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Problemas Metafísicos

Material Teórico
O Que é Metafísica?

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Valter Luiz Lara

Revisão Textual:
Profa. Ms. Fátima Furlan
O Que é Metafísica?

• Introdução
• Metafísica na Proximidade e Distanciamento do Cotidiano
• Metafísica como Disciplina Filosófica por Excelência
• O que é Metafísica?
• Áreas, Objetos de Estudo e Problemas Metafísicos\
• Autores e Conceitos nas Origens da Metafísica
• Conclusão

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Introduzir os principais problemas, conteúdo, método e objetos
de estudo da metafísica como disciplina fundamental da filosofia.
· Esclarecer como a Metafísica tem uma ligação com o cotidiano da
vida, embora sua linguagem seja expressão de um distanciamento
necessário do senso comum.
· Destacar palavras chaves, ideias, conceitos e autores, de modo
que o aluno possa se familiarizar com a linguagem e vocabulário
próprios da metafísica.
· Demonstrar o significado da palavra “Metafísica”, sua origem curiosa
e alguns de seus sinônimos como “Ontologia”.
· Oferecer alguns autores e conceitos que estão na origem da Metafísica
como disciplina filosófica.
· Oferecer ao aluno condições de apropriação da Metafísica não só
como conteúdo, mas como método de abordagem da realidade que
o leve a questionamentos mais profundos e filosoficamente mais
disciplinados sobre si mesmo e o mundo.

ORIENTAÇÕES
Você está começando a estudar uma nova disciplina da Filosofia. Inicialmente, procure
manter o espírito aberto para aprender não só coisas novas, mas principalmente uma
nova maneira de olhar o mundo a sua volta. Metafísica é isso, uma postura diante da
realidade. A realidade diante de nós é a mesma, mas o olhar e o interesse que orienta
o nosso conhecimento da realidade é que muda. Preste atenção nesse novo jeito que
a Metafísica propõe para o conhecimento.
Atenção para as perguntas. Algumas delas parecerão estranhas e pela aparência de ob-
viedade poderá criar dificuldade. Aí é que você deve voltar e refazer a leitura. Fazê-la a si
mesma em voz alta pode ajudar a compreensão. Tente entender cada termo da questão.
Não se apresse em respondê-la. As questões em filosofia e, sobretudo, em Metafísica,
são mais importantes que a resposta, pois definitivamente, é bom que você saiba: não
haverá uma só resposta para as perguntas metafísicas. A resposta certa pode até existir,
mas vai depender dos pressupostos e do horizonte a partir do qual se pergunta.
Fique atento também para fazer as atividades que complementam seus estudos. Os filmes
e os textos indicados são imprescindíveis para ilustrar os conceitos. Mas cuidado, mesmo
que você já os tenha visto, é preciso revisitá-los, agora sob novas óticas. Bom estudo!
UNIDADE O Que é Metafísica?

Contextualização
Olá,

Convido você a contextualizar o que aprendemos sobre Metafísica. De que


forma? Há vários modos de aplicar a atitude básica da reflexão metafísica e não há
necessidade de levantar questões de difícil compreensão. Sugiro que você veja o
noticiário televisivo em horário nobre de qualquer canal aberto e tome um problema
apenas que foi apresentado e verifique que tipo de resposta explícita ou implícita
a ele foi dada. Em seguida, levante algumas questões que são típicas da atitude
de quem assume uma postura metafísica no cotidiano de sua vida. Como postura
metódica pode-se seguir vários caminhos para se adotar uma atitude metafísica
diante dos problemas. Entretanto, para facilitar o seu exercício, sugerimos que siga
as seguintes etapas, obedecendo a sequência indicada:
• Primeira: não achar que tudo seja óbvio.
• Segunda: é a consequência da primeira: questionar a resposta fácil que
geralmente é dada para resolver problemas que na verdade são mais complexos.
• Terceira: observe se a resposta é suficiente para dar conta de todos os aspectos
que realmente devem ser levados em consideração ao analisar o problema.
• Quarta: tente perceber quem de fato sugere ou impõe a resposta e se há
algum interesse diretamente ligado ao tipo de resposta ao campo dos
interesses mais amplos do sujeito que a responde.
• Quinta: quais aspectos e interesses não estão sendo levados em consideração
ao se responder uma questão?
• Sexta: o problema levantado realmente está sendo contextualizado e colo-
cado em toda a sua abrangência ou há coisas sendo ignoradas ou provavel-
mente ocultadas?
• Sétima: afinal, do ponto de vista metafísico, as noções imediatas do problema
foram superadas ou ainda mantemos o padrão da abordagem inicial geralmente
superficial e frequentemente unilateral a seu respeito?

Ao final dessa atividade, esperamos que você se dê conta de que mais


importante do que saber e absorver o resultado teórico da Metafísica tradicional,
o que interessa é assumir uma atitude de questionamento profundo e radical
sobre as coisas. É essa a postura que importa aprender dos filósofos que nos
legaram a Metafísica.

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Introdução
Da realidade vivida para a realidade colocada em questão pelo pensamento crítico.

Você já se deu conta que de repente tudo o que pensamos ser real pode ser
um simples sonho? Ilusão ou realidade? Quem disse que o sonho é uma ilusão? O
sonho não é também uma realidade que pertence ao mundo de quem sonha? E
ainda nem precisamos distinguir o sonho que se tem quando se dorme dos sonhos
que temos quando estamos muito bem acordados. Há quem sonhando se aliena
da vida, mas há também quem se liberta e vence a vida através de seu(s) sonho(s).
Afinal, o que é realidade? Esse é o problema mais emblemático da Metafísica.
Todas as outras questões são redutíveis a essa primeira e mais original pergunta: o
que é isso que chamamos de “realidade” e os filósofos chamam de “ser”?

