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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Uma Linha Evolutiva na Arte Africana: Do Reino à República Democrática do Congo

RESUMO: Este artigo propõe uma análise da evolução temporal das manifestações artísticas africanas
tendo como exemplo às produzidas no território do antigo Reino do Congo. Através da apresentação de
discussões relativas à teoria da arte sobre as produções africanas, a exposição de produções da arte
tradicional conguesa de diferentes povos, instituições contemporâneas da República Democrática do
Congo e europeias cujo foco seja a exposição de arte africana e as influencias sofridas e realizadas sobre
as produções europeias; criou-se uma discussão de cunho historiográfico e cultural sobre a arte africana.

Giovana Souza Guimarães do Nascimento

Belo Horizonte

2019
Exemplos de expressões artísticas através do tempo podem ser utilizadas a fim de criar
uma imagem que reflita o caráter plural da história da arte africana utilizando tais como as
produzidas pelas civilizações conguesas. Desde o antigo reino do congo, por meio de
exemplares de arte tradicional de alguns dos povos que o formavam, até as expressões
contemporâneas da República democrática do Congo, criou-se uma análise que evidencia
características estéticas e culturais presentes em algumas dessas manifestações.

Antes de adentrar especificamente na arte é necessário contextualizar alguns aspectos


relevantes a sua teoria. Falar sobre arte africana não é o mesmo que falar sobre arte europeia ou
americana, por exemplo. As discussões referentes as suas especificidades são imensas e
extremamente relevantes uma vez que ainda se encontram dificuldades em classifica-las ou em
determinar seu lugar em relação às outras formas de manifestação artística.

O recorte temporal largo aqui empregado serve para a indagação sobre a visão interna
e externa sobre arte congolesa. As rupturas e continuidades que podemos enxergar por meio da
comparação entre as manifestações em si e a relação com elas mantida – por aqueles que se
propuseram a admirá-las ou por aqueles que a tem como parte de seu cotidiano – revelam
características que justificam a importância que a arte tem para a história desse território.

Munanga em “A dimensão estética na arte negro–africana tradicional” discorre


principalmente sobre a falta de consenso nos estudos sobre arte africana. Apresenta três
principais teorias que guiam tais estudos: etnológica, etno-estética e estética. A primeira
defende que o contexto em que a arte aparece – seu significado e funcionalidade – deve ser
levado em conta pois diz respeito à interação das pessoas com os objetos a sua volta; é
evidenciada a necessidade de interpretação de tais peças uma vez que elas também contam com
um caráter religioso ainda que não se resumam a ele. A segunda prega uma análise a partir de
um problema epistemológico que guiará a discussão a partir de elementos conceituais. A última
revela aspectos referentes à percepção da beleza nessas manifestações como se fossem feitas
para contemplação estética – algo semelhante ao analisar “a arte pela arte”; nessa teoria devem
ser levadas em conta questões sobre: termos da linguagem artística, formas de apreciação das
obras, acesso, preço e crítica.

A mesa redonda “Arte africana e o conceito de arte” do evento “Encontro Afro


Atlântico na Perspectiva dos Museus” promoveu discussões que seguem o mesmo caminho que
o de Munanga. Nela foi apresentado como o próprio termo “arte africana” é generalizador e não
consegue abranger as inúmeras especificidades existentes nas inúmeras manifestações desse
1
continente uma vez que coloca todas elas dentro de uma mesma perspectiva. É apresentado
como a arte faz parte da vida cotidiana dessa civilização de uma forma geral, ainda que de
maneiras distintas dependendo do lugar, e como as fronteiras de tais manifestações se mostram
cada vez mais fluidas por motivos externos – tais como o mercado da arte – ou através das
intenções de seus próprios autores.

Tanto Munanga quantos os participantes da mesa, assim como a maioria dos


intelectuais cujo foco de pesquisa seja arte africana, concordam que todas as dificuldades
encontradas que geram motivos para discussão sobre o assunto são frutos de uma tentativa
ocidental em enxerga-las através da sua ótica produzida por conceitos que não regem tais
produções. Ilana Godlstein, quem produziu o relato da mesa, nos lembra como, para a sociedade
ocidental, era impossível pensar qualquer forma de arte africana como merecedora de tal título
antes que alguns pintores europeus se interessassem por elas; Munanga discorre sobre a
dificuldade encontrada quando estudiosos das artes tentam classifica-las dentro dos conceitos
teóricos que são frutos em sua maioria de produções ocidentais. As produções africanas
tradicionais não se encaixam nos modelos não africanos de arte e o problema reside justamente
no fato de não existir outra maneira de se falar sobre arte.

