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Problemas Metafísicos

Material Teórico
Problemas Metafísicos Cosmológicos

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Valter Luiz Lara

Revisão Textual:
Profa. Ms. Fátima Furlan
Problemas Metafísicos Cosmológicos

• Introdução
• Problemas Cosmológicos em Forma de Pergunta
• Modelos Cosmológicos Religiosos
• A Cosmologia segundo a Razão Filosófica
• Modelos Cosmológicos Filosóficos e Científicos
• Conclusão

OBJETIVO DE APRENDIZADO
Os objetivos desta Unidade são:
· Problematizar e esclarecer os conceitos próprios da cosmologia em filosofia;
· Aprender a formular de maneira metafísica as principais questões da cosmologia;
· Reconhecer as diferentes linguagens e pressupostos dos sistemas e modelos
de explicação do universo;
· Aprender a distinguir modelos mítico-religiosos, filosóficos e científicos de
explicação do universo;
· Aproximar o aluno de alguns dos conceitos metafísicos que são instrumentos
para o reconhecimento dos modelos de representação de mundo, bem
como dos autores que mais influenciaram o modo como concebê-lo.

ORIENTAÇÕES
Nesta Unidade você vai aprender a lidar com as questões fundamentais da
investigação sobre o universo que envolve a todos e a tudo o que existe. O
horizonte será esse vasto mundo externo que se abre para além desse planeta
e atinge o espaço incomensurável das estrelas e das galáxias... Evitou-se a
linguagem fechada e extremamente especializada da física e da astronomia
atuais para facilitar a compreensão dos diferentes sistemas ou modelos que
a razão humana tem desenvolvido para tentar compreender essa imensidão
cósmica que nos envolve e da qual fazemos parte como consciência a procura
de respostas: de onde tudo isso surgiu? De onde viemos e para onde vamos?

Leia atentamente o texto teórico e sinta-se numa viagem a desfrutar de uma


paisagem variada de modelos religiosos, filosóficos e científicos, cada um a
seu tempo, com os recursos tecnológicos disponíveis e a seu modo, tentaram
compreender a totalidade desse fenômeno que chamamos mundo.
UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

Contextualização
Procure aplicar os conceitos e pensar nas questões que foram levantadas no
texto teórico ao ouvir a entrevista. Independentemente de qualquer que seja a
sua confissão de fé ou sua postura em relação à religião, essa entrevista coloca
em questão a relação entre ciência cosmológica (em especial a astronomia) e os
modelos cosmológicos oferecidos pela religião. Vale a pena pensar como a religião
lida com possíveis conflitos trazidos por novos modelos cosmológicos, embora
nenhum deles seja ainda definitivo.

Veja também no Youtube vídeo que mostra contradições e problemas implicados na teoria
Explor

do Big-Bang segundo a interpretação de alguns físicos (Cf. “A Cosmologia e seus problemas


BBC horizon” Publicado em 10 de mai de 2014, In: https://youtu.be/9j2xb5qJve4 - Acesso em
23/09/2015 às 17:17h).

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Introdução
O problema metafísico fundamental da cosmologia
Você já parou para se perguntar qual seria a maior de todas as questões? Das
muitas questões qual seria aquela que explicaria a razão de ser e a condição para a
resposta de todas as outras? Pense um pouco. A forma de perguntar pode variar,
mas ao final todas as questões chegam a uma que é fundadora de todas as outras?

Qual é a origem do universo?

O sentido da palavra universo pressupõe alguns condicionamentos culturais e


históricos, mas independente do uso e significado que essa palavra tenha em nossos
dias no contexto de nossa língua e da cultura científica contemporânea, não se pode
negar que lá onde seres humanos - por mais primitivos do ponto de vista da tecnologia
e do ponto cronológico da história ou da pré-história que os consideremos - tenham
feito para si mesmos, em algum momento, essa mesma pergunta ou se preferirmos,
perguntas com esse mesmo senso de busca pelas origens de tudo o que está aí, inclusive
pelas origens da vida e de nossa vida em particular.

A palavra “universo” tem sua origem no vocábulo latino “universum” que


significa “o mundo, o universo”, literalmente “tudo junto” ou “tornado um”, de unus
mais versus, particípio passado de vertere, “tornar”. “Universum” traduz, por sua
vez, o termo grego “cosmos”. Cosmos compõe a palavra “cosmologia” dando-
lhe o sentido de estudo de uma totalidade-mundo. Trata-se de uma noção do que
pode ser pensada como realidade total segundo uma “ordem sistêmica” (cosmos)
que imprime ao mesmo tempo, unidade, harmonia e identidade ao que chamamos
de mundo. Por isso, universo traz em seu sentido a ideia de ordem, sistema e
totalidade de tudo o que existe, incluindo os planetas, estrelas e todos os demais
astros e entidades do espaço que possam estar além de nosso conhecimento.
Explor

Cf. informação do site português “Origem da Palavra – Site da Etimologia”.