Por acaso há realidade ou ser que não seja verdadeiro? A verdade pertence ao
mundo das coisas reais ou é uma necessidade de quem faz afirmações e negações
sobre as coisas? Mas se “ser real” é o mesmo que “ser verdadeiro”, quando dizemos
que certas coisas são falsas, isso significa que elas não existem? Ser e existir são
a mesma coisa? É possível existir sem ser? Alguma coisa que é, entenda bem,
que tem ser, pode não existir? Bem vindo à Metafísica, pois estas são questões
metafísicas. Elas nos ajudam a distinguir, por exemplo, projeto ideal de ser real;
ideia e conceito de objeto concreto existente na realidade. Por exemplo, quando
concebo um projeto de livro. O projeto enquanto tal aponta para o ser em potencial
do livro, mas ele ainda não existe de fato. O “ser” do que se projeta só virá a “existir”
quando for escrito, editado e publicado. Esse é um dos sentidos que usamos para
se distinguir “ser” de “existir”.

Voltemos ao verdadeiro e falso. Por exemplo, afirmar que essa tela de


computador que tenho em minha frente é real é o mesmo que dizer que ela é
verdadeira? Quando dizemos que uma coisa é falsa estamos afirmando que ela não
corresponde ao modelo original. No caso dessa tela, ela será falsa se for feita sem
a autenticação do fabricante autorizado. Mas isso não significa que ela não existe,
pois ela está bem aqui na minha frente. Aliás, você deve estar diante de outra
tela bem real e que te leva a outras tantas realidades virtuais quando navega pela
internet. Então, que diferença existe entre realidade “virtual” e realidade “real”?
O que há de comum nessa dupla “realidade”? Ou ainda, o que há de diferente
quando se compara realidade virtual com realidade não virtual? Já reparou o
que significa a palavra site? Lugar, espaço? É isso mesmo?! Onde fica? Qual é a
localização geográfica, o endereço espacial de um site, uma vez que ele pode estar
e aparecer simultaneamente para milhões de pessoas em qualquer “lugar” (agora
sim geográfico) do mundo?

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UNIDADE O Que é Metafísica?

Figura 1 – Tirinha produzida especialmente para esse texto, por Dínamis Lara.

Ilusão, sonho ou realidade, ser e existir, real e virtual, verdadeiro ou falso, igual
e diferente, comum e incomum integram a variedade de problemas metafísicos que
serão desenvolvidos e comentados ao longo desse estudo.

Metafísica na Proximidade e
Distanciamento do Cotidiano
Atenção! Vamos devagar... Nesse momento queremos apenas abrir caminho
para um mundo nem sempre visitado pela reflexão. Partiremos do que conhecemos
para atingir o campo desconhecido e mais complexo das questões metafísicas.
A partir de experiências corriqueiras, como as que temos diante de uma tela
de computador, indagamos o que ainda não foi pensado. Com isso queremos
demonstrar que Metafísica não é algo distante ou indiferente ao cotidiano em que
vivemos. Claro que nem sempre estamos acostumados a levantar questões de
ordem tão profunda e abrangente. Por isso, desde o início é preciso reconhecer
que, embora a linguagem seja estranha para os padrões da comunicação do dia a
dia, o interesse da Metafísica toca direta ou indiretamente tudo o que diz respeito
ao cotidiano.

Neste sentido, não é fácil admitir que as noções que temos das coisas, apesar de
terem sido incorporadas como se fossem naturais, na verdade foram construídas
ao longo do processo histórico de transformações e desenvolvimento humano e as
recebemos como legado cultural através da aprendizagem sócio educativa. São,
portanto, produtos culturais e não naturais.

Lembra-se do filme Matrix?1 O cenário por detrás da realidade virtual chamada


Matrix é de um mundo real e extremamente cruel em que seres humanos são
mantidos inertes numa bolha que os faz sobreviver como plantas. Um programa
operacional monumental – Matrix – cultiva seres humanos para extrair deles energia
suficiente para se manter atuante como inteligência artificial dominante. Em troca,
os seres humanos recebem os estímulos cerebrais como se vivessem normalmente,
quando na verdade vegetam, vivendo apenas o imaginário fantasioso de uma vida
virtual. O filme é ficção científica, mas nos remete a questões filosóficas metafísicas

1 Matrix (1999, EUA, Direção: Lana Wachowski e Andy Wachowski).

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de primeira ordem, aliás, já mencionadas por autores como Platão e Descartes.
Ambos, obviamente com outras categorias, levantaram a possibilidade de mundos
reais e imaginários em conflito na consciência do sujeito. Platão apontou em
sua alegoria da caverna para o engano de vidas aprisionadas diante de sombras
ilusórias, frutos de um mundo das aparências dominado pela predominância da
percepção sensível das coisas. Descartes, por sua vez, levantou a possibilidade da
existência de um espírito enganador (a Matrix de seu tempo) capaz de implantar
noções falsas em nossa percepção de mundo.

O filme “A Origem”2 também evocou possibilidades semelhantes de


questionamento da percepção da realidade e da dificuldade que se pode ter em
distinguir realidade de sonho. O enredo todo é montado na ideia de intervenção da
mente para transplantar imaginário artificial, alheio a consciência do sujeito e sem
o seu consentimento, para que ele altere seu modo de pensar e agir. Dessa vez o
tema é tratado mediante técnicas de intervenção química e neurológica capazes de,
penetrando nos sonhos do sujeito, alterar seu estado de consciência. Todas essas
sugestões de questionamento de nossa percepção da realidade são hipóteses, de
certa forma, já potencialmente presentes em experiências que vislumbramos em
técnicas e experiências como as da hipnose, do transe religioso, ou da ingestão de
drogas psicotrópicas.