Quando pensamos sobre as produções contemporâneas tal problema já não é


encontrado, ainda que existam outras questões que devem ser discutidas, como será retratado
oportunamente num momento posterior do texto.

Apesar de todos os problemas expostos acima sobre a classificação e divisão dos


âmbitos da arte africana tradicional, para fins didáticos e para uma melhor compreensão, é mais
fácil – e de certa forma necessário – dividir em categorias distintas as produções tradicionais
para que possamos analisá-las melhor. É comum encontrarmos nos manuais de arte as divisões
em temas representados, materiais usados, data ou povos de quem são frutos assim como a
influência de quem sofreram. Ainda que tais divisões muitas vezes se mostrem um tanto quanto
preconceituosas – como a classificação entre artes maiores ou artes mecânicas – com os devidos
adendos feitos, consegue-se enxergar características importantes de tais manifestações, por
exemplo: como se davam as inspirações religiosas no momento de confecções de estatuetas e
máscaras ou até mesmo que utilidade peças de artes mecânicas (como canecas ou instrumentos
musicais) tinham naquelas sociedades.

Não é segredo ou novidade nenhuma dizer que a imagem que temos do continente
africano como um todo é fruto de estereótipos propagados pelos mais diversos meios, tanto que
2
é necessário esforço para quebrar tal paradigma, logo, quando pensamos sobre arte, não poderia
ser diferente. Nos primeiros momentos das peças africanas em museus eram classificadas
apenas como artefatos e não como obras de arte, contudo, hoje essas mesmas peças são
preferência num momento de exposição. O caráter exótico e mágico, diferente do que é
produzido pelo ocidente – não coincidentemente a exata característica que reforça os
estereótipos sobre esse tipo de arte – é o que mais chama a atenção do observador: “It must be
old and in decent condition, and it must have been used, preferably in an important ritual”
(KLEIM, 2009); fato este que faz com que as manifestações contemporâneas sejam
constantemente deixadas de lado por não representarem o ideal já estabelecido do que se espera
de Arte Africana.

Tal situação ocorre principalmente em museus fora do continente africano não só pela
questão dos observadores, mas pelo fato de que a maior parte da produção desse continente se
encontrar fora dele, tanto que os museus nativos encontram várias dificuldades em manter suas
próprias obras ali. Questões históricas, obviamente ligadas à colonização, aliadas com as
dificuldades em propagar esse modo de preservação de cultura, também, em parte, fruto das
consequências do período colonial, fazem com que essa parte da história da África seja contada
mais frequentemente fora dela do que dentro.

Dando início ao primeiro ponto central desse artigo chegamos agora às manifestações
feitas durante o período do Reino do Congo. Para a análise da evolução da arte conguesa é
importante ressaltar que muitas tribos (Kongo, Luwanda, Luba e Kuba, por exemplo) tiveram
contato com os europeus, primeiramente portugueses, logo no início da Época Moderna e
apesar de fato não possuir gigantesca importância, ele também não pode ser deixado de lado
uma vez que veremos a introdução de processos europeus no seus fazeres artísticos à exemplo
da utilização do metal fundido. Uma característica interessante sobre a arte tradicional
produzida aqui é como ela se mostra mais abstrata na região sul e mais semelhante ao real na
região norte.

Uma das primeiras manifestações a chamar a atenção dos europeus foram as dos Fang
– que englobavam mais de uma cultura. Suas esculturas de madeira que representavam cabeças,
bustos, figuras em geral, eram utilizadas em momentos de cultos e também serviam como locais
de armazenamento para os ossos de seus ancestrais que, posteriormente, eram colocados sob
seus túmulos. Tais expressões representavam uma parte importante de sua sociedade e
cativaram o interesse dos europeus por suas características exóticas. Outra manifestação Fang

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importante eram suas máscaras que possuíam os mais diversos significados: podiam representar
espíritos e serem usadas durante cultos ou em questões referentes à julgamentos de crimes
naquela sociedade por exemplo; um fato curioso sobre essas máscaras é que elas foram banidas
pelos europeus pois suas carrancas eram tão expressivas que causavam medo.

Não era somente dentro das culturas Fang que diferentes máscaras possuíam diferentes
características, na verdade, uma das poucas coisas que se pode generalizar sobre essas
manifestações conguesas é a que em todos os seus povos significados distintos são atribuídos
às mascaras dependendo do contexto em que fossem utilizadas. Se pensarmos nas
manifestações da tribo Teke, por exemplo, encontramos uma diferença visual facilmente
identificada já que, de certa forma, elas utilizam mais de técnicas de pintura do que esculturais.

