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Rua Ivonne Silveira, 243, Loteamento Centro Executivo, Doron. Salvador/BA. CEP: 41.194-015.

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INQUÉRITO CIVIL Nº 1.14.000.002043/2017-35

DECLÍNIO DE ATRIBUIÇÃO

Trata-se de inquérito civil instaurado a partir de representação feita pela

ASSOCIAÇÃO DE MORADORES, EMPRESÁRIOS E AMIGOS DA ORLA NORTE DE

SALVADOR, com o objetivo de apurar eventual extração de areia e construção de asfaltamento

no trecho de beira mar da praia de Stella Maris, próximo ao Restaurante Lôro, divisa do

Loteamento Praia do Flamengo. O fato teria sido supostamente causado por particular, para

bloquear o acesso à praia e privatizar a área, o que causou enormes cavas na areia da praia e a

supressão de restingas e dunas.

De acordo com a representação, no dia 16 de maio de 2017 foi iniciado o

asfaltamento no trecho de beira mar da praia de Stella Maris, próximo ao restaurante do Lôro,

divisa do loteamento Praias do Flamengo. Apesar de não saber exatamente o responsável pela

construção e qual seria a sua destinação, após contato telefônico com o gerente de

Licenciamento Ambiental da SEDUR, a obra foi embargada no dia 17 de maio de 2017 (5/8).

Antes disso, no ano de 2016, na mesma área, foi aberto um enorme buraco entre Stella Maris

(Av. Beira Mar) e Flamengo (Av. Mar Del Plata), supostamente causado por JORGE

SANTANA (19/20).

Diante disso, foram expedidos os Ofícios de nº 244/2017 e de nº 245/2017 para a

Superintendência de Patrimônio da União - SPU e para Secretaria da Cidade Sustentável e

Inovação – SECIS, solicitando informações sobre os fatos narrados na representação e

realização de vistoria in loco (24/25).

Em resposta, a SPU, no Relatório de Fiscalização Individual nº 914, realizou

vistoria na Avenida Beira Mar S/N, Stella Maris, no encontro com a Rua Poeta Bráulio de
Abreu, e identificou uma obra de pavimentação no local, além de estacas de madeira fixadas

ao lado do passeio. Pessoalmente, não foi encontrado ninguém responsável pela obra.

Contudo, havia uma placa instalada no local, informando a SECIS como órgão municipal

responsável, bem como a UNIDUNAS como empresa responsável. Informou, ainda, que a

intervenção foi realizada em área da União, necessitando de autorização prévia para ser

realizada (28/30). Após o RFI 914 foram emitidas as notificações nº 102/2017 e nº 103/2017 para

a SECIS e UNIDUNAS, respectivamente (32/33).

No Ofício nº 176/2017 a SECIS informou que a obra constitui em uma simples

intervenção no logradouro público municipal, a fim de implantar equipamentos de passeio,

meio-fio, melhoramento do piso, etc. Informou, ainda, que a obra não atingia área pertencente

a União, embora um pequeno trecho estivesse próximo à praia e que a intervenção seguia

projeto desenvolvido pela Prefeitura para a requalificação da obra de Stella Maris (34/35).

Mencionou também a existência de um Termo de Acordo e Compromisso (TAC) pactuado

entre a SEDUR, SECIS e UNIDUNAS para a continuação das obras.

Em aditamento à representação, o representante narrou a ocorrência de novos

fatos, a exemplo da existência de um estacionamento privado implantado no local e a

ocorrência de diversos danos ambientais na área (37/56), bem como juntou documentos

referentes ao caso (58/75). Nesse ponto, faz-se relevante destacar a juntada do TAC firmado

entre SECIS, SEDUR, UNIDUNAS e DELTA PARTICIPAÇÕES S/A realizado em 31 de maio de

2017 (60/63). O aditamento continua com descrição de novos fatos às fls. 82/92.