Metafísica, porém, não é conhecimento que precisa gerar ou supor estados


alterados de consciência que possam sugerir alguma espécie de fuga da realidade.
Evidentemente, pensar metafisicamente exige certo afastamento do “lugar comum”,
a partir do qual se aprecia o mundo, mas jamais é fuga da realidade. Ao contrário,
significa ir além do mundo próximo e imediato em que vivemos e ultrapassá-lo
para melhor compreendê-lo. A Metafísica é, portanto, distanciamento reflexivo
na dimensão necessária para que de fato se possa perceber o mundo sob novos
ângulos e pontos de vista. Pois, só na tentativa da pluralidade e da abrangência
do olhar pode-se vislumbrar o mundo e o próprio sujeito que o percebe, com
criticidade, consciência, liberdade e autonomia.

Metafísica como Disciplina Filosófica por


Excelência
A Metafísica é disciplina filosófica racional, sistemática e rigorosa de abordagem
da realidade. É a consciência questionando o que de fato somos capazes de
perceber, saber e alcançar nos limites do que se entende por lucidez e clareza da
linguagem racional.

Aos mais apressados e pragmáticos, a Metafísica pode parecer uma viagem de


reflexão insana e sem rumo que talvez não nos faça chegar a lugar algum. Na verdade,

2 A Origem (2010, EUA e Reino Unido, Direção: Christopher Nolan).

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UNIDADE O Que é Metafísica?

as perguntas metafísicas não são banais, pois o fato de estarmos bem adaptados e
acomodados em nosso mundo não significa que não haja mais nada a saber. Embora
tenhamos desenvolvido conhecimento e tecnologia sobre muita coisa, questões
como vida e morte, dor e prazer, tempo e espaço, liberdade e destino, são temas que
continuam a povoar nossas mentes de indagações e mistérios que não cansam de
exigir de nós explicação que faça sentido. Toda resposta, seja de ordem religiosa,
mítica, científica ou filosófica para questões como essas são de caráter metafísico,
pois abrange possibilidades que não se esgotam no plano das demonstrações físicas
e objetivamente verificáveis pelas nossas observações sensíveis.

Pragmático: aqui é apenas sinônimo para prático e útil; Embora o termo nos remeta a
Explor

uma corrente de pensamento chamada de filosofia pragmática, o uso do termo nesse


momento quer apenas definir determinado tipo de pessoa preocupada apenas com
questões funcionais, ligadas a questões de interesse imediato de sobrevivência e adaptação
à realidade, como aquele sujeito que diz assim: “não me interessa ficar especulando sobre
o “sexo dos anjos”, interessa saber o que pode me ajudar a pagar as contas no final do mês”.

Neste contexto, o significado da palavra “meta-física” tem tudo a ver, pois em


sua origem grega, o prefixo “meta” diz respeito ao que está “depois”; “para além
de”, “após” ou “acima de” alguma coisa; enquanto “física” refere-se à palavra grega
“phisis” que traduz o que entendemos por natureza ou a totalidade do mundo que
vemos, sentimos e percebemos. Por isso, os objetos das indagações metafísicas
ultrapassam o que pode ser imediatamente perceptível na natureza; eles não são
óbvios ao primeiro olhar.

Questionar o que aparentemente parece ser óbvio é tarefa da filosofia. A


Metafísica é, pois, a disciplina filosófica por excelência, pois toma essa tarefa como
sua especialidade. É saber que nos remete para além da acomodação e adaptação ao
mundo já estabelecido. Sua tarefa é desconstruir o que se apresenta como pronto e
acabado para que seja avaliado e revisto em sua gênese, lógica e razão de ser.

O que é Metafísica?
Origem, Primeira Filosofia e Ontologia
A Metafísica tem sua origem curiosa como palavra criada por Andrônico
de Rodes. A partir de 86 aC, quando as obras de Aristóteles foram
reunidas e levadas para Roma, Rodes assumiu a responsabilidade
por organizar e editar as obras completas do filósofo. Depois de ter
separado as obras da área de lógica e física, sobraram alguns livros sem
classificação. A opção foi nomeá-los de livros “metà tà physika”, que em
grego designava aqueles que estavam alinhados logo “depois da física”
(MONDIN, 1980, p. 71).

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Explor
Andrônico de Rodes (130-60aC.): filósofo [...] nascido na ilha de Rodes, autor da primeira
edição completa das obras doutrinais de Aristóteles, escrita e editada com o nome de Corpus
Aritotelicum em 65 a. C.).
Disponível em: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/AndrRode.html
Acesso em: 11/07/2015.

Figura 2 – Tirinha produzida especialmente para esse texto, por Dínamis Lara.

Aristóteles preferiu nomear o conteúdo desses escritos como Filosofia Primeira,


definida originalmente como estudo do ser enquanto ser. Mais tarde, o filósofo
alemão Jacobus Thomasius deu um novo nome ao que estamos chamando de
Metafísica. Juntando duas outras palavras gregas, “onto” e “logia”, Thomasius
propôs a palavra “Ontologia” para designar o estudo do ser enquanto ser. A
ideia era distinguir o estudo das coisas tais como elas aparecem (1º) do estudo
daquilo que elas são em si mesmas (2º). O primeiro estudo, o das coisas tais
como elas aparecem para nós refere-se ao estudo dos seres, coisas ou entes na
sua multiplicidade. Trata-se do estudo das ciências particulares, como a física, a
biologia, a química e outras tantas que investigam o mundo dos fenômenos (do
grego phainoumenon, que significa aquilo que aparece e se manifesta aos nossos
sentidos). O segundo estudo deve referir-se ao que está para além daquilo que se
manifesta e aparece aos nossos sentidos e deve se concentrar na unidade dos seres,
das coisas, dos entes e não na sua multiplicidade.