Máscara Fang1 Máscara Teke2

Outras formas de manifestações tradicionais conguesas, que frequentemente são


classificadas como artes menores, são os objetos de uso cotidiano ricamente decorados tais
como: facas, canecas, cadeiras e acessórios por exemplo. As facas Kuba decoradas com padrões
mais geográficos que eram feitas para lançamento, as canecas de madeira ricamente adornada
dos Yaka, as cadeiras Chockwe esculpidas para o uso da corte – que adaptaram técnicas e
materiais europeus em diversos outros âmbitos artísticos – e seus pentes e outros acessórios
para cabelo decorados com temas humanos ou animais, não apenas possuíam caráter utilitário,
mas também serviam como fator de representação de status dentro de cada uma dessas
sociedades. Apesar do período imenso de produção de tais itens, os que ainda se encontram

1
Disponível em: < https://blog.americananthro.org/2016/08/10/aaa-intern-update-national-museum-of-african-
art/> acesso em: 22 nov. 2019
2
Disponível em: < https://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2009/barbier-mueller-museum/photo-
gallery> Acesso em: 22 nov. 2019
4
preservados são em sua maioria apenas os que datam da segunda metade do século XIX e da
primeira metade do século XX.

Ainda pensando sobre o contato das populações locais com os europeus, mais
especificamente portugueses, é válido apontar como a relação do aceitamento do catolicismo
pelos nativos também refletiu em sua arte. Marina de Mello Souza discorre sobre as
características próprias que a religião europeia adquiriu nas regiões conguesas e o que tal fato
representava para as diferentes civilizações – para os europeus, mais uma terra conquistada para
sua fé; para os congueses, um meio de reestruturar tradições e formas de controle tradicionais
por exemplo – e um dos aspectos que emprega em seu texto “Além do visível: poder,
catolicismo e comércio no Congo e Angola (séculos XVI e XVII)” é exatamente o das figuras
católicas que agora estavam presentes naquela região. Embora o significado que fossem
atribuídos a elas ali não fosse o mesmo que na Europa, esculturas e outros símbolos cristãos –
como crucifixos – começaram a serem produzidos naquele reino com a função de serem
utilizados também em momentos de culto da mesma forma que faziam com aqueles que eram
trazidos da Europa.

A exibição de peças com temas católicos teve grande importância nesse Congo cristão
uma vez que serviam também como meio de expressar status social superior: eram em sua
maioria membros da elite que haviam se convertido em um primeiro momento ao cristianismo,
e não era apenas através de crucifixos ou esculturas que demonstravam isso. Uma característica
símbolo de poder da realeza era o chapéu Mpu, que empregava técnicas artísticas próprias da
sua civilização, mas esse ícone acabou sendo substituído pela coroa forjada em metal que trazia
basicamente o mesmo significado que o Mpu, mas colaborava para expressar as relações
vigentes com o mercado atlântico importantíssimas para aquela sociedade.

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Chapéu Mpu 3 Representação da coroa europeia4

A arte em si possui um caráter plural de significados e funções mesmo que não


existam consensos sobre a importância de tais características. Uma das funções que podemos
encontrar facilmente na arte conguesa, assim como em vários outros tipos de arte, é a de
transmissão de culturas e tradições. Vemos nas produções da sociedade Bawoyo, que se
encontrava na região de domínio do Reino do Congo mas hoje geograficamente se encontra
mais presente no território da Angola, a transmissão de seus provérbios, que representam
formas de pensamento e ancestralidade, ser feita em tampas de madeiras em formatos de disco
que contém tanto palavras quanto desenhos gravados em si. Tal forma de manifestação se fazia
presente também em diferentes âmbitos da vida social dessa comunidade representando e
legitimando inclusive o poder e a forma de estruturar a ordem vigente.

Tampa Bawoyo5

Ainda seguindo a linha de raciocínio sobre a funcionalidade da arte podemos citar mais
um exemplo que inclusive continua sendo produzido contemporaneamente, ainda que com
algumas mudanças de significados: os tecidos Bakuba. Introduzido nessa sociedade por volta
de 1600 pelo rei Shamba Bolongo, o processo de produção desses tecidos se inicia com a
extração da matéria prima: as folhas mais novas da Palmeira Rafia, que possui um importante
papel econômico para essa sociedade. O trabalho manual em diversas etapas envolve várias
pessoas de várias esferas sociais até que chegue ao tecelão que produzirá a matéria têxtil que
só então estará pronta para o tear onde serão atribuídos os padrões geométricos característicos.

