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Formação de

Mediadores de Educação
para Patrimônio

Afinal, o que
é patrimônio?
conceitos e suas trajetórias
Antonio Gilberto Ramos Nogueira
e Vagner Silva Ramos Filho
Copyright © 2020 Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR)


João Dummar Neto
Presidente
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Diretor Administrativo-Financeiro
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UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (UANE)


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Design Educacional

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Secretária Escolar

CURSO FORMAÇÃO DE MEDIADORES DE EDUCAÇÃO PARA PATRIMÔNIO


Raymundo Netto
Coordenação Geral, Editorial e Revisão

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Coordenação de Conteúdo

Amaurício Cortez
Edição de Design e Projeto Gráfico

Miqueias Mesquita
Diagramação

Daniel Dias
Ilustração

Thaís de Paula
Produção
Este fascículo é parte integrante do projeto Formação de Mediadores de Educação
Patrimonial, em decorrência do Termo de Fomento celebrado entre a Fundação Demócrito
Rocha e a Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza, sob o nº 02/2019.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

C977
Curso Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio / vários autores;
organizado por Raymundo Netto; coordenação de Cristina Rodrigues Holanda;
ilustrado por Daniel Dias. - Fortaleza, CE : Fundação Demócrito Rocha, 2020.
192 p. ; 25cm x 29,5cm. - (Curso Formação de Mediadores de Educação para
Patrimônio ; 12v.).
Inclui anexo.
ISBN 978-85-7529-951-7 (Coleção) Todos os direitos desta edição reservados à:
ISBN 978-85-7529-952-4 (Fascículo 1)
1. Educação para Patrimônio. 2. Patrimônio Cultural. 3. Direitos dos Fundação Demócrito Rocha
adolescentes. I. Netto, Raymundo. II. Holanda, Cristina Rodrigues. III. Dias, Daniel. IV.
Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
Título. V. Série.
Cep 60.055-402 - Fortaleza-Ceará
CDD 341.48
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fdr.org.br
Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410 fundacao@fdr.org.br
SUMÁRIO
1. Apresentação........................................................................................................... 4
2. Os sentidos do patrimônio..................................................................................... 6
3. Itinerários................................................................................................................. 7
4. Novos patrimônios, valores e inventários............................................................ 10
5. Mediações.............................................................................................................. 12
6. Patrimônio para quem?........................................................................................ 14
Referências bibliográficas........................................................................................ 15

3
1.
APRESENTAÇÃO
arece ser consenso dizer hoje
que memória, identidade
e patrimônio são palavras-
-chave da consciência histó-
ricacontemporânea.Nacena
pública, o patrimônio tem
sido cada vez mais convo-
cado, acionado e usado, por
diferentes sujeitos, grupos e
instituições. A melhor forma
de construir qualquer tipo de mediação em
torno dos diversos bens culturais que ga-
nham valor de patrimônio representati-
vo de alguma coletividade é, sem dúvidas,
conhecendo a trajetória dos seus sentidos.
Os contextos sociais e históricos res-
ponsáveis pelo alargamento do conceito
de patrimônio cultural serão aos poucos
abordados neste curso. De início, a in-
formação mais pertinente é notar que os
adjetivos que recebeu ao longo do tempo
(histórico, artístico, móvel, imóvel, tangível,
intangível, material, imaterial, paisagístico,
genético, tesouro vivo etc.) indicam como
ressemantização a ressemantização do conceito de patri-
A grosso modo, mônio é sinalizadora das concepções de
ressignificação,
tempo, lugar social de produção, perspec-
interpretação ou outra
compreensão. tiva teórica e metodológica, além dos sen-
tidos políticos, criados entre lembranças e
esquecimentos pelos indivíduos.
Conhecer as várias noções de patrimô-
nio é fundamental para quem já atua ou
pretende atuar em processos educativos
formais e não formais que têm como foco
o patrimônio cultural.

