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Flávia Biroli*

Responsabilidades, cuidado e democracia

Responsabilities, care and democracy

A necessidade de cuidado pode ser pensada como parte do cotidiano


das pessoas. As formas e a intensidade desse cuidado variam porque
somos mais vulneráveis em alguns momentos da vida, como a infância
e a velhice, e porque somos desigualmente vulneráveis durante a vida
adulta, devido a condições físicas especiais, a enfermidades e à vulne-
rabilidade social. Coletiva e individualmente, não se trata de um tipo
de problema passageiro, que possa ser simplesmente eliminado: não é
possível suspender a dependência do cuidado de outros, embora esse fato
possa ser significado e organizado de formas profundamente diversas.
A disponibilidade e os padrões de distribuição de recursos materiais e
tecnológicos, por exemplo, incidem no cuidado das crianças e nas formas
que a vulnerabilidade e mesmo o sofrimento podem assumir em condi-
ções de doença e na velhice. Os recursos disponíveis para o suporte aos
indivíduos são, assim, um dos aspectos que fazem com que momentos
e condições de vulnerabilidade sejam vividos de maneiras diferentes
pelos indivíduos. O cuidado envolve, além disso, relações interpessoais,
independentemente de ser realizado por pessoas com quem se tem laços
anteriores ou afetivos.
*
É professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Brasília, DF), onde integra o
Grupo de Pesquisas sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), e pesquisadora do CNPq. E-mail:
flaviabiroli@gmail.com. As análises aqui apresentadas foram desenvolvidas no âmbito da pesquisa
“Divisão sexual do trabalho e os limites da democracia: elaborações teóricas a partir das desigualdades
de gênero no Brasil contemporâneo”(CNPq, PQ).
Revista Brasileira de Ciência Política, nº18. Brasília, setembro - dezembro de 2015, pp. 81-117.
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220151804
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Se o cuidado é um fato no cotidiano das pessoas, e um elemento organi-


zador das suas relações, está longe de ser um tema com alguma centralidade
nos estudos teóricos e empíricos sobre a democracia. No Brasil, é um tema
pouco presente, sobretudo na Ciência Política, embora algumas pesquisa-
doras, mais frequentemente das áreas de Sociologia e Antropologia, venham
se dedicando sistematicamente a compreender as articulações entre gênero,
cuidado e família e entre gênero, cuidado e trabalho1.
Neste artigo, discuto as conexões entre cuidado e democracia. Entendo
que a tematização e compreensão de como se estabelecem é incontornável
para a teoria e para a prática da democracia, caso tenham como referência
a possibilidade de construção de relações e formas de participação mais
igualitárias na sociedade. A configuração das relações de cuidado é, como
argumento aqui, determinante das possibilidades de acesso a recursos e
à participação política. É, também, um fator na organização das relações
afetivas e de solidariedade. Em seus padrões atuais, o cuidado privatizado
e mercantilizado contribui para a reprodução de desigualdades e injustiças.
Entendo que a discrepância entre a centralidade do cuidado como proble-
ma no cotidiano das pessoas e nas teorias e estudos empíricos da democracia
se deve ao predomínio de concepções restritas da política. Nelas, o impacto
das desigualdades sociais para a democracia é pouco tematizado. Há, tam-
bém, uma grande distância entre os fenômenos e espaços considerados para
a análise da democracia e as experiências cotidianas das pessoas – e podemos
pensar que essa distância se acentua quando se trata das experiências dos gru-
pos que têm menor acesso às arenas políticas institucionais, algo que é parte
da discussão apresentada neste artigo. A análise dos padrões diferenciados
de participação política, por exemplo, se faz de forma restrita quando não
leva em conta as determinantes cotidianas para o acesso a tempo, recursos
e redes de contato, assim como os processos cotidianos em que a ambição
e a vontade de participar da política são produzidas. As relações cotidianas
de cuidado são determinantes da posição social relativa das pessoas, com
impacto direto para as formas que sua participação na vida social assume,
mas também para a possibilidade de que usufruam condições dignas de vida2.
1
Vale conferir a coletânea sobre cuidado e cuidadoras organizada por Helena Hirata e Nadya Araujo
Guimarães (2012), e também o trabalho de autoras como Araújo e Scalon (2006), Hirata (2014) e Sorj
(2013), entre outras.
2
Essa dignidade, no sentido aqui mobilizado, inclui acesso a recursos básicos e garantias para a inte-
gridade física e psíquica dos indivíduos.
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As teorias feministas da democracia se diferenciam de outras correntes


teóricas na sua atenção às relações cotidianas de cuidado. Entendo que isso
se dá não apenas pela maior visibilidade da posição das mulheres, que são,
nos arranjos correntes, as principais responsáveis pelo cuidado e, justamente
por isso, as mais afetadas pela desvalorização social do trabalho de cuidar. Na
análise das formas históricas da exclusão e da marginalização das mulheres
nas sociedades ocidentais, a crítica feminista estabeleceu duas perspectivas
fundamentais para a análise dos limites da democracia: uma delas é a crítica
à dualidade entre as esferas pública e privada, que permitiu que a segunda
fosse entendida como natural, pré-política e, portanto, aquém dos requisitos
de justiça e do tipo de igualdade pressuposta pela democracia; a segunda,
bastante conectada à primeira, é a crítica à autonomização da política em
relação às experiências e formas de dominação e de opressão cotidianas.
A saliência das relações de cuidado como problema para a democracia se
define ancorada nessas duas críticas fundamentais.
Para ser fiel a elas, de modo que o problema do cuidado seja conectado às
relações de poder no cotidiano das democracias contemporâneas, parece-me
adequado entender o cuidado como trabalho – sem que isso signifique que
se trata de qualquer tipo de trabalho. Dissociar cuidado e trabalho pode ter
o efeito de suspender as condições estruturais em que o exercício do cui-
dado, assim como a possibilidade de receber cuidado, se definem. Tanto de
uma perspectiva de gênero como de uma perspeciva de classe ou de raça3, a
divisão do trabalho implica a responsabilização diferenciada pelo cuidado.
A orientação aqui presente se aproxima, assim, à de Pascale Molinier (2014,
p. 32) quando diz que a posição feminista na abordagem do cuidado se
distancia de uma visão estereotipada do feminino como conciliação, mas
apresenta “uma alternativa na qual não ganham todos”. Nesse sentido, neste
artigo a colocação do cuidado no centro dos problemas da democracia é,
A raça é uma variável importante na definição dessas relações. Devo, no entanto, reconhecer que
3

neste artigo aparece conectada à classe, mais do que discutida em suas especificidades. É como
parte do grupo de mulheres mais pobres da população que as mulheres negras se encontram na
posição de realizar trabalho doméstico remunerado, trabalho de cuidar de crianças e idosos, e de
exercer trabalho em condições precarizadas – sem carteira assinada, por exemplo, como será discutido
adiante. Isso não significa que os obstáculos ao exercício de ocupações de maior remuneração e de
direitos trabalhistas incidam da mesma forma na vida das mulheres negras e das mulheres brancas.
Sua condição no exercício do trabalho doméstico e de cuidado pode ser, também, diferenciada pelo
fato de serem negras ou brancas. Deixo aqui anotado esse entendimento, embora assuma que seja
pouco desenvolvido nas análises aqui apresentadas.
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como define Molinier, “indissociável de uma utopia política que coloca a


divisão do trabalho no centro” das suas preocupações. Nela, “alguns e al-
gumas devem aceitar o risco de perder privilégios” (p. 32) uma vez que as
assimetrias que organizam as relações de cuidado estão sendo colocadas em
questão. Nessa perspectiva, “o bem-estar de uns não pode repousar sobre a
servidão de outros” (p. 20).
O artigo está organizado em três seções, precedidas por esta introdução
e complementadas por uma breve conclusão. O caminho para a construção
dos problemas é de certo modo longo porque faço a opção por discutir, ainda
que rapidamente, a diferença entre abordar a responsabilidade individual e
tratar da responsabilização como problema político. Por isso, a primeira seção
do artigo discute brevemente os sentidos que a noção de responsabilidade
vem assumindo no pensamento liberal, indicando deslocamentos que são
provocados por análises atentas aos padrões estruturais das desigualdades.
A manutenção ou questionamento da dualidade entre esfera pública e
privada tem implicação nas relações que se tornam visíveis, nas formas de
dependência que são consideradas e no modo como a responsabilidade é
significada. Os problemas relacionados à responsabilização desigual dos
indivíduos na vida cotidiana emergem dos questionamentos dessa dualida-
de. A atribuição das responsabilidades, incluídas aquelas que se organizam
na esfera doméstica, pode ser assim discutida como questão política, com
implicações para a democracia.
Na segunda seção, discuto a divisão sexual do trabalho como fundamento
de formas diferenciadas e desiguais de responsabilização, com implicações
para a participação das mulheres na sociedade, sobretudo das mais pobres. A
análise das convergências entre as desigualdades de gênero e de classe expõe
as implicações dos padrões correntes de responsabilização para a democracia,
em que não apenas os papeis convencionais de gênero mas também os im-
perativos de mercado são definidores das posições. Por fim, a terceira seção
discute mais diretamente o cuidado como questão de primeira ordem para a
democracia. Explora alternativas tendo em mente a prevalência do mercado,
a de soluções coletivistas e/ou a de soluções convencionalistas, entre as quais
são destacados criticamente os apologistas da família e da domesticidade.
Procuro, na análise, dar passos na consolidação de uma perspectiva que seja
sensível a exigências fortes, articuladas, de democracia e de justiça.
Responsabilidades, cuidado e democracia 85