Disponível em http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/universo-2/ - Acesso em
26/08/2015 às 15h25.

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UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

Cosmologia é, portanto, a parte da fi-


losofia que investiga o que hoje é princi-
palmente objeto de estudo da física teóri-
ca e da astronomia científicas. Faz parte
da questão fundamental pela origem de
tudo a busca pela origem da vida. Eviden-
temente que a questão da vida é predo-
minantemente objeto de investigação da
biologia. Mas perguntas como essa não
são propriedade exclusiva de uma só ci-
ência, pois perpassa todas as áreas de in-
vestigação da natureza como a química,
a zoologia, a botânica, a antropologia e
tantas outras que se ocupam da variedade
de vida dispersa pelo planeta, inclusive de
Figura 1 outras formas de conhecimento que ante-
Fonte:: iStock/Getty images cederam a forma científica.
As linguagens da religião e da filosofia sempre testemunharam através de
seus mitos e símbolos (religião) e de seus sistemas e raciocínios de natureza
metafísica (filosofia) a tentativa de responder a questão fundamental sobre a
ordem cósmica. Os mitos cosmogônicos atestam as mais variadas formas de se
buscar uma resposta para as perguntas fundamentais a respeito da origem do
universo e da vida em nosso mundo.

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Mitos cosmogônicos (cosmos = universo + gônicos = derivado da palavra “genea”
Explor

= geração, o que dá origem a) são narrativas simbólicas e metafóricas que as diversas


culturas espalhadas pelo mundo inteiro em diferentes épocas da história da humanidade
construíram e legaram para as suas comunidades e gerações sobre as origens ou geração
do(s) planeta(s), dos seres, da vida, do céu e da terra e demais entidades presente na
natureza conhecida de seu tempo. As Escrituras Sagradas de um povo, assumidas por uma
confissão religiosa e algumas histórias que são ainda legadas da tradição oral de vários
povos contêm muitos dessa linguagem mítica. A narrativa do Gênesis 1-2 do primeiro
livro da Bíblia, é um exemplo de relato que possui as características desse gênero literário
denominado aqui de mito cosmogônico. Trata-se de um relato que tem sua própria visão
cosmológica. Cada coisa, elemento e ser na natureza, no céu, na terra ou embaixo da terra
estão dispostos segundo uma ordem, um “cosmos” que retira o mundo do caos original: luz,
água, terra, céu, firmamento, astros, espécies vivas e humanidade seguem uma lógica que
preenche os espaços e inauguram o tempo.

O problema metafísico cosmológico reside nesse ponto fundamental de busca


pela explicação e razão de tudo o que existe no espaço físico que conhecemos e
chamamos de mundo. Ele está presente em qualquer dos dois sentidos em que
o nosso olhar possa se dirigir, tanto para cima quanto para baixo. O desafio do
desconhecido e do horizonte aberto persiste seja quando olhamos para cima ao
vislumbrarmos as estrelas numa noite de luar, seja quando direcionamos nossa

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atenção para o interior da matéria. O mesmo mundo fantástico, misterioso
e complexo pode ser notado tanto no universo infinitamente grande como no
infinitamente pequeno da matéria subatômica.

Os demais problemas da metafísica cosmológica derivam desse primeiro ou a


ele estão associados. São problemas distintos em sua natureza mais específica, mas
estão ligados pela mesma inquietação de busca pelo sentido da totalidade de tudo
o que existe. É isso que dá o caráter e a identidade metafísica a estes problemas.
Embora possa variar a abordagem, ora sendo feita pela razão experimental
científica, ora pela fé religiosa, ora pela razão lógica especulativa filosófica, o seu
sentido exclusivamente metafísico permanece, pois são problemas que por sua
natureza abrangente e universal, na medida em que perseguem as causas últimas
e definitivas para explicar o que se pressupõe ser o todo, afirmam sua essência
metafísica em sua mais genuína forma de levantar as questões.