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SAIBA
MAIS

Processos educativos formais


(ocorrem no interior dos sistemas
de ensino convencionais, como a
escola) e não formais (ocorrem
fora de estabelecimentos de ensino,
como na família, entre grupos de
amigos, em museus etc).

Neste módulo, discutiremos os sentidos


básicos de patrimônio: seus principais iti-
nerários no âmbito das políticas culturais;
as práticas para sua preservação, como o
tombamento, o registro e os inventários de
referências culturais; as arenas em que suas PARA
atribuições de valor encontram-se em dis-
puta; as propostas de educação para o pa- REFLETIR
trimônio, com seus desafios e possibilida-
des para um efetivo exercício de cidadania.
Lembramos a você: mesmo que eviden-
Antes de continuar a leitura do
temente parcial, o conteúdo apresentado
fascículo, pense: se um turista
contribui para abrir o debate de modo que
perguntasse hoje para você quais os
cada um construa novos sentidos de patri-
importantes patrimônios culturais
mônio. O texto destina-se a professores do
do seu estado, de sua cidade ou de
ensino básico das redes pública e privada,
seu bairro, o que você responderia?
estudantes, profissionais dos campos da
Anote suas respostas. Guarde-
memória e do patrimônio (museus, arqui-
as até o final do módulo. Depois,
vos, bibliotecas, centros de memória etc.),
continue seus estudos.
integrantes de movimentos sociais e inte-
ressados em geral. Assim, a ideia é fomentar
a expansão das redes de colaboração, atua-
ção e intervenção que circundam o tema do
patrimônio cultural.
Você está curioso? Pode ter a certeza de
que nós oferecemos o melhor. Inscreva-se
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Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio 5


Em sentido etimológico, patrimônio
advém de patrimonium, uma junção de
“patri”, termo designador de “pai”, com
“monium”, que exprime “recebido”, para
referir-se à “herança”. Desde a noção
mais antiga que manifesta o desejo de
transmitir os bens da família, até a noção
mais contemporânea, que desenvolve a
ideia de um patrimônio a ser transmitido
para as gerações futuras, nota-se como
o conceito é uma construção social. O
patrimônio pode ser, então, tudo o que

2.
Memória
alguém diz e faz a respeito dele, expan- Faculdade psíquica
dindo o sentido de herança reivindicado presente em cada
e/ou apropriado. Daí o termo patrimo- pessoa. Também
nialização ser empregado para designar pode ser entendida

SENTIDOS DO todo o processo de constituição de patri- socialmente como um


suporte (que armazena
mônios na sociedade.
PATRIMÔNIO As políticas de patrimonialização nos
informações, como
um livro, fotografia e
(...) “Por “lugar” não designam um ponto mais longínquos lugares do mundo têm música); uma prática
propiciado novas compreensões da histó- (ato que evoca a
no espaço, mas um ponto no tempo. Não é
ria. Por isso, Dominique Poulot considera lembrança, como a
nostalgia, é quase saudade. Um olhar para comemoração de
trás de banda de olho. (Cidadão Instigado, que a história do patrimônio tem sido a algo ou alguém); e
relise do álbum Fortaleza, 2015). história da maneira como uma sociedade uma representação
constrói esse patrimônio, que se mantém (imagem construída
vivo graças às práticas de memória que os com esse ato).
s palavras em torno do revestem em nome de um “investimento de
álbum Fortaleza, produ- identidade” a ser transmitido. Vários são Identidade
zido pela banda Cidadão os horizontes a serem explorados em dife- É a imagem de si, que
Instigado, bem podem ser rentes escalas – internacionais, nacionais e construímos para si
e para os outros nas
uma partida para pensar locais – que atravessam os bens culturais. interações sociais,
os sentidos presentes no Particularmente, um esforço importan- geralmente associada
âmbito dos patrimônios te tem sido problematizar a construção do ao sentimento de
que nos cercam, marcam e patrimônio cultural como prática social pertença de um
demarcam. Não somente formadora de um campo de conflito ma- indivíduo a um
determinado grupo
como um ponto no espaço a ser preserva- terial e simbólico no processo de institu-
social ou nação.
do da perda, mas como um ponto no tem- cionalização da memória-histórica de di-
po que ao ser valorado como patrimônio ferentes países e grupos sociais. Porque, a
indica múltiplas vivências. O olhar carrega- partir do conceito de patrimônio cultural
do de suspeitas que é lançado, para além e das políticas de preservação a ele rela-
da simples nostalgia, significa interrogá- cionadas, é possível compreender os múl-
-los em prol de um passado e um futuro tiplos sentidos e valores que nortearam
sempre em construção, de modo justo, a seleção dos bens culturais, de natureza
democrático e ético. material ou imaterial, nas sociedades.