Do indivíduo responsável à responsabilização como problema


A noção de autonomia individual é peça-chave do pensamento liberal.
Embora existam diferenças entre as abordagens no liberalismo, para a
discussão feita neste artigo é importante o fato de que é nessa tradição de
pensamento que toma forma, na modernidade, a noção de autonomia como
autodeterminação. A associação entre a agência moral e a capacidade dos
indivíduos de determinar seus próprios fins é importante na concepção
kantiana da autonomia (Guyer, 2003). Nos debates contemporâneos, convive
com outra herança, a da definição da liberdade como a possibilidade de que
os indivíduos persigam seu próprio bem à sua maneira, desde que não tentem
privar os demais das suas liberdades (Mill, 2008 [1859]). Nela, é resguardado
um âmbito para a individualidade na medida em que são definidos limites
à ação do Estado e das maiorias. O que está sendo afirmado nessas com-
preensões é mais do que uma qualificação para uma forma pré-existente da
individualidade: elas participam da construção do indivíduo moderno. A
pluralidade de crenças e valores em sociedades que se complexificavam e a
igual capacidade dos indivíduos, como agentes morais racionais, para refletir
sobre sua vida e seus objetivos são, assim, tomadas como pontos de partida
e transpostas em normas e instituições nas quais a liberdade individual
prevaleceria como valor de referência.
O pensamento liberal contemporâneo, herdeiro dessas concepções, apre-
sentaria variações significativas na definição dos sentidos da justiça e dos
requisitos para se garantir as liberdades individuais. Entre ultraliberais como
Milton Friedman, Friederich Hayek e Robert Nozick e liberais igualitários
como John Rawls há uma enorme distância. A centralidade do indivíduo
está presente em todos esses autores, mas a conexão entre liberdade, escolhas
individuais e responsabilidade, que é o que interessa de fato neste artigo, se
organiza de maneiras distintas. As implicações não são menores: enquanto
nos primeiros a ênfase nos projetos individuais inclui a valorização do mérito,
permitindo assim justificar as desigualdades entre os indivíduos, no último
mérito e talento devem ser suspensos como critérios para que exista justiça
e ações distributivas do Estado são (sobretudo para o Rawls de Uma teoria
da justiça) consideradas legítimas e necessárias.
A crítica ao mérito como critério para a justificação das desigualdades
permite que as abordagens liberais igualitárias incorporem o fato de que as
escolhas dos indivíduos não são feitas em contextos neutros. As trajetórias
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individuais são marcadas por fatos arbitrários e contingentes; a posição das


pessoas, com seus atributos, não é em si justa ou injusta e não há razões para,
portanto, aceitá-la como tal. O modo como as instituições lidam com esses
fatos, por outro lado, pode ser justo ou injusto (Rawls, 1971, p. 102), o que
implica uma compreensão de que instituições sensíveis às escolhas indivi-
duais são capazes de suspender ou amenizar arbitrariedades e contingências
e, com isso, garantir a igual liberdade dos indivíduos. As desigualdades de
partida, que impedem que as oportunidades sejam distribuídas equitativa-
mente, deveriam ser suspensas para que possa existir, de fato, igual liberdade
de escolha.
Os pressupostos presentes nas abordagens dos ultraliberais foram e são
mobilizados, por sua vez, para compor argumentos contrários às políticas
distributivas que caracterizam o welfare state, expondo a relação entre as
posições nos debates nas ciências sociais e econômicas e as posições nas
disputas políticas em torno da definição do âmbito da ação do Estado. É
nessa frente das elaborações que a noção de autonomia ganharia de fato
o sentido de “ser capaz de dar conta de si mesmo” e é também nela que
se percebe mais claramente o reforço recíproco entre posições teóricas e
posições políticas favoráveis à redução da presença do Estado nas socie-
dades capitalistas contemporâneas. Isso se deu, especialmente, no que
concerne à divisão das responsabilidades entre governo, corporações/
agentes financeiros privados e indivíduos ou famílias. A precariedade que
define a vida de muitos indivíduos impõe algum tipo de responsabilidade
coletiva ou, vista como derivada de sua incapacidade e falta de talento, diz
respeito apenas a eles?
Entre liberais igualitários como John Rawls, o esforço para que liberdade
e equanimidade sejam articuladas na construção da justiça envolve, dife-
rentemente, a contenção dos impactos injustos do mercado e das vantagens
cumulativas nas sociedades capitalistas, abrindo um conjunto amplo de
frentes para a crítica aos padrões finais desiguais nessas sociedades (Young,
2006). A recusa à correspondência entre talento e mérito para a justificação
das desigualdades é um de seus aspectos, como dito anteriormente. O mérito
pressupõe a existência de um sistema cooperativo, depende amplamente de
circunstâncias sociais e familiares favoráveis – e por elas o indivíduo não
pode requerer crédito (Rawls, 1971, 103-4). A relação entre talento e riqueza,
por sua vez, elide o fato de que ela pressupõe “determinada estrutura econô-
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mica”, uma estrutura de mercado que valide a relação entre riqueza-talento


e a produção de riqueza (Dworkin, 2005 [2000], pp. 458-9)4.
Vale notar que as abordagens distributivas que assim se definiram não
abriram mão da noção de responsabilidade pessoal nem fizeram uma crítica
das estruturas básicas de concentração de riquezas e poder na sociedade
capitalista – a propriedade privada permanece intocada e pouco é dito sobre
as assimetrias no exercício da influência nas democracias capitalistas, em
especial nas vertentes das teorias liberais da justiça que vêm sendo denomi-
nadas de igualitarismo de fortuna (para diferentes análises dessa vertente,
conferir Anderson, 1999; Miguel, 2014; Scheffler, 2003; Vita, 2011; Young,
2011)5. Em sua ênfase na responsabilidade pessoal, as respostas dessas
abordagens igualitárias ao libertarianismo e ao conservadorismo de direita
oscilaram entre um contraste moralista entre responsáveis e irresponsáveis,
ou independentes e dependentes, e uma visão paternalista dos “desafortu-
nados” (Anderson, 1999, p. 23).
Em outro lugar (Biroli, 2013), discuti os limites dessas abordagens focan-
do: (1) na suspensão das relações que dão sentido às escolhas individuais,
que estão na base da própria identidade individual, o que permite criar uma
ficção na qual os indivíduos precederiam e teriam exterioridade em relação
a suas preferências e projetos (Sandel, 1998 [1982]); (2) na construção de
uma ficção, a de que a ausência de constrangimentos no momento da escolha
permite defini-la como voluntária, independentemente das assimetrias na
produção das alternativas que estão dispostas e das condições desiguais em
que se adere a uma ou a outra (Pateman, 1988; Young, 2006 e 2011); e (3)
na suspensão da dinâmica social de produção das preferências ao derivar da
livre-escolha dos indivíduos o grau de liberdade de que usufruem na gestão
das suas próprias vidas (Miguel, 2014; Sunstein, 2009 [1991] e 2014).
4
Não há razões para pressupor que as riquezas-talentos sejam virtudes, segundo Dworkin. Afinal, a
sorte é a mais importante entre elas, “estar no lugar certo é quase sempre mais importante do que
qualquer outra coisa”. E ainda que as riquezas-talento fossem virtudes, disso não decorre que deva
haver recompensa material para elas. E mesmo que assim fosse, não há justificativa plausível para
que o mercado comercial fosse a forma mais adequada de gerar essas recompensas (Dworkin, 2005
[2000], pp. 460-1).
5
Elizabeth Anderson situa nessa vertente Richard Arneson, Gerald Cohen, Ronald Dworkin, Thomas
Nagel, Eric Rakowski e John E. Roemer, indicando também a incorporação de muitos dos seus princí-
pios por Philippe Van Parijs. Na sua definição, “o igualitarismo de fortuna se ancora em duas premissas
morais: que as pessoas devem ser compensadas pela má-sorte imerecida e que essa compensação
deve vir somente da parte da boa sorte dos outros que é imerecida” (Anderson, 1999, p. 5).
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Para a análise que faço aqui, o ponto principal é a dualidade entre esfera
pública e privada. Quando essa dualidade não é problematizada, a ação
meritória dos indivíduos na esfera pública pode ser apresentada como dis-
tinta e independente das relações estruturadas na esfera privada e que dão
condições para (ou impedem) que sejam sujeitos das suas vidas. Em modelos
teóricos nos quais a esfera pública é autonomizada em relação à privada,
essas relações podem não ser computadas na compreensão de como os in-
divíduos se tornaram quem são. Penso aqui no privado reivindicado como
o âmbito das relações econômicas de mercado e também como o âmbito
da vida doméstica e familiar. Nesse artigo, embora as relações de trabalho
na vida doméstica recebam destaque, o foco é justamente na compreensão
de como as estruturas de autoridade e as assimetrias presentes em cada um
desses âmbitos incide sobre o outro e organiza as posições na esfera pública.
Entre os ultraliberais, a visão de que o mercado regula as relações de forma
justa quando garante aos indivíduos a liberdade de escolher – ainda que em
condições bastante desiguais – apaga as estruturas de autoridade e a dinâmica
social de acúmulo de privilégios. O funcionamento do mercado não é neutro,
premia quem já tem recursos para exercer influência sobre sua regulação e
sobre os termos em que se organiza. Como define Martha McCluskey (2003,
apud Tronto, 2013, p. 40), o que está em questão é “quais habilidades das
pessoas para conseguir mais daquilo que elas buscam ao deslocar os custos
para outras deveriam contar como ganho societário, e quais deveriam contar
como ganho privado às custas de outras pessoas”. Essa dinâmica permite
que os privilegiados se apresentem como tendo construído sua posição por
mérito próprio, apagando o fato de que ela é dependente da exploração do
trabalho de outros e da ação favorável do Estado e de organismos capazes
de fazer que a economia política gire a seu favor. O mérito também só se
define como tal devido à valorização social de certas habilidades – o que se
dá em processos históricos e ganha formas institucionais.
Entre as abordagens liberais nas quais existe real preocupação com a
impacto de desigualdades e deficiências sobre a liberdade dos indivíduos
para definir suas vidas, em que seu acesso a oportunidades é o aspecto
fundamental, a dualidade entre público e privado permanece restringindo
as críticas e as alternativas. Em John Rawls, por exemplo, a compreensão de
que os critérios de justiça se aplicam à esfera pública mas são desnecessários
às associações privadas nas quais a pessoalidade e os afetos prevaleceriam
Responsabilidades, cuidado e democracia 89

faz desaparecer um conjunto amplo de relações e experiências (Okin, 1989)


e, principalmente, apaga as conexões entre as relações de poder na esfera
privada e na esfera pública. A crítica à suspensão da vida doméstica e familiar
como âmbito ao qual se aplicariam critérios de justiça tem sido, no femi-
nismo, um dos pilares para a análise dos limites das concepções liberais em
sua abordagem dos fundamentos dos privilégios dos homens em sociedades
nas quais permanecem desigualdades de gênero significativas (Biroli, 2013;
Miguel e Biroli, 2014).
As estruturas de autoridade nas relações de trabalho e na vida domésti-
ca têm impacto na participação dos indivíduos em outras esferas da vida.
Suas escolhas, por outro lado, não se definem na esfera privada ou na esfera
pública, mas em contextos nos quais suas vidas são organizadas segundo
o papel desempenhado em uma e outra. As alternativas disponíveis, o ho-
rizonte das possibilidades consideradas pelos indivíduos, assim como os
recursos que permitem levar em consideração uma ou outra possibilidade
se definem tendo como base a configuração dessas esferas – o modo como
são delimitadas, mas principalmente a maneira como a organização de uma
delas tem impacto sobre a outra. Embora essa seja uma questão discutida
sistematicamente há décadas no feminismo, ela não foi de fato incorporada
em grande parte do debate sobre justiça e sobre democracia.
A atenção às relações de poder na vida privada e doméstica permite a
análise de estruturas de autoridade que são ao mesmo tempo distintas e
complementares. Um dos efeitos da configuração dual dessas esferas é que
a universalidade dos direitos (na esfera pública) se acomoda a distinções,
divisões e hierarquias (na esfera privada), sem que isso apareça como um
problema para a democracia. Enquanto a cidadania é definida como inde-
pendência, “a dependência da sociedade como um todo, da economia e do
sistema político relativamente à família e ao trabalho das mulheres na família
é ignorada” (Brenner, 2000, p. 103).
As preferências dos indivíduos por determinadas formas de relaciona-
mento e de organização da vida doméstica, assim como as escolhas nelas
baseadas, têm relação direta com aspectos estruturais, nos quais fatores
materiais e simbólicos convergem na produção de posições diferenciadas
e desiguais. A fusão entre domesticidade e femininidade teve um papel
histórico importante na naturalização da divisão sexual do trabalho. Ela
permanece na base da socialização diferenciada de mulheres e homens e
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dos julgamentos socialmente ativos sobre os comportamentos de umas e


