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Como tomar decisões na vida cristã?

Daqui vai sair um artigo, cujo tema me parece de especial importância para todos nós. Basta olhar para a
semana, desde o levantar ao deitar passando pelas tarefas e compromissos diários, para vermos como cada dia
e, sobretudo, a própria vida se encarrega de colocar-nos numa situação em que é necessário optar e decidir.
Também não é menos verdade, que a dificuldade em optar dependerá de inúmeros factores: as circunstâncias
de uma determinada situação, o perfil da pessoa que decide, o grau de complexidade da decisão, as pessoas
envolvidas, as consequências e o impacto que isso poderá vir a ter, etc. Naturalmente que há decisões tomadas
instantaneamente e que não necessitam de grande aparato – a que horas me levanto amanhã? o que peço
quando for ao café? – mas, há outro género de decisões, e são essas que me trazem cá, que nos podem pedir
um processo elaborado de discernimento: que futuro quero para a minha vida? Mudo de emprego ou não?
Estas e outras perguntas, podem nos servir de exemplo.
A tudo isto se lhe juntarmos uma outra dimensão, aquela que é a principal por tratar-se do fundamento da “vida
cristã”, a decisão ganhará ainda um outro relevo: e Deus? O que é que Deus me inspira a fazer naquele
momento?

A própria experiência da vida cristã – aquela que procura com sinceridade descobrir e abraçar a vontade
particular de Deus – mostra-nos que o tema é suficientemente complexo para que dela se façam considerações
simples e aplicações instantâneas.
Tenho claro por isso, que com este post (publicado em diferentes momentos) apenas quero deixar aqui as
sugestões e as recomendações que Inácio de Loyola nos deixou – através dos Exercícios Espirituais – e como
elas, desde que bem compreendidas, nos podem servir de pistas de reflexão e de oração e, sobretudo, de
decisão.

Assim sendo, vamos diretos ao assunto?


Começo por fazer um elenco dos vários momentos que virão a dar forma e corpo a este tema:
0) Condições desejáveis para começar um processo de discernimento
1) Algumas considerações importantes
2) Como equacionar o problema sobre o qual se debruçará a decisão?
3) Como se pondera e avalia? Que critérios utilizar?
4) Que significado poderá ter o impasse? É possível sair dele? De que maneira?
5) A partir de que momento pode dar-se por concluído o processo de discernimento?
6) E, como garantir que a decisão que vou tomar estará certa?

Condições desejáveis para começar um processo de discernimento

Que condições serão, portanto, desejáveis para quem estás prestes a dar inicio a um processo de
discernimento?
Três são as condições:
1. Procurar um hábito regular de oração. Não me atrevo a dizer quanto tempo, uma vez que a própria pessoa
verá aquilo que é realisticamente possível dadas as circunstâncias em que se encontra. Por “hábito regular de
oração” entende-se o desejo sincero e efetivo numa amizade pessoal com Deus cuidada com regularidade. Ter
por hábito encontrar-se com Deus, para estar com Ele e ganhar estima e apreço com a sua presença.

2. Andar atento ao que se passa à minha volta e sobretudo ao impacto que isso produz dentro da pessoa .
Preparar-se para, ao longo do processo da decisão, tomar nota dos acontecimentos, factos e das situações
(parte descritiva) que lhe chamaram a atenção, que lhe tocaram e lhe provocaram um determinado estado de
espírito (parte afectiva). Discernir passa por identificar (o que aconteceu?), interpretar (que significado teve ou
tem para mim? ou que leitura faço de determinado acontecimento?) e, finalmente, reagir (posicionar-me).

3. Liberdade interior. A liberdade tem um papel fundamental. Sem a liberdade, a pessoa está de mãos atadas e
incapaz de optar. É preciso liberdade em relação aos outros (o que vão pensar, a preocupação pela imagem),
liberdade para não se deixar condicionar por medos ou resistências, liberdade sobretudo para aceitar aquilo que
Deus tiver para lhe oferecer porque fazendo a sua vontade, o que vier será bom.

Na próxima publicação iremos para o passo seguinte: 1) Algumas considerações importantes.

Consideraões importantes

Ainda, algumas considerações importantes sobre o processo de discernimento na vida cristã cuja finalidade recai
sobre grandes escolhas a tomar, embora não deixando de lado as decisões quotidianas que também são elas
merecedoras da nossa atenção.