3
Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
47142017000200011&lng=en&nrm=iso&tlng=pt> Acesso em: 24 de nov. de 2019
4
Disponível em: < http://www.mundamba.com/2014/05/o-reino-do-congo-a-decadencia-final-do-reino-do-
congo.html> Acesso em: 24 de nov. de 2019
5
Disponível em: < https://docplayer.com.br/77722004-Abreu-castelo-vieira-dos-paxe.html > Acesso em: 24 de
nov. de 2019
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Esses tecidos são utilizados em diversos tipos de produções tal como saias e sandálias e
representam

Variados aspectos como a importância da instituição monárquica, a


estratificação social, a altivez da classe guerreira e sacerdotal, bem como o
pertencimento a grupos iniciativos e associações de poder exclusivos podem ser
distinguidos amplamente a partir do vestuário, tapeçaria e nos demais usos práticos
da tecelagem (ARAUJO, 2011)

Tecido Bakuba6

Passando por cima de inúmeras outras formas de arte tão expressivas quanto as
selecionadas e expostas neste texto, é chegado o momento das manifestações contemporâneas
do território da República Democrática do Congo. Duas importantes instituições presentes
nesse cenário são a Ècole de Peinture de Brazzaville e a Académie de Beuax-Arts de Kinshasa.
Fundada em 1951 e já sendo destaque no cenário artístico, a Ecole de Peinture tem como um
de seus principais princípios “utilizar a arte moderna para representar contos, lendas e tradições
africanas, ou seja, criações artísticas a partir da memória do Congo” (GRILLI); a princípio
contava com o financiamento do governo Francês, mas com as crises da década de 1990 a
situação se modifica e a escola se vê obrigada a encontrar outros meios de continuar em pé,
com isso se torna uma cooperativa o que permite que artistas continuem a produzir suas obras
e se torna reconhecida internacionalmente inclusive tendo recebido a medalha Picasso que
gratifica instituições relevantes no cenário da arte contemporânea. A Académie de Beaux-Arts
foi fundada em 1943 com o nome de Ecole Saint Luc na província do Congo central por um
missionário belga, a princípio oferecendo apenas aulas relativas à produção de esculturas, mas
após a transferência para Kinshasa e a mudança de nome novos cursos começaram a ser
oferecidos inclusive além dos relacionados a arte.

6
Disponível em:< http://museuafrobrasil.org.br/programacao-
cultural/exposicoes/temporarias/detalhe?title=%E2%80%9CArte+Bakuba+%E2%80%93+R%C3%A1fias+e+Velud
os%E2%80%9D > Acesso em: 24 de nov. de 2019
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Um dos grandes problemas relacionados a arte do Congo, já apresentado
anteriormente, que também é encontrado na arte relativa a outros países e sociedades africanas,
é a dificuldade em manter as produções ali: no país e no continente em que foram feitas,
independentemente de serem tradicionais ou contemporâneas. Seja pelo fato de a colonização
ter levado grande parte dessas obras para as metrópoles, pelo ainda existente interesse fundado
no caráter exótico das produções congolesas, ou pelo financiamento escasso infelizmente
existente no pais africano, é fato de que não só a maioria das peças mas como a maioria da
atenção se encontra em museus europeus e não congolenses. Um exemplo desse triste fato é
que, durante o levantamento de bibliografia para este trabalho, me deparei com a Galerie d’art
contemporain du musee d’art de Lubumbashi, contudo, tudo o que achei a respeito dele foram
os comentários na sua página do site Trip Advisor enquanto a quantidade de reportagens e
artigos sobre as exposições dessas peças, por exemplo, no Museu Metropolitano de Arte em
Nova Iorque foram imensas.

Outras amostras dessa infeliz situação são encontradas facilmente em Paris. No ano de
2015, a fundação Cartier organizou uma exposição com mais de 350 peças de 41 artistas que
reunia obras de 1926 até 2015; os organizadores relataram que sua intenção ao montá-la teria
sido a de fornecer uma imagem distinta daquela que se mostra em documentários ou reportagens
sobre o Congo, logo, apresentar diferentes manifestações tais como fotografias, aquarelas,
esculturas em sua maioria de tendências contemporâneas fazia sentido ainda que tivessem
recebido inúmeras críticas que os classificaram com neocolonialistas e paternalistas ao estarem
expondo a arte produzida no Congo em um museu francês. Fora essa situação em museus e
exposições das obras de arte, também existem os movimentos e incentivos para os próprios
artistas, à exemplo do “Sistema Kinshasa”, que reuniu vários artistas que produziam
manifestações de caráter político para que fossem para a capital francesa.