de outros. Quando não se leva em conta essa configuração das relações, o
foco nas escolhas individuais e na responsabilidade que os indivíduos têm
por elas – mesmo quando se entende que é preciso equalizar sua posição
na esfera pública (como em John Rawls) e que não é válido computar as
arbitrariedades e contingências que restringiriam as oportunidades dos in-
divíduos ao avaliar suas condições (como em Ronald Dworkin) – nos afasta
do entendimento de que o problema da responsabilização diferenciada é um
fator na construção das alternativas dos indivíduos e das suas possibilidades
de fazer escolhas “responsáveis”.
O trabalho que as mulheres realizam na vida cotidiana doméstica, na sua
forma e no tempo que é a ele dedicado, está longe de ser uma escolha volun-
tária, ainda que não seja assumido em situações que possam ser identificadas
como de coação ou em contextos nos quais existam impedimentos legais para
a busca de outros caminhos. Como compreender sua posição desigual na
esfera doméstica e na esfera pública sem levar em conta que são orientadas
a assumir determinadas responsabilidades e a desempenhar um conjunto
de funções no cotidiano de modo que não configura nem escolha nem coa-
ção? Ao mesmo tempo, como dar conta dos obstáculos a uma participação
equânime na vida pública se lançamos mão de uma moldura teórica que não
permite compreender adequadamente as conexões entre a posição dos indi-
víduos na vida doméstica, com as responsabilidades diferenciadas que nela
assumem, e os filtros que organizam sua posição em outras esferas da vida?
Nas sociedades ocidentais hoje, é possível considerar um cenário em que
as mulheres não sejam controladas – coagidas – diretamente por homens
específicos ao assumir toda, ou quase toda, a carga do trabalho domés-
tico, no qual incluo o trabalho necessário para o cuidado das crianças e
de outros indivíduos que precisem, ou usufruam mesmo sem ser de fato
dependentes, desse cuidado. Elas não são, por isso, excluídas da esfera pú-
blica. Parece-me adequado dissociar a exploração do seu trabalho de uma
forma de domínio pelos homens que lhes são próximos que implicava a
restrição da sua circulação na esfera pública. Diferentes tipos de ocupação
estão abertos a elas no âmbito em que o trabalho remunerado se realiza,
mas a exploração do seu trabalho na esfera doméstica permanece e pode
ser compreendida como um dos fundamentos – entendo que o principal
– da dominação de gênero.
Responsabilidades, cuidado e democracia 91

É nesse contexto de restrição às escolhas, constituído pelos padrões atuais


da divisão sexual do trabalho, que se define não uma exclusão, mas formas
desiguais de inclusão. O que se produz é um acesso desigual a ocupações,
renda e tempo. A atribuição de responsabilidades diferenciadas a umas e a
outros implica que o conjunto de problemas considerado ao “escolher” uma
ocupação ou “estilo de vida” tem especificidades para elas. A escolha do ca-
samento e a reprodução das formas convencionais da família, em condições
que permanecem desvantajosas para as mulheres, pode ser explicada pela
socialização mas também pelo ônus imposto quando as mulheres procuram
construir suas vidas de outra formas. A difícil equação da necessidade de
cuidado das crianças, por exemplo, e da necessidade de responsabilizar-se
por si e por elas – sustentando a si e a elas, provendo condições mínimas
para a vida cotidiana, como moradia e alimentação – tem impacto sobre as
mulheres, pela divisão sexual do trabalho, e esse impacto se agudiza entre as
camadas mais pobres da população, como será discutido na próxima seção.

Divisão sexual do trabalho, responsabilização diferenciada e


desigualdades
A divisão sexual do trabalho doméstico e as desvantagens no mundo do
trabalho são facetas complementares das desigualdades entre mulheres e ho-
mens hoje. Com todas as transformações que ocorreram nas últimas décadas,
as mulheres continuam a dedicar muito mais tempo às tarefas domésticas e,
por outro lado, a ter rendimentos bem menores do que os homens na esfera
pública – embora no Brasil de hoje, acompanhando tendências verificadas
também em outras partes do mundo, as mulheres tenham mais tempo de
ensino formal que os homens e sejam a maior parte dos indivíduos que com-
pletam o ensino superior. As famílias não se organizam da mesma maneira
que se organizavam poucas décadas antes, inclusive no que diz respeito à
participação das mulheres na renda familiar, e os valores não permaneceram
os mesmos, mas as mulheres continuam a ser as principais responsáveis pelo
trabalho doméstico (C. Araújo e Scalon, 2006; Fontoura et alli 2010). Em
2013, enquanto 44,7% dos homens maiores de 10 anos de idade disseram
realizar trabalho doméstico, esse número chegaria a 85,5% entre as mulheres.
A discrepância é mais evidente quando se observa o número médio de horas
semanais dedicados por eles e por elas ao trabalho doméstico, que foi no
mesmo período de 10,4 horas semanais para eles e 23,8 horas semanais para
92 Flávia Biroli

elas (IPEA, 2014). Essa assimetria deve ser levada em conta para se explicar
porque o rendimento médio mensal das mulheres foi, no mesmo ano, 30%
menor do que o dos homens – lembrando que o gap entre a renda média das
mulheres brancas e das mulheres negras foi nesse período de 42% em favor
das primeiras, ainda maior portanto do que aquele que existe entre homens
e mulheres (IPEA, 2014).
Essas desigualdades são produzidas por uma divisão do trabalho que se
ancora na naturalização de habilidades e pertencimentos de acordo com o
sexo biológico. A associação entre mulher e domesticidade desempenha um
papel ambivalente. Ela não correspondeu historicamente, e corresponde cada
vez menos, à posição social efetiva de todas as mulheres nos países ocidentais.
Mas ela funciona como dispositivo na alocação de responsabilidades – na
vida privada, entre os indivíduos associados por laços familiares, afetivos e
de convivência, mas também na esfera pública, nas normas que determinam
ou favorecem uma certa divisão das responsabilidades entre Estado, famílias
e indivíduos.
A domesticidade esteve, historicamente, ao alcance de poucas mulheres
porque ela dependeu e depende de que a remuneração do homem, que vem
ocupando convencionalmente a posição de chefe-de-família, seja equiva-
lente a um “salário familiar”. O homem provedor, de um lado, e a dona de
casa, de outro, são personagens que têm, assim, classe social, posição nas
relações de trabalho e cor bem definidas. Chamo a atenção, mais uma vez,
para o fato de que embora o acesso das mulheres ao mercado de trabalho e a
alternativa da domesticidade não tenham se definido de forma homogênea,
a domesticidade tem tido uma função ideológica de sucesso: a naturalização
da responsabilização prioritária das mulheres pelo trabalho doméstico e
pelo cuidado dos familiares, especialmente das crianças. Como tal, atra-
vessa diferentes classes sociais. Isso não significa que a vivência dos valores
associados à domesticidade se dê da mesma maneira, mas que permanecem
interpelando mulheres e homens a assumir papeis e estabelecer relações de
formas distintas.
Assim compreendida, a associação entre o feminino e a domesticidade
permanece como um dos fundamentos das desigualdades, organizando a
divisão sexual do trabalho contemporaneamente. A posição das mulheres é
hoje, nos países ocidentais, cada vez menos marcada pela reclusão, mas ainda
profundamente marcada pela marginalização e inferiorização recorrentes das
Responsabilidades, cuidado e democracia 93

ocupações tipicamente “femininas”, de menor remuneração e menor status,


e do salário inferior ao dos homens nas mesmas funções, profissões e níveis
educacionais (para o caso brasileiro, cf. Alves, 2013; A. Araújo e Lombardi,
2013; Bruschini, 2006; Bruschini e Lombardi, 2001 e 2002).
Podemos pensar em duas frentes para a interpretação dessas desigualda-
des. Numa delas, é destacada a permanência das relações de exploração na
família, que é vista ao mesmo tempo como função da dominação masculina
na esfera pública, em que os homens são os proprietários, controlam as forças
produtivas e ocupam as posições políticas que lhes permitem regulá-las se-
gundo seus interesses. É essa a posição de Christine Delphy e Diana Leonard
(2004 [1992], p. 18) quando afirmam que “na família, na nossa sociedade, as
mulheres são dominadas para que seu trabalho possa ser explorado e por-
que seu trabalho é explorado”. Numa outra frente, Sylvia Walby (1990), na
sua interpretação das formas atuais do patriarcado, que corresponderiam a
deslocamentos do que define como “patriarcado privado” para o que define
como “patriarcado público”, ressalta as conexões entre novas estratégias de
inclusão das mulheres e novas formas de controle sobre elas. Seu ponto é que
quando diminui o grau em que as estruturas familiares patriarcais organiza-
vam a exclusão das mulheres, sua segregação e sua posição desvantajosa são
determinadas pela estrutura patriarcal do Estado e do mercado de trabalho:
“elas não são barradas das arenas públicas, mas são ainda assim subordinadas
nessas arenas” (Walby, 1990, p. 178).
Não pretendo aqui avançar na discussão, sem dúvida relevante, sobre
como cada uma dessas interpretações situa a relação entre a dominação
masculina (ou patriarcado) e o capitalismo. O que me parece central para
este artigo é que nos dois casos, embora a ênfase na exploração e dominação
na família seja diferenciada, o gênero permanece como fundamento da or-
ganização das relações de trabalho e a divisão sexual do trabalho permanece
definidora das desvantagens relativas das mulheres.
A relação entre trabalho doméstico não-remunerado, trabalho doméstico
remunerado e o acesso a outras ocupações se define em um contexto em que
a atribuição das responsabilidades pelo trabalho cotidiano de reprodução
da vida permanece prioritariamente dirigida às mulheres. Embora existam
diferenças importantes entre as atividades que são desempenhadas no coti-
diano da vida doméstica, como cozinhar, lavar as roupas, limpar a casa, dar
banho nas crianças, em deficientes ou idosos, auxiliar em atividades dessas
94 Flávia Biroli