E que problemas são esses? Veremos mais adiante. Visões e teorias que
explicam o universo, tempo e espaço, matéria, natureza e outros conceitos que
intrigam nossa compreensão sobre a realidade do ponto de vista de suas origens:
acaso, necessidade, criação e evolução. São muitos os problemas e as perguntas,
mas selecionamos aqueles cuja relevância para a compreensão do nosso lugar no
mundo, bem como do sentido que damos a nossa existência continuam a provocar
não só os curiosos e apaixonados pela filosofia e pela ciência mais avançada, mas
inquieta qualquer que seja o ser humano que tenha vontade de entender o sentido
e a razão não só do seu estar no mundo, mas do próprio mundo.

Problemas Cosmológicos em Forma de


Pergunta
Procure formular algumas inquietações, dúvidas e perguntas que você tem em
relação ao mundo da natureza, do espaço e do tempo que derivam da questão
fundamental pela origem do universo. Algumas já são objetos de investigação
filosófica e foram assumidas pelas ciências da natureza e, em boa parte, foram
expressas em hipóteses gerais que são, na verdade, respostas provisórias que
direcionam a continuidade da pesquisa. Abaixo selecionamos algumas delas de
forma simples e direta. O intuito é fazer surgir novas questões. Convido você a
continuar perguntando.

1. Qual é a origem do universo? Ele tem começo? Se ele tem um começo, qual
é? Quando? Onde? Como? Quem? Se há um começo, o que havia antes?
Há alguma ordem ou lei geral que possa abarcar essa totalidade mundo?

2. Se há uma ordem ou lei geral que perpassa o universo desde sua origem,
então há um criador? O universo é obra de criação ou é produto do acaso?

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UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

3. Se o universo tem um começo ele também tem um fim? Ele se expande


até que ponto? Ou não há um começo e fim? O universo é perene,
eterno, sem começo e sem fim?

4. O universo é finito ou infinito, tem limites ou não? É esférico, curvo ou


aberto ao infinito?

5. A matéria como elemento fundamental do universo, de constituição química


e física bem variada o que de fato é?

6. O universo se compõe de algo mais do que a matéria? Há alguma inteligência


e vontade que dirige no tempo e no espaço a ordem cósmica?

7. Existe de fato o elemento espiritual ou ele simplesmente é o produto da


evolução física, natural e biológica capaz de gerar seres inteligentes como o
ser humano?

8. Conceber o universo como obra criada por um ser inteligente sujeito de


vontade significa ter que negar a evolução? Criação e evolução ou evolução
sem criação?

9. O que é espaço? Tempo? Que relação há entre um e outro?

10. Há outros mundos? Há outras dimensões desconhecidas e vida inteligente


nesse mesmo mundo além de nós?

Modelos Cosmológicos Religiosos


As tradições religiosas como expressão cultural dos anseios antropológicos
mais amplos da vida humana, ao pretenderem apresentar algo que dê sentido
à existência, acabam quase sempre assumindo como base de suas doutrinas e
expressões de fé, uma metafísica cosmológica. Qualquer sistema religioso possui
um sistema explicativo do funcionamento do mundo que corresponde aos seus
interesses de justificação e fundamentação do sentido da existência do mundo e
dos sujeitos nele presentes.

Segundo a linguagem simbólica do mito, diferentes religiões buscam explicar


o sentido do mundo e de nossa existência nele de modo que possa apaziguar o
absurdo do mistério diante do vasto universo desconhecido. A narrativa do
Gênesis 1-2 do primeiro livro da Bíblia é um exemplo de relato que possui as
características do gênero literário denominado de mito cosmogônico (Cf. Nota nº
2) e como tal possui uma visão de mundo. Trata-se de um relato que tem sua
própria visão cosmológica. Cada coisa, os elementos e seres na natureza, no céu,
na terra ou embaixo da terra estão dispostos segundo uma ordem, isto é, segundo
um “cosmos”. É a ordem que retira o mundo do caos original (Gn 1,1-2): luz,
água, firmamento, terra, céu, astros, espécies vivas e humanidade seguem uma
ordem lógica no aparecer da criação que preenche os espaços e inauguram o

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calendário, isto é, o tempo. Ao contrário do que muitos pensam, é um texto que
revela um conhecimento alinhado com o que havia de mais avançado no campo
da cosmologia da época. O pressuposto - independentemente da fé religiosa que
dirige a linguagem do texto e de sua aceitação como verdade sobre a realidade -
tem por fundamento uma visão sistêmica e bem ordenada do mundo.