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3.
ITINERÁRIOS
s movimentos no campo
patrimonial têm longa his-
toricidade. Regina Abreu
distingue três grandes
momentos da trajetória
dos processos de patrimo-
nialização como um movi-
mento próprio do Ocidente
moderno, com (1) a criação
de agências nacionais e in-
ternacionais, (2) a formação de agentes e (3)
a definição de políticas públicas.
É uma referência de síntese pertinente,
embora tenha generalizações como qual-
quer outra, pois possibilita construir obser-
varção acerca de distintas escalas, relações
de poder e disputas de um campo em cons-
tante mutação.
Internacionalmente, no primeiro mo-
mento, que vai do século XIX  à primeira
metade do século XX, os processos de
patrimonialização fundamentavam-se na
reconstrução do passado ou na busca e SE
valorização de uma arte nacional.
No segundo, cujo marco fundamental foi
LIGA!
a criação da Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
nosanos1940,umanovaeimportantevariável Conceito antropológico de cultura
é absorvida nos processos: o conceito antro-
A cultura é vista como um sistema
pológico de cultura, por ressaltar sua dinâ-
complexo que inclui conhecimentos,
mica particular de ser inerente a cada contexto
crenças, costumes ou qualquer
em contraponto a supostas hierarquias. Por
outra capacidade e hábitos
fim, o terceiro momento, no início dos anos
adquiridos pela pessoa enquanto
1980, quando se instaurou a patrimonializa-
membro de uma sociedade.
ção das diferenças, devido às recomenda-
ções emitidas, sobretudo, pela Unesco, no que
diz respeito à preservação das singularidades
locaisemfrenteaomovimentodehomogenei-
zação em curso no mundo ocidental.