mesmas pessoas que não poderiam se dar de maneira segura sem acompa-
nhamento, como passeios em áreas públicas, ou desempenhar o que algumas
autoras definem como trabalho emocional (Delphy e Leonard, 2004 [1992];
Hochschild, 2003 [1983]), é possível considerar que todas elas implicam
envolvimento, tempo e energia de quem as realiza, sendo ou não passíveis
de caracterização como trabalho produtivo. Todas elas implicam, também,
quando se trata de mais do que o cuidado consigo mesma, que uma ativi-
dade está sendo realizada em prol e em vantagem de outras pessoas, ainda
que isso signifique algo muito distinto se a vantagem é de um homem que
usufrui desse trabalho sem nunca realizá-lo (alimenta-se, tem suas roupas
e a casa onde vive limpas) ou de crianças, idosos ou pessoas deficientes que
não poderiam realizá-lo (nesse caso, usufruem de tarefas que não seriam
capazes de realizar, mas permanece o fato de que alguém dispende tempo e
energia para seu cuidado – no mais das vezes, uma mulher, de acordo com
os dados antes mencionados).
As relações que assim se estabelecem são distintas também caso se trate
de trabalho doméstico não-remunerado ou remunerado. No primeiro caso,
o gênero prevalece na alocação das tarefas e responsabilidades, enquanto
no segundo classe e raça são também definidoras da distinção entre quem
realiza o trabalho e quem pode pagar por ele e dele usufruir, ainda que, de
novo, no mais das vezes sejam mulheres que o realizam.
As mulheres não estão igualmente distribuídas entre quem está na posição
de provedor de cuidado, trabalhando no cuidado de outros, e quem está na
posição de beneficiário do cuidado provido por outras pessoas (Brenner,
2000; Hirata, 2014; Tronto, 2013). Mas o gênero é fundamental à organização
das relações de trabalho nas quais o cuidado toma forma. As mulheres estão
concentradas em atividades vistas como extensão das atividades domésticas
não remuneradas e, como tal, desvalorizadas e menos formalizadas. No
ano de 2013, no Brasil, 18,6% das mulheres negras e 10,6% das mulheres
brancas ocupavam emprego doméstico remunerado – no mesmo período,
1% dos homens negros e 0,7% dos brancos estavam nessa mesma posição
(IPEA, 2014). Desde 2009, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD) do IBGE mostrava uma queda lenta mas ininterrupta no número
de mulheres que realizam trabalho doméstico remunerado. Em 2013, esse
número era de 5.963.976, 11,6% menor do que em 2009, quando era de
6.750.416. Mas essa tendência pode estar se revertendo – a PNAD Contínua
Responsabilidades, cuidado e democracia 95

divulgada pelo IBGE mostra que esse número ultrapassou novamente o


de 6 milhões de mulheres empregadas em trabalho doméstico no primeiro
trimestre de 2015. A redução no número de trabalhadoras domésticas po-
dia ser interpretada como expressão de mudanças relacionadas à queda do
desemprego, à maior escolarização e à redução da probreza na década de
2000 no Brasil6, aproximando o país das circunstâncias nas quais o trabalho
doméstico remunerado diminui na Europa e nos Estados Unidos ao longo do
século XX. Hoje, no entanto, a reversão dessa tendência, caso se confirme,
é que nos colocaria em sintonia com o que ocorre nas regiões mais ricas do
globo, nas quais o trabalho doméstico vem aumentando à custa do trabalho
precarizado e mal-remunerado de imigrantes não-europeus e provenientes
das regiões da Europa mais afetadas pelo desemprego (Schwenken, 2005 e
2011; R. Sarti, 2006).
É um elemento importante para esta discussão o fato de que nos do-
micílios mais ricos, no Brasil (e ainda que em menor quantidade, também
em países mais ricos do Ocidente, como mencionado há pouco), a divisão
sexual do trabalho está presente mas as mulheres têm o apoio do trabalho
de cuidadoras e empregadas domésticas, mal-remunerado e caracterizado
por relações de exploração ainda mais acentuadas do que nas atividades
vistas como produtivas e tipicamente desempenhadas pelos homens fora
de casa (cf. Brites, 2007 e 2013). Em um contexto em que as mulheres de
classe média estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho, mas
prevalece o entendimento de que as atividades de reprodução da vida são de
responsabilidade das famílias como unidades privadas, o trabalho doméstico
remunerado tem enorme importância. Sua centralidade está relacionada ao
fato de que a oferta de serviços públicos é insuficiente (creches e escolas em
período integral, por exemplo) e ao fato de que as alternativas coletivas à
mercantilização dessas atividades são praticamente inexistentes (cozinhas
coletivas e rodízio no cuidado com as crianças e outros indivíduos que ne-
cessitem de cuidado cotidiano, por exemplo).
Nas condições descritas, o trabalho doméstico é sem dúvida relevante e
invisibilizá-lo vai na direção contrária do acesso a direitos, da valorização do
Vale observar que o número de trabalhadoras domésticas que residem no domicílio onde trabalham
6

vem diminuindo continuamente desde 1999: naquele ano, elas eram 9 % das trabalhadoas, em 2013
eram 1,9% (IPEA, 2014). Este dado me parece significativo porque é justamente nos casos em que
as trabalhadoras residem no local de trabalho que pode haver maior exploração e aproximação de
condições de servilidade, sem definição clara das jornadas de trabalho e tarefas.
96 Flávia Biroli

trabalho e de quem o realiza. Mas dar visibilidade a esse trabalho significa


também expor as condições nas quais se realiza (Hirata, 2011; Sorj, 2013).
Em 2009, aproximadamente uma em cada quatro mulheres no emprego
doméstico tinha carteira assinada e 0,5% delas, o que corresponde a cerca
de 30 mil mulheres, não tinham renda própria, isto é, encontravam-se
numa situação semelhante à de trabalho escravo (IPEA, 2011). Em 2013,
ano em que foi aprovada pela primeira vez no Brasil legislação que equipa-
ra as trabalhadoras domésticas a outras/os trabalhadoras/es, apenas 31,8%
delas tinha carteira assinada – esse percentual fica abaixo dos 30% quando
se considera apenas as mulheres negras e está abaixo dos 20% nas regiões
Norte e Nordeste do país (IPEA, 2014).
Estamos tratando, portanto, de relações que são um produto e um fator
na reprodução das desigualdades de classe e de raça, expressivas também das
desigualdades em nível global. Por isso o trabalho doméstico remunerado
tem sido definido como um problema em si para a democracia: o tipo de
relação que assim se estabelece rompe com a igualdade que é necessária à
democracia na medida em que cria subordinados, mas também mestres.
Marca quem o exerce, ao mesmo tempo que reforça a identidade e o status
social diferenciado de quem emprega (Tronto, 2013, p. 111). Nas condições
em que é realizado, o trabalho doméstico remunerado corresponde a uma
radicalização das hierarquias e formas de opressão presentes de forma mais
ampla no mundo do trabalho.
Além de corresponder a hierarquias nas relações de trabalho, a alocação
desigual das responsabilidades incide de maneira específica sobre as mulhe-
res, e de maneira desigual para grupos diferentes de mulheres, como vem
sendo dito. O acesso a tempo e posições no mundo do trabalho é bastante
diferente para elas e para eles, como foi visto nos dados sobre tempo médio
dedicado à realização de atividades domésticas e renda média de umas e
outros. Pode-se também trabalhar com a hipótese de que é um fator im-
portante no acesso desigual de mulheres e homens à participação política,
sobretudo em cargos eletivos.
Embora não seja fácil estabelecer uma correspondência causal entre a
responsabilização diferenciada de mulheres e homens pelo trabalho do-
méstico e sua baixa presença na política, é importante levar em conta que
é nessas condições – que envolvem acesso diferenciado a tempo, a renda
e a redes de contato e, por outro lado, custos maiores para perseguir uma
Responsabilidades, cuidado e democracia 97

carreira política (Miguel e Biroli, 2011, cap. 2) – que essa outra forma de
desigualdade se define e se reproduz. No Brasil, a presença das mulheres
na Câmara dos Deputados tem sido de no máximo 10% das cadeiras;
considerando-se as Assembleias Estaduais esse percentual muda pouco, as
mulheres foram 11,3% do total de parlamentares eleitos em 2014. Variáveis
do próprio campo político devem ser também levadas em consideração, mas
os estudos que buscam explicações para as desigualdades de gênero nesse
âmbito têm mostrado que as práticas e valores que sustentam uma divisão
sexual do trabalho fundada em concepções convencionais do feminino e do
masculino têm impacto na participação das mulheres em todos os âmbitos
da sociedade e na política em particular (C. Araújo e Alves, 2007; Miguel
e Biroli, 2011) e que “a ausência da mulher na esfera política não pode ser
posta unicamente na conta dos limites da democracia liberal”, com o fun-
cionamento seletivo de suas instituições e suas “limitações estruturais para
incluir novos sujeitos” (Pinto, 2010, p. 22).
Menos presentes na esfera política, as mulheres têm menores condições
de influenciar as decisões e a produção das normas que as afetam direta-
mente. Embora essa forma de exclusão não atinja apenas as mulheres, mas
também boa parte dos homens – nesse sentido, o acesso às esferas políticas
nas democracias contemporâneas mantém componentes censitários e ra-
ciais, ainda que isso não seja explícito –, a responsabilização diferenciada
pelo trabalho doméstico e pelo cuidado das crianças e dos indivíduos mais
vulneráveis impõem a elas obstáculos adicionais. Esse é um caso em que os
filtros de classe (e os de raça) se combinam com aqueles que a divisão sexual
do trabalho ativa, definindo obstáculos adicionais para a participação das
mulheres mesmo dentro de um mesmo estrato socioeconômico.
Em outros aspectos, no Brasil são as mulheres negras, e não as mulheres de
maneira geral, as mais impactadas. Os dados sobre pobreza (IPEA, 2014, a par-
tir da base de dados do Programa Brasil Sem Miséria) mostram que 57,8% dos
homens e 59,1% das mulheres encontravam-se em 2013 na faixa da população
em situação de extrema pobreza, de pobreza e de vulnerabilidade (em todos
os casos, com renda domiciliar inferior a um salário mínimo7). Ainda que essa
O Programa Brasil Sem Miséria trabalha com as seguintes variáveis e valores para o ano de 2013: extre-
7

mamente pobres são indivíduos com renda domiciliar per capita de até R$79,12; pobres são aqueles
com renda domiciliar per capita maior ou igual a R$ 79,12 e menor que R$ 158,24; vulneráveis têm renda
domiciliar per capita maior ou igual a R$ 158,24 e menor que R$678, valor do salário mínimo em 2013.
Em todas as categorias, trata-se de indivíduos com renda domiciliar menor que um salário mínimo.
98 Flávia Biroli