Jacobus Thomasius (1622-1684): filósofo alemão nascido em Leipzig; influenciou


Explor

sobremaneira o modo de organizar sistematicamente os estudos de filosofia, inclusive a


metafísica; foi professor do renomado filósofo Gottfried Leibniz (1646-1716).

Marilena Chauí ao mostrar que a palavra “metafísica” ficou consagrada pela


tradição filosófica muito mais do que “ontologia” para designar o estudo que
Aristóteles definiu como Primeira Filosofia ela ofereceu a seguinte explicação:
[...] Porque Aristóteles, ao definir a Filosofia Primeira, também afirmou
que ela estuda os primeiros princípios e as causas primeiras de todos os
seres ou de todas as essências, estudo que deve vir antes de todos os
outros, porque é a condição de todos eles. [...] a palavra metafísica não

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UNIDADE O Que é Metafísica?

quer dizer apenas o lugar onde se encontram os escritos posteriores aos


tratados de física, não indica um mero lugar num catálogo de obras, mas
significa o estudo de alguma coisa que está acima e além das coisas físicas
ou naturais e que é a condição da existência e do conhecimento delas.
Por isso, a tradição consagrou a palavra metafísica, mais do que a palavra
ontologia. Metafísica, nesse caso, quer dizer: aquilo que é condição e
fundamento de tudo o que existe e de tudo o que puder ser conhecido
(CHAUÍ, 1994, p. 210).

A linguagem é genérica e demasiadamente abstrata, pois a pretensão da


Metafísica é justamente ser o estudo mais importante, que está acima de todos os
outros e por isso deve vir antes, como condição para todos os outros. Seu propósito
é atingir o ser em sua universalidade de modo que possa dar conta da totalidade
tanto na perspectiva da multiplicidade quanto da unidade dos seres. Veja como as
palavras sugerem a ousadia da abordagem metafísica: universalidade, totalidade,
multiplicidade e unidade. Pensar de modo metafísico é ousar abarcar o todo em
suas causas primeiras, mas também em suas finalidades e características essenciais.

Essência é outra palavra importante da Metafísica. Enquanto estudo não dos


seres em particular, mas da unidade pressuposta em tudo o que existe, essência
é aquilo que constitui uma coisa segundo sua(s) característica(s) imprescindíveis,
isto é, segundo aquilo que a constitui como idêntica a si mesma e que sem ela(s)
não pode ser o que de fato é. A essência de uma coisa é sempre aquilo que resta
quando atributos acidentais são excluídos de sua definição. Por exemplo, minhas
roupas, meu cabelo e alguns aspectos de minha aparência podem desaparecer e
eu continuar sendo o que sou. Por isso, há algo em mim, mas também em você
que constitui o que somos essencialmente e que chamamos de essência humana.
Difícil é definir o que seja a essência de cada coisa e muito mais complexo ainda,
o que de fato é a essência de todos os seres. No caso dos seres humanos, há toda
uma história da busca por essa essência metafísica: racionalidade, personalidade,
liberdade, alma, consciência, cultura etc. Do ponto de vista da individualidade
também buscamos a essência de cada coisa. Por exemplo, há um eu que me é
próprio e me faz ser o que sou e não outro, embora muitas coisas em mim se
assemelham e foram adquiridas no contato com os outros.

Faz-se então necessário para continuarmos desenvolvendo problemas metafísi-


cos estabelecer a diferença entre “ser” como verbo (1º) e “ser” como substantivo
(2º). No primeiro caso “ser” (verbo) designa uma conexão, que permite aferir
atributos, qualidades, e características das coisas; ocorre quando dizemos que esse
computador “é” de boa qualidade ou que essa casa “é” enorme. No segundo caso,
o mais frequente em Metafísica, “ser” (substantivo) é sujeito que constitui a es-
sência das coisas em sua singularidade ou sujeito universal que constitui a unidade
que visa juntar o que é a essência dos seres em sua complexa multiplicidade. É
neste sentido que a Metafísica (ou Ontologia) prefere usar a palavra ser com letra
maiúscula (Ser), pois diz respeito ao “Ser das coisas” ou o “Ser dos entes”, cujo
significado é exatamente esse: o “Ser dos seres”. Não é por acaso que Deus é tema

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fundamental da Metafísica. Entretanto, o conceito de “Ser” não tem necessaria-
mente que ser identificado com Deus. Os filósofos pré-socráticos, por exemplo,
inauguraram a filosofia grega refletindo metafisicamente e não identificaram o “Ser
dos seres” com Deus. Buscaram a essência primeira e comum constitutiva de todas
as coisas segundo aquilo que eles chamavam de “archè”, o que em grego significa
princípio e fundamento de tudo o que existe.

Em forma de síntese, Metafísica ou Ontologia é a investigação daquilo que


Aristóteles chamava de Primeira Filosofia, isto é, o exame do que realmente
faz essas coisas serem o que de fato elas são, o que nas palavras do filósofo era
o estudo do ser enquanto ser, isto é, investigação dos princípios fundamentais
que governam a realidade como um todo, seja na manifestação de sua diversidade
quanto na consideração de sua unidade.

