
técnico, administrativo, jurídico, contábil, ambiental... A cooperativa é
hierarquicamente igual, portanto toda e qualquer mudança que acontece lá
deve ser feita mediante a uma assembleia geral onde todos votam, e assim
implementam essa mudança, mas o que acontece é que nem todas as
cooperativas faz as mudanças desta maneira, apenas as cooperativas maiores.
Às vezes o presidente delibera alguma coisa, e o funcionário não tem estudo ou
conhecimento e se sente como um funcionário... E às vezes os próprios
funcionários não querem ser presidente por se sentirem incapazes. Uma das
coisas que acontece é que as cooperativas coleta os recicláveis, porém, muitas
vezes não tem só recicláveis, ele tem rejeito também, muitas vezes vem orgânico
que é considerado rejeito, pq não tem valor agregado, ou o peso é muito
pequeno, e é necessário um volume gigante para conseguir vender, que as
cooperativas coletam estes rejeitos e destinam para a Kurika no aterro daí eles
não pagam por esse serviço, só descartam, então as cooperativas juntam
também estes rejeitos e uma vez por semana a Kurika passa lá e pega sem custo
para cooperativa”

A gestão de coleta de resíduos e as cooperativas de Londrina estão


conseguindo atender a demanda de acordo com a PNRS de forma
integrada? (considerando as dimensões políticas, econômicas, ambiental,
cultural e social)

“Não tá da forma ideal, mas Londrina é um exemplo para outras cidades, o


sistema vem passando por problemas, mas mesmo assim no geral pode-se
considerar boa a coleta de Londrina.”

● Quais as principais dificuldades relacionadas à coleta, e qual o nível de


satisfação dos serviços prestados pelas cooperativas?

‘Como já foi dito, em tese a cooperativa e todos os cooperados estão no mesmo


nível hierárquico ali, teoricamente, a ideia de cooperativa é essa... Muitas vezes
o cooperado trabalha um monte o mês inteiro mas no final do mês ele ganha
menos que um salário mínimo, e acontece muitas vezes de os cooperados saírem
das cooperativas para virar coletor informal, compra um carro velho ocupa um
fundo de vale como barracão. O trabalhador informal é um problema difícil de
combater primeiramente porque é um problema social, não podemos parar eles
porque querendo ou não é o meio de vida deles. Os coletores informais,
trabalham com veículos em má estados, e isso pode acarretar algum acidente de
trânsito, de forma insalubre, sem equipamento de proteção individual (EPI),
com risco de acabar se machucando. Com as cooperativas a cmtu pode ter um
controle nessas questões de segurança, tanto no estado do veículo quanto aos
EPI. A maioria dos informais coletam esses resíduos com veículos em má
condições, e vão para fundo de vale de forma indevida fazer a triagem destes
materiais, e muitos destes resíduos não tem muito valor agregado para eles, e
ao invés de fazer o descarte final de forma correta, eles acabam descartando os
materiais com pouco valor agregado em locais de fundo de vale ou então
queimando estes materiais, gerando um problema pra cidade neste sentido...
Trabalho de forma insalubre, veículos em péssimos estado, descarte final de
resíduos com baixo valor agregado irregular. Uma das formas de solucionar
estes problemas é trazer estes trabalhadores informais para junto do poder
público, tentando colocar eles nas cooperativas, embora haja pouco sucesso
pois muitos destes trabalhadores já trabalharam nas cooperativas antes mas
devido ao salário pago e a má gestão da cooperativa e eles preferem trabalhar
sozinho de forma informal. A CMTU ela tem o papel de fiscalizar as
cooperativas, mas ela não tem autonomia para atuar dentro da cooperativa, ela
orienta, mas não pode entrar de forma mais contundente. Umas das coisas que
está sendo pensada é tentar inserir estes informais em uma associação de
catadores, então por exemplo, seria criado uma associação de catadores em que
estes informais seriam associado e cada associado entraria como MEI (micro
empreendedor informal), seria mantido as cooperativas e em consonância com
isso teria um barracão para esses associados, como se fosse uma nova
cooperativa, só que a diferença é que como é feita por meio do MEI e não ia
gerar tanto passivo trabalhista para a associação como gerar passivo
trabalhista para cooperativa e às vezes pode respingar a CMTU, então desta
forma seria mais fácil o trabalho destes coletores e mais fácil de gerenciar.”