diferença de 1,3% seja significativa, a distância entre as mulheres brancas e as


mulheres negras mostra clivagens bastante acentuadas, que não permitem que
se conclua, a partir da posição de gênero, sobre a vulnerabilidade relativa das
mulheres nesse quesito: entre as brancas, 45,9% estão em condição de extrema
pobreza, pobreza e vulnerabilidade; entre as negras esse número chega a 70,9%.
Assim, no que diz respeito à pobreza, mais mulheres do que homens se en-
contram nos estratos mais pobres da população, mas as mulheres negras estão
numa posição bem próxima da dos homens negros (68,4% deles estão nessa
condição) do que das mulheres brancas, que por sua vez têm uma posição bem
próxima à dos homens brancos (44,9% deles estão nessa condição). Os dados
sobre renda e chefia familiar confirmam essa interpretação: a renda per capita
média dos domicílios em que o chefe-de-família é homem é 12,3% maior do
que a daqueles chefiados por mulheres, nesse caso sem desagregação por cor
(lembrando que é entre as famílias chefiadas por mulheres que se encontra o
maior número de famílias sem cônjuges e com filhos, trazendo elementos que
colaboram para compreender o que constrange a renda nesse caso). Quando
são observados apenas os domicílios chefiados por mulheres, a renda per
capita média daqueles chefiados por mulheres brancas é 90% maior do que a
daqueles chefiados por mulheres negras (a partir dos dados disponíveis em
IPEA, 2014). Em conjunto, esses dados parecem afastar a possibilidade de se
compreender a vulnerabilidade e a pobreza como questões femininas, sem no
entanto reduzir a necessidade de que sejam entendidos como algo que atinge
de maneira direta determinadas mulheres.
A posição de maior vulnerabilidade das mulheres no casamento, que
não se esgota nos aspectos socioeconômicos mas guarda relação estreita
com eles, também pode ser associada a esse quadro mais amplo em que
a divisão sexual do trabalho constitui desigualdades. A decisão de sair de
um casamento pouco satisfatório tem custos diferenciados para mulheres
e homens. É algo que se agudiza nos casos de violência doméstica – e que
colabora para explicar porque muitas vezes as mulheres retornam para casas
e relacionamentos, mesmo após terem sido agredidas e violentadas. Não é,
assim, apenas a autonomia no sentido de independência econômica, com a
capacidade de responsabilizar-se pela própria sobrevivência, que é mais difícil
de ser alcançada para as mulheres do que para os homens. Sua integridade
física e psíquica é potencialmente ameaçada pela situação de dependência
produzida pelas desvantagens da divisão sexual do trabalho. É um quadro
Responsabilidades, cuidado e democracia 99

que se torna mais complexo quando se leva em consideração as crianças,


que são por sua vez dependentes dos adultos – a opção das mulheres por
manter um casamento pode se dar em função de escolhas que levam em
conta a vulnerabilidade das crianças.
Apesar de todos esses aspectos, o papel reservado às mulheres na divisão
convencional do trabalho não recebe apenas sinal negativo no feminismo. Em
algumas abordagens, há um esforço para mostrar que há bem mais do que
opressão nas atividades e experiências das mulheres na vida doméstica. Sua
desvalorização é vista como um problema por colaborar para o silenciamento
das experiências das mulheres, reduzindo sua relevância.
Para as autoras do pensamento maternal, também chamado de “ética do
cuidado”, a dualidade convencional entre o público e o privado colaborou
para que temas e problemas que se definem a partir da posição dos indi-
víduos na esfera privada, entre eles o cuidado (ou a negligência) com as
crianças, questões relativas à saúde, à sexualidade, aos direitos reprodutivos
e à violência doméstica, fossem despolitizados e “construídos como meras
expressões de valores pessoais e preocupações de caráter moral” (Elshtain,
1992, p. 113). Essa despolitização também excluiria da esfera pública valores
e preocupações que seriam tipicamente femininos, dada a posição social das
mulheres. A institucionalização do poder masculino teria correspondido,
largamente, à incorporação de grande parte da vida social aos códigos e ao
controle jurídico e burocratizado do Estado, com o estreitamento dos âmbitos
nos quais o poder informal das mulheres teria sido historicamente exercido,
o doméstico e o sagrado. O poder masculino – e a justiça – corresponderiam,
assim, a um tipo de “progresso” no qual as mulheres representam “o pólo
negativo juntamente com a natureza, a emoção e a paixão” (Elshtain, 1992, p.
116). Uma das críticas assim elaborada se dirige ao fato de que o pensamento
moderno situaria os indivíduos em um mundo no qual “os indivíduos são
adultos antes de terem nascido; os garotos são homens antes de terem sido
crianças; um mundo no qual nem mãe, nem irmã, nem esposa existem” (Be-
nhabib, 1987, p. 85). O acesso das mulheres à cidadania teria sido marcado,
historicamente, pela confirmação desse apagamento: elas seriam cidadãs
desde “que sua voz específica desse lugar ao discurso simbólico dominante”
(Finzi, 1992, p. 139).
Na contramão, assim, de um mundo fundado na abstração de indivíduos
racionais e isolados, seria importante, para as pensadoras do maternalismo,
100 Flávia Biroli

valorizar as experiências e perspectivas das mulheres, engendradas por sua


posição na esfera privada. Um dos principais problemas é que a dualidade
entre o público e o privado tem, nesses argumentos, seu sinal invertido, mas
não há uma orientação sobre como seriam superados os obstáculos estrutu-
rais relacionados ao papel das mulheres na vida doméstica, de que falava até
agora. Ainda que a importância do cuidado com as crianças, por exemplo,
seja inquestionável, a experiência valorizada, nesse caso, é justamente aquela
que resulta da domesticação, da segregação das mulheres à esfera privada e/
ou a atividades e competências consideradas femininas na esfera pública e
que historicamente roubaram-lhe a voz.
É uma direção bem diferente da que assumo aqui, em que o problema está
na privatização do cuidado e da vida familiar. A afirmação da maternidade
individualizada e privatizada vai na direção oposta da criação de “instituições
que dariam a todas as mulheres, e não apenas às ricas, a oportunidade de que
seus filhos cresçam em ambientes saudáveis e alegres”, que possam trabalhar
“sabendo que seus filhos estarão bem nas mãos de cuidadores especializados
nas creches, nas escolas ou em casas coletivas para crianças” (Kollontai, 1977,
p. 146). A comparação entre as formas de realização da maternidade para
mulheres de diferentes classes sociais mostra que a singularidade e os ideais
da maternidade são acessíveis a poucas e que sua construção como questão
privada colabora para que sejam mantidas as condições de injustiça em que
a maternidade se realiza para a maioria das mulheres8.
A posição hierárquica da dona-de-casa e o trabalho doméstico desvalori-
zado são faces de uma mesma moeda, mesmo quando as mulheres trabalham
dentro e fora de casa. Entre as camadas mais pobres da população, a perma-
nência da mulher na posição de “dona-de-casa” pode ser um efeito casado das
convenções de gênero e do desemprego (Davis, 1983 [1981], p. 239), e não
uma escolha que individualiza e dá sentido à vida. Mais uma vez, desvalorizar
o trabalho que realizam nessas condições não parece ser a melhor forma de
enfrentar a dinâmica de opressão ancorada na divisão sexual do trabalho.
A comparação feita por Alexandra Kollontai entre gravidez e maternagem de quatro mulheres, a es-
8

posa do diretor da fábrica, a lavadeira, a empregada doméstica e a trabalhadora da fábrica de tecidos


é exemplar (Kollontai, 1977; pp. 127-139). Vale lembrar que na abordagem da autora a centralidade
do trabalho é determinante tanto para evitar o gasto de energia em “trabalho improdutivo” quanto
para garantir a saúde e produtividade das novas gerações (Kollontai, 1977, p. 142). Embora seja uma
perspective marcada por um sentido específico da coletivização, ela joga luz sobre seu oposto, a
privatização e seus efeitos.
Responsabilidades, cuidado e democracia 101

O esforço para realizar, simultaneamente, a crítica à opressão das


mulheres na esfera doméstica e a crítica à desvalorização do trabalho
doméstico cotidiano das mulheres, que seria “ao menos tão fundamen-
talmente construtor-do-mundo e produtor de sentido9 quanto o trabalho
tipicamente masculino” (Young, 1997, p. 156), esbarra em pelo menos
dois problemas. Um deles é que no mundo em que vivemos a cidadania
e o reconhecimento social permanecem, em muitos sentidos, associados
ao trabalho remunerado, que é também um dos canais para a construção
das redes que dão acesso à política. Tomar parte da esfera pública por
meio da inserção no mundo do trabalho em vez de permanecer na rotina
de isolamento e trabalho doméstico repetitivo é considerado por muitas
delas um bem, mesmo quando o trabalho fora de casa está muito distante
da autonomia e das condições cotidianas e de remuneração que se poderia
desejar (Davis, 1983 [1981], p. 242). Considerada a dinâmica do trabalho
doméstico, a gratificação pode estar em “pelo menos, sair de casa”, “pegar
aquele ônibus e ver todo aquele movimento”, como aparece em um dos
depoimentos de mulheres da periferia da cidade de São Paulo apresentados
por Cynthia Sarti (2011, p. 100), ainda que outros depoimentos relatem o
sentido de dignidade da casa limpa e arrumada e dos filhos bem cuidados
(C. Sarti, 2011, p. 99), confirmando formas de valorização e de julgamento
implícitas na divisão convencional dos papéis.
A suspensão da divisão sexual do trabalho como problema nos levaria
de volta às compreensões limitadas da responsabilidade e da independência
que foram discutidas na primeira seção: tomar os indivíduos abstratamen-
te, como se seu cotidiano não fosse marcado pelas formas diferentes de
responsabilização que estão no cerne da organização cotidiana da vida nas
sociedades contemporâneas, é impor a eles (a elas, nesse caso) um ônus a
mais, o de se posicionar como iguais – igualmente independentes, sobretudo
– em condições adversas. A divisão sexual do trabalho implica desvantagens
específicas para que as mulheres tomem parte da esfera pública e do mundo
do trabalho como iguais, o que por sua vez as torna potencialmente mais
vulneráveis, como dito. A abordagem dessa situação, mesmo quando se re-
conhece que se trata de injustiças que organizam as escolhas possíveis para
os indivíduos, em vez de serem delas derivadas, pode reafirmar convenções
No original, world-making and meaning-giving.
9
102 Flávia Biroli

que naturalizam a divisão sexual do trabalho ou confrontá-las. É também aí


que se desenha a “linha fina mas muito importante”, segundo a formulação
de Johanna Brenner (2000, p. 108), “entre a demanda feminista de que os
homens se responsabilizem por suas crianças e a demanda anti-feminista
de que os homens tenham a obrigação de ser os provedores da família”, que
viria associada ao entendimento de que a pobreza e a vulnerabilidade de
mulheres e crianças derivariam das separações e mudanças nas relações
familiares, indicando como remédio portanto a afirmação da família nu-
clear convencional. Brenner está tratando do contexto estadunidense, mas
essa construção do problema me parece relevante quando se pensa no caso
brasileiro, em que vem crescendo a defesa conservadora da família, nas suas
formas convencionais (Biroli, 2014).
Uma teoria democrática que seja capaz de lidar com essas desigualdades,
em vez de simplesmente suspendê-las como questões para a democracia e
para a justiça, precisará necessariamente dar conta da ambivalência que
marca a ideia de reconhecer o valor do trabalho realizado pelas mulheres
no cotidiano da vida doméstica. O mesmo tipo de ambivalência se apresenta
quando afirmamos a necessidade de reconhecer que o cuidado, que neste
artigo está sendo compreendido como parte – ainda que singular – do tra-
balho cotidiano na esfera doméstica, tem importância incontornável para
que o ideal de igual dignidade tenha sentido de fato nas democracias. Quem
se responsabiliza pelo cuidado e que formas ele assume são questões funda-
mentais: dependendo da resposta, poderemos nos afastar ou nos aproximar
de um ideal democrático no qual a tolerância à subordinação de parte dos
indivíduos não tenha lugar.