Áreas, Objetos de Estudo e Problemas


Metafísicos
Áreas de concentração do estudo da Metafísica
A divisão mais tradicional da Metafísica a dispõe em três grandes áreas
do conhecimento: Teoria do conhecimento, Teodiceia e Ontologia (SANTOS,
1972, p. 279).
• Teoria do conhecimento é estudo dos fundamentos, possibilidades e limites
do conhecimento, incluindo as questões que envolvem validade e verdade,
fundamentação do método e a própria natureza do processo do conhecimento.
• Ontologia, como foi demonstrado no tópico anterior, é o estudo da realidade
sob o ponto de vista de sua totalidade, do ser enquanto ser; é a busca pelos
princípios e a essência de todos as coisas. Na verdade é sinônimo de Metafísica
no seu sentido mais exato e pleno.
• Teodiceia é o estudo que levanta as possibilidades da existência ou não de
um ou mais seres supremos, responsáveis ou não pela criação, natureza e a
dinâmica que rege as leis do universo. A palavra significa literalmente justiça de
Deus (Teos + Dikeia), pois supõe, do ponto de vista da Metafísica, a necessidade
que a razão tem de pensar justificativa(s) para a existência ou não do ser de
Deus. Diferente da teologia, a Teodiceia trata das questões que envolvem Deus
desde o ponto de vista da racionalidade humana, buscando abordagens que
deem conta das relações entre natureza, história, liberdade, destino e o lugar
de Deus em tudo isso. A teologia, por sua vez, é fundamentação da fé religiosa,
seu ponto de partida não é a exclusividade da razão humana, mas os princípios
de fé, religião, revelação e texto sagrado, além de outros elementos legados
pelas tradições míticas dos mais diversos grupos, povos e culturas.

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UNIDADE O Que é Metafísica?

Objetos de estudo da Metafísica


Os objetos de estudo da Metafísica abarcam os grandes temas da especulação
filosófica dispersos na divisão clássica tripartida (Teoria do Conhecimento, Ontologia e
Teodiceia) que acabamos de apresentar. Além dos objetos próprios implicados nessas
três grandes áreas, é preciso destacar a natureza em sua dimensão cosmológica e o
ser humano em sua complexa rede de relações existenciais. As relações entre Ser,
existir, conhecer e pensar, bem como a linguagem como condição e abertura ao
diálogo com o mundo também são objetos das indagações metafísicas.

Problemas Metafísicos
O que realmente são problemas metafísicos? Na verdade, quase todo problema
pode ser elevado ao patamar da reflexão metafísica. Neste sentido, o que identifica
um problema metafísico é o grau de sua complexidade, abrangência e capacidade
de evocar a noção de princípios, pressupostos e causas últimas que determinam
ou condicionam os fenômenos. Todo fenômeno é passível de reflexão metafísica.
Toda vez que se aborda uma realidade ou algum aspecto da realidade sob a ótica
de sua contextualização mais abrangente, de sua relação com o todo, na tentativa
de vislumbrar suas causas últimas, estamos no campo das especulações metafísicas.

Quando perguntamos pelas origens, significados, finalidades e os porquês das


coisas buscando ultrapassar os limites estreitos da descrição do que elas são no
sentido fenomênico, atingimos o interesse por uma explicação que pode extrapolar
o seu simples aparecer (phainoumenon) para nós. Neste momento, Metafísica
torna-se pensamento cujo sentido exato da palavra, (meta-physika), explora algo
que está para além do fenômeno, algo que pode estar dentro, encoberto ou fora
do objeto que se pensa.

Tome para reflexão o seguinte exemplo. Você está cansado e exausto. Acabou de
chegar do trabalho. Essa experiência simples e rotineira pode desencadear reflexão
metafísica se em determinado momento seu pensamento perseguir os porquês do
cansaço. Extrapolando a dor e o cansaço físicos imediatos que sente no momento,
você levanta inúmeros porquês. Por que sou prisioneiro dessa rotina? Por que o
trabalho me cansa tanto? Que lógica é essa que determina a dinâmica do trabalho
tão mal remunerado? Por que quem tem emprego trabalha tanto enquanto tanta
gente fica desempregada? Quem, quando, por que e a quem interessa essa forma
de organizar e dividir o trabalho em nossa sociedade? Veja que as perguntas se
sucedem e levam a um campo que ultrapassa o cansaço cotidiano sentido após
o trabalho. As questões levantadas desencadeiam aspectos de um universo bem
mais complexo da organização e divisão social do trabalho, buscando abarcar a
totalidade da vida humana desde os mais variados pontos de vista: econômico,
histórico, sociológico, cultural, político e ideológico. Estamos além do cansaço
em si mesmo e fora dele a reflexão manifesta-se como “meta-física”, isto é, como
busca que pretende fundamentar de modo abrangente e o mais universalmente
possível, o(s) significado(s) e a(s) razão(ões) de sua existência.

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Viu como tudo ou, pelo menos, quase tudo pode ser refletido sob a ótica da
Metafísica?

Sendo assim, podemos admitir a Metafísica como um jeito de pensar que visa
buscar os fundamentos não só do ser e existir das coisas, mas do próprio modo
de se pensar sobre elas. Pensar... e pensar sobre o que é o pensamento e qual é a
melhor forma para se pensar um objeto também é fazer Metafísica.

O problema metafísico pode ser definido então como aquele tipo de questão
que não se esgota com uma só resposta e não se demonstra apenas com provas
experimentais. Como provar, por exemplo, que há vida depois da morte? Posso
mostrar a morte quando se morre, quando um ser vivo entra em estado de
decomposição, mas não tenho como provar experimentalmente que continuo a
viver depois de minha morte. Posso acreditar nisso e torná-lo razoável pelo esforço
da reflexão metafísica. Bem, mas esse é um tema da religião você dirá. Sim, mas
não só da religião.

A possibilidade de vida depois da morte alimenta a esperança e a mente da


maior parte dos seres humanos. Só por isso já seria um tema da filosofia e como
problema humano, também da psicologia, do direito, da medicina e de tantas outras
áreas do conhecimento. Mas quando o tratamento dado à morte passa pela busca
de seu sentido, de seu por que ou para quê e se busca pensar se além dela há algo
mais, a morte se transforma em tema, objeto e problema da Metafísica.

O tratamento metafísico dado a qualquer tema não elimina outras abordagens.