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No Brasil, durante o período conheci- NocontextodaDitaduraCivil-Militar(1964-
do como Estado Novo (1937-1945), com a 1985), em que as metas de políticas para o de-
criação do Serviço do Patrimônio Histórico senvolvimento social usavam a cultura como
e Artístico Nacional (SPHAN), em 1937, re- um dos motores de expansão, destaca-se a
gulamentado pelo Decreto-Lei nº 25/1937, criação do Centro Nacional de Referência
vemos a reconstrução de um passado na- Cultural (CNRC), em 1975, por operar mais
cional com a finalidade de angariar pres- baseado na concepção antropológica da cul-
tígio de modernidade para a identidade tura.Experiênciaresponsávelpelaintrodução
da nação. As ações desse órgão, depois do conceito de “bem cultural”, que alargou a
chamado de Patrimônio Histórico e Artís- compreensão de patrimônio com a adoção
tico Nacional (Iphan), fizeram com que o da noção de “referência cultural”.
Tombamento tombamento fosse transformado em sinô- O diferencial deste conceito foi ser capaz
Ato administrativo nimo de preservação. Esse instrumento, de identificar toda a dinâmica cultural
realizado pelo poder cujo principal efeito incide na conservação como patrimônio, propiciando reconhe-
público com o objetivo
de preservar, através
dos bens materiais, consolidou-se como a cimento em potencial da diversidade do
da aplicação da lei, forma mais antiga de preservação na polí- país, sobretudo com o registro da cultura
bens de valor histórico, tica brasileira de patrimônio. popular, que culminou na luta pela frag-
cultural, arquitetônico Por muito tempo, as suas ações privile- mentação de identidades nacionais vistas
e ambiental para a giaram dois fatores: de um lado, o patrimô- como homogêneas. Apesar da repressão
população, impedindo
nio em “pedra e cal”, tombando igrejas, cultural vivenciada na época, gestou-se o
que venham a
ser destruídos ou fortes, chafarizes, prédios e conjuntos urba- entendimento de que o patrimônio cultural
descaracterizados. nos representativos de uma determinada brasileiro não devia se restringir aos gran-
escola, como fora a arte do barroco colo- des monumentos, devendo incluir também
nial, o que deixou de lado manifestações e as manifestações culturais representativas
expressões que não tinham essa natureza para outros grupos que compõem a socie-
material; do outro, expressões culturais dade brasileira – os índios, os negros, os imi-
de determinadas classes e grupos so- grantes, as classes populares em geral.
ciais, como as de tradição europeia de he- Em meio à redemocratização política
rança luso-colonial, o que relegou ao esque- brasileira, com o fortalecimento do direito
cimento memórias manifestas em senzalas, à memória como elemento de cidadania,
quilombos, terreiros, as primeiras fábricas, a inclusão do artigo 216 da Constituição
cortiços, vilas operárias. de 1988 foi significativa para uma patri-

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monialização das diferenças. O texto da

PARA OS Carta Magna potencializou a defesa da di-


versidade cultural de distintos grupos étni-
CURIOSOS co-culturais, legitimando a emergência de
novos sujeitos de direito coletivo, como os
povos indígenas, quilombolas e de cultu-
ras tradicionais. Foi apropriado igualmente
A Constituição de 1988 define o para a legitimação de iniciativas em torno
Patrimônio Cultural brasileiro da de grupos sociais variados, oriundos de mo-
seguinte forma: bilizações de partidos políticos, sindicatos,
“(...) bens de natureza material e associações de bairros etc.
imaterial, tomados individualmente Posteriormente, a aprovação do Decreto
ou em conjunto, portadores de nº 3.551/2000 instituiu o Registro e o Pro- Registro de
referência à identidade, à ação, grama Nacional de Patrimônio Imaterial Bens Culturais
à memória dos diferentes grupos (PNPI). A ampliação da preservação com de Natureza
formadores da sociedade brasileira”. o instrumento do registro, destinado à Imaterial
Acesse toda a Legislação sobre salvaguarda de bens de caráter processual é o instrumento criado
por meio do Decreto nº
Patrimônio Cultural do Brasil: e dinâmico, passou a proteger as formas de
3.551, de 4 de agosto
http://bd.camara.leg.br/bd/ expressão e os modos de vida, criar e fazer, de 2000, dirigido à
handle/bdcamara/4844. bem como os objetos, artefatos e lugares salvaguarda de bens
que lhes são associados. de caráter processual
Na esteira dessas mudanças, importan- e dinâmico que foram
te atentar como os agentes anteriormente e são fundamentais no
processo de formação
silenciados se tornaram, para além de um da nação brasileira.
objeto de apreciação, os próprios agentes (Maria Cecília Londres
das políticas patrimoniais que resultam Fonseca, Dicionário
em inúmeras revisitações críticas das iden- Iphan de Patrimônio
tidades nacionais. Cultural)

Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio 9


4.
As formas de circulação do patrimônio Ulpiano Meneses é quem, sem repro-
acionadas pelo surgimento de novos agen- duzir a inconveniência da polaridade en-
tes de patrimônios, organismos, sobretudo tre material e imaterial, ou entre o valor
movimentos sociais, organizações não-go- técnico e social, destaca como o valor
NOVOS vernamentais, coletivos oriundos de cama-
das populares e vários outros sujeitos cole-
não é algo natural, quer dizer, intrínse-
co às coisas. Vale sempre perguntar: se o
PATRIMÔNIOS, tivos favorecidos pelas novas tecnologias,
como a internet, forjaram a “necessidade de
valor é uma atribuição, quem o atribui?
Quem cria valor? Que tipo de valor é esse?
VALORES E repensar os silêncios e os ocultamentos, as- Meneses convida a pensar em alguns
sim como o que deve ser protegido, valori- componentes principais do valor cultu-
INVENTÁRIOS zado, repertoriado” (NOGUEIRA, 2014, p. 52). ral – valores cognitivos, formais, afetivos,
expressão “novos patri- Na política brasileira, uma das grandes pragmáticos e éticos – “notando que eles
mônios”, muito recorrente novidades da Constituição de 1988 para o não existem isolados, agrupam-se de for-
nos debates contempo- tema foi, justamente, deslocar do Estado ma variada, produzindo combinações, re-
râneos do assunto, tem para a sociedade e seus segmentos, quer di- combinações, superposições, hierarquias
designado patrimônios zer, seus cidadãos, a responsabilidade pela diversas, transformações e conflitos” (ME-
emergentes na sociedade. atribuição do valor cultural. NESES, 2009, p. 35).
Tratam-se de patrimônios
que advêm da “profusão

FONTE: ARQUIVO NIREZ


de esforços públicos/priva-
dos em favor de múltiplas
comunidades e estão longe da definição ca-
nônica de herança cultural”, bem como de-
correm dos usos inerentes à sociedade de
consumo, pois são instrumentalizados para
o desenvolvimento econômico em prol do
turismo e de práticas mercantis do saber e
lazer” (POULOT, 2011, p. 199; 228).
Essa expressão é pertinente pois tan-
to pode “designar os patrimônios que não
eram tradicionalmente herdados pelas es-
feras institucionais que privilegiavam bens
materiais, como os marcados pela dimensão
etnológica,vivaeimaterial”,quantotambém
pode referir-se à “renovação do olhar em tor-
no de todos os patrimônios, quer sejam os
genéticos, arqueológicos, antropológicos,
naturais,paisagísticos,materiais,imateriais,
digitais etc” (TARDY; DODEBEI, 2009, p. 10). Edifício São Pedro, em Fortaleza-CE.