Cuidado, dependência e democracia


Parte do trabalho realizado no cotidiano da vida doméstica, e que tem
sido largamente de responsabilidade das mulheres (sendo ele remunerado
ou não), consiste em atividades que têm como objetivo atender necessidades
de cuidado que são incontornáveis. É o que ocorre sobretudo quando se
pensa no cuidado das crianças, dos idosos, dos portadores de deficiências e
doenças crônicas, assim como das mais diversas pessoas quando adoecem.
Não se trata, assim, de algo que possa ser superado. Por isso, negar o cuidado
como parte da vida não corresponde simplesmente a uma ilusão, é algo que
tem efeitos perniciosos porque reduz nossa capacidade de encontrar solu-
Responsabilidades, cuidado e democracia 103

ções que sejam sensíveis à realidade múltipla e diferenciada das pessoas que
precisam de cuidado e à situação específica de quem trabalha para atender a
essas necessidades. O desafio se amplia porque respostas pontuais à primeira
(à realidade de quem precisa de cuidado), como aquelas que a mercantiliza-
ção do cuidado provê, poderão excluir um grande contingente de pessoas e
não serão, necessariamente, capazes de incluir garantias de que aquelas que
exercem o trabalho de cuidar não terão ampliada sua vulnerabilidade social
pelo fato de estarem nessa posição. “Somos todos provedores e beneficiários
de care [sic] e, todos, dependentes” (Molinier, 2012, p. 41), mas, dada a con-
figuração atual, alguns têm maiores chances de receber cuidado, enquanto
outras têm sua condição marcada negativamente pelo exercício do cuidado,
em suas formas não-remuneradas e remuneradas.
Quando se rompe com a invisibilidade do complexo de relações de que
estamos tratando ao falar de cuidado, invisibilidade esta que é característica
da maior parte do debate sobre democracia, a dependência aparece como
realidade da vida cotidiana. Mais uma vez, temos aqui um exemplo de como
o debate sobre democracia pode se afastar do cotidiano das pessoas: é nele,
e certamente não na experiência vivida das pessoas, que a dependência e
as demandas por cuidado podem ser suspensas como questões de primeira
ordem. Em sua ampla maioria, “as teorias políticas democráticas assumem
a existência de atores autônomos como ponto de partida para a democra-
cia” (Tronto, 2013, p. 31), o que impede que se leve em consideração a de-
pendência e o trabalho realizado cotidianamente face a ela. Com isso, fica
reduzida, como dito anteriormente, nossa capacidade de encontrar soluções
satisfatórias para equilibrar autonomia e dependência.
Duas autoras têm suas abordagens consideradas como fundamentos do
debate sobre cuidado hoje. A partir do trabalho de Carol Gilligan, ganharia
forma uma vertente que define as relações de cuidado como a base para
uma ética diferenciada. Embora Gilligan seja específica na definição da sua
posição, esclarecendo que a “voz diferenciada” das mulheres não emerge da
condição feminina mas de experiências decorrentes de sua posição social,
essa abordagem tem permitido aproximações entre cuidado e feminilidade.
A segunda autora é Joan Tronto, que estabelece um diálogo crítico com a
análise feita por Gilligan e amplia a discussão ao situar o cuidado como ques-
tão prioritária para a democracia. Embora a contribuição de Gilligan para a
análise da exclusão das vozes e experiências das mulheres tenha sido impor-
104 Flávia Biroli

tante, ela teria favorecido o entendimento de que existe uma correspondência


entre diferenças de gênero e diferentes perspectivas morais – e, assim, entre
o cuidado e a feminilidade (Joan Tronto, 1987, p. 646). Os riscos, tais como
enunciados por Tronto, estariam na marcação negativa do cuidado, numa
sociedade em que o masculino corresponde à normalidade e o feminino
carrega o sentido da inferioridade, mas estaria também numa armadilha, a
de que a defesa da centralidade do cuidado (de uma “ética do cuidado”, nas
palavras da autora no texto a que me refiro aqui) implicaria a defesa de uma
moralidade feminina. O ponto de Tronto nos leva de volta à ambivalência
antes mencionada: a valorização do cuidado não pode suspender a crítica
ao fato de que nas sociedades modernas sua definição como uma ética
diferenciada deriva das condições de subordinação das mulheres (Tronto,
1987, pp. 646-7). As diferenças, portanto, remetem não ao fato de se tratar
de mulheres ou de homens, mas ao papel desempenhado (Tronto, 1987, p.
652): quem tem a experiência do cuidado, quem assume a responsabilidade
de cuidar, terá uma perspectiva diferente do que são as relações cotidianas
e do que importa. É isso que permitiria, ainda segundo Tronto (1987) que
alguns indivíduos e grupos (ela menciona comunidades negras e latinas nos
Estados Unidos) tenham potencialmente uma posição que leva a um maior
desenvolvimento de parâmetros éticos e morais centrados no cuidado.
Para os argumentos que sustento aqui, o mais importante é que a res-
ponsabilização diferenciada implica um contato também distinto com a
dependência e os custos, mas também sentimentos, que cuidar implica. Entre
o artigo antes mencionado, publicado em 1987, e seu livro publicado mais
recentemente, em 2013, Joan Tronto avança na construção de uma teoria
democrática do cuidado ao confrontar mais diretamente duas questões: as
assimetrias e desigualdades sociais que a configuração (de gênero, classe e
raça) das relações de cuidado assume nas sociedades contemporâneas e os
limites que a mercantilização impõe.
Uma vez que as relações de cuidado ganham centralidade, torna-se difí-
cil trabalhar com a dualidade entre dependência e independência como se
expressasse o resultado de escolhas menos ou mais responsáveis ou, ainda,
como uma espécie de menoridade (biológica ou moral) a ser transposta.
Mesmo no âmbito do feminismo, a perspectiva liberal de que as mulheres
serão libertadas da opressão do trabalho doméstico e alcançarão uma situação
de igualdade relativamente aos homens pelo acesso ao trabalho remunerado
Responsabilidades, cuidado e democracia 105

é uma idealização baseada na vivência das poucas mulheres que podem ter
acesso a carreiras profissionais com grau relativamente ampliado de auto-
nomia e de remuneração (Hooks, 1984, p. 61). Mantidos os arranjos atuais,
isso significa que o trabalho doméstico e de cuidado está sendo transferido a
outras mulheres, as quais por sua vez terão maiores dificuldades para trans-
ferir a outras pessoas o trabalho cotidiano que sua própria vida e o cuidado
dos que lhes são próximos envolve10.
Essa alocação desigual não é aleatória, mas atende a padrões que têm
correspondência com as hierarquias de gênero, raça e classe social. Entre
os que cuidam, há mais mulheres, mais negras/os e mais indivíduos das
camadas mais pobres da população. Entre os que recebem cuidado mais
intensivo (pelo tempo e atenção a eles dirigidos) e mais qualificado (em
termos da capacitação de quem o exerce e dos recursos materiais disponíveis
para seu exercício) estão mais homens, mais brancas/os e mais indivíduos
das camadas mais ricas da população.
A invisibilização das tarefas alocadas está, assim, diretamente relacio-
nada a quem as exerce11. Por serem assumidas por quem está em condição
10
Relatos de mulheres brasileiras de baixa renda que têm filhos mostram que enfrentam cotidianamente
uma situação em que, pela falta de creches ou de horários compatíveis de creches e escolas com as rotinas
de trabalho que lhes são exigidas, deixam seus filhos com familiares – outras mulheres já aposentadas
ou que têm dificuldades para conseguir trabalho remunerado por terem elas mesmas filhos pequenos
– ou com mulheres jovens a quem contratam pagando uma parcela de seus salários, uma cadeia em
que o trabalho doméstico recebe remuneração menor e é mais precário quanto mais próximo está de
arranjos entre pessoas das camadas mais pobres da população. O pagamento de creches ou cuidadoras
por mães trabalhadoras pode comprometer parte significativa de seu salário. Somada às dificuldades
cotidianas para acomodarem a rotina de trabalho e a rotina doméstica, essa é uma das razões pelas
quais muitas dessas mulheres podem deixar de trabalhar, contando com o recurso de companheiros e
outros familiares quando isso é possível (Folha de S. Paulo, Thais Bilenky, “Sem creches de Haddad, mães
improvisam na volta às aulas em São Paulo, publicada em 2 de fevereiro de 2015). Existe uma correlação
entre o nível de ocupação das mulheres e a frequência dos filhos pequenos a creche: esse nível é de
65,4% para mulheres com filhos de 0 a 3 anos de frequentam creche, de 40,3% se apenas algum filho
frequenta a creche e de 41,2% para aquelas cujos filhos não frequentam creches (IBGE, 2014).
11
Helena Hirata (2014, p. 67) aponta para dois caminhos diferentes na compreensão da desva-
lorização social do trabalho de cuidado. Um deles, predominante no feminismo, é que por ser
extensão do trabalho doméstico não-remunerado realizado por mulheres, seria menos valorizado
socialmente. Nesse caso, a causalidade é estabelecida de forma a ressaltar quem realiza o traba-
lho. No segundo, que ela atribui a Patricia Paperman (2013), a desvalorização seria um fator da
vulnerabilidade e baixo reconhecimento social de quem precisa de cuidado, sobretudo idosos e
deficientes. A causalidade, portanto, é estabelecida pelo destaque a quem recebe o cuidado. Aqui,
me associo ao primeiro, sem excluir a possibilidade de que o segundo desempenhe um papel
na desvalorização desse trabalho. Entendo que é na convergência entre convenções de gênero
e ampliação da mercantilização das relações que se produz a desvalorização e precarização do
trabalho remunerado doméstico e de cuidado.
106 Flávia Biroli

socialmente desvantajosa, a chance de que sejam definidas como problemas


– e, ainda mais, como problemas políticos – se reduz. Embora, como dito
anteriormente, não seja simples estabelecer a causalidade entre a divisão do
trabalho e a participação dos indivíduos na política, podemos mobilizar a
hipótese de que há mais do que coincidência no fato de que os indivíduos
que exercem essas atividades são justamente aqueles que têm menor acesso
aos espaços nos quais as decisões políticas ocorrem – e, como tal, menores
condições de fazer valer suas experiências, codificando-nas como temas e
demandas de caráter político. Esse raciocínio pode ser estendido também
à produção do conhecimento. É possível mobilizar a hipótese de que quem
participa da construção teórico-filosófica dos problemas da democracia
tem mais chances de estar situado entre os que recebem cuidado mais fre-
quente e intensamente do que entre os que o exercitam como cuidadores.
Nos dois casos, no âmbito da prática política e no do pensamento político,
essa situação converge para a prevalência de determinadas agendas, con-
cepções e pressupostos.
Parece-me ser esse o contexto em que a independência dos homens
como cidadãos e trabalhadores, assim como a dependência das mulheres
quando estão na posição de cuidar de outras pessoas se definem como
estereótipos (Brenner, 2000, p. 109), tipificando a situação concreta em
que suas posições se definem por um jogo de luz e sombra que produz
sentidos. Os primeiros, os homens como cidadãos e trabalhadores, são
dependentes do trabalho de outras pessoas, em geral mulheres. Sem que
alguém cozinhasse, mantivesse limpas suas roupas e, quando há filhos,
cuidasse das crianças (ou estivesse disponível para levá-las e pegá-las na
creche ou escola), para elencar apenas tarefas regulares bastante comuns,
eles veriam afetada sua rotina de trabalho e reduzido seu tempo para
recompor as energias do trabalho. Por outro lado, quando as mulheres
se tornam dependentes, de programas sociais ou de homens que lhes são
próximos, isso ocorre porque estão sendo responsabilizadas por tarefas
cotidianas que vão ao encontro da dependência de outras pessoas. Mesmo
essa dependência dos que são tomados como independentes não é algo
que possa ser simplesmente eliminado. O problema está no fato de que as
tarefas que garantem sua condição mais autônoma relativamente a quem
é responsabilizado por elas sejam, ao mesmo tempo, invisibilizadas e alo-
cadas de maneira desigual.
Responsabilidades, cuidado e democracia 107