Visão de Mundo: “Visão de mundo” que passaremos a chamar indistintamente de


Explor

“cosmovisão” é sempre uma noção mais completa e ampla de tudo o que envolve nosso
lugar no mundo, incluindo as relações entre indivíduo e sociedade, sujeito humano e os
outros na ordem social, no mundo da natureza, das tarefas, atitudes e os significados que
são atribuídos a tudo isso nas mais diferentes esferas da vida: econômica, social, política,
cultural, religiosa, etc.
Tempo: Na mitologia grega tempo é o nome atribuído a um de seus deuses primordiais:
Cronos. Aliás, é desse termo que derivam as palavras cronologia e cronômetro, o tempo que
se mede, o tempo do relógio que marca o movimento.

Sem cair numa leitura literal, mas procurando entender a metafísica cosmológica,
isto é, a cosmovisão que textos como este em diferentes tradições religiosas
apresentam sobre a ordem do mundo, a seguir apresentamos na forma de
esquema um painel que demonstra alguns dos grandes e mais conhecidos sistemas
cosmológicos que orienta a humanidade segundo a lógica da razão mítica, isto é,
segundo a fé de tradições religiosas antigas que permanecem no horizonte da visão
de mundo de muita gente ainda hoje e que de certa forma, oferece respostas para
algumas das perguntas levantadas no tópico anterior.

Existe um começo?

Sim Não

Mitos com Criação Mitos sem Criação

Ser Positivo Ser X Não-Ser Universo Rítimico


Deus, o Criador Ordem X Caos

Ser Negativo Existência Externa


Criação do nada
Figura 2 – Mitos Cosmogônicos
Explor

Cf. GLEISER, 1997, p. 29.

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UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

O esquema acima pode ser exemplificado por dois relatos sobre as origens. O
primeiro é o já mencionado e bem conhecido relato da criação no livro de Gênesis.
Quando Deus iniciou a criação do céu e da terra, a terra era deserta e vazia, e havia
treva na superfície do abismo; o sopro de Deus pairava na superfície das águas e Deus
disse: “Que a luz seja!”. E a luz veio a ser [...]
Explor

A Bíblia. Tradução Ecumênica. TEB. São Paulo: Paulinas/Loyola, 1996.

Na mentalidade bíblica expressa por esse texto, a cosmologia tem por fundamento
a ideia de um começo em que Deus cria o mundo e ordena o caos original dominado
pelas trevas que representa a escuridão. A luz é o primeiro ato criador a partir do
qual o vazio da escuridão será ocupado pelas demais obras que em seguida são
criadas. Muitos relatos míticos seguem esse padrão para responder a pergunta
fundamental da cosmologia. Deus ou um grupo de deuses criam o mundo do nada
ou da reunião e composição de elementos retirados do caos primitivo.

O segundo exemplo se vê nos mitos que não concebem um começo para o


universo ou pelo menos não postulam um só começo. A mentalidade hindu desde
as tradições védicas mais antigas segue essa concepção.
Explor

Tradições védicas referem-se aos textos, hinos e narrativas legadas pela civilização milenar
que transmitiu seu saber em Sânscrito e que deu origem às crenças e práticas religiosas
hindus presentes principalmente na Índia que hoje conhecemos.

A visão Védica recorrente do universo exige que o próprio universo passe por ciclos
de criação e destruição. [...]. Assim, na cosmologia hindu o universo tem uma natureza
cíclica. A unidade de medida usada é a “kalpa”, que equivale a um dia na vida de
Brahma, o deus da criação. Uma kalpa tem aproximadamente 4,32 bilhões anos. O
final de cada “kalpa”, realizado pela dança de Shiva, é também o começo da próxima
kalpa. O renascimento segue à destruição. Shiva é representada tendo na mão direita
um tambor que anuncia a criação do universo e na mão esquerda uma chama que
destruirá o universo. Muitas vezes Shiva é mostrada dançando num anel de fogo que se
refere ao processo de vida e morte do universo.
Explor

YOUNIO, Alisson. A cosmologia na Ásia. Disponível em: http://goo.gl/Lw3kwS - Acesso em


28/08/2015 às 14h54.

Ainda que os ciclos comecem e terminem, a ordem cíclica como tal é em si


mesma eterna. O mito sobre as origens incluindo Shiva, o deus da dança, aquele
que cria, mas também destrói, nas tradições da Índia demonstram essa cosmologia
cíclica em que universos são criados e recriados numa linha que não tem começo
nem fim.

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A Cosmologia segundo a Razão Filosófica
A filosofia em sua atitude de ruptura com a razão mítica procura outra forma de
entender o universo. A origem deve ser encontrada na própria natureza e não mais na
ação dos deuses. Dessa forma, os antigos filósofos desenvolveram diferentes sistemas
de compreensão do mundo, alguns buscando o elemento original que explicasse o
todo e outros, além desse esforço, tentaram propor uma visão do todo onde todas as
coisas, terra, céu, estrelas, planetas e demais seres pudessem ser concebidos segundo
uma ordem minimamente plausível dentro da totalidade cósmica.