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Para exemplificar esses valores, obser-
ve um dos bens culturais que a banda Ci-
SAIBA dadão Instigado, citada no início do fascí- SAIBA
MAIS culo, se reporta em suas músicas. Trata-se MAIS
do Edifício São Pedro, localizado na orla
da Praia de Iracema, na cidade de Fortale-
za, cuja situação foi escolhida pela capaci-
O Edifício São Pedro, construído na dade de sintetizar uma série de problemas
Você pode aprofundar o estudo
década de 1950, é um importante com uma sensibilidade própria da força
sobre definições importantes, como
referencial da cidade de Fortaleza-CE. criativa dos artistas.
as de tombamento, registro e
Integra um quadro da Secretaria de a. O valor cognitivo costuma tomar o inventário, através do Dicionário
Cultura de Fortaleza (SecultFOR) em bem como um documento, ao possi- do Patrimônio Cultural do IPHAN.
que muitos outros bens culturais estão bilitar uma fruição intelectual e técni- ACESSE: portal.iphan.gov.br/
inseridos, seja os que já são preservados ca, que pode apontar para o padrão dicionarioPatrimonioCultural.
oficialmente ou que estão em processo de estilístico que orientou o pedido de
reconhecimento. tombamento deste prédio, um dos
primeiros construídos no local.
b. O valor formal ou estético é perpas-
sado por um tipo de apreço sensorial,
como aquele que desponta em torno para pensar os desafios e possibili-
de seu formato metaforizado de na- dades do convívio entre o antigo e
vio, ao ser contemplado por um habi- contemporâneo na trama urbana.
tante ou visitante da cidade, num dos
PARA OS pontos mais badalados à beira-mar. Note que a “patrimonialização de bens
CURIOSOS c. O valor afetivo, muito relacionado à culturais é elaborada nas interações sociais
que exibem categorias de tempo e espaço,
memória, deriva de vinculações sub-
jetivas de identificação com o bem, como memória, história, identidade, passa-
como os dos antigos moradores e su- do, cultura, cidade, em nome de uma deter-
jeitos que frequentam o seu entorno. minada coletividade na urbe” (REIS, 2015,
A cidade de Fortaleza, integrante da
p. 16). Paralelo ao instrumento do tomba-
“Rede de Cidades Criativas” da Unesco, d. O valor pragmático é mais um valor mento, vinculado ao patrimônio material,
tem concedido lugar estratégico para de uso percebido como qualidade, e do registro, relacionado ao patrimônio
o patrimônio no seu desenvolvimento como os dos projetistas que tentam imaterial, temos as propostas de inventá-
econômico, social e cultural. requalificá-lo diante da especulação rios que visam superar a falsa dicotomia
Você pode acessar e conferir o imobiliária característica da área entre material e imaterial através da lógi-
documento Fortaleza 2040: onde está localizado. ca das referências culturais. A cartografia
fortaleza2040.fortaleza.ce.gov.br/site/
e. O valor ético seria aquele associado dos sentidos que pode ser realizada a partir
não somente ao bem, mas às intera- dessas práticas, facultaria acesso tanto à di-
ções sociais nas quais ele é apropria- mensão tangível do espaço, dada a ver pela
do, tendo como referência o lugar sua materialidade, quanto à dimensão do
do outro, a exemplo dos artistas que intangível, aquela associada ao universo do
o tomam como símbolo da cidade simbólico e da percepção (NOGUEIRA, 2015).

Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio 11


5.
fundamentais. Uma que “vincula as ações
educativas à necessidade de proteção ou
defesa do patrimônio cultural e que bus-
ca alcançar, por parte do público-alvo,
MEDIAÇÕES respeito, interesse e apreço pelos bens
patrimoniais”. A outra concepção “articula
aber o que fazer diante dos tais ações educativas à valorização ou ao
muitos usos e abusos do patri- empoderamento de determinados gru-
mônio é fundamental. pos sociais por meio do reconhecimento
A mediação é uma im- do patrimônio cultural a eles associado”,
portante ação por permitir o pressupondo a participação ativa desses
avanço na abordagem comu- grupos na definição do que cabe preservar
nicacional da memória e do (GONGALVES, 2014, p. 84).
patrimônio, bem como das A constatação da autora é importante
condições de circulação de sa- por ajudar a enfatizar que a mediação não
beres. Convém ressaltar que a é apenas uma facilitação, mas uma ati-
proposta de “educação patrimonial” do tude de protagonismo, que pode e deve
próprio Iphan pressupõe um conhecimento culminar em ações de preservação ampara-
de várias noções de patrimônio. das pelas políticas públicas. Não custa dizer
Essa mediação não é somente realizada que, contemporaneamente, esse passou a
por agentes do serviço público entre os “so- ser um direito de todo cidadão.
licitantes” e os “atingidos” pelas políticas de A autora sinaliza algumas proposições
preservação. Pode ser feita por qualquer relevantes para nortear ações que merecem
um que se envolva em processos educa- destaque. A seguir, 4 proposições:
cionais, nos espaços formais ou infor-
mais, como escolas, museus, pontos turís- a. desnaturalizar o patrimônio cultu-
ticos da cidade e associações comunitárias, ral, refletindo sobre o campo que o
que tenham foco no patrimônio cultural. produz: significa problematizar sua
A partir da leitura de vários textos pro- construção social em detrimento
duzidos com recomendações de ações de uma visão que o toma como um
educativas acerca do patrimônio cultural, dado natural, enfatizando as ações
em âmbito nacional e internacional, Jani- dos sujeitos envolvidos na patrimo-
ce Gonçalves detectou duas concepções nialização de um bem.