Tratando-se de um desejo e de uma procura sincera de abraçar e seguir a vontade particular de Deus, a pessoa
que se prepara para tomar uma decisão deve ainda considerar o seguinte:

1. A decisão, por vezes, não é uma opção a tomar entre uma coisa boa e uma coisa má, mas entre duas (ou até
mais) alternativas que são óptimas. Estar consciente que tal situação pode acontecer com frequência é
importante por diversas razões: a) quando alguém procura com sinceridade seguir a vontade de Deus tem de
estar preparado para se confrontar com resistências (e eventuais renúncias) que necessariamente aparecerão
dada a validade e valorosidade de cada uma das alternativas; b) a pessoa que não se assuste, nem se culpabilize
com as dificuldades que um processo de discernimento pode trazer, porque estas além de serem normais e
desejáveis, são sinal de grande realismo e de lucidez; c) podem também significar que a pessoa chegou a um
determinado cruzamento em que já ficaram excluídas alternativas de menor importância; e por fim, d) se fosse
óbvia a escolha, não se seria necessário falarmos de discernimento, de critérios, de maneiras para se processar a
tomada de uma decisão.

2. Discernimento significa separar. Uma das várias dificuldades em decidir é a confusão: “Eu não sei o que
fazer!” e aí, não há razões para o espanto nem para o alarme, mas que a pessoa tome consciência que há
maneiras de recuperar progressivamente a clareza (que vem do separar e distinguir as coisas). Por exemplo,
estar atento a isto: “Quando penso em optar pela alternativa A sinto isto, quando penso enveredar pela
alternativa B, sinto aquilo”. Esta tomada de consciência regular, permite separar e abre-se o caminho para a
clareza. E isto já é discernir.

3. A finalidade última da vida cristã é o amor. Quando consideramos e ponderamos determinada decisão,
convém recordar qual a finalidade última (o objetivo) desta grande peregrinação que é a vida cristã. Andamos cá
para sermos "santos e irrepreensíveis diante d'Ele no amor" (Ef.1, 4).
Tratando-se, assim, do amor a Deus e do amor às pessoas (os dois grandes mandamentos) cada um deverá
tomar consciência se a eventual decisão a tomar concorre ou, pelo contrário, se afasta deste fim último.

4. Perguntas fundamentais. No processo de discernimento (ou seja, o processo que permite recuperar a clareza
suficientemente capaz de distinguir aquilo que nos afasta ou aproxima do fim último da vida cristã) é
importante, depois do que foi dito até ao momento, ir colocando algumas perguntas. Para já, que ainda estamos
no começo, ficam estas que me parecem fundamentais:

a) Tratando-se muitas vezes de uma decisão entre duas alternativas óptimas, a pergunta a fazer já não é “qual
será a boa opção?”, mas sim “qual poderá vir a ser a melhor opção?”.
b) Considerando sempre a possibilidade que a nossa inteligência e a nossa afectividade se incline tanto para a
alternativa A como para a alternativa B, derivando daí uma mistura de sentimentos, a pergunta a fazer já não é
“em que alternativa sinto exclusivamente confiança, paz, alegria e liberdade?”, mas “em que alternativa sinto
que predomina a confiança, paz, alegria e liberdade?”.

Na próxima publicação iremos para o passo seguinte: 2) Como equacionar o problema sobre o qual se debruçará
a decisão?
Equacionar o problema

Vimos até ao momento, nas anteriores publicações, quais as considerações de fundo num discernimento: o
hábito regular de oração, a liberdade interior, a atenção prestada aos acontecimentos e aos impactos que eles
provocam, as possíveis resistências e dificuldades próprias de quem se prepara para tomar uma decisão, a
determinação que a finalidade última da vida cristã pode ter sobre as decisões a tomar, etc. São “considerações
de fundo” ou “atitudes de fundo” que ajudam a pessoa a colocar-se de maneira ajustada diante de uma
determinada decisão.
No entanto, tudo o que foi dito até ao momento não ganhará sentido, enquanto não descermos à vida concreta:
por exemplo, quando falamos em “liberdade interior”, a mesma palavra terá implicações diferentes consoante a
pessoa e as circunstâncias concretas em que ela se encontra.
Dito de outra maneira, qualquer consideração de fundo pede necessariamente uma concretização prática e
concreta.