Em 22 de maio de 2018 e 03 de junho de 2018, o Ministério Público Estadual

encaminhou documentação de fls. 96/104 e 105/112, solicitando cópia dos autos, para instrução

da Notícia de Fato IDEA nº 003.9.87361/2018, cujo objeto se restringe à ordem urbanística. A

documentação foi enviada via e-mail, conforme fl. 117.

Em 11 de setembro de 2019 ocorreu reunião na sede desta PR/BA, em que

estavam presentes, além do MPF e MPE, representantes da SECIS, SEDUR, SECULT e

Fundação Mário Leal Ferreira, onde ficaram definidos os seguintes encaminhamentos: que a
SEDUR realizasse uma vistoria in loco, para prestar informações sobre a construção de uma

vala paralela à via na Praia do Flamengo; que a SECIS também fornecesse tais informações;

que a TRANSALVADOR informasse acerca de uma eventual cobrança de estacionamento

irregular; bem como que a Fundação Mário Leal Ferreira fornecesse informações sobre a

sobreposição do projeto no trecho investigado. O despacho de fl. 149 determinou a expedição

de ofícios para tais órgãos.

Em resposta, a Fundação Mário Leal Ferreira encaminhou uma planta

“localizando a sobreposição da rua em questão, em relação ao projeto desta Fundação elaborado para a

Orla de Stella Maris, Flamengo e Ipitanga” (155/156). Já a TRANSALVADOR informou que não

mantém estacionamento regulamentado na praia de Stella Maris/Loteamento Praia do

Flamengo, bem como que a área é usada como estacionamento clandestino explorado por

particulares e estabelecimentos comerciais (159).

O procedimento preparatório apensado aos autos resultou na expedição de

ofício à EMBASA. A empresa encaminhou ofício em 14 de abril de 2019, informando que “o

acesso à Estação Elevatória de Esgoto (EEE-Flamengo I), localizada no bairro de Stella Maris, foi

comprometido com a intervenção em terreno vizinho; todavia, a manutenção e a operacionalização do

mencionado equipamento estão regulares” e juntou a Nota Técnica nº 34/2019 (171/172).

A SEDUR encaminhou relatório de ação fiscal juntado à fl. 175, informando que,

após contato com a SEFAZ, verificou que a empresa ABIC CONSTRUTORA IMOBILIÁRIA

LTDA é proprietária do terreno. Quanto às intervenções ocorridas na área objeto dos autos,

concluiu que a obra limitou a melhoria de acesso através da pavimentação de uma via pública,

conforme informado pela SECIS às fls. 41/42. Concluiu ainda, que a “abertura de trincheira

paralela foi feita com a finalidade de drenar a água que se acumulou no lote 5 e que colocava em risco a

estabilidade da obra” (175/175v).

A SPU encaminhou o Ofício nº 56765/2019/DIINC-SPU-BA/MP para informar a

resposta da SECIS e da UNIDUNAS, devido as notificações nº 102/2017 e nº 103/207. Ambas as

notificadas informaram que a “obra não atingiu bem da União, na medida em que se restringiu aos
limites da Rua, que, por disposição da Lei Federal nº 13.240/15, art. 15, pertence exclusivamente ao

domínio do município” e que o Loteamento é devidamente regularizado, conforme consta

registro no Cartório do 7º ofício de Registro de Imóveis.

Dessa forma, a SPU afirmou que o trecho de terreno de domínio da União que

coincide com a Rua Bráulio Poeta foi transferido ao município de Salvador com a publicação

da Lei Federal nº 13.240/15 e, por isso, não há mais medidas a serem adotadas pelo órgão.

É o breve RELATÓRIO dos autos.

Trata-se de inquérito civil instaurado com o objetivo de apurar eventual extração

de areia e construção de asfaltamento no trecho de beira mar da praia de Stella Maris, próximo ao

Restaurante Lôro, divisa do Loteamento Praia do Flamengo, supostamente causado por particular, para

bloquear o acesso à praia e privatizar a área, o que tem causado enormes cavas na areia da praia e a

supressão de restingas e dunas.