12 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


PARA OS
CURIOSOS

A portaria nº 137/2016, que


estabelece as diretrizes de Educação
Patrimonial, no âmbito do Iphan,
pode ser acessado no seguinte link:
pnem.museus.gov.br/wp-content/
uploads/2014/01/Educacao-
Patrimonial-web2.pdf

b. dessacralizar o acervo patrimonial,


problematizando os processos so-
ciais e históricos que o geraram: bus-
ca enfatizar as atribuições de valor
acionadas nas operações de patri-
monialização como uma forma de
desvelar suas experiências.
c. pôr sob suspeição uma perspectiva
do processo educativo que oponha
educadores e educandos como escla-
recidos e não esclarecidos: importa
para desestabilizar certezas, através
de indagações de valores atribuídos
e/ou atribuíveis ao acervo patrimo-
nial, a fim de que a prática de uma
leitura crítica e autônoma prevaleça.
d. valorizar as diversas instâncias que
lidam com o patrimônio cultural
como produtoras e disseminado-
ras de saberes e visões sobre ele e
buscar compreender suas especifi-
cidades: incentiva a finalidade de re-
conhecer singularidades do campo
patrimonial que é marcado por ser
multidisciplinar, reconhecendo as
variadas contribuições dos profissio-
nais que neles atuam.

Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio 13


Como vimos, o patrimônio, enquanto
faceta do direito à memória, é fundamental
no exercício da cidadania. Por esse caminho,
não se deve esquecer que a interpretação do

6.
patrimônio cultural dever ser feita, antes de
tudo, “com” e “para” a população local. Logo,
as distinções patrimoniais que diferentes lu-
gares e/ou práticas angariam de organismos
internacionais e nacionais poderiam con-
PATRIMÔNIO figurar-se em oportunidades interessantes
para incentivar o que Marilena Chauí (2006)
PARA QUEM? denominou de “cidadania cultural”, consi-
Essa pergunta carrega consigo derando tanto as perdas, quanto as conquis-
paradoxos em torno das movi- tas nas perspectivas dos seus habitantes,
mentações patrimoniais na con- para a elaboração de políticas públicas que
temporaneidade. Por um lado, garantam amplos direitos aos cidadãos.
abre-se uma comporta para um Para tanto, as mediações em proces-
excesso de patrimonialização sos educacionais para o patrimônio são
impulsionado pela “política da basilares, se realizadas de forma que
patrimonialização das diferenças exista crítica permanente sobre certas
como forma de combate à homo- ideias que orientam o trabalho no campo
geneização neoliberal”, mas, por do patrimônio cultural.
outro lado, fortalece o movimento inverso, Importante tomá-lo como uma arena de
estimulando ações de distinção patrimo- acordos e conflitos de valores, avaliações e
nial, materializadas por meio dos selos de proposições, que explicita como o patri-
“patrimônio mundial” ou de “obra-prima do mônio é, além de uma construção
patrimônio oral e imaterial da humanida- social, uma prática eminente-
de” (ABREU, 2015, p. 7). mente política. Afinal, pensar
para quem é o patrimônio,
em meio às lembranças e
aos esquecimentos que o
PARA OS atravessam, é uma forma
CURIOSOS de continuar apostan-
do na democracia que
visamos construir.

As considerações desse fascículo


modificaram as respostas que você
anotou no início do fascículo e que
daria para um turista se indagado
sobre quais seriam os importantes
patrimônios culturais do seu
estado, cidade ou bairro? Por quê?