Como a arte do Congo não se resume à tradicional, e como a arte em si não se resume
àquilo que é exposto em museus, é relevante apresentar um artista que possui livros como suas
obras. Kama Sywor Kamanda é um escritor congolês que escreve em francês contos de histórias
sobre seu país natal; reconhecido internacionalmente e ganhador de prémios de literatura tanto
europeus quanto africanos – ainda que apenas uma de suas obras tenha sido traduzida e apenas
para o inglês – que se mostra um importante expoente da arte contemporânea congolesa dentro
e fora do Congo.

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Expostos alguns dos diferentes aspectos que rondam a arte congolesa, antes de concluir
essa argumentação, é interessante ressaltar ainda um último ponto que dirá respeito à arte
produzida em todo o continente africano: a influência realizada na arte moderna europeia. Como
já exposto no início do texto, foram alguns pintores europeus que ao se interessarem pela arte
africana trouxeram a atenção do mundo ocidental para essas manifestações, contudo, não foi só
isso que eles fizeram. Em um momento em que tais pintores estavam em busca de novos temas
e inspirações para realizarem algo novo em seus trabalhos, as manifestações africanas, que
entravam em contato pela primeira vez logo neste momento, vieram bem a calhar como
podemos ver tanto nas pinturas como esculturas do movimento cubista europeu, como por
exemplo, nas obras de Pablo Picasso.

Não era a primeira vez que artistas europeus se apropriavam de temas e técnicas não
europeias – os impressionistas, por exemplo, haviam assimilado técnicas asiáticas em seus
processo de criação – contudo, com a arte africana, o movimento fauvista, que existiu apenas
no intervalo entre 1904 e 1907, foi o primeiro e Matisse foi um dos expoentes. No quadro ao
lado podemos enxergar claramente a
temática africana nos jarros.

MATISSE, Henry. Natureza morta com cebolas


rosadas. 1906

Com a fundação de museus etnográficos em diversos países da Europa, onde peças


africanas começaram a ser expostas, ocorre um aumento ainda mais intensivo do interesse por
nessas peças por parte de artistas europeus que queriam renovar sua arte e criar peças com temas
diferentes.

Se analisarmos a obra “Les Demoiselles D’Avignon” de Pablo Picasso, quadro que, a


bem dizer, inicia o movimento cubista, podemos enxergar sem dificuldades a inspiração nas
máscaras africanas através da harmonia decomposta e da realidade distorcida presentes na peça.
Não só a rápida análise deste quadro nos revela esse fato. Talvez o elemento que mais
justificaria tal observação é o de que em 1907, ano em que Picasso pintou o quadro, o artista
tinha entrado em contato pela primeira vez com exemplares de máscaras africanas e, após isso,
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iniciou sua coleção particular de peças de arte africana – fato este inclusive encontrado em
outros expoentes do movimento cubista. A expressividade encontrada nos aspectos estéticos de
máscaras ou esculturas africanas cativou uma geração inteira de artistas europeus que se
apropriaram desses aspectos característicos e são reconhecidos mundialmente até os dias de
hoje.

PICASSO, Pablo. Les Demoiselles D’Avignon. 1907

É interessante pensarmos que o movimento cubista e a arte tradicional africana se


encontraram de fato, em um momento da história como contemporâneos. Apesar de, para os
europeus, as outras manifestações pudessem representar um ideal de tempo anterior de uma
cultura que consideravam primitivas, a arte tradicional continuava sendo reproduzida ao mesmo
tempo em que pintavam seus quadros em ateliês franceses. A arte tradicional na verdade nunca
deixou totalmente de ser produzida, mesmo que os movimentos contemporâneos se mostrem
presentes e relevantes no cenário artístico, o tradicional tem um caráter cultural e utilitário que
populações do continente africano, continuam a expressar ainda que em menores quantidades.

A linha evolutiva da arte no Congo traçada aqui não se aproxima por uma grande
distância da real magnitude dessas expressões e de seus significados para essas culturas. O
território é enorme, as sociedades são ricas em especificidades e as manifestações são
praticamente infinitas em quantidade e significados. Contudo, o recorte selecionado se mostrou
capaz de evidenciar aspectos importantes sobre tais manifestações.

Desde as influências sofridas às realizadas, da tradicional à contemporânea, os aspectos


teóricos que regem o mundo das artes, os locais em que se encontram – ou pelo menos deveriam
se encontrar – o reconhecimento e a preferência dada a diferentes manifestações servem para
mostrar que muito ainda deve ser estudado sobre a arte africana que funciona não só como arte
mas também como fonte histórica.

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Bibliografia

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