E o primeiro exercício de concretização é, precisamente, este: como equacionar, então, a questão sobre o qual
se debruçará uma decisão?
Embora nos pareça óbvio este exercício, ele reveste-se de alguma exigência. De facto, nem sempre é fácil a
capacidade de expressar o problema para o qual queremos encontrar uma resposta.
Julgo que o discernimento começa, precisamente, no ser capaz de formular bem a pergunta sobre a qual
queremos encontrar a melhor resposta. É aqui que começa o discernimento.
Por exemplo, vamos imaginar alguém que traz esta pergunta consigo – “ o que vou fazer no meu futuro?”.
Reparem que a pergunta ainda é vaga. Por exemplo, só a palavra “futuro” pode revestir-se de muitos
significados: “futuro” no sentido a longo prazo, para o resto da vida ou “futuro” a curto prazo, nos próximos
quatro anos? Em conversa com a pessoa, a pergunta vai sendo retocada e ela dirá “o que vou fazer nos próximos
quatros anos?”.
Mas, ainda assim, precisamos de dar-lhe mais uma pincelada. “Fazer”. O que é que esta pessoa está a pensar
quando diz “fazer”? É trabalhar, é estudar, é ir para o estrangeiro, é fazer um doutoramento? Desta maneira a
pergunta vai ficando cada vez mais circunscrita, mais concreta e por mais apropriada para o arranque da
decisão. Continuando com o exemplo, a pergunta poderia ser esta: “faço ou não faço um doutoramento nos
próximos quatro anos?”.
Para ajudar a passar de uma “consideração de fundo” à “vida concreta de uma pessoa”, a questão sobre a qual
se debruçará a decisão deve atender a quatro características:

1. Prática. A pergunta, que é objeto de um discernimento, deve implicar uma acção prática e concreta para
evitar que se fique nas ideias abstratas e vagas por mais extraordinárias que elas nos pareçam.

2. Realista. Ela deve também revestir-se de um grande realismo e nesse sentido a pessoa deverá recolher um
determinado número de dados e de informações que lhe permitam um conhecimento e uma percepção reais
das alternativas implicadas.

3. Possível. Cada uma das alternativas consideradas na pergunta, além de práticas e de realistas, perguntar se
elas são igualmente possíveis de se concretizarem?

4. Concreta. Tenho consciência das implicações concretas de cada uma das alternativas: o que vou fazer, onde e
quando?

Portanto, quanto mais prática, realista, possível e concreta for a pergunta, melhor e mais eficaz se pode tornar o
processo de discernimento.

Ponderar e avaliar
Depois de enumerados os pressupostos necessários para começar um processo de discernimento e depois de
equacionada a questão sobre a qual se debruçará uma decisão, vamos ver agora como decorre o processo de
decisão – através de ferramentas e de critérios – segundo a pedagogia de santo Inácio de Loyola.

Mas, antes disso, deixem-me lembrar um ponto de capital importância: este ou outro método vocacionado para
a tomada de decisões não pode, nem deve ser entendido como um manual de receitas a meter em prática de
maneira instantânea, mas como uma ferramenta que deve atender de maneira prudente às circunstâncias
concretas de cada um e por isso é imprescindível o acompanhamento espiritual, ou seja, ter alguém com quem
possa confrontar regularmente as respostas que for encontrando.
Vamos ter por exemplo, a pergunta já apresentada num post anterior : nos próximos quatro anos, faço ou não
faço um doutoramento?

Julgo que será importante ter como pano de fundo a seguinte oração, uma vez que ela nos pode ajudar e a
dirigir a nossa atenção para aquilo que tanto desejamos, a liberdade interior:
Espírito Santo ilumina a minha inteligência, ordena a minha sensibilidade, liberta a minha vontade para desejar
e seguir aquilo que Deus quer para mim.

A etapa que se segue (tida como das principais) é composta por dois grandes blocos:
1. A consideração afectiva
Em primeiro lugar, começo por considerar cada uma das respostas possíveis à pergunta já feita: de um lado,
“não faço o doutoramento” (hipótese A) e do outro, “sim, faço o doutoramento” (hipótese B). São duas
hipóteses possíveis, realistas, concretas e práticas que nos põem em pé de igualdade, ou pelo menos, desejamos
colocarmo-nos diante delas com essa liberdade.
Aqui trata-se de, através dos dados objetivos que vou recebendo, pôr-me na pele de cada uma das alternativas,
procurando estar atento essencialmente a duas coisas:
a) o que se passa comigo enquanto pondero a possibilidade de cada uma das hipóteses; e,
b) como fico depois de as ter equacionado separadamente.
Para tornar mais claro o desenrolar deste primeiro bloco, fica aqui uma tabela que serve de base de trabalho:
Não faço o doutoramento Faço o doutoramento
Hipótese A Hipótese B
a) O que experimento
enquanto penso nesta
hipótese:
b) Os efeitos que são
deixados em mim, já depois
de ter considerado esta
hipótese:

E vou tomando nota, livremente, sem ter pressa de tirar conclusões. Simplesmente escrevo nesta tabela, as
variações interiores (sobretudo afectivas) que me são provocadas por cada uma das hipóteses levantadas.
Deixo ainda duas perguntas que nos podem ajudar a ler aquilo que vier a ser escrito nesta tabela:
- Que diferenças encontro nas respostas dadas a cada uma das hipóteses? E que significado consigo atribuir a
estas diferenças?
- Aonde experimento mais sinais de consolação e de desolação?