A morte é um problema metafísico, mas continuará sendo igualmente objeto de
preocupação religiosa, científica ou mesmo de outras formas de conhecimento,
como do mito e da arte. O fato é que para fazer parte de um problema metafísico,
o tema ou objeto de reflexão precisa ser pensado segundo as categorias da
razoabilidade filosófica e da busca de sentido que ultrapassa os campos da
fundamentação limitadamente física e experimental.

Autores e Conceitos nas Origens da


Metafísica
A história da filosofia é marcada desde o início pela presença da Metafísica. Como
disciplina filosófica por excelência, é o impulso criativo das questões metafísicas
que faz nascer a filosofia. Dos pré-socráticos aos filósofos contemporâneos,
a investigação metafísica tem sido o “carro-chefe” da produção filosófica.
Mesmo quando outras disciplinas ganham relevância, como é o caso da teoria
do conhecimento ou da filosofia da linguagem em determinados momentos da
abordagem filosófica, o tratamento metafísico continua presente na forma de se
refletir e propor os temas, pois o horizonte da busca pelos princípios universais
e suas causas últimas permanecem dando o caráter metafísico a tudo o que se
investiga. Apenas como “aperitivo” metafísico, veja como alguns dos primeiros
filósofos fizeram Metafísica.

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UNIDADE O Que é Metafísica?

Metafísica nos filósofos Pré-socráticos


A história da filosofia antiga talvez tenha sido o período mais fértil da Metafísica.
Sem dúvida é o seu momento inaugural. A busca pela “arché” como princípio
fundador, comum, universal e originário presente em tudo o que existe é a atitude
que fez nascer historicamente a filosofia na Grécia Antiga. Essa atitude permanece
ainda hoje em qualquer postura que visa atualizar, ainda que seja sob a formulação
de novas perguntas, a mesma e antiga questão já feita por Tales de Mileto (623-
546 aC.), Anaximandro (610-547 aC.) ou Anaxímenes (588-524 aC.) e tantos
outros filósofos que não desistiram de pensar a unidade na dispersão dos seres:
qual é o princípio originário, causa primeira, fundadora e geradora (arché) de tudo
o que existe?

Filósofos como Parmênides (510-470 aC.) e Heráclito (por volta de 500 aC.)
deram contribuições que determinaram para sempre o rumo da Metafísica. Foram
eles os primeiros a utilizarem a linguagem do ser para expressar o que mais tarde
como sinônimo de Metafísica, mas ao mesmo tempo, colocando em destaque a
terminologia do ser, viria a se chamar Ontologia. O Ser e o Não-ser tornavam-se
realidades com pretensão máxima de universalização da realidade.

O Ser como substantivo que tudo definia e o Não-ser como sua negação, ausência,
uma espécie de “Nada” quase que “coisificado”, entenda bem, transformado em
coisa, em realidade presente. Pois esta era a questão. O que de fato existe? O “Ser”
em tudo e só, ou o “Nada”, isto é, o “Não-ser” também existe? Como qualificar
a ausência do Ser e essa experiência do movimento em que as coisas ora “são” e
existem e ora “não são” e desaparecem?

Parmênides preferiu defender a ideia de que só o “Ser” é e, portanto, existe. O


“Não-ser” é apenas uma ilusão dos sentidos e afirmá-lo é a razão de todos os erros
e enganos. Heráclito, por sua vez, abriu-se para acolher as duas realidades, “Ser”
e “Não-ser”. As duas existem, pois a realidade maior e causa predominante em
tudo é o que ele chamou de “Devir”, isto é, o movimento constante que faz o “Ser”
tender e conduzir-se ao “Não-ser” e o “Não-ser” tender ao “Ser”. O movimento que
transforma “Ser” em “Não-ser” e vice-versa é a realidade metafísica por excelência
segundo Heráclito. Desse modo Heráclito entendeu o mundo e a vida como um
todo num perpétuo movimento de coisas que se opõe: guerra e paz, fogo e água,
quente e frio, bom e mau, dia e noite etc.

Parmênides e Heráclito representam até hoje dois grandes pilares da


Metafísica. O primeiro é o modelo de todos os pensadores que defendem ideias
mais permanentes e estáticas da realidade, que preferem entender o movimento,
na melhor das hipóteses, como realidade secundária em relação ao Ser que é
realidade suprema propriamente dita, sempre imutável e perene. O segundo, ao
contrário, representa os filósofos de pensamento que adere ao movimento como
realidade suprema. Com Heráclito estão todos os pensadores que priorizam o
desenvolvimento perpétuo em tudo o que existe, classificando tudo como fugaz,
finito, relativo, exceto o próprio movimento ou devir constante das coisas.

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E você, o que acha de tudo isso? Prefere entender a vida e o mundo à luz da
metafísica de Parmênides ou de Heráclito? É o movimento a realidade perene
(Heráclito), ou é o “Ser” eterno e imutável sempre estático, a realidade suprema?

Metafísica em Sócrates e Platão.


A Metafísica desses dois grandes autores é de vasto conteúdo. Neste momento,
interessa apenas apontar para alguns pontos característicos da reflexão de cada
um deles de modo que você perceba o quanto eles influenciaram a produção do
pensamento que veio depois deles. Aristóteles (384-322aC) e sua Metafísica serão
objeto de análise na próxima unidade.

A Metafísica de Sócrates
O que sabemos do pensamento de Sócrates (469-399 aC.) nos foi transmitido
principalmente pelas obras de Platão. Sócrates nada escreveu. Porém, seu
pensamento buscou constantemente superar o relativismo do discurso de muitos
filósofos de seu tempo. Os sofistas representavam um tipo de filosofia que de
certa forma tornava o acesso à realidade e a verdade das coisas prisioneiras do
discurso e da vontade do sujeito. Achavam que se podia defender qualquer ideia
ou qualquer coisa se o discurso fosse bem pronunciado. Sócrates levanta-se contra
esse subjetivismo e relativismo do discurso.