O pensamento conservador defende o aperfeiçoamento da família e


mais responsabilidade dos homens em nome da proteção às mulheres12. O
liberalismo reformista, inclusive em abordagens feministas, defende que a
mulher vulnerabilizada pela dependência receba assistência financeira por
ter justificadamente falhado no teste da independência. As abordagens mais
radicais no feminismo questionarão, diferentemente, as próprias noções
de mérito e independência, assim como a visão da dependência como um
desvio. Nos arranjos convencionais, os homens “são tão dependentes do
trabalho não-remunerado das mulheres (incluindo seu trabalho emocional)
quanto as mulheres são dependentes da renda dos homens” e o cuidado
com as crianças é uma contribuição social e deveria ser assim reconhecido
(Brenner, 2000, p. 104). É uma visão que contesta a escala de valorização das
diferentes atividades e as formas de definição da independência e do mérito.
As alternativas consideradas para combater o empobrecimento das mu-
lheres quando os casamentos terminam são um exemplo da mobilização de
compreensões distintas dos papéis de gênero e da opressão a eles relacionada.
No debate nos Estados Unidos, em que as disputas em torno das políticas
de bem-estar social a partir dos anos 80 tornaram explícitas algumas dessas
compreensões, há, tipicamente, argumentos favoráveis a políticas para a
manutenção dos casamentos – mais casamento implicaria menos pobreza
–, argumentos favoráveis à garantia de recursos para mulheres em con-
dição de vulnerabilidade para que tenham condições de cuidar dos seus
filhos – se os casamentos não são mantidos, o Estado entra, de certo modo,
no lugar da renda do marido – e argumentos favoráveis a políticas para o
compartilhamento do cuidado, como a oferta de creches e escolas públicas
de qualidade em período integral, mudanças na legislação que avancem em
direitos a flexibilidade na rotina de trabalho e a licenças para mães e pais
com crianças pequenas13.
Nos dois primeiros casos, o papel convencional da mulher na esfera do-
méstica é reforçado ou reposto. Apenas no último se questiona não apenas
esse papel, mas também a estruturação das relações de trabalho e de cuidado,
12
No Brasil, o exemplo mais atual é o Projeto de Lei 6.583, em defesa da “entidade familiar”, proposto na
Câmara dos Deputados em outubro de 2013. O rótulo “família” aparece nele como uma espécie de
prêmio em que recursos, aprovação social e atenção do Estado vão para aqueles que se encaixam
em uma forma de definição da vida conjugal, sexual, afetiva, parental.
13
Mapeio essas posições a partir de “The feminization of poverty”, em Brenner (2000), “A genealogy of
dependence”, em Fraser (1997), e “Mothers, citizenship, and independence”, em Young (1997).
108 Flávia Biroli

em seu aspecto de gênero, mas também em outro, que está estreitamente


ligado a esse mas não se confunde inteiramente com ele, que é a privatização
da vida familiar. A redefinição das responsabilidades individuais e coletivas
depende de abordagens, e políticas, que ultrapassem o foco nos arranjos in-
terpessoais e que sejam capazes de perceber de que modo as desigualdades de
gênero se conectam a desigualdades de classe e de raça. É o que está presente
na análise feita por Lena Lavinas (1996, p. 469) de que no combate à pobre-
za feminina dois grupos deveriam merecer especial atenção, as mulheres
negras chefes de família e as mães solteiras. No primeiro caso, racismo e
sexismo atuariam em conjunto; no segundo, os efeitos da maternidade e da
maternagem na posição das mulheres no mercado de trabalho (rendimentos
menores, por exemplo, como foi discutido aqui) se tornariam mais agudo
por terem que dar conta sozinhas do cuidado e do sustento dos filhos.
A articulação entre dois níveis dessa crítica parece necessária: o enfren-
tamento das desigualdades correspondentes às formas atuais (privatizadas
e mercantilizadas) do cuidado não pode prescindir de uma abordagem de
gênero; o enfrentamento dessas mesmas desigualdades não se dará em um
enfoque restrito ao gênero – mesmo que desconstrutivista –, uma vez que é
na convergência entre gênero, classe e raça que elas se produzem.
A convivência entre a ampliação do leque de estilos de vida e a inse-
gurança econômica de parte significativa da população é constitutiva das
condições em que as relações de cuidado se estabelecem – nas palavras
de Brenner (2010, p. 188), temos “oportunidades crescentes para a auto-
-expressão por meio de um amplo leque de identidades mercantilizadas” e
“inseguranças e preocupações econômicas” também crescentes, derivadas
da baixa proteção social. A tensão entre a lógica de mercado e a lógica da
democracia está na base dessa convivência. Quando a primeira predomina,
prevalece o que podemos definir como um enquadramento das relações e
atividades humanas da perspectiva dos ganhos financeiros; a segunda, por
sua vez, pode ser definida como a afirmação de valores e instituições nos
quais prevaleceriam não apenas interesses plurais – colocando em questão
o peso relativo dos agentes econômicos –, mas também a concepção de que
os indivíduos são ao mesmo tempo atores e fins.
O quadro histórico mais amplo das formas atuais de organização da vida
é aquele em que o trabalho remunerado é definido como fator primordial da
socialização e da valorização do indivíduo, mas, em uma contradição perma-
Responsabilidades, cuidado e democracia 109

nente, é reduzido a um meio para a finalidade prioritária, que seria o consumo


(Gorz, 2003 [1988]). Há uma continuidade entre o trabalhador-consumidor e a
idealização da domesticidade – a racionalidade da competição, do oportunismo
e da condescendência com os superiores hierárquicos no trabalho, organizado
segundo as normas da eficiência econômica, teria como seu contraponto a
vida privada confortável, opulenta e hedonista (Gorz, 2003 [1988], p. 43). A
idealização da esfera doméstica serve mal às classes sociais menos privilegiadas,
com ainda menos autonomia no seu cotidiano de trabalho e, sem dúvida, com
menor remuneração e menores condições de alcançar os níveis de consumo
que compensariam as formas de isolamento da família e a falta de tempo para
o cultivo das relações. A lógica de mercado organiza a vida segundo valores
quantificáveis, e não para que corresponda aos “valores relativos ao ‘tempo de
viver’ da soberania existencial” (Gorz, 2003 [1988], p. 117).
Com o predomínio da lógica de mercado, impõe-se a exigência de que
os indivíduos sejam “independentes”, assumam responsabilidades e formas
do cuidado com os outros e consigo que lhes são, no entanto, negadas coti-
dianamente como alternativas. A falta do cuidado adequado se transforma
na comprovação da sua falta moral, em vez de ser lida como o resultado de
um pacto social cruel e excludente.
Um caminho alternativo ao da mercantilização poderia ser assumir que
“todos os membros adultos de uma sociedade têm alguma responsabilidade
no suporte a todas as crianças” (Young, 1997, p. 111) e indivíduos vulneráveis.
Além de políticas focadas no suporte aos indivíduos dependentes14, políticas
de renda básica universal reduziriam a insegurança econômica das crianças,
dos idosos e daqueles que são responsabilizados pelo cuidado dessas mesmas
pessoas. A transposição da oposição entre trabalho remunerado e cuidado
parece necessária para uma configuração mais justa das relações de gênero
e de classe (Fraser, 1997, p. 61). O segundo permanece como barreira para o
exercício do primeiro quando a responsabilização das mulheres pelo cuidado
as impede de participar paritariamente da sociedade e quando os agentes de
mercado, em vez de soluções públicas e coletivas, definem quem terá acesso
ao cuidado ou apoio na tarefa de cuidar.
O Beneficio de Prestação Continuada (BPC) é, no Brasil, um exemplo de programa de transferência de
14

renda focado. É destinado a portadores de deficiências e a idosos com mais de 65 anos. Não há condi-
cionalidades para o recebimento, mas é dirigido a pessoas que vivem em famílias com renda menor do
que ¼ do salário mínimo. Em 2012, atingia 3,6 milhões de pessoas (Medeiros, Britto e Soares, 2007).
110 Flávia Biroli

Se dependência e autonomia são referências conjuntas para a construção


de relações mais igualitárias, a crítica à mercantilização parece ser, pelas
razões antes elencadas, um dos esforços necessários. Mas a aposta na am-
pliação do suporte público não se apresenta livre de problemas. Algumas
das ambivalências antes consideradas são válidas também aqui. O risco
de que a ação do Estado se dê de forma que aprofunde as convenções de
gênero que estão na base da responsabilização diferenciada tem sido, como
dito anteriormente, alvo de críticas feministas ao Estado de bem-estar
social. Nesse caso, são necessárias estratégias para promover a indepen-
dência das mulheres como indivíduos e para dar suporte a elas como mães
(Brenner, 2000, p. 118). Se a primeira dessas dimensões é deixada de lado,
sua condição de cidadã pode ser comprometida – é o que ocorre quando
sua condição de indivíduo é fundida a sua posição como mãe. Mas, por
outro lado, quando a segunda é deixada de lado, a possibilidade de que
as mulheres que são mães tenham acesso a oportunidades e chances de
exercer efetivamente sua autonomia é comprometida – é o que ocorre
quando se faz de conta que a responsabilização desigual não existe, legando
às “famílias” a responsabilidade pelas crianças sem que se considere o fato
de que isso implica a responsabilização das mulheres pelo cuidado, com
os desdobramentos já discutidos.
É importante, assim, que as garantias aos direitos individuais não sejam
confundidas com as políticas públicas de suporte às mulheres que desejarem
ser mães e que essas não impliquem o apagamento das mulheres como in-
divíduos em nome da proteção às crianças, buscando alternativas para que
uma e outra sejam consideradas concomitantemente.
Outra frente possível para essa crítica evoca o controle coletivo como
algo distinto da ação do Estado. Ao falar sobre o sistema de saúde nos países
da Europa Ocidental, André Gorz chama a atenção para o fato de que o Es-
tado capitalista colabora para a definição dos problemas como individuais.
Com isso, mesmo a ampliação da assistência e dos tratamentos mantém os
indivíduos como consumidores menos ou mais atendidos, fortalecendo a
ideologia do consumo. A realidade coletiva dos problemas de saúde seria,
assim, ofuscada, reduzindo um enfoque que nos permitira a busca de al-
ternativas para ampliarmos o controle coletivo sobre problemas que são
coletivos e a “capacidade de cuidarmos de nós mesmos e termos uma vida
saudável” (Gorz, 1985 [1983], p. 17).
Responsabilidades, cuidado e democracia 111