14 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


REFERÊNCIAS AUTORES
BIBLIOGRÁFICAS Antonio Gilberto Ramos Nogueira
é doutor pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC/SP) e pós-
ABREU, Regina. Patrimonialização FONSECA, Maria Cecília Londres. doutornoInstitutodeEstudosBrasileiros
das diferenças e os novos sujeitos O patrimônio em processo: (Ieb/Universidade de São Paulo) e no
de direito coletivo no Brasil. In: trajetória da política federal de Centro em Rede de Investigação em
TARDY, Cécile & DODEBEI, Vera. preservação no Brasil. Rio de Antropologia (Cria/ Universidade Nova
Memória e Novos Patrimônios. Janeiro: UFRJ\IPHAN, 1997. de Lisboa). Professor do Departamento
Marseille: OpenEdition Press, 2015, de História e do Programa de Pós-
GONÇALVES, Janice. Da educação
p. 67-93. Graduação em Históri a da Uni versidade
do público à participação cidadã:
CHAUÍ, Marilena. Cidadania sobre ações educativas e patrimônio Federal do Ceará (UFC). Coordenador
Cultural: o direito à cultura. cultural. Mouseion, Canoas, N. 18, do Grupo de Estudos e Pesquisas em
São Paulo: Perseu Abramo, 2006. dezembro 2014. Patrimônio e Memória (GEPPM/UFC/
CHUVA, Márcia; NOGUEIRA, CNPq) e do GT História e Patrimônio
NOGUEIRA, Antonio Gilberto Ramos.
Antonio Gilberto Ramos. Cultural (ANPUH/Brasil).
O campo do patrimônio cultural e
(Org.) Patrimônio Cultural: a história: itinerários conceituais e
Políticas e perspectivas de Vagner Silva Ramos Filho
práticas de preservação. Antíteses,
preservação no Brasil. Rio de é doutorando em História pela
v.7, n.14, Londrina, 2014, p. 45-67.
Janeiro: Mauad X / Faperj, 2012. Universidade Estadual de Campinas
_______. Iinventários, espaço, (Unicamp). Possui graduação e
CIDADÃO Instigado. Álbum memória e sensibilidades urbanas. mestrado em História pela Universidade
“Fortaleza”. Relise. 2015. Educar em Revista, n. 58, Curitiba, Federal do Ceará (UFC). É pesquisador
2015, p. 37-53. do “Grupo de Estudo e Pesquisa em
POULOT, Dominique. Uma história Patrimônio e Memória” - GEPPM (UFC),
do patrimônio no Ocidente. São com inserção igualmente nos Grupos
Paulo: Estação liberdade, 2009. de Pesquisa “Cultura Visual, Imagem e
História” (Unicamp) e “História Popular
REIS, Daniel. Cidade (i)material:
do Nordeste” (UFS). Foi professor sub
museografias do patrimônio
stituto no departamento de História da
cultural no espaço urbano. Rio de
Universidade do Estado do Rio Grande
Janeiro: Mauad: FAPERJ, 2015.
do Norte (UERN)/ Campus Assú. Na área
SÃO PAULO (cidade). O Direito à de educação para o patrimônio, tem
Memória: Patrimônio Histórico e experiência em desenvolvimento de
Cidadania. São Paulo: DPH, 1992. projetos de pesquisa, ensino e extensão
TARDY, Cécile & DODEBEI, Vera (et. nessas diferentes instituições.
al.) Memória e Novos Patrimônios.
Marseille: OpenEdition Press, 2015.
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de.
ILUSTRADOR
Daniel Dias é ilustrador e artista gráfico,
“O campo do patrimônio cultural:
com extensa produção em projetos
uma revisão de premissas”. In: I
editoriais, sendo a maior parte destinada
Fórum Nacional do Patrimônio
ao público infantil e infantojuvenil. Seu
Cultural: Ouro Preto/MG, 2009.
trabalho tem como base a pesquisa de
materiais e estilos, envolvendo estudo
de técnicas tradicionais de pintura,
desenho, fotografia e colorização digital.

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