Ocorre que, após análise dos autos, verifica-se que os fatos apurados não

representam ofensa a bens ou interesses da União, capazes de justificar a atribuição do

Ministério Público Federal no caso concreto.

De antemão, é preciso destacar a juntada de documentação às fls. 36/56, 58/95 e

114/116 dos autos feita pelo representante. Contudo, essas supostas intervenções posteriores

demonstradas nos documentos extrapolam o objeto deste Inquérito Civil. A presente apuração

restringe-se à intervenção ocorrida no trecho beira mar da praia de Stella Maris, situado na Av.

Beira Mar, no encontro com a Rua Bráulio de Abreu, próximo ao Restaurante Lôro, divisa

Loteamento Praia do Flamengo.

Desse modo, no intuito de entender o mérito e delimitar o objeto deste Inquérito

Civil, é preciso esclarecer a localização da área investigada: obra urbana situada na Av. Beira

Mar, S/N, Stella Maris, no encontro com a Rua Poeta Bráulio de Abreu, o que resultou na
abertura de um buraco entre a Av. Beira Mar (Stella Maris) e a Av. Mar Del Plata (Flamengo),

como se verifica na fl. 5 e na fl. 28, também demonstrada abaixo.

Fonte: Google Maps

Quanto à titularidade do local onde houve a intervenção, incide a controvérsia.

Apesar do RFI nº 914 encaminhado pela SPU/BA constar que “a intervenção está situada em área

da União” (28/29), o que necessitaria de uma autorização prévia para ser realizada (o que não

ocorreu); o Ofício nº 176/2017 encaminhado pela SECIS informou que a “intervenção não atinge,

em momento algum, área da União, embora um pequeno trecho da rua (cul de sac) esteja próximo à

praia. Na verdade, trata-se de bem (a Rua) de domínio exclusivo do município, na medida em que, sendo

este logradouro (Rua) integrante do Loteamento Parque Stella Maris (Parcelamento do Solo aprovado

por este Município e devidamente registrado no Cartório de Imóveis, na década de 1980, conforme

determina o art. 15 da 13.240/2015” (34/35). Dessa forma, verifica-se um conflito entre os órgãos,

em virtude da existência ou não de interesse federal.

Contudo, a SPU/BA pôs fim às dúvidas referentes à titularidade do local, ao

encaminhar o Oficio nº 56765/2019 manifestando a ausência de interesse no feito, porque “o

trecho de terreno de domínio da União que coincide com o logradouro Rua Bráulio Poeta foi transferido

ao município de Salvador com a publicação da Lei Federal 13.240/2015, não havendo medidas a serem
adotadas pela SPU em relação à obra em tela, nos limites estipulados pela Lei” (203).

Dessa forma, para ratificar o entendimento de ambos os órgãos, a Lei Federal nº

13.240, de 30 de Dezembro de 2015, que dispõe sobre a administração, a alienação, a

transferência de gestão de imóveis da União e seu uso para a constituição de fundos,

realmente prevê a transferência de bens da União para os municípios.

Art. 15. Ficam transferidos aos Municípios e ao Distrito Federal os

logradouros públicos, pertencentes a parcelamentos do solo para fins

urbanos aprovados ou regularizados pelo poder local e registrados nos

cartórios de registro de imóveis, localizados em terrenos de domínio da

União.

Verifica-se, portanto, conforme disposição legal, que o objeto desta demanda

passou a ser de domínio do município de Salvador/BA, não havendo mais interesse federal ao

presente caso.

Ante o exposto, considerando que o objeto apurado não reflete danos

ambientais de abrangência federal, e/ou relacionados ao patrimônio histórico/cultural da

União; declino de minha atribuição em favor do Ministério Público Estadual, a quem deve ser

remetido o feito após o encaminhamento à 04ª Câmara de Coordenação e Revisão e em sendo

homologado por esta, para adoção das medidas que entender cabíveis.

Comunique-se ao representante, encaminhando-lhe cópia do presente declínio.

Salvador/BA, 18 de fevereiro de 2020.

Bartira de Araújo Góes

Procuradora da República