As condições materiais e simbólicas de quem cuida são, nas condições


discutidas, frágeis. A posição de quem depende do cuidado de outras pessoas,
em si vulnerável, tem sua vulnerabilidade ampliada quando sua dependência
é uma peça na lógica de mercado. Ao mesmo tempo, o apoio público não
significa, necessariamente, controle coletivo democrático. Este último é que
permitiria regular as formas da responsabilidade estatal e coletiva para que
não se desdobrem em ingerência indevida – as fronteiras entre uma coisa e
outra teriam que ser democraticamente negociadas e definidas, o que remete
a um tema de que não trato de fato aqui, o da privacidade. Permitiria também
a construção de alternativas que não se apoiassem nas hierarquias existentes,
como nos casos em que o apoio público reforça a manutenção das mulheres
na posição de cuidadoras, sem uma preocupação com a vulnerabilidade
social que está associada a essa posição.

Conclusão
No Brasil, as condições para cuidar e ser cuidado são deficientes dentro
de casa e fora dela. Essa não é uma idiossincrasia, mas uma questão que se
apresenta, ainda que em configurações distintas, na maior parte das socieda-
des democráticas hoje – daí a importância de se detectar a falta de discussões
sobre esse tema na Ciência Política.
Há enormes desvantagens quando se assume o papel de cuidar de alguém
em sociedades nas quais se nega ao cuidado valor e relevância, ou mesmo a
sua definição como trabalho. Pela divisão sexual do trabalho doméstico, as
mulheres são responsabilizadas, prioritariamente, por cuidar das crianças,
dos idosos e dos enfermos, o que significa que seu tempo será concentrado
nessas atividades ou terá de ser dividido entre o trabalho remunerado, o
cuidado e o trabalho doméstico. Quanto menor é a possibilidade de ter
apoio de instituições públicas – creches e atendimento médico-hospitalar
ou doméstico adequado, por exemplo – maiores são as chances de quem
cuida ter dificuldades para prover materialmente as próprias necessidades e
as dos que lhe são próximos. A oferta de serviços privados alivia a condição
das mulheres que têm recursos para contratá-los, mas aumenta o impacto
dos arranjos privatizados e mercantilizados nas desigualdades de classe e
de raça. Quem exerce cuidado não-remunerado, vê reduzidas não apenas
suas condições para o exercício de trabalho remunerado, mas também seu
acesso a tempo livre e oportunidades de autodesenvolvimento, estudo e pro-
112 Flávia Biroli

fissionalização. De modo mais amplo, quem cuida desenvolve uma atividade


imprescindível, mas vê afetadas suas possibilidades de participar de maneira
igualitária na sociedade. O cuidado remunerado padece da desvalorização
social que decorre dessa configuração – em que as relações convencionais
de gênero e a mercantilização definem as posições que os indivíduos têm
entre o polo em que estão localizados aqueles que têm maiores chances de
receber cuidado e o polo em que estão os que desempenham o trabalho de
cuidar. Está, por isso, entre as atividades nas quais a remuneração é baixa e
as condições de trabalho são precárias.
Os julgamentos morais que são feitos a partir da expectativa de que todos
sejam igualmente capazes de “dar conta de si” e dos seus familiares impõem
sanções e prejuízos a quem não corresponde a esse ideal. É um ideal orientado
pelo mérito e pela competição, que suspende o fato de que as condições em
que os indivíduos disputam uma posição ao sol são completamente distintas.
Quando se presume, por exemplo, que os pais (em um discurso que, via de
regra, atribui essa responsabilidade às mães) devem cuidar bem dos seus filhos,
mas não há políticas adequadas para a conciliação entre trabalho remunerado
e cuidado na vida doméstica, pune-se duplamente aqueles (ou, mais correta-
mente, aquelas) que não são, por razões estruturais, capazes de fazê-lo. Trata-se
de um mito que funciona socialmente (Fineman, 2004), colaborando para que
as desigualdades sejam justificadas e naturalizadas. As formas incontornáveis
da dependência são permanentes no ciclo de vida dos indivíduos e fazem parte
das relações que se estabelecem entre eles. Quando são ignoradas por normas
e práticas sociais que teriam validade se todos fossem adultos, se todos fossem
iguais na sua capacidade de trabalho e se todos tivessem um ponto de partida
igual nos recursos para a construção das suas vidas, não se definem condições
adequadas para o cuidado. O que procurei mostrar aqui é que a ausência dessas
condições, assim como a busca de soluções que repousem sobre a subordinação
de algumas pessoas, não é compatível com a justiça.
Entre as soluções que procurei mostrar que são inadequadas está a manu-
tenção da divisão sexual do trabalho como fundamento de políticas para o
cuidado. Não é uma direção desejável quando se busca um caminho para as
questões envolvidas no cuidado que seja também o da igualdade de gênero.
Mas, além de não ser uma solução desejável, também não é mais, se é que
foi algum dia, factível. Com mais mulheres no mercado de trabalho e com
formas de organização das relações de trabalho que exigem a ausência das
Responsabilidades, cuidado e democracia 113

mulheres do espaço doméstico, a industrialização e socialização do trabalho


doméstico se torna “uma necessidade social objetiva” (Brenner, 2010, p. 224).
Ao mesmo tempo, procurei expor os limites da mercantilização, que pode
ser a solução para a posição desigual de algumas mulheres, mas aprofunda
desigualdades e injustiças num prisma em que convergem gênero, classe e
raça. Por isso, um dos desafios quando se entende que a configuração conven-
cional de gênero não é uma resposta adequada e mesmo possível é imaginar
políticas para a promoção de relações de cuidado fortalecidas, baseadas em
valores solidários, e não na lógica de mercado. Aqui, os constrangimentos que
a realidade impõe à imaginação política se desdobram em uma acomodação
pouco útil à melhoria das condições de vida. Daí a importância de que essas
questões sejam consideradas nos debates e nos esforços para o aprofundamento
da democracia, no âmbito teórico e no da prática política. A centralidade do
cuidado é fundamental para abordagens da democracia que ultrapassem a
igualdade formal, em direção a uma compreensão alargada dos mecanismos
de reprodução de vantagens e desvantagens para os indivíduos e grupos sociais.
A atribuição das responsabilidades, assim como as formas possíveis da
igualdade, varia ao longo da vida. Por isso, “quando as pessoas são jovens e
se encontram em um estado de dependência, elas precisam de acesso igual
ao cuidado adequado para que possam crescer e se transformar em adultos
plenamente capazes” (Tronto, 2013, p. 108). Quando adultas, devem ter di-
reito de se expressar de maneira independente e como iguais, o que faz com
que seja necessário adotar mecanismos institucionais que garantam que não
serão silenciadas. Para tanto, é preciso também construir afirmativamente
as condições para essa vocalização, assegurando práticas e arranjos, na vida
doméstica e no trabalho, que permitam que os indivíduos tenham tempo e
recursos para tomar parte na vida política, no debate público e em esforços
coletivos que lhes pareçam relevantes. E, em uma terceira condição para
a igualdade, “quando as pessoas estão doentes, idosas, ou incapacitadas, é
preciso que existam arranjos institucionais que assegurem que suas vozes
também serão ouvidas” (Tronto, 2013, p. 109).
A ampliação da responsabilidade social pelo cuidado seria, assim, cons-
truída em um processo democrático de que aqueles que estão na posição de
dependentes e aqueles que dispendem cuidado tomariam parte. Em vez de
privatismo e isolamento, teríamos a chance de encontrar alternativas sociais
para que as necessidades de cuidado que todos temos ao longo da vida se-
114 Flávia Biroli

jam adequadamente nutridas. Não é necessário romper com a ideia de que


temos responsabilidades especiais – como aquelas que os pais, biológicos
ou não, têm em relação às crianças – para avançar no sentido de construir
instituições e mecanismos de apoio que garantam que a integridade e o
bem-estar, sobretudo dos mais vulneráveis, não estejam sujeitos à sorte ou
à lógica de mercado.

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Resumo
As relações de cuidado são parte do cotidiano das pessoas e um fator na produção de
desigualdades nas democracias, embora sejam pouco tematizadas na Ciência Política
e praticamente ausentes na Ciência Política brasileira. A configuração dessas relações é
determinante das possibilidades de acesso a recursos e à participação política, assim como
para a garantia de integridade física e psíquica para os indivíduos. Embora a responsa-
bilização das mulheres pelo trabalho doméstico, em que incluo o trabalho de cuidar de
outras pessoas, sobretudo das mais vulneráveis, seja um aspecto central das assimetrias
existentes, as formas mercantilizadas do cuidado são um elemento importante também
nas desigualdades de classe. O artigo propõe um deslocamento da noção liberal de res-
ponsabilidade em direção ao problema da responsabilização desigual. Com isso, analisa
a divisão sexual do trabalho e as diferentes formas de dependência que são parte do
cotidiano, colocando o cuidado como questão fundamental para a democracia e a justiça.
Palavras-chave: cuidado, democracia, trabalho, desigualdades, gênero, classe social.

Abstract
Caring relationships are part of people’s daily lives and a factor generating inequalities
in democracies, although they are scarcely discussed in Political Science and virtually
absent from Brazilian Political Science. The configuration of those relationships is critical
for the possibilities of access to resources and political participation, as well as for assuring
individuals’ physical and psychological integrity. Even though women’s responsibility
for housework – in which I include caring for others, especially the most vulnerable – is
a central aspect in existing asymmetries, commodified forms of care are also an impor-
tant element in class inequalities. This article proposes a shift from the liberal notion of
responsibility towards the issue of unequal accountability. It analyzes sexual division of
labor and the different forms of dependence that are part of everyday life, placing care
as a fundamental issue for democracy and justice.
Keywords: care, democracy, labor, inequalities, gender, social class

Recebido em 31 de maio de 2015.


Aprovado em 17 de agosto de 2015.

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