Sofista é originalmente palavra que em grego designa “sábio”. Os sofistas com o tempo
Explor

tornaram-se filósofos que ficaram conhecidos pelo poder de argumentação e da habilidade


no discurso, capazes que eram de transmitir ou defender doutrinas divergentes e
contraditórias apenas com o jogo das palavras. A história da filosofia legou grandes filósofos
sofistas como Protágoras (480-410 aC.) e Górgias (487-380 aC.), mas eles, na maioria das
vezes, compartilhavam teses filosóficas com tendências ao relativismo filosófico.

Sua Metafísica é produto do esforço em construir critérios de conhecimento que


retirem da relatividade e do subjetivismo o saber sobre a realidade. Ao propor o
método da indução e do autoconhecimento na forma do imperativo “Conhece-te
a ti mesmo”, Sócrates transforma a filosofia em autocrítica dos conceitos comuns
e imediatos que se supõe ter sobre as coisas e, ao mesmo tempo coloca o ser
humano no centro da discussão filosófica. A noção do conceito assume um lugar
especial no conjunto do pensamento socrático:
No conceito, o essencial é constituído por um relacionamento racional que o
pensamento descobre entre os dados sensíveis, relacionamento que, devido
à sua natureza intelectual, escapa à instabilidade das coisas materiais. Os
homens, por exemplo, variam e se diferenciam infinitamente entre si, mas
o conceito de homem, enquanto expressa a própria essência do homem
em termos da espécie humana, é imutável. Os atos práticos e os valores
do indivíduo e dos indivíduos variam muito, mas o conceito do Bem, da
Justiça, da Virtude, do Belo, etc., não são suscetíveis de qualquer mudança.
Pensando as coisas a razão as tira da contingência (GILES, 1979, p. 44).

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UNIDADE O Que é Metafísica?

Indução é o método de investigação da realidade através do qual se busca conhecer


Explor

tomando como ponto de partida as realidades sensíveis e particulares para se chegar a


ideias e conceitos gerais e mais universais.

A partir de um processo de interrogação intenso que Sócrates chamava de


maiêutica, Sócrates retira seus interlocutores dos enganos habituais produzidos
pelo senso comum frequentemente dominado pelos preconceitos e opiniões
imediatistas sobre as coisas. Neste ponto, Sócrates elevou o pensamento ao
patamar da Metafísica, impedindo que as questões fossem resolvidas levando-se em
consideração apenas um ou outro aspecto da realidade. Antes de qualquer coisa,
propunha Sócrates, é preciso enfrentar a necessária crítica aos pressupostos dos
conceitos que usamos para acessar a realidade.

Palavra que traduz o ato da parteira que auxilia o nascimento de uma criança ao irromper
Explor

do útero materno.

A Metafísica de Platão
Descrever a metafísica de Platão (427-347 aC.), mesmo que seja apenas para
mostrar apenas alguns de seus principais conceitos, não é tarefa fácil. Nosso
intento é introduzir ao mundo fantástico do sistema platônico de compreensão da
realidade. Platão é desses autores que constroem não apenas alguns conceitos ou
propõem uma ou duas teorias sobre um ou outro aspecto da realidade. O que ele
propõe é um sistema completo de compreensão da totalidade do real. Por isso sua
filosofia é Metafísica no sentido mais exato do termo. Tudo o que se pode pensar
deve estar configurado no sistema que ele propõe.

O ponto de partida é a tensão não definitivamente resolvida entre Parmênides


e Heráclito. Afinal, quem estava certo? Parmênides que determinava o Ser como
realidade suprema e imutável, a única passível de ser apreendida pela inteligência,
ou Heráclito, com a ideia de que só a contradição entre Ser e Não-ser é a realidade
predominante?

Platão resolve a disputa e fica com Parmênides, mas entende as razões, no


seu entender, do erro de Heráclito. A solução está na existência de dois mundos
separados em que um é modelo ideal do outro. O mundo realmente perene,
inteligível e determinante de tudo o que existe é o mundo que Platão denomina como
sendo o das formas ideais. O outro é o mundo da matéria sensível mutável, presa à
corrupção do tempo e do movimento. O primeiro só é acessível ao conhecimento
filosófico capaz de superar os limites, imperfeições e enganos ocasionados pela
percepção de nossos sentidos, igualmente limitados e imperfeitos, uma vez que
estão submetidos ao mesmo campo da natureza material.

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Para Platão o mundo material acessível aos nossos sentidos é apenas cópia das
ideias, essas sim, inteligíveis, modelares e perenes. A filosofia em Platão tem o
papel de desvelar, ou seja, mostrar, tirar o véu que encobre o mundo real das ideias
ou das essências das coisas.

O livro da Filosofia (LANDAU, 2011, p. 52) apresenta o pensamento de Platão


segundo uma breve e simplificado esquema:

Figura 3

A ordem cósmica que separa mundo das ideias do mundo material afeta a
totalidade do real num sistema muito bem montado pela Metafísica de Platão. Suas
implicações estão presentes em qualquer aspecto que se destaque da realidade:
política, estética, ética, física e antropologia. Na antropologia platônica, o ser
humano também está marcado pelo dualismo metafísico “ideal x material” que se
traduz na oposição entre corpo e alma. O corpo representa a realidade mortal e
sensível, submetido à corrupção e à mutabilidade. No corpo, entretanto, encontra-
se prisioneira a alma, sua essência, forma eterna, imortal, a única que tem acesso
ao mundo das ideias inteligíveis e perenes.

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UNIDADE O Que é Metafísica?