Para os primeiros filósofos a natureza, entendida como physis era essa


totalidade dinâmica que inclui tudo o que existe. Qualquer coisa está submetida
às suas leis e condicionamentos, inclusive seres vivos, o ser humano ou qualquer
outro ser inteligente que possa existir. A ideia de sobrenatural ainda não existia.
Sobrenatural é um conceito moderno que nasce da ideia de que além da natureza
física e observável materialmente pode haver outra realidade supranatural e não
submetida às leis naturais.

No mundo moderno marcado pela ciência positiva, isto é, do conhecimento


que postula a existência apenas daquilo que se pode experimentar materialmente
como objeto de observação submetido ao controle dos sentidos ou dos meios e
instrumentos que acessem a possibilidade de verificação, o espaço deixado para a
dimensão da experiência subjetiva ou espiritual perde sua legitimidade. O mundo
dos mitos, povoado por deuses e histórias voluntaristas de milagres e atos fantásticos
que a razão lógica tem dificuldade de explicar perde o seu status de natural, pois
não pertence ao mundo do objetivamente observável e logicamente demonstrável.

Como não se extirpa do imaginário humano de uma hora para outra a


sensibilidade para o que não se explica só porque a ciência decide adotar outro
método de abordagem da realidade, os fenômenos que parecem contestar as leis
da natureza conhecida começaram a ser denominados de sobrenaturais. Religião,
mitos, crenças e relatos que a ciência não alcança, pois ultrapassam os limites da
visibilidade e comprovação material, começam a ser chamados de sobrenatural.

O dualismo entre natural e sobrenatural não existia no mundo antigo. Essa


noção é recente, produto da modernidade. Tudo na religião e no mito, ainda
que “extraordinário”, na acepção própria da palavra, por mais que estivesse fora
do modelo ordinário e comum, fazia parte da physis, da natureza, portanto. Na
mentalidade antiga, deuses, espíritos e demônios estavam presentes, ainda que
invisíveis, em tudo que se manifesta na natureza. Tales de Mileto (624-547 aC)
escreveu; “A inteligência do cosmos é o deus; porque o universo é animado e
cheio de deuses”.
Explor

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Tales de Mileto, Fragmento nº 8, Cf. BORNHEIM, 1977, p. 23.

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UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

Os sistemas cosmológicos a partir da linguagem filosófica foram sendo


construídos independentemente da razão mítica, mas tanto quanto esta, jamais
eliminou a dimensão da metafísica como pressuposto de sua fundamentação.
Mesmo a linguagem da física teórica, como veremos, trabalha com hipóteses gerais
e abrangentes que também a pressupõem.

Modelos Cosmológicos Filosóficos e Científicos


O que hoje se considera cosmologia é objeto de estudo da física teórica, mas
sempre foi assunto da filosofia, embora haja cientistas que ainda considerem
o problema sobre a origem do universo um tema da metafísica ou da religião
(HAWKING, 1997, p. 17). O que atualmente se entende por ciência é resultado do
que historicamente foi construído principalmente a partir das mudanças culturais,
econômicas e tecnológicas que ocorreram no mundo a partir do século XV e XVI.

A preocupação com as questões metafísicas estiveram presentes desde o


nascimento da filosofia e permanece como atitude pressuposta em qualquer forma
de conhecimento que vise responder seus problemas à luz da busca pelas origens.
Por isso, desde o início, como produto da reflexão condicionada pelos mitos
cosmogônicos, pensadores tentaram explicar sua concepção de universo. Vamos
chamar de sistema ou modelo cosmológico em filosofia aquela teoria geral que
aponta para um quadro que comunique certa noção ou imagem do universo que
inclua principalmente o modo como se vê a terra, o céu, os planetas e estrelas num
todo que seja sistêmico e possa ser explicado segundo alguma razoabilidade.

Modelos cosmológicos na Antiguidade e Idade Média


O modelo mais antigo provinha da mentalidade religiosa e propunha a terra
como uma base plana e fixa. Com o predomínio da visão religiosa medieval acabou
se impondo e tornou-se popular. As águas do mar corriam para fora desse plano
numa espécie de abismo sem fim e o céu seria uma espécie de lugar em cujo teto
estavam fixas as estrelas e demais astros. A visão é de uma terra plana, imóvel,
colocada no centro, tendo o céu como seu horizonte.