● A questão da salubridade e a qualidade do trabalho dos catadores é


responsabilidade da CMTU ou das cooperativas?

“​Os veículos das coletas tem uma séria de requisitos que devem estar em dia
para realizar os serviços, como por exemplo, os pneus carecas, a obrigação de
um corrimão atrás para segurar, um monte de requisito que deve ser cumprido.
Em relação a isso, muitas vezes eles acabam pecando, neste caso os fiscais
devem notificar, eles tem um prazo para defesa, e caso a defesa não seja
acolhida pelo diretor eles recebem um multa, e essa multa é descontada do
valor que eles recebem mensalmente, então cada requisito desses que estiverem
fora do padrão é um porcentual a menos no final do mês.. Acontece com certa
frequência essas multas. E a CMTU não pode emitir muita notificação porque
se não quebram eles e as cooperativas não conseguem dar conta.”

Resultados da pesquisa: Atuação do Poder Público Londrinense

A Prefeitura de Londrina atua como órgão responsável pela fiscalização e o


controle dos descartes de resíduos da cidade, contendo contrato com 7 cooperativas,
divididas entre setores de polígonos exercendo a coleta uma vez por semana em cada
setor, já pré estabelecidos de acordo com o número de domicílios e consequentemente
de acordo com a população a quantidade de resíduos que são gerados no setor. A última
divisão foi feita no atual contrato de 2017 (Figura 1).

Figura 1​ – Mapa de Polígonos dos Setores das Cooperativas.

Coleta de Resíduos Recicláveis - Londrina Recicla/CMTU: Disponível em,


https://cmtu.londrina.pr.gov.br/index.php/coleta-reciclavel.html, 2019.
Está sendo elaborada uma nova divisão para ser proposta CMTU, conforme as
informações obtidas na pesquisa de campo, na tentativa de implementar, principalmente
setores de coleta, correlacionado com a divisão dos bairros, por meio da base de dados
disponíveis pelo ​Sistema de Informação Geográfica de Londrina (SIGLON)​. O foco é
trabalhar com o tamanho dos bairros, ou seja, um bairro grande será dividido para não
ficar um número muito elevado de domicílios, enquanto um bairro menor será
integrado com outros tentando estabelecer um padrão na quantidade de domicílios em
cada setor.
Quanto à escala de atuação das coletas, é feita uma vez por semana na cidade
inteira atualmente, mas em locais com maior densidade e mais verticalizado, como o
Centro e a Gleba Palhano que consequentemente gera mais resíduos a CMTU está
tentando aumentar o número de coletas na semana de 2 até 3 vezes na semana (Figura
1).

Ressalta-se novamente os seguintes pontos: 1) cooperativas precisam estar com


suas documentações em dia para assinar contrato com a prefeitura; 2) prefeitura paga o
valor de R$ 1,86 por domicílio atendido e valor máximo de R$ 143,00 por catador
cooperado para a contribuição ao INSS (LONDRINA, 2018).

O valor que cada cooperado ganha no final do mês advém do valor que é
comercializado dos resíduos no final do mês. A cooperativa coleta e faz a triagem destes
resíduos de valor agregado que consegue ser vendidos, e o valor recebido da venda é
rateado por todos os cooperados. O IPEA (2012a) aponta que a renda média dos
catadores podem ficar abaixo de um salário mínimo em diferentes localidades, no
contexto de Londrina, entre 2014 à 2017, a renda média variou entre as diferentes
cooperativas, registrando médias salariais abaixo do salário mínimo, a cooperativa mais
estruturada da cidade é a que garante os melhores salários (LONDRINA, 2018).

Para minimizar custo para as cooperativas uma das ideias pensadas pela
CMTU é fazer com que cada cooperativa atue mais próximo ao seu barracão, embora
haja uma resistência por parte das cooperativas por não querer abrir mão de uma região
para ir para outra região próxima ao barracão. É difícil até de mudar o dia da coleta,
pois já tem uma vivência, tanto para as cooperativas quanto aos catadores.