[possíveis indicadores de consolação: certa paz, alegria, serenidade, presença de Deus, confiança, clareza, ânimo
e fortaleza]

2. A consideração racional
É natural que a decisão ainda não esteja suficientemente clara ou lúcida para optarmos inequivocamente por
ela, e por isso Inácio de Loyola convida-nos, se for caso disso, a dar mais um passo, ou seja, vamos agora
“considerar, raciocinando, as vantagens (os proveitos) e as desvantagens (os perigos)” que podem estar
associados a cada uma das alternativas.
Aqui fica outra tabela que ilustra aquilo que aqui nos é pedido, considerando uma hipótese de cada vez:
Não faço o doutoramento Faço o doutoramento
Hipótese A Hipótese B
Vantagens, Resistências, medos, Vantagens, Resistências, medos,
oportunidades, obstáculos oportunidades, obstáculos
proveitos proveitos

Tratando-se de uma consideração racional, não interessa neste momento dar importância ao que se sente e ao
que apetece ou não apetece.

Na próxima publicação iremos para o passo seguinte: 4) Que significado poderá ter o impasse? É possível sair
dele? De que maneira?

Indecisão e impasse

Depois de explicados os dois grandes blocos que constituem o essencial do discernimento (a consideração
afectiva – consolação e desolação e a consideração racional – vantagens e desvantagens), é natural que apareça
agora uma nova e legítima pergunta:
Então e mesmo depois de consideradas cuidadosamente estes dois blocos, se mantiver ainda a indecisão e o
impasse? É possível sair dele? Se sim, como e de que maneira?

Antes de esboçarmos uma resposta, creio que será útil perceber qual o significado que poderá ter o
impasse e a indecisão. Estou, particularmente, convencido que podem ser duas as razões:
1) A primeira é um pressuposto óbvio e fundamental, mas que muitas vezes podemos esquecê-lo: por mais
cuidadoso que tenha sido o processo de tomada de decisões, nunca temos garantia absoluta que estejamos a
decidir de forma inequivocamente acertada.
Haverá sempre espaço para a dúvida e para a incerteza e por isso, desejar a ausência absoluta de indecisão pode
tornar-se numa pretensão utópica.
2) Embora não nos possamos livrar perpetuamente da indecisão, é preciso aferir a importância que ela tem.
Pode dar-se o caso, que o impasse signifique que ainda não é oportuno dar por concluído o discernimento.

Também aqui se reconhece de capital importância o acompanhamento espiritual, a conversa regular com
alguém experiente que nos pode ajudar a perceber a razão destes nossos impasses.

Neste sentido, como ajuda para tirar os obstáculos que possam ser causa da indecisão, santo Inácio de
Loyola propõe-nos um conjunto de exercícios que tem por finalidade, adotar um outro ponto de vista. Muitas
vezes, estamos tão metidos e envolvidos afetivamente nas questões que, é preciso recuperar uma distância
saudável que nos permita não perder a objetividade e a visão de conjunto.
São três os exercícios (simples e breves) que põem em marcha a nossa imaginação:
1) Imaginar que se aproxima uma pessoa, alguém que vem ter comigo para conversar. Uma pessoa
desconhecida a quem eu, naturalmente, desejo o melhor para ela: que se aproxime de Deus, que encare a vida
como lugar de missão e que o seu estilo de vida seja o do serviço, etc.
Em conversa vimos a perceber que essa pessoa traz consigo exatamente a mesma pergunta que trazemos
connosco: nos próximos quatro anos, faço ou não faço um doutoramento?
O que é que eu lhe aconselharia a fazer?

2) Imagino-me à beira da morte. O que gostaria que viesse a ser dito sobre mim? Quem fui e o que fiz? Quem
gostaria de ter sido?

3) Imagino-me, agora, diante de Deus cara a cara: o que gostaria de lhe responder sobre a decisão a tomar?

Em função deste conjunto de exercícios, pergunto como está a nossa decisão e para onde suspeito que se
inclina a balança.
É importante ter claro que há nas decisões uma fronteira pouco clara e ambígua e daí a necessidade do
acompanhamento espiritual.
Que fronteira é esta? É a fronteira entre:
- o “arranjar desculpas para adiar a decisão e não comprometer-me”; e,
- o “ainda não é o momento oportuno para decidir”.
E todo este trabalho não se faz sozinho, mas sempre acompanhado por alguém de confiança e, sobretudo,
experiente.

Na próxima publicação iremos para o passo seguinte: 5) A partir de que momento pode dar-se por
concluído o processo de discernimento?