Entretanto, a ideia de uma Terra esférica já existia entre os gregos. Platão


(427-347 aC.) Aristóteles (384-322 aC.), Eudoxo (408-355 aC.), Arquimedes
(287-212 aC.) e Erastótenes (276-194 aC.). A visão de embarcações apontando
e desaparecendo no horizonte do mar sugeria o questionamento de uma Terra
plana. Erastótenes chegou a calculou o diâmetro da Terra com pequena margem
de erro. Mediu em passos a distância entre as cidades de Alexandria e Siene
(cerca de 800 Km) e pelo ângulo das sombras projetadas por uma estaca nas duas
cidades, calculou a cintura da Terra teria 39.700 Km. Na verdade é de 40.009
Km10. Primeiro ele concluiu que se no mesmo horário das 12h o sol produzia
sombra em apenas uma delas, isso apontava para o fato de que a terra não era

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plana (BETTO, 2012, p. 56-57). Mas a comprovação da forma esférica da Terra
só viria com Fernão de Magalhães que navegando deu uma volta completa sobre
a terra em 1522.

Os modelos cosmológicos geocêntrico e heliocêntrico foram os que mais


dominaram a mente humana. Eles correspondem formas de compreensão do
mundo segundo o critério determinante do posicionamento da Terra no universo.
No primeiro, a Terra é o centro e no segundo, é o Sol.

Figura 3
Fonte: Wikimedia/Commons

Na maior parte de nossa história o modelo geocêntrico foi dominante, pois o


heliocentrismo só se impôs a partir dos estudos de Copérnico (1473-1543), Kepler
(1571-1630) e Galileu (1564-1642) nos primórdios da Era moderna. Entretanto,
havia desde a antiguidade quem defendesse teorias heliocêntricas (PILLING &
DIAS, 2007) como foi o caso do modelo desenvolvido por Aristarco de Samos
(310-230 aC.).

O modelo de Aristóteles de uma Terra esférica posicionada no centro do universo


foi confirmado pelos estudos de Claudio Ptolomeu (90-168 dC.) de Alexandria.
A cosmovisão da Terra no centro do universo por muitos séculos legitimou o
paradigma teocêntrico e acabou predominando durante todo o período medieval.
A Terra no centro caia muito bem ao modo religioso de entender e derivar os
princípios de organização sócio-política com base numa ética religiosa ditada pela
crença na ideia de um Deus criador do Céu e da Terra.

Modelos Cosmológicos a partir da Ciência Moderna


O aprimoramento da tecnologia da observação cada vez mais precisa permitiu
a ampliação de nossa visão do sistema solar e a descoberta de novos horizontes,
estrelas e galáxias. As dimensões do mundo ultrapassam os limites estreitos do
que anteriormente estava restrito apenas ao alcance do que os nossos olhos eram
capazes de enxergar. Depois do avanço fenomenal da cosmologia dado pelo trio
dos grandes cientistas Copérnico, Kleper e Galileu, outros autores foram capazes
de aperfeiçoar os equipamentos de observação, oferecendo hipóteses que fizeram

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UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

avançar o modelo heliocêntrico. Nomes como o de Isaac Newton (1643-1727),


Thomas Wright (1711-1786), William Herschef (1738-1822), Edwin Hubble
(1889-1953), Alexander Friedmann (1888-1925), Georges Lemaître (1894-
1966), George Gamov (1904-1968) e Albert Einstein (1879-1955) estão na lista
daqueles que, entre outros, ajudaram a construir passo a passo o caminho que
finalmente confirmou o paradigma científico mais aceito atualmente sobre a origem
do universo e que se tornou conhecido como a teoria do Big Bang.

A paternidade da teoria do Big Bang, anunciada em 1948 pelo físico russo


de cidadania estadunidense, George Gamov pode ser admitida também para o
Padre belga Georges Lemaître (1894-1966), pois foi ele quem primeiro formulou a
hipótese da grande explosão do átomo primordial. Em breves palavras, o modelo
do Big Bang propõe a origem de tudo a partir de matéria hipercondensada num
átomo primitivo e instável que explodiu sob a forma de uma super-radioatividade e
que até hoje provoca o movimento de expansão do universo.