As grandes cooperativas que possuem uma boa estrutura e administração,


contam com um fundo de renda para garantir um salário justo aos cooperados, em
situações em que a triagem e a divisão da renda não supram o valor de um salário
mínimo é retirado do fundo para garantir o salário dos cooperados. Isso acontece apenas
nas cooperativas mais estruturadas, enquanto as menores, que são a maioria, sofre com
o problema de renda ocasionando em um descontentamento no trabalho, e preferem
trabalhar por conta própria como coletor informal.
O coletor informal é difícil de resolver, tendo em vista que é um problema
social e esse é o meio de vida deles sobreviverem. Os principais problemas são que a
maioria desses coletores trabalham com veículos em más condições, e isso pode
acarretar algum acidente de trânsito, ou algum acidente de trabalho de forma insalubre,
sem equipamento de proteção individual (EPI).

Além disso muitos dos coletores informais passam nos domicílios antes das
cooperativas e recolhem os resíduos sólidos, consequentemente as cooperativas ficam
sem o material da coleta. A falta de resíduos para serem coletados pelas cooperativas
ocasiona a redução de renda para as cooperativas, que causa um descontentamento por
falta de verba e influência na opção pelo trabalho de coletor informal.

A maioria dos informais coletam esses resíduos com veículos em má


condições, e vão para fundo de vale de forma indevida fazer a triagem destes materiais,
e muitos destes resíduos não tem muito valor agregado para esses coletores que acabam
fazendo o descarte final de forma incorreta, eles acabam descartando os materiais com
pouco valor agregado em locais de fundo de vale ou então queimando, gerando um
problema para cidade.

Os problemas existentes entre o poder público e as cooperativas acarretam no


aumento de coletores informais que ocasiona um baixo rendimento para as cooperativas,
além de diversos problemas de segurança de trabalho, insalubridade, ambientais entre
outros. Uma das formas de solucionar estes problemas é trazer estes trabalhadores
informais para junto do poder público, tentando colocar eles nas cooperativas, embora
haja pouco sucesso pois muitos destes trabalhadores já trabalharam nas cooperativas
antes.

Umas das propostas que vem sendo pensada é tentar inserir estes informais em
uma associação de catadores, assim, cada associado entraria como MEI
(Microempreendedor Informal), também seria mantido as cooperativas e em
consonância com isso teria um barracão para esses associados. Dessa forma, é possível
não gerar tanto passivo trabalhista para a associação, como é gerado para as
cooperativas, o que poderia respingar na CMTU, portanto, facilitaria o trabalho destes
coletores sendo mais fácil de gerenciar.
Os cooperados são hierarquicamente iguais, portanto, toda e qualquer mudança
que acontece na cooperativa deve ser feita mediante a uma assembleia geral, na qual
todos votam, e assim implementam essa mudança. O problema é que nem todas as
cooperativas fazem as mudanças desta maneira, em alguns casos o presidente delibera
algum decreto e o funcionário que não possui estudo se sente apenas no seu papel de
funcionário de obedecer às normas propostas. Estes mesmos funcionários podem
assumir o cargo de presidente, mas isso não acontece por se sentirem incapazes.

Segundo o fiscal entrevistado, ele constata que a gestão de coletas de resíduos


vem sendo atendida a demanda de acordo com a política nacional de resíduos sólidos de
forma integrada, embora nesses últimos tempos o serviço venha passando por
problemas, mas no geral pode-se considerar boa a coleta no município de Londrina, e
que serve de exemplo para outros municípios.

Considerações Finais

Conclui-se que alguns dos problemas existentes em partes é pela má gestão das
cooperativas, uma vez que a CMTU não pode participar de forma mais contundente,
porque o seu papel é apenas fiscalizar, ela não pode interferir nas áreas administrativas,
jurídicas, contábil, financeira e ambiental, ela só orienta e estabelece requisitos.

Outros problemas existentes se mostram na forma como é distribuído os


subsídios da prefeitura às cooperativas, estes não estão suprindo a demanda para manter
a estrutura das cooperativas para renovação e manutenção dos equipamentos. A verba
dada as cooperativas devem ser passadas por um reajuste de acordo com as mudanças
tributária que ocorreram no país nos últimos anos.

Nesse sentido, afirma-se em um relatório publicado por diversos


pesquisadores, “Sem investimento vultoso de recursos nas instalações e equipamentos
de labuta, assim como na regulação do mercado e da cadeia produtiva da reciclagem,
torna-se difícil reverter o quadro de exploração dos recicladores [...]” (IPEA, 2012, p.
22).