Conclusão
Chegamos ao final do texto teórico desta Unidade e esperamos que a leitura
tenha ajudado você a se familiarizar com o que consideramos básico na terminologia
da Metafísica como disciplina da Filosofia. A intenção foi provocar um encontro
com alguns dos temas, problemas, autores e conceitos da Metafísica. Estamos
dando os primeiros passos... Evidentemente, como você notou, o estudo dos
Problemas Metafísicos vai exigir um distanciamento da linguagem mais usual, mas
com atenção e leitura pausada, aos poucos você vai agregando ao vocabulário
novas palavras e conceitos que serão ferramentas fundamentais para a sequência
das próximas unidades.

Com certeza, você verá que os Problemas Metafísicos, embora sejam complexos
e requeiram uma linguagem técnica mais especializada e um tanto quanto abstrata,
diz respeito a necessidades humanas muito concretas e que fazem parte do
nosso mundo cotidiano. O estudo de Problemas Metafísicos vai oferecer a você
a aquisição de uma linguagem diferente. Exige abstração, mas jamais ignora os
problemas concretos de nossa vida. É apenas uma forma filosófica própria de
aprofundar a compreensão da realidade até as suas últimas consequências.

Afinal, vivemos o dia a dia marcado por tensões nem sempre notadas, mas
atuantes entre ignorância e saber, ser e pensar, erros e acertos, opiniões e verdades,
mistérios e evidências.

Esperamos que a luz da Metafísica transforme cada uma dessas tensões numa
razão a mais para você saborear o encanto de viver novos horizontes, sobretudo
quando elas são convite que só atende quem está de espírito aberto para aprender...

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Vídeos
PENSI - Filosofia - Metafísica
Se você quiser rever os conceitos preliminares desenvolvidos nessa unidade a partir de
uma aula mais expositiva, sugiro a aula de 50’ no youtube do prof. Enio Lobo. Embora
ele já mencione filósofos que ainda não abordamos, vale a pena ouvir, pois reafirma e
amplia o que foi retratado no Texto Teórico de uma maneira clara e didática.
Disponível em: https://goo.gl/Ihlc3O

Filmes
Não deixe de assistir ou de rever os filmes “Matrix” e “A Origem” de olho nas citações
que foram feitas deles no Texto Teórico.
Matrix
1999, EUA, Direção: Lana Wachowski e Andy Wachowski.
A Origem
2010, EUA e Reino Unido, Direção: Christopher Nolan.

Leitura
Textos Básicos de Filosofia: dos Pré- socráticos a Wittgenstein
Leia o texto conhecido de Platão como “Alegoria ou mito da Caverna”. Capítulo VII,
514-517c da obra de Platão A República. Observe como a narrativa ilustra a metafísica
dos dois mundos em Platão e ao mesmo tempo mostra qual é a tarefa do filósofo diante
dessa realidade. Fique atento também para perceber como a linguagem e a postura do
filósofo se distancia, mas também se reaproxima do senso comum. Veja como se dá
a atitude do questionamento metafísico como exercício mais profundo de análise da
realidade que ultrapassa o olhar imediato das percepções de nossa sensibilidade.
A Alegoria da caverna: A República, 514a-517c, tradução de Lucy Magalhães. In:
MARCONDES, Danilo. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000
Disponível em: http://www.usp.br/nce/wcp/arq/textos/203.pdf
Os pensadores: Descartes
Observe a presença de um “espírito enganador” que foi citado no Texto Teórico. Do francês
pode se ler mais exatamente “gênio malévolo”. Descartes usa a existência de um ser como
esse como uma de suas hipóteses para radicalizar a dúvida (metódica) sobre as coisas. Seu
intuito não é apenas duvidar de tudo ou duvidar por duvidar (por isso é dúvida metódica), mas
buscar um ponto que seja indubitável e que possa ser garantido por seu próprio esforço inte-
lectual, feito na autonomia e liberdade da razão, do sujeito, ser humano, como ser pensante
e racional. Veja que essa é a primeira meditação metafísica de Descartes, a que começa com
o exaustivo método de duvidar de tudo no esforço de encontrar uma verdade que não seja
mais passível de dúvida. Essa é a verdadeira atitude do espírito da Metafísica.
DESCARTES, René. Meditações. In: CIVITA, Victor (Org.). Tradução de J. Guinsburg
e Bento Prado Jr. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
Disponível em: http://www.martinsfontespaulista.com.br/anexos/produtos/capitulos/647625.pdf

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UNIDADE O Que é Metafísica?

Referências
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática. 1994. 441p.

BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao Pensar. O Ser, o Conhecimento, a


Linguagem. 30. ed. Petrópolis: 2003. 260p.

DUARTE JR., João Francisco. O que é realidade. 2.ed. São Paulo: Brasiliense,
1985. 103p.

GILES, Thomas Ransom. Introdução à Filosofia. 2. ed. EPU, Ed. Da Universidade


de São Paulo: São Paulo, 1979. 324p.

GUSDORF, Georges. Tratado de Metafísica. Tradução de Antonio Pinto de


Carvalho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1960. 557p.

HEIDEGGER, Martin. Introdução à Metafísica. Tradução de Emmanuel Carneiro


Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966. 295p.

LANDAU, Cecile; SZUDEK, Andrew; TOMLEY, Sarah (Editores). O livro da


filosofía. Tradução de Douglas Kim. São Paulo: Globo, 2011. 352p.

MOLINARO, Aniceto. Metafísica. Curso sistemático. Tradução de João Paixão


Netto. São Paulo: Paulus, 2002.

MONDIN, Battista. Introdução à Filosofia. Problemas, sistemas, autores, obras.


São Paulo: Paulinas, 1980. 272p.

SANTOS, Theobaldo Miranda. Manual de Filosofia. Introdução. Filosofia Geral.


História da Filosofia. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Companhia Editora
Nacional. 17.ed. 1972. 524p.

UFCG – Universidade Federal de Campo Grande. Disponível em http://www.dec.


ufcg.edu.br/biografias/AndrRode.html Acesso em 11/07/2015.

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