Cf. GLEISER, 1997, p. 367: “O modelo cosmogônico de Lemaître, uma espécie de híbrido
Explor

entre um modelo científico e um mito de criação, será o precursor do moderno modelo do


big-bang. Veja também no Site ACIDIGITAL o texto postado em 28 Out. 2014 / 02h07 pm
(ACI/EWTN Noticias). Disponível em: http://goo.gl/c6cRSd

Em resumo, podemos concluir esse tópico assumindo que os modelos


cosmológicos foram sendo construídos ao longo da história do pensamento segundo
a diversidade de métodos de observação aliada ao raciocínio lógico e matemático
de grandes pensadores, bem como ao avanço das tecnologias que aperfeiçoaram
nossa capacidade de ver mais longe e mais precisamente os fenômenos que
abarcam o horizonte desse espaço que parece ser infinito e aberto. Porém, muito
ainda há que ser esclarecido.

Do ponto de vista da Metafísica, retornando e esclarecendo melhor às questões já


Explor

levantadas no primeiro tópico desse texto, proponho derivar como pressuposto dos modelos
cosmológicos apresentados até aqui, as seguintes questões como as mais importantes na
determinação desses modelos:
1ª) Segundo o critério do espaço que ele ocupa, o universo é finito ou infinito?
2ª) Segundo o critério do tempo que ele abarca, o universo tem um começo ou é eterno? Se
tem um começo, o que havia antes? E se houve um começo, haverá um fim?
3ª) Segundo o critério da matéria e de seu conteúdo, ele é limitado ou é ilimitado? O planeta
Terra, por exemplo, é limitado, mas e o universo, também é?
4ª) Segundo o critério da forma, o universo é esférico, tem forma de disco como as galáxias,
é fechado (limitado e finito) ou é curvo e aberto (ilimitado e infinito)?
5ª) Segundo o critério do movimento, o universo se expande infinitamente ou haverá
um limite em que a expansão dará lugar ao movimento de retração, que por sua vez,
atingirá o ponto originário de matéria hipercondensada que novamente irá reproduzir
outra grande exlosão?

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Conclusão
O campo dos problemas cosmológicos do ponto de vista da reflexão metafísica
torna-se cada vez mais desafiador e instigante com as novas descobertas da
astronomia e da pesquisa sobre a natureza do mundo subatômico. A teoria clássica
da gravitação universal de Newton não prevalece no mundo infinitamente pequeno
do átomo e a teoria da relatividade de Einstein alterou profundamente o quadro
da compreensão que tínhamos do tempo, do espaço e da própria concepção de
matéria. A teoria da incerteza de Werner Heisenberg (1901-1976) aplicada ao
mundo subatômico mexeu com as verdades absolutas sobre a natureza do átomo
e deixou em aberto nosso desconhecimento sobre o modo como funcionam e se
articulam esses dois mundos, o do macrocosmo e o microcosmo.

O princípio da incerteza de Heisenberg consiste na afirmação de que é impossível determinar


Explor

ao mesmo tempo, a posição e a velocidade de uma partícula do átomo. O observador altera


o resultado da realidade que observa (HAWKING, 1997, p. 71).

A constituição da matéria a partir dos elementos da tabela periódica não


resolve o mistério profundo da questão fundamental: há uma vontade inteligente
ordenando tudo, criando as condições da evolução da matéria até fazer surgir a vida
e a consciência, da qual somos testemunho inconteste? Haverá vida inteligente no
obscuro desse mundo desconhecido das galáxias? O universo é obra e criação de
um ser inteligente supremo? Ou tudo não passa de um produto do acaso gerador
de um processo evolutivo que pode não ter um fim e talvez, nem mesmo um
começo, tal como propuseram os mitos hindus das Eras cíclicas de Brahma?

“[...] tabela periódica é um esquema que permite classificar e organizar os elementos


Explor

químicos em função das suas propriedades e características. O químico alemão Julius


Lothar Meyer (1830-1895) e o matemático russo Dmitri Mendeleiev (1834-1907) foram os
primeiros especialistas a ter postulado as propriedades dos elementos a partir das funções
periódicas da respectiva massa atômica. A história da tabela periódica está relacionada com
o descobrimento dos diversos elementos químicos e com a necessidade de ordená-los de
alguma forma. Após várias tentativas, Mendeleiev foi quem conseguiu criar um sistema
periódico com base na massa atômica”. Disponível em: http://conceito.de/tabela-periodica
Acesso em 07/09/2015 às 16h01.

O fato é que a pergunta por uma inteligência criadora não é somente uma
questão da religião, da ciência ou da filosofia. Trata-se de um problema metafísico
que perpassa, antecede e abarca todas as questões e por mais que tentemos evitá-la
ou ignorá-la, somos irremediavelmente levados a buscar um sentido que dê razão
para tudo: matéria, vida, morte, inteligência, consciência, acaso, necessidade,
criação, evolução, espaço e tempo.