Constata-se a dificuldade das menores cooperativas em seguir as ordens


instruídas pela CMTU devido à falta de uma administração mais eficiente, e uma
solução para este problema seria uma diminuição no número de cooperativas atuantes
no município com uma quebra de contrato com estas cooperativas menores e o
remanejamento dos cooperados para outra cooperativa maior e mais bem estruturada.
Essa proposta envolve uma questão política, pois estas cooperativas menores foram
inseridas nos contratos justamente para minimizar o problema dos catadores informais
inserindo-os nos sistemas das cooperativas.

Nota-se que para que a lei estabelecida pela PNRS cumpra suas propostas e
regras é necessário que o Poder Público trabalhe junto das cooperativas destinando a
elas um amparo, seja pensando em novas propostas na distribuição das verbas e
principalmente na dinâmica de atuação das cooperativas, pois devido ao aumento dos
catadores informais e os problemas citados no trabalho, é indissociável esperar uma
auto suficiência completa dos catadores e das cooperativas na atual situação do
município.

Portanto, é necessário novas propostas para que de fato haja uma inclusão
social dos catadores tantos os das cooperativas como os informais para além de atender
as propostas da PNRS, atender também a demanda de resíduos sólidos do município.

Referências bibliográficas

BAPTISTA, Vinícius Ferreira. Por uma política pública e não um simples instrumento
de gestão de política: a coleta seletiva na visão vazia da Política Nacional de Resíduos
Sólidos. ​Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista​, v. 4, p. 50-70, 2015.
BESEN, Gina Rizpah. Coleta seletiva com inclusão de catadores: construção
participativa de indicadores e índices de sustentabilidade. ​São Paulo: Faculdade de
Saúde Pública da USP​, 2011.

BRASIL a. Constituição (2010). Lei nº 12305, de 02 de agosto de 2010. ​Institui A


Política Nacional de Resíduos Sólidos; Altera A Lei no 9.605, de 12 de Fevereiro de
1998; e Dá Outras Providências.​ Brasília, DF, 02 ago. 2010.

BRASIL. Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007​. Estabelece diretrizes nacionais para


o saneamento básico; altera as Leis nos. 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 8.036,
de 11 de maio de 1990, 8.666, de 21 de junho de 1993, 8.987, de 13 de fevereiro de
1995; revoga a Lei nº 6.528, de 11 de maio de 1978; e dá outras providências​. Diário
Oficial [da] República Federativa do Brasil, n. 5, 2007​.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA).​ Diagnóstico dos
resíduos sólidos urbanos: relatório de pesquisa​ - 2012a - IPEA Brasília.
IPEA. ​Diagnóstico sobre os catadores de materiais recicláveis​. 2012 – IPEA Brasília.

LIMA, Rosimeire Midori Suzuki Rosa. I​mplantação de um programa de Coleta


seletiva porta a porta com inclusão de catadores: Estudo de caso em Londrina-PR.
2006. Dissertação (Mestrado em Geografia)- Universidade Estadual de Londrina,
Londrina, 2008.

LONDRINA, ​Plano Diretor Municipal de Londrina- Revisão 2018-2028. Relatório


Final da Etapa 2 - Avaliação Temática Integrada. Caderno 2: Sistema de
Sustentação Natural.​ Londrina, 2018.

OLIVEIRA, Thais Brito; JUNIOR, Alceu de Castro Galvão. O PLANEJAMENTO


MUNICIPAL NA GESTÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS E NA
ORGANIZAÇÃO DA COLETA SELETIVA. ​Engenharia Sanitária e Ambiental​, v.
21, n. 1, 2016.

RIBEIRO, Helena; BESEN, Gina Rizpah. Panorama da coleta seletiva no Brasil:


desafios e perspectivas a partir de três estudos de caso. ​Revista de Gestão Integrada
em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente, InterfacEHS​ v.2, n.4, Artigo 1, ago 2007.

SOUZA, José Carlos. ​Resíduos Sólidos urbanos domiciliares na cidade de


Londrina-PR. ​2008. Monografia (Bacharel em Geografia)-Universidade Estadual de
Londrina, Londrina, 2008.

Você também pode gostar