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UNIDADE Problemas Metafísicos Cosmológicos

Quem sabe talvez seja esse o propósito de nossa condição: aventurar-se pelos
espaços e tempos que nos concedeu a natureza em busca de uma teoria geral. Essa
teoria não seria uma espécie de “fórmula mágica” capaz de unir essa totalidade
complexa e ao mesmo tempo apaziguar nossa sede de saber que nos consome
diante de tantos mistérios que ainda há entre nós, o céu e a Terra?

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Vídeos
Telescópio Hubble - A última missão
Assista ao documentário “Telescópio Hubble - A última missão” postado por Wlamir
Araújo, produzido e dirigido por Dana BERRY para a National Geographic sobre o
que o Telescópio Hubble é capaz de enxergar no espaço interestelar e reflita sobre os
mistérios e problemas que a astronomia mais avançada ainda não conseguiu desvendar.
Disponível em: https://goo.gl/OUz2hD
Acesso em 24/09/2015 às 11h40

Livros
Breve história do tempo ilustrada de Stephen HAWKING
Leia e aprecie a obra “Breve história do tempo ilustrada de Stephen HAWKING.
Tradução de Clara Allain. Edição atualizada, revista e ampliada. Curitiba/PR: Editora
Albert Einstein, 1997, 248p.
Trata-se de uma obra com linguagem acessível, figuras e ilustrações belíssimas sobre os
problemas e soluções que a ciência moderna e contemporânea têm levantado através
de seus grandes autores como Newton, Hubble, Einstein e tantos outros.

O Tao da Física. Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental


Consulte a obra de Fritjof CAPRA. O Tao da Física. Um paralelo entre a Física
Moderna e o Misticismo Oriental. Tradução de José Fernandes Dias. Nova Edição
revista e ampliada. São Paulo: Cultrix , 1983. 274p. Você fará um percurso entre as
mais recentes descobertas da Física Quântica e as concepções metafísicas de religiões
milenares do antigo oriente.

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UNIDADE

Referências
A BÍBLIA. Tradução Ecumênica. TEB. São Paulo: Paulinas/Loyola, 1996.

BACELAR, Jonildo. “História do Conceito da Terra Redonda”. Texto disponível


em http://www.mapas-historicos.com/terra-redonda.htm

Acesso em 04/09/2015 às 17h28.

BETTO, Frei. A Obra do Artista: uma visão holística do Universo. 4.ed. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2012. 286p.

_____. Theilhard de Chardin. Sinfonia Universal. São Paulo: Letras & Letras,
1992. 78p.

BONDI, Hermann. O universo como um todo. Aspectos da Cosmologia. São


Paulo: EDART, 1968. 134p.

CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo


Oriental. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Cultrix, 1995. 274p.

GLEISER, BORNHEIM, Gerd A. (Org.). Os filósofos pré-socráticos. 3.ed. São


Paulo: Cultrix, 1977. 128p.

GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de Criação ao Big Bang.


São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 434p.

GUSDORF, Georges. Tratado de Metafísica. Tradução de Antonio Pinto de


Carvalho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1960. 557p

HAWKING, Stephen. Breve história do tempo ilustrada. Edição atualizada


revista e ampliada. Tradução de Clara Allain. Curitiba/PR: Editora Albert Einstein
Ltda,1997. 248p.

JASTROW, Robert. A arquitetura do universo. Dos astros, da vida, dos homens.


Tradução de Veronica Ferreira, Margarida Cabrita e Revista por Jorge Branco.
Lisboa/São Paulo: Martins Fontes, 1981. 193p.

ORIGEM DA PALAVRA – SITE DA ETIMOLOGIA. Disponível em: http://


origemdapalavra.com.br/site/palavras/universo-2/. Acesso em 26/08/2015 às
15h25.

PILLING, Diana Paula Andrade & DIAS, Penha Maria Cardoso. “A hipótese
heliocêntrica na Antiguidade”. In: Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 29,
n. 4, p. 613-623, 2007. Disponível em PDF em: http://www.sbfisica.org.br/rbef/
pdf/070708.pdf Acesso em 04/09/2015 às 18h09.

STOEGER, William R. As leis da natureza. Conhecimento humano e ação


divina. São Paulo: Paulinas, 2002. 153p.

YOUNIO, Alisson. A cosmologia na Ásia. Disponível em http://www.ebah.com.br/


content/ABAAAALBcAK/1-1e-cosmologia-antiga-india. Acesso em 28/08/2015
às 14h54.

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